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ARTIGOS DE OPINIÃO

   No meio da euforia carnavalesca perdemos a pista ao Valgi e à Eva. Que se tenham perdido no tumulto das multidões era hipótese de pouca consistência, porque desses folguedos estavam já habituados. Com os dias de tolerância de ponto concedidos pelas autoridades o mais provável era que tenham preferido o recolhimento das suas casas para as intimidades a que tinham direito.

Nesta fase da narração poder-se-ia dizer que eles formavam um casal que dava aparências de uma oficialidade às suas relações. Depois das jornadas de trabalho, e lá para o cair da noite, o Valgi era figura obrigatória em casa da Eva. Ou o inverso sucedia; a Eva pernoitava na residência dele; aí juntos confeccionavam o jantar, ela lavava alguma roupa e de madrugada era vista a varrer o quintal antes de se dirigir para o trabalho. Era, por assim dizer, a dona daquela casa, a esposa do vizinho Hussene Valgi.

As colegas dele já não duvidavam sobre a inicialmente camuflada relação entre aqueles. A certeza  sobre a mesma era uma realidade sentida e vivida todos os dias. O Valgi falava da Eva como se fosse já sua esposa, e atribuía-lhe uma profusão de adjectivos que até faziam inveja às colegas. Algumas destas encorajavam-no até a dar passos mais sérios, como tomar um compromisso oficial através do lobolo e dum pedido em casamento. A Mariazinha é que não ia nas ideias das amigas, dado que alimentava remotas esperanças de fazer dele o seu parceiro no futuro, na “vida e na morte”.

Passavam dezoito meses depois da chegada do Valgi a Lourenço Marques, naquela ocasião em veio à busca de informações sobre o paradeiro do pai. Por aqui deixou-se ficar, hipnotizado pelas luzes da cidade, cativo de paixão e embevecido pelos olhos da Eva. Uma vez e outra dirige-se aos Correios para enviar um telegrama à família em Porto Amélia. Sempre que recebe uma missiva dela, a dona Mariana lamenta o dia em que o deixou partir para a capital. Mas que outra alternativa tinha se o pai desaparecera sem dar notícias do seu estado e paradeiro. Até que chegou aquela informação sobre o seu envenenamento. Sempre que ela pergunta ao esposo “Afinal quando é que voltas para casa?”, ele redargue que “ Se eu vier embora, quem vai tomar conta da campa do papá? ”. E andavam nisto: volta, não-volto.

Algumas tias da Mariana, testadas pelas experiêncas da vida, aconselharam à sobrinha:

“ Mariana, não acreditamos que esta resistência do Hussene em regressar tenha alguma coisa a ver com a campa do pai. Anda aqui muita marosca. O melhor é tu ires lá procurá-lo e tirar a verdade do saco”.

A dona Mariana ponderou, tarefa para a qual levou o cabo de três meses antes de se decidir. E naquela manhã solarenga embarcou no costeiro “Chaimite” a caminho da cidade de Lourenço Marques.

Ela era uma passageira presente na embarcação, mas ausente nos sucessos da expedição. Não se lembra se esta foi pacífica, com as ondas a impelir o marejar vagaroso do barco, ou se alguma tempestade alvoroçou a marcha. A sua viagem era a da imaginação ao encontro do Valgi, já saudade desde o dia em que partira de Porto Amélia, sombra que depois povoou os seus sonhos, as suas insónias angustiadas e cheias de necessidades de fagos masculinos como só dele. A mãe e as tias eram umas linguarudas maldosas ao tentar impingir-lhe ideias de que “…por alguma razão ele não volta e essa pode ser uma mulher…”. Com o Valgi isso era impossível de suceder, porque não era pessoa de cometer tal baixeza. Ele que lutara por ela, enfrentara a oposição dos pais dela e dele, que não queriam aquele matrimónio por nada, naquela de que “essa família não presta” por motivos que só eles é que conheciam, antigas rivalidades que transbordaram e afectaram as relações entre os próprios filhos. Não seria ele a destruir aquela felicidade construída com sangue e lágrimas, para envolver-se com outra mulher. É claro que o Corão diz que “um homem pode ter quantas mulheres quiser, desde que as possa sustentar”. O Valgi não era desses. E isso pode jurar porque conhece-o como um poço de respeito e de virtudes, e porque a ama, e ama-a profundamente. Daria a vida para que as suspeitas das tias disso não passassem, porque se assim for, a morte iria separá-los.

Foi este o diálogo interior da Mariana com o seu companheiro, com as sombras da imaginação durante o curso da viagem que durou três dias, ao encontro com o desconhecido, até o barco atracar no cais Gorjão da cidade de Lourenço Marques.

 

in Caderno de Memórias, Volume II.

 

I

Março de 2020. É nesta altura em que entro em contacto com este livro. Para vocês é intitulado “as máscaras da verdade”. Para mim “o injusto testamento” embora não tivesse gostado deste título na altura. Agora que o autor o trocou por outro, passei a gostar dele. É verdade. Convenhamos: há daquelas coisas de que passamos a gostar pura e simplesmente porque nos parecem exclusivas. Vem daí, talvez, o encanto das mulheres pela roupa de fardo. Dizem elas: aquelas peças são fashion. Únicas. Sem versões. Nem sósias que se recusam a tirar uma foto, tal como aconteceu com o outro de quem se suspeita que nos tenha burlado.

Mesmo por causa desse afecto que tenho com o título anterior, vou, em seguida, rectificar a capa. Bem no espaço em que o designer redigiu, de forma manhosa, “as máscaras da verdade” ou “as más caras da verdade”, no meu exemplar virá “o injusto testamento”. Em seguida vou tirar uma foto e publicar nas minhas redes sociais para provar que, de facto, o livro é meu. Não estranhem: são coisas da terra! Somos mesmo assim. Até o Rick Ross já sabe. Moz anima, não é?

Já agora, é momento de cada um dar o seu título ao livro. Eu já tenho o meu. Mas voltaremos a tratar disso quando tiverem comprado o livro. Asseguro-vos. Terá sido a vossa melhor aquisição neste Outubro. Estamos em dia de paz e o preço também é pacífico.

II

Dizia, no início, que entrei em contacto com este livro em Março de 2020. Quando Almeida Cumbane sugere-me que venha fazer a apresentação do mesmo no dia em que se celebra a assinatura do acordo geral de paz, vi nisso uma oportunidade para, também, sugerir um acordo de paz entre duas figuras importantes no meio literário: o escritor e o crítico literário.

Vem esta ideia a propósito de uma falsa percepção de estas serem figuras que devam, necessariamente, estar em conflito. Não é verdade. Do mesmo modo que a nossa paz surge e vai se construindo num processo negocial, a geração de harmonia entre estas duas figuras não tem como existir sem que haja uma negociação de crenças, perspectivas ou horizontes.

Digo isto por uma razão muito simples: quando recebi o manuscrito pelo e-mail, li-o com toda calma necessária e fiz um comentário que continha alguns pontos dos quais, para esta conversa, convém trazer dois. O resto são coisas de bros! A malta resolveu nuns papos por aí.

Primeira nota:

O enredo é bastante rico, parabéns! Remeteu-me aos clássicos do policial. O biográfico, o love story, o filosófico e o policial fizeram uma boa mescla. Ainda sobre esta mescla a que me referi no ponto anterior, creio que o título dado à obra não chegue a fazer o real jus ao que se vive na obra no seu todo. Enfim, essa é uma opção estilística e pessoal sobre a qual apenas posso expressar a minha opinião sem perspetivar anuência nem concordância da sua parte. Mas, querendo, é uma reflexão que sugiro que faça.

 

Segunda nota:

Comentei acima sobre a caracterização temporal em dois momentos, no sentido de alertá-lo relativamente às práticas sociais e os objectos que menciona mas tal reflexão só tem razão de ser porque há práticas mencionadas no texto que parecem bastante antigas e que não parece que seja verosímil que as mesmas ocorram nos últimos tempos que, pelo que me parece estamos na aura dos anos 2000 (conclusão feita pela menção da ponte sobre o rio Limpopo que une os distritos de Guijá e Chokwè, pela alusão do Toyota Allion, enfim essas peculiaridades). Em todo caso, é um “papo” que ainda podemos ter.

 

 

Realmente (e na altura) chegamos a ter este papo que durou quase uma hora e houve um acordo de paz. Embora hoje tenha dito que gostava do título anterior por outras razões alheias ao livro, reitero que o mesmo andava (e ainda andaria) à margem do enredo. Até aí, tudo bem. Contudo, quanto à segunda nota, a prática referida no texto é o nkelekele que, segundo o autor, é uma cerimónia tradicional para combater pragas. A mesma é feita por mulheres anciãs da povoação que recolhem amostras da praga e caminham despidas em direcção ao rio para que as águas levem as pragas a outras aldeias. Ocorre, todavia, que o crítico julgou que esta prática fosse antiga e, em algum momento, entrava em choque com alguns aspectos mencionados no texto, o que transtornava a caracterização temporal. Coube ao escritor esclarecer que tal prática ainda predomina em algumas regiões do distrito de Guijá, e assim foi dissipada a nuvem que colocava em cheque uma das categorias da narrativa.

Portanto, como podemos entender, este cenário que trago vem demonstrar que o exercício da escrita passa por este processo de negociação de paz entre quem imagina e escreve e quem estuda o objecto da imaginação do outro. Há, para este efeito, uma necessidade de haver muita humildade em aceitar as sugestões do outro e, obviamente, alguma verticalidade para esclarecer possíveis equívocos da outra parte.

III

A leitura que hoje faço deste “as máscaras da verdade” é tão simples quanto esta: é um romance bom e envolvente. Um page-turner, de facto! É quase inevitável ler as acções de Lucas (personagem do romance) sem pensar na emblemática personagem de vários romances de Dan Brown: o Professor Robert Langdon. Tem cada um o seu perfil mas a inteligência é o que os assemelha.

Num tecido em que transcorrem várias histórias, “as máscaras da verdade” modaliza a vida Lucas. Um jovem muito inteligente nascido em Jana, uma localidade da Província de Inhambane. Conclui os estudos mas a sua condição financeira não permite que siga para a universidade. Inscreve-se no curso de formação de polícias em Matalane. É afecto no Comando Distrital de Homoíne, em Inhambane. Lá inicia a sua vida laboral e se prepara para ter uma vida a dois com a Rosa, sua namorada desde a infância. Um amor puro e provinciano. Tempos depois recebe uma bolsa para estudar ciências policiais em Pyongyang, na Correia do Norte. Lá se forma com distinção. E, pela natureza do trabalho que devia passar a realizar em Moçambique, é orquestrado um falso acidente no qual se alega que se tornara cego. Esta é a versão que prevalece para a sociedade, seus familiares, sua esposa, menos para os seus dois superiores hierárquicos no SISE, instituição para a qual passa a colaborar em sigilo. Em virtude desta condição (a de cegueira) aprende a ler e a escrever em braile. Tudo é orquestrado de tal maneira que ele passa a trabalhar infiltrado no Project Lab, uma empresa sob investigação pelo SISE devido às suas práticas bastante sigilosas que, na opinião dos peritos do SISE, perigava o estado. Para permitir que trabalhe a tempo inteiro nessa missão, é obrigado a se divorciar da então esposa, Rosa (com quem já tinha uma filha), e se juntar a Chudy, filha do proprietário do Project Lab. Para proteger os seus interesses conjugais e laborais, orquestra também uma morte para a sua esposa e filha através de um acidente de viação que fora maquinado de tal forma que nem os peritos contratados pelo Project Lab conseguem detectar a farsa.

Para saber como é que a história termina, só adquirindo o livro. Em todo caso, o que cabe referir neste momento é que toda trama do romance gira em torno desta empresa cujo proprietário (Moreira/o Projectista) é admirador de John Rawls e de vários teóricos da Justiça Social. Moreira acredita que nesta teoria esteja a chave para a redução de assimetrias entre ricos e pobres, daí a sua preferência em contratar, para a sua empresa, ex-presidiários que, até certo ponto, tenham sido vítimas do sistema vigente na sociedade ou indivíduos com uma história de vida que revela que poderiam ter tido sorte melhor se na sociedade houvesse algum senso de solidariedade.

Ora, “qual amador que se torna na coisa amada”, para usar as palavras de Camões, “as máscaras da verdade” de Almeida Cumbane ensaiam, em forma de romance, esta ideia de John Rawls não em forma de teorização como bem o fazem os ensaios académicos. Há, sim, uma rebusca desta teoria de Rowls na própria função das personagens deste romance, se quisermos usar a terminologia de Vladimir Propp no seu “Morfologia do Conto Maravilhoso”, com o cuidado de não se fixar apenas em Lucas que, nesta forma de ler a narrativa, seria o herói e, como tal, única base de análise. Quase todas as personagens do livro, desde o pai da Rosa em Jana, que rejeitara o Lucas como genro por se ter tornado cego; o Cadinho que se tornara criminoso por mero acidente em defesa da mãe ante a violência do pai; a mãe de Cadinho que fora dada por louca por não ter suportado as consequências da injustiça que minam o sistema judiciário e a sociedade como um todo; o Malache, um polícia de trânsito que fora encarcerado pelo mesmo sistema que o formou como corrupto acérrimo; a Chudy que fora vítima da personalidade materialista da mãe até ao Moreira, um senhor visionário que almeja reeducar os seus filhos através da simulação de raptos e construir uma sociedade melhor.

Portanto, reiteramos esta ideia de “as máscaras da verdade” ser uma obra que no universo ficcional materializa a justiça social de Rowls tal como nos evidencia o epílogo,

Anos depois, Moreira vence o trauma e namora a dona Tina. Este namoro de idosos é adoçado por uma ocasião especial. Sentado no banco da frente, o par de namorados assiste efusivamente ao casamento de Chudy. Ela falhou o Lucas, mas finalmente consegue fechar o lugar de Gerito por um homem determinado a amá-la. É também uma grande festa para o Project Lab, porque o noivo é Cadinho, e para padrinho escolheram a família Malache. Do último banco, ligeiramente atrasados, Lucas e Rosa assistem à cerimónia emocionados por ver Chudy nesta página da sua vida.

Em linhas gerais, este jeito de construir a narrativa em que as personagens experimentam alguma redenção independentemente das suas acções no universo diegético vem reiterar o que dissemos na leitura que fizemos do romance “Ilusão à primeira vista” cujo texto fora publicado no jornal O País e no blog RectasLetras, em 2020, em que referíamos que a regeneração de André (personagem daquele romance) do ponto de vista social revela-nos uma ruptura com uma dimensão escatológica da ficção moçambicana, devidamente analisada pelo Professor Francisco Noa no seu “A Escrita Infinita”, abrindo-se assim um espaço para um quê de herança dos contos de fada em que os enredos, na sua maioria, se encerram com o famoso “…e todos foram felizes para sempre”. O que de uma forma ou de outra, revela que o narrador aplica o princípio de justiça social de Rowls no universo diegético através da redenção das personagens, independentemente das acções que tiverem tido ao longo da narrativa.

Dito isto, cabe-me apenas dizer que se o livro não fosse a materialização da liberdade no seu grau mais elevado, eu diria que “as máscaras da verdade” é de leitura obrigatória. É obra!

[1] Texto de apresentação do livro as máscaras da verdade da autoria de Almeida Cumbane, chancela pela editora Fundza, no dia 04 de Outubro na Casa Distrital de Cultura de Guijá.

“Antes de abolir-se a pena de morte,

que se bana o homicídio” Arthur Schopenhauer

 

Se o terrorismo nos assusta a todos, a lei penal contra os praticantes deveria amedrontar-nos ainda mais.

Enquanto o maior castigo legal para os terroristas for a pena máxima de 30 anos, ainda poderemos contar com mais jovens nas fileiras de terrorismo. Os sistemas carcerário e penitenciário do nosso país mostram-se inadequados para lidar com esse tipo de fenómeno criminal, pelas seguintes razões:

  1. A sobrelotação das cadeias que continuamente forçam o governo a conceder amnistias e liberdade condicional a milhares de prisioneiros, anualmente.
  2. A reincidência de comportamentos delinquentes dos ex-condenados;
  3. A falta de programas biopsicossociais sérios para reabilitação dos delinquentes;
  4. A precária segurança das instituições carcerárias.

Perante estas debilidades notórias do nosso sistema penal, torna-se óbvio que se há um aspecto capaz de intimidar ou desencorajar mais jovens a aderir a missões terroristas, tal aspecto não é a lei e o castigo praticados no nosso país. O que são 30 anos de prisão para um jovem recrutado pelo terrorismo, sem emprego, na extrema pobreza e sem esperança dum futuro melhor?

De alguma forma, o encarceramento como maior punição para quem tenha sido condenado por práticas de terrorismo não é mais que um período de reclusão em que vê uma oportunidade de descansar da luta diária pelo pão, poder fazer amigos e conter a sua selvajaria com objectivo de reduzir a sua pena sob o critério de bom comportamento. Existirão raras excepções, mas, em caso geral, as experiências penitenciárias se nos têm mostrado negativas a respeito da reabilitação dos ex-condenados por crimes hediondos.

A reincidência criminal dos ex-condenados não deveria ser olhado de leve ânimo como um fenómeno ordinário, pois é um aspecto que, quando recorrente, gera um profundo descrédito sobre o sistema penal dum Estado por parte da população. E, quando é a própria população que deixa de acreditar nos mecanismos de correcção e reabilitação dos prisioneiros, as consequências são previsíveis: as massas passam a fazer a justiça pelas “próprias mãos”, um fenómeno macabro que agrava a situação dos direitos humanos, pois o julgamento popular tem esta mania de devorar suspeitos, culpados e inocentes, sem descriminação alguma.

Assim sendo, a reincidência de comportamento criminal deve ser interpretada como o fracasso dos mecanismos legais de correcção, reabilitação e inclusão dos delinquentes que foram instituídos pelo Estado. E um desses mecanismos que vislumbra fracasso é o nosso código penal que se me afigura demasiado brando para os graves crimes que se propõe a corrigir. Talvez valha reiterar: o encarceramento por até 30 anos como pena máxima para quem pratica crimes hediondos tem fraca capacidade de dissuadir ou impedir que crimes de género voltem a ser cometidos tanto por ex-condenados como por indivíduos inseridos nas comunidades. E se o código penal praticado mostra-se ineficaz para dissuadir comportamentos delinquentes na sociedade, então, que ele seja tirado ao lixo, pois não serve como mecanismo de punição e reabilitação. É suposto que as pessoas temam ir à cadeia e, consequentemente, se afastem de todas as práticas ilegais capazes de os conduzir até lá.

Quando esses mecanismos de punição e reabilitação não existem, nem a consciência, nem Deus são capazes de impedir uma alma má de cometer o crime. Dizia Aristóteles que toda a pena deve ser um pouco mais pesada que o crime cometido. O outro filósofo, Arthur Schopenhauer, observou o comportamento dos indivíduos prestes a cometer um crime. Ele notou que a primeira coisa que os indivíduos ponderam antes de praticar um dado crime é se vão ser apanhados ou não, e se forem, o que lhes aguarda como pena é mais grave do que o lucro obtido do crime cometido? Só depois destas avaliações é que o indivíduo passa para considerações morais do tipo este crime não me criará peso de consciência, será que Deus me vai perdoar.

Para os terroristas no norte do país que nos têm habituado a cenas macabras e sádicas em que, com certo prazer, torturam, violam e decapitam mulheres, crianças e homens inocentes, o que significa 30 anos como pena máxima? É uma pena oca que nem intimida nem reabilita. E ainda que tivesse o poder de reabilitar a mente do terrorista, que espécie de paz a sua presença traria ao coração das vítimas e da comunidade que ele voluntariamente massacrou? Quem dessa comunidade vítima sentiria a falta da sua existência, ao ponto de desejar a sua reintegração social, depois do horror perpetrado por ele.

Sentimentalismo à parte, há certos crimes que, uma vez, cometidos já não permitem ao criminoso uma vida social normal. E quanto mais ele estende a sua existência, mais dor e ódio gera no coração das vítimas. O terrorismo é um desses crimes que se configuram imperdoáveis, ainda que o terrorista tenha sido coagido a praticar o tal terror. Daí que a morte, como pena capital, é a apologia que levanto contra todos os terroristas, incluindo os recém-recrutados e os seus financiadores. E, para que seja uma pena que sirva de mecanismo de dissuasão contra práticas terroristas, a reintrodução da tortura física antes da morte com direito à presença pública mostra-se conveniente. Outrora, esse tipo de pena já foi implementado em Estados onde se privilegiavam bons costumes, a moral e a justiça. Mesmo a Bíblia, que se autointitula uma escrita sagrada, apregoava castigos físicos na praça pública como forma de repreender comportamentos abomináveis e mostrar à população o que lhe aguarda se ela seguir pelo mesmo caminho.

O desafio na implementação desse tipo de pena prende-se na criação de melhores condições para que os julgamentos contra indiciados de terrorismos sejam transparentes e justos, 100% baseados em factos. Todavia, não afasto essa possibilidade de o próprio governo instrumentalizar a lei penal e os órgãos da justiça para perseguir os seus oponentes políticos levando-os à pena de morte. Esse risco existe, mas ele não anula a provável eficácia da implementação da pena de morte como mecanismo de combate e dissuasão ao terrorismo.

Sem julgamento justo, a pena de morte é outro mal tão grave quanto terrorismo, mas quando há julgamento baseado em evidências que se demonstram irrefutáveis, a pena de morte por métodos dolorosos pode ser o mais amargo e apropriado remédio para o mal que assola o país.

 

tsembah@gmail.com

Um centenário parece uma eternidade que esta imerecida lógica da vida impõe sobre a humanidade e nos condicionou às ausências infinitas. A mão invisível persuade-nos a abdicar da presença dos líderes que pavimentaram os caminhos de verde para deixar passar a liberdade e o futuro. De forma prematura, teríamos adorado seguir a revolução, ainda devotados pelas memórias e serenidade poética de Agostinho Neto. Foi como se uma estrela se tivesse escurecido no espaço celestial.

Fiz parte do grupo que saiu para as ruas para receber o Presidente Agostinho Neto, na sua última visita a capital moçambicana. Ele era discreto e exagerado nas suas aclamarias. O oposto de um Samora vibrante e extrovertido. Vimo-los abraçados e em franca cavaqueira. Algumas vezes, mais comprometidos e serenos. Uma cumplicidade que escondia uma amizade que se reconfigurava em irmandade.  Meses depois, a força desse inapelável destino roubou, de todos nós, esse lutador intransigente, com visão profética e mobilizadora. O líder que frequentou mais cadeias e celas políticas, que qualquer outro da sua época. Como prisioneiro político, deambulou por Luanda, Lisboa, Cabo Verde, entre Santo Antão e Santiago e, novamente, Lisboa.  Mas não era a ele que se prendia, mas sim aos seus poemas. Como se pudessem colocar algemas nas suas palavras.

Nenhuma masmorra, ainda assim, o privara de escrever esses proféticos poemas que denunciam as amarras e amarguras de um povo que vivia subjugado e oprimido. As prisões de Agostinho Neto desencadearam uma incontestável onda de protestos e de petições, de inúmeros intelectuais, de entre os quais o célebre filósofo francês Jean Paul Sartre; quem diria. Outros celebres intelectuais e artistas, apelaram, igualmente, a sua libertação, como se uma onda de grandes proporções e comoções tivesse invadido os corações de André Mauriac, Aragon e Simone de Beauvoir e, ainda, do prestigiado Nicolás Guillén, poeta cubano. A indignação não deixou de fora o pintor mexicano Diogo Rivera. Tamanho reconhecimento ditou que António Agostinho Neto fosse eleito o prisioneiro político do ano pela Amnistia internacional.

Já nos trajes de Presidente da República de Angola, Neto Kilamba, pseudónimo que o consagrou esse médico de profissão, poeta por vocação e iconoclasta líder revolucionário por missão, colocou Moçambique no topo das suas prioridades. Com Machel, sofreram juntos as agressões belicistas da África do Sul racista e da Rodésia de Smith.

As visitas de Estado entre Angola e Moçambique se regavam sob o manto da fraternidade. Por isso, Agostinho Neto tem o seu nome associado a toponímia nacional moçambicana, numa auspiciosa avenida no coração da cidade de Maputo. Igualmente, centenas de aldeias mais recônditas ostentam seu nome. Pelo menos, 36 escolas primárias e secundárias de Moçambique tem Agostinho Neto como seu patrono. A empatia e simpatia que granjeou no seio dos moçambicanos alimentaram esse caudal, tão devoto, de memórias que continuaram sendo invocadas entre distinções e designações. Agostinho Neto vive e se imortaliza como líder estrangeiro, patrono do maior número de escolas em Moçambique. Não deve ser obra do acaso.

O poeta e presidente que trouxe a independência à Angola foi dos mais proeminentes e carismáticos líderes africanos. Ombreia nesse estatuto com tantos outros intelectuais e líderes como Eduardo Mondlane, Samora Machel, Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos ou, ainda, com Léopold Senghor, Patrice Lumumba e Kwame Nkrumah. Também eles, rendidos e impregnados de veia e pensamentos utópicos, com uma dose de pragmatismo e humanismo. Agostinho Neto, sonhou Angola e todas as antigas colónias portuguesas como territórios e espaços livres e independentes, como Estados de justiça social, nações prósperas e unidas pela irmandade e solidariedade, educadas e, sobretudo, democráticas.

A meio da azáfama das eleições no seu próprio país, das cerimónias fúnebres de seu sucessor José Eduardo dos Santos, da fatídica guerra da Ucrânia e de outras intermináveis reuniões partidárias, ficamos, todos, devendo uma homenagem ao saudoso António Agostinho Neto, no seu centenário. Uma espécie de missa reconciliatória e purificadora. Um reencontro com os fundamentos dos nossos Estados e com os sonhos que seguiram outros rumos e horizontes. Ele próprio escreveu, em tantos poemas, que nunca se está só e nem se deve ignorar a presença do outro; todavia, parece abandonado e sem convicções, no mausoléu que o alberga para que jamais desapareça do nosso imaginário.

Parece, pois, imperdoável que esta amnésia colectiva e ausência de pronunciamentos públicos e de outra índole, não sejam, por conseguinte, merecedores da indignação. Como nos alheamos a esse espírito revolucionário que serviu de menu para a nossa caminhada inicial? Não creio que seja, simplesmente, pela cultura de esquecimento que esta celebração ficou invisível, pois, não pode existir tanto descaso, sem razão, que omita a celebração deste centenário. Fomos presunçosos e, marcadamente desatentos, por quaisquer que sejam as razões.

Mesmo que não queiramos fazer-lhe aqui a biografia, seria incontornável reviver seu percurso, desde esse longínquo 17 de Setembro de 1922. Foi no Município do Icolo, Bengo, arredores de Luanda que tudo começou. Ali foi enterrado o cordão umbilical e o jovem António viu a luz do sol pela primeira vez. Oriundo de uma família já assimilada e com créditos evidentemente reconhecidos, seu pai, Agostinho Neto, era pastor metodista e catequista da mesma missão metodista americana, em Luanda. Sua mãe, Maria da Silva Neto, por outro lado, era professora primária. Se aglutinavam os condimentos para que o jovem António enveredasse e revelasse sua apetência pela literatura e rigor escolar.

Ele foi educado para saber usar o verbo na sua plenitude.  Esse mesmo poder da palavra o transformou e marcou profundamente a sua personalidade e irreverência. Do poema à utopia revolucionária foi um passo subtil e mágico. Essa utopia o personificou e fez dele jovem inconformado, atento às dinâmicas do seu povo, alguém que não se evadia da realidade e do sofrimento, e que referenciava, nas suas quadras e estrofes, a realidade que o circundava. Emancipou-se e jurou usar essa mesma palavra para combater, sem tréguas, a descriminação e o colonialismo. A deambulação de seus escritos e a tonalidade de suas palavras, converteram-lhe naquele sujeito poético que a humanidade testemunhou e que lutou contra a ordem existente até a independência de Angola.

Amadurecido pelas circunstâncias e com o apoio da igreja metodista, foi uma lança que desferiu golpes contra o regime colonial português. Importante salientar a igreja Metodista como a mesma igreja que ajudou tantos outros nacionalistas a prosseguirem seus estudos para melhor combaterem a presença colonial em seus países. Nem mesmo a Congregação dos Padres Burgos ou mesmo Jesuítas teve tanto impacto na preparação e financiamento de estudantes nacionalistas. Eduardo Mondlane teve e recebeu o mesmo apoio.  Não se pode, portanto, dissociar o papel e a responsabilidade da igreja metodista no apoio aos processos revolucionários nas ex-colónias portuguesas.

Neto Concluiu o Liceu “Salvador Correia”, em Luanda, onde terminou o 7º ano em 1944, e partiu para Coimbra, Portugal, onde frequentou a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e depois Lisboa. A capital portuguesa fervilhava e transbordava a lava de vulcão da revolução. As dinâmicas propiciaram o momentum e os espaços para que a militância política ganhasse suas letras de ouro e glória. Por ironia do destino, o controlo da polícia política portuguesa fraquejou e permitiu que Lisboa se convertesse na sede embrionária da subsequente revolta anticolonial.

Em 1947, António Agostinho Neto integrou o movimento dos jovens intelectuais de Angola, cujo lema era vamos descobrir Angola. Associou-se aos não menos carismáticos Lúcio Lara e Orlando Albuquerque, publicando seus textos iniciais nas revistas Momento e Mensagem, que pertenciam aos órgãos da associação dos naturais de Angola. Casou-se, mais tarde, com Maria Eugenia Neto, seu maior amor e mulher, com quem partilhou todas as cumplicidades que, igualmente, visitou Moçambique, passeando todo o ar da sua descrição, generosidade e sabedoria. Eles tiveram três filhos, sendo Mário Jorge Neto, o primogénito, depois, Irene Alexandra Neto e, finalmente, a Leda Neto.

Os seus exímios poemas e a colectânea de textos publicados, insuflaram as mentes e o sentimento libertador. Pelos seus dedos e caneta, transfigurava a vontade de libertação. Neto foi esse esclarecido homem de cultura para quem as manifestações culturais tinham de ser, antes de mais, a expressão viva das aspirações dos oprimidos e a arma para a denuncia da injustiça e crueldade colonial. Um exemplo a seguir pelo simbolismo que representa e pela multiplicidade de acções que desenvolveu.

Em 1956, fundaram-se, nos arredores de Luanda, em Angola, vários movimentos patrióticos para formar o MPLA. A 4 de Fevereiro de 1961, as prisões de Luanda foram assaltadas por homens munidos de catanas e armas de fogo. Algumas das quais capturadas em acções anteriores. Mesmo sem lograrem os intentos, estava lançada a primeira salva da luta armada que se alastraria pelo solo angolano. A resposta dos portugueses foi cruel. Bombardearam aldeias e milhares irmãos angolanos sucumbiram aos métodos mais horrendos do colonialismo.

Em 1962, sai, de forma clandestina, de Portugal e se estabelece em Léopoldville, Kinshasa, onde o MPLA tinha já a sua sede. O primeiro congresso do MPLA elegeu Ilídio Tomé Alves Machado como seu primeiro presidente, permanecendo em funções até ser preso, em 1959. Foi substituído pelo secretário-geral, Mário Pinto de Andrade, que exerceu o cargo entre 1959 e 1960. Em 1963 foi declarado Presidente do MPLA, substituindo Mário Pinto de Andrade. No interior de Angola, outros movimentos libertadores faziam já a sua luta, a UNITA, de Jonas Savimbi e o FNLA, de Holden Roberto.

Ao poeta António Agostinho Neto foi-lhe atribuído, em 1970, o prémio Lótus, pela Conferência dos Escritores Afro-asiáticos. Publicou vários livros cujo substrato e pendor exaltavam o sonhar e lutar pela independência. Ainda hoje, guardo um dos seus poemas, a bom rigor, dos meus substratos favoritos. Este poema foi musicado por Rui Mingas. Minha Mãe/tu me ensinaste a esperar/como esperaste paciente nas horas difíceis/mas a vida matou em mim essa mística esperança/eu não espero/sou aquele por quem se espera. Agostinho Neto revelava e recorria a metáfora da Mãe, como representação da pátria e como o centro de toda a sua narrativa.

Tive o ensejo e prazer de ler um texto escrito por Beto Van-Danem, enquanto encerrava minhas memórias sobre António Agostinho Neto. O autor recorda episódios pitorescos que mostravam a grandeza e personalidade de Agostinho Neto. Era existente e transparente. Só isso permitiu que se mantivesse leal a uma gestão digna, criteriosa, rigorosa e exemplar. Ele entendeu a liderança partidária como uma forma de servir ao povo e não de se servir do Estado. “O Neto era um homem honesto, não vivia deste país e é por isso que morreu pobre”, comenta Van Dunem. Saudades desse tempo e da justeza do movimento pós-colonial.

Ninguém ousou jamais questionar, ao longo dos anos, sobre a possibilidade de Agostinho Neto ter deixado contas no estrangeiro. Elas simplesmente nunca existiram. Neto morreu com a roupa que tinha no corpo. Não tinha dinheiro, concluiu Van Dunem. Era, convenhamos, um Machel numa versão Atlântica.

Neto partiu quatro anos depois de ter sido proclamado Presidente. Para trás, uma única mancha que pode ter marcado seu brilho: 27 de Maio de 1977. A forma como os revolucionários responderam a um movimento interno e uma alegada tentativa de golpe de Estado. Angola já se retractou, mas as mágoas ficaram muito para além do por do sol. Aqui estão os 100 anos de uma vida plena e tumultuada, uma poesia profética, porém, verdadeiramente, instigante.

António Agostinho Neto e seus camaradas e amigos de sempre, Amílcar Cabral, Lúcio Lara, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Marcelino dos Santos, Orlando Albuquerque, Ilídio Tomé Alves Machado e tantos outros, incluindo Jonas Savimbi, já tiveram tempo de prestar as contas a divindade e recebem as últimas notícias de José Eduardo dos Santos. Os tempos são adversos onde a revolução e os revolucionários perderam a centralidade e os novos ventos aniquilam os anseios de outrora. Os líderes revolucionários, parafraseando Machel, nunca morrem, porque ganham o tamanho e estatuto de um povo. Povo nunca morre. (X)

Este título faz cócegas na alma para que me dedique a um ensaio possível de fazer acerca do ofício a que possivelmente se reservem os nossos mestres da palavra que já não andam entre nós. Seria um texto e tanto, tasaver. Daqueles que só sairiam em circunstâncias tais em que a aura atinge um estado zen. Imagine-se, caro leitor: neste Setembro. A pensar. Não no amarelo. Mas no azul do mar. Descalço. Sentado na praia. Os pés das calças dobrados até ao joelho e as mangas da camisa ao cotovelo. Os sapatos pousados à esquerda. Ou sandálias. Sei que és mulher. Aliás, todo homem já foi mulher. Por 9 meses, para ser mais preciso. Imagine-se, ainda, com o paladar degustando a água de coco. A imagem de um sol que se põe como se estivesse a nascer. O livro de Lahissane à mão, com o indicador marcando a página 21 do seu livro de estreia “Os Pores-do-sol” em que é possível ler: escrever um poema/ é palpar os pores-do-sol.

Experimente, caro leitor, melhor forma de mandar a burocracia da vida às favas não há!

Agora, volta. Voltarás a pensar nisso em breve. Para já, voltemos àquela ideia dos poetas mortos. É, na verdade, uma ideia do Lahissane. Nos últimos tempos anda cheio dessas ideias de escrever na terra porque acredita que nos céus a vida o reserve outros ofícios. Mas, acredite, o tipo escreve. Escreve maningue. Não sei se sabe, caro leitor, mas existem muitos significados para a palavra escrever. Os poetas são exímios criadores de sentidos para as palavras que já conhecemos com significados já padronizados. Mas sempre o fazem no bar. O bar é um templo sagrado, disse a poeta dos cães à estrada. Mas, peço um minuto, caro leitor, acabei a tinta na caneta.

_ Por favor, encha-me a caneta com aquela tinta à nossa maneira, na conta do Lahissane. Quero escrever.

Então, dizia que…

_ Sim, na conta dele.

Referia-me, então, ao título que inaugura este texto. Com um pouco mais de zelo, trocaria a preposição “em” pela “sobre”. Porque é sobre a terra que Lahissane escreve no seu “Os pores-do-sol”. É daqueles livros de leitura proibida quando se estiver na diáspora numa missão diplomática, por exemplo. E, mais ainda, se se tiver “nilava kumuka kaya” de Elsa Mangue ao fundo.

Ouvir “nikala kumuka kaya hiyini?/ Por que não vou para casa?/ Niholovile namani lekaya?/ Com quem estou desavindo em casa?/ Nilava kumuka kaya kamamani!/ Quero ir para casa da minha mãe!” enquanto se lê “vim de uma terra chamada África/ onde o batuque é uma bandeira/ que adeja ao sabor dos ares/ uma terra cheia de sabores: massala, malambe (p. 45)” seria a mesma experiência dramática que tingiu os poetas da “Claridade” em Cabo Verde: querer ficar e ter de partir/querer partir e ter de ficar. Mas, partir para onde? Lembra-te: falamos de alguém que esteja na diáspora!

Os Pores-do-sol é um livro cheio de África. Não a África do clichê de quem cultiva um adâmico lócus mas uma África real. Com as suas flores, suas mazelas, sua(s) rapariga(s) fogosa(s) (título do meu poema preferido, vide página 69), seus pores-do-sol e suas copas de coqueiros. Seria, por isso, difícil ler este livro sem que te espectasse a flecha da nostalgia. Do amor telúrico. E, já agora, aqui está um objecto para um ensaio académico sobre este livro.

Os pores de sol é tão híbrido quanto o processo editorial que o origina. A Ethale Publishing, de Jessemusse Cacinda, e a Associação Cultural Xitende, de Deusa d’Africa, unem os deuses do norte e do sul de Moçambique para editar este livro cujo design é de quem parece querer competir consigo mesmo como se já não soubéssemos da sua excelência no acto. Digam ao designer da Ethale que já percebemos. Chega! És bom, puto!

Ainda sobre o hibridismo a que me referia, engana-se quem pense que o compromisso estético dispensa a dimensão semântico-pragmática do texto. É comum nos dias de hoje. Textos há (e não são poucos) que desenham uma linda mangueira mas, inda que a abanemos, dela não cai uma manga sequer. Com Os Pores-do-sol é diferente. Asseguro-te. O compromisso com a imagem situa Lahissane na sua geração de poetas mas as nutritivas mangas que caem das mangueiras lindas que desenha, o tornam único. Um poeta, de facto. Que vive na/da/ sobre/a poesia. Leia-se:

“meu rumo/ é esmagar com os dentes dos olhos/ as letras que florescem no ventre dos livros/ esmagá-las até lacrimejarem pétalas/ e com elas irradiar o cosmo que há em mim/” (p. 38)

“quando os meus olhos/mergulham no mar/ esqueço-me dos hinos de dor/ canto os mais belos e cheios de amor/ (p. 41)

“o chão era verde como as algas do Limpopo/ de imensas garrafas partidas/ (p. 23)

Repare, caro leitor, é poesia moçambicana do século XXI: esta mescla de um quê panfletário dos fundadores, um outro quê lírico dos vanguardistas e mais um quê imagético dos surrealistas filhos mimados dos últimos que não lhes foi explicada a real essência daquela revolução. Tasaver, é mais um objecto para outro ensaio académico. Mas sobre isso falaremos com os ensaístas permanentemente cientes dessa condição. Eu tenho cá os meus episódios de luz e de neblina. Hoje, por exemplo, a neblina é meu mister. Mas a culpa é tua, caro leitor: andas maningue distante daquelas cenas que a malta escreve.

Pronto! Acabou-se a tinta. Mas ainda quero escrever. Dê-me outra caneca. Digo, caneta. Mas, não se esqueça, leia Os Pores- de-sol. É obra!

Na posse de todas aquelas informações o senhor Mapilele ficou estático. Meditava.

Aquela comitiva da comunidade ia retirar-se para deixar com ele a responsabilidade de prosseguir os trâmites para a consumação do enterro da falecida esposa.

“Lavo das mãos toda a responsabilidade de tratar seja o que for para o enterro dela”, disse o senhor Mapilekle, fleumático, quase com um sorriso trocista nos lábios.

“Não está a falara sério, irmão Mapilele. A irmã Veva continua sua esposa, apesar do sucedido”, aventou o emissário-mor de sobrolho carregado. Outros remexeram-se desconfortados sobre os assentos. Estava nos horizontes que o problema estava a crescer, a tomar proporções que ninguém previra.

Trocaram olhares de estupefação e mantiveram-se em silêncio.

E Mapilele atacou, já com ferocidade:

“Meus caros, fizeram bem em vir à minha morada anunciar esta triste notícia. Triste para ela, a Veva, para a família dela e para comunidade. Assim ficamos todos a saber quem era ela na verdade, que tipo de esposa eu tinha nesta casa. Morreu na cama doutro homem? Tudo muito bem. Esse tal do Bocoda que assuma toda a rsponsabilidade por aquilo que aconteceu. Comigo não contem, seja para o que for. Não quero ajuntamentos em minha casa, nem mensagens de condolências de ninguém. Ainda querem-me ferir mais? Chega! E ponto final meus senhores”.

“Irmão Mapilele”, outra voz que não a do emissário-chefe fez-se ouvir, mais cordata e conciliadora. “Para todos os efeitos, e segundo a catecismo da Igreja Católica, a falecida tornou-se sua esposa pelo matrimónio, e por isso recomenda unidade na vida e na morte”.

“ Na vida sim, mas enganado, como todos podem constatar. Na morte não, porque não morreu em minha casa, muito menos na minha cama. A tal doutrina cristã de que você está a falar o que diz sobre o adultério? Estão calados? Se eu fosse outra pessoa até iria ao funeral sim, mas para apedrejar o cadáver dela, estão a perceber?”.

Mapilele levantou-se de brusco da cadeira e convidou os membros da delegação a abandonarem a sua propriedade.

“ Meus senhores, renovo os meus agradecimentos pela notícia, mas façam o que lhes convier porque apartir deste momento já lavei as mãos a tudo o que diga respeito à pessoa e ao corpo da Genoveva. Deus castiga os que erram. Ela pecou então que se amanhem, ela, o amante e a família dela”.

O escândalo encheu as bocas de comentários. Especulações choviam de todos os cantos.

O fim trágico da dona Genoveva ficou marcado de muitos questionamentos nas cabeças de muitos homens sobre quantas esposas tinham conduta semelhante à que levou à perda de vida da vizinha.

E, deste modo, a Veva do Mapilele teve aquele funeral insólito, o fim triste de desmerecer as glórias e as homenagens do esposo legítimo, dos vizinhos, familiares e amigos, que a tinham por mulher exemplar, fiel aos cânones do matrimónio.

Quatro coveiros samaritanos juntaram as vozes à do infeliz amante, oraram e entoaram despedidas à senhora Genoveva Mapilele: ”…pai-nosso que estais no Céu…o pão nosso de cada dia nos dai hoje… perdoai as nossas ofensas, assim  como perdoamos a quem nos tem ofendido e livrai-nos do mal…amen…”.

Umas pàzadas vigorosas dos diligentes coveiros deram forma à campa e “…era uma vez uma senhora de nome Veva…”.

Deste modo nasceu aquela lenda muito popular da mulher que, por via de amantismos, pereceu na esteira do amante.

O Djacabai era uma sombra de si próprio, um homem desolado, atarantado pela monumental desgraça que em si caira, e pela possibilidade agravante de poder vir a ser preso, acusado de homicídio e desterrado para a ilha de São Tomé… o que de facto veio a suceder.

 

in Caderno de Memórias, Volume II.

É início de noite de domingo. Setembro na pele da cidade e o cheiro do Outono mais próximo de nós, como o molho picante que se evade da cozinha do restaurante indiano da minha rua. A cada dia o sol deita-se um minuto mais cedo. O céu azul, rasgado por pássaros mecânicos, mais escuro que nos dias anteriores. Vinte horas e dois minutos e o céu azul mais escuro que nos dias anteriores e as luzinhas dos pássaros mecânicos às piscas. O campus da universidade iluminado pelas lâmpadas fluorescentes que ajudam as árvores a fintarem a escuridão. Espreito pela janela e a noite tranquila lá fora.

Na quinta-feira passada pernoitei no Estoril. Uma noite um pouco mais fria e tranquila que a de muitas freguesias de Lisboa. Claro que não podia ser diferente, no Estoril as ondas do mar rastejam com coragem e a praia do Tamariz sempre no mesmo lugar. O escritório para o qual trabalho pôs-nos lá para umas sessões de imersão à vida de advogado associado que se avizinha, razão pela qual no dia seguinte almocei no restaurante do hotel.

Durante o almoço, a mulher que serviu aos meus colegas e eu fez uma centena de visitas à nossa mesa e sempre que se aproximava ignorava os meus colegas, olhava para mim, abria um sorriso que se estendia de uma ponta à outra da boca e cantarolava para mim com aquele jeitinho e tempero brasileiros que ela transbordava:

está tudo bem? você quer mais alguma coisa?

Os olhos dos meus colegas em cima de mim e eu todo constrangido com a situação, sem saber se era aquilo mesmo que me apetecia responder:

está tudo óptimo! Muito obrigado…

Cinco minutos depois, a mulher voltava com um sorriso mais brilhante que o da vez anterior, olhava-me nos olhos com ternura e cantarolava novamente:

está tudo bem? você quer mais alguma coisa?

As batatas a murro e a bifana estateladas no prato branco a rirem-se de mim, os olhos dos meus colegas mais acusadores que nunca e eu a pensar em como ia reagir àquela situação. De repente, a minha colega com um sorriso à queima-roupa disparou:

acho que ela gostou de ti, ilustre!

Não perdi tempo, deixei escapar um risinho maroto e retruquei imediatamente:

o Brasil e eu temos alguma coisa…

As noites de Setembro, de facto, mais fresquinhas que o meu coração. As noites mais escuras. Sinceramente, eu não menti:

o Brasil e eu temos alguma coisa.

No dia 7 de Setembro, o Brasil, um país com mais de duzentos milhões de habitantes, celebra duzentos anos de independência. Tal como para muitos moçambicanos da minha geração, o Brasil chegou-me pela televisão na primeira década do século XXI. Lembro-me de ver o Brasil, um país que só mais tarde descobri colorido, chegar-me aos olhos através das telenovelas que passavam todas as noites na televisão à preto e branco que os meus vizinhos tinham estacionada no centro da cristaleira colada à parede da sala. Lembro-me de ouvir o Brasil chegar-me aos ouvidos através das melodias de Leonardo e Leandro, Zezé de Camargo e Luciano, Almir Sater, Chitãozinho Xororó, Caetano Veloso, Chico Buarque, Alexandre Pires e Alceu Valença. Lembro-me de ver o Brasil chegar através de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa e de Capitães de Areia de Jorge Amado. De tal modo que não menti quando disse:

o Brasil e eu temos alguma coisa.  

São duzentos anos de independência e o Brasil, meu amor, chega-me através dos brasileiros afectuosos e simpáticos que encontro no meu dia-a-dia. O Brasil chega-me através dos vários amigos brasileiros que não cabem em nenhuma das minhas mãos sempre secas. E sem dúvida, Brasil é poesia, negro, metrópole, cachaça, futebol, música, favela, sofrimento, índio, Aparecida, alegria, samba, sertão, amizade, paixão, Domitila, carnaval, vulcão, quilombo, trabalho árduo, esperança, branco, grito, sonho, pimenta no arroz, serena, beleza, vida. De tal modo que a voz no meu ouvido, bem devagarinho, cantarolando:

Arrumadjinho!

Setembro na pele da cidade, a noite mais noite que em Agosto. As luzinhas dos pássaros mecânicos às piscas. As luzes fluorescentes iluminando o campus da universidade e as árvores esquivas a fintarem a escuridão.

 

A grandeza dos homens também se mede pela

capacidade de reconhecerem os seus erros.

in No verso da cicatriz.

 

Boa tarde a todos.

Eu chamo-me José dos Remédios e, hoje, terei a oportunidade de partilhar convosco as minhas leituras sobre um belíssimo livro, que é No verso da cicatriz, de Bento Baloi. É um romance que, inclusive, leva-nos a viajar pelas várias latitudes de Moçambique. Mas esta ainda não é uma tentativa de apresentar o livro. Antes de me perder, eu gostava, primeiro, de felicitar ao Município de Quelimane, em especial ao Presidente Araújo. Tenho acompanhado o bonito trabalho que tem sido feito cá em prol da literatura. Sei que cá temos uma feira do livro e que o Município tem adquirido livros de autores moçambicanos, ora promovendo as obras desses mesmos autores, ora criando condições para que a literatura chegue a mais pessoas e possa funcionar como ferramenta para compreensão do no nosso espaço existencial e do nosso tempo.

Eu acho que este tipo de iniciativa, como a Feira do Livro de Quelimane, que este ano homenageou Eduardo White, é tão necessária quanto urgente. Infelizmente, nem sempre conseguimos a possibilidade de ter muitas réplicas em vários municípios a nível nacional. Quando calha um município funcionar como um espaço que pensa e vive a literatura, fazendo com que a experiência literária seja partilhável, é algo notável.

Também quero agradecer e felicitar ao Bento Baloi, lá mais para frente posso esquecer-me, por este No verso da cicatriz que funciona como uma espécie de introdução ao que Moçambique foi, ao que Moçambique é e ao que Moçambique pode ser em função das nossas leituras do passado. É um livro muito coerente, profundo e acutilante. Eu tinha de dizer isto publicamente ao Bento porque, para mim, é uma oportunidade de reconhecer o grande livro que é No verso da cicatriz. Deu-me muito gosto lê-lo e já o considero um dos melhores romances moçambicanos publicados nos últimos anos.

Para encerrar esta página dos agradecimentos, agradece-vos a todos, por terem vindo cá participar nesta celebração à arte literária, que é, essencialmente, um momento de partilha. Nem sempre temos um público para dizer o que nós pensamos. Então, em reconhecimento ao vosso gesto, aproveito esta ocasião para vos contar um segredo. Não vão contar a ninguém, não é? Os segredos não são se devem recontar.

É assim, há um ano, eu ganhei este livro e li-o. É interessante que na mesma época eu fui convidado pela revista literária Mayombe, de Angola, a escrever um artigo sobre um livro da literatura moçambicana, à minha escolha. Como já tinha lido No verso da cicatriz, decidi que o meu artigo seria sobre este romance. Então, em Setembro de 2021, o artigo foi publicado em português e em inglês na Mayombe. Mas o segredo não é esse, que cá estou a fugir do assunto, mas o seguinte. Quando terminei de ler o romance, eu disse cá para os meus botões, eu gostaria de apresentar este livro. Mas estava num dilema, porque como potencial apresentador do livro, eu não tinha essa luz verde para poder manifestar tal interesse. O autor tem sempre de escolher quem quer que apresente o seu livro e eu não iria querer mudar isso. Então, fiquei a contar com a sorte, à espera que os astros conspirassem de modo que o Bento me convidasse para apresentar o romance, mas isso não aconteceu. Quer dizer, quem apresentou o livro pela primeira vez, na Fortaleza de Maputo, foi um grande professor, Francisco Noa, que, inclusivamente, faz parte da minha formação literária. E fê-lo muito bem! E pronto. Não ficou nenhum ciúme e nem nada disso. No entanto, apenas julguei que tinha perdido uma oportunidade de dizer publicamente o que penso do livro. Até que há dias, Bento Baloi liga-me a convidar-me para apresentar No verso da cicatriz em Quelimane. O convite foi ainda especial do que se tivesse sido feito para apresentar em Maputo, onde vivo, porque Quelimane também me diz muito. A minha mulher, Angélica Pereira, nasceu em Maquival, aqui pertinho. Eu não conhecia Quelimane, esta é a minha primeira experiência na única cidade do Centro do país que não conhecia. Então, vir a Quelimane por causa de literatura e ainda conhecer a terra-natal da minha mulher é algo realmente especial e, afinal, os astros conspiraram para que isto acontecesse.

Há um ano, ao artigo que escrevi para Mayombe dei o título de A desconstrução da utopia (e a narrativa dos desafectos) em No verso da cicatriz. Mais tarde, melhorei o texto e, um dia, irei publicá-lo em livro. Mas por que é que eu pensei em dar esse título ao meu texto? Bem, é um título ligeiramente longo, mas que traduz duas principais ideias que eu aqui pretendo partilhar com os leitores e com os potenciais leitores, evidentemente. Quer dizer, por um lado, ao ler No verso da cicatriz, ocorreu-me outro livro: Utopia, de Thomas More, onde existe uma ilha inventada que funciona como um lugar fantástico e, acima de tudo, bom. E, num mundo em que estamos tão sedentos de coisas boas, num mundo tão violento, com acidentes, violência e tantas outras peripécias que nos incomodam e comprometem a nossa sanidade mental, pensar na Utopia, de More, é fundamental.

A Ilha da Utopia de More é um lugar justo, solidário, comunitário e de harmonia. É um lugar inventado para incluir a todos. Então as leis funcionam, a justiça funciona, o amor existe, a solidariedade, a amizade e todos os valores que deveriam nortear os seres humanos lá também existem. É um lugar de sonho!

Quando nós lemos No verso da cicatriz, ocorre-nos que o primeiro espaço para a narrativa, apresentado pelo narrador, é Maguaza, algures no Distrito de Moamba, em Maputo. Usado como categoria da narrativa, Maguaza é um espaço ideal. Nós até podemos identificar várias localidades como Maguaza pelo país adentro, mas este que a história nos traz é um lugar ideal. A questão que aqui se coloca é: como é que nós pensamos num plano real, com tantas dificuldades, a partir de um lugar fictício e como é que a ficção, a partir desse exercício, comunica-se connosco? A ficção tem o poder de reinventar a realidade? Como é que a ficção faz com que a realidade ganhe mais sentido? Na verdade, estas são as principais questões que os dois narradores de No verso da cicatriz nos trazem, porque a realidade, às vezes, é tão efémera que nós não a conseguimos compreender. Em No verso da cicatriz temos essa espécie de lugar que nos ajuda a construir mundos, personagens e, assim, instaura-se uma personificação que nos faz olhar para o nosso universo interior. E olhar para o nosso interior não é tão fácil quanto fechar os olhos, porque aqui também buscamos a resposta à pergunta quem nós somos como povo?

Os dois narradores que me referi há pouco são Bernardo Penicela Muhlanga e Maria Helena. Quanto ao estatuto, são narradores autodiegéticos, aqueles que na escola secundária designamos narrador participante. Mas este termo participante não é tão feliz quanto isso porque o narrador, quer integre, quer não integre a história como personagem, é sempre uma entidade participante na narrativa. Logo, o termo autodiegético ajuda-nos a compreender que além deste narrador contar a história, também é protagonista.

Neste livro temos narradores que contam as suas próprias histórias e como é que essas mesmas histórias se vão relacionando com as outras. Há aqui um pouco de invocação do que nós podemos passar a pensar em termos de como a nossa vida e a nossa existência vão-se entrelaçando com os outros. Não existimos sozinhos e os protagonistas de No verso da cicatriz estão constantemente a lembrar-nos disso.

Esta é, logo no princípio, uma história de amor, mas uma história de amor transversal. É uma história de amor às pessoas, às personagens, à literatura, à terra e ao que nós podemos julgar ser nação. A nação aqui é construída e reconstruída através da história de duas personagens.

Em jeito de sinopse, neste livro temos um certo rapaz, Bernardo, que se apaixona por uma rapariga, Maria Helena. Entretanto, há aí um problema delicado. A certa altura, o pai de Maria Helena apercebe-se de que o rapaz é originário de uma determinada etnia e não quer que se relacione com ela. Sendo ele uma das autoridades do lugar, parte para a sede de Maguaza e mente aos seus superiores, dizendo que na sua aldeia havia um testemunha de jeová, Bernardo, numa altura em que o regime do dia, depois da independência de Moçambique, perseguia aqueles devotos. E nós podemos nos perguntar: qual é o problema de ser testemunha de jeová? No romance, é um grave problema. Por isso, a promissora história de amor é, desde cedo, interrompida. Bernardo, que tanto ama Maria Helena, é levado à força de Maguaza e vem parar aqui a Zambézia (eu não sei se já ouviram falar de Carico), depois de ter sido aliciado a abandonar uma fé que não tinha e, depois, passou a ter.

Seja como for, nesse sentido, o romance de Bento Baloi confronta-nos com as seguintes perguntas: quanto custa a nossa fé? Vale a pena abandonarmos as nossas convicções e aquilo em que acreditamos por medo de morrer? Vale a pena desistirmos de tudo o que somos por medo? O romance traz-nos este tipo de confrontação e cada leitor irá responder à pergunta mediante à forma como for a ocorrer a sua própria introspecção.

Este é um livro narrado na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo, em três cadernos, em que, a certa altura, captamos o cruzamento entre a história, a pesquisa, a realidade e também a técnica narrativa. Portanto, não se trata apenas de um livro que mexe com a História recente de Moçambique nas suas várias vertentes; não se trata apenas de uma narrativa que inicia em Maguaza, no advento da nossa independência, até 1992, na altura em que termina a guerra dos 16 anos; não é apenas um livro que percorre o país do Sul ao Norte. Conforme disse anteriormente, aqui também há “muita” Província da Zambézia, desconhecida para vários habitantes da cidade, que, eventualmente estão aqui.

Uma dessas passagens que nos leva ao interior da Zambézia, sempre esquecido, ajuda-nos a perceber a relação entre o narrador e as coisas que narra sobre o seu habitat. Diz o seguinte:

 

Carico. O sol procura esconder-se por entre as montanhas anunciando o fim da tarde e o princípio da noite. Os 30 quilómetros, que agora nos separam da vila de Milange, foram feitos em bagageiras de camiões. Apertadíssimos uns com os outros. Mal cabíamos. O desembarque é uma operação de alívio ao convívio com a catinga do outro. É o fim do suplício de inalar poeira. O nosso aspecto amarelado é disso denunciador.

Carico é uma região encravada num conjunto de serras que fazem parte do sistema montanhoso Chire-Namúli. A própria expressão “Carico significa “dentro da panela”, na língua local, indicando que o local é rodeado de montanhas.

A ideia de estarmos num território dominado por felinos desaparece logo à chegada. Há um enorme grupo de pessoas que nos recebe efusivamente com cânticos e dança, o que constitui uma grande surpresa. É muita gente! Acredito serem as Testemunhas de Jeová para cá enviadas antes de nós (p. 53).

 

Quem discursa desta maneira é Bernardo Penicela Muhlanga, o retirado à força do seu território, do seu espaço perfeito, da utopia e ideal. Vai parar a Carico, no interior da Zambézia, numa época em que palavras como “centro de reeducação” e “operação e produção” eram recorrentes para alguns moçambicanos. A partir desta passagem que li, conseguimos sentir cheiros, ver imagens e sentir a sensação das personagens. A descrição é feita de tal maneira que nós passamos a compreender, num novo espaço, os receios de Bernardo (mais tarde, de Maria Helena também) e os sentidos do amor. E voltamos às perguntas retóricas do romance: vale a pena sacrificarmo-nos por amor? Ou podemos largar tudo em prol da sobrevivência? Entre a sobrevivência e o amor, o que é o mais importante?

O romance desenrola-se em 17 anos, envolvendo personagens que sofrem, mas que, mesmo numa época de cólera, não desistem de amar. Ainda podemos amar? O que significa amar as pessoas e a terra?

Este é um romance sobre a intolerância religiosa e ideológica, é um romance onde nos encontramos, que nos ensina que podemos fazer da ficção um factor de reconciliação de facto, porque esta palavra reconciliação, em muitos círculos, é muito gasta, muito vazia de sentido e de imaginação. Nesta história podemos pensar em cada termo que nós muitas vezes usamos ao pronunciar palavras como paz e amor. Eu sempre repito a palavra amor porque é isto o que o livro é e que Bento Baloi traz. E esta capacidade de mergulhar dentro das personagens para trazer uma certa sensibilidade faz com que experimentemos o que há mais de dois mil anos Aristóteles designou catarse, esta capacidade de assumir a dor do outro como nossa.

Ao partir desta aceitação da dor do outro, pensamos no mundo real de uma outra forma, de uma forma mais justa, honesta e solidária. Então esta catarse nos purifica e leva-nos de regresso ao passado, não para o corrigir, mas para pensar nesta geografia que cabe na fronteira Rovuma a Maputo e do Índico ao Zumbo. O que significa ser moçambicano também é uma questão presente neste livro, permitindo-nos conhecer as zonas recônditas do nosso país e o espaço, de certa maneira. Isso faz com que o romance de Bento Baloi seja uma narrativa necessária e urgente de ler. É uma narrativa através da qual o autor consegue mergulhar de uma forma profunda na alma humana, buscando as suas virtudes e as suas imperfeições.

Quem quiser passar a conhecer-se melhor, quem desejar fazer um exercício de introspecção até para saber o que significa as palavras humanismo e moçambicanidade e como o país construiu-se ao longo do tempo, tem aqui um bom pretexto. Quem também quiser pensar na literatura e nas formas de narrar uma bela história, deve ler este livro, no qual os discursos dos narradores se complementam.

Se puderem, leiam No verso da cicatriz, porque, assim, serão melhores pessoas, renovadas, purificadas e, se calhar, a interessarem-se mais pela magia das letras. A propósito de letras, este romance conecta-se com outras literaturas, como Madame Bovary, de Gustave Flaubert, Teresa Raquim, de Émile Zola, e O vermelho e o negro, de Stendhal, pela descrição da paisagem, caracterização das personagens e pelo efeito trágico.

Mesmo a terminar esta minha intervenção, que já vai longa, eu quero partilhar duas frases das várias bonitas proferidas pelo narrador de Bento Baloi. A primeira passagem diz o seguinte: “Mas a força da razão jamais sucumbi à razão da força” (p. 56). Há aqui duas palavras-chave: razão e força. O que é superior e o que deve ser superior? É uma frase para pensarmos nas nossas relações, no nosso contexto e na relação entre o tempo e o espaço.

A outra frase diz precisamente o seguinte: “A grandeza dos homens também se mede pela capacidade de reconhecerem os seus erros” (p. 80). Se nós podemos aprender o alfabeto, se podemos aprender a contar, a andar, a relacionar-nos uns com os outros e até a sofrer, nós também podemos aprender a reconhecer os nossos erros, porque nós erramos todos os dias e caímos todos os dias. O que importa é que podemos aprender a aceitar e a corrigir os nossos erros, e, a partir daí, reconciliarmo-nos com os visados dos nossos deslizes. Este romance é mais do que um encontro com a nossa História, é mais do que um encontro com a nossa paisagem e com a nossa geografia, é um encontro com a nossa humanidade.

Se puderem, leiam a história de Bernardo e Maria Helena porque nos ajuda a tornarmo-nos pessoas novas, ainda que tenhamos 20, 50 ou 90 anos e idade. A literatura também tem este poder e esta capacidade.

Obrigado!

 

*Transcrição da intervenção feita na apresentação do romance No verso da cicatriz, de Bento Baloi, no dia 26 de Agosto, no Salão Nobre do Município de Quelimane.

 

 

Em menos de um ano, Moçambique passou do 4° lugar a 2° lugar dos países mais infectados pelo HIV/Sida no mundo, ficando atrás da África do Sul. Entretanto, ao mesmo tempo, tem crescido o número de campanhas de sensibilização sobre esta doença em diversos meios de comunicação. O que estará a falhar?

Fazendo uma breve análise sobre as campanhas e acções sociais sobre HIV/SIDA, ocorre-me este entendimento de que ainda há muito que se melhorar na forma de sensibilização e comunicação. Tomando de exemplo a campanha denominada “Somos Iguais” lançada pelo Ministério de Saúde em Maio do ano passado em parceria com a USAID, passa-me a ideia de que haja um duplo efeito da mensagem veiculada por essa campanha.

O primeiro efeito é que a campanha “Somos Iguais” conseguiu responder ao desafio que lhe foi proposto – erradicar o estigma e descriminação sobre as pessoas com HIV/Sida que, por sua vez, temiam buscar pelo tratamento. Ou seja, a campanha “Somos Iguais” tem sido capaz de operar um processo de normalização das vidas das pessoas seropositivas, que antes eram conotadas como gente culpada pela sua doença, estando à beira da morte e com poder de contaminar as pessoas mais próximas.

Com a série de propagandas positivas sobre o HIV/Sida que tem sido disseminada nos meios de comunicação e nos espaços públicos, incluindo depoimentos de pessoas seropositivas que alegam estar a viver as suas vidas como qualquer outra pessoa seronegativa, nota-se que há uma crescente aceitação e integração social das pessoas com HIV/sida em comparação aos tempos passados.

Todavia, por trás dessas campanhas massivas de normalização do HIV/Sida, como tem sido a campanha “Somos Iguais” é provável que haja um outro efeito gravemente negativo que esteja a ser ignorado. Refiro-me a uma tendência generalizada em considerar o HIV/Sida como uma doença vulgar e inofensiva. Ou seja, Afigura-se-me que, na medida em que as pessoas passam a normalizar esta doença, ao mesmo tempo, o nível de precaução e a consciência do perigo em relação ao HIV/Sida tende a reduzir no seio das comunidades.

O facto de as campanhas de HIV/Sida propagar-nos mensagens positivas e imagens de pessoas de boa aparência, descrevendo as suas vidas como saudáveis devido à adesão ao tratamento antiretroviral (TARV) ajuda no combate à estigmatização, entretanto, de algum modo, pode servir como um mecanismo para quebrar o nível de alerta sobre a real gravidade que esta doença representa na nossa saúde. E quando há mais pessoas que passam a destemer o perigo de viver com o HIV/Sida, automaticamente, o nível de infeccão tenderá a aumentar na sociedade, pois com ausência do medo e da devida consciência sobre a gravidade do HIV/SIDA, aumenta a vulnerabilidade das pessoas.

É por esta razão que considero a campanha “Somos Iguais” uma faca de dois gumes afiados. Dum lado, combate com sucesso o estigma e descriminação contra pessoas seropositivas, doutro lado, ainda que de modo indirecto, minimiza a preocupação das pessoas acerca dos riscos de viver-se com HIV/Sida.

Assim sendo, com este tipo de campanha, abre-se-nos um cenário futurista em que passaremos a ter maior número de pessoas incautas e, consequentemente, infectadas com HIV/Sida mas que busca zelosamente pelo serviços do TARV numa sociedade cada vez mais aberta e inclusiva.

Todavia, nada nos garante que os seropositivos não possam perder a luta para esta doença, pois a sustentabilidade dos serviços do TARV depende de alguns factores: o financiamento para contínua importação dos medicamentos; a facilitação das vias de acesso ao TARV que inclui a questão da distância entre os pacientes e os postos de saúde, sobretudo, em zonas rurais; a pobreza como um factor que eleva o número de desistência dos pacientes que alegam não ter condições alimentares para sustentar os efeitos do consumo dos comprimidos; comportamentos de risco daqueles seropositivos que ainda mantêm relações sexuais desprotegidos, elevando o risco de mais carga viral no seu organismo.

Urge, portanto, um apelo para que as campanhas de prevenção e combate ao HIV/Sida, tal como a campanha “Somos Iguais” continuem a marcha de sensibilização das pessoas, entretanto, deve dar-se maior atenção e cuidado aos efeitos da informação veiculada. Com mais precisão, os órgãos de activismo devem abster-se de todas as formas de romantizar a vida de quem porta a doença do HIV/SIDA. O eventual efeito duma mensagem romantizada do HIV/Sida é tornar as pessoas menos preocupadas e mais vulneráveis a essa doença. Entretanto, o apelo para não romantização do HIV/Sida não deve implicar ou significar uma dramatização do HIV/Sida, pois esse alarmismo não resolve o problema, mas sim cria uma sociedade de medo, preconceito e descriminação.

O desafio que se impõe à sociedade civil e institutos governamentais é de produzir-se informações precisas sobre as dificuldades de viver-se com o HIV/Sida, a importância de aderir-se aos métodos de prevenção e os riscos de não se aderir, na plenitude, os serviços de TARV. É preciso que haja maior coordenação e equilíbrio entre as correntes de informação que apregoam a prevenção contra HIV/Sida e as que apelam ao tratamento e a não descriminação contra os seropositivos.

Somente com campanhas muito mais responsáveis na forma de comunicar, podemos construir uma mentalidade positiva e prudente em relação à condição do HIV/SIDA.

 

e-mail: tsembah@gmail.com

O Poeta Alberto de Lacerda morreu há 15 anos. Li, pela primeira vez, um poema seu publicado, na vetusta “Gazeta” da TEMPO, por Luís Carlos Patraquim, que me marcaria para sempre: “Diotima”. Aqueles versos iniciais são inesquecíveis e nunca me abandonaram: “És linda como haver Morte/ depois da morte dos dias”. Isto é de uma beleza tremenda. Mas o poema tem outros versos igualmente perfeitos: “Quem te criou destruiu / qualquer coisa para sempre”. Um poeta capaz deste tipo de síntese poética tem lugar em qualquer panteão. Este poema foi inspirado pela sua sacerdotisa, a Poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, talvez a mais importante poeta portuguesa do século passado.

Alberto de Lacerda nasceu na Ilha de Moçambique a 20 de Setembro de 1928 e cedo imigrou para Londres onde viveu – com intermitências pela América – até ao fim. Luís Amorim de Sousa escreveu um testemunho pungente sobre o Poeta em “Às Sete no Sa Tortuga: um retrato de Alberdo de Lacerda”. Um comovente testemunho de amigo desde que se conheceram em Londres até ao fim. Lacerda abandona Moçambique em 1946, parte para Lisboa onde prossegue os estudos e chega, em 1951, a Londres. Aos 23 anos almoçou “Exactamente / No centro / Da liberdade” com o imenso poeta T.S. Eliot, autor desse celebrado “The Waste Land” e Nobel em 1948. Conhece, através de Edith Sitwell, o poeta Dylan Thomas.

Será na capital britânica onde publicará o seu primeiro livro: “77 Poems”, em 1955, pela Allen&Unwin. Teve um acolhimento caloroso e críticas entusiasmadas. Em Portugal, onde no início dos anos 50 conviveu com a nata da poesia portuguesa – Ruy Cinatti, Mário Cesariny, Raul de Carvalho, António Ramos Rosa, Luís Amaro e Sophia de Mello Breyner Andresen, a sua Diotima –, participou da criação da “Távola Redonda”, com Ruy Cinatti, António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira.

Poeta maravilhado e do maravilhamento, poeta deslumbrado e do deslumbramento, poeta sensível e iluminado, poeta intenso, por vezes enigmático, esfíngico, nostálgico sempre. Poeta amante da poesia, da música, das artes plásticas. É amigo, até ao fim, da grande artista Paula Rego. Outra musa. Coleccionador inveterado de arte, de livros, de discos. Vive compungido com a música, sobretudo de Mozart, exulta com Picasso. Poeta da língua, grande exegeta. A língua portuguesa esplende-se e esplende-lhe. Quem o conheceu, via nele a figura e a imagem do poeta. Homem por vezes ensimesmado, recolhido no seu ser. Soberbo conversador: Eugénio Lisboa dizia que a conversa com Alberto de Lacerda melhorava o silêncio. Aliás, Luís Amorim de Sousa, nas várias homenagens que lhe faz, não poupa elogios a essa arte de conversar e a essa festa da palavra no diálogo com Alberto de Lacerda. Da palavra exacta. Da poesia esmerada. Do silêncio.

Numa remota viagem pelo seu lugar de origem escreve um dos poemas mais belos e translúcidos sobre a Ilha de Moçambique, que lhe chama “L`isle joyeuse” no livro “Exílio”: “Ó festa de luz de mar tranquilo”. Aliás, em “A Minha Ilha”, esta mesma Ilha de Moçambique estará na origem dos mais breves e mais intensos versos de sagração da Ilha de que há memória: “Ilha onde os cães não ladram e onde as crianças brincam / No meio da rua como peregrinos / Dum mundo mais aberto e cristalino”. Este e outros versos seus, igualmente lapidares, foram recolhidos na antologia “A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas”, compilada por mim e pelo António Sopa. Numa ulterior empreitada, “Nunca Mais é Sábado” (título pilhado a Rui Knopfli), antologia que organizei, sobre a poesia moçambicana, iria, igualmente, incluir poemas de Alberto de Lacerda. Para obter o seu consentimento, falei-lhe ao telefone e ele foi extremamente afável nesse único contacto que estabelecemos. Tive pena de nunca o ter encontrado pessoalmente. O Eugénio Lisboa quis muito que eu o conhecesse, mas não calhamos em Londres.

Quando vou a Londres hospedo-me em Battersea. Não raro imagino-o a percorrer as ruas de Chelsea, o seu bairro predilecto, no qual residiu até ao início da década de 70 e que está profusamente cartografado na sua poesia. Mudar-se-ia para 48A Primrose Mansions, na Prince of Wales Drive, que margina o Battersea Park, onde frequento amiúde. Certa noite fui lá em busca da sua memória. Em Julho passado ainda intentei uma visita ao Cemitério de Brompton onde ele está sepultado. Mas o calor impenitente que assolava Londres impediu-me essa romagem poética.

Das suas efemérides literárias destacaria: “Oferenda I” (1984), que inclui “77 Poemas” (1955), “Palácio” (1961), “Exílio” (1963), “Tauromagia” (1981) e “Cor: Azul”. Publicou “Elegias de Londres” (1987), “Meio-Dia” (1988) e “Oferenda II”, que acolhe “Opus 7” e “Mecânica Celeste”, para além de “Átrio” (1997” ou “Horizonte” (2001) ou ainda o póstumo “O Pajem Formidável dos Indícios” (2010).

Foi amigo do poeta brasileiro Manuel Bandeira, a quem visita no Brasil, entre 1959 e 1960, numa prolongada estada, que será preenchida com leituras e palestras. Conhece figuras estelares do modernismo brasileiro. Trava amizade com Oscar Niemeyer, este irá levá-lo a conhecer Brasília, então em fase de construção.

Da sua estada na América avulta a sua passagem por Austin, na Universidade do Texas, onde dá aulas, orienta cursos de Português, Francês e Literatura Comparada. Deixara para trás o trabalho precário de locutor e redactor da BBC. Convive à época com nomes como Octavio Paz, o poeta mexicano que seria laureado com o Nobel em 1990. Em 1969 surgem os seus “Selected Poems” nos Estados Unidos. Visita o México, que lhe inspira “Trinta e Quatro Poemas Mexicanos ou a Genealogia do Tempo”, obra inédita. Organiza um festival de poesia. Dele participam: Jorge Luis Borges, Czeslaw Milosz (outro Nobel, em 1980), Robert Duncan, Louis Zukofsky, David Wevill e Robert Creeley, entre outros.

Em 1972 vai leccionar para a Universidade de Boston. Foi, entre outros, professor de Jhumpa Lahiri, uma grande escritora americana, nascida em Londres, filha de indianos. Reencontra Octavio Paz, trava novas amizades: Jorge Guillén, Roman Jakobson, Elisabeth Bishop, entre tantas outras figuras da literatura americana. Sobretudo os da Costa Leste.

Em 1977 fez uma leitura pública da sua obra na Biblioteca do Congresso, em Washington, e gravou uma selecção de poemas para os arquivos sonoros desta instituição. É provavelmente o único poeta em língua portuguesa que mereceu até hoje esta distinção.

A sua ligação com a Universidade de Boston perdura até à sua aposentação em 1996, ano em que retorna, definitivamente, a Inglaterra. Os últimos livros que publica em vida são “Átrio” (1997) e “Horizonte” (2001).

Era um grande colecionador. Existe uma obra – “Colecção Alberto de Lacerda – Um Olhar”, com textos de Luís Amorim de Sousa, Jhumpa Lahiri, Mário Soares, John McEwen e Alfredo Caldeira. Lacerda, para além de ser grande nome da poesia em língua portuguesa, era um obstinado colecionador de livros, quadros, desenhos, discos, cartazes, fotografias. Em 1987, parte da sua colecção esteve exposta na Gulbenkian, em Lisboa, em “O Mundo de Um Poeta”. No livro “Apesar de Tudo – Em memória de Alberto de Lacerda”, Luís de Sousa Amorim relata os últimos dias e a morte do Poeta, bem como a saga kafkiana que se seguirá para a recuperação do seu vasto espólio. O testemunho de como venceu a burocracia das heranças e os obstáculos que a banca impunha é assombroso. Deve-se-lhe a recuperação do património e do nome de Alberto de Lacerda.

Alberto de Lacerda não terá voltado a visitar Moçambique depois da viagem que antecede o belíssimo livro evocativo “Exílio”. Mas o referencial poético moçambicano está sempre presente. Sobretudo o Norte de Moçambique. Na “Segunda Elegia” das suas belas e pungentes “Elegias de Londres” a infância e os seus territórios desse eterno encantamento estão cartografados de forma ineludível. E noutros versos e noutros poemas.

Rui Knopfli, no luminoso livro “Mangas Verdes com Sal” (1969), num dos seus mais belos poemas, cita-o como um dos seus predecessores: “Que subtraio de Alberto de Lacerda / e pilho em Herberto Helder e que / – quando lá chego e sempre que posso – / furto ao velho Camões.” Hoje é um poeta praticamente deslembrado. Há quatro anos foi publicada uma antologia de sua poesia (“Labareda”), em Portugal, com prefácio e organização de Luís Amorim de Sousa, seu indefectível amigo e legatário. Por sua iniciativa, tinha sido editado o livro póstumo “O Pajem Formidável dos Indícios”. Entre nós, o seu nome sempre escapou à quezilenta discussão da nacionalidade literária. Ainda bem. Nunca os ensimesmados esbirros literários se meteram com ele. Um poeta do seu quilate, um poeta do seu gabarito, não é de todo prescindível. Hoje, 27 de Agosto, passam 15 anos sobre a sua morte. Num remotíssimo breve poema intitulado “Vento” escreveu premonitoriamente: “Que a minha vida fosse para os humanos / como o vento que passa e que se esquece.” Está gravado na pedra do seu túmulo o poema de uma única palavra que também faz a súmula da sua vida e de como viu este mundo: “Paraíso”.

 

KaMpfumo, 27 de Agosto de 2022

 

“…ela estava entre as estrelas mais brilhantes deste país, no sentido próprio da palavra.”

Nelson Mandela

 

Naquele infausto dia 17 de Agosto de 1982, há precisamente 40 anos, quando ouvi, na rádio, a notícia do brutal assassinato de Ruth First, por intermédio de uma carta-bomba, eu não passava de um adolescente de 15 anos. Vivíamos, é certo, tempos vertiginosos e empolgantes, ulteriores a uma emancipação política recente. Eram tempos de engajamento, tempos de exacerbamentos ideológicos, tempos disjuntivos, sem dúvida, entre a revolução e os seus acérrimos defensores e aqueles que eram os inimigos figadais da mesma, ou que estavam nos seus antípodas. Mesmo sendo um jovem adolescente, tinha a noção do que estava a acontecer no território movediço da política em Moçambique e da África Austral, então em ebulição, numa encarniçada e violenta disputa.

 

Os virulentos ataques da então Rodésia do Sul (actual Zimbabwe, independente em 1980) e os da África do Sul do apartheid, quotidianamente demonizados na imprensa, estavam na origem de mossas visíveis no tecido social e económico. Para além disso, os indícios da guerra de agressão eram já ineludíveis. O nosso apoio sem tréguas às lutas pela libertação do Zimbabwe e pelo fim do apartheid na África do Sul traduziu-se numa impiedosa agressão, cuja devastação tem efeitos ainda hoje.  Os nossos dias, nos quais tudo escasseava, de bichas para tudo e de uma miséria material e social inelutáveis, eram já o testemunho do desastre. Tínhamos, afinal, consignado o nosso presente e o nosso futuro a esta causa. Teríamos nós a noção do que estávamos a penhorar? Ou estávamos cegos imbuídos pelo arroubo do proselitismo que nos movia?

 

Quando o infortúnio atingiu Ruth First, eu já estivera em comícios na Praça da Independência, vira Samora Machel de mãos dadas com Oliver Tambo, ouvira as suas diatribes contra o regime vigente na África do Sul, marchara a favor da libertação de Nelson Mandela, abominava visceralmente o regime do apartheid, tinha devotado muito antes a mesma bílis em relação a Ian Smith. Era já, de algum modo, um jovem politizado. Não estava imune à propaganda e à ideologia dominantes. Antes pelo contrário. Os meus versos daquela noite foram de ira, ódio, fúria, repulsa. Não os tenho mais, perderam-se, mas guardei a lembrança do facto de terem desencadeado, em mim, naquele momento de cólera, o escritor que se iria revelar com tempo. Ali, naquele acontecimento plangente, estava inscrito, de algum modo, o meu destino literário e o nome sacrificado de Ruth First ficaria assim ligado à minha mitologia pessoal.

 

Heloise Ruth First, filha de judeus oriundos do Mar Báltico, entre a Lituânia e a Estônia, no Leste europeu, nascera, em Joanesburgo, a 4 de Maio de 1925. O pai era um dos membros fundadores do Partido Comunista Sul-africano. As causas que ela iria abraçar e o seu aguerrido carácter parecem advir da ascendência. A estirpe da lutadora tem uma origem indissimulável. Na Universidade de Witwatersrand, que frequentou entre 1942 a 1946, foi contemporânea do futuro marido e companheiro de vida e de luta – Joe Slovo -, bem como de Nelson Mandela. Estudou ciências sociais que lhe garantiram os instrumentos para o combate intelectual e político. Estava do lado dos oprimidos, dos vexados pela História, dos amofinados pelo regime – os violentados, os aviltados, os molestados, os injustiçados. Sempre esteve. A sua vocação, por assim dizer, era o jornalismo, era a denúncia, era a contestação, era a rebeldia. Apoiou a luta dos mineiros em 1946, esteve na campanha da resistência pacífica dos indianos em 1950, ou nos protestos contra o banimento do Partido Comunista nos anos 50. Esteve sempre do lado certo da História.

 

Casa-se com Joe Slovo em 1949. A casa de ambos converter-se-ia numa célula política, lugar importante para a conspiração, para reuniões e debates, naqueles duros anos 50. Ela é já então uma activista intrépida. O legendário fotógrafo Peter Magubane, que tem a provecta idade dos 90 anos, tem uma fotografia de Nelson Mandela confabulando com Ruth First nos tempos em que ambos combatiam o apartheid. É uma belíssima imagem desses tempos acirrados e fascinantes da História – testemunho e testamento da História. First e Slovo são brancos e combatem a supremacia racial e incivil instalada no seu país.

 

Ruth é presa, tal como Nelson Mandela, no processo e, depois, Julgamento por Traição (1956-1961). No entanto, as acusações do regime foram retiradas e todos os réus absolvidos. Aquando da declaração do estado de emergência, na sequência do massacre de Sharpeville e da dura repressão, foge do país, contudo retorna a Joanesburgo seis meses depois. Torna-se editora do “New Age”. Importa citar a sua passagem pelo “The Guardian” e pelo “Fighting Talk”, igualmente. Aliás, seria novamente detida, em 1963, por conta do seu activismo e dos artigos que escrevia. Esteve na solitária 117 dias e redigiu um testemunho dessa experiência. Foi, indubitavelmente, a primeira branca a experimentar essas agruras.

 

Nelson Mandela e muitos dos seus companheiros, na sequência da “Operação Mayibuye”, são presos. As anotações de Mandela sobre a guerrilha e os seus diários da sua célebre viagem de 1962 (ilegal para o regime) eram incriminatórios. Walter Sisulu, Dennis Goldberg, Govan Mbeki, Ahmed Kathrada, Raymond Mhaba, ou Andrew Mlangeni estão entre os réus. Estavam todos arrolados no célebre Julgamento de Rivonia. Oliver Tambo, Joe Slovo e Ruth First também foram envolvidos.

 

Joe Slovo exilara-se no Reino Unido. Quando Ruth ganha o direito à liberdade, ela e as três filhas, juntam-se-lhe. Nas décadas 60 e 70, a viver na Grã-Bretanha, é uma activista anti-apartheid destemida e escreve uma série de livros audazes e tem uma brilhante carreira acadêmica. A sua história em Moçambique está umbilicalmente ligada ao Centro de Estudos Africanos, onde desempenhará o papel de directora de pesquisa, coadjuvando Aquino de Bragança, seu director, pela mão de quem viera. Ao abandonar o Reino Unido juntava-se a uma geografia que lhe devolvia a proximidade com o seu país e a sua luta. À época, Slovo vivia em Angola. Posteriormente, estabelece-se em Maputo. A fronteira era importante para a luta e para as actividades do Umhkonto we Sizwe.

 

Quando chega a Moçambique, em meados dos anos 70, Ruth First é uma intelectual afirmadíssima e autora de uma importante obra. O Centro de Estudos Africanos, inspirado no remoto CEA criado em Lisboa por Mário Pinto de Andrade e seus companheiros nacionalistas africanos, que funcionou inicialmente em casa da Tia Andreza, tia da santomense Alda do Espírito Santo, é uma experiência, de laboratório social, reproduzida não só em Moçambique. Na Guine Bissau, o próprio Mário de Andrade será propulsor de um dos CEA mais activos e formará importantes investigadores e intelectuais, entre os quais está o proeminente Carlos Lopes, uma das mentes cintilantes de África hoje, que é dessa fornalha.

 

Em Moçambique, o CEA tem um papel decisivo no estudo e na problematização social do novo país.  Uma abrangente pesquisa colectiva de campo, por si dirigida, entre 1977 e 1979, sobre a situação do trabalhador migrante moçambicano de origem camponesa, nas minas sul-africanas, é um dos trabalhos pioneiros no campo da economia política ou da sociologia económica em Moçambique, ou, se quisermos, das ciências sociais moçambicanas, e um dos vibrantes legados de Ruth First. Seriam estes camponeses migrantes, expostos à indústria do Rand, fautores da industrialização na nova realidade social e política de Moçambique?

 

Ruth era uma militante engajada na luta anti-apartheid, mas nem por isso deixava de ser uma cientista social de grande gabarito intelectual e com um aparato metodológico inatacável. As suas causas não lhe tolhiam a racionalidade. Sendo uma socióloga marxista, por assim dizer, mesmo quando a realidade social desmentia a ideologia ou aquilo que se pretendia politicamente, não pervertia os números. Os seus trabalhos estavam alicerçados em dados estatísticos e em evidências empíricas sólidas. Não os torcia a favor da política.

 

Gillian Slovo, a sua filha do meio, é uma escritora reputada no Reino Unido. É autora, entre muitas obras, de “Every Secret Thing”, um relato biográfico onde retrata, com evidente e comovente candura, a sua mãe, os seus pais – melhor dizendo -, as suas lutas e as suas heranças políticas. É um poderoso testemunho. Por outro lado, Rob Davies, que chegou a Moçambique em 1979, jovem branco activista anti-apartheid, integrou a equipa do CEA, trabalhou com Ruth, faz o testemunho disso no seu mais recente livro “Towards a New Deal – a political economy of the times of my life”. São as suas memórias depois de servir os governos do ANC ao longo de duas décadas. Ele relata os tempos de Moçambique e da revolução e dos sonhos que então acalentavam naqueles anos. Chegou a estar na mira de Craig Williamson, o carrasco de First.

 

Williamson é uma figura tenebrosa. Está na origem de assassinatos e atentados em vários países, de Angola ao Reino Unido, passando por Moçambique, visando activistas e combatentes anti-apartheid. Seria, no entanto, beneficiário de uma amnistia da Comissão da Verdade e Reconciliação, o que exasperou as filhas de Ruth First e Joe Slovo, que intentaram, inclusive, a postergação da mesma. Paradoxos da nova África do Sul.

 

No dia em que a mataram, no Centro dos Estudos Africanos, que tem um memorial com o seu nome e o de Aquino de Bragança, Ruth estava na companhia de Aquino, que ficou ferido, bem como do seu camarada Pallo Jordan e da investigadora americana Bridget O´Lauglin. As imagens deste atentado são pungentes. Depõem sobre um tempo que tendemos a esquecer e que foi distinto na história entre os nossos países. No ano anterior, Matola tinha sido atacada, resultando na morte de activistas sul-africanos e de moçambicanos inocentes. O que quitávamos deste esforço era a destruição da nossa economia e a morte dos nossos concidadãos. Dois anos depois, em 1984, Samora Machel e Pieter Botha intentam um Acordo de Nkomati. O ANC viu-se atraiçoado. Ainda hoje vivemos contrafeitos desse pacto e as nossas relações continuam irresolutas.

 

A distância destes 40 anos não vejo referida, entre nós, a sublime figura de Ruth First. É a nossa congénita amnésia? Não fosse o seu vulto de intelectual, ou o seu combate intrépido contra o regime de segregação racial, a sua marcante passagem pelo CEA, em Moçambique, num tempo e numa circunstância em que as ciências sociais procuravam ser o laboratório da revolução em curso, ela mereceria de nós, no mínimo, um preito, um tributo, um reconhecimento. Para além da desmemória e do descaso, somos desagradecidos e deslembrados. Há uma história de sangue que nos une à África do Sul, contudo somos incapazes de a nobilitar. Dos dois lados da fronteira. O Acordo de Nkomati – e todas as contradições que encerra – não pode explicar tudo quanto à nossa displicência e omissão. Moçambique hipotecou, severamente, o seu presente e o seu futuro para a liberdade dos sul-africanos. A remuneração disso não pode ser a desatenção, o lapso e a indiferença.

 

Ruth First não viveria os tempos da liberdade que chegariam na década ulterior. Joe Slovo, o seu companheiro de vida, ainda viu a África do Sul livre e foi, por alguns parcos meses, ministro de Nelson Mandela, antes de ser tolhido pela doença e pela morte. Uma pintura emblemática do seu marcante rosto, numa das casas sociais do bairro de Langa, na Cidade do Cabo, à beira da estrada, ilustra o lugar de Slovo na história da África do Sul. 40 anos após a sua morte, Ruth continua a ser, para mim, uma figura inspiradora. Descobri, amarrado, por uns dias, numa das docas da mesma Cidade do Cabo, há dois anos, um navio patrulha, com o seu nome e, confesso, fiquei emocionado. Sabia que o seu nome dera crédito à toponímia em algumas cidades da África do Sul, mas desconhecia a monta inscrita naquele navio.

 

Em Moçambique, a despeito da pedra evocativa no CEA, não lhe conheço outra valia que a tenhamos prestado. A Slovo concedemo-nos a honra de uma rua na baixa da cidade de Maputo. Não obstante, o nome de Ruth First está irreversivelmente ligado à minha humilde história pessoal. Afinal, foi naquela noite ominosa que eu cometi os meus primeiros versos. Passam 40 anos! Lembro-a não apenas por isso. Ela é uma grande intérprete do destino da África do Sul, de Moçambique e da África Austral. É evidente que laboramos hoje no lodo de outros equívocos e outros ímpetos, aluviões incapazes de sufragar o que a História de bom nos designou, ou de autuar os excessos – afinal de contas assim ditam os eufemismos! – que estarão na origem dos desacertos que ainda hoje nos perseguem e assombram.

 

KaMpfumo, 17 de Agosto de 2022

Rui Knopfli, nascido em Inhambane, a 10 de Agosto de 1932, faria hoje 90 anos.  Um acaso está na origem da minha descoberta juvenil de o “Reino Submarino, publicado em 1962. Esse encontro desencadeou um tumulto, difícil de descrever, em mim. Aquele tom estava fora do tom. Aquela poesia parecia estranha. Aquelas imagens, aquela sonoridade, aquelas metáforas. Aquele poder discursivo, barroco, torrencial por vezes, alegórico. Sempre cativante, sedutor e encantatório. Quase sempre pungente, língua dilacerada e dilacerante. Voz dos eleitos. Oriundo de uma educação literária onde avultava a poesia engajada e revolucionária, no lídimo contexto de afirmação de um novo país, desconhecia este poeta tão impressivo. Aliás, havia um ensurdecedor silêncio à sua volta.

Não se falava à época, meados dos anos 80, de Rui Knopfli.  Nascera em Inhambane. Filho de um funcionário da Administração, a sua família vivia, nos anos 30, em Vilanculos. A mãe foi tê-lo à Inhambane onde estavam asseguradas condições de assistência médica mínimas. O poeta só aos 20 anos irá conhecer a cidade que lhe dá naturalidade. Viverá na Moamba, na Namaacha, em Magude. Curiosamente, Magude tem uma importância capital sob o ponto de vista literário. Foi lá, aos 15 anos, que começou a ler livros emprestados. Estava-se nos finais dos anos 40.

No final da juventude e já na capital teve encontros decisivos: Fonseca Amaral e João Mendes – os mentores da sua geração -, José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar ou Ricardo Rangel. Em casa da Noémia, a pretexto de ouvir o mítico Daíco, empreendem conversas subversivas. Não estavam isentos da perseguição política. Aquando das eleições de 1949 e da candidatura desafiante de Norton de Matos (que concitou tantos jovens africanos em Moçambique e em outros países) colam cartazes, promovem reuniões, conspiram. Alguns são presos, interrogados e mesmo espancados. Aníbal Aleluia é violentamente sovado. Rangel e Noémia não são isentos da bordoada pidesca. Knopfli, por conta da raça, é humilhado verbalmente.  Era branco e a PIDE tinha critérios epidérmicos no seu acto incriminatório. Mais tarde, em 1952, foi parar aos calaboiços por um dia. Tinham importado livros inobedientes.

Em 1959 publica, aos 27 anos, o seu primeiro livro. Alguns companheiros de juventude tinham emigrado ou se exilado noutras latitudes. Rui terá, no entanto, uma passagem por Joanesburgo onde estuda e escreve alguma poesia em inglês. Aliás, no seu livro de estreia essa influência anglo-saxónica já é visível: “Velho poema da cidade do ouro”. Mais tarde ver-se-á ampliada. Sobretudo no seu encontro com T.S. Eliot, que traduz e glosa. Mas é a evocação da sua cidade, do seu tempo de infância, “da sociologia de esquinas”, dos jogos “pueris de sexo”, mas também a consciência de um lugar e de um tempo em tumulto, em transição, em transformação. O título do livro é uma provocação ou, se quisermos, o assumir dessa consciência de um tempo que mudaria, inexoravelmente: “O País dos Outros”.

Como disse intentei o seu conhecimento através de “Reino Submarino” (1962). Os poemas elegíacos foram aqueles que mais me impressionaram: “A Menina do Retrato”, “Encontro”, “Monólogo”, sobretudo “A Uma Criança Longe”: “Escrevo-te estas palavras/ sabendo que as não lerás” ou ainda: “A morte é isso, é acabar/ simplesmente, não acontecer mais.” Este é um dos poemas que mais remotamente recordo, um poema dolorosamente biográfico.

Rui Knopfli: “Nada me auxiliam as lágrimas/ que me salgam a face/ e o muito que tenho blasfemado/ de borco, rente ao teu silêncio gelado. / Esta a lógica prosaica dos factos: / Continuamos a viver, dolorida/ a consciência/ da tua cada vez maior ausência. / E teu pequeno corpo moreno, / que nem todo o meu amor aquece, / é um palmo de ternura/ que apodrece.”

Este livro dedicado à memória da filha é atravessado por esse tom pungente de versos elegíacos. O poema “Pequena Elegia” termina com estes versos que nunca me esqueci: “Inteira, a tua morte/ viaja dentro de mim.” O livro tem outras elegias, como aquela dedicada ao poeta Reinaldo Ferreira, que morreu em 1959: “O que na vida repartiu seu poema/ por alados guardanapos de papel, / o criador de sonhos logo perdidos/ na berma dos caminhos, / o mago que pressentia o segredo/ da beleza perene”. Este ano, pleno de efemérides literárias, foi também o ano do centenário de Reinaldo.

Deste livro destaco ainda o poema “Adeus Xico”, uma dolorida memória da juventude, poema que eu declamei inúmeras vezes. O poema é uma longa homenagem a um companheiro da juventude morto aos trinta anos. Ainda hoje quando recordo este texto oiço os acordes da “Patética” que o poeta cita profusamente neste texto. Seria, porém, “Winds of change” e “Velho Colono”, dois dos mais reveladores poemas deste impressivo “Reino Submarino”, que me acompanhariam, mais frequentemente, ao longo destas quatro décadas de convívio apertado com a poesia de Rui Knopfli.

Rui Knopfli: “Sentado no banco cinzento/ entre as alamedas sombreadas do parque. / Ali sentado só, àquela hora da tardinha, / ele e o tempo. O passado certamente, / que o futuro causa arrepios de inquietação. / Pois se tem o ar de ser e o passado, / os dois ali sentados no banco de cimento. // Há pássaros chilreando no arvoredo, / certamente. E, nas sombras mais densas/ e frescas, namorados que se beijam/ e se acariciam febrilmente. E crianças/ rolando na relva e rindo tontamente. // Em redor há todo o mundo e a vida. / Ali, está ele, ele e o passado, / sentados os dois no banco de frio cimento. / Ele, a sombra e a névoa do olhar. / Ele, a bronquite e o latejar cansado/ das artérias. Em volta os beijos húmidos, / as frescas gargalhadas, tintas de outono/ próximo na folhagem e o tempo. // O tempo que cada qual, a seu modo, / vai aproveitando.”

Citei o poema na íntegra. Aqui está já o grande poeta que se iria revelar, na plenitude, no livro “Mangas Verdes com Sal” (1969), depois de “Máquina de Areia” (1964). Apetecia-me citar na íntegra também o “Winds of change”. Li-o até à exaustão. Há outros poemas extraordinários neste livro. Como “Fim de tarde no café”. Como tantos outros. Não há aqui espaço para os acolher. A segunda obra de Rui Knopfli que eu li foi esse inigualável “Mangas Verdes com Sal”, o livro da sua completude. Tinha um sulfuroso prefácio do Eugénio Lisboa. Recordo-me de poemas e versos que me ficariam para sempre na memória. Do poema “Não obstante”: “nunca escrevi versos que não fossem de amor”. Ou “o meu Paris é Joanesburgo”, do poema “À Paris”. O poema aforístico “Progresso”: “Estamos nus como os gregos na Acrópole/ e o sol que nos mira também os fitou. / Mas fazemos amor de relógio no pulso”. Livro sardónico, como sempre, pungente, dolorido, profundo. Ali se amplia o estro que fala do seu quotidiano, do seu profundo humanismo. Ali está o poeta erudito e, sobretudo, a mestria do seu labor limae. O seu depurado labor oficinal.

Durante anos impressionou-me o poema “Aparição”, li e reli “Hackensack”, que cito no frontispício do “Maputo Blues” e como o título revela é uma referência a Thelonious Monk. Citei abundantemente o poema “Velasquez”: “Só de perto te apercebemos: é de baixo/ que os gigantes te miram”, li e reli “A Descoberta da Rosa”, declamei “Mangas Verdes com Sal”, glosei “Lembranças do futuro”: “só os poetas têm lembranças do futuro”, comovi-me com “Praça Sete de Março”, exultei com “Disparates seus no Índico”, pilhei versos como em “Contrição” ou consignei ao futuro a minha escolha da melhor poesia moçambicana do século XX o título “Nunca Mais é Sábado”.

A mitologia da Ilha como tema central da poesia moçambicana devemo-lo a Rui Knopfli e ao seu roteiro belíssimo sobre a “A Ilha de Próspero” (1972): “Ilha, velha ilha, metal remanchado, / minha paixão adolescente, / que doloridas lembranças do tempo/ em que, do alto do minarete, / Alá – o grande saca! – sorria/ aos tímidos versos bem comportados/ que eu te fazia”. Este livro é notável, uma alquimia perfeita entre texto e imagem, com fotografias belíssimas do poeta e fotógrafo. O livro tem uma origem remota – o poema “Ilha Dourada” -, que vem no seu livro de estreia O País dos Outros.

Rui Knopfli: “A fortaleza mergulha no mar/ os cansados flancos/ e sonha com impossíveis/ naves moiras. /Tudo mais são ruas prisioneiras/ e casas velhas a mirar o tédio. / As gentes calam na / voz/ uma vontade antiga de lágrimas/ e um riquexó de sono/ desce a Travessa da Amizade. / Em pleno dia claro/ vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos/ de sal e esquecimento”.

Se “Mangas Verdes com Sal” era, indubitavelmente, o seu alto canto, a plenitude, a maturidade, “O Escriba Acocorado” (1978), publicado depois de o poeta abandonar “a capital da memória”, coagido pelos ventos da História, seria aquele que haveria de me parecer o seu livro mais conseguido. Aliás, tanto este titulo, como “Máquina de Areia”, “A Ilha de Próspero”, ou, mais tarde, O Corpo de Atena (1984) são poemas únicos em vários cantos.

Rui Knopfli: “Servidor incorruptível da verdade e da memória, / escrevo sentado e obscuro palavras terríveis/ de ignomínia e acusação” – começa assim o poema “Proposição”, que termina: “A História que há-de ler-se é por mim escrita. / Anonimato igual nos cobrirá. A estas palavras não.”. O poema seguinte chama-se “Pátria” e foi glosado por outros tantos poetas, entre os quais Heliodoro Baptista ou Luís Carlos Patraquim. “As árvores chamavam-se casuarina, / eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também/ tinham nomes por que era costume designá-los”.

O poema que mais me impressionou deste livro – “As Imagens Quebradas” – um diálogo intertextual com Eliot: “Uma última vez percorro a cidade no dia / em que começa a minha morte. Reconheço/ estes lugares apesar da mudança e a sua / esquiva familiaridade roça-me as tolhidas/ asas da memória. Aqui escrevi. Naquela // sombra imaginei. Entre uma e outra coisa, / vivi. (…) // Caminho// pelos lugares queridos, sem tristeza, nem mágoa, / altas, condoídas árvores, lagos serenos escorrendo/ de meus olhos, hálito azul da tarde que, por cair, / de sombras vai tranquilizando o horizonte. Só, / meu coração, bate contra a pedra e o silêncio.”

Publicaria antes, como aludi o livro “O Corpo de Atena”, em 1984, no qual recupera um belíssimo poema – “Notas para a regulamentação do discurso próprio”, inicialmente dado a conhecer nos cadernos Caliban, que promoveu com o poeta João Pedro Grabato Dias. Há depois um longo interregno, um ínterim poético que dura treze anos. “O Monhé das Cobras” (1997), a sua derradeira obra, é publicada meses antes do seu falecimento, que ocorre no dia de Natal desse ano.

Rui Knopfli dizia-me, numa remota entrevista, quando lhe perguntei como via a questão da nacionalidade literária, o seguinte: “A nacionalidade literária é aquela que é proclamada pelos livros que nós escrevemos, pela conjuntura cultural, pela inteligência social que os produziram. Os meus livros – mesmo aqueles que eu escrevi desde que saí daqui – o seu referente é sempre, obrigatoriamente, moçambicano”. Nessa mesma conversa, nobilitava Craveirinha: “Ele é o maior de todos nós, com a Noémia ao lado e eu. Honra minha.”

O poeta, que retornaria a Moçambique, numa comovida visita em 1989, não ficou apenas na “exclusividade da memória privada”. Encontrou-se, num jubiloso convívio, com uma nova geração, que o reivindicava. Vivia então em Londres, o seu “exílio doirado”. Haveria só de ir a Portugal para, no final da vida, se entrevistar com os deuses. No poema “As Origens”: “Paro diante do jazigo de família, / Vila Viçosa, Alentejo profundo. Afinal tudo/ principiou aqui. O apelido seria, / puramente como outros, alentejano, / não fora a incursão oportunista// do estrangeiro, que perturbaria o resto, / confundido o futuro e as interpretações.”

Seria despiciendo, nesta homenagem, referir-me, com exaustão, à extensa polêmica sobre a nacionalidade literária e a dificuldade que sempre houve em enquadrar a obra de Rui Knopfli, sobretudo em Portugal. Isso caberia numa outra circunstância, não sendo o escopo desta breve evocação neste dia em que celebramos os seus 90 anos. Regozijo-me, a esta distância, por verificar que há uma geração, muito mais nova que a minha, que o reivindica, cultua e mitifica. (Rui Knopfli: “Chamais-me europeu? Pronto, calo-me. / Mas dentro de mim há savanas de aridez/ e planuras sem fim/ com longos rios langues e sinuosos, / uma fita de fumo vertical, / um negro e uma viola estalando.”)

Quando o descobri, há quarenta anos, estava de certo modo proscrito. O tempo, esse grande escultor, devolveu-o ao nosso convívio. O tempo, que é a matéria primordial da sua fecunda poesia, uma das mais altas expressões líricas deste país. Felizmente, remido: lemo-lo, cultivamo-lo, amamo-lo. Citamo-lo e glosamos a sua obra. Há teses universitárias, há livros evocativos, os poemas circulam, na medida do possível.  Esta recidiva acontece apenas dentro da tribo literária? Não importa. Ele está tão esquecido e deslembrado como estão tantos outros poetas. Coisas desta pátria, que é nossa, esta pátria que também é sua. Mesmo quando ele quer, como Fernando Pessoa”: “pátria é só a língua em que me digo”, Rui Knopfli é também, ou sobretudo, poeta moçambicano. Um grande poeta moçambicano.

Rui Knopfli: “Porque eu teimo, / recuso e não alinho. Sou só. / (…) / Não entro na forma, não acerto o passo, / não submeto a dureza agreste do que escrevo / ao sabor da maioria. / Prefiro as minorias. / De alguns. De poucos. De um só se necessário/ for. Tenho esperança porém: um dia / compreendereis o profundo significado da minha / originalidade: I am really the Underground.”

KaMpfumo, 10 de Agosto de 2022

Quando se diz “uma narrativa faz de conta” a ideia que fica é a de que estamos diante de uma coisa que não é, ou se quisermos, que pretende ser, que se insinua, que tenta. Mas neste caso em que o tema é  Jorge de Oliveira e o seu último livro, apresso-me a esclarecer que o termo “faz de conta” pretende ser apenas uma saudável provocação, uma alusão a uma forma de escrita que desde sempre o escritor pretendeu construir, “fazendo de conta” que a literatura também se pode erguer sem se estar amarrado aos paradigmas que orientam a arte de escrever. O Jorge de Oliveira vem criando o seu percurso literário de uma forma desinteressada, posicionando-se como um escritor que nunca levou a escrita demasiadamente à sério, ou seja, como uma questão de vida ou de morte, de tudo ou nada, para ele, escrever é uma imensa fonte de prazer, uma maneira de retirar da vida a solenidade que se lhe veste, emprestando-a outra roupagem, sem lhe retirar a seriedade que lhe é devida. Talvez seja a espontaneidade e a simplicidade, o grande mérito deste livro.

“Quando os dias correm mal aos astros” é um livro de contos, uma colectânea que fala de um povo em constante sofrimento, incapaz de ultrapassar as vicissitudes da vida e coagido por um poder que de uma ou de outra forma impõe a sua ordem, impedindo o progresso e o bem-estar. Este livro tem a particularidade de se apresentar como se fosse um álbum de fotografia e o Jorge de Oliveira uma espécie de fotógrafo ambulante que percorre os lugares mais desencontrados desta sociedade para captar com o seu “click” as imagens mais perturbadoras desta vida, assim como as situações mais caricatas, pois, como se sabe, “um escritor exerce sempre uma acção moral”, ele se insurge, se emociona, e depois, através da escrita, reivindica, consciencializa. Parece- nos ser esta a função do último livro do Jorge de Oliveira.

“No gelo do silêncio, sentiu-se o céu desabar sobre as cabeças. Pôs o dedo no ar, não queria incutir medo mas estimular, nos inseguros, a confiança em si e garantir a vitória final contra os inimigos da sua pátria de heróis. Ele vinha com as nuvens, toda gente via, até os que sonhavam abatê-lo, em si estava o Alfa e o Ômega, era, fora e havia de ser, preenchia o Estado, utilizava uma vara de ferro e quem se metesse consigo morria partido igual a uma vasilha de barro. Os seus caminhos iluminavam qualquer um, logo todos deviam temê-lo e prostrar-se diante dele pois as suas sentenças andavam há muito descobertas. Quem não me conhece? Experimentem contrariar-me, faço como da outra vez, retalho o mis espertinho, separo unhas e pestanas e meto na minha caixinha de joias. Estamos juntos?”

Jorge de Oliveira oferece-nos um livro com um título que nos sugere muitas coisas, “Quando os dias correm mal aos astros”, colocando-nos no dilema de questionar quem serão os astros, nós o povo ou os outros? E o que nos interessa saber? A única coisa que temos a plena consciência é de que “se os dias correm aos astros, ao Jorge a prosa corre bem!”. As estórias deste livro são construídas com a mesma naturalidade com que se respira, ou seja, da mesma forma como o autor observa as questões obscuras que afugentam a nossa sociedade, ou seja, “o luto que é viver no lado mais sombrio da pobreza”. São essas incongruências sociais que Oliveira privilegia de forma particular na sua obra fazendo dele uma espécie de griot que canta permanentemente à injustiça.

Cada conto é um conto, isto é, cada história vale por si mesmo, a fazer-nos recordar as nossas próprias histórias, os cenários que -assistimos no nosso país. Não restam dúvidas que o Jorge de Oliveira é um bom fotógrafo, quer dizer, um bom escritor, não existe palavra amais nem a menos, cada palavra tem a sua missão, por isso o espelho que Oliveira coloca diante de nós nos faz ver o país inteiro, as nossas pobrezas, as nossas sacanices, as nossas alfactruas. Os diálogos são elucidativos. Os perfis dos personagens são magistralmente definidos. Rimo-nos ao longo da leitura. Rimo-nos da triste caricatura que somos. Rimo-nos porque um livro que não nos faça rir é um livro que não vale a pena. “Quando os dias  correm mal aos astros” traz a interessante inovação de ter personagens sem nome, o que os identifica é o seu aspecto físico, isto é, “o homem alto”, “o funcionário baixo”, “o mais velho”, “a mulher de tranças onduladas e batom púrpura”, “o repórter de cor torrada”, “a miúda de vestido curto”, “a professora de feições orientais”. É assim que o autor caracteriza os seus personagens, “talvez para os proteger dos feiticeiros”, como o disse o escritor Suleiman Cassamo nessa sua saudável ironia. Se quisermos, podemos dar-lhes os nomes que acharmos, isso pouco importa. O que interessa é a sua representatividade dentro da narrativa. Apenas isso.

Estamos perante um escritor com uma imaginação fértil que nos coloca diante de mil imagens, donde podemos encontrar os vícios do poder, as querelas pós-eleitorais, a violência, a corrupção. Poderíamos concluir estar perante uma temática sombria, talvez, de certa maneira, o seja. Mas Suleiman Cassamo, ao se referir a este aspecto disse: “ …nem por isso o livro é triste. E isso simplesmente dada à forma como Jorge de Oliveira aborda os assuntos. Mesmo quando trata de questões sensíveis ou aflora episódios chocantes, com desfecho cruel, ele vai até ao fundo. Parece ter como intenção chocar, sacudir, despertar a gente para as anormalidades que nos rodeiam. Jorge de Oliveira não expurga, não rejeita palavra, raramente se socorre de eufemismos. Mantém hirta a pena, isenta a mente e minucioso o retrato”.

A forma eloquente, despudorada e repleta de significados que nos é oferecida neste livro leva-nos a concluir que a estrutura narrativa de Jorge Oliveira pode ganhar uma maior expressão no romance, os contos apenas asfixiam o escritor, porque está perfeitamente claro que o Jorge é um motorista de longo curso e as suas viagens são para lugares distantes. O romance é, sem sombra de dúvidas, o seu porto de ancoragem. É verdade ou não é, Jorge?“

 

 

A cidade deixou de ser tão amável, amável no sentido de objecto de amor.

É mais difícil gostar das nossas cidades porque elas estão como estão. Estão doentes…

Mia Couto.

 

Boa tarde a todos.

Começo esta minha intervenção felicitando a Universidade Pedagógica de Maputo, através da professora Aissa Mithá Issak, pela promoção da arte literária sempre que possível. O país tem várias universidades e institutos superiores, mas são poucas as instituições comprometidas com a divulgação dos livros e dos autores.

Felicito, igualmente, à Judite Chipenembe, pela belíssima apresentação do livro que fez. Penso que a sua abordagem ajuda-nos a ampliar horizontes na forma como podemos ler o livro e na maneira como podemos pensar à volta do processo criativo dos autores dos textos. Sinceramente, eu até poderia não dizer mais nada sobre esta antologia, que todos nós regressaríamos a casa satisfeitos e realizados pelo que ouvimos. Parabéns, Judite!

Por fim, e não menos importante, um abraço muito especial ao meu amigo Jessemusse Cacinda, que, para além de ter coordenado esta edição da antologia, também assina o texto “Pedopsiquiatria”. No princípio do ano passado, o Jessemusse convidou-me para dirigir uma oficina de escrita criativa a que dei o título “A cidade e as escritas: Nampula, um lugar de partida”. Foi um exercício extremamente interessante, que me lembrou a minha eterna paixão: dar aulas. Igualmente, o evento foi um excelente momento de partilha de ideias. Como nos encontrávamos num período de “confinamento”, ao longo de cinco ou seis semanas, a oficina foi toda virtual. A minha abordagem começou de “A problemática da literatura (entre a abrangência e o particular)” até a apresentação de algumas ideias ao que considerei “Propostas para o derradeiro momento do conto”. Foi realmente incrível essa experiência com autores como Hermínia Francisco, Belchior Eduardo, Tony Amurane ou Eunice Moreira, que infelizmente não faz parte desta primeira edição da antologia. A partilha de percepções literárias foi tão excepcional que hoje nos encontramos aqui na Biblioteca da UP Maputo para lançar esta obra. Felicito-te por isso, Jessemusse.

À parte as felicitações, bem, a minha relação com Nampula é muito fantasiosa. Infelizmente, e até tenho vergonha de dizer isto em público, eu não conheço Nampula. Entretanto, tenho um fascínio enorme pelo espaço urbano e rural da província e, sobretudo, pela Ilha de Moçambique. Além disso, há 12 anos, quando ainda almejava tornar-me poeta ou escritor, inventei um pseudónimo, que é Mirette Muzi. Ambos os termos significam remédios. No primeiro caso, Mirette vem do emakhuwa e Muzi provém do rhonga, minha etnia.

Ainda há 12 anos, muito longe de imaginar que um dia iria apresentar um livro sobre Nampula, meti-me em aulas de emakhuwa, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Lá aprendi termos como “salaama”, “munrowa vayi” ou “koshukuro”. Então, cá estar para poder partilhar convosco as minhas leituras sobre a antologia da Ethale Publishing constitui, de facto, um grande privilégio.

Ora, há dias, tive a oportunidade de conversar com o escritor Juvenal Bucuane, na AEMO, a propósito do seu mais recente título, sobre a Charrua. Recupero a memória dessa conversa porque a escrita da geração a que Bucuane faz parte, no sentido contrário, diz-nos muito sobre Nampula: antologia de His-es-tórias de uma cidade vibrante. Ou seja, enquanto em autores como Ungulani ba ka Khosa, Aldino Muianga ou Marcelo Panguana temos esse movimento do campo para a cidade, com tudo o que essa trajectória encerra em termos de paisagem do espaço, da tradição e da cultura, nos textos desta antologia temos um outro fenómeno. Aqui a cidade não é um ponto de chegada, como para aqueles autores, mas de partida. A cidade, em Nampula, é uma janela aberta para o país inteiro e, consequentemente, para Índico.

Ler esta colectânea de histórias significa uma maneira categórica de conhecer a terceira maior cidade do país. Para quem não conhece Nampula, como eu, tem a possibilidade de percorrer, através da escrita, ruas, avenidas, espaços físicos, sociais e até mesmo psicológicos. Cada autor, do seu jeito e activando determinadas técnicas narrativas, conduz-nos a esse vibrante espaço que é Nampula, onde se cruzam poetas de outros tempos e os prosadores de agora.

Se concordam comigo, a ficção é um mecanismo potente na construção e consolidação da imagem real. Ao escreverem sobre o espaço urbano, mais ou menos ao estilo Avenida Névsky, de Nicolai Gógol, os nossos autores redefinem a sua condição de cidadãos na mesma proporção que reinventam esses universos feitos de cor, sons e imagens.

Na nota do coordenador, Jessemusse Cacinda refere que Nampula é uma cidade marcante para todo aquele que a visita. Ao ouvir a Judite referir-se às ruas que conseguiu rever depois de ler o livro, até senti alguma inveja. Mas não conhecer, neste meu caso, pode ser uma vantagem no sentido de que crio ilusões e perspectivas inevitáveis. Ainda na sua nota, o nosso coordenador e editor refere que “Este livro é, por um lado, uma celebração escrita de uma cidade que merece entrar para o roteiro da literatura moçambicana”. Eu diria ainda mais. Esta antologia coloca Nampula no mapa literário moçambicano, digamos assim, do mesmo modo que Ana Mafalda Leite procede em relação a Tete, em Outras fronteiras (poesia). Por exemplo, quem lê a história “Como se o futuro tivesse conserto: o inverno duma vénia”, compreende que o narrador de Baptista Américo assume uma relação acesa com o espaço a que pertence: “Não me desgrudo da cisma de rever a cidade que me conhece a meninice e a mocidade, rever o miolo que rumina a memória” (p. 13).

Essa cisma do narrador contribui para que, através do seu campo visual, se apreenda o que pode simbolizar, parcialmente, a Cidade de Nampula. Há aí uma acentuada reciprocidade entre a personagem e o espaço. Afinal, um faz o outro e as duas categorias diegéticas tornam-se um só no nível global da história, na qual temos tempo sem relógios, estradas sem chapas, espera sem ansiedade, mas também saúde sem higiene.

O narrador de “Como se o futuro tivesse conserto: o inverno duma vénia” é uma personagem activa da sensibilidade, que nos permite captar cheiros, irritações causadas por congestionamentos e esses excessos que até se podem resumir em preservativos no cemitério.

O espaço urbano é, nesta antologia, sinónimo do conflito entre a ordem e a razão, a decência e a devassidão, a autoridade e a contrariedade. Um exemplo desta aplicação é a história de Belchior Eduardo, “O cágado que levou prisão”. Além dos inevitáveis cheiros que nas nossas cidades e vilas têm cor, esse texto, inclusive, é uma reunião de temperamentos, atitudes, movimentos e violência. Portanto, não temos aqui um mar cor de rosa, aliás, a cidade pode-se resumir no que se aproxima ao nome de uma excelente banda de rock: guns & roses. Ou seja, é um lugar da expectativa e da perdição, do amor e ódio, do afecto e da crueldade. Mas que lugar, neste momento em crise, não é assim?

Nampula: antologia de His-es-tórias de uma cidade vibrante é um livro onde se discute a moral e o ético. Os protagonistas são tendencialmente o canal privilegiado dessa construção. Talvez porque, em geral, essas personagens são seres imperfeitos num contexto social turvo. No já referido texto “Pedopsiquiatria”, Jessemusse Cacinda dá voz a uma personagem que deveria ser feliz na sua relação amorosa. Porque a felicidade poder ser algo distante, ela questiona-se num monólogo: “O que é um marido, se não um aventureiro” (p. 22). E mais à frente sentencia: “Os homens são mesmo fracos e mimados. Basta negar-lhes o sexo que os destróis” (p. 23).

No discurso de uma personagem feminina estabelecem-se certas fronteiras: entre o sexo e o desejo, a paz e o caos. Por isso o autor textual autoriza a narração de episódios sobre moçambicanos que, impedidos de ficar na sua querida Província de Cabo Delgado, têm de partir numa difícil viagem. Nesse ponto de vista, sim, Nampula é um lugar de chegada. No entanto, na maioria dos casos, parte-se do espaço físico e social daquela cidade para, necessariamente, se pensar as ruas, as infra-estruturas ou as comunidades como pertenças colectivas.

A Cidade de Nampula, nesta antologia, também é um espaço de afirmação identitária, onde as mulheres podem dizer NÃO com o mesmo rigor que muitas vezes se lhes exige que digam sim. Além do texto “Pedopsiquiatria”, “O moço da Rua das Flores”, que sugere uma rua concreta de Nampula, é um claro exemplo disso. Como não admira em Arsénia Ressique Amade, nesse texto a autora investe no erotismo, na sensualidade, na liberdade e na afirmação sexual feminina. Aqui a mulher é o verbo ser, estar e querer, porque não há apenas uma forma de a definir. Na verdade, ela é pela indefinição, além dos arquétipos, longe da padronização imediata. Nesse aspecto, a protagonista de “O moço da Rua das Flores” aproxima-se a essa personagem makhuwa que em Niketche, de Paulina Chiziane, dá sabias lições sobre o que se pode considerar plenitude da mulher, com plenos direitos que a humanidade a limita.

Com Arsénia Ressique Amade viajávamos pela vida noctuna de Nampula, pelo sentido do sexo (animalesco ou selvagem?) e pelas armadilhas prováveis do verbo poder.

Numa entrevista concedida a LEITE et al (2012), Mia Couto afirma, a certa altura, “só escrevemos sobre aquilo que amamos”. Concordando ou não com o escritor, essa frase aplica-se muito bem em relação aos autores desta antologia. Mas o que realmente me chama atenção nessa mesma entrevista é o seguinte: “A cidade deixou de ser tão amável, amável no sentido de objecto de amor. É mais difícil gostar das nossas cidades porque elas estão como estão. Estão doentes…”.

Bem, não é por me chamar Remédios que terei a pretensão de trazer alguma receita clínica para curar as nossas cidades. Trago essa citação porque, de facto, as nossas cidades confrontam-se com tantos problemas que fazem com que a esperança no futuro pareça coisa sombria. Se conseguirmos visualizar o futuro em função dos conflitos e dos constrangimentos do presente (alguns apontados pela Judite, até numa perspectiva sociológica), através da ficção, podemos inventar narrativas para influenciar o bem-estar, o sossego e a tranquilidade. No fundo, eu penso neste Nampula: antologia de His-es-tórias de uma cidade vibrante como tudo isso: um ponto de partida para pensarmos naquele lugar concreto, mas também para visualizarmos que tipos de cidades estamos a destruir ao longo do território nacional.

Enfim, temos aqui um conjunto de autores que merecem ser lidos, por nós e pelos habitantes dessas cidades que serão a nossa continuidade, quando partirmos.

 

*Intervenção na cerimónia de lançamento do livro Nampula: antologia de His-es-tórias de uma cidade vibrante, coordenado por Jessemusse Cacinda, realizada na Biblioteca da Universidade Pedagógica de Maputo, no dia 30 de Junho de 2022. Aqui, escrito de cor.

Nota: Judite Chipenembe foi uma das apresentadoras da antologia.

 

 

Fico bastante honrado por este convite para tecer breves linhas sobre um livro com o qual tenho imenso carinho. As razões são várias. Depois tratamos delas, tim-tim por tim-tim. O que me cabe dizer neste momento é que não vim fazer uma apresentação no sentido mais trivial desta actividade. E vou pedir perdão por isso porque já lá vão os tempos em que os eventos literários se despiram, quase que por completo, de alguns cerimonialismos. A Deusa d’África já disse, e muito bem, que não se faz poesia de mini-saia. Haja vista que, também, não se faz literatura de gravatas, terno italiano, sapato polido e vinco tinindo nas calças.

Voltando ao meu apreço pelo livro: o ano é 2020. Os tempos são pandêmicos. É Novembro. Os decretos abrem uma janela para a realização de alguns eventos com algumas restrições. Estamos em périplos pela província de Inhambane a divulgar o meu primeiro trabalho literário individual. Foi nessa altura que eu pude perceber que além de exímio prosador, Almeida Cumbane é um gajo mau. Isso mesmo. Eu disse: Almeida Cumbane é um gajo mau. De lá para foi sempre assim. Mau!

“Bro” é assim que me tem chamado. “Tenho um projecto na manga. É uma colectânea de contos e crónicas. Vou precisar da tua leitura e possíveis sugestões. Para que não seja um trabalho tedioso, eu vou enviando um texto por semana para que possas fazer uma revisão linguístico-literária até que se esgotem todos os textos da colectânea”. O discurso dele foi mesmo assim. Manhoso. Num país como o nosso, os escritores tornam-se revisores, críticos literários, livreiros, editores, designers e toda uma infinidade de actividades inerentes aos livros para poderem ganhar algum e sustentar os seus vícios. A proposta do meu amigo não veio com essa adenda de custos e orçamentos. Somos “bros”, não é? “Tudo bem, bro. Vamos trabalhar.” Foi a minha resposta enquanto fartávamo-nos de rir: eu, o Almeida Cumbane e o Emílio Cossa, quando dávamos um ar da nossa graça numa lagoa em Quissico. E eu disse cá para mim: tenho de rever as minhas amizades. Com gajos maus assim, não consigo dinheiro nem para o alvará do meu empreendimento.

Não passava uma semana, e eis que recebo no meu e-mail, a primeira investida da maldade do meu “bro”. Era um conto intitulado “Dona Pérola”. Li o texto num só trago. E meu discurso mudou: Almeida Cumbane é um gajo bom. O texto tinha pouquíssimas arestas por limar e eu julguei que as tivesse deixado de propósito para testar a minha atenção. E foi assim durante quase um ano. Textos e mais textos por corrigir até que num belo dia, voltou à carga e com outros “papos”. “Bro, aquele livro que estivemos a organizar paulatinamente já está pronto. Você é que conhece melhor os textos então tens de fazer a revisão. Mas agora com outros termos e condições.” Ele disse. Mas sobre isso falaremos noutro dia. Esta estória já vai longa, não é!

Portanto, foi assim que eu entrei em contacto com este livro. Dessa forma mágica e desinteressada. Daí o carinho que tenho por ele. Ao percorrer as 7 crónicas e 10 contos nele contidos, havendo momentos que estes dois géneros se misturam, pensei em Salvato Trigo quando na introdução do seu “Ensaios de Literatura Comparada Afro-Luso-Brasileira” afirma que

poderá parecer excessiva, reducionista mesmo, esta opinião, mas a verdade é que o texto literário africano moderno nem é tão transparente quanto parece nem é de tão fácil acesso quanto se julga. Recorrendo às palavras de Jacques Chevrier, o autor remata: a inteligibilidade dos textos do domínio africano passa, a maior parte das vezes, por um bom conhecimento antropológico, linguístico, histórico e até político do contexto de emissão da obra.

É nisso que resulta a experiência de leitura deste “a distante proximidade”. Numa primeira impressão, somos convidados a reviver o infortúnio de Genito. Um jovem com a vida sempre a desacelerar e teve a sorte de ser escolhido para representar o país numa turnée pelos palcos da CPLP. Por vários motivos, o jovem não consegue chegar ao aeroporto a tempo de seguir no avião que o esperava. O infortúnio faz com que Genito maldiga a si, o destino, a Deus e ao universo que, a seu ver, não conspira a seu favor. Algumas horas depois, uma notícia deixa-o sobressalto: o avião em que devia seguir despenhou quando sobrevoava Namíbia com destino a Luanda.

Mais adiante, aparece-nos uma narrativa intitulada “traídos pelo sono”. Quem é que nunca teve uma experiência igual? Em todo caso, nada será equiparado ao que ocorrera à Salmina (a esposa de Filmão) na sua palhota em Jonasse, província de Gaza, quando fora surpreendida pela luz do sol enquanto albergava o seu amante. Só lendo o livro para saber do desfecho deste imbróglio.

Depois de perpassar o texto a “a matreca da festa” e deleitar-se não só com o título mas com o enredo, surge, algumas páginas depois, “o vinho da discórdia” para perpassar questões como a corrupção e a promiscuidade entre o vileza e o egoísmo mesmo em momentos dignos de solidariedade e concórdia entre as pessoas.

A maior parte dos textos que nos são apresentados em “a distante proximidade” remontam momentos não muito específicos o que afasta a possibilidade de verossimilhança, se tomarmos o conceito no viés filosófico. Ora, tal não interfere no lato sensu literário do mesmo. Pelo contrário.

Vem este comentário a propósito do texto intitulado “carta de um invisível”, no qual o autor não fica alheio aos tempos pandémicos em que vivemos e dialoga com a Covid-19.

“Escrevo-te com alguma dificuldade existencial (ou talvez inexistencial) derivada do facto de que preciso de me apresentar, mas depara-se-me que, nos últimos tempos, não sei quem sou.” Ele diz.

Em todo caso, este diálogo com este mal que nos enferma e nos impusera restrições desmedidas, só revela que o escritor é, de uma forma ou de outra, uma voz imprescindível no domínio social embora exerça o seu activismo através da ficcionalização de mundos possíveis com base na realidade. Nesse exercício, ele deleita-nos e sobressalta-nos rumo a uma catarse dos nossos próprios medos, assombros e, por que não, desvarios.

O que também nos remete a este raciocínio, é o misticismo que serpenteia o texto intitulado “os filhos gémeos” no qual é difícil não estabelecermos um paralelo com uma situação vivida ou que nos fora contada sobre os túneis em que alguns concidadãos migram em busca da prosperidade. Outro aspecto bastante corriqueiro é o mote do texto “uma casa de alvenaria” que era o sonho do velho Mabunda cujos filhos, mesmo com posses, nunca chegaram de satisfazer senão em forma de cripta depois da sua morte. Enfim, o velho teve uma casa de alvenaria que os filhos julgaram que ele merecia.

Esta é uma amostra da temática que corporiza este “a distante proximidade” em que Almeida Cumbane não só se revela como um exímio “tradutor de línguas” (título de um dos seus textos) como revela que o comum, o corriqueiro que existe na plasticidade das nossas vivências não só é matéria de deleite no universo textual como o é de reflexão.

A capacidade de prender os olhos do leitor que estes textos trazem é típica dos mestres do suspense como Dan Brown, de quem o autor é admirador acérrimo, e de outros mestres da ficção como Franz Kafka em “Metamorfoses”, por exemplo, em que se denota uma narrativa riquíssima do ponto de vista de enredo sobre um mote aparentemente corriqueiro. É isto que encanta nos bons prosadores que Almeida Cumbane vai provando ser desde o seu primeiro livro, Ilusão à Primeira Vista, que mereceu o prémio literário TDM em 2016. Tal como naquele romance, os textos deste livro trazem-nos realidades rurais e urbanas com as quais convivemos diariamente e não nos damos conta delas.

Já dizia Arthur Schopenhauer: a tarefa não é ver o que ninguém viu mas pensar o que ninguém pensou sobre o que todo mundo vê. Se esta frase é de um grande filósofo e estamos a falar de um livro cuja autoria é de alguém com uma formação nesta área, abre-se uma janela biografista através da qual surgiria um belíssimo ensaio a quem se interessa por estás lides.

“A distante proximidade” descortina, também, os usos mais corriqueiros da língua na nossa tradição literária: trata-se de um Suleiman Cassano sem os neologismos que emergem da aportuguesação do ronga, sobretudo, e de um Aldino Muianga sem a opulência léxica que lhe é característica. Esta linha fronteiriça e identitária que traço através de uma tendência comparatista destes gurus da nossa literatura, pode ser a primeira pista para catalogar a escrita de Cumbane mas, atenção, sem rótulos.

Falando em rótulos, é chegada a vez de nos despirmos deles e vermos, nestas crónicas e contos, um material indispensável para as aulas de língua, tanto no secundário quanto no superior. Com toda vénia que voto aos nossos autores mais renomados, chegou o momento, meus caros, de preenchermos as nossas actividades lectivas, jornalísticas e ensaísticas com outras cores que nos são trazidas por escritores como o Cumbane que representam uma continuidade e ruptura quer estilística quer temática (ou conteudística, se quisermos) para com os seus antecessores.

Com este convite, algo presunçoso, convido a todos para a leitura destas crónicas e contos que Almeida Cumbane nos presenteia através do seu “a distante proximidade”. É obra!

[1] Texto de apresentação do livro a distante proximidade da autoria de Almeida Cumbane, chancela pela editora Kulera, no dia 25 de Julho no Festival Internacional de Poesia, organizado pela Associação Cultural Xitende, no paços do Conselho Municipal de Xai-Xai.

“Equalização” significa acto ou efeito de equalizar; uniformização; equilíbrio. É o que dispõe o dicionário da língua portuguesa. Mas também significa, em termos electrónicos, redução de distorção por meio da introdução de redes capazes de compensar a distorção própria de determinada faixa de frequências. Um equalizador gera equilíbrio, sintonia, concordância e sincronia dos sons. Para “linha” há uma panóplia infindável de significados que vão desde traço a fio, comunicação a estilo, molde a orientação, elegância a forma ou fisionomia. Seria bizarro a tentativa de citar aqui o que prescreve o dicionário sobre este vocábulo. O mesmo diria da palavra “vida”, que vai de existência à época, essência ou destino, fisionomia ou biografia, história ou sentido, eu sei lá! Seria igualmente enfadonho fazer a antologia do que este substantivo feminino (é importante que se lhe diga) exprime.

Detenho-me, outrossim, no cartaz e nas obras que enformam esta mostra e dou-me conta de que aquilo que aparentemente parece discordância ou barganha sintáctica deste título – “Equalização das linhas da vida” – é, afinal, a síntese da arte deste prodigioso nome das nossas artes: Chaná de Sá. A estilização usada no rosto que lhe dá voga e por meio do qual se consigna a obra em exposição desfaz qualquer dúvida a este respeito e produz, cabalmente, o sentido deste título e desta proposta ousada.

Chaná é um dos mais inventivos artistas da novíssima geração. Um dos mais dotados e, no entanto, um dos mais humildes. Digo humilde e emprego esta locução no melhor e mais alto sentido da mesma. Sabe do seu ofício e sabe da sua singularidade, mas não se perde na soberba. Cerebral e intuitivo, é ainda um dos nossos criadores mais profícuos e proficientes. Tudo isto subsídio da sua técnica, com o seu traço e com aquilo que ele transmite ou significa. O seu traço é único. As suas cores também. As técnicas, quase sempre miscelânea das mesmas, idem. Tintas naturais, aquarelas e acrílicos.

A vida, o seu sentido e significado, a sua explicação ou o seu milagre – avultam na sua obra cordões umbilicais –, o seu assombro ou a sua dádiva são um tema recorrente da sua pintura. Há sempre nas suas telas cordões, sequências, linhas, cordéis, fios, vínculos. O seu génio criativo parece ater-se a essa procura,  a essa busca quase obsessiva: de ligar, ajustar, direcionar, dar um sentido ou significado  a essas formas, figuras ou composições, essa busca de sintonia, de sincronia, de frequência e uniformização, com técnicas das mais diversas, cores e traços, às vezes ténues, outras tantas fortes e intensas, que são, no fundo, as linhas da vida, afirmação da procura do entendimento desse destino que a existência, desde o nascimento à morte, se nos impõe.

Estas figurações, estas expressões, estas feições, estes vultos, estas expressões, estes semblantes, estas cores, estas posturas, estas linhas, estes traços, estes sinais, estas impressões que se reproduzem, de forma recorrente, nestes quadros, sempre lá estiveram, ainda que de forma oculta – ou se quiserem dissimulada –, em toda a sua criação. Exprimem a vida ela própria. São a sua tessitura e revelam a sua estrutura, composição ou textura e contextura.

A forma como Chaná trama e ata ou entrelaça estes fios que compõem a vida não é óbvia, mas ali reside a divícia da sua poesia, da sua arte e do seu génio. A arte, a grande arte, não é necessariamente o domínio do explícito. Um poeta, um grande poeta no caso, meu mestre, dizia-me, há décadas, quando eu debutava no ofício: a poesia é a arte da dissimulação. Eu acrescentaria hoje: toda a arte subscreve a arte da dissimulação – passe-se a redundância. Não obstante, a arte não tem que ser necessariamente obscura, nem flagrante. A arte é magnificente, pecuniosa, fecunda. A arte inquieta-nos, desassossega-nos, subverte-nos. Não podemos sair indiferentes de um encontro com a obra de um artista. Um grande artista, como é o caso deste, instiga-nos sempre, provoca, espicaça. A arte, a grande arte, também repara, redime, expia. Quase sempre vamos ao encontro da criação em busca disso mesmo: redenção ou absolvição.

Disse, não há muito, a respeito de artistas da mesma progénie, que se há domínio em que Moçambique se distingue é na criação e no soberbo pecúlio que os artistas, de diversas gerações, erigem quotidianamente. O nosso génio, o génio moçambicano, radica aí: na cultura. Digo cultura e não o seu arremedo ou seu simulacro. Há hoje, entre os novos artistas moçambicanos, nomes assombrosos. Quem acompanha, de perto, o movimento ascensional das nossas artes sabe do que aqui se diz. Estes tipos são talentosos, admiráveis, esplêndidos, assombrosos e assombrados, arrebatados e arrebatadores, enérgicos e pujantes, possantes e vibrantes. Chaná de Sá é um deles. Indubitavelmente.

 

Cidade do Cabo, 11 de Julho de 2022

Quem nos resgata do escuro, quando a bússola solar nos desvia?

 

 

Este livro não é apenas um simples livro, traz consigo outros tantos, que atravessam vários tempos e revisitam a obra de Taruma enriquecida com o acréscimo de alguns textos inéditos que o poeta nos fez o favor de oferecer. “O recolher obrigatório do coração” é, portanto, uma espécie de antologia onde o poeta nos permite esse agradável reencontro com os escritos que melhor se enquadram nesta aventura discursiva que se espalha em sete dezenas de páginas. Quem teve o privilégio de desfrutar as suas obras anteriores, “Para uma cartografia da noite”, depois “Matéria para um grito” e muito recentemente “Animais do ocaso”, apercebe-se que Taruma persegue a escrita do mesmo livro, percorre os mesmos caminhos, sobretudo estéticos, tendo como suporte o lado passional que desde sempre percorreu a sua poesia. Confessa-nos, aliás, o poeta, que “ a tónica dos poemas reunidos neste livro é intimista e confessional, como um sujeito que se depara com a impossibilidade prática das suas paixões e recolhe para dentro as cortinas e as janelas do seu coração”. Os poemas obedecem quase o mesmo sistema de construção, é como se estivessem a respirar o mesmo ar e a atravessar os mesmos processos conflituais. Apesar desse lado passional, os seus escritos não deixam de fazer a abordagem de tudo aquilo que a vida tem de contraditório  e inaceitável, colocando-nos diante de um poeta indignado, preocupado com o seu tempo e ansioso pela construção de outras linguagens e formas de estar. Há nos escritos de Taruma o reflexo de uma enorme vivência, duma vasta erudição. Apercebemo-nos das suas vastas leituras e influências, de subtilidades próprias de um poeta que escreve num mundo cheio de desafios e numa sociedade de bastantes hostilidades que apenas o amor e as palavras do poeta são capazes de contrariar!

Parece-nos que aquilo que o Taruma nos pretende sugerir com estes tres livros inscritos num só, é que estamos diante de um livro das impossibilidades. E a primeira é a impossibilidade de construir uma paixão sólida, um amor dilacerante, perene. Taruma já não acredita num amor ideal, mas sim, num amor razoável, e disso nos apercebemos quando o poeta escreve:

Já não acredito em coisa alguma; a mim só restam os calafrios, as paredes sobressaltadas, o frio odor da amónia, o lume ardente da insónia sobre a lembrança vaga do teu nome.

A segunda impossibilidade de Taruma é o de nunca atingir os propósitos que sempre desejou: os de construir uma poesia que o satisfaça e realize, uma poesia capaz de buscar tudo o que está oculto para colocar aos pés dos homens. Uma poesia que seja também capaz de trazer consigo, não apenas os sentimentos, como também os símbolos da terra, com os seus cheiros e suas côres, porque afinal são estes elementos que serão capazes de definir, na nossa modéstia opinião, a propalada identidade literária. Por isso, dizíamos, Taruma está permanentemente em busca, nesta aventura que a Literatura lhe impõe e onde, certamente, vão sobressair aqueles que forem capazes de serem eles próprios, isto é, de construir uma poesis que tenha como alicerce o seu substracto cultural, a sua identidade. E aqui, ao falar de identidade, nos lembramos das palavras de Francisco Noa buscadas na sua obra “Além do Túnel”, quando diz: “Julgo que pensar e discutir a identidade é das experiências mais resvaladiças, mais atraiçoantes, às vezes dolorosas, mas ao mesmo tempo mais fascinantes, a que nos podemos entregar. Não me enganaria muito se afirmasse que essa deverá ser eventualmente uma das ocupações intelectuais mais marcantes a que o homem, desde às suas origens, se tem dedicado, de forma latente ou            manifesta.” Fim de citação. Mas aquilo que interessa referir neste momento é que Taruma faz parte duma geração de novos escritores apostados em ocupar o lugar que lhes é devido. Creio, no entanto, que Taruma não pretende ocupar lugar nenhum, o que lhe preocupa, isso sim, é encontrar o caminho que lhe permita escrever todas as palavras capazes de tornar a sua poesia mais apetecível, resgatar os amores verdadeiros e sobretudo fazer acreditar que quando na vida tudo parece perdido resta ainda a poesia para iluminar os caminhos sombrios e devolver a esperança que nos dias que correm tende a tornar-se escassa. A poesia é a salvação. Não é por acaso que José Marti, jornalista, filósofo e poeta cubano, deixou ficar esta magistral definiçao: “ um grão de poesia é suficiente para perfumar um século”. É, pois, esse perfume que Taruma pretende espalhar através dos seus poemas.

Aqui chegados, há que tentar dar resposta a pergunta que todos, creio, levantamos: o que significa “recolher obrigatório do coração?”. De acordo com o dicionário dos saberes o termo “recolher obrigatório” se aplica à uma proibiçao oficialmente decretada vedando a permanência de pessoas nas ruas após determinada hora. E então se levanta a seguinte questão:  a que “recolher obrigatório do coração” se refere o Alvaro Taruma?  Não restam dúvidas que é dificil o ofício de descodificar os nomes dos livros, mas podemos supor que o título em questão pode significar que existe um coração dilacerado, desencantado, repudiado, incompreendido, amargurado, isto é, náufrago nas imensas águas do amor.  Para Taruma, e cito, “recolher obrigatório do coraçao é uma lúdica aventura, uma brincadeira, e ao mesmo tempo um chamamento para o interior de nós mesmos. Se não houvesse, infelizmente, a pandemia da Covid-19 se calhar nem existisse tal título, pelo que de certa forma é um oportunismo circunstancial, mas que por outro lado é uma verdade flagrante, uma vez que os poemas todos aludem a um certo tipo de recolher: de sentidos, de braços, de espantos, de sentimentos. Fim de citação. Mas essa impressão de recolhimento, de desamor, de um homem em permanente naufrágio, “mesmo sem nunca ter partido ao mar”, é uma espécie de um estado passageiro, uma ponte que se deve atravessar, porque é da esperança que o livro nos fala. É de amor. Aliás, como muito bem o disse o escritor Baptista Bastos, “ as pessoas precisam de afecto, as pessoas precisam de amor, as pessoas precisam de ser namoradas e acarinhadas”. Não é por  acaso que Taruma escreveu:

 

Sê ilha: catedral de terra e espuma, onde

um búzio calado é um canto na boca

da amargura. Refaz-te na minha pele cansada

e apaga-me esta cicatriz, esta agrura; que eu,

docemente, acordarei levitado, louco, quase

incontido no lume dos teus braços.

 

Diríamos que não existe nenhuma diferença entre os primeiros poemas e outros mais recentes, o timbre das palavras continua sendo o mesmo, a voz altiva do poeta ergue-se diante de outras vozes, o seu estilo peculiar continua se vincando, há cada vez mais segurança, há cada vez mais  leveza, mais maturidade, desapareceu na escrita de Taruma, aquilo que se chama a querela das palavras, isto é, as palavras deixaram de se guerrear umas às outras, harmonizaram-se, e quando assim acontece, surge um Taruma com uma voz própria, um poeta consistente. Percebe-se, apesar de tudo, que o poeta vai continuar a trilhar os caminhos duma escrita intimista e confessional, porque, como diria James Baldwin, “ o amor é uma batalha, o amor é uma guerra; o amor é um crescimento.”

 

Não gosto de escrever sobre poesia, não gosto de navegar ou naufragar, e muito menos de enlouquecer, que são viagens a que muitas vezes recorrem os poetas. Não gosto de escrever sobre poesia porque o poeta quando diz agua quer dizer pedra, quando diz pao quer dizer fome, quando fala do sol é porque há o prenúncio da chuva, quando fala de vinho nao traz nenhuma taça na mão, e quando não diz nada é bom estarmos atentos porque o mundo está prestes a desabar! Não gosto de escrever sobre poesia, mas  gosto dos poetas, porque são mais atrevidos que os ficcionistas, Teem a coragem de se levantar e dizer não, porque sabem dizer as coisas com gramatica e com criatividade, são os poetas, como o Álvaro Taruma,  que ajudam a manter acesa a chama da vida, que perfumam as palavras, que nos chamam a atenção para o pôr-de-sol, que nos despertam, por exemplo, para uma realidade insólita: a de que um coração pode ter um recolher obrigatório!

Como diria o Taruma, “Entrar no coração deste livro é descalçar os sentidos”. É encontrar um poeta que dormiu com Marylin Monroe; que fala com Platao e Sócrates em grego; que conhece Thelonious Monk e John Coltrane; que já leu o Clive Barker e Ruy Belo; ler este livro de Taruma é encontrar a luz, o sol, a água, a noite , o fogo, a morte, o vinho, o mel, o vento, a pedra, o pão, o silêncio, a solidão, o frio, os pássaros, os búzios. É encontrar a paixão, o amor e o corpo duma mulher. É com estes elementos que Taruma se municia para construir o seu livro, sem esquecer, também alguma saudável ironia e sobretudo, de certa loucura! É verdade que ela, a loucura, não se aconselhará a ninguém, mas o imobilismo, principalmente o literário, não é saudável, conduz a ausência da criatividade, a ausencia da inovação literária. Por isso, a loucura de Taruma, é saudável para a sua poesia!

A poesia que se propõe para Moçambique deve ser uma poesia que nos prestigie e que se situe na mesma grandeza daquela outra que desde sempre dignificou esse género literário e obviamente os nossos poetas. Refiro-me a poesia do Knopfli, Craveirinha, Albino Magaia, Eduardo White, Juvenal Bucuane, Calane da Silva e Armando Artur. Cremos que não estaremos a enveredar por um lugar comum ao afirmar que a poesia em Moçambique encontra-se num bom caminho, embora a crítica não lhe preste a devida atenção, ou se quisermos ser politicamente correctos, essa crítica não tem sido publicamente expressa. Apesar  do aparente crescimento da nossa poesia, há que trabalhar mais. Há que escrever muito. Há que ter essa vontade indómita de fazer da nossa poesia a melhor de todas as poesias. Taruma, felizmente, sabe disso, porque se assim não fosse, não nos teria oferecido este  “recolher obrigatório do coração”.

 

Julho/2022

 

“Equalização” significa acto ou efeito de equalizar; uniformização; equilíbrio. É o que dispõe o dicionário da língua portuguesa. Mas também significa, em termos electrónicos, redução de distorção por meio da introdução de redes capazes de compensar a distorção própria de determinada faixa de frequências. Um equalizador gera equilíbrio, sintonia, concordância e sincronia dos sons. Para “linha” há uma panóplia infindável de significados que vão desde traço a fio, comunicação a estilo, molde a orientação, elegância a forma ou fisionomia. Seria bizarro a tentativa de citar aqui o que prescreve o dicionário sobre este vocábulo. O mesmo diria da palavra “vida”, que vai de existência à época, essência ou destino, fisionomia ou biografia, história ou sentido, eu sei lá! Seria igualmente enfadonho fazer a antologia do que este substantivo feminino (é importante que se lhe diga) exprime.

Detenho-me, outrossim, no cartaz e nas obras que enformam esta mostra e dou-me conta de que aquilo que aparentemente parece discordância ou barganha sintáctica deste título – “Equalização das linhas da vida” – é, afinal, a síntese da arte deste prodigioso nome das nossas artes: Chaná de Sá. A estilização usada no rosto que lhe dá voga e por meio do qual se consigna a obra em exposição desfaz qualquer dúvida a este respeito e produz, cabalmente, o sentido deste título e desta proposta ousada.

Chaná é um dos mais inventivos artistas da novíssima geração. Um dos mais dotados e, no entanto, um dos mais humildes. Digo humilde e emprego esta locução no melhor e mais alto sentido da mesma. Sabe do seu ofício e sabe da sua singularidade, mas não se perde na soberba. Cerebral e intuitivo, é ainda um dos nossos criadores mais profícuos e proficientes. Tudo isto subsídio da sua técnica, com o seu traço e com aquilo que ele transmite ou significa. O seu traço é único. As suas cores também. As técnicas, quase sempre miscelânea das mesmas, idem. Tintas naturais, aquarelas e acrílicos.

A vida, o seu sentido e significado, a sua explicação ou o seu milagre – avultam na sua obra cordões umbilicais –, o seu assombro ou a sua dádiva são um tema recorrente da sua pintura. Há sempre nas suas telas cordões, sequências, linhas, cordéis, fios, vínculos. O seu génio criativo parece ater-se a essa procura,  a essa busca quase obsessiva: de ligar, ajustar, direcionar, dar um sentido ou significado  a essas formas, figuras ou composições, essa busca de sintonia, de sincronia, de frequência e uniformização, com técnicas das mais diversas, cores e traços, às vezes ténues, outras tantas fortes e intensas, que são, no fundo, as linhas da vida, afirmação da procura do entendimento desse destino que a existência, desde o nascimento à morte, se nos impõe.

Estas figurações, estas expressões, estas feições, estes vultos, estas expressões, estes semblantes, estas cores, estas posturas, estas linhas, estes traços, estes sinais, estas impressões que se reproduzem, de forma recorrente, nestes quadros, sempre lá estiveram, ainda que de forma oculta – ou se quiserem dissimulada –, em toda a sua criação. Exprimem a vida ela própria. São a sua tessitura e revelam a sua estrutura, composição ou textura e contextura.

A forma como Chaná trama e ata ou entrelaça estes fios que compõem a vida não é óbvia, mas ali reside a divícia da sua poesia, da sua arte e do seu génio. A arte, a grande arte, não é necessariamente o domínio do explícito. Um poeta, um grande poeta no caso, meu mestre, dizia-me, há décadas, quando eu debutava no ofício: a poesia é a arte da dissimulação. Eu acrescentaria hoje: toda a arte subscreve a arte da dissimulação – passe-se a redundância. Não obstante, a arte não tem que ser necessariamente obscura, nem flagrante. A arte é magnificente, pecuniosa, fecunda. A arte inquieta-nos, desassossega-nos, subverte-nos. Não podemos sair indiferentes de um encontro com a obra de um artista. Um grande artista, como é o caso deste, instiga-nos sempre, provoca, espicaça. A arte, a grande arte, também repara, redime, expia. Quase sempre vamos ao encontro da criação em busca disso mesmo: redenção ou absolvição.

Disse, não há muito, a respeito de artistas da mesma progénie, que se há domínio em que Moçambique se distingue é na criação e no soberbo pecúlio que os artistas, de diversas gerações, erigem quotidianamente. O nosso génio, o génio moçambicano, radica aí: na cultura. Digo cultura e não o seu arremedo ou seu simulacro. Há hoje, entre os novos artistas moçambicanos, nomes assombrosos. Quem acompanha, de perto, o movimento ascensional das nossas artes sabe do que aqui se diz. Estes tipos são talentosos, admiráveis, esplêndidos, assombrosos e assombrados, arrebatados e arrebatadores, enérgicos e pujantes, possantes e vibrantes. Chaná de Sá é um deles. Indubitavelmente.

 

Cidade do Cabo, 11 de Julho de 2022

À guisa de uma introdução

Dos primeiros critérios que aprendemos quando nos ensinam a escrever é que um texto deve conter introdução, desenvolvimento e conclusão. Muitas vezes se para por aí e já nos é instruído a escrever um texto, uma redacção, na verdade, sem uma clara explicação sobre como integrar num texto as construções frásicas antes aprendidas e sobre a construção de um parágrafo coeso e coerente. O que tem sucedido é que muitos precisam de chegar à Universidade, para aprender que um único parágrafo deverá também conter uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão. Ou seja, a escrita obedece a compassos.

Supondo que um compasso de escrita, num texto, seja a, b, c e d. No decurso da sua escrita, não deverá haver a, c, d e b. Se isso acontecer, estamos a tornar o texto pouco coeso e muita das vezes incoerente e inconsistente. Não me refiro aqui a prolepses nem a analepses (ou seja, a avanços e a recuos num texto literário), que têm uma construção própria. Refiro-me à escrita de uma simples redacção de uma carta ou de uma mensagem comum ou ainda, no caso daquilo de que me interessa falar, neste texto, à obra Como fazer propostas de investigação, monografias, dissertações e teses: manual de metodologias e de investigação, de João Ruas, docente universitário.

Há compassos a serem obedecidos, para permitir uma leitura harmónica e compreensiva de um texto qualquer. Quantas vezes é que recebemos um e-mail ou uma mensagem de texto de alguém e, a seguir temos que lhe ligar a perguntar o que é que pretendia dizer com ele?

Uma outra grande dificuldade que muitos alunos enfrentam no final da frequência a um curso universitário ou a quando da necessidade de escrita de um projecto de trabalho de final ou de início de um curso é a organização e a escrita. É altura comum para se desistir. Os mais práticos no grupo dos que têm dificuldade em fazer um trabalho de fim de curso, no lugar de desistirem, preferem a alternativa de Exame de Estado, que muitas universidades oferecem. Ao menos isso. Mas elaborar um projecto ou uma monografia é tarefa difícil e não é à toa que existem diferentes tipos de livros sobre a escrita de projectos para investigação, para final de curso ou projectos, que também servem para apresentar propostas de consultoria.

Existe, na maior parte das vezes, dificuldades dentro desses tipos de escrita. No que diz respeito ao livro de João Ruas, acima mencionado, por se tratar de Filosofia da Ciência, devo dizer que são poucas as pessoas que têm paciência de ler esses livros, mas também são poucos os autores que preparam essas matérias de forma prática; simples de seguir, como se de uma receita de bolos se tratasse.

João Ruas se coloca entre os que simplificam a Filosofia da Ciência. O livro a que me vou referir é um manual. E lembrando, um manual é um instrumento que contém conhecimentos imprescindíveis sobre um tema e escritos de forma simples, para que leigos também possam seguir.  É como uma receita para fazer bolos, por exemplo. E ao dizer uma receita para bolos, não é para minimizar este trabalho científico; é que mesmo se tratando de bolo, quem tem bom gosto estético ou é guloso, não come qualquer um. Quer o bolo do melhor pasteleiro. E o melhor pasteleiro, muitas das vezes é quem sabe seguir à risca uma receita ou quem sabe escrever muito bem uma e, em ambos casos, há, claramente alguma dose de criatividade. É a esse propósito que existem as estrelas Michelim ou seja, cozinha requintada, comida excelente.

 

Breves notas sobre a primeira e a segunda edições da obra Como fazer propostas de investigação, monografias, dissertações e teses: manual de metodologias e de investigação

Todo aquele introito era para reiterar o que eu afirmei num dos comentários que fiz relativamente à primeira edição desse livro e que consta da segunda edição e reitero:

Li, à exaustão, o livro do Professor João Ruas. E decidi que o utilizaria, a título experimental, em duas disciplinas que leccionei repetidas vezes: Métodos de Pesquisa e Metodologias de Pesquisa, ministradas no primeiro e no quarto anos universitários.

Equacionei, muitas vezes, a possibilidade de não partilhar a obra com os alunos do primeiro ano, mas a simplicidade e a objectividade com que o autor da obra aborda um assunto complexo, as propostas de investigação e afins, fez-me acreditar que os alunos teriam prazer em aprender a partir dela.

Fiz o teste e resultou. Várias vezes, constatei que os alunos o citavam e que elaboravam os seus trabalhos recorrendo à estrutura proposta no livro, mesmo em contextos nos quais a obra disputava espaço com outras de outros autores. Isso comprovou, na minha óptica, o valor da ciência. Coloquei a obra em teste e não houve obstrução na compreensão sobre o fazer ciência ou sobre a compreensão do facto de que a Filosofia da Ciência pode ser abordada com leigos, desde que o método e a linguagem utilizados favoreçam o processo de aprendizagem, como o caso desta obra de João Ruas.

Lendo a segunda edição constatei que é uma edição revista e ampliada da primeira. Aquilo que é imprescindível numa monografia, numa dissertação ou numa tese, como já tinha sido dito e estava muito bem referido. Entretanto, nada me custou elaborar uma segunda aferição; e uma forma de o fazer é comparar esta obra ou a sua abordagem com outras altamente recomendáveis ou altamente reputadas.

Então, para além das experiências que tinha feito e que aqui referi, consultei o trabalho de Ricardo Morais, um cientista conhecido mundialmente, na academia, pela simplificação de modelos para escrita e avaliação de trabalhos académicos. Morais defende a existência de 21 itens a serem integrados num trabalho de pesquisa. Ele designou ao seu trabalho “Ideia Puzlle”. E quem o segue, faz sempre uma boa monografia, dissertação ou tese ou faz uma excelente avaliação desses mesmos tipos de texto, após tê-los escrito.

São seguintes os critérios propostos por Ruas, para se fazer um projecto de pesquisa: (1) abstract; (2) identificação do tópico; (3) definição do problema a ser investigado; (4) definição da pergunta a ser investigada; (5) definição de perguntas investigativas); (6) definição das hipóteses a considerar; (7) identificação do paradigma de investigação; (8) metodologia de investigação; (9) definição dos objectivos gerais e específicos;  (10) justificativa do trabalho (importância do tema para a investigação); (11) abordagem das limitações da investigação; (12) delimitação da investigação; (13) estado da arte com os prós e contras relativos ao tópico ou às variáveis escolhidas, mais a definição de conceitos operacionais;  (14) recolha de dados; (15) técnicas de recolha de dados; (16) técnicas de análise de dados; (17) análise e interpretação de dados (18) conclusões; (19) recomendações; (20) tempo de realização da pesquisa e (21) introdução.

Não sendo exactamente os mesmos itens preconizados por Morais, têm a mesma função e cumprem o mesmo objectivo. Têm, na verdade, a mesma ciência: realizar uma pesquisa com qualidade; ou mesmo, avaliar uma pesquisa de modo adequado, após esta estar elaborada. Para além de mostrar a necessidade de se utilizar esses 21 itens para compor a pesquisa, João Ruas revela, com exemplos práticos, como é que esses itens devem ser formulados. Chega a mostrar os exemplos daquilo que deve ser essa formulação, bem como aquilo que não deve ser. Em qualquer teoria, o mais difícil depois de se fazerem definições é apresentar-se exemplos práticos. Teorizar, experimentar: montar, construir, testar e medir. Esses conhecimentos complementam-se, mas nem sempre são fáceis de elaborar e de relacionar.

Quem lê ou assiste as aulas do Professor João Ruas, constata que, contrariamente às grandes discussões sobre o que é que se faz primeiro para se elaborar uma tese; se a revisão bibliográfica ou se a formulação do problema a pesquisar, constata que se deve formular o problema. Isso pode ser confirmado em Ruas (2021:70), a segunda edição da obra em apresentação, por exemplo. Para este autor, o problema já existe na realidade empírica; precisa de ser formulado, para ser resolvido cientificamente.

Mais ainda, Ruas explica, nesta obra, o erro fossilizado, entre algumas pessoas, de se considerar que o resumo ou abstract de um trabalho académico são uma introdução ao mesmo. Uma coisa não substitui a outra, nem uma coisa prescinde da outra. E são distintas, tanto em termos de tamanho, quanto na filosofia da sua escrita. Ainda a este respeito, muita das vezes, a vida de alunos se torna complicada quando se lhes pede que apresentem uma introdução ao trabalho, parte que, descomplicando, Ruas adverte ser a última parte do trabalho a ser escrita. Em minha óptica, mais vale solicitar primeiro um abstract ao aluno, que ele possa depois reformular ao decorrer da pesquisa, fazer o trabalho, depois, a introdução.

 

O autor

 João Ruas é um cidadão multifacetado. Foi piloto de automobilismo. Para além de ter uma licenciatura em Engenharia Civil, cujo diploma foi-lhe atribuído pela Universidade Eduardo Mondlane; tem um mestrado em Gestão de Empresas, pela Montfort University da Grã-Bretanha e dois doutoramentos, um em Engenharia de Gestão pela Universidade de Johannesburg e outro, em Governança e Administração – passado pela Cranefield Colege em Pretória. É docente universitário, tal como o tinha afirmado e, nessa qualidade, tem sido orientador e arguidor de diferentes trabalhos de fim de curso, desde as licenciaturas, até aos doutoramentos.

Recomendo a leitura da sua obra. A quem a ler, desejo uma leitura, uma análise e, desejando, uma aplicação proveitosa; porque, como disse, a obra ajuda na elaboração de um projecto de pesquisa e, se desejarmos, criteriosamente e, com as devidas escolhas, pode ajudar a elaborar um projecto de consultoria ou mesmo avaliá-la.

 

Sara Jona Laisse, docente universitária. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

A cada segunda quinzena de Dezembro, fecha-se ao trânsito a avenida 24 de Julho, reforça-se o contingente policial, monta-se o estrado, estende-se o tapete vermelho à entrada da Assembleia da República e, ao ritmo de uma carregada salva de palmas, sobe-se ao púlpito para se falar do desporto moçambicano. As suas conquistas!

No informe sobre o Estado da Nação, descreve-se em alguns parágrafos as medalhas conquistadas pelos atletas moçambicanos em competições internacionais.

O Presidente da República enaltece quem, de medalha ao peito, faz arrepiar corações e subir as emoções dos moçambicanos com a entoação do hino “Pátria Amada” e o içar da bandeira nacional.

Uma glorificação aos feitos alcançados por atletas que galgaram patamares elevados, uma reclamação do papel do Governo neste desiderato através de assertivas político-desportivas.

Cerram os punhos os atletas, ficam na expectativa de receberem dinheiro à luz do Regulamento de Premiação Desportiva, um instrumento legal aprovado pelo Governo em 2007.

Governo tal que definiu a atribuição de valores monetários aos atletas e respectivos acompanhantes que conquistem medalhas em provas internacionais de carácter oficial. Mas o Executivo pontapeia, hoje, o dispositivo legal por si aprovado.

Faz ouvidos moucos às reclamações de atletas que, há cinco anos, não são premiados. Sobe de tom a indignação dos medalhados, a despeito de terem escrito uma carta ao Fundo de Promoção Desportiva (instituição subordinada à Secretaria de Estado de Desporto), a reclamarem o pagamento de um valor global de treze milhões, duzentos e dez mil Meticais.

Com os atletas nacionais a manterem-se nos lugares de pódio, mais claro se torna que o gráfico vai subir e os dígitos vão aumentar!

O prometido não está a ser cumprido! A narrativa do Governo é solucionar o problema o mais breve possível.

Os atletas sentem-se enganados, genuinamente; Desvalorizados; Menorizados. Afinal, é algo de direito. Do boxe ao atletismo. Do judo à vela e canoagem. Do futebol ao basquetebol. Da natação ao voleibol e tantas outras modalidades. É como se nada tivesse acontecido. Com tamanha naturalidade, quais verdadeiros obreiros das conquistas, os dirigentes apossam-se dos momentos de chegada dos atletas no Aeroporto Internacional de Maputo.

Promovem passeatas, recepções calorosas e sessões de fotografias de bradar aos céus. Tudo para alimentar as redes sociais e reclamar protagonismo. O bom senso não habita! Nem tão pouco.

A tudo isto se soma o patrocínio de pais e encarregados de educação para assegurar que atletas de algumas modalidades participem em provas internacionais.

E mesmo assim, com alto patrocínio dos portadores de microfones e gravadores, são os mais destacados na hora de falar das glórias.

Atropelam os protocolos, colocam-se na linha da frente, no tradicional momento de exibição de troféus à saída das aeronaves, e pousam para a posterioridade. Pode parecer normal os dirigentes saudarem e marcarem presença na recessão de atletas, quando estes regressam ao país. Sim, pode parecer mesmo normal. Contudo impõe-se que respeitem o espaço de quem efectivamente fez por merecer.

Até hoje, os Mambinhas, vencedores do Torneio COSAFA sub-20, aguardam a passeata prometida ao mais alto nível e estadia num dos paraísos turísticos de Moçambique.

Não basta minimizar os objectivos traçados pelas federações desportivas nacionais de simples participação em provas internacionais, desafiando-os a trazerem medalhas para o país. É preciso que haja coerência no discurso aliado ao cumprimento das promessas.

Dos mais velhos, os Mambas, já nem se fala. Os tão prometidos terrenos na agora apetecível região da KaTembe, pela qualificação ao Campeonato Africano das Nações de 1996, na África do Sul, continuam uma miragem.

Não podemos dar muito, mas podemos e devemos honrar os nossos compromissos!

Os dirigentes das federações desportivas têm, igualmente, as suas responsabilidades. Porque, embora reconhecendo que o Estado tem que desempenhar um papel central, não podem cair no erro habitual para ele transferir todas as responsabilidades.

Começo por agradecer a todos os presentes neste lançamento, pela simpatia que demonstram. Incluo neste modesto gesto, todos os meus companheiros das letras, particularmente, os que calcorrearam os caminhos um tanto inóspitos, mas nem por isso, a pouco-e-pouco, desbravados pelo Movimento Charrua através da revista do mesmo nome. Uma alfaia intelectual que ocasionou a germinação literária dos primeiros escritores e poetas da era pós-proclamação da Independência de Moçambique.

Passavam já cerca de 8 anos depois deste marco histórico importante, quando tudo começou. Foi a 23 de Junho de 1984, uma data que faz hoje 38 anos. Brotavam, então, os escritores e poetas que mais tarde se viram continuados por outros mais jovens ainda, que, actualmente habitam o nosso universo literário.

A odisseia foi, em parte, apoiada, ainda que em surdina, pela Embaixada de Portugal em Moçambique, através do então seu Conselheiro Cultural, Doutor Soares Martins, o célebre escritor José Capela, já falecido, que desembolsou os valores necessários à 1ª. Edição da Charrua, graças à lúcida e convincente intervenção do nosso companheiro Eduardo White, também já falecido.

Foi muito duro que nem podem imaginar, mas a nossa vontade vingou, agarrados à certeza de que o triunfo sempre reside na coesão do colectivo. Esta a razão fundamental de eu ter escolhido o Centro Cultural Português para o lançamento deste livro. Algumas figuras representativas da época ora evocada, estão nesta sala. Não vou poder citar os nomes de todos, mas o conteúdo do livro os contempla, pela importância da sua contribuição na construção da utopia transformacional dos paradigmas da nossa literatura. Há, porém, uma pessoa que gostaria de apresentá-la de um modo muito especial. Penso que não se opõe a este gesto de reconhecimento: a Professora Olga Horácio Pires, então esposa do nosso saudoso confrade Eduardo White, falecido a 24 de Agosto de 2014. Ela aceitou fazer, em lugar deste poeta, um depoimento constante neste livro. Obrigado Olga.

De entre os nomes que o livro contempla, há, porém, os que por razões óbvias não posso, neste momento, omitir, por terem sido os pilares da odisseia ou a Pedra Angular do grande sonho transformacional. São eles: Hélder Muteia, juvenal Bucuane, Ungulani Ba Ka Khosa, Eduardo White, Pedro Chissano, Ídasse Tembe, e, à terceira edição, Tomás Vieira Mário. Estes constituíam o Conselho Coordenador.

Um papel fundamental teve Elias Cossa como maquetista da revista.

Ídasse Tembe, não sendo escritor, nem poeta no sentido rigoroso, aceitou ilustrar a revista, com a sua poesia plástica, expressa a tinta-da-china, ao longo das suas páginas, durante o tempo em que ela vigorou, tendo-se-lhe juntado, ao longo do percurso, outros artistas da sua área. Aliás, o desenho da capa deste livro é uma das suas ilustrações.

Consequentemente, outros escritores e não só, e não menos importantes, juntaram-se a este grupo, como Colaboradores Permanentes: Marcelo Panguana, Armando Artur, Afonso Santos, Júlio Navarro, Fernando Couto, Aníbal Aleluia, Filimone Meigos e Guilherme Afonso. Quero aqui assegurar que os que se empenharam na vida da Charrua, e não mencionados nesta intervenção, cada um, à medida da sua contribuição, estão referenciados nas páginas do livro. Para todos estes “kotas”, alguns, jovens de ontem, que sustentaram a utopia que hoje é a realidade literária do nossa pais, peço uma merecida salva de palmas!

Este livro traz memórias de um tempo marcante para o desenvolvimento literário de Moçambique, o tempo da inversão profunda do paradigma literário nacional, ou seja, a mudança do cânone. De acordo com o escritor e crítico literário Francisco Noa, citado pela Professora e estudiosa Fátima Mendonça: “… a Charrua, de certa forma, protagonizou uma rebeldia em relação ao que se tinha canónico, em relação ao curso da nossa literatura pós-independência.”

Não se tratava de uma rotura definitiva com o que se tinha escrito até aquele momento. Exemplo disso é a prevalência do valor da obra dos escritores e poetas que nos antecederam, resumidos em José Craveirinha, nosso expoente máximo, nosso Poeta-mor, que manteve o seu traço premonitório e o seu tom de denúncia das arbitrariedades, não importando quem as praticasse, nem em que tempo, até à sua passagem a outra dimensão existencial.

Tratava-se de acrescer um marco que considero histórico, um legado às gerações posteriores à Charrua, para que tivessem pontos de referência que ajudassem a reflectir sobre a nossa literatura.

Narro factos reais, porém rebatíveis, conforme o ângulo de visão em que cada um esteve a observá-los. Encontro hoje uma ocasião excepcional para explicar aos que às vezes oiço falar, movidos por dúvidas e aos que, simplesmente desvalorizam, sem conhecerem a história real desta aventura.

As páginas deste livro contam a verdadeira história da Charrua, podendo, contudo, não terem sido exaustivas o quanto seria de desejar. As razões que me levaram a escrevê-lo são diversas, mas quase todas andam à volta do conhecimento ou desconhecimento, se quisermos, do papel primordial da Charrua em relação à juventude daquela época, e à força titánica de massajar as mentes dos então já consagrados, no sentido de encararem positivamente, as mudanças que se impunham, na forma de representar culturalmente Moçambique no mundo.

É que a guerra colonial, no terreno das operações tinha acabado e o país devia-se curar das feridas que o evento deixara. Tinha que se encarar a reconstrução nacional de forma mais solta, embora, ainda, com as armas apenas ensarilhadas, não enterradas. Tinha que se cantar o país liberto, numa descrição aberta das suas potencialidades, usando uma linguagem nova que destacasse o amor, a beleza, a esperança e a certeza; a suavidade do rosto e a largueza do sorriso do homem, da mulher e da criança, sob o esplendor de um novo sol que começava a inundava todos os recantos do país!

Reitero, foi duro, primeiro, pela inexperiência dos novos escritores no traquejo dos instrumentos literários, aliada à teimosia dos que se julgavam detentores da autoridade literária, naquele tempo. Mas tínhamos que nos agarrar à fórmula do triunfo: Visão, Coragem e Perseverança.

Empedernimo-nos na ideia, no sonho e avançamos, porque sabíamos, apesar da nossa inexperiência, que o triunfo residia na coesão do grupo. As nossas diferentes cargas emocionais se atraíam. Pensamos juntos e derrubamos os obstáculos. Muitas pessoas, hoje falam da Charrua, pintando-a com as mais variadas cores, ao sabor da sua imaginação certamente influenciada. O que noto com alguma apreensão é que quando ela desbravava a árida terra da cultura do nosso país, na área literária, muitos não tinham ainda nascido ou estavam a nascer e, o que é mais grave, nunca, à posterior, viram um exemplar da revista ora em causa. Os seus pronunciamentos estão afectados eufórica ou disforicamente. Anda no ar uma interpretação difusa e confusa do que foi e representou para a literatura moçambicana o surgimento da Revista Literária Charrua e do Movimento do mesmo nome que a suportou. Estas são as razões fundamentais que me levaram a escrever este livro. Aliás, passe a publicidade, a Alcance Editores tem disponível, julgo, o livro Comemorativo dos 30 Anos da Charrua, que comporta todos os números da revista. Quem queira aferir o que digo poderá ter esse ensejo, folheando tal livro.

Felizmente, os fundadores da Charrua, exceptuando Eduardo White, estão ainda entre nós. Igualmente, um número considerável dos seus Colaboradores Permanentes. Isto significa que as fontes para o conhecimento real daquele movimento estão presentes. E porque não me arvoro detentor do conhecimento absoluto, deixo espaço para eventuais rebates ou complementos, pois a verdade mora dentro de cada um dos arautos da grande aventura que foi a Charrua.

Aproveito esta deixa, para encorajar os escritores mais antigos, consagrados ou não, a olharem para trás e se recordarem do seu penoso começo, para poderem facilitar, hoje, o surgimento de novos escritores, sobretudo os mais jovens. Ajudá-los a realizar os seus sonhos, nesta área! Isso não tirará o seu prestígio, pelo contrário, granjeará respeito e admiração. Temos que ser pilares e não obstáculos. Tem de haver uma espécie de osmose entre o velho e o novo para que a dialectica literária se vá cumprindo, suave e progressivamente.

Talvez seja uma mania minha, mas acho bonito e expressivo, um quadro em que escritores, antigos e novos se mesclem na construção de um conceito novo e coeso de literatura, capaz de espantar o mundo pela sua maturidade.

Dói muito ouvir interpretações erróneas, muitas vezes com intenção, sobre um projecto feito com convicção e sacrifício, tornado obra real e consistente, a ser arrastado na sargeta, quando tem frutos hoje palpáveis! Muitos dizem: “nós não somos produto da Charrua”… na verdade, aparentemente não são, mas a matriz que marca a sua introdução na literatura tem o condão pioneiro da Charrua. Têm essa incontornável origem, que marcou a transformação, o desvio do padrão da literatura moçambicana, baseado na resistência ao colonialismo e na luta armada de libertação nacional.

Chegado aqui, expresso o meu mais profundo sentimento de gratidão aos apresentadores da parte lúdica deste lançamento: (Roberto Chitsondzo, Iracema de Sousa e Mabjeca Tingana); ao Tomás Vieira Mário, pelo depoimento; aos professores de literatura: Aurélio Cuna e Lucílio Manjate. O primeiro por me ter ajudado na revisão inicial da obra, acto complementado, mais tarde, pelo poeta e confrade Ricardo Santos, e o segundo, também meu confrade Lucílio Manjate, pela sábia apresentação acabada de fazer. Aliás, Lucílio Manjate é, academicamente autoridade do assunto que por meio deste livro trago à reflexão. Ele, em algum momento estudou com profundidade esta matéria.

Reitero os meus agradecimentos a todos vós por estarem aqui, estendendo este reconhecimento ao Centro Cultural Português pela sua já acostumada hospitalidade, por me ter cedido este maravilhoso espaço; à AEMO, representada pelo Professor Luís Cezerilo, por ter sido a base do Movimento e da Revista Charrua e por ainda me considerar um dos seus destacados membros; à Alcance Editores, pela sua verticalidade e por, ao longo de 16 anos de actividade aceitar-me, ainda, como um dos seus autores de preferência, na senda do engrandecimento da literatura moçambicana.

E a fechar, como se estivesse a começar, agradeço à minha família alargada, especialmente, à minha mulher, Ana Maria e aos nossos filhos e netas.

 

Maputo, 23 de Junho de 2022

 

*Intervenção na cerimónia de lançamento do livro Geração Charrua: uma juventude literata ao ritmo do seu tempo, 1983 – 1986, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

“A África que o mundo necessita é um continente capaz de ficar de pé, de andar com seus próprios pés. É uma África consciente do seu próprio passado e capaz de continuar reinvestindo este passado no seu presente e seu futuro.” 

 

Joseph Ki-Zerbo

 

Joseph Ki-Zerbo, que nasceu a 21 de Junho de 1922, em Toma, no Burkina Faso, há precisamente 100 anos, é, indubitavelmente, o mais importante autor da História de África e um dos mais proeminentes intelectuais africanos. Era lendária a sua verve, a sua transbordante retórica e as suas inesquecíveis alegorias. Mas isso não o afastava do rigor científico no seu mister. Antes pelo contrário. O seu empenhamento político não estorvava a cientificidade dos seus trabalhos, que são fundadores da historiografia africana. Foi um dos primeiros africanos de grande craveira a refutar a ideia de que o continente não tinha história nem cultura.

A sua “Histoire de I´Afrique Noire” (Paris, Hatier, 1972) é um livro cardinal. Este livro, que foi sucessivamente actualizado, teria uma tradução em português em dois volumes: “História da África Negra”. Ki-Zerbo estudou inicialmente em Bamako, no Mali, onde ganhou uma bolsa para frequentar a universidade em Paris, tendo-se formado na Sorbonne com distinção. Nos anos 50 encontra-se de volta ao continente de nascimento, contudo instala-se em Dakar, no Senegal, onde cria o Movimento de Libertação Nacional. Este foi essencial para o apoio dos movimentos libertários da África Ocidental. Tem depois uma longa e brilhante trajectória, que se reparte entre a sua demanda política e a sua curial incursão intelectual.

África tem hoje poucos nomes deste quilate, com um porte intelectual desta envergadura e acuidade, no entanto não nos sabemos rever em figuras como Joseph Ki-Zerbo. Onde estão os nossos pontos cardeais? As nossas universidades parecem mais taludes para tirocínios políticos e menos centros de estudos e de investigação. Não são capazes de abordar cientificamente estes intelectuais ou o seu marcante trabalho. Por isso, não se fala, entre nós, de Joseph Ki-Zerbo. Não se aperceberam os pressurosos intendentes da nossa academia deste centenário? Subscrevemos o anátema da desmemória. Somos contumazes no esquecimento, no olvido, no descaso e no vazio.

No entanto, aqui está um dos esteios do pan-africanismo, um dos homens que conceptualizou primordialmente a independência de África e dos africanos com um modelo de pensamento que se confrontava acirradamente com os preceitos coloniais e colonialistas. A matriz do seu pensamento radicava na necessidade de se observarem os processos históricos (eu diria até ontológicos) endógenos na idealização do desenvolvimento africano. Este espantoso intelectual preceituava, ainda, ou sobretudo, a união dos países e dos povos africanos.

“História da África Negra” aborda a evolução do continente africano desde a pré-história ao século XX. África era até então vista como um continente sem história. Joseph Ki-Zerbo desmentiu essa ominosa lenda num trabalho ciclópico e notável, com rigor científico irrefutável, que nos revela períodos que vão desde o esplendor à decadência de reinos e impérios, aos primeiros contactos com os europeus e a influência destes no devir do continente. Por outro lado, o autor escalpeliza os eventos que ao longo dos séculos dominaram África: os séculos, os conflitos, a pilhagem a que foi exposta, o dissídio dos que não se conformavam com a situação, a emergência das suas grandes figuras emancipadoras, sobretudo os pan-africanistas, o despertar do continente, os movimentos independentistas e, posteriormente, as independências e o seu tempo ulterior.

Joseph Ki-Zerbo, que morreu em Ouagadougou, a 4 de Dezembro de 2006, foi também um animal político obstinado, mas a sua longa e virtuosa vida foi dedicada sobretudo à investigação, à história e à escrita. Também se lhe reconhece um papel decisivo na direcção da “História Geral de África” da UNESCO. Seria distinguido no continente e fora dele, agraciado com muitas láureas e merecedor de insígnias. Por aqui, a despeito do nome na nossa toponímia, ignoramo-lo com a nossa proverbial soberba: incapazes de o estudar, de meditar sobre o que pensou e escreveu – o que poderia ser importante para discernir o presente e prospectar o porvir. Mas nós acreditamos nos prodígios da insciência, tal a nossa presunção. Talvez não nos devamos queixar. Quanto a mim, reputo e exulto africanos como este. Pelo entendimento que estabeleceu, pelo pensamento que estruturou, pela lucidez da sua abordagem, pela sua eloquência, pelo discernimento de África e pelas referências que deixou, pela sua imensa sabedoria, pela erudição e pela ampla e ilustrada cultura, pela sua mestria libertadora. Pelo passado, mas sobretudo pelo presente e futuro de África.

 

 KaMpfumo, 21 de Junho de 2022

Toda existência humana é uma vida em busca de uma narrativa.

in Narrativa, Richard Kearney

 

Um dia desses, a Gigi, para vocês Virgília Ferrão, ligou-me a convidar para apresentar o livro Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa. Nessa altura, eu já havia escrito dois textos sobre a antologia de contos que reúne 30 autores do nosso continente. Um desses textos deverá ser publicado em breve por uma revista europeia. Então, não me interessava nada voltar a preparar um discurso ou o que quer que seja para uma sessão de apresentação de livro. Por isso mesmo, mal a Gigi terminou de falar, como que a recusar o convite gentilmente, eu rematei.

– Gigi, com os textos que já escrevi fiquei tão envolvido que não me resta mais nada a dizer sobre o livro.

A frase foi dita num ápice, convicto de que a nossa querida escritora seria condescendente, libertando-me, portanto, da missão a que me confiava. Enganei-me. Ao invés de um está bem ou compreendo, veio a sentença.

Ó, Zé, deixa-te disso. Tens de ser tu a apresentar o livro e pronto.

Aquele pronto soou-me como um full stop, um não se fala mais nisso. No entanto, teimoso como sou e determinado a não apresentar esses rebeldes Espíritos quânticos ao público, insisti.

Gigi, isso é mesmo a sério. Não me ocorre dizer mais nada sobre o teu… Nem me permitiu terminar a frase. Para problemas locais, soluções locais. Deve ter sido isso o que ela pensou quando agravou o tom de voz e perguntou-me.

Zé, sabes por que marquei a cerimónia de apresentação do livro para 1 de Abril?

Bem, eu disse que não sabia. E ela:

Vá lá, Zé, por que será?

– 1 de Abril é o Dia da Mentira.

Nem mais. Então, já que estás bloqueado, aproveita a efeméride e vá à Fundação Fernando Leite dizer qualquer coisa que te ocorrer no momento, tipo umas mentirinhas.

A Gigi, essa mulher gira, educada, simpática e sincera, que há poucos minutos esteve aqui a falar-vos, sugerir-me ir à Fundação Fernando Leite Couto dizer umas mentirinhas, tudo em prol da literatura?! Espantei-me, mas, bem antes de expressar essa surpresa, a nossa escritora prosseguiu.

Zé, não te preocupes com isso. Nós, os escritores, passamos a vida a mentir. É normal nos nossos livros. O poeta é um mentiroso!

– Gigi, Pessoa fala de fingimento, e não de mentira.

– É mesma coisa. Mentir ou fingir, nesta ligação, é tudo farinha do mesmo saco.

Escusado é dizer-vos que ali não havia sacos nenhuns e muito menos farinha. Havia, sim, uma ordem disfarçada em convite. Sentindo-me sem alternativas, comprometi-me em dizer mais alguma coisa sobre o livro.

Ao fim de uma semana, recebi um cartaz pronto, que, de facto, referia que eu seria o apresentador de Espíritos quânticos. Não me convencendo, e sabendo que não valeria nada ligar à Gigi, peguei no meu telemóvel e liguei a uma outra personagem: o Muianga, o Celso Muianga, meus senhores. Desta vez, o editor foi bem simpático comigo e não me colocou entre a espada e a parede como é habitual. Então, aproveitando a boa-maré, convenci-lhe de que uma sessão tradicional de apresentação de livro não iria funcionar. O editor deixou-me a falar “sozinho” uns sete minutos.

Maré baixa. Pensei, interrompendo a minha tentativa de o convencer.

De repente, ouvi um procede. Até porque aqui na Fundação estamos a desconstruir esse formato tradicional de apresentação de livro. Faremos como sugeres.

É com este apadrinhamento do Celso, e não desobedecendo a Gigi, que cá estou a dizer estas coisas que, habitualmente, não se dizem numa cerimónia de apresentação de livro.

Contudo, eu não me vou concentrar nesta antologia. Mais do que dizer de que se trata o livro, a mim interessa partilhar experiências que revivi ao ler Espíritos quânticos. A primeira tem a ver com o conceito de fantástico, segundo Tzvetan Todorov, a hesitação entre o estranho e o maravilhoso. Ou seja, se, diante de uma situação particular, aparentemente sobrenatural, a personagem ou o leitor, depois de hesitar, decidir que as leis do seu universo não ficam beliscadas com essa mesma situação, está-se diante do estranho. Contudo, se o leitor (ou mesmo a personagem), no mesmo tipo de ocorrência, entender que as leis da natureza foram violadas, ascendendo-se, por isso, para uma explicação sobrenatural, o evento leva-nos ao maravilhoso.

A noção de experiência fantástica que me coube recuperar ao ler Espíritos quânticos levou-me a recuar no tempo, como se procurasse, nas gavetas da minha memória, um exemplo condizente. O ano que me apareceu, com efeito, foi 2008. Nessa altura, eu fui trabalhar para Namadende, uma localidade a uns 35 quilómetros da Vila de Furancungo, no Distrito de Macanga, no Norte da Província de Tete. Em Tete tive dois anos incríveis e considero que lá me fiz homem. Quem conversa comigo cinco minutos sabe muito bem do afecto que tenho por Tete e pelas circunstâncias inerentes à província. Vocês estão a ouvir-me há cinco minutos. Então, também já sabem disso. Em termos profissionais e pessoais, lá realizei-me, de alguma forma, mas essa é uma história para outros capítulos.

O que eu quero que vocês saibam é que eu fui a Tete para dar aulas, depois de me formar no IMAP de Chibututuine – Manhiça. No fim do meu primeiro ano de trabalho, mais ou menos em Novembro de 2008, activei uma mina e explodiu. Reparem, não se trata de nenhuma desses engenhos que devem estar a pensar. A mina que pisei e explodiu, segundo me explicaram os meus amigos e colegas, era uma droga, mas nada dessas coisas que se injecta ou que se inala. A droga é uma forma de dizer feitiço.

Dos Remédios, tu passaste por algum sítio onde montaram uma mina. Como não era para ti, os efeitos são esses, secundários.

– Como tu sabes disso, quer dizer, como tu sabes que o feitiço não era para mim?

– Se fosse para ti, não estarias aqui a conversar comigo.

Os efeitos secundários a que o meu amigo se referia eram graves inchaços nos pés. Os meus pés incharam tanto que nem podia calçar sapatos ou sandálias. Chinelos, apenas um certo tipo. Pior, os meus movimentos ficaram condicionados e de um dia para o outro deixei de ser aquele apfundzisi (do chichewa, professor em português) ágil a jogar futebol.

Diante daquela situação toda, em que realmente houve muita hesitação em relação ao que acreditar, se eu decidisse que tudo aquilo tinha uma explicação natural, estaria a activar o estranho. Se optasse pela ideia de forças transcendentes ou feitiço, o maravilhoso seria a palavra de ordem.

Esta minha experiência real, que não vos conto como terminou de propósito, tem muito a ver com o tipo de confronto que nos é imposto durante a leitura de Espíritos quânticos. O livro organizado pela Gigi, repito, Virgília Ferrão para vocês, traz-nos histórias que desafiam as nossas crenças e o que deixamos de acreditar. Não só se trata de uma bela antologia. Aqui, igualmente, temos um conjunto de textos que questionam a nossa linha de horizonte. O fantástico ou o que se pode julgar isso ser é, na verdade, um pretexto para encontrar nas coisas simples e/ou complexas uma forma de sairmos do lugar confortável onde eventualmente nos encontramos para atingir a transversalidade e a imprevisibilidade do que é capaz o espírito humano. Há um universo que os escritores publicados nesta antologia enxergam. E, ao experimentarem o que não é possível ao Homem comum, partilham em palavras o que não podem em imagens. Aliás, a palavra é a imagem delicada de uma sensação que se pode confundir com um gesto.

De igual modo, Espíritos quânticos é um convite para juntos partirmos em direcção ao passado da Humanidade em sintonia com o futuro sempre imprevisível. Aqui a narrativa não é apenas confronto de arquétipos, também é acção e contraindicação… A pessoa lê as histórias do livro e, acreditando ou não, torna-se uma outra versão de si, onde cabem a diferença e a incompreensão sem atritos.

Embora o fantástico, naquela perspectiva todoroviana, seja recorrente em Espíritos quânticos, no livro também se encontram propostas de ficção científica, uma área ainda por explorar em Moçambique e nos restantes Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. No caso, esse tipo de histórias serve para nos levar a algum lugar na mesma proporção que trazem de espaços incertos respostas sobre perguntas nunca antes formuladas. “Sonda M – sinais de um homem player”, da Gigi, é um exemplo disso.

Este é um livro que se faz de partículas visíveis e invisíveis; um livro com histórias bem conseguidas. Por isso, o leitor pode se surpreender com o que Mia Couto ainda é capaz de escrever ou render-se: à pena de Marcelo Panguana, ao processo criativo de Bento Baloi, à distinta criatividade de Suleiman Cassamo, à pertinência do texto de Vera Duarte, à originalidade de José Luís Mendonça, ao soberbo Lex Mucache com o seu “O portal de Chinhamapere”, certamente, entre os melhores textos do livro, ou ainda deixar-se envolver com “O perdão de Mwamulambo”, de Agnaldo Bata, e pela exaltação ecológica de Daniel da Costa/Andreia Edna da Silva.

Não pretendi apresentar este livro, o que me cabe dizer de Espíritos quânticos é que é esse lugar incomum, preenchido de histórias que nos despertam para outras possibilidades sobre o mundo e sobre a maneira como nos concebemos: interiormente e publicamente.

 

*Intervenção feita na apresentação do livro Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa, organizado por Virgília Ferrão, no dia 1 de Abril de 2022, na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo. Texto escrito de cor.

Jeremias Langa, jornalista e jurista

Em primeiro lugar, queria dar os parabéns ao Tomás por ter trazido para o formato de livro a contribuição cívica que faz regularmente na STV.  Sim, mais do que comentários, aquilo com que, semanalmente, o Tomás nos delicia nas suas aparições na televisão são aulas de cidadania sobre o nosso comportamento ético quotidiano como sociedade, o nosso comportamento ético perante a rés pública, o crucial papel das instituições como pilar da construção da democracia, o papel dos cidadãos e da cidadania perante o nosso próprio devir.

Sim, com esta obra o Tomás lembra-nos de que, mais do que um mero membro de um Estado ou de uma comunidade política, ser cidadão é uma responsabilidade cívica porque enquanto tal somos detentores de direitos e de deveres perante o Estado e a comunidade de que somos parte.

Este livro teve a sua génese há cerca de 10 anos. Na altura, convidei o TVM para integrar o painel de comentadores do programa Pontos de Vista juntamente com Salomão Moyana. Nos anos subsequentes, o Tomás partilharia o espaço no programa sucessivamente com José Jaime Macuane, Ericino de Salema e Fernando Lima. Foi o período mais profícuo do comentário político na televisão moçambicana e a influência do programa está bem presente no que se faz hoje em muitos canais nacionais de televisão.

Parte do que se discutiu nesses programas Pontos de Vista, e mais recentemente no espaço de comentário que o Tomás passou a ocupar no noticiário da STV às sextas-feiras, está aqui neste livro. Prova inequívoca de que a escrita é imune aos géneros jornalísticos.

O Tomás revela-se sempre nas suas intervenções como um cidadão inconformado com o estado das coisas do seu país, pungente na sua crítica perante o descaso com os mais elementares valores éticos e morais e um intransigente e indefectível defensor do conteúdo jurídico-político de “Estado de Direito Democrático”.

Este é , de certa forma, um livro anti-épico no sentido de que não envereda pela celebração laureada, laudatória, panegírica, apologética das gloriosas realizações governamentais.

É antes um livro que faz uma crítica mordaz, lancinante, pungente da nossa realidade quotidiana.

Mas Tomás Vieira Mário alia, como diria Roland Barthes, a inteligência crítica com a sensualidade verbal.

No lugar do silêncio cúmplice por que envereda a maioria dos moçambicanos perante esta tendência quase auto-fágica perante o bem comum, ou a ominosa realidade da corrupção, da corrosão da máquina do Estado, do enfraquecimento deliberado das instituições, do desprezo pela constituição da República, da apologia do ódio e da desqualificação do outro perante as diferenças, Tomás assumiu o compromisso de intervir no espaço público, escrutinando ferozmente os poderes instituídos.

O seu livro contém cerca de 60 crónicas e está dividido em três grandes capítulos: Ética e sociedade no primeiro; Política no segundo e Comunicação Social no terceiro, mas a temática geral que perpassa por toda a obra está intrinsecamente ligada à construção do nosso devir comum, a ideia de construção de consensos sobre os desígnios comuns e unificadores da nação.

Numa época em que as tentações autoritárias assomam com subtiliza pondo em causa as conquistas democráticas do país, Tomas Vieira Mario clama pelo respeito pelos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, em particular as liberdade de expressão de opinião e de imprensa bem como o direito dos cidadãos a informação, enquanto conquistas inalienáveis do nosso Estado.

Tomás clama pela criação e ampliação de espaços de debate público no país como alicerces da cultura democrática para que esta  acção dos cidadãos tenha um efeito dissuadir perante o progressivo aniquilamento da eficácia da administração pública e até da segurança estratégica do Estado, como tristemente nos mostrou o julgamento do caso das dívidas ocultas.

Uma proposta de refundação do Estado

Mas ele não se limita a meros clamores: apresenta propostas, a mais marcante das quais a reforma profunda do Estado, a qual, diz ele, deverá culminar com a refundação do Estado moçambicano.

Porque, defende o autor, chega a permitir o acesso e exercício do poder de Estado para a instrumentalização deste Estado para apropriação privada dos recursos da colectividade.

A leitura é o processo cognitivo complexo de decodificar símbolos para extrair significados.

Mas também é um processo de criação de significados. Em cada leitura, o leitor gera a sua própria significação. Espero que cada um de vós faça a sua própria leitura do livro.

Aliás, um texto é um mero artefacto verbal que só se transforma em objecto estético mediante a leitura.

Têm aí estes Comentários na STV. Leiam-no!

*Texto de apresentação do livro “Comentários na STV”, de Tomás Vieira Mário

Darei o dito por não-dito. Nalgumas linhas acima prometera não esmiuçar pormenores sobre as aventuras do senhor Djacabai, o ajudante do senhor Coimbra. A razão que me move é o facto de que um dos eventos de que ele foi protagonista marcou o fim da sua carreira de conquistador no bairro, a mesma que maculou-lhe o pristígio já de si estremecido entre os  residentes da comunidade e não só, como a ver vamos.

Assim, retornemos à figura do aludido e passemos a reportar o acontecimento que desencadeou aquele grande tumulto e descerrou as máscaras de fidelidade com que se cobriam os rostos dalgumas residentes do bairro.

Djacabai residia no bairro da Mafalala, num casinhoto de caniço e zinco muito cuidado, sempre com pinturas frescas e com um jardim florido no frontospício. Pela  limpeza e originalidade distinguia-se das demais da vizinhança. A experiência de asseio que ele demandava dos residentes, era a mesma que governava a sua própria. Possuía um quarto e uma sala de tamanho mediano, confortáveis, embora não tão amplos como as dos vizinhos mais favorecidos, como as da família do senhor Abílio, escriturário nos Caminhos de Ferro; dos Mabenas, e outros de encarecido estatuto e influentes no lugar. A sua era modesta, palco restrito de protagonismos que só eram superados pelos que ocorriam nos lupanares das Lagoas e do Matlotlomane ali nas  proximidades.

As festividades do Natal aproximavam-se. Havia muito movimento nos caminhos, de gente que ia e vinha das compras no mercado do Xipamanine, nas lojas do Alto-Maé e da Avenida do Zixaxa.

Djacabai fora destacado para reparar umas tubagens que vertiam água numa casa situada na rua do Guijá, numero X, a pouca distância da cantina do Juze. O sujeito era tagarela, falava pelos cotovelos. Durante a operação de reparação encheu os ouvidos à dona da casa com muita conversa. Narrou histórias que presenciara ou escutara ao longo da sua permanência na cidade. Inventou outras de que fora protagonista lá em Manjacaze. Nas mesmas era sempre o herói. Era um conversador nato cuja presença angariava-lhe simpatias e amizades. Naquela ocasião, derramava os seus feitos em presença duma senhora de meia idade, de nome Genoveva, filha da anciã que era a proprietária da casa.  A conversa envolveu as três personalidades. A mulher jovem ria-se a bandeiras despregadas com as histórias do operário. Trocaram nomes e endereços, horários e disponibilidades. Ela vivia a três quarteirões da casa dos pais, nas proximidades do posto sanitário do bairro. Era casada com um senhor de nome Mapilele, estafeta num escritório da cidade e cristão muito piedoso. Do matrimónio tiveram dois filhos que eram a razão da sua vida presente.

Naquela manhã de sexta-feira, a senhora Veva informou ao esposo:

“ Logo à tarde irei visitar os velhos, a minha mãe não está lá muito bem. Depois passarei pela casa da modista ali no Mahafil provar algumas roupas”.

O esposo não se opôs porque era frequente assim ela proceder. Despediram-se e ele partiu para a jornada do dia.

Depois de despegar do trabalho o senhor  Mapilele, não a encontrou a esposa em casa. Ficou apreensivo pelo ineditismo da circunstância. Como a paciência é a mãe das virtudes, preferiu aguardar. Poderia ter-se dado o caso de ela demorar-se em casa dos pais, a cuidar da mãe, verdade se diga, sempre atormentada de reumatismo ou do pai com problemas da coluna e de tensão alta.

Às vinte e uma horas a Hora Nativa anunciou o fim da emissão. Da Veva nem um sinal.  As angústias do Mapilele ascenderam aos cem graus centígrados. Entrou em ebulição. Nunca semelhante falta sucedera naquele lar. Uma das regras cardinais de disciplina naquela casa era a pontualidade no cumprimento de compromissos. Estavam ali aquelas crianças à espera dos cuidados dela, do jantar por aprontar e das roupas por arrumar; enfim de toda a lide da casa adiada e ela ausente, desaparecida assim como fumo no ar.

Dirigiu-se à casa dos sogros. Estes já se encontravam a dormir. Bateu à porta com um vigor pouco habitual. Lá de dentro o sogro estremunhou uns protestos e franqueou-lhe a entrada.

“ Venho à procura da Veva. Desde que saiu de manhã ainda não voltou para casa”, gaguejou, estremecido e nervoso. A velha mãe arregalou os olhos nuns espantos e disse.

“ Não vejo a Veva desde a semana passada. Ela aqui não veio. Estive todo o dia em casa e não a vi aqui”.

O senhor Mapilele deixou aquele fogo, mas outros fogos ardiam no seu peito. Muitas perguntas atropelavam-se-lhe na cabeça. “Para onde a Veva teria ido? Onde estará agora? Com quem estará? Será que esses bandidos de má nota tê-la-iam morto e escondido o corpo aí nos becos dos caminhos?”. Eram todas perguntas sem respostas, embrulhadas numa mente atormentada.

Regressou cabisbaixo. A que se seguiu foi uma longa noite de vigília, à espera da claridade da madrugada para iniciar buscas da esposa, já oficialmente desaparecida.

A notícia correu como o vento em todos os bairros. Os residentes murmuravam:

“Desapareceu uma mulher chamada Veva que vive no bairro Indígena”.

“A história é sempre a mesma: ela fugiu masé com um homem. Essas piedosas são sempre as mesmas, santinhas por fora, mas Diabos atrás da cruz!…conheço-as bem…”.

“A comadre parece falar com conhecimento de causa…pecado confessado, meio perdoado, lá diz o padre com razão…”, outra a desferir uma alfinetada de dúvida na fidelidade conjugal daquela.

“Acho que a vi no bazar do Diamantino; não tenho a certeza, mas se é a Veva que eu conheço só pode ser ela”.

“No Diamantino? Qual quê. Eu vi a Veva ontem na Catembe, quando ia comprar peixe?…vi-a com estes olhos…”.

Ao senhor Mapilele restava apenas uma saída: esperar por novidades.

A manhã do sábado ia no fim quando uma delegação constituída por personalidades de semblantes carregados deu entrada no quintal da residência daquele. Servidos os  assentos aguardou por informações. Estas não se fizeram demorar. Ele não gostou do que viu, e muito menos do que escutou. Era uma comitiva constituída por elementos da Esquadra e dalguns “irmãos” da congregação. Por fim, revelaram pelo que vinham e ele já adivinhava do que se tratava:

“ Irmão Mapilele, as novidades que trazemos são chocantes e tristes”, assim fez a introdução o que parecia caudilhar o grupo.”Esta manhã apareceu na ali Esquadra um senhor de nome Samuel Bocoda que disse saber do paradeiro da “irmã” Genoveva, a sua esposa”.

“Agora quem é esse tal  Bocoda de que estão a falar? Não conheço nenhuma pessoa com esse nome” era o nervosismo a acrescer-se na mente perturbada do dono da casa.

“ Conhece sim, é o ajudante da manutenção aqui no bairro, esse que chamam Djacabai”.

“ E depois?”

“ Ele foi apresentar-se na esquadra para declarar que a dona Veva está em casa dele”.

“ Já desconfiava…já desconfiava!.. Então ela resolveu abandonar o lar, hen?!, fugir de mim, dos nossos filhos, por causa desse homem? Meu Deus, por favor, diz-me que não estou a ouvir direito!”, ergueu os olhos e as mãos em prece ao céu para solicitar alguma inspiração divina.

Um silêncio pesado suspendeu-se na atmosfera do ajuntamento. Como passar à novidade seguinte? O mesmo mensageiro, é de crer, experiente nesses mesteres de comunicação de fatalidades, tossicou e, aclarada a voz, prosseguiu:

“ A irmã Veva está morta em casa do senhor Djacabai. Ela morreu esta noite, na cama dele!…”.

E a bomba explodiu. O subúrbio estremeceu com as ondas da novidade da morte duma mulher casada, na cama dum amante. A fontenária do bairro foi o epicentro  da comoção. As línguas entraram a badalar nas bocas brejeiras.

“Afinal a Veva morreu de quê? Aonde já sabemos, mas de quê?”, perguntava uma, sem se dirigir a ninguém em especial.

“Morreu dum ataque!”, tentativa doutra de desvendar a causa principal da morte da infeliz.

“Mas ataque de quê?”, insistência doutra, dúvida por esclarecer, porque qualquer ataque tem as suas origens e motivações.

“Não me perguntes, pergunta masé ao Djacabai, ele vai-te informar…”, chacota doutra a acotovelar outras na aproximação do tambor às torneiras que jorravam água.

“Chiça! alguns homens enganam mesmo…palavra d’honra!…assim tão magrinho como ele é, juro por alma do meu pai que nunca pensei…assim tão magrinho…eish!…”, veneração e respeito pelas habilidades do parceiro da finada.

“Dizem que ela até espumou da boca!… com esses homens não vale a pena mesmo… se calhar ele tomou remédios para ter mais força…coitada da senhora…”, experência doméstica denunciada na espontaneidade  do comentário.

“ É por isso que eu não me meto nessas coisas…já bem me chega o meu Alberto…”.

“ Ela não aguentou com ele e zás…foi-se!…”, alguma luz na penumbra da dúvida sobre a “ patologia” que teria causado o “ataque” e a morte súbita da dona Veva.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

A luz com que vês os outros é a luz

 com que os outros te vêem a ti.

Provérbio africano

 

Este primeiro de Junho tem de ir além das comemorações, para ser, igualmente, um momento de reflexão sobre o quanto crianças com deficiências precisam ser olhadas, respeitadas e incluídas em todos os espaços da nossa sociedade. Na realidade, independente do que julgamos ser, saber e possuir, temos todos, grosso modo, uma deficiência temporária ou permanente. Esta deficiência se revelará em algum momento das nossa vidas. Quando isso suceder, as experiências podem ser mais ou menos marcantes, mas não deixarão de ser histórias de vida, de amor e de compaixão.

O leitor tem, em suas mãos, a primeira experiência literária de uma jovem mãe, guerreira, destemida, obstinada e que não se conforma com fatalismos e desigualdades. Uma mulher que conquista nossos corações e ganha estatuto de mulher solidária.  Percorrendo estas páginas, reencontramos alguém que se predispõem a partilhar suas privacidades, contrapondo com o ostracismo e silêncios. Um exercício de reconstituição de memórias e convulsão de sentimentos. Benilde Mourana encontrou na deficiência todas as razões para interagir com o grande público leitor.

As facetas mais fascinantes da vida são, quiçá, as mais simples de serem descritas. As outras, mais complexas, obedecem e sugerem roteiros distintos. Temos de conformar a dor e o sofrimento, para reencontrar o caminho do alívio e da tranquilidade. Porém, a vida, este dom divino que desfrutamos na plenitude ou em partes, nos ensina fundamentos e lições diversas. Revelar estas facetas pode ser uma experiência fenomenal ou traumática. Mas, ignorar as diferentes dimensões da vida parece ser inconsequente. Então, reencontre nesta narrativa a revelação da inquietude e do amor, do sofrimento e da paz, a retoma pelos modelos de superação, reinvenção das memórias e a alucinante vontade de estabelecer uma comunicação horizontal.

A autora deste livro, nesta primeiríssima viagem descritiva, não cuida apenas de uma filha com problemas, trata de várias dezenas de crianças e jovens. Ao assim proceder, ela não só repõe a esperança aos familiares, mas, também, devolve um sorriso às crianças, jovens e até adultos com deficiência. Nesta relação, fica escancarada a certeza de que o amanhã se escreve com as cores do arco-íris de hoje. A autora converte-se numa espécie de Madre Teresa de Calcutá, que vence as emoções e empenha-se no essencial. Uma mulher de causas, recriando ou ressignificando os caminhos da indiferença e da negação da felicidade e do futuro.

As famílias moçambicanas mais carentes enfrentam, em diferentes em períodos históricos, a questão moral e ética de como lidar, incluir e apoiar, com mais perspicácia, com ou sem recursos, as pessoas com deficiência. Essa tarefa torna-se, cada vez, mais premente com o avançar da idade destas crianças e adolescentes. Em causa esta a tipologia e a demografia deste grupo populacional. A situação está longe de fácil, compreensível e aceitável. Em jogo estão cuidados primários, alimentares, apoio psicológico e moral. Em causa está a vida e a qualidade de vida que tem de ser providenciada. Enfim, a vivência nos limites da capacidade emotiva, física e emocional. Porém, estas famílias não vergam e nem viram, nunca, a cara a luta. Cada dia tem sido um dia, e em cada sorriso infantil rebuscam das cores invisíveis dos raios solares, a energia e foco para levarem a bom porto a sua missão.

Ao longo da obra, entendemos o sentido primário e ético de vocação; o sentido superior de missão; a face da virtude. Pela história de Luana, essa jovem menina que agora beijou os seus dez aninhos de vida, reencontram-se estes conceitos associados a crença e a fé. Este escrito, ainda que force a leitura com os olhos embaciados, leva-nos de volta ao sentido de chamamento. Benilde e seu grupo de colegas e profissionais, aqui superiormente narrados, repõe uma espécie de despertar, refazendo o convite para ampliar o valor intrínseco de sua vida, abandonando a inércia ou a zona de conforto, abraçando, deste modo, essa causa que faz dela e delas, verdadeiramente, pessoas especiais. Ao cuidar de crianças e jovens com deficiência, elas próprias se transformam em pessoas especiais, perseguindo novos sonhos, objectivos e, na maior parte dos casos, transformando-os em realidade.

A deficiência perpassa a estabilidade familiar e emocional, colocando-se num plano da inserção dos portadores de deficiência, ao nível societário na estabilidade e no próprio desenvolvimento de Moçambique. Existem evidências de que pessoas com deficiência experimentam os piores resultados socioeconómicos e pobreza, se comparadas com as pessoas não deficientes e mais independentes. Todavia, apesar da magnitude desta situação, carecemos tanto de consciência, como de informação científica das reais causas ou consequências da deficiência. Não existem consensos sobre definições, nem credíveis informações, que permitam comparar, com exactidão, a incidência, distribuição e tendências da deficiência. São escassos os documentos com análises comprovadas, sobre como lidar com a deficiência e, sobretudo, sobre as respostas para abordar as necessidades das pessoas com deficiência.

Historicamente, as pessoas com deficiência têm, em sua maioria, sido atendidas através de soluções segregacionistas, tais como instituições de abrigo e escolas especiais. As pessoas com deficiência apresentam piores perspectivas de saúde, níveis mais baixos de escolaridade, participação económica menor e taxas de pobreza mais elevadas em comparação as pessoas sem deficiência. Naturalmente, isto acontece pelo facto de as pessoas com deficiência enfrentarem barreiras no acesso a serviços que muitos de nós consideram garantidos, como saúde, educação, emprego, transporte e informação. Tais dificuldades são exacerbadas nas comunidades mais pobres.

O relatório Mundial sobre a deficiência múltipla, de 2012, dava conta de que mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo convivia com alguma forma de deficiência, dentre os quais cerca de 200 milhões experimentam dificuldades funcionais consideráveis. A previsão era de que, nos próximos anos, a deficiência seria uma preocupação ainda maior, porque a sua incidência tem aumentado exponencialmente. Este aumento tem a ver com o aumento global de pessoas expostas ao risco de deficiência crónica, tal como as diabetes, doenças cardiovasculares, canceres e distúrbios mentais. A saúde humana também tem sido afectada por factores ambientais, tais como água potável e saneamento do meio, nutrição, pobreza, condições de trabalho, clima, ou até acesso a atendimento de saúde. Mas, a desigualdade tem sido das principais causas dos problemas de saúde e, por conseguinte, da deficiência.

Em Moçambique, estas razões encaixam na sua plenitude. Porém, existem, ainda, as causas sobrenaturais ou espirituais. Não admira que um país que continua tendo mais de metade da sua população recorrendo a tratamento fora de unidades hospitalares, socorra-se a espiritualidade para explicar o fenómeno da deficiência. Assim, a explicação mais lógica tem sido o fenómeno da reencarnação dos espíritos. Os defuntos das famílias nem sempre são tratados com a devida dignidade e, assim, eles regressam à terra para se instalarem em determinadas pessoas. Esta crença explica uma relação difícil e complexa entre as famílias e seus filhos com deficiência.

Existem casos de filhos com deficiência que são retirados da família para serem enviados para o campo ou para as periferias, longe do núcleo central da família. Famílias que exerçam lideranças tradicionais convivem mal com o fenómeno deficiência e imputam as culpas às suas esposas por estas ocorrências. A autora foi acusada de ter cometido adultério. Esta é uma explicação comum e despropositada, não tem nenhuma prova nem racional científico.

Benilde Mourana quis partilhar a narrativa da sua trajectória e desmistifica e desconstrói factos complexos da deficiência, conferindo um carácter de humanismo, simplicidade e uma bênção divina. Deus, como ente superior, determina o caminho de cada ser e sabe qual o papel que cada um de nós precisa de seguir e desempenhar na terra. Com mestria de quem quer transmitir e escrever a meio de tantos outros afazeres, ela sugere que são estas crianças e jovens que fazem e convertem a todos nós como pessoas especiais.

Na sua descrição sobre Luana, sua filha de quem teve uma gravidez normal, e que embora não estivesse disposta a seguir com a gravidez, ela revela que a mesma não aparentava nenhuma complicação até ao nascimento. Seguiu as recomendações médicas e fez as consultas pré-natais com a devida regularidade. Só descobriu e tomou consciência da gravidade do problema da sua Luana, depois de ter visitado diferentes médicos no país e na África do Sul e em Portugal. Portanto, um caso de doenças raras, mas, que mudou de alguma forma a sua rotina e o modo como lida com a situação. Por isso, estas páginas pincelam essa angústia, mas, e sobretudo, a certeza de que o mundo foi feito para todos e, cada um a seu tempo, seguirá trazendo felicidade ou infelicidade para os que acreditam e para os menos crentes.

Esta narrativa nos transporta para outras facetas e para a essência de uma trajectória que faz questão de não esconder ao mundo. Fá-lo com orgulho e com uma capacidade de escrever e expurgar a dor. Exorcizar os fantasmas e colocar a divindade no centro do destino e da criação humana. Porém, tem sido claro que a maioria das pessoas com deficiência no mundo, tem extrema dificuldade até mesmo para sobreviver a cada dia, quanto mais para ter uma vida produtiva e de realização pessoal. Enquanto, algumas poucas pessoas, pelo mundo, tem a sorte de ter apoios e recursos para viver uma vida que vale a pena, a autora não tem perspectiva de que o seu pequeno espaço possa beneficiar de meios eficazes para levar a bom termo o seu trabalho. Mas, ela encontra algo bem mais significativo e importante: a superação, o apoio dos amigos e uma legião de pessoas que abraçam a causa da cidadania.

Embora a autora reconheça que, nas últimas décadas, o movimento das pessoas com deficiência ganhou novos contornos e atenção, a sua obra não tem o efeito de chamada de atenção, mas o de educar e transpor o papel das barreiras físicas e sociais vis-à-vis a deficiência. Para a autora, as pessoas são vistas como deficientes pela sociedade, porém muito para lá destas incapacidades, esta uma vida, um sorriso e o amor incondicional que eles oferecem a todos sem excepção. Portanto ela apela a uma abordagem conceptual mais equilibrada, que deveria dar mais ênfase ao enquadramento social, dos que propriamente ao estado físico.

A autora tem o mérito de explicar, de forma simples, que a deficiência afecta seja a criança recém-nascida com uma condição congénita, tal como paralisia cerebral, como também afectaria vítimas de acidentes, de guerra, pessoas que sofrem de artrite ou alguém que passa por algum infortúnio, que sofra de demência, de entre muitas outras causas. Um enxoval em cadeira de rodas como sugere o título. Quando terminar esta leitura entenderá que os problemas de saúde podem ser visíveis ou invisíveis, temporários ou de longo prazo, estáticos, episódicos ou em degeneração, dolorosos ou inconsequentes. No final estas crianças, como a sua Luana, natalina, e as dezenas de Luanas, que estão sob seus cuidados nem sequer se consideram pessoas com deficiência ou enfermas, são os seres que nos fazem especiais.

a instauração do desassossego

não seria a principal finalidade

da boa literatura?

 

É com esta questão que se encerra o prefácio que a professora Vanessa Riambau Pinheiro faz do livro “cães à estrada e poetas à margem” de Deusa d’Africa. O que está em voga pode não ser a mera busca pela intencionalidade textual e sim um lançamento do olhar ao que realmente importa para que o texto seja efectivamente literário.

Longe da falsa divisória da forma e do conteúdo, que se tem tornado norma na actual poesia moçambicana, “cães à estrada e poetas à morgue” é uma intercessão entre o real e o imaginário. O sonho e a realidade. A memória e o devaneio. O mundo exterior e o interior. Uma poética imagética surreal e mimética.

Depois de se ter estreado com “A voz das minhas entranhas” (poesia), em 2014, e publicado (Equidade no Reino Celestial” (romance) e “Ao encontro da vida ou da morte” (poesia), em 2016, Deusa d’Africa traz-nos, seis anos depois, este “Cães à estrada e poetas à morgue” que, pelo título, já antevê um lirismo mordaz e acutilante como se nos dissesse: se os cães ladram e os poetas vivem na letargia, que vão os primeiros à rua e os últimos à morgue.

De facto, tal como uma vez asseverou o poeta cabo-verdiano José Luís Tavares, um poeta que não é uma inconveniência social é apenas um reprodutor da ordem vigente mesmo se comprazendo em sofisti­cados jogos de máscaras.

Este lirismo votado à sociedade e suas mazelas quotidianas experimenta um contínuo apelo ao grotesco e uma aura escatológica em todas suas dimensões. A escatologia deve ser vista, aqui, na sua dupla significação. Primeiro, enquanto discurso da irreversibilidade do destino e do esvaimento da própria existência, individual e colectiva.[1]

Não se quer com isso assumir que em “cães à estrada e poetas à morgue” a poeta esteja em contínuo exercício de demonstração da ausência de fé na regeneração da sociedade, até porque o estudo directo da psicologia do autor e o estabelecimento de uma relação de causalidade entre o seu meio, a sua vida, a sua classe social e as suas obras é uma via particularmente incerta.[2]

Pretende-se, sim, realçar que os cenários, modos, hábitos e práticas que os Homens adoptam socialmente conduzem, inevitavelmente, à corrosão da sociedade senão deles próprios. Estes cenários. Estes modos. Estes hábitos. Estas práticas são descritas com uma minúcia a que a poeta já nos habituou em “Ao encontro da vida ou da morte” que recorrentemente nos remete ao (realismo) grotesco.

Mesmo antes da viagem poética a que o livro se propõe, é-nos apresentada uma epígrafe que nos antecipa relativamente ao que iremos encontrar ao longo dessa viagem:

os homens se vestem de ternos perfumados e engomadinhos, com vinco quente às calças, flor campestre e almiscarada na lapela, urinam sobre as acácias da cidade tal como tutelam o meio-ambiente, bebem tal como se defecam nos bares, comem nacos gigantescos de carnes tal como os seus vivem à míngua, se deitam com suas filhas tal como os macacos o fazem, leem manchetes em jornais dos ardinas encenando haver interesse mesmo que nunca os comprem (p. 13)

Refira-se, antes de mais, que o grotesco existia já desde a Antiguidade greco-romana, mas o termo grotesco surge no final do século XV. Entre os teóricos que se debruçaram sobre este fenómeno da arte, tem sido consensual destacar-se Mikhail Bakhtin (com a denominação de realismo grotesco) Wolfgang Kayser (com a denominação de grotesco romântico) e Vsevolod Meyerhold (com a denominação de cômico-sério) que, na qualidade de director de teatro, se dedicou a esta característica no exercício do seu trabalho.

Não caberá, obviamente, nesta recensão toda a discussão possível de fazer em relação a este conceito mas vale referir que a sua categorização como corrente, género ou estilo está relativamente longe de granjear consensos. Ao que, enquanto não tomo um lugar nesta mesa de debate, procurarei a denominação mais eclética possível.

Em geral, trata-se de uma postura estética que se carateriza por uma verisimilhança vivaz (e de certo modo, hiperbólica) que se detém aos pormenores do macabro, real ou imaginário, dando ênfase a actividades como comer, excretar, o sexo, o parir, etc. gerando, com efeito, a estranheza. O desassossego.

Ler “cães defecam/ poetas cagam/ Cães vomitam/ poetas engolem o vômito/ Cães comem guelras/Poetas chupam ossos/ na página 114 deste livro, pode, indubitavelmente, dar-nos provas deste efeito estético.

Ao contrário do cánon clássico que representa o corpo harmonioso, rigorosamente fechado e solitário, o corpo grotesco será sempre representado em seu devir, em seu inacabamento, nas múltiplas protuberâncias, nos orifícios, e em seu funcionamento interno.[3]

De forma consciente ou não, Deusa d’Africa toma propriedade deste ímpeto do grotesco e permeia o seu “cães à estrada e poetas à morgue” de imagens que a nossa mente ou conhece ou passa a conhecer pela construção imagética que as palavras trazem e nos faz reviver o caos que grassa a nossa sociedade (e não só) do mesmo modo que incita a dimensão catártica do nosso íntimo perante a penosa situação escatológica em nos encontramos.

uma agência funerária vende a promoção flores mortas na entrada do hospital,

a enfermeira de bata da impaciência sobe ao cimo do hospital como se escalasse cadáveres

soldados com granadas e espingardas matam uma pétala por um tiro sangrento

e servem a calda de sangue num prato para uma criança recém-nascida

enquanto se resseca literalmente o leito numa mão com o ventre rasgado pelo medo

 (p. 26)

uma mulher nua fere com seus espinhos a fome no cemitério onde mora

uma criança cospe sangue sobre a fome e encerra centros de saúde insanos

uma mulher menstruada urina sobre a flor e condena com a sua impureza

um poeta segue o percurso da urina e é preso no bar de palavras confidenciais (p. 33)

Embora se trate de problemas quotidianos e, em certa medida, corriqueiros, a forma como são descritos transmitem, decerto, a imagem do mórbido que se despe e nos desassossega.

Tendo despontado nas artes cénicas e plásticas, sobretudo, o grotesco entra na literatura pela mão de Charles Baudelaire (1821 – 1867). Até então, era tido como uma manifestação até certo ponto marginal ante o que se tinha como sublime. Contudo, nos dias de hoje e pela sua recorrência quanto na prosa como na poesia, o grotesco ocupa o mainstream.

Deusa d’Africa, neste tempo e nestas latitudes, reclama, com este livro, um pódio que lhe é merecido na manipulação da palavra neste viés estilístico para representar o real que a cerca e os devaneios que o seu ego, enquanto poeta e ser social, não ignora e se deixa transparecer no poema com algum hiperbolismo à mistura. Mas, que isso mal tem? Nenhum! Porque bem mesmo antes destes tempos, Dostoievski escrevia que em arte, para mostrar o objecto, é preciso proceder por exageração, é preciso deformar a sua aparência precedente, é preciso colori-lo.[4]

É através desta coloração que em alguns textos o escatológico se dilui e é reavivada a sagrada esperança sem que com isso o grotesco se iniba de dar ares de sua graça:

Amanhã cessará o fogo das armas

bocas munidas de saliva que cospem

sangue e almejam tudo à sua volta.

Amanhã não haverá facas espetando as gengivas

para que a sangue-frio se tolhe a alegria de viver e ser. (p. 47)

 

 

[1] NOA, Francisco. A Escrita Infinita. Maputo: Livraria Universitária, 1998

[2] TYNIANOV, J. “Da Evolução Literária.” In EIKHENBAUM et al. Teoria da literatura: formalistas russos. Lisboa: Edições 70, 1999.

 

[3] https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/grotesco

[4] JAKOBSON, R. “Do Realismo Artístico”. In EIKHENBAUM et al. Teoria da literatura: formalistas russos. Lisboa: Edições 70, 1999.

Hoje, recuamos no tempo e lembramo-nos da nossa existência há 17 anos. Nestes anos que se somam, de papel em papel, com tintas escorridas coerentemente, criando desenhos significantes, enquanto factos capturados a grosso e processados para distribuição a retalho, fomos escrevendo a história do jornal O País e, principalmente, a história de Moçambique e do mundo. Fomos lutando pela conquista de presença no espaço democrático, dando palavra à sociedade e levando outras tantas até si.

De edição em edição, fomo-nos afirmando como o quarto poder, renegando sempre o convite envenenado para que nos tornássemos o quarto do poder, com regras impingidas pelo dono do quarto. Fincamos pé e rejeitamos ver a nossa jovem e frágil democracia rasgada e pisoteada pelos inimigos da liberdade de imprensa. Içamos a bandeira da liberdade de expressão que, a bem da verdade, reconhecemos que não passou de meia-haste, não por razões nobres ou patrióticas que a faria descer, mas porque ainda estamos na luta para fazê-la subir.

O jornal O País nasceu em Maio de 2005, quando Moçambique espreitava a pré-adolescência da democracia multipartidária e a liberdade de imprensa, enquanto um direito consagrado na biblioteca das leis, empoeirava-se nas prateleiras havia 14 anos. A imprensa privada ainda era uma tímida realidade, que buscava identidade sem plena consciência dos intervalos de acção permitidos. A fronteira legal da liberdade de imprensa, apesar de definida na Lei 18/91 de 10 de Agosto, ainda era pouco percebida ou conscientemente negligenciada por quem a aprovara, quando vestia a máscara da democracia imposta para o restabelecimento da paz social e fim das hostilidades militares.

Os escribas tinham, no seu quotidiano, a espinhosa tarefa de ressuscitar cada letra morta desta lei, e houve quem morreu nesse exercício. O jornalista Carlos Cardoso é o exemplo mais chocante desta luta, mas também combustível para imprimirmos velocidade e não nos permitirmos seguir para o abismo das palavras algemadas. Retiramos a areia da embraiagem e mostramos que a nós cabe decidir a velocidade em que queremos seguir.

De velocidade em velocidade, o jornal O País fez-se presente em muitos momentos históricos. Quando o país entrava em ebulição social, ora pela subida dos preços de combustíveis, pão e energia, ora por outras doses de insatisfação ou sufoco social, com a responsabilidade que nos caracteriza, o jornal O País fez-se às ruas e trouxe os factos, nada para além da verdade, mostrando que, com a peneira, não se tapa o sol. Uma liberdade negada e combatida quando a emoção se sobrepunha à razão. Desta forma, contribuímos para edificar a democracia, enquanto um pilar estruturante da sociedade. Um Governo deve ter a imprensa como amiga, para que tenha possibilidades na adversidade, tal como precisa de ter boas relações com o povo, para que se firme na lama, segundo um ditado popular.

Testemunhamos o renascimento de ataques militares, como resultado do descontentamento da Renamo com os processos eleitorais. Esquivámos balas e, firmes, continuamos à busca da verdade, que morre sempre com o primeiro tiro, prenúncio de um conflito militar, e hoje, ainda mais distante de ser ressuscitada devido ao terrorismo no Norte do país. Aqui, até fomos, em alguns momentos, excluídos do palco dos acontecimentos, como se fosse possível adiar a tempestade para transferir o tesouro. Apagada a “suspeita”, entramos em cena e os factos possíveis noticiamos.

Estes capítulos da história do país ajudam-nos a compreender as sendas percorridas na edificação das nossas instituições, que hoje, 45 anos após a independência, permanecem infaustamente frágeis e com a credibilidade beliscada.

Se falar de boas leis é provocar uma discussão filosófica sem fim, pelo menos como país, devíamos fazer valer os principais fundamentos de um Estado de Direito – – as leis. Elas toldam a liberdade dos homens e até travam a sua evolução, mas garantem a existência da sociedade e a coesão social. Qualquer liberdade fora das leis devolveria ao Homem, ou melhor, enfatizaria o seu estatuto de animal e apressava o desaparecimento da sociedade.

Por isso, respeitar a Lei de Imprensa e todas outras existentes, bem ou mal concebidas, é politicamente imperioso, tal como rever uma lei, com o intuito de melhorar a gestão social e adequá-la à realidade. Mas, nunca com a manifesta vontade de quartar liberdades outrora ganhas e aclamadas.

Vivemos, hoje, numa sociedade com outras dinâmicas, políticas, económicas e culturais, trazidas pela evolução da tecnologia. A media e a respectiva indústria moldaram-se com o desenvolvimento tecnológico, e suas tradicionais formas de produção e difusão de informação têm estado a ruir. Por essa razão, a media vive, hoje, uma incerteza sobre a sua sobrevivência.

Entretanto, mantendo constante a necessidade social de acesso à informação credível, o incerto é a forma como essa informação será produzida e difundida. Portanto, ao pretender-se rever as leis existentes sobre este segmento, é importante compreender o todo – a indústria e o meio envolvente – que vai para além das nossas fronteiras geográficas, isto é, captar as tendências internacionais e preservar a liberdade de expressão.

Qualquer evolução que se almeja no sector da media passa por compatibilizar a sua evolução com o quadro legislativo e regulatório, numa perspectiva de fazer-lhe reflectir as mudanças que se vislumbram com os novos paradigmas da comunicação social e manter intacta a liberdade genuína que alicerça a profissão. Portanto, a proposta de Lei da Comunicação Social deve fazer jus à amplitude desta designação e trazer alterações do quadro legal à altura da realidade actual.

Portanto, que o poder legislativo tenha discernimento de discutir e aprovar esta lei com o sentido de defesa da democracia, porque é sobre esta umbrella que queremos celebrar mais aniversários do jornal O País. Que a demora em agendar o debate resulte numa melhoria substancial do instrumento!

Enquanto isso, vamos criando cabedal com as conquistas de 1991 e 2014, Lei de Imprensa e Lei do Direito à Informação, respectivamente, porque, se a mudança for contra a liberdade de imprensa e contra uma indústria de media moderna, teremos de saber sobreviver inconformados, mas obrigados a respeitar. Até porque uma mudança sempre deixa lançada a base para a emersão de outra.

Pede-se me que  faça uma reflexão breve sobre o papel de instituições fortes, credíveis e funcionais como elementos instrumentais de estabilidade e boa governação de uma sociedade.

Devo,  em primeiro lugar,  reflectir sobre a natureza da existência de instituições que fazem  a construção de uma sociedade estável, por um lado, a nível objectivo, orgânico e estrutural, e por outro, a nível de valores essenciais, como a ética e a moral que funcionam como faróis para uma sociedade estável e saudável. E, em segundo lugar,  reflectir  também,  sobre a constituição das instituições orgânicas, estruturais e também de valores no caso de Moçambique, Estado e Moçambicanidade.

É comum ter-se a percepção de que algo não está a funcionar adequadamente  numa determinada sociedade porque as suas instituições não são sólidas. Essa afirmação não passa de uma petição de princípio, isso é um silogismo que carece sempre de uma aferição mais objectiva, como o são todos os silogismos.

Há dois tipos de instituições numa sociedade constituída. Primeiro, instituições do sistema estrutural e organizacional, na área política, económica, social, cultural, religiosa, desportiva, em suma, o Estado. Segundo, instituições de valores: valores morais, éticos  e demais códigos sociais.

Ambos os sistemas de institucionalização acima referidos devem convergir de modo a determinar a estabilidade da sociedade nas várias estratificações criadas pela dinâmica da história da própria sociedade. Tomemos como exemplo Moçambique como um Estado e  sociedade de origem colonial e matriz ocidental, construído a partir de um paradigma centrífugo, decorrente da arbitrariedade na definição das suas fronteiras,  que não teve em conta sociedades pré-coloniais, com história e geografia diferenciadas e matriz africana.

A construção de uma consciência de se ser moçambicano por cima deste pressuposto denota sempre uma amálgama de instituições,  quer de valores,  quer orgânicas,  que em determinado momento podem entrar em entrechoque, fragilizando o edifício a construir, que são o próprio Estado e a essência do que pode ser e sentir-se moçambicano.

Se juntarmos a isso toda uma dinâmica de construção de uma narrativa de afastamento conflituoso do sistema colonial,  verificaremos que a construção de instituições,  quer orgânicas, quer de valores no homem moçambicano é de uma complexidade que em vez de reforçar, enfraquece a sua estrutura. Portanto, a percepção que nós temos  de que Moçambique tem instituições fracas não depende apenas de quem conduz os processos organizacionais, políticos, económicos, morais, mas sim da própria dinâmica do devir histórico enraizado no passado histórico.

Se consideramos que a história e a geografia de Moçambique é uma amálgama, a sedimentação desta amálgama será  sempre um processo difuso e imprevisível, demandando tempo para a sua consolidação  enquanto Estado e Sociedade.

Não que não seja possível construir um Moçambique com instituições fortes, credíveis e funcionais, mas isso não depende de clamores momentâneos que nos demonstrem que Moçambique não tem estas instituições. É minha percepção que qualquer grupo que queira tomar conta do leme para conduzir Moçambique a uma estabilização terá sempre dificuldades múltiplas.

A questão é simplificada da seguinte forma: toda a narrativa de construção de um Estado chamado Moçambique foi estruturada com base no Nacionalismo, na Luta de Libertação Nacional, na destruição do Estado colonial e na vontade de construir um Estado que pudesse albergar um cidadão cujo perfil configurava no chamado ʺHomem Novoʺ. À volta desta narrativa construiu-se o mito do desenvolvimento através de modelos marcadamente exógenos e mal assimilados.  Assim se estabeleceram as instituições do Estado recém criado após a euforia da proclamação da independência. Com os primeiros solavancos, próprios de um corpo que começa a movimentar-se, Samora reconhecia: ʺNós desmantelamos o Estado Colonial, porque não foi para geri – lo que combatemos. Mas estou a verificar que não estamos a ser ágeis a construir o Estado que queremosʺ.

A História do nosso País, Estado e Sociedade,  espelha com linhas muito marcadas como uma estrutura frágil, desde o alicerce, não permite construir um edifício sólido e resistente, tal como num corpo com baixa imunidade, os vírus tomam conta dele e podem destruí –lo.

Moçambique Colonial foi construído em cima de uma arbitrariedade colossal, passando por cima de realidades históricas, sociais, culturais e territoriais diversas. A revolta contra o Estado Colonial foi o denominador comum que uniu os diversos povos desse Estado Colonial. Contudo, vencida a luta e destruído o Estado Colonial, o edifício construído no seu lugar acabou por demonstrar que tinha uma frágil sustentabilidade. E, pouco a pouco, foi-se  perdendo o equilíbrio. Ao Estado baseado em premissas ideológicas e sustentado por um discurso sedutor, mas autoritário, foi emergindo  um Estado errático com um discurso de ocasião,  sem qualquer suporte ideológico que paute uma agenda para o próprio Estado, acima dos interesses das elites políticas e burocráticas.

Não há a mínima condição para o estabelecimento de instituições fortes, credíveis e funcionais numa estrutura frágil e contaminada como esta. Tal como referi atrás, o vírus ataca um organismo quando as defesas desse organismo está frágil.

Do meu ponto de vista, responsabilizar a corrupção e a incompetência como os causadores da situação em que se encontra o País, é deslocar o foco. A corrupção e a incompetência, com todas as consequências, penetraram na orgânica do Estado, porque este, devido à sua baixa imunidade, escancarou as portas para esses vírus entrarem.

As vozes que apontam para o estado em que nos encontramos,  através da comunicação social, da sociedade civil, das redes sociais e demais espaços com voz, têm a nítida noção da impotência e dificuldade de reverter a situação.

Maquiavel, na sua obra mais citada, não sei se também conhecida, O Príncipe, afirmava nomeadamente que os estados são como a dinâmica do Universo. Se o desmoronamento das instituições de um determinado estado provoca o CAOS, torna-se necessário reconstruir o COSMOS. E este processo é doloroso porque precisa que o príncipe que vai conduzir a reconstituição do Cosmos afaste a ética da política.

Todos os dias chegam-nos narrativas que indiciam sinais que nos podem conduzir a um estado de caos. Todos os sectores orgânicos do Estado demonstram evidentes mazelas, no sector de Infraestrutura, na Justiça, na Educação, na Saúde, nos órgãos soberanos  do Estado. Não só, igualmente há evidente sinais que nos possam evidenciar o estado de caos no empresariado, nas organizações não governamentais, nos órgãos de comunicação social.

O jornal O País comemora 27 anos de vida e faz parte de um grupo de órgãos de comunicação social que surgiram a partir de uma premissa consagrada na legislação moçambicana sobre uma questão fundamental das liberdades, a chamada Lei da Liberdade de Imprensa. Estes órgãos de comunicação social surgiram  com uma forte vontade de se demarcar da colagem que os órgãos de comunicação social públicos faziam ao pensamento do poder. Resta-nos saber se a  voz do jornal O País é uma pedrada  no charco ou  é uma voz clamando no deserto.

Moçambique é um país profundamente marcado  por uma diversidade de recursos e oportunidades que permitiu um amplo leque de escolhas, particularmente nos primórdios da Independência Nacional, em 1975. Nessa ocasião o país opostou claramente na agricultura e na indústria como fórmula para realizar o sonho do desenvolvimento económico.

Alguns factores, particularmente a guerra dos 16 anos, não permitiram que a então “estratégia da passagem do subdesenvolvimento para o desenvolvimento” fosse testada. A mais do que desejada assinatura dos acordos de paz (em 1992) trouxe algum alívio aos sectores económicos, sociais e ambientais que estavam profundamente sufocados, e a introdução da democracia multipartidária.

Nesse novo contexto, iniciou um processo de recuperação das infraestruturas destruídas pela guerra ou pelo abandono, e privatização de vastos sectores da economia. O « boom » daí resultante permitiu inicialmente  que o país crescesse anualmente a dois dígitos,  estabilizando-se em 7-8% durante longos anos, e caindo recentemente  para 2-3%, no contexto de sistemáticos desastres naturais e Covid 19.

Entretanto, a prevalência de níveis elevados de pobreza absoluta, tanto no meio rural como urbano, o crescente aumento das desiguldades socias e económicas, o recrudescimento da criminalidade a todos os níveis, e a generalização dos fenómenos de corrupção (como por exemplo as dívidas ocultas) colocaram alguns pontos de interrogação na dinâmica do desenvolvimento nacional.

Paralelamente, a persistência de alguns fenómenos climáticos adversos também contribuíram para complicar a equação e retardar o processo. Alguns dos exemplos mais marcantes desses contratempos são : as cheias de 2000, o ciclone tropical Fávio (2007), o ciclone Jokwe (2008), o ciclone tropical Hellen (2014), os ciclones Idai  e Kenneth (2019) e a tempestade tropical Ana (2022).

No momento de assinalar as conquistas e fracassos, há espaço para pensar na mudança de paradigmas, eliminar certos factores retardadores e acelerar o desenvolvimento, agindo particularmente sobre os sistemas alimentares, o meio ambiente, os recursos minerais e energéticos, os recursos humanos, a igualdade de género, as assimetrias de desenvolvimento e a governação.

  1. Apostar nos sistemas agro-alimentares

Os sistemas agro-alimentares continuam a representar a opção mais válida para um desenvolvimento sustentávél. Sabendo que cerca de 34% da população sofre de fome extrema e 80% tem como fonte de rendimento a agricultura, apostar no agronegócio pode ajudar a resolver, simultaneamente, dois problemas: o aumento do rendimento familiar  para combater a pobreza e a disponibilidade de alimentos no mercado. O mesmo se pode dizer relativamente às pescas, aquacultura e pecuária.

Uma solução a curto prazo poderia envolver a organização dos  produtores em cooperativas e o estabelecimento de parcerias com o sector privado para garantir o fluxo das cadeias de valor (compras de excedentes, transformação, comercialização, conservação e exportação).

  1. Incluir o ambiente e turismo na equação

Moçambique conta com um vasto manancial de recursos naturais com potencial para a  exploração turística: uma longa costa de cerca de 2.770 kms de comprimento; áreas de conservação ricas em biodiversidade; montanhas e vales com particularidades geológicas, históricas e culturais; rios navegáveis e cataratas de beleza incomparável; diversidade climática para satisfazer diferentes preferências; e ilhas paradisíacas do ponto de vista paisagístico e ecológico.

Para além de políticas para a conservação desses recursos, é preciso investir em infraestruturas (estradas, portos, aeroportos, linhas férreas, sistema de transporte rodovíario etc.), no empreendedorismo nacional e na valorização do património cultural.

  1. Maximizar o potencial dos recursos minerais e energéticos

Qualquer equação para o desenvolvimento do país tem que levar em conta os recursos minerais e energéticos. O lançamento das operações para a exploração de gás e petróleo em Pande – Temane, o surgimento de empresas como a Vale, Rio Tinto, Jindal e Minas, explorando carvão mineral em Moatize, o lançamento das operações de exploração de gás na Bacia do Rovuma, o sucesso da Hidoeléctrica de Cahora Bassa e da  Mozal,  demonstram as  potencialidades deste sector para alavancar a economia nacioanl. Também se pode falar da exploração de pedras preciosas e semipreciosas, diamantes, rubis, areias pesadas, ouro, mármore, grafite etc.

Com a exploração desses recursos o país pode ter receitas anuais de centenas de milhares de milhões de dólares (só em impostos). Deve-se, porém, evitar cair na armadilha da “doença holandesa”, embebedados pelo fluxo de dólares da economia extrativa. A solução é garantir a existência de um fundo soberano para projectar os recursos arrecadados para sectores da economia que garantem uma maior distribuição da riqueza: a agricultura e a indústria transformadora.

  1. Desenvolver recursos humanos e capacidade tecnológica

O desenvolvimento do capital humano foi sempre um calcanhar de aquiles em Moçambique, desde a proclamação da Independência Nacional. Com a saída em debandada dos técnicos e profissionais portugueses, o país viu-se obrigado a tomar algumas decisões corajosas: a duração dos cursos de licenciatura foi reduzida em um ano, algumas faculdades encerraram, alguns alunos finalistas da nona classe foram convertidos em professores, etc.

Essa geração cumpriu o seu papel, compensado às suas lacunas com o elevado espírito de entrega, dedicação e militância. Com a mudança de modelo económico, surgiram muitas instituições de ensino privadas, enquanto o ensino público ficou enfraquecido. As escolas primárias e secundárias estão visivelmente subfinanciadas. A carreira de professor primário e secundário é considerada quase um castigo. No ensino superior a emissão de diploma aumentou mas a qualidade é sofrível ou questionável.

É urgente rever completamente a política de formação de quadros, tornando-a uma prioridade. Só isso permitirá formar profissionais qualificados e garantir o domínio das novas tecnologias, essenciais para o aumento da produtividade e o crescimento económico.

  1. Promover a igualdade do género

As políticas que promovem a igualdade de gêneros, colocando homens e mulheres no mesmo patamar de direitos e deveres, representam um acelerador de desenvolvimento de grande potência. Moçambique já teve a experiência da participação efectiva das mulheres na Luta de Libertação Nacional, conta com a liderança feminina em alguns sectores económicos e sociais, e tem exemplos de excelência na literatura, desporto e turismo.

O país confronta-se porém com barreiras culturais que dificultam a participação das raparigas na educação e posteriormente no emprego. Algumas prácticas tradicionais não conferem às mulheres a dignidade e oportunidade que merececem. Embora o fenómeno seja mais acentuado no meio rural, a sua influência é notória nas mentalidades urbanas. Políticas para mudar os paradigmas das relações de género  e promover o empoderamento das mulheres podem fazer uma grande diferença, particularmente no aproveitamento da sua capacidade produtiva, criatividade e objectividade.

  1. Eliminar as assimetrias de desenvolvimentnto

A aceleração económica verificada no país a partir dos anos 90 gerou algumas assimetrias entre o campo e a cidade, e entre a capital (Maputo) e o resto do território nacional. Não se trata de uma realidade fácil de abordar, mas algumas medidas podem ser adoptadas: políticas tributárias diferenciadas para atrair investimentos para zonas menos favorecidas; canalizar investimentos de parceiros internacionais para os locais críticos; e investir em infraestruturas de transporte para constituir uma espinha dorsal. O grande sonho seria uma linha férrea do Rovuma ao Maputo e uma estarada asfaltada paralela, com as necessárias derivações.

  1. Promover políticas de boa governação

Tal como acontece em alguns países aficanos, asiáticos e latino americanos, onde os índices de pobreza são elevados e a cultura institucional não está devidamente arraigada, o país tornou-se permeável a algumas prácticas tóxicas que se desenvolveram de forma sistemática (corrupção, compadrio, nepotismo, oportunismo, tráfico de influência, crime organizado etc. ), tarnsformando-se em mecanismos de sobrevivência, para contrapor a penúria e o rigor dos mercados.

A solução é melhorar os processos de governanção de forma sistemática e didáctica, demonstrando um novo ciclo de positividades (inclusão, transparência, competitividade, meritocracia, eficiência, eficácia e dignidade). Medidas simples são recomendáveis : educar as famílias através da comunicação social; erradicar as prácticas de corrupção nas escolas e hospitais; formar os agentes de segurança em ética e deontologia;  « fritar » os barões da corrupção através de medidas punitivas adequadas; promover a meritocracia do sector público e privado; e garantir transparência de todos os processos de interesse público.

Quais são os passos a serem dados nos próximos tempos que possam possibilitar o crescimento da nossa cultura? A resposta à esta questão não pode ser considerada fácil. Posso apresentar, se me for permitido, a mesma pergunta duma forma samoriana: o que devo fazer para que a cultura vinque? Esta é, em minha opinião, a questão fundamental se quisermos falar de desenvolvimento cultural.  O conceito de indústrias culturais e criativas é novo, mas a realidade que pretende abarcar presumo que seja aquela que desde sempre perseguimos, isto é, a promoçao do desenvolvimento cultural, onde o sujeito principal é o artista. Falar desse conceito, relativamente novo entre nós, sonhar as suas realizações, significa, necessariamente, colocar esse artista a frente da produção, a criar e a materializar os seus sonhos. De acordo com Muocha et al, 2020:31, a indústria cultural e criativa “é definido como sendo um conjunto de sectores de actividades com uma cadeia de valor baseada no talento individual, alicerçada no património cultural das suas comunidades, com potencial para a geração de renda e exploração da propriedade intelectual.” Fica claro, na citação acima referida, que cada um de nós, alicercando-se no seu talento individual, seja o que for que faça e onde quer que esteja, assuma o seu quinhão de responsabilidade perante o seu trabalho. Este é o segredo, para que não passemos o tempo esperando que os outros façam aquilo que desejariamos que fosse feito. Para que não endossemos o nosso infortúnio e incapacidade de realização à terceiros. Façamos a nossa parte, aquilo que nos é exigido, para que se realize plenamente a exploração económica da arte.

Quando se pergunta o que deve ser feito no sector da indústria cultural e criativa, endosso-me para a minha área profissional, a literatura, onde há muitas décadas palmilho os meus passos, e conheço, portanto, as janelas que se devem abrir para que os sonhos sugeridos pela escrita se concretizem na sua plenitude.  Quando se faz essa pergunta, não olho para os outros, viro-me para o meu próprio trabalho. Não me preocupo se os investimentos a nivel cultural foram devidamente alocados por aqueles que assumem essa delicada responsabilidad; não me embrenho nos meandros da indústria livreira que há seculos se esforça para colocar o livro nas mãos do leitor; deixo de outorgar-me o direito de exigir estímulos que merecem ser dispensados ao sector empresarial para que este apoie a Cultura; recuso-me a questionar por que razão o livro tarda a chegar aos lugares onde devia chegar. Não me preocupo demasiado com todas essas questões, embora pense, sobremaneira, nesta frase sábia lida algures: “O livro deve ter a protecção do Estado”. Claro que deve. Porque através da sabedoria que se apreende das páginas dos livros,  pode-se erguer um País.

Quando se pergunta o que deve ser feito para alavancar a indústria cultural e criativa em Moçambique, olho apenas para mim, eu, artista, criador, como factor principal de desenvolvimento. E penso, como escritor, que devo escrever. E escrever sobretudo bem. Os meus livros devem ser os melhores livros dentre todos os livros. Somente dessa forma se entra no concorrrido mercado livresco. Os meus livros, sendo, por presunção, os melhores dentre todos os livros, devem transpor fronteiras, para decorar as livrarias de Lisboa, Barcelona, Lagos, Dakar, Londres, Cidade da Praia ou Luanda, itinerários imprescindíveis do livro. O escritor, esse, não precisa de viajar. As suas palavras sim. A ele compete apenas permanecer sentado num lugar aparazível nas margens do Índico, a construir outras utopias, outras narrativas. Para que a industria cultural e criativa cresça, deve o Estado assumir que a Cultura, nas suas diversas manifestações, é um poder imprescindível. Deve apreender que existem artistas  capazes de “afirmar” o País com uma simples pincelada,  um poema, ou com uma estrofe musical, que o artista é capaz de mobilizar empreendimentos para Moçambique, mais do que o discurso monocórdico de qualquer político.

Reitero aqui, de forma breve, a minha convicção: os grandes anseios da nossa indústria cultural e criativa só poderão se tornar exequíveis se cada um de nós, no seu lugar, fazer aquilo que deve fazer, com perfeição, com afinco, com responsabilidade. Se assim acontecer, a nossa Cultura será como um imenso barco a furar águas profundas e longínquas, percorrendo mares nunca dantes navegados. O resto, isto é, a implantação de estruturas, de órgãos de execução disto ou daquilo, e demais burocracias, não passa de questões periféricas que apenas podem complementar a grande responsabilidade que cada um deve ter na sua área específica de trabalho. No contexto da indústria cultural e criativa, penso, como modesto “fazedor de palavras”, que deve-se colocar todo o povo a ler, porque segundo Paulo Freire, “a leitura da palavra é sempre precedida da leitura do mundo. E aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se, é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade”. Vamos, enfim, incorporar o livro e a leitura nessa imensa estratégia da industria cultural e criativa, porque um povo que não lê cria a possibilidade de construir uma Nação incapaz de atingir os seus objectivos de crescimento.

Pedem a minha opinião sobre o que é que se deve fazer para tornar sustentável a Indústria Cultural e Criativa. Esta indústria, da definição que aprendi na obra Indústrias Culturais e Criativas: o que são? Como gerir, da autoria de Matilde Muocha, Zeca Tsamba e Emanuel Dionísio, integra: expressões culturais tradicionais; locais culturais; artes visuais; publicações e mídia impressa; design; serviços criativos; nova mídia, audiovisuais e artes performativas; resumindo, dela fazem parte o património cultural, as artes, a mídia e criações culturais.

Ao que me parece, os métodos para que esse sector tenha uma existência justificável, notável ou apetecível, passam por estarmos cientes da importância de se considerar, tanto ao nível do segmento formal, quanto do informal, que a indústria cultural moçambicana deve mudar o paradigma de abordagem. Para tal, a socialização do produto e entre os intervenientes da indústria é necessária.

Os intervenientes são, para mim, os fazedores (artistas, sujeitos actores); mecenas (sujeitos estimuladores); sujeitos públicos apreciadores ou compradores; influenciadores (entidades de marketing e de publicidade); socializadores, que incluem: dinamizadores da indústria ou, pelo conhecimento que partilham sobre a sua existência e importância,  críticos de diferentes índoles – que possam ajudar a conhecer a indústria, fomentá-la e rentabilizá-la, através de um segmento de vendedores.

Todos esses actores devem colaborar na socialização sobre os objectos artísticos e no acto de influenciar para uma boa venda; entretanto, tudo passa por uma boa manufatura de produtos, bem como boas estratégias para venda e angariação de fundos para trabalho (inovação na criação e na forma como o produto final é entregue).

Uma vez que defendo a estratégia da socialização, deixo como exemplo uma experiência pela qual passei, há dias. Participei num evento designado “Dialogarte”. Tem sido organizado pelo filósofo Severino Ngoenha, no Núcleo de Arte, em Maputo. O título dessa conversa específica da qual fiz parte era “Recepção estética”. A iniciativa é bastante inovadora. Para a divulgar, um artista criou uma obra contendo a arte que ilustraria ou inspirada no título do evento. Essa obra ficou exposta na sala do evento. A par disso, dois oradores, um teórico de arte, um artista, falavam, cada um na sua perspectiva, sobre o objecto artístico e na forma como ele pode ser usufruído; ao que se resumiu, grosso modo, que ele tanto pode ser apenas contemplado ou pode, por razões diversas, servir como um objecto utilitário. Falou-se sobre outros assuntos ligados à arte, mas não me deterei sobre eles, porque não são aqui chamados. Um outro interveniente apresentou um trabalho de arte fotográfica ainda em construção. No final das intervenções, seguiu-se um debate e a obra de arte que ilustrava o evento foi apresentada e vendida.

Julgo que nesse exemplo, ficaram conjugadas todas as perspectivas ligadas às indústrias culturais e criativas, nomeadamente: património cultural, o Núcleo de arte com todo o seu acervo de galeria, por exemplo; as artes (a tela que ilustrava o evento e outras constantes da galeria que hospedava o evento); a mídia (o trabalho de arte fotográfica – apresentada em projecção digital e a mídia utilizada para divulgar o evento). Tudo isto está ligado às criações culturais; ambas socializadas a partir de um evento que explicou teoricamente questões ligadas à arte e debateu-as, estimulando o seu fomento, disseminação e venda. No conjunto foi um trabalho de fomento artístico que culminou de modo sustentável em diferentes vertentes.

O que acabei de apontar tem a ver com a arte plástica, entretanto, se se tratasse da literatura, era necessário algo como: fazer-se a formação de leitores, fazer-se a dinamização literária que possa estimular o hábito e o gosto da literatura, ou ainda, que possa despertar o gosto para ler um livro. Esse é um processo de socialização que é antecedido pelo trabalho criativo de um escritor, seguido de um trabalho de edição, por parte de uma editora e da venda do livro. Para esta última etapa, para além do marketing e da publicidade do produto, a crítica literária tem o seu papel a desempenhar, tanto na venda do livro, quanto no estímulo para o ler. Além disso é preciso recordar que a escrita e a edição do mesmo carecem do fomento de um mecenas. Há, portanto, uma série de estratégias interlaçadas cujo trabalho, para tornar a indústria sustentável passa por dar a conhecer o objecto.

São exemplos mínimos, isolados e que integram poucas pessoas, mas que multiplicado poderá tornar a indústria Cultural e Criativa bastante sustentável, desde que o tipo de objectos artísticos a fomentar variem; basta pensarmos em eventos que geram renda para o PIB nacional, tal como o referi na contracapa do livro acima mencionado, nomeadamente:   o FEIMA; o Festival Azgo, o Mozambique Fashion Week, no Gwaza Mutini, nos festivais da Mafalala, da marrabenta e do canhu (Maputo cidade e província); Festival de xingomana, da praia de Xai-Xai (Gaza); o msaho de Zavala, Morrungulo, Tofo e Barra, (Inhambane); Festival Cabeça de Velho (Manica); Festival do livro infantil da Kulemba, FLIK (Sofala); a Dança yao ou o Songo Festival (Tete), Festival de Zalala (Zambézia), Niketche e Festival do Lago Niassa (Niassa); on hipiti (Nampula); Mapiko e Festival do Wimbi (Cabo Delgado), entre outros tantos ainda não mapeados.

Urge educar para o prazer pela arte, prazer em contemplá-la e prazer em comprá-la. As estratégias são diversas. Eu defendo a socialização, baseada na máxima: “longe da vista, longe do coração; o que os olhos não veem, o coração não sente…sentindo desencadeia-se toda a cadeia de circuitos de promoção de arte acima mencionados.

Proponho-me a abordar a prior os conceitos de “indústria”, “cultura” e de “sustentabilidade” de forma separada, e de seguida, conjugar estes conceitos. E, por fim, sugerir alguns pontos para a estratégias de sustentabilidade da indústria cultural e criativa.

O conceito de “indústrias”, muito resumidamente, são locais de produtividade onde ocorrem transformações de matérias-primas em produtos elaborados para fins comerciais. As indústrias são consideradas o barómetro do nível do desenvolvimento sócio-económico de um país. A revolução industrial que teve início na Inglaterra em finais do século XVIII, não parou de evoluir, e tem seguido ritmos frenéticos onde a criatividade e a inovação são proporcionadas por equipas com elevada escolaridade e formação contínua capazes de propor soluções eficazes e de ponta para os problemas do dia-a-dia. Nessas sociedades, as indústrias, ou seja, o “culto” das indústrias é bastante elevado. Daí surge o conceito de países industrializados! É pertinente questionarmo-nos sobre a nossa saúde do “culto” das indústrias no país. Temos a cultura das indústrias? Como a cultivamos? Aspiramos, sem dúvida! Por isso designam-nos “países em via de desenvolvimento.  Ora, temos aqui um ponto focal importante  a considerar; as indústrias em geral. Pois, na minha óptica, a cultura e a indústria cultural e criativa constitui de forma independente o barómetro do desenvolvimento de uma sociedade.

Por outro lado, temos a Cultura, que é todo o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, o saber, a arte, a moral, a lei, os usos e costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridas pelo homem como membro da sociedade. Em outras palavras, a cultura é a essência e identidade de cada um de nós.

A sustentabilidade, vem do latim “sustentare” que significa, sustentar, apoiar, conservar e cuidar. Assim, o conceito de sustentabilidade está ligado ao desenvolvimento socio-económico, político e cultural, atrelado à preservação do meio ambiente.

A questão que se coloca é: Que estratégias adoptar para tornar as indústrias culturais e criativas sustentáveis?

O que são Indústrias Culturais e Criativas? De onde vem essa ideia e conceito? Porquê, para quê?… Para percebermos os conceitos que não inventamos é importante perceber os “porquês”. Não porque não os inventamos, mas sim, para que possamos nos apropriar com convicção partilhada e reinventar os nossos próprios conceitos que nos identifiquem como cultura e sociedade.

 

Não sou especialista em indústria culturais, mas a minha cultura geral e curiosidade na matéria levou-me a saber que o conceito das indústrias culturais nasce na famosa “Escola de Frankfurt”, na Alemanha, no início do século XX, ora, muito recente, como um projecto de intelectuais vinculados à Universidade de Frankfurt. A escola de Frankfurt foi uma escola de pensamento filosófico e sociológico, filiada ao instituto de pesquisa social. As teorias e conceitos da Indústria Cultural está mais intimamente associado ao trabalho de Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Para quem deseja saber mais aconselho os livros: “A dialética do esclarecimento – Theodor Adorno e Max Horkheimer”, “Indústria Cultural e sociedade – Theodor Adorno” e tenho muito apreço ao trabalho relevante da Moçambicana Matilde Muocha; Industrias Culturais e Criativas – O que são? Como gerir?

Peritas na matéria concluíram que a Indústria Cultural busca padronizar e homogeneizar os produtos artísticos, para que possam ser consumidos pela maioria das pessoas. Assim, as manifestações das artes são principalmente comerciáveis – o que suscita a relação “a arte e o capital”.

A relação entre estratégias económicas e cultura é bastante delicada. Muitos artistas não gostam de relacionar os seus trabalhos com a economia, considerando um perigo para sua liberdade artística. Por outro lado, muitos economistas tratam a cultura como uma actividade irrelevante ou simplesmente como tema que deva ser abordado por outras ciências. Controversamente, os economistas mais progressistas de países desenvolvidos veem nas artes um potencial socio-económico relevante.

A primeiríssima matéria-prima de qualquer indústria é o Recurso Humano. A indústria Cultural e Criativa não foge esta regra. Como vemos, a história nos ensina que todas estas correntes de pensamentos e conceitos nascem nas Escolas, no meio intelectual. Ora, a indústria cultural refere-se às várias empresas que produzem, distribuem, comercializam ou vendem produtos que pertencem categoricamente às artes criativas. Esses produtos podem incluir, livros, filmes, música, roupas, material decorativo para casas, programas de televisão, artesanato, pintura, escultura, arquitetura, etc.

Assim, a EDUCAÇÃO é a sustentabilidade de qualquer indústria. Não há indústria sem ESCOLAS de qualidade e sustentáveis para cada sector, e a indústria cultural não foge desta regra.

Faço advocacia nos seguintes pontos como fundamentais para que a Indústria Cultural seja sustentável:

  1. a) Priorizar a formação profissional de qualidade que resulte em recursos humanos de alta qualidade e, consequentemente, estruturar, apoiar, estimular a criação de Escolas Vocacionais e profissionais de qualidade sem limites. Esta solução, por mim, não passa só pelo Governo, mas também pelo sector privado. Aliás, todos sabemos que não há sociedade que possa desenvolver sem um sector privado forte e que trabalhe de mãos dadas com os reguladores das estratégias comuns;
  2. b) Criação de mecanismos e acessibilidade de oportunidades de empregos e capacitação permanente;
  3. c) Criar mecanismos e políticas culturais sustentáveis, simples, progressistas, inclusivas, adequada à nossa realidade, tendo em conta as disparidades do desenvolvimento regional; d) Criar mecanismos de advocacia do valor e consumo das artes, dando valor ao trabalho dos artistas;
  4. e) Educar o grande público a importância das artes;
  5. f) Criar referências de preços que regulem o mercado versus qualidade;
  6. g) Proteger o património cultural e criar redes de valorização do consumo da nossa arte além fronteiras;
  7. h) Criar instituições que promovam e representem o artista no mercado internacional;
  8. i) Estudar, preservar, inovar e proteger artigos que representem o património cultural sustentável para as gerações vindouras;
  9. j) Utilizar de forma sustentável as matérias-primas para construção de instrumentos, por exemplo a Mwenge, utilizado pelo Machopes está em vias de desaparição porque é decimado para o carvão…;
  10. l) Criação de estratégias que apoiem a capacitação dos artistas mais vulneráveis nos diversos sectores: artesãos, pintores, jovens arquitetos, músicos que vivem fora das grandes cidades…; m) Investir em estudos e pesquisas sustentáveis…

Estas são algumas das soluções que posso sugerir. Claro, é um tema rico, novo, interessante e merece toda a nossa atenção, estudo e reflexão estruturada. A criação de normas e políticas da indústria cultural e criativa não devem ser levadas à ligeira, ou seja, devem ser discutidas e feitas com profissionais e peritas das diversas áreas sob pena de termos legislações e enquadramento fracos, inaplicáveis e isolados à nível regional e internacional.

Não há negócios sustentáveis sem conhecimento prévio, sem profissionalização, sensibilização aos consumidores e valorização do produto a ser comercializado. Sensibilizar a nossa sociedade do valor de uma obra de arte versus uma caixa de cerveja, é todo um percurso a percorrermos.

Não é incomum, na juventude, termos encontros decisivos. Muitos escritores conheceram, quando debutantes, os seus precursores. Eu cheguei à casa do Poeta José Craveirinha com menos de 20 anos. Tive o privilégio de ser amigo e de conviver com ele e com outros nomes – ia dizer numes e não estaria longe da verdade -, que iluminam e distinguem a literatura moçambicana desde a sua fundação. Aliás, José Saramago, único escritor de língua portuguesa, laureado com o Prémio Nobel, disse-me, um dia, ao ver a cumplicidade que tinha com José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar, Rui Knopfli, ou Aníbal Aleluia, que eu estava a conviver com os meus antepassados literários.

José Craveirinha era uma grande personagem antes de ser um soberbo Poeta. Tenho pensado ao longo destes anos que ele talvez fosse uma verdadeira figura de romance. Não iludo que merecesse uma empenhada biografia literária e de vida. Uma biografia de grande fôlego. Como somos um país que preza a desmemória ou a amnésia, o desconhecimento ou a desconsideração, reiteramos vacuidades e não nos detemos a estudar e conhecer os nossos grandes intérpretes. Craveirinha foi um grande tradutor do ser moçambicano. Esta minha devoção pelo passado e este culto dos mais velhos resulta, em muito, do meu convívio com este Poeta e Mestre: “Nelson: Procura ser um fiel servo da Memória de todos os tempos para que a tua voz se faça ouvir no teu tempo.”

Também por isso, por essa incumbência, recordo-o com emoção sempre. Ele era, como escreveu no poema “Auto-efígie”: “Irmão sincero dos mais fiéis amigos”. Ouvi-lo era fascinante. Tinha, ou praticava, uma fala pausada, enganosamente hesitante, com aquela sua ironia acerba, falsamente inocente. Era cortante quando abominava. Um sábio, tinha um conhecimento enciclopédico, mas era despretensioso intelectualmente. O seu arcabouço histórico e cultural era incomensurável. Por isso, não gosto de o ver retratado como folclorista, pese embora se tenha debruçado sobre o folclore moçambicano. Era muito mais do que isso. Um verdadeiro sociólogo da cultura. Um historiador. Um grande conhecedor de Moçambique e das suas idiossincrasias. Cultivava a memória das personagens de uma época que já não existia e que tinha sido a sua ou da sua formação. Falava-me do seu ontem e das figuras desse passado. Era um intrémulo defensor da nossa identidade e da nossa história e memória histórica, longe de todos os maniqueísmos sectários e ideológicos. Tinha as suas birras, as suas zangas, as suas querelas, as suas implicâncias. Mas era um génio e tinha direito a tê-las.

É, indubitavelmente, a figura literária moçambicana mais importante de sempre. Como jornalista defendeu causas, causas nobres. Quando Samora Machel e seus colegas enfermeiros o procuraram, encontraram nele um intrépido defensor das suas lutas. Defendeu-os e denunciou a discriminação que sofriam no hospital. Chegou a ter, por essa razão, o seu posto como redactor no “Notícias” em risco, contudo Malé Vaz, filha do fundador do matutino, foi firme a defendê-lo. O amigo Samora não se esquecerá jamais desse préstimo. Mesmo nos tempos de acirrada intolerância, quando alguns dos seus companheiros foram submetidos a purgas, Craveirinha foi poupado. Rui Nogar e Malangatana cumpriram o opróbrio da reeducação e dos excessos da revolução. Lendo os seus escritos dessa época percebe-se que ele nunca deixou de ser um intelectual crítico, lúcido e arrojado. Perante a arrogância de um dirigente (“Sua Excia”) que antes “se desvertebrava” (grade mestre da ironia, Zé Craveirinha!) para o cumprimentar no Bilene e na companhia do Presidente, ele seria indómito: “É o resultado da irrevogável ausência / do meu amigo Samora.”

Todas as semanas eu ia vê-lo à sua casa da Mafalala. Ficava horas a escutá-lo. Falava baixinho, quase sussurrava. Como nos segredasse o mundo. Muitas vezes ali alcandorados no seu muro, fitando o final da tarde e o rumor que se encaminhava para a fronteira do asfalto, como diria o seu amigo Luandino Vieira. Outras tantas na sua sala e na companhia dos seus pintores electivos. As suas paredes estavam preenchidas de quadros: da Bertina ao Chichorro, do Malangatana a José Júlio, de António Bronze a José Pádua, entre tantos outros. As escadas com esculturas. Por vezes, subia para o seu escritório, num dos quartos, onde se atafulhavam os seus papéis, as fotografias, as suas memórias, as suas musas, os seus duendes, as suas assombrações.

O Zé nascera – num domingo, gostava de o lembrar, por isso era Sonto ou Sontinho – numa casa de madeira e zinco na Estrada do Zixaxa à entrada do Xipamanine. “Eu teu neto Sontinho ou José” escreve em “À Minha Avó”. Do ramo dos Mpfumos. Tem um poema “À Memória do meu Bisavô Pfumo” que diz: “Meu respeitável bisavô Pfumo / não sabia ler nem escrever / mas sabia que a cidade não é urinol”.  Toda a sua vivência fora suburbana e eram as personagens do subúrbio que povoam as nossas conversas mansas na pacatez dos dias. Houve um interregno quando foi viver, com o pai e a madrasta que viera de Portugal, na 24 de Julho. Mas nunca deixou de pertencer ao subúrbio. Foi nesse tempo que deixou de falar a língua ronga. Proibiram-no. O pai recusava, no entanto, o epíteto “português”. Considerava-se “algarvio”. “Os algarvios estão mais perto de África, dos árabes, do que da Europa. Eu passei por Lisboa para vir para aqui”. A mãe era negra. “E fica a tua prematura beleza afro-algarvia / quase revelada nesta carta elegia para ti / meu resgatado primeiro extra-português / número UM Craveirinha moçambicano” (“Ao meu belo Pai ex-emigrante”).

O pai de Craveirinha era poeta, não publicou nenhum livro, mas era conhecido e reconhecido na cidade como poeta. Fazia parte dos repentistas. Os que faziam quadras ao desafio. Dizia de cor Camões. O Poeta leu, a partir dos 10 anos, Guerra Junqueiro, Antero do Quental, Victor Hugo ou Émile Zola. Outros autores que eram frequentes em casa: Almeida Garrett, Gil Vicente ou Ramalho Ortigão. Ele e o irmão aprenderam a dizer de cor “Os Lusíadas”.

Quando o pai se reformou, Zé não teve condições de prosseguir com os estudos no liceu. Aprendeu através dos livros e das explicações do irmão. Uma professora, Gracinda do Carmo Silva, dava-lhe aulas pro bono. O pai aprendera inglês sozinho. O irmão ensinou-lhe francês. O seu tio António também é uma figura decisiva na sua vida: “Tristes / flores na mão de minha mulher / e novamente no funeral do Tio António / consagro a tua memória ressuscitando-te / genuíno outra vez no sangue intencionalmente / ex-algarvio do teu irmão / optando como tu, meu Pai.”

A Estrada da Circunvalação separava o mundo do subúrbio e o da cidade branca. Era a linha de fronteira. Craveirinha estudava na Primeiro de Janeiro (ligada à Maçonaria) e os amigos na Paroquial, que era para os mais humildes. Mesmo quando vivia na 24 de Julho não se apartou mundividência dos subúrbios. Quando foi preso, em meados dos anos 60, a PIDE não entendia por que razão um mulato, filho de branco, tinha a predileção pelos amigos pretos. Muito menos percebiam a razão que levava Rui Nogar, branco, a atravessar a Circunvalação e mergulhar no outro lado da fronteira. Estes dois mundos irão enformar a poesia de Craveirinha: “E eis que num espasmo / de harmonia como todas as coisas / palavras rongas e algarvias ganguissam / neste satanhoco papel / e recombinam em poema”.

Escreveu sonetos inicialmente. Ricardo Rangel, amigo de então, que debutara numa casa de fotografia da então Consiglieri Pedroso e fazia uns biscates para o “Notícias” levou o caderno de sonetos para António Rosado, que também era poeta. O jornalista era igualmente desportista e foi, curiosamente, treinador de Zé Craveirinha no Desportivo, mas nunca relacionou o autor daqueles sonetos com o exímio futebolista. Quando o jornalista morreu não se recuperaram mais os versos nem as métricas do jovem poeta. Entretanto, Craveirinha desiste de fazer sonetos e começa a escrever os poemas que o tornariam célebre. Colabora no “Brado Africano”. Ao tempo, a jovem Noémia irrompia com os seus poemas e a sua voz tonitruante.

Lembra-se de ver o poeta Rui de Noronha, de o ver passar todos os dias a uma determinada hora. Lembra-se do seu ar triste. Era uma figura taciturna, melancólica. Mesmo nos ambientes de festa. Morreu aos 34 anos num dia de Natal de 1943. Mais tarde convive com Noémia de Sousa, a sua irmã Carol, que vivia ali perto, depois da família mudar-se da Catembe, a quem dedicará alguns dos seus poemas mais emblemáticos, sobretudo quando esta foi coagida a emigrar – “Dó sustenido por Daíco” é um deles. Também falava de Karel Pott, o primeiro advogado não branco em Moçambique. Contava o impacto que tivera o facto de ele reivindicar a sua identidade africana e fazer gáudio em passear, no seu carro descapotável, a sua mãe negra, vestida de capulana e com tatuagens. Era um desaforo ao regime.

Noémia de Sousa levou-me, anos mais tarde, a conhecer Cassiano Caldas. Fomos visitá-lo à sua casa e ele foi de uma grande gentileza. Os ventos da revolução açoitaram até aquele a quem muito devemos. “Sangue Negro” é dedicado a Cassiano Caldas e a João Mendes. Cassiano foi o indutor ideológico de Craveirinha e da sua geração, ministrou as primeiras aulas políticas, contribuiu para a sua afirmação ideológica, orientou-os. Era a figura tutelar desta geração. A isto acresce o facto de, no mundo suburbano, haver uma plêiade de figuras emblemáticas na afirmação da alteridade. Personagens que pareciam emergir dos romances de Jorge Amado. Daíco antes de todas. Mas também Zagueta, Vicente Langara, Xico Albasini, Brandão, Mundapana ou Fahla-Fahla.

O desaparecido Comoreano, os concursos de dança, mais tarde a distinção da culinária dita indígena que não chegava à cidade branca, o desporto, a Associação Africana, o Munhuanense Azar, o Muhafil Issilamo ou João Albasini.  Os concertos de Djambo, João Domingos ou conjunto Harmonia. A afirmação, a reivindicação, não era apenas através da poesia. Aliás, José Craveirinha, Noémia de Sousa, Dolores Lopes e Ricardo Rangel, numa escadaria da Polana, fingindo um piquenique, redigiram um documento, muito antes dos movimentos libertários, a exigir a independência de Moçambique. Foi na época em que escreveu “Poema do futuro cidadão”. Entre a década 40 e 50.

A Casa dos Estudantes do Império publica, à sua revelia, “Chigubo”, em 1964. A PIDE, quando o prende, apresenta-lhe o livro como libelo acusatório. Companheiros de prisão: Rui Nogar, Malangatana Valente e Luís Bernardo Honwana são os nomes mais conhecidos. Armando Pedro Muiuane, seu compadre e mais tarde colega na Imprensa Nacional, é também companheiro de prisão. Companheiro de sempre. Uma das rusgas e consequente prisão ocorre após uma reunião na casa de Muiuane no Xipamanine. Com Honwana troca, nos calabouços, correspondência vária, que graças a guardas que eram infiltradas, não é interceptada pela PIDE. Era importante este contacto para que coincidissem nos depoimentos. Parte desta correspondência ficará à guarda do advogado Carlos Adrião Rodrigues. Em Itália, no entanto, publicam-lhe “Canto a um dio de catrame”, em 1966. Ele só vem a saber mais tarde. José Luís Cabaço, que lá estudava, será quem lhe trará o livro. Estava ele em liberdade condicional.

“Karingana ua Karingana”, provavelmente a sua magnum opus, estava para publicação antes do golpe militar que mudou o regime em Portugal. Craveirinha e Nogar, que redigira o prefácio, queriam arriscar. Mas o editor teve receio. No entanto, dá-se o 25 de Abril e o livro segue livre curso para o prelo. Sem o texto do Nogar, que viria a integrar a segunda edição como posfácio. Quando o livro é dado à estampa, o autor está na Tanzânia, na companhia de Samora e da direcção da FRELIMO. Pouco antes, Costa Gomes, que fazia parte da Junta de Salvação Nacional, e que chegaria a ser presidente da República portuguesa, de visita a Moçambique, procurara Craveirinha para o convencer a formar um partido político que dialogasse com as autoridades portuguesas para a transição. Queriam obviar o movimento libertário. O Poeta recusa-se a ir ao encontro desacompanhado e só aceita encontrar-se com o futuro marechal português quando teve a companhia de Malangatana Valente e Rogério Djawana. É intransigente na posição: único partido que tem a legitimidade de assumir o poder só poderia advir da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique). Costa Gomes pede-lhe então que seja portador de uma mensagem das autoridades portuguesas para conversações sobre a transmissão de poder.

Cela 1”, publicado em 1980, são escritos de prisão ou sobre a prisão. “Poema do alfinete mágico”: “Com um inofensivo alfinete mágico / nós os miseráveis sonhadores moçambicanos / de cerrados maxilares invocamos os desejos / e suspendemos os corações nas janelas / donde a lua e o sol quando entram / entram gradeados.” É o testemunho de uma “vida a injúrias engolidas a seco”. O belíssimo poema “Reflexões no dia dos meus anos”, que poderia ser a epígrafe deste texto, é publicado neste volume: “Faço anos. / Quantos já não interessa. / Por uma questão de glândulas / infalivelmente na barba e nas têmporas / aos poucos e poucos envelheço”. Este livro é o primeiro inédito que edita após a independência.

Entre a edição desta obra e a reedição de “Xigubo” (mudou-lhe a grafia) e “Karingana ua Karingana” avulta a aparição de “Maria”, em 1988. Rui Knopfli aplaude, no prefácio, “o grande poema do amor conjugal”. Maria é personagem central na vida do Poeta. Há poemas belíssimos não só de evocação mas sobretudo de admiração. “Santa / minha esposa Maria de Lurdes / mãe dos meus filhos” (em “Karingana ua Karingana”). “Maria. Salmo Inteiro”: “Minha tão bela esposa Maria / cinquentenária jovem isenta de frívolos aniversários. / Minha mais amada por mim do que as frívolas / raparigas de provocantes fémures desnudos”.

“Maria”, que haveria de ter uma nova edição, é um poema pungente. Belo e pungente. Digo poema porque o conjunto tem esse condão de ser uma espécie de poema único. Tem momentos cintilantes, outros tantos arrebatados. Muitas vezes denuncia a dureza da solidão e o frio da ausência. Mas sempre a beleza na evocação: “Esposa Maria / a cada minha veleidade / sabendo-se nunca preterida. // E com meus defeitos e suas qualidades / compúnhamos o mais incongruente invejado casal perfeito”.

Zé Craveirinha era um homem só. Aliás, proclamava-o. Não posso afirmar que ele amasse a solidão, mas posso dizer que ele era um homem solitário. Sobretudo quando foi vítima do descaso ou hostilizado. Comovia-lhe a lembrança dos outros, mas sabia que não podia partilhar com ninguém o que quer que fosse. Apenas com Maria. Daí esse insulamento ao qual estava mergulhado: “o mais mudo sotaque do último chão”. Isto é de uma beleza dilacerante. Só um poeta eleito é capaz de um verso como este. Encontrei-o muitas vezes nesse estado de prostração e ficava a ouvi-lo numa espécie de solilóquio. Muitas vezes ficávamos em silêncio e assim nos entendíamos.

Quando fui estudar a Portugal, em 90, continuei a vê-lo, sobretudo quando ele ia a Lisboa. Ou nas viagens que fizemos para Londres ou Sevilha na companhia de Rui Nogar, Rui Knopfli, Noémia de Sousa ou Eugénio Lisboa. Acompanhei-o nos dias jubilosos em que recebeu o Prémio Camões. Recordo-me da tristeza e da solidão quando se encontrava só no hotel. O Zé Craveirinha era um homem taciturno. Extremamente elegante no trato, sardónico muitas vezes, mefistofélico quase sempre. Nunca vi alguém melhor do que ele a zombar daqueles que desdenhava. Apoucava-os com cortante sarcasmo. Era o mestre do deboche. Quanto aos amigos, era indefectível.

Craveirinha foi um poeta avaro. Não foi sequer um poeta bissexto. Publicou muito pouco. Um dia pediu-me para eu lhe apresentar uma obra. Fiquei perplexo, aturdido, estupefacto. Era o “Babalaze das Hienas” e foi em 1997.  O Mestre está com 75 anos, o discípulo tem 30. O livro é um cortante testemunho sobre a guerra. Eu tentei cumprir a missão o melhor que podia. Estou certo da imperfeição do texto ou da improficiência do meu discurso na ocasião, contudo, não obstante, a minha admiração inequívoca e a minha afeição e estima pelo poeta foram indubitáveis.

Este foi o seu último título de poesia. Muitos dos seus poemas inéditos circulam, no entanto, de mão e mão e são ditos em saraus de poesia. Anabela Adrianopoulos, Calane da Silva, Gulamo Khan, Tomás Viera Mário, entre outros, emprestam as suas vozes à inconfundível dicção do Poeta. Gulamo celebriza as “Saborosas Tanjarinas d´Inhambane”, um poema anti-épico. Mas também ainda reverbera na memória as “Rumbas de violas no Comoreano” ditas por ele: “Ah é bom nascer assim mulato? / Ah nascer negro assim é bom?”  Naquele tempo, e digo isto com nostalgia, a palavra ditava o nosso destino. A palavra poética presidia o sonho moçambicano.

Craveirinha é um poeta de belíssimas imagens, de inesperadas imagens, de poderosas imagens. Poeta da insurreição, poeta nunca agrilhoado, poeta solitário, poeta solidário, poeta que canta o seu tempo e os homens do seu tempo, poeta condoído muitas vezes, poeta que vaticina o futuro, poeta que canta os momentos sombrios como os da guerra, poeta do mundo, poeta da boémia intelectual, poeta da língua que esplende, poema do amor, sempre. Como escreveu, em “O Arco e a Lira”, o poeta mexicano e Prémio Nobel Octavio Paz: “voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário”.

 

Os investigadores

em nome da verdade histórica

inventarão virtudes que nunca tive.

 

E com irretorquíveis teses

irão ao exaustivo pormenor freudiano

de misturar minha vocação pelas raparigas

com a liberdade dos povos oprimidos.  

 

(José Craveirinha)

 

Hoje passam 100 anos sobre o dia em que nasceu José Craveirinha. A Pátria deu-lhe o préstito da praça e uma ominosa rua. Execráveis ditadores estrangeiros nomeiam largas avenidas. Quase não o lemos, citamo-lo sem o ler. Exilamo-lo na pátria do olvido. Agora o lembramos nestas efemérides, mas acto contínuo virá a nossa amnésia, a nossa desatenção, a nossa negligência e o nosso desprezo vibrar sobre ele e o devir moçambicano com todo o seu esplendor. Quanto a mim, cabia-me hoje este tributo, devolvendo-lhe a honra da láurea que me concedeu com a sua amizade, o seu exemplo e a sua poesia. “Bom têto! Sia-Vuma! Bayete mufana!” – escrevia-me. Aqui fica o meu penhor. Também lhe devo muito, ou quase tudo, do que sou.

 

Bayete, Zé Craveirinha!

 

SIA-VUMA!

 

KaMpfumo, 28 de Maio de 2022

Poema alusivo ao centenário

de José Craveirinha.

 

Há quem, um dia, acreditou que partiste

e festejou-te a morte, satanhoco!

e hoje, assim como todos dias, renasces em mim,

e já lá se vão cem anos dentro dessa renovação

a celebrar-te a vida após a vida,

porque tens uma vida onde os dias possam habitar,

a correr atrás das horas que não chegam a parar o tempo,

e tu estás cheio de tempo

e o tempo é que a vida,

em ti habita toda a habilidade de continuar vivo,

um poeta é uma palavra que se repete

e a repetir-se invoca os sentimentos do poeta que é,

os mortos não têm sentimentos

nem gritos, e tu gritas, ó soba!

pelo preço do pão e do “my love”,

pelas portagens portadoras de ódio,

aos asnos de balalaicas a casacos azul-marinho,

ao amargo preço do açúcar,

pelas doces tangerinas de Inhambane,

transformadas em limão em cabo delgado,

pelas tâmaras azedas de Beirute servidas na Ucrânia  

em xaria dentro do uniforme da ilusão

e por toda esta passividade animal,

amordaçada dentro do silêncio diário

e nisso estás vivo, siavuma!

oficializado dentro dos que se ressente da vida,

enraizadas nos jacarandás dessas ruas

que sentem saudades da cidade,

a cidade escondida na lembrança de todos,

regada à jato ao ralhar da urina,

será essa a nossa sina?

confesso-te, azampunguanas tomaram o poder,

e são vários, metidos à gente, conspurcados,

nos excrementos exibidos em horário nobre,

diz-me tu, herói nacional,

que excelência tem um batedor de carteiras?

imagine os batedores da esperança de um povo?

mas é assim mesmo o futuro melhor?

que força, qual mudança?

e quando é que tudo isso vai dar certo?

Quantos mandatos são precisos para atingir o cume da indigência?

Dentro dos braços cruzados do olhar impávido dos vermes

e vejo-os no rodízio do medo

onde os homens do xtike falam mais alto,

mas, alto aí…

eternamente não, patrão!

 

 

 

 

 

 

 

 

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”, Martin Luther King

 

A manifesta incapacidade de gerirmos infra-estruturas desportivas no país sempre se revelou um rastilho para “pegar” fogo em palha seca. Herdamos e gerimos à socapa. Resgatamos e perpectuamos o improviso. Há, regra-geral, uma tentativa encapotada de fingir que fazemos o que…não fazemos. E a  má gestão do  Estádio Nacional do Zimpeto, construído na perspectiva falhada de acolhermos o CAN-2010 e os malfadados  Jogos Africanos Maputo 2011, reforça a ideia de que estamos perante um jogo de sombras. Em que cada um acha que, se outro não souber que cedeu, está tudo bem!  Desde logo, e agora sofremos as consequências,  denunciámos um vazio de  ideias e projectos  para melhor rentabilizar a infra-estrutura, e pagamos caro pela incompetência e desgraça colectiva.

Não conseguimos assegurar que o Estádio Nacional do Zimpeto tenha dignidade para acolher jogos internacionais. De  grande dimensão, o ENZ resvala para um Elefante Branco. Deixamos um crocodilo crescer. E isso tem efeitos para a escala nacional. A Confederação Africana de Futebol deixou ficar recomendações para que se melhorasse a infra-estrutura. Não levamos a sério. Falhámos nos “timings” para intervenções no ENZ.

Efeito-causa: os Mambas são agora uns ambulantes, que rimam com titubeantes. São obrigados a jogar fora, em processos tão pouquíssimo claros. Com requintes de “boladas”! São órfãos de pais!  Não têm casa própria. Não têm calor nem carinho do seu próprio público que agregaria outro valor. Tudo por negligência!  Pior: o contribuinte, o humilde cidadão moçambicano não  escapa à tamanha irresponsabilidade, azia e falta de vergonha de alguns dirigentes desportivos. Pagam bem caro. É só rebobinar o filme de uma cotação de ZAR 280.787,50 (duzentos e oitenta mil, setecentos e oitenta e sete rands e cinquenta cêntimos), correspondente a 1.207.386,25 Meticais (um milhão, duzentos e sete mil, trezentos e oitenta e seis Meticais e 25 cêntimos) ao câmbio do dia,  enviada pela Federação Moçambicana de Futebol à  Secretaria de Estado de Desporto (SED) para os Mambas jogarem com o Ruanda no FNB Stadium (África do Sul) sem público.

E com espectadores nas bancadas,  o fardo é ainda mais pesado: 597.854,50 (quinhentos e noventa e sete mil, oitocentos e cinquenta e quatro rands e cinquenta cêntimos), correspondente a 2.569.613,35 Meticais (dois milhões, quinhentos e sessenta e nove mil, seiscentos e treze Meticais e trinta e cinco cêntimos) ao câmbio do dia.

Ora, este valor sai do bolso dos contribuintes, e não é pouco. Sem contar com o que vai ser gasto em despesas de transporte aéreo de Maputo a Joanesburgo, alimentação, acomodação, entre outras. É preciso muita coragem! Que dignidade estamos a dar à selecção nacional quando não criarmos as melhores condições para que tenha resultados positivos? E ainda produzimos e imprimimos folhetos com promessas de levar os Mambas ao CAN! Como materializar este sonho a jogar fora (que tem os seus contras) sem organização interna?

E organização interna passa por evitar situações cómicas e vergonhosas,  como aquela que aconteceu com Zainadine Jr., profissional exemplar  que e esteve retido no aeroporto de Nouakchott, na Mauritânia, onde ia representar a selecção nacional. Tudo isto porque a validade do seu passaporte expirava em cinco meses, enquanto, naquele país, se exige um mínimo de seis meses para se entrar. Há, aqui, claramente, responsabilidade de quem gere o futebol moçambicano, que deve aferir a documentação dos atletas!

Como levar os Mambas ao Campeonato Africano das Nações quando interesses obscuros se sobrepõem à Nação? O disco riscado de encontrar nos treinadores a razão do crónico  insucesso é, por todos, conhecido. E, a este ritmo, Chiquinho Conde perfila-se ou mesmo se candidata a ser mais uma vítima do sistema. O tempo é mestre e dar-nos-á respostas.  Enquanto isso, outra fábula de baixo nível distrai e alimenta debates nas putativas redes sociais e órgãos de comunicação social. Relva sintética desalfandegada e sem compradores em hasta pública desaparece misteriosamente no Estádio Nacional do Zimpeto.

Num diálogo de surdos e mudos, Federação Moçambicana de Futebol e  Secretaria de Estado do Desporto travam argumentos com o fito de obterem ganhos de causas para consumo interno.

E nem um pio de quem devia impor ordem! Ordem tal que, há muito, deixou de fazer escola numa nação desportivamente improvisada!  Rady Gramane e Alcinda Panguana, com brilharete no Mundial de Boxe e tantas outras provas, fintam a desorganização organizada internamente. Salvam a “nau”! Dirigentes jubilam. E já perspectivam, em Dezembro próximo, alguns parágrafos de exultação no informe à nação.  Mas os atletas, de várias modalidades, minguam e reivindicam o  pagamento, pelo  Governo, de um valor de treze milhões, duzentos e dez mil meticais referente à premiação desportiva, um instrumento legal aprovado em 2007, que estabelece a atribuição de valores monetários aos atletas e respectivos acompanhantes que conquistem medalhas nas competições internacionais de carácter oficial. Passam cinco anos sem ver as “verdinhas”. “MOZ” anima…

Falar do meu percurso é falar das leituras que eu fiz no decurso da minha vida. Não posso falar de mim mesmo sem me referir à importância que o livro representa para mim particularmente. São os livros, são as leituras que fizeram o homem que sou hoje. Quando me refiro às leituras, estendo-as àquelas leituras que igualmente me foram facultadas por via oral, de acordo com as nossas tradições, e aquelas que também me são facultadas pela própria realidade que me circunda, no meu quotidiano. Realmente nãome posso furtar, obviamente, à literatura oral, que me chegou por via da minha mãe, dos meus tios e outros anciãos com quem cruzei no meu processo vivencial. Igualmente não me posso alhear do modo como apreendo a realidade que me envolve, observando-a, lendo-a, sobretudo, embora todas estas leituras estejam interligadas entre si.

Tem graça que os livros e a leitura colocam-nos sempre um paradoxo insolúvel: quanto mais os lemos mais nos remetem à dolorosa conclusão de que nada sabemos. No dizer do filósofo Sócrates: “só sei que nada sei”. Isto é, quanto mais buscamos o conhecimento, mais nos sentimos ignorantes e incertos, face à nossa estupefacção diante da complexidade do mundo em que vivemos. O livro e a leitura, para mim, ultrapassam de longe um simples exercício lúdico, passando a ser um instrumento de conquista do mundo.

Por isso mesmo, sempre que se fala da promoção do livro e da leitura, este tema mexe muito comigo, porquanto eu próprio sou um produto do livro e da leitura. Confesso que enveredei por este caminho por pura opção. Eu nunca quis ser um engenheiro, um médico, um economista, ou algo parecido. Sempre quis ser um lavrador de terrenos áridos, plantando palavras, um debulhador e um intérprete de signos representados por esses vocábulos. Estou consciente de que enveredei por esta via de forma arrojada, posso assim dizer, louca, tomando em conta a época, e não só, em que esta decisão foi tomada.

Todo o meu percurso, sem exagero, está intimamente ligado ao livro à leitura. Sou um autodidacta por excelência, tanto é que a autodidaxia não tem meta, não tem fim. É um exercício que uma vez abraçado é para todo o sempre, enquanto a vida durar. É justamente este exercício que me oferece um certo conforto na vida.

O livro, esse, foi sempre meu companheiro da vida. Talvez mesmo, muito mais do que se possa imaginar. Sou um testemunho vivo da magia do que um livro pode fazer. O livro transforma, o livro educa, o livro forma, o livro liberta, o livro propõe soluções possíveis, face aos constantes problemas que o quotidiano nos coloca. Vivemos num mundo, em certa medida, caótico, imperfeito, incompleto. Cabe-nos então, de entre as infinitas possibilidades, construir um mundo ideal. A vida é uma dádiva que nos foi entregue assim mesmo, nua e crua. Cabe-nos então transformá-la, melhorá-la, à imagem e semelhança da felicidade que almejamos.

Tudo o resto que tenha acontecido comigo, os oficios que experimentei, os cargos que ocupei, os livros que escrevi, as mulheres que amei, os lugares que conheci, as alhadas de que me desembaracei, as batalhas que venci, tudo, foi por conta da minha formação e experiência livrescas. Portanto, tudo quanto eu tenha feito e ganho na vida deveu-se a esse fenómeno que leva o nome de livro.

A propósito de locais, eu tenho dito que as minhas primeiras viagens fi-las em naves de livros. Lembro-me claramente que conheci, por exemplo, o famoso bairro de Manhattan, as avenidas de Nova York, a cidade das gôndolas do amor de Veneza, as cidades de Axum da antiga Etiópia, de Timbuktu (Mali), as pirâmides do Egipto, a Alexandria da nossa biblioteca reduzida  a cinzas, a cidade proibida e a muralha da China, a cidade subterrânea de Toronto, o mar da tranquilidade e as planícies lunares, os desfiladeiros de Marte, entre outras geografias, através de livros, muito antes de alguns destes lugares eu conhecer efectivamente. Aliás, a minha obra “Minhas Leituras e Outros Olhares” é um dos exemplos ressumados de autores e livros que me levaram a descobrir o mundo.

No plano literário, não podia falar de autores que muito influenciaram o sujeito poético que habita em mim, sem me referir à Sophia de Mello BreynerAndresen. Essa aristocrata tanto da sociedade quanto da poesia portuguesas foi, realmente, uma dasresponsáveis não só através dos seus escritos como também da sua própria mão, pela lapidação do poeta que sou, e pela minha formação literária em geral. Lembro-me que passávamos horas a fio ela a discorrer sobre as “leis intrínsecas da poesia, e eu a ouvir atentamente e a tomar minhas notas. Foi de facto um grande e raro privilégio ter conhecido e convivido com esta que é uma das vozes mais importantes da poesia universal. No rol destes influencersmeus, encontramos autores como Luís Bernardo Honwana, Noémia de Sousa, Eugénio de Andrade, Carlos Drumond de Andrade, Pablo Neruda, António Osório, Paul Éluard, Arthur Rimbaud, André Breton, Matsuo Bashō, Saint John Pearse. Aqui incluo também ensaístas e filósofos como Roger Garaudy, Jorge de Sena, Jean Paul Sartre, George Luckacs, Albert Camus, Marx, entrevários outros.

Desde pequeno, descobri que o verdadeiro feitiço da vida, ou melhor, o feitiço mais poderoso do mundo é o feitiço do “homem branco”, parafraseando Eduardo Mondlane citando a sua mãe sobre a necessidade de estudar, estudar sempre. Sim, dizia eu, é o feitiço do livro capaz de nos levar à qualquer lugar da nossa região planetária, capaz de nos induzir, por exemplo, à criação de fontes de energia pura (a energia do futuro), tal como faz o sol no processo da fusão nuclear, conforme os experimentos e pesquisas em curso nos prometem. A precariedade do nosso continente, acredito eu, só pode ser superada abraçando verdadeiramente o feitiço do livro, com vista ao domínio do átomo, essa essência que nos revela os segredos de como o universo funciona.

*Texto introdutório da conversa alusiva ao Dia Mundial do Livro e Direitos do Autor, na Casa do Professor.

O Gulamo Khan faria hoje, 11 de Maio, 70 anos. Morreu aos 34 anos a 19 de Outubro de 1986. Quando entrei para a redacção da Rádio Moçambique, em 1984, onde debutaria como repórter, o seu nome constava na pauta dos jornalistas, mas ele estava destacado na Presidência, como adido de imprensa. A despeito, por vezes, via-o nos corredores da Rádio. Via-o sempre sorridente, afectuoso, acolhedor. Era uma das mais esplendorosas vozes de Moçambique. Os seus trabalhos como jornalista são documentos históricos. Entrevistas como as que fez a Fany Mpfumo ou Noémia de Sousa são certidões da nossa nacionalidade.

Mais tarde, na AEMO, primeiro, e nos Msahos, que eram memoráveis encontros de poesia no coreto do Tunduru, de que foi um dos fundadores, depois, conhecer-nos-íamos. O seu activismo cultural, não obstante as funções que tinha, era indúctil. O Msaho, a “Gazeta de Artes de Letras”, na vetusta revista TEMPO, com Luís Carlos Patraquim e Calane da Silva, ao tempo em que o Mestre Albino Magaia era director, a promoção da literatura, a Associação dos Escritores, quando Rui Nogar era Secretário Geral, entre outras actividades, fazem parte do seu intrépido activismo cultural.

O Gulamo era um belo tribuno, um exímio declamador. Creio que José Craveirinha, seu amigo, não teve um outro de semelhante quilate a dizer-lhe a poesia. Para além de a dizer, o Gulamo foi responsável por divulgar poemas de Craveirinha que de outro modo seriam desconhecidos ou estariam perdidos. Vivíamos um tempo em que acreditávamos nas palavras e a poesia era o viático das nossas vidas e dos nossos sonhos. Hoje estamos, desfortunadamente, nos antípodas desse tempo.

Num comovido e comovente texto (“Missiva póstuma para o Gulamo”), que serve de prólogo ao livro único (“Moçambicanto”) que se fez publicar, em Maio de 1990, há 32 anos, José Craveirinha, sem se arredar do tom pessoal e da pessoa próxima que o Gulamo era, escreve: “Trágico sarcasmo do Destino é ser eu, precisamente eu, o incumbido para falar de ti, Gulamo na edição do teu livro, o único: tu, Gulamo que, tão jovem, ligado à casa do Zé e da tua mamã Maria como a tratavas, por laços afectivos que te tornavam mais um filho, não escondias o porquê das tuas diligentes buscas e irreverentes “extravios” de quanto papel solto, rascunhos e escritos inéditos enferrujavam nas gavetas do descuidado Zé, correndo o risco fácil de se perderem de vez, o que seria – teu exagero afectuoso – um crime e uma perda. Autor dos “extravios” reclamavas a intenção de ser o fiel depositário que te caberia divulgar no “depois” do descuidado autor.”

O Destino, como lhe grafa Craveirinha, com maiúscula, zombou do “descuidado autor” e seria ele, na companhia do Albino Magaia, Calane da Silva e Júlio Navarro – todos desabrigados deste reino -, que cuidaram de organizar os papéis, encontrar ordem e fazer publicar a poesia de Gulamo Khan, quando este, no infortúnio colectivo que seria Mbuzini, não regressou de uma breve viagem à Mbala, na Zâmbia, onde fora acompanhar o Presidente.

Neste “Moçambicanto” houve por bem incluir uma mensagem da Mãe do Gulamo, Hawa Mulla. Mensagem lancinante esta, que termina dizendo: “Levaste as palavras da tua linda voz contigo, mas connosco ficou para sempre esta tua mensagem amiga.” Não há exagero de progenitora no adjectivo: Gulamo tinha das mais belas vozes que a nossa Rádio teve.

A voz era a extensão da sua personalidade. Leio-lhe, de novo, os poemas, da sua breve produção, reunida neste magro volume, com capa de Chichorro, ilustrações do Malangatana e do próprio Chichorro, e reavivo, na sua dicção, a sua belíssima voz. O livro inicia com o poema que lhe dá o título e é absolutamente encantador:

 

céleres as águas

zambezeiam pela memória

das almadias do silêncio

 

nem o zumbido da cigarra

me entontece

 

nem o troar do tambor

me ensurdece

 

as vozes que são 

sulcos das nossas esperanças

 

Oh pátria

moçambiquero-te

neste alumbramento

e amar-te

devo-o à carne e ao nervo

deglutidos em revolta.

 

Poeta com timbre próprio, poeta com dicção própria, poeta com sintaxe própria, pese embora a sua obra tivesse sido um projecto inacabado, que a morte, abrupta, interromperia para sempre. Não sei se há aqui alguma premonição, mas não deixo de notar, nestes versos que cito a seguir, uma outra ironia trágica: “Sento-me na carlinga e fecho os olhos/ cheira a velho este Antonov/ na penumbra”. A 19 de Outubro de 1986 estavam todos eles também num infausto Tupolev.

Poesia que se arrima indisfarçadamente num ideário, dela temos que assacar a circunstância temporal e histórica na qual é escrita: “Há uma lança lançada em Setembro”. Ou estes versos acutilantes: “assim exilados/ no ventre da Pátria/ lambemos o chão/ e o musgo ressequido”. Poderiam ser, estes últimos versos, sobre os tempos agoirentos de hoje.

Poeta em diálogo com a poesia de Craveirinha também (“Carta para José Craveirinha feita num 42º andar de Nova Iorque”: “Atenção irmãos/ Billy The Kid era um fanfarrão/ nem o whisky lhe aguentava a coragem/ tanta cagufa/ hoje sabemos que o grande chefe índio/ se suicidou com uma poção venenosa” (…) “E Langston Hughes não é parvo nenhum/ quando diz que é belo e que é a América/ Deviam tê-lo deixado na cozinha a/ comer os restos para ter juízo/ e não se meter com brancos// Também não é verdade que Joe Louis/ despenhou aos 2 minutos Max Schmeling/ pondo knock-ou Max Schmeling”).

Há, nisto, nestes versos, um claro diálogo, uma ineludível intertextualidade com o poema “Quando o José pensa na América” de Craveirinha. “E Agora, Zé? Agora, já, todos os membros/ da K. K. Klan sabem/ o que pensamos/ quando pensamos na América” (Gulamo Khan).

José Craveirinha: “E além do mais o José também se lembra que Joe Louis na desforra/ pôs Max Schmeling K. O. logo ao primeiro round/ que Armstrong quando assopra o trompete/ os agudos dão resposta concludente/ às dúvidas sentimentais da Ku-Klux-Klan/ e o retórico par de Botas de Charlot”.

O poema de José Craveirinha é longuíssimo e não caberia aqui todo, mas é um daqueles arroubos que fizeram a sua fortuna como poeta. Nesta “Carta” de Gulamo, eivada de ironia, aliás à boa maneira do Mestre, há ainda versos que esplenderiam à luz dos tempos ulteriores à sua escrita: “Sabes que mais? / É mentira o que dizem de Michael Jackson/ O puto não é negro é branco só que os / racistas”.

Muito haveria a dizer, não fosse esta uma breve nota evocativa, do Gulamo Khan, no dia em que ele faria 70 anos. Releio o livro, perpassam pela  minha memória as imagens que guardo dele, lembro-o afectuosamente, recordo-me da última vez que o vi, sentado no banco do Jardim Tunduru, antes de um Msaho; lembro-o, ali, no coreto declamando as ínclitas “Saborosas Tanjarinas d´Inhambane”, do José Craveirinha (numa dedicatória este escreveria: “Homenagem póstuma ao muito Amigo Gulamo que as descobriu e divulgou”); mas sobretudo ainda me empolga a lembrança do Gulamo a dizer o poema “Rumbas de violas no Comoreano” do nosso comum amigo e grande Poeta José Craveirinha.

Que mais posso dizer e que não subscreva o lugar comum? Gulamo Khan foi outro dos nossos grandes intérpretes e hoje está exilado no território do esquecimento. Foi um tradutor do ser moçambicano e dos nossos anseios. Fê-lo com a sua voz quando a palavra exprimia assertivamente o nosso sonho individual e colectivo. Agora que vivemos o refluxo desse tempo e experimentamos a distopia desse encantamento e dessa aspiração comum, o seu nome subscreve o anátema da desatenção, do desapreço e da nossa endémica negligência. A Pátria é fecunda na arte da desmemória. A despeito, a voz de um poeta nunca se deixa obliterar.

Seremos amor o chão fértil”, escreveu Gulamo Khan num poema de verso único. Este brevíssimo poema poderia ser a súmula da sua vida e do seu destino indubitavelmente poético e do seu imperecível e pungente hino – “Moçambicanto”.

 

Zagaia forte e aguerrida

adeus malume.

 

(Gulamo Khan)

Como se a crueldade do mestre Guimarães fosse um mal de pouca monta, os alunos da Escola Nova e a garotada do bairro sofria suplícios do encarregado do sector de manutenção, o senhor Coimbra.

Este senhor Coimbra era um sujeito metropolitano, originário da ilha da Madeira, o que se comprovava pelo sotaque e pelo modo como pronunciava os bês e os vês. Em vez de dizer “você”, dizia “bocê”; no lugar de “vinho”, pronunciava “binho”. Quem se divertia a imitá-lo era o seu ajudante, o Djacabai, um manjacaziano estiloso e garanhão, muito conhecido pelas senhoras de meia idade em cujas casas demorava-se a “arranjar torneiras que vertiam água” ou a “apertar as dobradiças das portas”. Muita gente estava a par do significado profundo e último destas expressões e não nos vamos deter a esmiuçar detalhes, o que provavelmente valeria a pena fazer, para julgarmos do nível da moral dalgumas residentes.

Pois então o senhor Coimbra constituía a linha do prolongamento dos actos do mestre Guimarães. Como?

Se o mestre-escola se apropriava dos almoços dos estudantes e os devorava, estes ficavam à míngua de alimento. Dinheiro para adquirir alternativas para uma refeição, como os bolos de coco, as arrufadas ou mesmo cornicoques, dos vendedores ambulantes que se faziam sempre presentes durante o intervalo maior, esse não o possuíam. Em épocas de boa produção o recinto onde funcionava a oficina do Coimbra era um pomar donde pendulavam frutos variados, em diferentes fases de maturação. Era só vê-los ali a pendularem, apetitosos, a provocar piruetas e ruídos naqueles estômagos esfomeados e muita salivação nas bocas. Eram os pêssegos do tamanho dum punho duma criança, eram aquelas mangas com formato de feijão, eram aquelas laranjas amarelas que dava gosto ver toda aquela produção. O recinto em referência fora vedado com uma cerca de arame farpado, reforçado por uma rede-galinheiro, o que não constituía um impedimento maior para a criançada do lugar.

Quanto mais o senhor Coimbra se esforçava em inventar estratagemas com o fim de impedir a invasão da propriedade, mais os rapazes se aperfeiçoavam nas tácticas para ganhar acesso à fruta. Ele armava emboscadas para apanhar os ladrões em flagrante delito, mas estes achavam sempre algum modo de escapar aos mesmos. Contudo, há sempre dias de azar. Algumas vezes, um e outro estudante, impelido pelas pressões do jejum, foi surpreendido pelo diligente encarregado e cercado. Possante como um ferreiro, aquele imobilizava o infeliz com alguns bofetões. Com um martelo pesado contundia-lhe o crânio “para lhe abrir a cabecha e lá meter algum raspêto pela propriedade alheia”. Contam-se às dezenas as cabeças fracturadas pelo martelo do Coimbra, sempre ancorado no argumento de que “ladrão é para se castigare”. Talvez seja esta a razão por que naquele bairro e naquela época abundavam indivíduos com amolgadelas e cicatrizes nas cabeças e alguma forma de retardamento mental.

 

Na minha experiência de leitor de poesia, e sempre que me ponho a reflectir sobre a natureza e os processos criativos que dão origem a poemas, fico sem fôlego ante o feitiço que certos poetas usam. Eles são capazes de associar determinadas palavras ou significações de uma maneira tão particular, cuja poesia daí resultante desperta em nós estados emocionais, de certo modo, inusitados.

Este livro é exemplo disso. O poeta Macvildo Bonde construiu-o com recurso a uma magia muito peculiar, uma técnica, quiçá, que advém das suas vivências, das suas leituras, das suas experiências emocionais, acabando numa poética que escorre, deslisa como um rio sem margens que o possam comprimir, que o possam aprisionar no seu leito, que o possam condicionar no seu deslizamento, até que o leitor se deixe levar com a liberdade das suas águas.

Os versos são soltos, isto é, a imagética é livre, desprendida, mas unificada e sequenciada. Digamos que os três subtítulos que compõem este livro – Terra, Luz e Noite –, constituem uma espécie de associação livre de imagens, de metáforas bem polidas, que obrigam o leitor a participar e a acompanhar a sucessão dessas imagens na tela de todo poema que constitui este livro. É um autêntico filme que se desenrola na memória do poeta e, através dele, embarcamos com o autor numa espécie de viagem onírica.

Esta poética remete-nos ainda à poesia concreta em que a imagem visual e a metáfora do poema vão evoluindo na mente de quem a consome, com a alma despojada de preconceitos de ordem lógico-metodológica. Vejamos então:

“terra, campo de batalha, resíduo sólido, areia, fim do cume, Kilimanjaro – olhos de Hemingway; pó: cabana de ébano, ossos raquíticos, na boca o abutre; uma girafa cai na fralda do gatilho.”

Esta sucessão da imagética continua se desenvolvendo, à medida que vamos lendo, até que nos arrebata com ela sem que nos tenha dado tempo suficiente para digerirmos o que acabamos de ingerir.

“Agito o braço, despacho a águia no horizonte, no livro uma veia desmaia, natureza morta;

absorvo a cor da chuva, voz silenciada ao entardecer.”

Como se pode depreender, o livro é uma viagem ao redor da Terra, à velocidade da Luz, com a cumplicidade da Noite.  É uma viagem no espaço e no tempo, na simbologia das palavras e no fenómeno poético em si. É uma jornada ao centro dos elementos que compõem o próprio acto da criação:

“paladar com a fúria da sede;

regresso à Marselha, Cézanne esconde a paleta nos olhos de Hortense, uma criança chora no tecto do caixilho.”

Ou então,

“Corro dentro de mim, a terra habita a largura óssea, grito: fogo, uma alma entediada aprisiona a maçã do rosto; rio, sobras de lágrimas escorrem no vácuo, uma mesa dança ballet,”

Enquanto esta romaria prossegue, o poeta vai refletindo sobre a sua própria condição de operário da escrita:

“a literatura tem seus deuses; mudo é o poema envergonhado, trepadeiras calcando o rosto da água no espelho.

Quem sustém o bordão da vaidade, enterra o egoísmo nos cómodos do coração, regresso à pedra, uma linguagem chega sem artifícios à porta temporal;”

Como sempre toda a viagem causa cansaço. Por isso, o poeta suspende-a por alguns instantes. Ele quer repousar na exaustão do próprio movimento, ao mesmo tempo que se interroga:

“Abro as cores da noite e pinto uma vogal na língua. Ressono agora solitário, abro a porta onde repouso metade da preguiça. Esvazio a máscara, uma pastilha amordaça a esfinge, então, reparo que já não brinco com os silêncios; enterro a fadiga nos olhos?”

Mas também o repouso não é o fim da viagem, por conseguinte o poeta retoma a sua peregrinação:

 

“Pinto o lápis nocturno…

olhar da terra húmida;

risco a lua com um berro;

fui monge nas tardes de domingo; minha sina reencontra o sono.”

Nesta navegação o poeta roça com suas asas de vento um pouco da nossa memória, relembra o massacre de Sharpeville, reencontra-se com o Hugo Massekela, esse desbravador de sons e palavras:

“Ervas brotam no coração da cidade, a folhagem orbita na largura do tédio.

Sharpeville,

uma criança ecoa

no feltro das balas incendiárias;

Hugh Massekela

desbrava o poema;

água ou vinho, sentenceio a fúria dos jornais;”

O poeta sobrevoa outras paragens africanas em demanda de outros espaços cinematográficos, para que a sua tela não tenha fronteiras como ensina a própria vida:

“Ouagadougou;

imagino Sembène:

o cinema brilha na floresta; a bicicleta rasga o corpo húmido na alça dos pedais

cada olhar, um filme penetra o imaginário infantil, despidos, crianças abraçam Sankara.”

Anoitece. Estamos já na terceira parte do livro, que leva justamente o subtítulo de “Noite”. Acontece então a insónia. O poeta insiste, e aproveita-se desta insónia para revisitar outras vozes poéticas, vai ao encontro do Patraquim, numa espécie de cumplicidade e intertextualidade onírica.

“Deixo a insónia nos braços, escuto a voz do Patraquim – válvula extinta nas cores de Tsalala. Ser viageiro, o medo entre os látegos das casas? No capim fresco, abandono a noite e as ninfas, o rio assombra meus passos, não redijo o silêncio do pirilampo.”

Vale-nos aqui a máxima do Shakespeare segundo a qual “o mundo inteiro é um palco. E todos homens e mulheres não passam de meros atores”. A viagem do Macvildo acontece na tela da vida, com os seus respectivos capítulos, bem à maneira do Quentin Tarantino, pois ela é nos apresentada em capítulos, cuja história ora avança  ora recua.

“O fim é uma seca, uma taça de vinho sem álcool, um filme encriptado na crosta do ecrã. Quer iniciar a caminhada, pendurar o sono na estrada de um mamilo fresco.”

Como não podia deixar de ser, tudo desenrola-se numa bolha chamada tempo -o tempo como um invólucro onde tudo acontece. O poeta Macvildo Bonde é também actor deste movimento temporal. Até intervém nas ocorrências e faz acontecer cenas nas quais ele próprio é protagonista:

“No cesto do tempo, as raízes voltam a florir, uma mãe embala a noite; estico o sol na lente da saudade.”

“Dentro do cinema, alvitramos novas canções com armas nos olhos; um bombeiro esconde a machadinha no bolso, um bilhete sobrevoa os cabelos do vento.”

Parabéns, poeta, Macvildo Bonde, por esta linda viagem ao interior da terra, da luz, da noite, do sonho, e da poesia!

 

 

 

Jeremias Nguenha morreu a 4 de Maio de 2007. Passam hoje 15 anos. Provavelmente ainda sejam ouvidas as suas famosíssimas músicas “Vada Voxe” ou “La Famba Bicha”, que são, quanto a mim, um dos mais inventivos diagnósticos da sociedade moçambicana e das suas patologias inultrapassáveis. Permanecem actuaisActualíssimas

Era um artista extremamente irreverente e fazia uma arrojada e acerba crítica política e social. Nascera a 19 de Março de 1972, em Inhambane. Cantava em changana. Cantava enérgica e violentamente em changana. Morreu cedo, subscrevendo o anátema moçambicano, com apenas 35 anos. Deixou, no entanto, o seu génio criativo registado nas músicas que compôs e cantou. 

 Nguenha foi um artista carismático e popularíssimo. Isso devia-se, a meu ver, à sua música poderosa e às suas mensagens certeiras e veementes, mas também à sua imediata identificação com os mais desfavorecidos: a forma de vestir, a forma de se exprimir, a forma de dançar e as suas coreografias. A sua impetuosa denúncia social, sobretudo quando falava da pobreza ou das injustiças sociais, era uma resposta violenta à violência dos que sofriam e sofrem a exclusão, a pobreza e a marginalidade. 

Jeremias Nguenha tinha uma portentosa e magnética energia em palco e vê-lo actuar era um momento fortemente impactante. Vestia uniforme militar e tinha o cabelo sempre rapado. Andava com um exemplar da Bíblia. Era um provocador. As suas composições tinham metáforas e imagens virulentas: “obrigam-nos a pentear as nossas carecas(tradução livre) é um dos seus versos mais profundos. O grande instigador era, antes de tudo, um grande poeta social e um magistral e intrépido cantor e actor. Ele não cantava apenas. Actuava no estrado. Era a voz dos esquecidos, dos desprezados, dos proscritos. 

Teve uma aparição fulgurante. As rádios tocavam-no regular e recorrentemente. Quando foi anunciada a sua morte, o choque foi inevitável. Mas parece que é o destino de grande parte dos artistas moçambicanos. Quantos talentos se perderam precocemente neste país? Quando estes (artistas)desaparecem sucede o silêncio e a escuridão sobre os seus percursos e suas vidas. Não são mais evocados, não são estudados, não existem biografias. Sabemos muito dos artistas estrangeiros e cultuamos o efémero entre nós. Pouco sabemos dos nossos melhores. 

Aliás, parece que a Pátria se regozija em ignorar os seus melhores intérpretes. Intérpretes num sentido mais extenso – de tradutores de um tempo e de uma sociedade. Como é este imenso e perseverante artista. Um cantor desassombrado e arrebatador. Jeremias Nguenha foi e é um dos melhores intérpretes do nosso destino individual e colectivo. Foi e é um dos maiores tradutores do devir moçambicano. 

 La famba bicha!

 

Maputo, 4 de Maio de 2022

 

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”

Simone de Beauvoir

 

Sexo é poesia. Esta é a frase que encerra o texto patente na página 27 do livro “o perfume do pecado” como um exercício sugestivo de se sentir o aroma de um pecado que a nossa vivência religiosa intitula original. Mas não é sobre sexo que o livro trata como pode sugerir uma leitura apressada tanto do livro como da capa que, aliás, foi engenhosamente desenhada.

O perfume do pecado é uma construção poética que se constrói através da metaforização da sensualidade feminina, sobretudo, e da representação de estruturas de sentido que nos confirmam que o texto literário não diz. Sugere. É este processo de construção textual que mais se destaca neste livro, conduzindo o leitor a uma permanente associação entre o que já conhece e o que o texto sugere, forjando-se, desta forma, a magia de Mikhail Bakhtin chamou de leitura interactiva.

O texto “o sabor da maçã proibida” é disso exemplo:

coma sem casca

e não te venhas já

ela é melosa, porém, venenosa. (p. 32)

Outro exemplo deste processo pode ser lido na página 27 em que encontramos:

Na selva não há timidez

se a fruta é boa,

que se coma. (p. 27)

Trata-se, portanto, de um jogo metafórico que reenvia o leitor às suas próprias conclusões sobre o que acaba de ler devido à apropriação que Chabana faz da palavra para singulariza-la e conduzir-nos a uma abordagem sobre o erotismo como um campo de afirmação da feminilidade ou desmistificação do perfume do pecado. De facto, por um lado os poemas fazem a representação do corpo feminino como se o eu poético se quisesse afirmar e assumir, por outro revela-se o descortinar de tabus que, desde a antiguidade, aprisionam mulheres e as reduzem à insignificância.

Presente em todos 52 textos, divididos em duas partes (do pecado e o perfume, respectivamente) esta metaforização a que nos referimos faz com que a experiência de leitura deste livro seja um contínuo desapego de credos sociais sobre a mulher.

Assim, o perfume do pecado revela ser um único poema em contínuo exercício de desfazer as brumas que enclausuram a mente quando reflectimos sobre a feminilidade. Se a nossa memória comum sugere que a mulher é um ser que se forjou pela costela masculina, a nossa consciência escandaliza-se com a auto-afirmação deste mesmo ser como uma entidade que tem uma essência própria a despeito do ser que supostamente a originou.

Nas entrelinhas do poema “dois em dois” (pag. 47) é inevitável tirar esta conclusão:

De tanto amar-te

não sei se ainda te quero,

mesmo por perto.

Sinto que és meu amor eterno,

embora no desespero, me esquento

nas memórias rígidas de beijos e abraços

que ficaram nas nossas metades de amantes:

dois olhares soterrados…

Amamo-nos e odiamo-nos,

mas no jardim do Éden somos dois inconscientes

felinos, famintos e loucos

embebidos em amor e banho de gemidos,

porém, eternos fugitivos,

eu sou eu e tu és tu!

Como podemos inferir, o texto requalifica a essência feminina e a coloca numa posição de equidade e não de mero objecto refém das abordagens quer eróticas quer sentimentais do sexo oposto.

Ler o perfume do pecado e ater-se apenas na representação que Chabana faz do corpo feminino não só é injusto como se desvia do alcance dos seus textos. Uma releitura do poema acima pode revelar-nos que além da mera erotização do verso há uma expressividade que augura a manifestação da vontade de liberdade e autonomia do corpo feminino, do desejo sexual e da assunção da essência feminina.

Ao estrear-se desta forma, Chabana junta-se, por exemplo, à Lica Sebastião, Sónia Sultuane, Deusa d’África, Melita Matsinhe e Rinkel que, segundo a professora Vanessa Riambau Pinheiro[1],

são poetas contemporâneas que quebram o paradigma de controlo e dominação do corpo feminino com uma poesia empoderada e decolonial como elemento sintomático dessa imprescindível, ainda que gradual, transformação do status quo actual, reminiscente do racismo e do patriarcalismo ainda vigentes na nossa sociedade.

Dando eco à frase de Simone de Beauvoir, em epígrafe, diria que este livro é um tutorial para que as mulheres se tornem no que lhes é destinado e se libertem das amarras desta sociedade falocêntrica. Aos homens, é um convite para a desconstrução dos seus próprios credos relativamente à mulher e seus papéis sociais.

 

[1] PINHEIRO, Vanessa Riambau. Cânones e Perspectivas Literárias em Moçambique. Editora UFPB, João Pessoa – PB, 2021;

          

Fui convidada como oradora no 10º evento do “Raias Poéticas”, a mesa que abordaria o tema “Leitura, poesia e edição: laços e pontes que unem o leitor, poeta e editor”.

Para mim, falar em Literatura pressupõe incluir na “casa literária” todo o tipo de intervenientes: autores, leitores, livreiros, editores, dinamizadores literários, entre outros, sem excluir e actuando de modo holístico. Se é verdade que fundamentados por ideias de Gilles Deleuze, encaramos o conceito “dobra”, como coexistência e abertura para diferentes tipos de debate ou de actuação, não é menos verdade que a ideia de dobrar, sugere ocultar o que fica dentro dobra. E, se não houver cuidado ou atenção, incorre-se no erro de passar por cima do outro. Se por um lado, podemos colocar coisas dentro de uma dobra, para as resguardar, também podemos nos esquecer delas. Então, é mesmo válida a ideia a construir a partir de Deleuze de que “dobra” implícita agir de modo diferente. Eu diria holístico ou inclusivo.

Quando fui convidada a participar do evento “Raias poéticas” as primeiras perguntas que me fiz foram: que laços é que unem diferentes tipos de “leitores” a editores? À poesia?; como integrar alunos e leitores excluídos do contexto educativo numa literatura excludente?; como unir leitores excluídos a editores excludentes?; Como ter uma ”casa literária” inclusiva?; como solucionar o desfasamento entre os pressupostos para a educação inclusiva e a edição de livros inclusivos?

Antes de responder a essas perguntas, recordo o contexto moçambicano, a partir do qual verifiquei existirem algumas soluções e desafios para esse quesito. Moçambique é um país multicultural, com onze grupos étnicos-culturais. Tem também recenseadas, cerca de 23 línguas, algumas das quais já com dicionários, gramáticas, textos ficcionais e didácticos, num universo no qual, a língua oficial é a língua portuguesa.

Lembro ainda que as línguas moçambicanas foram interditadas na época colonial, facto reiterado em 1975, após a proclamação da independência, no qual o português foi escolhido como língua oficial. Entretanto, até hoje, para uma população nacional de 30.832.244 de habitantes, da qual 14.885.787 são homens e 15.946.457 são mulheres, onde 34,02% são população urbana e 65.08%, população rural; cerca de 65%, que é habitante de zonas rurais, é falante do português como segunda língua.

Falar sobre “casa literária”, nesse contexto, deve ser e saber integrar todos os seus intervenientes: autores, leitores, livreiros, editores, dinamizadores literários, entre outros. Pressupõe ainda integrar, nesse grupo a Escola, esta que é instituidora e disseminadora do cânone literário.

Nesses termos, convêm lembrar que segundo a Lei nr.18/2018, de Dezembro o Sistema Nacional de Educação deve integrar crianças, jovens e adultos com necessidades educativas especiais em escolas regulares. Para as escolas de educação especial vão alunos em casos de extrema necessidade. Até aí, está tudo bem.

O problema que se coloca é que a maioria, senão todos os professores das escolas regulares não estão habilitados a lidar com a deficiência. Além disso, segundo me constou, a partir de um programa radiofónico, c.f <https://youtu.be/VWnk6smvqCE> existem, no país, cerca de “728 mil pessoas com deficiência; 115 mil crianças, em idade escolar, têm deficiência e existem, apenas, 10 escolas especiais, num contexto no qual 66.4% dos 5 aos 24 anos estão fora do sistema de ensino”.

Não havendo como lidar com a deficiência em contexto de aulas regulares, certamente que, também, não haverá como lidar com determinado tipo de pessoas com deficiência em determinados programas de dinamização literária, como por exemplo os cegos, os surdos, os que têm deficiências mentais e os que tenham como língua primeira, uma língua moçambicana, porque, nem todas as escolas utilizam a modalidade de ensino bilingue e a produção de materiais de literatura em línguas moçambicanas é escassa.

O ensino bilingue é um tipo de ensino no qual, democraticamente, por escolha realizada dos pais, os alunos são matriculados na Escola, e submetidos a um ensino no qual, nos seus três primeiros anos de escolaridade, a língua de apreensão do saber é uma língua moçambicana e o português aparece como disciplina. E nesses anos, poucas crianças têm acesso à literatura produzida nas suas próprias línguas.

Junta-se aos problemas mencionados o facto de moçambique ter cerca de 30 editoras e apenas algumas sobre as quais falarei mais adiante, se dedicarem a ser inclusivas. São as seguintes, as editoras existentes no país: Trinta Zero Nove; Kuvaninga; Progresso; Plural; Fundza; Escola Portuguesa de Moçambique (Braço editorial); Fundação Fernando Leite Couto, Alcance; Selo Jovem; Índico; Xidjumba; Kuphaya; Oleba; Cavalo do Mar; Ethale; MOLIJU; AEMO; JV; Escolar; Texto; Kwiri; TPC; Kulera; Atiko; Imprensa Universitária; Kwandika; AT; Marimbique; Capicua e ainda  Literatas (Movimento literário); Arquivo Histórico de Moçambique – AHM e FUNDAC (Instituição cultural). Estas três últimas, não sendo propriamente editoras; têm publicado livros em contextos específicos.

Entrevistada Sandra Tamele, fundadora da editora Trinta Zero Nove, referiu que a instituição foi criada a 30/09/2018, em celebração ao dia da tradução. Tem como missão traduzir e publicar obras em formato impresso, áudio-livro e em braile; privilegiando mulheres, narrativas actuais, pessoas com deficiência e minorias. Esse trabalho é feito com obras de autores moçambicanos e de autores de outros países. A editora tem também dado primazia a obras infanto-juvenis. No seu catálogo já existem cerca de 30 trabalhos, que incluem poesia, romance e conto. Esta instituição tem realizado saraus culturais de poesia, com tradução em língua de sinais.

Falei também com Elcídio Bila, representante da editora Kuvaninga, que me informou que esta foi criada em Maio de 2012, em Maputo. Tem utilizado capas de cartão (papelão reciclado, retalhos de tecido e outros) para cobrir o miolo dos livros que produz, unindo as folhas através de uma linha. É um trabalho artesanal.  Tem no seu catálogo cerca de 27 títulos publicados, nos géneros poesia, conto, drama, crónica e ensaio de autores moçambicanos e estrangeiros. A sua missão é estimular novos escritores. Além disso, têm-se dedicado a levar a consciência dos seus leitores à preservação do meio-ambiente.

É no âmbito do trabalho dessa editora que surge, em 2020, num formato misto: a tinta e em braile, a obra Sonolência e alguns rabiscos, da autoria de Énia Lipanga, poetisa e escritora moçambicana. Quando entrevistada a propósito da matéria neste artigo, referiu que o seu livro tem sido utilizado pela Associação de Pessoas com Deficiência Visual como exemplo do que se espera da arte. Da conversa tida com ela, destaco que dinamiza a literatura, declamando poesia em eventos com intervenção simultânea de interpretação em língua de sinais.

A literatura infanto-juvenil, começou a ser publicada em 1979, em Moçambique, entretanto, é um género com menos produção do que a produzida para um público mais adulto e que, ao longo do tempo foi sofrendo interrupções no âmbito da sua publicação. Mas, com a actuação da Associação Progresso, fundada em 2001, abriu-se uma etapa em que aumenta a produção desse género e inaugura-se uma época na qual a produção nesse género é também feita em algumas línguas moçambicanas.

Essa associação tem desenvolvido o seu trabalho em áreas rurais, nomeadamente: Niassa, Cabo Delgado, Maputo, Tete, Nampula e Zambézia; produz materiais impressos para apoiar o Ensino Bilingue.  Têm, também, produzido textos para serem utilizados na alfabetização de adultos, cujas temáticas incidem sobre habilidades para a vida. A editora desta Associação já tem produzidas mais de cem obras.

A Plural Editores iniciou a abordagem à temática dos livros em línguas moçambicanas em 2013. Tem contribuído para o Ensino Bilingue e de registo de contos da tradição oral, através do projecto “Moçambique: todas as línguas, um país”. A primeira edição desse projecto foi realizada em Abril de 2014.  Como resultado desse trabalho, existem, actualmente, materiais, nas seguintes línguas: xichangana, emakwa, cinyanja, cisena, cicopi, gitonga, citsua, ciyao, elomwé e shimakonde.

Fundada em 2015, a Associação Literária Kulemba, cujos responsáveis pertencem à editora Fundza, tem organizado festivais infanto-juvenis sobre o livro, feiras, declamação de poesia e concursos literários que têm resultado na produção de livros para esses públicos. Em 2016, a associação iniciou a produção de uma colectânea de contos intitulada, À Volta da Fogueira, desta colecção já foram publicados três volumes; um em 2016, outro em 2017 e um terceiro em 2018. A Associação tem dialogado com os seus públicos, através do festival literário infanto-juvenil, designado Flik.  Em 2019, após ciclone Idai, a Associação publicou livros sob o lema “Livro também sara Feridas”.

Escola Portuguesa de Moçambique, especificamente o seu braço editorial tem, desde 2010, desenvolvido com escolas moçambicanas, um projecto de dinamização da leitura e da escrita, através de um programa denominado “Mabuku ya hina”. Desse trabalho tem resultado a publicação de obras infantojuvenis. Esta Escola tem um outro programa designado “projecto ler para aprender”, que teve início em 2012, através do qual estimula crianças das escolas moçambicanas ao gosto pela leitura e pela literatura. Para além desses projectos, a Escola tem publicado obras infanto-juvenis, resultantes da adaptação e do reconto de obras da literatura oral, por autores moçambicanos consagrados ou não.

A Fundação Fernando Leite Couto, criada em Abril de 2015, tem no seu catálogo 32 obras, entre poesia, romance, conto e literatura infanto-juvenil é chamada a este convívio pelo facto de já ter publicado livros de literatura infanto-juvenil e de criar oportunidades para a tradução em peças de teatro alguns livros desse género e da autoria de diferentes autores na praça moçambicana. É um modo de se fazer dinamização literária que, para além de destacar um público muitas vezes excluído, têm dramatizado textos que, por sua vez são interpretados (em parte) em linguagem de sinais, para serem difundidas para um público infanto-juvenil. Há, também, um trabalho de estímulo para que crianças escrevam histórias e as contem a outras crianças, em modo dramatizado ou de conversa. Essencialmente, esta Fundação funciona como uma Escola de formação de novos autores ou de estímulo de jovens autores para o aprimoramento do seu trabalho.

Num país como Moçambique, abordar a temática da existência de laços que unam editoras aos seus leitores, deveria pressupor abrir a mente e falar sobre todo o tipo de leitores. Só assim é que a “casa literária” ficaria completa. Pressupunha ainda, que as poucas editoras existentes se predispusessem a criar novas formas de diálogo com os seus públicos. Só assim é que haveria justiça social e justiça científica, feitas à medida da dobra de pensamento preconizada por Gilles Deleuze, que inspirou o movimento Raias Poéticas.

 

*Sara Jona Laisse. Docente na Universidade Católica de Moçambique. Colaboradora na Fundação Fernando Leite Couto. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

Por Jorge Ferrão e José P. Castiano

 

Talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Génio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem. Nyerere pode não ter sido nem um génio, nem uma pessoa extraordinária, porém, foi uma notável figura da África pós-colonial e um sábio, no sentido ancestral da sociedade africana.

Existe um fascínio exacerbado quando retractamos líderes africanos que marcaram o continente, na década 60. E nesse sentido, Julius Nyerere converte-se em referência obrigatória e consensual. Nyerere será, continuamente, recordado como um homem de grande sabedoria, que evitou o derramamento de sangue e confrontos violentos, no seu período político mais activo. Isto foi graças a essa sabedoria e ao seu alto sentido de humor, onde colocava a sua luta pela independência, sem guerrilha, e com uma apologia permanente sobre a paz.

Nyerere, conhecido pelo seu nome suaíli, Mwalimu, que significa professor, tinha uma paixão incessante por uma África unida que contrapunha, até a Nkrumah, do Gana. Ele traduziu William Shakespeare para suaíli e assumiu a sua política Ujamaa, que nem por isso foi bem-sucedida na mudança do panorama económico da Tanzânia. Ujamaa revelava a sua experiência como filho de uma grande família e toda a sua imersão no pensamento socialista da sociedade.

Apesar dos erros, que esta política económica representou, dois factores fundamentais marcaram o perfil de Nyerere enquanto dirigente da Tanzânia. Em primeiro lugar, o seu não alinhamento, expresso no seu bem elaborado discurso, de Outubro de 1967, na conferência da União Nacional Africana do Tanganica (TANU), onde afirmou que ele jamais seria anti-ocidental e, muito menos, anti-leste. O segundo factor esta relacionado à sua capacidade de articular as negociações; procurar privilegiar os valores africanos e assumir os valores do humanismo e do africanismo. O facto de nunca ter constituído uma fortuna pessoal e de se ter retirado do poder, em 1985, por livre vontade, fizeram dele um líder diferente cuja preocupação centrava-se apenas no seu povo.

No dia 13 de Abril celebraremos 100 anos de Julius Kambarage Nyerere, se ele estivesse ainda vivo. Nascido em Butiana, este homem marcou e atravessou todo um século libertário da África, com o seu pensamento e acção, e viria a morrer, ironicamente, em hospitais de Londres, a 14 de Outubro de 1999.

Presidente, escritor, sábio e intelectual, Nyerere usou a política para difundir os seus ideais. Poucos, que o viveram como Presidente da República da Tanzânia, sabem que ele foi um prolífico escritor do seu pensamento político[1], mas, sobretudo, um homem de acção política, de uma visão estratégica que ia para além do seu tempo. O Mwalimu dizia o que pensava e pensava, profundamente, no que dizia; também agia segundo o seu pensamento e pensava, profundamente, também nas suas posições e acções políticas.

No centro do seu pensamento esteve sempre a busca da Paz e não-violência, mesmo que admitisse uma fase de “violência organizada”, na luta pela liberdade. Por isso, recebeu, ainda em vida, condecorações e prémios tanto do Ocidente (Canadá, Suécia, etc.), como do Leste (Prémio Lenin da Paz, Prémio Gandhi da Paz).

Para Moçambique, a mais marcante acção de Nyerere foi o seu apoio à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) (também apoiou as lutas da África do Sul, Uganda, Angola, Guiné-Bissau e Namíbia), permitindo que o seu país albergasse bases militares. E este apoio à violência armada organizada aos países vizinhos, não foi sem conflitos morais que precisavam de ser reflectidos: Como um pacifista, que sem dúvidas ele era, pôde apoiar grupos armados de libertadores, tanto mais que, na altura, eram conotados com o terrorismo.

Numa palestra sob o tema Stability and Change in Africa, em 1969, na Universidade de Toronto, convidado para a recepção de um doutoramento honorário, Nyerere reflecte sobre o sentido e significado da liberdade para os povos africanos, em particular na África Austral. Primeiro, preocupava-lhe a questão sobre como alcançar a liberdade (by peace or violence?) e, segundo, preocupava-lhe estabelecer uma clareza teórica sobre a dialéctica entre liberdade e desenvolvimento. De uma forma mais pronunciada, o livro Uhuru na Maendeleo (Liberdade e Desenvolvimento, 1974) é uma confrontação teórica sobre ambos dilemas.

Reflectindo sobre se a liberdade deveria ser alcançada por meios pacíficos ou violentos, Nyerere deixa claro, numa argumentação ímpar, a seguinte posição: primeiro, a batalha de todos os africanos é de alcançarem a Independência (que tinha o sentido na sua profunda convicção, da liberdade colectiva dos povos em decidirem por si mesmo o modelo de desenvolvimento a seguir).

É neste contexto que ele cria a teoria das portas para o diálogo. “Há muitas pessoas” – dizia ele – “que parecem acreditar que há uma virtude (heróica) na violência e que somente se a luta pela liberdade for conduzida em forma de uma Guerra e derrame de sangue pode conduzir à uma (verdadeira) liberdade”.

E acrescentava Nyerere, logo de seguida: “Eu não sou uma dessas pessoas” que pautam pela violência, porque nutria um respeito profundo pelas formas pacíficas de transferência de poderes, daí se explique o Prémio da Paz Gandhi.

A partir daqui, Nyerere desenvolve a sua teoria de portas abertas e entreabertas para um diálogo pacífico entre o colonizado e o colonialista, ou racista, em torno dos caminhos para a Liberdade. Se a porta para as negociações pacíficas estiver fechada, os movimentos de libertação deveriam, primeiro, no seu entender, fazer esforços para a abrir. Se, em contrapartida, a porta estiver entreaberta, ela deveria ser empurrada de tal modo que fique completamente escancarada. E acrescenta: “Em nenhum dos casos a porta deveria ser explodida à custa dos que estão do lado de dentro[2].

Entretanto, Nyerere continuava dizendo que se a porta, em contrapartida, estiver fechada à chave e, ainda, por cima disso, aparafusada (ou gradeada), e os porteiros se recusarem abrir a fechadura e a retirar os parafusos, então, a nossa escolha deve ser clara: ou aceitamos continuar a viver na opressão ou arrebentamos com a porta. Portugal era um desses gate keepers, que não aceitava abrir a porta para um diálogo civilizado[3]. Não restava mais nada à Tanzânia, senão apoiar aos movimentos de libertação que lutavam contra os teimosos colonialistas. Mas, esse apoio da Tanzânia era bem específico e à medida das suas possibilidades: “nenhum tanzaniano vai participar directamente nesta Guerra. Também reconhecemos que não poderemos fornecer armas aos freedom fighters. Mas, nós não podemos chamar atenção (ao Mundo) para a necessidade da libertação na África Austral e ao mesmo tempo negar a assistência (…) sabendo que as portas para as negociações estão fechadas e aparafusadas”.

O segundo significado de Liberdade, que Nyerere tratava de sublinhar, denominava-o por Principle of Self-determination and of National Freedom. Cada país faz ou decide fazer o que bem achar com a Liberdade alcançada. Nyerere tratava de sublinhar que, uma vez independente, a escolha do modelo de desenvolvimento é um affair dos povos que habitam os mesmos países, e não de potências ocidentais e de outros países africanos. Pois, escolher se cada país africano independente devia seguir a via socialista, comunista ou capitalista de desenvolvimento não competia aos países europeus, nem americanos, nem asiáticos. Portanto, sublinha-se, aqui, a ideia da Liberdade enquanto opção para o desenvolvimento. (Mais tarde, Amartya Sen e num plano mais teórico, viria a vincar uma tese complementar à de Nyerere, nomeadamente Development as Freedom de 1999).

É na sequência desta última ideia que devemos ler o sentido e o significado da luta de Nyerere, no plano internacional, por consolidar a ideia da União Africana e do não-alinhamento. Ele foi muito activo na luta pelas relações comerciais Sul-Sul, membro-fundador da OUA e organizador acérrimo das conferências internacionais dos países não-alinhados.

O seu colega e amigo, do movimento pan-africanista, Nkrumah, presidente do Ghana, viria, talvez, resumir melhor este pensamento de Nyerere quando dizia que “em questões de desenvolvimento não nos interessa se a direcção é o Este ou o Oeste: caminhamos para a frente[4]. O “para frente” significava, para Nkrumah, duas frentes de luta: internamente, um investimento massivo na educação e formação, na construção de infra-estruturas e de um Estado nacionalista independente; externamente, entretanto, o “para frente” significava um trabalho alinhado de todos os povos e nações africanas com os objectivos da organização continental, a OUA.

Para Nyerere, em contrapartida, a frente imediata, antes da OUA, era, por um lado, mais concentrada na concepção de uma agenda endógena e nacional de desenvolvimento (neste quadro ele desenvolve a teoria e a prática do Ujamaa e education for self-reliance); e, por outro, no plano regional, a consolidação da SADCC, sem com isto querermos dizer que Nyerere era menos pan-africanista do que Nkrumah.

Neste ano das celebrações do seu centenário, não seria despropositado celebrar este filho prominente da nossa África no seu pensamento e na sua acção. Como pensador, ele preocupava-se por fundamentar as condições e possibilidades para não se fecharem as portas do Diálogo, da Paz e da Reconciliação; todavia, quando se tratasse de conquistar e defender a Liberdade, ele admitia a “violência organizada”. E, mesmo já nos anos 70, Nyerere alertava para o perigo de Guerras posteriores às independências na região Austral da África devido à acumulação de armas na zona.

Se o Ocidente continuasse a fornecer armas a Portugal, África do Sul e Rodésia do Sul, na escalada que fazia, então não haveria outra chance de os Movimentos de Libertação para prosseguirem, senão também pedirem armas à China, União Soviética e outros países do Leste. Dizia Nyerere: Not even the most skilled guerilla movement can fight machine guns with bows and arrows, or dig elephant traps across surfaced roads. Tivemos que recorrer às armas do Bloco do Leste.

E assim foi escalando o nível de violência armada na nossa zona. E isto acontece, como diz, e não se cansou de ensinar-nos Nyerere, quando as portas para o diálogo e negociações estão não somente trancadas à chave, se não também gradeadas e aparafusadas.

No seu próprio país, em 1977, ele quis dar um exemplo de concórdia e de “portas abertas ao diálogo” que tanto pregava. Por isso unificou os partidos Tanganyika African National Union (TANU) e o Afro-Shirazi Party do Zanzibar para formar o Chama cha Mapinduzi (Partido da Revolução). Pensava, assim, alcançar uma maior harmonia, paz e reconciliação social na República que liderava.

Um homem de paz, sabedoria e acção que foi Mwalimu a quem vale a pena celebrarmos o seu centenário .

 

Não vi, hoje ou mesmo esta semana, referência alguma, entre nós, à passagem do centenário de Julius Nyerere (n. 13 de Abril de 1922, Butiama, Tanzânia – m. 14 de Outubro de 1999, Londres, Reino Unido). Esta cultura do esquecimento, esta primazia da amnésia, esta predileção pela desmemória ou este império do olvido não é um descuido certamente, nem desatenção ou negligência apenas, lapso ou simples omissão. É revelador de algo mais gravoso. Provavelmente, não seja capaz de lhe encontrar o desígnio imediato aqui e agora, mas há serventia nisto. Não pode haver tanto esquecimento sem razão.

Nyerere atravessou toda a minha juventude e testemunho aqui o fervor com que o recebíamos. Basta lembrar o nosso cancioneiro revolucionário e está lá o seu nome. Não ignoro a nossa toponímia que lhe dá sublimidade. Foi o líder mais distinto entre os pais fundadores dos novos países africanos. Não me compete fazer-lhe aqui a biografia nesta breve nota, sublinho apenas o facto de ele ter acolhido a geração de africanos que lutavam pelas independências dos seus países. Isso está na origem da reverência que ele colhia entre nós. A afeição por Mwalimu (Professor) vinha daí e advinha da sua personalidade carismática que ultrapassava os limites e a geografia da sua Tanzânia. Foi, indubitavelmente, um dos grandes africanos ou um dos que sonhou uma África grandiosa. Pelo menos uma África educada, unida e próspera.

Seis décadas depois da sua eclosão, vivemos o refluxo destas independências. Estamos nos antípodas daquela exultação revolucionária. Quase todos os nossos países não cumpriram a promessa histórica que drapejava naquelas bandeiras que tínhamos orgulho em hastear e nos hinos que nos tornavam mais irmãos. Não deixa de ser paradoxal, ainda assim, que uma figura cujo maior sonho era a união e que porfiava o ideal de “Ujamaa” (família em Swahili, mas leio no seu afã a metáfora da Grande Família Africana), esteja praticamente esquecida em África. Isto também explica, de alguma forma, o nosso desacerto. O desacerto de África. O desconcerto de África. O desencontro de África. O desconforto de África.

Há muita retórica, sobretudo política, que intenta dizer o contrário desta flagrante desconcordância. Contudo, nós desprezamos a memória e temos da cultura uma dimensão folclórica. Mas ela (esta nossa reiterada divergência com a memória) parece bastante notória ou demasiado veemente. Esta incapacidade de nos reconhecermos no lastro da nossa História – temos a tendência para dissentir sempre do que nos antecede – é uma endemia. O passado é como uma sombra, mas sombra (aqui) como traço ou indício. Não como obscuridade ou anátema. Como identidade, individualidade ou personalidade.

 

Ou muito me engano ou nós somos galhardamente desatentos – ou até exuberantemente presunçosos – em relação ao que nos é anterior. Para além de encerrar uma imprudência não augura nada de auspicioso. Não há futuro sem passado. Mwalimu Julius Kambarage Nyerere não pode ser deslembrado. Esquecê-lo é um sacrilégio. Uma blasfémia contra nós próprios. Celebro-o aqui nos seus 100 anos.

 

Maputo, Quarta-feira, 13 de Abril 

Às mulheres que amei e continuarei a amar…

A poesia não está na acção mas sim onde a acção termina; está onde a ponte entre uma

causa e um efeito se quebra e onde o pensamento vagabundeia numa doce liberdade ociosa.

in A arte do romance, Milan Kundera.

 

Olá a todos.

Antes de me perder nas armadilhas das palavras, primeiro quero agradecer à Matilde por me confiar a tarefa de apresentar o seu O perfume do pecado. Tenho noção do que significa um livro de estreia para um autor. Na verdade, até parece que é aí onde as coisas começam e tudo a seguir dependerá desse passo inaugural. Então, obrigado, Matilde, pela confiança?

Em segundo lugar, quero agradecer ao Camões por esta logística toda na promoção dos livros, dos autores e da literatura moçambicana em geral. Num mundo efémero como o nosso, é sempre agradável poder contar com pessoas e instituições que acreditam e investem na arte da palavra, porque, como bem afirma Blanchot, a palavra tem o poder de fazer as coisas aparecer.

Bem, a primeira vez que apresentei um livro aqui no Camões foi em 2014. Nessa altura fui o apresentador do romance biográfico Nós, os do Macurungo, de Adelino Timóteo, título que bem nos lembra um outro, Nós, os do Makulusu, de José Luandino Vieira. Acho muita piada, oito anos depois, voltar a apresentar uma obra literária aqui no Camões, no caso, de uma autora cuja escrita bem dialoga com a de Adelino Timóteo. Ou seja, do mesmo jeito que a obra timoteana encerra uma preocupação estética muito dedicada ao universo feminino, propondo debates importantíssimos para a sua compreensão, quer através na narrativa quer através da poesia, Matilde Chabana assim também procede com uma entrega desconcertante nesta sua inicial apresentação em livro. Certamente, temos aqui matéria mais do que suficiente para a produção de novos conhecimentos sobre a literatura, a cultura e a sociedade moçambicanas por via de um exercício comprativo.

Indo ao que realmente interessa, a razão de cá estarmos reunidos, eu intitulei esta apresentação da seguinte maneira: Corpo, desejo(a), acção. Optei por um título simples, com recurso a três palavras separadas entre vírgulas porque, na minha opinião, cada uma tanto é imensurável quanto polissémica. Simultaneamente, isoladas ou em concordância, as três palavras atravessam toda poesia de Matilde Chabana.

Começando com o primeiro termo, corpo, quem lê a Bíblia Sagrada deve saber que num dos versículos do livro Génesis diz-se que a mulher foi criada com base numa costela do homem para o fazer companhia. Desde os meus tempos de catequese, tenho imensas dificuldades em aceitar esta narrativa que está na origem da subalternização da mulher em várias sociedades. Geralmente, o que está escrito na Bíblia é inquestionável, então, basta uma interpretação errada, extrema ou defeituosa para a religião e os mandamentos da lei de Deus ficarem corrompidos.

Não sei se é por ser belo ou sensual, mas constato que o corpo da mulher é essa coisa proibida de estar exposta, porque não pode, não fica bem, desvirtua. Se os preconceitos fossem apenas nessa ordem, a situação até não seria tão grave. O maior problema é o transporte de toda inibição à volta do corpo feminino para o ser feminino. Assim, as mulheres não podem e não devem fazer tanta coisa.

Através de um discurso bíblico ou religioso, se preferirmos, e de um discurso cultural, a condição da mulher foi sempre relegada a segundo plano. Ora não pode votar, ora não pode ir ao cemitério, ora não pode conduzir, ora não pode ser padre/ pastor, ora não pode ser líder de um império/ país, ora não pode ficar na casa que construiu com o marido, quando este é o primeiro a partir. Então, o corpo feminino é um objecto sofredor, cujo drama atravessa imensos ciclos até a dor perfurar a sua alma, encarcerando-a ou condicionando-a.

Pensar o corpo é importante porque nele está uma forma de exprimir sentimentos, emoções, ideias, identidades e personalidades. Condicionar a possibilidade de a mulher ser dona de si, nesse sentido, é impedir a tal emancipação referenciada a cada mês de Março e Abril. A emancipação feminina é mais do que ter 50% das mulheres do governo – não me revejo nesse tipo de percentagem. A emancipação, na verdade, deve começar em casa e ser continuada na comunidade, na escola, na igreja e em todos os sectores sociais. O problema é que “ninguém” educa as nossas raparigas a serem donas do seu corpo e, por consequência, dos seus desejos. Penso, por exemplo, nas meninas dos nossos diversos distritos, que, ao menstruarem pela primeira vez, são “vendidas” a um homem idiota que não sabe distinguir uma mulher de uma criança. Por isso, na melhor das hipóteses, essas meninas tornam-se mães aos 14 ou 15 anos de idade. Digo melhor das hipóteses porque, muitas vezes, elas morrem, por razões óbvias, durante o serviço de parto.

Nós precisamos de alterar urgentemente esse quadro. E como se faz isso? Ensinando as meninas a serem donas dos seus próprios destinos e as mulheres a comandarem os seus desejos. Esses desejos podem começar com a simples vontade de fazer do corpo uma voz contra o mando. Depois, os desejos podem ampliar-se para lá do sexo. “More than just sex”, como bem canta Lokua Kanza, o que não quer dizer que o sexo é irrelevante. Pelo contrário, é crucial e lidera muitas situações na negociação entre as mulheres e os homens.

O outro problema é que até na questão sexo, uma bênção da natureza, a tal da sociedade quer mandar nas vontades particulares das mulheres como se elas fossem todas iguais e aspirassem pelas mesmas coisas. Há um termo que me acaba. Ninfomaníaca, isto é, toda a mulher que possui desejo anormal de fazer sexo. O termo tem conotações pejorativas e nunca se pode adivinhar elogios. No entanto, quando se trata do homem que gosta e assume esse desejo anormal de fazer sexo, é um player, um ponta-de-lança que geralmente merece respeito e palmadinhas às costas. Por que eles podes e elas não? Por que eles, e eu incluo-me neles, almejam tanto ditar regras no corpo delas e nos desejos que se querem concretizados?

Minhas senhoras e meus senhores, O perfume do pecado, de Matilde Chabana, é uma acção acirrada a favor da rapariga e da mulher. Logo, contra a ordem subalternizante, contra os tabus, contra a insignificância, contra os preconceitos. É um grito firme pela liberdade, porque a liberdade conquista-se todos os dias e de múltiplas formas. Temos aqui uma poetisa atenta ao seu mundo interior na mesma proporção que capta angústias do meio à volta, uma poetisa que conhece o ser feminino nos seus silêncios, longe das amarras institucionalizadas.

Dividido em duas partes, “Do pecado” e “O perfume”, a criação literária da Matilde é fundamentalmente um produto da sensualidade. O corpo, o desejo e a acção (ou o corpo que deseja acção) são elementos dessa situação imanente, para muitos, o zénite da vida disfarçado em sensações inefáveis.

A nossa poetisa sabe, e não é por ser mulher, levar às costas das linguagens cenários de uma condição urgente alterar. Com isso, os 52 poemas que compõem o livro quebram muros sem jamais abandonarem a subtileza exigida num poema. É como digo no prefácio do livro, na obra da Matilde, “a palavra personifica estados anímicos de entidades ansiosas em gozar o grau superlativo das suas sensibilidades. Aqui as musas não são meras invocações secundárias de sujeitos iluminados. Não. As musas indisfarçadas conjugam incessantemente o verbo agir, resignando-se a ser, parafraseando Virgílio de Lemos, cópias melhoradas deste desvario que tem sido o séc. XX e XXI”.

Mesmo a propósito do verbo agir, para Milan Kundera, “a poesia não está na acção mas sim onde a acção termina; está onde a ponte entre uma causa e um efeito se quebra e onde o pensamento vagabundeia numa doce liberdade ociosa”. Palavras bonitas essas extraídas de A arte do romance. Gosto de as ouvir sempre que as digo. No entanto, não sendo aquela uma mentira de Kundera, que condiz com o leitmotiv dos sujeitos de enunciação de O perfume do pecado, Matilde Chabana esmera-se em apreender poesia em tudo, sobretudo na acção. É um mar de contradições e emoções. Poderíamos imaginar a existência sem isso?

Evidentemente, essa é uma questão retórica. A pergunta que eu gostaria que me respondessem, mesmo a recuperar a minha ideia anterior, sobre não adiarmos mais a ensinar as raparigas e as mulheres a comandarem os destinos dos seus corpos e desejos, peço a vossa colaboração para uma pequena demonstração. Mulheres, quantas de vocês já disseram a um homem “eu amo-te”, sem que fosse o vosso namorado ou marido? Por favor, levantem a mão. Certo. Vejo quatro mulheres num universo de 30. Ainda para as mulheres, quantas de vocês já disseram a um homem que gostariam de fazer amor com ele, sem que fosse o vosso namorado ou marido? Agora noto que o número diminuiu, só temos uma mulher num universo de 30.

Agora coloco a pergunta aos homens. Quantos de vocês já disseram a uma mulher que “eu amo-te” sem que fosse vossa namorada ou mulher? Homens, por favor, não me envergonhem. Ah, sim, já estava a ver… mais ou menos 20 homens num universo de 25. E quantos de vocês já disse a uma mulher que “desejo-te levar à cama” sem que ela fosse namorada ou esposa? O número continua significativo.

Ou seja, este exemplo caricato serve para compreendermos que a nossa sociedade educa os rapazes para uma condição, mas, depois, esquece-se ou, propositadamente, não educada a rapariga para a mesma situação. Damos privilégios a uns e retiramos a outras. Mais tarde, quando eles são crescidos, queremos que realmente a expressão “direitos iguais” seja consistente. A isso chama-se empurrar o vento com a barriga. Sabendo disso, Matilde investiu na desconstrução de mentalidades há muito tempo enraizadas nas nossas cabeças. Há-de ser por essa razão que o título do seu livro já lança esse desafio rumo à confrontação do pecado. Bem dito, em Chabana o pecado é a coragem de atravessar fronteiras, de ser, de existir, de assumir e de partir, porque ficar, ficar é tão confrangedor, deprimente.

Nessa ordem de pensamento, os sujeitos de Matilde Chabana estão muito interessados em subverter o pecado e as habituais relações significado e significante, inerentes, claro, ao universo feminino. É esta a proposição que me leva a acreditar que O perfume do pecado é um tabuleiro de xadrez, onde se confrontam bispos e rainhas como Lueji (personagem de Pepetela), mais reais e representativas.

Quem for a ler este livro vai identificar uma complexa contestação ao abismo e à loucura causados pelos homens, porque “o amor deve ser feito como e quando se quiser”. Estes versos da Matilde, de facto, pungentes, lembram-me Caetano Veloso, quando na música “Nosso estranho amor”, diz-nos: “Não importa com quem você se deite, que você se deleite seja com quem for”. Conclusão, o amor é plural e incondicional. Não cabe em rótulos e tão-pouco na incisão dos órgãos genitais femininos que urge combater. O amor é bom, para todos, “sexo é poesia” e não deve ser construído unilateralmente às custas da servidão de um género que só é frágil aos olhos dos que usam óculos de madeira.

Já a terminar, leio-vos o seguinte poema:

No auge

Deixa estourar

a imensidão da embriaguez

possua-me com a boca, o corpo

com as vozes da alma

corra-me em fio a tua virilidade

e quebra todas as regras de etiqueta porque hoje…

hoje

         não quero

ser

         perfeita! (p. 35).

 

E agora o excerto do poema “Streaptease”:

no fundo

entre as paredes e nossos desejos um som calmo e

penetrante

deixa-me embriagada:

o “Dance for you” da Beyonce

oh, sim!

não sou do tempo

que as mulheres são inibidas, não!

Sou do tempo que as mulheres algemam os homens,

do tempo em que as mulheres renascem sorridentes (p. 58).

 

No primeiro caso, se a perfeição é um defeito, por constituir muitas grades de cadeia ao ar livre, o pecado é a gazua para libertação; a gazua que abre a porta da pluralidade do ser indomável.

Já no segundo caso, o passado não justifica o presente e nem define o trajecto para a felicidade plena, diga-se, terrena, porque o paraíso encontra-se em todo lugar, nesta vida, sem essa de termos de morrer para o alcançar.

Enfim, se puderem, leiam O perfume do pecado, para que, conforme a Matilde me escreve no autógrafo do livro, não morra a língua do poeta.

Obrigado pela atenção!

 

*Texto escrito de cor na sequência da apresentação do livro O perfume do pecado, de Matilde Chabana, dia 26 de Janeiro de 2022, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

Na nossa sociedade, de entre as boas e más práticas, há uma que eu considero constituir um grande entrave ao desenvolvimento individual e colectivo. É o hábito da culpabilização do outro ante os insucessos, sejam eles decorrentes de doenças, de desaires amorosos, de emprego, enfim, da vida. Julgo eu que este fenómeno pode estar intimamente ligado à nossa cosmovisão – do tipo curandeirismo, entenda-se, aquele curandeirismo virado às adivinhações. Vezes sem conta temos ouvido falar, um pouco por todo o país, de crimes violentos praticados contra pessoas acusadas de feitiçaria no seio da família, com maior incidência nas zonas  rurais, crimes esses promovidos por charlatães.

O mesmo acontece a nível urbano, principalmente nos meios políticos, académicos, empresariais, desportivos, artístico-culturais, religiosos, entre outros, onde esta prática assume outros contornos, com base no mesmo paradigma, pois o princípio é o mesmo por haver uma relação directa ou indirecta entre uma e outra coisa. Sim, a lógica é a mesma. Falo da fofoca – que alguém já a apelidou de sociologia de rumores – e a calúnia, essa outra forma abominável de argumentar e contra-argumentar. Tudo isto vai ganhando campo nestes meios, visando simplesmente denegrir a imagem do outro (principalmente quando é adversário) e dividir para reinar. É o truque usado por charlatães, gente de má-fé, sem escrúpulos, com a finalidade de tentar ganhar dividendos, ou de alcançar um determinado objectivo.  Assim, acusa-se fulano, sicrano ou beltrano, de ser o responsável do insucesso de A ou de B.  Acusa-se simplesmente, e apresenta-se como prova (de tamanha absurdidade) o aparente sucesso do acusado. Mamma mia!

Pior do que tudo isto, para a perplexidade das estrelas, é a ingenuidade (será?) daqueles a quem aparentemente se defende, de quem se pretende obter apoio, ao acreditarem em “histórias da carochinha”!  Reconheço, de antemão, que estas práticas nada têm a ver com a instrução escolar e o seu grau. Têm a ver, sim, com o universo cosmogónico vivenciado desde o berço familiar!

 

 

Inicio o meu quarto ano de uma escrita a que não estava habituada, a crónica jornalística. Nos primeiros três anos escrevi sobre a interculturalidade. Falei sobre o modo como podemos, por hipótese, colocar as culturas moçambicanas e portuguesa a dialogarem. Noutras vezes, inclui a cultura judaica, no diálogo com essas culturas.

De um modo geral, tenho-me questionado sobre a cultura, nas suas diferentes manifestações: literatura, costumes, comportamentos sociais, práticas culturais, modos de ser, de estar e de fazer. Hoje a indagação é sobre a adequação cultural de algumas posturas públicas em Moçambique.

Sempre abordo a cultura numa perspectiva valorativa, baseada no princípio da relatividade cultural e ainda na ética dos Estudos Culturais, a partir da ideia de que a cultura deve ser analisada de modo descritivo, tal como apregoa Clifford Geertz. E do discurso deste autor, depreende-se, também, que há que fazer-se a interpretação das culturas de modo reflexivo.

Descrever é um acto que não carece de explicação, mas reflexão, na acepção do termo necessário para o entendimento do presente texto, vai além da descrição ispu facto e da relatividade cultural, porque como tenho dito, na análise de culturas, o que é nocivo ou o que fere a dignidade cultural, deve ser descontinuado e substituído por um equivalente, menos danoso, mas com a mesma função.

Esta conversa, vem a propósito de se verificar, na sociedade moçambicana a utilização de togas ou de becas em cerimónias de passagem de crianças da creche para a escola primária. Melhor dizendo, essas togas ou becas são vestidas a crianças nas cerimónias a que se tem designado “de graduação”. Não é que este assunto seja nefasto, mas julgo precisar de uma desconstrução mais ajustada ao assunto em causa.

Ora, se graduação se refere ao ensino superior, que razão existe, para utilizar-se o mesmo nome, na transição de um grau diferente? Como por exemplo designar de cerimónia de graduação à passagem da criança do infantário, para o pré-escolar ou para o ensino primário básico? Mais do que isso, que razões existem para vesti-las, nessa cerimónia, com togas ou becas, que na cultura ocidental são reservados para magistrados ou professores catedráticos? Será que não haverá outro modo mais ajustado a esse ritual de passagem? Quanto é que custa uma reinvenção? …uma adaptação? Um ajuste de um ritual às condições próprias?

Na nossa sociedade, as limitações não param por aí. Escrevo o presente texto num dia de intenso calor, no qual ninguém escapa à transpiração e verifico que a televisão passa excertos de um famoso julgamento no qual os magistrados se apresentam de fato, gravata e toga. As imagens que são passadas não são simpáticas, por mostrarem os magistrados a transpirarem. Mau aspecto, para aquilo que à comunicação social diz respeito, pois ela vive de imagens estéticas pré-construídas. Não é por acaso que, quando se vai a um canal televisivo, antes de intervir em qualquer que seja o programa, antes da sua actuação, o indivíduo é sujeito à um prévio tratamento estético, nem que seja apenas uma aplicação de uma base de maquiagem, para diminuir os brilhos no rosto.

Espanta-me a nossa falta de capacidade de inovar ou de reintegrar determinado hábito, em função da nossa cultura. Espanta-me a falta de estabelecimento de um diálogo nesse sentido, num país em que na época quente e chuvosa, chega-se aos 42-43 graus de temperatura. Nesse contexto, qual é a razão para não tornarmos esta cultura mais dinâmica e mais ajustada à saúde física e mental dos cidadãos? Qual é a razão, para não se instituírem novos costumes, questiono-me. Chega a ser um sufoco assistir a essa desnecessária tortura.

Estas duas práticas recordam-me uma outra da qual nos livramos, julgo que em função da pandemia da covid-19, que interditou ajuntamentos de pessoas.

Refiro-me a uma prática institucionalizada há uns anos, em instituições públicas. Assistia-se a uma imitação ou transferência do que é comum fazer-se em cerimónias tradicionais caseiras, como as do xitique. Nessas cerimónias, os participantes usam roupas feita do mesmo padrão de capulana (uma farda). Então, nos anos antes de sermos acometidos pelas restrições da covid-19, funcionários de instituições públicas, tinham passado a adoptar uma postura de, em determinados eventos laborais, sobretudo aqueles nos quais participasse um político de grande vulto, vestirem-se todos de roupas feitas do mesmo padrão de capulana, à semelhança dos eventos que acabei de referir. Repetidas vezes assistia-se a isso na televisão e sempre me questionei sobre a razão da transferência desse hábito caseiro, para um fórum público.

Um colega meu de trabalho aventou a hipótese de se tratar de uma transferência que advém do facto de, muito facilmente, nas instituições públicas haver o hábito de “pessoalizar” o atendimento público. Ao ponto de dar privilégios aos familiares e conhecidos do atendedor. Ou seja, levianamente, um funcionário público assume como próprios os poderes de atendimento público, a ponto de decidir como e quando atender a um cidadão, não se coibindo de dar privilégios a quem desejar. Quer dizer, o lugar que ocupa é assumido como pertença particular e não pública. Essa postura, leva a que, se tiver que solicitar o apoio de um colega para atender a um conhecido ou familiar seu, diga, sem pudores, que pede uma atenção especial, por se tratar de um familiar ou parente; pelo que o atendimento não é o mesmo que adoptaria perante qualquer outro cidadão. É nessa sequência que o meu colega afirma que com esse comportamento, pode-se facilmente transferir os modos de fazer caseiros ou de fórum doméstico, para os modos de fazer públicos, sem receio algum.

 

Sara Jona Laisse é docente de Técnicas de Expressão na Universidade Católica de Moçambique e membro do Graal (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs) em Maputo. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

“Em questões de guerra e paz, em questões de certo e errado, nenhum país, nem mesmo a Alemanha, pode ser neutro”, declarou a Ministra das Relações Externas da Alemanha, Annalena Baerbock, em 18 de Março de 2022, em Berlim.

Três semanas após a votação na Assembleia Geral da ONU da resolução que condena a guerra de agressão russa contra a Ucrânia, o Governo moçambicano justificou a sua abstenção com uma posição “neutra” e que faz justiça a “ambas as partes”.

Vejamos primeiro o comportamento da votação na Assembleia Geral das Nações Unidas: dos cerca de 180 Estados que votaram, 141 votaram a favor, sendo que com a Rússia apenas mais quatro Estados (incluindo apenas um país em África – Eritreia) votaram contra. O resultado da votação mostra, por conseguinte, que não se trata aqui de um conflito entre o Ocidente e a Rússia, mas sim da Rússia contra a esmagadora maioria dos Estados no mundo. Moçambique, no entanto, absteve-se da votação, argumentando ter a ver com o “interesse moçambicano”.

Entretanto, até o Governo moçambicano alerta para a escassez de trigo e fertilizantes no país devido ao conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia, um dos principais produtores destes produtos. Por conseguinte, isto poderia conduzir a preços mais elevados para estes produtos e para os seus derivados.

Em 2020, Moçambique importou um total de 521,3 milhões de dólares em grãos, representando cerca de 8,1% do total das importações do país. Da Rússia, Moçambique importou 76 milhões de dólares em cereais e 9 milhões de dólares em fertilizantes (cerca de 13% do total das importações de fertilizantes). Por sua vez, a Ucrânia forneceu a Moçambique 21,7 milhões de dólares em cereais. Portanto, ao todo, cerca de 19% das importações de trigo provêm da Rússia e da Ucrânia.

Mesmo que as importações (de trigo) da Rússia e da Ucrânia no seu conjunto não sejam dramáticas para Moçambique, a crise terá um impacto: antes mesmo do conflito, a taxa de inflação dos alimentos, em Janeiro de 2022, já tinha subido para cerca de 11%, em virtude do aumento dos preços dos transportes, petróleo e fertilizantes. O agora esperado aumento de preços dos produtos alimentares continuará a impulsionar a taxa de inflação anual dos alimentos, que afecta principalmente as camadas mais pobres da população. Como resultado, uma parte muito maior do rendimento terá de ser gasta em alimentos.

Indo mais além, o aumento dos preços do petróleo continuará a pesar na já negativa balança comercial. As importações de petróleo foram a maior rubrica de importação em 2020, com 977 milhões de dólares (cerca de 15% do total das importações). Consequentemente, esta subida dos preços do petróleo vai aumentar ainda mais os custos e aumentar mais ainda o défice comercial a curto prazo, abrandando ainda mais o desenvolvimento económico e levando a uma margem de manobra financeira ainda menor para o Governo.

A guerra de agressão contra a Ucrânia, lançada pela Rússia no passado dia 24 de Fevereiro de 2022, deverá ter um impacto negativo significativo em Moçambique e noutros países africanos. Muitos países europeus – independentemente da curta ou longa duração da guerra na Ucrânia – terão de canalizar consideravelmente mais recursos financeiros para a sua segurança perante a Rússia nos próximos anos e décadas, o que, a médio prazo, poderá também conduzir à prejuízos nos orçamentos para a cooperação para o desenvolvimento, entre outros, com os países africanos.

Para além das consequências económicas, a guerra tem também implicações de segurança que vão muito além da Europa e contradiz os princípios fundamentais da integridade territorial e da soberania nacional que são centrais para a UA e Estados-Membros da UA. Tolerar o ataque russo põe em causa estes princípios do direito internacional. A nossa ordem internacional baseada em regras, protege os mais fracos do poder dos mais fortes. Devemos defendê-la para que não seja substituída por uma nova ordem em que apenas a força militar ou económica é que conta. Pois, numa ordem em que apenas o direito dos poderosos e não o poder da lei conta, todos os Estados saem a perder.

Esperamos que também em Moçambique, sejam reconhecidas as consequências negativas que a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia já provocou a nível global, e que a comunidade das nações defenda sistematicamente os princípios básicos da integridade territorial e assuma uma posição clara contra a agressão russa numa próxima votação no âmbito da ONU.

Em Budapeste, no ano de 1994, a Rússia reconheceu a independência e a integridade territorial (incluindo Dombass e a Crimeia) dentro das suas fronteiras, bem assim a completa soberania da política interna e externa em troca da renúncia da Ucrânia às armas nucleares. A Rússia espezinhou este acordo de 1994. Moscovo perdeu muita confiança, na Europa e no mundo durante muito tempo.

Quando morreu, a 30 de Junho de 1959, aos 37 anos, vítima de um cancro fulminante, Reinaldo Ferreira era, nas assertivas palavras de Eugénio Lisboa, “rigorosamente desconhecido na Metrópole” e “profundamente admirado por um número reduzido de amigos ou simples conhecidos”, em Moçambique, onde, acrescentava, “os seus poemas circulavam há muito de mão em mão, aqui e acolá publicados em jornais ou revistas, republicados, modificados, retomados, com aquela admiração e veneração sempre vivas que só as coisas realmente belas costumam motivar”.

Reinaldo Ferreira permanece, à distância de seis décadas, omisso, desconhecido, deslembrado, esquecido, não obstante a obra de grande quilate que então legatou, reunida e publicada, por um grupo de amigos, no ano ulterior ao seu óbito, sob a chancela da Imprensa Nacional e com o título “Poemas”. O Poeta projectava um livro a que daria o nome de “Um voo cego a nada”, belíssimo verso do poema “Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia”. Cito os primeiros versos: “Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia/ Que partout, everywhere, em toda a parte, / A vida égale, idêntica, the same, / É sempre um esforço inútil, / Um voo cego a nada.

Poemas” acabará por incluir 4 livros, designadamente: Livro I) “Um voo cego a nada”, Livro II) “Poemas Infernais”, Livro III) “Poemas do Natal e da Paixão de Cristo” e Livro IV) “Dispersos”. José Régio, à época uma sumidade nas letras portuguesas, dedicou-lhe um extenso estudo e uma admiração indisfarçável. O mesmo aconteceria com António José Saraiva e Óscar Lopes, autores da incontornável “História da Literatura Portuguesa”. Todos estes gabam-lhe a rara qualidade da sua poética e elevam-no, inclusive, à estatura de um Fernando Pessoa. No entanto, esta sua breve glória póstuma seria aviltada pelo tempo.

No belo e pungente “Reino Submarino” (1962), segundo livro de Rui Knopfli, que se estreara como poeta justamente no ano da morte de Reinaldo Ferreira, em 1959, com o provocatório “O País dos Outros”, cabe uma elegia ao Poeta: “O que na vida repartiu seu poema/ por alados guardanapos de papel, / o criador de sonhos logo perdidos/ na berma dos caminhos, / o mago que pressentia o segredo/ da beleza perene”.

Reinaldo Ferreira é autor de alguns dos mais belos poemas da língua portuguesa. Figura mítica da vetusta capital moçambicana, sobretudo nos cafés e dos circuitos da boémia nocturna, como haveria de testemunhar Guilherme de Melo, seu amigo e autor de um texto redigido para uma edição de “Poemas”, edição da Vega, em 1998, que sucedeu à da Imprensa Nacional de Moçambique (1960) e da Portugália, em Lisboa, em 1962, esta, por sua vez, com o texto de Eugénio Lisboa e um estudo de José Régio. A edição da Vega não inclui o texto de Lisboa, mas traz o texto do autor de “Poemas de Deus e do Diabo”.

Reinaldo Ferreira era também conhecido por ser autor de canções como “Uma casa portuguesa”, “Kanimambo”, “Piripiri” ou “Magaíça”, entre tantas outras, umas compostas originalmente e outras que resultavam de poemas seus que foram, entretanto, profusamente musicados. O Poeta dedicou-se abundantemente à arte dramática e foi responsável pelo programa “Teatro em sua casa”, do antigo Rádio Clube de Moçambique, parente distante de “Cena Aberta”, que, muitos anos depois, teria o concurso de figuras como Leite de Vasconcelos ou Né Afonso na subsequente Rádio Moçambique.

Hoje, no entanto, este imenso Poeta está “rigorosamente” esquecido. Fortuitamente citado, jamais celebrado pelos seus porvindouros, proscrito da glória que cobre tantos poetas efémeros, objecto de descaso quer em Moçambique ou mesmo em Portugal, os seus versos, quase todos aqui produzidos, permanecem no território do oblívio. Dir-se-ia que estamos perante um daqueles casos que não se sabe a que pátria literária pertence. Nasceu em Barcelona, cumpriu a adolescência no Porto para onde fora aos 4 anos e chegaria a Moçambique aos 19 anos e aqui viveria metade da sua vida, produziria a sua breve e fulgurante obra poética e dramática e aqui teria sepultura. Reinaldo Ferreira ficou, assim, prisioneiro do seu infortunado e paradoxal destino.

Breves efemérides da sua vida curtíssima em Moçambique: chega ao país em finais de 1941 e em 1942 termina o liceu. Ingressa, posteriormente, nos serviços de Administração Civil. Entre 1947 e 1949 publica, esporadicamente, poemas em páginas literárias. “Uma casa portuguesa” estreia em 1950 e torna-se um êxito de imediato. Dois anos depois, em 1952, passa a responsável da secção de teatro do antigo Rádio Clube. Em meados da década de 50 encontra-se a trabalhar nos “Poemas Infernais”. Em 1958 são-lhe detectados os primeiros sintomas da doença. No mesmo ano trabalha na colectânea “Um voo cego a nada”. Vai a Lisboa de férias e retorna a Moçambique em Janeiro de 1959. Em Março de deste infausto ano a doença agrava-se e segue para Joanesburgo em desesperada busca de cura. Em Maio já não há esperanças, regressa a Moçambique. No dia 30 de Junho desse ano morre de cancro no pulmão.

A sua campa é rasa e nela estão inscritos a bronze estes versos: “Mínimo sou, / Mas quando ao Nada empresto/ A minha elementar realidade, / O Nada é só o resto.” Descobri-a no acaso de uma romaria familiar ao Cemitério de Lhanguene e me deixei surpreender pela singela tumba. Não me sobressaltou o abandono. Os poetas costumam ter essa fortuna: o desabrigo, a solidão e a negligência do futuro.

Reinaldo Ferreira é, não obstante, um grande Poeta. Não entro na discussão da sua nacionalidade literária. Aliás, estão os seus poemas coligidos na antologia de poesia moçambicana “Nunca Mais é Sábado”. Um país que se preze reivindica-o. “Receita para fazer um herói” é o primeiro poema dessa escolha. Cito-o aqui na íntegra: “Tome-se um homem / Feito de nada, como nós, / E em tamanho natural. / Embeba-se-lhe a carne, / Lentamente, / Duma certeza aguda, irracional, / Intensa como o ódio ou como a fome. / Depois, perto do fim, / Agite-se um pendão / E toque-se um clarim. // Serve-se morto”. Belíssimo.

Maputo tem, felizmente, uma rua com seu nome, uma pequena rua cul-de-sac, que entronca na Emília Daússe, muito perto da Salvador Allende. Fui ontem procurá-la e lá estava recolhida na sua pacata obscuridade. O Poeta não está degredado da nossa toponímia. Ainda alimentei a esperança de o ver celebrado hoje nos lustros que perfazem, por estes dias, a relacção entre Moçambique e Portugal. Debalde.

Celebro-o aqui, nestas breves palavras, no dia em que passam, justamente, 100 anos sobre a data do seu nascimento, ocorrido a 20 de Março de 1922, em Barcelona. Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, de seu nome, filho do celebérrimo Repórter X, pseudónimo do conhecido jornalista Reinaldo Ferreira, de quem herdou o nome. Leio-o esta noite e sempre com assombro e não deixo de vituperar esta cultura de esquecimento que é o apanágio dos nossos dias.

 

Maputo, Domingo, 20 de Março de 2022

 

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