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ARTIGOS DE OPINIÃO

A arte, a literatura, em especial, enquanto culto da palavra e das linguagens, é um dos palcos, por excelência, privilegiado pela humanidade na busca interminável de respostas ou do aprofundamento das questões sempre movediças e desconcertantes inerentes à identidade e à existência.

In Além do túnel, de Francisco Noa.

 

No dia 16 deste mês de Junho, os membros do júri da primeira edição do Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil (Alberto da Barca, Angelina Neves e Marcelo Panguana) revelaram aos leitores por que deliberaram a favor do livro Os pintores de sonhos, de Carlos dos Santos. Entre os vários argumentos, constam os seguintes:

Mensagem bonita, importante e muito actual, dada de uma forma muito didáctica e animada e o conto funciona como base de aprendizagem na preservação do ambiente. A história é cativante, desperta a curiosidade, lidou bem com o mistério, a imprevisibilidade, e o ritmo cria suspense em cada página. O livro está escrito de forma clara, e é interessante a ideia do sublinhar de algumas palavras e haver um dicionário no fim do livro. As ilustrações, singelas, apoiam bem o texto.

Até ao pronunciamento acima, eu não havia lido Os pintores de sonhos, de Carlos dos Santos, embora tenha o livro desde 9 de Outubro de 2021, portanto, há aproximadamente dois anos. Então, logo a seguir ao anúncio do primeiro vencedor do prémio instituído pela Kulemba (associação que há anos tem feito, de facto, do activismo um factor de consciencialização das crianças, dos adolescentes e dos jovens), fui retirar da minha prateleira de livros esses pintores de sonhos e pus-me a lê-los, expectante porque entre os cinco finalistas do concurso encontrava-se Lamura, de Suzy Bila, outro belíssimo livro: https://opais.co.mz/lamura-o-possivel-universo-da-liberdade/.

A leitura do infanto-juvenil de Carlos dos Santos deve ter durado, com algumas interrupções, 90 minutos. A ideia inicial nem era de ler para escrever este texto, até porque o fim-de-semana longo fez-me prometer dar mais abraços à minha mulher e jogar sei lá quantas partidas de xadrez com o nosso campeão de 5 anos de idade lá de casa. Entretanto, no intervalo entre a promessa e a ansiedade, lá inventei um argumento qualquer e, como levo muito jeito nestas coisas de matrecar a minha família, coitada, comecei a ler Os pintores de sonhos, com a excepção de algumas páginas, livro bem ilustrado por Rajau de Carvalho.

Logo no princípio da leitura, primeiras três de um total de 72 páginas, percebi o vigor de uma história muito bem contada. Do ponto de vista do discurso, irrepreensível. Realmente, Carlos dos Santos é dos autores moçambicanos que melhor trabalha a densidade semântica e da mensagem que pretende transmitir nas suas histórias. Por exemplo, quando se lê os seus infanto-juvenis, O caçador de ossos (2013), Os pastores de letras (2016), Na esteira das estrelas (2018), ou a sua ficção científica, A quinta dimensão (2006), O pastor de ondas (2011), O eco das sombras (2016) e Histórias do outro mundo (2021), facilmente se capta na conjugação verbal, e no que daí advém, um autor competente na escrita de uma história consequente. Muitas vezes, incluindo na sua narrativa conhecimentos científicos que são novidades para muitos de nós.

Ler Carlos dos Santos é uma verdadeira aprendizagem, pouco importa se se trata de infanto-juvenil ou ficção científica. O escritor, em cada publicação, consegue erguer algo novo num substracto literário particular e que ao seu nível ainda não há igual em Moçambique. Dito de outro modo, até para dissipar eventuais enganos, quando se trata de literatura inerente à ficção especulativa, Carlos dos Santos é a maior referência que temos, e, nos infantis, também se encontra na linha da frente. Além disso, num país em que se vão revelando egos estranhos no universo literário, muitas vezes a tentarmos manchar as boas iniciativas dos outros, ao invés de nos aliarmos, Carlos dos Santos é uma voz que precisamos ouvir com muita atenção, pois, na sua discrição, concilia a inteligência e a assertividade do seu pensamento. Aliado a isso, claro está, acresce-se a arte literária que carrega nas veias, afinal, filho de escritor, no caso, escritor é.

No outro dia, um amigo disse-me o seguinte: “Há prémios que dão credibilidade aos livros, mas também há livros que dão autenticidade aos prémios”. A ser verdade, neste contexto, encontramo-nos diante de uma situação em que o Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil e Os pintores de sonhos se beneficiam reciprocamente. Para uma primeira edição do concurso, que uns e outros olharam de soslaio, com alguma desconfiança ou desprezo até, talvez por ser da Beira e não da capital, que essas mesquinhices ainda existem entre nós, o Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil cumpriu essa sugestiva tarefa de reconhecer as produções para os mais novos. Assim, se for consensual que é de pequeno que se torce o pepino, poderemos ter, nos próximos anos, mais investimentos em literatura para crianças, quer dos autores e editores, quer dos leitores e pais/encarregados de educação. Afinal, conforme propõe Francisco Noa, a arte literária, “enquanto culto da palavra e das linguagens, é um dos palcos, por excelência, privilegiado pela humanidade na busca interminável de respostas ou do aprofundamento das questões sempre movediças e desconcertantes inerentes à identidade e à existência”.

Só por corresponder a esse pensamento de Noa, Os pintores de sonhos merece ser lido, distribuído nas escolas, comentado e, obviamente, ser premiado. É um livro excepcional, no qual a narratividade conquista o leitor desde o princípio, com dinâmica, suspense, mistério e intensidade.

A história do conto de Carlos dos Santos é sobre dois irmãos, o Zua e a Mwedzi. Através deles, a história põe-nos a pensar sobre as consequências nefastas do abate indiscriminado de árvores, em Moçambique, em África e no mundo. O tema principal do livro é grave, mas o que se destaca mais é o cuidado da narração. Cada palavra conta e foi escolhida por alguma razão. Nada é dito ou introduzido por acaso. Logo, a trama facilmente conduz a imaginação a uma aldeia onde os dois protagonistas e o cão Musodzi descobrem uma misteriosa caixa enterrada.

Na verdade, há aqui duas histórias que desaguam na mesma foz: a história da caixa misteriosa e a história das calamidades naturais causadas pelo Homem. Na segunda variável, o conto personifica a dor por que passam os moçambicanos mais vulneráveis às tempestades ou aos ciclones tropicais. É um conto sobre o horror e a esperança, a cumplicidade e amizade de dois irmãos, sobre a ideia de que, para ser culpado, não é necessário que sejamos descobertos. Nas nossas acções, antes dos outros, a nossa consciência é que nos deve vigiar e guiar. Vejamos o seguinte desabafo de Zua para com os seus botões num momento em que a personagem acredita ter causado uma tempestade ao desenterrar uma caixa misteriosa:

“Felizmente, ninguém me viu a desenterrar a caixa, por isso, ninguém me irá culpar” – pensou o Zua, a tentar confortar-se a si mesmo. Mas sem sucesso. Culpa é culpa, quer alguém saiba, quer não. E quanto mais escondida for, maior ela se torna (p. 19).

Se os nossos políticos e gestores da coisa pública lessem livros ou passagens como essas, talvez, 48 anos depois, não culparíamos o colonialismo, a guerra dos 16 anos, as calamidades naturais e sanitárias por sermos tão empobrecidos. Pois, o sentimento prévio de culpa sempre concorreria para uma sábia e responsável tomada de decisão. Ou seja, é preciso eliminarmos esse pensamento de que os culpados são sempre os outros ou os fenómenos à nossa volta, e nós somos vítimas; é necessário desconstruirmos o pensamento de que só somos culpados quando apanhados em flagrante delito. O sentimento de culpa tem de estar permanentemente em nós de modo a não sermos sujeitos culpados das nossas e das desgraças dos outros. Mas não tratemos do impossível. Não hoje, um dia depois à fraquíssima comemoração dos nossos 48 anos de independência. Só uma deposição de flores na Praça dos Heróis é coisa pouca. Até por que já dizia White: “Quando a morte me chegar, não me dêem flores e nem discursos para moldar”. Mas nós teimamos em só oferecer flores aos mortos, quando os podemos eternizar numa verdadeira celebração: com artes, desporto, olimpíadas académicas e visitas guiadas a museus como da Revolução, que agora só existe no último romance de João Paulo Borges Coelho. Como moçambicano, sinto-me triste pela maneira como celebramos a nossa independência. Tenho um familiar morto enquanto lutava por Moçambique, em 1966, e acho que as suas acções e a de tantos outros bravos libertadores da pátria podiam ser honradas, tornando o 25 de Junho um dia especial para todos.

À parte o desabafo, em Os pintores de sonhos, Carlos dos Santos demonstra ser um bom observador dos comportamentos, dos diálogos, das relações, dos afectos e dos receios das crianças. Deve ser por isso que o seu narrador omnisciente tem o domínio sobre os eventos por si revelados, inclusivamente, os que se passam quando Zua e Mwedzi estão a sonhar. Até nisso o livro é oportuno para aprendermos a observar como as nossas crianças dormem, porque na maneira como elas sonham também se revelam, por exemplo, pavores da sua vida acordada.

Um dos momentos bonitos do infanto-juvenil encontra-se na página 30, quando o narrador introduz uma nova personagem: Ranguisse. Trata-se de um menino que se locomove através de um carinho de rodas. Este tipo de representatividade não é comum nos nossos contos para crianças e até nos nossos romances. Também por isso, Carlos dos Santos perdeu uma oportunidade de dar mais vida àquela personagem. Por exemplo, Ranguisse poderia ter tido espaço privilegiado para aparecer numa certa aula na escola, na qual o jogo da argumentação no debate entre os alunos é algo absolutamente contagiante. Sem isso, a sua passagem é efémera quando se revela muito necessária para pensarmos na condição das “crianças portadoras de deficiência”.

Outra passagem interessante é protagonizada pela professora primária, num contexto de aula em que os seus alunos, mesmo diante de boas ideias partilhadas por Zua e Mwedzi, tentam desvaloriza-las:

Quando vocês depararem com uma ideia que achem boa, talvez mesmo melhor do que a que vocês próprios tenham tido, não tenham vergonha de a aceitarem e a apoiarem. Porque nós não estamos a discutir uns contra os outros, estamos todos, juntos, a discutir contra os problemas. À procura daquela que for melhor ideia. E as ideias não têm dono. Quando acharem que uma ideia é boa, não lutem contra ela. Adoptem-na e melhorem-na. Vão ver que, depois, a ideia final, tem um bocadinho de cada um de vós (p. 43).

Se os deputados lessem livros e esse tipo de excerto, certamente, não só valorizariam a ideia da outra bancada nas unânimes discussões sobre os seus salários.

Enfim, apropriando-me de Roland Barthes, o que eu mais aprecio em Os pintores de sonhos, de Carlos dos Santos, não é directamente o seu conteúdo nem mesmo a sua estrutura, mas sim a coerência e a densidade de um enredo que nos confronta com as nossas imperfeições, ora atacando problemas, ora apresentando soluções para um mundo livre, já agora, de uma iminente implosão catastrófica.

 

Título: Os pintores de sonhos

Autor: Carlos dos Santos

Editora: Alcance

Classificação: 17

 

 

Para enxugar as nódoas dos meus olhos, colectânea de poemas de Énia Lipanga tem 48 poemas divididos em três cadernos, nomeadamente: “Não amanhece enquanto canto”, “Para enxugar as nódoas dos meus olhos” e “Elo”.

A imprensa e as redes sociais deram mais ênfase ao segundo caderno. Deve ser por se tratar do que dá título ao livro, ou o que mais vende, não sei, mas dos três cadernos, o mais desafiador, para mim, por ser composto por imensas imagens estéticas e mensagens polissémicas foi o primeiro.

Não digo que esse seja o melhor, porque existem poemas que não seguem a modelos estético-simbólicos pré-estabelecidos sobre o que é que um poema deve ser, mas que são belos poemas para se ler e despertam emoções ou sensações. São líricos. Através da poesia lírica podemos não só cantar amores, mas também fazer crítica social. Um grande exemplo de um poeta lírico que fazia crítica social, em Moçambique, é Eduardo White. O que devo dizer é que, no seu todo, a obra de Énia Lipanga cumpre com a sua função estética e com a sua função social, enquanto objecto literário.

Esta mulher é conhecida pela sua dedicação à causa da arte, destacando-se como contestatária, através do rap, num grupo que se designa “Revolução Feminina” e pelo seu activismo na área da inclusão social. Resulta das várias actividades em que se integrou, na área do activismo para a inclusão, a publicação da sua obra Sonolência e alguns rabiscos (2019), que é o primeiro em Moçambique à tinta e em braille. E não é à toa que a Hamasa Magazine, um periódico tanzaniano a considerou das dez mulheres mais inspiradoras de Moçambique. Énia preocupa-se com a subalternidade da Mulher. Luta pela sua liberdade e faz tudo, através da arte, para espantar as muitas tristezas que assolam a Mulher.

 

Para enxugar as nódoas dos meus olhos

Os poemas de Énia Lipanga, podem ser analisados a partir das teorias de Viktor Chklovsky, escritor e crítico literário – que escreveu sobre a estética do Estranhamento; Hannan Arendt, filósofa que aborda a “Condição humana” e D’Onofrio (1995), teórico que fala sobre a poesia lírica.

A estética do Estranhamento é proeminente no primeiro caderno de Para enxugar as nódoas dos meus olhos, por, através dela, Énia Lipanga, ter obscurecido a compreensão de determinados objectos e fenómenos, tendo-os ainda desfamiliarizado relativamente ao que sabemos ser comum acerca deles. Sobre essa técnica inerente à poesia, Chklovsky afirma que:

A finalidade da arte é dar uma sensação do objecto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo de singularização [ostraneine] dos objectos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objecto, aquilo que já se ”tornou” não interessa mais a arte Chklvsky (1971: 82):

O poema que segue, da obra em apresentação, é dos que melhor espelha o processo de singularização. Aparentemente, todos conhecemos a chuva, suas características e seus efeitos, mas na obra de Énia, ela ganha outros contornos. É um poema muito bem elaborado, do ponto de vista da sua construção estética:

“Chuva”

As janelas estão acesas / Inspiras a barba molhada / Bebes as rosas que flutuam no ar / Em cada gota íntima / A presença é amada no tacto / Mas há um guarda-chuva na tua vida. Lipanga (2021:18).

Este poema pode sugerir, através do seu título a ideia de um fenómeno meteorológico. Entretanto, as imagens que apresenta, podem sugerir, entre outras coisas, um acto de amor, embora haja ausência de um corpo físico concreto. Há, ainda, a separação de corpos por um objecto, que tanto pode ser um guarda-chuva, tal como o texto refere ou pode ser um preservativo masculino ou feminino. São as imagens que se podem desenhar, enquanto se lê o poema. Ele está construído de tal forma que não se reconhece imediatamente o evento realizado. É a tal ideia de prolongamento da percepção do objecto, a que Chklovsky faz referência.

Ainda no grupo de poemas desse caderno quero destacar uma maneira canónica de fazer poesia, que pode ser colocada na óptica do exemplo anterior. Refiro-me à utilização de figuras de estilo ou de linguagem, nomeadamente, a metáfora em: “Sou o meu quarto” […] Lipanga (op.cit.:17) e “As janelas estão acesas”; a personificação em: “Os olhos de zinco”. (ibidem) e o paradoxo em “Há um brilho negro aceso” (ibidem:19); entre outras figuras.

A obra de Énia Lipanga aborda a condição humana. Explicada por Hannan Arendt (2007) como o conjunto de três aspecto: labor, trabalho e acção, sendo que o labor é o que a espécie humana realiza para sobreviver. O trabalho, o processo de transformação realizado pelo homem, por imposição do contexto social – não é intrínseco ao homem e acção, o que o homem realiza, para se integrar socialmente com os outros.

Relativamente à condição humana, o que constato, ao ler a obra de Énia Lipanga, é que a escrita da autora em si seria esse trabalho de transformação de uma matéria para sobreviver ou seja, transformação de emoções em poesia escrita, o que se reflecte no sujeito poético criado, que se impõe um modo de sobrevivência, para a sua integração numa suposta sociedade. Ou seja: há para sobreviver a determinada intempérie, a autora escreve. A escrita é um processo de transformação de emoções em papel, em algo material. E isso é aferível, a partir das manifestações do sujeito poético que fala nos poemas, por exemplo, no poema intitulado “[Eu não me teria cansado]”:

Eu não me teria cansado / Se não fosse ter o mundo sobre a espinha dorsal / Vomitei tempestades em manhãs de inverno // Pareço o mar, acumulo ondas nas pálpebras / Carrego o céu e banho-me no seu cinzento / Inundo sonhos – estourei // Os deuses também se cansam. Lipanga (op. cit.:31).

Há, também, na poesia de Énia Lipanga muita subjectividade, típica da poesia lírica, que segundo D’Onofrio (1995:1) expressa sentimentos, emoções, recordações ou previsões de futuro.

Esse sujeito poético na poesia de Lipanga, cansa-se, mas não estoura, não sucumbe. Pois, deixa réstias de esperança e isotopias de luz a iluminar novos caminhos, tal como se pode ler no poema intitulado “Recomeço”: “Dois passos desequilibrados / Não há bengala para apoio / As palmas têm o ar / O destino solto nos dedos / Um puxão // Repetes enquanto reaprendes.” Lipanga (op. cit.:56).

Deixa esperança no futuro, o que me remeteu à leitura do Apocalipse, 21:4, a saber: “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou que se vislumbra a partir de pacto”. Isso pode ler-se no poema que leva o título de “Promessas” e diz: “Montanhas de incertezas / Degraus e sonhos / Volumosos anseios / Bebo dos teus beijos / Certezas de futuro / Fé permanente / Um amor presente / Amanhã.” Lipanga (op. cit.:58). Ou o outro poema, intitulado “Máscara”: “Vestida de repetida alegria / (O sorriso é uma pétala agrilhoada) / Estufas o peito e ergues a cabeça / Para encarara tua morte diária // O caminho é de feridas e sangue / E agora, mulher, és dor ou és / Amor? / Morres com um arco-íris no teu rosto”. Lipanga (op.cit.:55).

Não tenho como confirmar o que li pelos média, o facto de Para enxugar as nódoas dos meus olhos ser uma obra autobiográfica. Pelo que posso conferir, através da leitura desse livro, julgo tratar-se de uma obra que aborda a estética de sí, na qual o sujeito poético pode ser a própria autora ou um outro sujeito diferente dela. Chamam-se a esse tipo de escrita, em Filosofia baseada em Foucault, de cuidado de si, que integra aquilo que o autor do texto leu, viveu ouviu ou sentiu e regista; o que em última instância integra o seu eu e o eu dos outros, reflectindo-os num registo.

Em Lipanga (2021) lemos sentimentos ou estados d´alma comuns aos seres humanos. O salto que a autora faz é de os registar poeticamente. E a poesia, para além de cumprir a função estética que enunciei no início do presente texto, tem a função de registar o que é de âmbito social, no caso do que passo a apresentar, estados d´alma atormentados ou inquietados pelo amor, que parecem impossíveis de superar. Mas é preciso recordar que a autora deixa, no que enunciei antes, sempre uma possibilidade de se superar ou de se fazer um recomeço.

“Sou o meu quarto / […] E as janelas que não dormem / […] Vaza a incerteza do amanhecer / […] Os olhos do zinco.” Lipanga (2021:17); “[…] A presença é amada no tacto / mas há um guarda-chuva na tua vida.” (ibidem: 18); “[…] Nunca chove / Há um brilho negro acesso nos meus olhos.” (ibidem:19); “[…]Não existes / Resides em ninguém / E nos meus olhos e em meus dedos.”  (ibidem:34); “[…] Sorrio / Não de susto, / já não me surpreende / Encontrar-te em todos os caminhos.” (ibidem:35); […] “Dividimos a mesma sela de pecados e remorsos / Eu suplico: não tortures o amor,” (ibidem:37); “[…] Sou gata perdida farejando / Restos do seu dono.” (ibidem:65).

Para além da fruição estética do texto em si, o que aprendi da obra de Énia Lipanga é que a escrita pode ser libertadora. Lipanga mostrou que a poesia é um devir.

Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

Não são os prémios que dão valor aos livros.

São os livros que dão valor aos prémios.

Venho pensando neste exercício de apresentação de livros e do alcance que devemos dar a ele. Olho para mim nesta actividade e não sinto mais nada senão a responsabilidade. Quando recebo um convite desta natureza pairam em mim algumas perguntas: Quem eu sou? De quem é o livro? Quem serão as pessoas que me irão escutar? E por que razão o livro deve ser apresentado? Sinceramente (e por agora), só tenho respostas para a primeira e a última (quem eu sou e o por que razão o livro deve ser apresentado?)

Quanto a esta primeira pergunta, apenas sei que não sou um influencer com poder de vos fazer comprar o livro à força, como quem diz “se ele falou tão bem do livro, deve ser bom”. Não, não sou…felizmente! Imaginem se eu fosse uma dessas entidades com o nome já firmado no âmbito académico, cultural ou político. Estaria aqui numa espécie de saia justa. Teria de escolher entre falar bem do livro, com o risco de comprometer a minha imagem se o livro for mau; ou ter de ser sincero relativamente aos aspectos negativos do livro para salvaguardar a minha honra, e ser tomado como incoerente tanto pela editora, quanto pela autora, pela natureza desta actividade. Mais adiante retomamos o sentido desta incoerência a que me refiro.

Cabe, também, acrescer o facto de estar, pela primeira vez, a interagir com a autora do livro, o que me salva da acusação de amiguismo sobre qualquer aspecto a que eu vá fazer menção sobre o livro.

Ora, todos estes elementos colocam-me diante de uma neutralidade que me permite falar deste livro sem amarras e com a responsabilidade focada pura e simplesmente ao acto de apresentação do livro que, em si, invoca a aludida coerência entre o que o livro é e os motivos pelos quais deva ser objecto de consumo. Respondendo à segunda pergunta (por que o livro deve ser apresentado?), vejo este exercício na dimensão publicitária e, sobretudo, crítica. É um exercício que vai permitir que os senhores aqui sentados comprem o livro, certos do que poderão encontrar nele; para os que não poderão comprar hoje, servirá de amostra do quão grande será a sua perda; para os que já leram (editor, revisor, autor, etc.) será uma oportunidade para revisitarem as leituras que fizeram dele e criarmos, assim, algum espaço de discussão e aprendizagem.

Enquanto percorria as páginas deste diamantes pretos no meio de cristais, eu dizia cá para mim: este livro é único. Digo, contudo, que foi inevitável não pensar em Neighbours, de Lília Momplé, um belíssimo romance em que esta emblemática figura da literatura moçambicana cria um enredo que se desenrola em três blocos narrativos cuja interseção é a ocorrência de um crime que envolve três famílias vizinhas.

À semelhança desta narrativa, diamantes pretos no meio de cristais apresenta-nos três universos de narração distintos e independentes cujo fio condutor não se estabelece no enredo propriamente dito, mas na reflexão a que nos remete que se prende com a atemporalidade da luta pela igualdade de direitos diante das diferenças raciais e de doenças pandémicas. Portanto, o racismo (de brancos para negros, sobretudo) e a discriminação de pessoas com HIV/SIDA quando não se tinha muita informação sobre esta doença, são o mote que sustenta o enredo deste romance.

Nos últimos 20 anos da literatura moçambicana, há um sentimento muito acentuado de abandonar os clichês do que se possa considerar, efectivamente, literatura moçambicana, seja do ponto de vista de temáticas, de espaços e tempos da narração, da estrutura narrativa e, finalmente, da construção linguística do livro. A forma como estes elementos são abordados em diamantes pretos no meio de cristais é o que constitui a unicidade deste livro no nosso meio e dá à Maya Ângela alguma autoridade para se assumir como “escritora” pura e simplesmente, sem nenhum qualificador que, na essência, é um clichê redutor.

O trama do livro desenrola-se, principalmente, em três espaços diferentes: Kansas (Estados Unidos da América), Cidade do Cabo (África do Sul) e Cidade de Maputo (Moçambique). Do ponto de vista temporal, as acções que ocorrem em Kansas iniciam em Agosto de 1856 e se enceram em Dezembro do mesmo ano. As da Cidade do Cabo ocorrem no intervalo entre Fevereiro a Setembro de 1961 e as da Cidade de Maputo, respectivamente, começam em Junho de 2001 e terminam em Outubro do mesmo ano. Relativamente à aludida estruturação destes enredos, diga-se que obedecem blocos estruturais que se permutam e se mantêm independentes do início ao fim, salvo o facto de a reflexão a que nos remetem ser a mesma conforme disse acima.

Diante deste aspecto peculiar na construção do romance, valerá, sobremaneira, a atenção do leitor para manter o fio condutor destes universos temporais e espaciais bastante diversos e que nos remetem a um aspecto não muito comum na construção narrativa a que já estamos acostumados. Refiro-me à coabitação de cerca de cinco línguas, entre as quais podemos destacar: Português, Inglês, Xirhonga, IsiXhosa, Afrikaans, entre outras. O que chama atenção neste exercício é a busca de verosimilhança do enredo através da atribuição de falas das personagens nas línguas em que as mesmas são fluentes em função das suas características sócio-identitárias, pelo menos é o que se pode inferir deste esforço de dar vida às letras através da mistura de códigos, linguagens e linguajares.

Este exercício curioso e particular relativamente às categorias do acto de narrar faz com que rebusquemos bases teóricas que possam sustentar as escolhas estéticas que foram feitas em “diamantes pretos no meio de cristais”.

Resumidamente, considere-se que muitos autores apontam o século XIX como o período em que o romance atinge o apogeu do ponto de vista de produção e consumo. Portanto, a popularidade de que o romance se beneficia nos dias de hoje é uma novidade dos últimos duzentos anos. Isso não significa que ele tenha surgido exactamente neste período. A questão da origem/surgimento é uma outra conversa, porque desde os tempos antigos o ser humano teve sempre este hábito de reflectir sobre grandes temas, personalidades, ideias e valores.

Um dos géneros a que se recorria nesse tentame, pelo menos no que à narrativa diz respeito, era a epopeia: forma textual que teve especial incidência na Antiguidade e no Renascimento. Com a ascensão de sociedades burguesas, o romance passou, também, a conhecer os seus dias de glória, abandonando, em certa medida, a afirmação de projectos nacionalistas excepcionais, a competição dos deuses com os homens e a representação do destino colectivo de comunidades de alcance nacional. Todos estes aspectos deixam de ter primazia com a entrada em cena de personagens antes tidas como pacatas, triviais, mas não menos importantes para o entendimento de sociedades actuais ou antigas, suas dinâmicas políticas, sociais e até quotidianas.

É por esta razão que neste romance nos são apresentadas três personagens pacatas do ponto de vista de origem social, mas que desencadeiam reflexões existencialistas de grande vulto. Talvez venha daí o título que o livro recebe: diamantes pretos no meio de cristais. A Juno Beomunt, a Anna e a Elvira Guambe são, indubitavelmente, os diamantes pretos deste livro.

Juno Beomunt: uma escrava, negra, que fora adoptada como filha por um casal no Norte dos Estados Unidos da América, cresceu como tal e com direito à edução a que não tinham acesso as outras pessoas iguais a si. Cresce nutrida de ideias de abolição da escravatura por, ela própria, ser a amostra de que a descriminação das pessoas com base na cor da pele é uma construção social que nada tem a ver com um “projecto divino” como inescrupulosamente se tentava defender. Somos todos iguais, temos os mesmos direitos – é assim que vê o mundo: o seu e o dos outros.

Anna: uma empregada doméstiga, negra, que trabalha para a família Dawnson em Cape Town, um casal de brancos, com dois filhos (uma menina e um menino recém-nascido). Sente na pele as mazelas do apartheid e as regras discriminatórias que vigoravam em torno deste sistema. Convive com a família Dawnson no contexto familiar, debate-se com os seus dramas conjugais e vivencia a pequenez de um racismo estrutural que, felizmente, não comanda o sentimento das crianças do casal pelas quais tem imenso carinho, ao ponto de amamentar o bebé recém-nascido da sua patroa por esta se negar a atender aos choros da criança em virtude de estar a cuidar das unhas.

Elvira Guambe: uma jovem que muito cedo concebeu, foi ao lar, perdeu o filho, ficou viúva, descobre que era seropositiva numa altura em que tal condição constituía um tabu social e, por via disso, é expulsa de casa pelo pai. É acolhida em casa de um amigo, passa a trabalhar nas lojas da cidade de Maputo, desfaz-se da casa do amigo por achar que precisasse de cuidar do seu destino de forma autónoma. Segue o tratamento anti-retroviral em segredo e não partilha a sua condição de saúde nem com a própria sombra. Por influência de amigas, torna-se prostituta, passa a não seguir as recomendações médicas. O seu estado de saúde piora e, enfim, desfalece.

O drama destas três mulheres, quais diamantes pretos no meio de cristais, deixa o leitor em transe relativamente a diversas questões que constituem o nosso universo histórico e existencial não só como africanos, mas como humanos na dimensão mais ampla possível para compreender a vida presente como consequência de um passado que, embora nos pareça alheio, faz parte de uma teia diacrónica com a qual devemos saber conviver para melhor contribuirmos rumo a um mundo cada vez mais humano. Tomando como minhas as palavras de José Saramago durante uma entrevista no programa Roda Viva (em 2003), diria: o recorte histórico a que Maya Ângela recorre neste romance prova que “contrariamente ao que se pensa, não é o passado que nos ajuda a entender o presente, mas o presente que nos ajuda a entender o passado”. Este é o maior valor deste livro. Vem daí, portanto, o sentido das palavras que servem de epígrafe deste texto: não são os prémios que dão valor aos livros. São os livros que dão valor aos prémios.

 

 

[1] Texto de apresentação do livro diamantes pretos no meio de cristais da autoria de Maya Ângela Macuácua, chancela pela Fundação Fernando Leite Couto, no Salão Nobre do Conselho Municipal da Cidade de Xai-Xai, a 20 de Junho de 2023.

Caderno de Música Moçambicana: êxodo musical, sim! é um livro organizado por Cremildo Bahule e contém um artigo seu. Tem, ainda, textos de Jessemusse Cacinda; Inocêncio Albino; Elcídio Bila; Belmiro Adamugy; Lenna Bahule; Sérgio Jeremias Langa; Sara Jona Laisse; Timóteo Cuche; Siovana Novela; Rufus Maculuve; Katharina Döring, José dos Remédios e um prefácio de Maria Paula Meneses. É uma obra que aborda a música de Zena Bacar; Melvin Humbane; Neco Novellas; Lenna Bahule; Isabel Novella; Cândido Xerinda (com Cecília H.-Xerinda); Amável Pinto; Nilsa Mosele; Albino Mbié; Selma Uamusse; Childo Tomás e Jaco Maria. A essa publicação, anexa-se um disco com músicas de alguns desses artistas. A edição é recente e o lançamento foi realizado em Maputo.

Por ser um país que vive em consonância com outras dinâmicas políticas e socio-culturais, Moçambique propicia dois tipos de diásporas: as externas, de moçambicanos no estrangeiro e as internas, de moçambicanos fora dos seus lugares de origem, resultantes, sobretudo da realidade multicultural e multilíngue do país. Neste texto falarei, muito brevemente, sobre ambas.

O Caderno de Música Moçambicana: êxodo musical, sim! é o resultado de uma apologia a diferentes trânsitos culturais, especialmente musicais. E parecendo mau, não é, porque, “sair de casa” e mostar a nossa cultura fora do país ou fora do lugar de origem é uma forma de partilharmos a nossa identidade cultural; reforçando, junto dos outros, as nossas relacões culturais (inter)nacionais. É a nossa diplomacia cultural.

Falo em reforçar e não em criar, guiada pelo à vontade aprendido no livro  O Retorno do bom selvagem,  da autoria do Professor Severino Ngoenha. Constatei, nessa obra, que não temos como fugir à globalização e que esta já se iniciou “desde que o mundo é mundo”. O jeito é colaborarmos com o que temos, produzindo o melhor que pudermos para poder partilhar. E digo partilhar, porque nas Ciências Sociais, o que se pretende, nos dias que correm, é a possibilidade de aprendermos uns com os outros o princípio da interculturalidade, ou seja, o princípio de convivência entre diferentes culturas. Não me refiro apenas à coabitação. Falo em convivência, partilha, aceitação pacífica do outro, mais a possibilidade de intercâmbio. Há, até, pesquisas que falam em “comunizar”. Mas este último é assunto para outros textos.

Se a partilha, a convivência ou a diplomacia intercultural sugeriram a Cremildo Bahule, organizador do referido livro, a importância de nos recordarmos e de registarmos o trabalho de músicos moçambicanos a residirem no estrangeiro; também deveria ser possível que esses ou outros moçambicanos, na diáspora, colaborassem na recepção de seus compatriotas, para com eles ou através deles, se divulgar a cultura moçambicana “fora de portas nacionais”. Isto não é cobrança. Chama-se a isso reciprocidade.Trata-se, na verdade, de podermos disseminar a nossa identidade cultural onde quer que tenhamos uma representação diplomática.

Reforço essa importância utilizando, para tal, um exemplo de muitos que há. Quando, recentemente, vimos circular um vídeo no qual a cantora moçambicana Assa Matusse era entrevistada na reputada TV5, sentimos muito orgulho (vi isso formulado em mensagens de Facebook – por um número imenso de gente), não só pelo trabalho que ela tem feito a nível cultural no país e fora dele, mas também, pelo facto de, como moçambicanos, estarmos a ser sujeitos de reconhecimento internacional. O que não vem ou não veio ao de cima é quantas Assas Matusses poderiam ser entrevistadas numa TV5 ou outras televisões, pelo fruto do seu trabalho; não estou a desmerecer o trabalho da artista, muito pelo contrário! Nem estou a falar em patrocínios.

Vou dar um outro exemplo que acontece muito no meio universitário, na corrida pela internacionalização, muitos académicos, mesmo quando se deslocam de férias a um país, podendo ou quando solicitados, dão alguns dias de aulas em universidades. É um registo do conhecimento daquele moçambicano que fica no país visitado. Ficam, a ganhar, neste processo, a universidade acolhedora; a universidade na qual o académico é filiado; o próprio académico e Moçambique. E aí, nem, se quer, há intervenção oficial de Estados. Mas o intercâmbio de conhecimento acontece.

O que é que isto tem a ver com o Caderno de Música Moçambicana: êxodo musical, sim? Explico-me. As nossas embaixadas pouco ou nada fazerem pela disseminação da cultura, nos locais em que estejam representadas, sobretudo de indivíduos em trânsito. Por outro lado, não vemos artefactos dos fazedores de arte expostos nessas embaixadas e, nem, se quer, é organizada, pelo menos, uma tertúlia ou um workshop, para dar a conhecer a arte desse fazedor, quando em visita a tal lugar. Esse é um exemplo de valorização cultural que pode ser feito com poucos recursos, incluindo os do próprio artista, em alguns casos.

Um outro exemplo de disseminação cultural ou identitária que pode ser realizado com pouco gasto, seria a emissão de passaportes culturais para os fazedores de arte. A existirem, por serem diplomáticos, facilitariam o trânsito entre artistas, a transposição de barreiras geográficas e aí, mesmo que às suas custas, o artista poderia disseminar arte e, em fim último, o seu país. Não me parece útil aguardar-se por grandes eventos ou grandes financiamentos para se realizar diplomacia cultural. Custa, apenas, pensar ou agir. É claro que não excluo a importância da existência de um fundo cultural para apoiar talentos que, efectivamente, não dispõem de meios. Mas essa é uma conversa que carece de imensos convênios.

O que é que isso tem a ver com o livro-objecto do presente texto? Pela voz de académicos, artistas da pena e fazedores de arte, autores da obra em apresentação, há diferentes modos de valorização da cultura e da identidade moçambicana de residentes fora de Moçambique e que hoje são enaltecidos. Ficam, obviamente, pessoas por serem referidas, mas o trabalho não pára por aqui, certamente.

Para além da necessidade de reconhecimento dos que se encontram “fora de casa”, temos ainda o trabalho de pensar as diásporas internas do país. O país não é pequeno e os trânsitos não estão facilitados. Temos ainda fronteiras culturais dentro do nosso país por serem quebradas. Não que seja impedido o intercâmbio cultural, mas este tem sido, mais vezes, realizado por centros culturais privados ou ligados à embaixadas de representação de outros países, dentro do nosso.            Significa que eles se dedicam a fomentar o princípio da interculturalidade ou seja, colocam, ao nosso dispor, os saberes culturais de seus países e, a seu serviço, os saberes culturais do nosso país; entretanto, as nossas “Casas de cultura nacionais”, pouco fazem para promover as diferentes culturas moçambicanas. Ficamos sempre a aguardar pelo “Festival Nacional da Cultura”, que se realiza de 2 em 2 anos. Isto em nada contribui para o reforço do cruzamento cultural dos residentes em diferentes geografias nacionais em Moçambique.

O que quero dizer é que “cadernos de música moçambicana da diáspora” estão no seu início e ainda têm muito caminho por percorrer, isto, se diferentes entidades, nomeadamente, o Ministétio dos Negócios Estrangeiros e Cooperação; o Ministério da Cultura; as embaixadas de Moçambique em outros países; bem como as representações de países estrangeiros dentro do nosso país afirmarem “Êxodo musical, sim”, a bem da convivência cultural entre diferentes culturas.

 

Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

É tempo de carpir as mágoas. É preciso abandonar, e não que isso signifique deixar de criticar o que está errado, o carrossel de declarações acusatórias e manipuladas com objectivos obscuros. Narrativas assentes em deturpação e desestabilização. É “mister“ definir uma agenda clara e comum para se alcançar o sucesso que tanto almejamos.

A definição do caminho para a glória, em qualquer modalidade, depende, em grande medida, do “know how“ dos dirigentes desportivos, os seus propósitos, autenticidade e sentido de pátria.

Os restantes actores, esses, contribuem e trabalham de forma holística com o seu arsenal de conhecimento para complementar o processo de desenvolvimento do desporto. E no espaço selecção nacional, um dos símbolos do país, não pode ser diferente. Todos são importantes para construir uma selecção respeitável e digna. Dentro, pois, de um ambiente saudável.

E isso passa, também, por deixar o seleccionador nacional, Chiquinho Conde, trabalhar dentro das escolhas que o técnico fez, faz e continuará a fazer. Conde é autónomo nas suas escolhas e, se for até para proteger ou mesmo disciplinar o grupo de trabalho, é livre de deixar de fora quem quer que seja. São opções. O técnico aposta nos jogadores que acredita lhe darem segurança e dentro das características dos adversários.

E não são epítetos que fortificam os grupos de trabalho mas sim o carácter, disciplina, respeito e saber estar por parte dos potenciais convocáveis perante quem dirige os processos.

Só faz falta no grupo de trabalho, tal como sublinhou Chiquinho Conde, quem está no mesmo. A chamada de um em detrimento de outro não pode ser motivo para assassinar carácter de pessoas com percurso de respeitadas no futebol nas “putativas” e incendiárias redes sociais.

Não é e nunca será produtivo lançar a máxima confusão possível para combater a verdade e espalhar culpas sobre todos. Passar o incómodo para os outros parece ser confortável.

Não é segredo para ninguém que a relação do treinador dos Mambas com os seus superiores hierárquicos é tudo menos um mar de rosas. Ou seja, o clima não é o que seria de desejar, algo que é comprovado com o desalinhamento que foi colocado a nu pela Comissão Independente de Inquérito mandatada pela Secretaria de Estado do Desporto para apurar as causas que estiveram por detrás do imbróglio que ocorreu na Argélia.

Os mesmos que aplaudiram ou mesmo contribuíram para que Chiquinho Conde assumisse o comando da selecção nacional, hoje, fazem tudo menos alguma coisa para descredibilizá-lo.

O foco devia ser a criação de melhores condições para os Mambas se qualificarem ao CAN-2023. O alinhamento devia ser tao simples quanto blindar o grupo de trabalho, mantê-lo longe das polémicas e atacar com seriedade e concentração máxima os jogos com Ruanda e Benin.

É desejo de todos amantes de futebol, pelo menos os que se alimentam de bom senso, que se quebre a malapata de 13 anos sem disputar o Campeonato Africano das Nações.

Quiçá, em defesa do bom nome e profissionalismo, Chiquinho Conde respondeu a internautas sobre as suas escolhas para o duelo com Ruanda. Há quem torceu o nariz e defendeu que o seleccionador nacional não precisava baixar de nível. Há quem defenda que até foi muito bom para dissipar dúvidas.

Neste cruzamento de expectativas, chama-nos atenção o facto de, na altura da divulgação da convocatória dos Mambas, o chefe de equipa encontrar-se no país. E, desse facto, surge uma questão que não quer calar: porque não se fez uma convocatória presencial em jeito de conferência de imprensa?

A opção por divulgação da convocatória nas plataformas digitais da Federação Moçambicana de Futebol abriu, claramente, espaço para desconfianças. A mensagem final é o maior desafio em comunicação.

Ainda no campo do futebol, e num cenário de bradar aos céus, a péssima arbitragem que assola o Moçambola-2023 está a transformar, e sem exageros, os relvados em autênticos campos de batalha. Muito mau para quem se debate com o desafio de atrair mais patrocinadores para a prova-mor do futebol moçambicano. Quem quer associar à sua imagem a um produto problemático?

Os árbitros substituem os principais artistas, os jogadores, e com as suas actuações pobres acabam em alguns jogos por prejudicar quem trabalha no duro semanalmente.

Um contraste com o nível elevado apresentado, a título de exemplo, por Arsénio Maringule, árbitro assistente que esteve recentemente na final da Taça CAF e tem sido regularmente nomeado para às competições do órgão reitor do futebol africano.

Urge criar árbitros de elite. Urge a moralização da classe dos homens do apito. Enquanto isso não acontece, diga-se, o Rei vai nu…

A actriz tem o C + O como duas letras inicias do seu apelido. Mas o CO, CO, CO mais interessante, no Franco, foi dela a imitar uma galinha. Absolutamente contagiante! No espectáculo designado Os Saltimbancos, este sábado, Rita Couto não só interpretou a personagem de um animal que ousou ser muito além de uma poedeira. Rita, RiTa ou RITA, pouco importa a grafia, soube ser a voz desses bichos que se superam no universo das fábulas.

Ao pormenor, completamente atenta às particularidades das pequenas coisas, dos pequenos gestos, dos sonhos subtis, às vezes ininteligíveis, a actriz ajudou a construir uma história montada pelos 54 membros dos TP50 que se apresentaram em duas sessões na Sala Grande do Franco-Moçambicano. Rita Couto superou o sentido dos verbos interpretar, encarnar, representar e etc. Na pele e nas penas dessa galinha rebelde, ousada, que foge de casa para (re)imaginar a liberdade de ser, de existir e de conviver, a artista fez do seu corpo uma autêntica totalidade convincente da sugestão. Temos actriz em Moçambique: dedicada ao que sente e ao que faz.

Ora subvertendo a posição anatómica humana, ora propondo a forma como as galinhas falariam, com aqueles CO, CO, CO de cacarejar, Rita Couto deu graça ao musical/teatro bem ao estilo do que TP50 tem habituado ao seu público. Os gestos com a cabeça, com os membros superiores e inferiores, o olhar espantando, neutro ou preocupado, inefáveis…

Há vezes em que a palavra parece pouca para tanta performance ou então há vezes em que os artistas vão muito além do que se pode escrever sobre eles. Esse é o caso de Rita Couto, actriz à vontade para se apresentar numa tragédia exigente como Incêndios ou num infanto-juvenil como Os Saltimbancos.

À parte Rita Couto, um dos “maestros” da peça/musical dos TP50 foi Fernando Macamo, um actor que não pára de evoluir. Trabalha com e para crianças há algum tempo, domina a linguagem infantil e torna simples o que para um ser humano comum poder ser caricato. A ciência da representação mora naquele actor bem à imagem do que se depreende em Samuel Nhamatate, actor com toques de bailarino sempre à vontade em matérias de dança.

Fernando Macamo foi o burro da história. Entretanto, bem ao contrário do que se diz, esse burro de Os Saltimbancos, o líder da equipa, afinal, de burro apenas tem o nome. O resto resume-se às seguintes palavras: inteligência, confiança e determinação.

Quanto a Samuel Nhamatate, foi cão. Para os que apreciam os caninos, mais próximo a um vira-lata e quase sem nada de um pastor alemão, por exemplo.

Além de galinha, burro e cão, o espectáculo teve uma gata preguiçosa na pele de Thandi Prista, uma artista em potência com cordas vocais bem sugestivas para o ritmo afro-jazz. “Está a vir!” e, talvez, dentro de anos, teremos o orgulho de dizer que a vimos ainda tímida na Maputo International School, mas já afinada no canto.

Na parte musical, o espectáculo contou Texito Langa (bateria), António Prista (guitarra), coro de adultos e de crianças da Escola Portuguesa de Moçambique. O arranjo musical foi feito por Décio Vembane. Já a coreografia, esteve na responsabilidade de Judite Novela, tudo na encenação de Maria Clotilde Guirrugo.

Quanto ao enredo d’Os Saltimbancos, apresentado na sequência das celebrações do Dia Internacional da Criança, em geral, sugere um debate sobre a relação homem-animal, tendo na matriz da história a luta pela liberdade corporizada pelo burro, pelo cão, pela galinha e pela gata. É uma história sobre sonhos, sobre a igualdade, sobre o direito dos animais e dos homens; é uma história de sonhos, com acertos e enganos à volta disso. No enredo, claro está, aparece bem representado esse movimento campo-cidade, às vezes, com motivações precipitadas. Desse ponto de vista, Os Saltimbancos dialogam com a literatura moçambicana, eventualmente, retirando dos contos a maneira como em regiões agrestes é pensada a vida urbana e vice-versa.

Num contexto em que nos preocupamos cada vez menos com os conteúdos para as crianças, contribuindo até para uma presumível devassidão, Os Saltimbancos, de TP50, é, seguramente, uma proposta graciosa indispensável aos mais novos e, igualmente, aos adultos. Parecem ser os adultos os que “nestes tempos estranhos” precisam mais de juízo. Só com discernimento o termo Educar poderá continuar a fazer sentido!

Pelas nossas crianças (e pela meninice despertada em nós, os adultos), Saravah, TP50!

David Bene, Mélio Tinga, Venâncio Calisto. Arremessos. Porto, Exclamação, 2023.

 

Uma das perguntas que se pode colocar ao leitor é talvez o que significa este arremesso de escritas, esta quase provocação que os três livros aqui re-unidos numa caixa desejam despertar. Três livros que se unem um mesmo corpo de papel, um projecto de três escritores e amigos, um poeta, um prosador e um dramaturgo. O que une Câncer de David Bene (poesia) a Como sombras e Cavalos a Levitar de Mélio Tinga (narrativa) e O alguidar que chora ou a história das pedras que falam de Venâncio Calisto (Teatro); em que medida dialogam estas escritas, o que nos querem “arremessar” os autores como proposta ou como reflexão?

Cada livro tem o seu registo próprio, naturalmente, mas os três partilham alguns aspectos que eu gostaria de assinalar. São escritos na primeira pessoa, tratam de alguns temas comuns a morte, a violência do facto de estar vivo, a subalternidade de ser mulher, a prostituição como forma de sobrevivência, e une-os aquilo que pode ser designado como “poeticidade”, uma relevante mistura de uma linguagem cifrada entre vários registos discursivos, que oscilam entre prosa, poesia e dimensão dramatizada.

Considerando o livro de David Bene e o de Venâncio Calisto para começar, encontro uma particular dimensão dramática e coral que os interliga, embora trabalhada de forma distinta, com um registo de recuperação de textualidade oral, também diversa.

No livro de Mélio Tinga confronto-me com uma escrita mais narrativa, com pendor autoficcional, em que o registo discursivo é ligado a uma dimensão do real, fazendo o percurso de um narrador/personagem em modo de aprendizagem, a partir do enredo de uma separação, e que reflecte sobre impossibilidade de encarar o amor sem o seu reverso de morte, ou a  inocência sem a noção de decadência,  numa espécie de conhecimento do que podemos designar como “ensaio sobre o inferno”, que vai ser o título da primeira parte do livro de David Bene. O livro de  Mélio Tinga inicia-se retomando o epílogo final, ou vice-versa, numa reflexão  sobre a morte:

Saí dali como se me escapasse do cérebro uma substância tóxica. Gases num combate contra os pulmões. Minha cabeça era um barco, cheio de carvão. Um barco a vogar no meio das ondas. Longe, os chumbos de calor destruíam os edifícios da cidade, face a face, curva a curva. Nas fachadas a expressão triste de quem reza. Meu corpo, frágil, rã escorregadia em mãos cáusticas. Dentro, os ossos se esbatiam numa bruma difusa, contraditória; o som minúsculo da flauta atormentava-me o pensamento com mestria de rato que escala a clavícula.

No ombro, o corpo quente da prostituta, débil, ensanguentada, os movimentos dos seus braços flácidos contrastavam com os repuxados nervos  dos meus pés. Era o fim. A flauta silenciada sobrou de tudo quanto houve, de tudo quanto ficou destruído, de tudo quanto um dia virá, das horas de sal, do temor, da dor incómoda, da voz aos solavancos a cavalgar, a infiltrar-se pulmões adentro, a subir garganta afora.

Levo a prostituta para todo o lado, para que o mundo veja que o amor pode agarrar-se ao cu de um porco ou ao ramo de uma florzinha branca, delicada, num jardim onde cabe apenas o silêncio. Levo-a no ombro, hino que sobra quando se vence uma batalha rija. (p.17).

 

O livro de David Bene, Câncer, cujo título já indica uma temática de destruição, tem como citação de abertura, a letra do cantor Sean Rowe  “Este mundo inteiro é uma terra estrangeira. Engolimos a lua, mas não conhecemos a nossa própria mão”, e inicia-se com o “Ensaio sobre o Inferno”, a primeira de seis partes, interligadas, perfazendo um único poema. O registo discursivo do narrador do poema é uma recuperação do livro de Eclesiastes (em latim) ou Cohellet (em hebraico), filho de David, rei de Jerusalém. O fundo sapiencial e de reflexão filosófica sobre a inutilidade da vida, a inevitabilidade da morte, e as considerações do livro sagrado, são a base da voz do narrador. A citação inicial de Eclesiastes (1:2)  é o mote do desenvolvimento do poema: “ Que grande ilusão! Que grande inutilidade! Nada faz sentido!”

E quando falo de voz, falo de uma vocalidade poética sacral, uma vez que se trata da recuperação da figura do pregador, Cohellet. O narrador faz uso do monólogo, e por vezes do diálogo indirecto ou do comentário, entrecortando a dimensão sagrada da fala de um cariz profano, diria, profanatório, ou seja faz do discurso poético-narrativo-sapiencial, um lugar de discursos híbridos, que interseccionam os registos erudito e popular. Também no plano linguístico e cultural observamos esta tessitura de registos, uma vez que vai fazer uso da língua shona, a par da língua portuguesa, para compor o poema, com invocações sobre a morte, canções de embalar, cantos de acompanhamento do espírito, impregnados de diversas religiosidades.

David Bene, geólogo de profissão, oriundo de Manica, província que faz fronteira com o Zimbabwe e Tete, zona de muito minério, vai socorrer-se de um imaginário ligado à paisagem local, onde as grandes montanhas, ganham uma dimensão quase humana e conjugam em si tradições antigas. A pedras que falam resultam, penso, desse quadro imponente de Manica que atravessa o olhar, como por exemplo a antropomorfizada montanha “Cabeça do Velho” e o Monte Binga, considerado sagrado. Lendo o poema de David Bene relembramos alguns outros textos que perpassam fragmentariamente como O Escriba Acocorado de Rui Knopfli ou ainda O Deus Restante de Luís Carlos Patraquim.

                                  Ensaio sobre o inferno

Que grande ilusão! Que grande inutilidade! Nada faz sentido!

Eclesiastes 1:2

Com quantas caras se faz um inferno?

Pergunto, minha razão. O inferno é manso. É ríspido. Gente viva. Gente morta. Carne fresca. Carne podre. Charuto cubano. Everest cigarette. Mulher coberta. Mulher nua. Maheu. Nipa. Ford Ranger. Carroça de boi. Papel limpo. Nádega. Quase nada.

Com quantas coroas se faz um inferno?

Pergunto e não procuro respostas. Responde-se para convencer. Para ganhar respeito. Para elevar a raça. A cor. A luta. Para dar sentido ao fracasso. Ao sucesso.(…)

Eu, Cohéllet.

A pedra de quatro olhos. Desconheço a diferença entre o grão de areia e o de arroz. Ambos são bem sorteados. Uns eternos, outros efêmeros. Estou equivocado, confesso. A eternidade do tempo parte e desagua na pupila de quem a procura. A pedra é tão duradoura quanto uma amiba. Uma flor. Um coito. Um rombo no aparelho sem estado.(…)

Conheci o teu deus. Apontei os teus pais com o dedo indicador. Falo-te, num bom português, através deste papel branco. Venci o tempo. O medo. Domestiquei o vento do oriente. Varre a calçada do trono que te mostrarei nos próximos tempos.

Com quantas agulhas se tricota um inferno?

Há um cadáver linguarudo na palma da criança. Tresanda a horrores, mas segue feliz. Vivo na planície de Marte e durmo no cume do Monte da Lua, disse-me o osso.

Chegados aqui, fulano, resta-me apenas dizer-te o seguinte: pega na pá e abra a tua cova. Escolha a tua rosa favorita.

Sonhar é morrer. Aprecia-se o olho que apodrece nos sovacos da tulipa.

O sonho nasce do cadáver (….) (p.15-16)

 

E a partir daqui fazemos a ligação ao texto dramático de Venâncio Calisto O alguidar que chora ou a história das pedras que falam, em cinco actos, que se combinam em registos discursivos diferentes, de modo quase experimental, dando voz às pedras que falam e fazendo uso de géneros orais, como a genealogia, a contação oral de Karinganas.

O poeta, actor e dramaturgo, ao procurar descrever a condição secular de silêncio das mulheres moçambicanas vai usar as fórmulas narrativas do “Era uma vez”, para dramatizar uma situação secular. No início do livro cita o poeta brasileiro  Manoel de Barros: Logo pensei de escovar palavras./ Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos”.

Quem fala nos diferentes cinco actos do texto de Venâncio Calisto são diferentes vozes e personagens, narradores, comentadores, criando ora momentos de narração, ora de monólogo, ora cenas de diálogo. As diferentes combinatórias e oscilações deste procedimento criam no leitor a expectativa e diferentes pontos de vista. Por outro lado a escrita do autor hesita entre uma fala quotidiana e uma forte dimensão poética, que ganha ora dramatismo, ora questionamento.

Podemos afirmar que o autor moderniza, fazendo recurso a formas tradicionais de contar, a condição social e humana da mulher nos diversos usos compósitos do texto dramático, com registos dialogais, de narração, de interlocução, para criar no leitor e espectador a surpresa ora das frases enigmáticas, ora dos poemas, ora das falas simples, dando vida às pedras e aos sentidos abstractos, animizando o discurso sensorialmente.

E diz o Karingana:

A pedra só é útil se estiver em silêncio.

A harmonia da humanidade depende do silêncio.

Das pedras.

Com o silêncio das pedras construiu-se o grande império do mundo: as cidades, os castelos, as calçadas, os tronos… com o silêncio das pedras ergueram-se templos.

E com o veneno das suas palavras fez-se doutrina. A inscrição da única verdade possível no corpo da humanidade. A negação da existência das outras verdades, a castração da liberdade do ser, de se ser verdades múltiplas.

Hoje, uma pedra, esta que se apresenta agora diante de vós, teve de estrangular com as próprias mãos o lugar no qual gerações inteiras foram obrigadas a calar. A calar a história das pedras que falam, a calar a sua própria existência. Repito, tive de estrangular, destruir, incinerar o lugar da subalternidade. A esteira de palha em que a minha mãe ouviu da sua mãe a mais antiga mentira da humanidade. O milenar silenciamento da história das pedras que falam.

– Estou a incinerar o cadáver da mentira que séculos a fio perpetuou o silenciamento das pedras. Estou a extrair das cinzas do seu cadáver os fonemas com os quais as pedras finalmente poderão contar a sua história. Com as cinzas do teu cadáver moldarei o alguidar de onde emergirá a voz das pedras, como o relâmpago que emerge do céu.(p.14)

 

Não vou concluir, vou antes convidar-vos a ler os três livros de Arremessos e a entrelaçar as diversas tessituras de escritas, que evocam os registos orais, sagrados e populares, literários e citacionais, e que “clamam”, arremessam em nós, leitores, ouvintes, questionamento e meditação poéticos sobre a violência, a morte, a fome, a opressão.

Cada um à sua maneira e com estratégias formais entrelaçadas, numa trilogia que cria ecos e ressonâncias entre si. Textos que trazem subjacente uma moralidade ou máxima possível para quem escreve: “Sonhar é morrer. O sonho nasce do cadáver”.

Ou da pedra que fala e sonha.

 

Podemos escutar-lhe as músicas, entretermo-nos com as suas reflexões, repetirmos-lhes os versos, mas se não ousarmos protestar por um Moçambique mais justo, definitivamente, não o teremos compreendido. A marcha consagrada no artigo 51 da nossa Constituição da República é o mais importante direito democrático que o rapper moçambicano Azagaia nos apontou para o cumprimento daquilo que é o combinado “Povo No Poder”. E não foi uma escolha aleatória ou que resultasse do calor da emoção do jovem rapper moçambicano, foi uma decisão cuidadosamente ponderada e que levou em consideração o “sujo” histórico das práticas democráticas em Moçambique.

Em sua produção musical, Azagaia foi categórico e reiterativo na exposição da grande fraude dos mecanismos democráticos que são usados em Moçambique para legitimar o poder e manipular a participação política. Tal descrédito fundamenta-se no nosso sistema eleitoral defeituoso, na precariedade das políticas públicas, na fraca oposição política, na inércia do activismo social, na parcialidade da imprensa, na alienação das ONGs e noutras práticas democráticas corrompidas que caracterizam o Estado moçambicano. Os seguintes versos do Azagaia atestam a hipocrisia democrática supracitada:

“Se eu dissesse que Moçambique não é tão pobre como parece

São falsas estatísticas de alguém que enriquece

Com dinheiro de FMI, OMS, UNICEF

Depois faz o povo crer que a economia é que não cresce

E se eu dissesse que a oposição neste país não tem esperança

Porque o povo foi ensinado a ter medo da mudança

Mas se eu dissesse que a oposição e o governo não se diferem

Comem no mesmo prato, e tudo está como eles querem”

 

(…)

“E se eu dissesse que há canais de televisão comprometidos

Com o governo só abordam os assuntos prometidos

Esses telejornais já foram todos vendidos

Vocês só ouvem o que eles querem, eles querem vossos sorrisos

E se eu dissesse que o ensino em Moçambique é um negócio

ONGs olham o governo como sócio”

In (As Mentiras da Verdade)

 

Mediante estas denúncias de encenação da participação política e liberdade de expressão que transcorrerem inúmeras músicas do Mano Azagaia, como se pode desfazer este teatro democrático que se vive no país? Servindo-se da música, o rapper moçambicano foi eloquentemente capaz de mostrar caminhos de resistência e emancipação contra forças políticas internas e externas que atentam, vezes sem conta, os pilares da democracia e prosperidade da nossa nação através da dependência económica, corrupção, racismo e perseguição política.

Temas como Emboscada, Cães de Raça, Maçonaria, M.I.R, Países do Medo e Vendem o País são a melhor expressão do mais cru neo-colonialismo, abuso do poder e intolerância política em Moçambique. Entretanto, uma das primeiras soluções propaladas por Mano Azagaia para resistir-se a tentáculos duma política maquiavélica é uma mente crítica e imbuída de integridade moral. E é obviamente justo que se diga que todas as músicas do rapper Azagaia, desde as do álbum Babalaze, passando pelo Cubaliwa à EP é Só Dever visam este intento: provocar reflexão em todo e qualquer ouvinte sobre as condições sociopolíticas do seu país.

Porque o Azagaia nunca se quis confundir com aquele crítico que só censura, sem sugerir o dever ser, a canção intitulada “As verdades” afigura-se um acervo de propostas convincentes tanto para o desenvolvimento intelectual como para o desenvolvimento económico do nosso país. Os seguintes excertos elucidam esse propósito:

 

“Eu recuso-me a ser boneco animado

Programado para consumir tudo que é importado

Enlatado, costurado ou digitalizado

Embalado, endereçado para o nosso mercado

Não! Não enquanto tiver braços para trabalhar

Pernas para caminhar e cérebro para pensar

Sim! Nós só vamos criar a nossa economia

Quando começarmos a acreditar na nossa autonomia

Eu explico: o capital circula dentro dum círculo

E só comprando o que é nosso nós fechamos o ciclo

O capital volta para nós, porque investimos em nós,

Por nós e para nós, torna o país rico e são”

 

Está claro, nesta letra, que precisamos acreditar nas nossas capacidades físico-mentais, assim como temos de valorizar o que é nosso e começarmos a pensar o país de nós para nós. Precisamos aprender a caminhar como líderes dos nossos destinos e mantermos uma consciência viva de que a revolução deve ser “lúcida, atenta e exigente, permanente até vivermos numa África Independente” (Azagaia in Revolução Já). E para que a revolução ou uma grande mudança social ocorra no nosso país, não nos bastará a integridade moral e pensamento crítico dos cidadãos. É preciso união e acção colectivas. Toda e qualquer mudança social premeditada requer sempre um pensar e uma acção comum. É com este senso que o Mano Azagaia produziu a canção “A Marcha”, um convite conveniente para as pessoas sair às ruas e, num só colectivo, gritar em uníssono:

 

“Ladrões… fora. Corruptos… fora. Assassinos… fora”

 

E afigura-se-me não existir outra maneira mais impactante de clamar pela justiça e lutar pelos seus direitos num Estado que se intitula democrático, senão o direito à manifestação consagrado no artigo 51 da Constituição da República. Unir-se e sair à rua tem uma força relativamente maior que os debates televisivos, ensaios políticos e indagações nas redes sociais. As ruas são o verdadeiro palco da democracia onde as minorias ou maioria encontram um meio de ressonar o seu protesto, captando a atenção imediata daquele que governa. Dir-se-ia que a manifestação representa, da melhor forma, a democracia directa entre o povo e o governo. Aqueles que decidem sair à rua procuram, de forma directa, serem ouvidos, propor decisões e obterem respostas das suas indignações ao vivo. Ao contrário de canais dos Media, redes sociais, tratados e ensaios que constituem meios distantes de comunicar uma ideia, a manifestação é o meio mais directo e flexível de interagir com o governo, sendo que o segundo são as ditas eleições. Mas, porque em Moçambique, as eleições não se afiguram livres e transparentes, o grande meio que nos resta para exercer a nossa liberdade de expressão é o direito à manifestação. Talvez, seja por isso, que este direito tem sido um dos mais reprimidos por governos ditatoriais. A ditadura como uma máquina política que funciona na base de autoritarismo tem como inimigo número um a liberdade de expressão dum povo, por isso, serve-se de todos os tentáculos de opressão para sufoca-la.

Porém, para um povo que anseia pelo poder, a marcha é um caminho difícil, violento, mas imprescindível e impactante num Estado ditatorial. O mais sincero grito do povo só pode ganhar a sua liberdade nas ruas, pois é onde o governante e governado não se podem evitar ou ignorar. Ambos usam os mesmos caminhos para mover-se. Dai que um governo que queira escapar à afronta do povo, às suas responsabilidades, à prestação de contas, acaba recorrendo à violência policial para expulsar das ruas um povo unido, ao invés de buscar pelo diálogo e negociações. É deste modo que uma marcha, ainda que pacífica, deteriora-se em violência em Moçambique, pois o visado é o primeiro a servir-se inapropriadamente dos instrumentos de violência. Mas uma coisa é certa, a violência seja no Estado ou numa esfera menor de organização somente semeia mais violência como bem observou o revolucionário venezuelano Hugo Chávez.

“Los que le cierran el camino a la revolución pacífica le abren al mismo tiempo el camino a la revolución violenta”

Tradução livre: Aqueles que fecham o caminho à revolução pacífica abrem, ao mesmo tempo, o caminho para revolução violenta.

E qual seria outro resultado da violência, senão mais opressão e violência?! E de que modo o povo deve responder à repressão policial e à indiferença do governo, senão recorrendo à mesma violência traduzida, amiúde, em uso de instrumentos contundentes e vandalismo?! O rapper Azagaia foi bravo suficiente em declarar essa conclusão trágica de que a violência ou vandalismo pode ser o único meio – incivilizado – de chamar a atenção ou a responsabilidade dum governo violento ou indiferente ao sofrimento do povo. As canções “Povo no Poder” e “Liricismo do vândalo” são a melhor tradução do seu ponto de vista no que concerne a estratégia de criar pressão sobre um governo que ignora o sofrimento do seu povo. Ele repou:

(…)

Barricamos as estradas, paralisamos esses chapas

Aqui ninguém passa, as lojas estão fechadas

Se a polícia é violenta, respondemos com a violência

Muda a causa para mudar a consequência

(…) baixa a tarifa do transporte, sobe o salário mínimo

Isso é o que deves fazer no mínimo

A não ser que queiras fogo nas bombas de gasolina

Assaltos à padaria, ministérios imagina

Destruir bancos comerciais, a vossa mina

Governação irracional parece que contamina

In (Povo no Poder)

 

Entretanto, os espíritos vacilantes, inconsequentes e excessivamente mansos costumam olhar para esse tipo de revolta popular com desdém e oposição, chegando a considerar tais actos produto de irracionalidade, libertinagem e marginalidade de massas incultas. A estes mini-burgueses, o Mano Azagaia responde:

 

(…) Não me venha com esse discurso marginalista

Marginais existem porque alguém marginaliza

Para Sommerschield, 16 apartamentos de luxo

Para Xipamanischield, 16 amontoamentos de lixo

E ainda perguntas por que é que eu falo sujo

Para que eu te respeite, dá-me o respeito que exijo

In (liricismo do vândalo)

 

É verdade que, em manifestações, possa haver indivíduos infiltrados sem interesse algum com a causa, e só com objectivo de vandalizar propriedades privadas, ao invés de focar-se na máquina estatal. Isso é censurável. Entretanto, esta não deve ser uma razão suficiente para limitar-se o direito de protestar tampouco idiotizar-se à insubmissão e rebelião dos jovens que lutam por uma causa justa. Tais discursos de censura normalmente têm sido propalados por gente que se arroga demasiado letrada e, ao mesmo tempo, se mostra imune ao sufoco das medidas de austeridade e do custo elevado de vida. É típico dessa gente com ar burguês que, em dias tranquilos, apoia a revolução, mas quando é hora de agir, tem medo de envolver-se como bem observou o Azagaia na música “Filhos da…”. E é na mesma canção em que o rapper Azagaia se refere a eles, dizendo que “cobardes quando morrem nem serve para estrume”. E, de facto, não servem, pois nenhum ser humano é capaz de inspirar-se com a morte de alguém que se mostrou cobarde. Nenhum.

A propósito, a morte não é um fenómeno do qual se possa ter certeza de estar a fugir-se ao ponto de abdicar duma luta justa, pois mesmo temendo encontra-la nas manifestações, ela pode encontrar-te em casa, numa rua da zona, no serviço, no transporte, numa festa, etc. Então, a certeza é que todos nós vamos morrer. Quando? Ninguém sabe. Por quê? Importa muito. Uma morte por adultério é deveras ignóbil. Uma morte por justiça social é definitivamente louvável. A escolha é tua se decides viver uma vida insignificante e cobarde ou fazer da tua existência uma energia positiva para o seu país e para o mundo à semelhança do Mano Azagaia. A escolha é sempre tua.

Porém, se algures na tua consciência, reside a ideia de que a boa governação consiste no respeito pelos direitos humanos, ampliação e baratização dos serviços públicos, contudo, no seu país, o governo do dia tem rumado no sentido contrário, no sentido de corrupção, injustiça social e miséria, então, devias aceitar os convites do Mano Azagaia: VEM PARA MARCHA! Ou adira à greve:

 

“Estão convocados para a grave todos os funcionários de Estado

Paralisem o comércio, mandem fechar os mercados

Fechem todas as fronteiras, desactivem as alfândegas

Ferro-portuários desliguem essas máquinas, abandonem os escritórios

Interrompem os campeonatos

Moçambicanos estão a morrer longe dos relvados

Os camponeses já estão em greve, fugiram das aldeias

Alunos estão em greve, fugiram das carteiras

Quanta gente vai fugir até paralisarem o país?

Toda gente sabe que a Guerra vai paralisar o país

Paremos o país agora, antes que morra mais civis

Sem o aparelho do estado o que o governo diz?”

 

(in Declaração de Paz)

 

É com estima que estendemos nossas saudações aos leitores. É nosso compromisso e da Kilimar acompanhar o pulsar da literatura de forma sistemática, como mandam as escolas das revistas Itinerário, Tempo, entre outras, que consagraram o bem pensar sobre a literatura moçambicana. A revista é o espaço para desfilar as nossas leituras por excelência, e é com Terapia Familiar, obra de estreia de Pagarache, que tencionamos manter um diálogo, por forma a compreendermos como o amor se explica em eventos trágicos.

Espaços em revistas são restritos, leitores cada vez menos visados. Objectivamente, observa-se, no conjunto de desaseis contos, que, conforme a proposta literária de Pagarache, cada voz de um personagem dá-nos a conhecer, a partir da sua focalização, a sua versão da diegese: Tole casa-se com Imaculada enquanto jovem, recém-chegado da Alemanha, tinha dinheiro. Teve três filhos frutos do casamento (Ernesto, Moniquinha e Thambo). Com o passar do tempo e as dificuldades da vida, torna-se alcoólatra e amargo, o que gera, nos membros da família, tensão. Consequentemente, Ernesto refugia-se na casa de um amigo, Manussés, onde se apaixona pela irmã deste, a Maira; Moniquinha desenvolve sentimentos de ira e raiva pelo pai, guiada pelos tais sentimentos, tenta tirar a vida do pai por duas vezes; Imaculada, a esposa, procura emprego, cede as investidas de conquista do jovem Carlos, este, insatisfeito pela rejeição da Imaculada, informa Tole no Bar, que dormiu com a esposa, facto que gerou o conflito.

A terapia instaura um movimento de sentimentos de saída do caos à paz, à purificação após a intriga. Não tratamos, nos textos de Pagarache, taxativamente, do que Aristóteles (2003/ s/d:109) designou de imitação de acções humanas superiores à média humana, que suscitam o terror e a piedade, nos moldes clássicos (tendo em conta os meios, os objectos e os fins: Medeia de Eurípedes e Édipo Rei de Sófocles são demonstrativos) Até, pois, que na obra temos seres médios, então. Mas a tragedia de que se trata é aquela em que os personagens, ao longo do seu percurso, terminam em um acontecimento sinistro, que gera sentimento de repulsa.

Relativamente ao amor, Figueiredo (1935:40), citado pelo Dicionário de Literatura (1997), explica que, desde os cancioneiros Medievais, as cantigas de amigo, diversos caminhos foram seguidos pelos poetas, relativamente a matizes.

Ao ler a obra Terapia Familiar, a memória e a nostalgia são os recursos que o autor usa para nos fazer mergulhar na diegese e quase somos persuadidos pelo personagem Tole à razão.

As razões que o personagem Tole levanta ao dar-nos a conhecer a sua versão, concorrem para suscitar eventos trágicos, outros personagens agem na relação de causa e efeito, das acções principais de Tole; o amor, na presente leitura, é essencial, pois, além de outros matizes na obra representadas, é o argumento para o efeito trágico, a face oculta do amor/ não saber amar. Compreender as versões de cada personagem instaura no leitor um movimento de sentimentos de saída do caos à paz, à terapia familiar.

Dos problemas existenciais

Tole consome bebida e drogas para fugir das lembranças dos momentos mais altos da sua vida, que lhe doem, pois a sua nova realidade é cruel, de um capitalismo macabro, que deixa Tole apenas com vontade «- […] estou a negociar um grande dinheiro, vou mudar tudo!» (P.40), porque o desejo não se materializa, entre o desejo e a irrealização, a frustração e amargura, o amor pela família gera covardia, evasão que demarca um egocentrismo «Beber é esse egocentrismo de querer ser feliz sozinho» (P.121); ralha e agride fisicamente a família, por orgulho, não quer ver a mulher a trabalhar, não assume a culpa pelo comportamento inconveniente, atribui à irmã da esposa, que passou a viver com a família, o motivo de todos estarem contra ele.

O comportamento de Tole desencadeia três momentos de reacções principais, o primeiro, não menos importante, Ernesto foge de casa, Moniquinha desenvolve a ira e a vingança, Imaculada, raivosa, também foge, e hospeda-se em casa de Carlos, dando jus aos boatos e acusações do marido «anda a foder com vizinho você […] Ela que…que ti ensina putaria» (P.50); O segundo momento, Tole é tragicamente envenenado pela própria filha «quanto mais o pai se alimentava, eu preferia sentir a ira recompensada, a vingança realizada. Coma tudo, maldito!»; e o terceiro momento, a família de Tole, em reacção à sua agressão, novamente, pela mão da própria filha, é-lhe enterrado uma tesoura no pescoço.

Suluçando, Tole justifica o seu comportamento, «-Tudo…tudo o que fiz foi…foi amar-vos de forma errada» (P.126). É aqui onde a afirmação do personagem pai[1] encontra encaixe, «-o amor tem o seu lado bom, mas é raro num mundo maldoso. Muitas vezes, o amor age com violência, agressão, e corrói o nosso interior», porque segundo este «-o amor dói. E a dor pode destruir. Provavelmente o mundo esteja sendo destruído pelo amor que tanto proclamamos» (P. 88-89). Como se lê, o amor de Tole pela família concorre para desenhar os dois momentos de reacções trágicas, de violência, a face oculta cuja compreensão permite purificar as emoções, é uma terapia ao leitor.

Outros matizes do amor: a necessidade muito bem notada por Cândido[2] (P.82-83), o da fantasia, que se explana na presença imprescindível do sexo oposto para copular, se não é no físico, a mente faz a questão de trazer o outro. Nota-se um sensualismo secreto de Ernesto pela vizinha, o absurdo de apreciar matinalmente a vizinha, e trazê-la na fantasia, em pensamentos, e com ela copular, a punheta «vejo a rapariga vizinha varrendo o quintal. Ela traz um vestido de riscas […] de costas para mim, a rapariga inclina-se novamente colocando suas costas em posição horizontal. Intensifico os meus movimentos e disparo pequenas balas brancas em múltiplas direcções» (P.18). Velho tema. Mas com a designação e maneira trazida em Pagarache, actualíssima. A vizinha é um hábito que até saudade cria, como é normal aquando de uma relação normal entre as pessoas, no universo empírico «sem qualquer frincha para contemplar a minha vizinha, o bambolear de suas ancas, o reclinar de suas costas quando passava a sua vassoura matinal» (P.111).

O secretismo galanteador, este traço denota-se quando Ernesto escreve um poema confessando seus sentimentos secretos pela irmã do amigo Manussés, Maira, e esconde a carta, vindo a declarar seu amor declamando o poema «À Maira… Se eu fosse um pintor» (P.119), depois de confessar quando confrontado por ela. «Eu me abalo quando andas…[…]-Eu tremo quando falas,[…] -Eu arruíno quando sorris. […] – Quando declamas o mundo pára de girar». (P. 118). Por outro lado, é no caso da Imaculada e Carlos, que se denota a impossibilidade ou inreciprocidade do amor « […] tenho sentimentos. Eu amo-te. – Acontece que eu não!» (P.95), de um amor que gera insatisfação, Carlos informa Tole o caso que supostamente tivera com Imaculada, a esposa, ferindo-lhe a masculinidade e dando relevância a designação inconcebível, que faz questão de expressar não ser, tolo, mas sim, Tole.

Não é sobre o amor apenas que se lê na obra, é notável o saber linguístico nas respostas dos diálogos entre personagens, «Foi o único som que se viu escapar do seu aparelho fonador» (P.30); «-como resposta, cruzei o corpo e a ponta da língua aos alvéolos para, de seguida, soltar um som desdenhoso» (P.49). (sublinhados nossos). A consciência sobre a designação de que as palavras são representações de conjunto de sons, onde estes são produzidos, que órgão envolver na produção de um som, não é o conhecimento acessível a quem desconhece a Fonética.

A intercalação das histórias não permite uma narração linear crescente ou decrescente, o que desenha uma capacidade de encaixe do autor, de cada história, cada versão exposta pela personagem, na diegese principal de Tole e Imaculada, em que as personagens se constroem a partir das acções que praticam, pelo pensamento que expressam, pelas conversas, pelos fluxos de consciência, entre outros elementos, a preferência pelos substantivos comuns, nos títulos dos textos.

Portanto, percorrer as cento e vinte e seis páginas de Pagarache é passar por um processo terapêutico em silêncio, afinal, cada um de nós faz para de uma família; é reavaliar a forma como temos amado, dado-lhe com a incapacidade de recuperar o tempo perdido; é reafirmar a noção da lei n.° 22/2019, de 11 de Dezembro[3], é buscar erradicar o trágico nas famílias. Esta não é uma escrita imatura e pretensiosa. Aliás, sobre esta particularidade, no fim da novela, o próprio autor, indeciso, questiona se continua? E, caro leitor, tenha a chance de fazer parte da decisão, lendo a Terapaia Familiar, para responder à questão.

 

[1] Irmão de Manussés

[2] in a literatura e a formação do Homem.

[3] Lei da família.

Diz um célebre provérbio que “Bendito será aquele que consegue dar aos seus filhos asas e raízes”. Asas, porque elas permitem expandir o horizonte imaginário das crianças e inspirá-las a perseguir os seus mais diversos sonhos; raízes, porque elas oferecem sempre uma referência identitária sobre o lugar onde as crianças nasceram e para onde terão sempre de voltar para recarregar as baterias das suas vidas.

Este provérbio veio-me imediatamente à mente, assim que abri as primeiras páginas deste livro de contos infanto-juvenis. Embora a obra se debruce sobre as peripécias idiossincráticas do passarinheiro Benjamim, é também uma espécie de reflexão sobre a própria vida dos pássaros, essa fantástica espécie de aves que, além dos morcegos, são o único grupo de vertebrados capazes de voar livremente!

A obra tem dois personagens principais: para além do Benjamim, há o Pinguim, o pássaro que é o seu melhor amigo. Juntos, partilham a rotina das auroras preguiçosas onde o Pinguim serve de despertador para que o Benjamim chegue a horas à escola. Este facto faz-me lembrar de uma outra curiosidade: a maior parte das aves é activa durante o dia, geralmente nas primeiras horas da manhã. Não me admira o primeiro diálogo no texto, onde o pássaro Pinguim se insurge logo de manhã ao Benjamim:

– Oh menino, não vais à escola?

– Ah, Pinguim! Deixa-me dormir só mais um pouco.

– Não te vou deixar faltar à escola. É preciso estudar. Preguiçoso!

Para o Benjamim os pássaros são criaturas fascinantes que cultivam nele admiração e curiosidade. Bom, para ele não necessariamente por causa dos seus cantos à janela do seu quarto, logo de manhã! E mesmo quando parece ser convicção generalizada que o canto dos pássaros é uma das mais belas formas de expressão musical na natureza.

Ao folhear, inicialmente, as páginas do livro do João Baptista Caetano Gomes, apreciando calmamente as magníficas ilustrações de Walter Zand, veio-me à memória a minha própria infância. Também já fui fascinado por pássaros e, na lista de algumas curiosidades sobre eles, gostaria de fazer menção a um pássaro em especial: o cuco. As fêmeas desta espécie depositam os ovos de seus filhotes em ninhos alheios! Nunca criam o seu próprio ninho e, muito mais fascinante ainda, elas conseguem adaptar a aparência do seu ovo à das espécies que elas parasitam. Não sei se o passarinheiro Benjamim conseguiu também descobrir isso, nas suas peripécias com os pássaros que ia caçando.

Segundo o texto, os pássaros impressionam ao Benjamim, sobretudo, pela sua incrível habilidade de voar. Então, ele decide passar a vida a caçá-los e a estudá-los minuciosamente. Para isso, decide sair de casa e passa a viver na rua. Não fica explícito, na história, se o Benjamim consegue chegar à constatação cientificamente provada de haver cerca de 10.000 espécies diferentes de pássaros em todo o mundo! Nem que os pássaros desempenham uma variedade imensa de papéis ecológicos importantes, como a polinização das plantas ou a gestão das pragas de insectos. Fica-se sem se saber se o Benjamim, nessa sua jornada exploratória dos pássaros pelas ruas, chega a perceber que a sua beleza e graça são fonte de inspiração para as artes, letras e ciências da humanidade, sendo usadas recorrentemente como símbolos de liberdade, de aventura e de navegação marítima ou espacial.

Do que se pode reter, no desenrolar da história do passarinheiro Benjamim, destaco um episódio de solidariedade onde os pássaros, vendo o seu amiguinho faminto, sedento e enfraquecido pelos martírios da vida na rua, decidem ajudá-lo e voam pela floresta adentro à procura de alimento para o reanimarem. Pode-se fazer aqui uma analogia com o efeito disruptivo que a destruição do habitat natural destes pássaros – tanto pela acção humana ou pelas mudanças climáticas – tem sobre o declínio ou a extinção de muitas das suas espécies em todo o mundo. Quantos de nós têm sido também solidários para com os pássaros, vendo-lhes famintos, sedentos e enfraquecidos dentro dos nossos próprios habitats? Afinal, quando se fala de ecossistemas, proteger e garantir a sobrevivência dos pássaros, através da conservação de áreas naturais que constituem o seu habitat especial, significa proteger e garantir a nossa própria sobrevivência como humanos.

Não vou esgotar, neste espaço, a história d“O Caçador de Pássaros” – e as outras demais histórias paralelas que se podem tecer à volta. Queria concluir com o episódio do retorno do Benjamim à casa dos pais. Se um dia as asas da sua imaginação fizeram-no sair de casa, tal como as asas dos pássaros que admirava faziam dos respectivos ninhos para os céus, num outro dia os mesmos pássaros fizeram-no lembrar das suas raízes. Tal como os pássaros são capazes tanto de voar longas distâncias em busca de um clima mais confortável, como de voltar depois para o seu habitat natural, Benjamim regressou ao aconchego do seu lar. Desta vez, mais rejuvenescido e experiente.

Como se pode depreender, as nossas vidas também se podem rever nesta metáfora dos pássaros, feitas sempre de asas e de raízes. Este é um livro infanto-juvenil que, como disse no início, faz jus ao provérbio que diz “Bendito será aquele que consegue dar aos seus filhos asas e raízes”. Ofereçam sempre aos vossos filhos e netos, as nossas flores que nunca murcham, asas e raízes. Asas para ganharem o mundo, como os pássaros, e raízes para voltarem sempre ao seu mundo, como “O Caçador de Pássaros”.

 

O dia 5 de Maio foi oficializado em 2009, com o propósito de promover o sentido de comunidade e de pluralismo dos falantes do português na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Desde então, esta data celebra este idioma como parte da identidade de todos estes países e povos. Num dia comemorativo tão especial como o de hoje, gostaria de fazer uma menção especial a dois feitos extremamente marcantes.

O primeiro, de efeito extraordinário, é o da premiação da escritora moçambicana Paulina Chiziane, a vencedora do Prémio Camões 2021, escolha unânime anunciada no dia 20 de Outubro de 2021 e que só hoje, dia 5 de Maio de 2023, finalmente, chegou às mãos da legítima dona. Este prémio reconhece a vasta produção e recepção crítica da Paulina Chiziane, como também o reconhecimento académico e institucional da sua obra, sobretudo a importância que dedica nos seus livros aos problemas da mulher moçambicana e africana.

Esta escritora, a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, tem desenvolvido uma relação muito próxima com a UP-Maputo, a quem já atribuímos, num passado muito recente, um título Honoris Causa e que tem tido presença regular nos eventos científicos e culturais organizados pela nossa universidade. A Paulina Chiziane escreve em português, língua que aprendeu a falar na escola de uma missão católica como muitos outros moçambicanos da sua geração o faziam pela primeira vez. Ela é, indubitavelmente, a prova viva de que, mesmo sendo de origem humilde e sem nenhum arcaboiço linguístico de berço, é possível fazer grandes coisas e chegar a tão destacado reconhecimento no espaço lusófono global.  Hoje celebramos, mais uma vez, este feito que projecta e faz brilhar todo o nosso país e o nosso povo na arena internacional.

O segundo feito, não menos importante e também de efeito extraordinário, é o da Ludmila Bata, estudante do 2° ano do curso de Jornalismo, ministrado pela Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes (FCLCA) da UP-Maputo, que foi declarada vencedora do Prémio Eloquência Camões do ano 2023. Esta vitória tem um sabor especial para a UP-Maputo, especialmente se se tomar em consideração que a Ludmila Bata, nossa estudante, destacou-se num universo extremamente competitivo de 49 estudantes pertencentes a 6 universidades nacionais. É importante frisar que o Prémio Eloquência Camões, organizado, em parceria, pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo e pelo Camões – Centro de Língua Portuguesa em Maputo, pretende ser uma alavanca institucional para a descoberta de novos talentos na redacção e na oralidade em língua portuguesa.

A Ludmila Bata demonstrou, com a sua vitória, que é possível fazer história, ainda em tenra idade e sendo também mulher, como a Paulina Chiziane. Num dia especial como o de hoje celebramos, também, este feito que projecta e faz brilhar os nossos estudantes e a nossa comunidade universitária na arena nacional.

Destacar estes feitos, num dia que exaltamos a língua portuguesa, como nosso património cultural e histórico, faz a nossa celebração mais especial e simbólica. Aliás, tornou-se uma tradição – uma boa tradição, diga-se! – que nos juntemos na UP-Maputo, no dia 5 de Maio de cada ano, para comemorar o dia Mundial da Língua Portuguesa e, igualmente, para celebrara amizade entre os povos que partilham esta língua.

A língua portuguesa é uma das mais ricas e influentes línguas do mundo e, como Reitor desta universidade, tenho orgulho em fazer parte de uma comunidade académica que valoriza e celebra a sua riqueza e diversidade. Nestas salas e corredores revisitamos a língua portuguesa como factor de unidade nacional.

A língua portuguesa é uma língua viva, dinâmica e em premente transformação, falada por mais de 265 milhões de pessoas em todo o mundo. É a língua oficial de 9 (nove) países e de organizações como a CPLP, a SADC, a União Europeia, o Mercosul e a Organização dos Estados Ibero-americanos.

Mas, a língua portuguesa é muito mais do que uma língua falada ou escrita. É um património cultural e histórico que representa a rica herança e a diversidade das sociedades e culturas que a falam, cantam, dançam, escrevem e declamam poesia. Na essência, em português se comunicam. É, por isso, necessário que olhemos para a língua portuguesa sem preconceitos. Que assumamos esta língua como nossa! Nenhum angolano, cabo-verdiano, português ou brasileiro fala a língua portuguesa como nós. O nosso português moçambicano é único. Nós, moçambicanos, soubemos tornar o português numa língua melodiosa, poética e sensual. Neste momento, a língua portuguesa não pode ser mais vista como a língua do outro. O outro não consegue falar um português tão belo como o nosso!

Neste simpósio, debatemos a especificidade do Português de Moçambique na diversidade da língua portuguesa. Temos, hoje, a oportunidade de conhecer melhor a língua em que nos comunicamos diariamente e de compreender o contributo de Moçambique para a afirmação da língua portuguesa no Mundo, mas, não menos importante, temos também uma oportunidade para perceber de que modo o Português de Moçambique pode contribuir para o nosso desenvolvimento individual e colectivo.

 

[1] Discurso em torno da celebração do 5 de Maio, dia da língua portuguesa, por ocasião da realização do Simpósio “O Português de Moçambique no Pluricentrismo da Língua Portuguesa”, na Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo)

Breves notas iniciais

Apresentada ao público, recentemente, O Desamparo das flores é o livro com que Miguel Luís venceu o concurso literário Maria Odete de Jesus, promovido pela Universidade Politécnica. É uma obra literariamente bem conseguida.

Miguel Luís José é o nome completo do autor. Nasceu em Maputo e é mestrado em Estratégia de Investimento e Internacionalização; é formado em Direito e tem pós-graduações na área legal e financeira. Foi vice-presidente do Conselho Fiscal, na Associação dos Estudantes Moçambicanos em Portugal. É um indivíduo muito atento à sociedade na qual vive e, para além de activista ou de participar em movimentos associativos, faz da literatura uma das áreas, através da qual, desempenha o seu exercício de cidadania. Este tem sido o seu modo de procura de felicidade.

 

O Desamparo das flores: papel e caneta na mão para sair da cegueira

O Homem vive a maior parte do seu tempo à procura da felicidade. A utopia é parte do caminho que a ela nos leva. Essas são ilações tiradas de duas obras de Zygmunt Bauman, A Arte da vida e Tempos líquidos. Considerando esses pressupostos, a literatura de ficção, especialmente a infanto-juvenil, é, para mim, esse lugar para construir mundos imaginários e reais. Foi, também, através desse processo que “nasceu Moçambique”. José Craveirinha, nosso poeta mor, cujo centenário continuamos a celebrar este ano, é um dos heróis dessa causa.

Essas sugestões gravitaram a minha mente, quando terminei a leitura do livro acima referido e questionei-me, se haverá, mais do que uma obra literária infanto-juvenil, um lugar para fazer com que as crianças sonhem um mundo melhor? Um lugar no qual possam dar asas à sua imaginação e alargarem as suas competências (sejam de que índole forem) e habilidades para a vida? Uma das respostas a essas perguntas pode ser encontrada no livro O Desamparo das flores, entre as páginas 65 e 67 e cito: “uma caneta e um papel na mão de um menino que sabe ler e escrever sempre serão instrumentos para mostrar coragem.” É de coragem e de saber ler e construir mundos que todos precisamos, para habitar este planeta cheio de incertezas constantes e disso, o nosso país tem imensos exemplos.

O livro é a primeira obra literária de Miguel Luís. Contém ilustrações de Walter Zand e é um livro dirigido ao público infanto-juvenil e aos jovens e adolescentes existentes em cada adulto. Coloca-nos perante uma premente reflexão sobre a coragem, a (des)obediência, a atenção pelo meio no qual vivemos e a utopia ou engenho.

Trata-se de duas histórias entrelaçadas, contadas a partir da perspectiva de dois narradores que sabem sobre a vida de todas as personagens, ou seja, narradores omniscientes. São histórias centradas com um pano de fundo negro, o tráfico de crianças. Entre outras 14 crianças raptadas, se encontra o Carlitos, o protagonista.

Esse problema social transcende a qualquer controlo jurídico, em contexto real. Vários são os poderes, em diferentes países a lutarem contra esse mal, mas o desiderato continua. Ainda, muito recentemente, em Moçambique, o informe da Procuradora-Geral do país, Beatriz Buchile, era perentório em afirmar que o país ainda está por combater os raptos. Esse fenómeno é afim ao de tráfico de menores.

O título do livro, em apresentação, já anuncia esse pano de fundo nebuloso. Em princípio, flores deveriam trazer alegria, mas no caso são desamparadas, são murchas. E essas flores simbolizam as crianças narradas na história. A obra é literariamente bem conseguida, por levantar um assunto difícil e preocupante. Mas fá-lo de modo poético e com uma linguagem simples e seleccionada, o suficiente para ser compreendida por todos. Isso é o que prende o leitor ao livro. O que há de mais complexo na obra são as imagens poéticas e elas é que amparam o leitor para que não sucumba perante a dor narrada sobre o tráfico de crianças. A história tem um balanço equilibrado entre a ficção e a realidade.

Deixo alguns exemplos dessas imagens que podem ser encontradas em diferentes páginas: a violência só alimenta os problemas, engorda-os sempre; quis chorar, mas as lágrimas não lhe saíram, ou talvez lhe tenham jorrado do lado de dentro dos olhos; não passou muito tempo até que o carro parasse de cuspir as ruidosas buzinadelas e o vidro da porta do motorista se abrisse, como o sol rompendo por entre as nuvens; das suas duas narinas chovia um leite espesso e branco; gotas gordas e pesadas caíam-me pelos olhos e o meu corpo tremia como um carro velho com motor ligado.

Estas imagens, para além de atenuarem a provável tensão que o leitor poderia ter a partir do tema abordado, suavizam a parte utilitária subjacente nas obras de literatura infantil ou juvenil, a de educar e de inculcar valores e uma moral. Sim, porque o substrato desse tipo de obras é mais o da utilidade da sua mensagem, do que de prazer.

Tendo feito menção à parte do gozo que dá ler a obra, é importante, também, aludir a parte utilitária, que é um convite a um pensar e agir comuns na nossa sociedade. Um pensar de adultos que possam munir as suas crianças de habilidades para enfrentar este mundo que, como todos sabemos, tem muito de cruel. E nesta obra, como já o tinha referido, o convite é feito com recurso à uma luta através do intelecto: o educar.

Carlitos, o aludido protagonista, desobedecera aos seus pais, desviara-se do caminho da escola e pagou um preço caro por tal. Mas foram a sua coragem e o seu engenho que o salvaram. Sabia ler e escrever e essas habilidades deram-lhe a sagacidade necessária para fazer chegar à polícia para ter socorro; após outras engenhosas tentativas para escapar do cativeiro.

Uma caneta e um papel, ou seja, o saber ler e o saber escrever, mais a agudeza do seu engenho o salvaram, a si e mais outras crianças. É por causa disso que afirmo que a obra convida a um pensar e agir comuns: educar, obedecer e estar-se atento ao mundo que nos rodeia. Há uma sugestão da importância que existe em educar as crianças, deixando nelas o legado necessário para que possam sobreviver perante as diferentes adversidades da vida; porque sempre as haverá e, não importa o substrato social da criança. Elas, também, sabendo ouvir e ver ou sabendo ler, que é também outro convite feito pela obra, poderão aprender a construir novos mundos ou a fazer face aos que estiverem expostos.

Esta obra recorda-me a sugestão de José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira, que diz: Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Isto desafia-nos a prestar atenção ao lugar no qual vivemos e, claro, a agir sobre ele. Que não vivamos às cegas. A literatura cumpre esse desiderato. E no livro em apresentação, há reflexão acerca de um olhar atento sobre um fenómeno social e o modo como este acontece, ao pormenor.

Mais ainda, sugere-nos a obra que temos que nos reinventar, escrever mais, publicar mais e não nos resignarmos ao que já está feito, porque a humanidade ainda não está civilizada. Já no-lo disseram os poetas José Craveirinha, no poema “Civilização”, no qual afirma: antigamente, os homens erguiam estádios e templos e morriam na arena como cães, agora constroem cadilacs…. E José de Almada Negreiros, em A invenção do dia Claro: quando eu nasci, já tinham sido inventadas todas as palavras que iriam salvar a humanidade; falta salvar a humanidade.

Um papel e uma caneta deverão dar-nos mais coragem para continuar a luta em busca da felicidade.

 

Notas finais sobre concursos literários

Por razões desconhecidas, em Moçambique, deixaram de existir três grandes concursos literários, nomeadamente: O FUNDAC-Rui de Noronha, O BCI e o TDM. Entretanto, o Concurso Literário Maria Odete de Jesus tem sobrevivido e coexistido com alguns concursos na praça Moçambicana, nomeadamente: o Dez de Novembro, ligado ao dia da cidade de Maputo; o prémio Nacional José Craveirinha (organizado pela HCB – Hidroeléctrica de Cahora Bassa/AEMO – Associação de Escritores Moçambicanos); O Fernando Leite Couto, da Fundação com o mesmo nome; nos últimos tempos surgiu um, o Carlos Morgado, homónimo da Fundação que o organiza; A editora Gala-Gala tem organizado o Prémio de Poesia Gala-Gala e a Alcance, o concurso literário Calane da Silva. Existem na Beira, ligados à Editorial Fundza, a chamada literária da Fundza bem como, os seguintes concursos literários da Associação Kulemba: Prémio de Literatura infanto-juvenil; Concurso literário do conto do FLIK (Festival do livro Infantil da Kulemba); Concurso de declamação de poesia do FLIK; Concurso de crónicas do FLIB (Festival do Livro da Beira) e o Concurso de redacção de contos tradicionais. Do Conselho Municipal de Quelimane, há que se destacar o Concurso 21 de Agosto, ligado ao dia daquela cidade. Parecendo muito, não são, para um país que pretende baixar a percentagem de analfabetismo de saber ler e escrever; o analfabetismo funcional, o analfabetismo de conteúdo e porque não o analfabetismo político.

Promover concursos literários é permitir o descobrimento de novos talentos; estimular os que já escrevem; incentivar o gosto pela leitura, pela escrita e pela literatura. Tudo isto tem um contributo imenso no desenvolvimento do país e dos próprios escritores, em várias áreas da vida. A par disso, os livros são um lugar de memória, de reflexão e sugestões sobre e para a vida, e são objecto de deleite. Alguns países desenvolvidos juntam, ao orçamento para a área da saúde, o que deve ir para a área de cultura, para o lazer e para a arte; porque estimular o gozo intelectual ou emocional é um meio caminho para a cura de determinadas doenças. Por isso e por muitas outras razões, há que os enaltecer e há que congratular quem ainda os organiza.

 

Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

 

 

A poesia é a modalidade suprema da linguagem de sugestão.

Solomon Marcus

Boa noite a todos.

Há algumas semanas, o meu amigo Dany Wambire escreveu-me a convidar para apreciar os poemas do padre Manuel Ferreira. Li-os rapidamente e, como se pretendesse resumir o que achei dos textos, registei umas notas que, agora, estão na contracapa deste livro. Assim, o editor da Fundza saberia o que julguei da escrita do autor. A minha acção foi inocente e incondicional. Longe de imaginar que as palavras custar-me-iam uma pesada responsabilidade. Até que, há uma semana, recebi uma chamada do Dany, dizendo-me o seguinte:

– Mano Zé, lembras-te daquelas notas sobre o livro do padre?

Eu respondi que sim e ele continuou.

– O padre gostou muito do que escreveste.

Até aí, tudo bem. Um elogio desinteressado, às vezes, faz bem. Mas aquele elogio, transmitido a partir da Beira, de desinteressado não tinha absolutamente nada. E o que veio a seguir foi esclarecedor.

– Então, por isso mesmo, o padre quer que tu apresentes o livro.

Quando me apercebi da minha queda numa armadilha, propôs, imediatamente, ao escritor e editor da Fundza, que esquecesse aquelas notas e fizesse esquecer ao padre também, que assim eu escava de apresentar o livro. Sem sucesso. A obra literária do padre Manuel Ferreira já estava impressa. Sem alternativas, estou aqui, para tentar apresentar o livro de um autor que nasceu há 84 anos, em Portugal, e que chegou a Moçambique em Outubro de 1964. Eu não sei onde cada um de vocês se encontrava em Outubro de 1964, mas eu e o padre Manuel Ferreira até já éramos amigos, conhecemo-nos numa livraria aqui ao lado da Avenida Eduardo Mondlane.

Enfim, antes que me perca numa dispensável abordagem biográfica sobre o nosso autor, tratemos então do que nos une aqui no Camões: a Serenidade, do padre Manuel Ferreira.

Em geral, eu penso nesta Serenidade como uma obra de trânsito, de movimentos, que exploram a origem dos objectos, a fonte do ser e a direcção da vida. Nesta proposta poética, o padre Manuel Ferreira escreve versos que exploram a relação entre o que se teve e o que se perdeu, numa espécie de negociação temporal a unir o presente ao passado. Trata-se aqui de uma poesia consentida pelos diferentes sujeitos poéticos que levam aos poemas um exercício sobre sonhos e a infância. Vejamos, por exemplo, o texto “ribeira verde”, da página 10:

 

Ribeira verde! Esperança

a manar dentro da gente!

Nos meus sonhos de criança

descubro a tua nascente.

 

Ribeira verde, do sonho

com que este Povo cresceu!

Das tuas águas, suponho,

imensa gente bebeu

 

Além desse, podemos ver o poema “catedral de agulhas”, página 12:

 

Com três agulhas do Pinhal do Rei

com três agulhas verdes do Pinhal

descubro que, na infância, edifiquei

o sonho indestrutível e real.

 

Ou seja, em a Serenidade, sendo o sonho uma noção futura, por acontecer, é uma possibilidade a levar-nos ao passado, à infância, à fonte concreta ou (re)imaginada. É olhando para trás que os sujeitos poéticos conseguem mover-se rumo a um destino desejado, auspicioso ou, pelo menos, redentor. Portanto, na poesia do padre Manuel Ferreira não só se sedimentam aspirações na tenra idade. Na meninice, fixam-se emoções que, lembradas, criam situações propensas a uma poesia sobre lugares, gestos, sensações, despedidas e saudade. Temos aqui um poeta que, escolhendo partir, simultaneamente, sente-se preso ao que deixou para trás. Logo, inevitavelmente, configura-se na expressão da palavra um lirismo a desenvolver-se no intervalo entre o tempo e os espaços.

Ora, ainda que possamos captar no livro elementos biográficos do padre Manuel Ferreira, nesta sua proposta poética notabiliza-se um poeta menos voltado a um encantamento individual. Para Ferreira, um poeta existe para os outros, conforme podemos comprovar no poema “novo regresso”, na página 16:

 

De novo, regresso à Mina.

E esta água doce corrente

suavemente me ensina

a ser dom pra toda a gente

 

Outro exemplo é o poema “descompromisso”, na página 29:

 

Não canto angústias minhas,

que as não tenho nem invento

E não assumo o tormento

de quem as tem

só por cantá-las.

 

No primeiro excerto, o sujeito de enunciação parece referir-se a uma experiência particular, que inclui o regresso a algum lugar bom, onde aprende a ser plural, a dar-se aos seus e a quem possa pertencer. Já no segundo excerto, o sujeito de enunciação reconhece implicitamente que nele cabem as dores dos outros. Deste modo, sem dogmas, a escrita do padre Manuel Ferreira valida, digamos assim, a percepção do intelectual romeno Solomon Marcus, quando, no artigo “Poética Matemática probabilística” afirma que a “A poesia é a modalidade suprema da linguagem da sugestão”. Nesse aspecto, Serenidade é um livro de versos simples, todavia, vale a pena ler pelas inúmeras sugestões evidenciadas.

Por fim, Serenidade, do padre Manuel Ferreira, é confrontação, questionamento e intervenção. Podemos ler esses registos no poema “se”, página 50. Esse é um texto constituído por cinco estrofes, mas podemos ler a primeira, a quarta e última.

 

Se pudéssemos contar

o que nos diz a razão…

Se nos deixassem pensar…

Mas não nos deixam. Pois não…

 

Se pudéssemos cumprir

toda a nossa obrigação…

Se nos deixassem ser justos…

Mas não nos deixam. Pois não…

 

Se pudéssemos fugir

da nossa incrível prisão

Se nos deixassem ser livres

Mas não deixam. Porque não?

 

Este poema do padre Manuel Ferreira foi escrito em Lisboa, em 1967, anos depois de nos termos conhecido. No entanto, apesar de ter sido escrito num outro contexto político e geográfico, continua actual e a dialogar connosco. Por que será que as questões sobre a justiça e a liberdade referenciadas no poema nos dizem respeito, a nós que nos encontramos a 11 mil quilómetros da capital portuguesa e há 56 anos da data em que foi escrito? Bem, a resposta a essa pergunta será dada por cada um de vocês.

Obrigado pela atenção.

 

*Texto escrito de cor na sequência da apresentação do livro Serenidade, de Pe. Manuel Ferreira, a 11 de Abril, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

 

 

 

 

É difícil reflectir sobre qualquer coisa que não nos remeta aos acontecimentos que determinam os tópicos conversacionais nos últimos dias: a partida de Azagaia, as marchas em sua homenagem dentro e fora do país, as manifestações autorizadas por uns e interditas por “ordens superiores”, a violência bárbara a que se recorreu para tal interdição e os “cancelamentos” que são promovidos contra entidades públicas que têm vozes cujo clamor pode muito bem dar eco aos anseios do povo.

A minha preocupação surge em meio a este último tópico: cancelamentos. Em abono da verdade, os argumentos iniciais para esta atitude constituíam uma aporia por misturarem alhos e bugalhos: empatia, escolhas individuais, disponibilidade, agendas, etc. Só depois da triste acção da polícia é que o cancelamento passou a ter um sustento mais assertivo: o humanismo, independentemente da agenda, da disponibilidade e das escolhas individuais. Só a empatia é que prevalece. Touché!

O que é inevitável nesta campanha é perceber como nos é clara a função da arte ou de quem a faz. Diante disto, mudei o horizonte de cancelamentos para uma outra nata artística com a qual interajo no dia-a-dia e, sobretudo, pelas redes sociais: os poetas/escritores. O número é considerável e é composto por gente que se evidencia sobremaneira e demostra ter uma genica inquestionável no seu exercício.

Há anos que se vem inscrevendo um debate que embora pareça esgotado, evidencia-se quando menos se espera. A tónica disso gira em torno de um esteticismo purista subserviente do que outrora recebera o nome de arte pela arte. Outro ismo que entra em voga no mesmo debate é uma, também, subserviência a uma arte de engajamento. O que se nota é o que Luis Dolhnikoff descreve numa entrevista concedida a André di Bernardi e publicada na SIBILA: revista de poesia e crítica literária, nos seguintes termos:

no final do século XX, depois do fim das certezas clássicas, das grandes utopias políticas e das vanguardas artísticas, os poetas ficaram sozinhos, atomizados, por sua conta, cara a cara com o confuso mundo contemporâneo, esvaziado de todas as referências, tanto temáticas quanto formais. As duas principais reacções foram o retorno a um eu lírico apequenado, a uma poesia centrada no próprio poeta e em seu cotidiano, uma reacção fácil, autoexplicativa, e explicativa também do facto de a poesia actual interessar quase que somente aos próprios poetas, e uma nova poesia engajada, aquela que “se desengaja da linguagem poética para servir à mensagem de uma causa”.

Este segundo caso não é totalmente novo no cenário literário moçambicano, e remonta o que se passou a chamar de “Poesia de Combate” que, embora seja reconhecida a sua importância fundacional, foi e é alvo de críticas por se entender que a poesia deve se desengajar do manifesto sócio-político e valer mais pela forma como o sujeito poético diz o que diz e menos pelo que diz. Há, inclusive, quem diga mais: a poesia não deve dizer nada, porque tudo já foi dito, o que torna o texto poético produzido nestes tempos num campo de ilegibilidade e hermetismo agudo. E, por via disso, o próprio poeta que vive num tempo e espaço determinado esteja sempre alheio a tudo senão a si próprio como sujeito pensante, com sentimentos, questionamentos e, mais importante, empatia com os seus.

Recorrendo a um questionamento muito em voga nos últimos dias: o que dirão as próximas gerações sobre os poetas que viveram neste tempo muito agreste do ponto de vista sócio-político? Será possível que tenham conseguido, em tais tempos conturbados, habitar numa torre de marfim e se alhearem de tudo e todos?

As perguntas poderão, também, assombrar os leitores críticos deste tempo (embora estejam às gotas) sobre o método a que terão recorrido para não notarem tal facto e, simplesmente, passarem de esgrelha diante dele e, também, habitarem na mesma torre e fazerem análises que interessam a eles próprios e às suas academias que, em certa medida, constituem outras torres de marfim.

Em parte, o “cancelamento” seria feito em relação aos próprios poetas, porque os críticos não podem fazer interpretações fantasmáticas dos livros que lêem. Há uma disciplina que norteia o exercício e tal deve prevalecer. Apesar disso, sobra espaço para o “cancelamento” do crítico (jornalista, professor de língua/literatura, ensaísta, etc.) porque as suas ilações relativamente a um determinado livro e as suas perspectivas sobre o é e não é arte ou, mais especificamente, texto literário contribuem sobremaneira para a instalação de um modismo que possa enfermar uma geração como parece estar a ocorrer nos últimos tempos. Dito de outro modo, a magna literariedade de que tanto se fala na interpelação dos poetas/escritores que está vinculada em pressupostos formalistas pode estar a gerar uma busca de aplausos pelos críticos deste tempo e um alheamento a tudo e todos no seu confortável conchego na torre de marfim.

Em geral, já é mais do que consensual que um texto literário, em razão da sua veleidade de representação e figuração do mundo, não pode surgir dissociado de um contexto espácio-temporal. É este mesmo contexto que poderá reger a dimensão relacional externa do texto com outros aspectos que permeiam a humanidade, a sociedade, o mundo ou a natureza com vista a manutenção do encadeamento semântico e pragmático desse mesmo texto tanto do ponto de vista da sua produção (pelo escritor/poeta) quanto da sua recepção (pelo leitor).

Assim, a leitura do texto poético (e do literário, em geral) tomada com base neste pressuposto, abrangerá componentes formais dos textos e suas possíveis interpretações semântico-pragmáticas. Só esta conclusão

“destrói irremediavelmente uma das mais pertinazes miragens e uma das mais graves inexactidões de certa concepção formalista do texto literário: a ideia de que o fechamento do texto, que seria marca distintiva da literariedade, implica a independência do texto em relação a qualquer contexto” (Aguiar & Silva, 2007, p. 578)

De uma forma ou de outra, tanto o “retorno” ao Combate quanto o conchego na torre de marfim faria de nós justos merecedores de um “cancelamento” nos próximos tempos. Se é verdade que a poesia é um exercício de deleite com a palavra, é também verdade que o poeta não se pode furtar aos dilemas do seu tempo e espaço.

 

 

 

Não sou muito dado a efemérides, especialmente de âmbito privado, mas por um motivo que espero seja justificável, decidi, desta vez, abrir uma excepção.

No dia 11 de Abril de 1983, faz hoje exactamente 40 anos, iniciava esta saga olímpica, que foi, e continua a ser, a de ajudar a iluminar mentes e abrir caminhos a milhares de pessoas, a maior parte delas jovens, dentro e fora de Moçambique. Ser professor é ser, acima de tudo, um educador. Facto que, em si próprio, encerra um significado e um alcance incomensuráveis.

Não tenho dúvidas de que muitas das perversões e dos equívocos que vamos presenciando um pouco por todo o lado, a diferentes níveis, e sobretudo entre aqueles que deveriam dar o exemplo, derivam do desconhecimento dessa verdade tão simples e tão dificilmente contornável. Não foi uma profissão que escolhi, para aí fui empurrado, sem apelo nem agravo. Afinal, tal como aconteceu a muitos outros que, entretanto, foram, e muito legitimamente, partindo para outras opções profissionais, em certa medida, muito mais aliciantes. Eu decidi ficar. Talvez por tibieza. Talvez por me ter acomodado. Talvez por ter percebido que ser professor não é uma profissão, mas um sacerdócio. Isto é, algo que funciona como um chamamento e que de forma transcendente vem de dentro. E porque convictamente, mas também romanticamente, e porque sempre me assumi como um homem de causas, decidi ficar. Isto, apesar dos inúmeros apelos e acenos para trilhar por outros caminhos, muito mais promissores em termos de dividendos materiais. Sobretudo, quando vou assistindo, com amargura, como alegre e impunemente se esvazia e se destrói um ofício, valioso património das nações que se prezam, e que é o principal  responsável pela edificação da humanidade e das civilizações ao longo dos tempos. Mas cá continuo. Como muitos outros, afinal.

Pois, há o outro lado da moeda, mais auspicioso, mais luminoso e mais gratificante que é o de testemunhar que há um legado imaterial que muitos da minha geração ajudaram a construir e a espalhar como sementes jogadas nas veredas da vida. E que, por pouco que ele seja, resiste bravamente às intempéries e aos tentáculos da ignorância, da inépcia, da imoralidade, do situacionismo, do exibicionismo rasca e da barbárie, que vão por aí imperando, instituindo-se para nosso infortúnio colectivo, como modelo de vida para muitos espíritos incautos e desavisados. Até um dia.

Há uma outra virtude neste ofício, quando te está entranhado no tutano da alma: que é fazer de ti um fabricante de utopias. Mesmo daquelas que irremediavelmente não vão acontecer tão rapidamente, tão plenamente. Mas que acontecem e se materializam nos múltiplos e valorosos exemplos, naquelas e naqueles que germinaram das sementes disseminadas, e que, de forma digna, competente e conscienciosa vão fazendo do mundo, ainda, um lugar melhor para se estar. Daí que esteja aqui, celebrando silenciosa e intimamente este momento, que representa os muitos momentos que ficaram para trás, mas que valem e valerão sempre a pena.

 

Permitam-me, em primeiro, agradecer ao Agnaldo Bata, meu confrade, por ter a ousadia de convidar-me a fazer apresentação deste seu mais recente livro, confesso que fiquei estupefacto, quando o Bata me abordou e incumbiu-me a missão de oferecer-vos algumas linhas de provável interpretação desta história. A verdade é que não me vejo com arcabouço suficiente para tamanha missão, mas, em nome da literatura e da nossa amizade, atirei-me a este reino musical, para tocar-vos à leitura, espero que as vossas almas dancem depois de terminar a leitura.

Bom, o livro, “Mungadze e a lenda do reino musical”, traz-nos uma história completa, narrada segundo mandam as regras da narrativa do género, típica de histórias mágicas bem-contadas, desde as do cinema às da oratória africana. Uma narrativa que nos prende e nos acompanha ao destino da história e do protagonista. Um protagonista igualmente completo, munido de todas as nuances dos heróis que se celebram em narrativas épicas, um herói que se apresenta revestido de todos condimentos dos grandes heróis.

Primeiro, na introdução, apresenta-se-nos com a resistência, no do protagonista, mas das personagens a sua volta, o que desde cedo, o protagonista, demonstra tamanha coragem para encarrar o problema que se colocava à vista, o que o leva a partir à aventura, onde encontra e supera inúmeras dificuldades até à conclusão, a gloria final, acompanha da moral da história. Estes elementos permitem elevar o nível de suspense e envolver e fazer dos leitores parte da história.

Existe neste livro, como disse, todos os artefactos das grandes histórias, porém, para este exercício de excitação à leitura, elegemos dois 1) o enredo: como a história é contada e 2) o argumento: o que a história conta.

No primeiro ponto, encontramos, neste livro, uma narrativa que nos embala e nos envolve, trazendo, como propõem Christopher Vogler e Joseph Campbell, dois dos mais cotados screenwriters hollihoodianos, todas as etapas de jornada do herói, condimentações necessárias para se contar uma história impecável, que são: o mundo comum; o chamado à aventura; recusa do chamado; encontro com o mentor; a travessia do primeiro limiar; provas, aliados e inimigos; aproximação da caverna secreta; a provação; a recompensa; o caminho de volta; a ressurreição; e o retorno com o elixir.

Neste diapasão, encontramos um reino alegre, cuja vivência apresenta-se-nos tranquila e equilibrada, entretanto, na medida que a história se desenrola, acontecem fenómenos que colocam em causa essa tranquilidade, a falta da música que, como consequência, enferma os habitantes do reino, uma situação que exigem uma resolução e, como sabem, quem se entrega a resolver problemas colectivos é chamado de herói. É aqui que se nos apresenta o jovem Mungadze! E toda narrativa vai-se desenrolando em volta desse herói.

No segundo ponto, Agnaldo Bata, traz-nos aquilo que, quase todos concordados que sem ela a vida seria mais aborrecida: a música! Aliás, como diz Nietzsche, o consagrado filosofo alemão, “Sem a música a vida seria um erro”. Ou então, se formos mais extremistas, condizendo Shakespeare, “O homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas”.

A música, esta combinação harmoniosa e expressiva de sons, neste livro, é-nos apresentada em forma de chilreios, que são sons emitidos por um ou vários pássaros, no caso específico, os pássaros missionários que vinham de Cabine, o reino musical.  Um reino que tinha a nobre responsabilidade de criar música para a vida de todos os habitantes, mostrando claramente que sem a música a vida não seria possível.

Sobre a moral da história: este livro ensina-nos, primeiro, a sacrifícios individuais para o bem da maior, da coisa pública, uma prática que nos dias que correm tem se mostrada ausente nas nossas vidas. É só ligaram a televisão às 20h para atestarem o que digo (risos).  

Ainda, o livro “Mungadze e a lenda do reino musical” introduz-nos à educação musical, uma vez que a narrativa gravita em prol dessa arte, mostrando claramente que o Agnado Bata teve o cuidado de pesquisar e trazer os elementos que corporizam a música, sobretudo, a sua composição criativa, como as notas musicais, a forma de cantar e outros.

Testemunhamos, neste livro, um diálogo de uma intertextualidade graciosa e saudável entre a literatura e a música, mostrando claramente, que as artes podem caminhar juntos, o que, de certa forma, demonstra esse companheirismo entre as artes.

Porque não quero esgotar aqui os recursos e pontos que este livro nos traz, eu recomendo-vos a comparar e a lerem, primeiro vocês, depois aos vossos filhos, sobretudo àqueles que ainda podem ler. Divirtam-se como eu me diverti ao ler este livro.

Bem-haja Agnaldo Bata, bem-haja a literatura infanto-juvenil moçambicana!

 

*Texto de apresentação ao livro Mungadze e a lenda do reino musical, de Agnaldo Bata, que teve lugar no dia 01 de Março do ano em curso, no Instituto Guimarães Rosa-Centro Cultural Brasil-Moçambique.

 

Retomo uma obra que marca o início da caminhada do autor. Uma espécie de casamento de primeiras núpcias ou parto literário. Por estas alturas, assim esperamos, o autor já se confirmou como conceituado e não como promessa, nem aventureiro ou, ainda, curioso literário. Este era o prognóstico e profecia de Adelino Timóteo, no prefácio da primeira edição.

As crónicas, segundo Areosa Pena, são o género literário onde o autor nos oferece uma pista de como quer ser lido e interpretado. Todavia, nem sempre esta vontade coincide com a disposição do leitor e, muito menos, com a sua preparação para absorver e se deliciar com essa interpretação ou toda a hermenêutica que nos permite e dá o privilégio de julgar e compreender.

Este livro me parece um tratado excepcional de intervenção social. Aliás, Moçambique é terreno fértil para estas narrativas desconcertantes. Uma intervenção social e cultural que não se esgota no Sul, Centro ou Norte do país, regiões plenas de casos e de inconfidências.

Parece um bom pretexto para iniciar a leitura de “Uma vida qualquer”. Reler estas crónicas de Chakil Aboobacar, cuja primeira edição foi lançada em 2009, nos remete ao mundo despedaçado. Ou será que nós mesmos despedaçamos o nosso país e não nos damos conta?

Estes textos reflectem uma forma particular de se olhar para Moçambique, as suas aporias, contradições, confidências, a partir de um lugar privilegiado e longe de qualquer umbigo. O autor transporta e carrega a temática da traição e do amor, dos preconceitos e dos espíritos, do direito consuetudinário, da imagem da beleza corporal feminina, do machismo, da prostituição e do assédio, cada vez mais comuns no meio urbano e rural, do sobrenatural ao esotérico.

Muito provavelmente, o cerne da obra se espelhe no título que dá nome ao livro: o texto “Uma Vida Qualquer”. Nele, o autor faz um retrato aterrador da banalização da condição humana, ao contar a história do puto Jaime, um menino de rua que perde a vida estendido no chão de uma artéria qualquer de uma dessas nossas urbes, sem o devido socorro dos transeuntes e do próprio articulista que por lá indiferentemente vão passando. Isso até ao momento em que o mesmo puto Jaime, já morto, ganha imediata relevância para os mesmos transeuntes e o próprio articulista, quando todos se dão conta do seu falecimento e tentam correr hipocritamente contra o tempo para prestar ajuda! Quiçá procurando um escape que justifique a sua inacção de outrora, ou um alento para o fardo que passam a carregar na consciência. Quantas vezes não somos também assim, nen-humanos em vida e super-humanos na morte?

Todos os outros textos são lugares e sabores, valores éticos e programáticos para descrever esta sociedade cujas matérias de relacionamento social, cultural e de justiça social, continuam tão desiguais como deprimentes. O autor teve o sentido de oportunidade, destreza e determinação para expor o seu sentir, pulsar de uma sociedade enferma.

Os textos Maria, Amina, A Ida ao Maprofeta, Desejos da Alma, Minas de Morte e O Diálogo Fornicológico causam indignação por denotarem uma erosão de valores sociais, mas, igualmente, um sistema que aprofunda a exclusão social, a pobreza, a corrupção e os conflitos de toda a ordem. O autor, presumo, revisita a necessidade de mudanças sustentáveis no quotidiano das pessoas.

O autor recorre, com astúcia, a figuras de estilo para descrever esse quotidiano. Pela brevidade e leveza como faz, dá a impressão que se transfigura e ressignifica essa realidade social, transbordando, de forma objectiva, o seu pensamento assertivo, suculento e criando essa simbiose do oficial com o tradicional, abrindo, então, os caminhos para uma leitura relaxada, e que não fere e nem, sequer, parece ser temerária.

Chakil escapa, também, à armadilha intelectualmente empobrecedora de atirar para baixo do tapete as questões espirituais e de fé, que fazem o dia-a-dia de milhões de moçambicanos, num momento em que não se vislumbram alternativas para a reversão das dificuldades. Os espíritos parecem ser o seu fio condutor. Esse exoterismo, ou seja, o sabor do interior que existe para lá das aparências e que exige um certo esforço para se poder atingir.

Todos os amantes da literatura terão esta oportunidade de conviver com estes títulos fogosos e devorar os textos com um prazer e doçura. O autor, apesar de missões partidárias e empresariais, veste-se de muita intelectualidade e militância. Uma responsabilidade missionária que o tempo se encarregará de confirmar se ele continua sendo feito de palavras ou de acções.

 

É comum que um autor fique perturbado com a leitura que se faz do seu livro. Não seria difícil citar 10 exemplos em que tal aconteceu. Vezes há em que tudo termina entre os botões do autor e sabe-se da sua perturbação pelos corredores, cafés e bares. Noutras vezes (não poucas) os escritores usam redes sociais ou colunas de jornais para manifestar o seu desencanto com a leitura de um certo crítico (ou aspirante ao ofício). Vemos, em alguns livros, uma tendência subtil do escritor deixar pistas que norteiem o exercício de leitura que, a priori, é alheio a si e é matéria de outros poderes. Neste caso, o do leitor. As epígrafes, os preâmbulos, as notas de autor e outras “manobras” paratextuais são recurso preferencial dos autores para enviarem recados ao leitor antes, durante e após a leitura da obra. Haverá, certamente, quem se interesse em aprofundar esta matéria.

Vem isto a propósito de uma nota que Wole Soyinka deixa em “a morte e o cavaleiro real”, uma peça originalmente publicada com o título “Death and the King’s Horseman”, traduzida para português por Sandra Tamele e publicada pela Ethale Publishing, em Moçambique.

Tive a infelicidade de ler a nota do autor antes que lesse a peça. Embora seja fascinado pelos fenómenos que emergem num contexto de contacto entre culturas, tenho reservado alguma sobriedade para ler o que o texto oferece e, aliando ao que já carrego no meu saber enciclopédico, faço uma leitura interactiva alicerçada nos preceitos de Mikhail Bakhtin. Neste caso, foi-me difícil ler o texto sem o assombro de Soyinka ao ouvido dizendo como a sua peça devia ser lida ou, quiçá, encenada.

A dado momento da sua nota, Soyinka diz o seguinte:

O mal dos temas deste género é que assim que são empregues criativamente adquirem logo o fácil rótulo de “choque de culturas”, um rótulo prejudicial que, longe da sua má aplicação, pressupõe uma potencial igualdade em todas situações da cultura estrangeira e da cultura indígena, em solo da última. (Na área da má aplicação, o prémio de literacia e condicionamento mental no ultramar cabe indubitavelmente ao autor da sinopse da edição americana do meu romance Season of Anomy, que afirma descaradamente que esta obra ilustra o “choque entre valores antigos e novas maneiras, entre métodos ocidentais e tradições africanas”!) É graças a este tipo de mentalidade perversa que penso ser necessário acautelar o potencial produtor desta peça contra uma triste tendência reducionista similar e, em vez disso, guiar a sua visão para a tarefa muito mais difícil e arriscada de elucidar a essência lamentosa da peça.

Trata-se de uma peça que aborda eventos ocorridos em Oyo, antiga cidade yoruba, na Nigéria, em 1946. O Cavaleiro Real, Olori Elesin, é o centro da trama. Segundo um secular costume tradicional yoruba, após a morte do rei, o seu cavaleiro devia suicidar-se para acompanhá-lo ao céu.

Elesin, gozando de simpatia pelos habitantes da comunidade yoruba, revigora-se para viver o seu último dia em absoluta felicidade. Alegra-se. Faz grassa com os seus. Faz o que mais lhe dá gozo. E, não menos importante, escolhe uma mulher com quem ter o último coito antes da partida e, segundo os costumes, é a esta que caberá a tarefa de lhe tapar os olhos depois de morto. Sucede, entretanto, que a mulher por si eleita já havia sido prometida para um jovem da aldeia. Embora tivessem surgido protestos para negar esse desejo, tal não podia prosseguir porque “ninguém iria remediar o flagelo da mão fechada no dia em que todas deviam estar abertas à luz”. Pela importância dada ao ritual, a comunidade yoruba esteve toda informada sobre o que iria suceder naquela noite e, entre cânticos e batuques, registava-se o momento. Tanto pelas informações que corriam quanto pelo som de cânticos e batuques, Simon Pilkings, o administrador colonial, toma conhecimento do que iria suceder e ordena a prisão de Elesin por considerar a prática do suicídio nociva, ilegal e, acima de tudo, entendia que o costume em volta dele era atrasado.

Para os yoruba, a interrupção do ritual e o impedimento do suicídio de Elesin significava a condenação de toda uma comunidade e das gerações posteriores a um caos sem precedentes por se ter inviabilizado uma ordem cósmica secular.

Este episódio ocorre na mesma altura em que Olunde, filho primogénito de Elesin regressa de Inglaterra, para onde fora cursar Medicina à mercê de uma bolsa de estudos facultada por Simon Pilkings como forma de incentivar o jovem que tinha bom desempenho na escola e merecia uma sorte melhor que “seguir tradições atrasadas e desumanas.” Ciente do que se estava a tratar, Olunde assume a responsabilidade do pai e suicida-se em seu lugar. Elesin, por seu turno, suicida-se, também, na prisão, mas tal não chega a ser suficiente para inverter a má sorte que se iria instalar a partir do momento em que o ritual foi interrompido e se invertido a ordem natural dos acontecimentos, segundo a visão do mundo yoruba.

Retomando a divisão aristotélica dos modos literários, indubitavelmente, “a morte e o cavalheiro real” é um texto circunscrito no modo dramático. De forma específica, trata-se de uma tragédia pelo tipo de temática que aborda, das acções em conflito e da mudança paradigmática da vida de Elesin da situação inicial à final. Do ponto de vista externo, a peça apresenta cinco actos e vinte e uma cenas. Internamente, diria que a exposição corresponde ao primeiro e segundo actos, o conflito ocorre nos terceiro e quarto actos, e o desenlace desencadeia-se no último acto. A peça gira em torno de Bardo, Elesin, Iyaloya, Simon Pilkings, Jane Pilkings, Amusa, Joseph, Noiva, Guarda, Sua Majestade Real o Príncipe, O Residente, Ajudante de Campo, Olunde, Batucadores, Mulheres, Meninas e Dançarinos do Baile.

Do ponto de vista de relevo, dentre estes personagens, Elesin (protagonista) e Simon Pilkings (antagonista) são principais; Olunde, Iyaloya, Bardo, Jane Pilkings, Amusa, Mulheres e Meninas são secundárias; Joseph, Noiva, Guarda, Sua Majestade Real o Príncipe, O Residente, Ajudande de Campo, Batucadores e Dançarinos do Baile são figurantes. Conforme referi, as acções de “a morte e o cavaleiro real” ocorrem num mesmo universo espacial e temporal: Oyo de 1946. Ora, conforme refere o autor na já aludida nota, “por meras razões de dramaturgia, a acção foi recuada dois ou três anos, para quando havia guerra.”

Em “a morte e o cavaleiro real” podem emergir várias leituras. Mas algumas não vingam, não só por ter sido objecto da refuta que Soyinka adianta na nota desta edição, como porque não encontra fundamento consistente no desenrolar da peça. De facto, ler a peça na perspectiva de contacto entre culturas só teria azo se o diálogo entre Olunde (filho de Elesin) e Jane Pilkings (esposa de Simon Pilkings) no quarto acto se tivesse prolongado e tomado as rédeas de todo enredo a partir do momento em que inicia. Mas, não! A pouca primazia que o autor deu a esta interação sustenta a coerência do que ele diz em relação àquilo que ocorre do ponto de vista material. A ter de fazer uma interpretação global da peça através de ocorrências bastante episódicas, haveria espaço, inclusive, para traçar um itinerário interpretativo que nos faria chegar a conclusão de que independentemente da formação académica a que Olunde fora submetido, o seu substracto cultural falou mais alto a ponto de se suicidar para salvaguardar um costume tradicional e manter a plenitude da sua comunidade por gerações. Portanto, a meu ver, as interpelações dialécticas que surgem nas entrelinhas da conversa entre Olunde e Jane Pilkings vêm a título de reboque de um impacto discursivo ainda maior.

Vejamos, se lermos o fenómeno Elesin numa perspectiva das narrativas orais (embora neste caso de trate de uma peça) podemos encontrar sustento na análise da sua situação inicial até a final. Dir-se-ia tratar-se de um herói (não se confunda com a noção de heroicidade; entenda-se o conceito na perspectiva de análise textual que é equivalente a protagonista) que teve uma situação inicial feliz, foi perpetrando transgressões no decorrer do enredo e culmina com uma situação final trágica: um castigo. Assim, do ponto de vista temático-antropológico, “a morte e cavaleiro real” seria um texto que apresenta “pessoas e/ou animais através do comportamento dos quais se pretende abordar questões ligadas aos costumes da comunidade, hábitos morais ou culturais, premiando os cumpridores e castigando os transgressores.

Objectivamente, diríamos que, em parte, o facto de ter usado o seu último dia para a satisfação de desejos até certo ponto mesquinhos pode o colocar na posição de transgressor dos costumes do povo Yoruba como, por exemplo, a tomada de uma jovem como sua mulher quando esta já havia sido prometida para um outro jovem da comunidade. Este e outros aspectos podem sustentar o seu infortúnio (castigo). Haja vista, contudo, que neste caso o castigo não é só para si, mas para toda comunidade.

Por outro lado, pode-se perceber que o jogo discursivo no plano extratextual independe da forma como a peça termina. Eis, quiçá, a razão de Soyinka não dar o desfecho sobre a previsão do infortúnio do povo Yoruba dentro da peça. O que pode sustentar que independentemente do que fosse acontecer naquele universo, cá (no plano extratextual) inscreve-se o essencial: compreender a cosmovisão do povo Yoruba relativamente à morte _ por um lado como continuidade da vida terrena numa categoria superior e com alcance aos destinos dos vivos; por outro, como um imperativo altruísta do ponto de vista existencial porque o suicídio do cavaleiro real era visto como uma atitude nobre em benefício da comunidade e das gerações posteriores àquela que conviveu tanto com o rei quanto com o cavaleiro real.

Ler a morte (e mais especificamente, o suicídio) neste viés yoruba abre os horizontes para perceber como um fenómeno intrínseco à condição humana pode ter tão variadas concepções em diversos povos. Se para uns a morte não é o fim, é parte do processo evolutivo da alma para chegar à pureza (nirvana); para outros é o fim de uma missão para encontrar o pai celestial e em função das acções terrenas abrir-se-ão novas possibilidades de existência noutro plano; há os que entendem que se trata de uma viagem para outro plano com a possibilidade de nortear o rumo dos que vivem e interceder por eles perante o supremo; etc. Para os Yoruba, este dilema existencial é tido de outra forma e na sua organização sócio-cultural não se espera que tal imperativo altruísta e existencial ocorra por causas naturais, mas voluntariamente através do suicídio que, neste caso, esteve entre “a morte e o cavaleiro real”.

Quando se fala da situação na Ucrânia e das “atrocidades” cometidas neste país, sempre se invoca o tema de Bucha. É um exemplo predilecto dos políticos, jornalistas e analistas para provar a natureza alegadamente ilegal das acções da Rússia.

À luz da “Cimeira de Bucha”, recentemente realizada em Kiev, na qual participaram representantes de vários países que apoiam o regime neonazi na Ucrânia, é de recordar o verdadeiro estado de coisas, apontando, mais uma vez, a fantasia ilimitada da propaganda ocidental.

Já não é estranho que os meios de comunicação ocidentais não revelem que, na verdade, nos dias em que os militares russos estavam nesta pequena cidade nos arredores de Kiev, a população local circulava livremente pelas ruas e utilizava telemóveis – tais factos são fáceis de provar. Dado que a rede de telefonia móvel não estava cortada e as suas capacidades tecnológicas não estavam comprometidas, os habitantes locais tinham toda a oportunidade de enviar mensagens ou telefonar aos seus familiares ou aos media para fazer denúncias, enviar fotografias e vídeos. Porque não foi detectada nenhuma mensagem deste género? – Se calhar, não havia nada a reclamar?

Além disso, as estradas de Bucha para o norte e para a Bielorrússia não foram bloqueadas. Os militares russos trouxeram e distribuíram 452 toneladas de ajuda humanitária entre os habitantes da região de Kiev. Enquanto isso, as próprias tropas ucranianas bombardearam quase sem parar com projécteis de grande calibre e mísseis os subúrbios no sul da cidade e bairros residenciais, onde tinham estacionado as tropas russas.

A 30 de Março de 2022, estas tropas retiraram-se de Bucha, o que um dia depois foi confirmado pelo Presidente da Câmara da cidade, Anatoli Fedoruk, que transmitiu, nas redes sociais, a sua vídeo-mensagem de alegria sem qualquer menção de alegados crimes de guerra e massacres no local. Passados quatro dias, “milagrosamente”, apareceram os corpos em ruas da povoação, sem sinais naturais de terem sido mortos há dias. O que aconteceu durante esse lapso de tempo? Evidentemente, naqueles quatro dias, foi preparada uma cínica e terrível provocação ao estilo das tropas nazi-fascistas da Segunda Guerra Mundial.

De acordo com a prática internacional, acusações de crimes de guerra entendem a realização de uma investigação profunda e apresentação de provas verídicas. Contudo, passado um ano, não foram dadas respostas concretas quanto à identificação dos corpos, tempo e causas da morte, nem encontraram explicação ou vestígios da possível deslocação dos cadáveres. Para nem falar da lista oficial das vítimas, que, apesar de vários pedidos à ONU e autoridades ucranianas, a Rússia não viu.

A ausência de respostas a estas perguntas básicas não deixa dúvidas de que estes acontecimentos não passam de uma campanha de propaganda encenada pelo regime de Kiev. Na altura, os objectivos principais da palhaçada foram, primeiro, fazer fracassar as negociações russo-ucranianas, que se desenvolviam então em Istambul numa maneira positiva, e segundo, lançar outro pacote de sanções anti-russas pré-preparadas pelo Ocidente.

A farsa em Bucha desencadeou uma onda de falsificações similares sobre os alegados massacres de civis pelo exército russo. Foram organizadas viagens de jornalistas estrangeiros a Bucha e estrondosas acções de propaganda. No entanto, o regime de Kiev não conseguiu transformar Bucha na “Srebrenitsa ucraniana” – simplesmente porque as provas são nulas. O que a propaganda tenta apresentar como tais não têm nada a ver com o senso comum. Por exemplo, no final de Abril de 2022, o jornal “The Guardian” publicou um artigo em que foi escrito que, nos corpos dos civis mortos, na cidade de Bucha, tinham sido encontrados ingredientes metálicos usados nos recheios dos projécteis de 122 mm. A publicação afirma, sem rodeios, que os ataques de artilharia deste calibre contra Bucha foram efectuados quando a cidade estava sob controlo das tropas russas. Os jornalistas queriam dizer que as tropas russas teriam bombardeado a si próprias?

Os acontecimentos em Bucha, infelizmente, são apenas um dos exemplos de mitos anti-russos do regime de Kiev. O que estão a tentar fazer os neonazis ucranianos, gozando do apoio ocidental inquestionável, é esconder os seus próprios crimes e ao mesmo tempo penalizar o seu adversário que não pode ser vencido de maneira justa. Neste contexto, é mesmo assustador pensar que mais ousaria empreender a Ucrânia e os seus patrocinadores e o que seria feito do nosso mundo se a mentira flagrante fosse aplaudida?

 

Por Alexander Súrikov

Embaixador da Rússia em Moçambique

Havendo a necessidade de regulamentar as actividades audiovisuais e cinematográficas em Moçambique, em conformidade com o disposto no artigo 37 da Lei n.º 1/2017, de 6 de Janeiro, o Conselho de Ministros, através do Decreto n.º 41/2017, de 4 de Agosto, aprovou o Regulamento da Lei do Audiovisual e do Cinema. Trata-se, pois, de um instrumento que estabelece os mecanismos de aplicação da referida lei.

Com efeito, o espírito de criação deste instrumento legal materializa, de forma fiel, o conceito das indústrias culturais e criativas institucionalizado no País. Ora, se assumirmos que a cultura tem a potencialidade de contribuir para o desenvolvimento económico nacional, logo, é necessário instituir mecanismos que possibilitem aos fazedores das artes e cultura a contribuírem para o crescimento económico do País, fazendo jus ao pressuposto institucionalizado.

Aliás, o n.º 1 do artigo 63 (do supracitado decreto) indica, por exemplo, que 60% do valor das taxas fixadas no Regulamento da Lei do Audiovisual e do Cinema se destinam ao Orçamento do Estado; 25% ao Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural (FUNDAC) – organismo de apoio artístico-cultural no País; e 15% para o Instituto Nacional Audiovisual e Cinema (INAC). Estes valores, em primeira análise, revertem-se em benefício do desenvolvimento do sector e contribuem para o crescimento da economia nacional.

Mas onde reside o problema? 

  1. No artigo 54 da lei supra, lê-se: “A autorização de rodagem e pesquisa de produção nacional incide sobre o orçamento da produção, desde que não seja inferior ao salário mínimo em vigor na Função Pública.”

Ao que se pode depreender, provavelmente, o problema não seja usar como base o salário mínimo para definir a taxa, mas a sua universalização. Assim, este dispositivo legal, além de não ser razoável, peca justamente por não criar categorias de pagamentos, pois, no nosso entender, não parece o mais acertado colocar no mesmo nível de pagamento um artista conceituado e um iniciante. Este, geralmente, usa recursos próprios para produzir a sua obra, e enfrenta diversas dificuldades, principalmente para a promover. A sua esperança, para uma projecção nacional, é ver a sua obra promovida na televisão. Por isso, parece-nos contraproducente que, num contexto de apoio cultural público e privado deficitário, ainda se tenha que cobrar a este novo talento uma taxa desta natureza. Aqui, o legislador é chamado a categorizar e/ou criar níveis de pagamentos, usando qualificadores que melhor se ajustem à nossa realidade sócio-económica.

Não obstante, é preciso reconhecer que há artistas estabelecidos. Para estes, parece-nos prudente que se cobre uma taxa de acordo com os níveis de crescimento económico do País, sendo o salário mínimo um dos indicadores. Em outros contextos, em que os artistas possuem uma “Carteira”, as taxas são cobradas baseando-se na classe da “Carteira do Artista”, ou seja, o artista de Classe A não paga a mesma taxa que o artista de Classe B, e assim sucessivamente. Portanto, este método evitaria o que estamos a assistir no País: a universalização das taxas e as suas inevitáveis consequências.

  1. O actual contexto: Para o Governo de Moçambique (GM), a economia Moçambicana tem sido afectada por sucessivos choques internos e externos, com destaque para os efeitos das mudanças climáticas, as acções terroristas em Cabo Delgado, a Pandemia do Covid-19 e, mais recentemente, o conflito na Ucrânia”.

Segundo o posicionamento do Governo, o País está numa situação crítica, pelo que, para reverter este cenário, anunciou o lançamento do Pacote de Medidas de Aceleração Económica (PAE), através do qual indicou 20 medidas para a retoma do crescimento económico. Porém, nenhuma destas faz menção directa ao sector cultural. Desta feita, é dissonante que, num contexto em que vendemos uma narrativa segundo a qual a cultura contribui para a economia nacional, esta não seja um dos beneficiários directo do PAE e de outras medidas de alívio económico.

Em contextos de Covid-19, para conter a propagação desta pandemia e salvaguardar a saúde pública no País, os artistas viram-se obrigados a ficar muito tempo em casa. Como resultado, alguns perderam contratos, os promotores de eventos ficaram estagnados, e as produtoras sem alternativas. E hoje, apesar de estar previsto na lei, não nos parece acertado, olhando para o actual contexto, cobrar taxas de rodagem nestes níveis. Ao proceder-se deste modo, ao invés de se fortalecer uma economia cultural, estaremos a matar a pouca esperança que a classe tem na estabilização das suas carreiras artísticas.

Por conseguinte, no nosso entender, a solução para este problema não passa necessariamente pela revisão da lei, pois os seus procedimentos levam tempo. Infelizmente, perdemos a oportunidade, no âmbito do PAE e de outras medidas anunciadas pelo Governo, de propor o não pagamento desta e de outras taxas num determinado período, enquanto o sector procura criar mecanismos para se estabelecer.

Portanto, o Ministério da Cultura e Turismo (MICULTUR) deve pensar num dispositivo legal de alívio ao sector cultural e criativo, apresentando argumentos plausíveis junto ao Governo central sobre a necessidade de se criar facilidades aos trabalhadores das artes e cultura, considerando o actual contexto económico do País. Alternativamente, com o apoio do sector privado, de financiadores nacionais e internacionais, o Governo pode pensar num programa de apoio cultural, subsidiando os artistas no pagamento de algumas taxas, usando como justificativa a mitigação dos efeitos da Covid-19 (como acontece nos transportes públicos e em outros sectores). Enquanto isso, continuamos a sonhar com um “Programa SUSTENTA” na cultura; um “Programa EMPREGA” na cultura; entre outras iniciativas de financiamento que o Governo institui para os outros sectores. Why not?

O artista é o instigador da revolta dos objectos.

V. Chklovski

 

M. Eikhenbaum entende que “o romance é um problema de regras diversas que se resolve com a ajuda de um sistema de equações a várias incógnitas, sendo as construções intermediárias mais importantes do que a resposta final”. Até à vírgula, nessa citação, a ideia do estudioso russo parece tratar-se de um ensaio matemático. Mas o que está implícito é a percepção de que o romance é um género literário resultante da combinação de elementos plurais, cuja vocação consiste em gerar enredos consequentes. Por isso mesmo, muito além do desfecho, importa o processo que nos pode levar a algum lugar onde possamos morar por tempo indeterminado.

Tendo vivido entre 1886 e 1959, claro está, B. M. Eikhenbaum não leu Geba, onde o Tâmega desaguou no Índico, livro de Miguel César lançado mês passado, em Maputo. No entanto, ainda assim, o pensamento daquele Historiador de Literatura quase é premonitório em relação aos mecanismos de concepção estética e temática do mais recente romance chancelado pela Fundação Fernando Leite Couto. Isto é, na hierarquia do romance, B. M. Eikhenbaum coloca o processo narrativo no topo da pirâmide, relativamente ao que podemos considerar o fim da história. Nesse aspecto, a teoria, digamos assim, coincide com a prática, pois, ao escrever sobre uma história de amor, entre Augusto e Alice, Miguel César investe na fortificação dos elementos construtores do romance. Aliás, o seu esmero na conjugação da narração com o movimento das personagens nos espaços percorridos revela uma certa rigorosidade sobre o tal processo da construção intermediária do que sobre o derradeiro momento da história: menos impactante ou um pouco precipitado.

Em todo o caso, Geba é, paradoxalmente, um ponto de luz crítico, lugar recôndito, mas suficientemente à altura de atrair um casal de portugueses que, nos anos 50 do século XX, resolve aventurar-se numa viagem de dois meses no navio Pátria, sempre à procura de esperança. Temos aqui uma história sobre as crises humanas e humanitárias do nosso tempo, as quais começam com a incapacidade política na resolução dos problemas sociais e terminam com incerteza na emigração.

Quando partem da sua terra, Augusto e Alice apenas deixam para trás um espaço afectivo. São jovens, mas sabem como a vida é feita de algumas realizações. Assim, em Geba encontram o lugar onde podem começar a elevar um lar focados nas coisas importantes.

Ao fixar a narrativa em Geba, Memba, Nacala ou Nampula dos anos 50, uma das consequências é a activação do período colonial em Moçambique, o que instaura no romance alguma intertextualidade com Zambeziana: cenas da vida colonial (1927), de Emílio de San Bruno. Nos dois casos, revêm-se peripécias raciais e perniciosas na relação entre povos diferentes, igualmente ficcionadas em Sehura (1944), de Rodrigues Júnior, cuja história também se passa em Nampula (Ilha de Moçambique, Iapala).

Por um lado, há na escrita de Miguel César um exercício de memória. Por outro, Geba, onde o Tâmega desaguou no Índico é um ensaio sobre a lucidez, contra o que torna os homens inferiores, contra a autoridade imposta e ilegítima, contra a exploração do Homem, contra a ganância e a barbaridade a repetirem-se num mundo cada vez mais narcisista.

No campo visual de Augusto e Alice, a trama é uma experiência dura e cíclica, sobretudo quando se está do lado ingrato da História. Essas duas personagens até são correctas nas suas adversidades. Todavia, são colocadas pelo autor num meio atroz, onde nem sequer existem escolas para matricularem os seus dois filhos com idade escolar. Pior, têm de aprender a conviver com um homem imbecil, o administrador Pedro de Alenquer. É um símbolo da intransigência; de tudo o que o mundo não precisa, mas teima em preservar com extremas direitas espalhadas por aí; é um símbolo da injustiça, o chicote que subverte a ordem natural das coisas; é o rosto que faz de Geba um espaço onde a vida evapora num ápice conforme a vontade da força, do poder e da arrogância. Como diria V. V. Chklovski, Augusto e Alice servem para o escritor instigar a revolta dos objectos, dando-os humanidade e racionalidade.

Não obstante os universos paralelos entre a ficção de Miguel César e a realidade, o seu romance transparece a situação de um contexto no qual a razão é ofuscada por aqueles que se julgam dignos de explorar, magoar ou condenar os outros à miséria. Em Geba quase não há meio-termo: ou ferre-se o próximo ou deixa-se levar pela dor causada pela compaixão. Tudo é uma escolha e quanto mais sensata é a escolha menor é a possibilidade de sobrevivência. Logo, o espaço crítico do enredo corrompe as personagens de modo a tornarem-se capatazes ou subservientes. Nisso há um pouco de “Os índios da meia-praia”, quando Zeca Afonso conclui cantando naquele tom único: “Dizem que o mundo só anda tendo à frente um capaz”.

À semelhança do momento histórico em que vivemos, em Geba a injustiça é para a maioria e a esperança para muito poucos. Portanto, a justiça é apenas um lapso fugaz, que nunca abala o vilão da história por este encontrar-se, como se tem dito, “alinhado” ao um regime político. Veja-se a seguinte passagem:

– Recebi uma carta de um amigo que vive em Nampula. Jornalista de profissão. Regozijo-me com o que nela vem escrito. O representante do governador depois de ter ouvido vários homens de negócios influentes, desta região, incluindo o Doutor Sequeira decidiu e passo a ler porque esta é a melhor parte «exonerar do cargo Pedro de Alenquer e substitui-lo de imediato por um administrador interino até nova nomeação» (p. 204).

A novidade é contada por Gustavo, um amigo de Augusto e Alice. Todos gostam da surpresa, entretanto, depois se desiludem ao perceber que, ao invés de um castigo pelos crimes cometidos contra a população local, Pedro de Alenquer é transferido para São Tomé e Príncipe, para assumir as mesmas funções desempenhadas em Moçambique. Atitudes como essas e personagens como o administrador de Geba degeneram o espaço da narrativa, no qual a esperança é principalmente reservada aos protagonistas.

Nesta aventura pela escrita de Miguel César não se observa, portanto, uma história extraordinária ou uma técnica de escrita fenomenal. O que se revela, e isso é importante, é esse cuidado no retrato das questões sobre as quais o Homem sempre descobre motivos para dividir o que deveria estar socialmente unido. Apesar de se fixar nos meados do século XX, principalmente em Geba, onde o Tâmega desaguou no Índico, no romance cristalizam-se problemas colectivos de um mundo moderno, mas com desvarios injustificáveis ainda intransponíveis. Há-de ser essa uma das razões de Milan Kundera julgar o infinito da alma, se é que isso existe, um apêndice quase inútil do Homem, pois, até hoje, continuamos a investir em motivos para oprimir, separar e matar.

Enfim, ao lermos Miguel César, de facto, lembramo-nos de que “somos todos viajantes do tempo e encontramo-nos sempre entre o passado e o futuro” (p. 20), conforme assegura o narrador da história.

Título: Geba, onde o Tâmega desaguou no Índico

Autor: Miguel César

Editora: Fundação Fernando Leite Couto

Classificação: 13

Foi-me incumbida a missão de fazer um depoimento em homenagem a Luís Bernardo Honwana (LBH), figura renomada e importante da história social e cultural de Moçambique.

Renomada pela mensagem que a sua obra deixa para gerações de tempos diferentes e pelo seu papel de escritor no que concerne à veiculação das suas ideias, consentâneas com as de uma maioria na sociedade, difundindo a causa da dignidade humana. Além disso, as publicações do seu primeiro livro destacam-no como dos precursores da moçambicanidade literária. A sua obra é um marco histórico, social e literário.

O presente jornal, no seu suplemento especial de 14 de Novembro de 2022, em comemoração dos 80 anos do autor, brindou-nos com uma rica matéria sobre este autor. Há também informação disseminada a partir dos arquivos da PIDE (que prendeu LBH em 1964) disponíveis na Torre do Tombo, em Portugal, aos quais não tive acesso. Decidi, por isso, não me centrar, estritamente, na sua biografia, nem nos feitos do autor, mas reler a sua obra Nós Matámos o Cão-Tinhoso, à luz do que ela pode iluminar na sociedade actual. Nessa perspectiva ainda há muito o que abordar.

Como todos sabemos, os símbolos sempre oferecem muitas leituras e estas vão-se tornado dinâmicas ao longo do tempo. Será interpretando esse livro, escrito pelo autor aos 22 anos, que demonstrarei o seu legado. Na verdade, irei homenageá-lo, a partir do que aprendi a fazer profissionalmente, que é também a forma como tive contacto com ele, a Escola, o saber, a ciência. Vim, na verdade, dizer obrigada pelos seus ensinamentos e pelo seu legado.

Sendo relativamente antigo (publicado em 1964), o livro Nós Matámos o Cão-Tinhoso (NMCT) continuava actual, pela sua mensagem e pelo que ainda pode oferecer para uma sociedade mais humanizada e mais humanizante; daí desejar interpretá-la em função dos “Sete saberes para o futuro”, preconizados por Edgar Morin (2002), porque, de facto, a obra ainda nos permite fazer leituras que podem ser um legado para as gerações actuais e vindouras.

Luís Bernardo Honwana é, através do seu livro Nós Matámos o Cão-Tinhoso, cânone literário no ensino secundário moçambicano, desde os anos 80. Abro um parêntesis, para recordar que o currículo escolar nacional, centrado em valores moçambicanos pós-independência, foi introduzido em 1983. Quer isso dizer que desde essa altura o trabalho de LBH é reconhecido no nosso país; embora, em tempos idos, Rodrigues Júnior – escritor e crítico, na época em que a obra foi publicada – tenha tentado minimizar o livro, afirmando que o seu autor, ainda que culto e inteligente, não tinha escrito uma grande obra.

LBH foi também publicado no Brasil pela editora Ática e muito recentemente pela Kapulana, cuja edição acrescentou o conto “Rosita, até morrer”. Por esta última editora, o livro foi publicado em celebração da “consciência negra”, pois a obra presta esse feito. LBH é cânone literário no Brasil.

O meu primeiro contacto com a obra do escritor foi a partir da escola. Nessa altura, este e outros autores eram ensinados a partir de excertos. Além disso, o texto literário era abordado a partir de uma perspectiva estruturalista, que preconiza a análise da gramática e das categorias da narrativa: tempo, acção, personagens, entre outros. Não havia, como há nos dias que correm e disso sou apologista, a análise literária que vai buscar subsídios à interdisciplinaridade, como por exemplo à leitura literária com vieses antropológicos, históricos ou filosóficos. Isso fez com que muitas das nossas interpretações sobre o sentido da obra fossem limitadas.

Por termos pouco conhecimento e porque os anos de submissão das nossas culturas à cultura portuguesa ainda se faziam sentir fortemente, lembro-me de colegas meus afirmarem que no conto “As mãos dos pretos”, por exemplo, que era dos mais ensinados na escola, o autor corroborava a ideia de superioridade racial e por isso é que destacava a supremacia dos brancos sobre os pretos. Poucos líamos a obra como uma crítica social a esse status quo. É uma obra que aborda uma opressão e um sistema, que consideramos em vias de ser suprimido. Lendo-a ao pormenor, podem ser encontrados símbolos que constituem focos de esperança para um renascimento ou para um diálogo intercultural.

É pela raridade ou ausência dessa possibilidade de analisar os diferentes sentidos que ela tem, algo que a escola ainda se nega a fazer (há estudos que o comprovam), que me parece pertinente destacar a mensagem que ainda se pode colher de NMCT. E socorro-me, tal como afirmei, dos saberes para a educação do futuro para a ler e destacar o que se pode assumir ser o legado de LBH, nomeadamente: as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; os princípios de um conhecimento pertinente; afrontar as incertezas; ensinar a condição humana; ensinar a compreensão; ensinar a identidade terrena e, por fim, mas não menos necessário, a ética do género humano.

 

As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão

 Nos contos “As mãos dos pretos” e “Dina” estão representados diferentes tipos de ilusão e de erros que facilmente podem ser cometidos numa sociedade: o da superioridade cultural e racial, e da superioridade a partir de um estatuto. Tudo isso não passa de ilusões e LBH sugere a compreensão disso.

Em “As mãos dos pretos” todos os personagens intervenientes da história têm ideias que podemos designar de subversivas sobre a humanidade: as mãos dos pretos são mais claras que o resto do corpo ou porque são escravos e andavam com as mãos no chão como bichos do mato para não sujarem a comida dos seus patrões; ou porque Deus decidiu fazer pretos pintando-os com o fumo de uma chaminé; ou porque foram feitos de madrugada e só molharam as plantas das mãos e dos pés num lago de água fria, deixando o resto do corpo; ou porque viviam encurvados a apanhar algodão na Virgínia (EUA), etc. (cfr. pp 119-122, NMCT).

O grupo de personagens que faz essas afirmações inclui: o senhor Professor; o senhor Padre; a Dona Dolores; o senhor Antunes; o senhor Frias; a mãe da criança narradora. Exceptuando esta última mulher, todos os personagens convergem na ideia “determinista” de que os pretos são a raça criada por Deus para servir ou sofrer. É uma das mulheres do grupo, a mãe do narrador do texto, que enaltece a diferença entre os seres humanos. Ela demonstra que os homens têm a cor da pele diferente uma da outra, porque sim; porque tinha de ser assim. Ou seja, para mostrar a igualdade entre os homens.

À luz do que hoje é importante ensinar à sociedade pode-se dizer que não há relevância em se estabelecer supremacia de umas raças sobre outras. E há uma lição que fica: LBH coloca a sabedoria na boca de uma mulher, o que tem muito para nos ensinar e dizer. Tem havido movimento e lutas para se devolver à mulher o seu lugar de paridade humana ao lado do homem.

No conto “Dina”, continua o foco na mulher; desta feita, alertando para a ilusão e o erro do uso da força para a subjugar. Um capataz, representante do colono, no lugar de exercer a sua actividade de controlo de trabalhadores numa machamba, usa da sua força e do seu poder, violando uma mulher, aos olhos do seu pai. Este é um alerta à sociedade sobre um problema que ainda existe e que se deve ensinar a combater: a ilusão de haver vantagens em nascer homem e desvantagens em nascer mulher. Esta questão transcende o contexto opressivo da sociedade colonial a que o conto reporta e alcança latitudes e espaços hodiernos. Tanto ontem como hoje, imperativamente emerge a questão: haverá alguma culpa que as mulheres carregam? Está lançada neste conto a ideia da importância de se estudar o outro, conceito hoje caro e premente nas ciências sociais.

Para encerrar este tema, o legado que nos fica de LBH é o de que os homens são todos iguais, não interessa a sua cor de pele, nem o seu estatuto ou poder físico. As diferenças entre as pessoas, como ensina Confúcio, têm a ver com os hábitos que têm – e eu acrescentaria com as possibilidades adquiridas nos contextos em que vivem. Obrigada, LBH.

 

Os princípios de um conhecimento pertinente

Hoje, as ciências sociais ensinam a “pensar globalmente e agir localmente”. Isto diz-nos muito se lermos o conto “Nhinguitimo”. Dois sinais permitem verificar a importância de ensinar ou abordar o conhecimento pertinente sobre os acontecimentos locais: rolas e ventos.

As rolas são representadas como aves práticas e vigilantes, entre as várias outras mencionadas no texto: andorinhas, abutres, sécuas usam o seu engenho para se alimentarem de bagos de milho. E fazem-no seguindo o trajecto dos lavradores das machambas. Sabem como e onde ir buscar comida. São estratégias aprendidas a partir de uma observação atenta para a sobrevivência. É um conhecimento de não humanos, mas pertinente de se aprender enquanto humanos que somos.

Por outro lado, as rolas anunciam a chegada dos ventos fortes e dos perigos do nhinguitimo. Além disso, há no texto a revelação de uma distribuição de terras entre colonos e nativos, sem o conhecimento dos efeitos dos ventos sobre as plantações. O Sr. Rodrigues, patrão, tinha uma plantação menos produtiva que a do seu empregado, o Vírgula Oito, um analfabeto. Esse patrão, ao descobrir a prosperidade do seu empregado, usa o seu poder, não o conhecimento, para adquirir a colheita da plantação do seu empregado.

O que é que isso nos diz hoje? Que é preciso, primeiro, saber ler os sinais. As rolas anunciam a época das colheitas e a chegada dos ventos do nhinguitimo, ventos fortes. São um sinal de que, a par do conhecimento dos serviços meteorológicos, podem ajudar em estratégias sobre novas formas de agir; ou seja, o conhecimento local não tem de ser desvalorizado em detrimento do conhecimento de quem tem melhor conhecimento ou força. Quem tinha a melhor terra era o empregado analfabeto, Vírgula Oito, que sabia observar fenómenos naturais, a partir da sabedoria e da repetição de eventos naturais. Observar a repetição de eventos é algo mencionado no texto, que as rolas faziam. Além de tudo, é criticado o uso da força para intrujar o outro e disso colher dividendos.

O legado que LBH nos deixa é saber ler os sinais da natureza (as rolas e o seu trajecto, por exemplo), i.e., resultado da observação repetida do mesmo evento; mais o conhecimento, por parte do Vírgula Oito, sobre o melhor lugar para plantar, percebendo localmente os fenómenos naturais. Pelo conhecimento sobre as terras, tinha a melhor parte para se fazer uma plantação. Era indígena. Ou seja, o conhecimento local deve ser valorizado. É um conhecimento pertinente, a par do conhecimento universal ou científico. Nenhum deve sobrepor-se ao outro. Ontem como hoje transcendendo lugares e tempos, esta lição perdura e permanece como um desafio para todos nós! Obrigada, LHB.

 

 Afrontar as incertezas

Nesse conto “Nhinguitimo”, os ventos são uma metáfora sobre a incerteza. É preciso fixar a época certa para se lançar a semente à terra, a partir da observação atmosférica. Quem não conhece a época das tempestades, incorre no desperdício das suas plantações. É importante viver em estado de alerta. Ainda assim, para o que pudemos constatar nos últimos anos, o facto de se conhecer um fenómeno como a “peste negra”, não implicou saber lidar com o coronavírus, quando este se apoderou da humanidade. Ou seja, os ventos podem sempre trazer surpresas. A vida é uma constante incerteza. Com isto fica a ideia de que, se não vivermos atentos ou se não melhorarmos o conhecimento que temos sobre as coisas, os que aparentemente têm poder apoderam-se dos nossos bens, das nossas terras, no caso do conto em alusão. Obrigada, LBH.

 

Ensinar a condição humana

Edgar Morin destaca a importância que existe de se estabelecer o significado do que é “ser humano”, de se ensinar a complexidade das identidades dos seres humanos. Para ele, “a condição humana deveria ser um objecto essencial de todo o ensino (NMCT, pág. 17).

Se nos ativermos ao anteriormente dito neste texto, tudo leva a crer que a grande sugestão do autor de NMCT é relativa ao cuidado que deveríamos ter com o outro, com os seres humanos e não o temos. Não temos consciência da unidade da essência humana e da diversidade dos seus saberes e das suas formas de estar na vida; daí as classificações que fazemos ou que estabelecemos. Nos dias que correm, na nossa sociedade, por exemplo, está quase que instaurada a ideia de que “se alguém não está connosco, está contra nós”. Não sabemos lidar com as diferenças. Obrigada, LBH, por deixar sinais, na sua obra, sobre a necessidade de nos revermos como humanidade!

 

Ensinar a compreensão

Se prestarmos atenção ao conto Nós Matámos o Cão-Tinhoso, entre os mais estudados na obra de LBH, constatamos que aos homens ainda é necessário ensinar a compreensão de uns sobre os outros, ensinar a importância da compaixão e da empatia pelo outro.

Nesse conto, há um menino pobre a quem não é permitido jogar, porque já se sabia de antemão que não teria condições para jogar a dinheiro. É preto e pobre, é estigmatizado. Por isso, foi colocado de parte e só entraria se os que estivessem a jogar estivessem a perder. Há também um momento de um outro jogo que é referido e que, vendo que o administrador perdia, o menino se ri; nisto, o perdedor cospe entre o cão-tinhoso e o menino. O conto traz a representação de que tanto o cão quanto o menino significam a mesma coisa e esse é um problema ainda existente na humanidade. Ainda não aprendemos a lidar com as diferenças de estatutos sociais. Estigmatizamos, oprimimos, desrespeitamos. Vivemos equivocados, presos em estereótipos. Esta questão não é apenas na dimensão de sistemas sociais, já de antemão estigmatizadores e opressores, entra também na dimensão das relações interpessoais. (NMCT, pp. 21-22).

Ora, este tem sido um grande cavalo de batalha no ensino do que é ser-se humanos, no ensino do que deve ser a igualdade entre os homens, independentemente do seu estatuto social ou económico; ou ainda no ensino dos processos comunicativos entre as pessoas. Lendo sobre isso, na obra de LBH, fica clara a referência para a importância de se ensinar a compreensão do respeito e do cuidado entre os seres humanos. E sobre estereótipos, há que se procurar certezas e não os tomar sempre como certos. Obrigada, LBH por este legado ainda por vir.

 

Ensinar a identidade terrena

Ao se referir à identidade terrena, Morin lembra-nos do que, na minha óptica, pode ser analisado a partir dos poemas “É preciso agir”, de Bertold Brecht (1898-1956) e “No caminho, com Maiakóvsky”, de Eduardo Alves da Costa (1960), que referem que os problemas de uns são os problemas de todos; ou seja, um problema de um país pode atingir repercussões graves e passar a ser um problema mundial, i.e., os efeitos do colonialismo não se fazem sentir apenas nas colónias. A “Revolução dos cravos” resulta de os efeitos do colonialismo não se terem feito sentir só nas colónias. Era, também, um problema para as pessoas no país colonizador.

Obrigada, LBH, por nos recordar que enquanto houver seres humanos sofrendo no mundo, não existe humanidade e que ela se constrói de pedaços de lugares e de gente inteira. Não podemos ficar sem acção perante os problemas do outro.

 

A ética do género humano

 As democracias ensinam-nos ou deveriam ensinar-nos o exercício da cidadania. De tal sorte que defender um indivíduo deveria ser defender a espécie humana. É importante formar consciências que defendendo cada pátria, defendam a cidadania terrena e, por fim, o género humano. É preciso interpelar os Estados para que cuidem dos seus cidadãos, educando e responsabilizando-se pelo bem comum e sobre si próprios.

É importante ainda que cada um de nós, cidadãos, artistas e escritores trabalhemos em nome do que podemos aprender nas relações humanas. E esta é a grande sugestão de toda a obra Nós Matámos o Cão-Tinhoso.

Obrigada, LBH por nos ensinar, tal como John Donne, que “a morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade”.

Enquanto autor e enquanto cidadão, LBH tem-se preocupado com a valorização das culturas moçambicanas. Não sendo um exclusivo seu a necessidade desse resgate de valores tradicionais africanos, ouvi-lo de um assimilado abre caminhos para a compreensão de que a busca desenfreada de outras civilizações deverá ser conjugada com a procura de nós próprios.

Obrigada, LHB por nos mostrar que uma atitude equilibrada entre o que é nosso e o que é dos outros, pode ensinar-nos o princípio da interculturalidade, da reciprocidade ou da equivalência entre valores culturais diferentes, princípio no qual a convivência cultural é pacífica e sem supremacia de uns sobre os outros. É disso que a humanidade carece.

Neste ponto, tomo emprestado os dizeres de Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.” Obrigada, LBH por nos sugerir que uma sociedade na qual as pessoas amem o seu próximo pode ser uma sociedade melhor. É essa a educação na qual teremos de trabalhar hoje, para deixar um futuro alicerçado em valores humanos.

 

Referências

Edgar Morin. Os Sete Saberes para a Educação do Futuro. Lisboa: Instituto Piaget. 2002.

Luís Bernardo Honwana. Nós Matámos o Cão-Tinhoso. Lisboa: Edições Cotovia. 2008.

Sara Jona Laisse, ensaísta. Docente na Universidade Católica de Moçambique.

Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

 

Estou a ler um excelente livro de José Paulo da Fonseca Pinto Lobo. Mistura vários géneros, desde crónicas, reflexões, notas biográficas até mesmo análise política. É uma interessante viagem aos primeiros anos da independência, um convite aos bastidores de gente que serviu este país longe dos holofotes com a sua entrega à causa da construção duma nação.

Um dia esta história terá de ser contada com todo o pormenor para que o exemplo desses heróis não celebrados sirva de referência para os mais novos. São os símbolos duma geração que se entregou ao serviço público tendo como orientação a integridade, o brio profissional e, naturalmente, uma entrega genuína a um projecto político (por mais que a gente não concorde com ele). É a geração de técnicos antes da famosa geração 8 de Março, gente que construiu o Estado com a sua abnegação.

Recomendo o livro sobretudo aos mais novos para terem uma ideia do que já foi possível em Moçambique. A distância que separa a Frelimo de então – com todas as reservas em relação ao projecto político – e a de hoje são gritantes. Queria rir quando li esse post dum jovem que declara ter medo da Frelimo por causa daquilo que a vê fazer. Mas não consegui. Como estou a ler este livro aqui apenas senti um aperto no coração. O membro da Frelimo que não sente o mesmo ao ler isso não deve ter jamais compreendido o sentido da sua militância.

Na página 60, José Paulo da Fonseca Pinto Lobo cita um psicólogo austro-húngaro, Viktor Frankl, fundador da logoterapia, que insistia muito na necessidade de encarar a vida como uma afirmação: “A vida significa, em última instância, assumir a responsabilidade de encontrar a resposta adequada aos seus problemas e ultrapassar os desafios que constantemente apresenta a cada indivíduo. Esses desafios e, portanto, o sentido da vida, variam de pessoa para pessoa e de momento para momento”. José Paulo Pinto Lobo inspira-se nessas linhas para escrever: “Penso então que é o dever dos educadores dar as ferramentas necessárias para que as crianças possam fazer escolhas, assumir responsabilidades e encontrar as suas respostas e o direito destas de errarem para que possam construir o seu próprio caminho”. E remata: “Temos de dar asas para voar e raízes para onde voltar”.

Se alguém ainda precisava duma boa definição do que significa governar hoje em dia, sobretudo em Moçambique, aí está ela. Numa altura em que quem governa – ou dele está próximo – pensa que governar é simplesmente exercer o poder sobre as pessoas, o que sobressai nesta definição é a ideia da atrofia e asfixia de quem é governado. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, sobretudo as que morrem de amores por regimes autoritários, a democracia não é um simples conjunto de procedimentos (eleições, constituição “democrática”, “separação” de poderes, etc.). Democracia é um processo, isto é um trabalho constante na criação de condições para que se voe e se saiba onde voltar.

A nossa dificuldade em apreciar isto vem da nossa incapacidade de nos livrarmos do espírito autoritário que se apossou de nós durante a história. A essência do autoritarismo está na ideia segundo a qual um país se definiria com base numa única vontade. A luta pela independência nutriu essa convicção, principalmente com a necessidade de dar coerência à ideia duma luta “nacional”. Foi lá onde se enraizou a convicção de que tudo o que não corresponde a esta vontade única constitui uma ameaça a ser eliminada. Foi esta convicção que, mais do que o Apartheid, Bandidos Armados e o Imperialismo ocidental, inviabilizou o projecto “revolucionário”, pois fomentou a intolerância ao mesmo que nutriu a ideia duma verdade acima de tudo.

O autoritarismo é por definição hostil ao pluralismo. Quando um partido absolutamente dominante vislumbra o perigo dum “golpe de estado” apenas porque há manifestações de insatisfação com a sua governação o que isso documenta é justamente a hostilidade ao pluralismo que se traduz no medo de se perder o poder a favor de gente que não representa a vontade única porque essa é prerrogativa de apenas um partido. A ideia de que Moçambique, interpretando livremente a citação de Viktor Frankl, possa ser a manifestação da variação individual do sentido da vida, apresenta-se como um perigo à prerrogativa de poder, razão pela qual a repressão constitui a única forma de fazer política.

Não cabe, na mente autoritária, a ideia de que o descontentamento popular possa ser genuíno e que, por isso, não basta procurar inimigos invisíveis, infiltrados ou golpistas. A resposta tem que ser política e deve consistir em saber porque há descontentamento e que condições devem ser criadas para que ele não se transforme em radicalização. Cabo Delgado acena silenciosamente. Não cabe, na mente autoritária, a ideia de que onde aparentemente as ideias se esgotaram seja legítimo que se ensaiem outras. Portanto, aproveitamento político é algo positivo, pois indica a possibilidade de se ensaiarem outras ideias já que o pluralismo é a essência duma ordem política democrática.

Tudo isto é difícil de entender porque as referências da nossa elite política são autoritárias. O que os EUA de Trump, a Turquia de Erdogan, o Brasil de Bolsonaro, a Rússia de Putin, a Índia de Mody, a Hungria de Órban, etc., etc. têm em comum é justamente a ideia da vontade única e hostilidade ao pluralismo. É assim, também, como a nossa elite política pensa, razão pela qual ela se sente mais à vontade na companhia deste tipo de regimes. O autoritarismo é o caminho certo para o totalitarismo (a China de Xi Jinping), algo que acontece já no interior do partido no poder onde todos estão sujeitos ao controlo total dessa vontade única representada pelo chefe infalível. 100% de votos para o líder e mesmo assim há infiltrados que querem destruir o partido…

Vai ser difícil termos asas para voar e raízes para onde voltar quando temos uma elite que não vê o mérito de criar condições para que os moçambicanos façam escolhas, assumam responsabilidades, encontrem as suas respostas e, acima de tudo, usufruam do direito de errarem para que possam construir o seu próprio caminho. Estava a parafrasear José Paulo Pinto Lobo.

Uma elite política com espírito autoritário esgrime a democracia contra o seu próprio povo fazendo exactamente a mesma coisa ao seu povo que o inimigo externo, o “Ocidente”, faz contra o resto do mundo. Um dos nossos maiores problemas em Moçambique é a nossa elite política.

 

O Poeta Luís Carlos Patraquim nasceu, em Maputo, a 26 de Março de 1953. Cresceu na periferia da cidade. O pai – a família era oriunda de Lagos, no Algarve, em Portugal – foi funcionário dos Caminhos de Ferro e trabalharia, como mecânico de aviões, na DETA, que era a Divisão de Exploração dos Transportes Aéreos dos CFM: “E o teu silêncio, o teu silêncio, onde / Florescem, sangrentas, as acácias da Rua de Lidemburgo / E Lagos estremece em azul e punge” – escreverá numa pungente evocação ao pai: “Pela tarde onde caminho, / E a pedra se inscreve no sol que neva”. A mãe era uma leitora omnívora. Dos franceses Balzac ou Victor Hugo, passando pelo russo Fiódor Dostoiévski, aos portugueses Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco ou Antero de Quental serão os autores mais frequentados.  Aos seis anos já lia. A escrita, a inquietude e a rebeldia tomam-no muito novo. Escreve sonetos à Antero e à Camões. Com 16 anos colaborava numa página juvenil no “Notícias”. No liceu integrou um grupo que tentou fazer um jornal – “Progresso”. Do malogro desse projecto até à “Voz de Moçambique” é um salto. Ali estavam alguns dos intelectuais considerados progressistas naquele tempo. Contacta com Eugénio Lisboa, Rui Knopfli, Homero Branco. O contacto com José Craveirinha é decisivo. Começa a conhecer outros nomes importantes. Um deles, Fonseca Amaral, que, na época, estava em Portugal.

O afã do jornalismo, que lhe surge precocemente, será também a expressão da sua “liberdade livre” (como queria Rimbaud), que não se isenta da sua intuição poética. Reconhecerá, anos mais tarde, influências indesmentíveis de José Craveirinha e Rui Knopfli nas suas primícias literárias: a realidade e a arte da palavra. Aliás, a sua poesia, não muito tempo depois, será uma simbiose poética, uma espécie de osmose. Fonseca Amaral é outra referência importante. A língua portuguesa, sabe-se, tem uma importante tradição poética. Patraquim beberá sobretudo de Herberto Helder e António Ramos Rosa (ambos portugueses). Carlos Drummond de Andrade será também essencial. Uma referência irrefutável.

O exercício de rebeldia levou-o a um exílio voluntário na Suécia em 1973. A ideia era integrar a frente libertária. Contacta o movimento, escreve uma carta solicitando adesão à FRELIMO. Entretanto chega o 25 de Abril e em finais de Janeiro de 1975 retorna a Moçambique. Integra “A Tribuna”, então dirigida por Rui Knopfli. São companheiros de redacção: Mia Couto, Julius Kazembe e Ricardo Santos. Com Mia e Kazembe experimentam a crónica literária, a crónica sobre o quotidiano. Integra, depois, o núcleo fundador da AIM (Agência de Informação de Moçambique). Mais tarde, desembarca no Instituto Nacional do Cinema e participa da aventura lírica do “Kuxa Kanema”. Torna-se roteirista. Vivia-se o alvoroço da construção do “homem novo”. O cinema que se intenta no arroubo dos heróis ilustra a época. As contradições são visíveis. Mesmo as que se omitem. O Poeta experencia um tempo aziago.

Quando, em 1980, publica Monção”, na mítica colecção Autores Moçambicanos, do INLD (Instituto Nacional do Livro e Disco), Luís Carlos Patraquim afirma-se, indubitavelmente, como uma poderosa novíssima voz da poesia moçambicana. A literatura era então dominada por uma perspectiva acirradamente ideológica. Havia, na nossa poesia, um dominante tom exaltadamente engajado ou comprometido – a chamada poesia de combate. O livro e a poesia de Luís Carlos Patraquim são um escancarado momento de disrupção. Fonseca Amaral e Machado da Graça estão no INLD. Para quem sabe das circunstâncias que então vivíamos poderá até estranhar a inclusão desta obra e a sua publicação. Ela serviria, afinal, para demonstrar que o regime era democrático, que aceitava publicar livros que não coincidiam com a retórica dominante. Nada que impedisse que os prosélitos da revolução o atacassem ferozmente. Viam naquela proposta uma poesia que não ia ao encontro do povo. Acusaram-no de hermético, questionaram para quem escrevia, como escrevia e por que escrevia.

 Em Março de 2020, Luís Carlos Patraquim publicou uma antologia intitulada “Morada Nómada”, que reúne a maior parte da sua obra poética deste o seu livro primeiro. O volume, organizado por Zetho Gonçalves, inclui livros editados entre 1980 e 2020 e um volume inédito “Kilimanjaro”. Da sua vasta lavra poética avultam: Monção” (1980), “A Inadiável Viagem(1985), “Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora” (1992), “Mariscando Luas (com Ana Mafalda Leite e Roberto Chichorro, 1992) “Lidemburgo Blues” (1997), “O Osso Côncavo e outros poemas (2005), “Pneuma (2008), “Matéria Concentrada (Antologia poética, 2011), “O Escuro Anterior (2013), “O Cão na Margem (2017), “Música Extensa (2017), “O Deus Restante (2017). Para além disso, é autor da novela “A Canção de Zefania Sforza (2010). Publicou, outrossim, as seguintes colectâneas de crónicas: “Enganações de Boca (2011), “Ímpia Scripta” (2011), “Manual para Incendiários” (2012) e “O Senhor Freud nunca veio a África” (2017). Escreveu “Mestiçagens do Olhar” (2007) sobre a pintura de Chichorro. No domínio do infanto-juvenil: “O Gala-Gala Cantor” (2014) e “O Coelho que Falava Latim” (2014).  Estas são as efemérides literárias de Luís Carlos Patraquim, que é também dramaturgo, guionista de cinema e jornalista.

A sua poesia é eclética e escora-se no conhecimento e na exegese da tradição poética que lhe é anterior, num diálogo com os poetas que lhe antecedem e com aqueles que ele elegeu como seus precursores. É, sem dúvida, uma poesia que se articula numa arrojada investida palimpséstica. Palimpsesto significa texto que existe sob outro texto. A escrita funda-se e refunda-se neste consecutivo exercício. A escrita de Luís Carlos Patraquim é inequivocamente palimpséstica. Há sempre um texto subjacente. O texto que ele sugere dialoga sempre com um que lhe é anterior.

Patraquim é um poeta de conhecimento, um poeta glosador de poetas, um poeta leitor de poemas. Um poeta de uma proeminente erudição. O seu léxico poético é depurado. Para muitos um poeta hermético, críptico, ininteligível, impenetrável. Quando se consegue adentrar no seu universo, porém, somos capazes de experimentar o assombro da técnica, da imagética nela emprestada, da beleza inesperada das suas metáforas. A poesia é sobretudo isso: a imagem, a alegoria, o tropo.

Luís Carlos Patraquim é um poeta que reflecte sobre o ofício e tem poemas que são a incessante busca e compreensão do idioma, da linguagem, da expressão, do código ou do sistema poético. Para além disso, a interlocução com os outros poetas, o que acontece nas epígrafes, nas citações, nas alusões ou nas dedicatórias, é também uma espécie de estabelecimento de dicção própria, de uma gramática própria, de uma voz própria.

Não caberia aqui falar de toda a sua vastíssima obra. Entre os seus livros, concita-me “A Inadiável Viagem,” que ele publica em 1985 – justamente quando o conheci e tive a láurea da sua amizade –  e que retoma os traços distintivos de uma linguagem poética instituída no livro precedente (“Monção”), e anuncia, por assim dizer, aquela que virá nas “Vinte e tal Novas Formulações de uma Elegia Carnívora”, a obra com que culmina a trilogia iniciática. Creio, aliás, situar-se, aqui, precisamente, a importância capital desta obra estelar, e residir aí, justamente, a minha predilecção por ela.

 Herberto Hélder, José Craveirinha, Carlos Drummond de Andrade, Paul Éluard, Fernando Pessoa (Ricardo Reis), Jorge de Sena, Jorge Guillén, Henri Michaux, Pablo Neruda acompanham-no nesse exercício palimpséstico. Para além dos textos citados destes autores, encontramos aqui um diálogo abundante e inteligível com poetas como Heliodoro Baptista, Rui Nogar, Sebastião Alba, Noémia de Sousa. Diria que em “A Inadiável Viagem” se amplia, sem logro, este exercício iniciado em “Monção e que prosseguirá nas subsequentes formulações poéticas.

Escreve Luís Carlos Patraquim no poema “Elegia de Sábado”: “em coro te exigimos o sábado/ nós que ferimos o pensamento da carne/ e a quem deslumbra o hierático inútil pranto/ dos mortos habitantes de nós/ repetida barra fixa até à lâmpada do desejo/ e somos o cansaço desta espera nos jornais de domingo/ ilegíveis ainda de alguma letra/ de nós o fôlego  obstinado da rua/ para que a descoberta da língua amanhã senhor/ nasça da fornicação do sábado”.

Aqui se pode intuir a desafeição em relação a uma realidade social dissemelhante do “tempo do canto / conquistado a sangue” exaltado, indiscutivelmente, na obra inaugural. Pouco depois de publicar este livro (“A Inadiável Viagem) escreveu dois poemas violentíssimos sobre o tempo que nele, de alguma forma, anunciara: um deles, sem título, sobre os mutilados de guerra e outro – a duríssima “Elegia Carnívora”. Os textos em causa iriam integrar o livro subsecutivo.

Patraquim: “e somos o cansaço desta espera nos jornais de domingo”. Aqui está a chave e a expressão inequívoca do desalento, do cansaço, da astenia. Este verso denuncia um poeta distante daquele que, num poema em homenagem a Craveirinha, a dado passo, escrevera: “chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia / de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando/ a natureza e o chão no parnaso das balas”. Alusão não só à “primavera de balas” (Craveirinha), mas uma manifesta sagração do tempo que então vivíamos.

Se em “Monção encontramos o lirismo amoroso, encontramos textos que aludem a um diálogo intertextual com outros poetas, numa linguagem que se distancia da voz colectiva e colectivizadora, sem, no entanto, se exonerar de apostrofar a realidade social – Patraquim é um poeta que assume uma intervenção social –, em “A Inadiável Viagem, temos isso e muito mais: temos o amor, o corpo celebrado da mulher (“a dicção do teu corpo”); temos a evocação da infância (que encontramos em Fonseca Amaral ou Noémia de Sousa – eis um dos eixos temáticos da poesia moçambicana: “Rua de Lidemburgo”: “da infância refaço esta clave nua/ a fisga de a sorver tão perto/ as goiabas rubras trazidas ao riso/ deste fermento que ora traduzo/ porque espero e no chão incorruptível/ a ternura dos dedos entreteçam o sono/ à sombra de um sinal que apeteça/ e outra vez na falésia da noite/ a metamorfose da água permaneça”); temos, sobretudo, uma realidade disfórica, o manifesto ocaso da revolução, o desalento ineludível. E nisso o título e o livro assumem uma biografia poética e uma trajectória pessoal irrefutável. Luís Carlos Patraquim partiria para Portugal no ano a seguir à publicação deste livro, onde vive ainda hoje.

Luís Carlos Patraquim: “À uma hora da madrugada somos deus/ aos látegos sobre os perfis das casas/ das frontes latejando voos de extenuados/ pássaros e batemos no poema. Abram/ Já não morremos nas mãos brincando/ do menino com dois anos de idade. / Assassinou-se, para não ser homem nem deus,/ nem perguntas de voos augurando/ metafísicas inúteis na ascensão de domingo/ à uma hora da madrugada.

Este poema é de uma grande violência lexical e imagética, um dos mais ásperos de toda a literatura moçambicana. Um poema que exprime, com contundência, os anos 80 e a derrocada do sonho moçambicano, assassinado como o menino de dois anos, num dos textos mais pungentes, lancinantes e comoventes da poesia moçambicana no século XX:

“Batemos. Abram os estádios magníficos/ de todos os orifícios. Cuspam-nos/ o fogo que mata.  Abram! / À uma hora da madrugada, meu deus. / Tão poucos a Sul, limpos e longe/ do país dos hiperbóreos. Tão já sem nada/ e um largo coração de ideias/ apodrecendo nas virilhas cortadas. / Ao perdido arfar de nós que nos perdemos, / matrissuicidas de deus na lixeira/ com mabandidos vídeos estilizando-nos/ em eléctricas úlceras de arco-íris, / nós voltamos. Dêem-nos os pulmões candongados/ em Tsalala, os polanulantes espantos/ depois das praças em comícios/ de núpcias sobre a gengiva dos dias”.

 É como se escrevesse nesta “Elegia Carnívora”, poema de uma mordacidade inaudita, o epitáfio de uma época, na qual a morte de Samora Machel, em 1986, tem um significado mais do que simbólico: o abismo por onde resvalaram todos os sonhos. A desesperança evidente, o desconsolo que vaticina a viagem. Uma espécie de presságio, pressentimento, profecia.

Corrobora nisso, nesse mau agoiro, o poema sobre os mutilados de guerra: “Sentam-se sob as acácias no asfalto roto/ os mutilados com cigarros de embalar. / Nenhum som os recorta/ e todos os sentidos foram amputados. / Nem para a tarde crescem frustrados. / Esperam. Que inconclusa forma/ os limita em fórmula de serração? / Que ameaça os delira? / Nenhuma flor/ explode, poeta, no coração? / Os mutilados sonharão? Suas pernas? / O desejo, fruto podre adubando. Outra mão? / Que triste palavra os baba / no cigarro morto! Vendem. / Nenhum incesto os estanca. / À revelia do sol, os mutilados/ montam banca.”

O Poeta escrevera: “agora vou com amendoins na língua ínsula” e ficaria com os pregões a reverberar na memória: “agora Amêjoé vestiu a rua dobrou a esquina”. Ficariam belos e comoventes poemas que se entretecem na sua biografia. Num poema dedicado a Gulamo Khan proclama: “Escrevo, não obstante, um país solar, / rouca a língua que soluça em sintagmas antigos”. “A memória é isto. / Mas já não elido”. Ou: “Depois das elegias o alcandorado grito / sobre o deserto chão do poema”. Provavelmente, a viagem será a grande metáfora da sua biografia. A sua viagem a Ítaca. Os seus mitos matriciais.

Há nesta poesia, eu me atreveria a dizer: neste poema em continuum (que é a sua obra toda) mitos recorrentes, ainda que se encontrem cartografados numa “sintaxe de sombras”. Um desses mitos, a Ilha de Moçambique. Muhípiti: “É onde todos somos inúteis”. Ilha de Próspero, Ilha de Caliban. Ilha de Alberto de Lacerda (“Ó Oriente surgido do mar / Ó minha Ilha de Moçambique / Perfume solto no oceano / Como se fosse em pleno ar”);  Ilha de Rui Knopfli (“Ilha, velha ilha, metal remanchado, / minha paixão adolescente / que doloridas lembranças do tempo / em que, do alto do minarete, / Alah – o grande sacana! – sorria / aos tímidos versos bem comportados / que eu te fazia”); Ilha de Eduardo White (“Amo-te sem recusas e o meu amor é esta fortaleza, esta Ilha encantada, estas memórias sobre as paredes e ninguém sabe deste pangaio que a Norte e na Ilha traz um amante inconfortado”);  Ilha dos Poetas, Ilha de todos: “Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos / e marulham as vozes”. “Ilha, corpo, mulher. Ilha encantamento. Primeiro tema para cantar” – Luís Carlos Patraquim.

Poesia de outras viagens, poesia de todas as viagens. Em Lisboa encontramo-lo “mariscando luas” na casa do pintor onde “os amigos entram pela janela / de luz na tarde atlântica”, ou no café Martinho de Arcada, evocando um poeta amigo. Poesia aliás habitada de afectos e de poetas, de poetas mortos como Rui de Noronha, Reinaldo Ferreira, José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar, Gabriel Makavi, Fonseca Amaral, Gulamo Khan, Leite de Vasconcelos, Grabato, Dias, Sebastião Alba, David Mestre, Guilherme Ismael. Afinal, conclama o Poeta: “Não tenho mais legitimidade do que a de todos os mortos”.

Ou como escreverá, muitos anos depois, em “O Deus Restante” (2017): “Aqui onde o Zambeze se afoga na estreita garganta / depois da sumptuosa queda de Deus”.  Este livro como “Musica Extensa”, do mesmo ano, são poemas únicos. Poemas em que acena constantemente ao Índico.  O Atlântico não lhe ilude o referencial: “O Índico é um mar interior”. Com as suas fúrias, alegorias e tragédias. Poeta atento ao seu país. Poeta, na sua “Morada Nómada”, que lhe colige a obra, continua afinal a mesma voz, a mesmíssima voz inicial: “rigorosamente viajo no tempo / e não sei / não sei se é canto ou ave / o que canto”, como principiara: “com palavras faço a voz”:

“é preciso inventar-te porque existes

enquanto os deuses adormecem nas páginas dos livros

e o real é a infinita medida do canto”

Hoje, ainda e sempre, é preciso sobretudo essa “insurrecta linguagem do mundo”, “é preciso a insurrecta solidão de alguns dias” e “é preciso tudo como haver morte e flores” porque, agora como sempre, “nascemos hoje demasiado e vivos”.

A poesia de Patraquim sempre soou estranha. Um timbre fora do contexto da poesia que era comum produzir-se e publicar. Vivíamos, é preciso sublinhar, os primórdios da independência e estávamos, muitos de nós, imbuídos daquele fervor messiânico e revolucionário. Poesia que será também um acto de rebeldia contra um universo concentracionário que se vivia.

A importância de Patraquim também advém daí, dessa rebeldia, que iria informar a minha geração. Por causa do seu estro, do seu talento, da sua exuberância poética, do esplendor da sua metáfora, da ideia de que a poesia é a metáfora, da sua oficina burilada, da sua extraordinária capacidade imagética, da explosão das suas vibrantes imagens, o reino das imagens, da sua voz de eleito. Da sua iconoclastia, eu diria, finalmente.

Nesse tempo, que aqui aludo melancolicamente, o Poeta exercia uma espécie de sacerdócio para a geração que iria despontar nos anos 80 e que desalinha, por completo, dos ditames da época. A “Gazeta de Artes e Letras”, que ele empreenderia, entre 1984 e 1986, a convite de Albino Magaia, na revista “Tempo”, foi o esteio necessário para a nossa contradita. Patraquim era uma espécie de Papa, nas nossas letras, à época. Para além do facto de não ser alheio à “Charrua” ou às tertúlias da Associação dos Escritores. Naqueles tempos fervorosos, hóspedes da Cindoca às sextas-feiras.

Era, paradoxalmente, um tempo exultante, reconheço-o a esta distância. Éramos felizes e, provavelmente, não sabíamos. Estávamos imersos no desencanto que começara, então, a cansar-nos, por culpa de um quotidiano ingeneroso. Era o tempo do monolitismo político, no qual empreendemos a discordância. Eu reputo esse dissídio, essa dissensão, esse confronto. (“Por isso senhor dá-nos a humilde loucura do sábado”).  Era a nossa matéria-prima e a marca distintiva da nossa geração. Mas nunca nos exonerámos do “amor da terra”, como queria o Poeta.

Releio a obra toda de Luís Carlos Patraquim e revejo nela a sua biografia. Volto aos seus poemas, torno às suas viagens, revisito os seus mitos, reencontro as suas elegias, as suas citações, os seus acenos, a sua sintaxe, a sua gramática, a sua constância, a sua erudição. A sua permanente viagem. A sua incessante busca da Ítaca. Retorno ao seu estro, ao seu exímio estro, aos seus deuses e epifanias. Como sempre é um empreendimento jubiloso.

Termino este cumprimento, no dia dos seus 70 anos, dizendo-lhe aquilo que T.S. Eliot, um dos seus poetas electivos, que ele apostrofa num dos seus mais belos e acerbos poemas (“Elegia Carnívora”), disse, num aceno florentino – Dante Alighieri concedera a Guido Cavalcanti –, de e a Ezra Pound: “Il miglior fabbro”, na dedicatória de “A Terra Devastada”. Não tenho dúvidas de que o Poeta Luís Carlos Patraquim é, hoje, entre nós, o melhor artífice.

 

Kampfumo, 26 de Março de 2023

Por: Venâncio Calisto

O ano de 2010, que foi o ano que marca a minha iniciação no mundo das artes e do teatro em particular, é para mim a época de maior efervescência cultural na cidade de Maputo. Se os anos noventa do século passado representam o auge da actividade teatral na capital do país, em termos de criações, públicos e internacionalização das companhias, 2010 pode ser considerado o ano do renascimento de uma nova geração de artistas e iniciativas teatrais.

Em 2010, eu andava na décima classe, na escola secundária Noroeste 2, havia perdido um ano por faltas excessivas na disciplina de Educação Física, é que desde pequeno eu não djimo o corpo, eu djimo a mente. Brincadeiras à parte. A segunda década do nosso milénio começou em grande. O recém-criado curso superior de teatro na ECA já começava a dar os primeiros frutos. Novos textos, novos autores e, sobretudo, novas técnicas de fazer teatro começaram a despontar por todo lado. As velhas companhias já se abriam para dialogar com os novos actores.

O festival amador de teatro de inverno estava na transição para o que é hoje, internacional e o mais regular. Foi justamente nesse período que eu, atraído pelas multidões de actores que desciam a cidade como um cortejo de carnaval, havia, no semblante de cada um deles, um convite expresso, uma conquista irrecusável. Quando dei por mim estava no palco do mapiko, a tremer de frio e adrenalina. Quem é o fantasma? Texto do meu mestre Nandjir foi o espectáculo mais marcante. Fazia de protagonista e morria no palco, como sempre sonhei. Dali em diante, já não havia volta a dar. Primeiro foram as oficinas de representação, encenação e produção teatral que o Girassol não se cansava de organizar. Depois, a necessidade de aprofundar a alegria de habitar um palco.

O velho Dabula foi peremptório: Vá já se inscrever ao curso de Teatro na ECA. Depois ajudou-me a pagar as matrículas e propinas. Acompanhou todo o meu percurso estudantil. No seu escritório, no Ntsindya, corrigia-me as provas e dava-me infinitos TPC. Mas tudo começou em 2010, o mítico ano do mundial nas terras africanas. Dançamos tanto Waka Waka.

Porque o teatro em Maputo era uma alegria… O Mutumbela parecia procurar se reinventar. Graça Silva e Jorge Vaz assumiram a responsabilidade. O inimigo do Povo, o Xapa 100 My Love, a Máquina Extraviada, Hamlet… Foram tantos espectáculos, tanto alimento… O Luarte, na vanguarda do teatro contemporâneo moçambicano chocava-nos com tanta beleza e criatividade, as encenações do Mambucho e do Eliot Alex, não esqueço-me do Niketche… Em 2010 nasceu a minha fome por arte, mas por nada nesse mundo tomaria a sopa de Lá na Morgue, Dadivo José que me perdoe.

Alcochete, 21 de Março de 2023

O antigo jogador da selecção nacional de basquetebol, Helmano Nhatitima, analisa o estágio actual e as dinâmicas da modalidade da bola ao cesto no país. Campeão pelo Desportivo Maputo, Costa do Sol e extinta Conseng, Nhatitima desvenda a fórmula para o sucesso do Ferroviário da Beira, conjunto que este ano vai disputar pela segunda vez consecutiva a Liga Africana de Basquetebol. Mais: tem dominado as provas internas, relegando, desta forma, para o segundo plano os tradicionais candidatos ao título sedeados na capital do país. A viverem de glórias do passado. Nhatitima entende que as províncias carecem de atletas seniores, moldura humana para praticar a modalidade. Para Nhantitima, a cidade de Maputo está num sono profundo.  Diz ainda que, depois da  “morte” do Desportivo Maputo e Maxaquene, o Ferroviário, porque estava bem financeiramente ou porque tinha pessoas que se importavam, vinha puxando a modalidade. O que já não acontece hoje por hoje!

 

1.-O Ferroviário da Beira não evoluiu da noite para o dia. Primeiro, foi organizando campeonatos nacionais de formação durante anos e, depois, foi organizando “nacionais” de seniores. O Ferroviário da Beira foi vendo como as equipas de Maputo se organizam, porém, nunca conseguia dar o salto. Por quê? Porque acreditava que iria ganhar só com jogadores e treinadores da Beira e isso nunca aconteceu. Quando o Ferroviário da Beira começa a contratar atletas e treinadores de Maputo e, depois de fora, outro galo começa a cantar. Hoje já quase não encontras atletas beirenses no plantel porque tornou-se uma equipa com pretensões africanas e já não pensa “provincianismo”.

 

2- Zambézia é um caso especial. Dá o “boom” depois de 2003, quando o campeonato nacional escalou Quelimane. Foi a partir daí que os miúdos locais treinaram tanto para atingirem o estatuto de estrelas que haviam estado lá ( ndr: isto ouvi da boca de Pio “Lingras” Matos, Augusto “Gordo” Matos” e  Igor Matavele).

 

3- Nampula já anda há muito tempo neste vai vem de “nacionais” e não evoluiu. Já devia ter dado o salto há muito tempo. Nampula tem tudo para ser a terceira província basquetebolística do país, mas nada. Felizmente, tem o Albino Dimene lá – presidente da Associação Provincial de Basquetebol- grande impulsionador. Mas também já perceberam que tem que colher experiência de outro sítio. Questiono: se Octávio Magoliço e Fernando “Nandinho” Manjate não estivessem na equipa do Ferroviário de Nampula, acham que iriam para algum sítio? Não. A qualidade da equipa subiu em mais de 50%. Em condições normais, Nampula ganha mas transpira para vencer as equipas de Cabo Delgado. Na “poule” de apuramento da zona norte para a Liga Moçambicana de Basquetebol, com reforço de Octávio Magoliço, ganhou por mais de 70 pontos.

 

  1. As províncias carecem de atletas seniores, moldura humana para praticar a modalidade. São os mesmos atletas que jogam e saem daqui para ali. Mas para evoluir, primeiro, é preciso derrubar as barreiras mentais e perceber que nós temos ainda muito a aprender, caminhar e perceber quais são os pontos a evoluir e lutar com eles. É normal chegar a uma equipa, pedir um ataque e dizerem que não tem. Jogam com corte e passe. Sério? Nos seniores isso? Correr nos corredores, ninguém conhece isso de corredores. Temos que correr muito, mas o mais importante é correr bem e organizados. Gosto da dinâmica em Cabo Delgado, onde estão preocupados com essa evolução ao chamar treinadores de fora. Mas o maior desafio ainda está no atleta, na mente. Desconstruir a ideia de que o craque é aquele que está com a bola, imitar o lançamento de Kevin Durant ou Kobe Brynt (astro da NBA falecido a 26 de Janeiro de Janeiro de 2020) sem que pratiques treinos individuais de lançamento.

5- Nenhum jogador que chegou à selecção nacional de basquetebol de 2005 até 2019 por aí atingiu este patamar sem quatro horas de treinos diários. Treino individual, a evolução do atleta não ocorre no treino colectivo, mas sim em treinos individuais (lançamento, salto e evolução física).

6- A cidade de Maputo está num momento mau, sem dúvidas. Depois da “morte” do Desportivo Maputo e Maxaquene, o Ferroviário, porque estava bem financeiramente ou porque tinha pessoas que se importavam, vinha puxando a modalidade. Hoje já não tens este clube “pai” que diz “vamos lá ou mexam-se lá”. O Costa do Sol tem, hoje, a melhor estrutura, mas não assume esse papel e enquanto não fizer isso vai chorar sempre em segundo (enquanto o Ferroviário de Maputo ganhou, tinha todo o poder sobre Associação de Basquetebol da Cidade Maputo). A Associação Provincial de Basquetebol de Sofala é o Ferroviário da Beira. A associação, que não tem meios, também está no seu cantinho: inerte e prostrada. Isto para não falar dos árbitros que, sem dinheiro, não apitam. Isto é culpa do nível de organização e da forma de trabalhar que Maputo atingiu e a fórmula está lá e é só aplicá-la. Acredito que a estrutura de jogos nas províncias é, de longe, mais leve que a de Maputo onde temos todos os escalões a se movimentarem com equipas A, B, etc. Contudo, não creio que os árbitros tenham que apitar de borla, até porque não são pai natal mas são parte do problema e, claramente, serão parte da solução.

Resumindo: Manica, Tete e Cabo Delgado tem vontade mas o caminho ainda é longo, e só vão evoluir com muito trabalho.

A expressão latina “ex nihilo, nihil fit” do filósofo naturalista Parménides que, em português, se traduz em “nada surge do nada” configura-se um imperioso pressuposto do Princípio da Razão Suficiente cunhado por Leibniz, mas reclamado por Spinoza. De forma sucinta, com base no livro de Baruch Spinoza “Principia philosophiae cartesianae” o Princípio da Razão Suficiente formula-se na ideia de que “nada existe do qual não se possa perguntar a causa ou a razão de existência”. Ou seja, para este filósofo holandês do séc. XVII, tudo o que existe no cosmos tem de ter uma causa e motivo para existir, e, ademais, mesmo aquilo que não existe demanda explicação de como e porquê não existir. Assim sendo, todo aquele que aceita este princípio filosófico deve assumir a responsabilidade de considerar o mundo como uma rede complexa de fenómenos concebíveis e explicáveis e, jamais, aceitar a existência de factos ou actos brutos, sem precedentes. A expressão de Leibinz “não há efeito, sem causa” formula melhor a ideia do princípio da razão suficiente e é uma assumpção de que a realidade é uma ocorrência de factos interligados entre si de forma necessária e não aleatória. Portanto, tudo que acontece é passível duma explicação, significando que houve uma razão e causa que levou a tal acontecimento. Deste modo, para Leibinz, os milagres e mistérios não constituem uma violação das leis da razão ou lógica, mas sim são mal entendidas pela fraca faculdade cognitiva do ser humano.

Posto de lado a fundamentação do princípio da razão suficiente, passemos ao exercício de correlação existente entre este princípio filosófico e a produção artística “xikona” do cantor moçambicano Xidiminguana. A canção “xikona” cujo álbum leva o mesmo nome retrata, de forma sucinta, uma separação conjugal cujos motivos são desconhecidos pelos terceiros, mas ainda assim há uma absoluta certeza de ter havido uma razão suficiente que levou um dos parceiros a romper a relação. Para uma fiel compreensão, passo a transcrever e traduzir livremente o refrão que constitui a essência da canção, deixando de lado as “apóstrofes”, partes em que o cantor faz censuras ao comportamento da sua mulher e ao do amante dela.

 

A canção segue da seguinte maneira:

Xikona, xikona mpela lexi anga xi vona lwehi wa papai/2X

Alguma coisa aquele senhor teria visto

Loku wa nuna abaleka wansati nambi o’ xonga

Quando um homem abandona uma mulher, mesmo sendo bonita

Loku wa nuna abaleka wansati nambi a ni makwembe

Quando um homem abandona uma mulher, mesmo tendo bumbum

Kuza wa nuna atsukula wansati nambi a ni makwembe djani

Ao ponto de um homem desistir duma mulher mesmo tendo grande bumbum

Xikona, xikona anga xi vona lwehi wa papai/

Alguma coisa aquele senhor teria visto

Animu hembele, xikona anga xi vona lwehi wa papai

Não estou a mentir, alguma coisa aquele senhor teria visto

Kuza wa nuna adlwigwa a wansati nambi o’dhô

Ao ponto de um homem deixar uma mulher, mesmo sendo sexy.

A wanuna atsukula wansati nambi a li bonita

Um homem desistir duma mulher, mesmo sendo bonita

Xikona, xikona anga xi vona lwehi wa papai/

Alguma coisa aquele senhor teria visto

Ni ye wansati atsukula wa nuna nambi a ganhi ngopfu

E a mulher desistiu dum homem mesmo sendo muito rico

Ni ye wansati atsukula wa nuna nambi ani mimova

E a mulher desistiu dum homem, mesmo tendo automóveis

Ni ye wansati atsukula wa nuna nambi ani swi bhomba

E a mulher desistiu dum homem mesmo dispondo de autocarros

Xikona, xikona anga xi vona lwehi wa senhora/2x

Alguma coisa aquela senhora teria visto

 

A partir deste refrão, descobre-se uma clara intenção de o cantor fazer-nos entender que, nas relações amorosas, não há separações absurdas, há sempre um princípio de razão suficiente. Todo o divórcio ou o fim do relacionamento é movido obviamente por alguma razão ou causa que se mostra suficiente – para não dizer convincente – aos olhos de quem se separa. Usando o critério de beleza supostamente aprovado pela sociedade como um factor atractivo para os homens se unir às mulheres, Xidiminguana introduz-nos um cenário onde, mesmo a mulher sendo linda e sexy, é abandonada pelo homem por uma razão que, apesar de ser desconhecida pelos terceiros, teria sido suficiente para romper a relação. O mesmo cenário verifica-se numa perspectiva de mulher para o homem em que, apesar de o homem ser proprietário de várias riquezas, ele chega a ser abandonado pela sua esposa por alguma razão.

Desta clássica canção de marrabenta, desprende-se-nos uma lição da vida: evitemos julgar ou condenar as separações conjugais. Isto porque, por trás das separações, há sempre uma razão suficiente que levou o casal àquele destino. No lugar de procedermos com o exercício de julgamento, torna-se sensato limitarmo-nos à aceitação de que houve, sim, uma razão suficiente para ambos se desligarem, tal como nos sugere a canção de Xidimimguana. Pautando pelo princípio da razão suficiente, tornamo-nos mais condescendentes a casos de divórcios e mais abertos para busca do devido esclarecimento, caso nos seja necessário. Na base do princípio da razão suficiente, colocamo-nos à disposição de conhecer a real causa dos factos e, por conseguinte, adoptamos uma atitude de escutar para compreender. E para compreender as razões de qualquer discussão conjugal é deveras imperioso saber escutar ambas as partes e discernir sobre as duas versões.

Uma nota não menos importante. A razão que leva um indivíduo a decidir por uma separação não tem de ser convincente para os terceiros, pois a sensibilidade dos homens para com os problemas nunca é a mesma. Há quem seja demasiado sensível à violência emocional em forma de um insulto ao ponto de considerar a sua relação abusiva, mas há quem consiga tolera-la, mas não admitir violência física ou adultério. Isto pode significar que, em discussões conjugais, a coisa mais importante que os terceiros possam lograr é a compreensão dos factos e não a razoabilidade das decisões. Aquele terceiro que pautar pela razoabilidade das decisões incorre no risco de ridicularizar ou superestimar uma parte em detrimento doutra. Ademais, é crucial que em reuniões familiares em busca de reconciliação dos casais, os terceiros tenham o cuidado de não tomar decisões finais pelo casal, mas que deixem ficar as suas sugestões sobre o destino do casal e, por fim, deem palavra aos parceiros para que tomem uma decisão final sobre o seu futuro. Quando não se respeitam as vontades do casal, ocorrem dois trágicos cenários que são uma reconciliação à força ou uma separação apoiada. A primeira alternativa leva a relação a um futuro sombrio marcado de mais abusos, violência e eventuais assassinatos. A segunda alternativa gera remorsos, ressentimentos e vitimizações. Reiterando o princípio da razão suficiente, por trás de qualquer separação ou divórcio há sempre uma razão ou causa determinantes. Assim sendo, a aceitação e a disposição dos terceiros para compreender os factos é a coisa primeira e mais sensata a se ter, ao invés de proceder-se com a culpabilidade, condenação ou vitimização duma das partes na relação.

 

Hélder Tsemba

tsembah@gmail.com

Tanto a miséria como a riqueza corrompem embora por causas diferentes.

A miséria pela necessidade, a riqueza pelo prazer.

In Tchova, tchova, de Eduardo Paixão

 

Os projectos teatrais em que Vítor Gonçalves se envolve são, geralmente, interessantíssimos. Ao nível do conceito, da produção ou do encadeamento de ideias, as iniciativas do artista tanto surpreendem quanto comovem.

Quando está a conceber um grande espectáculo, Vítor Gonçalves não se reduz a nenhuma austeridade. Pelo contrário, sempre encontra no poder da imaginação um elemento para quebrar barreiras, alcançando, por isso, níveis imprevisíveis da criatividade. Os mais atentos devem lembrar-se da ópera Mwango e Mwanga ou da peça Chovem amores na Rua do Matador; os mais atentos vão, certamente, lembrar-se d’A amarrada chuva de KaMutxukêti, peça teatral que estreou no dia 16 de Março, em palco todas as sextas-feiras, sábados e domingos, às 18 horas, no Cine Scala, em Maputo, até 20 de Maio.

Adaptada por Evaristo Abreu, do livro de Teodoro Waty, com efeito, A amarrada chuva de KaMutxukêti junta Vítor Gonçalves e Maria Atália na encenação. Coube aos dois artistas dar sentido ao texto e personificar angústias sociais que muitas vezes dividem os homens e as mulheres deste mundo ingrato.

Em primeiro lugar, A amarrada chuva de KaMutxukêti deslumbra-nos pelo cenário. Ao entrar no Scala, mesmo antes do espectáculo iniciar, ali ficamos perdidos em algum lugar ideal, mas sem pressa de voltar à realidade. No palco paira uma imagem de aldeia agreste, onde os códigos sociais confundem-se com a supremacia de certos poderes transcendentes. Desse ponto de vista, há ali um misticismo tipicamente africano, com ângulos de abordagem que, inclusivamente, conduzem a história por territórios sombrios, estranhos ou fantásticos. Com a excepção do que se vê, nada é bem como parece e isso ajuda na construção de um enredo complexo, mas inteligível o suficiente para manter o público agradado e atento a cada acontecimento.

A peça começa como se fosse um bailado, explorando essa percepção assertiva de que a dança acompanha os africanos em todos os momentos da sua vida: na alegria e na tristeza. A dança está em diferentes momentos da peça, com algum destaque para o xigubo, o tufo e o mapiko; a dança é emoção, vibração, o intervalo entre o verbo e a conjugação; é o fragmento da totalidade que torna possível explorar ainda mais o movimento das personagens principais, secundárias e figurantes. E com a dança, a interdisciplinaridade artística preenche KaMutxukêti de outros condimentos sonoros oportunos à leitura do espectáculo.

Ora, em geral, A amarrada chuva de KaMutxukêti é uma peça sobre a instabilidade social causada pela falta da precipitação. Sendo o reino de Baba Hosi (Dadivo José) dependente da chuva, sem esse evento natural o lugar da união transforma-se numa situação dúbia e perigosa. O reino, por falta da chuva, divide-se. Logo, a busca da água faz de algumas personagens egocêntricas e narcisistas. A busca da água torna-se um factor da desunião, bem a lembrar a novela rural Água, de João Paulo Borges Coelho, na qual a seca também corrompe os que deveriam amar mais, ao invés de destruir.

Para o rei Baba Hosi, o cenário da crise é uma situação difícil. Pois, em toda sua vida, nunca se tinha deparado com um problema tão grave e globalmente tão incompreendido quanto é a seca. Porém, perspicaz como é, Baba Hosi sabe que a chuva é a bênção e a seca a maldição para quem governa. Por isso mesmo, depois de ouvir gente próxima, decide enviar três emissários à procura da chuva. A missão de Ngovene (Horácio Guiamba), Mapswanganhe (Adelino Branquinho) e Simbia (Edu All Talents) é deveras espinhosa. Primeiro, porque não sabem bem ao certo por onde começar. Segundo, porque partem para lugares forasteiros, com poderes inimagináveis a intrometerem-se em ocasiões em que se encontram fisicamente débeis e moralmente desvalorizados. É a essa altura que a missão dos três mensageiros lembra-nos Manicusse, a personagem de “A árvore sagrada”, do livro Balada dos deuses, de Marcelo Panguana. Com uma diferença: enquanto naquele conto o protagonista não consegue chegar ao destino auspicioso, por não acreditar em si e nos seus antepassados, na peça encenada por Vítor Gonçalves e Maria Atália os três emissários vencem as adversidades e, consequentemente, encontram a solução nas terras distantes do norte. Uma vez mais, em contacto com o além.

Não obstante ser um lugar absolutamente fictício, em KaMutxukêti a chuva representa as maiores aspirações da sociedade moçambicana. A chuva é estabilidade, a esperança, o bem-estar e a preservação de um espaço colectivo e abrangente. Quando a chuva cai, a unidade é certa e os murmúrios populares ininteligíveis. Entretanto, quando escasseia, não só aparecem vozes a questionar a legitimidade do rei, igualmente, vêem-se na peça comportamentos degradantes e personagens a perderem o sentido da importância da partilha. Portanto, A amarrada chuva de KaMutxukêti diverte-nos e lembra-nos que o lugar da nação, quando a crise chega, deve ser proporcional à mesma condição na fartura. A nação é o bem para todos, partilhável, e não a metade das riquezas nacionais no bolso de um par de gente. A nação é o amor ao povo, o cuidado com os pobres e a resposta sensata aos protestos dos que sofrem ou tornam audíveis os sofrimentos dos outros, de facto, num contexto em que “tanto a miséria como a riqueza corrompem embora por causas diferentes. A miséria pela necessidade, a riqueza pelo prazer”.

Em algumas circunstâncias, A amarrada chuva de KaMutxukêti explora essa dimensão hilariante característica à comédia, em outras, não ignora a fatalidade da tragédia especial em Sófocles ou em William Shakespeare. Lá está, a morte faz parte do jogo e o reino de Baba Hosi apresenta-se à semelhança de um tabuleiro de xadrez em que um simples peão pode decidir o fim do seu próprio rei. Quer dizer, do ponto de vista da coerência, da lucidez, do raciocínio das personagens e da analogia, KaMutxukêti é um lugar onde se revelam os pilares que suportam qualquer país: o cidadão comum (se quiser, o povo) e a sua relação com os símbolos do poder e vice-versa. Se pensar o país através dessa relação muitas vezes vertical é árduo e complexo, através da adaptação de Evaristo Abreu é divertido e leve, pois as doses de humor estão equilibradas à gravidade do problema que agita o reino.

A amarrada chuva de KaMutxukêti tem hora e meia de duração, mas a dinâmica das cenas faz o tempo voar. Aliado a isso, impressiona o cruzamento de diferentes gerações de actores e a forma como tantas estrelas do teatro moçambicano são geridas no núcleo da história que se está a tecer. Por um lado, Josefina Massango, Adelino Branquinho e Lucrécia Paco. Por outro, Dadivo José, Horácio Guiamba, Violeta Mbilana e Fernando Macamo. Em outros contextos, dois desses actores já fazem um espectáulo teatral credível. Mas, em KaMutxukêti, Vítor Gonçalves e Maria Atália conseguiram respeitar a longevidade artística dos actores há muitos anos consagrados e a pujante ascensão dos actores que actualmente contribuem para vivacidade de um teatro moçambicano que apenas peca pela quantidade de espectáculos.

Outro aspecto a considerar e que merece atenção é a trilha sonora na responsabilidade de Lenna Bahule, o figurino e a cenografia de Sara Machado e a iluminação de Francisco Baloi. Esse trio faz d’A amarrada chuva de KaMutxukêti uma experiência capaz, de facto, de transportar o público para uma excelente viagem de ida e volta só ao preço de 300 meticais.

 

Os motores de KaMutxukêti

A qualidade estética de A amarrada chuva de KaMutxukêti, claro está, deve-se à totalidade dos elementos integrados. Talvez não seja uma peça para ver com a sogra, há ali umas cenas que podem chocar os mais conservadores; talvez aja alguns aspecos a melhorar, há ali umas duas actrizes com o ar demasiado adolescente para certas cenas sensuais. Em todo o caso, sempre se vêem actores que se notabilizaram de forma particular. Por exemplo:

Lucrécia Paco

Já não tem nada a provar a ninguém. Durante anos, foi a diva do Mutumbela Gogo e ajudou a tornar o Teatro Avenida um lugar sagrado. Por motivos pessoais, desapareceu dos palcos por algum tempo e encontrou na encenação a possibilidade de continuar a expressar-se. Mas em A amarrada chuva de KaMutxukêti, esta sexta-feira, Lucrécia Paco foi brutal. Como se estivesse no início da carreira e ainda precisasse de conquistar o seu lugar, a actriz imprimiu na sua personagem uma performance muito além da sua própria média de actuação. Lucrécia Paco voltou e, no regresso, trouxe aquela qualidade de outros tempos.

Na peça, Lucrécia Paco interpreta o papel de Mayothase, uma das três mulheres do rei Baba Hosi. É a rainha mais bela, mais vaidosa e menos preocupada com o sofrimento do povo. Para ela, basta a atenção de Baba Hosi e o bem-estar da família, mesmo que isso faça sofrer os mutxuketenses. Ao contrário da rainha mais velha, Maripodina (Josefina Massango), o papel de Mayothase é mais rigoroso porque exige reacções diferentes em cada circunstância. Num momento, Mayothase é uma ardilosa víbora. Noutro, é uma mulher dócil para o seu rei. Quer isto dizer que o papel exige pelo menos duas personalidades para a mesma personagem. Nos dois casos, Lucrécia Paco aparece no seu melhor, com detalhes nos gestos, no olhar, no riso, nos gritos e nos movimentos. Que saudade, Lucrécia!

 

Violeta Mbilana

Em KaMutxukêti, Violeta Mbilana interpreta o papel de Dalena, a outra mulher de Baba Hosi. Se Maripodina é a mais esclarecida e ponderada e Mayothase a mais expansiva, Dalena é o meio-termo entre as três rainhas. Ama o rei com vigor e deseja-o permanentemente. Ao rei é submissa, mas irrequieta às estravagâncias de Mayothase. Portanto, esse também é um papel com variações. Todavia, Violeta Mbilana, essa actriz que até pouco tempo era desconhecida, mostrou-se à altura de contracenar com Josefina Massango, Adelino Branquinho e Lucrécia Paco.

Em Chovem amores na Rua do Matador, Violeta Mbilana já se tinha apresentado em grande nível. Mas em A amarrada chuva de KaMutxukêti a actriz é imperial, representando uma geração de mulheres moçambicanas que no teatro sabem muito bem o que fazem. Numa palavra, Violeta Mbilana, essa mulher cheia de cor, foi natural. É uma actriz a sério, inquieta, com o teatro nas veias. A maneira como a sua personagem afronta as outras rainhas e submete-se ao rei no mesmo contexto é realmente convincente. Mbilana parece ter sido inventada para A amarrada chuva de KaMutxukêti e a actriz aproveita a oportunidade para se mostrar a um nível elevado. Violeta Mbilana, um nome a reter.

 

Fernando Macamo

Já o tínhamos visto em várias peças teatrais, mas nunca numa super produção. Como se soubesse disso, Fernando Macamo apropriou-se dos seus dois papéis, a de Sigaúque, conselheiro do rei, e a de um curandeiro. Nos dois casos, o actor é categórico e equilibrado. Parte das gargalhadas do público, devem-se às intervenções das duas personagens de Fernando Macamo. A escolha do actor para os dois papéis foi assertiva até do ponto de vista da gestão do número do elenco.

 

Horácio Guiamba

A capacidade interpretativa de Horácio Guiamba é qualquer coisa do outro mundo. É dos poucos actores da nova geração que consegue estar em grande nível em alguns papéis que só Adelino Branquinho interpreta melhor (Branquinho é o topo da pirâmide, mas o seu papel, à semelhança do papel de Josefina Massango, não o permite explodir em KaMutxukêti). Há gestos que nunca estariam num script, mas Horácio Guiamba consegue inventá-los e dá-los sentidos. E não é apenas isso, na pele de Ngovene, um dos emissários do rei que parte à procura da chuva, é a dicção, o semblante, a espontaneidade e a claridade interpretativa que comovem. Como Horácio Guiamba há muito poucos!

 

Dadivo José

O gajo que faz tanta coisa (música, teatro, aulas, Maxaquene e etc.), desta vez, apareceu feito um rei. É como no xadrez, muitas vezes, os reis não têm muita mobilidade. Dão um passo de cada vez. Mas as rainhas de Baba Hosi, sim, essas conseguem movimentar-se para todas as direcções sem que o rei consiga prever as consequências ulteriores. Ainda assim, Dadivo José encarna Baba Hosi com a devida majestade. Dadivo mantém o ar sisudo de um rei, a serenidade e a altivez. Pena que, como diria Maquiavel, os reis mais duradouros são os mais temidos do que amados.

 

No dia 21 de Fevereiro, no seu discurso de estado de nação, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou a suspensão da participação russa no Tratado bilateral com os EUA de Redução de Armas Estratégicas (START III). Pouco tardou para que os media ocidentais começassem a espalhar por todo o mundo mitos sobre alegadas ameaças de armas nucleares russos.

O tratado em questão, assinado com o então líder norte-americano Barack Obama, entrou em vigor a 5 de Fevereiro de 2011 e, na altura, tornou-se símbolo do “reinício” nas relações entre os dois países, abrindo a perspectiva do aprofundamento da parceria russo-norte-americana, laços económicos e rejeição de ameaças mútuas.

O Tratado estabeleceu um limite de 1550 para o número de ogivas nucleares preparadas para uso militar, e de 700 – para veículos de entrega (mísseis balísticos intercontinentais terrestres e marítimos, bem como bombardeiros estratégicos). Os outros Estados detentores de armas nucleares, porém, não foram incluídos: foi sugerido que eles aderissem mais tarde, conforme necessário.

Existia, aliás, uma nuance significativa. Os EUA têm vindo a desenvolver durante décadas a teoria de um ataque global não nuclear por armas convencionais (mísseis de cruzeiro de longo alcance lançados por via aérea), que poderia danificar ou destruir significativamente instalações críticas da infra-estrutura estatal russa. O cálculo foi bempensado: a então Doutrina nuclear nacional impediu a Rússia de ser a primeira a usar o arsenal nuclear e os próprios mísseis de cruzeiro ainda estavam a ser produzidos.

A teoria rapidamente se tornou prática, e as forças armadas dos EUA têm agora o chamado Comando de Ataque Global das Forças Aéreas (AFGSC), que em praticamente qualquer altura e num instante pode lançar quase mil mísseis de cruzeiro contra instalações críticas em qualquer território ao seu alcance. Contudo, ninguém se preocupou com isto até agora!

Para mitigar os riscos, a Rússia corrigiu a sua Doutrina, eliminando a cláusula de não utilização e deixando os “parceiros” saberem que um ataque de retaliação poderia ser nuclear. No entanto, isto não levou a grandes mudanças na política da Casa Branca – especialmente no que diz respeito à expansão da OTAN para leste.

Um factor sério de desestabilização da segurança é a presença de armas nucleares nos países da aliança da OTAN – tanto nacionais como americanos – posicionadas na Europa. O arsenal, representado por mísseis balísticos em submarinos movidos a energia nuclear, existe na Grã-Bretanha e em França. E há todos os motivos para acreditar que os códigos para a utilização destes mísseis passam pelas estruturas de comando da NATO e, para ser mais preciso, através do Pentágono. Só o Presidente dos Estados Unidos pode ordenar a utilização de armas nucleares. Trata-se de várias centenas de ogivas nucleares. Além disso, os EUA mantêm as suas bombas nucleares aéreas (cerca de 200 peças) no território da Bélgica, Itália, Holanda, Turquia, Alemanha e, de acordo com as estimativas, na Roménia. Os pilotos da aviação táctica destes Estados são treinados para utilizá-las, o que contradiz categoricamente as normas de não-proliferação de armas nucleares e prova o facto de os EUA violarem os princípios dos tratados.

Assim, passado pouco tempo depois da celebração do Tratado, confirmaram-se as preocupações russas que ninguém no Ocidente tinha levado a sério. Todos os acordos e risos com os políticos russos serviram como uma cortina de fumo para expandir as fronteiras do bloco militar OTAN fora da zona euro-atlântica, projectando os seus interesses militares a outras zonas do mundo. A recente criação do bloco militar AUKUS (Austrália, Reino Unido e EUA) com a ideia da construção conjunta de várias submarinas nucleares representa mais um desafio para a segurança regional e global.

O preâmbulo do Tratado afirma que a confiança e o respeito mútuos devem ser a base das relações entre os países signatários. No entanto, Washington minou tudo isto com as suas acções nas proximidades da Eurásia e chama agora abertamente a Rússia de inimiga, mostrando a sua relutância em trabalhar com Moscovo.

Nas actuais circunstâncias, não é possível manter um equilíbrio acordado, seguindo as disposições do Tratado. Ao mesmo tempo, Moscovo vê-se comprometido com os limites quantitativos do START. A Rússia não entende retirar-se do tratado, a decisão de o suspender pode ser invertida – mas para isso, Washington deve mostrar vontade política e fazer um esforço de boa-fé na desescalada geral. A Rússia não abandonou o controle de armas, mas foram os EUA junto com os seus satélites da OTAN que declararam uma guerra híbrida total contra a Rússia e está a apostar abertamente numa ilusória “derrota estratégica” dela.

À medida que o Ocidente continua a elevar a parada, cresce o perigo representado pelo potencial nuclear conjunto dos países da OTAN (EUA, Reino Unido e França) virado contra a Rússia, com consequências inevitáveis para o resto do mundo.

Um outro factor desestabilizador na agenda nuclear actual silenciado nos media ocidentais é o facto de os EUA ainda não terem ratificado o Tratado de Interdição Completa de Ensaios Nucleares (CTBT), impedindo assim a sua entrada em vigor. Ao mesmo tempo, é bem sabido que, uma vez que os americanos estão a desenvolver novos tipos de ogivas nucleares, Washington está a considerar seriamente a possibilidade de as testar.

Consequentemente, ninguém deve ter quaisquer ilusões perniciosas de que a paridade estratégica global poderia ser violada. É por isso que, tendo em conta a ameaça colocada pela Aliança do Atlântico Norte, o Presidente russo considerou necessário estar preparado para testar as armas nucleares russas. Não se trata de ser o primeiro a conduzi-los; contudo, se os EUA efectuarem tais testes, a Rússia responderá.

Os EUA utilizam descaradamente o conceito do seu excepcionalismo autoproclamado com tal chamadas “regras formuladas” que não têm nada a ver com o direito internacional universal da Carta das Nações Unidas. Como membro fundador da ONU, a Rússia vê o seu dever de evitar que algum estado obtenha vantagens unilaterais e levem assim o mundo inteiro à beira da catástrofe nuclear.

Não foi a Rússia quem primeiro levantou a possibilidade de renovar os testes nucleares. Não é culpa da Rússia que o CTBT ainda não tenha entrado em vigor. É inteiramente culpa de Washington e de vários outros Estados que não vêem necessidade de assinar ou ratificar o CTBT. Está fora de questão a retirada da Rússia do CTBT ou o reinício dos ensaios nucleares. A declaração do Presidente Putin é apenas um sinal de que se Washington ousar, não ficará sem resposta, os americanos não receberão vantagens unilaterais, abrindo assim uma “caixa de Pandora”.

No meio dos gritos sobre uma inventada ameaça nuclear russa, não seria de supérfluo lembrar que o único país na história que até o momento usou bombas atómicas (contra cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945) foram os EUA, enquanto não havia qualquer necessidade militar. Este acto de mera vontade unilateral levou a vida de várias centenas de milhares de civis e deixou um dano irreparável para o ambiente. Resta esperar que se lembrem disto aqueles que estão a fazer malabarismo com as hipóteses de uso possível das armas nucleares na presente situação internacional.

 

 

Por Alexander Súrikov,

Embaixador da Rússia em Moçambique

XICUEMBO

 

eu bebeu suruma

dos teus ólho Ana Maria

eu bebeu suruma

e ficou mesmo maluco

 

agora eu quere dormir quere comer

mas não pode mais dormir

mas não pode mais comer

 

suruma dos teus ólho Ana Maria

matou socego no meu coração

oh matou socego no meu coração

 

eu bebeu suruma oh suruma suruma

dos teus ólho Ana Maria

com meu todo vontade

com meu todo coração

 

e agora Ana Maria minhamor

eu não pode mais viver

eu não pode mais saber

que meu Ana Maria minha amor

é mulher de todo gente

é mulher de todo gente

todo gente todo gente

 

menos meu minha amor

 

Rui Nogar

 

 

O Poeta Rui Nogar, um dos mais insignes nomes da poesia moçambicana, pseudónimo de Francisco Rui Moniz Barreto, nascido em Maputo a 2 de Fevereiro de 1932, morreu, aos 61 anos, a 11 de Março de 1993, em Lisboa, passam hoje 30 anos. Quase sempre esquecido, como estão esquecidos uma data de nomes e figuras importantes da nossa cultura, esta é uma daquelas personagens literárias por quem cultivo, sem tréguas, uma admiração reverencial, o que proclamo aqui sem nenhum rebuço. A minha geração muito lhe deve. Para além da circunstância de ter sido o primeiro secretário geral da AEMO e de ali ter albergado uma geração intrépida de escritores da nova geração, como seria a nossa, ele foi um dos mais exemplares escritores moçambicanos.

Numa vetusta entrevista a Luís Bernardo Honwana, que realizei quando intentava a busca da memória literária e cultural do nosso país, fiz algumas perguntas veementes, que se justificavam pela minha entusiasmada e impetuosa juventude. Duas delas: “Considera que há grandes poetas hoje em Moçambique?” A resposta do celebrado autor de “Nós Matámos o Cão Tinhoso” foi indubitável: “Sim”. A minha questão ulterior: “Quem são os grandes poetas moçambicanos?” Luís Bernardo Honwana seria assertivo: “Não gosto de citar nomes, mas há nomes óbvios: Craveirinha, Noémia, Rui Nogar”. Estávamos em 1990.

Continuo a concordar com Luís Bernardo Honwana, ele próprio um nome estelar da nossa literatura. Tenho para mim que o Rui Nogar foi um extraordinário poeta. Leia-se o seu livro “Silêncio Escancarado”, leia-se o seu belíssimo poema “Nove Hora(que seria levado à cena pelo Mutumbela Gogo), leiam-se os seus poemas dispersos, entre os quais o aclamado “Xicuembo”, que encima esta prosa. Há ali uma sintaxe própria, há ali uma gramática pessoalíssima e há ali uma construção poética que denuncia, por assim dizer, um homem apaixonado pelos homens do seu tempo, um homem com causas, um homem com uma ética que faz da condição humana a matéria prima da sua poesia e da sua vida.

A vida difícil, o sofrido quotidiano, as desigualdades sociais e as iniquidades do sistema colonial, que ele abominava e contra as quais lutou acirrada e tenazmente sempre, fazem o lastro da sua escrita, da sua poesia, dos seus gestos, quase sempre arrojados, do seu grito visceral e da sua revolta enérgica. Cumpriu uma dura penitência na Cadeia da Machava, onde escreveu alguns dos seus mais emblemáticos poemas. Ali, também, denunciou o “silêncio”, que era, no fundo, a ausência de humanidade: “tratávamos o silêncio por tu / dormíamos na mesma cama / acordávamos do mesmo sono” – escreve em “Da fruição do silêncio”, um dos seus mais belos e pungentes poemas: “era o silêncio devorando o silêncio / era o silêncio copulando o silêncio / era o silêncio assassinando o silêncio”.

Ali “na líbida cegueira da avidez láctea” (note-se-lhe este verso extraordinário!), “um farrapo de música nos basta / para remendar / esta longa  longa solidão”. No mesmo lugar “do silêncio às palavras”: “a vigília obrigatória / dos que se obrigam a vigiar-nos” e onde “o rastilho da razão / e a pólvora da ciência / nas celas da ignorância // e o escorpião do medo”. Ali mesmo, naquele lugar, “estes pirilampos de esperança”.

Da “Mensagem da Machava” avultam estes versos: “tudo ganhou novos ângulos  novas luzes / é mais volátil   é mais livre   o voo das aves // (…) o amor é tão fácil como o sorriso das crianças / o amor é tão puro como o sémen das chamas /(…) e apesar das grades  dos cães-polícias / sinto-me cada vez mais perto de vós”. Ou do poema “Pavilhão 7 Cela 20”: “à noite as almofadas / são mais duras e desconexas / o colchão regurgita / famintas maçarocas / mordendo-nos o sono / e a crosta dos pensamentos” (…) “e mosquitos minuto a minuto / mergulhando céleres / suas adagas no cerne da nossa angústia / despertam-nos o cosmos da impaciência”. Ou ainda do poema “As palavras dantigamente”: “as palavras / e sobretudo o silício do silêncio / dilacerando-nos as fontes de inspiração”. Isto é de um grande poeta. Isto é extraordinário.

Rui Nogar foi sobretudo um audacioso nacionalista. Era um poeta engajado. Isto não lhe diminuía, informava o alto sentido moral da sua existência e da sua práxis. Não estava interessado na sua imortalidade literária. Tinha assumido um combate, um combate feroz e fazia disso o viático da sua jornada. Era um homem indignado – um inconformado. Conhecia a tremenda realidade social para além da “fronteira do asfalto” (Luandino Vieira dixit). Era mítica a sua incursão pelos labirintos dos subúrbios ditos laurentinos. Glosando Craveirinha: Nogar não ia visitar os subúrbios, o Nogar era de lá, aquele era o seu mundo. Era, também, por isso, arreigadamente moçambicano.

A sua poesia não é apenas uma poesia de denúncia. Não é apenas uma poesia de protesto. É também, ou sobretudo, uma poesia que inventa a moçambicanidade, uma poesia de afirmação, de afirmação nacionalista, uma poesia que institui uma pátria, a nossa pátria – pátria moçambicana, muitas vezes aviltada nos dias de hoje. Há quem lhe aponte um tom panfletário nos seus poemas, principalmente os mais afeitos à recitação. Isso não me inibe de lhe extrair belas imagens, soberbas metáforas, um universo vocabular que enuncia um grande exegeta. Um esteta comprometido com os homens e as causas do seu tempo. Um dos maiores intérpretes da moçambicanidade.

Rui Nogar foi também um grande declamador. Aliás, um mítico declamador, que ousava desafiar as autoridades coloniais, ou os seus biltres, nos saraus, dizendo, provocatoriamente, poemas que denunciavam a situação. Fê-lo diante de pides disfarçados, numa Associação Africana apinhada de gente, com o poema de Carlos Maria (“Balada dos homens da caça”) que tinha como estribilho: “Venham todos os homens da caça / Venham todos / Tragam as azagaias”. Fê-lo apontando para os pulhas que estavam na primeira fila.

Seria preso nessa madrugada. Outros que recolheram aos calaboiços: José Craveirinha, Cacilda Reis, Luís Polanah. O tristemente célebre Roquete, safardana de má memória, torcionário de serviço, seria assertivo ao interrogá-lo: “Por que é que você anda com pretos?”

Rui Nogar pertenceu à 4ª Região Político-Militar da FRELIMO e teve um papel importante na luta clandestina. Uma das casas onde se reuniam era a casa de Armando Pedro Muiuiane. Numa das rusgas da Pide, em 1964, foram todos presos. Adrião Rodrigues, Santa Rita e Almeida Santos advogam a favor dos presos nacionalistas. Rui Baltazar não pôde defendê-los. Estava identificado com um dos reclusos: Albino Maeche. Foi impedido de o fazer. Os presos são ilibados, mas não foi por muito tempo. O julgamento seria repetido. A sentença viria firme de Lisboa: prisão maior.

Craveirinha, Honwana, Malangatana são seus companheiros de prisão. O “Silêncio Escancarado” é, seguramente, um testamento literário que escrutina esses tempos ominosos. Craveirinha fá-lo-á em “Cela 1”. Existe, aliás, uma correspondência mítica entre Luís Bernardo Honwana e José Craveirinha na prisão. Malangatana pintará, dessa dura experiência, os seus duendes, os seus demónios e as suas figuras fantasmagóricas.

Nos tempos ulteriores à Independência, Rui Nogar desempenhará os cargos de Director Nacional de Cultura e Director do Museu da Revolução, será deputado da Assembleia da República. Poeta consagrado, a edição da sua obra ocorre em 1982, num contexto de liberdade, na célebre colecção Autores Moçambicanos, do INLD. Será o primeiro secretário-geral da AEMO. Não escapou, porém, aos esbirros da revolução. Irá para Nampula cumprir uma ignominiosa reeducação. Muitos intelectuais sofreram essas purgas, os chamados excessos no jargão da política. Foi o paradoxo, a contradição, a ironia. Não senti acrimónia no Rui apesar disso. Como não sentira no Albino Magaia, que esteve no chamado Gulag moçambicano.

Em 1990 também o entrevistei e ele disse-me o seguinte: “Não me interessa que seja ou não considerado poeta. O que me interessa é que eu seja considerado homem que se preocupa com os outros homens da sua época”. Vi e vejo nesta afirmação a sua estatura moral e ética, a sua grandeza e nobreza. Aliás, recordo-me de muitas discussões que tínhamos, das nossas discordâncias amigáveis, calorosas sem serem necessariamente acerbas, sobretudo porque nós os mais novos não nos incumbíamos dos ditames da revolução. Antes pelo contrário. Estávamos, muitas vezes, nos seus antípodas. Estávamos sublevados.

O Rui dizia-me, entre outras coisas: se tivesse que escolher entre escrever sobre a flor e a luta ele daria primazia à luta. Dizia-o com a sua proverbial candura e não cerceava o nosso espaço de liberdade criativa e de crítica. Antes pelo contrário. Tinha abertura para o contraditório e levava o ideário da liberdade até às últimas consequências. Homem livre, não obstruía a liberdade dos outros. Não se ofendia com a objecção dos mais jovens, convivia bem com a nossa contradita, que era por vezes ácida. Politicamente afirmado, ideologicamente marcado, socialista intransigente, amava sobretudo a liberdade. Esta era também uma ética, a sua ética.

Hoje é deslembrado. Ao longo dos anos tem sido aludido em versos de poetas amigos que vão de José Craveirinha a Luís Carlos Patraquim. Mas não o lemos.  “Ninguém liga peva aos poetas”, proclamava Eduardo White, um dos mais insurrectos da minha geração. Hoje muito menos. Tenho-me lembrado do Rui, amiúde. Por vezes, faço-lhe uma vênia na sua campa no Cemitério de Lhanguene e deixo-lhe uma rosa branca. Foi um amigo muito querido e tenho dele avultadas lembranças. No dia em que passam 30 anos sobre a data sua morte, quero aqui honrá-lo. Não cometo expectativas quanto à Pátria. Sei que nada farão para o homenagear. Assim são os nossos pressurosos intendentes, vivem solícita desmemória, são obstinados no esquecimento. Mas cabe a alguns de nós o ofício da memória. Aqui está um dos nossos grandes poetas. Um dos fundadores e esteios da nossa nacionalidade. Um homem probo, um excelente tribuno, um amigo e um camarada de ofício de saudosa memória.

 

RETRATO

 

mais do que poetas

hoje

somos sim guerrilheiros

com poemas emboscados

por entre a selva de sentimentos

em que nos vamos libertando

em cada palavra percutida

 

hoje

nós

em moçambique

 

1969

 

Rui Nogar

 

Kampfumo, 11 de Março de 2023

 

 

Há professores que marcam alunos e há alunos que marcam professores. Edson da Luz, isto é, Azagaia marcou-me. Olhando para trás recordo-me dele enquanto meu aluno da disciplina de Cultura Moçambicana, que leccionei numa Universidade em Maputo.

Era desafiada a preparar as matérias ao pormenor e com muita atenção à cada palavra que fosse dizer naquelas aulas, nas quais os temas eram variados. E recordo-me que, aquelas nas quais falavamos sobre cidadania, identidades, religião, desmantelamento de preconceito-superioridade cultural, estereótipos e sobre nacionalidades; eram as que mais questionavam Edson da Luz.

Discutimos amiúde que a “inferioridade” cultural e racial dos africanos tinha sido uma “intrujice”, para tornar possível a dominação colonial. Que tendo sido “África o berço da humanidade”, ainda havia muito o que explorar e perceber sobre o seu “atraso”, até porque, o progresso industrial ou a Revolução industrial não pode ser a única explicação para esse “atraso”. A tónica “conclusiva” sobre as nossas discussões era a de que, cientificamente, não existe uma forma para provar a superioridade ou a inferioridade cultural de seja que povo for, porque todos passam pelos mesmos estágios.

Edson, lia outros livros, para além dos recomendados nos planos de aulas, para perceber melhor aquelas matérias que tocam a questão da cidadania. Lia muito, também, sobre a escravatura. Disse-mo. Lembro-me de ele referir que um tio o influenciava em algumas leituras à respeito, emprestando-lhe livros. Chegamos a combinar um empréstimo desses livros, mas isso não aconteceu, porque nem eu nem ele sabemos onde foi que os tais livros foram parar. Cogitamos comprar alguns para os discutir, mas a pressa em que vivíamos, fez-nos deixar esse desejo no ar. Houve muitas leituras adiadas.

Olho para trás, com nostalgia, e questionando-me sobre o por quê de não termos mais horas de oficina com os nossos alunos e sobre o por quê de não podermos dar mais tempo, para além das aulas a escutá-los e a contribuir para o melhor da sua transformação – fora do período lectivo… Nunca temos tempo e vivemos a correr. Nos corredores, quando nos interpelam, estamos sempre apressados, respondemos às metades.

Olho para trás e me recordo que, terminava as minhas aulas sobre Cultura Moçambicana dizendo que aceitava tomar um café com os alunos que ainda tivessem alguma coisa para perguntar, mas poucos eram os alunos que iam ter ao café. Esquivavam-se ao debate de ideias. Além disso, também eles vivem a correr. Entretanto, tinha a alegria de, de vez em quando, por messenger do Facebook conversar com Edson da Luz sobre a sua escrita, a sua música e sobre a sua actuação enquanto activista social. Chegou a dizer-me que os temas daquela cadeira eram úteis para o seu processo criativo.

No início ele nem se assumia activista. Sentia-se cantor, apenas, rapper e dizia sempre que o alegrava saber que mesmo os que não gostavam de rap ouviam-no e davam-lhe alguma atenção. Para ele, isso era suficiente e a questão sobre o activismo eram outros quinhentos.

Edson era um aluno implicado, questionador, embora vivesse “na sua”. São assim os poetas. Muitas vezes parecem estar à leste do movimento das massas, mas estão com elas, na verdade. Edson era ruidoso no que perguntava, no que questionava e  no que cantava. Sabemo-lo todos.

O convite de Lurdes Macedo, para participarmos no livro organizado por Tirso Sitoi e Paula Guerra, deu-me muita alegria, embora eu estivesse relutante em participar. Encontrava-me num momento de actividade intensa na escrita, mas a força de Lurdes e de Eduardo Lichuge, um outro co-autor da matéria, são o que hoje constituirá bálsamo para a minha alma.  Com eles trabalhei numa pesquisa e escrevemos o texto intitulado: “Eu sou um cidadão, brada”. O Rap como forma de artivismo em Moçambique?, que teve a primazia de ser o primeiro capítulo do livro Reinventar o discurso e o palco: o rap, enttre saberes locais e olhares globais, como disse, organizado por Sitoe e Guerra, em 2019, num e-book, com edição da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal.

É um bálsamo com saber a pouco, porque a ausência desse moçambicano me diminiu bastante. Ficam menos fortes, também, as vozes de Emicida, de Gabriel Pensador, de Luaty Beirão, outros que, como ele erguem a voz dos acabrunhados. Edson da Luz era um ser de luz, um aluno que valeu a pena contribuir para a sua transformação científica. Como o referiu o Professor Boaventura de Sousa Santos, Azagaia disse coisas com a música, que as Ciências Sociais não saberiam dizê-lo com melhor propriedade do que ele o fez; ouça-se a sua música ABC do preconceito, para o conferir.

Que ele descanse!

 

 

Boa noite a todos.

Começo esta minha intervenção com uma confissão: nunca estive numa sessão pública como esta na companhia de um engenheiro. Então, quando há umas semanas o meu amigo Celso Muianga convidou-me a apresentar o livro Aqui há ópera?, de Álvaro Carmo Vaz, imediatamente, disse-lhe que não, que não estava à altura de cumprir esse papel de apresentador. Afinal, o que eu poderia dizer sobre o livro de um homem com tanta história, um engenheiro, um professor catedrático e com uma carreira de 50 anos na universidade? Reparem, só o tempo em que Álvaro Carmo Vaz dedicou-se à academia é bem superior à minha idade. Por isso recusei o convite sem hesitação. Mas o Celso, inabalável, insistiu dizendo que já estava tudo combinado com Carmo Vaz e que tinha de ser mesmo eu a apresentar a obra literária. E sendo um bom amigo, o Celso ainda acrescentou:

San José, não te preocupes com nada disso. A pior coisa que te pode acontecer durante a apresentação do livro é meteres água. Se isso acontecer, não te preocupes na mesma, porque água é a especialidade de Álvaro Carmo Vaz.

Bem, se vocês não sabiam, Álvaro Carmo Vaz é engenheiro civil de formação, tendo Hidrologia e Gestão de Recursos Hídricos como área de especialidade. E o Celso continuou com excelentes sugestões, como se pode notar:

O que tens de fazer é ver aí algumas notícias sobre as inundações em Boane e na periferia de Maputo. Se fizeres isso, logo estarás preparado para ler e apresentar o livro do engenheiro Vaz.

Vendo as coisas na perspectiva do Celso, de facto, tudo pareceu-me fácil. Até porque como eu trabalho numa redacção, acompanhar as notícias não seria propriamente algo novo. Então aceitei o convite de apresentar o livro de Álvaro Carmo Vaz, que, para o meu azar, não trata de inundações, de água ou algo do género. Mas, quando me apercebi disso, já era tarde para desfazer o compromisso. Por isso mesmo, cá estou na Fundação Fernando Leite Couto para vos apresentar uma história de amor entre Pedro e Guida, uma história de amor a uma ideia de território, a uma crença e à condição de ser moçambicano. Se alguma coisa correr mal, já sabem, a culpa é do Celso Muianga.

Ora, sendo Aqui há ópera? um conjunto de histórias com Pedro e Guida no centro dos eventos nucleares, na verdade, as duas personagens funcionam como pretexto para nos conduzir a uma viagem ao passado, recuperando-se, com isso, cerca de 60 anos de História referente ao espaço moçambicano. É uma viagem prazerosa, bem estruturada e, às vezes, vertiginosa, pois, nestas “histórias daqui e dali”, conforme assume o nosso autor, o que não faltam são temas graves, porém pertinentes sobre o projecto nação moçambicana.

Aqui há ópera? É um livro com histórias irmanadas. Só não temos aqui um romance porque o autor não quis. Diria, Álvaro Carmo Vaz até desestrutura essa noção dos géneros, talvez, para subverter as teorias literárias. Ao invés de romance, aqui traz narrativas que atravessam o período colonial, a transição para independência e os eventos subsequentes. Na profundidade e no alcance da ficção, os nossos narradores apresentam-nos discursos bem cuidados, convincentes e, lá está, a comprovar que Álvaro Carmo Vaz é um escritor há décadas, embora só nos últimos anos tenha começado a publicar em livro. O seu rigor narrativo, por exemplo, coloca este Aqui há ópera? ao nível e numa relação intertextual com tantos outros bons romances publicados em Moçambique e no estrangeiro. Estou a pensar num Tchova, Tchova, de Eduardo Paixão; Raízes do ódio ou As Raízes do ódio, de Guilherme de Melo; Ku Femba, de João Salva-Rey; Crónica da Rua 503.2 e Museu da Revolução, de João Paulo Borges Coelho; Tornado, de Teresa Noronha; ou A geração da utopia, do escritor angolano Pepetela.

À semelhança desses romances, Aqui há ópera? explora com êxito o registo paisagístico de uma época, de um lugar e de várias circunstâncias. Para os que viveram o período colonial e a seguir a independência nacional, com efeito, aqui encontrarão uma fronteira verdadeiramente ténue entre a realidade e a ficção. Sem soubermos que estas “histórias daqui e dali” são fictícias, somos capazes de julgar serem reais, pela originalidade e verosimilhança. Acrescido a isso, é bom de ler este livro de Carmo Vaz pelo tom engraçado convocado pelas personagens e pelo narrador. Quem tiver a primeira edição do livro, pode comprovar o que digo no primeiro parágrafo da página 21, numa passagem em que a velha Delfina não se farta de inventar argumentos sobre como gostaria de estar arrumada logo a seguir à morte:

A avó Delfina, que nem sequer era muito velha, tinha uma obsessão pelo que lhe aconteceria quando morresse, queria aparecer bem arranjada no caixão. Fartava-se de fazer recomendações à Aurora sobre o que ela devia fazer caso morresse à noite, durante o sono. As recomendações eram particularmente insistentes no que tocava ao vestido que lhe devia vestir, já muito preparado, como é que as mãos deviam ficar cruzadas em atitude piedosa e com o rosário nelas entrelaçado. Semana sim, semana não, lá estava a avó a repetir as instruções à Aurora, que se ria. Até que um dia, a Aurora fartou-se da conversa e respondeu:

– Mã Delfina, ouça. Para não ter de estar sempre a dizer essas coisas sem ter a certeza que não vou esquecer, é melhor fazer o seguinte: à noite, em vez de usar a sua camisa de dormir, use esse vestido, agarre no rosário e cruze as mãos. Assim, se morrer durante o sono, já está preparada como quer, só temos de a meter no caixão.

Durante uns tempos, a avó Delfina desistiu de dar instruções à Aurora.

Bem a calhar, esta passagem reflecte um dos registos narrativos de Álvaro Carmo Vaz: o tom engraçado, importante para tornar o campo da ficção algo igualmente animado. É assim… As personagens de Aqui há ópera? divertem-se e divertem-nos como se calculassem as nossas as reacções. Na seguinte passagem da página 107, num momento difícil do relacionamento, em que Pedro escolhe ficar em Moçambique para acompanhar e contribuir para a independência nacional do país, Guida prefere ir-se embora para Portugal. Quando lá chega, tem de explicar aos pais que as coisas não vão nada bem na relação com o namorado:

– O Pedro queria que eu fosse viver em Lourenço Marques, disse que Moçambique ia ser um país maravilhoso, que daqui a uns anos saíamos juntos para doutoramento. Mas ele está com a cabeça tão virada que, se a Frelimo achar que é melhor ele ir cultivar batatas num cu de Judas qualquer, ele deixa de dar aulas e a investigação na universidade, abana a cauda, todo contente, e vai plantar batatas.

Na escrita de Álvaro Carmo Vaz, o tom hilariante ajuda desmanchar alguma previsibilidade no acto de ler. O leitor, regulamente, nunca sabe de todo o que lhe espera. Pelo contrário, os ciclos do enredo tanto nos conduzem a uma direcção auspiciosa quanto nos podem meter em episódios dramáticos. Tudo é feito ao pormenor, com rigor técnico e discursivo como se exige a uma boa narrativa. Carmo Vaz sabe contar, de forma pausada, convincente e até didáctica. Há-de ser por essas qualidades discursivas que o escritor não deixa escapar nada relevante à fundamentação narrativa. Quando usa um verso, uma expressão invulgar, um título ou um substantivo particular sem possibilidade de ser esclarecido no texto, o nosso autor leva-nos à secção das notas, onde crescemos e aprendemos.

Álvaro Carmo Vaz é um mestre da descrição: do tempo, do espaço, enquanto categoria narrativa ou ponto de referência concreta, das circunstâncias sociopolíticas ou das personagens. Aliás, em Aqui há ópera? os narradores não introduzem uma nova personagem sem darem atenção à descrição. Vejamos, por exemplo, o segundo período da página 69:

Lena era vistosa, tinha o cabelo negro de azeviche, cortado curto à moda dos rapazes, corpo atraente, tinha a tez morena, daquele bronze dourado que algumas raparigas adquiriam após férias na praia e que nela era natural.

Conforme revela a passagem, a descrição da personagem faz parte do processo literário do autor de que muito depende uma narrativa envolvente e comovente. Em alguns casos, a narração também é interventiva e crítica. Afinal, contar também é pensar a realidade circundante. Logo, conhecendo o seu país como ninguém, Álvaro Carmo Vaz leva à sua ficção situações, para quem vive em Moçambique, infelizmente, normalizadas. A seguir, leio-vos uma passagem referente a um político burro, tão burro que, ao invés de quatro, tem oito patas. A personagem em causa foi confiada a uma função importante apenas por ser sobrinho de um antigo combatente de luta armada. O político burro chama-se Anacleto e não sabe tomar nenhuma decisão inteligente sozinho. Já o tio influente chama-se Jonas. Para os que gostam de política, podem abrir a página 237. Os que não gostam, podem abrir a página dois… três… sete.

Logo que terminou o curso, Jonas garantiu a sua colocação como administrador de distrito. E Anacleto começou a aperceber-se dos benefícios da sua posição: mandava, todos lhe faziam vénias e tinha um secretário que era quem, de facto, tratava da papelada e lhe dizia como resolver qualquer problema. Jonas tinha-lhe dito: Preocupa-te em organizar bem a visita de qualquer dirigente superior, cuida em fazer um bom discurso, com os elogios aos dirigentes máximos, tens de garantir que está tudo tranquilo nas localidades. Anacleto cumpria as instruções à risca, a vida corria-lhe bem, ia prosperando, adquirindo a barriga própria de um dirigente de sucesso.

Mas contra a burrice, há poucos argumentos. A certa altura da história, Anacleto comete uns disparates e é afastado do cargo. Nem mais, Anacleto serve de uma clara personificação de vários políticos moçambicanos da actualidade e revela um lado sombrio sobre o sentido político das escolhas que recaem em pessoas, de longe, incapazes de assumir certas funções. Por isso mesmo, quando Anacleto é demitido pelo governador da província, o leitor experimenta um certo alento, gozando a sensação de que a justiça tarda, mas nunca falha. Sol de pouca dura. No fim da história, o narrador goza com a nossa precipitação:

Como terminou a história do Anacleto, perguntam vocês? Pois não muito mal. Passados dois ou três anos, encontrámo-lo como vice-ministro de qualquer coisa. E, se querem a minha opinião, não foi nem melhor nem pior do que os vários que o antecederam ou os que vieram a seguir.

Este excerto sarcástico é fictício, mas serve absolutamente para pensarmos o país e questionarmos o perfil das pessoas que seleccionamos para nos dirigir.

Por fim, neste Aqui há ópera? destaco mais um registo que considero importantíssimo numa narrativa: excelentes diálogos. Quando lemos o livro, abraçamos a percepção de que o autor deve ter extraído os diálogos das personagens entre nós. São credíveis, regulares e consistentes. Independentemente do momento da narrativa, Álvaro Carmo Vaz consegue colocar as personagens a fazerem da ficção um momento de verdade. Vejam só esta belíssima passagem em que Guida aborrece-se com Pedro, já casados, por este ter inventado a ideia de escrever um livro de memórias sem a ter informado. Pior, ao invés dela, ainda prefere pedir ajuda ao filho deles, o Rodi. Guida reage assim à zanga:

– E achaste que o Rodi, aquele cabeça-no-ar, era mais capaz de te ajudar do que eu? Se é assim, não quero saber do teu livro para nada, fizeste segredo, então agora também não estou interessada.

Mas a curiosidade acabou por vencer. Devorou o livro entre uma sexta-feira à noite, que se prolongou pela madrugada adentro, e o fim da tarde de domingo. Quando terminou a leitura, fechou o livro e abraçou Pedro, disse-lhe:

– Por esta, perdoo-te. Gostei muito, emocionei-me ao ler algumas passagens.

Riu-se, deixando Pedro encantado.

– Escusavas de me pôr a chorar tantas vezes, podias ter tapado a verdade com o manto diáfano da fantasia, como o teu Eça. Mas trataste-me muito bem no livro, continuas míope, pões-me como se eu fosse a oitava maravilha do mundo.

– Escrevi-te como te vejo, só tenho estes olhos.

– Estás-me a dar graxa, Pedro. E o pior é que eu gosto.

Guida deu uma gargalhada e beijou-o.

Um parêntesis. Eu acho o Pedro um sedutor à moda antiga, daquele tempo em que as pessoas da nossa idade, quando gostavam de uma rapariga, escreviam cartas de amor e coisas assim. Não agora em que as relações iniciam quase de forma automática. Basta a miúda ceder o contacto do WhatsApp e pronto. Já está. Pedro é de outra escola e ensina, aos distraídos, como se trata uma mulher.

À parte o parêntesis, o excerto entre Pedro e Guida só confirma o grande escritor que Álvaro Carmo Vaz é. Este nosso escritor tem tanto de discreto quanto de talentoso. Deu-me imenso gozo lê-lo, pois os narradores conseguiram-me transportar do plano onde me encontrava, como ser existencial, para algum lugar, para alguma época e para alguma condição. Estas 367 páginas do livro valem o peso em ouro. Portanto, já a terminar, que esta intervenção vai longa, deixo-vos uma pergunta no ar: Aqui há ópera?

Obrigado pela atenção!

 

*Texto escrito de cor na sequência da apresentação do livro Aqui há ópera?, de Álvaro Carmo Vaz, no dia 28 de Fevereiro, na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo.

 

O Ministério da Cultura e Turismo anunciou a realização do XI Festival Nacional da Cultura (FNC). Evento que tinha sido programado para o ano de 2020, na Província de Maputo, porém, devido ao agravamento da pandemia da Covid-19 e no cumprimento do Decreto presidencial nr 11/2020 de 30 de Março, que declara o estado de emergência por razões de calamidade pública em todo o país, o governo decidiu cancelar. Com o alívio das medidas, declaradas pelo decreto 4/2022 de 18 de Fevereiro, o histórico e mais importante evento cultural em Moçambique regressa sob o lema “Cultura a Força que Une a Nação Rumo ao Desenvolvimento”.

Este breve artigo pretende reflectir sobre o lugar ocupado pelo Festival Nacional Da Cultura no contínuo projecto de construção nacional e consolidação da unidade nacional. Adicionalmente, levanta reflexões no âmbito XI FNC, no contexto do actual paradigma cultural moçambicano.

Quando foi realizada a primeira edição do festival, 28/12/1980 – 4/01/1981, o então Festival de Música e Canção Tradicional (FNCMT), tinha um propósito aliado ao período pós-independência que o país vivia e cujo projecto de governação estava centrado na construção do “homem novo”. Neste contexto, o Festival constituía um “esforço do governo para a valorização da nossa própria identidade, da nossa personalidade moçambicana, e também para fazer com que as experiências individuais se tornem experiências coletivas, da comunidade; as experiências regionais, as manifestações culturais regionais se tornem manifestações culturais da nação moçambicana e, por isso mesmo, consolidar a unidade nacional” in Graça Machel (entrevista sobre I FNCMT).

A preocupação pela consolidação da unidade nacional sempre esteve presente no festival, seja por forma do discurso ou pelas mensagens evocadas durante as apresentações. Transformando cada edição numa oportunidade de exaltação da moçambicanidade.

Voltando ao contexto da realização da primeira edição, era evidente a sua centralidade na ideia de construção do “homem novo” como fundamento ideológico para a construção nacional. O homem novo foi imaginado como alguém que rejeitaria de forma consciente as heranças coloniais (especialmente o tribalismo e o obscurantismo) em prol da construção de uma nova sociedade, presumivelmente mais justa e o festival serviu como um dos momentos importante para capitalizar este pensamento nacionalista (Morais, 2022; Macagno 2009). Aliás, os procedimentos para a seleção dos grupos culturais para o festival tinham um viés nacionalista bastante forte, não permitindo nenhuma possibilidade de seleção de expressões/grupos culturais com ligações à cultura ocidental (colonial).

Sobre este assunto, a edição de 30 de Novembro de 1980 do Jornal Notícia explica que em alguns casos, bons artistas foram eliminados porque “apresentaram instrumentos não considerados tradicionais, mas que constituem parte dos mais populares, em algumas regiões do nosso País”. Tal foi o caso que aconteceu na província da Zambézia em que um tocador de acordeão foi afastado das competições provinciais” (Notícias, 30 de novembro de 1980, 1).

Analisando o contexto, podemos encontrar uma razoabilidade nestes critérios. Aliás, a cultura era uma das fórmulas encontradas pelo Governo para somar as diferentes expressões do povo que resultassem na construção da nação moçambicana. Acessar músicas e danças praticadas por diferentes grupos sociais do território permitia que o governo se comunicasse com pessoas de todo o país (Morais, 2022). Ainda assim, há críticos que consideram que a filosofia tradicionalista conjugada com a ideia de construção do homem novo e subsidiada com a célebre frase “Matar a tribo para construir a nação” contribuiu para a fragilidade da nossa cultura.

Não obstante, importa no actual paradigma abrir espaço, sem reserva, para as “novas produções culturais”, aquelas não tão tradicionalistas, mas resultantes da evolução social e tecnológica do País. Formas que podem ser facilmente visualizadas no seio da juventude. Ao incorporar essas novas formas de produção cultural evita-se, sistematicamente, o risco de construção de uma narrativa tradicionalista do Festival Nacional Da Cultura. Ora, a cultura não se faz apenas do tradicional e a construção da nação deve resultar do encontro entre o passado e o presente, da velha e da nova geração.

A XI edição do Festival Nacional Da Cultura surge num contexto de alargado debate sobre a moçambicanidade, a unidade nacional, a identidade e cultura moçambicana e o festival pode ser o grande palco de consolidação destes pressupostos, de demonstração daquilo que nos une como povo e de integração intergeracional. Elementos importantes para o desenvolvimento inclusivo e consolidação da identidade nacional. Aliás, é mais uma oportunidade para reiterar o valor que a cultura teve na luta de libertação nacional, no processo de construção nacional e hoje, enquanto um aliado da coesão social e de desenvolvimento económico.

Pedro da Silva Pinto pode ser definido de várias formas: cantor, compositor, artista multifacetado e etc. É uma voz universal, distinta, que faz da sua vocação uma experiência de viagem sem desejo de regresso. Quiçá por isso, na sua noite de “Cinzas”, título do concerto realizado sexta-feira, no Auditório do Franco-Moçambicano, em Maputo, primeiro, os processos criativos do autor embalaram e conduziram o público a um lugar qualquer, distante o suficiente para não se julgar haver vida além daquele centro cultural.

Bem acompanhado pelos seus amigos artistas, Muzila (voz, saxofone e flauta), Texito Langa (bateria), PIZZAWPINEAPPLES (guitarra e voz), Chris Born (piano) e João Graça (efeitos visuais), Pedro da Silva Pinto provou que uma residência artística de apenas 10 dias, árdua, no Franco, pode resultar num concerto memorável. Pausado. Terno. Imprevisível. A noite de “Cinzas” de Pedro da Silva Pinto foi sobretudo isso: imprevisível, pois, continuamente, desconstruiu ideias, estereótipos e perspectivas. Também por essa razão, os 45 minutos de música ao vivo soaram como uma ode à arte de calar, escutar e sonhar acordado com algumas doses inefáveis de introspecção.

No Auditório do Franco, “Cinzas” foi tudo menos um concerto vulgar. Com os temas interpretados absolutamente irmanados (ainda sem títulos), os artistas apresentaram ao público a música como um acontecimento emocional, despertando nas pessoas a melancolia de que elas paradoxalmente e/ou eventualmente precisam para serem felizes.

Não obstante a sintonia entre os artistas, o suspense sempre no ar a suportar a ideia de que viria mais alguma coisa além do que estava no palco, “Cinzas” foi um acto de fé, de esperança e de aproximação individual; um acto sobre a dor de sentir o que a música transporta nos seus acordes e nas suas possibilidades; um acto de amor ao masoquismo; um acto de tornar as coisas graciosas por via de propostas minimalistas. Ali encontramo-nos com os seres que nos habitam, com a paz e com o que a catarse deve e pode significar.

Longe da música pimba, Pedro da Silva Pinto apresentou no Franco um projecto ao vivo supostamente orgânico. Como se ensaiasse, cantou, tocou piano e viola baixo. Irrequieto. Desconstruindo, igualmente, aquela velha estrutura das bandas, em que o artista geralmente cumpre a mesma função em todo o espectáculo. Com Pedro da Silva Pinto não é assim que funciona. Nem com ele e tão-pouco com Muzila, que, no concerto, também cantou, tocou saxofone e flauta. Tudo a condizer num palco relativamente escuro, pois, assim, os efeitos visuais de João Graça puderam fazer sentido.

Ao estilo/ritmo do jazz, a noite de “Cinzas” de Pedro da Silva Pinto foi essencialmente um concerto para atiçar a arte de sentir com os outros o que move o coração.

 

“Suprima a prostituição, e os desejos sexuais ocasionarão

a instabilidade social” – Santo Agostinho

 

Nada mais agravoso que uma solução frágil para reincidência de crimes hediondos como homicídios contra mulheres e trabalhadoras de sexo que têm ocorrido na Sofala, sobretudo, Beira. A aplicação de medidas ordinárias como reforço de patrulhamento policial em zonas perigosas pouco ajuda a reforçar a segurança duma trabalhadora de sexo que testemunhou cerca de 20 casos de assassinato brutal das suas colegas. A ocorrência massiva destes crimes em pouco tempo visando a um determinado grupo social dá azo a várias interpretações tais como: há um grupo organizado que queira extinguir ou desincentivar a prática da prostituição, usando violência; há um grupo de sádicos que busca satisfazer os seus prazeres, vitimizando prostitutas; ou, talvez, as trabalhadoras de sexo devem estar num estranho ajuste de contas com uma facção criminosa. Estas hipóteses ganham a sua razão de ser, quando as autoridades não chegam a trazer uma explicação sustentável por trás destes assassinatos praticados com a mesma tática – estuprar, agredir e asfixia-las com as suas roupas interior.

Em todo o caso, a certeza é uma só: a protecção das trabalhadoras de sexo na Beira, Sofala, assim como em qualquer canto de Moçambique é deveras precária. Um estudo de 2016 realizado em Moçambique por Aids Fonds em parceria com Hands OFF! revela que 80% das trabalhadoras de sexo foram alvos de violência em 2016, seja ela física, sexual, económica ou emocional. E o mais agravante é que o perpetrador não é somente o cliente, mas também a polícia, o profissional de saúde, a comunidade e entre as próprias prostitutas. Por esta razão factual, o reforço do patrulhamento policial torna-se ineficaz na garantia da segurança e protecção dessas mulheres.

Ademais, o estudo indica que a maioria das trabalhadoras de sexo em Moçambique tem evitado recorrer à polícia em casos de violência, pois das vezes que o fizeram, as autoridades não têm levado a sério as suas queixas e, muitas vezes, culpam-nas pela violência de que foram alvo. Tanto a polícia como profissionais de saúde e a própria comunidade tratam-nas como seres desprezíveis. Em parte, este estigma resulta da ausência de legislação desta actividade. Ou seja, em Moçambique, a prostituição não é legal nem é tida como crime, excepto casos de exploração sexual e lenocínio. A ausência da legislação sobre este assunto, ao invés, de criar uma atmosfera social saudável, somente serve para agravar a condição dos direitos humanos das trabalhadoras de sexo, por uma razão muito simples, a falta de regulamentação de qualquer actividade social que seja sempre gera injustiças em forma de exploração, roubo ou violência.

Para este caso de prostituição, são vários casos de injustiça relatados no estudo de Hands OFF! em que um cliente, depois de ter mantido relações sexuais com a prostituta, recusa-se a pagar-lhe pelo serviço, dizendo que ela é uma puta sem direito nenhum no Estado, por isso, a sua queixa na polícia de nada valeria. Casos em que ora o cliente paga-lhe abaixo do que se havia combinado, ora chega a ameaça-la de morte, ou mesmo força-la a manter relações sexuais desprotegidas, correndo riscos de contrair HIV. Alguns clientes chegam a roubar-lhes todos os seus pertences, abandonando-as em lugares distantes. Fora da relação com os clientes, as trabalhadoras de sexo têm enfrentado descriminação nos hospitais, onde os profissionais de saúde movidos por crenças religiosas ou pessoais chegam a insulta-las ou recusar-se a atende-las. Doutro lado, elas, de vez em quando, têm sofrido a perseguição da polícia que alega comportamentos contra decência e moral pública. E, em troca da sua libertação, muitas são exigidas dinheiro ou prática de relações sexuais não pagas. Nisto, a questão que se coloca é, pelo facto de terem escolhido um caminho vergonhoso aos olhos da sociedade para ganhar a vida, será que elas merecem ser sujeitas à tanta violência e abusos?

A tendência da nossa sociedade conservadora é olhar para prostituição como um mal contemporâneo, resultado da globalização, descuidando, assim, totalmente da história sobre ela. Tampouco se leva em conta que a prostituição é um fenómeno que sempre acompanhou a evolução da humanidade, há mais de mil anos antes de Cristo. A sua relação com a sociedade civil sempre variou entre positivo e negativo, aceitação e desprezo, ao longo de diversas eras e civilizações. Por exemplo, na Grécia Antiga e Roma, a profissão das trabalhadoras de sexo não era tida como desonra, mas sim admirável, sendo regulamentada pelo Estado com deveres de pagamento de imposto. Já na idade de Média, houve fortes tentativas de reprensão de prostitutas movidas pela moral cristã, mas sem sucesso. Mesmo em civilizações árabes onde se condena veementemente a prostituição, ela existe ainda que sob o disfarce de residências designadas Harém. Isto quer dizer que a resistência deste fenómeno para erradicar-se do mundo está ligada intimamente ao instinto sexual dos homens. Enquanto o sexo fizer parte dum conjunto das necessidades secundárias do homem, o negócio de sexo sempre acompanhará a civilizações. E quando se tenta erradicar uma actividade que constitui necessidade do ser humano, o que acontece é que ela provavelmente encontre outros meios clandestinos de ser praticada. Consequentemente, toda a actividade que se exerce à margem da lei acaba produzindo perigos inerentes ao seu estado.

Para o caso de a prostituição ser considerada ilegal, os perigos que nascem são a exploração sexual, escravatura sexual, tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos, violência, doenças e descriminação social. Ou seja, onde a prostituição é considerada ilegal, mas a sua prática clandestina persiste, ocorrem frequentemente casos como violação, roubo e agressões, na medida em que as prostitutas não gozam de nenhuma protecção do Estado, tornando-se totalmente vulneráveis aos clientes que as procuram. Sem assistência jurídica, policial nem médica, as prostitutas poderão continuar a exercer as suas actividades, mas num ambiente de medo e de graves riscos. Então, quando o Estado moçambicano simplesmente descriminaliza a prostituição não significa que esteja a tomar medidas para combate-la ou favorece-la, simplesmente está assumir uma posição de neutralidade para com a actividade. Ou seja, o Estado está a sentenciar que não é crime, mas também não é uma actividade reconhecida como profissão, digna de deveres e direitos. Tal posicionamento abre espaço dentro do Estado para que entidades singulares ou colectivas, formais ou informais, aproveitem-se da ausência da legislação para criarem as suas próprias normais, tentando evitar, pelo menos, a prática de lenocínio considerado crime. E quando são os particulares a regular o exercício da prostituição, o mais provável é que a exploração sexual e violência marquem essa actividade, tal como tem acontecido em Moçambique.

Não obstante elas exercerem uma actividade vista como desonrosa em Moçambique, as prostitutas fazem parte da categoria de cidadãos deste país, sujeitas aos deveres e direitos enquanto cidadãs. E, por isso, um tratamento condigno que inclui a segurança da sua integridade física e mental é-lhes um direito que devem exigir ao Estado. Julgo que não cabe à sociedade o direito de julgar cada uma das trabalhadoras de sexo os motivos que a moveram até a essa indústria sexual. Segundo o estudo da Hands Off!, 100% das prostitutas abraçam essa activadade movidas pela necessidade de ganhar dinheiro para sustentar os seus filhos, apoiar os seus pais, pagar os estudos, melhorar a sua vida, ou sustentar os seus caprichos e vícios. Julgar a razoabilidade desses motivos afigura-se-me uma invasão das liberdades individuais, contando que algumas prostitutas de dia exercem outros trabalhos vistos como dignos pela sociedade, entretanto, a baixa remuneração chega, para algumas trabalhadoras de sexo, a não cobrir as despesas básicas. Ademais, é inconcebível a condenação do trabalho das prostitutas quando ele pauta pelo livre acordo com o cliente. Nenhuma das partes insiste a outra a buscar pelo prazer carnal. Todo o envolvimento é resultado duma negociação.

Discorrendo com brevidade sobre a importância da prostituição na sociedade, ocorre-me a ideia de que o trabalho delas estranhamente auxilia na estabilidade duma relação conjugal, servindo como descarga do prazer ainda que frívolo para o homem nos dias que a sua parceira, por questões biológicas, não pode praticar o acto sexual. Julgo que o risco duma relação instável entre cônjuges é maior quando o homem, no lugar duma prostituta, busca contrair uma relação com uma amante. Ou seja, diferente duma prostituta, cujo envolvimento sexual com o homem é estritamente comercial, uma amante normalmente envolve-se com o homem casado movida pelo afecto e, muitas vezes, pela esperança de formar uma família. Por isso, o amantismo envolve sérios riscos de instabilizar ou causar divórcio aos casados, podendo desencadear, dessa forma, instabilidade familiar e social. A demissexualidade é uma condição rara na espécie masculina.

Todavia, a procura dos homens tanto casados como solteiros pelos serviços de trabalhadoras de sexo envolve riscos de infecção de HIV/Sida. Porém, esses riscos são deveras baixos, porque o cliente, sabendo que se vai relacionar com uma prostituta que por natureza do trabalho dela faz sexo com várias pessoas, ganha cautela de usar métodos preventivos contra HIV como o uso de preservativo. Sabemos que o preservativo não garante infalivelmente a protecção, pois, em algum momento do acto sexual, pode romper-se, mas o risco é bem menor. Entretanto, essa não seria uma razão suficiente para banir-se esta actividade, pois nenhum método seria eficaz para extinguir o trabalho de sexo no seio duma sociedade. De forma clandestina e, no submundo, a prostituição continuaria a ser praticada, pois é uma actividade relativa ao instinto natural do homem. O sexo mostra-se uma necessidade para o ser humano ao nível de roupa, habitação, conforto, ou até mesmo da paz. E, praticada de maneira clandestina, a prostituição pode elevar maior número de riscos tanto para as trabalhadoras como para o cliente e a sociedade em geral, do que quando tornada legal, pois tudo que é feito às escondidas tende a ser desregrado.

Há mais benefícios do que males, quando o trabalho sexual é legalizado e regulamentado pelo Estado. As prostitutas passam a ganhar maior protecção policial e jurídica, na medida em que, em casos de injustiça sofrida, tanto a polícia como o magistrado já têm mecanismos legislativos para melhor entender, mediar diferendos e solucionar crimes. Na área de saúde, as trabalhadoras de sexo teriam mais acesso à assistência médica podendo, por força da lei, ser sujeitas a exames de saúde e obrigadas a tomar todas as medidas necessárias de prevenção contra HIV/Sida sob o risco de perder a sua carteira profissional e, consequentemente, serem proibidas de continuar a exercer tal actividade. Havendo tal controlo estatal sobre a saúde delas, penso que casos de contaminação de HIV reduziriam drasticamente nessa indústria. Regulamentando-se esta actividade, fechar-se-ia, não por completo, o mundo de exploração sexual, pois elas teriam uma base jurídica para reportar casos de prepotência e abuso do poder dos seus eventuais gestores. A legalização da prostituição poderia ser acompanhada da legalização dos bordéis – lugares que seriam determinantes para proibir-se o exercício de prostituição nas ruas das cidades e subúrbios e, por conseguinte, elevar-se-iam a decência e moral públicas. Passando a prostituição ao nível duma profissão, tornar-se-ia justo e necessário que as trabalhadoras de sexo fossem obrigadas a pagar impostos para maior segurança dos seus empregos e o desenvolvimento económico dum país.

Em resumo, tanto a sociedade como a classe de trabalhadoras de sexo saem em vantagem com a legalização da prostituição, pois os casos de HIV, indecência pública, violência física, sexual, emocional e económica, tornar-se-iam menores em comparação com o estado de ilegalidade ou indiferença para com esta actividade tão antiga quanto a prática do comércio. Ademais, o Estado passaria a ter maior vigilância sobre casos de exploração sexual e tráfico de seres humanos. É para sociedade um grande risco ter-se uma prostituta camuflada duma jovem solteira e decente, ao invés duma prostituta que se identifica como tal e assume publicamente o seu trabalho de venda de sexo. Com a primeira, os riscos de contrair DTS são maiores. Com a segunda, só há riscos elevados de DTS, se o cliente e ela consentem. Onde ninguém é enganado, mais seguro e consciente a pessoa se sente.

 

Hélder Tsemba

tsembah@gmail.com

Maputo, 11 de Fevereiro de 2023

“Escrevo em changana porque é uma língua muito rica, uma língua muito bela. Escrevo em changana porque acredito que o plurilinguismo nacional é uma realidade que não nos deve assustar com fantasmas de um tribalismo morribundo”.

                                  Bento Sitoe

 

Não sei se entre nós se atribui alguma importância a uma crónica literária sobre um livro escrito numa das nossas línguas nacionais, neste caso o changana, porque no universo dos leitores considerados atentos, poucos são os que dominam essa língua, subalternizada, como todas as línguas moçambicanas, ao longo dos tempos pela língua portuguesa desde o início do processo de colonização. Apesar deste constragimento aventuro-me a fazer alguns comentários sobre o livro Ndzuthini, da forja de Mabjeca Tingana, o que significa que vou escrever para um público consideravelmente constituido por leitores que desconhecem o changana, mas a crónica terá cumprido a sua missão, o de fazer com que ninguém deva ignorar esta obra  que explora com uma considerável criatividade os aspectos sociais que julga significativos.

Vou escrever não apenas sobre um livro de poemas, mas sobretudo sobre essa figura peculiar que é o Mabjeca. Tal como a sua poesia, ele não poderia ser diferente daquilo que o caracteriza: profundamente irreverente no seu modo de ser, totalmente despretensioso na sua maneira de trajar, definitivamente desencantado na sua leitura sobre as coisas que o rodeiam. Está perfeitamente claro, naquilo que fala, escreve e sugere, que Mabjeca Tingana nos quer abalar. É, se assim o quisermos definir, um perturbador, um provocador, um indiscutível exemplo de alguém que cresceu muito por dentro, e segundo tenho estado a observar nao se preocupa em perder tempo, cada vez mais escasso, em guerrilhas literárias que traduzem os conflitos que nos perseguem,  perdendo o tempo, como diria o saudoso escritor Baptista Bastos, “na volúpia do mesquinho na mesquinhez”.

Ndzuthini significa sombra, lugar de repouso e aconchego ou então esse  lugar de sossego e paz que desesperadamente almejamos nestes tempos em que grassam na nossa sociedade inúmeros conflitos. De modo que Ndzuthini pode ser o país que sonhamos, o homem novo que tentamos construir, a poesia que queremos escrever colocando as palavras certas capazes de modificar o mundo. Não sei se é um lugar onde o poeta Mabjeca Tingana já esteve ou que desejaria, um dia, colocar os seus pés. Se “o sonho comanda a vida” nada impede que o poeta deseje encontrar o almejado mundo novo, diferente desse outro que o seu livro denuncia. Recorro apressadamente a imagem que ilustra o livro: uma frágil cabana de caniço e madeira e zinco quase a tombar sobre si mesma; por que razão Mabjeca a escolheu para ilustrar o seu livro? Talvez para nos sugerir que o aconchego que passamos a vida a procurar também se pode encontrar naquele modesto lugar, nas coisas mais simples. Uma antítese da ostentação que domina as nossas vidas.

Mabjeca escreveu um livro que pelas suas caracteristicas linguísticas se tornou diferente de outros livros. A língua com que se construiram os poemas que nele constam fez com que houvesse esse rebuscar filosófico que sustenta as línguas bantu e torna os seus poemas interessantes. Exactamente por isso, feliz ou infelizmente, ele se influencia a si próprio, foge de um Eugénio de Andrade, um Sangare Okapi ou Armando Artur, torna-se a bússola da sua própria inspiração, a língua changana faz com que Mabjeca Tingana se reebusque permanentemente, que estabeleça as suas fronteiras e defina a largueza do seu voo poético. Não é por mero acaso que o poeta nos diz: “Penso em dar asas às linguas moçambicanas, as vinte e três línguas moçambicanas que temos. Para podermos estar independentes, temos de pensar nas nossas línguas como forma de educação, ao invés de investirmos nas línguas estrangeiras nesse sentido”. Tingana aposta, pois, na literatura como arma para o nosso desenvolvimento, retoma deste modo uma pretensão antiga que Francisco Noa desenvolve no seu incontornável livro Para Além do Túnel quando nos fala sobre “o conjunto de vantagens que o texto literário propicia na aquisição e no desenvolvimento, não só da competência linguística, mas também de outras competências na formação e nas interacções humanas”. A mensagem que Noa nos pretende transmitir é de que além da literatura representar um material autêntico e valioso, concorre para o enriquecimento cultural, envolvimento pessoal e desenvolvimento linguístico, que passa necessariamente pela capacidade de ler, escrever, ouvir e falar fluentemente. E é exactamente esse desiderato que Mabjeca Tingana persegue.

Escrever sobre Ndzhutini é tentar pensar sobre um livro que fala dos nossos tempos com uma frontalidade que pouco se encontra nos nossos escritos mais recentes, alguns deles se perdendo, na minha modesta opinião, em labirintos poéticos de difícil descodificação. Falando de Ndzhutini diria, com alguma convicção, que estamos perante um livro que manifesta um indisfarçável desencanto em relação aos males decorrentes na nossa sociedade. Aos olhos do poeta muitos valores que devem nortear a nossa maneira de estar se desmoronaram. Ou quase isso. Seja como for, Mabjeca Tingana tem a plena consciência que todos nós somos culpados e por conseguinte devemos assumir a responsabilidade de sermos cada vez melhores e nunca esquecer que a Pátria pertence a cada um de nós e não apenas aos “vanyankhadle lavayana”, como diria Tingana, referindo-se a alguns dentre os que gerem a coisa pública e que não se cansam de esvaziar os bolsos dos incautos aprofundando a desgraça colectiva. Por isso o poeta chora:

 

                         Hlohlotelani mfumu

                             Wuhumula akukoxa atimale matikweni

                             Hi vito ra ntsungu

                             Wufaka hi mavabzi, ni ndlala a Musambiki *

                              ………………………………………

*

                                Falem aos que nos governam

                                 Que deixem de fazer empréstimos

                                 Em nome do povo

                                 Que morre de doença e fome em Moçambique.

 

           Perdem os que não serão capazes de ler este livro no seu xi-txangana peculiar, cuja profundidade, sonoridade, riqueza  vocabular e suas expressões idiomáticas escapam a qualquer tradução. Diria, aliás, o estudioso Feliciano Chimbutane, da Universidade Eduardo Mondlane, no seu interessante artigo Desafios da tradução de textos literários das línguas Bantu para o Português, que “Fica claro que traduzir de uma língua para outra é sempre um desafio pois, entre outros aspectos, requer que o tradutor, por um lado, seja fiel ao sentido do texto original, e, por outro, transmita a mensagem veiculada nesse texto tendo em conta a forma e o contexto cultural apropriados na língua alvo”.  E adianta ainda Chimbutane que esse desafio torna-se mais exacerbado quando há uma considerável distância estrutural e cultural entre a língua fonte e a língua alvo. “Este é o caso da relação entre o changana e o português, pese embora a situação secular de contacto e miscigenação entre estas línguas.”

          Numa interessante conversa que Mabjeca Tingana manteve com o ensaista e jornalista José dos Remédios, quanto à necessidade de investir numa edição bilingue, por se entender que há coisas do changana que não se podem traduzir, o poeta Mabjeca mencionou que de facto pensou-se na possibilidade de fazer uma edição bilingue, mas ele afastou essa hipótese. Disse: “Sou investigador de línguas moçambicanas. Faço poesia em changana e traduzo do português para o changana. Então, para mim, não faria muito sentido uma edição bilingue, porque as pessoas iriam apostar em português e não no changana. Assim consigo me libertar melhor, porque eu, quando estou a dormir, não sonho em português, sonho em changana. Changana é uma forma de poder estender aquilo que pretendo, segundo a minha forma de pensar. Nunca escrevo nada em português. Tudo começa em changana e, depois, é traduzido para o português. Mesmo os poemas”. Neste livro Mabjeca Tingana manifesta a sua tristeza por se estar a falar muito pouco ou quase nada as línguas moçambicanas, e assiste-lhe toda a razão, porque uma língua que não se fala obviamente que não se escreve e o que não se escreve acaba morrendo. Poucos são ainda os que sobem nos palanques dos saberes para a promover, cantar e exaltar as línguas nacionais, e os que ainda sobem fazem-no quase de uma forma silenciosa, como se falar das línguas autóctones fosse um pecado, uma blasfémia. O poeta alerta-nos:

 

                             Vasungulile akuyimbelela.

                         Vata ni kuhiphamela marito hi Xiputukezi.

                             Ntumbuluku wa hina wujimiwile. **

                              .…………………………………………………..

                             **

                              Já começaram a cantar

                              Alimentam-nos com palavras em português

                              A nossa tradição está ao avesso.

                       

Falar sobre Ndzhutini é também fazer uma espécie de homenagem a todos aqueles que ao longo dos tempos usaram as línguas autoctones como forma de expressão. Referimo-nos a importantes nomes como os de Porto Manhiça, que desde os primórdios esteve incansável nos seus esforços para fazer vincar a escrita na língua ronga; do reverendo, poeta e declamador Gabriel Macavi, autor do livro “Mwambi wa Vubumabumari”, e um dos participantes na Assembleia Constitutiva da Associação dos Escritores Moçambicanos; do Professor Bento Sitoe, com uma vasta obra na área de Linguística Africana, ou de um Alfredo Chamusso, autor da obra Matsalwa ya Wusungukati  e que com noventa e sete anos de idade, tornou-se, provavelmente, o escritor mais velho de Moçambique. De modo que Ndzhutini e a saudável irreverência poética de Mabjeca Tingana, podem representar mais do que o surgimento de um livro, para chamar atenção a uma forma de escrita insuficientemente divulgada entre nós. Enquanto isso não acontecer as línguas nacionais não passarão duma simples teorização, de pretexto para se desencadear narrativas que continuarão a ser incapazes de dar resposta as exigências de uma situação de comunicação real, de uma necessidade real, como disse o estudioso Albino Chavale no seu artigo “ Texto literário no desenvolvimento da competência de comunicação”.

Um livro, qualquer que seja, deixa sempre expressa alguma mensagem, um recado, uma proposta, uma lição de moral. Um livro, seja qual for, é uma fonte de aprendizagem, é uma espécie de ponte que se atravessa para descobrir o outro lado da vida. O ensinamento maior que o livro Ndzhutini pretende nos transmitir traduz-se nesta feliz expressão de Mabjeca Tingana:

 

                                “Tiva hi kan’we, alirhandzu i ndzhuti.

                                 Aloko kunga na ndzhuti, aku na lirhandzu”,

 

ou seja, “ O amor é a sombra, onde não há sombra não existe amor”. O que significa, definitivamente, que onde não existe amor não pode haver harmonia e sem esta, não há Pátria que se construa ou que possa se sustentar. Sem nenhuma sombra, sem ndzhuti, não existe o lugar onde o poeta se possa sentar, sossegadamente, para escrever toda a poesia.

 

 

 

 

É uma daquelas narrativas cujos actores secundários assumem o protagonismo no lugar dos que realmente deveriam dar a vida à mesma. Deixaram a gota do seu suor em campo, elevaram a bandeira nacional no concerto das nações, ao mesmo tempo que fizeram ecoar o hino nacional.

É, sem dúvidas, um símbolo de patriotismo inalienável e cujos efeitos poderão ser multiplicadores para as futuras gerações. Pela primeira vez, os Mambas “ousaram” atingir os quartos-de-final de uma competição sob égide da Confederação Africana de Futebol (CAF), feito que deveria orgulhar todo o moçambicano do bem e com um coração limpo.

E como resultado dessa façanha, a Federação Moçambicana de Futebol (FMF) viu-se bafejada pela sorte, ao encaixar, nos seus cofres, 400 mil dólares norte-americanos, o equivalente a 25 milhões de Meticais, valor desembolsado pela CAF.

Em face disso, os jogadores, legítimos e verdadeiros obreiros desse feito inédito, exigiram o incremento do prémio de qualificação para os quartos-de-final de 40 mil para 150 mil Meticais. Ora, depois de muitas rondas de negociação, a FMF comprometeu-se a pagar 75 mil Meticais.

Não estando satisfeitos com essa medida, os jogadores chegaram a ameaçar não viajar à cidade de Constantine, local onde deveriam defrontar o Madagáscar. Os Mambas foram ao jogo contra a selecção malgaxe dissecados, visto que a sua preocupação não estava a ser correspondida.

Depois da partida contra o Madagáscar, em que o combinado nacional perdeu por 1-3, terminando a sua epopeica participação na 7ª edição do CHAN, prova destinada aos jogadores que militam nos campeonatos internos, o enredo ganhou outros contornos.

Na hora do regresso, os jogadores recusaram-se a sair do hotel, caso não se resolvesse a sua situação, facto que concorreu para que atrasassem o voo. Face à exigência, a Federação Moçambicana de Futebol, representada pelo vice-presidente para a Área de Administração e Finanças, Jorge Bambo, assinou um termo de compromisso no qual assumia que a FMF pagaria o valor exigido pelos jogadores em Maputo.

Os Mambas chegaram ao país cabisbaixos, com rostos que, em vez de denotarem um sentimento de missão cumprida, eram de preocupação. É que pouco ou nada sabiam sobre a resolução do seu problema em solo pátrio.

Contra todas as expectativas, a Federação Moçambicana de Futebol divulgou, na última sexta-feira, um comunicado no qual, dentre várias medidas, suspendeu cinco jogadores, no caso Isac, Telinho, Kito, Chico e Shaquille, tidos pelo organismo que superintende o futebol moçambicano como “agitadores”.

Ou seja, os cinco jogadores criaram, segundo o comunicado da FMF, um ambiente de crispação no seio da selecção nacional. O assistente de Chiquinho Conde, Eduardo Jumisse, também não escapou à suspensão, na medida em que a federação julga que o mesmo foi também um dos agitadores.

No referido comunicado a FMF diz que “os 23 atletas exteriorizaram um comportamento grosseiro, irresponsável e de chantagem, recusando-se inicialmente a ir a jogo nos quartos-de-final e, posteriormente, a deixar o hotel para iniciar a viagem de regresso a Maputo, no dia 01 de Fevereiro de 2023. Os atletas extravasaram os princípios éticos e de boa conduta desportiva em vigor na FMF, manchando os símbolos da Pátria Amada”.

Pois bem, a FMF teve tempo até de sobra para produzir um comunicado pejado de gongorismo, no lugar de encontrar uma solução para a resolução de diferendo com os jogadores. Não quero aqui discutir a legitimidade da exigência dos atletas ou dar razão aos mesmos, mas também não acho que a atitude da federação seja a mais acertada possível.

No seu estilo característico, a Federação Moçambicana de Futebol encontrou, num universo de 23 jogadores, cinco anti-heróis. Isac, Telinho, Kito, Chico e Shaquille são a rampa que a FMF encontrou para sair desse imbróglio de forma airosa, como, aliás, sempre o fez em situações similares.

Para já, os cincos jogadores vão carregar a cruz de todos os problemas do futebol moçambicano, tão-somente porque, em nome do grupo, deram a cara para reclamarem os seus direitos. Mais uma vez, abstenho-me de discutir a razoabilidade da atitude dos jogadores, pois só eles sentiram na pele o peso de vestir a camisola da selecção nacional e carregarem, nas suas costas, mais de 30 milhões de moçambicanos.

Dirão os arautos da moralidade que o que os jogadores fizeram no CHAN é seu dever, pelo que não merecem nenhum respeito, não somente em valores monetários, mas um pouco de dignidade.

É fácil, sim, para os analistas de teclado e sofá produzir uma opinião numa sala climatizada, crucificando os que, ao sol e à chuva, souberam honrar a camisola de uma nação, num país em que quem tem o poder de redigir comunicados eruditos é quem ganha a razão. Os “anti-heróis”, os quais não têm a possibilidade nem habilidades para produzir comunicados, serão sempre julgados pela história e, acima de tudo, continuarão a ser pessoas “grotescas e infames”, como a FMF os apelida no eloquente comunicado.

A mensagem é clara, os jogadores nunca passarão de autênticos marionetas de uma instituição que só dá valor a si própria. A FMF é a melhor instituição do mundo, quando se escreve num quadro invertido. A nossa inovadora federação nomeou uma “Comissão de Inquérito para, num período de três meses, averiguar os factos e as circunstâncias que ditaram a prática de indisciplina no seio da selecção nacional durante a disputa do campeonato africano”.

Que bonito! Ora, a experiência manda dizer que as comissões de inquérito neste país nunca produziram resultados palpáveis, senão informações difusas e escamoteadas. Neste caso, o resultado do referido inquérito não irá fugir do que a federação já concluiu, que os jogadores tiveram um comportamento grosseiro. Mais uma vez, a culpa vai morrer solteira. Porquê e para quê? Só a FMF sabe!

“Ínfimo gajo desajoelhado no que valho.

Olhado de esguelha pelos desiguais a mim.

Ladino na consciência de saber porquê.

Maningue longe da bíblia imagem de Deus.

 

Engravatado velho dândi antítese de santo.

Várias paixões puras aquém de um simples amor.

Quinquagenário magano de bicho-homem.

Até exímio futebolista quando quis.

 

Demo de muitas progenitoras de filhas graciosas.

Antipatizado por diversos maridos frustrados.

Irmão sincero dos mais fiéis amigos.

Concordando com o Basílio do Eça de Queirós.

 

Assim nesta minha artesanal peça de pau

em que escarafuncho elementar auto-efígie

– mesmo heterodoxo filo-marxista –

se não envergo bem talhado smoking

muito mesmo uso lustrosa libré.”

 

(José Craveirinha)

 

Este poema, intitulado “Auto-efígie”, que encerra uma auto-representação, remete-nos, no título, para a ideia de imagem, figura ou retrato. Comumente uma efígie é uma representação de uma pessoa numa moeda, numa pintura ou escultura. Há, no entanto, outras formas de efígies, como aquelas dos monumentos funerários na Idade Média. A despeito, o que me ateve na leitura deste texto é o acabado exemplo de tudo o que me tem suscitado o amiudado reencontro com a poesia de José Craveirinha. Disse-o algures e aqui reitero: muito do que é o melhor de Craveirinha está nos seus poemas menos conhecidos e naqueles onde não se exaltam os povos nem o destino dos oprimidos, mas nos textos onde fala de si próprio. Este texto, arraigadamente autobiográfico, é flagrante nisso.

José João Craveirinha nasceu a 28 de Maio de 1922 em Maputo e morreu em Joanesburgo a 6 de Fevereiro de 2003 – passam hoje 20 anos. É uma efeméride indeclinável e um pretexto para o ler e, sobretudo, alertar os incautos sobre a sua importância. O país anda demasiado entretido com a questiúncula política e distrai-se do que realmente importa. Referir esta infausta data também serve para incitar que o leiam. Sobretudo os neófitos.

O poema que preludia esta evocação denuncia o grande Craveirinha: o mestre da ironia. O vate sarcástico. Sardônico como poucos. Garboso na forma como se emula a si próprio. Não como constrói o seu auto-retrato, que aqui designa por “auto-efígie”. Mas como erige toda a sua obra poética. Para além de poeta, Craveirinha é um prosador primoroso. Contista e cronista. Também polemista. Jornalista de vulto. Como se tudo isto não bastasse: “Até exímio futebolista quando quis”.

É autor de versos que denunciam uma proficiência raríssima. As suas metáforas são inesperadas. As suas imagens inusuais. Leia-se este poema (“Auto-efígie”) e descobrir-se-á o que há de melhor no estro deste Poeta esplendente. A língua em Craveirinha resplandece, rutila, brilha, lustro que é prerrogativa de poucos. De pouquíssimos, digo.

Tenho convivido, assiduamente, com a sua manufactura poética. Para além do iterativo assombro que experimento, rememoro o amigo que me concedeu a láurea de partilhar a sua intimidade. Por isso, o verso “irmão sincero dos mais fiéis amigos” é-me, igualmente, caro. Senti isso do Zé. Sempre. Ao longo dos anos em que fui visita de casa ou companheiro de viagens e conversas e cumplicidades. Sobretudo quando o escutava. Quando partilhava a sua solidão e o seu desapontamento quotidiano.

Quem o conheceu saberá que ele não tinha um génio fácil. Não era apenas por ser “demo de muitas progenitoras de filhas graciosas” ou porque fosse “antipatizado por diversos maridos frustrados”. Ele próprio tinha os seus desafectos figadais. Era corrosivo quando abominava. Defendia intransigentemente quem amasse. Era mesmo um “irmão sincero dos mais fiéis amigos”. Aliás, num livro póstumo (“O Plebiscito”) há matéria bastante quanto aos seus desamores canónicos.

20 anos depois da sua morte não se pode dizer que ele esteja esquecido. Até porque, não raro, há iniciativas editoriais que intentam o contrário. 2022 foi ano do seu centenário. Pessoalmente não vi nada que merecesse o meu gáudio. Pareceu-me tudo exíguo, acanhado, escasso. Íntimo, particular. Gostaria de o ter visto distribuído, partilhado, universal. Como é a sua voz pujante e ecuménica.

A despeito, duvido que o leiamos como a sua importância reivindica. Creio até que o citamos profusamente, somos capazes de o festejar nas solenidades, de que a nossa gleba é particular e mediocremente jactante, mas não o lemos. Mal o conhecemos. Mal nos revemos na sua grandeza e generosidade.

Quem me conhece, sabe que não pratico, em relação à Pátria, expectativas desavisadas. Nem creio que os regozijos que se adivinhavam naqueles seus 100 anos nos instigassem para além do escasso júbilo privativo. Falta-nos o essencial: ler os nossos poetas. Poderíamos estar mais precatados. Não temos solicitude para a leitura, estudo ou reflexão. Como havemos de ler os nossos poetas? Restam-nos a enxúndia.

Leio-o sempre. E sempre que o alcance rejubilo. Retorno aos seus versos. É uma forma de o lembrar, de o celebrar. O esquecimento é a melhor folia da Pátria.

 

José Craveirinha:

 

“Amarrada

a tiras de trapos

minha geleira a prestações

é uma branca figura de retórica

no centro da cozinha.”

 

“Como único privilégio

os poetas usufruem a própria morte

para viverem ainda mais a sua pátria.”

 

“Não sei se existe Deus.

Mas se Deus existe

Ele está com toda a certeza

a comer comigo esta farinha

no mesmo prato.”

 

“E a vida

a injúrias engolidas em seco.”

 

“No febril conluio dos mútuos poros”

 

“e a gostar dos obséquios a soco inchando-nos o sorriso”

 

(Cela 1)

 

“no feitiço viril da insuperstição das catanas”

 

“e na capulana austral de um céu intangível”

 

“Eu tocador de presságios nas teclas das timbilas chopes”

 

“Eu tenho uma lírica poesia

nos cinquenta escudos do meu ordenado

que me dão quinze minutos de sinceridade

na cama da mulata que abortou

e pagou à parteira

com o relógio suíço do marinheiro inglês.”

 

“E eu sei poesia

quando levo comigo a pureza

da mulata Margarida

na sua décima quinta blenorragia.”

 

 “De cesarianas

do mar

vieram os pálidos navegantes

com espadas

com espingardas

com missangas

e com bíblias cá ficaram.”

 

(Xigubo)

 

“da rua em comissuras de saibro

plagia o azimute das mamanas”

 

“a cada milímetro do teu descaramento”

 

“no meu coração

em estado de sítio”

 

“Estamos sentados.

E nefelibatas bebemos coca-cola

nas públicas cadeiras da praça.”

 

“na madrugada dos meus olhos pardos”

 

“todos ávidos da evolução técnica mas impúbere

do teu ângulo azul-escuro de anjo na cama

namorados que levam de cada idílio contigo

a cosmopolita recordação das tuas gonorreias”

 

(Karingana ua Karingana)

 

Poderia citar, outrossim, “Tâmaras Azedas de Beirute”: “Toda a minha ternura vai inteira para Beirute”. Ou “Babalaze das Hienas”: “Na cabina do Toyota escavacado / espírito de madjone-jone Justino / fincado ao volante / acelera derradeiros / randes / na estrada / nacional / nº1”, “a gula das quizumbas / se baba nas beiças / das catanas, / dos machados”, “Eméritos felídeos à solta / cometem sumárias obstetrícias / variando cesarianas / à facada”, “pândega das metralhadoras”, “Daqueles sagrados palmares da Boror / água dos lanhos zambezianos / ensaguentam opíparos almoços das Donas / em pantuguélicras indisgestões / de chumbo”, “E das levianas rapsódias de bombas”. Poemas resolutos nestes dias ominosos.

 

Dois livros, apetecia-me dizer dois poemas, de uma virulência verbal, imagética e metafórica. Digo poemas porque a sua homogeneidade parece evidente e inquestionável e cada página acrescenta à composição de um mesmo poema imagens e metáforas. É como se estes poemas fossem um “continuum”. Isso acontece nestes dois livros. Como acontece em “Maria”.

Leio “Cela 1”: “Com um inofensivo alfinete mágico / nós os miseráveis sonhadores moçambicanos / de cerrados maxilares invocamos os desejos / e suspendemos os corações nas janelas / donde a lua e o sol quando entram / entram gradeados”. Leio, digo bem. Esta poesia não se relê. Lê-se sempre. Livro pungente. Livro de uma solidão habitada. Livro de um grande sobressalto poético. Livro de um “prestidigitador emérito”. Livro de amor. Livro indignado. Contra as “injúrias engolidas em seco”. Livro de um poeta irresignado: “Mas se é para me vender / vendo-me mas vendo-me muito caro. // Ao preço incondicional / de quanto me pode custar este poema”.

Poderia citar na íntegra o poema “Metamorfose”: “Nas noites / minha mão escultural / é um pensamento despido. // Em dois anos / meus dedos metamorfoses / de Sofia Loren e Claudia Cardinale / voluptuosamente só traíram / a minha ex-querida Ava Gardner / outro nome que não digo / e minha esposa Maria”.

Octavio Paz definiu, de forma sublime, a poesia: conhecimento, salvação, poder, abandono. Numa expressão feliz chamou-lhe “arte de falar de uma forma superior”. Ou, como muitas vezes é citado, como: “Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário”. A obra poética de José Craveirinha é a expressão cabal da definição de poesia que o grande Poeta mexicano inscreveu na pedra angular do tempo em “O Arco e a Lira”.

Num dos derradeiros poemas de “Karingana ua Karingana”, intitulado “Fraternidade das Palavras”, título e texto que me sugere uma aproximação ao Poeta americano Walt Whitman, José Craveirinha escreve:

 

“E eis que num espasmo

de harmonia como todas as coisas

palavras rongas e algarvias ganguissam

neste satanhoco papel

e recombinam em poema.”

 

Num ensaio intitulado “Algumas considerações em torno da poesia de José Craveirinha”, recolhido no volume inicial das suas sulfurosas “Crónicas dos Anos da Peste”, Eugénio Lisboa, conhecido pela sua viperina língua, quando se refere a este Poeta, tem uma expressão feliz: “uma voz virilmente indignada”. A sua poesia é sobretudo isso. A indignação visceral. Rui Nogar, outro grande Poeta moçambicano, dizia-nos sobre o seu companheiro: “Surge-nos então José Craveirinha e a sua poesia. Ambos radicados numa dolorosa experiência quotidiana”. Nogar sabia do que falava.

No aludido ensaio de Eugénio Lisboa este asseverava: “Há em Craveirinha – é mesmo esta uma sua característica nuclear – este gosto, este gozo sensual, esta posse, direi mesmo: esta alucinação, da palavra. Craveirinha morde a polpa das palavras, tacteia-as amorosamente, fá-las vibrar no poema, encoleriza-as…Craveirinha – por isso é poeta – faz amor com as palavras. Faz amor – é bem o termo: se ele nos choca, ainda bem – o objectivo é esse e não outro”.

A poesia do soberbo Poeta americano Whitman (“Folhas de Relva”) é um hino, um hino à vida, um hino ao amor, um hino à humanidade, um hino à fraternidade. Estes poemas de Craveirinha são sobretudo hinos. Belos hinos, digo. Cito estes versos de “SIA-VUMA”: “E deixem em nós gerar-se / irresistível a prole das sementes do beijo / consanguíneo do Grande Dia. SIA-VUMA!”

Este poema é um daqueles textos que fizeram a fortuna do Poeta. O livro “Xigubo” com poemas como “África”, “Hino à Minha Terra”, “Ode a uma carga perdida num barco incendiado chamado Save”, “Manifesto”, ou a colectânea “Karingana ua Karingana” com “Canto do nosso amor sem fronteira”, “Ode à Teresinha”, “Ao meu belo Pai Ex-emigrante”, “Dó Sustenido por Daíco”, “Hino de louvor a Valentina Tereskova”, “Carta para a Mãe dos meus Filhos”, entre outros, para além de “Sia-Vuma”, estão abundantemente carregados deste tipo de poemas, de grande fôlego, de arrebatamento, desse arroubo, que faz de Craveirinha, essa “voz do povo” e faz com que a sua poesia, como queria Paz, revele o mundo e crie um outro.

Mas também ele é, “língua dos escolhidos” e aqui radica sempre o meu reiterado esforço em mostrá-lo: este Craveirinha menos proclamado, que não o ouvimos nos pregões, nas proclamações ou aclamações, e que se revela nos aforismos, nos poemas menos conhecidos, nos versos líricos – de súbito, inopinadamente, abruptadamente, admiravelmente -, e que, quanto a mim, é o melhor Craveirinha. Aquele, outra vez recorrendo a Octavio Paz, que revela a “palavra do solitário”. Como no poema “Auto-efígie”, aliás. E daí ter usado o mesmo para encimar esta homenagem.

Contudo, por onde começar a ler a sua obra? Pela sua lírica, por vezes pungente? Pelos poemas de grande fôlego como “Saborosas Tanjarinas d´Inhambane”? Pela “voz do povo” ou “pela língua dos escolhidos”? Por onde se começa? Como faz um principiante? Começa por ler um poema como “História de Amor”?

 

“Maria de uma canção de amor

liberta minha solidão secular

a salvo-condutos de ósculos da tua boca

e enquanto minhas mãos procuram tua angústia

e cerras outra vez as pálpebras sombreadas de volúpia

ah, Maria, quantas vezes morremos?”

 

Quem escreve isto é um grande poeta: “e enquanto minhas mãos procuram tua angústia”. Isto é de uma beleza desarmante, de um grande conseguimento. Há muitos exemplos destes na poesia deste grande oficiante da língua.

 

 “Minha tão bela esposa Maria

Cinquentenária jovem isenta de frívolos aniversários.”

 

Isto é de uma extraordinária elegância. Aqui também está o grande Poeta Craveirinha. Do mesmo poema cito:

 

“Minha mais amada por mim dos que as frívolas

raparigas de provocantes fémures desnudos.”

 

Ou ainda:

 

“E com meus defeitos e suas qualidades

compúnhamos o mais incongruente invejado casal perfeito.”

 

Craveirinha – disse-o e repito – é um mestre da ironia, é um mestre da metáfora, é um mestre da imagem. A poesia é sobretudo isso. A imagem, a alegoria, o tropo. Este poema está repleto desse arsenal metafórico ou de imagens alegóricas que fazem dele um grande Poeta. Era importante que o lessem. Há para aí pressurosos versejadores que não leram os Mestres, que não se detiveram no Craveirinha. Seriam mais pudicos e menos ufanos. Poupavam-nos do seu priapismo cibernético pretensamente poético. Perdem muito. Perdem sobretudo o assombro de um verso, como este que encerra o poema “Maria. Salmo Inteiro”, que é um verdadeiro achado: “o mais mudo sotaque do último chão”.

Isto só é permitido aos escolhidos! Aos escolhidos pelos deuses! José Craveirinha é um desses pouquíssimos escolhidos e está na condição de um grande Poeta!

 

SIA-VUMA!

 

Cidade do Cabo, 6 de Fevereiro de 2023

 

Ao arrepio do regulamento de prova por si aprovado, e numa aceleração em contramão capaz de provocar estragos bem maiores que rinocerontes numa loja de porcelanas, a Federação Moçambicana de Basquetebol (FMB) ignorou as irregularidades cometidas pelo Desportivo de Tete ao utilizar sete reforços (da Liga de Chimoio) contra os dois da mesma associação permitidos pela agremiação na primeira jornada do Campeonato Nacional de juniores femininos, em Quelimane.

Acto contínuo, o comité técnico fez vista grossa ao “caso” do Sporting de Quelimane, que, na jornada inaugural, utilizou três atletas provenientes de outras associações provinciais, sendo duas do Desportivo Maputo e outra do Ferroviário da Beira. Tudo no afã de querer ganhar a qualquer custo.

Ou seja, no lugar de recorrer ao regulamento que prevê a aplicação de falta de comparência às equipas com má qualificação de atletas, o órgão reitor do basquetebol moçambicano, que devia ser o guardião da verdade desportiva, assobiou para o lado e deixou passar tamanho e grosseiro atropelo à verdade desportiva.

A mesma Federação Moçambicana de Basquetebol, e depois de a polémica vazar nas incendiárias e interventivas redes sociais, penalizou com derrotas a equipa masculina do Sporting de Quelimane por má qualificação de um atleta com idade acima do limite definido para disputar a prova. Isto, de resto, num caso de falsificação de idades que faz escola no desporto moçambicano. Perante, sem sombra de dúvidas, o olhar impávido das autoridades desportivas e não só. Imprime-se, às catadupas, bilhetes de identidade bem mesmo nas vésperas de provas.

Estamos, pois, perante um cenário de dualidade de critérios. E as questões que não querem calar, claro, são aqui convocadas: porque o comité técnico não teve a mesma mão dura para com o Desportivo de Tete e Sporting de Quelimane? Não gostam do jogo limpo? Advogam o cumprimento escrupuloso das regras por parte de uns e incumprimento por outros? Pura incompetência? Porque, se assim for, até podemos esquecer estes pontos e assim pensar: “perdoem pois não sabem o que fazem”.

E aqui, caros patrícios, a FMB não pode passar paninhos quentes ao emitir um lacónico comunicado no qual refere que a questão das penalizações passa a ter efeito a partir da segunda jornada da prova.

Quer dizer, este “nacional” de basquetebol de juniores masculinos e femininos, eivado de seriedade, tinha dois regulamentos de prova?

É papel e dever da FMB fazer respeitar os regulamentos e a verdade desportiva sob o risco de estas provas ficarem mais descredibilizadas do que já estão e perderem interesse por parte dos clubes. É só olhar para a tragicomédia que foram os “nacionais” de juvenis masculinos e femininos, em Xai-Xai. Quem vai investir, em momentos de orçamento magro, para disputar provas onde a verdade desportiva é uma miragem? O que estamos a transmitir ao empresariado quando apadrinhamos irregularidades?

Há, por outro lado, questões de fundo relacionadas com o que se pretende, de facto, com os campeonatos dos escalões de formação.

Em países mais sérios, objectivamente, estas provas afirmam-se como um espelho para potenciar e exponenciar novos valores, de mais a mais quando estamos num escalão de transição para os seniores. Como é que se pode garantir continuidade e consistência quando improvisamos, em duas semanas, uma equipa formada por atletas de outros pontos do país que somente vão jogar os “nacionais”? É este mesmo o caminho que queremos seguir para produzir atletas de referências? Porque não incentivar quem forma, de facto?

Não estamos a abrir espaço para cortar as pernas de um leque de atletas locais, muitas delas com potencial, que podiam estar a representar a sua província e/ou equipa? Não estamos a dizer, de forma indirecta, aos pais e encarregados de educação que o desporto é uma escola de batota? Que somente vence quem prevarica?

Mais do que olharmos para os 3500 Meticais que vale cada inscrição de atletas, devemos ter a consciência de que ninguém mete dinheiro.

Uma síntese amorosa e (in)suspeita

A narrativa a que Aldino Muianga nos tem habituado inscreve-se no que considero uma tendência estética do idealismo da literatura moçambicana. Se procurássemos um autor que sintetizasse esta tendência, encontraríamos em José Craveirinha, cujo centenário de nascimento celebramos este ano, o seu exemplo acabado. Trata-se de uma tendência que concebe a arte e o artista como entidades comprometidas com uma espécie de melhoramento da sociedade, o que exige do artista uma tomada de posição, que pode ser de natureza politico-ideológica ou cultural, quando não é a síntese de todas estas possibilidades.

A propósito de Aldino Muianga, gostaria de destacar a dimensão cultural e existencial deste idealismo, que faz do artista um incansável revolucionário, um renovador em busca de um bem que se resume na restauração do equilíbrio fundado nos valores da tradição moçambicana e, inclusive, de toda a humanidade. Trata-se, portanto, de um equilíbrio perdido, sobre o qual o autor escreve com foco no nosso presente irónico, ou seja, mirando o nosso desequilíbrio. E não me parece inegável que, para além de ser um facto, o desequilíbrio do nosso destino colectivo tem-se arrastado, insistentemente, despercebido. Ora, é para aqui que são chamados os escritores, para revelarem as enfermidades mortais da nossa época, como diria o poeta Pierre Emmanuel.

A Metamorfose e outros contos não escapa, com efeito, a esse desígnio restaurador. Há nesta obra, e nas outras do mesmo autor – bem como nas de outros narradores moçambicanos –, uma alteridade auto-reflexiva, isto é, um diálogo entre um eu de identidade suspeita, mas revelada nos caracteres das personagens e suas acções, que busca um outro, velado e supostamente perdido e a resgatar na idiossincrasia daquele eu. Esse outro a resgatar é, hoje, o outro da utopia, mas de uma utopia concreta, necessária, urgente. O narrador de Aldino configura-se, portanto, como entidade que, ao narrar histórias, revela-se ou como sujeito múltiplo de memórias, tensões e conflitos, guerras mesmo e pazes, ou constrói personagens com essa condição de entidades ambíguas e ambivalentes.

Em qualquer das hipóteses que acabamos de apresentar, uma análise discursiva à obra haveria de sugerir que, em última instância, quer o narrador, quer as personagens emanam de Aldino e seus conflitos e utopias. Não me vou alongar nesta questão, não é agora o momento. Mas faço a insinuação a pensar que o nosso passado colonial fez dos sujeitos moçambicanos e, por conseguinte, dos artistas que um dia dão à estampa, indivíduos irremediavelmente híbridos culturalmente. De resto, as nossas atitudes ou práticas sociais são, não raras vezes, um sim e um não ao mesmo tempo, geralmente um talvez. Somos uma sociedade de conveniências: para alguns «talvez devêssemos resgatar o melhor do nosso passado», para outros «talvez devêssemos contrui o nosso futuro» ateando fogo à memória, como diria o poeta Andes Chivangue. Enfim, somos mais ou menos assim. Seria justamente por isso que a arte, em Moçambique, poderia ser vista como produto da síntese, amorosa e (in)suspeita, de uma relação entre um sujeito que, no presente da História social, busca definir-se através do resgate de um ente que se encontra aprisionado num passado idealizado e projectado para o futuro. E razões para explicar isto não faltarão: o nosso passado de agressão pode ser uma delas. As guerras criaram sombras de quem somos, sombras que ficaram perdidas num imaginário que, de forma angustiada, os artistas da geração da nossa utopia procuram trazer à luz. Não causa espanto, portanto, que esta narrativa de resgate nos seja dada a conhecer de modo invertido, a partir do que Francisco Noa designa «desagregação do sentido de pertença a um determinado território.»[2]

A desagregação dos territórios

Esta desagregação dos territórios é, portanto, irónica na obra de Aldino, mesmo se considerarmos que a sua prosa é rica em descrições paisagísticas ou em personagens pitorescas, que procuram justamente ancorar o nosso imaginário colectivo. De facto, o espaço preferencial desta estética tem sido, na obra do autor, o subúrbio. Aqui pululam essas personagens modelares, que estruturam os ambientes ricos de tensões e conflitos vários, quantas vezes hilariantes. É, efectivamente, no ambiente suburbano que se inscrevem as narrativas de desagregação. Mas não só, Aldino inscreve essa gramática levando-nos a passear também entre o subúrbio e a cidade, entre o centro e a periferia. De uma forma geral, trata-se de uma estrutura narrativa em que, no início das histórias, o mundo é marcado pela estabilidade das relações, mas dá-se sempre a violação dessa estabilidade, de tal ordem que o desenlace constitua a desagregação da harmonia inicial. Aliás, esta é uma lógica cara aos autores da sua geração, como são os casos de Marcelo Panguana, Suleiman Cassamo e Ungulani Ba Ka Khosa. Nos seus enredos, há uma preocupação obsessiva com o arranjo estrutural do mundo, como diria o esteta Denis Huisman, a propósito da missão do artista.  É, portanto, uma narrativa irónica que nos obriga a repensar o passado e na sua valorização.

Não me parece, entretanto, que A Metamorfose e outros contos seja apenas a confirmação desta gramática, inscrita já na sua primeira obra, Xitala Mati, de 1987. Efectivamente, para além do já referido cenário preferencial das suas histórias ou da função moralizadora da literatura, que se percebe na estrutura dos enredos, gostaria de destacar duas categorias a que o autor recorre de forma apaixonada nestes contos: o tempo e as personagens. Considero particularmente interessante a opção de Aldino pelo tempo da noite e pela figura da mulher para a realização das metamorfoses.

A palavra metamorfose significa mudança de forma. Concordemos que as formas, dependendo do que elas produzem, podem ter estruturas físicas ou ideológicas, de modo que, para além de uma transformação da aparência física de personagens e lugares, possamos esperar uma transformação também ao nível da sua aparência moral. E é o que, de facto, acontece neste livro. São, estas, histórias de transformações. E os temas são vários, passados e actuais. Cito apenas alguns, muito sugestivos das transformações que se podem esperar: são os casos do insólito, do fantástico, da loucura, da infância, da segregação racial, do incesto, da Justiça e da exploração dos recursos minerais, estes dois últimos, como disse, capazes de nos recordarem eventos da actualidade moçambicana.

Dissemos que as metamorfoses acontecem geralmente de noite. Importa agora destacar, tal como referem os estudiosos dos símbolos, que a noite simboliza o inconsciente. Ao longo dos contos, a dimensão da inconsciência é representada por cenas de sonho e de uma ambiguidade ou entre-lugar da realidade e da fantasia, que o autor compõe estrategicamente para criar uma espécie de vertigem para todas as possibilidades. Daí que é à noite que se dão eventos insólitos, metamórficos, pincelados, em alguns casos, com imagens orgíacas e ritualísticas próprias do universo da ancestralidade, a que, geralmente, se vincula o espaço do campo. O teletransporte e viagem no tempo tornam-se eventos cuja origem, afinal, radica nos rituais tradicionais, antes dos físicos modernos a descobrirem. Toda esta atmosfera desafia e convida o leitor a regressar a um tempo e lugar míticos, mas o leitor vai resistir, pois entrará em confronto com uma lógica que não se adequa aos seus princípios cartesianos, onde não há lugar para sonhos reais. Achei, por isso, acertada a opção de Aldino em abrir o livro com o conto “A metamorfose”. É um conto que derruba o leitor, obrigando-o a entrar nos jogos que se seguem sem o temor do desconhecido ou do impossível. O convite à aceitação do desconhecido e até do obscuro ganha particular interesse nos contos em que o narrador é igualmente personagem da história. Seja como protagonista ou apenas personagem secundária, capaz de assegurar a veracidade dos eventos inadmissíveis ou incompreensíveis, o facto de o narrador testemunhar algo que vivenciou acentua o mistério e o enigma que envolvem as tramas, servindo, esta estratégia, para manter o leitor no curso dos acontecimentos. Mas referi, também, que a mulher era outro elemento determinante das transformações que geralmente ocorrem de noite.

As mulheres dos contos de Aldino Muianga recordam-nos as míticas mulheres «“anti-homens”, que procuram eliminar o macho ou reduzi-lo a estados inofensivos, se não subalternos»[3]. Estamos perante o complexo de castração que faz das mulheres as mais fortes, mesmo que sob o véu da fragilidade. É um véu que constrói a aparência de um ser fraco, relegado a um lugar subalterno. Se é também de noite que elas se revelam, nas metamorfoses que ocorrem, essa noite que é o tempo da inconsciência, então sugere a obra que a mulher é o lado inconsciente do mundo, e isto deve-se ao seu papel sedutor, disfarçado sob o véu da fragilidade. Assim se explica um tema caro à obra de Aldino como é o da prostituição, por exemplo. Aliás, os temas da prostituição e do adultério podem funcionar como ressonâncias do mito de pandora, no qual a mulher pode ser vista como a origem do bem e do mal do mundo. Neste livro, esse poder de sujeitar o homem é, por extensão, por assim dizer, o poder da mulher de ordenar o mundo através da acção do homem. Daí a confusão moral e mortal dos homens: de acreditarem que estão na vanguarda das decisões e acções que movem universo. Parece-me, enfim, que Aldino sugere que toda a acção é desencadeada pela mulher. De resto, por ela existem as histórias deste livro, não fosse esse o legado que nos fica d“A lição da avó”, a mulher que confiou a Aldino a arte de contar histórias, que aqui se resume no seguinte: saber ver, saber escutar e saber deixar o coração falar.

Obrigado por terem deixado o meu coração falar!

 

[1] Versão revista do texto de apresentação da segunda edição do livro A Metamorfose e Outros Contos, de Aldino Muianga, no dia 18 de Outubro de 2022, no espaço Boske.

[2] Noa, Francisco. A Letra, a Sombra e a Água: ensaios e dispersões. Maputo, Texto Editores, 2008, p.45.

[3] BRUNEL, Pierre (org.). Dicionário de Mitos Literários. 2.a Ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1998, p.745.

Diluídos no escuro

os coqueiros, elegantes silhuetas

projectam-se contra o profundo

azul do céu

O macúti balança

sufocando o riso

num sussurro amigo

sob o peso da leve,

levíssima brisa do mar

Ao longe

filtrada pelo silêncio

a voz de Brenda Fassie

dando vida ao Galaxi, lembrança do John

Colados ao caniço

os homens eternizam

o culto da sura.

 

Fernando Manuel

 

Este poema, intitulado “Matsitsi”, de Fernando Manuel, tem indesmentíveis referenciais do lugar de origem: Maxixe, onde o autor nasceu a 20 de Janeiro de 1953, há precisamente 70 anos. Muitos vezes quando atravesso aquela paisagem cartografada poeticamente nestes versos, lembro-me deste seu belo texto, que povoa o meu imaginário há anos. Conhecido como jornalista – hoje em dia como cronista sobretudo – ele é, no entanto, um poeta de créditos indubitáveis e um dos mais interessantes contistas moçambicanos.

Para além da data e do lugar de nascimento, as parcas notas biográficas sobre Fernando Manuel dizem-nos que ele iniciou os estudos na Missão Sagrada Família e que os completou da escola Indígena da Munhuana. Eu estudei na escola primária do Bairro Indígena, aliás foi lá por onde comecei e esta coincidência é-me particularmente cara. Mais tarde, Fernando Manuel frequentaria os liceus António Enes e Salazar, que são hoje – para o nosso gáudio – Francisco Manyanga e Josina Machel.

Narram ainda as suas breves efemérides que antes de ingressar, em 1981, na carreira jornalística, haveria de ser monitor de educação física, músico, escriturário, professor de História no ensino secundário. A esta distância talvez eu possa especular: a sua entrada tardia no mundo do jornalismo permitiu-lhe fazê-lo com uma bagagem que lhe seria útil e o catapultaria, em poucos anos, para um dos lugares cimeiros entre os camaradas de ofício.

Quando entrei, aos 21 anos, para a redação da TEMPO, em 1988, Fernando Manuel era o jornalista mais importante daquela mítica revista. Chefiara a reportagem pouco antes. Era um dos gurus da publicação. Provavelmente, o Kok Nam fosse a sua figura mais emblemática, oriundo da tribo dos fundadores.  A TEMPO, é preciso dizê-lo, foi a tribuna de grandes nomes do nosso jornalismo. Miúdo ainda, quando eu frequentava a Maxaquene, passava diante do prédio quotidianamente a caminho da escola. Olhava para o edifício como quem olha para um santuário. Esperava ser um dia um dos seus membros. Quando lá cheguei, a redacção gabava o talento do Fernando Manuel. Já não estavam Alves Gomes, Arlindo Lopes, Augusto Casimiro, Hilário Matusse, Joaquim Salvador ou Mia Couto – isto para falar de nomes que me eram próximos. Estava ainda a Ofélia Tembe antes de atalhar pelos meandros da diplomacia.

O semanário tinha como director o grande jornalista Albino Magaia (Mia Couto fora antes director e no seu tempo tivera Magaia como chefe de redacção) e Luís David era o chefe de redacção. David era um chefe que lembrava as lendas que comandavam, com mão firme, os jornalistas e as redacções. Hoje os vocativos são outros. No meu tempo, um chefe de redacção era a figura mais temida. No caso, ele subscrevia o mito: devolvia os textos quando estes eram medíocres. Por outro lado, Albino Magaia tinha aquela adorável característica de ser assertivo com um sorriso que lhe ampliava os zigomas do rosto. Os dois faziam um belíssimo contraponto. Foi sob a batuta de ambos e tendo o Fernando Manuel e o Kok Nam como as grandes referências que vivi ali tempos jubilosos. O Kok contava histórias hilariantes dos tempos imemoriais da casa. Daria um belo filme a história desta revista e das gerações de jornalistas e histórias que a glorificaram.

Companheiros de redacção: Roberto Uaene, António Elias, Casimiro Sengo, Fernando Victorino, Celestino Jorge, Paulo Sérgio, entre outros. O Castigo Zita, que encontraria o infortúnio da morte numas férias em Harare, em Dezembro de 1988, aos 27 anos, era assíduo frequentador da mesma. Fazíamos uma pequena tertúlia literária no fundo da redacção. O Celestino participava com aquela sua elusiva presença. Fotógrafos: Kok Nam, Naíta Ussene, Alberto Muianga, Jaime Macamo e Jorge Tomé. Muitas destas personagens já não estão no reino dos vivos. O Eugénio Aldasse (outro que emigrou para o Paraíso) e o Sérgio Tique (brilhante caricaturista e que tinha a qualidade superlativa de zombar de todos e de tudo) faziam a maquetização. A saudosa Ana Cubasse era a nossa revisora e enchia aquelas acanhadas salas com a sua soberba e estridente presença. Foi outro tempo aquele, com outras personagens, que estão nos armoriais do nosso jornalismo.

Falo-vos de um tempo em que redigíamos notícias e reportagens em velhas máquinas manuais cujos sons ressoavam daquele sexto andar. Era o tempo das laudas e da composição a chumbo. Também era um tempo em que tudo parecia que estava a desmoronar, a desagregar-se. Tinha acontecido Mbuzine e o prenúncio do fim da I República. Os anos 80 foram extenuantes. Estávamos exaustos das crises cíclicas e do panorama em que tudo nos faltava. Começava a exercer-se sobre nós o cansaço, a desesperança, a descrença e o medo do futuro.

Para mim foram tempos paradoxais – exultantes e esgotantes. Foram dois anos igualmente fugazes, os mais belos anos da minha vida no jornalismo em Moçambique. Intensos e jubilosos. Pouco depois, quase todos saímos da TEMPO. Nos finais daquela década os jornalistas impuseram a liberdade e a democracia através de uma nova Lei de Imprensa. Nos primórdios dos anos 90 o debate e a nova Constituição permitiram que houvesse outros atalhos. A guerra e a paz, o multipartidarismo e a abertura que se experimentaram estiveram na base do início de um novo caminho para o jornalismo.   Entretanto, Albino Magaia foi substituído e o declínio da publicação tornou-se irrefutável. Fernando Manuel estaria no escol dos jornalistas que iriam ser os pioneiros do jornalismo privado.

Carlos Cardoso falou-me desse belo projeto: um grupo de jornalistas que resolvia desfazer-se das amarras que tinham no sector estatal e fundava uma cooperativa da qual sairiam as publicações independentes. Politicamente independentes. Kok, Naíta, entre outros, estarão nesse grupo. Creio que foi um acto de grande coragem. Foi quando fui estudar para fora do país. Não tenho dúvidas de que foi um tempo exultante para o nosso jornalismo, um tempo de mudanças, algumas delas radicais. Esse tempo e o papel dos jornalistas merece estudo e atenção.

Eu aprendi imenso na TEMPO e com aquela nobre gente. Ouvindo-os, contando histórias, muitas vezes tremendas histórias do nosso quotidiano, algumas que atravessavam as colunas da publicação que saía à sexta-feira e que as lia com um sofrido e indisfarçável prazer. A ideia da sociedade, da nossa sociedade, obtive-a ali. Preocupado com as cousas literárias, aprendi a amar o social através daqueles meus brilhantes colegas. Algumas das reportagens eram devastadoras. Lembro uma sobre o Ile que nunca me abandonou. Tínhamos experimentado como país um grau de miséria material e moral sem igual. A guerra no seu esplendor fazia de nós o exemplo (parece paradoxal usar este termo) entre os piores do mundo.

O Fernando Manuel não era apenas jornalista, era também escritor, um bom poeta e contista imaginativo. Não tenho duvidas de que era uma das melhores plumas do nosso jornalismo. A sua pena é de alto coturno e as suas prosas eram impecavelmente bem escritas. Valeria a pena, sobretudo os que debutam na profissão, frequentar os sepulcros e ler aquelas prosas exemplares.

Muita da sua saborosa prosa está reunida em dois dos seus livros de crónicas: “Chá das Sextas” e “Missa Pagã”. A crónica literária foi um género com cultores prestigiadíssimos entre nós. Cito alguns desta linhagem: Areosa Pena, Leite de Vasconcelos, Albino Magaia, Mia Couto e por aí em diante. É um género que, como se sabe, está na fronteira entre a literatura e o jornalismo. Fernando Manuel é tributário dessa nossa nobre tradição.

Felizmente temo-lo lido nas páginas do “Savana”. Para além disso, é autor de um livro de contos, “O Homem Sugerido” e redigiu alguns prefácios a obras de escritores da sua geração – do remoto “Xitala Mati”, do Aldino Muianga, em 1987, é caso paradigmático. Fernando Manuel tem uma língua afiada, por vezes mordaz, finamente mordaz, e é dono de um olhar subtilmente assertivo e subversivo. É um contador de histórias nato, quer sejam histórias que relevam das origens ou aquelas que se inscrevem nos labirintos e na mitologia dos subúrbios em que ele cresceu ou da sua cidade onde se afirmaria e que a viu mudar com todos os seus paradoxos, todas as suas misérias, toda a sua grandeza. Podemos até estar nos antípodas do que pensa, não temos que concordar, mas temos que conceder que estamos diante de uma escrita distinta. Respeito-o por isso. Aliás, demonizou-se entre nós a democrática e saudável divergência, a critica social, a consciência da diferença. Aquela sociedade plural e magnânima que intuíamos nos anos 90 está por cumprir, por assim dizer.

Quando há precisamente 30 anos, Fátima Mendonça e eu, organizamos uma antologia da nova poesia moçambicana, ele foi um dos nomes indubitáveis. Um dos poemas, quase um aforismo, intitulado “Sobre a felicidade” dizia estes três versos: “E pensar / que há gente / que me pensa feliz”. Não me ocorreu este poema quando li, há 5 anos, no semanário “Magazine”, uma entrevista sombria com o Fernando Manuel.

Era uma entrevista de um homem lúcido, acerbo e, fatalmente, desiludido. Dois anos antes ele ficara cego. Fazia uma análise cortante dos nossos dias e do nosso percurso. Não é incomum encontrar na tribo (na melhor acepção do termo) quem esteja desencantado. Sobretudo entre os que estão na profissão há décadas. Os tempos que vivemos, muitas vezes aziagos, tornaram proscritos muitos destes grandes profissionais. E para isso não é necessário exilá-los. Basta o descaso.

Não obstante, Fernando Manuel continua a publicar – para a nossa felicidade e digo isto compungido – as suas crónicas. Dita-as e quem as lê coteja a mesma escrita escorreita que ele nos habituou. Tinha antes lido uma entrevista na qual ele falava dessa experiência, dessa dura experiência da cegueira, mas neste depoimento senti não só essa dureza, mas uma profunda e lancinante tristeza.

Não queria terminar esta breve evocação com um travo amargo. Hoje é um dia de júbilo para o nosso jornalismo e para a nossa literatura. Quero celebrá-lo com parte dos seus melhores versos. Socorro-me, assim, em sua homenagem, destes outros versos, no caso do poema “Ma ensai”, igualmente belo, para encerrar este depoimento.

 

À noite

ouço Otis Redding

falando I´ve got dreams

de tardes de madeira e zinco

esfregando-se por entre o caniço

Tardes de corpos suados

Plásticos na apetência oculta

que fervilha debaixo da pele, to remembre

Anoitecer de salas fumegantes

de candeeiros a petróleo

luz   que se escoa

mergulhado aquele beco sem saída

numa escuridão fru fru

saia que já não esconde

o leve tremor da coxa

antes abrigada

E beijei o silêncio

dos lábios da Guida.

 

Fernando Manuel

 

Poeta, contista, cronista, uma das plumas mais esplendentes do nosso jornalismo e da nossa literatura, autor de algumas das mais belas páginas que, em épocas distintas, se redigiram na “Tempo” ou no “Savana”, comemora, neste dia 20 de Janeiro de 2023, 70 anos de vida. Aqui lhe deixo o meu humilde preito.

 

KaMpfumo, 20 de Janeiro de 2023

“Elegância devia ser o teu nome

ou mesmo graça e harmonia

ou ainda leveza, etérea leveza.”

Fernando Couto

 

 

Convivi inicialmente com o poeta Fernando Couto quando entrei para a Escola de Jornalismo em 1987, que ele dirigia, com a ajuda da mulher, Maria de Jesus, ambos de grata memória, pela excepcional e afetuosa forma como nos acolheram e nos trataram. Fernando era acanhado quanto aos afectos, Maria de Jesus era explosiva e arrebatadora na afeição. Muitos de nós éramos miúdos e encontrávamos neles um verdadeiro arrimo. Um ano depois, no rescaldo de uma vivência de 35 anos em Moçambique – onde vivera grande parte da sua vida, tivera filhos e escrevera livros –, ele despedia-se do país. Foi motivo para que eu realizasse uma longa e, talvez, uma das primeiras entrevistas literárias de que me lembro na minha vida.

No intervalo das aulas, muitas vezes, eu ia ao gabinete do Fernando e ficávamos horas a fio a conversar sobre o ofício da poesia. Sobre os poetas e o sobre o seu destino.  Quando em Maio de 1988 fui entrevistá-lo eu tinha lido quase tudo o que ele até então publicara e seguira algumas das suas sugestões de leitura. Fernando era um grande leitor de poesia.  Hoje, quando passam 10 anos sobre o seu desaparecimento, quero aqui evocá-lo.

Fernando Couto chegara à Beira em 1953 e fora na Beira, em 1959, que se estreara com o livro “Poemas junto à fronteira”. Nesse mesmo ano, Rui Knopfli publicara “O País dos Outros”, também livro de estreia. Couto haveria de editar à altura dessa memorável entrevista, sucessivamente: “Jangada do Inconformismo” (1962), “Amor Diurno” (1962), “Feições para um Retrato” (1971). Nas muitas conversas que tínhamos era frequente falarmos de Eugénio de Andrade, um poeta que povoou a minha juventude, e que era um dos poetas portugueses que ele mais admirava e o haviam influenciado.  Era dos seus autores electivos. Aliás, não esqueço nunca estes versos de Eugénio de Andrade – no dia 19 de Janeiro assinala-se o centenário de seu nascimento – que eram igualmente caros ao Fernando Couto: “Estou de passagem: / amo o efémero”.

Da lavra de poetas portugueses que o tinham entusiasmado poderia incluir Antero ou Pessoa. O Fernando era de uma grande erudição, embora não fizesse gala nisso, nem a exibisse. Paul Éluard era a grande influência dos poetas franceses que ele sofrera, a par de Louis Aragon ou Supervielle (Jules Supervielle, poeta francês nascido no Uruguai, que eu não ouvira falar até à data). Mas havia muitos, muitos poetas que ele admirava, que ele lia, que ele admirava e alguns tantos que ele traduzia. E ele os traduzia primorosamente.

Naqueles anos em que a revolução catapultava todos os entusiasmos e estava na origem de muitos equívocos – como definir funções iminentemente patriotas para a poesia – ele ensinou-me que esta (a poesia) deveria dar livre curso à experiência mais profunda do ser humano. E disse-me algo que até me deixou estupefacto: “os poetas são loucos”. A poesia para ele resultava desse ímpeto interior, dessa necessidade de dar voz ao mais profundo do ser humano, muitas vezes às cegas e de forma imperiosa, impetuosa posso eu acrescentar agora. A poesia era algo que vinha do mais arraigado do seu ser.

Disse-me o Fernando Couto e eu anotei: “Acredito, como Maomé, que os poetas são loucos, que fazem e escrevem loucuras e andam por caminhos ínvios como cegos”. Eu o interrogava e o ouvia com profunda admiração. Ele falava-me como se me segredasse o mundo. Por vezes, sussurrava.

Falámos longamente da Beira onde coordenou um suplemento literário do “Diário de Moçambique” e onde foi, com Nuno Bermudes, impulsionador das coleções Prosadores e Poetas de Moçambique, levadas a cabo no “Notícias da Beira”. Foi uma actividade importante. Os livros de poesia eram de uma grande beleza. Editou poetas como Glória de Sant´Anna (“Poemas do Tempo Agreste”) ou Rui Knopfli (“Máquina de Areia”). Pertenceu ao grupo que criou o Cine-Clube da Beira, participou da criação do auditório-galeria da cidade, onde se realizavam exposições, recitais, conferências, na emissora do Aeroclube tinha dois programas semanais, um deles com o nome de “Luar da Terra”, título que pilhara a André Breton.

Mas também quis saber da sua vida como tradutor. Ele chamava-lhe vício. Traduzira, entre outros livros, o mítico “Rubayyat”, do poeta Omar Khayyam (1048-1131), que o Luís Carlos Patraquim me dera a ler, em 1985. Disse-me Fernando Couto que amava e admirava este poeta persa que se rebelou contra o Islamismo, adoptando um hedonismo que poderia dever muito aos poetas e filósofos gregos, mas também aos poetas e filósofos árabes pré-islâmicos. Deleitara-se a traduzir aquela poesia que é um cântico de amor à vida, lúcido, desiludido, amoroso, sensual e delicado. E, todavia, há quem pretenderia tomar “Rubayyat” como expressão do amor divino, quando, a seu ver, era exactamente o amor carnal e a sensualidade que o poeta persa celebrava.

Naqueles anos tentávamos atalhar um caminho da poesia lírica, do amor, da sensualidade, que estava nos antípodas do que fora o excurso poético moçambicano desde os primórdios da independência até então. Claro que havia excepções – Luís Carlos Patraquim (“Monção”) ou Mia Couto (“Raiz de Orvalho”), a meu ver, são paradigmas dessa excepcionalidade –, mas o tom geral e os ditames eram esses. Ouvi-lo discorrer assim era uma espécie de lenitivo.  Senti que Fernando Couto, de algum modo, dava-me os argumentos que sustentavam a via que nós, com alguma rebeldia, intentávamos. A esta distância, isto parecerá uma frivolidade, mas à época, o lugar da poesia chamada de combate, ou engajada, ou mesmo revolucionária, o lugar dessa poesia digo, era inequivocamente decisiva. Sendo que nós, alguns de nós, víamos na poesia lírica ou intimista, o percurso que queríamos fazer e, assim, estávamos a libertar-nos de um anátema. Um pesado anátema.

Para mim, aquela conversa com o poeta Fernando Couto teve o condão de me animar, ainda mais, a prosseguir esse caminho. Aliás, Fernando Couto, que também coordenara, anos mais tarde, no “Notícias”, em Maputo, um outro suplemento literário, era um homem que prezava a exigência e a qualidade artística, por assim dizer, da expressão literária e não se deixava amarrar aos ditames da revolução. Era um exegeta. Nas páginas daquele diário ele publicou, entre outros, dois jovens promissores que morreram precocemente: Isaac Zita (1961-1983) e Brian Tio Ninguas (1961-1987).

Isaac Zita foi a primeira grande revelação na ficção no pós-independência. Morreu com apenas 22 anos quando frequentava a Faculdade de Educação. Nascido em 1961, publicou contos no “Notícias” e na revista Tempo (por iniciativa de Albino Magaia, que escreveu um esplêndido prefácio, anos depois, ao seu livro póstumo “Os Molwenes”). Morreu em 1983. Em Maputo, na zona da Sommerschield, há uma rua, com o seu nome.

Fernando Couto: “O Isaac Zita possuía um sentido de contista que considerei e considero espantoso, incomparável por se tratar de um jovem proveniente do ensino técnico, tão tímido quanto modesto, tão inexperiente da vida, tão quedado dos ambientes ditos culturais!”.

Brian Tio Ninguas, pseudónimo do jornalista Baltazar Maninguane, pertencia ao quadro do “Notícias” quando morreu prematuramente em 1987. Permanece inédito, há poemas seus publicados por Manuel Ferreira na revista “África” e está antologiado em Moçambique.

Este era o Fernando Couto que se revelava de corpo inteiro naquela ocasião. 35 anos depois de Moçambique ele retornava à Portugal. Não foi por muito tempo, felizmente. Em meados dos anos 90, Mia Couto, Manuela Soeiro (do Mutumbela Gogo), Ricardo Timane (perecido, infelizmente) e eu, formamos uma sociedade editorial que se associou à Caminho – a Ndjira. O Fernando regressara de Portugal e juntou-se-nos ao projecto. Quando foi preciso encontrar um editor a tempo inteiro, ali estava ele com toda a sua generosidade, a sua imensa cultura e o seu avisado saber.

Tive o prazer de lá editar, sob a sua responsabilidade, anos mais tarde, um livro de poesia, “A Viagem Profana”, título que ele dizia apreciar bastante. Um editor atento e dedicado. Um homem interessado pelo trabalho dos outros. Eu via nisso uma grande generosidade. Ele haveria, no entanto, de acrescentar à sua estante de autor: “Monódia” (1997) e “Os Olhos Deslumbrados” (2001).

A 10 de Janeiro de 2013, Fernando Couto apartou-se deste mundo. Tinha 88 anos. Não sei se o celebraram agora por esta efeméride. Felizmente, os seus filhos criaram, em Maputo, a Fundação Fernando Leite Couto, que honra a sua memória e está na origem de uma importante actividade cultural e cívica na cidade. Quanto a mim, guardo-o ciosamente na memória, sobretudo pelas conversas quase secretas e subversivas que tivemos, primeiro na Escola de Jornalismo, nos longínquos anos 80, mais tarde na Ndjira, ou noutros convívios literários, nas quais muito aprendi do ofício e da loucura de ser poeta.

O Fernando Couto era um homem de uma grande elegância, de uma incomensurável sabedoria e de uma humildade extrema. Não tinha soberba. Era um homem que amava poetas e partilhava esse amor ineludível pela poesia e pela vida. Era, eu diria até, de uma grande humanidade. Viveu até ao fim fitando a vida com “os olhos deslumbrados”. Também aprendi com ele a deslumbrar-me com os “milagres da vida”, como ele queria neste belíssimo poema:

 

São estes ainda,

os olhos da infância,

deslumbrados,

deslumbrando-se

aos milagres da vida:

a intacta pureza das crianças,

os luminosos rostos femininos,

a limpidez das nascentes,

os cambiantes do fogo…

tudo, tudo quanto é beleza

ou lhe deslumbram beleza

os olhos deslumbrados.

 

(Fernando Couto)

 

Cidade do Cabo, 12 de Janeiro de 2023

 

 

 

Depois de desembarcar do “Chaimite” a dona Mariana  ficou atarantada, ofuscada pela intensidade das luzes da cidade. Os candeeiros públicos jorravam uma luminosidade branco-leitosa que conferia aos objectos o colorido do arco-íris.  Viaturas de todos os tamanhos cruzavam-se nas ruas e buzinavam sinfonias que jamais escutara. Os semáforos alternavam-se em cores e dialogavam em silêncio. Os motoristas entendiam as suas mensagens.

Ao princípio, estacou à saida do cais. Bússola orientadora não possuía, a não ser essa que o Valgi, num telegrama que em tempos lhe enviara: “ …da baixa da cidade  apanha-se o machimbombo número sete para chegar ao Xipamanine…”. A informação era mesmo telegráfica, porém esclarecedora. Atravessou a Praça MacMahon, em cujo jardim flores variegadas exalavam perfumes e cujas cores  carregavam o ambiente de uma garridice invulgar. Deixou o instinto guiar os seus passos. Demorou-se a contemplar a variedade e o exotismo dos produtos exibidos nas montras. Uma espécie de magnetismo imobilizava-a por longos momentos diante das montras de casas de especialidades, da Casa Coimbra, do John Orr’s, da Marta da Cruz e Tavares. Viu multidões a cruzarem-se em todos os sentidos. Uns envergavam trajes em moda e penetravam em cinemas onde iriam exibir-se filmes ou peças de teatro. Outros, abancados ao redor de mesas dos Scala ou do Continental sorviam goles de cerveja, trocavam as novidades do dia e discutiam a chave do Totobola. Deixou-se inebriar pela calidez do ambiente e pelo espectáculo da noite. Era uma sombra que descobria as portas de acesso a esta cidade tão cheia de enigmas, tão distante de tactear com a  mão, quão almejada de conhecer. A cidade de Lourenço Marques estava finalmente ali a seus pés, sentia-a vibrar com todos os seus ruídos, com toda a sua musica.

Ia a caminho das vinte e uma horas e o movimento nos passeios não dava sinais de abrandar.

Contornou esquinas. Leu nomes gravados nos pórticos dos prédios: Santo Gil,  Fonte Azul,  Macau. Identificou as grandes avenidas; a República,  a Dom Luís; deu uma voltar ao Mercado Municipal; conheceu as designações dos grandes armazéns: Gulamussein, Bucellato, Breyner & Wirth.

Nessa ronda sem destino e sem aperceber-se entrou na Rua Araújo. Ao longo dos passeios assistiu ao espectáculo de marinheiros abraçados a mulheres que, pelas indumentárias se associavam às “mulheres da vida”, de que muito se falava em Porto Amélia. Outras destas, percorriam os passeios da via com vagares, ou aguardavam o recrutamento dalgum cliente paradas à beira das esquinas. Em alguns dos estabelecimento alinhados na rua filtravam-se sons de melodias, executadas por orquestras ou de juke-boxes.

Nesta multidão de transeuntes um homem carregado de um trombone bloqueou-lhe o passo e perguntou:

“ Bô-noite. Estás livre?”

“ Eu não sou p… Desculpa-me lá meu caro senhor, mas eu não sou p…”.

“Então o que fazes a esta hora da noite aqui nesta rua?”.

“ Acabo de chegar do norte. Como não conheço a cidade resolvi dar umas voltas antes de ir ao meu destino”.

“Ah!, é nortenha? Vê-se mesmo que és novata aqui na cidade. E o teu sotaque não engana a ninguém. Qual é o teu destino?

“ Vou para o Xipamanine”.

“ É melhor ir andando porque os machimbombos estão quase a recolher”. E escoltou-a até ao terminal da carreira número 7, mesmo defronte à entrada da reitoria dos Estudos Gerais  Universitários de Moçambique.

Naquela hora das vinte e uma e trinta desembarcou na paragem do “Botão Dourado”. Com o auxílio doutros passageiros arribou à varanda da loja do Bhai, ao encontro doutras e mais empolgantes novidades.

in Caderno de Memórias, Volume II.

 

Terapia surda

Doroteia, nome grego, que significa dádiva de Deus, decidiu quebrar os seus silêncios e se libertar de suas amarras, curando as suas próprias feridas e traumas. Ela escreve o seu primeiro livro e, com base em factos reiais, pretende dizer à sociedade e ao mundo que, muitas vezes, as famílias se enchem de cuidados para que nada de mal aconteça, aos seus filhos, fora de casa, porém, não têm os mesmos cuidados, dentro de casa, e nem sequer passa pelas suas cabeças que o perigo pode estar tão iminente.

Lipondo ou Terapia da Fala é uma narrativa que nos conduz para o pior que rapazes e raparigas podem, alguma vez, passar na infância. Entender a profundidade e o âmago destas revelações equivalem a compreender a condição humana e as formas de vida que o ser humano impõe a si próprio, para coexistir e sobreviver, ou se autodestruir. São os caminhos perversos que mais do que tornar a peregrinação um momento aprazível, fazem dela uma outra forma de suprir a existência e felicidade do próprio ser humano. Destituir o essencial da nossa condição significa iniciar outra guerra tão mortífera como a guerra das armas.

Estes textos navegam entre diferentes géneros literários. Algumas vezes mais poéticos, outras agrestes e até ficcionais. São como diria Hannah Arendt, a súmula da própria condição humana ou da perversidade dessa mesma humanidade. Sugiro, então, uma leitura cuidada e com tempo, um momento disruptivo e de desassossego. Uma caminhada sofrida e mística. Estamos diante desse buracão, que nos persuade a revisitar temática sobejamente debatida, com estatísticas perturbadoras, porém, cujas soluções continuam tão utópicas, como imprevisíveis e, convenhamos, incompreensíveis.

Estas são as histórias de várias vítimas da violação de direitos humanos, de direitos da criança e do direito de viver um mundo de sonhos e aspirações. Ela descreve, jamais livre, que jaz como menina de saia escocesa vermelha, uma menina morta e sem voz. O funeral profanado de uma infância, a esperança esmiuçada da eternidade dos seus sonhos. Aqui jaz uma inocência; e aqui jaz uma existência.

Por vezes, e em certos momentos, a vida nos conduz para os seus próprios fins e destinos. As marcas de um sofrimento que impelem uma relação psicológica distorcida entre o corpo e a mente. Tudo vira disfuncional. Com a autora, essa sensação de não pertença aconteceu. Sentiu, ao longo de anos, um misticismo destorcido da carne distanciada da mente e do seu intelecto. O corpo deixou de ser, somente, o fenótipo, o visível, mas, também, a parte sensorial e mais notável. Passou, uma vez tatuado pelos traumas, à matéria, no seu estado físico material, como provam todas as lições metafísicas, onde o todo se desencontra das suas partes, se descomunga, atravessando as linhas do imaginário e do inalcançável. Só a força de vontade e o desejo de superação podem falar mais alto.

Eu sou Doroteia ou Dorinha ou, se quisermos, uma mulher de lutas. Pouco mais do que dádiva de Deus, também, posso ser luz; a fonte de energia suprema que nos liberta de todas as trevas, escreve a autora. É doloroso e repugnante reler estas descrições porque se tornaram senso comum, numa sociedade que se debate com gravidez precoce, casamentos prematuros, com mães que são crianças. Um pouco por todo o país, estas verdades morrem ao sabor do vento e quase deixam de indignar.

Relendo Lipondo, e essa apologia ao buraco, um buraco invertido, porque passamos a conhecer o seu interior, sem antes nos atinarmos à superfície, nos recordamos, também, de George Orwell que versou, nas suas obras sobre a paz, a liberdade, a escravidão, sobre a ignorância e a força. Por conseguinte, ele afirmava, que a consolidação do silêncio se comparava ao exercício do direito a voz desse mesmo silêncio. Exercitar o silêncio exigia coragem, da mesma forma que exigia a intuição para a inacção. Libertar a voz era uma terapia, não completa, mas a possível.

Doroteia toca nos extremos, aqueles paradoxos que levam as verdades para o túmulo. Dizia, no começo, que recomendaria uma leitura invertida. Os valores do bom senso também se inverteram. Forçar as crianças, mesmo antes da sua puberdade, a uma relação sexual repetida, tem mais do que perverso, tem maldade e indignação. Desumano e malicioso. Pior quando acontece no tecto da mesma família que julga estar a conviver e a educar. O resto da narrativa suaviza os impactos. Factos consumados e essa busca pela superação e compaixão. Reter aquilo que mais nos pertence, o nosso corpo.

O Prefácio deste livro, que tem a missão de orientar o sentido das nossas leituras, fala numa descrição magnífica, mas, igualmente, numa matéria que faz chorar do princípio ao fim, não só pelo inaceitável, mas, igualmente, pelo facto de serem situações recorrentes e que alcançam milhares de Doroteias, naquilo que elas têm de mais sagrado, que é o seu corpo.

O abuso sexual de menores e, igualmente, de qualquer outra mulher, de qualquer idade, continua um crime repugnável, que iliba o criminoso e pune, duplamente, as suas vítimas. Estes actos infames e violentos e, muitas vezes, desproporcionais, não geram, apenas, a dor e a revolta, mas, enterram e sepultam a mulher e seus sonhos. Eles vão acontecendo a cada segundo, todas as horas, todas as semanas e, muitas vezes, nos mesmos locais.

O nosso país vive esta encruzilhada. O mundo também. São as histórias de terror que ninguém preza escutar. As aporias que, jamais, nos esforçamos a resolver, e os mantos do pior com que o ser humano tem de conviver, a bom rigor, os dissensos com os quais convivemos e, também, em silêncio, nós os homens, ou nós os pseudo-homens.

Quebrar as barreiras do silêncio, como diz Doroteia, tem a missão de tornar em inspiração para outros e para outras. Esse é o sinal de luz, como refere Dorinha.

É necessário que todas as Doras de Moçambique se inspirem na jornada do autoconhecimento. Estas mulheres têm que provar que homem nenhum tem poder sobre elas e nós, que escutamos estas declarações, destas vítimas da violência, precisaremos de entender que só exercitando o poder de escutar, de ajudar e de ser solidário, fará de nós próprios, pessoas mais corajosas, destemidas, solidárias e fraternas.

Precisamos de acreditar que temos, todos, um propósito, pois as histórias de nossas vidas começam muito antes de qualquer escrita ou de qualquer leitura. O sinal da luz está sempre presente nas planícies, nas montanhas, na infinita superfície do mar, no interior de qualquer lipondo. Que esta leitura nos ajude a transformar uma terapia surda em acções que nos libertem e que nos ajudem a falar, sem medos, sem receios e em busca de uma cura que tenha o sentido de todos os sons e de todas as cores das canções. Quando as mulheres vítimas de violência sexual poderem falar, elas serão e estarão empoderando todas as mulheres que vieram antes delas próprias, e até, daquelas que ainda não passaram por esse trauma. (X)

 

 

 

Num belíssimo, raro e derradeiro poema, Noémia de Sousa, que escrevera o essencial da sua obra poética entre os finais da década de 40 e os inícios da subsequente, terminava com uma premonição: “os espíritos ancestrais me esperam”. O epílogo da sua vida dar-se-ia a 4 de Dezembro de 2002, aos 76 anos, passam hoje 20 anos. Para muitos de nós, que a acompanhamos ao longo dos anos e que a amamos sem tréguas, foi um duro golpe, não obstante a ciência que tínhamos da sua saúde, que se precarizara com o tempo. Custou aceitar que ela chegara, por fim, à fala “com a voz do nyanga”. Tínhamos, porém, o consolo de termos editado, um ano antes, o seu arrebatado e arrebatador “Sangue Negro” (2001), que permanecera inédito durante 50 anos.

 

Carolina Noémia Abranches de Sousa nascera a 20 de Setembro de 1926 na Catembe: “Quando eu nasci na grande casa à beira-mar / era meio-dia e o sol brilhava sobre o Índico. / Gaivotas pairavam, brancas, doidas de azul. / Os barcos dos pescadores indianos não tinham regressado ainda / arrastando as redes pejadas”. Quando em Janeiro de 1990, num remoto inverno em Lisboa, a entrevistei, para o livro “Os habitantes da memória”, ela falava-me de uma infância feliz: “Penso que a infância é sempre marcante. É para nós uma espécie de paraíso perdido. Depois, tive uma infância extraordinariamente feliz. Talvez por isso me lembre muito dela. Era uma vida livre e cheia de aventuras porque não havia quintais, fronteiras, limites”.

 

Poema da Infância Distante”: “meninos negros e mulatos, brancos e indianos, / filhos da mainata, do padeiro, / do negro do bote, do carpinteiro, / vindos da miséria do Guachene / ou das casas de madeira dos pescadores. / Meninos mimados do posto, / meninos frescalhotes dos guardas-fiscais da Esquadrilha / – irmanados todos na aventura sempre nova / dos assaltos aos cajueiros das machambas, / no segredo das maçalas mais doces, / companheiros na inquieta sensação do mistério da “Ilha dos navios perdidos” / – onde nenhum brado fica sem eco”.

 

Noémia de Sousa: “A esta distância, quando me veem dizer que dizer o que eu queria dizer com o “Poema da infância distante”, eu penso, mesmo inconscientemente, que no fim queria falar de Moçambique. A casa à beira-mar era Moçambique. Outra coisa: por causa das circunstâncias, como não podia dizer Moçambique, quando digo “África” quero dizer “Moçambique””.

Viveu na mítica casa até aos seis anos. Lembrava-se de, aos quatro anos, aprender a ler, através da “Cartilha Maternal”, de João de Deus. Foi o pai quem a ensinou a ler, antes de saber redigir. Começou a escrever cedo, desde miúda. Fazia jornais com os irmãos, sobretudo com Nuno (Abranches de Sousa), que lhe era mais próximo, pela idade e cumplicidade. Lia muito. Lia tudo: desde Eça de Queirós a Guerra Junqueiro. Lia revistas. Publicações estrangeiras. O pai era um leitor omnívoro e um homem dado às artes, à música, à fotografia. A pequena Carolina frequentava, inquieta, o escritório de casa do pai. À volta dos livros e das revistas. Sempre com perguntas.

Eram seis irmãos, os mais velhos, Paulo e Camila, cedo foram enviados para Portugal para estudar. A ideia era fazer o mesmo com os que se seguiam. Mas a mãe, que não suportava estar apartada das crianças, impediu que o projecto paterno tivesse seguimento. Carolina conhecia os irmãos mais velhos através da correspondência que mantinham. Entretanto, aos 8 anos, ela perde o pai e o futuro que este sonhara. Estuda na Escola Técnica, área comercial. Não obstante, o seu obstinado amor pelos livros prossegue. Começa a trabalhar cedo.

Da parte materna era oriunda de um cruzamento entre sangue alemão (Brüheim) – de caçadores e negociantes alemães (Paulo e Max), que se aliaram aos chefes locais da região de Maputo e desposaram as suas filhas. Do lado paterno, sangue português, indiano e macua. O pai nascera na Ilha de Moçambique. A mãe vestia capulana. Quando casou, o que aconteceu muito tarde, com os filhos nascidos, deixou de a usar, por força dos ditames da época, que impediam que a mulher de um alto funcionário da Administração exibisse tal indumentária. O pai não queria que a sua mulher, que era muito mais nova, ficasse desprotegida caso ele morresse. Noémia e os irmãos assistem ao casamento.

De uma geração de seis, Noémia é próxima de Nuno: fazem jornais, conversam até à madrugada, numa época em que se recolhia cedo, partilham amigos. Antero, amigo do seu irmão Nuno, estava num grupo de jovens que se agregavam à volta do jornal da Mocidade Portuguesa, queriam subverter a publicação – disseram-lhe – e pedem-lhe colaboração. Noémia escreve o “Poema ao meu irmão negro”. Embora assinasse Carolina Abranches à época, nas suas colaborações de “O Brado Africano”, o texto literário haveria de levar as iniciais N.S. O poema criou evidente alvoroço. À época ninguém escrevia com aquela desenvoltura, aquele tipo de poesia. José Craveirinha, que lhe mostrara sonetos, que praticava, ainda desconfiou tratar-se de uma criação Nuno Abranches de Sousa. Estávamos nos finais dos anos 40. O grupo dos ruis (Knopfli, Guerra e Guedes), que se agregariam à volta do “Itinerário”, também ficaram espicaçados. Quem seria N.S.?

Seria, no entanto, a reacção de espanto, de Augusto dos Santos Abranches, a um poema publicado em “O Brado Africano”, igualmente assinado N.S., intitulado “Poesia, não venhas”, que iria, nas palavras da autora, salvar-lhe do anonimato futuro. Inicialmente, Augusto dos Santos Abranches pensara tratar-se de um plágio, mas depois concluirá ser um texto autêntico. Pareceu-lhe espantoso. Disse-me Noémia de Sousa anos mais tarde: “Se não tivesse surgido um Augusto dos Santos Abranches a chamar atenção para o meu nome talvez ele permanecesse desconhecido até hoje”.

Augusto dos Santos Abranches, que dirigira em Coimbra a famosa Portugália Editora, não terá influência sobre a jovem intrépida, como enganosamente alguns críticos irão referir futuramente. Foi, contudo, uma personagem importante no pequeno meio da velha cidade colonial. Trabalhou na Minerva, coordenou páginas literárias (“Sulco”), esteve na última fase do “Itinerário”. Foi influente para os jovens que então surgiam. Quem exerce influência sobre Noémia de Sousa e, de certo modo, algum magistério, é Cassiano Caldas, funcionário dos Caminhos de Ferro e intelectual ligado ao “Itinerário”. Sobretudo iniciando os jovens da sua época na leitura dos neo-realistas, dando-lhes a conhecer a revista “Vértice” (onde haveria de ler e conhecer a poesia de Nicolás Guillén) ou a ler os livros de Jorge Amado, como “Jubiabá”.  Noémia já tinha lido, entretanto, os negros americanos. Fizera-o através de um embarcadiço que lhe trazia das viagens livros e o eco dos seus convívios com os negros americanos. O Sul dos Estados Unidos e Moçambique pareciam-lhe subscrever alguma similaridade. Sobretudo quanto ao racismo, à discriminação e às desigualdades. Foi dessa realidade, e não da “Negritude” – irá conhecer mais tarde os seus protagonistas e traduzirá o célebre “Discurso sobre o colonialismo”, de Aimé Césaire –, que ela encontrou a força motriz da sua poesia. Foi nessa época que conheceu a história trágica de “Strange fruit”, que estaria na origem de um poema de Lewis Allan (Abel Meeropol) que a mítica Billie Holiday deu voz, a quem dedicará um dos poemas do seu “Sangue Negro”: “e era só melancolia / do princípio ao fim”.

João Mendes, cujo nome consta do frontispício do livro “Sangue Negro”, ao lado do nome de Cassiano Caldas, foi quem estabeleceu a ponte entre ela e os míticos ruis: Knopfli, Guerra e Guedes e a malta que frequentava o Núcleo de Arte. Fonseca Amaral, embora fizesse parte da tertúlia, era um homem ensimesmado. Noémia ia à casa Ruy Guerra na companhia do Ricardo Rangel, e por vezes aos encontros do “Itinerário”. Ela era da ala do “Brado Africano” e da Associação Africana, mas tinha amigos no outro lado da cidade. Alguns estranhavam que ela frequentasse a Escola Técnica e fosse dada às letras.

Nos anos 50, fingindo um encontro inofensivo, no Jardim Paraíso, redigem – José Craveirinha, Noémia de Sousa, Dolores Lopez y Lopez e Ricardo Rangel – um manifesto exigindo a independência de Moçambique.  Estamos ainda longe dos movimentos libertários. Ela tinha já uma actividade política clandestina. Pertencera ao MUD-Juvenil. Colava cartazes e panfletos à noite, sobretudo com João Mendes, que será degredado. Fez parte do grupo de jovens que ajudavam na Associação Africana. Os mais velhos: Cassiano Caldas, Henrique Dahan, Miguel da Mata, Joaquim Soares, entre outros. Na comissão de festas, estava Beatriz Albasini, que viria a casar com Artur Garrido. Hoje conhecemo-la como a Avó Bia. Eram correligionários: Victor Santos (irmão de Marcelino), Nobre de Melo, Amália Ringler, Dolores Lopez y Lopez, Ricardo Rangel, ou filhos dos Dahan.

O surgimento de Noémia de Sousa quebra um marasmo que perdurava desde a morte de Rui de Noronha na poesia moçambicana.  Noronha (1909-1943) tinha sido a grande figura literária nos anos da sua juventude. Augusto dos Santos Abranches: “Moçambique dorme ou mede as suas divagações pela intensidade do luar da noite”. Noémia não conviveu com o poeta, mas lembrava-se de o ver passar em frente da sua casa. Conhecia-o de vista. “Poema para Rui de Noronha”: “Rui de Noronha / nesta nova África de certezas e forças restauradas, / no meio dos “paixões” e das bebedeiras do natal, / vens-me tu, torturado e solitário, / ainda projectado para os fundos abismos do teu eu”.

O mesmo em relação à João Dias. Via-o na rua. Não chegaram à fala. As irmãs Dias, sim, frequentavam a sua casa, eram amigas das suas primas. Lembra-se de as ouvir falar do irmão, que fora muito jovem estudar para Portugal e da esperança que depositavam no filho do celebrado jornalista Estácio Dias. No poema “Godido” escrito à memória de João Dias, diz Noémia de Sousa: “Quando cheguei / trazia no olhar a luz verde dos negros simples / e uma dádiva maravilhosa em cada mão”.

Estes são alguns dos seus predecessores. No emblemático poema “Deixa passar o meu Povo” pode estar inscrita, de algum modo, a chave da sua poesia: “vozes da América remexem-me a alma e os nervos” ou “não poderei deixar-me embalar pela música fútil / das valsas de Strauss”. “Escrevo…/ Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar. / Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado / e revoltas, dores, humilhações, / tatuando de negro o virgem papel branco”. O poema que inicia a sua obra poética (“Nossa voz”), dedicado a José Craveirinha: “Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara / sobre o branco egoísmo dos homens / sobre a indiferença assassina de todos”.

A Antero, o amigo do mano Nuno, que lhe pediu aquele poema inicial, dedicará o poema “Se me quiseres conhecer”: “Se me quiseres conhecer, / estuda com os olhos bem de ver / esse pedaço de pau preto / que um desconhecido irmão maconde / de mãos inspiradas / talhou e trabalhou / em terras distantes lá do Norte”. Palavras de pitonisa, voz de sibila. Era já uma mulher consciente do seu papel e sobretudo revoltada.

Francisco Noa: “Divindade maior desta cosmologia é a liberdade ansiada (e ensaiada) e o exercício da palavra como instrumento consciencializador e agonístico. E a expressão arrebatada se, por um lado, subjectiva a expressão poética em Noémia, por outro, confere-lhe uma dimensão majestática e que faz do sujeito rapsodo das dores, dos anseios, da revolta, das resignações e dos mitos dos flagelados irmanados por um destino comum determinado pela ocupação colonial”.

Esta voz rude ímpia, brutal, feroz, selvagem, instintiva, brava, indócil, laboriosa, perseverante surge, na sua ferocidade juvenil, com uma espantosa maturidade. É, ao mesmo tempo, uma voz esplendente, deslumbrante, magnificente. É assombrosa e portentosa. A esta distância, ainda assim, não se consegue atingir a dimensão da sua força telúrica. “Ah, essa sou eu: / órbitras vazias no desespero de possuir a vida, / boca rasgada em feridas de angústia, / mãos enormes, espalmadas”. Esta é uma voz sublime.

Voz indignada, colérica ou enfuriada, contra a resignação, consciência do ser moçambicano, da sua condição, da sociedade injusta, voz insubmissa, intrépida. A voz do grito. Grito negro, mestiço, solitário e solidário. Voz livre e libertária. Voz e condição primeira da “poesia de raiz marcadamente moçambicana”, como avisadamente lhe designou Rui Knopfli, a quem Noémia dedica o poema “Bayete”. Em três anos, entre os 22 e os 25 anos, isto é: entre 1948 e 1951, escreve a poesia que constitui hoje o seu espólio. O nosso espólio. O espólio da moçambicanidade. O espólio da africanidade. Forçada a exilar-se, arrancada da terra e das suas gentes, da sua condição negra e mestiça, não escreve mais, à excepção de dois poemas, um na morte de Samora Machel, arrancado a ferros pelo sobrinho Camilo e aquele no qual acena aos antepassados.

O angolano Mário de Andrade, que fora colega de universidade de Eduardo Mondlane, no ano em que este permanecera em Portugal, a caminho dos Estados Unidos, escreve-lhe sabendo que ela, cansada do cerco da PIDE, se preparava para embarcar para a antiga capital do Império. Uma das causas desse cerco fora um artigo seu, em “O Brado Africano”, relatando a situação de Mondlane, então na África do Sul, a quem o governo de Malan não concedia a prorrogação do visto, impedindo-o de prosseguir os estudos na Universidade de Witwatersrand. Quando se conheceram, mais tarde, falaram das interrogações que haviam sofrido e o facto de não se conhecerem até então.

O Centro de Estudos Africanos, iniciativa que se iria replicar nos países independentes, estava em marcha, na rua Actor Vale, 37, da Tia Andreza, tia da Alda do Espírito Santo. Noémia não assiste às apresentações iniciais de Francisco José Tenreiro (de São Tomé) nem de Amílcar Cabral (da Guiné). Mas irá ter uma activa participação, ajudando sobretudo Mário de Andrade a organizar as sessões que visavam problematizar o futuro dos seus países. Estão ainda na capital portuguesa os jovens nacionalistas africanos. É companheira de Lúcio Lara (será madrinha do seu filho mais velho), Agostinho Neto, Amílcar Cabral, entre outros. Também se reúnem, amiúde, em casa de Francisco José Tenreiro ou no quarto de Mário de Andrade.

Em 1953, Francisco José Tenreiro e Mário de Andrade publicam “Poesia Negra de Expressão Portuguesa”. É a primeira publicação do género que reivindica a “poesia negra”. Noémia colabora com dois poemas: “Magaíça” e “Deixa passar o meu povo”. Já é, seguramente, a mais arrebatadora e arrebatada voz feminina da poesia africana de língua portuguesa. O seu nome começara a construir o mito.

Andrade será um dos primeiros a ir para Paris onde vai trabalhar na “Presence Africaine”. Noémia segue-se-lhe mais tarde. Entretanto, casara e nascera-lhe uma filha, a sua única filha, Gina. O marido Gualter Soares, poeta, oriundo de Moçambique, encontrava-se em Ponta Negra quando recebeu o aviso, em 1964, de que se voltasse a Portugal seria preso. Vai para Paris. Noémia vai ao seu encontro. Leva a filha, de ambos, às costas e é contrabandeada nas fronteiras até chegar a Paris. Marcelino dos Santos consegue-lhe um emprego no Consulado de Marrocos. Só em 1973, em plena primavera marcelista, regressará. Primeiro para a Reuters e, depois, para a ANOP, predecessora da LUSA, onde permaneceria até ao fim.

Em Paris assistira ao Maio de 68. Em Portugal, viverá o 25 de Abril. Ruy Guerra zombaria com carinho da amiga de infância: faltava ela ir para o Brasil para acontecer uma revolução. Não foi convidada para os festejos da Independência de Moçambique a 25 de Junho de 1975. Os seus antigos companheiros tinham-na proscrito. Disseram-se inverdades sobre a sua estada em Paris. A maledicência de sempre: que estava rica e que se estava nas tintas para Moçambique: baixo, canalha e detestável. Ela visitou Moçambique quando pôde em 1984. Levaria 33 anos para revisitar a terra.

Entretanto, Noémia de Sousa subscrevia a condição de mito. Os seus poemas tornaram-se hinos: “Nossa Voz”, “Se me quiseres conhecer”, “Poema da infância distante”, “Zampungana”, “Moça das docas”, “Sangue negro”. Era lida e admirada não só em Moçambique, mas em todos outros países africanos de língua portuguesa. A sua voz chegara ao Brasil. No seu país de origem, os jovens reivindicavam-na. Esquecida apenas dos palácios.  Aliás, este fenómeno irá continuar ao longo da década 90 e no início do século XXI: a sua poesia é redescoberta pelos jovens, que a proclamam e a conclamam com jubilosa energia. Dizem os seus poemas, declamam os seus versos, reverberam-na. Em 1996, quando faz 70 anos, é-lhe prestada uma homenagem pública.

50 anos sobre a data em que cessara a sua escrita, lançámos, finalmente, o seu livro “Sangue Negro”.  Foi a 20 de Setembro de 2001, no dia dos seus 75 anos. Durante os anos em que convivi com Noémia fui um dos que insistiram para que publicasse em vida o seu legado. Ela anuiria e haveria de me incumbir a responsabilidade de coordenar esta edição. Queria a participação da Fátima Mendonça e do Francisco Noa, que irão assinar os textos ensaísticos que acompanham a obra. Também queria que a chancela fosse da AEMO. Chegámos a cogitar fazer uma co-edição com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda em Portugal, mas tal desiderato não se cumpriu. Foi com gáudio que o fizemos. Ela já se encontrava muito debilitada pela doença. Ainda fui, meses depois, na companhia da Fátima Mendonça, visitá-la. Levávamos o livro. Ficámos deprimidos ao vê-la.

Manuel Ferreira fora dos primeiros a tentá-la convencer em publicar “Sangue Negro”. Michel Laban, seu amigo, também não conseguira. Aliás, ele ajudou a recuperar poemas que estavam em falta no caderno da autora. Rui Nogar, Gulamo Khan, Leite de Vasconcelos, Júlio Navarro, Fátima Mendonça, entre outros, tinham-na persuadido ao longo dos anos, debalde. Felizmente e finalmente ela acedera e conseguimos tributar-lhe em vida a nossa veneração, a nossa amizade, a nossa devoção. Inicialmente editado pela AEMO, “Sangue Negro” foi, posteriormente, publicado pela Marimbique e pela brasileira Kapulana. Está em marcha uma edição em francês. Estranhamente não está editada em Portugal.

Para além dos textos que enformavam o seu vetusto caderno, acrescentamos-lhe três textos: um velho poema de 51, um texto que fizera para um filme de Camilo de Sousa e um belíssimo poema que escrevera para um livro de fotografias (“A meu ver”) de Carlos Pinto Coelho. Desafortunadamente, o poema intitulado “A mulher que ri à vida e à morte” haveria de cumprir o seu desígnio a 4 de Dezembro de 2002. Aqui a relembro, nesta evocação hoje, 20 anos depois da sua morte, para que o nome da Noémia de Sousa não subscreva o anátema da desmemória e do descaso.

 

A MULHER QUE RI À VIDA E À MORTE

 

Para lá daquela curva

os espíritos ancestrais me esperam.

 

Breve, muito breve

tomarei o meu lugar entre os antepassados.

 

À terra deixarei os despojos do meu corpo inútil

as unhas córneas de todos os labores

este invólucro sulcado pela aranha dos dias.

 

Enquanto não falo com a voz do nyanga

cada aurora é uma vitória

saúdo-a com o riso irreverente do meu secreto triunfo.

 

Oyo, oyo, vida!

Para lá daquela curva

os espíritos ancestrais me esperam.

 

NOÉMIA DE SOUSA

 

Kampfumo, 4 de Dezembro de 2022

Já durante quase três décadas, líderes de todo o mundo têm-se reunido para formular uma resposta global à emergência climática que se torna cada vez mais agudizada. Acontece que, em vez de responder aos desafios reais, a maior parte dos debates nos últimos anos tem-se concentrado no crescente fosso entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. A Cimeira de 2022, a COP-27 em Sharm El Sheikh, não foi uma excepção.

O custo da “transição verde” acrescentado às despesas no combate às próprias consequências das alterações climáticas tornou-se uma verdadeira pedra de tropeço nesta temática global… A parte do mundo, que na altura se desenvolvia sem travões, energicamente exerce pressão, ameaçando – com multas e sanções por não seguirem os princípios da “agenda verde” – aqueles “desafortunados” que não podem aguentar tal fardo pesado.

Na cimeira climática de Glasgow (2021), uma coligação de Estados em desenvolvimento apelou à criação de um novo mecanismo financeiro para este fim, mas a proposta foi rejeitada. Este ano, foi finalmente aprovado um acordo sobre um “Fundo de Perdas e Danos” para regiões directamente afectadas pelas mudanças climáticas. Os meios de comunicação apressaram-se a chamar a este acordo de última hora “um evento histórico, coroando anos de esforço por parte de campeões do clima e activistas dos direitos humanos”. No entanto, todas as principais modalidades ainda devem ser elaboradas até à próxima cimeira. Portanto, é muito provável que a chamada “luz de esperança” para os países carenciados seja, de facto, apenas uma mera fachada para uma verdade incómoda. Quantas vezes altas palavras destes campeões divergiram nos seus actos?!

Ao contrário da proclamada disponibilidade dos países desenvolvidos para prestar ajuda financeira os Estados mais pobres, apoiando os seus esforços em descarbonização, o problema de financiamento da “transição verde” está muito longe de ser resolvido. Em 2009, a OCDE prometeu 100 mil milhões de dólares ao tal chamado “Terceiro mundo” na reestruturação económica. No fim, apenas 26 mil milhões foram atribuídos, sendo na sua maioria sob forma de empréstimos, o que tornou as economias ainda mais vulneráveis. Só para comparar – os países da NATO nos últimos tempos têm gastado duas vezes mais em armamentos para o regime nazi na Ucrânia. E nos próximos anos hão-de gastar ainda mais para recuperar as suas próprias reservas de armas esgotadas. Alguém calcula as emissões?

Perante um tal cenário, a Rússia está plenamente solidária com as reivindicações dos países em desenvolvimento de tomar em consideração especificidades das suas economias. A fim de alcançar uma transição sem prejuízo para o país, a política climática deve estabelecer um equilíbrio entre a utilização de tecnologias verdes e a manutenção da estabilidade económica com recursos disponíveis para o seu desenvolvimento actual. Hoje em dia, na Rússia, mais de 33% da energia eléctrica produz-se dos recursos renováveis. Está a ser criado um sistema nacional de monitorização de gases com efeito de estufa, e foram atribuídos fundos para a digitalização e melhoria dos relatórios nacionais sobre a implementação do Acordo de Paris. Mas é indispensável aperceber-se da impossibilidade de se recusar completamente os hidrocarbonetos nos próximos anos, passo a passo, preparando o terreno para a “transição verde”.

Neste ano, a União Europeia mostrou-se desiludida com os resultados da COP-27 “pouco ambiciosos”, apontando para a falta de novos compromissos da redução de emissão de gases poluentes. Continuando a fingir o empenho na “transição verde” acelerada, de facto, a política europeia move-se na direcção oposta – recuo nas ambições climáticas.

Desde o início da operação militar especial, os países europeus, por razões políticas, puseram como objectivo principal um corte acelerado das fontes de energia russas. Face a uma escassez de gás, as empresas estão à procura de uma saída desta crise à custa de combustíveis muito mais poluentes. Tem-se aumentado rapidamente a utilização do carvão. Tudo isto, portanto, se faz às escondidas e não se revela à voz alta nas tribunas internacionais, devido a um aumento considerável das emissões globais de gases com efeito de estufa. As importações de carvão da UE não diminuíram nos primeiros cinco meses de 2022. Segundo os dados da Agência Internacional de Energia (AIE), o consumo de carvão-vapor da UE na primeira metade de 2022 aumentou 16%. Entre outras coisas, os planos para substituir o gás de gasoduto russo (interrompido pelo ataque terrorista) pelo Gás natural liquefeito (GNL), particularmente dos EUA, Qatar e Egipto, não podem deixar de suscitar preocupações, uma vez que o fornecimento deste combustível tem uma pegada de carbono mais elevada. O gás norte-americano é maioritariamente de xisto, cuja produção contamina enormemente a ecologia. Outrossim, transportações do GNL aumentadas apresentam maior risco de fuga de metano, cujo impacto no aquecimento global é mesmo maior do que o do carbono. Quem se importa com que tudo isto contradiga as promessas europeias de diminuir as emissões de metano?

Tentando desfazer-se da dependência energética da Rússia, a União Europeia cai numa armadilha de fontes mais poluentes. Assim, multiplicam-se os riscos para os países vulneráveis que continuam a sofrer as consequências das alterações climáticas com uma grave falta de recursos. Nestas condições, na COP-27 a fenda entre o Ocidente e o “terceiro mundo” (embora encoberta por um “acordo formal”) na realidade nem diminuiu. Continuando a impor uma agenda verde a todos, o Ocidente está a violar descaradamente, por todos os meios, as regras que ele próprio escreveu. As ideias arduamente defendidas pelo grupo dos ecoactivistas, de facto, acabam por ser sacrificadas aos interesses políticos de “conter” a Rússia, mas quem sabe quais serão amanhã…

Na realidade, o mundo inteiro está a viver uma convulsão climática global, que os especialistas em clima de todo o mundo estão a chamar de sinais alarmantes para todas as nações. Em Junho passado, um terço do Paquistão esteve debaixo de água numa inundação devastadora, a pior inundação de uma década observou-se na Nigéria, a pior seca em 500 anos – na Europa, em 1000 anos nos EUA… Contudo, como podemos observar, em vez de reforçar medidas conjuntas, alguns países continuam a especular nos problemas climáticos, revertendo mesmo os avanços anteriormente alcançados.

P.S. Os canhões e mísseis ucranianos diariamente bombardeiam a maior central nuclear na Europa – a de Zaporíjia, cuja segurança é garantida pelos técnicos russos. Mas quem vai lembrar que a energia nuclear é uma das mais “verdes” e limpas (mas nas mãos limpas) se um dos mísseis afinal atingir o coração da Central?!

 

Por Alexander Súrikov,

Embaixador da Rússia em Moçambique

Luís Bernardo Honwana, que faz hoje, neste sábado, 12 de Novembro, 80 anos, é um dos precursores da literatura moçambicana e um dos maiores intérpretes da moçambicanidade. Quando tinha 22 anos, em 1964, fez publicar uma obra seminal e fundadora da moderna ficção moçambicana – Nós Matámos o Cão Tinhoso”. O início desta obra é um dos mais belos que se podem cotejar entre nós: “O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer”.

O jovem autor de “Nós Matámos o Cão Tinhoso”, uma bela edição de 135 páginas, de pequeno formato, com ilustrações da pintora Bertina Lopes e composto por caracteres hieráticos, redigira uma nota biográfica igualmente singular: “Não sei se sou realmente escritor. Acho que apenas escrevo sobre coisas que, acontecendo à minha volta, se relacionem intimamente comigo ou traduzam factos que me pareçam decentes. Este livro de histórias é o testemunho em que tento retratar uma série de situações e procedimentos que talvez interesse conhecer”.

Começou a publicar histórias na página “Despertar” do “Notícias”. Colaborou em jornais (“Notícias”, “Voz de Moçambique”, “Tribuna”, “Diário de Moçambique” e “A Voz Africana”, na Beira), fez desenhos à pena, participou em exposições de artes plásticas, viu filmes e escreveu para o cinema, dedicou-se à fotografia, participou com jornalistas, poetas e pintores do seu tempo na efervescente vida cultural dos anos 60. Para além disso, praticou desporto e não se coibiu de conspirar activa e politicamente contra o regime. Foi um intrépido nacionalista. Conheceu, aos 22 anos, o opróbrio da PIDE, a humilhação, as sevícias, as injúrias. A prisão. Foram três anos e meio. A crueldade de um tempo que está hoje obliterado. A brutalidade de um regime.

As histórias – as sete histórias do livro – têm claramente um recorte autobiográfico, aliás isto é assumido pelo autor. “O Papá ressona. A Lolota e a Nelita na outra cama ressonam. A meu lado, aqui, debaixo do meu braço, o Nandito ressona também. Ontem, quando fui sorrateiramente abrir a porta, depois de deixar que os outros adormecessem bem, ouvi ressonar no outro quarto. Não sei se era a Mamã ou se era a Tina. Devia ter sido a Mamã. Sim, acho que foi a Mamã, embora não tenha certeza. Será que eu, também, ressonarei quando adormecer?” (“Inventário de imóveis e jacentes”) Ou: “Antes de ir para o serviço, o Papá foi ver a capoeira com a Mamã. Apareceram os dois à porta da cozinha, a Mamã com o avental já posto e o Papá com um palito na boca e o jornal debaixo do braço. Quando passaram por mim, o Papá dizia ´não pode ser´, ´não pode ser´, ´isto não pode continuar assim´” (Papá, cobra e eu”).

O mundo da infância é cartografado aqui num poderoso olhar. Para além destes textos (“Inventário de imóveis e jacentes” e “Papá, cobra e eu”), “As mãos dos pretos” compõe o universo encantado desse tempo pueril. Mas há aqui, também ou sobretudo, um admirável testemunho de um olhar indagador. O gabarito do seu narrador esplende, igualmente, em “A Velhota”, “Dina” ou “Nhinguitimo”, os restantes textos deste conjunto primoroso. A prosa é de grande quilate e denuncia uma espantosa maturidade do seu autor. Há nela uma acuidade linguística espantosa e um enriquecido resgatar da oralidade.

A realidade que estas histórias narram ultrapassa, em muito, a circunstância da mera biografia. Estes textos denunciavam, de forma resoluta e corajosa, uma realidade social profundamente injusta e desigual. Textos breves, quase todos, à excepção daquele que nomeia o volume (“Nós matámos o Cão Tinhoso”). Este livro é uma surpreendente obra literária e é um libelo acusatório virulento. Provavelmente, a grande literatura seja isso mesmo: a combinação entre as faculdades da arte em si e o poder de esta nos interpelar com a realidade que ilustra ou denuncia.

“Nós Matámos o Cão Tinhoso” é uma vigorosa denúncia das desigualdades e das injustiças sociais que o tempo e a realidade colonial impunham aos moçambicanos.  A obra consegue isso através de um olhar ou uma capacidade de observação invulgares. O fino recorte da escrita, o seu despojamento, a sua carpintaria literária, a forma como desenha as personagens, como expõe as tensões dessa sociedade profundamente disjuntiva, dessa realidade divergente, desse tempo digressivo, coloca-o, não só na condição de grande narrador moçambicano, mas também o filia entre o escol dos escritores africanos que seriam consagrados na mítica “African Writers Series”, da Heinemann, industriada pelo célebre Chinua Achebe.

A série publicou, para além do nigeriano Chinua Achebe, o queniano Ngugi Wa Thiong´o, o senegalês Sembène Ousmane, o egípcio Naguib Mahfouz, o nigeriano Wole Soyinka ou a sul-africana Nadine Gordimer, os três últimos laureados com o Prémio Nobel da Literatura. Diria, afoitamente, que Luís Bernardo Honwana, com “We Killed Mangy Dog and Other Stories” (tradução de Doroth Guedes, de 1969) pertence, sem favor, a esta plêiade dos maiores intérpretes africanos. Doroth, mulher de Pancho Guedes, é a Dori (“que é sensível à angústia dos cães”), da dedicatória da edição original de “Nós Matámos o Cão Tinhoso”.

A obra de Luís Bernardo Honwana não se pode dissociar da sua biografia cívica, política, cultural e ética. Esteve três anos e meio preso.  Com ele, Armando Pedro Muiuiane, Rui Nogar, José Craveirinha, Malangatana Valente, Rogério Njauana, entre outros, são seus companheiros. Primeiro na ominosa Vila Algarve e depois na Cadeia da Machava. Craveirinha escreveria sobre esta dura provação Cela 1 (1980) e Rui Nogar haveria de cartografar esses tempos sinistros em “Silêncio Escancarado” (1982). No belíssimo livro “Mahanyela – A Vida na Periferia da Grande Cidade (2018), Nely Nyaka, mãe do autor, faz um arrepiante relato sobre a experiência prisional de Luís Bernardo Honwana. Antes deste, num outro brilhante testemunho, Memórias (1985), o pai, Raúl Bernardo Honwana, que também fora preso, dois anos antes, refere-se à prisão do filho e de outros nacionalistas. José Craveirinha: “Lembras-te amigo Luís? / Por semana eram duas vezes meia hora / e o guarda de turno a avisar / – “São 30 minutos e acabou!” (“Dia de visita”).

É interessante, aliás, numa leitura comparativa, perceber que há, nestas vidas, nestes percursos e nestas obras, um mesmo desiderato: um mesmo compromisso ético. Há, mesmo, nestas obras, uma mesma estética, uma mesma poética e uma mesma ética que enforma o percurso desta família exemplar: os valores, a decência, a integridade, a moral, a probidade, a honradez. Isto é inédito. Para além disso, a realidade familiar e social que estes autores (Pai, Mãe e Filho) traduzem nas suas obras revelam uma lisura e uma autenticidade impressionantes. Mais uma vez, aqui se atesta o prodigioso olhar de Luís Bernardo Honwana, que fixou, muito jovem, magnífica e cabalmente, um tempo histórico.

Se, em 1964, Luís Bernardo Honwana, com a sua pluma de escritor de primeira água, inventava a nossa ficção narrativa, em 2017, ao publicar o livro de ensaios “A Velha Casa de Madeira e Zinco” afirmar-se-ia, de novo, como intérprete fundamental da moçambicanidade. Este livro, sobretudo o seu ensaio inicial, irá balizar os estudos, as análises, as perspetivas, os debates, ou o que quer seja, que exista, lá, no futuro, sobre uma época, o contexto e a realidade sempre contraditória da nossa nacionalidade. Este é, também, por consequência, um texto fundador à semelhança do que acontecera com o prodigioso “Nós Matámos o Cão Tinhoso”.

O livro “A Velha Casa de Madeira e Zinco” alia e articula uma capacidade e qualidade literárias sobejamente conhecidas a uma análise, discussão e provocação intelectuais igualmente únicas e invulgares. Publicado 53 anos depois da sua obra de estreia, este livro desfez o mito do autor de uma obra só. Aliás, ao longo de décadas defrontou-se com cobranças implacáveis. Quando, em 1990, o entrevistei para o livro “Os Habitantes da Memória”, não contornei a pergunta sacramental: continua a escrever? A resposta foi fleumática: “Escrevo intermitentemente como suponho que toda a gente o faz. Mas tenho agora uma situação interessante, que é a raiva das pessoas pelo meu silêncio, uma situação de devedor que eu preferia não ter e que nos melhores momentos me convenço de que não tenho. Mas é isto que se está passando. As pessoas “cobram” de mim o não publicar. E, às vezes, cobram de uma forma violenta, extremamente severa. Mas, de qualquer modo, suponho que, se isso estiver no desígnio dos deuses, essa actividade poderá ser retomada e é bem provável que sim”.

Luís Bernardo Honwana procede uma época clemente em termos culturais para Moçambique. A sua geração é a dos prestigiosos fundadores. Não só na prosa de ficção, como é o seu caso, mas também na poesia, na pintura, na fotografia ou na música. Craveirinha (“expressão verdadeira da poesia de Moçambique”, como dirá na dedicatória no frontispício da sua excepcional obra) é um dos seus companheiros, como o são: Rui Nogar, outro poeta extraordinário; Malangatana, pintor arrebatador e uma força tenaz da natureza; Ricardo Rangel, o mestre do instante decisivo, entre outros tantos. Esta é, por conseguinte, uma geração única, absolutamente magnificente, determinante e fundadora do devir moçambicano. Nesta pátria da desmemória e do esquecimento, não raro, pratica-se o descaso. A história destes fundadores – poderia e deveria acrescentar o insigne nome de Noémia de Sousa, cujos versos fazem a epígrafe de “A Velha Casa de Madeira e Zinco” – é uma das páginas mais nobres da nossa história e cultura do século XX. A nobreza é o que os distingue.

De Luís Bernardo Honwana avulta um percurso público edificante: jornalista e nacionalista, preso político, combatente pela liberdade, Director do Gabinete do Presidente da República logo após à Independência, sucessivamente Secretário de Estado e Ministro da Cultura, fundador e Presidente do Fundo Bibliográfico, membro do Conselho Consultivo da UNESCO, seu representante na África Austral, é hoje Director Executivo da Fundação para a Conservação da Biodiversidade – BIOFUND.

Para além da sua vastíssima cultura, é um tribuno lustroso, homem de uma rara inteligência, dono de uma sedutora e fascinante conversa. Pertence à categoria dos que melhoram o silêncio quando falam. Entre nós, não abundam espécimes similares. Tenho o privilégio de privar com este vulto da nossa nacionalidade e não tenho pejo em encomiá-lo hoje e aqui. Não há muitos como ele, pese embora a pátria condescenda a dispensar figuras deste quilate. Este desapreço só amesquinha a pátria que se compraz com sua mediocridade.

Pertenço à geração de moçambicanos que estudaram, em anos sucessivos, a obra “Nós Matámos o Cão Tinhoso” e se formaram na companhia das suas personagens, sobretudo: Ginho, Quim, Gulamo, Zé, Xangai, Carlinhos, Issufo, Chico, Telmo, Chichorro ou Norotamo, sem esquecer a renitente Isaura. O Senhor Duarte da veterinária, o Administrador, Madala, Maria, o Capataz, Djimo, Filimone, n´Guiana, Muthakati, Tandane, Muthambi, o Senhor Antunes da Coca Cola, a Dona Dores, o Senhor Frias, a dona Estefânia, o Rodrigues da loja, o Vírgula Oito, Maguiguane, Mathumbitana, eu sei lá! Papá, Mamã, Lolota, Tina, Gita, Nandito, Nelita, Joãozinho. Uma verdadeira galeria de personagens (reais) que hoje fazem parte do nosso imaginário.

Termino este depoimento celebrativo, lembrando que, gozando do privilégio de conviver com estes numes da literatura moçambicana – Noémia, Craveirinha, Nogar, entre outros –, ao ouvi-los, o que fazia amiudadas vezes, eles falavam, com veemência, de homens probos, que eram comuns no tempo em que eles viveram e se afirmaram. Esta fidalguia, de mulheres e homens distintos, honestos e honrados, dignos e decorosos, éticos e probos, não avulta, hoje, por certo. Vivemos nos antípodas dos tempos irrepreensíveis de outrora e das figuras que nos nobilitavam. Luís Bernardo Honwana é um dos últimos desta tribo exemplar. Aqui lhe deixo o meu preito, neste dia em que ele celebra 80 anos e que nós, seus leitores contumazes, perseveramos.

 

KaMpfumo, 12 de Novembro de 2022

 

 

 

Nos últimos dias, o mundo está de olhos na cimeira do Clima de Sharm El Sheik, no Egipto. São cerca de 200 Chefes de Estado e de Governo reunidos para discutir medidas de redução da emissão de gases com efeito estufa, que estão na origem da subida da temperatura no mundo, originando as alterações climáticas.

Para muitos, as mudanças climáticas são apenas um mito. No entanto, aqueles que sentem os efeitos na pele sabem que são reais. Por isso, este é um tema que ainda não é levado muito a sério em vários sectores, principalmente em países em desenvolvimento, como Moçambique.

Muitos acreditam que Moçambique e outros países pobres têm de conseguir uma licença para continuar a poluir em troca do desenvolvimento, porque foi assim que se desenvolveram os países mais poluentes.

Esta visão é problemática, porque o planeta terra já não aguenta mais poluição e, como resposta, surgem as mudanças climáticas, cujos efeitos são cada vez mais frequentes e violentos para todos nós.

Os países pobres, como o nosso, têm de procurar formas de se desenvolver em termos ecológicos, adiantando-se, tornando as suas economias menos poluentes, porém altamente rentáveis. Isso é possível!

Para um país ser rico não depende exclusivamente da exploração de combustíveis fósseis ou de outros recursos que tendem a prejudicar a vida do ser humano. Usando o raciocínio, é possível ter uma economia mais competitiva, amiga do ambiente e resiliente aos efeitos das mudanças climáticas.

Moçambique é dos poucos países que pode, rapidamente, fazer a transição para a economia verde, enriquecer e tirar milhões de pessoas da pobreza. Para tal, é preciso aproveitar as cimeiras do clima para negociar com os países ricos e mais poluentes, de modo a pagarem-nos ou a indemnizarem-nos pelos estragos que causam ao planeta. Esse pagamento tem de ser usado para a verdadeira transição de que precisamos.

Ora, quando se fala das mudanças climáticas, Moçambique não é apenas vítima. O nosso país é dos grandes poluidores. Um estudo realizado pelo então Ministério da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural (MITADER), que avaliou o desmatamento no país, entre 2003 e 2016, indicou que deitamos abaixo, anualmente, 269 mil hectares de floresta.

Isso é apenas um quarto do desmatamento ocorrido ano passado, no Amazonas, e que deixou o mundo em alerta máximo. É apenas um terço de toda a área que ardeu na Europa este ano. O mais intrigante é que 86% dessa área é desmatamento feita pela agricultura itinerante, ou seja, familiar. E só 13% corresponde ao desmatamento causado pelo sector da indústria madeireira – vale lembrar que a agricultura é responsável por cerca de 25% das emissões de carbono.

Dados do Centro de Informação de Ciências Climáticas indicam que, anualmente, Moçambique emite para a atmosfera 111 milhões de toneladas de gases com efeito estufa, o que representa cerca de 10% das emissões da China, que é o país que mais polui no mundo, com 10 mil milhões de toneladas por ano. A China tem um PIB anual de 17,73 triliões de dólares, enquanto Moçambique produz apenas 15 mil milhões. Ou seja, temos um PIB mais de mil vezes menor que o da China, no entanto, poluímos 10% do que eles poluem. Ainda segundo o Centro, acima citado, é mesmo com a destruição de florestas e a agricultura que mais poluímos. O desmatamento emite 75 milhões de toneladas de carbono enquanto a agricultura e a pecuária, juntas, mandam para atmosfera um total de 18 milhões de toneladas de gases poluentes.

Cientistas entendem que a floresta está directamente ligada às mudanças climáticas e os dados de Moçambique provam isso. Muitos cientistas defendem que não basta cortar a emissão de gases poluentes, é preciso tirar o carbono que está na atmosfera. E só as árvores é que podem fazer isso de forma eficaz. O que significa que, ao cortar mais árvores, estamos a tirar a capacidade de o planeta reduzir o aquecimento global. Plantar mais árvores é a solução que a humanidade tem à sua disposição para combater as alterações climáticas. Por isso, na anterior cimeira de Glasgow, essa foi a principal recomendação: plantar mais florestas e reduzir drasticamente o desmatamento.

Por um lado, através da fotossíntese, as árvores retiram da atmosfera o dióxido de carbono, libertam o oxigénio e enviam o carbono para o solo, onde desempenha um papel fundamental: alimentar os triliões de microrganismos que têm a função de degradar a matéria orgânica e fornecer nutrientes e imunidade às plantas.

Por outro lado, as árvores, através da transpiração, garantem a humidade do ar, bem como 40% da chuva que cai no planeta. Os outros 60% vêm dos oceanos, rios e lagoas, através da evaporação. Estes dois processos, fotossíntese e transpiração das árvores, têm uma grande influência sobre o microclima, estabilizando as temperaturas e garantindo a regularidade das chuvas.

Segundo o estudo do MITADER, citado acima, as províncias com maior índice de desmatamento em Moçambique são Manica, Nampula e Zambézia. Sofala, Tete, Cabo Delgado e Niassa estão com desmatamento moderado, e com menor índice estão as províncias do Sul.

Nos últimos cinco anos, as províncias de Sofala, Manica, Nampula, Zambézia, Cabo Delgado e Tete ressentem-se, frequente e violentamente, dos desastres naturais, que, de forma repetitiva, afectaram quase 4 milhões de pessoas e mataram outras mil.

Cresci a ouvir que Madagáscar servia como uma barreira contra ciclones para Moçambique, porque, sempre que houvesse um ciclone a formar-se no Oceano Índico, passava por aquela ilha e perdia forças quando entrasse no Canal de Moçambique. Hoje em dia, já não é bem assim. Antes pelo contrário, os ciclones até ganham forças. Segundo os meteorologistas, é a alta temperatura das águas do mar que causa os ciclones.

Segundo um estudo feito por climatologistas dos EUA, os maiores ciclones que já se abateram pelo planeta terra aconteceram num cenário de temperaturas altas. Pelo que alertam: se a humanidade não tomar medidas para baixar a temperatura, haverá mais ciclones e, cada vez mais violentos.

É cada vez mais consensual entre os cientistas que a floresta pode ajudar-nos a baixar a temperatura do planeta terra, claro, o que deve ser combinado com a redução da emissão dos gases com efeito estufa.

Mesmo para reiterar a importância das árvores/florestas e da agricultura na redução da temperatura, convido aos leitores a verem o documentário “Kiss the Ground”, na Netflix, onde o cientista norte-americano Ray Archuleta, com recurso a imagens retiradas dos satélites da NASA, mostra a concentração dos gases com efeito estufa depois das colheitas. Igualmente, mostra como essa concentração dos gases baixa drasticamente após as sementeiras e durante o período em que as culturas agrícolas se desenvolvem.

Retomando, a ideia da transição da economia verde, passível de ser adoptada por Moçambique, pode ter fundamento no facto de que a agricultura é a base de desenvolvimento do país e a principal fonte de renda para 75% a 80% da população.

Actualmente, o modelo de produção dessa agricultura familiar está completamente exposta aos efeitos das mudanças climáticas, que, para além de destruir os campos agrícolas, através de ventos fortes, inundações e/ou secas, propiciam a proliferação de pragas e doenças que destroem milhares de hectares de diversas culturas. Isso aliado à enorme dificuldade de acesso a pesticidas e outros insumos por parte desses agricultores, além da degradação dos solos por erosão ou uso intensivo de agroquímicos.

Essa é uma realidade nua e crua em Moçambique.

Soluções?

Há várias. Mas é uma conversa para a qual ainda me parece que não estamos preparados. A actual política pública de desenvolvimento da agricultura passa pela distribuição de milhares de tractores aos camponeses, o que significa que, nos próximos anos, a área desmatada vai aumentar. Só se usa tractor numa área sem árvores, para além de que revolver a terra com recurso a estas máquinas é uma das formas de tirar o carbono armazenado no solo para a atmosfera, o que concorre para agravar os efeitos das mudanças climáticas.

Ademais, penso que com um estudo aprofundado podemos, com certa surpresa, descobrir que um número considerável dos tractores distribuídos pode não ter sido usado e, se tiver, as áreas que lavraram ficaram inundadas e/ou as culturas foram perdidas.

A solução, a meu ver, passa por Moçambique adoptar a Agricultura Sintrópica e/ou Agricultura Regenerativa, com resultados positivos em vários cantos do mundo, quer para a adaptação da agricultura familiar, quer no aumento significativo da renda dos camponeses. As duas formas de agricultura geram abundância e diversidade de produtos agrícolas e reduzem, drasticamente, a dependência por agroquímicos: na fertilização e no combate a pragas e doenças. Por exemplo, uma família que produz em Sistema Sintrópico, numa área de um hectare, consorciando café, hortícolas, leguminosas, cereais, frutas e espécies florestais nativas, tem potencial para ter duas ou três vezes mais rendimento do que aquela família que desmata cinco hectares e planta apenas o milho (é uma experiência que pessoalmente estou a fazer em Manica).

Este modelo tem potencial para parar o desflorestamento (recuperar terras que as famílias deixaram de usar por esgotamento, por sucessivos anos de más práticas agrícolas), combater as queimadas descontroladas e, sobretudo, proteger estas famílias dos efeitos das mudanças climáticas. Por se tratar de pluricultura e não monocultura, em caso de ciclone, podem perder uma parte das culturas de porte mais elevado, mas as de porte baixo vão resistir e vão garantir a segurança alimentar.

É com enorme satisfação que vejo que grandes projectos de agricultura comercial, em Moçambique, estão a começar a adoptar este modelo de produção. É o caso dos projectos de café, em Chimanimani e Gorongosa, e o algodão em Nampula e Niassa, pertencentes ao Grupo João Ferreira dos Santos. Mas é preciso que o Governo adopte como política pública.

A pecuária também pode adoptar modelos de produção amigos do ambiente e bastante rentáveis como a Integração Lavoura, Pecuária e Floresta, em que nas áreas de pasto se plantam espécies florestais em consorciação com a produção de grãos (milho e soja, por exemplo) e a própria criação gado.

Só se adoptarmos estas práticas, teremos potencial para melhorar a renda de 75% a 80% da população moçambicana. Isso significa tirar essa gente da linha da pobreza, usando o princípio da economia verde e ecológica. Significa diversificar a economia, porque os camponeses com mais recursos vão aumentar o seu consumo de bens e serviços, atraindo outro tipo de actividades económicas para as zonas rurais. Se este ciclo funcionar, a educação, a saúde, a água, a energia, as telecomunicações e outros serviços públicos de qualidade vêm automaticamente. Porque quem tem dinheiro vai procurar sempre o melhor para si e para os seus, tal como explica a Teoria das Necessidades de Maslow.

Portanto, acredito que é possível uma Nação desenvolver-se adoptando um modelo de sustentabilidade ambiental, social e económica. Caso contrário, estamos a caminhar para o suicídio colectivo e para o fim da humanidade. E sem humanos, o planeta terra sabe como se auto-curar e não irá desaparecer.

O Poeta Jorge Viegas, de seu nome completo Jorge Alberto Viegas, nascido em Quelimane, a 6 de Novembro de 1947, faz hoje 75 anos. Publicou, muito jovem, aos 19 anos, em 1966, “Os Milagres”, o seu livro de estreia. Seria, porém, ao ver os seus poemas estampados nos cadernos de poesia “Caliban”, editados por João Pedro Grabato Dias e Rui Knopfli, dois nomes importantes da nossa lírica, que se sentiria reconhecido como poeta. Não é caso de somenos importância: estava acompanhado de José Craveirinha, Rui Nogar, Sebastião Alba, João Pedro Grabato Dias, Rui Knopfli (para citar os nomes locais), ou Jorge de Sena ou T.S. Eliot (traduzido por Knopfli e apresentado por Eugénio Lisboa). Isto em 1971, no ano em que o jovem promissor está à beira dos 24 anos.

Quando publica “O Núcleo Tenaz”, a sua obra mais significativa, na mítica colecção Autores Moçambicanos, do INLD, na brevíssima nota biográfica, na contra-capa da obra, este facto (a sua colaboração nos cadernos “Caliban”) merece destaque. Não refere aí o seu livro primaveril. Do autor vai constar ainda o facto de exercer as funções de Director de Finanças, em Nampula, onde então residia. Estávamos em 1982, Jorge Viegas tinha 35 anos. Começara, porém, a experimentar as amolações da revolução. Vivíamos tempos alvoroçados. Abatido, exaurido, fatigado, profundamente doente, aparta-se da Pátria, no ano seguinte.

Do meu país as aves se ausentaram / e com elas se foi a vida, a alegria. / E os poetas, nos versos que cantaram, / foram pássaros de morte e de melancolia”. À esta distância, eu diria que estes acerados versos subscrevem o anátema do nosso destino individual e colectivo. A despeito, um poeta capaz de semelhantes versos tem direito a habitar a nossa mitologia literária. Jorge Viegas, avaro e escasso, rebelde e tenaz, indômito e soturno, eufórico e taciturno, canta sempre a vida e a morte, proclama a liberdade, ama voluptuosamente as palavras. Nos tempos em que a revolução concitou o seu entusiasmo teve dele uma adesão comedida. Nunca foi panfletário, sempre um subversor da linguagem.

“O Núcleo Tenaz” inicia com um poema que traz uma epígrafe que é também uma espécie de programa ou, até, epigrama: “A Pátria está nos livros que eu não li”. Este poema, sem título, evoca, no seu primeiro verso, o Poeta, que enuncia: “As pátrias nascem, crescem, / vivem dentro de nós.” Mais adiante em “Fala de um guerrilheiro”: “Neste tempo de susto e de loucura, / Tempo de fome e tempo de amargura / A Pátria cresce em nós num sonho puro.”

Acto contínuo, na página seguinte, o poeta da “Subversão” prescreve o tom da insurreição: “O pintor subverte a paisagem. / O poeta subverte os planos da linguagem. / O guerrilheiro subverte os homens sem mensagem. // Subverte. Subvertemos. / Subvertidos fomos. / À subversão devemos / A estatura do que somos.” Sublinho: “À subversão devemos / A estatura do que somos”. Este poema, este tom subversivo, esta sublevação poética, também seriam o mote da geração que viria a despontar nos anos 80 quando esta obra foi publicada. Alguns dos poetas da minha geração – Eduardo White sobretudo – reclamam-no. “O Núcleo Tenaz” foi, para alguns de nós, uma espécie de breviário.

Era o tempo no qual “o inimigo move-se no arco dos azimutes”, tempo onde: “Baionetas caladas / Perfuram a noite. / Permaneço de pedra. / Transmudado em basalto”.  Isto na “Canção de Bagarila”, dedicada a José Craveirinha. Aliás, as dedicatórias neste livro para além de denunciarem laços poéticos inextricáveis, são uma espécie de cartografia lírica do autor. A Sebastião Alba dedica-lhe Jorge Viegas o poema que dá título ao livro onde estão inscritos estes versos: “Com o poema / abriremos a noite, / jugularemos o medo.” “Porque o poema é sempre / (mesmo o das palavras mansas e amáveis) / o núcleo tenaz / duma revolução.”

Poesia que adere ao sonho sem ser necessariamente panfletária. O fervor da revolução numa escrita vigiada obstinadamente. Parece que estamos perante uma contradita? “Ao escreveres um poema / articula bem as palavras, / todas as palavras necessárias, / para que elas permaneçam intactas / não na brancura do papel, / mas grafadas, indelevelmente, / na memória dos homens”, conclama Viegas.

Provavelmente, o verso que cito a seguir resolva o paradoxo de uma poesia engajada que não é necessariamente panfletária: “As palavras estão no começo e no fim de todas as cousas”. Creio que está aí a chave. No texto “Poema” diz o poeta: “E canto. / E evoluo nas minhas coordenadas. / “Que os humanos se matem às dentadas” / Pois que, por enquanto, / eu escrevo poemas para mulheres sentadas”.

Nos primórdios da década de 80, a revolução revela algumas fissuras e começa a conhecer-se-lhe um certo refluxo. Uma brutal e indisfarçável crise social denunciava-lhe o impasse. Não deixa de ser admirável, neste contexto, a afoiteza do poeta. Neste mesmo livro, o tom lírico, que ao tempo era uma espécie de sublevação, vai-se acentuando: “O teu corpo de planos e derrotas, / Onde esvoaça à pura luz da aurora, / A exilada sombra das gaivotas”. (“Guida”). Ou: “o amor fende as águas da melancolia”. Ou ainda: “Há um lugar de sombra nos teus olhos. / Nesse lugar me deito e adormeço.”

“O Núcleo Tenaz” é também um livro de desencanto. Num texto ominoso, dedicado a Rui Knopfli (“Círculo de Sombra”): “A minha alma é um círculo de sombra. / Os meus poemas são a pálida mensagem / dum homem melancólico. Se sou poeta, / decerto não sou do tempo presente.” Há lugar para uma certa distopia aqui. “Escrevo poemas de amor, e os meus poemas / não conduzem os povos à contestação. / Gosto de passear nas ruas a antiga liberdade / que eu sei haver nos poetas que mais amo”. É um dos mais belos e pungentes poemas deste poeta moçambicano.

Esta inflexão acentua-se no poema seguinte: “Eu escrevo poemas, / somente para fugir à sedução, / ao trágico pendor da minha alma / por uma poça negra, / tão funda como a morte”. Aqui está o desengano. Em “A Esperança Aracnídea”, dedicado a Rui Nogar: “No espaço de sombra / das palavras que escrevo / o futuro é ilegível”. Ou mais adiante: “Sobreviventes do naufrágio de nós mesmos”. Torna-se flagrante este dissídio quando em “As palavras são poucos” o poeta escreve: “As palavras são poucas / para explicar o cansaço, / o desânimo de estarmos / inevitavelmente vivos.”

“O Poeta / é o que tem a memória límpida de alguns lugares / onde não foi em data nenhuma a sua vida.” Eu diria que este livro que vai da adesão à revolução à disforia aquando do seu refluxo é, ao mesmo tempo, belo e lancinante, melancólico e profundo, escrutina ou perscruta, o mais profundo do seu ser.

O livro seguinte, “Novelo de Chamas”, publicado em 1989, em Lisboa, pela ALAC, de Manuel Ferreira, experimenta os limites dessa circunstância biográfica adversa do autor, marcada pela exaustão, pela descrença, pela prostração, pela angústia e pela tribulação. Mesmo quando afirma em “Brancura viva”: “Da obscura noite do sonho / nasce a brancura vida do poema”, o que encontramos neste livro profundamente taciturno? “Sinais de morte?”

No poema “Necrologia” parece chegar-se ao limite do paroxismo: “Acaba de morrer / na sua residência circular / de Illinois ó Prata, / o poeta moçambicano / Jorge Viegas. / Paz à sua alma”. “Nenhuma aspa de luz me ilumina, / nenhum deus vela à minha cabeceira.” Poesia agoirenta, aziaga, sinistra, consternada, amargurada, sorumbática, agónica.

Mas sempre uma poesia reveladora do seu alto estro, capaz de versos sublimes: “fina haste de melancolia”, “os açulados nervos da linguagem” ou “a fúria vocabular de deus”, entre outras tiradas, que denunciam o conseguimento daquilo que o poeta alvitra ser “a tentativa de fazer / com as palavras, / o que a Ralenkova / faz com o arco”.

Para além destas obras, os poemas de Jorge Viegas estão coligidos em “No Reino de Caliban III” (1985), de Manuel Ferreira, na “Antologia da Nova Poesia Moçambicana” (1993), que co-organizei com a Fátima Mendonça e em “Nunca Mais é Sábado” (2004), antologia de poesia moçambicana. “Novelo de Chamas”, publicado há 33 anos, foi a sua última obra conhecida. Foi nessa época em que o conheci pessoalmente e tivemos um cordial embora limitado convívio.

Num texto mítico (“Notas para a recordação do meu mestre Fonseca Amaral”), o Poeta Rui Knopfli escreve: “Fonseca Amaral é, por direito e mérito próprios, um dos nomes mais altos e representativos da Poesia em Moçambique e, simultaneamente, por desleixo ou abulia, um dos menos conhecidos e apregoados, espécie de grande ausente nos vários certamos em que vamos acrescentando pátina às nossas acanhadas glórias caseiras”. Eu diria exactamente o mesmo de Jorge Viegas. Proferiria as mesmas palavras. Esta efeméride, os 75 anos do Poeta Jorge Viegas, constitui, por conseguinte, um facto literário importante e um pretexto para o lembrar e celebrar.

No texto que redigiu para o prefácio de “Novelo de Chamas”, Luís Carlos Patraquim diz o seguinte deste poeta muitas vezes omisso entre nós: “É esse Ser, esse deus ou deuses plurais, que desde longa data vêm habitando a Poesia deste Jorge Viegas, ora sarcástico, ora terrível, ou angustiado como um dos escolhidos para descobrir no deserto o maná da sua travessia”.

No poema “A loucura”, Jorge Viegas escreve: “De louco e de poeta / todos temos um pouco. / Mas eu tenho mais de louco”. Isto é óbvio sarcasmo. No entanto, este poderia ser um epigrama da vida, da biografia ou do destino deste poeta que escreve dolorosa e profeticamente estes terríveis versos: “No meu país / a única forma de liberdade permitida / é a loucura”.

 

KaMpfumo, 6 de Novembro de 2022

 

 

Quem manda nas nossas vidas é a sociedade, o senso comum, e não o nosso mero querer,

o nosso livre arbítrio. A sociedade é quem nos tira a fotografia e exibe-a publicamente.

in Masingita ou a subtileza do incesto.  

 

Boa noite a todos.

Antes de me perder nesta tentativa de apresentar o livro, eu quero agradecer ao Juvenal por me confiar esta nobre tarefa. O Juvenal é um dos escritores de referência em Moçambique e dos que mais regularmente publica. Então, quando nos convida a apresentar uma obra literária da sua autoria, dá-nos uma falsa ideia de que somos importantes, até porque o nosso nome circula em cartazes de grandes centros culturais como o Camões.

Lembro-me de que o Juvenal convidou-me a apresentar a sua novela depois de uma entrevista que me concedeu, no programa Artes e Letras da Stv, mesmo a propósito dos 40 anos da AEMO. Nessa ocasião, disse-me assim: – Zé, eu tenho um novo livro que em breve será lançado pela Fundza no Camões. Mas ainda não tenho um apresentador.

Bem, nesse instante, vocês sabem, o Juvenal é uma pessoa serena e que fala muito devagar, o que nos dá a possibilidade de pensarmos mil e uma coisas enquanto ele ainda não terminou a ideia ou mesmo a frase… Não tendo o escritor um apresentador do seu mais recente título, preciptei-me a julgar que ele pretendia que o ajudasse a encontrar alguém para assumir essa função. Imediatamente, pensei em três nomes: Lucílio Manjate, Albino Macuácua e Léo Cote. Quando pretendia avançar para o quarto, eis que o escritor remata: – Gostaria que fosses tu a apresentar o meu livro. O que te parece?

Um convite desta natureza, feito por um autor como Juvenal, fundador da primeira revista literária de Moçambique depois da independência, a Charrua, e uma voz de vanguarda da Geração Charrua, é uma ordem e um privilégio. Por isso aceitei cá vir partilhar convosco as minhas leituras sobre a nova proposta do escritor.

Assim sendo, eu intitulei esta intervenção da seguinte maneira: Masingita ou a casa do pecado. Logo no princípio, o que me motivou a intitular parte desta minha intervenção, no caso a casa do pecado, foi o título do livro de Matilde Chabana, O perfume do pecado, apresentado por mim aqui no Camões, em Fevereiro deste ano. Na verdade, apropriei-me daquele título porque, em parte, o livro da Matilde, editado pela Kulera, dialoga com a novela de Juvenal Bucuane, editada pela Fundza. No primeiro caso, mesmo sendo poesia, O perfume do pecado é um mergulho na proibição, no que é vedado às mulheres, no pecado que, na realidade, funciona como uma espécie de reivindicação da liberdade numa sociedade machista.

Em segundo lugar, o que inspirou o título desta minha intervenção, a parte do pecado, foi a seguinte passagem. Para os que têm o livro, por favor, página 59:

 

Não suportavam mais aquele lugar que, durante o sono que lhes devia ser retemperador, agoiravam-nos esgares infames que habitavam os seus sonhos. Os pesadelos não tinham fim, perfilavam ao longo da noite. Já não tinham paz. O tecto de zinco da casa parecia estar a ruir, pelo barulho e miar incessante dos gatos, como se se aliassem ao ambiente sinistro dos habitantes das redondezas da casa pecaminosa.

 

Quanto ao termo masingita, nesta minha intervenção, claro está, resulta do facto desse termo compor a totalidade do título da mais recente obra literária de Juvenal Bucuane: Masingita ou a subtileza do incesto. Masingita é um termo ronga, entre vários significados, quer dizer sacrilégio em português. Mais à frente, iremos perceber porque a utilização do termo faz sentido neste livro.

Ora, Masingita ou a subtileza do incesto é uma história sobre as consequências que o amor não correspondido pode gerar nas pessoas. Tem-se dito que os filhos pagam pelos erros dos pais. E, desse ponto de vista, Juvenal Bucuane traz aqui uma novela interventiva, pisando, muitas vezes, terrenos movediços. Esta é uma história, fundamentalmente, de Marta e Pepuka, mãe e filho que, depois de cada um se separar do seu cônjuge, voltam a morar juntos. É uma aventura acutilante sobre a condição da mulher e sobre como certos hábitos e costumes conspiram para o que podemos considerar minimização do sujeito feminino, conforme ilustra o seguinte excerto. Por favor, os que têm o livro, página 21:

 

Depois de se concluir, no fervor da troca de palavras, que já não havia volta para a reunião do casal, esgrimidos que foram os argumentos, de ambas as partes, até à exaustão, à família M’Phumelo não restava mais que insistir no argumento de que, como Marta não tivesse sido lobolada e premiara a família Ndleleni com um filho varão, que era uma promessa de continuidade do seu nome familiar, o justo seria que esta família se redimisse, lobolando a sua filha, caso contrário, esta voltaria para casa paterna, passando, o filho do casal e sua prole – dois filhos menores, a serem, exclusivamente, novos elementos da família M’Phumelo, como se nenhuma relação tivesse existido entre as duas famílias.

 

O excerto que acabei de ler marca o episódio em que Marta e Plínio encontram-se no processo de separação. Marta não tem voz. Não se faz ouvir para dizer que não concorda com a separação ou com a contrapartida colocada pela família e muito menos é consultada sobre o que quer que seja. O marido e a família dele pretendem-na devolver ao lar paterno como mercadoria. Do mesmo jeito, a sua própria família pretende-a receber de volta como “coisa” inexpressiva. Os hábitos e os costumes colocam Marta numa situação difícil, de tal maneira que, ao nível da comunidade onde vive, ao invés de receber apoio pelas consequências enfrentadas antes e depois da separação, é praticamente discriminada, inclusive, por outras mulheres.

Há neste Masingita ou a subtileza do incesto o cuidado de Juvenal Bucuane no retrato da condição daquelas mulheres que, por exemplo, ao separarem-se, devido à forma como a sociedade moçambicana reage a isso, mesmo precisando, não voltam a casa dos pais. Para evitar certos olhares, certas perguntas e constrangimentos, colocam-se a alugar uma casa geralmente precária onde “recomeçar” não é um verbo tão auspicioso quanto deveria ser.

Masingita ou a subtileza do incesto é uma história de relações amorosas tensas e sobre a consequência das coisas. Quando as relações entre Marta e Plínio e Saquina e Pepuka falham, surgem danos colaterais. Logo, a ligação causa e efeito é tão necessária quanto indispensável. A causa e o efeito acompanham toda a narrativa como se Juvenal Bucuane pretendesse iluminar zonas de penumbra que, afinal, podem constituir determinadas formas de ler a realidade à nossa volta e, sobretudo, à volta dessas tantas mulheres que a percepção machista as destrói sem redenção.

Ao colocar o amor no princípio de tudo que move o enredo, Juvenal Bucuane questiona e questiona-nos sobre as nossas acções em prol do investimento naquele sentimento. Desse ponto de vista, claramente, o livro não nos dá respostas gratuitas, mas pode ser que nos ajude a chegar a algum lugar, a algum entendimento, a uma visão alargada de um mundo menos preconceituoso e mais sugestivo. Há-de ser por isso que o autor textual deste universo diegético preserva a introdução dessas relações familiares sempre em desgaste. Aliás, é devido a esse desgaste das relações de afecto que surge o incesto no enredo.

A vossa atenção a mais uma passagem do livro. Prometo que, depois desta, não leio mais nada. Por favor, página 37:

 

A madrugada ia profunda quando Pepuka, tentando encontrar uma posição melhor para acomodar o seu esgazeado sono, deu com um corpo de mulher ao seu lado, deitado desmazeladamente. A voz do despudor chamou pelos seus instintos vorazes de macho, bloqueando-lhe toda a razão. A correspondência, encapuçada no proporcional despudor, completou os actos várias vezes repetidos, naquele breve espaço temporal da noite.

A inconsciência do sono, misturada com a exaustão corporal, prevaleceu.

Quando, cerca das oito da manha, coincidentemente, despertaram, deram-se conta de que dormiram juntos, mãe e filho, na mesma cama, a cama do filho, como se contrariassem os tempos em que Pepuka, ainda infante, se refugiava, com medo do escuro e se deitava entre os seus pais. A nuvem entorpecedora da noite finda dissipou-se, trazendo-lhes, timidamente, a lucidez que, como num puzzle, completava, os revérberos misteriosos da noite finda. Nada poderia ser tão evidente ou esclarecedor do que a meia nudez em que se apresentavam um diante do outro.

Quem consegue voltar a recuperar o caldo entornado?

 

Nem o narrador consegue recuperar o caldo entornado e muito menos eu. Bem observado, a passagem incestuosa é tão arrepiante que o narrador nunca consegue entrar em pormenores. O narrador é covarde no seu discurso e fica ali a dar a volta às coisas. Mas essa estratégia não compromete o entendimento do episódio constrangedor. Longe disso, o discurso do narrador garante ao texto uma linguagem requintada e cuidada, conferido ao leitor a decisão de inventar imagens da circunstância incestuosa. Sob sua própria responsabilidade.

Segundo Freud, o primeiro objecto sexual do bebé é incestuoso, porque é mãe. Essa acção incestuosa, com efeito, acontece através da amamentação. Adler e Jung rebatem essa concepção do incesto porque, ainda que um bebé sinta prazer ao comer, isso não significa um prazer sexual. Seja como, no caso de Masingita, de Juvenal Bucuane, o incesto não está nada ligado ao que Freud sugere ou às contradições de Adler e Jung. Em Masingita, o incesto é inconsciente. Depois de Marta se separar de Plínio, recebe em sua casa o filho Pepuka, que se separa de Saquina. Mãe e filho, portanto, embriagados, perdem a noção das regras e a lucidez e mergulham fundo num caso irreversível. As duas personagens arrependem-se desesperadamente, dando azo à introdução de outro tema importante para esta história: o suicídio.

De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de quatro mil pessoas tentaram resolver os seus problemas recorrendo à morte, ano passado. Quatro mil pessoas. Sobretudo em Maputo e em Manica. É muita gente! Se assumirmos que o suicídio é um problema social grave em Moçambique, então faz todo o sentido ler Masingita, de Juvenal Bucuane, porque esta novela nos permite compreender as causas de certas atitudes trágicas do nosso quotidiano. À literatura também cabe essa espécie de luz a iluminar-nos a nós próprios e aos outros.

Masingita ou a subtileza do incesto é tudo isso, uma novela riquíssima do ponto de vista temático; uma novela que não se perde em demasiados procedimentos técnicos no investimento da narrativa. Esta é uma novela progressiva, cujo discurso do narrador revela gradualmente o universo diegético e a essência das personagens que nos movimentam nesta viagem.

Portanto, nessa instauração do equilíbrio entre os fundamentos temáticos e a estratégia narrativa, Masingita ou a subtileza do incesto expia o lado imperfeito da mente humana, mas não para colocar a imperfeição num patamar alto. Logo se vê, a pretensão aqui é outra, despertar-nos para os sentidos da coexistência por via de uma ficção dilacerante e inevitável.

 

* Texto escrito de cor na sequência da apresentação do livro Masingita ou subtileza do incesto, dia 21 de Setembro, no Camões – Centro Cultura Português em Maputo.

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