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Vidas transviadas em “See my Story. Copyright by Madgermanes”

A história da migração económica é, na verdade, a história das promessas vendidas em nome do progresso. Em Moçambique, essa equação assumiu o rosto dos Madgermanes, homens e mulheres enviados à antiga República Democrática Alemã (RDA) sob o selo da “cooperação socialista”. Cada vida é combustível de experiências, cada memória é petróleo bruto a ser refinado, cada relato fulge como satélite que cruza a escuridão do tempo, iluminando trajetórias que agora ganham voz nas paredes da galeria do Centro Cultural Moçambicano-Alemão. 

Largaram os batuques, descansaram os apitos, arrumaram as vuvuzelas: na passada quarta-feira (10/10/2025), escolheram outro compasso e chegaram ao coração de lembranças acesas onde a exposição “See my Story. Copyright by Madgermanes”, curada e fotografada por Sabine Felber, os recebeu.

Entre fotografias, vídeos e depoimentos, as histórias circulam como caminhos percorridos irradiando propósito e vitalidade, transformando o espaço em âmbito de reflexão e reconhecimento. Incontestavelmente, mostrando que a equidade e humanidade podem conviver num mesmo olhar, numa mesma prática.

As imagens estáticas testemunham vidas em trânsito, suspensas entre o ontem e o agora. Cada rosto se apresenta como mandíbulas que mastigam o tempo, linhas que respiram coragem e olhares que bifurcam consciências. A disposição das peças visuais estabelece conversas mudas entre épocas, entre trajetórias que se tecem, salientando que os Madgermanes são a prova viva e persistente de uma era de alianças ideológicas, isto é, eles representam a memória social da Guerra Fria em solo africano. O seu constante apelo é pelo reconhecimento integral de que as suas trajectórias e saberes técnicos são naturalmente, um capital de sacrifício e de valor inestimável para nação moçambicana.

 O rosto da migração na imagem Lurdes Eli Uate acolhe a polissemia desta narrativa, encontrando, porventura, o seu ponto de maior ressonância na biografia. Enviada à RDA com a promessa de estudos universitários, uma aspiração inicialmente frustrada pela realidade fabril (VEB Textilkombinat), e regressando com uma bagagem técnica e vínculos indeléveis (como a amizade com Andrea Wess), ela corporifica a cisão entre a utopia prometida e o destino imposto. O seu relato, coligido em vídeo e ilustrado na fotografia, é um dos elos mais fortes da exibição.

Nesta perspectiva , a curadoria de Sabine Felber concentra-se na polaridade inerente a estas jornadas, ou seja, o reconhecimento do capital técnico e dos laços afectivos consolidados no estrangeiro coexiste com a melancolia de um regresso que os forçou a conciliar o legado de um passado produtivo com a incerteza do presente moçambicano. É esta dissonância, capturada pela lente e pelo acervo audiovisual, que sublinha a persistência e a relevância de cada trajectória individual.

De igual modo, nas captações audiovisuais, a narrativa ganha impacto. Depoimentos que antes habitavam apenas o pensamento agora assaltam a galeria, revelando o ritmo dos dias, os tropeços do retorno, a aspiração por dignidade. O olhar de Sabine é definido pela transparência e pela valorização aos Madgermanes; Com isso, cada vivência é apresentada no seu ritmo, permitindo ao visitante uma imersão empática que transcende o olhar, absorvendo a essência de quem esteve ali. A organização actua, fundamentalmente, como um selo de revalidação da identidade moçambicana, afirmando o valor humano e técnico inerente aos seus percursos. Assim, esta é uma confluência de visões, recordações e vozes que se restauram a si próprias.

Não obstante o mérito do trabalho da sabine em garantir visibilidade e dignidade, a leitura da exposição confronta o observador com paradoxos constitutivos à representação histórica. O maior desses desafios reside na delicada fronteira da autonomia narrativa. Portanto, o acto de expor estas vidas acarreta o risco de perpetuar uma assimetria visual, onde os Madgermanes são vistos, mas o poder de enquadrar e traduzir a sua história ainda reside num olhar externo. Esta preocupação espelha a condição maleável a toda a história contada, pois, como escreveu João Borges Coelho em O Museu da Revolução: “o passado e o futuro… são ambos feixes de possibilidades. Ambos se vergam à maneira como os quisermos contar.”

 É perante esta flexibilidade da narrativa que a necessidade de cautela se torna vital, sobretudo face ao risco da estetização da dor, ao transformar o sofrimento e o sacrifício em objecto belo e contemplativo, as imagens podem involuntariamente neutralizar razão do seu clamor por justiça. Deste modo, a exposição deixa no ar uma reflexão incontornável, mostrando que revisitar o passado é apenas o primeiro passo: o feixe de possibilidades do futuro exige um novo conto.

“See my Story. Copyright by Madgermanes” celebra vidas que cruzaram fronteiras, carregando sonhos, saberes e resistência. Sabine Felber transforma a memória em farol, mostrando que cada trajetória é bússola para um futuro onde dignidade e justiça entrelaçam-se no mesmo compasso. Revisitar o passado é apenas o primeiro passo e o próximo exige de nós reconhecimento activo e compromisso com aqueles que fizeram história.

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