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ARTIGOS DE OPINIÃO

Quem já sofreu por amor desconfia da flor.

in A nossa conversa, Kelly Smith.

 

A arte literária preenche-se de vozes: meigas, atrevidas, errantes e acutilantes. Para cada uma, certo perfil, afinal, no exercício da representação narrativa, no caso ficcional, a escrita tanto pode absorver paixões e emoções da mesma maneira que gera sentidos sobre tudo isso.

A ficção é um lugar da acção onde os movimentos retilíneos uniformes podem cruzar-se com a irresponsabilidade de algumas decisões das personagens. Como escritor, eventualmente ainda à procura de reunir as ferramentas indispensáveis para a sua escrita, Negro sabe qual é força da literatura, quer na recriação de espaços, quer na afirmação de uma estética que corporifica a razão, o sonho e a desilusão. Por isso, o autor escreveu Carla – uma história de paixão e dor. É uma novela curta, 69 páginas que dizem muito sobre as relações urbanas cada vez mais precipitadas e fugazes.

O livro de estreia de Negro foi editado pela Kulera e revela um escritor audaz na exploração do universo feminino. Carla é essa personagem ‘comum’, que pode ser uma Madame Bovary, de Flaubert, ou Jocasta, de Sófocles, dependendo de quem a toma como amada. A história dela começa num lugar vulgar, um bar, à noite, onde a solidão aparente rapidamente transforma-se num mar com tonalidades rosas veementes. É a partir desse estabelecimento que Carla se apaixona, como prevê a composição “Romeu e Juliet”, dos Dire Straits, por um belo estranho e pelas promessas que ele faz. Fred é esse casanova que promete tudo na mesma intensidade com que se farta das suas promessas. É a grande razão do conflito interior das suas parceiras, Vera e Carla, e nada consegue fazer para corrigir as situações debilitantes por si causadas.

Ao construir o universo diegético, Negro leu e percebeu o contexto das histórias que são habitualmente produzidas em Moçambique. Por isso, ao invés de correr o risco de se desligar do seu contexto urbano autêntico, o escritor investiu nas malhas de uma esfera pública tensa, igualmente, pelas disputas excêntricas que desafiam o bom senso. É um estilo próprio, através do qual o escritor define a fronteira entre o amor e o ódio.

Quem souber ler o livro, vai encontrar em Carla uma personagem sem rosto ou com um rosto imperceptível, mesmo a condizer com a capa. Pouco importa… Pois, seja qual for o cenário, a protagonista da história é apresentada à laia de uma personificação exacta e exaustiva. Portanto, no plano real, Carla não é ninguém, todavia, paradoxalmente, é toda mulher vítima de escolhas incoerentes.

Erguendo a sua protagonista no amor e no ressentimento, Negro lança à ficção uma série de diálogos que endurecem um discurso sobre prováveis jogos de afecto. Num episódio dramático, tentando acalmar a namorada, Fred diz: – Deixa-me cuidar de ti. Pode ser? A resposta de Carla surge num ápice: – Como pensas em cuidar de alguém que magoas? Magoar é um verbo constate na novela. Na verdade, as mágoas funcionam para iluminar o carácter das personagens, trazendo-as, de algum modo, a essa azáfama que é o dia-a-dia das rosas. Porque, à semelhança da peça teatral de Emerson Mapanga, em Carla as rosas padecem por causa de um jardineiro com mãos de ferro.

Na sua primeira aventura em livro, Negro vai até últimas consequências com as suas personagens, concedendo ao narrador o poder da assertada manipulação dos eventos cardinais e da organização discursiva que preserva na história a lucidez necessária. Nessa disposição, o escritor não está muito preocupado com os aspectos técnicos da narrativa. O que o move, essencialmente, é o prazer de contar, porque contar é uma forma de chorar as mágoas dos outros e de aspirar por algum propósito sereno. Há-de ser por essa razão que na parte final da história, Carla, muito diferente da moral inicial, tenta ultrapassar o universo da ficção para continuar a existir no mundo dos homens, onde as balas, os revólveres, os mísseis e as armas nucleares substituem a alma das tulipas ou de tantas espécies de orquídeas capazes de brotar da terra.

Carla – uma história de paixão e dor é um passeio nocturno sobre as avenidas de Maputo, sendo essa cidade, em profundidade, a representação de várias linguagens universais. Também por isso, a protagonista da história, a sua prima Zinha, a rival Vera e Fred encerram tendências e atitudes humanas diante de certas provações. Em Carla, bem ao ritmo dilacerante de um Nicholas Sparks ou de um Ivan Turguenev, a vida é tão efémera quanto inesperada. E nela os materiais do amor, do ódio, da insanidade e da violência psicológica sugerem uma realidade que urge des(re)construir.

 

Título: Carla – uma história de paixão e dor

Autor: Negro

Editora: Kulera

Classificação: 14

O acto que agora se comete, aqui e hoje, ultrapassa, por assim dizer, o lançamento de uma obra literária. O que aqui se testemunha é uma reparação, uma indemnização, um ressarcimento, uma restituição. Subtrai-se do silêncio a voz de um Poeta. Aqueles que concorreram para esta empresa praticam, no fundo, o soldo que todos devíamos não só à memória deste Poeta, mas sobretudo à sua obra que permaneceu, nas últimas três décadas, rigorosamente esquecida, a despeito de uma ou outra brevíssima referência.

Num país que pratica o esquecimento como uma das suas artes sublimes; num país que cultiva a amnésia com espantoso método; num país alheado, ancorado na desmemória e no opróbrio do descaso a que vota a muitos dos seus melhores; num país que trata com meticulosa displicência os seus poetas, este acto tem um significado e uma simbologia muito relevantes.

José Pastor, de seu nome José António Pastor Duarte Silva, nasceu em Nampula a 29 de Julho de 1954. As efemérides mais importantes da sua vida resumem-se na nota aposta numa das badanas do livro. É quase tudo do muito pouco que se sabe desta personagem quase elusiva que passou, com um cometa, entre nós, e cuja poesia permanece ainda inacessível.

A sua morte está na origem do seu desconhecimento. Este ano passam 29 anos sobre o seu gesto extremo e há muito urgia que a sua obra visse a luz do dia. Finalmente, temo-lo de regresso ao nosso convívio.

É em meados dos anos 80 que José Pastor faz publicar poemas e contos em páginas literárias, sobretudo na “Gazeta de Artes e Letras” da vetusta e mítica revista TEMPO. Posteriormente, os seus textos irão corporizar algumas antologias de poesia e de conto dedicadas à celebração da literatura moçambicana. Furtar-me-ei ao exercício de referenciá-las aqui. Algumas delas estão descritas na breve nota biográfica do autor.

Numa entrevista, recolhida no livro “Fazedores da Alma”, de Marcelo Panguana e Jorge de Oliveira, dado à estampa em 1999, José Pastor, que proferiu as palavras que servem de título e mote ao volume, narra um episódio que está na origem da destruição da sua produção literária e que seria o acontecimento que antecederia o seu suicídio. À pergunta sobre este seu gesto extremado, o poeta responde:

 

Isso aconteceu-me quando um dia decidi: vou suicidar-me. Então preparei tudo, com um ritual dramaticamente bem preconcebido.

Foram destruídos poemas, contos, cartas e fotografias. Morreu uma parte do passado. Nasceu uma fogueira.

A memória ganhou com tudo isso. Organizado o plano, decidi dormir pela última vez. Acontece que me levantei de manhã muito bem-disposto e ri-me da ideia do dia anterior.”

 

Esta entrevista não está datada, pelo que só posso intuir que a mesma ocorreu muito antes de 26 de Agosto de 1993 quando o poeta põe termo à sua vida. Tinha 39 anos e uma vida contagiante, empolgada, arrebatada, culta, inteligente e atormentada.

O tema do suicídio que aparece nesta entrevista não era inédito. Os seus amigos sabiam-no, pelo menos os mais próximos, com alguns dos quais ele partilhava as suas angústias, marcadas a cada página neste livro, que exprime os seus tormentos e anuncia aquele epílogo trágico da sua vida.

Perguntado, na mesma entrevista, se a ideia da morte não o assustava, o poeta contrapõe:

 

Amo demasiado a vida, vivo-a com tanta liberdade e com tanto gozo, que temer a morte, algo absolutamente normal para um belo fim de percurso, seria, no mínimo, ridículo, e indigno para uma pessoa que amou a vida até à exaustão.”

 

José Pastor foi professor, encenador, activista cultural, contista e, sobretudo, poeta. Era um homem inquieto, as palavras brotavam-lhe das mãos, ocultavam o sol que ele cantava, com a espessa neblina que lhe ia no interior do seu ser, na sua alma, para usar um vocábulo que lhe era caro. Escrevia sobretudo poemas de amor. De um amor apolíneo quase sempre, deslumbrado e deslumbrante, mas num tormento indissimulado. Um amor dilacerado e dilacerante, quase sempre.

Era solar e lunar, impetuoso ou recolhido, expressivo e resguardado, assombrado e assombroso. Gostava dos seus amigos. Queria-os na sua solidão habitada. Sobretudo na Matola, à sombra das suas árvores. Amava os livros, falava abundantemente de escritores, comerciava leituras entre amigos.

Cuba era a sua segunda pátria. Era fervorosamente cubano. Fidel e a revolução tinham nele um implacável defensor. Conheci-o no regresso de Cuba e ele falava amiúde da ilha.

Publicou muito pouco e o pouco que deu a conhecer eram textos brilhantes. O poema que ele escreveu sobre o massacre em Maluana, nos anos 80, é de uma beleza virulenta, e um dos marcos da nossa lírica. “A pessoa de Josefane ficou no massacre de Maluane, mas seu corpo veio a Maputo para pôr velas”. Não me esqueço daqueles versos lancinantes.

O livro “Com a Saliva Muito ao Sul” está dividido em duas partes. A primeira, intitulada  “Respirar o Fogo” ocupa quase dois terços da obra, recolhe poemas de amor, de um amor arrebatado, incessantemente carnal, experiência de liberdade e gozo, vocábulos que ele usa na entrevista acima citada e no registo dessa fruição sensual e sensorial, quase sempre desesperada, nessa solidão imperecível, nessa busca do ser amado, nesse desencontro e nessa perda, nesse júbilo provisório e nesse esmorecimento durável, nessa alegria breve e nessa consternação prolongada, nessa euforia e nesse desalento, muitas vezes, quase sempre, em belos versos, cortantes versos, melancólicos e comovedores versos.

 

Quando no chão da nossa

intimidade sulcamos a terra.

 

Começa assim o livro “Com a Saliva Muito ao Sul” que fala desse

 

Outono que desconhecemos

 

E

 

vive de amores possíveis

 

Este livro, cito-o:

 

Tem a sua própria mitologia

a sua logica da carne, do sangue,

do sexo e da lagrima.

 

Poesia, solidão, tormento:

 

Hoje faço-me o favor

de fazer um poema atormentado

 

Arrebatamento, nostalgia:

 

Nunca mais foste tu

 

Tristeza, sempre a tristeza:

 

Hoje o dia está tão triste,

tão triste como têm sido

os últimos dias.

 

Ou:

 

Há dias em que a tristeza

me invade sem pedir licença.

 

Nessa poesia, diria o autor, “nocturna e esbatida”, onde se acrescenta: “sou triste porque lavro a minha dor”.

 

Poeta solitário por conseguinte:

 

Estou só e em casa.

 

Ou por outra:

 

Desperto sempre de madrugada

e a tristeza volta com

seu veneno.

 

Apesar do título remeter-nos para o “fogo”, esta é uma poesia lunar e não solar. É uma poesia onde se canta o abandono e a solidão, o inverno, o nevoeiro e o dilúvio, a morte, sempre a morte a rondar os versos e o Poeta:

 

Quero morrer deitado

porque sempre vive de pé.

 

Aqui está o testamento e o testemunho do “náufrago delirando na jangada” e sempre o canto do “amor possível”:

 

No teu corpo negro

lavrei o suor,

as minhas mãos rociaram

um perfume natural e afrodisíaco

e bebi da intemporalidade do teu sangue

africano por excelência.

 

Esse amor, cripticamente másculo, virilmente arrebatado, visceral e cantado em versos como estes:

 

E de repente, os músculos ficaram

tensos, as veias em relevo, os olhos

em teias de lagrimas, e teu áspero

cabelo passou pelos meus ombros.

 

Ou:

 

de guerreiro a conquista

do meu corpo

 

Ou:

 

Teu corpo tem a forca

telúrica da Terra.

 

Ou:

 

Até quando o teu regresso

ao meu corpo selvagem.

 

Ou:

 

Roçar do teu corpo possante

 

Ou mais ainda:

 

Beijos, gemidos, e todo o suor,

órgãos genitais entrechocando-se.

 

A perda sempre presente, a ausência do ser amado, a saudade e a nostalgia, a ruina desse amor cantado. Mas também o desprendimento do “amor possível”, onde o Poeta exalta o facto de

 

nunca teres deixado

que o tédio fosse a principal neblina

nas nossas vidas.

 

É dessa “respiração do fogo” do “Universo numa explosão/ de átomos dissimulados”, desses “corpos viris” e dessa “morte que agora me chama”. A morte. Sempre a morte:

 

Vou embora, amor. Só tenho

pena de ti. As asas da morte

não são tão medonhas como se dizem.

 

Há sinais muitos claros dessa morte anunciada. Não só naquela entrevista anteriormente citada, mas nos seus poemas, nos seus versos, como premonição e despedida:

 

Em breve serei a simples

cinza de um sonho

…..

Largo a vida, tudo o que fiz,

o fardo da dor e da solidão.

 

Muitos destes versos são a cartografia dessa busca do silêncio definitivo e da morte, desse desespero e do seu inevitável desenlace:

 

Falta pouco para a grande decisão,

para que haja uma explosão de noites

dentro de mim, para que sangrem as flores

que me fazem respirar, para que a seiva

que me alimenta seja a da arvore abatida.

 

Estes versos são de uma beleza veemente. São virulentos, pungentes e belos, como é aliás é apanágio da grande arte. E mesmo no fim desta primeira parte, “Respirar o Fogo”, anoto ainda estes versos:

 

Não me esqueço que sou apenas

uma titilação transparente

da grandiosidade da criação,

entre os benefícios e os custos

não reclamo glórias e alvíssaras.

 

A segunda parte – “Com a Saliva Muito ao Sul” –  é um longo e fragmentado poema e este não se exonera do seu registo lírico, mas aqui está o poeta mais onírico. Provavelmente texto mais ontológico, mais ensimesmado, mais absorto em si, mais reflexivo, mais indagador e mais perturbado e perturbante, mais sombrio e desesperado. Mas sempre o amor. O amor desesperado. E sempre a morte. A morte inexpugnável.

 

Se é um erro exteriorizar-se

a dor profunda que se sente,

é um ferro que nos fere

quando assumimos o brutal silêncio.

 

Para além do silêncio, a obsessão da morte ronda o poema:

 

Se sofro é por uma cama,

um sono descansado,

até que uma campa merecida

se rodeie de ciprestes.

 

Poema ominoso, poesia agoirenta, funesta, atingida pela “rugosidade das pedras” ou pela “fragilidade da vida”, fissurada sempre por essa “fantástica melancolia”:

 

Porque sou um rio

decidido a lançar-se ao oceano

na procura de formas de suicídio

mais marítimas.

 

Escreve este Poeta sombrio, lúgubre, soturno, taciturno, mergulhado na obscuridade das palavras, que nelas busca a “simbiose de Marte e morte” – cito-o –  e que reconhece:

 

Da minha actividade vulcânica

nasce um mar sombrio

sequioso de sequoias.

 

Nessa “procura do Norte no breu”. Recorrente este discurso do suicídio:

 

De gládio na mão,

não esquecerei um gladíolo de bolso

para o redobro da força

no possível suicídio.

 

E logo a seguir o poeta diz: “Conheço a dor da inquietação irremediável”. Os versos embora taciturnos são pungentes:

 

E quero um enérgico palpitar nas mãos e nos pulsos,

lançar naus ao sangue tropical no Inverno

e ainda: o fragor dos dedos acenando

o terno adeus final,

o mais compreendido entre os humanos.

 

Poesia “a coberto da névoa densa”, como escreve o Poeta. Poemas de amor e de desespero, como o disse e repito. Nos quais cabem ainda estes versos que parecem um apelo: “e nos teus fortes braços sinto-me seguro.” No entanto, acrescentará a seguir: “Amor, na Terra somos amantes a abater!

Parece a expressão de uma renúncia, de uma resignação, de uma cedência. Por isso mesmo diz adiante: “Não nos desviemos definitivamente/ das rotas do sábio silêncio”.

Este poema, este longo e sensual poema, é também por isso um poema desse amor visceral, impossível direi eu, inscrito num mapa de melancolias imprescritíveis:

 

Teu corpo dócil à nudez

no estio calmoso do trabalho da erecção.

 

Versos atravessados por esse amor viril, másculo, vigoroso:

 

Dá-me do teu beijo fatigado,

e dos destroços da espuma

provocados pela ancoragem.

 

Poesia que não recusa o desalento, a angústia, a descrença, o desânimo. Longo poema atormentado, que fala de uma prostração, que não esconde a derrota, que ancora na desesperança, no esmorecimento e na tristeza. Essa mágoa e esse padecimento estão assombrosamente inscritos nos últimos versos:

 

Quero atravessar o deserto,

o desastre.

 

Proclama o Poeta no seu desconsolo final. À beira do seu infortúnio, perante uma dor irremissível.

 

Negrejo, e esta é a remendagem da alma.

Vejo-me espelhado num múrmuro

abismo ignorado.

 

Assim termina o livro, este livro belo quanto dilacerado, tão profundamente consternado, tão atravessado pelo desconsolo, pela dor, pela angústia, tão condoído, provavelmente sem indulgência, tal foi o destino do Poeta que seguiu os sinais aqui cartografados e se matou, talvez buscando na morte essa redenção, essa expiação, essa absolvição.

Este é um livro tremendo de um Poeta espantoso, de uma alma formidável, de um homem surpreendentemente excepcional, de uma ânsia de viver esplêndida, o que poderá parecer paradoxal, de uma vida breve e portentosa.

Causou-me alguma estranheza que este livro não tivesse um prefácio que nos elucidasse sobre o Poeta e o seu destino. Um prefácio que nos esclarecesse não só sobre a trajectória biográfica e literária do autor, mas também traçasse os critérios de escolha e de fixação dos textos e justificasse a organização da obra. Seria uma obrigação indeclinável. Também seria importante percebermos a extensão do espólio e a razão pela qual não estão incluídos textos publicados pelo autor em vida. Isto no que se refere à sua produção poética.

Contudo, aqui estão os poemas, neste belo, dolorido e lúbrico titulo “Com a Saliva Muito ao Sul”,  aqui está o Poeta, assombrado e assombroso, no seu desencanto e no seu desespero, no seu júbilo pelo amor visceral que viveu, na sua atração pelo abismo e pela morte, nesta cartografia de um suicídio anunciado em sinais premonitórios, neste rosto elusivo e arisco por vezes, desenhado nestes versos com a subtileza e a elegância que fazem dele uma voz exemplar na literatura moçambicana e que aqui se cumpre celebrar, neste acto de reparação, depois de décadas  em que ele esteve proscrito no silêncio e no esquecimento.

 

 

Maputo, 10 de Março de 2022

A insensibilidade perante a dor do povo é preocupante neste país. Há mais de 45 anos que sonhamos com boas condições nos serviços de saúde, mas as tímidas melhorias continuam a passos lentos, e a aparente evolução, até com os olhos fitos à lupa, custa identificar. Somam-se dias piores que culminam com luto nas famílias e nada de resposta.

Esta semana, assistimos à reedição do sofrimento dos doentes em Nampula. Doentes apinhados em enfermarias, deitados nas sobras do chão, a mendigar atendimento: é o cúmulo da esperança sepultada! Indigência vulgarizada na maior unidade sanitária da província mais populosa do país, sob o olhar impávido dos nossos “subordinados”, aqueles que elegemos para nos governarem, mas deram-nos o falso estatuto de “patrão”.

Um sofrimento também vivido pelos profissionais de saúde, que, por serem fiéis ao juramento hipocrático, além dos contornos ao labirinto humano, se agacham vezes sem conta, entre um e outro doente, para prestar-lhe assistência possível, nas deploráveis condições existentes. Por melhor que seja a intenção de prover assistência, com infra-estruturas saturadíssimas, o trabalho leva à exaustão desta classe, e pouco se ganha em matéria de qualidade de serviço. Quem se importa com os profissionais de saúde?

Afinal, por que o comboio do progresso só anda em retaguarda no país? Por que nos tornamos invisíveis ou simplesmente fantasmas a sucumbir na indiferença do grito de socorro? Quando me lembro da frase: O NOSSO MAIOR VALOR É A VIDA, pergunto-me se quem escolheu este slogan sabe o que significa VIDA, por ser o único elemento estranho nesta oração.

Por onde anda o ministro Armindo Tiago, que, desde que assumiu a pasta da Saúde, nos habituou a frontalidade. Pedimos frontalidade no esclarecimento e resolução deste caos. A falência dos serviços de saúde públicos é uma realidade de bárbara branca, hoje evidenciada em Nampula, mas pode ser flagrada em muitas unidades sanitárias em todo o país. A normalidade dos péssimos serviços de saúde deve encontrar um ponto final em respostas criativas e eficazes.

Se a saúde pública elegesse políticos, teríamos, com certeza, prioridade. Nem os ilustres deputados nos representam nessa matéria. O silêncio desta classe deve-se ao facto de não sentirem na pele o que o povo sente. Passar o dia à procura de um diagnóstico que não chega e, no fim, receber uma receita com apenas analgésicos como paliativos, dirigir-se à farmácia e por vezes nem estes medicamentos encontrar, é doloroso. É a morte precipitada pela incompetência. Devolva-se dignidade aos doentes!

Os 4Gs que aqui são discutidos são resultado de uma hermenêutica elaborada para tentar trazer a correlação entre factores que concorrem para o actual estágio do nosso país.

O primeiro “G” aqui trazido é referente a Governação. Governação esta que tem sido marcada por altos e baixos; por momentos de algum êxtase e também de alguma baixa efervescência e fulgor.

Numa análise transversal dos ciclos governativos vividos desde a instituição do multipartidarismo no país, os modelos de governação adoptados tem pautado por uma centralidade gritante, falta de continuidade e por vezes até falta de clareza do que se pretende. A ideia de governação e a prática da mesma tem sido a raiz de muitos dos nossos problemas que vão se replicando em cadeia.

Durante o período da guerra dos 16 anos, o país enfrentou períodos de grande instabilidade, sabotagem e de incertezas. Todavia com maior ou menor dificuldade conseguiu superar e avançar. Fomos mais país porque perseguíamos os mesmos objectivos (pelo menos aparentemente) e acreditávamos que os discursos iam de encontro com a realidade que tanto almejávamos.
De forma pragmática oferece-me dizer que a nossa governação é de mais um manancial de intenções e de campanhas, mas presa em camisas de força e interesses que atentam a solidificação e materialização dos verdadeiros desígnios governativos.

Entre a intenção, o plano e a acção há um quase vazio operacional. Este quase vazio esbarra com os esforços de erguer um país alicerçado no Estado de Direito, na ideia de progresso, de participação e integração de actores de diferentes esferas.

O período que se seguiu as primeiras eleições gerais e multipartidárias foi de elevada expectativa; de aparente abertura e tolerância política e também de grande desconfiança sobre os actores e partidos políticos emergentes. Vou chamá-lo de período incipiente da governação. Período onde tivemos um país que experimentou pela primeira vez ideia de um modelo democrático (ainda que mal cozinhado) e a reunião de vários partidos políticos diferentes (uns com muita expressão ideológica e outros nem por isso), movidos pelo trust fund criado para apoiar os emergentes e pelo sonho de fazer parte do tacho governativo.

Neste período que apelido de incipiente, tivemos uma oposição política da mais diversificada, com a confluência de inúmeros partidos e actores políticos, embora com ideias menos elaboradas e algum sensacionalismo a mistura. Tivemos mais discussão e algum progresso no campo das liberdades de expressão e respeito pelos direitos humanos. Acreditávamos que as bases para um futuro melhor e mais inclusivo estavam lançadas.

Segue-se o período em que vou denominar de período áureo da governação em Moçambique – com a ideia de praxis e pragma governativa viva e muito interventiva. Este período começa com uma aparente ruptura com o anterior (pelo menos no aspecto discursivo e na abordagem). O discurso do dia passa por uma discursiva aglutinadora, empreendedora e de ódio pela pobreza. Sob a guisa da luta contra a pobreza absoluta, o país conheceu um volume de incentivo ao investimento interno e externo; de realizações e de criação das bases para uma classe média aparentemente capaz.

Mas como as histórias de amor nem sempre tem um final feliz, o que tinha tudo para ser digno de júbilo e apologia, terminou num pesado fardo para o povo moçambicano – as dívidas ocultas. Um fardo de difícil digestão e de uma complexidade inexorável.

O terceiro momento governativo pós instauração da democracia multipartidária, inaugura-se com uma -vibrante e apoteótica mensagem de confiança – “Eu confio em ti” – e, – “É contigo que dá certo”.
Um momento em que o fardo herdado do período áureo cria uma tremenda descrença em relação a continuidade e prosperidade, pois as dívidas ocultas, o abandono dos principais doadores ao OGE, a continuidade da crise económica e social, sem contar com os eventos climáticos severos, dilaceraram o tecido social, económico e humano do país. As liberdades individuais e o livre associativismo sofrem um revés, e o espaço cívico não é mais um espaço de encontro de ideias e de discussão livre.

É um momento em que a governação rima com o gás – que é o próximo G do nosso enredo.

O segundo “G” do nosso enredo é o Gás – baptizado por uns, inicialmente como autêntica bênção e olhado por outros como uma maldição. As enormes reservas de gás descobertas na Bacia do Rovuma, mudaram a geografia política e a economia política dos recursos minerais na região, no continente e no mundo. Em termos práticos o gás surge como o elemento que pode ou que poderia transformar o país numa réplica do modelo de crescimento do Dubai – uma espécie de um Emirado Árabe na zona Austral do continente. Acreditou-se que o gás poderia ser o messias e mudar a nossa já penosa realidade marcada por muita pobreza, desenvolvimento lento, fome e doenças.

Alguma literatura desenvolveu a teoria de maldição de recursos (resource curse), onde se defende a ideia de que países com ocorrência de consideráveis reservas de recursos minerais, tendem a experimentar instabilidade política, desenvolver o efeito gastador e conhecer possíveis focos isolados ou localizados de guerras e conflitos militares. Verdade ou não, o país debate-se desde 2017 com a insurgência e o conflito extremista na província nortenha de Cabo Delgado – por sinal a província que aloja as maiores quantidades de hidrocarbonetos do país. De simples casos de polícia como foram chamados na altura, a conflitos religioso, os conflitos evoluíram ao ponto de Distritos inteiros serem capturados e sitiados pelos terroristas que nunca reivindicaram nada palpável. O terrorismo periga não apenas a província de Cabo Delgado, mas também o país como um todo e a região Austral pois pela complexidade pujança demonstrada ele não respeita fronteiras.

O terceiro “G” aqui apresentado é a Guerra. Ainda que muitos preferem ignorar que estamos em estado de guerra, quando o número de mortes e de deslocados ascende o milhar ou milhares, há que encarar o conflito com outros olhos. E infelizmente, o que se vive em Cabo Delgado é uma guerra que desafia muitas lentes e muitos livros, mas mata, fere e deixa um rasto de destruição tremendo.

Por coincidência ou não o foco escolhido para se derramar o sangue de inocentes foi a província que hospeda um dos maiores se não o maior projecto de exploração de gás offshore do continente africano e do mundo – Cabo Delgado. Uma odisseia que dura quase a cinco anos e que já custou a vida a milhares de moçambicanos e vitimou outras dezenas e centenas de milhares de moçambicanos, incluindo crianças, mulheres, raparigas e idosos. Uma guerra horrível de desmembrou famílias e destroçou a unidade e cooperativismo característico da nossa sociedade. A guerra criou novas fronteiras físicas e mentais; destruiu famílias inteiras e criou mais crianças soldado para alimentar a sede fundamentalista e radical dos insurgentes.

Este conflito adia não apenas o crescimento económico e desenvolvimento do país que figura entre os mais pobres do mundo com índice de desenvolvimento humano baixíssimo e um PIB per capita aquém da média regional, continental e mundial. Mas adia o sonho de sermos mais país, mais nação e mais humanidade.

A guerra é o que nenhum moçambicano nacionalista cogitou para o país, mas parece ser a saída que os donos do mundo viram para empobrecer ainda mais um país pobre e uma oportunidade que os senhores da guerra viram para manter sua hegemonia e poderio sobre os mais desfavorecidos. A guerra é um dos “G” mais complicado e doloroso de abordar. É assunto sensível e delicado – Na verdade é até proibido falar dele para leigos como eu – ainda assim falei. E como leigo afirmo que esta guerra é apenas um lado de uma moeda sem valência para os moçambicanos, mas com grande valor e dividendos para várias contrapartes.

O quarto “G” – o Género é dos mais falados contemporaneamente e igualmente menos percebido e as vezes combatido pelos mais incautos. Urge repensar a narrativa sobre o género e falar dele não como teoria apenas, mas, como parte integrante e integral das relações sociais homem-mulher; respeitá-lo e aplicá-lo na prática.

Os discursos em torno do género são recentes em Moçambique e uma breve retrospectiva pode situar-nos nos finais dos anos 80. Porém antes dos anos 80 já se falava de forma tímida de movimentos de mulheres na política, na academia e nas organizações sociais. Expressões como “Isto é uma questão de Género!” “O Género dentro do trabalho…” “O Género e a Política…” “A construção de Género… entre outras, foram ganhando espaço nos discursos e agendas.

Ao tentar fazer este rasgo retrospectivo concluímos que os últimos 20 anos foram de lançamento e da socialização do debate sobre o género e de uma construção identitária do mesmo. Era preocupação inicial clarificar a dicotomia movimento de mulheres e movimento feminista para de seguida lutar pela inclusão do género na vida quotidiana, seja ela doméstica como institucional e desconstruir as narrativas sociais existentes. (…) Visualiza-se a mulher, com esta perspectiva, dentro dos movimentos gerais, tentando apontar para a ocupação de um segmento importante e, qualitativamente, numeroso no âmbito do Macro-social, ou seja. ‘Mulher: Participação e Representação Política’, podendo ser este o slogan deste período” (Bandeira e Oliveira, 1990, p.5).

Contemporaneamente, conseguida a sedimentação e aceitação por uma franja social e política, é chegada a hora de incluir o género na vivência social desconstruindo a base teórica que sobre ele fomos educados e ensinados a pensar. Não advogo isto por simples quesito de números ou de imposição mas por reconhecimento e valorização desta luta de décadas e por uma justiça social que respeite a diversidade e de valor as conquistas alcançadas da independência aos nossos dias.

Para terminar, o extra “G” é de gratidão por ainda poder escrever livremente e ver meus desvaneios publicados e lidos na minha pátria amada.

Albino Magaia nasceu há, precisamente, 75 anos. Foi jornalista, um dos nomes estelares do nosso jornalismo. Quis ser médico. Era o seu sonho. A mãe sonhava para o filho a vida de pastor da Igreja Presbiteriana. No entanto, ele queria ter direito à palavra. Foi esse impulso que o levou ao jornalismo. Chegaria à redacção da revista TEMPO, semanário que haveria de dirigir muitos anos depois, pela mão da sua irmã Lina, que também foi um nome ínclito na nossa imprensa. Pertenceu ao NESAM, que foi um núcleo de estudante historicamente relevante e foi prisioneiro político no tempo da PIDE.

Magaia assumiu, desde sempre, um compromisso: ser patriota. O seu espírito crítico não lhe tolhia esse entendimento. Defendeu um jornalismo patriota onde Moçambique adquiria primazia. Antes de tudo estava a Pátria. A Nação. Isso não impediu que a revolução praticasse sobre ele a sua furiosa insídia. Sobretudo no Niassa, que era uma espécie de Gulag moçambicano. Ele resistiu. Continuou a escrever e fê-lo sem acrimónia. O nosso processo ainda tem páginas que permanecem obscuras. Uma delas foi a purga dos intelectuais assumidamente engajados.

Foi poeta e ficcionista. Foi um cronista brilhante e um interventor assíduo na nossa imprensa. As suas crónicas são memoráveis. Os seus textos na revista TEMPO são exemplares. Publicou duas obras de poesia: “Assim no Tempo Derrubado”, em 1982, e, muitos anos depois, em 1999, “Trilogia do Amor”. De permeio, duas ficções narrativas: “Yô Mabalane” (1983) e “Malungate” (1987).

Pensou e escreveu sobre a informação moçambicana. “Informação em Moçambique –  Força da Palavra”, um ensaio editado em 1994. Postumamente, seria publicado o seu livro “Moçambique: raízes, identidade, unidade nacional”. Recentemente, num tributo da Fundação Fernando Leite Couto, foi dada à estampa “Duas Vidas a procura do mar e outros contos” (2019).

Magaia era um homem preocupado com o destino da informação e a sua função transversal e indispensável no devir moçambicano. Também via na memória um papel indeclinável no nosso destino colectivo e procurava preservar os seus referenciais. Sonhou biografar o escultor Chissano, mas este morreu cedo. Porfiou, posteriormente, a ideia de fazer a biografia do músico Eusébio João Tamele.

Albino Magaia era um conhecedor bastante competente da música moçambicana. Mas era também um cultor do jazz e da música clássica. Aliás, ele escrevia a ouvir Händel, Georg Friedrich Händel. Essa paixão levou-o a fechar-se em casa durante cinco horas para ouvir “O Messias”, o tempo que dura a famosa composição do músico germano-britânico. Um grande melómano este moçambicano magnânimo.

Tinha uma particular preocupação no estudo e valorização das línguas moçambicanas. Foi editor de “Zabela”, uma das primeiras obras de ficção de Bento Sitoe. Quis editar os textos de João Albasini, o fundador de “O Africano” e “O Brado Africano”. Incumbiu ao jovem Catigo Zita a tarefa de coligir os textos. Diligente, minucioso, Castigo recolheu os textos, copio-os dos jornais no Arquivo Histórico ou das microfilmagens do centro cultural português. O projectado livro emperrou na fase de composição (à época feita à chumbo) na Tempográfica.

Castigo Zita, que haveria de encontrar o infortúnio da morte, numa viagem ao Zimbabwe, em 1988, aos 27 anos, preparava-se para fazer o mesmo exercício com os textos de Estácio Dias, outra figura do nosso jornalismo, pai do escritor João Dias, autor de “Godido e outros contos”. O repto vinha do mesmo incumbente: Albino Magaia.

Devemos ainda a Albino Magaia a revelação de Isaac Zita, que morreu prematuramente aos 22 anos, autor de “Os Molwenes”. Antes dele, o poeta Fernando Couto se entusiasmara com o talentoso jovem, tendo-o publicado nas páginas do “Notícias”. A despeito, o prefácio que Magaia haveria de redigir para o livro póstumo de Isaac Zita é um dos raros documentos sobre a vida efémera e fulgurante daquele jovem escritor.

Haveria muito a dizer a favor de Albino Magaia. Sobretudo da forma como acarinhou os jovens e os encaminhou nos labirintos do jornalismo e da escrita. Como os amparou. Ou as suas iniciativas notáveis. A GAZETA da TEMPO, um dos esteios da literatura moçambicano, é uma delas. Mais tarde, enquanto secretario geral da AEMO, a publicação LUA NOVA, titulo que acena ao poema “Quenguelequêze” do precursor Rui de Noronha.

Isto diz muito da personalidade de Albino Magaia. Era generoso. Homem culto, cultíssimo. Discreteava sobre muitas e diversas matérias. Gostava de ouvir os outros. Mesmo os mais novos. Era um excelente conversador. Não se furtava a uma boa polémica, discutia ideias. Estava sempre do lado da justiça. Defendia os seus jornalistas. Era um director exemplar, preocupado e empenhado. Sabia criticar e apontar os erros dos seus profissionais. Elogiava quando gostava das peças dos seus repórteres ou redactores. Foi dos grandes editores deste país. Abominava a injustiça. Era de uma grande correcção. Um homem probo. Um homem cordial. Não tinha soberba. Era humilde. Um homem bom.

Albino Fragoso Francisco Magaia nascera a 27 de Fevereiro de 1947. Morreu a 26 de Março de 2010 aos 63 anos. Para além da sua extensa obra na imprensa, dos seus livros, deixou a sua marca, a sua postura, o seu largo riso (tinha os zigomas pronunciados e os olhos vivíssimos que lhe ampliavam o sorriso), o seu afecto e o seu exemplo. Como vivemos num país que não preza a memória e não cultiva os seus mestres praticamos sobre o seu nome um prodigalizado silêncio, o mesmo desafecto que destinamos aos melhores. Cá por mim – e faço quezília nisso –  lembro-o, aqui e sempre. Como hoje, no dia dos seus 75 anos.

 

Maputo, Domingo, 27 de Fevereiro.

 

 

A vovó Zita vive num dos bairros suburbanos da cidade de Maputo. É uma viúva de 60 anos. A idosa vive com os seus dois netinhos, o Carlitos e o Paulo, gémeos com apenas 10 anos de idade. Os meninos perderam os seus pais ainda bebés.

Após a morte misteriosa dos pais dos meninos, a vovó Zita começou um negócio. Abriu uma banquinha no quintal da sua casa para garantir sustento aos seus netos. O negócio não estava a ser fácil. O coronavírus tornou o negócio insustentável. O custo de vida dispara assustadoramente a cada ano. Está tudo difícil para a velha Zita.

O dia nasceu debaixo de um calor intenso na cidade de Maputo. A vovó Zita levou o televisor para o quintal da sua casa. Queria assistir a repetição da telenovela enquanto controlava a sua banquinha. Vê as horas no relógio pendurado na parede. São pontualmente 12 horas.

Pega no remote e liga o televisor. É surpreendida por uma tremenda chuva. Nenhum canal saía se não a chuva cinzenta. Tentou arranjar a antena, não resultou. Tirou a antena e voltou a colocar. De novo, não surtiu nenhum efeito. Ficou totalmente confusa e sem compreender o que estava a acontecer. Estava tudo estranho.

– O que poderá estar a acontecer? – Questionou-se a vovó Zita mergulhada num total desespero. – Isto não é normal. Estou aqui a bom tempo a tentar arranjar a antena, mas não está a resultar. Será que os meus netinhos, que têm tido o hábito de ficar todas madrugadas a verem a televisão, terão estragado o televisor? – Questionou-se sem encontrar alguma resposta. – Isto só pode ter a mão dos meus netinhos. Bato muito neles, mas não ouvem. Estão sempre a estragar. – Acrescentou.

A vovó Zita chamou os seus dois netos. Os meninos vieram numa corrida.

– Vovó, estamos aqui. Porque é que nos chamou? – Questionaram os meninos bem ansiosos.

– O que é que vocês fizeram com o televisor? Um de vocês estragou o televisor. Já não sai nada se não a chuva. Sempre vos digo para não ficarem até às madrugadas a verem a televisão e muito menos a disputarem o remote controle, mas vocês não ouvem. – Acusou-os. – Agora estou sem dinheiro para mandar reparar o televisor. Onde vou apanhar dinheiro? – Questionou-os.

Os meninos ficaram surpresos com aquelas acusações graves da velha Zita. O silêncio tomou conta do Carlitos e Paulo por alguns segundos. Pelo silêncio dos meninos, a vovó Zita concluiu que foram eles que estragaram o televisor. A velha fixou o seu olhar acusador nos meninos que viram-se obrigados a quebrar o silêncio.

– Vovó Zita, não foi eu quem estragou o televisor. – Respondeu Carlitos distanciando-se da acusação. – Quando fui dormir o televisor estava a funcionar. – Acrescentou.

– Então foi você Paulo. – Acusou-o a vovó Zita.

– Não, vovó. Não fui eu quem estragou o televisor. Ontem a noite não cheguei de assistir. Era a vez do Carlitos. – Desmentiu Paulo a acusação da vovó Zita.

– Eu já sabia que não iam assumir o vosso erro. Vocês nunca assumem quando estragam algo. Vamos ter que morrer de fome para que eu possa juntar dinheiro para mandar reparar o televisor. Se eu conseguir mandar arranjar, aquelas vossas brigas pelo remote não quero ver mais e muito menos quero vos ver nas madrugadas a verem a televisão. – Sentenciou ela.

A idosa trancou a porta. Pegou no seu chinelo e começou a bater neles. Os meninos choraram até ficarem com as vozes roucas. As chineladas duraram dez minutos. A velha ficou triste ao saber que não teria como ver os programas que mais gosta. Sem perder mais tempo, dirigiu-se à casa da sua vizinha para desabafar.

– Vizinha, não sabes da máxima que aconteceu lá em casa. – Disse a vovó Zita.

– Yu! Assim a vizinha está a me assustar e me deixa mais curiosa. Vai, diga logo o que aconteceu. Não aguento mais esperar. – Respondeu a vizinha Artimiza, que estava ansiosa para saber da nova.

– Os meus netinhos estragaram o meu televisor. Agora somente assistimos uma chuva que não pára de cair. Vou ter que passar a vir à sua casa todos os dias para assistir a alguns programas que adoro. Pode ser? – Questionou a vovó Zita.

– Yu! Que coincidência, vizinha. Também só estamos a assistir à chuva desde o início da tarde de hoje. Talvez esta chuva seja geral. – Disse a vizinha Artimiza.

A vovó Zita ficou surpresa ao saber que não era a única que estava a passar pelo mesmo problema. As duas velhas ficaram sem saber o que teria acontecido.

– Não acredito que isto também esteja a acontecer na sua casa. Mas vizinha, porque é que não vamos à casa da vizinha Celeste para vermos se é um problema geral ou não? – Sugeriu a velha Zita.

– É verdade vizinha. Vamos. – Concordou a velha Artimiza.

As duas velhas dirigiam-se à casa da vizinha Celeste, numa lentidão de passos forçados pela idade que já estava bem avançada. A porta de casa da velha Celeste estava aberta. De longe, as duas idosas ficaram surpresas ao verem que a televisão estava ligada e, lá não se assistia chuva como nas suas casas.

– Vizinha, bem que eu te disse que os meus netos é que estragaram o meu televisor. Veja em casa da Celeste, estão a assistir. Eles são mestres em estragar tudo em casa e depois desmentem quando são perguntados. – Gritou a vovó Zita.

– Mas vizinha, como é que se justifica que o mesmo aconteça também na minha casa? Olha que eu não tenho filhos que os possa culpar de terem estragado o televisor. Ontem deixei-o a funcionar devidamente. – Ripostou a vovó Artimiza.

A discussão entre as duas idosas ficava cada vez mais tensa. A velha Celeste, que se encontrava no interior da sua residência, ouviu-as atentamente do lado de fora. Saiu da casa. Foi ter com elas.

– Boa tarde, minhas vizinhas. Em que posso ajudar? – Questionou-as a velhota Celeste.

– Vizinha, é que nas nossas casas apenas estamos a assistir chuva ou apenas um azul. Agora vínhamos certificar se a chuva é geral ou não. Pelo que estamos a ver, só acontece em nossas casas, pois aqui na sua casa estão assistir. – Respondeu a vovó Artimiza.

– Pelos vistos vocês não sabem. Não andam informadas. Apenas usam a televisão para ver novelas. – Disse a vovó Celeste, que andava bem informada.

As duas idosas ficaram surpresas com aqueles pronunciamentos. Não percebiam o que a velha Celeste tentava dizer.

– O que é que você sabe e que nós não sabemos? – Questionou a vovó Zita.

– Deixem-me explicar. O país está num processo de transição do sistema analógico de televisão para o digital… – Explicou a vovó Celeste quando, de repente, foi interrompida de forma brusca.

– O que é essa coisa de transição do sistema analógico? Será que tem a ver com a chuva que está a sair nos nossos televisores? – Questionou a idosa Zita.

– É isso que eu estava a vos explicar quando me interrompeu. – Respondeu a vovó Celeste. – Continuando, isto significa que só assistirá a televisão quem tiver algum descodificador… – Interromperam-na mais uma vez.

– Vizinha, o que é essa coisa de descodificador? – Perguntou a vovó Artimiza, que estava a ficar cada vez mais confusa no lugar de estar esclarecida.

– Descodificadores são os aparelhos de diversos provedores que podem ser da ZAP, GO TV, TMT, STARTIMES, ou TV CABO, que vão nos permitir assistir a televisão a partir de agora. Na verdade isto já devia ter acontecido há cinco anos, todavia o nosso país atrasou. Quanto à chuva que sai nos vossos televisores é devido ao apagão do sinal analógico que começou hoje. A partir de hoje só assiste televisão quem tiver um descodificador. Há muito que o Conselho de Ministros vinha avisando sobre o apagão. Estão a ver aquela antena parabólica ali em cima da casa? – Questionou-lhes a vovó Celeste enquanto apontava para a antena.

– Sim, estamos a ver. Já agora, é essa tal coisa que se chama descodificador? – Questionou-a velha Artimiza.

– Aquilo é a antena de um descodificador. Aquela é da Go Tv. Eis a razão de eu estar a assistir aqui em casa. Mensalmente paga-se um certo valor que vai de acordo com os canais que o telespectador quer. – Explicou-lhes detalhadamente.

– Esse nosso governo não gosta de ver o seu povo feliz. Nunca pensa em nós os pobres. Onde é que havemos de conseguir o tal dinheiro para comprar essas coisas de descodificador? O negócio já não está a render muito com esta maldita pandemia que assola o país e o mundo. Esses nossos governantes querem que nós, os pobres, fiquemos sem assistir. Infelizmente é um adeus a televisão para nós. Agora, no nosso país ver televisão é apenas para os ricos. Nós estávamos bem antes disto tudo. Essa coisa de digital só trouxe exclusão digital para nós os pobres. – Desabafou a vovó Zita.

– Não é bem assim vizinha. Os que não têm dinheiro vão ter que fazer sacrifício para conseguir comprar um descodificador da TMT. Com este descodificador a pessoa pode não efectuar pagamentos mensais e apenas poderá assistir canais nacionais.

O dia já estava a anoitecer. As velhas Zita e Artimiza agradeceram a vizinha Celeste pelo esclarecimento. As duas despediram-se e regressaram às suas casas. Pelo caminho pensavam em como fazer para conseguir o valor para aquisição do dispositivo.

– Vizinha, tive uma ideia que pode nos ajudar a conseguir dinheiro para a compra dos descodificadores. – Disse a idosa Artimiza, bem animada.

– Que ideia é essa que vai nos ajudar a conseguir comprar os descodificadores? – Questionou a velha Zita. – Diga logo, pois eu já estou ansiosa para saber. Eu já tinha metido na minha cabeça que nunca mais iria ver televisão aqui na minha casa por falta de dinheiro. Por favor, diga logo. – Implorou a vovó Zita.

– A ideia é fazermos xitiki diário ou semanal e compramos um de cada vez. Nós fazemos negócios. Penso que se formos a poupar vai dar para adquirirmos. Com xitike pode ser mais rápido. Que tal a ideia, é boa? – Questionou-a.

– Sim, é boa. Podemos fazer. – Respondeu.

Minutos depois, a vovó Zita já estava em casa. Chamou os seus dois netinhos. Deram uma sentada na sala. Os meninos começaram a tremer e a ter medo. Questionavam-se sobre o que teriam aprontado desta vez e não conseguiam descobrir algo que teriam aprontado. Não viam motivos para serem chamados daquela forma.

– Já estamos aqui, vovó. Porque é que nos chamou dessa forma? O que é que aprontamos desta vez? – Questionou Carlitos.

– Meus netos, chamei-vos porque quero vos pedir desculpas. – Disse a vovó Zita, com o semblante triste.

– Desculpas? Será que ouvi bem? A vovó quer nos pedir desculpas? Desde quando a vovó pede-nos desculpas? Está muito estranho… Não devíamos ser nós a pedirmos desculpas por termos aprontado algo? – Perguntou o menino Paulo.

– É que joguei toda culpa em vocês de terem estragado o televisor de casa. Na verdade vocês não estragaram nada. O problema é geral. Fomos conferir em casa dos vizinhos… – Explicava a vovó Zita quando o Carlitos a interrompeu.

– Está a ver vovó, sempre anda a nos culpar de ter feito coisas antes de confirmar. Eu disse que não estraguei o televisor… já agora, o que é que aconteceu? – Questionou-a Carlitos.

– Dizem que é um apagão do sistema de televisão analógica… – Respondeu a velha Zita.

– Vovó, o que é isso de apagão? Quer dizer que desligaram os nossos televisores? – Questionou o menino Paulo.

– A partir de agora só vê televisão quem tiver um descodificador … Paga-se mensalmente. Temos que comprar os descodificadores. Infelizmente os dirigentes do nosso país não querem nos ver felizes. Onde é que vamos conseguir tanto dinheiro para essas coisas? Estamos entregues à sorte, meus netos. – Disse a vovó Zita em jeito de desabafo. – É por isso que vos peço desculpas. – Acrescentou.

As idosas apenas trabalham para comer. Dificilmente pensam em caprichos. As duas famílias ficaram dois meses sem ver televisão. A situação criou-lhes ódio para com os governantes.

Finalmente o dinheiro de xitiki tornou-se suficiente para se adquirir o descodificador da TMT para a primeira família. Dirigiram-se aos revendedores. Os locais andavam superlotados. Em noutros sítios os descodificadores começavam a escassear. A procura era maior. Foi necessário uma semana para que conseguissem adquirir o descodificador. Passado um mês, as idosas adquiriram o segundo descodificador. Porém não tinha sinal.

Centenas de munícipes amotinaram-se defronte da instituição que lidera o processo de migração digital no país. A agenda era única: reclamações por alguns descodificadores não transmitem sinal. Mais uma dor de cabeça instalou-se no seio da população. O director respondeu a preocupação dos munícipes. O erro de fabrico é o problema apontado pelo director. Trocou-se os descodificadores e os munícipes regressaram às suas casas. Já estava tudo controlado.

Num belo Domingo, a cidade foi assaltada pelo vento forte e chuva torrencial. O sinal da televisão apresentava falhas.

– Mil vezes se tivéssemos permanecido no tempo analógico. Não tínhamos todas essas dores de cabeça que estamos a ter hoje com esta coisa de digital. – Comentavam as idosas.

O sistema de televisão digital no qual o país está mergulhado empurrou centenas de famílias, as de baixa renda, para a dita exclusão digital. Há famílias que não sabem quando é que voltarão a ver televisão nas suas casas.

Enoque Daniel

Contador de histórias

Etdaniel21@gmail.com

“Há os que vivem nas trevas e os que vivem na luz.

É fácil ver os da luz, mas ninguém vê os das trevas.”

Bertolt Brecht

Convidado a dar o meu contributo no XVIII Curso de Literatura de Língua Portuguesa, fui ao escrínio onde estão guardados os tesouros da história da literatura moçambicana, de pouca idade, embora, mas significativa para a marcha da nossa história geral. Muita coisa lá encontrei, o que me deu, naturalmente oportunidade de opção em relação à minha tentativa de abordagem do tema proposto para este curso: <<A Pluralidade das Escritas: os Imaginários e os Discursos em Língua Portuguesa>>. Perguntei-me se não estaríamos a incorrer numa barbaridade, obliterando das nossas considerações académicas, algumas vozes que deram o corpo ao manifesto na nossa gesta literária, ao longo das distintas épocas por que passaram e contribuíram significativamente, com as suas criações para os Imaginários e os Discursos em Língua Portuguesa e para o seu desenvolvimento, no âmbito da Pluralidade das Escritas, tendo em linha de conta que esta língua é um veículo comunicacional de cerca de 300 milhões de falantes em todo o mundo (oito países: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste e comunidades esparsas pelos diversos quadrantes do nosso planeta). Todos estes falantes expressam, com a língua portuguesa, as suas vivências quotidianas, ou seja, a realidade em que cada um se vê envolvido onde quer que esteja, convergindo toda essa experiência plural para os anais da história de uma língua dinâmica tornada visível pelas múltiplas escritas dos criadores literários que a têm, tanto como sua língua nacional ou materna ou, por contingências incontornáveis, como língua oficial (tal é o caso de Moçambique).

Busquei, Rui Nogar, um dos escritores sugeridos pela organização do curso, porque achei ser esta uma soberana oportunidade de se trazer à tona um nome que muito deu de si para a literatura de língua portuguesa, particularmente, a moçambicana.

Acredito que poucos aqui presentes, por conta da sua maturidade, sabem substancialmente quem é ou foi Rui Nogar. Mas acredito, também, que muitos, porque muito jovens ainda e o material sobre este poeta é exíguo, sabem apenas que ele é  um poeta moçambicano e nada mais. As razões são várias, intermináveis e plausíveis, emergindo com mais destaque o facto de este poeta não ter merecido, ainda, um estudo académico sistematizado e exaustivo da sua obra. Muito pouco existe escrito sobre Rui Nogar e a sua obra poética, o que, em medida grande empobrece o nosso panorama literário, porquanto ele faz parte da galeria histórica da nossa literatura, pela sua dedicação, pela sua entrega à causa literária moçambicana desde tenra idade.

Rui Nogar, pseudónimo de Francisco Rui Moniz Barreto, filho de pais goeses, tornou-se Rui Nogar ainda nos anos 50, tendo-se iniciado como poeta, na Lourenço Marques colonial, nos jornais Itinerário e Brado Africano.

Itinerário foi uma publicação mensal de letras, artes, ciência e crítica que existiu em Lourenço Marques, entre os anos 1941 e 1955. Tendo, o seu primeiro número, sido publicado a 7 de Fevereiro de 1941 e o último, o nº 149, em Outubro de 1955; O Brado Africano foi um semanário, propriedade do Grémio Africano de Lourenço Marques, fundado pelos irmãos João e José Albasini, em 1918, na sequência da venda de O Africano, por razões de carácter financeiro. O seu primeiro número foi publicado a 24 de Dezembro de 1918 e, em 1932 foi suspenso por sentença do Tribunal da Relação e retoma em 1933, sob a designação de Clamor Africano, indo até 1974, ano de publicação do seu último número.

Nogar poderá ser, eventualmente, uma daquelas relíquias poéticas nacionais esquecidas no fundo do nosso baú literário! Tanto somos levados a pensar assim, porquanto ele não é muito conhecido, na actualidade, não obstante ter sido muito marcante no seu tempo, não só como um lutador pela causa literária, mas também, pela abnegação em relação a todo um processo que levou Moçambique à sua libertação do jugo colonial português. Aliás, a literatura só veio subsidiar a sua dinâmica vida política. Ele soube pôr cada actividade em seu devido compartimento quando assim convinha que fosse, mas, também, sabia fazer as misturas necessárias, com dosagens bem equilibradas, quando o seu estro se guindava para o exercício literário e a sua audácia apontava para a defesa dos interesses nacionais e essas duas virtudes eram simultaneamente despertas e chamadas à luz do dia.

Poeta libertador da Pátria, porque um dos arautos da gesta libertadora, mesmo que na clandestinidade; poeta defensor da Pátria, porque um dos seus mais destacados guardiões, quando ameaçada, ainda acabada de nascer, pelas legiões da reacção; poeta promotor da ascensão da juventude ao Parnaso moçambicano, quando, por mérito próprio fora escolhido pelos seus companheiros para os representar como timoneiro da casa dos escritores do nosso país, corria o ano de 1982, ano da criação da Associação dos Escritores Moçambicanos, onde foi o primeiro Secretário Geral. Portanto, Rui Nogar foi um poeta na escrita e na acção. Foi poeta do protesto, da ruptura e da liberdade, porém, parafraseando o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht:

“Há os que vivem nas trevas/ e os que vivem na luz./ É fácil ver os da luz,/ Mas ninguém vê os das trevas.”

Pois, Rui Nogar, até hoje está esquecido dos estudiosos que lhe deveriam prestar a devida homenagem, estudando e sistematizando a sua obra e, enfim, divulgando-a às novas gerações para que conheçam com profundidade, os contornos da vida e da obra de um dos obreiros da moçambicanidade através da literatura. É necessário que os mais novos saibam donde viemos, conhecendo os feitos dos nossos escritores do protesto anti-colonial, da ruptura e da liberdade.

Com um único livro publicado, em 1982, no género poético, <<Silêncio Escancarado>>, Rui Nogar faz, com este retumbante título, uma ode à Independência de Moçambique, tornando o acto operado pelo valoroso povo moçambicano que lutara até se libertar do jugo colonial português, o desselar de um silêncio secular. No poema  com o título: “Subsídios para a Heresia Total”, elaborado em três momentos temporalmente distantes, o primeiro (Do guerrilheiro Prometeu), o segundo (Da Última ceia), ambos escritos na Cadeia Central da Machava em 1966 e o terceiro (Confissão), escrito um ano depois da independência (em 1976), ele exprime neste último momento, o fim do silêncio, dizendo que sente dentro de si um espaço liberto dos conceitos existenciais antigos condicionados à moral presa aos preceitos religiosos através dos quais se manietavam as suas vontades reais. citação:

“descobri em mim/ subitamente/ um novo espaço disponível/ mesmo no sítio, onde estaria talvez/ (todos assim m’o diziam)/ uma alma me habitando/ nem eu sei porquê/ nem para quê…” fim de citação.

A nova realidade do país traz como que uma lufada de ar fresco, a memória da infância em que retrovê as freiras a catequizá-lo e a sua mãe rezando desmedidamente com velas acesas em castiçais nas noites de trovoada. Foi tudo uma liturgia da mentira, pois, segundo ele nota, isso lhe ocupava o espaço que hoje se acha disponível. Citação:

“apesar das freiras/ da minha infância/ latindo ainda ladainhas/ nas catacumbas da memória/ apesar/ dos castiçais da minha mãe/ orações febris velas acesas/ nas tensas noites de trovoada// apesar de tudo/ assim que descobri/ a liturgia da mentira/ a verdade é que fiquei/ com muito mais espaço/ muito mais/ para respirar/ e o amor pelos outros/ que cabia apenas no coração// ah agora sim/ sou todo todo/ pela revolução// pela reforma agrária/ das almas todas/ que ainda se possam reinventar”. Fim de citação.

No seu livro, Nogar traz-nos reminiscências do passado colonial, não com o fito de nos fazer revivê-las, nem tão pouco como o tição de algum sentimento de vingança, mas como uma forma de fazermos uma leitura que nos leve a ganhar forças para enfrentar um presente ainda calcetado de escombro, em busca de um futuro risonho para a sociedade moçambicana. É uma forma de esperança renascida à força do conhecimento das vicissitudes de ontem. Como se a Fénix ressurgindo das suas próprias cinzas. É uma forma de se enfrentar com verticalidade o presente, com um projecto seguro para o futuro.

Nogar fora preso em 1965, e enviado à cadeia civil, altura em que, na prisão, juntamente com José Craveirinha, Luís Bernardo Honwana e Malangatana Valente Ngwenya viu gente a ser morta através de injecções com ar que provocavam embolia. Nesse tempo o verso era o meio de comunicação privilegiado, porque subtil entre si, transportado nas sapatilhas, nas palmilhas e nas panelas vazias. Alguns serventes eram cúmplices, fazendo que do lixo se resgatassem mensagens que circulavam. Os poemas e os desenhos eram escondidos debaixo do colchão, razão porque ninguém sossegava, com medo da transferência.

O facto de a maioria dos poemas do seu livro <<Silêncio Escancarado>> transmitir a sua experiência nas masmorras da PIDE, não serve de apelo à exacerbação de sentimentos vingativos, antes pelo contrário, trata-se de um apelo de quem sofreu na carne as vicissitudes coloniais para que desse passado, como se crisálidas, nos transformemos em borboletas que volitam e vão de poiso em poiso sem sermos vulgares, procurando a liberdade nas praças da nação.

Veja-se a trajectória de uma borboleta no traço que é, em si, a marca dessa esperança, no poema “Nova Dimensão”, de 1965, do livro <<Silêncio Escancarado>>. Citação:

“esta borboleta/ que volitando vai/ de cama em cama/ grade a grade/ de não-penses-mais/ a um-dia-hás-de-sair/ não é uma borboleta vulgar// é sim uma borboleta/ borboleta ainda/ que um homem nesta prisão/ jurou libertar um dia/ do ciclo deste poema/ nas praças desta nação// é sim uma borboleta/ borboleta ainda/ que ele aprendeu a amar/ em cada nova tentativa/ de profundas metamorfoses// é sim uma borboleta/borboleta ainda/borboleta política/ casulada seis meses/ na cela número três/ da penitenciária industrial/ da colónia de Moçambique.”. Fim de citação

Rui Nogar transmite-nos através dos seus poemas anteriores à Independência de Moçambique, as suas emoções de sonhar uma pátria Moçambicana (“O sonho é necessário. O homem que não é o homem que atingiu uma aridez que o desumaniza”), a realidade presente no espaço e no tempo de uma pátria moçambicana ocupada e o devir de uma liberdade assente nas tarefas da construção que se haveriam de impor, pois a Nação estava sendo dilacerada pela guerra, pelos impasses económicos, a fome e outras insuficiências vitais que não lhe davam o luxo de parar na política para escrever ou organizar os seus arquivos poéticos. Nogar era um poeta desprovido de tempo para a literatura, muito ligado aos compromissos políticos, mas sempre sonhando.

Nogar foi militante da FRELIMO desde 1964, ano do início da Luta Armada de Libertação de Moçambique, sina que lhe valeu a erosão da luta pala independência, dos maus tratos na cela da prisão onde esteve encarcerado, da construção de uma Nação, dos impasses da realidade pós-independência. De várias formas houve tentativas de lhe destruírem o seu sonho de homem, de escritor, de cidadão moçambicano.

Declamador por excelência, desde os anos 60 até às vésperas da independência, era um representante da corrente subterrânea, aquela que <<através de um discurso de resistência em que se suprime o eu-poeta, passa  “o mundo sócio-cultural invisível de Moçambique colonial”>>, de acordo com Russell G. Hamilton. Ainda, segundo este estudioso, aquele “era o testemunho do clima difícil em que os produtores de uma literatura clandestina militavam.”. Assim, a poesia de Rui Nogar encontrava enquadramento no movimento de desintegração do discurso reivindicatório convencional.  o estilo poético de Nogar operava a reintegração da oralidade africana e da oratória neolatina.

Portanto, a poesia protestatária e panfletária de Nogar e de seus contemporâneos deixava vislumbrar aquilo que um dia poderia ser a raiz de uma literatura moçambicana. Era uma poesia inspirada na realidade social, a chamada poesia engajada, que se associava à realidade quotidiana de um povo, impregnada de magicidade. Aqui podemos ter como exemplo eloquente o poema XICUEMBO, onde estão evidentes os aspectos acabados de referir, tais, como: a reintegração da oralidade africana, a oratória neolatina, a realidade quotidiana de um povo e a magicidade.

Contudo, pesem embora, algumas opiniões críticas, Rui Nogar não pode nem por lapso ser ajuizado com a bitola do espartilho do que se tem rotulado poesia panfletária porque este poeta, no dizer de Cremilda de Araújo Medina, no livro “Sonha Mamana África”” (1987):

“compreende a nova geração que quer afirmar o poema de amor junto ao poema-arma. Sua sensibilidade poética extravasa os limites de um programa político. Este o cumpre na militância do dia-a-dia. Aquela espelha-se pelos delírios da noite. As raízes da loucura contida percorrem muitos caminhos.”

No tempo da juventude do poeta, Moçambique era historicamente lugar privilegiado de degredo, portanto, destino de exilados políticos, opositores ao regime político vigente em Portugal, o que valeu a Rui Nogar a sorte de ter uma professora que lhe ensinou as dimensões da injustiça e da revolta para lhe opor e ensinou-lhe os fundamentos do sentimento de respeito humano que tiveram depois a sua continuidade no liceu, nas disciplinas de história e filosofia, igualmente com professores exilados políticos portugueses.

A par dos estudos, Rui Nogar não só apreciava o futebol como o praticava nos caminhos da periferia da cidade de Lourenço Marques. A sua fibra poética teve influências bebidas de boas leituras acumuladas em biblioteca e, sobretudo, da dignidade ímpar do pai, um ferroviário que gozava de muitas simpatias por parte das pessoas com quem a família se relacionava. Também foram influências literárias de Nogar o Neo-realismo português; os grandes nomes da literatura Russa, destacando Máximo Gorki; os brasileiros Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e outros.

Depois da proclamação da independência em 1975 até os dias que correm, Rui Nogar foi, desde 1982 até 1987, Secretárioo-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), sendo o primeiro, de entre os escritores moçambicanos a assumir aquele cargo. Gostaríamos de deixar bem saliente que naquele período foi um grande impulsionador da literatura moçambicana, um verdadeiro lapidador de jovens talentosos que desde a fundação da AEMO calcorrearam o espaço físico da agremiação, realizaram, animados por Nogar, intensa actividade literária e muitos deles são o ponto referencial da literatura moçambicana, pós-independência, portanto, actual. Alguns, talvez os mais significativos, de entre os quais orgulhamo-nos de fazer parte, criaram a revista Charrua. Estes são, inegavelmente, frutos da visão sábia e vidente, futurista, como se quiser apelidar e pragmática de Rui Nogar, como Secretário-Geral da AEMO que, fazendo das tripas coração, enfrentou colegas seus, completamente cépticos quanto à valia que os jovens que ele protegia, pudessem trazer à Literatura Moçambicana. De uma biografia sua, publicada em 1987, há sensivelmente 19 anos, portanto, no mesmo livro Sonha Mamana África, de Cremilda de Araújo Medina, sob o título: Auto-retrato, extraímos a seguinte passagem: “Na época que ainda habita esta terra…, Nogar curte um carinho especial, uma compreensão paterna: diante da energia e da rebeldia das novas gerações moçambicanas, ele se emociona e as ampara.. o que acontece com o grupo Charrua e a revista que produzem os jovens escritores, às voltas com inúmeras dificuldades. Qualquer livro futuro de Rui Nogar estará na fila de espera para ser impresso e, certamente, autores de 20 a 30 anos passarão na frete.”

Outra eminente estudiosa da literatura moçambicana, a Professora Dra. Fátima Mendoça, dizia, em relação à época em referência, no seu livro “Literatura Moçambicana – a história e as escritas” (1988): “São várias vozes em vários tons. É um tempo rico, mas de espera, tempo de gestação e amadurecimento. Tempo que mostra que afinal em Moçambique… a Literatura está viva. Porque a nação também.”.

À propósito da sua tendência protectora de jovens escritores, de que tinha plena consciência, Rui Nogar afirmou numa entrevista que lhe fora feita por Patrick Chabal, em 1994, o seguinte: “Eu acho que uma das minhas características é ser mais provocador de vocações do que ser eu próprio vocacionado. E eu orgulho-me disso. Prefiro provocar os outros do que ser eu próprio.”.

Rui Nogar surge, como poeta, nos anos 50, como um lastro da poesia

que irrompe com o pós-guerra “Com as ressonâncias das primeiras explosões nacionalistas de que o V Congresso Panafricano é um claro indício que determina a emergência de uma nova geração de escritores moçambicanos”. Pois, são iniciáticos dessa nova era, Noémia de Sousa (Vera Micaia), Orlando Mendes e Fonseca Amaral, José Craveirinha e Marcelino dos Santos (Kalungano), cujo empenho se repercutirá, mais tarde, em Rui Nogar, Sérgio Vieira e Outros.

Nasce a 2 de Fevereiro de 1932 em Lourenço Marques e Morre, com 62 anos de idade, vítima de doença, em 1994, em Lisboa (Portugal).

 

Bibliografia:

 

CHABAL, Patrick. 1994. Vozes Moçambicanas – Literatura e Nacionalidade. AssírioBacelar. águeda

 

FERREIRA, Manuel. 1985. No Reino de Caliban III. Plátano Editora. Lisboa.

 

MEDINA, Cremilda de Araújo. 1987. Sonha Mamana África. Edições Epopeia. São Paulo

 

NOGAR, Rui. 1982. Silêncio Escancarado. Edições 70. Lisboa

 

PROLER. Maio de 2002. O Poeta, O Homem, A Obra – 80 Anos (Craveirinha). FBLP. Maputo

 

*in: (Arresto de Vozes – ou o cúmulo discursivo literário Vol. I) de Juvenal Bucuane

 

 

O Rui Nogar faz hoje 90 anos! É um dos nossos grandes poetas. Homem apaixonado por causas sociais, pelos homens do seu tempo e pela condição humana. Um extraordinário poeta. Um ser humano de excepção. Autor escasso e, no entanto, fundamental. Não só o seu “Silêncio Escancarado” (magnum opus), que deveria um dos nossos breviários. Ou “Nove Hora”, esse poema arrebatador, que o Mutumbela Gogo encenou.

A sua poesia, como queria Gabriel Celaya, é uma arma carregada de futuro. As suas metáforas, as suas imagens, o seu poder e a sua excelência de exegeta. Um grande tribuno. Um belíssimo declamador. Um amigo e um camarada de ofício. Um homem bom. Disse-me ele numa entrevista: “Não me interessa que seja ou não considerado poeta. O que me interessa é que eu seja considerado homem que se preocupa com os outros homens da sua época”.

O Rui é, no entanto, um dos mais deslembrados. Moçambique, sublinhe-se, cultiva a arte do esquecimento. Diverge dos seus melhores. Há, entre nós e sobre nós, uma ideia maniqueísta da história e da memória. O país não se revê nos seus poetas. A cultura é um parente pobre. Não passa da sua condição de apêndice. É elevada para os momentos de celebração. Quando nos queremos ufanos. Sobretudo nos comícios.

Este é um ano pródigo para a literatura moçambicana: celebramos os 100 anos de José Craveirinha; os 90 anos de Rui Nogar e de Rui Knopfli. Luís Bernardo Honwana fará, em Novembro, 80 anos de vida.  O Albino Magaia faria, este mês, 75 anos. O Gulamo Khan, nascido em Março e morto em Mbuzini, faria 70 anos. E se quisermos um escritor mais próximo, da minha geração, há o Suleiman Cassamo, que faz 60 anos em Novembro.

Isto poderia ser um bom pretexto para lembrar que o Estado tem obrigações e função indeclinável numa política activa do livro e da leitura. As obras de autores como Rui Nogar deveriam ser adquiridas obrigatoriamente pelo Estado e distribuídas por bibliotecas escolares e públicas, como a Biblioteca Nacional, ou as provinciais, distritais e municipais, ou ainda pelas casas da cultura e outras associações e organizações culturais sem fins lucrativos. Uma sociedade não se constrói sem cultura e não há sociedades sãs sem cidadãos livres, cultivados e esclarecidos, política, social e culturalmente.

Ler estes autores, celebrar estes escritores, festejar suas vidas e conhecer as suas obras é uma obrigação de cidadania. Hoje celebro Rui Nogar, que nasceu a 2 de Fevereiro de 1932 e morreu a 11 de Março de 1993, aos 61 naos. Foi o primeiro secretário-geral da AEMO e acolheu, amparou e albergou aquela que seria a mais importante geração de escritores logo a seguir à independência – a geração da “Charrua”. Foi muito mais do que isso. Um homem da sua época e de todas as épocas. Militante na clandestinidade, companheiro de prisão de José Craveirinha, Luís Bernardo Honwana e Malangatana Valente Ngwenya. Um combatente pela liberdade. Um intrépido combatente pela nossa liberdade. Para mim, continua vivo. Faz hoje 90 anos!

Viva Rui Nogar!

Patrício Langa[1] & Jorge Ferrão[2]

(Parte  II e Conclusão)

A decisão pelo estabelecimento do ensino superior, nas colónias Portuguesas de Angola e Moçambique, foi, por um lado, tomada com muita hesitação e sob pressão interna dos colonos nessas províncias do ultramar colonial, e, por outro lado, externa, particularmente, pelas Nações Unidas, devido ao intensificar dos movimentos reivindicativos das independências dos povos Africanos que já tinham na independência do Gana em 1957, sob liderança do carismático Kwame Nkrumah, uma fonte de inspiração.

O ano de 1960 e subsequentes viram mais de 13 colonias Africanas a ascenderem a independência. O ambiente interno, na colónia, como o externo, não era favorável ao status quo. Assim, o regime foi forçado a adoptar medidas de reforma do Estado, incluindo no sector da educação.  No seu âmago, as reformas não visavam alterar o carácter colonial do regime, mas mistifica-lo ideologicamente com um rosto mais humanista, particularmente em relação ao tratamento oferecido às populações nativas não brancas.

As ideias do luso-tropicalismo, isto é, da celebração da miscigenação racial e cultural atribuída pelo Antropólogo Brasileiro, Gilberto Freyre, ao carácter idiossincrático do colonialismo Português, foram inicialmente rejeitadas por Portugal, nos anos 30 e 40 do Estado Novo. No entanto, o luso-tropicalismo passou a ser ideologia do Estado colonial implementada nos anos 60, particularmente, através de reformas propostas por Adriano Moreira, ministro Português do ultramar, como forma de mitigar a crescente contestação ao regime colonial fascista e ao status quo.

A pergunta fundamental sobre o estatuto e o papel do ensino superior na sociedade mostra-se aqui relevante. Numa altura em que Portugal ainda sonhava e agia para a manutenção do status quo, é legitimo questionarmo-nos sobre para que projecto de sociedade a nova universidade estava a ser criada? Que função social a nova universidade iria cumprir? Seria a nova universidade o laboratório, por excelência, do experimento luso-tropicalista, no contexto das colonias africanas? A quem, então, o regime Salazarista iria confiar a gestão das novas instituições de ensino superior em Angola e Moçambique, sabendo do potencial que as universidades podiam representar para o despertar da consciência nacionalista e da necessidade de transformação profunda da sociedade? Parte das respostas à estas questões encontram-se nas lideranças que Portugal identificou para conduzir os desígnios das novas universidades em Angola e Moçambique.

Os Primeiros Reitores da EGUM e ULM 1962-1970/6

José Veiga Simão (JVS) foi o primeiro de três reitores coloniais, e aquele que mais tempo permaneceu no posto, quase oito anos, entre 21 Agosto 1962 e 15 de Janeiro de 1970. A sua saída da reitoria foi por via de uma promoção  à Ministro da Educação Nacional. Simão foi um exímio equilibrista entre a academia e a política, granjeado simpatia em ambos os campus. Nascido em Portugal, em 1929, veio a falecer em Lisboa em 2014. Cedo formou-se em ciências físico-químicas na Universidade de Coimbra (UC), em 1951, com uma licenciatura e, depois, seguiu para o doutoramento em física nuclear na prestigiada Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

De reitor da Universidade de Lourenço Marques (ULM), passou ao cargo de Ministro da Educação Nacional até a altura da Revolução dos Cravos que destronou o regime fascista em Portugal. Entre 1974 e 1975, foi embaixador de Portugal nas Nações Unidas e, mais tarde (1983-1985), deputado da Assembleia da República Portuguesa pelo Partido Socialista. Recebeu vários Doutoramentos Honoris Causa, incluindo um pela actual Universidade Eduardo Mondlane (UEM) que, quanto a nós, só pode ter sido resultado da amnesia histórica dos proponentes em relação ao papel de Simão na perpetuação mistificada e demagógica do status quo do regime fascista e colonial.

Os cerca de oito anos do mandato de Simão, definiram o carácter colonial da ULM, mas sempre envolto num discurso demagógico reformista. Simão foi sucedido em 1970 e, ao que tudo indica, por seu delfim escolhido a dedo, Vitor Pereira Crespo (1932-2014), cujo reitorado foi apenas de dois anos, até Janeiro de 1972. Crespo viria, mais uma vez, a tomar o lugar de Simão, desta vez, como Ministro da Educação Nacional.

Tal como Simão, Crespo tinha formação de base em ciências físico-químicas, tendo feito o doutoramento em Química na Universidade de Berkeley, Califórnia em 1962.  Para além da gestão universitária, onde foi Director Geral do Ensino Superior no Ministério de Educação Nacional (1972-1973) e, posteriormente, Ministro, Crespo, foi deputado e Presidente da Assembleia da República (1987-1991), pelo Partido Social Democrata (PSD).

Entre Janeiro de 1972 e 25 de Abril de 1974, altura do golpe de estado em Portugal, que colocou fim ao regime fascista de Salazar, José Alberto da Gama Fernandes de Carvalho assumiu o leme da ULM. O derradeiro reitor da ULM foi o terceiro de nome José, desta vez, José Marques Correia Neves entre 25 de Abril de 1974 e Janeiro de 1976. Geólogo de formação rumou para o Brasil onde fez carreira na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), após abandonar Moçambique com o advento da independência.

Neves assistiu a génese da EGUM e a sua elevação ao estatuto de universidade em 1968, passando a designar-se ULM. A confiança do leme de uma instituição de ensino superior nova na colónia, num contexto volátil, de crescente contestação ao regime fascista de Salazar, tinha que recair sob figuras que inspirassem alguma tranquilidade ao regime. Com efeito, o pecado original da submissão dos reitores das IES públicas, mesmo quando a retórica sugere o contrário, tem origens coloniais, com a tentativa de mistificação da inclusão social e democrática.

Cada reitor tornou-se e manteve-se em função da habilidade de servir ao regime e a liderança política. Apenas em sistemas democráticos, nos quais a governação universitária se emancipou das pressões políticas hodiernas, como nos Estados Unidos da América e na Europa, vemos lideres de IES públicas sucederem-se sem um lobby directo com o regime político do dia.

O presidente dos EUA, seja este republicano ou democrata, exerce quase nenhuma influência na nomeação ou demissão de reitores das universidades americanas. Com isto não queremos sugerir que o acto de nomeação seja meramente académico e não político. O Estado vê na autonomia efectiva do sistema universitário uma das condições da sua própria existência e credibilidade. Não quer isto significar que as políticas públicas do sector e a gestão das instituições, particularmente as públicas, não estejam sujeitas ao beneplácito das autoridades do Governo. Todavia, no caso da ULM, a nomeação do reitor tinha a mão directa do Ministro do Ultramar e do Governador da Província, sendo o reitor membro do Governo colonial.

A Universidade de Coimbra (UC) granjeava respeito ao nível da Europa como um centro de conhecimento com alguma autonomia académica e intelectual.  Era na universidade de Coimbra e na Universidade Técnica de Lisboa (UTL) que o governo recorria para buscar quadros para gestão e implementação das suas políticas coloniais, incluindo as relativas ao ensino superior. Entretanto, era também para a universidade aonde se refugiavam os desavindos, por alguma razão, com as políticas do status quo.

Marcelo Caetano, por exemplo, considerado um dos políticos reformistas do regime fascista e colonial de Salazar, fracassadas as tentativas de convencer o regime a ser mais condescendente, dialogante e menos beligerante no assunto da independência das colónias, após fracassada a tentativa de convencer Eduardo Chivambo Mondlane a integrar o governo de Salazar, retomou a sua cátedra na universidade de Coimbra. Portanto, a universidade de Coimbra teve sempre uma relação ambivalente com o regime fornecendo os quadros para a manutenção do mesmo, mas também servindo de refúgio da actividade política directa.

O regime colonial procurou encontrar quadros e intelectuais, com habilidade de mistificar a continuidade da Portugalidade nas colónias, projectando um discurso de inclusão e alargamento das oportunidades educativas para os colonos e para os nativos, desde que assimilados a cultura Portuguesa.

A universidade criada e gerida em Moçambique pelos seus primeiros quatro reitores era uma universidade branca na sua composição demográfica e colonial na sua ideologia. Portugal, sob pressão das Nações Unidas e dos seus aliados, particularmente os Estados Unidos da América, insistia na integridade territorial e política entre a metrópole e os territórios do ultramar. Os documentos oficiais insistiam na ideologia de construção de uma sociedade multirracial, e pluricultural. Este discurso, no entanto, também era articulado pelas lideranças da ULM, mas não correspondia a realidade, como iremos abordar mais adiante ao falar da composição do corpo discente, docente e técnico administrativo.

O Currículo colonial

Um ano após da criação da EGUM, através do Decreto-Lei 45180, de 5 de Agosto de 1963, os “Ministérios do Ultramar e da Educação Nacional – Direcção-Geral do Ensino Superior e das Belas-Artes” promulgam o regime de funcionamento da nova IES. O artigo 8 do decreto indicava os cursos a serem ministrados, nomeadamente: a) Curso de Ciências Pedagógicas; b) Curso Médico-Cirúrgico; c) Curso de Engenharia Civil; d) Curso de Engenharia de Minas; e) Curso de Engenharia Mecânica; f) Curso de Engenharia Electrotécnica; g) Curso de Engenharia Químico-Industrial; h) Curso Superior de Agronomia; i) Curso Superior de Silvicultura; j) Curso de Medicina Veterinária. Os cursos de medicina e de veterinária teriam uma parte leccionada na colónia e uma outra parte na metrópole.

Com excepção das ciências pedagógicas, que visavam formar professores, nenhum curso visava formar pensadores críticos. Ironicamente, os cursos promovidos pelo regime colonial, na altura, actualmente são misticamente designados na sigla inglesa – STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) – e promovidos pelo governo como prioritários para o desenvolvimento do país. Como se pode depreender pelos cursos aprovados, a universidade teria mais um carácter politécnico que propriamente universitário.

A universidade não foi criada para ser um lugar para promoção do pensamento crítico, típico de uma sociedade aberta e democrática. A universidade colonial era um instrumento, um veiculo operativo para massagear e mistificar a continuidade de uma sociedade colonial cuja distribuição de oportunidades (incluindo as educacionais) era em função da origem social. O currículo e as áreas de estudo permitidas resumiam-se a aqueles que, na percepção do regime, permitiriam formar quadros úteis para o projecto colonial.

O Corpo Discente, Docente e Técnico Administrativo

O corpo discente da EGUM e, mais tarde, da ULM era, fundamentalmente, constituído por estudantes brancos. Imagens fotográficas de antigos estudantes e membros da Associação Académica de Moçambique são bastante ilustrativas do tipo de composição demográfica da universidade colonial.  Se o corpo discente era quase que na generalidade branco, não se podia esperar diferente do corpo docente e do Corpo Técnico e Administrativo (CTA).

A nossa hipótese de trabalho para dar conta da ausência de uma população (negra) nativa na nova universidade segue a linha de pensamento do politólogo Ugandês Mahmood Mamdani sobre a constituição de minorias pelos Estados coloniais. Com efeito, segundo Mamdani, o projecto colonial e imperial tinha um substrato ideológico de uma missão civilizadora. Dois mecanismos principais permitiam o processo civilizatório pelo Estado colonial, por um lado, a introdução de um quadro regulatório (leis do Estado) e códigos de conduta sobre como ser cidadão civilizado (neste caso Português) e, por outro lado, um sistema educacional de matriz colonial para educar os membros da sociedade.

Através destes processos, igualmente, descritos por Eduardo Mondlane, em Lutar por Moçambique, cria-se uma minoria de cidadãos colonos e nativos assimilados educados e civilizados no padrão cultural colonial. Estes nativos assimilados, como diria Franz Fanon, de Peles Negras e Máscaras Brancas, que julgam pensar, agir e sentir como o próprio colono branco, servem de intermediários entre a metrópole e a colónia, na administração da colónia. A universidade serve assim de instrumento de reprodução da estrutura e estatuificação social da sociedade colonial.

A educação rudimentar para os nativos e todo um conjunto de barreiras educacionais fez com que, até finais da década de 1960, apenas uma porção insignificante de negros tivesse frequentado o ensino liceal ou técnico de modo a que reunisse os requisitos mínimos necessários para estarem aptos ao ingresso no ensino superior.  Com efeito, o ingresso ao ensino superior era baseado em exames de aptidão feitos na universidade de Coimbra.

Portugal não tinha como, do nada, inventar negros qualificados para frequentar o ensino universitário, pois muitos destes eram, por desígnio do sistema, eliminados pela estratificação do próprio sistema educacional para brancos, assimilados e nativos que durante décadas criou barreiras para impedir a educação dos nativos. É, em parte, por estas razões, que apesar de uma retórica para reforma do sistema educacional, a nova universidade nasce e continua, fundamentalmente, branca e colonial até ao êxodo massivo dos colonos com o advento da independência em 1975. Os brancos e os poucos negros assimilados que decidiram permanecer no país após a independência, tornaram-se a elite académica e intelectual da universidade e do país com a missão de construir uma nova universidade para a servir ao desenvolvimento do país independente.

Conclusão

O primeiro decenário do ensino superior em Moçambique (1962-1972/5) foi da instalação sob pressão da primeira instituição de ensino superior, fundamentalmente, com o intuito de amainar a crescente contestação interna (dos colonos progressistas), dos nativos (independentistas) e a pressão externa das Nações Unidas e dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em particular, os Estados Unidos da América (EUA) sob o regime fascista e o Estado Novo de Salazar.

As sucessivas lideranças da ULM cumpriram o papel de assegurar o trabalho da mistificação ideológica, através de um discurso de integração dos territórios do ultramar com a visão de uma Portugalidade como nação multirracial e pluricultural. No entanto, na prática, esta retórica não se reflectia na composição demográfica do corpo docente, discente e técnico administrativo da ULM, até 1976, um ano após a proclamação da independência de Moçambique por via de insurreição armada.

O currículo e as áreas de estudo da ULM eram estabelecidos por dispositivos normativos (decreto-lei, portarias), controlados pelas autoridades coloniais, a partir da metrópole. Com forte inclinação para cursos das ciências naturais e tecnológicas, a ideia da formação superior era a de preparar quadros para administração colonial dos territórios do ultramar e não para formar uma possível intelligentsia subversiva, dai a total ausência de cursos nas áreas das ciências sociais e humanas.

Com o acelerar da Guerra colonial, e o advento da Revolução dos Cravos, que colocou término ao regime fascista de António Salazar, a gestão da ULM foi praticamente de crise e transição. José Veigas Simão foi praticamente o único reitor que fez quase dois mandados de 4 anos entre 1962 e 1970, quando foi promovido a Ministro da Educação Nacional. Os sucessivos reitores tiveram reitorados relativamente curtos de cerca de dois anos, sendo Vitor Pereira Crespo (1970-1972), José Alberto da Gama Fernandes de Carvalho (1972-1974) e José Marques Correia Neves (1974-1976).

Todos reitores coloniais estavam, de uma ou de outra forma, relacionados a figura de JVS e, provavelmente, tenham sido por este sugeridos como seus sucessores. Quase todos tinham alguma relação de afiliação com a Universidade de Coimbra ou com a comissão Técnica de criação da ULM, cujos quadros também provinham da Universidade Técnica de Lisboa.

Em suma, a universidade colonial em Moçambique representou o início titubeante do ensino superior, mas, acima de tudo, também representou um esforço das autoridades coloniais de manutenção ideológica do status quo. A independência de Moçambique do colonialismo Português, em Junho de 1975, veio encerrar o primeiro decénio e abrir espaço para uma nova realidade do ensino superior que iremos abordar no período de 1972/5- a 1982. (X)

[1] Correspondência: patricio.langa@gmail.com (Professor de Sociologia do Ensino Superior)

[2] Reitor da Universidade Pedagógica de Maputo

Dizem que a única constante é a mudança, e o panorama de episódios de fraude prova-o quase todos os dias. O jogo do gato e do rato entre criminosos e bancos é algo recorrente.

As equipas de Risco e Fraude fazem um esforço contínuo no sentido de adaptar as tecnologias de prevenção à fraude e, em pouco tempo, os autores das fraudes desenvolvem formas mais arrojadas de as contornar e levar a cabo os seus esquemas. A fraude está cada vez mais direcionada e orientada para o contexto digital.

Sendo o continente africano um dos mais afectados esta é, sem dúvida, uma preocupação global crescente.

Segundo o Inquérito Global Economic Crime and Fraud Survey (edição de 2020) conduzido pela Price waterhouse Coopers (PwC), no qual foram inquiridos cerca de 5.000 líderes empresariais de 99 países diferentes, uma em cada duas empresas (47%) viu-se exposta a eventos fraudulentos e a episódios de crime financeiro nos últimos dois anos. Trata-se do segundo maior pico dos últimos 20 anos – tendo o mais grave ocorrido em 2018, quando 49% dos inquiridos reportou a mesma ocorrência.

O estudo demonstra, ainda, que a criminalidade financeira tende a tornar-se cada vez mais generalizada, com os crimes cibernéticos e a fraude consideradas as duas formas mais destrutivas e perturbadoras de criminalidade financeira, a nível mundial.

Em 2020, 35% dos inquiridos afirmou ter presenciado um aumento dos casos de fraude reportada por clientes, o que representa um aumento de 6 pontos percentuais (contra 29% em 2018).

Actualmente, um dos maiores riscos enfrentado pelos consumidores é a fraude conhecida como “Cartão Não Presente” ou fraude nas transacções online, através da qual os fraudadores acedem de forma ilegal à informação dos cartões de pagamento dos clientes, roubando dados bancários de websites de compras online, onde os dados de milhares de cartões encontram-se armazenados.

A adopção do sistema EMV veio reforçar o nível de segurança dos cartões nos pontos de venda, mas em contrapartida, tornou as transacções de cartões “não presentes” ainda mais frequentes. O resultado? Os níveis fraude online dispararam. Na prática funciona da seguinte forma: depois de se autenticarem e acederem a informação confidencial, os fraudadores compram grandes quantidades de mercadorias a outros comerciantes, também eles autores de esquemas fraudulentos, defraudando os clientes em valores exorbitantes.

Mas se pensarmos que o risco de fraude ameaça apenas clientes particulares, estamos enganados. Temos testemunhado um crescimento acentuado na ocorrência de fraude no meio empresarial, sendo o BEC (Business Email Compromise) o tipo de fraude actualmente praticado de forma mais significativa, esta técnica debruça-se sobre a correspondência entre as empresas e os seus clientes: os e-mails dos clientes são interceptados por fraudadores que se fazem passar por funcionários da empresa em questão e efectuam comunicações subsequentes no sentido de levarem clientes insuspeitos a transferir valores para as contas bancárias indicadas pelo fraudador.

Olhando para África, os níveis de ocorrência de fraude crescem exponencialmente, considerando o volume significativo de incidentes relacionados com roubo de identidade por engenharia social, o que se deve essencialmente aos níveis reduzidos de alfabetização da base de consumidores, que não vê qualquer risco em solicitar ajuda a estranhos em operações de ATM, por exemplo.

Esta tendência agravou-se com a pandemia, durante a qual assistimos a um aumento sem precedentes das compras online e, a partir daí, a um crescimento dos incidentes de fraude relacionados com esta forma de compras.

No caso do FNB Moçambique, como em outros bancos, têm sido realizadas campanhas de sensibilização, alertando os clientes para os riscos que podem enfrentar se as suas credenciais forem comprometidas, ou pedindo ajuda a estranhos quando recorrem às ATM para realizar as suas transacções. Também sensibilizámos os nossos Clientes sobre as precauções a tomar ao abrir e-mails de fontes desconhecidas e/ou com anexos e implementámos recentemente o passo adicional de segurança 3D Secure em todos os cartões de débito e crédito FNB, como um passo adicional de segurança em compras online, por forma a assegurar um nível de defesa reforçado contra a utilização fraudulenta dos cartões de pagamento.

Em resumo, temos feito um esforço contínuo para monitorar as transacções, controlar e optimizar a nossa capacidade de detectar incidentes relacionados com fraude e colaborarmos com a indústria financeira assim como com outros parceiros relevantes para assegurar a protecção dos dados dos nossos clientes.

Estas acções são cada vez mais relevantes numa era de exposição a novos e graves perigos trazidos por um mundo cada vez globalizado, onde os bancos podem e devem proteger os seus activos através da implementação controlos preventivos sempre que possível e comunicando os incidentes que enfrentam entre si, de modo a que a informação proteja a indústria bancária como um todo.

As parcerias com vários intervenientes, tais como as  empresas de telecomunicações, os gateways de pagamento (VISA, Mastercard, Etc) assumem um papel de relevo no sentido de minimizar a exposição ao risco e, em última, análise transferir parte desse risco para as companhias de seguros, com vista a uma recuperação adequada no caso de perdas difíceis de prevenir.

Há que recordar algumas medidas de prevenção essenciais: tenha cuidado nas transacções online, seleccione sempre websites com Secure Checkout (3D Secure), não solicite nem aceite assistência de estranhos enquanto utiliza a ATM, confirme sempre as ordens de pagamento feitas via e-mail, não abra anexos de remetentes desconhecidos ou suspeitos, mantenha as suas credenciais seguras e escolha PINs e passwords mais fortes e, finalmente, pense sempre bem antes de clicar!

Mónica Souto – Directora de Risco do FNB Moçambique

Da praga de insectos e dos odores nauseabundos pós-carnaval…

 

Dizem os que sabem que “depois da bonança vem a tempestade”. Ou é ao contrário? Bom, se não for aquele o adágio correcto, reais foram os eventos que se seguiram às efusivas celebrações do carnaval. Os organizadores daquele evento tinham alguma dificuldade em recordar-se do modo cíclico, repetitivo, em que esses mesmos fenómenos que vou relatar se sucediam. Uma das mais graves omissões na estratégia daqueles era disponibilizar locais para o imperativo do alívio das necessidades aos presentes nas festividades. Estas, durante três dias e três noites tiveram como  epicentro, e como já se referu acima, a Avenida de Angola. Aquelas multidões consumiram tudo o que estava em oferta. Empantorraram-se de guloseimas, de mabadjia, amendoim torrado, castanha de cajú, mapfilwa, tintsiva, magumba frita, e  embriagaram-se com as bebidas adquiridas nas cantinas abertas ao longo da estrada. E daí, era ver gente com esgares nos rostos, motivados pelos apertos nos intestinos. As Nas barrigas rugiam explosões, as bexigas quase rebentavam de pressão. Retretes públicas, onde achá-las? As que haviam eram as privadas, as das habitações dos bairros  Indígena e da Mafalafa. Alguns foliões, pelo respeito ao pudor, e não pela saúde pública, aproximavam-se aos proprietários das residências e solicitavam pelo uso das instalações sanitárias. Assim  formavam-se longas filas de gente aflita nos quintais. Outros, que constituíam a maioria, não se detinham a pedir ajuda a ninguém. Encostavam-se aos muros ou às cercas de caniço e aí, sem pudor, aliviavam-se das aflições. Referimo-nos às necessidades menores, porque para as maiores procuravam lugares mais esconsos, pouco frequentados. Aí acocoravam-se e faziam o que tinham a fazer. Ao fim de cada dia era muito complicado percorrer aqueles caminhos, muito menos os becos, sem se correr o risco de pisar aqueles volumosos bolos de excrementos. Dir-se-ia que os terrenos daqueles bairros haviam-se convertido em sentinas colectivas ou em campos de minas anti-pessoais.

Acrescentemos a este evento, a pestilência dos fumos que provinham da incineração dos lixos da Bucaria. Adicionemos também, talvez pior, a parcela dos baldes das residências que extravasavam com o súbito aumento do número de utentes. Os Serviços de Salubridade cumpliciaram para tornar a vida da população num verdadeiro inferno: durante os dias de carnaval não houve recolha dos baldes.

O desastre instalou-se. Nuvens de moscas varejeiras_ que o meu amigo Cleto, cheio de fumaças de intelectual, denominava chrysomya putoria_ invadiram aquelas duas comunidades. Nos seus vôos ofuscavam a luz do sol que teimava em derramar um calor húmido e asfixiante. Os insectos, esverdeados e pesados, zumbiam e pousavam em tudo, sobre as comidas, sobre os lábios das pessoas, sobre tudo, uma autêntica praga que trouxe consigo surtos de diarreias e doutras doenças. Os cheiros nauseabundos eram de cortar o apetite_ referimo-nos ao de boca, porque doutro é tabu mencionar.

Decorreram duas semanas até que as epidemias foram debeladas. A própria natureza encarregou-se de vir ao socorro dos residentes ao enviar aquele vento e aquela chuva redentora que varreu os terrenos e apagou os incêndios da lixeira municipal da Bucaria.

Por Peter Blenkinsop, Administrador Delegado do FNB Moçambique

Após alguns anos marcados por alguma degradação de serviços e da rentabilidade, os últimos tempos desencadearam uma reflexão profunda para o FNB Moçambique.
Impôs-se a necessidade de definir uma estratégia sobre a melhor forma de nos posicionarmos e sermos o Banco de eleição para os nossos sectores-alvo, focados em sermos, não necessariamente o maior, mas o melhor Banco no nosso mercado.

Tanto o Grupo FirstRand, grupo financeiro sul africano do qual o FNB Moçambique é parte integrante, como o FNB estão empenhados em expandir a presença do Banco em Moçambique e impactar de forma positiva a economia e as comunidades em que opera. Alcançar este objectivo implica um foco constante e consciente nos nossos Clientes e, também, na digitalização dos nossos produtos e serviços.

No que toca a servir os nossos Clientes, fazemos questão de relembrar os nossos profissionais que, mais do que trabalhar para o Banco, eles prestam serviços directamente ao Cliente e que todas as decisões devem ser centradas nele. Esta abordagem é alavancada em metas ambiciosas que passam pelo crescimento transacional, interacção com o Cliente, reequilíbrio do balanço e da rentabilidade. O alcance destas metas requer uma compreensão profunda dos nossos sectores-alvo e o desenvolvimento de soluções que se adaptem às suas necessidades, e não apenas daquelas que se alinham à oferta do Banco.

Voltamo-nos para os bons velhos princípios básicos – simplicidade na interacção com o Cliente, eficiência operacional e segurança, uma abordagem aparentemente simples, mas que requer clareza estratégica, compreensão cultural em todo o Banco e processos e infra-estruturas adequados para o fazer de forma sustentável.

Os sectores Corporate e Commercial são o nosso foco principal, porém também contamos que o Retalho surpreenda positivamente tanto os Clientes como a nós próprios. Embora a nossa presença no mercado moçambicano seja ainda relativamente jovem, somos parte de um Grupo maior, o que nos dá acesso ao know-how necessário para trazer as melhores soluções aos nossos Clientes.

O desenvolvimento digital do FNB Moçambique representa, para nós, um importante catalisador estratégico. Um inquérito revelou categoricamente que o FNB Moçambique não é percepcionado como um Banco inovador nem orientado para soluções, e está aquém da esperada compreensão do mercado. Esta percepção contraria a cultura do Grupo FirstRand pelo que fizemos da abordagem a estes desafios uma prioridade. Actualmente o FNB opera em todo o país, com presença na maioria das províncias, mas é preciso expandir esta presença e estar mais próximo dos nossos Clientes, o que implica foco e investimento em serviços digitais, daí a nossa plataforma operacional encontrar-se também a atravessar um processo de mudança, estando previstas alterações muito positivas na frente digital até ao final do ano que simplificarão, substancialmente, a actividade bancária. Iremos trabalhar, de perto, com os nossos Clientes na jornada de transição para uma experiência bancária digital, que será uma mais-valia tanto para o Cliente como para o Banco.

Acreditamos que a cultura do Banco e a colaboração interna representam um factor diferenciador fundamental para o Cliente, num mercado com reduzida diferenciação de produtos. Temo-nos empenhado profundamente no alcance deste objectivo (com progressos significativos até ao momento). O nosso processo de recrutamento encara este factor como um requisito fundamental, a par da contratação de recursos altamente qualificados.
Aspiramos ser o empregador bancário de eleição nos próximos dois anos, uma meta exigente considerando a existência de bons bancos entre os nossos concorrentes, porém acreditamos que iremos consegui-lo. Entre as nossas maiores inovações, tanto para o nossos Clientes como para os Colaboradores, destacamos o facto de podermos contar com profissionais cuja actividade não se limita ao local de trabalho, estando estes preparados e capacitados para interagirem, presencialmente e directamente com a nossa base de Clientes.

Vivemos um momento de recuperação da economia moçambicana, com boas perspectivas para o desenvolvimento do sector financeiro e do panorama empresarial. Como Banco, procuramos apoiar tanto os orgãos reguladores como as grandes empresas para viabilizar o desenvolvimento de um cenário financeiro e de mercados de capitais positivo, nos próximos 3 – 5 anos. Acreditamos, assim, que vamos criar instrumentos de investimento alternativos para os investidores assim como contribuir para a sustentabilidade da economia a longo prazo. Estamos profundamente empenhados em transformarmo-nos para transformar a economia, continuando a colocar as questões complexas. A viagem está em curso.

Sim, eu tenho fantasmas, nem todos eles mortos

Fazendo poeira dos meus sonhos, girando e girando

Ao redor na minha cabeça.

in “Yes, I have ghosts”, David Gilmour.

 

Tornado é uma história que começa in medias rés, isto é, no meio dos acontecimentos. Quando, logo no primeiro período, a narradora afirma Soube anos mais tarde, quando vasculhava nos arquivos do Notícias à procura de uma maldita crónica ou sinal daquele dia (…), já se percebe que no acto da enunciação discursiva houve o cuidado de se evitar o real princípio das coisas, de modo a fazer desse mesmo princípio narrativo algo mais imaginativo e apelativo. O começo da história de Teresa Noronha diz muito em termos das modalidades técnico-narrativas adoptadas. Ao invés de uma proposta cronológica, com um início, meio e fim linear, a autora textual (des)arrumou os episódios de tal ordem que arroja ao leitor a identificação dos eventos cardinais. Nesse sentido, aliás, a tarefa do leitor não está de todo facilitada, pois, sem respostas categóricas e muito menos dadas no instante em que se desejam, o enredo o impulsiona à uma visão 360º graus sobre os fenómenos e as suas motivações.

Editado pela portuguesa Exclamação, a proposta literária de Teresa Noronha é daquelas narrativas à volta de sobressaltos que atravessam o corpo e alma. No centro da ficção está uma menina que cresce sem nunca se desfazer das lembranças da infância, uma personagem que quer aprender a compreender e a domar a dor, o amor intermitente e a perda de um irmão que, aos 20 anos de idade, por decisão/ indecisão entrega-se aos braços da morte. Esse suicídio é a primeira grande imagem indefinida da história. Enquanto a trama é desenrolada, colocamo-nos fixos nessa condição na vã tentativa de levantar cortinas possíveis rumo à visualização a preto e branco dos factos.

De igual maneira, é o episódio da morte que neste Tornado inaugura uma narrativa marcada por inscrições domésticas, relembrando, certamente, que em cada Homem habita uma potencial novela digna de ficção. Talvez por isso, ao lermos Teresa Noronha ficamos com a vaga sensação de que a escritora fechou os olhos para ouvir os sussurros dos silêncios, identificando, de seguida, uma família normal, com ligações a África, Ásia e Europa. Nessa apresentação genealógica, é interessante a proposta de debate sobre a identidade, sobre como as pessoas se vêem em função dos olhos dos outros, sobre o que é ser moçambicano, goês ou português num mundo que atribui demasiada importância à cor dos anjos.

O contexto doméstico desta história, não obstante o quadro sombrio sempre atrás de alguma porta por abrir, é um leitmotiv para pensar a infância, parafraseando Maurice Blanchot, esse momento da fascinação, essa idade de ouro que parece banhada numa luz esplêndida porque irrevelada. No caso de Tornado, a infância é um lugar corrompido, para onde se regressa porque a maturidade resiste a aceitar o inesquecível. Logo, denota-se na personagem central uma espécie de conflitos tácitos entre a criança esperançosa, a adolescente irreverente ou a mulher inconformada.

A infância da narradora autodiegética (que integra o enredo como protagonista), presente sempre de forma cíclica, é crucial para a trama porque, historicamente, coincide com alguns eventos que contribuíram para a independência de Moçambique. Aí percebe-se que o tempo, para Teresa Noronha, é deveras importante, inclusive, porque é no rescaldo das lembranças da protagonista que se adivinham acontecimentos para lá da ficção. Na tenra idade iniciam os dramas da narradora. Do mesmo jeito, é na fundação do Estado moçambicano que as incertezas em relação ao futuro colocam uma certa sociedade eufórica e inquieta.

Partindo dessa história familiar, que aparentemente é sobre uma partida inesperada, Teresa Noronha tem o cuidado de se apropriar dos contextos da época em que escolheu fixar a narrativa. Assim, esses Moçambiques orientais, africanos ou ocidentais aparecem a recuperarem fragmentos que se foram perdendo nos labirintos da grande História nacional no último meio século.

À semelhança da protagonista de Tornado, cuja felicidade é condicionada pela morte prematura do irmão, o país que Teresa Noronha ficciona surge com cheiro à morte (veja-se os casos dos fuzilamentos públicos). Em determinados momentos da trama, a morte não é apenas o outro lado da fronteira, é uma imposição, se preferirmos, uma chantagem que se acredita contribuir para estabilidade social. A morte traduz a incapacidade de aceitar a diferença ou a intolerância acirrada quanto à indiferença, semeia ódio e ainda revela a ambiguidade da vida. Atenta a isso, a narradora atira: “A morte é uma floresta cerrada onde se escondem todos os segredos, anteriores, posteriores, todas as palavras que não encontram a luz do sol” (p. 13).

É no jogo repleto de suspense em que se movimentam as personagens, transportando a ficção a diversas regiões. Primeiro, os espaços são responsáveis pela definição e fixação realista ou não da história, conforme observa Yves Reuter. Segundo, propiciam a fundamentação das visões externas sobre as diferentes tonalidades raciais, étnicas ou culturais que constroem Moçambique. Falando de si, a narradora vitaliza uma condição sobre o contraste entre a afirmação e a negação, conforme o tempo e o espaço geográfico em que se encontra:

 

A nossa cor nunca foi a dominante. No tempo colonial não éramos brancos, éramos arraçados de monhés, canecos de cú lavado, o termo pejorativo para falar de um filho de goês e portuguesa. No período pós-colonial, eu não era negra e se, em Lisboa, me tomavam por brasileira ou por cabo-verdiana, já em França perdiam-se em cogitações sobre de onde seria e espantavam-se quando descobriam que era africana. Lá tinha de explicar as deambulações do meu ADN antes de assentar arraiais em Moçambique, (p. 38).

 

Escrevendo sobre a mocidade da personagem em permanente paralelismo com a de um território, incluindo essas situações ligadas ao sentido de pertença, Teresa Noronha humaniza determinados capítulos da História moçambicana, fazendo da verosimilhança um factor de inteligibilidade contemporânea. Este argumento ganha relevo com a reconfiguração do lugar, no entanto, nunca se trata de recontar episódios existenciais, mas, de certo modo, se trata de um processo de apropriação, de mergulhar na memória particular e transmissível, quiçá, para impedir a própria morte de morrer. Seja como for, o que se ouve no discurso é a narradora recusando-se a esquecer o tempo que passou. Quem pode esquecer o que passou?

                                                                           ***

Se, por um lado, toda a história é história das personagens, por outro, a manipulação dessa mesma história depende do narrador. No caso de Tornado, a protagonista acumula a função de narrar, de desenvolver ou sofrer acções. A enunciadora do discurso encontra-se profundamente envolta aos eventos. Sofre pelos outros e por conta própria, como se o destino a tivesse reservado apenas momentos de angústia. A melancolia é o principal fermento da narrativa. Logo, qualquer proposição alegre diluiu-se facilmente, já que Tornado também é isso: uma proposta antagónica entre a possibilidade de ser e a dureza da circunstância.

No meio de várias crises ideológicas e sociais, a narradora absorve, de facto, tempestades que a arrasam, transparecendo o estado do espírito com que os eventos são revelados. A esse respeito não há nada a esconder. Pelo contrário, é a necessidade de descrever acontecimentos, muitas vezes ao ritmo catártico do Yes, I have ghosts, de David Gilmour, que amplia o universo interior da protagonista. Ou seja, a narradora de Tornado sofre infinitamente pelas complicações do seu destino. A dor, essa sensação que segundo Anton Tchekov leva o Homem à perfeição, é tanta que o silêncio não sorve. Então, a tentativa de diálogo com a memória do irmão, à laia de monólogo interior, apresenta-se como o grande trunfo de um relato introspectivo totalmente diferente do que é habitual na ficção moçambicana. Assim é porque Teresa Noronha arrumou o universo diegético de modo a que a lembrança e o diálogo mudo com o morto, por parte da protagonista, sustentassem a narração direccionada a quem já perdeu a faculdade de resposta.

Basicamente, Tornado é uma construção anímica da protagonista que evolui em espiral. A ficção reúne fortes vestígios psicológicos adequados à tragédia grega. A personagem central é a síntese da narrativa. A história cabe toda nela, mas isso não a proporciona um domínio demiúrgico sobre as acções. O acto de narrar, claro está, é uma maneira de a narradora tentar compreender as razões de a sua própria vivência ter sido lesada, de certo modo, por uma entrega desinteressada ao amor e, depois, à liberdade.

O livro de Teresa Noronha é uma odisseia sobre a degeneração da vida e sobre o salto que sempre é possível dar em direcção à luz. É uma narrativa incisiva, na qual os tornados da narradora (receios, desilusões, perdas, solidão) se confrontam com tantos outros tornados que movem o mundo (preconceitos, intolerâncias, extremismos, racismos, patriotismos dissimulados). Realmente, há aqui uma lição sobre aprendermos a lidar com os fantasmas que nos rondam sem que a permanência dessas entidades nos sufoque. Tornado é uma história sobre matar esses fantasmas ou domestica-los.

 

Título: Tornado

Autor: Teresa Noronha

Editora: Exclamação

Classificação: 16

Quando o caso a ser julgado é o amor, os amantes podem queixar-se de tudo perante o tribunal da vida, menos da falta de avisos. Entretanto, porque os avisos estão sempre na tendência de rejeitar os acontecimentos vindouros, enquanto o desejo tem esta tendência de apelar à experimentação do inédito, este último vence amiúde o conflito entre a carne e a razão.

Elvis Presley já nos havia adiantado da força motriz do desejo sobre a sensatez das advertências, quando cantou:

 

“Wise men say

Only fools rush in

But I can’t help falling in love with you”

 

Será o amor Eros um doce e trágico fenómeno que jamais falha o seu alvo, por mais sábias advertências haja contra si? Infelizmente, a poesia de Énia Lipanga, no livro “Para enxugar as nódoas dos meus olhos” não se configura como uma resposta a esta questão, senão como um efeito melancólico do que acontece com o alvo abatido pelo próprio amor.

Destarte, nestas linhas que seguem, a mais importante preocupação a ser atendida será conhecer a verdadeira natureza do amor eros através dos mais doces e maus tratos que este deu ao sujeito poético exposto na obra em referência.

A julgar pelo belo e triste título “para enxugar as nódoas dos meus olhos”, já se pode adivinhar a natureza tampouco feliz dos versos que nos aguardam. E se a causa das nódoas dos olhos (lágrimas) tem a ver com este sentimento chamado amor, há já primeira razão para olhar-se para este sentimento com ar de tão poucos amigos. Afinal, por que algo que se diz tão belo e nobre poderia ser motivo das nódoas dos olhos de Lipanga?

Talvez, só se a nossa autora lhe tiver dado as razões para mostrar-se-lhe rude ao ponto de causar-lhe as indesejadas lágrimas. Vejamos como o sujeito lírico descreve a sua relação para com este sentimento e de que modo o amor lhe reage. Comecemos com o poema que mostra o sujeito na condição de uma ultra serva:

 

Como queres que eu te ame?

Diz-me

De que canto dos teus lábios queres meu beijo

 

Como desejas que seja

Queres-me de olhos fechados ou preferes que veja?

Quantas pinceladas da minha língua?

 

Como queres que eu te ame?

Que cor devo usar para tingir o teu abraço?

Diz-me como queres que eu sente?

 

Queres que venha calma e suave

Que seja as asas da tua ave?

Ou que te esmurre de bruços (entre sussurros)?

 

Não importa!

Como queres que eu te ame?

Diz-me a tua fórmula

 

Sim, amo-te, mas diz-me

De que forma queres.

 

Neste poema, é nítida a submissão do sujeito lírico assim como o seu desespero em garantir a satisfação plena da coisa amada, como se não bastasse o simples facto de nutrir o amor por ela (a coisa). Veja a maneira suplicante com que termina o mesmo poema: sim, amo-te, mas diz-me de que forma me queres.

Se estes versos não denunciam com clareza o bem-querer do sujeito lírico pela coisa amada, dêmos oportunidade a estes que seguem:

 

Para mim

Deus

Ter-te-ei para mim

Após dar-te oferendas ajoelhada no teu altar.

O pulso da tua firmeza

Desbravará a mata dos meus lençóis

Meu Deus preto.

Suplico beber do veneno da tua língua

E continuar sobre a sombra do teu braço

Para mim,

Bastam-me estes milagres.

 

Como vê, caro leitor, a veneração do sujeito poético é tão intensa ao ponto de endeusar a coisa amada, prometendo-lhe oferendas num estado de prostração.

E para encerrar quaisquer dúvidas sobre a devoção e os bons tratos providenciados pela autora, no poema sentença, pode ler-se versos de hospitalidade como “eis o meu coração, a tua última morada segura” ou versos de discernimento presentes ainda no mesmo poema “crias que aquilo fosse felicidade, desconhecia sossego e orgasmos, pensavas apenas que ter paredes era tudo”.

Em função desta boa entrega e dedicação do sujeito lírico, era suposto que houvesse uma correspondência de gratidão por parte do amor, mas tal expectativa fracassou. Ao longo do desenrolar da poesia, notamos mais descuidos e sofrimento do amor que o sujeito poético vai narrando com uma certa angústia. Num dos poemas, o sujeito poético chega a denunciar a ingratidão manifesta por este sentimento a que tanto se dedicou.

 

Plantio

Primeiro

Ele escolhe o pedaço de terra

Sacha

Remove as ervas daninhas

 

Segundo

Ele remove todas as impurezas

Rega

Fertiliza

 

Terceiro

Ele lança a semente

Noutra terra:

Virgem.

 

Com este poema e outros da mesma índole, torna-se cada vez mais clara a ingratidão e, sobretudo, a irreverência do amor. Duma natureza incontinente e inconsequente, segundo a poesia melancólica de Lipanga, o amor reitera a sua inconquistabilidade ante bons actos ou belos sacrifícios contrariando as expectativas dum coração comum. E esta irreverência do amor vai além da manifestação artística, ela se observa em várias histórias da vida real de gente que ora despende fortunas na tentativa de conquistar o amor duma donzela, sem sucesso, ora mostra virtudes qualificáveis para merecimento do amor tais como fidelidade, paciência, cordialidade, protecção e generosidade, mas que se deitam por água abaixo.

A poesia de Lipanga é mais uma confirmação de que na matéria de amor, desconhece-se a fórmula da sua conquista. Casos diversos já houve do amor que nascesse e aumentasse em relações abusivas e sem mínima reciprocidade. Por esta razão, nunca a culpa do insucesso duma relação caberá somente ao amante dedicado ou ao amado desinteressado, quando o próprio amor se afigura irreverente, incontinente e irresponsável por natureza.

Se calhar, a melhor forma de lidar com este sentimento fosse aproveitar o momento (carpe diem) sem guardar as esperanças de que o amor dure até o dia de amanhã. Deste modo, evitar-se-ia indagações do tipo “um nó eterno fez-se pó?” Ou fosse melhor enveredar esforços similares tomados pela autora no sentido de ir olvidando este sentimento que, no lugar do prazer, começa a plantar a dor da ausência. Ademais, esperar continuamente pela imprevisível carícia do amor também cansa, como diz a própria poetisa, “os deuses também cansam”. Sendo assim, inconsolável e sabendo que as promessas têm bolor e já fedem” o sujeito lírico decide partir para longe de tal sentimento irreverente com os mais variados seguintes versos:

 

Passado

Regressas à casa que abandonaste

Será que do amor há resíduos?

Tentas remover os escombros que me cobrem

Queres encontrar-me, não é?

 

Sacodes dos lençóis sobras do nosso prazer

Recolhes do nosso quintal as tuas folhas falecidas

E vês: o meu sorriso não é mais lágrima

Sou luz que escapa das frestas das chapas da casa.

 

Tuas frases são este livro já lido

Tentas cavar os nossos sonhos no caniço

Mas é já impossível

Há poeiras, há chuvas

 

A cor não é a mesma.

 

Com estes versos, notam-se esforços da parte da autora em avisar que, se o amor nasce, também pode morrer e ficar enterrado no passado. Entretanto, a tarefa de olvida-lo nunca foi fácil. Qualquer distração pode ser suficiente para remeter-nos a ele, pois este tem andado em “todos os caminhos”. Para poetisa, esta omnipresença já nem lhe causa comoção, chegando a escrever que “sorrio/ não do susto,/ Já não me surpreende/ encontrar-te em todos os caminhos”.

Quase a findar a narração do seu doce, intenso e malogrado amor por Alves, o seu único, o sujeito lírico revela-nos na sua última poesia a sua apaixonante e culpada vulnerabilidade.

 

Apenas sinto

 

Tenho o cuidado de carregar as imagens com as mãos

Sem apreciar a cintilação das estrelas

 

Teimo em comprar sem ler o rótulo

Não consigo pensar

 

Sinto somente

Não existe cola para prender os meus pés no chão

 

A solidão é contrição

O passado é onde escolho sentir.

 

É deveras um poema a partir do qual se deve perguntar vale a pena entregar-se ao amor ou armar-se contra ele? Apesar da sua mesquinhez e irreverência, o amor mais profundo e mais íntimo possível só se experimenta quando se é vulnerável, na medida em que este é o sentimento que mais requer a integridade dos que amam. Armar-se contra ele significaria escolher a razão como guia rígido da vida em detrimento da emoção. E a razão tem muito de prevenir do que arriscar ao contrário do coração. Já discutia Sócrates com um sofista sobre a felicidade. O filósofo identificava a felicidade com ausência de prazeres carnais e controlo racional da vida. Por sua vez, o sofista entendia que a felicidade é a contínua satisfação dos desejos, chegando a acusar Sócrates de querer que o homem viva feito zombie na matéria do sentir.

Enfim, mais uma vez, insisto na pergunta, vale a pena sentir o prazer do amor eros e no final pedir uma toalha branca “para enxugar as nódoas dos meus olhos?” ou melhor jamais atrever-se a conhecer o doce beijo dum amor incontinente? O direito à escolha está em cada um dos leitores. Entretanto, a nossa poetisa fez a sua escolha e, hoje, passou o testemunho de quem amou e decidiu seguir adiante com doces e incómodas recordações que não a mataram, senão torna-la mais forte.

 

LIPANGA, Énia. Para Enxugar as Nódoas dos Meus Olhos. 1ª ed. Gala-gala Edições, 2021.

“Gerson, estás a dizer aqui neste artigo que temos de ter mentores para nos ajudarem nas nossas carreiras!  Mas, afinal de contas, o que é isso de mentores? Porque aqui na town agora, há muitos mafiosos a quererem se passar por intelectuais. Como podemos diferenciar esses tipos?” Este foi um dos feedbacks que recebi, do Gaspar Malik, com relação a um dos conselhos que dei, no último artigo, sobre a importância de ter mentores que nos ajudem nas nossas carreiras profissionais.

Mentores são “sábios conselheiros”, dotados de experiência, que servem de guias, estimulam, inspiram e nos orientam com ideias com vista a realização dos nossos projectos profissionais e/ou espirituais.

Eu creio que existam duas categorias de mentores, o primeiro grupo que pode orientar num domínio específico e outro pode orientar “sobre a vida”. Creio que a preocupação do Gaspar Malik está principalmente neste segundo grupo.

 

Como escolher mentores

Experiência do mentor é o elemento primordial a analisar e ponderar antes de escolher um. A vida têm  estações, tal qual um ano: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Isto quer dizer altos e baixos. E só quem passou por estas estações é que lhe pode falar sobre elas. Livros, experiências dos outros vão apenas dar-lhe ideias que lhe podem ajudar e orientar, no entanto, apenas as pessoas que realmente viveram certas situações tem legitimidade para falar na primeira pessoa. Existe uma enorme diferença entre “saber sobre algo” e “ter vivenciado certa realidade”. Só quem viveu pobreza pode lhe falar daquelas noites em que acorda esfomeado depois de ter sonhado a comer algo de bom, e se esforçar para voltar a dormir, porque sabe que só a meio do dia seguinte poderá comer um pão “sem nada” e água quente com açúcar para acompanhar. A experiência junta-se a idade, só a partir de uma certa idade é que nós podemos medir se alguém já passou por certas experiências profissionais e/ou da vida. Não me estou a contradizer com relação à minha filosofia sobre recrutamento, para recrutar uma pessoa para trabalho, a pessoa tem de ter talento, não experiência. E o talento pode ser demonstrado ainda muito jovem. No entanto, para orientar outras pessoas é preciso que o dito mentor tenha conhecimentos sólidos sobre a matéria em causa e ter passado, pessoalmente, por “algumas estações do ano”.

 

Não desista; se fizeres Z te garanto que terás Y; o sucesso é isto e mais aquilo

A alguns dias vi no Facebook, um post em que alguém dizia “A experiência transforma” e outro, em sua publicação, por sua vez, escreveu “A vida se resume na resolução de problemas”, ambos assinam e colocam suas fotos como quem diz, eu tenho algo a dizer. Sinceramente!!! Alguns até escrevem livros feitos apenas de compilação de ideias tiradas de livros de outros autores. Fico triste ao ver isto porque acredito no trabalho positivo que mentores exercem na vida dos demais, principalmente, mentores de vida, no entanto este grupo de gente descredibiliza esta disciplina e os verdadeiros mentores.

Muitos destes indivíduos que falam sobre sucesso não tem a mínima ideia do que é realmente sucesso. É verdade que cada um pode definir seus critérios mas há que ter bases e essas bases são, ou poderiam ser, na minha opinião, por exemplo: Ter uma profissão, ou fonte de rendimento (não mero emprego) que lhe permita pagar suas contas e ter um extra que possa beneficiar aos outros; Ter uma boa relação com família (não apenas ter filhos e mulher); Ter amigos (estou a falar de amigos que atravessam estações do seu lado); Espiritualidade (me refiro a seu propósito na vida, de que forma e até que ponto esta pré-disposto a servir o próximo durante a sua existência). Aqui não estamos a falar de ter muito dinheiro, casa, viajar, ter “amigos” falsos. Estamos a falar de ter um certo equilíbrio em cada um destes sectores como critério para definir sucesso.

Vamos lá agora pegar o exemplo de “um Samuel Gerson”, de apenas 40 anos e que ousa dizer a um terceiro “não desista” da vida. É bonito e talvez verdade, mas que legitimidade tenho eu para dizer algo parecido. Quantas estações já se passaram para poder falar “da vida” a quem quer que seja? Como posso falar de sucesso na vida se meus filhos tem apenas 10 e 12 anos, com estas idades (apenas) me obedecem, não sei se realmente me respeitam ou me têm como uma inspiração. Será que sou realmente um bom pai? Será que realmente estou a constituir uma família ou tenho apenas filhos? Como posso falar de sucesso profissional se estou ainda entre o plantio e pequenas colheitas. Como posso garantir que sou espiritualmente elevado se não posso ainda medir o impacto da minha vivência na vida das pessoas que amo (principalmente meus filhos)? Depois vem essa outra parte em que estes ditos mafiosos ousam dar garantias aos outros. “Se fizeres Z lhe garanto que terás Y”. Mesmo Jesus, profeta que foi, não deixava de (se) colocar questões. Quem somos nós para garantirmos algo aos outros? A vida não oferece garantias a ninguém e em circunstância alguma.

Um bom mentor, via de regra, têm uma boa qualidade de escuta, coloca várias e boas perguntas e consequentemente fala pouco; um bom mentor não lhe dita as decisões a tomar, lhe orienta para que tomes suas próprias decisões; um bom mentor não lhe faz cobrança; um bom mentor incentiva.

A vida ela se passa de maneira diferente para cada um de nós, para alguns ela não cria muitas complicações, para outros ela pode ser bastante “estúpida”. E por que ela é assim?  Porque é a vida. Apenas por isso. Eu acredito, que, em alguns casos, o que se passou com alguns pseudo mentores foi que a vida não lhes causou muitas dificuldades, acabaram acreditando que tal se deveu, simplesmente, ao seu mérito (sem querer lhes tirar o mérito dos seus esforços) e por isso que começam a escrever “dizeres”, sobre os quais muitas vezes eles mesmos ignoram a origem e/ou o racio, por detrás. Não leiam dizeres de pessoas sem legitimidade, mesmo se o que escrevem parecer verdade, sob pena de perderem interesse e não se sentirem estimulados quando realmente forem a precisar.  Espero que algumas destas dicas que aqui partilhamos possam  ajudar a selecionar um bom mentor. Eu disse um bom, mas aconselho a ter e manter alguns, não apenas um. Um Espiritual, outro no domínio profissional,um para questões emocionais e por aí em diante. Seja um bom estudante do que cada um deles lhe ensina e não um seguidor cego. EU ACREDITO EM NÓS.

Recomendação de livro para o mês de Janeiro 2022: Poder da Mente  – “Agostinho Levieque”

Samuel Gerson Andrisse

Especialista Internacional em Recrutamento

Presidente do Pelouro Diáspora da Associação Moçambicana de Empresas e Profissionais de Recursos Humanos – AMEPRH

Autor do livro “Be ready for your next job interview”

28 de Dezembro de 2003. Pavilhão do Maxaquene! Qual ovo de Colombo, a “catedral” do basquetebol indígena rebentava pelas costuras. Não havia espaço sequer para uma agulha!

Vivi, e com inusitado entusiamo, 40 minutos do duelo Moçambique vs Nigéria que foram um autêntico regalo para os sentidos. Maldita Mfon Udoka, estrela-mor da Nigéria que nos roubou o sonho de marcarmos presença, pela primeira vez na história do basquetebol moçambicano, nos Jogos Olímpicos de Verão. Precisamente em Atenas, corria o ano civil de 2004, lá onde o árbitro moçambicano Abreu João atingiu o pico da sua carreira.

Não há nada de bom que se possa dizer da sua passagem (Mfon Udoka) pelo pavilhão do Maxaquene, comandando a armada nigeriana com 28 pontos na dramática quanto amarga derrota de Moçambique (69-63) na final. Provocou-nos tamanha agonia.

Os 20 pontos de Clarrisse Eulália Machanguana (“Match”) e entrega total do conjunto então orientado  pelo americano Nelson Guiliam Isley não foram suficientes para tocarmos o céu. O limite, pois claro. Em boa verdade, diga-se, e após o término do quarto quarto, “fomos todos as lágrimas” de Deolinda Carmen Ngulela, Carla Denise Pedro Botão Comissário da Silva, Clarisse Eulália Machanguana, Ana Domingos Soeiro Branquinho, Nádia Navessa Noormamad Rodrigues, Ana Flávia Azinheira, Iracema Paulo Ndauane e Rute Elias Muianga.  Entusiasmo refreado! É como se o mundo tivesse desabado! O silêncio magoava como socos na garganta! Há precisamente 18 anos, com todo protocolo observado para campear, Moçambique sofrera uma derrota difícil de digerir.

Não se pode, nem tão pouco, acusar as meninas de não terem tido “pedigree” para açambarcar o título. Pelo contrário: fizeram história, nas vésperas colocaram em sentido a senhora equipa do Senegal com incrível parcial de 20-0 com 5:00 minutos por se jogar no primeiro quarto.

O homem das inúmeras tácticas de ataque, Nelson Guiliam Isley, coadjuvado por Nasir “Nelito” Ismael Issufo Salé e Francisco “Chico” da Conceição anulou, nas meias-finais, o temível Senegal que caiu com estrondo com a derrota por 63-62!

Consolou-nos ver Deolinda Carmen Ngulela, fabulosa base-armadora, ser coroada MVP (jogadora mais valiosa) do Campeonato Africano de Basquetebol. Elevação de qualidades acima da média, demostração de toda uma classe e espalhar de um perfume cujo aroma até hoje “mora” na Académica.

Ngulela encheu a quadra: dribles em progressão, capacidade de fazer o passe no “timing” certo, excelente nos ataques posicionais e espírito de liderança e motivacional!

Processos consolidados depois de se transferir para os EUA: Seward County Community College, NJCAA, e Augusta State University, NCAA.

A sua carreira foi escrita, sempre e sempre mesmo, com encanto pelas actuações de extrema competência. Tão competente que, em 2015, aquando da sua retirada dos palcos internacionais, a FIBA-Africa destacou-a: “Deolinda Ngulela ganhou vários prémios individuais ao longo de sua carreira no basquetebol, o mais recente deles foi eleita a melhor armadora do “Afrobasket 2015”.

Há, e como, uma indisfarçável frustração de não ter testemunhado a consagração ao nível de selecções de uma geração de atletas com enorme qualidade.

Sim, sem sombra de dúvidas, porquanto o título de campeão africano de clubes conquistado pela Académica dois anos antes, 2001, em Abidjan, Costa do Marfim, indicava os passos certos a dar para se chegar ao olimpo de África.

De resto, foi assim com a Nigéria. No mesmo ano (2003) em que conquistou o seu primeiro “Afrobasket”, colocara o First Bank no topo do Campeonato Africano de Clubes (Taça dos Clubes Campeões Africanos), prova conquistada, curiosamente, em Maputo.

Mas, afinal, quem fazia parte da equipa do First Bank que conquistou a 10ª edição da Taça dos Clubes Campeões Africanos, prova na qual o Maxaquene de Carlos Ibrahimo Aik ocupara a 3ª posição com saldo de três vitórias e duas derrotas? Caros patrícios, nada mais nada menos que seis  atletas que compuseram a astuta selecção da Nigéria campeã africana: Mfon Udoka, Aisha Mohamed, Funmilayo Ojelabi, Mactabene Amachree,  Patricia Chukwuma e Nguveren Iyorhe.

Um momento, certamente, para nunca olvidar! Ter na retina. Enorme apoio do público como se voltou a ver na também magnifica campanha no “Afrobasket” 2013, que culminou com o segundo lugar na prova e inédita qualificação para o Mundial de basquetebol da Turquia (2014).

Engavetamos, por momentos, os egos que fazem escola numa das modalidades colectivas que orgulha o país. Unidos numa causa, fizemos do pavilhão do Maxaquene um “inferno” para os nossos adversários.

Em pararelo, toda uma estrutura montada pelo elenco de Aníbal Aurélio Manave (ndr: na altura presidente da Federação Moçambicana de Basquetebol) foi determinante para o sucesso, feitas as contas, do “Afrobasket” 2003. Aliás, e outra coisa não seria de esperar, Manave respira basquetebol. Vive a modalidade da bola ao cesto!

Uma vitória diante da frágil África do Sul, a 18 de Dezembro, foi o mote para acionar o rolo compressor ainda na fase de grupos, e embalar para novos triunfos diante dos Camarões (70-47) e Tunísia (93-51). Pelo meio, a 20 de Dezembro, uma derrota com a incómoda Angola (73-66) não abanou a nau. Cumprida a primeira missão, com a qualificação para as meias-finais, havia que derrubar o hendecampeão Senegal.

Embaladas no ritmo frenético da competição, as comandas por Nelson Isley disputaram cada lance como se fosse o último, superaram-se e brindaram aos moçambicanos com a qualificação para a finalíssima. A receita para a final com a Nigéria era: concentração total e crer. Falhámos nos momentos cruciais, mas demos claras indicações do enormíssimo potencial e qualidade do basquetebol moçambicano. Estrondosa ovação, por isso, às vice-campeãs africanas de 2003!

Proporcionaram-me, ainda foca na profissão e movido pelas leituras constantes do extinto “Campeão” e recomendadas leituras de Franz Kafka, Fiódor Dostoiévski, Gabriel Garcia Márquez, Ernest Hemingway, Carlos Drummond de Andrade, Luís de Camões, entre outros, momentos de grandes emoções! “Khanimambo”, basquetebol! Obrigado, Milton Machel, pelas lições e ensinamentos!

Onde nós começamos é onde nós terminados.

in “Where we start”, David Gilmour.

Boa tarde a todos!

Começo esta intervenção com um exercício anacrónico. Há umas semanas, no outro lado da cidade, a Alcance Editores lançou o livro O rosto e o tempo, antologia poética que reúne textos publicados por Armando Artur ao longo de 35 anos de percurso literário. Durante a cerimónia, lembro-me de ter ouvido Albino Macuácua (apresentador do livro), Lucílio Manjate (organizador da antologia) e Álvaro Taruma (poeta convidado ao evento) sublinharem qualidades literárias arturianas, apoiando-se no argumento de que Armando Artur é um autor comprometido com questões ligadas à reinvenção do ser, oscilando nessa fronteira entre o estético e o filosófico.

Taruma até foi mais longe, ao defender que Armando Artur é a prata da poesia moçambicana, sendo José Craveirinha o ouro inalcançável. As posições de Macuácua, Manjate e Taruma despertaram-me a seguinte pergunta: como é que se podem resumir as qualidades de Armando Artur, exaltadas na cerimónia de apresentação de O rosto e o tempo? Ao invés de uma resposta assertiva, naturalmente, ocorreu-me o termo génio. No entanto, nada a ver com o génio da lâmpada dos desenhos animados de Aladdin, que os meus filhos tanto gostam. A noção do génio a aqui invocada tem a ver com essa entidade demiúrgica que, durante o Romantismo, acreditou-se ser responsável pelo processo criativo dos poetas.

A noção do génio romântico é interessantíssima, pois contribuiu para o surgimento da grande crítica literária moderna, o Biografismo, que teve como expoente o francês Saint-Beuve. O Biografismo defendia que para se estudar a obra, antes, devia-se desenvolver um estudo aprofundado sobre o autor. Por exemplo, com enfoque nos seguintes aspectos: origem, naturalidade, relações de parentesco, de afecto, os gostos, as preferências e as convicções do autor. Para teoria biografista, havia uma ligação umbilical entre o autor e a obra. “Tal árvore, tal fruto”. Assim, para a compreensão da escrita, acreditava-se que o crítico tinha de conviver com o autor, pois todos os aspectos da sua vida encontram-se reflectidos na obra.

Apesar da sua importância, sobretudo como referência da crítica literária moderna, o Biografismo mereceu muitas críticas. Afinal, a escrita é uma coisa e o autor é outra. A obra não traduz necessariamente o que o escritor/ poeta pensa ou acredita. Aliás, sendo o poeta um fingidor, conforme sugere Pessoa, sempre pode escrever sobre matérias contrárias as suas próprias convicções. Segundo, os críticos dedicavam-se mais a estudar o autor do que a sua escrita.

No séc. XIX, o Método Histórico Filológico aparece como proposta, digamos, actualizada para os estudos literários. Ao contrário dos biografistas, o historicista Hippolyte Tain vai propor o estudo da obra mais focada ao contexto de produção, se preferirmos, a aspectos históricos. Quer dizer, nesta perspectiva não há um génio que vai conspirar para que o autor tenha qualidades únicas e irrepetíveis. Esta teoria baseia-se no ambiente civilizacional. Isto quer dizer que, enquanto o Biografismo entendia que o autor é singular, logo a sua obra também, o Método Histórico Filológico defendia que não existem qualidades únicas e irrepetíveis e que as condições sociais contribuíam para que os autores tenham semelhanças. Portanto, para o Historicismo, o que no Biografismo torna o autor génio, mediante questões psicológicas, é fundamentado por aspectos sociológicos: raça, meio e momento. Quer dizer, as pessoas da mesma raça, do mesmo meio e do mesmo tempo apresentam proximidades criativas. Como se pode depreender, este entendimento foi ultrapassado ao longo dos anos.

Ora, iniciei a minha intervenção com esta breve apresentação teórica porque o livro de Armando Artur, Minhas leituras e outros olhares, nos conduz ao melhor que o Biografismo e o Historicismo propõem. Por um lado, ao lermos este livro compreendemos que autores foram determinantes na estruturação do pensamento arturiano, desde a adolescência até agora. Esta é uma viagem pelo tempo que permite delinear a biografia intelectual do poeta, isto é, uma biografia diferente daquela que assenta em questões mais pragmáticas: natalidade/ naturalidade, descendência e etc. Na verdade, com este exercício pausado, introspectivo, Armando Artur sublinha o que não deve tão-pouco constituir novidade: os intelectuais e todos os que aspiram a escritores são produtos de leituras e do que fazem com isso. Certamente, há aqui uma espécie de filiação literária imprescindível a quem se interessa pela escrita do poeta.

Por outro lado, os textos escritos e publicados no jornal O País, entre 2019 e 2020, como se lê na nota do autor, “constituem simplesmente um olhar de um leitor apaixonado e extasiado por outros cultores”. Dito de outro modo, o livro não traduz apenas um eterno respeito pelos seus heróis da palavra. De igual modo, aduz uma apreciação desinibida e espontânea sobre os fundamentos da escrita dos autores contemplados. Portanto, não se trata aqui de crítica literária ou ensaio com proposições académicas. Não. Ao invés disso, o nosso autor optou por um exercício mais íntimo, através do qual se posiciona como leitor do mundo.

Os 10 livros poéticos publicados por Armando Artur desde 1986 não são consequências directas das leituras que o autor fez, conforme diriam os biografistas. No entanto, essas mesmas leituras, ao conduzirem o poeta pelo universo das descobertas, consentiram a construção de territórios literários onde habitam sujeitos preocupados com a referida (re)escrita do Ser, no cruzamento entre o estético e o filosófico.

Todo o leitor tem referências literárias. Entre as suas, Armando Artur destaca Luís Bernardo Honwana, Marcelino dos Santos e tantos outros poetas e escritores que deixaram de ser estrangeiros porque, como os nossos, já não cabem em muros construídos em jeito de fronteiras. Por exemplo, Carlos Nejar, Pablo Neruda, Franz Kafka, Khalil Gibran, Mikhail Gorbatchov, Albert Camus, Paul Éluard e, claro, Sophia de Mello Breyner Andresen. Com alguns destes autores, Armando Artur conviveu e fez-se amigo. Ficamos a saber disso ao lê-lo e a grande consequência que daí advém é mesmo essa: conhecimento alargado sobre os autores retratados.

De facto, num primeiro momento, Armando Artur assume as referências literárias sobre as quais escreve como o fio condutor de uma trajectória biográfica, ao nível intelectual, que se deve tirar o maior proveito. O poeta é a ligação entre a obra imortalizada (dos outros) e a sua (própria) experiência na condição de leitor voraz. Logo, em Minhas leituras e outros olhares não se aprofundam conhecimentos sobre o homem, as suas relações, os seus amores, as suas decepções, a sua carreira profissional ou realizações de vida, mas aprofundam-se conhecimentos sobre os seus universos intangíveis, nos quais habitam a matriz, a forma e, quiçá, as principais ferramentas do trabalho literário.

Porque ao exprimir-se, na verdade, Armando Artur também está a pensar nos outros, o seu livro também funciona como introdução às leituras que construíram autores de sua geração. Assim, este livro composto por 155 páginas condiz, parcialmente, com a visão de Hippolyte Tain, quando o crítico francês afirma que não há particularidades únicas e irrepetíveis entre os autores, pois a época e as condições sociais contribuem para que os poetas apresentem semelhanças (em muitos casos, sem se terem lido). O meio e o momento podem contribuir para o que Julia Kristeva designa intertextualidade, todavia, não há aí receitas e nem sequer prescrições teóricas do que literalmente aproxima ou deixa de aproximar a escrita de autores contemporâneos ou conterrâneos.

Em todo o caso, Minhas leituras e outros olhares é um livro através do qual podemos captar os títulos que, por exemplo, os escritores nacionais, hoje consagrados, leram desde os anos 80. Quem se interessa pela história literária de Moçambique ou pelo processo evolutivo dos nossos autores vai encontrar neste livro marcas indeléveis de como a arte da palavra, no país, consolidou-se ao longo de décadas na sua relação com o exterior. A literatura nunca se trancou a um território, seja de pedra ou imaginário, e muito menos se limitou a uma orla hidrográfica. Afinal, bem sugere Guimarães Rosa, há sempre uma terceira margem do rio que, inclusive, nos faz exploradores de nós próprios e das nossas circunstâncias.

A literatura sempre superou contextos, crises e desastres, edificando, com efeito, pontes que viabilizam travessias seguras e constantes, nem que seja para um lugar qualquer. Honestamente falando, penso em Minhas leituras e outros olhares como uma ponte que nos convida a olhar o passado com acuidade. Neste mundo tão acelerado e que o presente parece eterno, é importante parar, contemplar, lembrar e reconhecer a relevância desse lugar comum que são as nossas memórias.

A paixão pela arte literária é o grande pretexto para esta viagem pelo passado que, definitivamente, projectará futuros de todos que souberem aproveitar as várias lições encobertas. É como entende Ricardo Santos, o Escutador de silêncios, está aqui um manual de leitura para aqueles que pretendem ser poetas e escritores. Aliás, há milhares de anos, Horácio, em A arte poética, já defendia que apenas se torna poeta quem antes investe na sua própria formação. Se reconhecermos o papel formativo da leitura no desenvolvimento das habilidades linguísticas, realmente, a partilha de Armando Artur tece possibilidades irrepreensíveis na apresentação de obras que se devem ler antes de se ousar escrever um verso.

Como diria Levi-Strauss, as obras e os autores a que se refere Armando Artur, neste seu novo livro editado pela AEMO, despertaram no poeta pensamentos desconhecidos. Julgo que esta asserção é importante considerar porque o mesmo acontecerá, certamente, com quem for a lê-lo.

Minhas leituras e outros olhares não é um lugar de certezas, é, sobretudo, um lugar de partilha de emoções. Tudo começa com literatura, com poesia para ser mais específico. Depois, lá segue a ficção a colocar altas doses de prazer na oficina da palavra. E porque a escrita literária não está desligada dessas vicissitudes humanas a que Kafka baptizou de Metamorfoses, Armando Artur pensa o lugar da humanidade no planeta, demonstrando a sua sensibilidade política na interpretação dos fenómenos sociais. Ao escrever sobre a obra do último líder da União Soviética, por exemplo, afirma:

Há muito que se aprende lendo Perestroika de Mikhail Gorbatchov. E também há muito que se diga sobre o mesmo livro. Muitas das questões e análises trazidas ao de cima mantêm-se actuais. Se o processo moçambicano pode ou não aprender com a perestroika, eu diria que sim, e muito!, uma vez haver, em muitos aspectos, semelhanças e dissemelhanças (p. 70).

Nesse excerto, Armando Artur refere-se ao contexto político moçambicano, que, no passado, tanto se inspirou no marxismo-leninismo e no stalinismo soviético. O poeta sabe, com efeito, o que a restruturação gorbatchoviana significa num país em que a corrupção e os jogos de poder que a preserva envergonha todo um Estado, como se tem dito, com tudo para dar certo.

A referência à Perestroika, neste livro, parece-me muito oportuna para o contexto em que vivemos. Armando Artur soube ir buscar a algum lugar, lá atrás, um livro decisivo para entender a actualidade sem confrontos, possivelmente, indelicados. O bom trato intelectual, disfarçado em poeta e num exercício de memória possibilita-lhe dizer muito sem ter de atravessar atalhos armadilhados.

O que começa com a badalada Perestroika, continua com Os condenados da terra, de Frantz Fanon. Esse é outro livro obrigatório para quem pretende aprender a pensar o país e o continente. No seu texto, Armando Artur provoca o leitor, convidando-o a responder a perguntas retóricas. Por isso, ao invés de algumas respostas: “Deixo aqui o leitor, dentro da sua liberdade, fazer as suas próprias conjecturas”, (p. 77).

Com a menção a’Os condenados da terra, Armando Artur faz uma ode ao pensamento africano, lembrando-nos que, à semelhança do passado, não devemos tolerar qualquer tipo de opressão. Portanto, o poeta, com estas Minhas leituras e outros olhares, faz da literatura um excelente objecto semiótico na busca pela compreensão do indivíduo, do território nacional e do espaço continental. Pode-se reconhecer esse apanágio em “África responde a Sarkozy”, um texto acutilante, profundo e reflexivo, em que o autor exibe perspicácia na revisão bibliográfica.  “África responde a Sarkozy” trata de temas muito actuais, desde o colonialismo, o racismo ou mesmo o preconceito sempre baseado em coisas fúteis.

Para terminar, leio aqui duas passagens que, de alguma forma, resumem o que disse até aqui e que justifica a leitura desta obra. A primeira passagem é extraída do prefácio assinado por Ungulani ba ka Khosa. Diz o seguinte: “É sempre reconfortante conhecer a estante de livros dos escritores e poetas. É lá que descortinamos as suas grandes famílias literárias e, por vezes, assistimos, deslumbrados, à emersão de parte da oficina literária”, (p. 7).

A passagem seguinte, com efeito, é do próprio Armando Artur: “Penso que qualquer que seja um texto literário, neste caso, da lavra de um poeta, haverá nele inegavelmente marcas da sua vivência literária e social”, (p. 14).

Ambas as passagens são testemunhos de toda essa carga textual que proporcionam ao leitor, aos potenciais escritores e estudiosos de literatura, matéria indispensável para pensarem a escrita de Armando Artur e dos autores sobre os quais escreve. Há-de ser por reconhecer a relevância disso que, umas semanas depois de ter tido o privilegio de publicar, no jornal O País, o que agora é primeiro texto do livro (não digo o título de propósito, para que fiquem curiosos), um agente de um poeta brasileiro enviou-me um e-mail a solicitar os contactos de Armando Artur, sem esconder a admiração ao nosso poeta ou pelo menos ao seu texto. O agente estava deslumbrado com esse primeiro texto deste livro e… mais não digo porque as narrativas abertas, claro está, estimulam a imaginação.

Muito obrigado a todos!

 

[1] Texto escrito de cor (e ampliado) na sequência da apresentação do livro Minhas leituras e outros olhares, de Armando Artur. A cerimónia de lançamento realizou-se dia 8 de Dezembro, na AEMO.

Por Armando Artur

Acontece um pouco por todo o lado, e de forma recorrente, o público leitor ser presenteado com peças textuais publicadas tanto nas redes sociais quanto na imprensa escrita. Para os que estão atentos ao fenómeno,  são artigos da lavra, invariavelmente, das mesmas pessoas, quer seja no Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, entre outros espaços de expressão portuguesa, e não só, ora assinando pelos próprios nomes, ora, para confundir,  sob pseudónimos, mas com o objetivo inexorável e iniludível de assassínio de carácter.

É uma prática que decorre da tomada de consciência da sua própria pequenez, da sua crónica invisibilidade, do seu distante reconhecimento, cuja manifestação traz ao de cima a falta de educação básica em termos de civilidade e urbanismo. Este fenómeno manifesta-seem vários sectores de actividade da sociedade, desde os campos políticos, económicos, académicos aosartísticos-culturais. Digamos que é um velho e execrável paradigma de afirmação a todo custo, mesmo que para isso seja necessário urinar nos pedestais da História colectiva ou mesmo daqueles que, em algum momento das suas vidas, tenham sido fundamentais como suportes, o que configura pura ingratidão de quem, claramente, enferma de complexo de Édipo! O que importa, sim, é tornar-se conhecido na sociedade, não pela postura irrepreensível, pelo lado do trabalho árduo e abnegado, pela qualidade desse trabalho, mas sim tornar-se uma espécie de vilão “respeitável” efamigerado, pelo desplante e atrevimento de, sistematicamente, pôr em causa aqueles que são referências positivas da sociedade. Por isso é que se vai pelo lado mais fácil, de baixeza, de falta de pudor,bastando para isso apenas coragem, mas muita coragem, como faz qualquer um sicário.

Acreditam, esses protagonistas, que atacando os íconesdo orgulho colectivo, estarão ascendendo ao patamar da grandiosidade, da visibilidade social. Pena. Mas não o fazem sem que antes tenham ingerido uma poção mágica, seja ela de inveja ou raiva, consequente de um diferendo qualquer entre eles próprios e as suas vítimas. Muitas das vezes até nem é preciso existirdiferendo algumContenta-lhes somente o “showoffismo” exibido aos que os rodeiam em conversas de café ou bar, por terem ousado tamanha proeza! É um problema comportamental, como também de quem não podendo ascender de uma forma o faz lançando pedras, para desfrutar de alguma glória que lhe falta.

 

O berço social, tal como afirmam os psicólogos, determina sempre o comportamento ulterior de cada indivíduo, a sua actuação no dia-a-dia, e o seu ser-e-estar, sintetizando. Em muitos casos ainda, são simplesmente problemas patológicos, em consequência de alguns traumas sofridos na infância ou no decurso do processo vivencial. O mal maior é quando tais “ilustres” têm acesso fácil àquilo que eu designaria de códigos de armas de destruição maciça”, neste caso os meios de comunicação social incluindo, naturalmente, as redes sociais.

Vem isto a propósito de um texto muito elucidativo da autoria de Eugénio Lisboa, partilhado no dia 12 de dezembro de 2021 por Carlos dos Santos, na sua página do facebook. Pela importância e abrangência darealidade que o texto retrata, replico-o aqui para que, eventualmente, o público leitor não seja surpreendidoquando confrontado com situações similares. Ei-lo:

«HÁ TRIUNFOS QUE SÓ SE CONSEGUEM PELO PREÇO DA ALMA, MAS A ALMA É MAIS PRECIOSA QUE TODOS OS TRIUNFOS.» 

Rabindranath Tagore 

Todos nós os conhecemos, os que vendem diariamente a alma ao diabo, para receberem mais uma honra, um prémio, um título, um penduricalho, uma homenagem. A caça ao triunfo é um desporto que abunda por aí. Discípulos do Rastignac, de Balzac, atropelam tudo e todos, denigrem aqui, autopromovem-se além, lisonjeiam acolá, prometem, ameaçam, namoram, prostituem-se, porque sabem que, não havendo verdadeiro mérito ou havendo-o diminuto, os caminhos para a glória são outros: duros, trabalhosos, obstinados, enviesados, torpes, se necessário, gastando nisso uma energia nervosa que teria podido ser melhor empregue, trabalhando mais e intrigando menos. 

 

Na classe dos escritores, este tipo de esforçado puxador de cordelinhos, que alterna entre a manipulação subtil e o esticão grosseiro, que usa as graças sociais mas não desdenha, ocasionalmente, o pontapé boçal, encontra-se por todo o lado, mas alguns atingem, nisso, um apuramento genial, que de todo lhes falta na obra que assim promovem. 

Somerset Maugham, homem amargo e cínico, mas exímio observador das bizarrias humanas, escreveu, sobre estes manipuladores incansáveis da própria glória, um romance admirável: CAKES AND ALE, que recomendo calorosamente aos nossos aspirantes à glo-glória, como exaustivo manual de operações que lhes afine a técnica de que precisa a sua desmedida ambição. Nada se ensina melhor, nesse romance perfidamente analítico, do que a arte de esconder uma ambição devoradora por detrás de uma falsa humildade. Tartufos consumados, vestem os vícios com os trajos das virtudes e, depois de se servirem dos outros como seus servidores e promotores, dão-se ares de nada daquilo lhes dizer respeito, fazendo-se muito surpreendidos por uma honra afinal buscada e arrancada sem elegância. No mundo da escrita, como no mundo da religião, como no mundo das universidades, raramente sopra o vento do sagrado. São mundos darwinianos, em que triunfam, frequentemente, não os mais fortes, mas os mais desmunidos de escrúpulos. Conheci e conheço alguns destes exemplares, que habitam o meu zoo privativo. Tenho a certeza de que povoam também o jardim zoológico de La Bruyère. Mas não estou agora com pachorra para o ir confirmar. Molière também os não deixou escapar, marcando-os, para a eternidade, com o ferrete mordente do seu génio. 

Eugénio Lisboa

Surpreendeu-me há dias, ler o poema “Novos Antiparadigmas”, da lavra do poeta Armando Artur, a circular pelos WhatsApp. Surpresa primeira encontro-a mesmo na preocupação do poeta, velada no título do poema. Se encaramos o antiparadigma enunciado pelo poeta como um acto de ruptura com os paradigmas imperantes nas estruturas da sociedade, um poeta contrariado com esse rompimento será sempre um ser elevado a condição de simples relíquia de museu, cuja marcha histórica ocorre unicamente pela acção do espanador.

E logo no primeiro e segundo versos do poema “Novos antiparadigmas”, perito em dividir para reinar, o poeta evoca “Alianças e armistícios/Que tardavam a chegar”, como quem receia algum caos, face a uma concórdia alheia. Todavia, a literatura não é um lugar de relações inconciliáveis, entre os deuses e outros espíritos do além. Uma área de pensamento, abrirá hoje espaço para discórdias, como também dará lugar a aproximações; isso não deve constituir preocupação para ninguém, salvo talvez para algum ululante pretenso senhor de crocodilos.

Por uma questão de ordem natural da existência humana, uns nascem antes dos outros, e é também natural que os primeiros ocupem antes alguns territórios, sejam eles espaços físicos ou interacções sociais, todavia a primazia do parto não torna ninguém dono daquilo ou daqueloutro, pois um homem digno de assim ser considerado será sempre senhor das suas próprias escolhas, mesmo perante uma ilusão de óptica, gerada por qualquer espelho dos dias, em bandeja de prata recheada de cervejas e codornizes.

O poeta de “Novos Antiparadigmas” acredita ainda que “Em política, / Tudo que parece é / Mas em literatura, / Tudo que parece só parece / E o que é sempre será!”

Podendo criar “amizades”, e sendo igualmente polido, o poeta de “Novos Antiparadigmas” coexiste com um político, quase que numa irreconciliável dualidade. Como político, aos olhos dos demais, agirá nas relações de amizade que estabelece, buscando parecença de adestramento do outro. Mas, como poeta, afinal sabe, de facto, que em literatura tudo que parece só parece. Até ser maior poeta vivo, só se parece. Epítetos do tipo Alexandre, o Grande, não merecem espaço na literatura, em detrimento de uma coexistência, na qual cada escritor faz o melhor no seu próprio texto. Moçambique é terra de poetas, não há lugar no poema para um único maior poeta vivo. Mas visando sempre manter esse estágio de vanglória, o poeta agora incendeia-se no verso, e segue: “O inimigo nunca foi o crocodilo do Nilo/Mas sim os seus omnipresentes criadores.”

Que omnipresentes criadores? O crocodilo do Nilo estabelece uma relação de coexistência com uma pequena ave, o pássaro-palito que se alimenta dos restos de carne das presas (em literatura entenda-se como carne ideias, pensamentos, etc) que ficam entre os dentes do réptil. Também, às labaredas um dia, o pássaro-palito poderá julgar-se criador/dono do crocodilo?

Se assim for, face a qualquer vento de mudança, de fogo no bico, o pássaro-palito procurará  calcinar e assassinar o carácter alheio: “O crocodilo tem sempre um dono/Não importando se da faraónica linhagem ou não!”

Hoje, face a necessária mudança do paradigma segregacionista, entre poetas da faraónica linhagem e “plebeia”, já em desespero de causa, o poeta não sabe onde começa e termina o político, confunde tudo, erige humanas esfinges (aliás, nisto de estátuas a experiência política é sempre providencial), mas o poeta há muito advertira: não apresse o rio, ele corre sozinho!

Há momentos na vida em que as palavras dizem muito pouco e são incapazes de sugerir a “exactidão” de um instante. Quando a menina do vestido vermelho apresentou-se ao palco do Cine Scala, ontem à noite, como que a preencher o silêncio de cor e movimento, as palavras deixaram de ter sentido. Afinal, mal se podia adivinhar o que estava por vir. O Coro  Xiquitsi, certamente, sabiam de tudo e, com recurso àqueles sons indecifráveis que produziam com a boca e com os pés, ajudaram a tornar o momento sublime.

A menina do vestido vermelho chama-se Lenna Bahule. Canta que só ela sabe arrepiar. Por isso, foi uma das vozes convidadas a participar no concerto de encerramento da Temporada de Música Clássica, em Maputo. Entretanto, Lenna foi muito além disso. Numa noite em que os astros conspiraram a favor, a cantora reclamou protagonismo para si ao interpretar a sétima música de Nômade, seu álbum de estreia. “Essa música chama-se ‘Kungô’ e é uma música da minha autoria”, afirmou a cantora, num compasso que não se viu mais no Scala. Pelo contrário, Lenna Bahule tornou o exercício do canto coisa maleável. Deixou-se acompanhar pelo Coro Xiquitsi como se tivesse nascido para aquele momento. Ora com a voz e com os gestos, ora com as mãos batendo nas coxas ou com os pés batendo no chão, Lenna tornou a emoção inteligível e conduziu o auditório a uma dimensão longe da terra.

“Kungô”, na verdade, é um vocábulo inventado a partir de uma língua que não existe. Ainda assim, no contexto do álbum Nômade, aspira significar ‘canção do povo’, do proletariado, funcionando como uma marcha rumo à justiça social, à conquista de melhores condições de trabalho. Logo, no concerto de Fim do Ano da Temporada de Música Clássica, Lenna e o Coro  Xiquitsi, de pés descalços, fizeram vibrar o palco e os corações de todos aqueles que não resistem a uma performance além dos padrões habituais. Em jeito de marcha…

O momento Lenna Bahule durou seis minutos. Muito poucos. Pelo poder criativo que a cantora demonstrou, merecia estar em palco mais tempo. Mais do que todos outros convidados, Lenna encaixou-se perfeitamente no rigoroso desempenho vocal do Coro Xiquitsi. Portanto, a autora de Nômade elevou a expectativa com uma exibição que só não foi perfeita porque a perfeição é uma constante busca.

 

De Estevão Chissano a Stewart Sukuma

Se calhar, não estava previsto que Estevão Chissano, formado no Xiquitsi, voltasse a merecer tanto protagonismo. O que estava previsto era a “Missa para o meu Sol, Kyrie, Glória, Credo, Sanctus e Agnus Dei”. Aí a noite foi de música clássica no rigoroso sentido da expressão. Orquestrou-se a Chissano na direcção de Kika Materula, que, até esse momento, ocupava um papel aparentemente secundário. Depois de 17 minutos de música composta por Chissano, que admitiu ao Xiquitsi em 2014 e já compôs 14 obras, lá vieram os aplausos a reconhecerem um compositor distinto.

E aquele não foi o único momento Chissano. Mais tarde, Stewart Sukuma deu-lhe créditos da orquestração de duas músicas suas. Por exemplo, “Xitchuketa marrabenta”. O menino, sincero na sua humildade, ficou todo embaraçado e aceitou, uma vez mais, os cumprimentos dos colegas, do próprio Stewart e do auditório que não se fartou em aplaudir.

Além de “Xitchuketa marrabenta”, Stewart Sukuma interpretou “Why” (com arranjos de Daniel Moreira), “Batata-doce” (arranjo de Humberto Tandane), “Felizminha” e “A inadiável viagem”, música inspirada na escrita de Luís Carlos Patraquim. Nada mau, mas os músicos não precisam de se alongar em discursos ao fim de cada tema que interpretam num concerto. É aborrecido e ficam ali a parecer políticos em dias de campanha. Nesse pormenor, lá voltamos a ela, Lenna Bahule foi um bom exemplo. A cantora não falou mais do que devia e cantou mais do que se pretendia. Surpreendeu. Já Stewart, não se pode negar a simpatia e o carácter demasiado conversador. Nessas suas investidas, bem, o músico foi assertivo ao lembrar os “mestres”: Calane da Silva e Hortêncio Langa. Oportunamente, lamentou a perda dos artistas, mas não se poupou de contar histórias longas para uma noite como de música clássica.

Em memória a Calane da Silva, à data do falecimento membro da Associação Kulungwana, Kika Materula convidou Sónia Sultuane a dizer poesia que, numa edição anterior da temporada, tinha sido o “menino da Malanga” a declamar.

 

Deltino Guerreiro e o King da Marrabenta

Deltino Guerreiro subiu ao palco do Cine Scala cantando “Baba yetu”, de Christopher Tin. Essa música não valorizou as virtudes vocais do artista e nem foi dos melhores momentos do Coro e Orquestra Xiqutsi. Se os artistas correm atrás de prejuízos, foi o que Deltino Guerreiro, o Coro e Orquestra Xiquitsi fizeram no momento seguinte, afinal lá se interpretou “Eparaka” e, depois, “Sonhos”. Ao interpretar as suas próprias músicas, aí, sim, percebeu-se por que Deltino Guerreiro é um dos mais interessantes cantores moçambicanos da actualidade. Em geral, o Eparakaman esteve desinibido, preparado e, portanto, não desiludiu.

Quem também não desiludiu foi o King ou um dos Kings da Marrabenta: Dilon Djindji. Logo ao subir ao palco, aplausos. E quando começou a interpretar “Podina”, o Cine Scala se transformou numa espécie de palco de temporada de música popular moçambicana.

Aos 94 anos de idade, o King de Marracuene cantou, dançou e, talvez, deixou-se deslumbrar pelas vigorosas jovens “Podinas” que, à sua frente, mexeram as ancas, sensuais, como se a encarnação fosse tudo aquilo. Uma coisa é certa, Dilon Djindji não fingiu indiferença. Tem 94 anos, é de carne e osso. Reparou nas meninas e, como se impunha, manteve aquela chama acesa típica do estilo que criou ou que ajudou a criar.

 

As Formigas do Tavinho, segundo livro de Almiro Lobo na qualidade de ficcionista, depois de ter publicado O Berlinde com Eusébio lá dentro (2016), é um fresco para a memória. Mais adiante, tentarei explicar por que atribuo a qualidade de ficcionista ao autor, mas, por enquanto, vejam comigo, e a propósito da formiga, essa diligente, trabalhadora, persistente e incansável criatura, a associação que faço entre ela e a memória.

Entendo a memória como processo contínuo de construção e reconstrução de sentidos e destinos. Mas é interessante pensar, e isto tentarei explicar também mais adiante, que a construção ou reconstrução da memória pode ser alheia às nossas próprias vontades, qual um arrumador de missangas no fio do tempo. Pode ser que de agentes desse processo, às vezes passemos a seus pacientes. Ou seja, pode ser que a memória seja o nosso destino formigueiro. É, de resto, a delicadeza formigueira que neste livro ressalta da arrumação de cenas do passado, com base no recurso que o autor faz ao verbo afinadíssimo, lapidado – amiúde a lembrar um clássico como Nós Matámos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana –, com recurso ainda ao humor, discretamente ou ironicamente construído, como afinal convém ao jogo da sedução ficcional; aliás, o humor é um expediente usado pelo autor para revestir a memória de um profundo sentido de humanidade, como podemos ver no texto «O poder da chave»:

 

Viajando de carro de Quelimane a Maputo, precisávamos de parar em Gorongosa para um café despertador. Ainda eram 5 horas da manhã. Os restos da noite digladiavam com o romper do dia. À entrada de um edifício com o pomposo nome de “Café Restaurante”, a conversa com um sonolento trabalhador:

‒ Queríamos tomar café ‒ dissemos, quase em uníssono.

‒ Não temos.

‒ Nós temos. Só queremos água quente ‒ continuámos.

‒ Ainda não temos.

‒ Mas pode aquecer água? ‒ insistimos.

‒ Pode. Mas vai demorar por causa da lenha: está na despensa.

‒ Não há problema. Vamos esperar ‒ éramos nós, já pensando que, depois daquele sítio, dificilmente encontraríamos outro “Café Restaurante”.

‒ O dono da chave da despensa ainda não chegou. Ouvi dizer que está doente! E vive um pouco longe daqui!

Desistimos. O poder da chave venceu-nos. E “pouco longe” em Moçambique é outra coisa… (p.49)

 

A minha adjectivação pomposa (“verbo afinadíssimo, lapidado”, “humor de profundo sentido de humanidade”) é a expressão do encanto que me envolveu ao ler o livro, e, quem conheça o seu autor, sabe que ele gosta de contar estórias e fá-lo bem, sem baixar a guarda à vigilância verbal e com esse sentido de humor que nos dá sempre mais um minuto de vida. É caso para dizer que, a conversar com Almiro Lobo ou a ler as suas narrativas, vale a pena perder um minuto na vida, se calhar para não perder a vida num minuto, sobretudo neste tempos pandémicos, pobres em motivos ao menos para sorrir. Enfim, como eu adivinho que muitos o conhecem, acredito, também, que esses muitos vão concordar comigo, mesmo sem terem lido ainda o livro, que o narrador destas estórias confunde-se com o seu autor.

A fusão a que me referi levanta um problema conceptual sobre as figuras do narrador e de autor, sobre o qual não me vou deter, mas que a teoria da literatura manda distinguir para, entre outras razões, não imputarmos a Almiro Lobo a prática de cenas que, de facto, se passaram com ele. A minha ironia pode ser um ataque à teoria, mas tomemos este ataque como uma hipótese. É que o tom quase confessionário destas estórias confunde-nos: este livro não é apenas um produto da ficção do seu autor, mas é também um produto da sua própria vida, o que, de resto, faz jus à segunda parte do seu título: E Outras Recordações.

É verdade que não tenho como provar a afirmação que acabo de fazer, mas tenho como agravar esta suposta provocação, dizendo, por exemplo, que, mais do que a confissão que a segunda parte do título possa revelar, é sobretudo o imaginário do passado que abraça o leitor – com as suas cenas, ideias e figuras típicas – e a atmosfera que o envolve no processo de leitura que me fazem dizer, intuitivamente, que estamos diante de um livro também cheio da própria vida do seu autor. Mas este argumento pode ser refutado, porque há quem não deposite na intuição a qualidade de argumento, uma vez que ela não nos dá elementos de prova. De resto, o que serão as recordações, senão cenas, ideias ou figuras soltas a reclamarem um sentido ordenador dado pela linguagem?

Ora, será na linguagem, no exercício ordenador de mundos a que ela se propõe e impõe, que essas peças ganharão contornos difíceis de frear pelo autor, uma vez que ele é co-substância da mesma linguagem. Então, se Almiro Lobo existe enquanto produto da linguagem (como aliás existimos todos), então ele é convocado a ficcionar: não se pode ordenar o passado sem o ficcionar, já dizia Agustina Bessa Luís numa epígrafe ao Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa.

Portanto, como que a instalar uma contradição, é mesmo pela linguagem ou pelo exercício da ficção, da imaginação, que o autor se revela, fala de si e dos outros realmente, fala do tempo, do passado, da memória realmente. Este livro convida-nos a pensar, por conseguinte, que não há contradição entre ficção e realidade ou que a fronteira entre as duas é uma linha descontínua, que nos permite ora transitar para uma faixa ora para a outra, umas vezes fazendo uma ultrapassagem estratégica à ficção, dando velocidade à realidade, outras beneficiando a ficção, dando-lhe também velocidade. Há quem poderia chamar a isto um dilema. A questão então seria: como resolvê-lo?

Nem todos os dilemas carecem de uma resolução, e se me permitem, assim saio do problema conceptual entre autor e narrador, sobre o qual havia prometido não me deter.

Alguns dilemas animam assim mesmo, porque são dilemas. E é este ânimo que me envolve. Neste envolvimento, detenho-me no ambiente construído por estas estórias, que nos chega em filigrana, como delicados quadros antigos, cinzentos, mas dourados ao detalhe. A este propósito, é flagrante perceber que, em alguns casos, mais do que contar uma estória, o que interessa ao autor ou ao narrador, enfim, a ambos, é fixar essas memórias nas paredes de hoje. Poderão reparar, então, que algumas das entidades ou referências que dão título aos contos são representadas, na estrutura ou economia da narrativa, apenas final das histórias; tal é o caso do conto que dá título ao livro: as peripécias do Tavinho, o seu protagonismo, já previsível no título, só aparece já quase ao secar do verbo. Então, essas referências funcionam, nesses casos, como pretextos para o mapeamento das memórias que ambos, autor e narrador, nos trazem. Este facto denota um falso protagonismo dessas mesmas entidades enunciadas nos títulos, pois o grande protagonista, aqui, é a memória. Neste sentido, assenta bem afirmarmos, com Levi Strauss, que não são os homens que falam através dos objectos, mas estes que falam através dos homens. Ou seja, Almiro Lobo, o responsável deste livro, é vítima do passado, está preso nele, mas é um “querer estar preso por vontade”, como diria Camões. E volto, então, à minha hipótese provocatória: resulta disto que este livro é o reflexo de uma outra narrativa, a narrativa do seu autor, um autor que sofre de passados e suas memórias, memórias que o leitor vai reclamar como sendo também suas, quer tenham a ver com o passado colonial, quer tenham a ver o passado recente do pós-independência, que aliás teima em confundir-se com o nosso presente.

Ao representar esses nossos seres, colonial e primeiro republicano, o autor sugere-nos, por um lado, um mundo polarizado entre a portugalidade e a moçambicanidade, essas outras margens da nossa vida social, cuja transição de uma a outra não se faz sem a tensão, o choque, o conflito ideológico, a violência e a gravidade de uma dor apenas amenizada pelo tom humorístico, terapêutico e reconciliador das suas estórias. Pressente-se também um investimento numa visão anti-maniqueísta desse passado, que questiona e chega mesmo a fazer implodir alguns clichés sociais. O conto “Remédio para não morrer cedo” oferece-nos um belo exemplo de fuga aos maniqueísmos estéreis. Trata-se de um texto que nos sugere a importância do estudo ou da loucura, porquanto deparámo-nos com duas classes sociais, uma escolarizada, representada por um jovem loiro do sétimo ano liceal, e outra «não escolarizada», representada pelo menino-pescador, que só fez a primeira rudimentar. Ora, este último concebia como loucos todos aqueles que estudavam muito, via no jovem loiro a personificação da loucura, por isso evocava o mito “de que estudar muito fazia mal à saúde” (p.23). O narrador-autor aproveita esta deixa para descrever o comportamento do jovem loiro, que, gostando de carros e flores, passava a vida alheio à realidade circundante.

Simbolicamente, temos no conto acima descrito a inscrição dos temas da viagem, evasão, sonho, liberdade, entre outros. Ora, seguindo o raciocínio que esboçamos há pouco, de uma visão não maniqueísta do mundo, percebe-se que autor e narrador acabam usando o motivo do carro, ou, como diria Levi Staruss, o imaginário ocidental do motivo do carro acaba usando-se de Almiro Lobo, resultando esse acto, dessa espécie de personificação, na construção da alegoria do poder da imaginação, que advém (esse poder) do facto de se ter estudado, o que se pode traduzir em quatro ideias preliminares:

  1. É o estudo que nos permite imaginar;
  2. Os que não aprenderam a imaginar, interpretam os factos imaginados dos que imaginam como loucura;
  • Então, a palavra loucura pode ser apenas uma forma de rotular o incompreensível, o inacessível;
  1. Podemos ser todos loucos, porque já fomos um dia crianças.

De resto, a descrição que o autor faz das brincadeiras aparentemente loucas das crianças, ao longo das 78 páginas do livro, brincadeiras comuns às crianças de todo o mundo, diga-se, acaba projectando a infância como o tempo da loucura, o tempo de todas as loucuras. E então força-nos a dizer, com Erasmo de Roterdão, que a loucura pode ser a expressão da sabedoria, esta que permanece guardada nos livros que o menino-pescador se recusava a ler, mas só até ao dia em que ficou a saber que “Quem não estuda, morre cedo! Nós vamos à escola para viver muito mais tempo!” (p.24) Não será caso para dizer que a longevidade exige uma dose certa de loucura?

Se a memória é um tema estruturante das estórias de Almiro Lobo, a infância não é menos. Aliás, chega a ser por implicação que da memória do autor se chega à sua infância e vice-versa. Com efeito, é, geralmente, no tempo da infância e no seu lugar, isto é, em Mepanhira, em Luabo, em Molubo, etc., onde tudo se passa, usando-se o narrador, muitas vezes, de uma voz pessoalizada para nos aproximar das brincadeiras, suas e dos outros, em casa, nos bairros, nos campos desportivos e nas fábricas de então; para nos aproximar das trapaças da escola – em meio as alcunhas dadas aos professores e a processos educativos hoje considerados machistas e um atentado à equidade de género; para nos aproximar também de mitos, tabus, rifões desse tempo colonial e primeiro republicano.

Mas esta aproximação é, não raras vezes, feita com o tom subversivo do humor do contador de estórias que é Almiro Lobo, amiúde a lembrar-me o conto «Dois munda, quatro ganha», de Aldino Muianga. E, por falar em diálogo, este é um livro que dialoga, de forma interessante, por exemplo, com o já citado Nós Matámos o Cão Tinhoso ou com A Cidade e a Infância, de José Luandino Vieira.

Se a infância pode simbolizar o tempo colonial, o antes do nascer da República Popular de Moçambique, a juventude, neste livro, pode sugerir-nos o nascimento da Nação moçambicana. Vemos, aqui, a memória do Centro 8 de Março ou do Centro Educacional de Mepanhira, este último, local onde o autor desempenhara o ofício de professor e onde aprendera que

 

“na sala de aulas, o professor representava o Presidente da República. E o Presidente da República era Samora Machel, admirado como exemplo! Embora a milhares de quilómetros, era como se Samora se tivesse multiplicado. No contacto com a população, descobri que imitar Samora tinha um efeito imediato sobre as pessoas. Imberbe ainda, sobravam-me os gestos, o tom de voz e a estratégia de me mascarar com uma segurança que estava longe de sentir.” (p.38)

 

Trata-se, aqui, de representar o papel aglutinador que esses centros desempenharam e o seu carácter diligente no processo de formação dos continuadores da geração da utopia. Aliás, A Geração da Utopia, de Pepetela, pode entrar para a mesa dos diálogos possíveis com o livro de Lobo, pois os oitomarcistas acredita(va)m no carácter sagrado da pátria, como que a lembrar-nos, agora, a Sagrada Esperança de Agostinho Neto.

Mas se as razões até aqui apresentadas podem ser justas à ideia de que As Formigas do Tavinho e Outras Recordações é um fresco para a memória, assinale-se também o seu tom distópico em relação a essa geração da utopia, que se deixou render perante a erosão político-ideológica de uma Nação que Craveirinha disse que ainda não existia, e cujo raio x é visível em três cartas estruturantes da mentalidade do nosso funcionalismo público, cujas sínteses podem ser lidas justamente no conto que leva o título “As três cartas”:

Primeira carta: “Quando perceber que não está a conseguir resolver os problemas e fazer avançar a máquina, culpe o seu antecessor!” (p.52)

Segunda carta: “Se, depois de culpar o antecessor, ainda não tiver os resultados que pretendia, faça uma ofensiva político-organizacional!” (p.53)

Terceira carta: “Se nada resultou, o melhor é escrever as suas três cartas para quem vier a seguir!” (p.54).

E, por falar no que poderá vir a seguir, deixo os meus votos de que mais livros nos venham da lavra do escritor Almiro Lobo. Muito obrigado pela atenção dispensada e…

Parabéns ao autor!

[1] Texto de Apresentação do novo livro de Almiro Lobo, lançado no passado 24 de Novembro de 2021, no Centro Cultural Português, em Maputo.

Aqui estou

 

no meu rico e empobrecido continente.

 

Vocês sabem que nunca vos pedi asilo nenhum

 

nem por terra, nem pelas nuvens, nem pelos mares.

 

Sei que só os fracos o fazem,

 

e mesmo estes quando vos demandam

 

vão à busca do espólio e dos bustos dos seus antepassados.

 

Em contrapartida, eu, aqui, sou milhões de braços

 

intrépidos e robustos…

 

Vezes sem conta culpam-me vocês de todas

 

as contrariedades do mundo,

 

e até dizem que o infortúnio tem a cor da noite,

 

só porque eu sempre soube da exacta posição das estrelas,

 

muito antes de vocês próprios.

 

Embora me tenham desenganado quando eu quis,

 

acreditaram então que o mundo era somente Partícula,

 

quando eu já remava no anverso da Onda do universo.

 

Agora que sei o que vocês sequer imaginam

 

jamais apelarei à vossa falsa bondade

 

nem mesmo à vossa estranha e obsoleta

 

amizade e solidariedade!

 

 

 

Armando Artur

Cada quantum de luz que trespassa o meu ser

leva sempre consigo uma fracção do meu passado.

in a reinvenção do ser e a dor da pedra, Armando Artur

 

 

Armindo Mathe é poeta e ficcionista. A sua estreia em livro aconteceu em 2017, ao lançar dois livros distinguidos Prémio Literário TDM 2016, designadamente, Romaria: três dimensões do vento (poesia) e (Des)Contos do tempo (contos). Quatro anos depois de se apresentar aos leitores, o autor regressa às publicações com Mito erecto, proposta literária que evidencia a preocupação pelas substâncias indeléveis determinantes na composição do ser/ego.

O novo livro de Armindo Mathe é uma sequência de sobressaltos produtores do que Roland Barthes considera ser ascético, no seu Fragmentos de um discurso amoroso. Ou seja, ao exprimirem sentimentos e, simultaneamente, força anímica, os sujeitos de enunciação de Mito erecto investem numa conduta ascética de autopunição relativamente a quem se revelam. Partindo desta constatação, o lirismo transbordante forma uma declaração que se destina a uma entidade ideal, cuja presença aparentemente intangível concebe emoções desconcertantes.

Em Mito erecto, a interioridade do ser ascético (a colocação também vale no plural) se robustece em situações caracterizadas por alguma ansiedade causada pelo interesse de os eus poéticos concederem acção às palavras. Nesse hiato constante entre o impulso e a iminência, o poeta caminha sensível às reverberações subentendidas do verbo amar. Mas o amor, essa coisa romântica, deveras masoquista, à semelhança da proposição barthesiana, não se reduz ao objecto cantado (corpo/matéria, alma), o amor em si é o princípio, o meio e a finalidade. Logo, ainda que essa entidade invocada nos textos (à laia das velhas musas poéticas) seja ingrata, o exercício lírico tão-somente fortalece a paixão enquanto elemento de fruição.

Os sujeitos de enunciação de Mito erecto não se vêem isolados das impressões do coração que os persuade. Antes assumem um recurso anafórico ao nível do conteúdo textual, utilizando o esplendor da aurora, a quimera, o vento, a alma, o pôr-do-sol e os sentidos na aproximação à voz que se almeja ouvir. Quer isto dizer que, em Armindo Mathe, a poesia está fundamentalmente na possibilidade e na expectativa. O desejo, o sonho e a fantasia integram o substracto de uma aparente prescrição poética. Mas isso não é o que é decisivo na versificação do autor. Não fosse a imprecisão da palavra no sentido pretendido pelos eus poéticos, estas entidades seriam indiferentes quanto ao que Friedrich Doucet, em A psicanálise, designa centro psicológico da personalidade, isto é, o ego. Aí estão sintetizadas as particularidades gerais dos cultores da expressão. É na focalização das propriedades do ser/ego que se fortifica o conceito poético. O verso, em Armindo Mathe, é subterfúgio para se pensar as ocorrências passionais, a oposição e a consequência desses processos sobre ser-se inteiro com o outro.

Entre os registos que compõem o ser/ego no Mito erecto constam a saudade, a súplica e a fragilidade. A força criativa de Mathe revigora-se na fragilidade e no combate à carência. Ora, ao mesmo tempo que se verifica um ensaio contra a carência, percebe-se que com o amor correspondido de todo os sujeitos poéticos não existiriam. A instabilidade emocional é que os favorece. A contrição é sacra na mesma proporção que a idealização do beijo e do que isso significa. Portanto, mais do que amarem o objecto, os sujeitos de Armindo Mathe veneram as complexidades do amor, essas que, no caso, diria Solomon Marcus, tornam a poesia a manifestação de uma contradição entre o carácter flutuante de toda a significação lírica e o carácter discreto de toda a expressão linguística.

Mito erecto é, igualmente, um exercício sobre o instante que dura a separação implícita causada pela partida: “Na hora do adeus/olhos fechados./ Beiços da aurora/ cravada em minha garganta”; “De lábios fechados, vai! Nem adeus nem a Deus/ escreves-me um dia?/ Tenho saudades de ler-te”, (p. 32).

No instante da despedida se convoca o tempo, crucial porque aí os sujeitos poéticos querem se imortalizar, fazendo-se ouvir. O tempo é uma categoria estratégica para alongar a métrica do verso para lá da linha do horizonte, podendo, esse mesmo horizonte, propor o pretérito imperfeito ou o futuro.

Os sujeitos de Armindo Mathe interessam-se com o que não possuem e, sobretudo, por quem não têm consigo. Essa vocação possessiva contribui para a composição do ser/ego envolto à nostalgia, às lagrimas, ao sufoco e à incerteza: “Eis-me, mar! de ouvidos expostos à inquietude do meu eu, irrequieto.”, (p. 52).

Por analogia, Mito erecto é um livro que interpreta relações sociais e opções individuais, estabelecendo paralelismos, causas e possíveis efeitos. O verbo amar é, categoricamente, o centro de tudo, propondo, na verdade, que a composição do ser/ego depende do que os homens cultivam no coração.

Título: Mito erecto

Autor: Armindo Mathe

Editora: gala-gala

Classificação: 14

Li O nome da Rosa, obra de Umberto Eco, faz tempo. É um livro publicado em 1980 e que faz referência à época medieval, séc. XIII. Retrata um acontecimento bastante actual, o de que o saber, que não ocupa lugar e que é sempre necessário à humanidade, é algo que sempre separou águas.

Quem sabe muito, ou é isolado ou é ignorado, para que não sinta o poder que tem, sabemos isso e vemo-lo, em muitos lugares, um pouco por todo o mundo.

Saber é proibido. Sabemo-lo do que já lemos sobre a “Santa Inquisição”. Quem julgava saber, acabava punido a bem punido.

Punidos e imbecilizados foram os nossos antepassados africanos que, sendo os que inventaram a Matemática, criaram a primeira Universidade no mundo e criaram as primeiras técnicas de fundição de metal, entre outras descobertas científicas; em nome do apregoado “progresso industrial” ficaram reduzidos a pedintes e a ignorastes.

Hoje, por mostrarmos que é importante saber e fazer saber, por termos desvendado o véu do famigerado vírus, ficamos isolados do resto do mundo. A ciência é proibida aos africanos , até porque, como sempre se disse que a emoção é negra e a razão é helénica, portanto descobrir Omicron não é para todos. Nós só temos que tocar tambores e dançar ao sabor dos sábios.

Tão elevada é a helenicidade que recua anos e anos de desenvolvimento e de progresso científico, embargando voos, dividindo a humanidade, em nome de desconhecidas mutações de um vírus, ignorando os números de casos activos desses mesmo vírus, em lugares nos quais a helenicidade predomina.

É tal a helenicidade que se coloca de lado a ideia de que qualquer que seja hipótese científica, ela deve ser testada, até que se prove a sua validade, para que se chegue a alguma conclusão.

O saber é proibido aos africanos, tal como ler um livro numa biblioteca num mosteiro, em O nome da Rosa, tenha provocado mortes, por envenenamento, pois descobrir os saberes que estariam em tal Biblioteca, no mosteiro, seria ter poder, ter conhecimento do que não se desejava que fosse conhecido.

E assim é o mundo, quem sabe é castigado, tal como Eva que, tendo descoberto o sabor do fruto da sabedoria, ficou, até hoje, relegada a um ser de segunda categoria e equiparada a uma cobra.

O melhor na vida é ser se ignorante, já o sabemos. Mas o que melhor sabemos é que os medicamentos e a ajuda do ocidente para os países pobres são o melhor da sabedoria da humanidade.

Revolução significa construção, mas também implica sempre demolição.

in Perestroika, Mikhail Gorbatchov

 

A ciência da narrativa comprova que a personagem é um elemento imprescindível no universo da ficção. Definitivamente, cabe àquela entidade a acção da história materializada em determinados espaços. Se, por um lado, não existe um romance sem narrador, por outro, tem de haver personagem a realizar e/ou a sofrer acções.

Conforme entendem Ducrot e Todorov (1998: 210)[1], “a personagem é o sujeito da proposição narrativa. Enquanto tal, reduz-se a uma pura função sintática, sem qualquer conteúdo semântico. Os atributos, tal como as acções, desempenham o papel de predicado numa proposição e encontram-se ligados a um sujeito apenas provisoriamente”. No Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem, os dois estudiosos prevêem que, além das várias formas de manifestação, o nome da personagem já anuncia as propriedades que lhe serão atribuídas. Yves Reuter observa que o nome é, realmente, fundamental para personagem, pois realiza várias funções essenciais: “Antes de tudo, o nome dá vida à personagem, fundamenta a sua identidade e a distingue das outras personagens, o nome remete a uma época ou espaço geográfico”, (Reuter, 2002: 101-102)[2], embora isso não seja, muitas vezes, assim tão inteligível.

Em parte, os apontamentos acima condizem com a descrição e a função da personagem Jei-Jei (nome inspirado no trombonista norte-americano J. J. Johnson), em Museu da Revolução, o mais recente romance de João Paulo Borges Coelho. Em Moçambique, a 14ª obra de ficção do escritor foi editada pela Texto Editores e, logo à partida, é um exercício de memória a interligar diversos fenómenos históricos, políticos, culturais e socioeconómicos. Nas 484 páginas do livro lêem-se as linhas do tempo que vão urdindo situações com momentos de avanço e recuo. Atentando o título do livro e os seus silogismos, de facto, fica evidente o contínuo interesse de João Paulo Borges Coelho em trabalhar as trilhas da História, afinal, ainda incipiente.

No livro há, certamente, um Museu da Revolução. No entanto, a exposição analógica entre o discurso ficcional e a realidade sobrepõem-se ao papel de uma infra-estrutura localizada na Avenida 24 de Julho da Cidade de Maputo. O Museu da Revolução, essa construção ideológica a convocar tempos de um stalinismo exacerbado, ao invés de enaltecer actos de coragem, sendo a coragem uma questão igualmente ideológica, precisou de ser restaurado com recurso à narração fictícia. É aí onde se encaixa o poder criativo de Borges Coelho. Pensando a História como uma série de eventos inesgotáveis, o escritor, numa desenvoltura como já não se via desde Rainhas da noite (2013), revigora o passado através de uma visão muito actual sobre os fenómenos. Ou seja, embora recue para lá da independência de Moçambique, o romancista não perde de vista a vocação de pensar o tempo presente, pois “narrar já é ‘reflectir sobre’ os acontecimentos narrados”, (Ricoeur, 2019: 103)[3]. Nesse exercício, claro está, o Prémio LeYa 2009 redefine a sua escrita na qualidade de um evento que se apropria da diversidade construtora de um território nacional.

As histórias de Museu da Revolução passam-se em vários pontos geográficos, começando no Japão. Esse é o país de Toichiro Yamada, condutor de um Toyota Hiace usado para transportar peixe, que, mais tarde, é importado pelo Coronel Boaventura Damião, um importante empresário moçambicano. O veículo chega a Maputo via Durban (África do Sul), para transportar aventureiros estrangeiros desesperados em acertar contas com o passado, como se fossem exploradores de A cidade perdida de Z (realização de James Gray). Entre essas personagens viajam na viatura a sul-africana Elise Fouché, o vietnamita Phuong e os português Artur Candal e Leonor Basto, conduzidos por Bandas Matsolo pelo país adentro. As histórias destas personagens cruzam-se reciprocamente com a de tantas outras e ainda constituem percursos a um imaginário moçambicano. Todas essas personagens são cruciais para o vigor do romance, contudo, há uma que, de longe, se distingue na construção da narrativa: Jei-Jei.

***

O status de Jei-Jei

No universo ficcional, as personagens são essenciais na organização das histórias. Elas não só garantem a realização das acções, como as assumem, as vivem, ligando-as entre si e dando-as sentido. Este posicionamento de Reuter (2002: 42-43) revela que quanto mais importante for a personagem, mais possibilidades tem de aparecer em certos momentos e de se encontrar com numerosas outras personagens. Pois bem, isso é o que acontece com Jei-Jei, em Museu da Revolução, que subverte os padrões de uma personagem tradicional. Em Moçambique, África do Sul ou Alemanha, territórios nos quais se locomove à vontade, acumula conhecimento demiúrgico sobre determinados episódios contados por um narrador homodiegético, isto é, que participa na história como personagem.

Imensuráveis são os eventos cardinais em que Jei-Jei, maroto às vezes, sobrepõe-se ao conhecimento do próprio narrador. Este cenário não deixa de ser curioso, pois, não obstante a importância de Jei-Jei, Museu da Revolução é uma história abrangente, na qual o protagonismo das personagens é continuamente partilhado. Ainda no princípio do romance, Jei-Jei é descrito da seguinte forma, pelo narrador: “Jei-Jei era prestável, boa pessoa, sabia inglês e mecânica, havia estado no estrangeiro. Além disso, talvez precisasse de um emprego. Quem melhor do que ele para o ajudar? Tudo isto contou Matsolo a Jei-Jei, e este contou-me a mim”, (p. 47).

No excerto, o narrador revela que não é omnisciente quanto à sucessão dos eventos à sua disposição. A sua órbita é restrita. Assim, ao introduzir Jei-Jei, esclarece imediatamente como depende da personagem. Por exemplo, na seguinte passagem, Leonor Basto despede-se do namorado, ansiosa em ir procurar e conhecer a mãe abandonada pelo pai algures no Centro de Moçambique:

 

‘A sério, vou viajar’, insistiu ela [Leonor].

‘Para onde?

Pela cabeça dele [o namorado de Leonor] passou alguma razão burocrática relacionada ainda com a morte de Francisco Basto, um assunto da escola, alguém doente que ela se dispusesse a ajudar, coisas assim.

‘Vou a África.’

Jei-Jei protestou, desta vez de viva voz. Leonor já sabia que vinha a Moçambique. Retorqui que era sempre assim, os estrangeiros tinham dificuldade em referir os países africanos um a um, falavam sempre no continente como se fosse uma entidade singular (p. 189).

 

O que se lê nessa passagem denota influência da personagem sobre o narrador. Em outras palavras, quer isso dizer que Jei-Jei é mais do que um sujeito da proposição narrativa, reduzida a uma função sintática, sem qualquer conteúdo semântico. Jei-Jei ultrapassa a extensão do discurso, ora cronológico, ora anacrónico. Destarte, apenas ele tem o grande privilégio de se aborrecer com o narrador, de o contrariar, corrigir, elucidar ou informar sobre situações por ele desconhecidas. O poder ulterior daquela personagem sobre o universo diegético é deveras evidente, de modo a que o narrador não tem receios em anunciar que certas ocorrências foram-lhe contadas ao telemóvel por Jei-Jei. É esta personagem responsável por fornecer a matéria-prima ao narrador que, mesmo estando inserido no tempo e nos espaços da ficção, mal consegue suprir determinadas limitações. Claramente, o narrador homodiegético possui a liberdade no exercício da linguagem, daí a faculdade de manipulação discursiva segundo o seu próprio critério. Graças a essa emancipação, com efeito, o narrador também contradiz Jei-Jei, quando este parece descrever factos “imprecisos”. Portanto, ambas as entidades constroem o enredo em colaboração, com a personagem a aspirar ser narrador e este vestindo a capa de personagem:

 

Posto de outra maneira, a certeza de que Jei-Jei necessitava das histórias que criávamos para explicar tudo aquilo que acontecia foi perdendo força, transformada aos poucos na constatação do seu inverso, que julgo já de alguma maneira ter referido, de que era eu que necessitava dos acontecimentos que ele trazia para alimentar essas histórias (p. 474).

 

Na verdade, embora no fim da história Jei-Jei apareça, de certo modo, desinteressado, ele tanto precisa do narrador quanto este dele. A conexão entre as duas entidades textuais garante ao romance um vigor estético-literário. Não é o enredo em si ou as situações sobre a História de Moçambique o que mais vale, é a criatividade enunciadora em sintonia com a apropriação dos lugares e de figuras históricas. Se Borges Coelho ficciona João Albasini, em O olho de Hertzog (2010) e Samora Machel, em Crónica da Rua 513.2 (2006), em Museu da Revolução chegou a vez de trabalhar os registos de Ricardo Rangel e Eduardo Mondlane. Ao torna-los personagens do seu romance, o escritor, de alguma maneira, combate o esquecimento, reavivando essas distintas personalidades moçambicanas.

Ora, há outras ocorrências do Museu da Revolução em diálogo com obras anteriores de Borges Coelho. Por exemplo, a forma como o espaço social é configurado na alusão à Cidade de Lourenço Marques e, depois, Maputo, é uma continuação do que o escritor faz na novela Hinyambaan (2008). Nos dois casos, Borges Coelho coloca cidadãos estrangeiros a apreciarem a capital moçambicana, considerando dois momentos diferentes: antes e depois da independência de Moçambique. Em Hinyambaan, na avaliação, destacam-se as famílias Odendaal e du Plessis e em Museu da Revolução Artur Candal. Aí estão outros ângulos na apreciação do espaço urbano real, no entanto, com recurso à visão de seres imaginários. João Paulo Borges Coelho investe tanto na configuração do espaço quanto na caracterização das personagens. Logo, as viagens por África, Ásia e Europa internacionalizam o mapa literário do autor.

Voltando ao narrador, o seu estatuto homodiegético e as intrusões permanentes conferem uma pacífica ligação entre quem narra e quem lê, logo, entre os universos ideal e real também. No caso, as intrusões não servem apenas para acrescentar eventos secundários, mas também para refrescar a memória do leitor relativamente a acontecimentos antes enunciados. Em termos de futuro, tão-pouco sobeja o que dizer quanto às intrusões. Afinal, a viagem no Toyota Hiace (uma bela maneira de inventar coerências à volta da importação de viaturas japonesas pelos moçambicanos)  por diversas campanhas sociopolíticas e geográficas de Moçambique acontece ao ritmo de Jei-Jei. Quando esta personagem se farta de contar ao narrador o que se passou com outras personagens no regresso de Tete a Maputo, o narrador percebe que já não há mais nada a dizer. A história fica estagnada nesse exacto momento. O narrador até improvisa, porém não consegue prosseguir. Estando no universo diegético, sai da sua zona de conforto e vai ao Museu da Revolução procurar por Jei-Jei. Ali pede para a personagem iluminar zonas de penumbra. Jei-Jei, gozando do seu status, contraria a ansiedade do narrador e este poe-se a despedir-se sem esconder o desejo de continuar a contar.

Abreviando, Jei-Jei, ao cumprir a função prevista pela narratologia, extravasa a dimensão de personagem comum. Jei-Jei é a fonte, a ligação entre as outras personagens (que, algumas, o narrador nem sequer conhece) e o próprio enunciador do discurso; é a ponte entre espaços geográficos, entre figuras e momentos históricos. É ele o pretexto para a alusão aos percalços dos madgermanes, regressados da Alemanha, ou às excentricidades do Apartheid, na África do Sul. Enfim, se, segundo Benjamim (1987: 54), “escrever um romance significa descrever a existência humana, levando o incomensurável ao paroxismo”, em Museu da Revolução está claro que João Paulo Borges Coelho valida essa asserção.

 

Título: Museu da Revolução

Autor: João Paulo Borges Coelho

Editora: Texto Editores

Classificação: 17.5

 

[1] Ducrot, Oswald e Todorov, Tzvetan (1998) Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem, 3ª ed. São Paulo: Perspectiva.

[2] Reuter, Yves (2002) A análise narrativa. Rio de Janeiro: DIFEL.

[3] Ricoeur, Paul (2019) Tempo e narrativa 2: a configuração do tempo na narrativa de ficção. São Paulo: VMF Martins Fontes.

 

Eu tenho um sonho/ Uma canção para cantar

Que me ajuda a enfrentar/ Qualquer coisa

Se você vê maravilhas/ Em um conto de fadas

Você pode agarrar o futuro/ Mesmo se você falhar.

in “I have a dream”, ABBA.

 

ABBA é o nome do grupo sueco de música pop muito agradável de se ouvir. Fundada por Agnetha Fältskog, Björn Ulvaeus, Benny Andersson e Anni Lyngstad, em 1972, na Cidade de Estocolmo, o quarteto musical conseguiu ultrapassar fronteiras escandinavas e impor-se em vários cantos do mundo, incluindo Moçambique. Quem não vibrou ao som de “Mamma Mia?”. Esta é uma das composições mais conhecidas do grupo, à imagem de “Chiquitita” e “I have a dream” (interpretada pelos Westlife 20 anos depois da versão original), duas músicas que integram a trilha sonora da peça Um almoço simples em Vällingby, com direcção de Manuela Soeiro.

A música dos ABBA é tocada de forma oportuna na peça radiofónica, pois, tem a delicadeza de conduzir o ouvinte a um certo instante do passado, lá onde Eduardo Mondlane se reuniu com Olof Palme. Pode parecer ficção, mas esse encontro entre os dois políticos, realmente, aconteceu na cozinha da casa do político sueco, em Vällingby, subúrbio de Estocolmo. Para muitos, esse é um evento desconhecido, embora se saiba que a Suécia apoiou a independência de Moçambique. Quiçá, por essa razão, Henning Mankell escreveu uma peça que ficciona o encontro entre Mondlane e Palme longe dos habituais holofotes diplomáticos.

Na versão moçambicana, com efeito, a peça radiofónica dura 39 minutos fugazes, suficientes para Eduardo Mondlane (Jorge Vaz) e Olof Palme (Adelino Branquinho) apresentarem lições para a vida política actual – com tanta gente quadrada – e aos homens de todas as cores, sobretudo quando realçam que o que nos une são as semelhanças, e não as diferenças. Este cenário parece utópico, algo desacertado ou surreal. Por isso, o então líder da FRELIMO pergunta ao social-democrata sueco. – Como vamos conseguir unirmo-nos à volta de alguma coisa, neste mundo, quando nem o aspecto do céu estrelado nos une?

A pergunta de Mondlane é feita num ambiente muito informal, imagine-se, Palme fritando salchichas, batatas e ovos, um almoço sueco comum, para servir ao seu hóspede. Durante a cavaqueira, pode-se ouvir o líder da FRELIMO expressando a sua admiração pela Suécia, um país que, no tempo da história (1962), ultrapassou problemas relacionados com analfabetismo. Entre vários pontos de discórdia, ambas as personagens concordam que é possível construir um mundo livre de violência. Logo, Um almoço simples em Vällingby é, também por isso, uma peça onde se cruzam sonhos intercalados com um debate ideológico eloquente. Nesse momento específico da conversa, lá se ouve “I have a dream”, de ABBA, uma composição de esperança a unir os dois políticos numa ideia de futuro. E esse futuro pode ser a actualidade. Logo, a conversa entre Mondlane e Palme, explorando temas como racismo, colonialismo, tradição, identidade, sonhos e, sobretudo, liberdade, é assaz lúcida para construir em cada território humano (interessado) a paz e a concórdia tão ausente num mundo cheio de tensões.

Na peça, adivinha-se um Palme desinibido, talvez por estar em sua casa, e um Mondlane, em alguns momentos, comedido, todavia capaz de expressar os seus propósitos em torno da luta armada pela independência de Moçambique. Nessa questão, Mondlane não deixa de referir ao projecto de justiça ou de sociedade justa para Moçambique.

No entanto, não obstante o respeito recíproco, a conversa na cozinha não esbanja em falsas unanimidades e tão-pouco em vivas ou abaixo. Os dois políticos tanto concordam quanto discordam, sem nunca abandonarem a retórica (e a sensatez), recurso refinado de persuasão/ dissuasão. Por exemplo, numa passagem em que Palme diz que a Suécia está a caminho de uma sociedade justa, Mondlane lembra: “Não nos podes comparar a um país independente há séculos, que nunca teve colónias e que nunca foi colonizado. Vocês não têm uma guerra há 150 anos”. O líder da FRELIMO termina a frase com alguma perturbação. Tácita, é verdade, mas simultaneamente audível. Ora, ninguém se envaidece com isso. Pelo contrário, cada um dos políticos tem o seu momento de oposição.

Depois de Mondlane o ter chamado ingénuo, numa circunstância que humaniza essas duas grandes figuras do século passado, Palme riposta: Nesse caso, o ingénuo és tu, Eduardo. Não acredito que seja possível uma justiça absoluta numa sociedade democrática. Para isso, é preciso imposição, imposição ditatorial. No entanto, é possível atingirmos uma sociedade justa, sem perdermos a liberdade. É nisso que reside a base das minhas convicções políticas. Por isso sou social-democrata. E, por isso, me afastei do comunismo totalitário.

A seguir, Mondlane diz o que não parece um juízo próprio, mas imposto: – Não acredito que haja um futuro para Moçambique sem uma direcção comunista, depois de termos expulso os portugueses, claro. A ser proferida por Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo ou Samora Machel, a frase convence. Entretanto, por Mondlane, há uma incerteza que paira no ar. Seja como for, mesmo quando há divergências, a peça radiofónica lembra que o mais importante entre as pessoas é o respeito mútuo. O “revolucionário” e o reformista, durante o almoço, afiam argumentos e não facas e ainda demonstram como a palavra pode ser bonita, quando bem usada.

Na peça estão representados políticos iluminados, viajados, cultos, equilibrados e de mentalidade aberta, tão difícil de encontrar actualmente. E como excelentes políticos, Mondlane e Palme agitam águas sem gerar tempestades inconsequentes. Afinal, como os ABBA, as personagens interpretadas por Branquinho e Vaz acreditam em anjos se assumirmos que os seres celestes personificam tudo de bom em todas as coisas que se vêem ou sentem-se.

Portanto, Um almoço simples em Vällingby é mais do que uma peça radiofónica de ficção, é uma experiência incisiva sobre o passado de Moçambique, sobre as relações entre Moçambique e Suécia, produzida de tal forma verosímil que é impossível o ouvinte não pensar no poder transformador da arte.

Na voz de Jorge Vaz e, principalmente, de Adelino Branquinho – actor de classe mundial num país pobre – Um almoço simples em Vällingby alimenta a alma e o Homem com conhecimento, elegância e arte nas palavras. A peça é radiofónica, certamente, entretanto, cheia de imagens. As personagens, com efeito, conseguem preencher espaços e momentos vazios e dar clima e movimento às coisas. Um almoço simples em Vällingby é uma peça categórica, na qual a simplicidade descodifica os mais complexos fundamentos do mundo contemporâneo. É do melhor que se pode levar à rádio, pois, ao mesmo tempo que a peça enaltece duas figuras históricas pertinentes, reverbera as peculiaridades da arte.

Ouvir Um almoço simples em Vällingby pode ser uma maneira lúdica de pensar Moçambique e o mundo através das memórias de duas figuras políticas que não merecem ser asfixiadas pela História (oficial).

 

Título: Um almoço simples em Vällingby

Texto original: Henning Mankell

Direcção: Manuela Soeiro

Peça radiofónica

Classificação: 17

Recrutamento é um processo da área de recursos humanos que visa a partir de um conjunto de técnicas e procedimentos atrair o candidato ideal para a organização. Embora tenhamos a impressão que seja apenas uma parte ínfima deste departamento, tenho a convicção que o sucesso de qualquer organização depende essencialmente do bom desdobramento deste processo. Quando as organizações recrutam os candidatos compatíveis  com a mesma, o nível de *turnover é relativamente baixo e o nível de motivação dos colaboradores é consideravelmente elevado.

 

Critérios para um recrutamento eficaz

 

Cada recrutador ou organização estabelece seus próprios critérios para atrair os melhores candidatos que o mercado oferece. Os critérios variam e não acredito que uns critérios sejam melhores do que os outros, pois dependem do tipo de candidato que se pretende recrutar mas também da organização que o pretende recrutar.

 

De uma forma geral diria que para atraírem candidatos as organizações utilizam frequentemente as famosas ofertas de emprego clássicas, onde os anos (cinco, dez anos) de experiência num domínio específico, o nível acadêmico (ultimamente mestrado) são os critérios de destaque e por vezes exigência de conhecimento de um software específico comprovado. Para muitos recrutadores as ofertas clássicas de trabalho constituem a base única para atrair e selecionar os melhores candidatos. A minha experiência me permite dizer que  estes critérios servem para eliminar prematuramente potências bons candidatos. Não obstante o facto de também continuar a utilizar, em certa medida, tenho me apercebido que a maior parte das ofertas de trabalho descrevem um modelo de candidato ideal para ocupar um certo posto indicando o que o candidato deve ter e não necessariamente o que o candidato deve fazer para  atingir os resultados esperados. Acredito que nada garante que mestrado ou dez anos de experiência possam trazer resultados pretendidos pela organização. Mestrado é apenas um título, não uma competência. E no que concerne a anos de experiência; não será mais experiente o candidato que em  dois, três anos passou por duas grandes organizações, efectuou tarefas distintas e que foi liderado por dois gestores com modelos de gestão completamente diferentes, em detrimento do candidato com dez anos de experiência na mesma organização, com conhecimento de apenas um ano repetido dez vezes? Acredito fortemente que sim. Praticamente a mesma reflexão sobre conhecimento de um software determinado, se um candidato já tenha trabalhado com algum software (similares) no passado, aprender o funcionamento de um novo não poderá ser assim complicado. Pois não?

 

Não estou aqui a dizer que experiência e formação acadêmica não são critérios a serem tomados em conta, acredito apenas que a presença destes critérios  nas ofertas de trabalho impedem  automaticamente certos  potenciais candidatos ideais as organizações de se candidatarem. As organizações não (deviam) procuram(r) candidatos com mestrado, as organizações (deviam) procuram candidatos capazes de fazer o trabalho desejado de modo a atingir os seus objetivos. Colocar mestrado na oferta de trabalho como critério de seleção é uma suposição de que os candidatos com este nível acadêmico reúnem condições para fazer o trabalho corretamente. Mas cá entre nós, sabemos que nem sempre é o caso. Sendo assim, porquê então não se dá oportunidade a outros candidatos?

 

Ofertas de trabalho clássicas que indicam frequentemente o que os candidatos devem “ter” para atingir os resultados esperados e não o que devem “fazer” para atingir os resultados.  

 

Imaginemos um Director de Recursos Humanos de uma grande organização (STV por exemplo), que durante sua carreira tenha feito parte do conselho de administração da organização, tenha representado a organização em vários encontros de negócio internacionalmente, tenha sido um dos conselheiros do CEO na tomado decisões ligadas à saúde financeiras da organização e que simplesmente porque não tenha Mestrado em Gestão de Negócios não possa concorrer a uma vaga como CEO da mesma organização ou de uma outra organização. Não será um absurdo? Dizemos muitas vezes que é difícil encontrar certos quadros para certas áreas, mas eu acredito que são muitas vezes os nossos critérios e a nossa fraca qualidade de recrutamento que nos impedem de os desenterrar.

 

Meu sobrinho Yuri disse outra vez, tio quero me formar em óleo e gás, quero mesmo fazer mestrado nessa área. A minha pergunta foi, o que é se formar em óleo e gás? Porquê escolher essa área? A resposta foi, porque é o que está a “bater”.  Não acredito que seja este tipo de candidato (com mestrado) que as organizações procuram. “Claro que depois de alguns conselhos do tio sobre orientação profissional, o jovem optou por outra via mais adaptada à sua personalidade e competência”.  

 

                                               Como detectar os melhores candidatos

 

Muitas vezes acreditamos que os candidatos são os únicos que devem estar preparados para as entrevistas de trabalho. Pois os recrutadores devem estar mais preparados do que os candidatos para a entrevista.  Certamente que o caro leitor já esteve em entrevistas de trabalho e que pela fraca qualidade do recrutador, o caro leitor tenha perdido interesse em fazer parte da organização ou mesmo tenha se apercebido que não aprendeu nada durante o encontro. Estes são alguns dos sentimentos que temos quando  os recrutadores não se preparam para o encontro.

 

Um recrutador mal preparado causa uma má impressão da organização e pode ser motivo para que alguns candidatos não queiram continuar com o processo, um recrutador mal preparado não faz as melhores perguntas para tirar o melhor do candidato. Uma boa preparação para detectar o melhor do que o mercado oferece é primordial. Para começar devemos enquanto recrutadores estar emocionalmente preparados para não nos deixar influenciar pela primeira impressão: acreditamos geralmente que a primeira impressão é que conta, pois não. Esta pode ser enganadora. E o que normalmente fazemos quando nos baseamos na primeira impressão é nos comportarmos com o candidato para confirmar essa primeira impressão. Fazemos perguntas difíceis para confirmar que o candidato não é qualificado ou fáceis para confirmar que o candidato se encaixa. Organização do espaço:  a ideia deste meeting (prefiro chamar assim ao invés de entrevista)  é poder tirar o melhor do que o candidato possui, daí que o mesmo deve se sentir o mais à vontade possível. Para isso temos de preparar o espaço de modo que estejamos ambos em pé de igualdade, de preferência numa mesa de formato  redondo. Meeting e não entrevista: devemos preparar as nossas questões de modo que o candidato não se sinta num interrogatório, mas sim em uma conversa amigável. Descrever o trabalho e o funcionamento da organização: uma descrição mais detalhada do trabalho por parte do recrutador ao candidato, lhe permite ter uma ideia mais clara das tarefas e assim poder responder as perguntas com melhor conhecimento, mas também lhe permite trazer elementos novos que o recrutador não imaginava questionar.

 

Para selecionar o candidato ideal capaz de fazer o trabalho e atingir os objectivos da organização, o recrutador deve preparar perguntas que o permitam detectar o Talento: que é a habilidade para fazer o trabalho, não me refiro aqui apenas a saber fazer exatamente o que a organização quer que faça, mas a habilidade comprovada em tarefas similares; Auto-gerenciamento: que é a capacidade de gestão de tempo, disciplina, capacidade de organização e planificação, cumprimento de prazos acordados;  Inteligência emocional: que é a capacidade de trabalhar e se relacionar com os outros; Habilidade de pensar: que é a capacidade de percepção e de resolução de problemas; Motivação: para fazer o trabalho; Cultura organizacional: significa que o candidato deve estar alinhado com os princípios, ritmo, ambiente, missão e valores da organização; Adequação ao gestor: permite aqui perceber se o candidato poderá facilmente trabalhar e se adaptar ao estilo do seu superior hierárquico. (matéria a desenvolver num posterior artigo “recrutamento 1.2”)

 

Bem preparado o encontro com vista a obter estas informações, o recrutador estará no final, em condições de tomar a melhor decisão sobre o candidato ideal para organização. Os diplomas, experiência, assim como conhecimento de um software específico podem servir para reforçar a decisão. Podem indicar em certa medida que por ex: o candidato se projeta no sector pelo facto de adquirir o mestrado no domínio ou mesmo que seja apaixonado pelo trabalho pelo facto de permanecer no mesmo sector de actividade por muitos anos. São nesta altura, dois critérios a serem tomados seriamente em conta na tomada de decisão sobre o candidato ideal. No entanto, quando servem de critério de eliminação, impedem candidatos potencialmente ideais de se apresentarem e consequentemente perdemos a longo prazo o melhor que o mercado oferece em termos de Recursos Humanos por desmotivação. EU ACREDITO EM NÓS.

 

* Turnover- Termo da língua inglesa que significa “renovação” frequentemente utilizado na área de Recursos Humanos (RH) para designar a rotatividade de colaboradores em uma organização.

Recomendação de livro para o mês de Setembro 2021: Poder da Mente  – “Agostinho Leveique”

Samuel Gerson Andrisse

Especialista Internacional em Recrutamento

Autor do livro “Be ready for your next job interview”.

www.kensyle-recruitment.com

Escrever é um acto solitário (excêntrico, talvez): todos sabemos. O autor na sua poltrona de criação artística cria imagens, sentidos, visões e faz uma desconstrução da palavra para exorcizar fantasmas individuais que podem ou não ser do seu tempo e meio.

Jeconias Mucumbe toma este apanágio da arte de escrever e o interioriza como quem deu ouvidos aos apelos de Nicanor Parra no seu poema “cartas do poeta que dorme numa cadeira”[1] em que é possível ler:

“Jovens

Escrevam o que quiserem

No estilo que acharem melhor

Já correu sangue demais por baixo das pontes

Para continuar acreditando – acredito

Que só se pode seguir um caminho:

Em poesia tudo é permitido.”

 

É esta apropriação de “tudo” que Jeconias Mocumbe faz na sua nova proposta literária intitulada “Calvário e a cruz _ antologia híbrida”. Diga-se, contudo, que a leitura que Heribelto Yépez faz do contributo de Parra na literatura chilena (e não só) segundo a qual “através deste poeta, o sarrafo para algo ser considerado poesia ficou mais baixo” não se aplica na escrita de Mocumbe porque há neste último uma exploração da imagem até a exaustão e uma metaforização algo surreal que voltaremos a fazer menção nas próximas linhas.

Por ora, saibamos que Jeconias Mocumbe, pseudónimo de Edilson Sostino Mocumbe, nasce em Xai-Xai, província de Gaza, e reside em Inhambane Céu. É co-mentor do Projecto Tindzila, um conjunto de jovens oriundos de diversas zonas do país, com sede em Inharrime (Inhambane) cujo principal objectivo é unir fazedores e/ou entusiastas das artes (com maior destaque para a literatura) para a promoção da cultura de leitura, do livro e dos seus fazedores. Na qualidade de membro deste agrupamento, Mocumbe exerce funções de Secretário-geral e administra o blog com a mesma denominação. Formou-se em Ciências Policiais pela ACIPOL (Academia de Ciências Policiais em Moçambique). É co-editor e revisor do Jornal Missão do Agente-Inhambane. Estreou-se em livro numa co-autoria com Joel Caetano no livro “Espiritualidade Poética” publicado pela Editora Kulera, em 2020.

Dividido em três cadernos, a saber: (1) o humano sob a máscara, (2) caderno de premonições e (3) geografia da folha híbrida,“Calvário e a cruz _ antologia híbrida” apresenta-se como um exercício de exploração dos limites da metáfora, havendo, nesse processo, momentos em que ela própria (a metáfora) são lhe apresentados os seus vícios enquanto forma de codificação discursiva. De facto: se por um lado existem livros que tomam o leitor como imbecil a ponto de fornecerem informação desnecessária e que se resvala pela prolixidez, por outro, livros há que ou sobrevalorizam o leitor ou o seu autor não liga a mínima para uma possibilidade de haver alguma interatividade entre o leitor e a obra, correndo assim o risco de se tornarem incompreensíveis.

Uma parte destas reticências pode observada em:

Escrevo-te. Papá. Não como escrevi à mamã.

Escrevo-te na sombra dum arbusto qualquer. Com o rabo dolorido. Acho que padeço de dores de bunda. En­trincheirado. E cheirando a rato. O bronze do sol a pe­sar sobre o bucho do ombro. Estou nesta dimensão da carnificina húmida e é fétida que zumbi como a urina de um alfinete. (p.13)

 

De uma forma ou de outra, Mocumbe dá sinais do seu engajamento com a estética e anseios da geração que começa a publicar depois do ano 2000 por pretender experimentar outras texturas e outras cores que dão ao leitor a possibilidade de fazer uma leitura mais universal e atemporal daquilo que se escreve em Moçambique. Sobre este aspecto, refira-se que não é totalmente novo no cenário literário de Moçambique porque poetas como Luís Carlos Patraquim, Rui Knopfli, Glória de Sannt’Anna, por exemplo, já se tinham posicionado neste sentido, havendo, porém, algum sentimento de descompasso ante os anseios literários da altura, o que chega a ser exorcizado em poemas tal como Knopfli o fez no seu “cântico negro”, no qual lê-se:

“Não submeto a dureza agreste do que escrevo

Ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.

De alguns. De poucos. De um só se necessário for.

Tenho esperança porém; um dia compreendereis

o significado profundo da minha originalidade”

Ao seu jeito e modo, Mocumbe, como se estivesse nutrido do mesmo sentimento de descompasso, diz:

E ninguém entende este sotaque de poemas. Que fede. Um horror para os críticos da minha época. Estou a ser adiado nos convéni­os de lançamentos de novos génios. E não fico triste. É para o futuro que escrevo. (p: 12)

 

Indiscutivelmente, inscreve-se aqui um intertexto que mesmo não sendo intencional aproxima dois textos e dois poetas de gerações distantes (uma da outra). Diferente deste caso (quiçá) involuntário, nota-se em “Calvário e a cruz _ antologia híbrida” uma alusão aos contemporâneos de Mocumbe com que deve partilhar espaços, tempos e, talvez, vivências: é o caso de David Bene, Oscar Fanheiro, João Baptista Caetano Gomes e Hirondina Joshua. Para esta última, cabe dizer que a alusão ocorre através da menção ao seu livro “os ângulos da casa” que embora tenha sido de forma subtil, o facto de a construção sintáctica que intitula o livro estar patente em dois textos (o da página 25 e o da 42, respectivamente) já é um indicador assintomático de um diálogo com esta jovem poeta. Ainda no texto da página 42, notabiliza-se a premissa segundo a qual o intertexto não só ocorre entre textos literários: a referência que se faz do filme “Cinquenta tons de cinza” de Sam Taylor-Johnson e ao saxofonista e flautista Kenny Garret são prova disso. Mais adiante, na página 49, revela-se a evidência de que o autor, em algum momento, lera o texto autopsicografia de Fernando Pessoa ao parodiar a célebre frase “o poeta é um fingidor” através do acréscimo do adjectivo “inútil” e passa-se a ler “o poeta é inútil fingidor”.

Portanto, nesta escrita híbrida que se inscreve(u) _ no meu exercício de leitura _ numa metaforização do self mocumbiano nota-se também um questionamento existencialista que desdiz o maior argumento de todas as religiões: Deus e vida após a morte, como se pode ler em:

Agora rezo a ela como um Deus que não con­heço, não apalpo, não o sinto. Dogmático. E terrorista. No outro plano. Nem inferno, nem paraíso me esperam. Alguém contra? Levante a mão quem já esteve lá. Di­ga-me como é que é a máquina opressora por lá. Pois do pouco que sei, no além, existe apenas o indizível. (p: 30)

 

É, no entanto, curioso e revelador da prova de fé que devemos votar à frase popular que diz “ainda que seja questionado, Deus é chamado em horas de aflição”, o facto de no texto da página 30 apresentar-se-nos um sujeito poético questionador e que duvida da existência divina e, em contrapartida, ler-se nos textos das páginas 62 e 64, respectivamente, os seguintes versos:

meu Deus, se te escrevo

o amuo se inscreve na sombra (p. 62)

 

meu Deus! Tenho que aniquilar

o poeta em mim primeiro. (p: 64)

 

A despeito deste sujeito poético com um lirismo votado ao questionamento, à expurgação da alma, ao retrato dos próprios devaneios poéticos e não só, denota-se neste livro que na alma do poeta cabe o amor e a contemplação do esplendor que a natureza e a vida dão. Vejamos este aspecto em:

Em todas manhãs, mamã, que lhe cai­ba uma teia de euforia para adornar os teus seios de quietude intranquila. _ Que seja. Também amo a cor-de-rosa que me ensin­aste a contemplar no perfume das tuas vest­es. Amo o vermelho das rosas que nunca as tiveste. E é por esses cardumes que afio a es­perança do país. (p: 9)

 

E nada é tão aterrorizante que saber que a lua hoje não desce a cascata. (p:15)

 

A estrela por vezes galga o mar. A mulher às vezes é ap­enas uma sombra que se esconde no próprio terror. (p:16)

 

Embora Mocumbe faça um exercício metapoético no já aludido texto da página 12 em que olha para os “outros” de soslaio como quem “não está alinhado”, há neste seu “Calvário e a cruz _ antologia híbrida” uma característica que o aproxima profundamente desses “outros” e do que actualmente se escreve e se publica em Moçambique que é a escrita aforística. Vejamos:

 “o zíper da calça esconde segredos de origem” (p: 23)

“a nu­vem que chora torna o piso dos objectivos mais mole.” (p: 23)

“o passado é a trilha sonora do presente” (p: 25)

“a vida é assim, uma vez a outra, tens uma saudade oculta nos ombros” (p:67)

“o que inscreve o tempo na parede não passa de um arrasto de silêncios” (p: 97)

 

Em linhas gerais, de si para si e de si para os seus, Mocumbe dá asas à imaginação para descrever a profundidade do sentimento, a ligeireza da plenitude da vida e as oscilações da alma que não cabem no verso e se promiscuem com a prosa. Afinal, já o disse Baudelaire na sua carta ao Arsène Houssaye no livro “Pequenos Poemas em Prosa”:

“qual de nós, em seus dias de ambição, não sonhou com o milagre de uma prosa poética, musical sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica em contrastes para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência?”

Este exercício que se materializa neste “Calvário e a cruz _ antologia híbrida” de Jeconias Mocumbe é bastante útil para os poetas do ponto de vista de expurgação dos seus próprios devaneios e, por outro lado, para um leitor que se encanta com uma leitura pré-textual porque esta metaforização do self, ainda que seja involuntária, dá sinais de outra promiscuidade, mas desta vez, entre o homem e o poeta.

[1] Tradução de Joana Barossi e Cide Piquet

Enquanto o Pablo entretinha-se a esmurrar fantasmas aproximava-se a época do carnaval. Era um momento por que a maioria dos habitantes da cidade e dos subúrbios ansiava. Organizavam-se bailes nos grandes clubes da capital, como nos pavilhões do Sporting e da Malhangalene, sem falar noutras agremiações de não menor estatuto, como o Clube dos Engraxadores, o Centro Associativo, a Casa do Porto, a Associação de Auxílios Mútuos Gazense e a Casa dos Funcionários. Era, enfim, mais um pretexto para novos convívios e outras confraternizações.

Outros não iriam aos clubes, mas aglomerar-se-iam nos passeios da Avenida de Angola que, nessa época, se engalanava para receber forasteiros provenientes doutros bairros.

Os passeios e os terrenos adjacentes à Avenida de Angola ainda acusavam a severidade das chuvas recém-caídas. O chão acusava aqui e ali algumas poças de água que o calor de um sol tímido procurava secar.

O baile da pinhata no pavilhão do Sporting foi o toque de chamada ao início das festividades.

Naquele sábado de carnaval era só ver cortejos de gente, compactos  e alegremente ruidosos a despontarem de todos os caminhos em direcção ao bairro Indígena que, curiosamente, se transformara no epicentro das celebrações. Era a sacristia onde muitos iriam tributar a sua homenagem à amizade, onde iriam iniciar-se novos relacionamentos. Foliões trajados de coloridas vestimentas passeavam a sua classe nas pistas do areal. Uns vestiam-se palhaços, de almirantes-marinheiros a navegar em docas secas; piratas de espadachins de madeira e chapéus caprichosos a dar tréguas aos marinheiros de mar alto;  de diabos que desceram à  terra  em missão de justiça. Outros tinham os rostos ocultos por máscaras; eram Zorros elegantes e corajosos, Mandrakes prestidigitadores de varinha mágica e cartola para transformar o destino dos mortais; outros ainda coloriam as peles com aguarelas multicores, arco-íris  ambulantes a colorir a tarde de festa. Outros mais, sem as mesmas porque já nada tinham para esconder ou imitar. Todos; porém, presentes na roda partilha da alegria comum dum tagarelar descontraído, de trocar historietas do quotidiano, ao encontro dalgum elo de unidade entre os residentes dos diferentes bairros. Camiões  cedidos à borla pelos cantineiros _o tempo era de generosidade, e também o orgulho do seu bairro em competição com os demais_ carregavam grupos de foliões, bandas musicais de ocasião muito ruidosos, e cantores de vozes sofrivelmente timbradas, mas nem por isso menos alegres, espalhavam notas de canções ensaiadas durante meses para abrilhantar a festa. Sobre a bagageira do camião cedido pelo cantineiro Suzarte, a rolar lento no asfalto, o grupo da Mafalala, do qual se destacavam o vocalista  “Bode” Mordicai que, com aquela voz de caprino muito característica, alucinava as multidões; o Antoninho “Gaita” na harmónica de boca, o Habibo “Gargalhada” no tamborete, o Hassane “Esqueleto Humano” no pandeiro, o Gulamo “Coiote” no violão e, finalmente, o guitarrista-mor Salimo “Makhôfu”, executava o sempre presente hino dos carnavais:

 

   Madureira chorou **

   Madureira chorou de dor

   Quando a  voz do destino

   Obedecer ao divino

   A sua estrela chorou…

 

O agrupamento do Xipamanine, “Os Jovens do Guro”, cujos elementos desfilavam mascarados, na viagem de volta para o Alto Maé, tocava o seu samba predilecto:

 

Quando passo pela rua

    Todo o mundo me vê

   Todo o mundo dia bondia

   Todo o mundo menos você

 

Ao longo das bermas da estrada os foliões esperneavam passos de samba, genuínos bi-modais, à moda brasileira.

As multidões envolviam em círculos os executantes de diversas habilidades. Aquelas fervilhavam desde o Jardim Gouveia até ao cinema Império, passando pelo restaurante Vasco da Gama, pela cantina do Suzarte, pelo forno crematório e pelo “Justo Menezes”. Cada um transportava e lançava ao ar serpentinas multicores, as crianças assopravam em balões que faziam de trompentas e borrifavam-se com jactos de água de pistolas de plástico. Era a folia no seu auge, o júbilo duma populaçaão que se desacorrentava das tensões. Aplaudiam os números de chigubo dos agrupamentos de Marracuene, as nghalangas da Manhiça, a makarita de Inhambane, os tufos de Nampula e de Vila Cabral executadas por mulheres da Mafalala. E que gosto dava ver as residentes do Matlotlomane e das Lagoas, temporariamente esquecidas das necessidades dos clientes, a executarem números de marrabenta ao som de violas de axímios tocadores. Os marimbeiros de Zavala punham os espectadores em estado de delírio. Os elementos do grupo  provinham de Zavala e migraram para a cidade onde eram a mão-de-obra favorita dos Serviços de Salubridade. Nas letras das suas canções exaltavam o poder antigo dos reis e a valentia dos combatentes perecidos durante as guerras de penetração colonial e cantavam as virtudes da honra e do trabalho honesto, e eles sabiam qual esse era.

O sol da tarde derramava um calor tépido, numa cumplicidade curiosa de partilha pela euforia do momento. Vozes de cantores, o coro aos estribilhos das canções e notas dos instrumentos enchiam a atmosfera do ambiente. Todos ali eram brasileiros porque as suas mentes evadiam-se dos infortúnios quotidianos e protagonizavam momentos da liberdade efémera que lhes proporcionava o dia do carnaval. As mensagens iam ao encontro das vozes dos escravos, porque reciprocamente, africanos eram também muitos brasileiros. Estavam todos na sintonia da saudade das origens, na telepatia que tange emoções ocultas nas raízes da cultura, daqui arrancada e transladada para lá; viva lá, mas regressada ao solos maternos cá. Era o lugar de reencontro de toda duma civilização, a confluência de uma cultura fragmentada. Era isso o carnaval.

A tarde declinava, mas não esmoreciam os ânimos. Sobre a bagageira de um camião engalanado de serpentinas, balões multicores e figuras alegórias, atrasada na marcha, vinha a banda do Chamanculo, o “Chamanculo Stars”, o conjunto do Alfredinho (já nosso conhecido). Como que a pretender anunciar o fim próximo das celebrações do dia, o grupo entoava, os artistas já roucos, a senha principal que resumia o sentimento de um verdadeiro carnaval:

 

   Tristeza não tem fim / Felicidade sim…***

   A felicidade é como a pluma / Que o vento vai levando pelo ar

   Voa tão leve / Mas tem a vida breve

   Precisa que haja vento sem parar.

   A felicidade do pobre parece / A grande ilusão do carnaval

   A gente trabalha o ano inteiro /Por um momento e sonho

   P’ra fazer a fantasia  /De rei, ou de pirata, ou jardineira

   E tudo se acaba na quarta-feira

 

   Tristeza não fim /Felicidade sim…

   A felicidade é como a gota / De orvalho numa pétala de flor

   Brilha tranquila / Depois de leve oscila

   E cai como uma lágrima de amor

 

   Tristeza não tem fim

   Felicidade sim…

 

A fechar o cortejo, seguia um outro camião, o mesmo que transportava o Rei Momo.  Como era da praxe, na bagageira, vinha um outro agrupamento, “Os Imortais” do bairro do Cemitério, a executar um samba corrido. Umas bailarinas energéticas sacudiam-se e esperneavam uns passos a marcar o ritmo da  canção.

O acolhimento foi total, incondicional.

Sentado sobre um “trono”, que nesta ocasião era um sofá em idade de reforma, “Sua Magestade” sorria. Com uma mão exibia o ceptro, símbolo do seu poder real, e com a outra acenava para as multidões. Qualquer que fosse o troço da estrada onde o veículo rolasse, ovações e gargalhadas redobravam de intensidade, ensurdecedoras. Lá ia aquele imaginário soberano, redondo, a ufanar-se todo, trajado de túnicas, coroado de ouro falso, adornado de anéis e pulseiras, a desfilar a falsidade da sua magestade, uma caricatura assumida de quão ridículos podem ser a presunção, a vaidade e a ostentação.

As sombras do crepúsculo foram companheiras da retirada dos foliões pelos caminhos, de regresso aos lares, ao reencontro com o real da vida.

 

in Caderno de Memórias, Volume II.

É curioso como às vezes a memória da morte vive muito

mais tempo do que a memória da vida por ela roubada.

in O deus das pequenas coisas, Arundathi Roy.

 

Há duas semanas, recebi uma chamada do meu amigo Celso Muianga. Nada alarmante. Eu e ele falamos com alguma regularidade: de literatura, de política e de tanta coisa que se passa pelo mundo fora. Felizmente, somos críticos um do outro e o Celso é um dos editores que mais aprecio em Moçambique. No entanto, dessa vez, a chamada não era para nenhuma cavaqueira, tratava-se de uma imposição: – San José, em nome da Fundação Fernando Leite Couto, quero-te convidar para seres um dos apresentadores do novo livro do Mia, O caçador de elefantes invisíveis, de que te falei. Depois disso, o silêncio dos dois lados da linha prolongou-se por uns sete segundos. – San José, estás comigo ou aí na Tenda dos Milagres? Tenda dos Milagres é a maneira como o Celso trata ao tribunal que julga o afamado “caso das dívidas ocultas”, precisamente, numa tenda montada na Cadeia de Máxima Segurança da Machava, lá pertinho de casa, no Bairro Infulene. Ao invés de qualquer resposta, contra-ataquei: – Ó, Celso, que convite é esse, meu, como é que se apresenta um livro do Mia? Talvez pela amizade, o editor deixou de ser delicado e respondeu ríspido: – Não sei. Veja isso com o Pila. Liga-lhe. Ele será o outro apresentador.

A chamada durou mais ou menos três minutos. Quando terminamos de falar, fiquei meio nefelibata, tentando juntar sentidos à volta daquele convite. Poxa… tentei ligar de volta ao Celso para lhe dizer que aquilo não iria funcionar. Não via lógica nenhuma em apresentar o que quer que fosse do Mia. Mas fiquei calmo. Convencido de que aquilo não passava de uma brincadeira de mau gosto, resolvi descontrair-me, até porque a qualquer altura receberia uma chama do mesmo contacto a dizer-me: – Estou a gozar contigo. Descansa, camarada. Na verdade, pretendo saber se consegues vir cobrir o lançamento do livro. Como temos muita restrição no espaço, estamos a confirmar com todos os potenciais presentes. Isso foi o que imaginei. Todavia, entre a imaginação e a realidade, há uma margem mínima às vezes significativa.

O Celso não me ligou novamente – teimoso ele. Eu fiquei quieto, tentando esquecer o convite. Dois dias depois, Elton Pila é que me liga: – Dos Remédios, o Celso falou contigo? Pronto. Compreendi que não havia nenhuma brincadeira ali. – Sim, ligou-me há dois dias. Então é mesmo a sério a cena do Mia? O Pila respondeu que sim. – Mas como é que a malta apresenta o livro do Mia, man? O meu colega jornalista não teve dúvidas. – Ó, Dos Remédios, não sei. Mas o segredo é começar com um agradecimento.

Então pronto, seguindo o conselho do meu amigo Elton Pila, aqui ao meu lado, antes de falar deste novo livro do Mia, O caçador de elefantes invisíveis, primeiro quero agradecer ao Celso Muianga e à Fundação Fernando Leite Couto por este desafio. Para mim, é um enorme privilégio estar aqui a dizer algumas palavras sobre este conjunto de contos de um autor que tanto admiro. Cresci lendo Mia Couto. Primeiro, na célebre revista Tempo e, mais tarde, nos livros. Mia é dessas pessoas que os meninos da minha geração via pela televisão e dizia: – Quando eu crescer, quero falar tão bem e ser como aquele senhor com nome de mulher. Então, quando fui convidado a estar aqui convosco,  percebi, já agora Pila, que é possível estarmos com os nossos heróis da palavra cá terra.

Indo ao que realmente interessa, quando penso na escrita miacotiana, observo que a guerra é um fenómeno recorrente. Por exemplo, em Terra sonâmbula, em O último voo do flamingo ou neste O caçador de elefantes invisíveis. A pergunta que acho oportuna é: porquê? No lugar de uma resposta assertiva, vêm-me à memória um pensamento de Francis Fukuyama, no seu O fim da história e o último homem. Nesse livro, o intelectual norte-americano defende que “a experiência demonstra que, se os homens não puderem lutar por uma causa justa por esta ter triunfado numa geração anterior, acabarão por lutar contra ela. Lutarão por lutar”. Em outras palavras, Fukuyama sugere que a humanidade é instável e que no dia em que a paz for dada como adquirida, os homens são capazes de saírem à rua para se manifestar a favor da guerra. Se calhar, assim seria porque, segundo Thomas More, no seu Utopia, “os príncipes preferem a arte da guerra às artes benfazejas da paz”. E todos nós podemos ser príncipes, nesse sentido atroz referido por More e por Maquiavel.

Em grande parte, O caçador de elefantes invisíveis aparece a lembrar o talento que o Homem tem em semear guerras e instabilidades daí subsequentes. Logo, com a paciência de quem caça uma presa, Mia Couto captura do seu país e, sobretudo, da realidade humana, essa volubilidade interior, já denunciada por Fukuyama, para ficcionar uma realidade em si catastrófica. O escritor recusa ser uma ilha no seu território. Por isso mesmo, a sua ficção traz do Norte de Moçambique as dores e os dramas para quem a vida, depois do terror, é um milagre quotidiano.

Naquela noite dormimos todos de pé, apertados uns contra os outros, por entre as quatro paredes do edifício da administração. Edifício é um modo de dizer: um espaço vazio, sem tecto, sem portas nem janelas. As paredes, todas esfarrapadas, eram o que restava da única casa de alvenaria da nossa aldeia. Ali nos refugiámos, as famílias todas de Kalimbué, tentando escapar a mais um ataque dos terroristas (p. 51).

A passagem acima é do conto “A fumadora de estrelas”. No enredo, as personagens deixam-se contaminar, sem hipótese, pelo medo na mesma proporção que perdem o chão da sua existência.

Lá fora, escutavam-se os disparos. Cada tiro resgatava os olhos de Esmeraldino, as pálpebras cerradas como se não quisesse voltar a ver o mundo. E fomo-nos espremendo de tal forma que ninguém se podia mover. Sorte a nossa não haver tecto, caso contrário teríamos morridos asfixiados (p. 52).

No universo da história os disparos não constituem apenas um conjunto de sons, são imposições ao silêncio, à fatalidade geradora de incertezas colectivas. O pior é quando naquela pequena repartição da administração, noite sombria, com os terroristas a espalhar ódio pela aldeia, Kadira entra em serviço de parto. Como impedir o bebé de chorar e assim salvar a vida de toda gente escondida? Nesse instante, o possível choro que tão bem anuncia a vitalidade dos recém-nascidos rapidamente transforma-se num símbolo de morte: “A pobre Kadira continha as lágrimas, mordia as dores, engolia os gemidos. No fundo, ela sabia: uma mulher pode parir em silêncio, mas ninguém pode impedir o choro de um bebé que nasce. As contas eram fáceis de fazer: a vida daquela criança iria acabar com a vida de todos nós” (p. 55).

Entre os gritos subentendidos das vítimas do terrorismo em Cabo Delgado, Mia Couto vai além da superfície para ficcionar histórias que ajudam a compreender o trauma dos deslocados. Ao escritor não interessam, necessariamente, histórias dos que partiram, isto é, a memória da morte – conforme diria Arundathi Roy –, mas o efeito dessas partidas nos sobreviventes. Veja-se, por exemplo, o caso de “O vestido vermelho”. No conto, a guerra arranca da protagonista o marido e o seu unigénito. Desesperada em voltar a ser mãe, a mulher resolve correr o risco de ir à procura do filho, porém, pelo caminho, soldados armados a impedem de reconquistar todos os significados auspiciosos à volta da maternidade.

“O vestido vermelho” é mais um conto no qual se observa o interesse do escritor pela memória da vida, afinal efémera e, muitas vezes, muito circunstancial. Além disso, no universo diegético Mia Couto introduz o que é evidente em “A culpa”, enredos sobre relações familiares repreensíveis. Não é difícil encontrar um pai que humilha ou coarcta a liberdade da esposa ou do filho. Em muitos contextos, o lar familiar, em O caçador de elefantes invisíveis, é um lugar de ressentimentos. Ao longo dos contos, há quem opte em escutar mal, de modo a evitar conflitos com o pai autoritário e de difícil trato. Este cenário até propõe um paralelismo entre episódios domésticos e o quotidiano social. Mia parece propor uma relação quase umbilical entre os dois contextos, como se as suas narrativas também pretendessem sublinhar a reciprocidade entre o ambiente doméstico e o meio circundante. Ou seja, como ter uma sociedade saudável se no sentido mais particular a casa é um lugar feito de tantas outras instabilidades?

Não obstante a fronteira que separa os laços de afecto, O caçador de elefantes invisíveis é um lugar cheio de sinceridade, onde a inocência se desencontra com a realidade crua. Gustavo, em “Um país sem nome”, depois de perder a mãe ainda imberbe, recusa-se a voltar a ser criança, como se houvesse escolha para essa condição. O pai faz o que pode para o menino se divertir com os filhos dos vizinhos. Sem dar hipótese à iniciativa paterna, o miúdo responde: “Os meninos da minha idade fazem-me triste”, (p. 167). A fim de contornar essa tristeza, Gustavo ainda evita ver programas televisivos infantis e, no ápice da evasão, inventa um país, no qual o abraço é algo tangível, mensurável.

Através da posição surreal de Gustavo, ao distanciar-se da realidade que o magoa, o narrador tece uma convicção que é visivelmente assumida por Mia Couto. Isto é, à semelhança do país inventado por Gustavo, Moçambique precisa de sonhos enquanto dimensão produtora de discernimento. A ficção miacotiana, com efeito, é uma experiência oportuna e necessária para quem se interessa (com profundidade) nos vários países existentes no interior de Moçambique. Aqui a ficção é um farol exposto ao lusco-fusco, potente na iluminação e na reinvenção dos espaços sobre os quais a narrativa inevitavelmente assenta.

Assumindo que a palavra tem o poder de fazer desaparecer e reaparecer as coisas, como adianta Maurice Blanchot no seu O espaço literário, no caso de Mia Couto, esse reaparecimento refere-se a substâncias e a eventos presentes, mas ainda desconhecidos. A proposta é simples: ampliar o campo visual do leitor acomodado na sua própria monotonia, dando relevância a eventuais insignificâncias. Desse modo, não se fica no mesmo lugar ao lê-lo. O caçador de elefantes invisíveis é um movimento cíclico e, às vezes, tenebroso. No livro, a humanidade é posta em diálogo e nem sempre a boa comunicação é um dado conquistado. Pensemos, por exemplo, no primeiro conto, “Um gentil ladrão”. Aí o diálogo é uma coisa difícil porque as personagens são incapazes de compreender uma a outra. Um enviado dos serviços de saúde vai a uma presumível aldeia para testar a temperatura de um homem habituado a perder ente queridos para a morte. Ambos falam a mesma língua, mas até a língua torna-se um monstro quando a realidade que separa os interlocutores é abismal. Consequentemente, num acto que deveria contar como medida preventiva contra a COVID-19, o protagonista da história vê-se num iminente assalto. O homem não sabe de pandemia nenhuma, daí adivinhar nos gestos do visitante iniciativas de um ladrão. Nesse belíssimo exercício literário, Mia é sarcástico ao incitar que a gentileza é tão rara no mundo que já não é normal cuidar do outro. Logo, “depois de anos de tormento, reconcilio-me com a humanidade: um ladrão tão desajeitado só pode ser um bom homem”, (p. 16), afirma o protagonista.

O carácter afável do agente da saúde, embora destrambelhado, faz com que o anfitrião anseie por uma segunda visita, para o premiar por lhe ter arrancado da solidão. Sempre dura. Que o diga Bernardo, escritor que, cumprindo a prerrogativa “fique em casa”, vê-se incapaz de sobreviver sem gente por perto. Habituado a isolar-se na escrita, Bernardo aprende a valorizar as relações humanas e nós com ele. Para sobreviver à “Imortal quarentena”, terá de ter por perto a sua empregada doméstica Esperança Maluane.

Portanto, não há nos contos do livro super personagens ou distantes do dia-a-dia. As personagens das histórias são produto do plano real, concorrendo para tornar as realidades moçambicanas, com a devida amplitude, inteligíveis.

De facto, O caçador de elefantes invisíveis é um movimento em câmara lenta, suficientemente lento para quem não abdica de pensar o espaço através da sua posição no tempo. Com a paciência de quem sabe esperar pelo momento ideal, Mia capta cenários agora deslocados daquele trabalho sobre a reconstrução da língua portuguesa tão comum em Vozes anoitecidas ou em Cada homem é uma raça, outros livros de contos. Ao escritor, neste O caçador de elefantes invisíveis, já não interessa a oficina sobre a morfologia da palavra, mas sim a estrutura do pensamento das personagens, às vezes, ilógico aos olhos dos mais precipitados.

Sem dúvidas, há aqui um interessante trabalho sobre a emoção, a dor, a expectativa e a incerteza. As histórias de Mia são fortes pretextos para pensarmos o contexto doméstico, comunitário e desse país que urge reinventar, pois, de outro modo, irá desaparecer do mapa-mundo como calha no seu O último voo do flamingo ou em Nação pária, de Adelino Timóteo.

Finalizando, pode ser que se divirtam e aprendam durante a leitura deste livro. Seja como for, nestas histórias encontrarão um ficcionista que ascendeu para uma outra dimensão na forma como gere a força anímica das personagens e no modo cristalino com que trabalha a sintaxe e a semântica das coisas.

Muito obrigado por me ouvirem!

 

*Texto resultante da apresentação feita na cerimónia de lançamento d’O caçador de elefantes invisíveis, de Mia Couto, dia 13 de Outubro de 2021. Aqui redigido de cor e ampliado.

Gostava, antes, de fazer uma declaração de interesse: sou advogado e professor da Faculdade de Direito da UEM (sem regime de exclusividade), ou seja, para além da docência, posso prestar serviços enquanto advogado.

Não sou advogado no processo das dívidas ocultas, nem em qualquer processo autónomo a ele relacionado. Em face dos argumentos da exclusão do Colega Alexandre Chivale por, alegadamente, ser colaborador do SISE, entendi que deveria tomar posição. Não estou impedido de o fazer não só porque o artigo 80 do Estatuto da Ordem dos Advogados (adiante EOA) não me proíbe, como também porque esta questão ultrapassa a decisão de impedimento do Dr. Alexandre Chivale no julgamento que está em curso na 6.ª Secção do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo. Aliás, essa decisão vale, apenas, para esse processo e não para qualquer outro processo, mas sendo um julgamento com grande impacto público, há-que tomar posição pública.

Se nesse processo for definitiva a decisão de que nenhum membro das forças de defesa e segurança (e, também, funcionário público, agente ou contratado de um serviço público) não pode patrocinar causas contra o Estado, caberá ao Conselho Nacional da Ordem dos Advogados, no âmbito do que determina o seu Estatuto, determinar, para valer para todos os casos em que ele intervenha, a situação do Dr. Alexandre Chivale enquanto advogado – e, na verdade, o sentido daquela norma -, sem prejuízo, como é natural, de em qualquer processo judicial essa questão ser suscitada e decidida, pois, são os tribunais que decidem em último lugar.

Antes de tomar posição, gostaria de explicar rapidamente a razão porque foi consagrado o regime das incompatibilidades relativas constante do Estatuto. A posição da Comissão que, em 2007, elaborou a proposta dos Estatutos que, com algumas poucas alterações, foi aprovada – da qual, com a Colega Fernanda Lopes, fiz parte – era a de proibir, em absoluto, que os funcionários públicos pudessem ser advogados no activo.

Pretendia-se promover advogados a tempo inteiro e não, como até então ocorria, advogados de fim de tarde, como muitos, como eu, chamava os advogados funcionários públicos ou de empresas ou instituições públicas.

As razões eram várias: não tendo escritórios para além de onde trabalhavam para o Estado, pensava-se que estivessem em vantagem perante os demais colegas, pois não suportavam as despesas logísticas para o exercício da profissão e, muitas vezes por causa da sua indisponibilidade, se julgava que estavam susceptíveis de incumprir os seus deveres profissionais, para além de que estavam sujeitos a uma dupla subordinação:  disciplinarmente à Ordem e ao Estado, seu empregador, o que poderia perigar a sua independência e dignidade. E era lembrado o exemplo do, na altura, Bastonário Carlos Alberto Cauio que tendo se iniciado como funcionário público, foi dispensado dos serviços para cuidar da Ordem dos Advogados.

Até então o regime das incompatibilidades era mais simples, sendo apenas o das incompatibilidades absolutas, ao que se acrescia o dos impedimentos. E nessa sessão a maioria dos que estavam contra essa posição eram notários e conservadores, que, depois de uma primeira sessão inconclusiva, se organizaram para a segunda sessão onde, em conjunto com outros advogados, foram muito claros no que eram estavam dispostos a fazer.

Foi depois desse (explosivo e inesquecível) debate, que a Comissão apresentou a proposta das incompatibilidades relativas, tendo se concluído que se deveria manter o regime anterior:  impedir que os funcionários públicos pudessem litigar contra os respectivos serviços como até então ocorria, como resulta do n.º 2 do então art. 47 do Estatuto.

O exemplo que foi dado foi o dos notários, que deveriam estar impedidos em causas que envolvessem os seus serviços porque, dizia-se, estariam em vantagem, pois poderiam usar informação interna ou fornecida por seus colegas para ter vantagem (v. nesse sentido Gilberto Correia, no comentário que, em 2016, pela W Editora,  fez ao Estatuto). Por isso, para além das incompatibilidades absolutas, optou-se pelas incompatibilidades relativas, em que se obsta que os advogados e advogados estagiários indicados no n.º 3 do art. 69 do Estatuto possam patrocinar causas contra o Estado, autarquias locais e todas as instituições públicas. Podemos discutir o que seja patrocinar causas contra o Estado, por exemplo se a defesa apresentada num processo é ou não um patrocínio contra essa pessoa. Podendo, não vou entrar nesse ponto, que me parece suplementar, porque antes disso o regime das incompatibilidades deve ser harmonizado com outras disposições do mesmo Estatuto.

Tendo em conta a motivação que norteou a introdução das incompatibilidades relativas, foi mantido o regime dos impedimentos para o exercício da advocacia, ou seja, existe a necessidade de harmonizar as incompatibilidades e os impedimentos pois, em bom rigor, as incompatibilidades são sempre absolutas, sendo que no caso das relativas estamos em face de impedimentos de exercício em certas situações.

É por isso que o n.º 5 do art. 69 do Estatuto estabelece que as incompatibilidades – sejam elas absolutas ou relativas – não se aplicam a quantos estejam na situação de aposentados ou de inactividade e dos contratos em regime de prestação de serviços, como é o caso de um militar na reserva, um docente ou outro profissional em regime de prestação de serviços contratado por uma instituição pública. Aliás, se assim não fosse, o advogado contratado por uma instituição pública, estaria, por ser contratado da instituição pública, impedido de advogar noutras causas, o que seria um contrassenso.

Para além disso, o n.º 2 do art. 70 do Estatuto estabelece que estão impedidos de exercer a advocacia os advogados – tendo se omitido os advogados estagiários – que sejam funcionários ou agentes administrativos no activo ou na situação de inactividade, em quaisquer assuntos em que estejam em causa os serviços públicos ou administrativos, devendo entender-se tratar dos serviços a que estão ligados.

Também nessa base, o n.º 3 do art. 70 estabelece que estão igualmente impedidos de exercer o mandato judicial os membros dos órgãos representativos, como autores, nas acções cíveis contra o Estado.

Imagine-se um membro de um órgão representativo (deputado ou membro da assembleia provincial ou municipal), que seja funcionário público. Pelo n.º 3 do art. 70 ele está impedido de exercer mandato judicial como autor nas acções cíveis contra o Estado, pelo que pode exercer esse mandato como réu nas acções cíveis e como autor e réu em acções de qualquer outra natureza, pois só está impedido de ser autor nas acções contra o Estado. É, aliás, importante sublinhar que o regime das incompatibilidades e impedimentos dos advogados existe para salvaguardar dois valores maiores da profissão, nomeadamente a dignidade e a independência profissional, de modo a que o exercício da defesa não seja efectivado em situações que pareçam indignas para o próprio Advogado e a advocacia.

Para além disso, tal visa ainda, e sobretudo, impedir que o advogado intervenha numa situação em que o conflito de interesses afecte a sua independência e, deste modo, acabe afectando a possibilidade deste defender plenamente o seu constituinte.

Um exemplo que me ocorre é o de um advogado que seja contratado para assessorar a PGR e que aceite um caso em que o seu constituinte intente uma acção de responsabilidade civil contra o Estado moçambicano que será representado pelo Ministério Público.

Logo à primeira, sem necessidade de muitas explicações, a actuação deste advogado pareceria indigna. Aconselha o PGR, que é quem actua como líder do Ministério Público, Advogado do Estado, recebendo remuneração por essa actividade profissional, mas de seguida vai receber honorários para litigar contra quem lhe paga.

Pior do que isso, devido ao vínculo com a PGR esse advogado pode estar condicionado no uso de todos os meios legais ao seu alcance para defender o seu constituinte.

Visto que a sua ligação com o Estado pode conduzi-lo a não querer desagradar a contraparte com quem tem um vínculo, o seu constituinte corre o risco de, naquele caso, não ter um adequado patrocínio judicial, em virtude deste não dispor de total independência naquelas circunstâncias. Explicando a estranheza da solução legal – que, afinal, ilustra, pois, que a incompatibilidade não é tão grave e não pretende defender o Estado –, Gilberto Correia (2016:151) refere que o regime de prestação de serviços determina apenas um regime diferente de vinculação que, ao contrário da aposentadoria e da inactividade, mantém o respectivo titular no activo, isto é, em pleno exercício de funções.

Assim, o maior risco da perda de independência é para o constituinte do advogado e não para o Estado, por isso, foi para defender o constituinte do Advogado e a dignidade profissional que esta incompatibilidade relativa foi escolhida e legalmente proclamada.

É aqui que se deve encontrar a respectiva ratio legis e o elemento teleológico que deve ajudar na subsunção da norma jurídica em causa aos casos concretos, sob pena de uma aplicação que não toma em conta todo o sistema dos impedimentos e incompatibilidades. Assim, se a natureza e especificidade do vínculo com o Estado perigar uma actuação indigna daquele Advogado no exercício profissional numa acção contra o Estado ou existir o risco de, por causa desse vínculo, o Advogado não puder realizar a melhor prestação profissional possível para patrocinar o seu constituinte, então ele deve ser considerado impedido.

Com efeito, a norma impeditiva de que falamos não foi erigida para defender o Estado que estará sempre muito bem representado pelo Ministério Público. Deste modo, entendo que qualquer interpretação da referida norma que vise defender o Estado estará fora da sua ratio legis e da respectiva teleologia, pelo que, em geral, não vejo nenhuma incompatibilidade relativa ou impedimento para que um funcionário público possa ser advogado de um réu num processo contra o Estado, seja de que natureza for, sendo que tudo terá de ser analisado casuisticamente.

No chamado caso das dívidas ocultas era importante verificar se, em face daquela situação concreta, o alegado vínculo existente entre o Advogado e o Estado moçambicano colocaria em causa a dignidade da advocacia e se reduzia a sua independência para a defesa plena do seu constituinte, pois, em princípio, um aposentado, inactivo ou prestador de serviços ao Estado não está impedido de advogar contra o Estado. Esta é a minha opinião.

 

Tomás Timbane

Professor da Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane

Advogado

“a literatura, tal como a concebemos,

distingue-se pelo investimento na linguagem

e não pelo conteúdo por mais nobre que o julguemos.”

Lembro-me desta frase em epígrafe como se me tivesse sido dita ontem quando, afinal, remonta o ano de 2004. Li-a numa recensão publicada na Revista Proler, em que o seu autor dissecava sobre o livro Nikitche cuja autora adicionou recentemente ao título de primeira romancista moçambicana, o de primeira mulher africana a ganhar o prémio Camões. É obra.

No auge da minha formação em ensino de línguas cujo plano curricular incluía o estudo de alguma teoria de literatura e uma busca por noções de literaturas de países de língua oficial portuguesa, foi-me apresentado o texto em alusão como um exemplo do exercício da crítica e recensão literárias. É, decerto, um belo texto que aborda a obra literária nas suas mais diversas componentes.

O que me faz revisitar este momento particular é exactamente o facto de Paulina Chiziane ter sido agraciada recentemente com o prémio Camões 2021. Inda que haja muito de extraliterário por se dizer sobre os prémios, uma certeza é irrevogável: (1) eles singularizam o autor no seu meio, (2) canonizam a sua obra e (3) atraem leitores.

Sobre o primeiro e último elementos, respectivamente, pouco se pode dizer porque é evidente que mesmo no meio moçambicano, onde há um número relativamente reduzido de leitores e o seu reconhecimento no meio académico ainda resta a desejar, a escritora carrega uma gama de leitores que conhecem a sua obra e a tem como referência.

Ora, quanto à questão do cânone dir-se-ia com alguma certeza que esta divide opiniões de tal modo que, ela própria, assumira, o título de “contadora de estórias” quiçá para se desfazer das interpelações que nos corredores da academia se procura fazer à sua obra relativamente ao que ela significa quando contraposta com o que se apregoa como eminentemente literário naqueles meios em que uma obra só o é pela forma como diz o que diz.

Desfeita dessas amarras e movida pelo ímpeto de contar, reflectir ou representar as estórias do seu povo através da ficção, foi fazendo escola e já lá vão 31 anos de uma contribuição regular e activa na literatura moçambicana. E, como diria Salvato Trigo, o que é importante é que o escritor busque uma forma artística, moldada nos cadinhos estético e ético do povo que ele procura representar literariamente.

O que a mim chama atenção no horizonte além da celebração do prémio para uma escritora da minha pátria com que já tive a honra de privar, é o facto de, como já o disse, os prémios terem este condão da canonização da obra (e inegavelmente do seu autor) numa literatura em constante processo evolutivo onde as novas vozes tendentes à “paulinização” da narrativa são interpeladas com frase que epigrafa o presente texto. Daí a questão: “e agora, o que se dirá aos contadores de estórias”.

Se por um lado, pesará a balança da crítica incessante em prol de uma narrativa que respeita a gramática do texto na perpectiva mais clássica, por outro, pesará o argumento de uma escrita mais progressista sedenta de novas cores (exóticas, talvez) e que encontrará na “paulinização” uma boia que a sustente rumo à margem dessa viagem que, afinal, é o deleite, a reflexão, a catarse, etc.

Conforme dirão os mais atentos, este prémio é, enfim, a repetição de vários eventos na estória secular da literatura em que determinados autores não foram devidamente acolhidos pela crítica do seu meio e tempo mas a memória comum de outros meios, outros tempos, outras convicções os tomaram como canónicos e cujo contributo é incontornável. A mim, a estas alturas, basta um “parabéns a Paulina Chiziane e a literatura moçambicana”. É obra.

Falar da vida e obra de Sua Eminência O Cardeal Dom Alexandre José Maria dos Santos é, e será sempre um exercício que exige elevada capacidade de abstração para narrar todo um percurso e uma trajectória (caracterizados por suas incansáveis lutas, suas vitórias e porque não suas derrotas), e todos eventos que caracterizaram a odisseia religiosa, educacional e humanística desta que é uma figura incontornável na história do nosso vasto Moçambique. Para não pecar por soberba, e não perder de vista o objectivo deste texto de agradecimento, enaltecimento e despedida, focar-me-ei apenas no cerne – Um Homem ao serviço de muitas causas.

A Época Medieval é cronologicamente considerada o período mais longo da História da Humanidade (com mais de 1000 anos). Período este que viu florescer o surgimento das primeiras Universidades no mundo. Nesta época, a Filosofia e a Teologia viveram de forma única a rivalidade entre a fé religiosa e a razão científica; um conflito que opunha a religião à ciência e desafiava a cada instante a tentativas de conciliação e harmonização destes dois domínios do saber sem necessariamente anulá-los, numa fórmula traduzida na fé alicerçada na razão e, na razão que ajudaria a perceber a fé. (Intellectus quaerens fidem, et fides quarens intellectum.

Um dos mais brilhantes e notáveis pensadores da época em alusão foi São Tomás de Aquino – (figura que desempenhara tremenda influência na cosmovisão teológica e educação de Sua Eminência O Senhor Cardeal Dom Alexandre), que durante o seu percurso académico foi instruído por Alexandre Magno (Ou Alexandre o Grande). Curiosamente, o nome Alexandre, mestre de Tomás de Aquino é o nome de baptismo do Senhor Cardeal – Aproximações e coincidências que corroboram para ideia da grandeza do nome em referência.

De certo, nestas breves linhas será complicado trazer o espelho dos 103 anos em que o Cardeal viveu e fez viver, disseminando a fé, espalhando a esperança, semeando amor, educando o seu povo e proliferando ensinamentos. E nesses 103 anos teve o prazer de colher os primeiros frutos da sua incansável luta por uma sociedade mais capaz, mais justa e intelectualmente emancipada. E são esses frutos que devem se encarregar de assegurar e alargar o escopo do outrora iniciado.

Dom Alexandre foi muito mais do que uma figura religiosa e eclesiástica destacada, e comprometida na causa do bem estar social, do crescimento, da coesão no seio da Igreja Católica e do catolicismo em Moçambique, do Ecumenismo vibrante e da difusão da mensagem de Deus por todo o lado e em várias línguas. Para ele a fé tinha o poder de quebrar barreiras e unir povos (sejam eles considerados civilizados ou indígenas), e para isso as línguas nativas serviram de veículo e ferramenta estratégica de penetração e evangelização nas comunidades.

Foi um incansável peregrino da paz; astuto e apaixonado amante pela ideia de uma educação para todos e em todos níveis. Sua filosofia e ideia transformadora era clara – somente investindo mais e expandindo a educação se poderia criar bases sólidas para emancipar e desenvolver a nação, e consequentemente sonhar com um Moçambique mais inclusivo e mais próspero. Daí a sua luta assaz contra a pobreza absoluta e o seu compromisso vincado com a formação sistemática do Homem.

Sua grandeza transcende a imagem que muitos de nós temos – Patriarca da Igreja, primeiro Sacerdote e Bispo moçambicano. Na verdade Dom Alexandre foi um cultor, um educador visionário e um humanista douto com visão ampla da realidade do país e com cega convicção de que a educação do homem conduziria à libertação e à emancipação das mentes dos moçambicanos.

Dos vários momentos de partilha, fossem eles na Universidade, na Igreja e nos Seminários bem como em eventos vários públicos e privados, algo deliberadamente se repetia, entre a preocupação presente e os sonhos futuros: o paradoxo entre a riqueza do país e a incapacidade de transformar essa riqueza em algo útil para os moçambicanos. Segundo ele, Moçambique não é um país pobre; muito pelo contrário, é muito rico e mal explorado. O problema reside na falta de preparo e no défice enorme de conhecimento e precisa de mentes para transformar sua riqueza no bem-estar de todos.

As lentes visionárias do futuro, a crença na mudança de paradigma social, económico e educacional, e a transversalidade primeiro do seu pensamento, e depois da sua acção fizeram de Dom Alexandre José Maria dos Santos uma das figuras de Moçambique Contemporâneo de maior destaque, com projectos e obras transgeracionais que vão desde a formação de Padres dentro e fora do país, passando pela intermediação do conflito entre a FRELIMO e a RENAMO que culminou com a assinatura dos Acordos Gerais de Paz (1992), à formação de vários quadros superiores em várias áreas e domínios do saber.

Dom Alexandre, fora um dos mais sagazes impulsionadores das artes liberais e ciências do espírito no país, e desafiou centenas de jovens estudantes universitários e seminaristas (fazendo uso de ferramentas éticas, teológicas, filosóficas, e humanísticas) a pensarem com liberdade intelectual, e de forma crítica e analítica contribuírem para edificação de um Moçambique melhor. Fora um cultor do saber Ser, saber Estar e saber Fazer. Fora acima de tudo alguém muito preocupado com as questões éticas e com a dimensão da dignidade humana– ditames estes herdados da Filosofia Escolástico-Medieval de São Tomás de Aquino.

E é sobre estes e outros feitos de Sua Eminência O Cardeal Dom Alexandre, que nós, a geração do hoje devemos assentar a nossa reflexão e acção. Replicar vivamente sobre as gerações vindouras e incutir a necessidade permanente de pensar no Outro; Uma reflexão centrada no homem concreto como um fim e não como um meio. Viver e ensinar a criação de modalidades e estratégias de desenvolvimento do que fora iniciado por Dom Alexandre.

A coragem para iniciar novos e ambiciosos projectos, a ideia viva e prática do altruísmo, o espírito de criar e buscar novas realidades, e o desejo de ver um país mais educado, desenvolvido e próspero são algumas das licções práticas que Sua Eminência o Cardeal Dom Alexandre nos deixa. Foi mais de um século de um Homem talhado para a vida do bem estar do próximo. Saibamos viver e honrar os seus feitos, os seus ensinamentos e imortalizar sua obra fazendo do nosso país uma referência no rendezvous civilizacional. Obrigado e até sempre Cardeal Dom Alexandre

Por: Hélio Guiliche (Filósofo)

Digressão pelos recessos de identidade sonegada é o que encontro na poesia de Noémia de Sousa.

A busca obsessiva de “uma porta de saída” nos textos da poeta é a nota que marca o compasso dos esforços pelo flanqueamento dos caminhos para a liberdade. O sentimento de angústia pelo cerceamento de direitos, seus e de seus concidadãos, deixa extravasar um contínuo caudal de protestos que se reverberam nos poemas. O eco das palavras trepida na alma de quem os lê e torna cúmplice de revoltas que fluem na sua obra.

A sua peregrinação pelo mundo, desde as margens da baía de Lourenço Marques, na Catembe, seu berço natal, a sua passagem pelo Brasil, França e finalmente Portugal, onde morreu, encontra um paralelo no universo da sua poesia. Na sua essência, esses poemas- monólogos – diria efabulações – encontramos combinados elementos de exaltação dos valores tradicionais, culturais e sociais da eterna Mãe-África, subscritos em poemas vários, os brados de convocação para o engajamento com as culturas locais, de incitamento pela ruptura com a ordem premiada pelo colonialismo. Fazem, (fez) de Noémia de Sousa uma nacionalista carismática e singular nas Letras moçambicanas. Pela sua coragem de questionamento, pela frontalidade e denúncia dos machos socias de então, conquistou por mérito próprio um lugar cimeiro no pedestal dos poetas-combatentes, dos heróis-poetas e inscreveu o seu nome no historial dos mais consagrados Escritores e Poetas desta nossa à beira do Índico.

Com a sua obra, Noémia de Sousa, mãe-poeta, poeta-mãe, conquistou uma dimensão universal e deixou profundas marcas nas percepções sobre a escravatura, sobre os malefícios do colonialismo e da opressão.

“Sangue Negro” constituiu-se como um alicerce duma Poesia que foi (e ainda é) o baluarte como moçambicanos, africanos e duma luta pelo reconhecimento da nossa identidade entidades pertencentes a um mundo global pela justiça colectiva e pela emancipação nacional.
Minha homenagem sincera e incondicional.

*Nota do editor
No próximo dia 20 deste mês, se estivesse viva, Noémia de Sousa completaria 95 anos de idade. A “mãe dos poetas moçambicanos” faleceu em 2002, mas a sua obra continua actual e importante para o país e para o mundo. Como forma de a homenagear, convidamos o escritor Aldino Muianga, que vive e trabalha em Pretória, na África do Sul, para partilhar o que a célebre obra Sangue negro (editada no dia 20 de Setembro de 2001, portanto, há 20 anos) e a sua autora representam para toda uma literatura. Na verdade, a homenagem começou há alguns meses neste jornal e vai continuar nos próximos dias.

Fui convidada como oradora no 10º evento do “Raias Poéticas”, a mesa que abordaria o tema “Leitura, poesia e edição: laços e pontes que unem o leitor, poeta e editor”.

Para mim, falar em Literatura pressupõe incluir na “casa literária” todo o tipo de intervenientes: autores, leitores, livreiros, editores, dinamizadores literários, entre outros, sem excluir, actuando de modo holístico. Se é verdade que fundamentados por ideias de Gilles Deleuze, encaramos o conceito “dobra”, como coexistência, verdades, abertura para diferentes tipos de debate ou de actuação, não é menos verdade que a ideia de dobrar, sugere ocultar o que fica dentro dobra. E, se não houver cuidado ou atenção, incorre-se no erro de passar por cima do outro.

Se por um lado, podemos colocar coisas dentro de uma dobra, para as resguardar, também podemos nos esquecer delas. Então, é mesmo válida a ideia a construir a partir de Deleuze de que “dobra” implícita agir de modo diferente. Eu diria holístico ou inclusivo.

Quando fui convidada a participar do evento “Raias poéticas”, mesa que abordaria a temática “Leitura, poesia e edição: laços e pontes que unem o leitor, poeta e editor”, as primeiras perguntas que me fiz foram: que laços é que unem diferentes tipos de “leitores” à editores? À poesia?; como integrar alunos e leitores excluídos do contexto educativo numa literatura excludente?; como unir leitores excluídos a editores excludentes?; Como ter uma ”casa literária” inclusiva?; como solucionar o desfasamento entre os pressupostos para a educação inclusiva e a edição de livros inclusivos?

Antes de responder a essas perguntas, recordo o contexto moçambicano, a partir do qual verifiquei existirem algumas soluções e desafios para esse quesito. Moçambique é um país multicultural, com onze grupos étnicos-culturais. Tem também recenseadas, cerca de 23 línguas, algumas das quais já com dicionários, gramáticas, textos ficcionais e didácticos, num universo no qual, a língua oficial é a língua portuguesa.

Lembro ainda que as línguas moçambicanas foram interditadas na época colonial, facto reiterado em 1975, após a proclamação da independência, no qual o português foi escolhido como língua oficial. Entretanto, até hoje, para uma população nacional de 30.832.244 de habitantes, da qual 14.885.787 são homens e 15.946.457 são mulheres, onde 34,02% são população urbana e 65.08%, população rural; cerca de 65%, que é habitante de zonas rurais, é falante do português como língua segunda.

Falar sobre “casa literária”, nesse contexto, deve ser e saber integrar todos os seus intervenientes: autores, leitores, livreiros, editores, dinamizadores literários, entre outros. Pressupõe ainda integrar, nesse grupo a Escola, esta que é instituidora e disseminadora do cânone literário.

Nesses termos, convêm lembrar que segundo a Lei nr.18/2018, de Dezembro o Sistema Nacional de Educação deve integrar crianças, jovens e adultos com necessidades educativas especiais em escolas regulares. Para as escolas de educação especial vão alunos em casos de extrema necessidade. Até aí, está tudo bem.

O problema que se coloca é que a maioria, senão todos os professores das escolas regulares não estão habilitados a lidar com a deficiência. Além disso, segundo me constou, a partir de um programa radiofónico, c.f <https://youtu.be/VWnk6smvqCE> existem, no país, cerca de “728 mil pessoas com deficiência; 115 mil crianças, em idade escolar, têm deficiência e existem, apenas, 10 escolas especiais, num contexto no qual 66.4% dos 5 aos 24 anos estão fora do sistema de ensino”.

Não havendo como lidar com a deficiência em contexto de aulas regulares, certamente que, também, não haverá como lidar com determinado tipo de pessoas com deficiência em determinados programas de dinamização literária, como por exemplo os cegos, os surdos, os que têm deficiências mentais e os que tenham como língua primeira, uma língua moçambicana, porque, nem todas as escolas utilizam a modalidade de ensino bilingue e a produção de materiais de literatura em línguas moçambicanas é escassa.

O ensino bilingue é um tipo de ensino no qual, democraticamente, por escolha realizada dos pais, os alunos são matriculados na Escola, e submetidos a um ensino no qual, nos seus três primeiros anos de escolaridade, a língua de apreensão do saber é uma língua moçambicana e o português aparece como disciplina. E nesses anos, poucas crianças têm acesso à literatura produzida nas suas próprias línguas.

Junta-se aos problemas mencionados o facto de moçambique ter cerca de 30 editoras e apenas algumas sobre as quais falarei mais adiante, se dedicarem a ser inclusivas. São as seguintes, as editoras existentes no país: Trinta Zero Nove; Kuvaninga; Progresso; Plural; Fundza; Escola Portuguesa de Moçambique (Braço editorial); Fundação Fernando Leite Couto, Alcance; Selo Jovem; Índico; Xidjumba; Kuphaya; Oleba; Cavalo do Mar; Ethale; MOLIJU, Literatas (Movimento literário, que tem obras editadas); AEMO; JV; Escolar; Texto; Kwiri; TPC; Kulera; Atiko; Imprensa Universitária; Kwandika; AT; Marimbique; Capicua; Arquivo Histórico de Moçambique – AHM; “FUNDAC” (instituição cultural que publica as obras resultantes dos concursos literários que promove).

Entrevistada Sandra Tamele, fundadora da editora Trinta Zero Nove, referiu que a instituição foi criada a 30/09/2018, em celebração ao dia da tradução. Tem como missão traduzir e publicar obras em formato impresso, áudio-livro e em braile; privilegiando mulheres, narrativas actuais, pessoas com deficiência e minorias. Esse trabalho é feito com obras de autores moçambicanos e de autores de outros países. A editora tem também dado primazia a obras infanto-juvenis. No seu catálogo já existem cerca de 30 trabalhos, que incluem poesia, romances, contos. Esta instituição tem realizado saraus culturais de poesia, com tradução em língua de sinais.

Falei também com Elcídio Bila, representante da editora Kuvaninga, que me informou que esta foi criada em Maio de 2012, em Maputo. Tem utilizado capas de cartão (papelão reciclado, retalhos de tecido e outros) para cobrir o miolo dos livros que produz, unindo as folhas através de uma linha. É um trabalho artesanal.  Tem no seu catálogo cerca de 27 títulos publicados, nos géneros poesia, contos, drama, crónicas e ensaios de autores moçambicanos e estrangeiros. A sua missão é estimular novos escritores. Além disso, têm se dedicado a levar a consciência dos seus leitores à preservação do meio-ambiente.

É no âmbito do trabalho dessa editora que surge, em 2020, num formato misto: à tinta e em braile, a obra Sonolência e alguns rabiscos, da autoria de Énia Lipanga, poetisa e escritora moçambicana. Quando entrevistada à propósito da matéria neste artigo, referiu que o seu livro tem sido utilizado pela Associação de Pessoas com Deficiência Visual como exemplo do que se espera da arte. Da conversa tida com ela, destaco que dinamizado a literatura, declamando poesia em eventos com intervenção simultânea de interpretação em língua de sinais.

A literatura infanto-juvenil, começou a ser publicada em 1979, em Moçambique, entretanto, é um género com menos produção do que a produzida para um público mais adulto e que, ao longo do tempo foi sofrendo interrupções no âmbito da sua publicação. Mas, com a actuação da Associação Progresso, fundada em 2001, abriu-se uma etapa em que aumenta a produção desse género e inaugura-se uma etapa na qual a produção nesse género é também feita em algumas línguas moçambicanas.

Essa associação tem desenvolvido o seu trabalho em áreas rurais, nomeadamente: Niassa, Cabo Delgado, Maputo, Tete, Nampula e Zambézia; produz materiais impressos para apoiar o Ensino Bilingue.  Têm, também, produzido textos para serem utilizados na alfabetização de adultos, cujas temáticas incidem sobre habilidades para a vida. A editora desta Associação já tem produzidas mais do que cem obras.

A Plural Editores iniciou a abordagem à temática dos livros em línguas moçambicanas em 2013. Tem contribuído para o Ensino Bilingue e de registo de contos da tradição oral, através do projecto “Moçambique: todas as línguas, um país”. A primeira edição desse projecto foi realizada em Abril de 2014.  Como resultado desse trabalho, existem, actualmente, materiais, nas seguintes línguas: xichangana, emakwa, cinyanja, cisena, cicopi, cisena, gitonga, citsua, ciyao, elomwé e shimakonde.

Fundada em 2015, a Associação Literária Kulemba, cujos responsáveis pertencem à editora Fundza, tem organizado festivais infantojuvenis sobre o livro, feiras, declamação de poesia e concursos literários que têm resultado na produção de livros para esses públicos. Em 2016, a associação iniciou a produção de uma colectânea de contos intitulada À Volta da Fogueira, desta colecção já foram publicados três volumes; um em 2016, outro em 2017 e um terceiro em 2018. A Associação tem dialogado com os seus públicos, através do festival literário infanto-juvenil, designado Flik.  Em 2019, após ciclone Idai, a Associação publicou livros sob o lema “Livro também sara Feridas”.

Escola Portuguesa de Moçambique, especificamente o seu braço editorial tem, desde 2010, desenvolvido com escolas moçambicanas, um projecto de dinamização da leitura e da escrita, através de um programa denominado “Mabuku ya hina”. Desse trabalho têm surgido a publicação de obras infantojuvenis. Esta Escola tem um outro programa designado “projecto ler para aprender”, que teve início em 2012, através do qual estimula crianças das escolas moçambicanas ao gosto pela leitura e pela literatura. Para além desses projectos, a Escola tem publicado obras infanto-juvenis, resultantes da adaptação e do reconto de obras da literatura oral, por autores moçambicanos consagrados ou não.

A Fundação Fernando Leite Couto, fundada em Abril de 2015, tem no seu catálogo 32 obras, entre poesia, romance, conto e literatura infanto-juvenil é chamada a este convívio pelo facto de já ter publicado livros de literatura infanto-juvenil e de criar oportunidades para a tradução em peças de teatro alguns livros desse género e da autoria de diferentes autores na praça moçambicana. É um modo de se fazer dinamização literária que, para além de destacar um público muitas vezes excluído, têm dramatizado textos que, por sua vez são interpretados (em parte) em linguagem de sinais, para serem difundidas para um público infanto-juvenil. Há, também, um trabalho de estímulo para que crianças escrevam histórias e as contem a outras crianças, em modo dramatizado ou de conversa. Essencialmente, esta Fundação funciona como uma Escola de formação de novos autores ou de estímulo de jovens autores para o aprimoramento do seu trabalho.

Num país como Moçambique, abordar a temática da existência de laços que unam editoras aos seus leitores, deveria pressupor abrir a mente e falar sobre todo o tipo de leitores. Só assim é que a “casa literária” ficaria completa. Pressuponha ainda, que poucas editoras existentes se predispusessem a criar noas formas de diálogo com os seus públicos. Só assim é que haveria justiça social e justiça científica, feitas à medida da dobra de pensamento preconizada por Gilles Deleuze, que inspirou o movimento Raias Poéticas.

*Sara Jona Laisse. Docente na Universidade Católica de Moçambique. Colaboradora na Fundação Fernando Leite Couto. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

Uma senhora, funcionária do Estado, ficou envergonha quando sua filha menor disse, na maior das inocências, respondendo a uma pergunta de uma sua colega, que quando crescida quer ser marhandza como sua tia. Entenda-se marhandza como uma mulher interesseira.

A resposta foi motivo de riso às gargalhadas para o embaraço da mãe que esperava por algo melhor que lhe deixasse orgulhosa, a sair da boca da menina. Que tivesse dito, por exemplo, que quer ser médica, engenheira, bióloga ou outra profissão, menos essa de marhandza.

As senhoras riram-se porque não entenderam o que está por detrás da resposta. Ridicularizaram a criança e, por tabela, os seus pais, porque não compreenderam a gravidade do assunto.

Consideraram-na perdida em termos de futuro que se pode esperar dela porque não tinham a ideia do que o sonho da criança significa para elas mesmas, como mães, para os pais da menina e para a sociedade em geral.

Mas, afinal, o que há de mal na escolha do que a menor quer ser quando atingir a idade de adulta? Onde está a graça no que a criança disse?

O ponto é que por detrás daquilo que a menor disse está uma forte e crua mensagem. A questão da transmissão de valores geracionais. Para a criança, a tia é uma referência, o seu ídolo, impressionada com boa vida que ela leva. A possibilidade de poder ter o que quer, nomeadamente dinheiro, telefone caro, cabelos postiços, roupas e outras coisas.

Acha que para atingir aquele nível de satisfação não é preciso fazer nenhum esforço. Basta ser marhandza, tudo fica resolvido. O resto cai que nem uma fruta madura e pronta para consumir. Que não é preciso ir à escola para sonhar com uma boa qualidade de vida no futuro.

É assim como as coisas acontecem na sociedade. As crianças buscam referências dos mais velhos. De pessoas mais próximas que tanto podem ser primos, tios, avôs e pais, como amigos da família.

Vezes sem conta, os petizes caem na tentação de constituir ídolo uma pessoa que não tem uma conduta exemplar na sociedade impressionados com algumas fantasias ou vida fácil que ostentam, como é o caso vertente.

Por isso, no lugar de rirmo-nos da criança que escolheu ser marhandza quando adulta, devíamos ficar muito preocupados porque se há um culpado nisto, não é a criança, mas, isso sim, o núcleo familiar onde ela está inserida. As pessoas que estão à sua volta e que, ao longo da vida, se transformam em ídolos, cujos actos são vistos como exemplo a seguir, neste caso concreto a tia da menina.

Devia ser motivo de muita preocupação para todos nós porque a sua escolha não reflecte propriamente o seu verdadeiro sonho, o sonho da infância que qualquer criança tem. Representa o que é a sociedade de hoje. O rosto de uma sociedade que perdeu por completo os seus valores.

Uma sociedade que antes era educadora mas que hoje precisa de ser educada para educar melhor os seus constituintes. Para reassumir as suas responsabilidades nesse campo perante os mais novos.

A sociedade em que vivemos já foi melhor. As crianças eram educadas quer em casa, quer na comunidade. Um pai era sempre pai no seu lar e na comunidade. O mesmo em relação a uma mãe. As duas figuras granjeavam muito respeito, simpatia e consideração no seio de todas as crianças.

O seu conselho, a sua chamada de atenção em caso de algum desvio comportamental era de cumprimento rigoroso e sem qualquer tipo de contestação por parte das crianças. Hoje, isso é impossível. Qualquer tentativa de um adulto de corrigir a uma criança por práticas erradas pode resultar em insultos ou humilhação do estilo “quem és tu para me chamares atenção?”.

Naquela altura, não havia espaço para recusar ser educado por um adulto só porque ele não é seu pai ou mãe biológica. Os avôs eram sempre avôs para todos os petizes. Os adultos estavam em sintonia na educação dos mais novos. Cada um deles tinha autoridade perante uma criança, igual a dos seus pais. Podiam, se bem entendessem, castigá-la em caso de mau comportamento.

Nessa altura, a sociedade transmitia outro tipo de valores, nomeadamente o respeito mútuo e pela vida, honestidade, amor ao trabalho e outros. Era uma sociedade que tinha muito para dar em termos da educação. Produzia ídolos diferentes dos que temos hoje. Ídolos que eram um exemplo na comunidade.

Se alguém fizesse a mesma pergunta que foi colocada à futura marhandza a uma criança desse tempo e nessa altura, teria tido uma resposta que orgulharia os seus pais. Que quer ser professor, inspirando-se no seu de lá da aldeia; médico(a) ou enfermeiro(a), à semelhança da titia ou do titio que cuida dele(a) quando doente, no pacato centro de saúde da comunidade; agricultor, espelhando-se no patrão do seu pai, tio, avô, primo ou irmão com grandes machambas de cultivo de milho, mandioca, feijão e outros produtos.

Infelizmente, hoje em dia a sociedade em que vivemos produz alguns ídolos da vergonha. Gente que ostenta riqueza ou bem-estar na sociedade sem um histórico. Gente que ganha dinheiro através de esquemas criminosas, mas infelizmente tido como referência para os mais novos pela qualidade de vida que levam em que não têm falta de nada. Os “ricos” de actualdade que a sociedade se encarrega de os venerar, admirar e, mesmo, aplaudir pela sua rápida ascensão na vida, ao invés de os questionar como era no passado.

Existem duas correntes que se ocupam de definir o conceito de nação. Os objectivistas, que sublinham a geografia, a raça, a língua e as culturas. Por outro lado, existem os subjectivistas, que recorrem e valorizam a vontade colectiva, face a um determinado presente e destino comum. Os artistas, sempre mais sublimes e filósofos na sua asserção, procuram e descodificam novas fórmulas e outros horizontes para redefinirem os eles que nos unem como moçambicanos, como irmãos e como humanidade. Reencontros da nação pela arte, pelos tons e pelo amor.

Magafusso, esse artístico plástico registado em Inhambane céu, como Diogo Luís Daniel, oriundo da terra moçambicana mais próxima do Paraíso, céu da terra de boa gente, encontrou as suas próprias formas de filosofar à nação, colocando, amiúde, as aporias e as vicissitudes como mote maior da criatividade. Magafusso, sabe bem, com todas as letras do seu alfabeto artístico, que faz parte da responsabilidade dos intelectuais e criativos das artes, pensar, reflectir e participar, sempre que possível, na redefinição da construção deste país e desta nação. Usa as artes e telas, como terapia e bálsamo para minimizar a dor do drama, do conflito da morte e da tragédia, e maximiza a esperança de um novo dia, de um amanhecer mais colorido e de um sol que ilumine a todos com a mesma tonalidade e indisfarçável arco-íris.

Não temos e nunca teremos a capacidade para modificar o passado. Todavia, isso não nos impede de, com rigor, retomar o presente, com outras racionalidades e paradigmas, para que o futuro se aporte de outros ritmos e sentimentos. Magafusso faz parte desse naipe de artistas que imagina um futuro menos ilógico, inapreensível e irracional. Ele aprendeu a sofrer no período da guerra dos 16 anos, ou será guerra dos 45 anos, quando olhou para as pinturas de Jacob Macambaco e Bento Mukeshuana, que viveram esses dilacerantes e perturbadores momentos, como se tivesse sido à catarse de uma apocalíptica epopeia.

Conhecido por poucos e referenciado como “talento lapidado”, Magafusso retoma as consequências, as perplexidades e o estado de aporias de um Moçambique contemporâneo, com limitados e intermitentes períodos de paz, impregnando nas telas as cores monótonas e pálidas que reabrem as feridas de uma nação que almeja uma identidade sonhada pelos moçambicanos. Magafusso reinventa uma reconciliação através de uma linguagem paradoxal.

Com as cores mais quentes, encontra na mulher e mãe, o equilíbrio da família e do dom da divindade. Por um lado, essa mesma mulher e família, são substratos e símbolos antimilitaristas. Símbolos da concepção autoritária e excludente. Mas, por outro lado, os seus traços revelam uma hermenêutica que faz jus ao conhecimento e a verdade. Então, não importam as cores e os disfarces, nem as ideias restritivas que suavizam a realidade, pois, o sentido mais completo desta nação está ali reflectido e não requer intelectualidade para ser descortinado.

Magafusso é um artista consagrado. Uma voz silenciosa e didáctica que deixa suas marcas dentro e além-fronteiras. Com frequência, algumas das suas obras são transportadas para a Europa. Compradores que fazem leituras mais trabalhadas e requintadas dos seus traços, mas, por outro lado, deixa sua marca para instruções nacionais, regando a esperança de uma reconciliação que tarda e que pode ser uma tela onde, todos nós, somos chamados a pincelar.

Magafusso abstém-se dos holofotes e da ribalta. Vive enfático da calmaria e do “low-profile”. Participou em colectivas na casa de cultura do Alto-Mae, de 1995 a 1999. Parece ser seu terreno de reconciliação. Em 1999 e 2001, participou na magna exposição da SADC, esse órgão regional que deveria ser mais dos artistas e fazedores de cultura, dos empresários, do povo, do que dos políticos. Caminhos certos e seguros de uma génese regionalista, mas nunca regional.

Para esta exposição individual de 2021, ameaçados pela pandemia e pela fragmentação da essência da humanidade, fomos convocados para revisitar povo, a sua arte e espiritualidade. Fazer uma introspecção das suas quatro individuais realizadas em Inhambane, (1992,1994,1999 e 2003). Um Magafusso que vai muito para além das obras expostas, incluindo as exposições feitas em Maputo, entre 2001 e 2003, na galeria Shanti Graf e no Centro de Estudos brasileiros, em 2004.

Em boa verdade, fomos impelidos a rever as imagens que repousam próximas dos tectos e dos murais das igrejas, das escolas e faculdades e, sobretudo, pela beleza que conferem às mentes dos fiéis, do clero e da santidade eclesiástica, os alicerces das bênçãos. As congregações católicas reencontraram nos seus traços, a forca da espiritualidade e da fé. Os crentes, de todas as idades, credos e raças, buscam essa esperança que parece inatingível, incansável e negada pelos tempos. Mas, são estas as imagens que conferem a Magafusso a possibilidade de embrenhar pelas mentes dos acólitos, das almas sofredoras e dos devotos praticantes, a força da razão, que os leva em busca dos subterfúgios e das racionalidades que os humanos ofuscam.

Magafusso não conviveu com Malangatana e nem com Naguib. Porém, retira do Pai da pintura moçambicana, o pendor de uma marca firme e lustrosa, enquanto bebe do Mestre, o nudismo de um povo que se quer indumentar e não desfaz os caminhos desses reencontros. Nem teve contacto com Samate Mulungo. Mas, conhece Noel e Mankeu. Não tem argumentos para seguir as linhas de todos. Tem a obrigação de recriar e incutir, nas suas telas, a sua identidade e marca. Fala com apreço e carinho de outros pintores, dos mais jovens e que procuram a sua linha identitária.

Pinta desde 1983, como resultado de sua inspiração e da vontade de conferir a este país a meritocracia da arte, a sagacidade da cor e dessa veia genética de seus pais, devotos religiosos e amantes de cultura. Nas várias exposições das quais participou, dois títulos nos sugerem a sua forma de conceber Moçambique; “No futuro haverá sono, para homens e mulheres” muito condicente com seu ideal maior e “o futuro é um barco que nos conduz a Deus”. Quem sabe estes os títulos de sua própria vida e talento. Isto é Magafusso.

Para quem não o conheça, porém que tenha a oportunidade de contemplar suas telas, fica a nítida sensação de que o autor tem alguma afinidade para com a obra “Guernica”, de Pablo Picasso, pintada a óleo em 1937, descrevendo as consequências de um bombardeamento aéreo, sobre a população civil desta cidade, na Espanha. Todavia, rapidamente, desviamos a linha do horizonte para pensarmos na espiritualidade. Diga-se, revemos  a pintura de Kandisnky, o famoso fundador do suprematismo, com um recorte acentuado sobre os diálogos entre a arte abstracta e a filosofia. Para Magafusso, a filosofia africana.

Esta noção de espiritualidade em Magafusso, reflecte e expressa, inequivocamente, esta sufocante e incompreensível dor e sofrimento do seu povo e seus contemporâneos. Estes são os espaços alternativos de clamor por uma outra ordem, um novo humanismo e pelas valências da democracia tão propalada como a salvação do mundo. Simultaneamente, parece pedir a divindade e a força de todos os Deuses, aos quais Moçambique venera e se ajoelha, para aliviarem estes destinos e pobreza.

 

Dizem que o mundo só anda/ tendo à frente um capataz.

in “Os índios da meia-praia”, Zeca Afonso

 

A História de Moçambique é um lugar onde flutua o poder criativo de Licínio Azevedo. Depois de a ter ficcionado de diversas formas, por exemplo, em Coração forte – relatos do povo armado (histórias, 1982), Virgem Margarida (filme, 2012) e Comboio de sal e açúcar (filme, 2016), com efeito, mais uma vez o realizador regressa ao passado para de lá retirar emoções de uma época que teima em emitir mensagens ao presente. A curta-metragem Nhinguitimo, adaptada do conto de Luís Bernardo Honwana, expressa essa vocação do cineasta olhar para trás como quem pensa o seu tempo no espaço onde habita.

Na versão da Ébano Multimédia e Mahla Filmes, Nhinguitimo é uma série de narrativas interligadas, curtas, mas profundas. No centro da história encontra-se Vírgula Oito (António Sitoi), uma personagem tão sonhadora quanto inconformada com as adversidades impostas a si e a sua gente. No seu futuro cabem N’teasse (Silvana Pombal) e os fartos campos verdejantes que vaticinam uma vida conjugal confortada. No entanto, no auge dos seus vaticínios falíveis, eis que a ambição de um comerciante ordinário, Rodrigues (António Cabrita), corrompe o Administrador do lugar (Luís Sarmento), convencendo-o a arrancar as terras aráveis do pobre camponês. Aí logo se forma uma ficção que coloca a justiça apenas ao benefício dos mais fortes (os colonos portugueses), fazendo com que, como afirma Pepel, personagem de Albergue nocturno, de Máximo Gorki, a honra e a consciência sejam coisas boas para quem tem autoridade.

Em termos da sinopse, Nhinguitimo não é uma história surpreendente. Logo se vê, as questões ligadas às excentricidades coloniais em Moçambique exploradas na curta-metragem já foram ficcionadas em livro, além de Luís Bernardo Honwana, por autores como Isaac Zita, João Dias, Guilherme de Melo, Orlando Mendes ou Lília Momplé. Ainda assim, interessa ver como as cenas do filme de Licínio Azevedo estão encadeadas e como através de diálogos (às vezes apaixonados) entre as personagens se projectam as relações de afinidade ou hostis. Nesses diálogos, claro está, facilmente se destaca Vírgula Oito, pela precisão e acutilância interpretativa. Aliás, Vírgula Oito é de longe a personagem mais interessante da história, graças à performance de um actor que soube interpretar o papel em todos os momentos da ficção. António Sitoi soube de todo se colocar ao nível da tão exigente personagem instável, quer ao nível da expressão corporal (a envolver tiques, gestos, movimentos), quer ao nível da expressão oral. Que dicção rhonga/changana! De facto, no uso da fala, Sitoi permite a Vírgula Oito concretizar o entendimento de Roman Jakobson sobre a palavra (enquanto signo verbal): a união do som e do sentido, no caso do filme, muito dependente da emoção que move a enunciação da personagem.

No capítulo das performances dos actores, vale ainda destacar as convincentes aparições de António Cabrita e Luís Sarmento. A espontaneidade do primeiro e austeridade do segundo contribuíram para a concretização de uma boa cena hilariante no interior do bar de Rodrigues, onde ficam clarificados os contrastes linguísticos de uma sociedade bem bipolarizada.

A curta-metragem de Licínio Azevedo pretende ser uma película na qual se reúnem a acuidade de recontar a História de Moçambique através de eventos marginais, ocorridos numa pequena aldeia algures em Lourenço Marques. Do mesmo modo, a ficção tem a particularidade de relançar esse debate sobre o racismo, afinal ainda actual. Todo a preto e branco, Nhinguitimo atravessa a época colonial de forma transversal, quando cristaliza as possíveis reacções de uma sociedade que se farta da arrogância dos que, para enriquecerem, não se importam de chupar os desfavorecidos até ao tutano. Rodrigues não é apenas um homem branco, igualmente, é o eufemismo de uma quizumba sem tonalidade de pele, que desterra gente, apropriando-se dos seus recursos na tentativa de expandir o seu império fel.

Não obstante as situações perniciosas à volta de um poder ilegítimo, a actuação de Vírgula Oito serve para protestar contra essa velha ideia que Zeca Afonso ironiza na música “Os índios da meia-praia”: “Dizem que o mundo só anda/ tendo à frente um capataz”. Apenas Vírgula Oito compreende a falsidade da afirmação. Os outros, casos de Maguiguane (Jorge Vaz) e Machumbutana (Ivan Barrama), cegos pelo medo, vacilam e lá abandonam o camponês contrariado.

Quem for a ver o filme, primeiro, deve aproveitar cada segundo. 22 minutos (com ficha técnica) passam num ápice e quando isso acontece até custa acreditar no final do filme. Segundo, quem for a ver o filme irá conectar-se com a outra margem da História de Moçambique (sem heróis nacionais), lá onde se cruzam a realidade e a delicada arte da representação. Seguramente, o telespectador irá deixar-se impressionar por uma excelente direcção de fotografia (Pipas Forjaz) e pela selecção/ misturas musicais protagonizadas por Joni Schalwbach. A trilha sonora cumpre no filme a função importantíssima na sedimentação de tudo o que não pode ser descrito através das falas das personagens. Nhinguitimo é tudo isso: um filme no qual Moçambique se reencontra, de alguma maneira.

 

Título: Nhinguitimo

Realizador: Licínio Azevedo

Produtoras: Ébano Multimédia e Mahla Filmes

Director de fotografia: Pipas Forjaz

Produtor-Executivo: Jorge Ferrão

Classificação: 15

George Perry Floyd Jr. um cidadão norte-americano, negro,  assassinado em Minneapolis no dia 25 de maio de 2020, estrangulado pelo “policia branco Derek Chauvin, que ajoelhou-se sobre o seu pescoço durante uma abordagem por supostamente ter tentado usar uma nota falsa de vinte dólares em um supermercado.

Foi assim que o mundo descobriu este novo episódio dos polícias BRANCOS qualificados de racistas. Quando fui levar meu filho Kensyle na escola, ele me falou que um BRANCO havia morto um PRETO porque o tal branco é racista. Eu como não sabia e ainda não sei se é verdade ou não que um branco matou um preto, porque é racista, perguntei a kensyle. Filho, mas como sabes tu que ele é racista? O puto olhou para mim e disse é o que todos dizem. Eu na verdade vi um ser humano covarde matar outro ser humano indefeso, disse-lhe.

Das várias vezes que me deparei com situações envolvendo racismo duas me marcaram particularmente, a primeira foi em Moçambique, quando um amigo do meu irmão mais velho vendo que a minha ex-esposa era estrangeira perguntou “Os pais da tua mulher enviam dinheiro todos os meses?” Essa pergunta surgiu quando ele soube que eu era o único a trabalhar na altura. A segunda foi a quando da minha chegada a Bélgica, um preto de nome Jean-Pierre diz para mim numa conversa, “É melhor ires ao CPAS (assistência social), não te metas em ser empreendedor”.

Nestes dois casos podemos ver dois indivíduos que sofrem de graves problemas de complexo de inferioridade e que é o nível mais elevado de racismo. Nós fomos condicionados a pensar  e nos vermos de uma forma. Embora alguns ainda queiram culpar a escravatura, hoje nós pretos somos os principais promotores desse racismo. Nós somos corajosos o suficiente para que em cada Telejornal digamos aos nossos filhos que assistem que para construirmos nossas estradas, escolas e mesmo para as nossas doenças precisamos que o BRANCO (estrangeiro) seja a solução. Depois de anos e anos a  “auto educar” desta forma, não é surpreendente que tenhamos pessoas a pensarem como os dois exemplos acima citados, não?

Para os que acreditam que brancos são racistas, gostava de dizer que tal como pretos, brancos têm sentimentos, são humildes, bons, maus, susceptíveis de serem manipulados, sentem frio, amam, detestam. Neste caso, se eles são racistas então nós também somos. Tal como preto está sendo manipulado a se ver inferior, o branco também está sendo manipulado a se ver como superior.  Pouco tempo após ter-me instalado a Charleroi (Bélgica), estava sentado no terraço de um café Turco, quando vem um jovem branco e diz-me: “Na boa? Eu te conheço, te vejo aqui na zona. Olha, quando me vires não exite, podes me dizer bom dia, eu não sou racista”. Olhei para ele e respondi, “Eu sou muito racista e não aprecio gente de raça branca. Os proprietários do café,  que já me conheciam, explodiram de rir e o tipo ficou a olhar para mim como se eu tivesse dito que sou Bill Clinton. Aqui temos um exemplo de alguém que sofre do mesmo problema de “mediatização racial”, este jovem sofre do mesmo problema de racismo que os dois pretos que mencionei acima. Ele foi ensinado que é superior, mas ao mesmo tempo acha que deveríamos ser tratados de forma igual. Não sabe lidar com a situação.

 

Emancipate yourselves from mental slavery. None but ourselves can free our minds.” – Bob Marley

Porque as potências descobriram que esta emancipação é difícil de ser implementada, decidiram tirar proveito dela. Os verdadeiros promotores do racismo (uma pequena minoria de raça branca) compreenderam que os seres humanos têm dificuldade em pensar, preferem que lhes seja dado tudo já pensado e concluído. Então, eles usam seu poder (mídia) para passar o pensamento que eles querem que as pessoas tenham. A mídia ocidental diz que um BRANCO matou um PRETO e branco é racista. É assim como eles querem que racismo seja apercebido. Gostava de voltar para o caso de George Floyd e perguntar aqueles que dizem ou pensam ainda que o policia é racista. Afinal, como sabem que ele assassinou George Floyd porque é racista? Pode ser um psicopata, não? Porquê racista então? Alguém esta(va) na cabeça do policia para saber o que realmente o motivou? Eu não digo que é uma ou outra coisa, apenas sei que não sei porque ele fez o que fez. sei também que não me posso guiar pela opinião de pessoas que procuram sem descanso elevar uma raça  em detrimento da outra.

Como é possível nunca termos visto ato de racismo de um preto contra branco a ser mediatizado? Será que preto não pode ser racista? Para os que preferem ficar condicionados, como é o caso do homem do café Turco, sim. Para ele preto não tem nível para ser racista. Para o amigo do meu irmão idem, preto não tem capacidade para sustentar um branco. É assim como ambos foram condicionados. É por esta razão que Bob Marley diz na música “Redemption song” que devemos nós mesmos nos livrarmos do complexo de inferioridade e/ou superioridade.

Black Lives Matter

Caro leitor, já se perguntou porque é que nenhum grupo de direitos cívicos nos EUA e no mundo tem a mesma mediatização que este? Eu creio que a força deste slogan serve os interesses dos verdadeiros promotores do racismo. Este slogan diz “Vidas Negras Importam”. Sem nos apercebermos nós estamos a dizer, olha raça superior, nossas vidas “também” são importantes. Podem vocês nos dar direito a existência? E essa tal raça superior conseguiu ver aqui uma forma de lembrar a raça inferior que para vossa existência vocês tem de nos pedir autorização. Imagine a vergonha que sente o universo (Deus) quando olha para nós (pretos) nos humilharmos dessa forma? É com olhos incrédulos que vejo pais a levarem seus filhos para manifestações e dizerem, venho aqui mostrar meu filho que ser preto é duro. como quem diz, venho lhe mostrar o que te está destinado.

Por incrível que pareça, este complexo de inferioridade é confortável, razão pela qual não o queremos abandonar. Ser vítima é excelente, não requer nenhum esforço, motivação e nem uso da inteligência. Reparem que, de todas as vezes que saímos para reclamar sobre o racismo, acusamos os ditos racistas de explorar as nossas riquezas, de nos negarem oportunidades e fingimos acreditar, ou ainda acreditamos mesmo, que se o tal racismo desaparecer o mundo será melhor para nós. Neste caso, como eles é que são racista só eles é que estão em posição de acabar. Veja que aqui atribuímos a eles (os tais racistas) a responsabilidade sobre nosso futuro e sendo assim, nós não podemos fazer mais nada senão sentar e esperar pelo fim do racismo. No entanto, se decidirmos agir como Bob Marley sugere, aí temos de trabalhar, daí nossa dificuldade, por isso que é confortável ser vítima do racismo.

Antes mesmo de ter sido descoberto o primeiro caso de COVID19 em Moçambique, o presidente Francês diz em conferência de imprensa: “Temos de nos organizar para ajudarmos os nossos irmãos africanos”. Essa é uma mensagem clara que vocês pretos não precisam pensar. Deixe que nós vamos fazer por vocês. É disto que nós gostamos.

No Jornal O País, do dia 10 de Agosto 2021, na rubrica económica, Ernesto Martinho fez um artigo sobre o trabalho nefasto da fundação Bill Gates em África, precisamente sobre as consequências para a segurança alimentar em África, do lobbying para alteração das leis sobre sementes. É a este grupo de gente que a promoção do racismo  interessa. Por outro lado, será que não seria este um sério motivo para sairmos as ruas e defendermos nossos interesses. Aqui estamos a falar, talvez mesmo de modificações no nosso sistema imunitário. Mas é evidente que não vamos fazer nada, como não nos foi dado nenhum pensamento e nem conclusão sobre o assunto e nem está sendo mundialmente mediatizado, tudo fica como está e certamente que a lei para alteração de sementes defendida pela fundação em África vai ser aprovada.

Cultura / Racismo

O maior medo dos seres humanos quando vêem pessoas diferentes chegarem na sua comunidade é de perder sua cultura. Não necessariamente medo da raça. A Bélgica é um país que ilustra bem esse exemplo, duas comunidades (Flamenga e Francófona) numa luta frequente para preservarem as suas respectivas culturas. Embora essa diferença, ambos decidiram se unir e criar riqueza para o seu país. A comunidade negra é na minha opinião a mais rica neste momento, que sejam em termos culturais, de recursos naturais e mesmo em termos de capital humano. É nossa responsabilidade  perceber que racismo é apenas uma ideia e uma visão de exploração que está sendo muito bem mediatizada (por uma minoria) e que pessoas brancas no geral não são racistas como nos pretendem fazer pensar. A partir do momento que compreendermos que a diferença cultural é o único problema que realmente diverge os seres humanos, vamos nos aperceber que nossa raça não é um problema. Nosso problema é ignorância com relação a nossa inteligência e potencialidade. Precisamos concentrar nossas energias no que realmente nos interessa. Educar os nossos filhos com a nossa história, traçarmos planos de desenvolvimento econômico e sobretudo pararmos definitivamente com o espirito de vitimização. Temos de ter vergonha desse sentimento.  EU ACREDITO EM NÓS.

 

Recomendação de livro para o mês de Setembro 2021: Imparável – “Bento Mário”

Samuel Gerson Andrisse

Especialista Internacional em Recrutamento

Autor do livro “Be ready for your next job interview”.

www.kensyle-recruitment.com

Reformar- Research for Mozambique

A violência nas prisões é o símbolo de uma crise global dos direitos à saúde e a viver em um ambiente prisional que respeite a dignidade humana. Enquanto um dos Princípios Básicos das Nações Unidas para o Tratamento dos Reclusos afirma que todos os reclusos devem reter os direitos humanos e as liberdades fundamentais estabelecidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos com as excepções inerentes ao encarceramento, este princípio está longe de ser respeitado. Diariamente há reclusos que sofrem abusos e outros tipos de violência.

A violência sexual é definida pela Organização Mundial da Saúde como todo “acto sexual, tentativa de consumar um acto sexual ou insinuações sexuais indesejadas; ou acções para comercializar ou uso de qualquer outro modo, a sexualidade de uma pessoa por meio da coerção por outra pessoa, independentemente da relação desta com a vítima, em qualquer âmbito, incluindo o lar e o local de trabalho”. A violência sexual abrange o abuso sexual considerado como o envolvimento em actividades sexuais, físicas ou psicológicas, de uma pessoa incapaz de compreender e de dar consentimento informado seja porque está sujeita a restrições físicas e / ou psicológicas, e / ou porque não está ciente das suas acções (em razão da idade, de uma determinada condição psicofísica, etc.).

No mundo inteiro, midia relatam que, na maior parte dos casos, o abuso sexual nas prisões é perpetrado pelos funcionários, as mesmas pessoas responsáveis ​​por manter os reclusos em segurança, outras vezes são os mesmos reclusos. Seja cometido por funcionários da prisão ou por reclusos, o abuso sexual e outras formas de violência na prisão são reconhecidos internacionalmente como formas de tortura. É responsabilidade absoluta dos governos proteger a segurança dos reclusos e previnir a ocorrência do abuso sexual na prisão, independentemente do autor, representa o fracasso dos governos em cumprir esta responsabilidade.

Não existem estudos oficiais sobre a prevalência do abuso sexual na prisão e as formas de violência perpetradas, e poucos são os reclusos que se apresentam para relatar que foram abusados. No entanto, a maioria dos que estudam as prisões reconhecem que a falta de queixas formais não significa que as prisões sejam seguras. Pelo contrário, ex-reclusos e defensores dos direitos humanos em todo o mundo concordam que a maioria das vítimas de abuso sexual na prisão ainda se abstêm de falar sobre suas experiências por sentimentos de vergonha, medo de retaliação ou simplesmente porque acredita que nenhuma ajuda está disponível para eles/as (Bloom, Owen & Convington 2003).

Como o abuso sexual e a violência, a sexualidade nas prisões não tem sido, historicamente, objecto de pesquisas. Entretanto para analisar o abuso sexual nas prisões é necessário compreender os comportamentos sexuais dos reclusos e o ponto de partida é que o recluso não abandona a sua sexualidade com o encarceramento. As poucas investigações internacionais sobre a sexualidade nas prisões são apenas fenómeno dos últimos anos e mostram que existem diferentes formas de comportamento sexual nas prisões (Pardue, Arrigo & Murphy 2011).

A literatura considera o comportamento sexual menos agressivo por natureza aquele reprimido, visto como uma resposta adaptativa do recluso ao ambiente prisional. A segunda forma de comportamento sexual é o autoerotismo. A masturbação tem uma história longa e turbulenta, duramente tratada não apenas pela sociedade, mas também pela religião e medicina. Em muitos países, nos Estados Unidos de América, por exemplo, masturbar-se em privado, na prisão, é considerado crime.

A terceira forma de comportamento sexual nas prisões é a homossexualidade. Como a masturbação, a homossexualidade tem sido e é uma questão fortemente debatida pelos governos, tanto nas sociedades quanto nas prisões. Entretanto, nas prisões, podem verificar-se dois tipos de homossexualidade: a verdadeira e a situacional. São considerados verdadeiros homossexuais aqueles/as cuja orientação sexual antes do encarceramento era a homossexualidade e homossexuais situacionais aqueles cujo comportamento homossexual teve origem na prisão. Enfim, a quarta forma de comportamento sexual é a heterossexual.

Tanto os comportamentos homossexuais como os heterossexuais podem ser consensuais e forçados e dar origem a abusos sexuais. Mais que para os homens, para as mulheres encarceradas, os comportamentos sexuais podem ser forçados através manipulação, obediência e coerção (Herberle & Grace 2009). A manipulação ocorre quando o sexo serve como uma ferramenta de troca de bens (por exemplo, drogas, cigarros) e / ou serviços (por exemplo, brigada de trabalho especial, favorecimentos para obter liberdade condicional). A obediência ocorre quando uma mulher participa de um relacionamento sexual com outra reclusa ou funcionário da prisão por medo, necessidade de segurança ou protecção. A coerção sexual inclui comportamentos que variam de pressão tácita ou aberta para se envolver em contacto sexual e até estupro forçado (Struckman-Johnson & Struckman-Johnson 2002).

Pesquisas mostram que a violência sexual nas prisões femininas também se manifesta entre reclusas e que funcionários homens e mulheres podem ser submetidos a formas de violência sexual perpetrada, por mulheres encarceradas, por prazer, comércio, transgressão, procriação, segurança e amor (Hensley et al. 2002, Smith 2006). Como já dito, os desejos sexuais e as necessidades emocionais não se extinguem quando uma pessoa é encarcerada “especialmente porque a intimidade sexual é um dos poucos aspectos de suas vidas que eles [os reclusos] ainda podem controlar…” (Smith 2006, p. 192).

O abuso e outras formas de violência sexual, quer cometidas em casa, na comunidade ou na prisão, têm graves consequências emocionais e físicas. Embora a experiência de cada vítima seja única, existem muitas reacções comuns, incluindo medo, vergonha, raiva e ataques de ansiedade. Para os reclusos, esses sintomas são exacerbados pela ausência de privacidade, falta de controle sobre seu ambiente e, muitas vezes, pela presença contínua na prisão da pessoa que os abusou e/ou abusa. As vítimas são também expostas ao HIV e a outras doenças sexualmente transmissíveis que podem ser mortais. Muitas vítimas de abuso sexual também sofrem lesões físicas. As reclusas podem estar em risco de gravidez e podem ser forçadas a abortar. Embora o aconselhamento e cuidados médicos imediatos – incluindo tratamento para prevenir infecções sexualmente transmissíveis – possam ser úteis, poucas reclusas têm acesso a tais serviços.

Em todo o mundo, a grande maioria dos reclusos acaba sendo libertada da prisão, trazendo todas as suas experiências – incluindo traumas – de volta para suas famílias e comunidades. Sem ajuda, as vítimas de abusos na prisão correm alto risco de desenvolver problemas crônicos de longo prazo, como depressão, sentimentos suicidas e dependência de álcool ou drogas. Por causa da vergonha e do estigma, os reclusos preferem não contar a ninguém, incluindo seus cônjuges ou parceiros sexuais, sobre o que aconteceu com eles – aumentando assim o risco de transmissão do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. Muitas vítimas de abuso sexual na prisão desenvolvem comportamentos que prejudicam a si mesmas, suas famílias e suas comunidades. Vítimas que não aprenderam a lidar efectivamente com sua dor emocional têm muito mais probabilidade de voltar a um comportamento de risco ou criminoso, são vulneráveis ​​à pobreza e enfrentam um alto risco de retornar à prisão (Just Detention International).

Em Moçambique, comportamentos sexuais nas prisões foram historicamente vistos com descrença, objecto de controvérsia e desaprovação. A distribuição de preservativos nos estabelecimentos penitenciários, por exemplo, é facto recente. O governo tem negado, por décadas, a existência de relações homossexuais entre os reclusos, abordagem que pode ter afectado o número de reclusos que contraiu HIV/SIDA dentro das penitenciárias. Victor Madrigal-Borloz, Especialista Independente da ONU sobre a Protecção contra a Violência e a Discriminação com base na Orientação Sexual e Identidade de Gênero escrevia, depois da sua visita em Moçambique:

Homens homossexuais são particularmente vulneráveis na prisão. Eu ouvi muitos testemunhos concordantes de homens gays sendo estuprados e submetidos à pressão de outros reclusos e agentes penitenciários para permanecerem em silêncio. Como em qualquer outra prisão do mundo, alguns reclusos têm relações sexuais consensuais. Apesar da alta prevalência de SIDA e alto nível de infecção por HIV, as autoridades prisionais não fornecem preservativos, pois consideram que isso “encorajaria” as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo.

Alguns meses antes da visita do Especialista Independente da ONU, em Abril de 2018, uma força especial do Serviço Nacional Penitenciário conduziu uma busca na ala feminina do Estabelecimento Penitenciário Preventivo de Maputo. O incidente ocorreu à noite, quando todos os internos estavam dormindo. Os agentes procuravam telefones e outros objectos ilegais. Segundo informações confirmadas pelas reclusas e reportadas pela midia: “os agentes, todos de sexo masculino, forçaram algumas internas a tirar a roupa e se curvar enquanto um dos agentes introduzia a mão nas vaginas em busca de objetos proibidos, usando uma única luva para todas” (Club of Mozambique). Alguns anos antes, em Março de 2014, o renomado jornal Sul-africano Mail & Guardian relatava que mulheres sul-africanas reclusas em Moçambique eram abusadas sexualmente e os agentes penitenciários exigiam sexo em troca de sabão ou pão.

A recente investigação do Centro de Integridade Publica (CIP) sobre a exploração sexual de mulheres encarceradas no Estabelecimento Penitenciário (EP) Especial para Mulheres de Ndlavela traz novamente à luz, um dos símbolos da crise global dos direitos humanos: o abuso sexual nas prisões. Abusos que foram também confirmados pela Comissão de Inquerido instituída pelo Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos. A investigação jornalística e o inquérito sublinham o envolvimento de guardas e homens externos ao sistema penitenciário; a troca de sexo em por comida, droga ou promessa de tratamento diferenciado; uso de maus-tratos e outros tratamentos degradantes e desumanos; gravidezes e abortos forçados. O problema do abuso sexual nas prisões existia, continua real e poderá continuar e não apenas no EP de Ndlavela.

Entretanto, em primeiro lugar, precisamos pesquisar os comportamentos sexuais nas prisões para identificar as consequências positivas e negativas de tais comportamentos para mulheres confinadas. Uma vez que uma compreensão mais abrangente da sexualidade na prisão tenha sido desenvolvida, políticas devem ser formuladas para abordar a conduta problemática que de outra forma ameaça mulheres encarceradas e que falha em garantir um ambiente correcional seguro. As pesquisas não devem ignorar a correlação entre a violência sexual na sociedade em geral e a violência sexual dentro da prisão. Pesquisas sobre o assunto tendem a considerar a violência de mulheres nas prisões como diferente da violência a mulheres na comunidade (Eigenberg 2000). Em vez, o abuso sexual na prisão reflecte e reforça a perpetuação de construções de gênero e a cultura da masculinidade que existem na sociedade.

A liderança das prisões e a formação dos agentes são elementos cruciais. Educar os directores de prisões e todos os funcionários sobre comportamento sexuais e a violência nas prisões pode ajudar a resolver alguns dos problemas que surgem da falta de consciência ou percepção do assunto. As formações devem ser incluídas na formação inicial da Escola Prática de Lhembe e na formação contínua.

Directores dos EPs e todos os funcionários assim como guardas penitenciários devem estar sujeitos a uma estrita supervisão e monitoria. Para proteger a segurança dos reclusos, as prisões devem adoptar fortes sistemas de monitoria interna e estar dispostas a submeter-se a auditorias regulares por agências externas. O Protocolo Opcional à Convenção contra a Tortura foi ratificado por Moçambique em 2014 e a Comissão Nacional dos Direitos Humanos é o Mecanismo Nacional de Prevenção da Tortura que deve realizar visitas regulares às prisões com o objetivo de prevenir a tortura.

Prisões para mulheres devem apenas ser geridas e monitorada por um director e funcionários e agentes de sexo feminino para eliminar o abuso sexual dos homens com as mulheres. A Regra 81 das Regras de Mandela afirma que estabelecimentos prisionais e ou alas destinados a mulheres devem ser colocados sob a direcção de um funcionário do sexo feminino. A Regra também afirma que nenhum funcionário do sexo masculino pode entrar na parte do estabelecimento destinada às mulheres sem ser acompanhado por um funcionário do sexo feminino e que a vigilância das reclusas deve ser assegurada exclusivamente por funcionários do sexo feminino. É notório quanto complicado seja, pela administração penitenciaria poder respeitar essas regas, considerando o número exíguo de funcionários e agentes de sexo feminino. Entretanto esforços devem ser feitos para que o respeito dessa Regra seja uma regra e não uma excepção.

Perpetradores de abuso sexual devem ser responsabilizados. O artigo 194 do novo Código Penal (Tortura e outros tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos) afirma que “é punido com a pena de prisão de 2 a 8 anos quem, tendo por função a guarda ou vigilância de pessoa detida ou presa, a torturar ou tratar de forma cruel, degradante ou desumana”. No novo Código Penal, espancamentos, eletrochoques, simulacros de execução ou substâncias alucinatórias ou infligir sofrimento físico ou psicológico agudo, cansaço físico ou psicológico grave, entre outros actos, são considerados torturas. O número 4 do mesmo artigo afirma que “se dos factos resultar suicídio ou morte da vítima, o agente é punido com pena de prisão de 16 a 20 anos”.

Os reclusos devem também ter a possibilidade de falar regular e livremente sobre os seus comportamentos sexuais para que possíveis abusos sejam interrompidos. Debates que valorizam a segurança e dignidade dos reclusos, tornam mais fácil para as vítimas falarem sobre seu abuso e, em última instância, ajudarão a impedir outros abusos na prisão. Junto com um quadro legal e políticas aprimoradas, uma mudança nas atitudes podem ajudar os governos para que os reclusos retenham todos os direitos humanos e as liberdades fundamentais estabelecidos no Direito Internacional dos Direitos Humanos, incluindo os direitos à saúde e a viver em um ambiente respeitoso da sua dignidade humana.

O corpo do defunto Bigwana poderia sugerir, para quem o visse passar, que ele era um indivíduo associado ao pugilismo. Isto é, aquele físico era o mais apropriado, o melhor talhado para aquele género de modalidade desportiva. Alto, espadaúdo, com os braços longos e musculosos, e umas queixadas taurinas outra coisa não poderia ser senão um verdadeiro gladiador. Até alguns, muito mais franzinos do que ele, eram lutadores de renome. Ele poderia ser um campeão incontestável no ringue do pavilhão da Malhangalene.

Outra linha de pressão provinha lá da empresa. Um colega sugeriu:

“ Olha lá “Bigwana”, porque razão não praticas boxe? Tens um corpo para seres um campeão”.

“ Com aquilo que tenho cá dentro de mim, era capaz de matar aquela malta toda. Isso não dá para mim. Para ser campeão na Malhangalene nem precisava de treinar”, assim ele respondia, a encolher os ombros com indiferença.

Essa conversa vinha a propósito de um espectáculo que, manhã após manhã, se oferecia aos moradores da zona, a dum pugilista de nome “Pablo Sam”, que gozava de fama de ser um lutador como poucos havia em todo o subúrbio. Em fama e habilidade só era superado pelo Carlos Fonseca “o Gato” e pelo Francisco “Cicatriz” Bila. Eram estes os baluartes do boxe nos ringues de boxe da capital, as figuras de referência dos desportistas de todo o subúrbio. Se o primeiro era notório pela eficácia dos seus golpes e pela graça dos seus passos em desnortear os adversários, para depois liquidá-los com upper-cuts e jabs, o segundo só sabia fazer uma coisa: bater, bater mais e bater cada vez mais, para subjugar os adversários à força dos seus punhos. Era uma temeridade subir ao ringue e desafiar adversários deste calibre.

O “Pablo Sam”, de nome verdadeiro Paulo Samuel, adquirira, ou assim se intitulava porque o apodo era sonante e mais à altura de um pugilista de reputação internacional, como esses cujas imagens se publicavam em magazines desportivos da África do Sul. O seu palmarés era impressionante. Na sua carreira oficial de vinte e três combates, com adversários que_ diga-se em abono da verdade_ até nem eram uns paraplégicos, somara já vinte vitórias, das quais dezoito por knock-out, dois nulos e uma derrota. Esta foi unanimemente atribuída à batota de um árbitro que concedeu a vitória a um boer, com o qual aquele fizera prévios arranjos. Vários empresários abordaram-no por muitas vezes para com ele estabelecerem contratos dos quais ganhariam receitas muito compensadoras. O “Pablo”, porém, não era pedra mole, não, mas sim dono do seu talento, recusava-se a vender-se por meia dúzia de centavos. Tinha de amadurecer, ganhar experiência. Depois, ver-se-ia. Também conhecia histórias de colegas que prematuramente se expuseram nos ringues, com a pressa de ganhar fama e dinheiro. As aventuras foram-lhes fatais. Uns ficaram definitivamente incapacitados, não só fisicamente, como também intelectualmente. Hoje não passam de farrapos humanos que não conseguem valer-se a si próprios. O tempo para vôos mais altos virá. E esse não estava assim tão distante. A fama granjeada dos combates subia, as notícias sobre as suas capacidades eram manchetes nos jornais. Ganhou muito proveito sim, deu muita surra e apanhou outras mais. Juntou mais medalhas e honras do que dinheiro. E nisto, como em qualquer outra actividade, quanto mais se perde mais obstinado se fica em vencer, naquele ciclo vicioso dos desesperados.

O “Pablo” era muito bem quisto entre as raparigas. Famoso e bem falante, não havia rapariga da zona, e até doutras bandas além-Chamanculo, que não suspirasse só de ouvir pronunciar o nome dele. E assim, às tantas, ficou noivo. Esse foi o preço de ter engravidado uma admiradora, uma jovem chamada Rabeca, filha de pais muito conservadores e exigentes: Estes exigiram casamento, e sem demora! Dinheiro para o lobolo e para as cerimónias do casamento não abundava nos cofres do atleta. Abundava sim a vontade de levar avante o sentido de responsabilidade, o sonho de ser um esposo exemplar e um pugilista de renome internacional. Era a pressão da necessidade que se cruzava com interesses desportivos.

E chegou o dia aprazado para o título de campeão na categoria de pesos médios do pugilismo na província de Moçambique.

O “Pablo” era figura de cartaz que deixara no tapete contendores como o lustroso Carlos Fonseca; conseguira resistir à contundência dos punhos do Francisco “Cicatriz” Bila, terminara a carreira do célebre “Surdo-Mudo”, o Ximbevevana, um lutador bravo que emergiu dos becos do bairro Thlavana, surdo-mudo no real da vida, que não escutava queixumes de dor dos oponentes, nem aos mesmos dirigia palavra. As únicas destas que conseguia balbuciar eram …KO!!!…KO!!!…KO!!! Diziam que quando começasse a sovar não sabia parar, ou porque não escutava os sons do apito do árbitro ou porque se encontrava possesso dalguma ferocidade animal. Mas o “Pablo”, numa contenda oficial, conteve-lhe os ímpetos e colocou um ponto final àquela carreira com uma “patada” na testa que devastou o oponente e mergulhou-o numa inconsciência total e profunda; um punho demolidor, um verdadeiro coice de mula que acrescentou um largo lanho no rosto já maltratado do “Surdo-Mudo”.

A esposa do “Pablo” ia no fim da gravidez que precipitou aquele matrimónio. Formavam um casal feliz e equilibrado, com todos os sonhos, e alguns mais, que todos os jovens casais podem ter.

Ia no auge a carreira do nosso herói. Foi com toda a ansiedade que todos aguardavam o resultado daquele combarte, de que já se faziam parangonas nos jornais desportivos da capital. Era, nem mais nem menos, um duelo de campeões: Mapepa “A Serpente do Chiveve” versus “Pablo Sam”. Cartazes a cores anunciavam o histórico encontro e mostrava os opositores, frente a frente, com os punhos enluvados cruzados. Era uma festa desportiva que prometia muita emoção.

O Mapepa era, por assim dizer, a revelação do momento, um fenómeno raro no pugilismo provincial. Residia na cidade da Beira, onde era aclamado como o vencedor antecipado daquele combate. Deixara derrubados sobre o tapete adversários de grande gabarito, célebres figuras do boxe regional e expoentes máximos do pugilismo da Confederação das Rodésias, nomeadamente, o campeão malawiano Joe “The Killer” Banda, o consagrado zambiano Black “The Mutilator” Skukuma e o poderoso John “Wounds” Ncube, de Salisbúria, na Rodésia. E aqueles não lutavam, eram feras humanas soltas nos ringues. Mapepa, com as suas técnicas de defesa e estratégicamente rápidos contra-ataques, conteve os ânimos dos oponentes e levou os troféus para casa. Era o herói do centro da Província.

Naquela noite o pavilhão do Grupo Desportivo da Malhangalene superlotou de espectadores. Assistência assim nunca se vira antes, mesmo em dias de luta-livre tamanha presença de gente era uma raridade. O que as pessoas queriam era assistir dois homens à pancada, e não embrulhar-se um no outro a fingir que se golpeavam, como faziam o El-Grego, o António El Índio Apache, o Cowboy Thompson, o Yul Breyner, o Daydone e outros. Mesmo boxeurs brancos de renome como  o Beny Levy, o Carlos Gomes, o Larsen, o temido Luis Eugénio “Xangai”, estavam lá entre os espectadores para ver e crer. “Não!_diziam_ aquele será um terçar de punhos a sério, à verdadeira moda antiga”. Aclamações de apoio romperam a surdina das conversas. Fizeram-se apostas: Mapepa!!!… Mapepa!!!.. .Pa-blo!!!, Pa-blo!!!…

A mesa do júri deu o gong para o início da contenda.

Tentar descrever o que foi aquele encontro histórico é o mesmo que metermo-nos na aventura impossível de resumir em duas palavras as rivalidades entre dois grupos étnicos. Os historiadores diriam que aquela era a reedição dalgum encontro entre gregos e troianos, entre ngunis e portugueses, entre lusitanos e castelhanos, eu sei lá! Era dar e apanhar. Os punhos de cada um dos contendores – que não eram nenhuns berlindes – desabavam no corpo do adversário como se fossem os projécteis de catapultas de guerra. Estes grunhiam a cada golpe; porém, sempre avançavam ao encontro do adversário, como se as dores fossem as fontes doutros ânimos.

A violência da luta no recinto do ringue transbordou para as bancadas. Cenas de pugilato começaram a registar-se em alguns focos. Disseminaram-se por outros pontos. Era o contágio do instinto de violência reprimido que se soltava. A barafunda foi total: todos agrediam a todos, e cada qual por si, todos os meios eram úteis para infligir ao vizinho de lado o “castigo” que merecia e puni-lo por não apoiar o seu favorito boxeur.

O combate durou os dez assaltos regulamentares, entremeados de muita animação na assistência.

Os rostos tumefactos dos opositores eram transfigurações, máscaras disformes cobertas de crostas de sangue, irreconhecíveis.

O momento final foi o gesto do juiz de colocar-se entre os opositores e erguer no ar o seu braço esquerdo. E com este, o punho direito do…” Pablo Sam”!

A ovação que se seguiu foi a de aclamação da vitória do lourençomarquino! A multidão invadiu o ringue e levou aos ombros o seu herói e gritava pelo seu nome.

Uma cantiga ecoou na atmosefra do pavilhão para dar por finda aquela que foi uma das mais empolgantes e sangrentas sessões de boxe que jamais se registaram no ringue da Malhangalene.

Sedimentadas as emoções, sigamos o percurso do herói, porque dos vencidos não reza a História. O Mapepa – só uma linha a seu respeito, e conforme o que depois se propagou nos jornais – pediu desforra, uma jornada para tirar-teimas e pôr cada pedra no seu lugar. Porque, segundo ele, campeão da categoria havia um só: ele próprio.

O reencontro não chegou a consumar-se pelas razões que em seguida se expõem.

*

            Logo a seguir àquela batalha no ringue da Malhangalene, os dois contendores foram encaminhados ao Banco de Urgências do Hospital Miguel Bombarda, porque assim era por rotina e porque os clínicos que assistiam aos pugilistas assim o entenderam. Assim entenderam porque ambos os protagonistas, o Mapepa e o Pablo não se encontravam em condições de regressar aos respectivos domicílios, dada a gravidade das lesões que mutuamente se infligiram.

“Pablo” era o mais contundido dos dois, razão porque foi admitido na Sala de Reanimação. O seu estado inspirava mais cuidados. Durante o internamento a sua condição deteriorou-se. Entrou em delírio, num estado de confusão mental. Exaltava-se, o corpo convulsava como se estivesse em pleno ataque de epilepsia. Pronunciava nomes e proferia frase incoerentes. No fim daquela madrugada entrou num estado de coma profundo. Depois de confereciarem os neurologistas diagnosticaram-lhe uma “comoção cerebral pós-traumática”.

Foi longa e tortuosa a viagem do “Pablo Sam” aos recessos da sua vida, às trevas dum universo cheio de imagens de pessoas transfiguradas, silhuetas que, por umas vezes identificava, outras não, mas que o cercavam e aplaudiam a sua dança num palco montado no quintal da sua habitação. Nessa representação tinha por parceiros gigantes de braços semi-amputados que desferiam os cotos no ar, e de cujas bocas invisíveis entoavam estribilhos onde abundava o seu nome… Pablo!!!… Pablo!!!… De repente fazia-se luz nos sonhos, abria os olhos. O que descortinava da neblina era a figura da esposa Rabeca e do filho Paulinho, ambos a fugirem de si em correrias desenfreadas. Ele perseguia-os, ansioso; corria atrás das suas sombras que se esfumavam paulatinamente à distância.

E durou uma semana o coma do “Pablo”. Dele emergiu como se ingressasse num universo cujos horizontes desconhecia. As imagens que detectava assemelhavam-se  às dos pesadelos durante , as mesmas que vira durante a treva da inconsciência. Aquelas, porém, eram concretas. Via e reconhecia as feições das pessoas, escutava as suas vozes, o choro do filho, os lamentos da Rabeca e dos familiares que o rodeavam no quarto da residência, entravado naquela cadeira de rodas que, desde que teve alta do hospital passara a ser o seu meio de locomoção.

O mundo que enxergava era distorcido, as pessoas reais, mas os objectos ao redor, o saco cheio de areia pendurado ali no ramo da mafurreira, era o símbolo do que fora o sonho transportado naquela viagem para a glória. E essa terminara no ringue da Malhangalene, tão curta a viagem, como tão efémero fora o sonho.

Protegido pela sombra da árvore e paralisado da cintura para baixo, simulava golpes no ar… jab… upper-cut… esquerda… direita..; balbuciava, com a língua entaramelada de formigueiro. Diante dos olhos embaciados vislumbrava a figura do adversário, o Mapepa, e “esmurrava-o”… jab… upper-cut… jab… esquerda… upper-cut…

Pablo Júnior, o Paulinho, era um espectador diário, atónito à execução dos truques e à cadência dos passes do pugilista que era o seu pai, o senhor Paulo Samuel Langa, o ícone do pugilismo suburbano “Pablo Sam”.

 

 

A inteligência marca nítidas fronteiras entre o animal e o homem,

sugere o carácter divino deste último, e, em certo grau,

substitui a sua imortalidade, que não existe.

Anton Tchekov

 

“A ave que queria ser ave”, “O ilusionista”, “Escondidos na luz”, “Mundos cruzados”, “Insónia”, “Conhece-te a ti próprio”, “O sotaque da luz?” e “Ilusão à vista” são os títulos dos oito textos que compõem Histórias do outro mundo, de Carlos dos Santos. No seu estilo peculiar, uma vez mais, o escritor traz narrativas que exploram a origem e a evolução das coisas.

Em termos temáticos, as histórias estão irmanadas, afinal os narradores, em geral, desenrolam eventos que se passam no hiato entre a perplexidade e a hesitação. Essa ocorrência, com efeito, exige de certas personagens perspicácia e uma elevada capacidade argumentativa. Por isso é que nas histórias a inteligência marca nítidas fronteiras entre os que buscam a eternidade do raciocínio e os que apenas se abstraem de pensar, porque condenar é bem mais fácil.

O mais recente livro de Carlos dos Santos confirma essa paixão que o escritor tem de fazer dos seus protagonistas entidades desassossegadas, insatisfeitas, em permanente movimento, pois sabem que “só aos viajantes são permitidos os prazeres da viagem” (p. 47). A lucidez, acto contínuo, garante uma diferença destacada no discernimento das personagens, opondo as sonhadoras às que apenas se recusam a compreender o lado mais omisso das circunstâncias. É como afirma uma personagem de “Escondidos na luz”: “as melhores coisas para se contemplarem são aquelas que não se conseguem compreender. Porque nos fazem pensar” (p. 48).

Estimular o pensamento num contexto em que as personagens se transmutam e tentam ser mais do que a matéria permite é o grande propósito de Carlos dos Santos. Logo, no primeiro texto, não admira uma ave querer ser árvore ou um alienígena apresentar-se materialmente, no segundo. Pelo contrário, o escritor atravessa o plano arredondado da terra para, como um explorador, captar outras dimensões do pensamento despersonalizado.

Não obstante, ao mesmo tempo que Histórias do outro mundo recupera o debate sobre a existência ou não de vida em outros planetas ou de outras vidas na terra, como é habitual em Carlos dos Santos, com personagens que desaparecem e assumem múltiplas formas, confronta a inteligência humana, na trama, espécie tão presunçosa. Um exemplo, numa passagem em que uma personagem humana julga exibir o seu conhecimento sistematizado, um alienígena afirma, aparentemente desapontado: “O que me espanta são as certezas que tu tens, a rapidez com que as formulas e a ligeireza com que acreditas nelas!” (p. 33). Isto diz muito do que o Homem é?

No seu novo livro, Carlos dos Santos cria um cruzamento de mundos e, consequentemente, as histórias tornam-se o palco onde se confrontam a lei dos homens e o estranho/ maravilhoso. Nesse mesmo cruzamento, a fronteira entre a inteligência e a loucura adivinha-se estreita, invisível até. Claro está, Histórias do outro mundo é uma interrogação aos fenómenos (im)possíveis, uma forma de se compreender o que está para lá dos sentidos, das emoções e do sentimento.

Portanto, a ficção de Carlos dos Santos volta a cumprir essa “missão” de trazer outros conceitos, igualmente indispensáveis na regência da percepção sobre as causas e os efeitos. Aí não faltam eventos relativos ao drama psicológico das personagens muitas vezes acossadas por alguma coisa; não falta a vulgarização da figura do herói e a permanente busca por um lugar onde a inteligência sugere o carácter demiúrgico do Homem e a sua imortalidade. Eis o mundo possível nas histórias de Carlos dos Santos.

 

Título: Histórias do outro mundo

Autor: Carlos dos Santos

Editor: Alcance Editores

Classificação: 14

 

 

“São precisamente as perguntas para as quais não existem respostas que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência”, Milan Kundera

Derreado! Estarrecido! Com o nó na garganta! É como se estivesse numa redoma que mais ninguém compreende.

Afinal, o silêncio ensurdecedor em torno da mensagem que lhe enviei na sexta-feira (a desejar-lhe melhoras) prenunciava o adeus de um ícone.

Lá do gélido planalto de Manica, uma voz embargada de Carlitos, o Cadangue, confirmava domingo o  que não estava nem tão pouco preparado para ouvir: “Sambo partiu para sempre”!

Mas com aura de glória, pois claro.  Foste, sem sombra de dúvidas, dos mais impactantes treinadores da história do futsal em Moçambique.

Assimilaste, desde logo, personalidade e mentalidade de campeão, carisma e capacidade anotadora.

A tua proeminência potenciou o desenvolvimento pleno  de uma  geração de praticantes que maravilhou no “Grande Prix” do Brasil e Campeonato Africano de Futsal.

Internacionalizaste a modalidade, deste uma “grande mão” como assessor técnico para que Moçambique se qualificasse,  pela primeira vez na sua história, para o Mundial de futsal da Colômbia, em 2016.

Sambo, és enorme!  Ficará, por isso e tantos outros êxitos, gravado em letras garrafais  aquela vitória sobre o Egipto que quebrou um ciclo de dez anos sem derrotas dos “faráos”.

Pelo meio, o que assombrou a modalidade  com a interrupção da disputa dos campeonatos nacionais por um período de três anos (2010 e 2012), fez-te mais forte ainda.

Cerraste os punhos, foste buscar forças onde não existiam e contribuiste para que o Campeonato Nacional de Futsal se realizasse em 2012, no Chimoio.

O futsal entrou em estado de coma profundo, mas nunca desististe!  A capital é o eldorado, certo. Mas,  Oh Sambo,  não fizeste disso uma marca. Desafiaste as fronteiras, foste te instalar no Chimoio, em 2011, onde desenvolveste um excelente trabalho de lapidação de novos valores de futsal.

Sempre interventivo, e sem compromissos, bateste na mesa pela valorização dos principais actores da modalidade!

Disseste, claramente e estavas certo, que não fazia sentido chegarmos a um extremo em que os atletas entram em greve por falta de pagamento de ajuda de custos para participar numa prova internacional.

Fizeste o que era certo: aproximar-se das partes. Acalmaste os ânimos, até porque sempre percebeste que os verdadeiros artistas não eram tão pouco culpados por tamanha azia. E falta de sensibilidade por parte dos dirigentes desportivos.

Bem, é duro perceber, senhor futsal, que não mais o teremos na vertical a desfiar as suas ideias maduras e seguras para a consolidação da modalidade.

Neste exercício doloroso de rebobinar a nossa ligação profissional, Sambo, torna-se-me difícil aceitar que não mais poderei beber dos teus ensinamentos.

É fundamental ter figuras à perna em alguns dos seus feitos para resgatar o futsal e colocá-lo novamente na rota do sucesso.

É, pois, o que sempre sonhaste: uma modalidade com grande visibilidade. Vivenciaste os momentos áueros do fusal  com jogos de encher os olhos no pavilhão da Liga Muçulmana, testemunhaste a consagração de Mauro Sales, Farukito (hoje seleccionador nacional), Carlão, Canhoto, entre outros craques.

Treinador mais titulado do futsal moçambicano, granjeaste respeito pelo bom trabalho realizado na Somotor, Manica, Padaria Azize e  Desportivo Maputo.

Com um olhar “clínico”, fizeste  o “scouting” na então “Liga VIP”   da modalidade para alimentar  o Desportivo Maputo, um dos clubes pelos quais campeaste.

Mesmo depois de te retirares do activo, continuaste a contribuir com ideias para o futsal em programas televisivos e radiofónicos.  Criticaste quando necessário, elogiaste sempre que possível.

“Mister”, é  mister dizer que mesmo incompreendido em algum momento, criticaste sempre a forma como (não) pensamos o desporto em Moçambique.

Precisamos resgatar e produzir mais desportistas comprometidos com a causa, tal como o foste anos a fio com o futsal.

Sambo, há um legado que deixas! Resta-nos, agora, celebrar o mesmo. Cientes, claramente, que somente com trabalho, entrega, dedicação e humildade é que podemo-nos agigantar no concerto das Nações.

Para trás, amigo e companheiro de jornadas, ficam as abordagens dos temas candentes do desporto moçambicano no programas televisivos da Stv, estação que colaboraste desde sempre.

Nós, que ao longo destas jornadas de trabalho tanto aprendemos contigo, curvamo-nos perante a memória de vulto de um grande desportista.

Mas…a pergunta que não quer calar: por que os grandes homens caem e a vida é tão curta?

Cai o pano da I Feira Internacional do Livro de Quelimane, essa primeiríssima edição que  homenageia o poeta Armando Artur, tocando assim, com os dedos, a alma da poesia moçambicana. Quelimane e os seus munícipes  propuseram-se alargar o horizonte das letras nacionais, e ousar alcançar um estágio de interacção disposto acima dessa condição de sermos estrangeiros de nós próprios.

Prémio de Literatura José Craveirinha 2020, Armando Artur consagrou-se entre os maiores poetas, não pelo galardão, mas como um facho que lega tradição às novas  gerações de escritores  moçambicanos, entre os quais, reconhecidamente, Sangare Okapi, elucida: “para mim, Armando Artur é, definitivamente, o maior poeta moçambicano da contemporaneidade.”

Na mesma pele que reveste a alma poética arturiana, respira um outro ser, um amigo, com quem se pode partilhar a vida, um hábito que já transcende as manhãs para o coração da noite, num afago telúrico dos dias em riste.

É a esse ser tangível, que vão  essas breves linhas em papel, para que, com toda a profundidade, junte-me às vozes que de Quelimane, celebram os 35 anos de publicação do Poeta, cuja imortalidade, ora, se vislumbram os contornos.

Orlando Mendes (também Osvaldo Mossuril e Zeferino A. Nhacale), de nome Orlando Marques de Almeida Mendes, nasceu na Ilha de Moçambique, a 4 de Agosto de 1916, e morreu em 1990, em Maputo. Mendes foi um eclético escritor, tendo publicado poesia, romance, teatro, crítica literária, ensaios e infanto-juvenis. A sua imensa e diversificada produção literária, influenciada, no início, pelo pragmatismo do neo-realismo do movimento de Presença, é caracterizada ideologicamente pelo esforço de instauração de um espaço literário nacional, como constata Agostinho Goenha.

Em Lourenço Marques (agora Maputo), Orlando Mendes frequenta até o sétimo ano do Liceu. Até 1944, é funcionário dos Serviços de Fazenda, quando segue para Portugal, onde licenciou-se em Ciências Biológicas, pela Universidade de Coimbra. Exerceu, ainda na universidade, funções de Assistente de Botânica. Regressado a Moçambique, em 1951, passa a pertencer ao quadro de funcionários dos Serviços de Agricultura de Moçambique, e depois, a exercer funções de investigador de medicina tradicional, no Ministério da Saúde. Nos últimos anos de sua vida, foi redactor na revista Tempo.

A estreia de Orlando Mendes acontece em 1940, com Trajectória (edição de autor), tendo depois publicado Clima (1951), Carta do Capaz da Estrada (1960), Depois do 7º Dia (1963), Portanto Eu vos Escrevo (1964), Portagem (1966), Véspera Confiada (1968), Um minuto de Silêncio (1970), Adeus de Gutucumbui (1974), A Fome das Larvas (1975), País Emerso I (1975), País Emerso II (1976), Produção Com que Aprendo (1978), Lume florindo na forja (1980), Sobre Literatura Moçambicana (1982), Papá Operário mais Seis Histórias (1983), As faces visitadas (1985), O menino que não crescia (1986), Telefonemas a calhar e outros contos (1995) e Minda (2001), publicado postumamente pela Associação dos Escritores Moçambicanos.

Orlando Mendes teve colaboração literária dispersa em jornais e revistas como Itinerário, Tempo, Voz de Moçambique, A Tribuna, Caliban, Notícias, Charrua e Forja, de Moçambique; e Vértice, O Diabo, Mundo Literário, Seara Nova, Colóquio/Letras e África, de Portugal. Está, também, representado em inúmeras antologias de poesia e prosa. Recebeu, durante o seu percurso, o “Prémio Fialho de Almeida”, dos Jogos Florais da Universidade de Coimbra, em 1946, e o primeiro prémio de poesia no Concurso Literário da Câmara Municipal de Lourenço Marques, em 1953.

Depois da Independência e até a sua morte, Mendes promoveu a literatura moçambicana, dirigiu a Associação dos Escritores Moçambicanos e teve sempre uma participação cultural muito activa.

Hoje, se estivesse vivo, Orlando Mendes completaria 105 anos.

 

“Nacionalismo e literatura”

A extensa produção literária de Orlando Mendes não se insere, como aponta a crítica, no proto-nacionalismo de Noronha ou Noémia, no “elogio da moçambicanidade”, por assim dizer, e muito menos no movimento de “ex-colonização da literatura”, preocupação de Rui Nogar e José Craveirinha, entretanto, ela [a produção] é, de certo modo, de denúncia e de revolução, então, uma produção continuadora. Embora seja imensamente associado ao neo-realismo português, Mendes – que durante a sua estada em Portugal terá tido contacto com escritores como Afonso Duarte, Armindo Rodrigues, Miguel Torga, Fernando Namora, Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Érico Veríssimo, etc. – recusava-se a pertencer a uma corrente, afirmando que a sua literatura era uma “expressão anticolonialista”.

A obra de Orlando Mendes é, quase toda ela, “assombrada” por um engajamento e exaltação com/do nacional, ele insurge-se, busca “contundir o inimigo” com o seu levantamento social, vertentes que, aliás, compõem o que Agostinho Goenha chama de “concepção marxista do fenómeno literário”.

O seu projecto poético, ideológico nos últimos anos, é tenso, e no dizer de Alfredo Margarido, uma mescla de “denúncia de alienação do Homem” – negro ou branco (vide. Portagem) – e o enganchamento dos grupos étnicos moçambicanos. A obra de Mendes (poesia e prosa) é também identificada pelos traços de oralidade, ele funde o português elegante com o português local, ajuntando os chamados moçambicanismos.

Para vários pesquisadores, a obra de Orlando Mendes é indispensável para o desenvolvimento e para o estudo da literatura em Moçambique.

 

Textos de Orlando Mendes

Exortação

Jovem, se tens exercícios de literatura

escritos há mais de um mês, destrói-os.

Rasga-os ou queima-os de preferência

(consta ser universalmente mais ortodoxo)

e se a chama te chamuscar unhas e pele

e as sujar a cinza, não queixes a dor

e lava-te. Destrói-os. Guarda-os todavia

fiéis na memória, palavra por palavra,

para que possas transmiti-los a um amigo

quando depois do venal acto de amor

forem também vender a irresistível suspeita

da tua voz trémula e dos teus outros actos.

Mas não deixes de escrever. Peço-te que não.

In: Adeus de Gutucumbi, p. 25

 

 Em África

Quantos de nós

andam por aí ensimesmados

e medem o tempo e o comprimento dos passos que dão

sabendo o princípio e o fim

da sua própria caminhada imutável

e meneiam de vez em quando a cabeça

pelo sim ou pelo não.

 

Quantos de nós

exaltam o delírio dum poema

e o dizem entre dentes

deixando circular tranquilamente o sangue nas veias.

Mas ainda é preciso denunciar

os cantos das imagens virtuais

e desenraizar com o gume da palavra nua

as últimas consequências sentimentais

embandeiradas dentro das verdes searas

já é preciso colher e distribuir novas sementes

e lançá-las por mãos proletárias à terra comum

e conhecer o mecanismo da arma que se empunha

e rigorosamente apontar ao alvo

não estando sós.

[…]

Quantos de nós

têm que reaprender as distâncias e acertá-las

à custa do timbre da sua voz

para que todos cantem e accionem

a luta de libertação e a liberdade conquistada

com o impacto de balas.

In: Lume Florindo na Forja, 1980

 

Excerto de Portagem (1966)

A velha negra sai da palhota e fecha os olhos doridos pela luz crua do sol. Depois abre-os lentamente e a boca encarquilha-se-lhe num sorriso aparentemente sem sentido. No terreiro não há ninguém que lhe faça lembrar coisas do mundo que está esquecendo. Tudo quanto ela entende do exterior é aquele ranger medroso dos ramos nus da árvore mirrada, sacudidos pelo vento quente e vagaroso que passa e se esconde na terra.

Tremem-lhe as mãos secas agarradas ao bordão nodoso. Quer alongar a vista para lá do capim ressequido que balouça cadenciadamente, mas abana a cabeça, desiludida. Dia a dia, a vista se limita mais nas expressões para os seus afectos. Amarfanha a capulana até à coxa enrugada e, traçando as pernas, deixa cair mansamente o corpo magro para o chão.

Alima geme de cansaço. Ou de tédio? Nem ela saberia dizer. Ajeita-se encostada à paliçada da palhota. A sonolência começa a perturbá-la. Todos os dias, à mesma hora da manhã, a velha vem ali sentar-se e promete sempre não se deixar adormecer. Também agora tenta fugir ao sono inimigo, que ela tem medo de perder de vez a contemplação da planície mordida pelo sol. De ano para ano, a planície diminui de extensão diante da fadiga dos seus olhos. E ela pensa que lhe vão roubando misteriosamente o mundo de ano para ano.

Dormita uns instantes sem tempo, para logo acordar sobressaltada. Reconhece o chão pisado por três gerações de negros. Fixa os olhos mortiços nos ramos descarnados do cajueiro plantado pelo avô, o escravo Mafanisse, no dia da sua libertação. Recordando, é depois o mar que lhe aparece, um mar de ondas bravias que foi a fronteira da imigração dos negros para o sul, na grande seca do ano em que lhe nasceu a filha Kati. Kati casou com o capataz dos mineiros do Marandal, depois de ter gerado e parido um filho de branco. Aí começou a solidão enorme da velha Alima. Solidão do simbólico cajueiro entre a erva rasteira e os galhos agrestes das micaias. E é na planície que fica o mundo moribundo da vida toda da negra Alima.

A velha ainda se lembra de que, lá longe, a planície se esvai no sopé da serra do Marandal. Vieram os brancos com as suas máquinas para abrirem os grandes buracos na terra e tirar o carvão que os negros carregam para as vagonetas. Mas Alima nunca saiu da planície senão no ano longínquo da grande emigração. Os negros mudaram as palhotas para a nova povoação fundada no Marandal. E tentaram levar a velha. Ela, porém, é já a única pessoa viva que ouviu da boca dos escravos a história recontada do mundo da planície. E recusa-se a abandoná-la. A planície quase despida não atrai sequer as feras e ninguém já por ali passa, que o transito para a mina se faz pelo caminho da berma da serra. Solitária, a velha Alima tornou-se dona humilde e incontestada da planície que não tem préstimo para mais ninguém.

 

Estávamos justamente em frente ao tribunal na avenida Vlademir Lenine na Cidade de Maputo em direção a baixa da cidade, quando ele olhou ligeiramente para baixo do seu ombro direito e disse “Gerson, pensar é um exercício muito complicado”. Suficiente para que eu ficasse sem dizer nem mais uma palavra e continuasse a andar até a feira popular onde íamos jogar bilhares. “Para piorar” fiquei sem saber se era eu que não sabia pensar ou as pessoas que criticava. Este diálogo aconteceu quando criticava por mais de uma hora os nossos dirigentes, governo isto e mais aquilo.

Pensar é um processo de combinação de ideias utilizando um espírito crítico, fazendo uso da razão para despertar, julgar de forma lógica para se chegar a uma conclusão próxima da realidade.

Passam mais de 17 anos que este episódio teve lugar, embora tenhamos ambos aprendido a dizer bonjour* com sotaque Francês e good morning* com sotaque de Mississippi, viajado um pouco pelo mundo e acumulado alguns títulos profissionais e acadêmicos, eu e o meu amigo de infância, Leo, nos apercebemos até que ponto somos dois seres ignorantes. Chegados a essa conclusão, nos últimos anos decidimos passar a desenvolver conversas de maneiras a minimizá-la. Hoje, as nossas longas e regulares conversas pela madrugada via WhatsApp, vídeo chamadas no Skype ou Zoom, não mais são  de conclusões, acusações e muito menos de crítica, mas sim de questionamento. Porquê achas? Não achas que poderia ser diferente? Como? Achas mesmo que eles possam pensar assim? O que os leva a pensar desta ou daquela forma? Será que não somos nós os culpados?

Há poucos meses atrás os representantes do povo (“RP”) da Assembleia da República de Moçambique (“AR”) pensaram e chegaram à conclusão que as suas regalias não eram suficientes e aprovaram uma nova lei que aumentava consideravelmente os subsídios, regalias e outras benesses para os funcionários da AR. Jovens estudantes decidiram que “desta vez é de vez” e organizaram manifestações na nossa capital. Nas redes sociais pude ler “agora o pessoal abriu o olho”; “já não somos mais matrecos”; “estes gajos pensam  que o povo é o que?”. Finalmente depois de alguma pressão os RP tiveram de recuar.

Estive a analisar e disse para mim mesmo,  nós povo somos na verdade muito invejosos. Sim, escrevi invejosos. Vou repetir, somos muito invejosos. Afinal qual é o problema que os representantes do povo tenham regalias que possam aumentar seu poder de compra? Poder de compra é bom para a economia do país, não? Então porque fomos manifestar? Só fomos confirmar o que temos dito de nós mesmos “Preto quando vê outro preto evoluir procura distruir”. Por estas alturas, já devo ter “despertado” alguma animosidade…sou corajoso e vou continuar…continue a ler, por favor. Risos…

Nós fomos à rua reclamar que os RP não deviam ter regalias, mas eu acredito que o nosso problema não são as regalias dos RP, o nosso verdadeiro problema é outro.

Jim Rhon coloca a seguinte pergunta em um dos seus podcasts. Como obter o que precisas? E a resposta que ele dá é simples, peça. Acrescenta dizendo, peça com inteligência. Mas antes de pedir, pense bem para saber exatamente quais as suas necessidades.

Acredito que é aqui onde reside um dos nossos maiores problemas, não sabemos o que queremos ao certo, como obter e/ou demandar. Imaginem que tivéssemos uma taxa de desemprego de 10% e que os nossos salários fossem suficientes para fazermos poupanças. Teríamos saído às ruas reclamar das regalias dos RP? Não creio!!!. Nestas alturas já devem estar a dizer, claro Gerson, eles só devem resolver os problemas do povo e o resto não nos importamos. Aí está, eles nunca vão fazer isso se nós não soubermos pedir ou exigir. Contudo, não será em bloquear estradas, fazer greves ou esperar que eles aumentem seus subsídios para sairmos as ruas que nós vamos melhorar nossa situação. Reparem por exemplo que assim que as regalias foram canceladas, a única coisa que fizemos foi voltar às redes sociais e dizer, “o pessoal é F***dido”; “não conseguiram nada os gajos”. Mas no entanto nada melhorou.

PODER DO PENSAMENTO POSITIVO

Minha mãe dizia “samito utxikhó dhitsiku nidhitsiku uku txikwembu nilava ti ni ti. txikwembu txinaku xamula, mwanangu”². Ao mesmo tempo que batia o seu dedo indicador contra o média da sua mão direita.

Eu defino pensamento positivo como desenvolvimento de ideias que nos ajudem a melhorar em todos os domínios, olhando para o lado bom das coisas do passado, ignorando as que não deram certo, olhar para o presente ao mesmo tempo que para o futuro com esperança e confiança cega que as coisas vão ser melhores “SE” fizermos o melhor de nós. Nós, seres humanos, fomos programados para pensar mais vezes negativo que positivo “por defeito de fábrica”. Por isso que é mais fácil criticar do que aconselhar, se lamentar que tomar responsabilidade sobre a nossa situação, destruir que construir. É  por esta razão que um exercício constante pessoal para manter em todas as circunstâncias um estado de espírito positivo é importante.

Seria na minha opinião pensar positivo se exigissemos  leis que nos punem quando não enviamos um email profissional na hora combinada. Esta atitude custa milhões à nossa economia. As regalias dos RP representam apenas uma gota no oceano ao lado desses milhões que perdemos. Seria pensar positivo se exigissemos aos RP casas de cultura em cada bairro que não só iriam criar empregos como também educar os nossos filhos. Sei que alguns devem estar a dizer, mas olha Gerson, isso eles deviam fazer sem exigência alguma. Claro, mas contrariamente ao que muitos de nós sabemos, a maior parte dos nossos dirigentes agem “na mais pura ignorância”, de certa forma (exagerada) poderia argumentar que não sabem o que fazer e nem como fazer certas coisas. Por isso que sou da opinião que devemos discutir e trocar ideias e não criticar e nem partir para ignorância.  Para lhes dar alguns exemplos, estive outra vez numa praça em Bruxelas com um ex-alto dirigente cá da terra quando ele/a vira-se para mim e diz “repare, ninguém deita nada na rua aqui”. O que ele/a não sabe é que não é porque ninguém não deita nada que as ruas são limpas, é porque para além das latas de lixo espalhadas, existe a polícia municipal que passa regularmente para limpar, guardas à paisana  em campanhas constantes de consciencialização e, em conclusão, manter a cidade limpa é matéria de estudo nas escolas. Já estive também na preparação de uma viagem empresarial a Moçambique em que um representante da Embaixada pegou num papel para ler que Moçambique tem mar, tem tanto de comprimento e largura, têm aquela ou esta riqueza, toda a informação que qualquer pessoa encontra na internet e que teria de princípio consultado antes do encontro. O representante não disse nada relevante que seja incentivo a investimento e, ainda pior, partiu assim que terminou de ler,  sem deixar tempo para perguntas e respostas. Este representante não sabe que empresários têm pouco tempo para blablabla e não sabe o que necessariamente estes empresários procuram neste tipo de encontro. Isto apenas para citar alguns exemplos.

Estas experiências me fizeram chegar a conclusão que não é por mal que muitas vezes as coisas não avançam. Tenho dificuldades em aceitar a ideia de que os nossos dirigentes não se  importam com o povo. Claro que se importam. Eu e o leitor não podemos amar nossa nação mais do que qualquer outro moçambicano no mundo. Não acha?

Vamos lá analisar um pouco os nossos objectivos como nação: “luta contra pobreza”; “combate a corrupção”. Se homo sapiens já foi programado para pensar negativo, como é que podemos nós mesmo usarmos slogans com conotação negativa e esperarmos resultados positivos? E por outro lado, nós homo sapiens temos aquilo que chamamos de inteligência superior e essa inteligência superior não se deixa facilmente enganar.  Essa inteligência  superior sabe que nós não somos pobres e nem corruptos. Podemos até estar nessa situação, mas nós não somos isso. A nossa inteligência superior sabe que temos rios, terras, ela sabe também que os nossos ancestrais foram agricultores e não corruptos. Neste caso dificilmente vamos agir pois o nosso ego está sendo atacado quando nos chamamos de corruptos e pobres. Nenhum chefe de família se sentirá motivado a dizer ao seu filho antes de sair de casa “filho, hoje vou lutar contra corrupção”  mas tenho a certeza que o mesmo chefe de família diria antes de sair de casa “filho, hoje vou construir um país melhor para si”. Lutar contra a pobreza/ corrupção significa reagir a uma ameaça e é uma atitude passiva e negativa, enquanto sair para construir significa agir e é uma atitude activa e positiva. Nós estamos mais dispostos e motivados a agir em situações positivas. Deixa dar mais um exemplo para elucidar melhor o poder do pensamento e das palavras. Imagine que o caro leitor chegue à casa de um amigo/a e ele/a diga “não te vou tratar mal em minha casa” e na casa do outro/a ele/a diga “sinta-se em sua casa”. Em qual das casas passaria uma refeição agradável? Os nossos pensamentos e a verbalização dos mesmos resultam nas nossas atitudes. Acho que devíamos passar tempo de qualidade a debater assuntos deste, que são para mim a base antes de qualquer acção. Temos nossa parte de responsabilidade. Não?

Por volta do meio-dia, de 20 de janeiro de 1961, em Washington, D.C. por ocasião da sua tomada de posse John F. Kennedy disse, “meus companheiros americanos, não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país”.

É o que tem feito o jovem Moçambicano Bruno Pinto, jovem que sem nenhum recurso inicial, soube  utilizar o poder do pensamento para ultrapassar obstáculos e conseguir tornar-se um grande empresário e hoje tenta com sua história inspirar outros moçambicanos a partir da sua obra “Construí meu futuro” e das conferências que tem dado na Europa para que sejamos a melhor versão de nós mesmos.  No final temos o mesmo objectivo,  independentemente da etnia, localização, partido político, religião. Vamos trocar nossas experiências e ideias de forma a despertar nossa inteligência colectiva e fazer com que esta trabalhe a nosso favor e não contra nós, pois se Bruno Pinto sozinho e em terra desconhecida conseguiu, então nós juntos também podemos. EU ACREDITO EM NÓS.

 

*Bonjour Bom dia (língua francesa)

*Good morning – Bom dia (Língua inglesa)

² Samito, se todos os dias rogares a Deus que quero isto e aquilo, Deus vai te responder meu filho.

Recomendação de livro para o mês de Agosto 2021: Sea Loves Me – “Mia Couto”

“Gratidão por ser contemporâneo destes

tempos em que a esperança sobrevive na

lonjura dos caminhos”. Armando Artur,

escritor moçambicano.

 

Celebro os anciãos, ou “velhos”, tal como são chamados na minha terra, lembrando o prestigioso lugar que lhes tem sido dado. Grande parte deles, têm sido o exemplo do conhecimento transmitido nas famílias, nomeadamente, porque: sabem escutar; sabem como dirigir uma prece a Deus; sabem como dirigir diferentes cerimónias da vida das pessoas – do nascer, até o morrer, a saber: o nascimento, o baptismo, o casamento e a morte em si; são experientes na execução ou a dar andamento ao dia-a-dia da vida na comunidade. Para nós, quem tem um(a) avô(ó) tem tudo, porque tem automaticamente quem o encaminhe em todas as esferas da sua vida social.

Não é por mero acaso que, na cultura bitonga (vatonga) lhes é dedicado o ligoci, um ritual de agradecimento pela sua existência. É uma cerimónia da qual participam avôs e netos. Inicia-se através de um anúncio que é enviado aos avôs maternos, a informá-los sobre a data do evento a que se chama guya ningheya ligoci, ie, ir entregar o ligoci, que consiste na oferta de prendas, em agradecimento ao facto de os avós terem concebido a sua mãe e esta, por sua vez, tê-los dado à luz e criado.

Nesse ritual, os avós recebem os seus netos com cânticos e uma grande festa na qual são partilhadas iguarias da terra entre todos. É um dia de muita alegria, porque, para além de gratidão, em alguns casos, é ansiosamente esperado, porque os netos só o realizam, depois de poderem gerar as suas próprias rendas. Devo destacar que, não existindo os avôs, as prendas são entregues aos irmãos da mãe. A celebração não deixa de existir, por morte dos avôs. É realizada em sua honra e em sua memória.

Tudo o que acabei de mencionar funciona de modo linear no campo, onde as comunidades ainda conservam, com muita facilidade, os valores tradicionais. Nas cidades, estas práticas vão acontecendo cada vez menos, dado o contacto com outro tipo de vivência; pelo que há algum relativismo que se deve ter em conta, quando se fazem generalizações. Mas devo alertar, no entanto, que jovens há que se têm tentado ocidentalizar, no entanto, quando algo corre mal, voltam atrás, para consultar os anciãos, porque sabem que têm alguma palavra a dizer que pode melhorar a situação. E isto acontece, precisamente, porque os africanos ainda são, na sua maioria, povos cuja religiosidade ocupa o centro das suas vidas. E quem tem a palavra no âmbito religioso são os avós, pela sua experiência e pelos exemplos de “proximidade à santidade” que são capazes de dar.

Vivemos tempos nos quais estes valores, em convivência com outros diferentes, criam alguma ambiguidade na nossa actuação diária. É por causa disso que os cientistas sociais têm alertado para a importância de se educar para o estímulo da convivência entre culturas, a interculturalidade, a partir da qual as pessoas troquem os seus valores culturais, sem que nenhum se sobreponha sobre o outro, a ponto de umas julgarem imprescindível adoptar a cultura do outro.

Ezio Lorenzo Bono é um cientista social, padre, docente e pesquisador, que viveu alguns anos na Maxixe, cidade da província de Inhambane, em Moçambique. Consta-me que há cerca de tês anos, regressou à Itália, sua terra e que, há alguns meses, vivia em Bergamo. Conheci-o há cerca de cinco anos e, para mim, ele é um exemplo de interculturalidade “ao vivo”. Não passou os seus dias em vão, em Maxixe, leccionou, pesquisou e falava muito bem o gitonga, uma das línguas daquela província.

Nestes últimos tempos conturbados e de pouca esperança no que concerne ao intercâmbio de valores humanos, foi das pessoas/autores que mais me marcaram, mais recentemente, dada a actividade de fomento e de pesquisa sobre a interculturalidade na qual tenho estado envolvida há quatro anos. Conto a história em primeira pessoa, não por vaidade, mas para fazer crer nos valores de interculturalidade que pude aprender do padre Bono, por tê-lo visto nesse papel e por tê-lo lido como autor.

E foi com fundamento nos seus ensinamentos que este texto incidiu sobre a importância que tem a entidade avô/avó, na cultura o gitonga, em particular, e na africana, no geral. Bono teve consciência de que os anciãos são uma instituição. E, ao escrever a sua obra Muntuísmo: a ideia de pessoa na filosofia africana contemporânea, não os descurou.

Para Bono a cultura africana é personalista, por assentar os seus fundamentos de vida na pessoa, na comunidade e em Deus. O indivíduo não existe como uma personalidade virada apenas para si. Ele vive em extrema correlação e em partilha com a sua comunidade e todos eles tementes a Deus. São pilares que, segundo ele, já desmoronaram no ocidente; dado que a contemporaneidade valoriza o individualismo, sem a dimensão transcendental e a comunidade tornou-se um lugar para a reivindicação de direitos individuais.

Muntuísmo é um neologismo criado pelo autor que temos vindo a referir e tem origem na palavra muntu (pessoa) e, segundo o que se pode apreender pela obra, significa a construção de valores humanos, a partir do relacionamento entre eles. Para escrever a obra de que venho a falar, o autor realizou um trabalho de cariz etnográfico, mas é importante destacar o lugar de relevo no qual ele colocou os anciãos. E um aspecto digno de realce nessa obra é o facto de que, na contracapa, o autor ter feito questão de escrever: “Os velhos da terra de Sewe (Inhambane, Moçambique) contam que, a 10 de Janeiro de 1498, o famoso navegador português Vasco da Gama, a caminho das Índias, chegou com as embarcações à baía de Inhambane. Era um dia muito chuvoso […].

Essa frase marca um distintivo da cultura oral, sobretudo, demonstra o respeito que o pesquisador julgou fundamental e constatou ser a condição primária para o bom decurso da sua investigação: falar com os velhos. Além disso, o autor abordou o essencial da filosofia africana sobre o ser pessoa, ou seja, o ser muntu, que ontologicamente se sintetiza em “eu sou, porque tu és”, ou seja “I am, because you are”.

Independentemente do nosso estatuto social ou habilitações literárias, nós consideramos os velhos as nossas bibliotecas. É por isso que, no âmbito do ensino sobre “os saberes locais”, no programa curricular das escolas públicas moçambicanas, eles têm uma palavra a dizer. Eles têm sido consultados. É um dever falar com eles sobre essa matéria.

Nós somos, porque acreditamos em Deus e respeitamos a nossa colectividade, parafraseando o padre Bono, na sua obra Muntuísmo: a ideia de pessoa na filosofia africana contemporânea: I am (munthu) because I believe (Deus) and I love (Comunidade).

 

*Sara Jona Laisse, docente na Universidade Católica de Moçambique, em Maputo. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

 

 

 

 

No fim do nosso caminho está a liberdade.

Ascêncio de Freitas”

 

Num país atravessado por tantas intempéries, as histórias continuam sendo um pretexto imprescindível para se repensar o sentido da vida. Apercebendo-se ou não disso, Suzy Bila escreveu uma história cheia de asas, onde a técnica narrativa é o substracto de um voo para múltiplas dimensões.

Lamura começa por ser uma história para sonhar, feliz e com um universo diegético cheio de luz. No princípio, o enredo desenrola-se na aldeia de Bogoro, se acreditarmos no narrador, onde outrora morou África e a sua essência. Talvez para destruir essa essência ou, pelo menos, para mostrar como tem sido continuamente destruída, Suzy Bila ficcionou uma realidade atroz, pintando-a com sangue, suor e lágrimas. Assim, o que parece ser uma história auspiciosa e um sorriso iminente, rapidamente desemboca num caos, porque “Um dia, o vento que atravessou a aldeia trouxe o medo… Tudo começou a mudar. As famílias em desassossego cessaram as estórias à volta da fogueira. A aldeia emudeceu, adormecendo em silêncio. Até os pirilampos deixaram de luzir!”, (p. 13).

A situação que irrompe em Bogoro corrompe o contexto das personagens e, com isso, a violência se instaura. Desconhecidos homens armados chegam à aldeia, invadem casas e crianças são arrancadas dos braços das mães para irem servir a ganância dos vilões numa mina horrível. É um cenário muito idêntico ao que se passa em Cabo Delgado. Sem saberem porquê, aldeões vergam-se ao desespero e pais, humilhados, nem sequer conseguem proteger os seus próprios filhos. A diferença com Cabo Delgado é que o silêncio na aldeia de Bogoro não é causado pelos que partem, mas pelo pavor dos que ficam: “No lugar onde a aldeia se reunia à volta da fogueira e se contavam estórias, estava uma multidão de homens armados rodeando crianças desprotegidas”, (p. 17).

Submersa na crueldade, Bogoro vê a humanidade que sempre a definiu esfumar-se. Vê os filhos partirem para as minas de Cobalto e com eles uma perspectiva de coexistência. Lamura e o amigo Lwandle, por exemplo, quase se perdem no percurso a um futuro que os condena à morte. Mas Lamura encontra nas histórias contadas pelo pai a força interior que o permite sobreviver.

No livro de estreia de Suzy Bila, quem tem histórias possui conhecimentos, e, consequentemente, uma percepcao positiva sobre as coisas. Ao contrário de Lwandle, Lamura adapta-se às circunstâncias nas metamorfoses das mariposas, um sinal de esperança. Na verdade, a esperança é a base da liberdade e responsável por introduzir na ficção a vitalidade diferenciadora do protagonista.

Ora, mais do que uma denúncia dedicada às crianças que perderam a infância e a vida nas minas de Cobalto, Lamura é uma história escrita com muita autenticidade. É um lugar de confluência, no qual os conceitos de coexistência, liberdade, esperança e metamorfose são invocados através de uma personagem imberbe. Esta história de Suzy Bila é um confronto entre a ordem e o caos, a força e a subtileza, a morte e a superação. Lamura também é um pretexto para repensar um país, um continente ou um mundo atravessado por tantas adversidades. Nem mais, é a casa que merecemos e podemos construir em oposição à desordem que nos ronda, sempre por combater.

Numa sequência de eventos nucleares bem encadeados, com cor, atmosfera, movimento e acção, Suzy Bila sintetizou em 60 páginas o possível universo da liberdade. Não o preencheu de fantasias e nem se deixou levar pela necessidade de um desfecho justo. Pelo contrário, seguiu as trilhas do seu protagonista e emancipou-o da dor e do medo. Por isso Lamura sobrevive. A gruta onde é forçado a trabalhar não é um lugar para morrer, mas, fundamentalmente, um pêndulo onde se projectam outros princípios da vida. Eis o que nos diz Suzy Bila nesta história que pode ser infanto-juvenil e outras coisas: a liberdade não de deve calar com a intimidação das armas. Portanto, Lamura também é uma afronta ao silêncio.

 

Título: Lamura

Autora: Suzy Bila

Editora: Escola Portuguesa de Moçambique

Classificação: 16

 

Ex-pesquisador da Faculdade de Direitos Humanos da Universidade Edouardo Mondlane

 

As observações feitas por funcionários e meios de comunicação na região da África Austral têm sido enganosas e contraproducentes na sequência do destacamento de tropas ruandesas para Cabo Delgado. Curiosamente, isso explica porque o povo de Cabo Delgado recebeu escassa assistência durante anos, durante os quais foi assediado por terroristas e grupos islâmicos. A situação precária de Cabo Delgado parece ser uma preocupação secundária, diante da preocupação sobre que país deve liderar a força de intervenção para socorrer Moçambique.

Alguns países dizem que não confiam nos comandantes moçambicanos, outros insistem que a África do Sul deve comandar porque tem o exército maior, delegado pelo Botswana; outros ainda dizem que a África do Sul e Moçambique deveriam primeiro resolver a questão dos oficiais de inteligência sul-africanos, que foram presos em Moçambique, ou que o ex-ministro moçambicano das finanças exilado na África do Sul deveria ser extraditado primeiro, enquanto a papelada da SADC para implantação, parece, ainda não estar à altura.

Já os meios de comunicação, por outro lado, não perdem a oportunidade de proclamar que Cabo Delgado é um local estratégico, por concentrar enormes reservas de gás natural, rubis e pérolas do fundo do mar.

Em meio aos conflitos, cidadãos inocentes de Cabo Delgado continuam a morrer sequestrados ou passando graves necessidades em campos para refugiados.

Só isso explica exactamente por que motivo o exército ruandês foi enviado em peso, antes de qualquer outra força militar. Quando aconteceu o genocídio contra os tutsis no Ruanda, nas Nações Unidas em Nova York, especialistas e diplomatas debatiam semântica sobre, como o que estava acontecer no Ruanda deveria ser nomeado com precisão, políticos aconselhavam cautela ao chamá-lo de genocídio, pois isso implicaria uma ação imperativa por parte da comunidade internacional. Um milhão de pessoas inocentes foram massacradas enquanto aqueles debates estéreis continuavam, e assim por diante.

Portanto, ao se deslocar para Moçambique, Ruanda está meramente a cumprir a norma internacional de “Responsabilidade de Proteger” e passo a esclarecer: A Responsabilidade de Proteger – conhecida como R2P – é uma norma internacional que visa garantir que a comunidade internacional nunca mais deixe de intervir para travar crimes e atrocidade em massa como genocídios, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade. Lembremos que o conceito surgiu como resposta ao fracasso da comunidade internacional em responder adequadamente às atrocidades em massa cometidas no Ruanda e na ex-Jugoslávia durante a década de 1990.

Ruanda está em paz agora, mas acreditamos que nossa paz não será completa se a paz de nossos semelhantes, os africanos, não estiver segura. É nesse contexto que Ruanda convidou o mundo, em sua capital, Kigali, a assinar os “Princípios de Kigali sobre a Proteção de Civis”, que são um conjunto não vinculativo de dezoito (18) compromissos para a implementação efetiva e completa da proteção de civis na manutenção da paz da ONU.

Não é a primeira vez que tropas ruandesas se deslocam para fora da região da África Oriental. Ruanda é atualmente o quarto maior contribuinte de tropas para as operações de manutenção da paz da ONU e o segundo maior país contribuinte da Polícia.

Antes do destacamento para Moçambique, havia cerca de 6.550 militares uniformizados do Ruanda servindo na ONU, a maioria deles em pontos críticos como o Sudão do Sul, a região de Darfur no Sudão e a República Centro-Africana (CAR).

Nos últimos 15 anos, mais de 7.700 policiais de Ruanda participaram de tarefas de manutenção da paz em todo o mundo, dos quais mais de 1.400 são mulheres. A Polícia Nacional de Ruanda participou do restabelecimento da paz e da segurança na Costa do Marfim, Mali, Libéria, Sudão do Sul, Haiti e tem destacamentos na Sede das Nações Unidas em Nova York.

As tropas ruandesas não ‘avançaram’ para a SADC para se destacarem em Moçambique. Essa é uma das falácias decorrente do conflito prolongado. O fato de um exército de uma região africana diferente ser solicitado a entrar em uma zona de guerra para resgatar civis inocentes, quatro anos após o conflito estar em andamento, é uma acusação ao órgão regional relevante, sobre sua verdadeira disposição de intervir naquele conflito.

Mas essa não é a questão relevante. A verdadeira questão é: o que as tropas ruandesas vão fazer? Eles vão para resgatar civis! Se tiverem sucesso, essas mulheres, crianças, os idosos que estão em perigo, não se importar o com quem veio primeiro, quem veio em segundo lugar, quem comanda as tropas.

Durante o genocídio contra os tutsis, aqui no nosso país, poderíamos ter aceite qualquer um que se importasse em vir resgatar-nos …Não importa quem!

É importante não perder o foco. Em uma situação humanitária, as pessoas em perigo devem estar no centro de todas as decisões políticas e devem determinar a urgência com que tal decisão deve ser tomada. Quem chegou primeiro ou por último, quem comanda e quem substitui as tropas são tecnicismos segundarios. O que importa é continuar com o trabalho de salvar vidas inocentes.

Dito isso, embora não seja dito, os ruandeses não são estrangeiros, eles são africanos. Está na ordem das coisas que eles se preocupem com o sofrimento de outros africanos. Imagino que aqueles que lutaram pela libertação de Moçambique ainda se lembram de jovens ruandeses que costumavam aprender a fazer guerrilha em seu país no final dos anos setenta, início dos anos oitenta. Esses jovens, agora comandantes ruandeses reformados, ainda partilham com os jovens soldados, as suas boas memórias de Moçambique e do falecido Samora Machel. Recorde-se que a FRELIMO foi fundada na Tanzânia e os jovens ruandeses também cresceram com a canção revolucionária de Miriam Makeba: “A luta Continua”. Seria impróprio então que a casa dos revolucionários africanos fosse sitiada pelo terrorismo enquanto outros exércitos africanos ficam a olhar.

O rápido deslocamento das tropas ruandesas está de fato em linha com o sonho dos pais fundadores de uma força pan-africana para defender o nosso continente sem ser impedido por fronteiras coloniais ou “blocos” regionais. Em vez de especular, todas as nações de boa vontade deveriam apoiar as tropas ruandesas desdobradas em Cabo Delgado, afinal, não há nada de novo sobre a vinda de um irmão para ajudar outro irmão.

No entanto, para que uma operação seja bem-sucedida, todas as tropas precisam ter clareza sobre a missão. Nesta operação, todos os exércitos intervenientes têm um inimigo comum: os terroristas. Eles têm uma missão comum: resgatar civis e restaurar a paz e a segurança em Cabo Delgado. Que eles não se enganem sobre quem está de que lado e quem não está.

Entrevistado por Denny Ripanga, MC Roger, um dos gurus da comunicação em Moçambique e sem dúvidas um dos maiores “activistas da auto-estima” e da moçambicanidade que o país jamais conheceu, disse acerca de alguns apresentadores, que tem inundado as nossas televisões nos últimos tempos, o seguinte: “falta humildade a alguns comunicadores; falta cultura geral; não sabem que a televisão mais do que informar deve formar; temos mais apresentadores do que comunicadores; a pessoa pode até falar mas sem comunicar.” Não poderia ter sido mais directo e correcto, ao ponto de inspirar este artigo.

Comunicar é uma actividade essencial para a vida em sociedade, é através da comunicação que os seres humanos e os animais partilham diferentes informações entre si que são essenciais para sua sobrevivência. A comunicação é uma ferramenta de integração, instrução, de troca mútua e sobretudo de desenvolvimento.

“A televisão mais do que informar deve formar – Disse MC Roger”

O nosso país apresenta infelizmente graves problemas de educação extra- escolar, o que faz com que a televisão se torne um dos meios, senão o único meio de ocupação, diversão e mesmo de aprendizado dos jovens. Sem avançar estatísticas reais, diria que o moçambicano em média passa diante da televisão mais tempo do que na escola de música, dança, teatro, a praticar desporto ou outra actividade de desenvolvimento intelectual. Daí que concordo plenamente com o MC Roger. As televisões têm a responsabilidade de criar programas e contratar apresentadores com um mínimo de cultura, dicção, postura, vocabulário e conhecimento que possam ser uma mais-valia para a nossa sociedade.

A comunicação consiste em transmitir informação entre um emissor e um receptor. A comunicação pode ser verbal assim como não verbal. A comunicação é um processo de troca do conhecimento através da fala, de gestos, actos e omissões, através da maneira de vestir, sentar, olhar e sons.

Quando alguém vai a uma entrevista de trabalho, aconselho sempre a adaptar a sua indumentária à cultura da empresa em causa. Esta é uma forma de dizer ao recrutador, eu me identifico com a sua organização. Este é o primeiro acto de comunicação que estabelecemos com os candidatos. O candidato que se apresenta para uma entrevista de trabalho para posto de Jurista vestido de uniforme militar, está a dizer que não tem postura para representar a empresa, assim como o carpinteiro que se apresenta em uma entrevista de fato e gravata.

Outra vez assistia televisão e pude ver um apresentador com camisola do Futebol Clube de Porto, este apresentador está a dizer a milhões de jovens e crianças que estão a assistir apreciem e amem clubes estrangeiros. Inaceitável para essas figuras que têm a missão de formar a sociedade. Já que estamos a falar de desporto lembram que Reinildo foi campeão a poucas semanas? Claro que sim…orgulho para todos nós. Recebi no grupo de WhatsApp “Brothers 4life” um vídeo de um apresentador muito conhecido na praça a aconselhar o atleta, dizendo “não vem jogar nos Mambas”, “vão te partir pernas aqui”, “não estraga teu negócio com os Mambas”, “este país não valoriza ninguém”. Vi e ouvi uma apresentadora dizer ao seu colega, “você peidou” num programa em directo. Pude ver em um programa de televisão um artista com duas caixas de cerveja e a dizer sucessivamente “mother f*cker”.  Pude assistir e ouvir também uma apresentadora a dar estatísticas irrealistas e sem nenhum fundamento sobre traições entre casais em Moçambique.

A origem das atitudes destes jovens está na pura inocência. São apenas muito ignorantes com relação ao poder e a chance que a vida lhes concedeu de influenciar positivamente a sociedade que pertencem. Infelizmente eles não são formados e nem instruídos sobre o impacto nefasto dos seus actos sobre a juventude moçambicana. Certo, temos os nossos problemas, não podemos fingir sua existência. Não pagamos bem os artistas, futebol pouco competitivo, somos transportados em MyLoves*, entre vários outros problemas. Não seja por isso que tenhamos de perder amor próprio. Penso que somos muito jovens e fortes para perdermos nossa dignidade.

Minha mãe costumava dizer, Samito, ungave m’dgindo*.  M’dgindo é uma árvore com largos ramos, que em tempos de vendaval usa seus longos ramos para limpar todas as árvores ao seu redor, mas que, no entanto, debaixo da mesma o espaço permanece sujo ao ponto de ser habitada por serpentes. Mamã usava sempre esta analogia dos machopes para dizer, limpe sua casa antes de limpar a casa do vizinho, samito, ame teu irmão antes do teu amigo, elogie e admire seu país (apesar dos problemas) antes de falar bem dos outros países, use camisete de Textáfrica antes de usar de Porto, não fale mal dos teus governantes no estrangeiro, grite que os Mambas são a melhor equipe o mundo mesmo quando esmagada, não fale mal da sua esposa na presença da sua amante.

Viktor E. Frankl diz no seu livro “Découvrir un sens à sa vie” que mesmo no corredor da morte, no Campo de Concentração de Auschwitz, ele e seus companheiros de infortúnio acordaram que não deviam perder sua dignidade, que se tivessem que morrer, seria com dignidade. É essa herança que estes prisioneiros deixaram a comunidade Judaica que continua a prosperar no mundo inteiro até hoje.

A vida em sociedade materializa-se por meio de um compromisso entre os cidadãos, o contrato social. Em certos momentos devemos sacrificar nossas opiniões e convicções em prol da sociedade. Os que por fruto do azar ou de muito esforço alcançam a celebridade, assinam um compromisso com a sociedade. Compromisso este que é o de servir a sociedade usando sua influência e celebridade. Portanto, as suas opiniões e os seus pontos de vista, emitidos em público devem ser partilhados de modo a influenciar positivamente a sociedade. Em circunstância alguma estes devem dar publicamente opiniões que sejam contraprodutivas aos objectivos sociais sob pretexto de que “é minha opinião”. Não façam isso porque infelizmente os vossos seguidores vos darão ouvidos e tenho a certeza que vocês não têm objectivo de fazer “um Moçambique pior”. Se por um lado a  FMF* está a juntar esforços para que tenhamos uma boa equipe nacional não podemos ter do outro lado influenciadores que aconselham aos nossos atletas para não se juntarem a esse esforço. Este país não valoriza ninguém, diz o apresentador. “Quem é” este país? Este país é cada um de nós. Alice Mabota disse numa entrevista que deu recentemente, que “os jovens não sabem que eles é que são o estado”. E acredito que quem tem oportunidade de valorizar publicamente as nossas estrelas são exactamente os apresentadores que tem espaço de antena. Não?

Poder da comunicação

A comunicação e a mídia ditam a moda e as tendências de comportamento a seguir, destroem reputações, derrubam políticos e governos, o poder da comunicação levou o homem à lua, reconciliou nações, criou empresas, mantêm casamentos e desenvolve sociedades.  Os detentores deste grande arsenal devem ter noção do presente que o universo lhes responsabilizou e utilizarem para o bem e não para o mal.

No seu filme, que pudemos ouvir pela primeira vez sua voz, que sai em 1940 “The Great Dictator”, nos últimos 4 minutos do filme, Charlie Chaplin realiza um último discurso (The final speech from the great dictator). Discurso este que foi copiado em partes para músicas, podcasts de desenvolvimento pessoal e reeditado por vários líderes a nível mundial pela sua importância e pertinência. Devido ao contexto que se vivia na altura, Charlot usou da sua celebridade, dinheiro e arriscou sua própria vida e carreira para influenciar as pessoas a distanciarem-se dos regimes ditactoriais e agirem positivamente uns com os outros, disse no seu discurso, e passo a citar: “Sinto muito, mas não quero ser um imperador. Isso não é da minha conta. Eu não quero governar ou conquistar ninguém. Eu gostaria de ajudar a todos se possível, judeus, negros, brancos…”. Em Moçambique também temos os nossos Charlot ‘s: Neyma; Dr. Severino Nguenha; Galiza Matos Jr; Carlos Serra; Gabriel Junior, João Chissano, Victor Reis e com o mesmo poder (celebridade e possibilidade de influenciar). Utilizem este arsenal positivamente e façamos todos juntos um Moçambique melhor para cada um de nós. EU ACREDITO EM NÓS.

 

*MyLove- Transporte público (denominação adotada recentemente para designar transporte público em Moçambique).

*Samito, ungave m’dgindo – Samito, não sejas m’dgindo (Cicopi/Xichope/Chope – língua do sul de Moçambique).

*FMF – Federação Moçambicana de futebol.

Recomendação de livro para o mês de Julho 2021:  Eu tenho um sonho – “Tico-Tico”

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