Sem rodeios, Felisberto Navalha entrou em acção no Banco de Moçambique. Depois de quatro semanas a afinar o seu pensamento, eis que o novo governador decide romper o cofre das reservas obrigatórias para tirar a economia das trevas.
Decidiu libertar o dinheiro que, por obrigação da lei, os bancos comerciais depositam junto do banco central para financiar empresas que queiram produzir para exportar, mas também aquelas que pretendam produzir o que o país actualmente importa.
Os elogios à medida, vindos de economistas, não tardaram a chegar; contudo, estes vêm acompanhados de subsídios para que esta não seja mais uma diligência sem o efeito desejado: animar a economia nacional.
Num texto enviado ao “O País Económico”, o economista e docente universitário Constantino Marrengula começa por destacar a relevância da medida, por se propor a substituir as importações e a aumentar as exportações.
Marrengula considera que, com esta inovação, as reservas obrigatórias deixam de ser apenas instrumentos de gestão do dinheiro disponível nos bancos e passam a ser um mecanismo de transmissão da política monetária para a economia real.
Porém, alerta que a inovação do novo elenco da autoridade monetária não deve parar por aí. Deve criar condições para que as Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME) tenham, de uma vez por todas, acesso efectivo ao crédito bancário.
“O principal teste será saber se este mecanismo conseguirá ultrapassar uma das maiores limitações do sistema financeiro moçambicano: o crédito continua distante de grande parte das micro, pequenas e médias empresas e da economia informal”, lembra.
O docente refere que, para uma pequena empresa sem garantias reais, demonstrações financeiras robustas ou histórico bancário, reduzir a taxa MIMO pode ter pouco significado. Diz que, para estas, o problema não é apenas o preço do dinheiro, é o acesso ao dinheiro.
“É aqui que o Banco de Moçambique pode dar o próximo passo: incentivar instrumentos de financiamento baseados em fluxos de caixa, transacções, contratos e cadeias de valor. A transição de empresas informais viáveis para a economia formal também deveria fazer parte desta agenda”, refere.
Constantino Marrengula sublinha que há outro desafio que não pode ser ignorado: a inflação dos alimentos. Para atacar o problema, considera necessário aumentar a oferta e reduzir os custos ao longo de toda a cadeia: produção, armazenamento, transporte, processamento e comercialização.
Na nova abordagem das reservas obrigatórias, o economista encontra espaço para o financiamento das cadeias alimentares e de empresas que aumentem a oferta interna. Daí que entenda que o Banco de Moçambique abriu uma porta importante que agora é preciso atravessar.
“A política monetária não deve limitar-se a tornar a liquidez abundante ou escassa. Numa economia com baixa inclusão financeira, deve também procurar compreender por que razão o crédito não chega onde a produção acontece”, lembra ao seu colega que acaba de assumir o volante no banco central.
Para Marrengula, o sucesso desta inovação introduzida pelo novo elenco do banco central será medido quando o crédito chegar mais perto dos produtores — incluindo os pequenos e os das cadeias alimentares — e quando essa liquidez se transformar em mais produção, mais emprego e maior oferta de alimentos.
O economista justifica o seu pensamento afirmando que a estabilidade monetária é necessária, mas o próximo desafio é fazer com que ela seja também economicamente inclusiva. Marrengula destaca a importância da nova medida do banco central, mas alerta para a necessidade de coerência nas políticas públicas.
“Existe um problema de coerência porque, enquanto o banco central procura libertar recursos para o sector produtivo, a política fiscal absorve recursos em despesas de baixo retorno, acumula atrasados ou não consegue transformar o défice em procura efectiva”, alertou o docente universitário.
Para fundamentar a sua análise, Marrengula recorre ao exemplo do concurso lançado pelo Conselho Constitucional em Agosto para adquirir uma viatura Mercedes-Benz com o custo de cerca de 28 milhões de meticais, questionando o retorno que tal acção traz para um Estado sob vários desafios.
“Não se trata de questionar a necessidade de meios de transporte para instituições públicas. A questão económica é outra: qual é o retorno desta despesa e qual o seu custo de oportunidade numa economia em que o Estado acumula atrasados, as empresas enfrentam restrições de liquidez e a procura permanece débil?”, questionou.
Por sua vez, o economista Eduardo Sengo começa por frisar que as políticas de estabilização por si só não triunfam, uma vez que podem inibir o crescimento económico ou, onde são necessárias, não chegar aos sectores nevrálgicos que impulsionam o desenvolvimento.
“É possível formular estas políticas de tal forma que cumpram a sua função estabilizadora e, ao mesmo tempo, estimulem a produção ou a economia. Isto é muito importante para Moçambique, tendo em conta o seu estágio de desenvolvimento e todas as necessidades que ainda tem por suprir”, reagiu o economista à medida do banco central.
Para Sengo, políticas contracionistas cegas ou expansionistas cegas não só desaceleram a economia ou aceleram a inflação, como acabam por se tornar ineficazes para aquilo a que se propõem — que é, por vezes, estimular a produção quando se trata de expansão.
Sengo aponta que os cortes sucessivos da taxa de juro feitos pelo Banco de Moçambique, iniciados há pouco mais de um ano (invertendo a tendência da política monetária), juntamente com a manutenção observada nos últimos três meses, não se traduziram em financiamento barato para a economia.
“Continuamos a ter sectores nevrálgicos da economia, como os sectores produtivos, a não beneficiarem deste crédito, o que constitui um aspecto estrutural desde que Moçambique se tornou independente. É preciso pensar fora da caixa, trazer medidas progressistas e apresentar ideias sob o ponto de vista da implementação da política monetária”, concluiu Eduardo Sengo.
Para o economista, é fundamental perceber que a política monetária precisa não apenas de se focar no aumento ou redução da taxa de juros, mas também de começar a focar-se na própria distribuição do crédito; ou seja, para além da determinação da taxa de juro, encontrar mecanismos para influenciar a repartição do crédito na economia.
“Tem de olhar selectivamente para os sectores produtivos, como a agricultura e a indústria transformadora. É assim que faço a leitura desta primeira decisão do novo governador e desta nova fase do banco central: tentar, em primeiro lugar, ir ao encontro do quadro de políticas nacionais e trazer alguma coordenação entre a política fiscal e a política monetária naquilo que for positivo para o aumento da produção”, explicou Sengo.
No entender de Eduardo Sengo, a inovação introduzida pelo banco central é um sinal de que a política monetária não quer limitar-se à determinação da taxa de juros, mas pretende também influenciar a distribuição do crédito. Segundo explica, no passado, o crédito à economia destinado aos sectores da agricultura e indústria já representou 50%, caindo hoje para cerca de 15%.
“Esta medida é um sinal positivo na busca não só da substituição das importações, mas do aumento da produção interna. Nela, claramente, o quadro da política monetária já não está focado apenas na determinação da taxa de juro em função da inflação, mas passa a ter em conta outras variáveis, como a criação de emprego, o aumento da produção e, por essa via, a disponibilidade de divisas no mercado”, defendeu.
Por seu turno, o economista Júlio Saramala entende que o primeiro Comité de Política Monetária presidido por Felisberto Navalha deixou bons sinais de mudança. Considera que as decisões só produzem os efeitos pretendidos quando conseguem transmitir-se ao sistema financeiro e, posteriormente, às condições de financiamento enfrentadas pelas empresas e famílias.
“A medida parece-me positiva pela forma como procura conciliar dois objectivos. Por um lado, preserva-se a prudência na gestão da liquidez; por outro, cria-se espaço para que os recursos possam ser direccionados para actividades produtivas. Em vez de simplesmente libertar liquidez para o sistema, procura-se estabelecer uma ligação entre essa liquidez, o crédito e determinados objectivos económicos”, explicou Júlio Saramala.
Num contexto em que a disponibilidade de divisas continua a ser um dos principais desafios da economia, Saramala entende que estimular a produção para substituir determinadas importações e apoiar empresas com capacidade exportadora pode contribuir tanto para o fortalecimento da produção nacional como para o sector externo.
O economista entende que será importante garantir critérios claros, acompanhar a adesão dos bancos e, sobretudo, avaliar se o mecanismo produz efectivamente crédito adicional. “Mais do que medir quanto foi deduzido das reservas obrigatórias, será importante perceber quanto chegou às empresas e qual o impacto no investimento, na produção e nas exportações”, alerta Saramala.
Para Saramala, o Comité de Política Monetária deixou uma impressão positiva, não por representar uma ruptura total com o passado, mas por ter mostrado que é possível preservar os pilares do banco central introduzindo, simultaneamente, mudanças na abordagem e na utilização dos seus instrumentos.
Por fim, o economista Alfredo Mondlane felicita Navalha pelo início do seu mandato com a introdução desta inovação. “Foi um sinal claro e muito inteligente de que o Banco de Moçambique passa, de forma implícita, a prosseguir um dual mandate — sem criar choques nos ganhos macroeconómicos já alcançados”, avançou.
Porém, chama a atenção para o facto de que, a curto prazo, o impacto poderá ser limitado, pois as empresas com potencial para beneficiar deste regime apresentam balanços fragilizados e muitas não são, de momento, bancáveis.
“Seria importante que o aviso que vai regulamentar este novo regime previsse mecanismos de consolidação e saneamento dos balanços destas empresas, com vista a garantir a estabilidade financeira a médio e longo prazo. Este método provou ser um sucesso na China, tendo sido replicado a determinado momento pelo Banco Central Europeu, no Peru, entre outros”, sugeriu.
O Presidente da República, Daniel Chapo, entregou, esta sexta-feira, o sistema de abastecimento de água da Macia, no distrito de Bilene, província de Gaza. Avaliado em 262 milhões de meticais, o empreendimento tem capacidade para abastecer mais de 55 mil pessoas.
O Presidente da República, Daniel Chapo, colocou em funcionamento, está sexta-feira o sistema de abastecimento de água da Macia, uma infra-estrutura concebida para responder às necessidades de mais de 55 mil pessoas no município de Bilene.
A entrega ocorre num município onde o acesso à água constitui, há mais de uma década, uma das principais dificuldades das comunidades. Mais de 45 mil pessoas, residentes em seis bairros da vila da Macia, têm enfrentado limitações no acesso ao recurso, situação que se agravou a partir de 2019.
A escassez obrigou famílias a percorrer distâncias médias entre 4 a 5 quilómetros em busca de água, transformando uma necessidade básica numa dificuldade diária para milhares de residentes.
É neste contexto que entra em funcionamento o novo sistema, num investimento público de 262 milhões de meticais, destinado a ampliar a capacidade de abastecimento e aproximar a água potável das comunidades.
A concretização do projecto acontece depois de um período marcado pela interrupção das obras, circunstância que prolongou a espera da população e adiou a resposta a uma necessidade que se foi agravando com o tempo.
Mais do que a entrega de uma infra-estrutura, os munícipes destacam que a. entrada em funcionamento do sistema coloca a Macia perante uma nova etapa no abastecimento de água. A sua capacidade projectada deverá permitir responder às necessidades de uma população superior àquela que actualmente enfrenta as maiores limitações de acesso.
Mas, depois da inauguração, permanece o desafio de assegurar a operacionalidade do sistema, a continuidade do fornecimento e a sustentabilidade do investimento, para que a capacidade instalada se traduza em água disponível de forma regular para as comunidades.
Para milhares de famílias da Macia, a expectativa é que a nova infra-estrutura reduza as distâncias percorridas diariamente em busca de água e diminua a vulnerabilidade provocada pelos períodos de escassez.
No distrito de Bilene, o investimento de 262 milhões de meticais passa, assim, a representar uma nova capacidade de resposta a uma crise de abastecimento que há anos condiciona a vida das comunidades da Macia.
A Etiópia e a Eritreia romperam relações diplomáticas, na sequência do agravamento dos combates na região de Tigray, no norte da Etiópia, aumentando os receios de um novo conflito de grandes proporções naquela região.
O Governo etíope acusou a Eritreia de apoiar a Frente de Libertação do Povo Tigray (FLPT), que terá lançado ataques contra as regiões vizinhas de Afar e Amhara. Em resposta, Adis Abeba anunciou a expulsão de dez diplomatas eritreus e o encerramento da sua embaixada em Asmara.
A Eritreia, por sua vez, afirmou não ter tido “outra opção” senão adoptar medidas semelhantes e romper as relações diplomáticas com a Etiópia.
Os novos confrontos, retomados na semana passada, já terão provocado centenas de mortos e feridos, enquanto milhares de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas zonas de residência. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) informou ter tratado mais de 700 pessoas feridas em hospitais de diferentes pontos de Tigray.
A escalada militar está também a aumentar as tensões em toda a região. Etiópia e Eritreia travaram uma guerra fronteiriça entre 1998 e 2000, num conflito que provocou milhares de mortos. As relações entre os dois países começaram a melhorar em 2018, após a chegada de Abiy Ahmed ao cargo de primeiro-ministro da Etiópia.
Entretanto, uma explosão registada no quartel-general militar etíope, em Adis Abeba, aumentou os receios de que a violência possa alastrar para outras zonas do país, incluindo a capital. Até ao momento, não foram esclarecidas as causas da explosão nem o número de eventuais vítimas.
Na frente de combate, forças alinhadas com o Governo etíope afirmam ter retomado o controlo de várias cidades anteriormente ocupadas por combatentes tigrínios. Contudo, a confirmação independente das informações permanece difícil, devido às restrições de acesso à região e às interrupções nas comunicações.
Moçambique deve adoptar um mecanismo de prevenção mais forte a choques climáticos e deixar de responder depois das emergências. O desafio foi lançado esta quinta-feira, em Sofala, pela ministra das Finanças, Carla Louveira, durante a abertura do segundo Conselho Coordenador do sector que lidera.
Num discurso que serviu, igualmente, para fazer o balanço da última época chuvosa e ciclónica, a ministra das Finanças foi categórica ao afirmar que o país precisa de mudar a forma como tem feito a gestão dos eventos climáticos extremos, marcados muitas vezes por destruições com custos avultados.
Carla Louveira apresentou dados que revelam a dimensão do desafio que o país enfrenta face aos eventos climáticos.
Entre Dezembro de 2025 e Janeiro de 2026, Moçambique registou as inundações mais severas da última década, com mais de 100 mortos e cerca de 724 mil pessoas afectadas, das quais 691 mil de forma directa. Mais de 30 mil habitações foram destruídas e milhares de famílias ficaram desalojadas.
No total da época chuvosa 2025-2026, mais de 1 milhão de pessoas foram afectadas, com um impacto estimado em cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Para Carla Louveira, estes números provam que o fenómeno climático deixou de ser uma emergência humanitária pontual para se tornar um choque fiscal estrutural.
“Esta realidade obriga-nos a abandonar a lógica de reagir depois da emergência e adoptar uma cultura de prevenção antecipada”, afirmou a governante, apontando que é preciso apostar em reconstruções mais resilientes para evitar aplicar fundos constantemente nas mesmas áreas, sem efectivamente melhorar a vida da população.
“Reconstruir melhor não pode ser apenas uma expressão, deve traduzir-se em escolas mais seguras, estradas mais resilientes e comunidades melhor preparadas”, disse Carla Louveira.
No plano externo, a ministra alertou para o recrudescimento do conflito no Médio Oriente, com impacto directo nas cadeias globais de abastecimento de energia.
Segundo a governante, para um país ainda dependente da importação de combustíveis líquidos, como Moçambique, o risco é maior dada “à pressão sobre os preços internos, maior volatilidade na disponibilidade de divisas e incerteza na programação orçamental”.
Assim, a Ministra entende que a “resposta do Governo não pode ser apenas controlar o preço do barril, mas garantir uma gestão de tesouraria eficiente que proteja as famílias e as empresas”.
O segundo Conselho Coordenador do Ministério das Finanças termina esta sexta-feira, sob o lema “Finanças Públicas Sustentáveis e Digitais em prol da Transformação Estrutural da Economia”.
Carla Louveira definiu o lema como um compromisso de gestão: “Arrecadar com justiça, gastar com critério e investir com visão de longo prazo, usando o digital para aproximar o cidadão do Estado”.
A Comissão Permanente da Assembleia da República (CPAR) convocou a II Sessão Extraordinária do Parlamento, na sua X Legislatura, para o dia 24 de Outubro. A sessão será dedicada à apreciação, na Generalidade e na Especialidade, da Proposta de Lei que altera os artigos 2 e 4 da Lei n.º 12/2025, de 29 de Dezembro, que aprova o Plano Económico e Social e Orçamento do Estado para 2026 (PESOE-2026).
A decisão foi tomada esta quinta-feira, dia 1, durante a XV Sessão Ordinária da CPAR, que deliberou igualmente convocar a IV Sessão Ordinária da Assembleia da República, com início marcado para 28 de Outubro, às 9h00.
A sessão ordinária terá, inicialmente, 35 matérias na agenda, com destaque para a Informação Anual do Chefe de Estado à Nação, a Informação Anual do Provedor de Justiça, a Proposta de Lei do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado para 2027 e a Conta Geral do Estado referente ao exercício económico de 2025.
A agenda inclui ainda as Perguntas ao Governo, a Proposta de Programa de Actividades da Assembleia da República para 2027, o Programa de Actividades e a Proposta de Orçamento da Assembleia da República, bem como a Proposta de Revisão da Lei de Terras.
Entre as restantes matérias constam as propostas de lei que estabelecem o Quadro Legal para o Controlo do Tabaco e seus Derivados, a Protecção de Dados Pessoais e o Quadro Geral da Organização e Funcionamento da Administração Pública.
A agenda contempla igualmente a proposta de lei que autoriza o Governo a rever o Código da Estrada, a proposta de resolução sobre o Relatório Anual das Receitas Provenientes da Exploração do Gás Natural Liquefeito, referente a 2025, e as propostas de lei que revêem o Código de Processo Aduaneiro e o Código do Processo Fiscal, além da Proposta de Lei da Marinha Mercante.
Peixes foram encontrados mortos nas águas e margens do Rio Loreco, nas proximidades de Marrangira, no distrito de Marrupa, província do Niassa. A ocorrência levanta preocupação sobre a qualidade da água, numa região onde também existe actividade de mineração artesanal. A causa da morte dos peixes ainda não foi determinada. Uma quantidade significativa de peixes foi encontrada morta nas águas e margens do Rio Loreco, nas proximidades de Marrangira, no distrito de Marrupa, em Niassa.
Imagens divulgadas pela Moçambique Bio mostram peixes mortos concentrados junto às águas e margens do curso de água. A ocorrência levanta preocupação sobre uma eventual alteração da qualidade da água, mas ainda não existem análises que permitam determinar a causa da morte dos animais. O Rio Lureco é identificado em documentos sobre o distrito de Marrupa como afluente do Rio Lugenda, que integra a rede hidrográfica da região.
A área de Lureco é também conhecida pela actividade mineira. Dados oficiais de produção de 2022 registam, por exemplo, produção de ouro no Acampamento de Lureco, em Marrupa. A existência de actividade mineira, entretanto, não permite estabelecer uma relação directa com a mortandade dos peixes agora observada. Para determinar a origem do fenómeno será necessária a intervenção das autoridades competentes, com recolha e análise de amostras de água, sedimentos e dos próprios peixes.
A investigação deverá igualmente esclarecer se existe alguma substância contaminante na água e se esta representa riscos para as comunidades e para os animais que dependem daquele recurso. A preocupação ambiental é relevante numa região onde os recursos hídricos têm importância para as comunidades locais e onde a pesca integra as actividades e meios de subsistência da população. Até que sejam conhecidos os resultados das análises, qualquer ligação entre a actividade mineira e a morte dos peixes continua por apurar.
A Ministra das Finanças, Carla Louveira, afirmou nesta quinta-feira, 01.10.26, na abertura do II Conselho Coordenador do seu sector, que Moçambique enfrenta em simultâneo três transições – climática, geopolítica e tecnológica – que se cruzam e exigem uma mudança profunda na forma como o Estado gere o Orçamento. Num discurso marcado pelo balanço da última época chuvosa, a governante foi directa: o país precisa de abandonar a lógica de reagir depois da emergência.
“Enfrentamos em simultâneo três transições, uma transição climática que nos testa, uma transição geopolítica que nos pressiona e uma transição tecnológica que nos convoca. Essas transições não actuam de forma isolada, elas cruzam-se e amplificam-se”, disse Louveira perante quadros superiores do Ministério, na abertura do II Conselho Coordenador.
Os dados apresentados pela Ministra mostram a dimensão do desafio. Entre Dezembro de 2025 e Janeiro de 2026, Moçambique registou as inundações mais severas da última década, com mais de 100 mortos e cerca de 724 mil pessoas afectadas, das quais 691 mil de forma directa. Mais de 30 mil habitações foram destruídas e milhares de famílias ficaram desalojadas.
No total da época chuvosa 2025/2026, mais de 1 milhão e 78 mil pessoas foram afectadas, com um impacto estimado em cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Para Carla Louveira, estes números provam que o fenómeno climático deixou de ser uma emergência humanitária pontual para se tornar um choque fiscal estrutural.
“Esta realidade obriga-nos a abandonar a lógica de reagir depois da emergência e adoptar uma cultura de prevenção antecipatória. Reconstruir melhor não pode ser apenas uma expressão, deve traduzir-se em escolas mais seguras, estradas mais resilientes e comunidades melhor preparadas”, defendeu.
No plano externo, a Ministra alertou para o recrudescimento do conflito no Médio Oriente, com impacto directo nas cadeias globais de abastecimento de energia. “Para um país ainda dependente da importação de combustíveis líquidos,como Moçambique, o risco é triplo: pressão sobre os preços internos, maior volatilidade na disponibilidade de divisas e incerteza na programação orçamental. A resposta do Governo não pode ser controlar o preço do barril, mas garantir uma gestão de tesouraria eficiente que proteja as famílias e as empresas. O II Conselho Coordenador do Ministério das Finanças termina esta sexta-feira, sob o lema “Finanças Públicas Sustentáveis e Digitais em prol da Transformação Estrutural da Economia”.
No encerramento da sua intervenção, a Ministra definiu o lema como um compromisso de gestão: “Arrecadar com justiça, gastar com critério e investir com visão de longo prazo, usando o digital para aproximar o cidadão do Estado”.
O Presidente da República, Daniel Chapo, apelou à sociedade moçambicana para reforçar o respeito, a protecção e os cuidados aos idosos, considerando-os uma fonte de conhecimento e pilares fundamentais das famílias. Chapo falava durante o comício que orienta no distrito de Mapai, província de Gaza, em ocasião do Dia Mundial do Idoso, assinalado esta quinta-feira.
Perante a população, o Chefe do Estado destacou o papel dos pais e avós na criação e formação das novas gerações, defendendo que filhos, filhas e netos têm a responsabilidade de cuidar dos idosos. “Os idosos são a nossa biblioteca. São a nossa fonte de conhecimento”, afirmou Daniel Chapo, apelando aos mais jovens para que valorizem e protejam os mais velhos.
O Presidente da República condenou igualmente os casos de maus-tratos contra idosos, incluindo situações em que estes são acusados de feitiçaria e vítimas de violência no seio das próprias famílias. “Há pessoas que maltratam os idosos. Às vezes até tiram a vida dos idosos, acusando-os de feitiçaria”, lamentou, defendendo que estas práticas devem terminar.
Chapo recordou os sacrifícios feitos pelos pais e avós para criar os filhos e netos, incluindo as noites perdidas para cuidar de crianças doentes, e questionou a razão de, depois de adultos, alguns filhos e netos passarem a maltratar aqueles que deles cuidaram. O Chefe do Estado alertou ainda que o comportamento dos adultos perante os seus pais e avós constitui um exemplo para as novas gerações.
Segundo Daniel Chapo, os filhos observam a forma como os pais tratam os idosos e poderão reproduzir esse comportamento quando estes atingirem a velhice. “Cada um colhe o que semeia. Não existe ninguém que semeia milho e colhe arroz”, afirmou. O Presidente apelou, particularmente aos jovens, para que assumam a responsabilidade de proteger os idosos e garantir-lhes uma vida digna. “Temos que semear o amor com os nossos pais. Temos que cuidar dos nossos pais”, reiterou.
Daniel Chapo felicitou os idosos pela passagem do seu dia e reafirmou a necessidade de reforçar os laços de solidariedade entre as diferentes gerações, como forma de garantir que os mais velhos sejam tratados com dignidade e respeito.
O novo ano lectivo 2026-2027 arrancou, na quinta-feira, no Mali, com mais de 2.400 escolas impossibilitadas de reabrir devido ao agravamento da insegurança e à presença crescente de grupos jihadistas em várias regiões do país.
O ano lectivo foi declarado pelo Presidente Assimi Goïta como o “Ano da Educação e da Cultura”, numa tentativa de colocar o sector da educação entre as prioridades nacionais. Contudo, milhares de crianças iniciam o período escolar sem acesso às salas de aula.
Dados do Ministério da Educação do Mali indicam que o número de escolas encerradas tem aumentado progressivamente nos últimos anos, à medida que a violência se alarga a diferentes zonas do território.
Os encerramentos afectam sobretudo comunidades já fragilizadas pelo conflito, pelos deslocamentos populacionais e pelas constantes perturbações provocadas pela insegurança. A situação reduz as oportunidades de milhares de crianças de prosseguirem a sua formação.
Apesar da prioridade atribuída pelo Governo à educação, a persistência da violência continua a dificultar a reabertura dos estabelecimentos de ensino nas zonas afectadas. Com o início do novo ano lectivo, o Mali enfrenta o desafio de garantir não apenas o regresso das crianças às salas de aula, mas também condições de segurança que permitam manter as escolas abertas de forma regular.
Três eurodeputados que estiveram em missão de apuramento dos factos no enclave espanhol de Ceuta, no Norte de África, consideram “grave” a situação humanitária vivida por milhares de migrantes retidos no território e alertam para a degradação das condições no local.
Dois meses depois da chegada em massa de dezenas de milhares de migrantes a Ceuta, três membros do Parlamento Europeu denunciaram, em Bruxelas, alegadas violações dos direitos humanos e defenderam uma solução para as pessoas que permanecem no território. A maioria dos cerca de 72 mil migrantes que chegaram ao enclave regressou a Marrocos poucos dias depois, mas estima-se que milhares tenham permanecido em Ceuta, incluindo menores.
Durante uma conferência de imprensa realizada após a missão de apuramento dos factos, a eurodeputada Estrella Galán, do partido A Esquerda, afirmou que Ceuta não pode transformar-se num espaço de redução de direitos nem num campo de refugiados a céu aberto. Segundo Galán, a resposta das autoridades não deve passar pela manutenção de milhares de pessoas em acampamentos de emergência improvisados. Por sua vez, o eurodeputado Jaume Asens, do Partido Verde, acusou as forças militares de alegados actos de tortura e de tratamento desumano contra migrantes. “Não são acontecimentos isolados. Existe um padrão”, afirmou Asens, acrescentando que algumas patrulhas realizariam rondas nocturnas e agrediriam migrantes.
O eurodeputado denunciou ainda alegados actos de humilhação, incluindo roubos, cortes de cabelo forçados e a obrigação de algumas pessoas se ajoelharem para beijar uma cruz cristã ou a bandeira espanhola. Asens considerou que as alegações são particularmente graves, acusando o Estado de actuar contra pessoas que deveriam estar sob sua protecção. As denúncias dos eurodeputados surgem na sequência de acusações semelhantes feitas pela Amnistia Internacional, que responsabilizou as forças de segurança espanholas por alegados actos de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes contra migrantes retidos em Ceuta.
Perante as acusações, o Governo espanhol ordenou às Forças Armadas a abertura de uma investigação interna para identificar os responsáveis por eventuais abusos. Dados do Governo central espanhol apontam para a permanência de cerca de cinco mil pessoas em Ceuta, incluindo aproximadamente 1.200 menores. As autoridades locais, contudo, apresentam estimativas superiores. A chegada repentina de migrantes provocou uma forte pressão sobre os recursos de Ceuta, cidade com cerca de 84 mil habitantes, e gerou descontentamento entre parte da população. As autoridades locais afirmam ainda que o Governo central ignorou sinais de alerta que antecederam a entrada em massa de migrantes através da fronteira com Marrocos.