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ARTIGOS DE OPINIÃO

É uma frase feita, que entrou na moda e, praticamente, no léxico moçambicano: “já fiz a minha parte”.

A partir daí, vem o jogo de empurra. Os “mais velhos” atiram a toalha ao chão, alegando que já não encontram espaço, pelo que se sentem desenquadrados. E a pergunta é: afinal o espaço é servido numa bandeja, ou (re)conquista-se?
Do lado dos jovens, saídos das academias e que se querem acomodar perante realidades que implicam investigação e trabalho, também surge legitimidade para o mesmo veredicto: “já fiz a minha parte”.

Quem vai, então, fazer… a outra parte?

Madalas: recolham a toalha

É fácil identificar o lado com menor legitimidade: o dos madalas. Numa sociedade como a nossa em que os culpados são sempre os outros, os mais velhos, sobretudo os credenciados, olham para os anos que têm para viver, equacionam as suas reformas – nalguns casos de dois ou três dígitos – e consideram-se felizes com o “pinga-pinga” na conta mensal. Optam por passar só a cuidar dos netinhos, evitando polémicas que possam atrapalhar uma velhice tranquila.

O investimento do país, a sua entrega e militância em muitos e exaltantes anos, viram matéria – útil mas desajustada – na vida dos novos “babás”. E desta forma, “pontapeiam” as atitudes que os seus pais e avós tiveram perante as bem mais duras realidades, nas longas noites coloniais.
O pós-independência proporcionou-nos uma abertura para o mundo e para a modernidade, com oportunidades para  (re)colher experiências irrepetíveis aquando no país nascente, tanto interna como internacionalmente.

Tudo isso é para ser levado para o Lhanguene?

Ser e parecer

No desporto, a situação é paradigmática. Nas direcções das colectividades, associações, federações e por aí em diante, os cabelos brancos escasseiam. Não quer dizer que se abundassem, isso seria por si só, sinal de qualidade. Porém, claramente, da fusão de pensamentos, épocas e experiências resultaria mais credibilidade e grandes debates de gerações, em que todos sairiam a ganhar.
Unir a inovação à experiência representaria uma base segura entre o parecer ao ser. Ganharia o presente a partir do passado, garantindo, sem margem de dúvidas, um futuro com bases bem mais sólidas, de saudade, mas não apenas de saudosismo.

    

 

“Conhecemos um homem pelo seu riso; se na primeira vez que o encontramos ele ri de maneira agradável, o íntimo é excelente”, Fiódor Dostoiévski

À terra, Mauro Vembane, somente irás entregar hoje o teu corpo. Porque, em meio a rostos carregados e lágrimas que escorrem nos olhos, ficará para sempre um retrato de um basquetebolista fiel ao seu “métier”.

Ficará, e porque fizeste disso uma das tuas marcas, a imagem de uma pessoa que espalhava alegria por onde passava! Brincalhão. Um gajo, pah, porreiro! Frontal.

Sempre, e nunca confundiste as estações, disposto a discutir ideias e não pessoas. Imberbe, e ainda à procura de (a)firmação com gravador, bloco e caneta ao punho, cruzámos caminho pela primeira vez. Trocámos ideias, trocámos números e lá marcámos uma sentada.

Falámos, com a paixão que sempre carregaste pela modalidade da bola ao cesto, das tuas expectativas e visão sobre aquilo que devia e deve ser o basquetebol moçambicano. Com um olhar clínico, aliás, diagnosticaste e apontaste o caminho a seguir!

E, pelo meio, nunca deixaste de criticar, de forma aberta e sem cobardia, o papel que os media (não) desempenhavam! Sobretudo, mano, no que diz respeito ao basquetebol. Dizias, lembro-me: “Aristides, melhorem neste e aquele aspecto”.

E, causa- consequência, desenvolvemos uma relação profissional de quase treze anos na qual aprendi muito contigo, Mauro Vembane.

Mesmo depois de te retirares do basquetebol, após passagens pelo Costa do Sol, onde deste os primeiros passos, Desportivo de Maputo, Maxaquene, Ferroviário de Maputo e selecção nacional, continuamos a falar sobre a modalidade.

E um pouco do FC Porto, clube ao qual eras aficcionado. Afinal, o desporto não tem fronteiras!

Ao lusco-fusco, e com brindes à mistura, abordámos o basquetebol. Fizeste, como sempre, observações sobre alguns aspectos em termos de abordagem.

Sem protagonismo e outros “ismos” que fazem escola nos “iluminados” cá da aldeia, deste várias sugestões. E sempre repisaste a necessidade de sermos humildes!

Porque, hoje por hoje, há muitos “corta-matos” que vão dar a Hollywood. Com queima de etapas e qualidade que deixa a desejar, pelo meio.

Não mais nos vimos! Infelizmente, terça-feira, espreitava eu o Facebook quando me deparo com um post de Helmano Nhatitima, teu eterno amigo. E meu amigo também, reivindico. Fiquei estarrecido! Gelei. Esqueci as tiradas do Milton Matsinhe. Caí na real. Não queria acreditar. Tirei lágrimas.

Os homens que choram também são homens. Questionei-me, tal como a Lena d’ Água num dos versos da música Sempre que o amor me quiser: “Porque é que os grandes homens caem e a vida é tão curta? Porque é que a morte arranca lágrimas dos olhos meus? Porque é que não disseste adeus?”.

 

Finalmente, após o tira-teimas que obrigou a segunda volta da eleição intercalar, um facto inédito em Moçambique, encontrou-se o digno representante dos munícipes de Nampula para dirigir nos próximos 5 meses os destinos da autarquia, nada mais, nada menos que Paulo Vahanle. Até então um ilustre desconhecido na arena política moçambicana, apesar de já ter tido uma passagem pela Assembleia da República na qualidade de deputado da perdiz. Um docente de profissão e com humildade suficiente para não prometer céus e mundos aos munícipes. Estes, que viram suas aspirações goradas por água abaixo após uma infantilidade grosseira do MDM na gestão do caso Amurane, cujas consequências ainda se farão sentir nas próximas eleições autárquicas de 10 de Outubro próximo em todo o país. Mas a nossa análise não é essa, o que queremos alertar é a influência que o norte tem ou que pode ter sobre todo Moçambique.

Foi no norte onde se deu o primeiro tiro no início da luta armada segundo a história e foi por lá onde a guerra civil de 16 anos fez estragos incalculáveis da economia e do tecido social. O presidente da república é de lá, os grandes projectos estão lá e tantas outras coisas que já sabemos. Estes factores deveriam convencer aos sulistas de que Moçambique não é só Maputo e que as atitudes dos nortenhos devem ser replicadas e valorizadas, pois aqueles não toleram teatros e palhaçadas dos dirigentes políticos. Não se baseiam em sentimentalismos, camaradagem e não esquecem o tempo que passou, mas baseiam-se nos resultados que os dirigentes apresentam na gestão da coisa pública e sabem dar a César o que lhe pertence. O nosso espanto é que muitos aventureiros em políticos e analistas pro-governo defendem a tese segundo a qual foi um voto contra o glorioso partido e não pelo manifesto apresentado pelo felizardo Vahanle.

A olho nu, ficou claro de que nenhum dos candidatos apresentou um projecto sério de governação para o município de Nampula, mas devia-se eleger um dentre os melhores para assumir o comando. No nosso entender não havia necessidade de uma eleição intercalar, apesar de se ter evocado o imperativo legal, pois a conjuntura económica e o tempo que restava para o fim do mandato, por si só dispensavam a aplicação da lei às cegas, pois não há regra sem excepção. Entretanto, como a ocasião faz o ladrão, pensaram alguns amadores que aquela seria a oportunidade para assaltarem Nampula.

Devemos dar mérito aos que ganham, nos solidarizar e aconselhar aos que perdem para que treinem mais, até Barcelona de Messi perde. Devem ser humildes e não recorrerem a arrogância, extorsão, corrupção moral, ameaças e falsidade para lograr seus intentos, pois quando não conseguem a frustração é imensurável. Alguns minimizaram a vitória da perdiz e chegaram a aventar a hipótese de que o silêncio da sociedade civil resulta do cumprimento de uma agenda externa, será verdade? Outros tentaram manipular as mentes e aliaram-se a família do edil malogrado, prometendo o ouro sobre azul, mas quando aquele estava vivo não apanhavam sono com sua qualidade e integridade na gestão municipal.

O vento sopra do norte e os resultados de Nampula são um balão de oxigénio para uma democracia que estava a se asfixiar. Os órgãos eleitorais tentaram sem sucesso dificultar o exercício do direito de votar, confundindo os eleitores, atrasando a aberturas das assembleias de voto, visto que os observadores internacionais e nacionais tinham a lição bem estudada. Nesta eleição ganhou Nampula e a democracia e de outro lado perderam os ditos cujos que reclamam que são os únicos que fazem e que sempre fizeram. Então, assumam que fizeram brincadeiras desta vez, para perderem a eleição e aceitem aprender com os erros para vencerem futuras batalhas. Talvez a autoconfiança, o relaxamento de que o jogo está ganho, a desatenção na defesa e participação dos maputenses na campanha de Nampula ditou o triunfo da perdiz.

Pensamos que é tempo dos ambiciosos mudarem de táctica, mesmo quando o adversário tenha sido ganho nos campeonatos anteriores, cada jogo é um jogo. Apesar de o futuro ser incerto ele é previsível, a partir do momento que o MDM e outros partidos direccionaram o voto para a RENAMO ficou claro que os galácticos iriam perder o jogo. Deste modo, não havia necessidade de mobilizar buldozares, grandes engenheiros e empreiteiros para uma obra de 5 meses, pois para problemas locais são aconselháveis soluções locais. As elites políticas têm níveis, desde nacionais, regionais e locais.

Ademais, como é que continuam a usar recursos do Estado, com destaque para viaturas de luxo, funcionários e quadros seniores, inclusive do parlamento para fins domésticos? Concordamos com o dono da expressão o "preto nunca muda". Todavia, o moçambicano já está a mudar porque os ventos da mudança estão a surtir efeito e de algum lugar virão as respostas de tantas perguntas e insatisfações antigas. Apelamos aos partidos históricos e os aspirantes que preparem-se para as mudanças e tenham criatividade e mestria na sua actuação, devendo deixar sempre um legado, obra emblemática mesmo que não sejam eleitos para próximos mandatos. Chega de trabalharem hoje para garantirem trabalho amanhã e fazer carreira na política.

Política é ciência e ciência é invenção dos homens para o benefício dos homens. Apelamos ao povo que dê cartão vermelho aos jogadores e multa aos clubes desses jogadores que fizerem jogo sujo e comprarem resultados, tem de haver fair-play. Por outro lado, que compre camisetas dos melhores jogadores e apoie os clubes que mesmo sem recursos financeiros e jogadores de alto nível mas que fazem um jogo bonito e que agrada os adeptos.

Paulo Vahanle hoyee! Democracia hoyee!

 

 

 

Eram 04h50 da manhã quando aterrámos no Aeroporto de Helsínkia. Acolheu-nos uma fresca temperatura matinal de -7 graus centígrados. Vínhamos de uma noite passada a mais de 12.000 metros de altura e a uma velocidade de 860km/h. Depois de cumpridas todas as formalidades migratórias e de alojamento, começámos a nossa jornada as 08h30, num ritmo rigorosamente cronometrado. É fascinante como, na Europa, a noção do tempo e da pontualidade assumem uma dimensão praticamente sagrada, contrariamente ao que nos habituamos no quotidiano africano.

Helsínkia é a capital da República da Finlândia. No passado dia 6 de Dezembro de 2017, este país nórdico celebrou o centenário da sua independência. A Finlândia é também conhecida como o país do Pai Natal (segundo a lenda, o Papai Noel mora nas montanhas de Korvatunturi, na Lapônia-Finlândia), o país da Sauna (calcula-se que existem na Finlândia mais de 3 milhões de saunas – praticamente uma sauna para cada dois habitantes), o país criador do famoso Nokia 1100 (o celular mais vendido na história da telefonia móvel – 250 milhões de exemplares em todo o mundo). Em 2018 foi considerada pelas Nações Unidas o país mais feliz do mundo e o melhor lugar no planeta para se nascer.

No entanto, até a década 50, a Finlândia era uma nação pobre e ninguém podia prever que este país com cerca de 330.000km2 e pouco mais de 5.500.000 de habitantes, ao decidir revolucionar o seu sistema educativo se transformaria num dos países mais prósperos do mundo, ostentando um dos melhores PIB do planeta, sendo o número um em capital humano com base em indicadores como educação, bem-estar e emprego, e ainda reconhecido com várias outras classificações mundiais prestigiantes.

Porém, para a nossa comitiva, de profissionais da educação, a Finlândia é um destino escolhido especialmente pela qualidade do seu sistema de educação, classificado como o melhor do mundo.

Qual é o segredo do milagre Finlandês? Esta era a principal pergunta que a nossa expedição académica levava na bagagem.

Sob a neve macia, cobrindo o solo, as águas e os tectos, qual um manto branco e puro, ficámos a saber que a história da Finlândia – o país dos mil lagos (187.888 lagos exactamente) – mudou radicalmente nos meados do século XX, quando o parlamento tomou a decisão de permitir que todas as crianças pudessem estudar em escolas públicas de qualidade. Desde então, todos os finlandeses têm acesso à educação gratuita da pré-escola até ao ensino superior. Esta filosofia constituiu sem dúvida, a chave do sucesso desta nação.

Creio poder resumir em três ideias fortes os factores determinantes que permitiram situar entre as mais altas do mundo, a qualidade do sistema educativo finlandês e, consequentemente, conduziram este país ao topo do progresso, em pouco mais de 50 anos.

O primeiro elemento assenta no facto de o país ter assumido a educação como uma prioridade nacional.

Os finlandeses compreenderam e souberam, genuinamente, pôr em prática uma velha ideia que sempre fez parte do património pedagógico universal: tudo começa com a escola.

Reconhecendo a educação como uma prioridade nacional, os finlandeses ousaram “pensar fora da caixa” e, ao longo de décadas, experimentaram fórmulas de gestão da educação que nenhum país antes ousara implementar, tendo assim logrado resultados fabulosos.

O sistema educativo finlandês preconiza uma educação gratuita, igualitária e de qualidade para todos os cidadãos nacionais. A forma como a Finlândia materializa o princípio de gratuidade é sui generis. Na prática, toda a educação é financiada pelos impostos e não existe efectivamente no país mercado de educação privada. Impressionou-nos saber que até as instituições geridas por organizações particulares, que se consideram “privadas” recebem do Estado mais de 80% do seu orçamento. Em função do número de alunos que tem, cada instituição recebe do erário público o orçamento correspondente ao custo unitário da formação.

O princípio da educação e igualitária consubstancia-se no facto de o filho do empresário mais bem-sucedido e o filho do modesto empregado de balcão estudarem lado a lado, desde o pré-escolar até a universidade. A educação da criança deixa de depender da condição social ou financeira dos seus encarregados de educação e o Estado chama a si a responsabilidade de oferecer oportunidades iguais para todos.

O sistema finlandês decidiu igualmente considerar gratuito a refeição nas escolas, as actividades extra-curriculares, o material didáctico, porém não considera relevante o uso do uniforme escolar.

O segundo elemento de sucesso tem a ver com a forma como os alunos são tratados. Os alunos não são vistos como clientes, nem como usuários do sistema educativo. Os alunos são tidos como seres humanos e são orientados como indivíduos. A Finlândia não se dá ao luxo de perder uma única criança. Equidade, qualidade e competitividade constituem um menu bem equilibrado na receita da escola finlandesa.

A Educação procura alcançar a realização plena e a felicidade de cada indivíduo. Os alunos finlandeses são os que apresentam índices de desempenho dos mais altos do mundo, no entanto são os que passam menos tempo por dia estudando. A escola ocupa as crianças com actividades que estimulam a criatividade, o raciocínio lógico e o conhecimento do mundo. A opção do sistema finlandês foi de, ao invés de preparar os alunos para as avaliações, prepará-los para a vida, propondo actividades escolares baseadas no seu ambiente quotidiano e adaptadas à sua idade. Uma criança é uma criança e não um adulto em miniatura, por isso deve fazer coisas de crianças.

O objectivo da educação é apoiar o crescimento pessoal como indivíduo e membro da sociedade. A escola ensina o que pode vir a ser útil na vida. Desde cedo, os alunos aprendem coisas do tipo: o que é um contrato, um talão de cheques, como calcular os impostos, e são treinados a fazer escolhas, análises críticas e a tomar decisões. Desta forma, as crianças crescem sem ter saltado etapas da vida da infância, da adolescência ou da juventude e são preparadas para se tornarem adultos responsáveis.

Difícil entender que na Finlândia a escola não é obrigatória, mas a educação sim é obrigatória, e que crianças não têm TPC, nem passam dias estudando antes das provas.

O outro factor de sucesso do sistema da educação da Finlândia mais frequentemente destacado é o estatuto profissional e social da profissão docente. A profissão é altamente respeitada.

A Finlândia adoptou uma política de valorização do professor que consistiu em determinar o nível de mestrado como condição básica para leccionar nas escolas, o que tornou o magistério uma profissão de prestígio criando um novo conceito de dignidade profissional. Existe maior competição para a profissão de professor do que a de médico, economista ou jurista.

Os professores possuem um alto nível de formação, com diplomas universitários e preparação psico-pedagógica, o que confere confiança no seu desempenho de tal modo que não há necessidade de inspectores na educação. A valorização profissional incide também, e obviamente, no reconhecimento salarial. O salário de um professor primário passou a ser quase metade do de um deputado.

O sistema de educação da Finlândia é provavelmente o melhor do mundo. O sucesso do modelo finlandês não é resultado apenas de políticas educativas, mas também de políticas sociais. Os finlandeses entendem que se o aluno está doente, tem fome ou tem medo não vai aprender. Então, as políticas sociais devem concorrer para assegurar um ambiente favorável a aprendizagem, proporcionando alimentação, saúde, amor e segurança a todas as crianças.

Tudo isto é fantástico, impressionante e muito desafiador. Porém não tem nada de ficção científica. E nós moçambicanos não precisamos de reinventar a roda, mas também não nos devemos limitar a importar práticas que podem não ser aplicáveis no nosso contexto. Todavia, podemos aprender da experiência dos outros.

A grande lição que podemos tirar do modelo finlandês é que nós precisamos de determinar que tipo de educação queremos na nossa sociedade e ousar definir as políticas mais ajustadas para levar o nosso país aos patamares que pretendemos alcançar. Temos de compreender que a competitividade de um país não começa na sua indústria, nem na quantidade dos seus recursos naturais ou na capacidade das suas forças armadas. A grandeza de uma nação depende fundamentalmente do que acontece na sala de aulas.

Está neste momento depositado na casa do povo a nova proposta da lei do Sistema Nacional da Educação. É muito importante que esta lei não se limite a actualizar assuntos plasmados na lei anterior, mas que traga inovações substanciais para que realmente ela contribua para a formação de uma nova geração de moçambicanos mais felizes, numa sociedade mais justa e com elevado grau de criatividade para edificar um Moçambique melhor.

Nelson Mandela disse certa vez que “a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo”.

É que, de facto, não há projecto social, político, económico que se estabeleça num país sem investimento na educação. Boa parte do futuro de uma sociedade está assente na educação e o exemplo finlandês indica-nos que, se dermos uma educação de qualidade aos jovens, estes catapultam o país.

A situação da educação em Moçambique é preocupante. Precisamos de uma educação que esteja ao serviço do progresso social e do bem-estar colectivo. Uma educação que não seja uma ferramenta para formatar pessoas. Moçambique precisa de uma educação que devolva a esperança aos jovens, que traga maior qualidade de vida ao cidadão e que dê respostas ao sentido mais profundo do ser humano.

Este desiderato, felizmente, não está fora do nosso alcance. Se soubermos mobilizar o conhecimento e a experiência já existente no país e ousarmos genuinamente pensar “fora da caixa” podemos sim, num espaço de duas ou três décadas proporcionar ao nosso povo uma educação que abra as portas para a felicidade individual e colectiva e que estimule a prosperidade e o bem-estar social.

 

Rui Nogar: “quando fala depois de nove hora/ eu não sabe outra história/ como história de rosalina// foi quando aquele tempo/ chegou noite devagarinho/ pouco qui  pouco lá/ lua começou / lumiar o caminho/ caniço  areia  zinco  gente// dentro / já fosfo cendeu luz/ candeeiro petromax// senhor António mandou fora/ vai lá fora espreitar / jossia quando ouviu/ foi no fora espreitar  espreitou / depois  porta de cantina fechou// agora sim/ todo gente ficou saber  nove hora/ todo gente ficou saber/ porta ficou atrás li no posto/ vai abrir  vai sair cavalo/ vai sair polícia com sipaio-anda-perto

Conheci-a há 30 anos e, desde a primeira vez que a vi no palco, reconheci nela uma força da natureza a representar, uma verdadeira força telúrica, uma actriz jubilosa, versátil, com uma plasticidade e uma capacidade de se transfigurar nas personagens que encarnou. Digo: para mim, foi a melhor actriz moçambicana, a mais espantosa, a mais incrivelmente espantosa. Vê-la a representar mexia connosco, mexia com o edifício dos nossos sentimentos. Não saíamos os mesmos depois de a ver em palco. Era uma mulher soberba no palco. Uma actriz soberana. Foi a fazer o papel inesquecível de Rosalina que se tornaria lendária para mim.

Rui Nogar: “passou tempo assim-assim/ lua subiu mais lumiou mais/ agora lumiou medo lumiou pressa/ lumiou casadela também/ casaquela fica meio de lagoas/ e foi ali que rosalina/ foi lá no fora fazer mijo// gente que passa  que olha/ pode ver rosalina/ fazer mijo assim mesmo/ mas ela não tem culpa/ não tem culpa rosalina

Conheci-a quando conheci os seus companheiros. Quando me demorei nas conversas com o João Manja, que era um brilhante actor e é um admirável senhor.  Conheci-a nessa década de 80. Foi ali, naquele tempo, que percebi o talento impressionante da Lucrécia Paco. Foi quando me defrontei com a grandeza do Adelino Branquinho. Com o Victor Raposo, o Eduardo Gravata, o Evaristo Abreu, a Margarida Muluana, de grata memória.

Rui Nogar: “paga dinheiro no dono/ cada mês dia trinta/ mas dinheiro muito senhor silva// quando quer fica quando não vai/ gente não falta para pagar// senhor silva falou rosalina ficou// paga sempre cada mês cada mês/ mas casa ranjar não ranja/ assim mesmo não pode ficar

Cumpliciei com eles. Fizemos viagens inesquecíveis. A de Pemba, em Janeiro de 1989, sobretudo, quando foram fazer Os governadores de Orvalho, do haitiano Jacques Roumain e Funeral de um Rato, de Mia Couto. Calcorreámos este país, no projecto “Moçambiquero-te”. Acompanhei-os quando andavam a fazer educação cívica em 1994. Parte do nosso país, forçado a emigrar, retornava. Mutarara ou Ilha de Moçambique, entre outros lugares, vivi momentos únicos com o Mutumbela. Fomos a Zurique em 1995 e eu fiquei comovido até às lágrimas perante aquele público electrizado com a brilhante actuação de todos em Os Meninos de Ninguém. Conversei com o Henning Mankell (que merece a nossa lembrança) naquela viagem. Provavelmente, não tanto quanto desejaria. Olhava para ele como se miram os gigantes. Ele foi um grande escritor. Vi-os a representar em Maputo, em Pemba, em Zurique, ou em diversas cidades alemães, vi-os em Lisboa.

Rui Nogar: “foi cacimba outro dia/ com mais chuva que choveu/ foi sapato de mulungo/ com mais bota de soldado/ mas quem pisa  pisou mesmo/ foi os pé  de moleque/ que dinheiro não tem/ mas que passa que olha/ que gosta coisa que vê/ que empurra com mão com perna/ mas que dinheiro é que não tem/ foi também   os dali/ que trabalha no bazar/ outro caminho não quer/ outro caminho mais perto/ foi também cada noite/ quele muchope zapungana/ ah  mas quem foi que foi mais/ foi o tempo que passou/ quando onde passa/ deixa tudo como vôvô// e o tempo  vento  chuva/ bota sapato moleque/ tudo ali passou// foi assim que rosalina/ quando mija fica fora/ gente que passa  que olha/ está ver ela quando quer

O teatro é uma ferramenta indeclinável na construção de um país, de uma identidade, de uma memória colectiva e da pluralidade sócio-cultural. O teatro é indispensável para a educação. Não só em momentos cruciais, como foram aqueles em que votámos pela primeira vez e que o Mutumbela Gogo percorreu o país, mas sempre. Não sei quem se interessa por isso. Já percebi que os poderes públicos na área da cultura divergem do essencial. Vejo-os resolutos a averiguar comportamentos. Não é esse o seu papel. A cultura é o reino da liberdade e eles tem que saber dar livre curso a isso. O teatro e outras disciplinas das artes precisam de uma política cultural inteligente. O teatro é decisivo na formação da cidadania. O teatro deveria ser indispensável num país como o nosso. O Mutumbela transpôs para o palco textos de Mia Couto, adaptou Luís Bernardo Honwana ou Rui Nogar. Esse trabalho é indispensável.

Rui Nogar: “mas agora/ não pode esquecer agora/ quando passa depois de nove hora/ cuidado não pode ali fora//e polícia  e cavalo  a passar/ com sipaio-parece-mesmo-outro gente/ está olhar olhou já viu ela/ e assim viu correu  correu mesmo/ e garrou prendeu lo (…)/ mulher de lagoa  mais moleque/ mais outro preto qualquer/ não pode ficar no fora/ quando passa já nove hora/ pronto cabou  vamos embora”

A Manuela Soeiro percebeu isso e é responsável pelo mais corajoso e inventivo projecto de teatro moçambicano. Eu vi como aquelas actrizes e aqueles actores cresceram nas mãos da Manuela. Não só como profissionais – e foram os primeiros actores profissionais em Moçambique! -, mas como mulheres e homens. E vi como a Manuela sabia harmonizar, num único grupo, tantos talentos, diversas personalidades, umas mais pronunciadas do que outras, umas discretas, outras exuberantes. E vi como eles olhavam para ela e como a amavam e respeitavam.

Rui Nogar: “e rosalina fica assim/ foi no posto número três/ com moleque polícia diz bandido/ com miúdo polícia chama vadio/ só porque passe no bolso não tem/ e bilhete-patrão-sina também/ não vai escola não pode estuda/ que vida moleque é trabalhar trabalho/ e dia todo moleca mesmo/ desde galo canta primeira vez/ até cão começou ladrar/ sozinho ali naquela estrada/ e primeiro agora é quintal/ vai varrer  já varreu/ tira lata de lixo fora/ põe lata de lixo dentro/ foi no talho  na padaria/ no bazar vasco da gama/ cendeu fogo cendeu já/ e quando caba tomar chá/ toda a gente que tomou/ rapaz vai tomar chá/ há muita roupa para lavar/ mas primeiro lava as chávenas/ mais os pires e colherinhas/ só depois é que lá fora/ vai no tanque de lavar/ e lava a roupa passa roupa/ de menino e de patrão/ e de menina e de senhora/ e roupa que vai usar/ outro domingo que deixar/ senhora é que vai mandar/ frega chão cera chão/ sábado sim sábado não

Ainda aqui há tempos – parece que foi ontem –  vi-a no Avenida, em Nove Hora, fazendo o papel de Rosalina, onde de facto ela se agigantou, peça baseada na adaptação do poema homónimo do inesquecível Rui Nogar. Aqui há tempos eu saíra em lágrimas daquele palco onde a vi brilhar. Vi-a em tantas outras peças. Admirava-a, tinha orgulho dela, aplaudia-a. De pé, como se devem aplaudir os gigantes.

Rui Nogar: “e caminho a continuar/ té no posto número três/ foi caminho de entrar/ lá no espada massuingue/ que no preço de um só disco/ tem um mundo a esmagar/ pontapés na louça toda/ sempre sempre está lavar/ tem na cama nos seus braços/ a senhora a espernear/ e a fugir é o patrão/ da navalha do seu riso// ah  o estrado lá no espada/ ah o estrado lá no espada/ twist  twist twist again/ ah o jive no estrado/ yah brothers i´m the king/ of my shadows/ everywere i´m working/ yes brothers  yes brohters  ah  ah  ah ah// ah o estrado lá no espada/ que liberta me liberta/ te liberta  nos liberta

Era e é uma actriz gigante. Disse-o e repito: a mais incrível actriz moçambicana. A mais bela actriz moçambicana. Quem não a viu, quem não foi interpelado pelo seu olhar no palco, pelos seus gestos, pela sua voz, pela sua representação, perdeu o melhor que tivemos no nosso teatro nos últimos quarenta anos. Para mim, a melhor actriz do Mutumbela Gogo, a melhor actriz moçambicana. Admirava-lhe o colossal talento, mas também, ou sobretudo, a imensidão da sua humildade. Foi uma mulher desprovida de todo e qualquer vedetismo. Não era uma diva, era sim uma grande senhora. Foi uma grande senhora do nosso teatro, a grande senhora do nosso teatro.

Rui Nogar: “mas agora é rosalina/ que no posto já chegou/ que sô chefe já chamou/ e a falar está dizer/ estava só fazer mijo/ e era dentro no quintal/ lá no casa não tem culpa/ senhor silva não faz muro/ para mijo ficar dentro/ não tem culpa senhor chefe/ lá meu filho está chorar/ está na esteira me esperar/ já não sabe está sozinho/ como pode sem mamar/ lá meu filho está chorar/ lá meu filho está chorar// e chefe quando ouviu/ diz a ela vai embora/ e outra vez se fores presa/ vais mijar no cangarrão/ e o sipaio agarra braço/ puxa ela ir embora”

Perdoem-me este tom intrépido. Enfático. Definitivo. Eu sou assim com as palavras, eu sou assim com os sentimentos. Ponho neles uma paixão intransitiva. Ela foi e é uma mulher que concitou sempre e continuará a concitar a minha incondicional admiração. Dou-me conta de que passaram trinta anos. E ela esteve sempre na trincheira do Mutumbela. Não sei de notícia que a colocasse fora daquele palco, daquele teatro, daquela vida, porque o teatro, o palco, a representação foram e são a sua vida. Passou a maior parte da sua vida ali. No palco. A sua vida foi o teatro. A devoção pela arte dramática, fê-lo com denodo, entregou-se reiteradamente. Com devoção e paixão. A sua vida foi a representação. No entanto, nunca lhe divisei, nunca consegui perceber nela nenhum sinal de estrela – como os falsos cometas que se guindam por aí e que estão desprovidos de obra e de valor. Ela tem um longuíssimo e profícuo currículo. Ela tem uma história. Ela é parte da história do Mutumbela Gogo, a história do nosso teatro, o melhor que vimos e aplaudimos nos palcos, nos nossos palcos.

Rui Nogar: “rosalina já não guenta/ cai no chão a soluçar/ soca areia chora grita/ quer bater no senhor silva/ que só sabe é explorar/ quer matar sipaio aquele/ que só prende o seu irmão/ quer lutar com força toda/ viu naquele o sopra gaita/ viu ali  lá no espada/ viu ahoje  quando viu/ filho nosso mesmo nosso/ mais sozinho já não fica/ já não pode mais ficar// rosalina rosalina/ rosalina está sentir/ que nós  todo mesmo/ vai um dia juntar raiva/ que precisa é rebentar// rosalina rosalina/ rosalina está sentir/ esta hora de nove hora/ é preciso vai cabar/ é preciso vai cabar/ para ninguém vais mais chorar/ para ninguém vai mais sofrer”

Ela fez este papel – e tantos outros – com garbo, com elevação, com elegância, com panache, com inteligência, com brilho, como uma grande actriz, como uma imensíssima intérprete. Pôs tudo o que era naquilo que fazia e por isso foi uma actriz extraordinária. O talento não é tudo, é preciso trabalho. Muito trabalho. As suas imagens que me ocorrem no palco, nas suas interpretações inesquecíveis, são, algumas, muitas, quase todas, arrepiantes. Morreu no dia 16 de Abril de 2017.  Há precisamente um ano, as mensagens sucediam-se numa manhã usual de domingo. As mensagens sentidas, de ocasião e outras. As mensagens sinceras. Inundavam as redes sociais. Chegaram-me por interposição. Não sou afeito à rede. Nem às redes. Permaneço obscuro e intransigente na idade do livro, sou relapso em tecnologia e desconfiado do conhecimento instantâneo. Desconfio, por conseguinte, das redes. Mas recebi screenshots: tudo parecia ter sido tão rápido naquela madrugada, tão brutalmente rápido, naquela infausta madrugada, a que nos subtraiu deste reino – onde os néscios contumazes persistem – uma belíssima mulher, uma belíssima actriz, que será sempre, para mim, sobretudo, a inesquecível Rosalina, do Nove Hora: Graça Silva.

Rui Nogar: “rosalina rosalina/ rosalina está sentir/ que outro dia lá no espada/ aquele disco vai tocar/ nunca mais vai parar/ nunca mais nunca mais/ nunca mais vai parar/ nunca mais nunca mais/ nunca mais vai parar”.

 

Uns vencem pelos seus crimes, outros fracassam pelas suas virtudes

William Shakespeare

Mbate Pedro é daqueles autores que acredita, de forma peremptória, que a poesia é a mãe de todas as artes. Verdade ou não, esta crença faz sentido, afinal aquela manifestação literária está além do verso e da palavra proferida. Devido a essa omnipotência, encontramos resquícios da poesia na música, nas artes plásticas, no cinema ou num modo de vida. Isto toda a gente sabe. Mas o que faz de um texto poético isso mesmo e da poeticidade um percurso para encanto? Já houve infinitas discussões sobre o assunto e não é nossa pretensão retornar a essa discussão. Não hoje. Ainda assim, acreditamos que “a gravata preta do corvo albino”, secção referente a Mbate Pedro, na obra Os crimes montanhosos, constituída por uma outra, “o branco colarinho dos corvos”, de António Cabrita, é uma perfeita desculpa para quem julgar agradável o mergulho nas letras fazê-lo sem adiamentos.

Logo no princípio, a escrita de Mbate Pedro, neste livro, revela ânimo poético do autor, cuja característica fundamental encontra-se na tessitura de um enunciado que sugere muito e nada, simultaneamente. Há, no mínimo, duas formas de ler “a gravata preta do corvo albino”. Primeiro, buscando e medindo o significado de cada palavra invocada. Quem fizer isso, poderá cair na tentação natural de querer absorver os sentidos possíveis dos versos e das estrofes como se isso funcionasse como barómetro do que moveu o poema. Na verdade, a partir desse exercício introspectivo fica-se com a percepção de que a enunciação não é feita sobre um objecto, numa direcção temática a que um Sangare Okapi (em Os poros da concha) ou Hélder Faife (em DESdENHOS) nos revelam. Os sujeitos de “a gravata preta do corvo albino”, tão intrigantes quanto esse título, navegam em imensas marés, até onde não existe o sabor salgado da água. Então, nessa onda, numa única estrofe, são recorrentes elementos que activam sentidos, por exemplo, na segunda estrofe do poema inaugural: o olfato, a imaginação (chamaríamos a isso o sexto sentido?), a visão e outra coisa, o desejo. “multiplica e exala o aroma de Minkadjuine/ sobre a flor resplandecente do copo  como/ corpo esfacelando o beijo (…) (p. 55)”.

Este é daqueles livros em que, permanentemente, nos perguntamos sobre o que se exprimem os sujeitos, os quais, fôssemos impressionistas, diríamos que não passam de uns altos vagabundos da palavra. Até podem ser, todavia, acima de qualquer adjetivação, está em causa, na segunda secção de Os crimes montanhosos, uma versificação consequência, quiçá, de uma vontade incalculável de se abraçar o mundo por via de predicados incríveis, a pasmarem-nos tanto quanto nos mantém em interrogação.  

Segundo, podemos ler a escrita de Mbate Pedro, cuja cadência da métrica não cabe excessivamente no tamanho dos versos, sem darmos relevância aos valores semânticos. Com isso ganha-se o universo do poema na sua íntegra, sem a escolha de desconstruir o eu poético rumo à construção de um entendimento particular.   

Como ocorre em “o branco colarinho dos corvos”, de António Cabrita, em “a gravata preta do corvo albino”, de Mbate Pedro, o valor da expressão está para além do universo interior do sujeito de enunciação, assenta numa dimensão feita de pormenores fragmentados: som, luz, escuridão, tesão e adeus.

 

Título: Os crimes montanhosos

Autor: António Cabrita e Mbate Pedro

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 15

 

Pela Antena da Rádio Moçambique [RM] sempre ouvi os Galtons. A voz adestrada de Abílio Mandlaze [vocalista falecido] servia-me de ponte para atravessar as ondas radiofónicas, do rádio, e chegar à música. A marrabenta dos Galtons sempre me encantou pela forma que é reinventada e tocada com brio. “Khoma la”, “Ulava ni tisunga”, “Juro sinceramente” e “Papaiane” eram execuções que faziam de mim hóspede deste grupo. Foi sempre uma marrabenta madura, talvez porque carrega(va) em suas letras e notas a soma do fardo das idades dos seus executantes. Diz-se que o seu nome foi inspirado na marca de uma guitarra; se assim for não há dúvidas para dizer que esse grupo é uma guitarra que se toca, a si mesma. Uma guitarra feita por cordas humanas de carnes.

Os Galtons são uma invenção de António Marcos em 1963. Ele inventou o grupo e o grupo inventou a sua marrabenta. Ximanganine é o velho que põe dentes de nostalgia, em cada música, com o seu bandolim; aquele bandolim não toca, raspa sentimentos para podermos tomá-los em forma de pó em cada música. A marrabenta com esse grupo vira uma verdadeira bola de futebol: é cabeaçada pelos dedos, rematada pela voz bem afiada, passa através de um drible único pelos ouvidos abertos e é pedalada, como uma bicicleta, para entrar esteticamente na baliza da perfeição e beleza. 

A simplicidade na forma, a mestria na execução, a harmonia no encadeamento das vozes e a retaliação do social e a sua construção no conteúdo são algumas marcas vivas desse grupo. A reinvenção e a execução própria da marrabenta por esse grupo deixa transparecer, no fundo, uma lição: o conhecimento profundo possibilita a reinvenção e a renovação e tentar reinventar sem conhecer as origens leva a desvios e deformações.

“Khoma la” [segure aqui] e ao fazê-lo compreenderá que os Galtons, quando localizados no tempo, são duma marrabenta formalmente “castiça”. A sua originalidade no estilo é um caminho para chegar à êxtase extensa e confundível com um orgasmo interior. Os Galtons são epígonos dum estilo que só eles possuem.

A fluidez técnica dos instrumentos é um outro detalhe que nos permite transpor as fronteiras da marrabenta habitual. A sua maneira, os Galtons, fazem-se poetas.

“A kufa yiku durumira” [Morrer é dormir] Descobriram cedo e por isso proporcionaram-nos e ainda proporcionar-nos um ritmo que resistente à morte. A marrabenta dos Galtons tem vigas firmes de experiência, pilares que seguram o velho com a força do novo. Os que vivem do presente rotulam esses mestres de relíquias da Velha Guarda; eu que sobrevivo reinventando o passado chamo-os mestres do instante ininterrupto.

Há cerca de trinta anos desde que, em 1989, aquando da realização do primeiro congresso de escritores de língua portuguesa em Lisboa, iniciamos as nossas reflexões em torno das ações e propostas das novas gerações artístico-literárias que –então- se apresentavam em Angola e Moçambique.   

Continuamos reputando este assunto de importância bastante para as literaturas dos Países de Língua Oficial Portuguesa. Angola e Moçambique  são, pelo que nos é dado a conhecer, dois casos em que a actualidade literária é mais vivamente marcada pela intervenção da geração post-independência, apesar das especificidades de cada caso em razão dos contextos e textos realçáveis dentre os que podemos conhecer.

Foi um facto indesmentível, nos anos oitenta, o surgimento e a afirmação de uma geração nova nos nossos países e nunca é demais repetir, na esteira do Professor Mário de Andrade, que ela/geração soube, apesar dos pesares como a escassez de bibliografia e a falta de contactos literários com o exterior por um lado, e também pelas guerras sangrentas que vivemos somadas as tentações da vida material, – dizíamos -, ela/geração soube enfrentar e ultrapassar as barreiras do seu tempo imprimindo na continuidade selectiva a ruptura que moldou a sua presença afirmativa face à História.

Em Angola, o que com certeza não é o caso de Moçambique, simplesmente de 1980 em diante poderá ser tomado em conta o surgimento da  jovem geração de escritores porquanto, em nosso entender, disse bem David Mestre na sua carta de Angola sobre a poesia nacional de 75 a 80 publicada a pags 67, 68, 69 e 70 da revista Colóquio/Letras n.º 89, ao referir que neste período em que constam os primeiros cinco anos de independência, apesar de carência económica (aqui referenciaríamos também a vivente degradação de valores…) a atenção primeira dos programas editoriais foi para a difusão daquelas que devemos considerar gerações anteriores cujo lastro vinha da década de 40 porque «a divulgação de autores angolanos durante o período colonial foi sempre, na melhor das hipóteses, editorialmente episódica e subalterna». A poesia, e não só, nesse primeiro período de liberdade, «passou da clandestinidade e da guerrilha aos prelos que a disponibilizaram para o encontro com o seu público…» pelo que, só na década de 80 aos novos/jovens/autores surgiu a abertura, que nunca lhes havia sido retirada, já no âmbito do movimento das brigadas apoiado pela União dos Escritores Angolanos, acontecendo ser Carlos Ferreira o primeiro a ver-se editado pela UEA em 1982 na prestigiada colecção de cadernos Lavra & Oficina. Refiro-me ao Projecto Comum, livro de débil pesquisa morfológica, considerado também «cheio de confessionalismo e improvisações rudes, duma retórica linear e sem recursos estilísticos» que em nosso “presunçoso” augúrio, a história – parafraseando Eugénio Lisboa – há-de ter o  meticuloso cuidado de o esquecer.

Em Julho de 88, para nós o ano da afirmação de novos escritores em Angola, em conferência por nós orientada na sede social da UEA em Luanda, dissemos que os jovens produtores de textos literários, uns mais do que outros, inevitavelmente, vinham já demonstrando graças ao seu audacioso autodidatismo um indubitável traquejo no domínio das mais distintas disciplinas de exercitação literária, sendo entre nós a poesia e o estudo (ensaio e critica) as que mais seguros indicadores nos presenteiam, ao contrario do que vem (vinha) sendo coisa por exemplo em Moçambique e mesmo em Cabo-Verde ou S. Tomé onde à distancia, e na medida dos nossos escassos conhecimentos, vimos acompanhando um sério desenvolvimento da ficção literária.

As nossas sociedades são ainda híbridas e cheias de indecisões. É um autor clássico quem nos diz que a juventude é a melhor maneira de enganarmo-nos a nós mesmo. Fernando Pessoa, alerta-nos poeticamente para a extensão da alma, e vai muito mais além quando nos diz que todo começo é involuntário/Deus é o agente.

Entretanto, assumida a complexidade das praticas artísticas e da própria vida literária, os novos sentiram-se deuses de si mesmo e só o seu empenho nos permite aqui apontar nomes que reconhecidamente lúcidos tem interferido e dinamizado a actividade literária das nossas nações e com os quais a literatura joga e jogará papel cada vez mais importante para o desenvolvimento sócio-espiritual dos nossos países:

– Luís Kandjimbo, José Luís Mendonça, Paula Tavares, António Fonseca, João Maimona, António Panguila, Jacinto de Lemos e Norberto Costa que injustamente raras vezes é referenciado dentre os mais representativos em Angola ou, os Moçambicanos: Armando Artur, Eduardo White, Panguane, Filimone Meigos, Paulina, Chissano, Suleiman Cassamo, Luís Cezerilo, Ungulani, Juvenal Bucuane,  Nelson Saúte e mais um ou outro de referencia obrigatória e cujo nome agora me olvido,  são autores de obra já conhecida e homenageada , conscientes de que só a operatividade textual das suas produções os consagra.

A arte literária da actualidade, embebida na secular tradição, basicamente oral, dos nossos povos apresenta-se tematicamente diversificada e tende para uma cada vez maior diversificação dado o dinamismo característico dos nossos “provincianos” universos sócio-económicos.

De referir que o Professor Pires Laranjeira, em razão da multiplicidade das nações e diversidade cultural dos países africanos, havia já considerado tornar-se cada vez mais difícil a um crítico europeu debruçar-se sobre as literaturas africanas. Entretanto, para bem delas, vimos surgir nos nossos países nomes dispostos a estudar, a analisar e a opinar sobre as produções locais. Sérios, descomplexados, despidos do vicio da complacência e da cobardia e sem compromissos com as instituições do poder.

Um exemplo categórico da opinião local entre os Cinco é sem duvidas o de Luís Kandjimbo, autor que se estreou com Apuros de Vigília, um conjunto de ensaios de meditação genérica a volta da coisa literária no continente africano.

Outro exemplo de actuação literária que a nós africanos orgulha, reside em Ualalapi de Ungulani. A nossa ficção ficou indubitavelmente enriquecida com a publicação desta prosa com momentos de primor poético e de suave densidade lexical, contrabalançada a transgressão conteudística e formal.

Se a nova poesia moçambicana traz bem acentuada uma inconfundível e natural carga lírica distanciada do telurismo característico da poesia anterior, em razão até da visão e concepção do mundo da juventude inevitavelmente assombrada pelo timbre do momento e da paixão de que falava Rilke à Kapus seu discípulo, aceitamos que ainda assim intervêm socialmente, mesmo porque, focalizado no corte estrutural o plano linguístico, anota-se certa subversão influenciada por autores clássicos portugueses e brasileiros, alguns até ainda vivos.

Ao contrário, folheadas as páginas dos poetas de 80 em Angola, veremos consolidar-se (dentre tantas) uma proposta de cariz antropológico. Vivas reflexões em torno da condição da vida humana, das relações que estabelece com a própria sociedade em que se sente inserida e não só.

É visível um constante recurso à intensidade simbólica de imensos motivos da realidade africana exaltando-se até elementos da (fauna e flora outrora ofuscados pelo colonialismo por exemplo) cultura angolana, pelo que não raras vezes assistimos também a uma ligeira interpenetração idiomática sugerindo um bilinguismo metafórico que ilustra invenção, criação e integração, das quais resulta a transgressão.

Em ambos os casos, o panfletarismo de outrora caiu em desuso, o cantalutismo sente-se desnecessário, a cor da pele não é mais motivo para recurso. Em ambos os casos rasga-se e subverte-se a linguagem e ao contrário do que se fazia no princípio, hermetiza-se cada vez menos acentuando aberto intimismo. Denotam-se saudáveis preocupações académicas e a marcha de um amplo processo de investigação estética cuja sentença aí está, pois o juiz/tempo ditou, reafirmando que um ano não conta e dez são o mesmo que nada.

Termino com uma breve referência, afirmando a necessidade crescente dos novos autores laborarem no campo fértil e aberto que é o da produção de textos dramáticos. Trata-se de uma área que herdamos das anteriores gerações, formal e substancialmente virgem e para a qual pobres esforços se tem concentrado.

 

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Luís Vaz de Camões

Que arde… é… bem que arde! Já o disse e bem o conceituado escritor português Luís Vaz de Camões. Tanto que arde que pode queimar e até matar… Matar? Sim, matar! Mas será um doce veneno? Eis a história… Conheceram-se em Setembro passado num convívio… até aí tudo bem! Só para contrastar com a realidade de vários relacionamentos que nascem/nasceram apadrinhados pelo Facebook e seu compadre WhatsApp – que excelentes padrinhos heim conhecem bem as suas fraquezas e sabem o que tu precisas – enfim um assunto para uma outra ocasião!

Voltemos à história… Ela trabalha e tem filhos, ele não! O envolvimento foi se intensificando… tanto que o jovem começou a frequentar a casa dela e ao que tudo indica o fogo do amor já fazia das suas… e porque não há bela sem senão nem sempre a balança do amor produz equilíbrios. "Desocupado" e vivendo na casa dos seus pais, conta ela que ele a contactava a todo momento, não a deixava respirar… E fogo dela ia abrandado, pois ele ia "metendo água".

Diz ela que a situação era tão incómoda que decidiu pôr fim à relação, mas o lume dele era muito forte que estava impossível controlar… Depois da rejeição, o jovem não se convenceu e continuava a fazer chamadas frequentes: "vamos namorar a sério", dizia o jovem, mas ela diz que nunca disse sim (verdade?)… Certo dia, ela chegou a casa e encontrou o jovem no interior da sua residência… conta que era o que não esperava. Aquela foi a última gota que apagou qualquer indício de fogo nela, fez transparecer! "Eu disse que ele não deveria estar ali e pedi-lhe para sair e voltar à sua casa"…

Para o jovem, aquele cenário era o combustível que faltava para que o seu fogo deixasse de ser um elemento que meramente alimentava a chama do amor para se tornar num incêndio capaz de queimar e destruir o seu juizo. Nasceu daí um amor suicida. Será doce veneno? O que é certo é que o incêndio aconteceu… gasolina foi o combustível usado pelo jovem para numa madrugada untar a casa dela para a matar, conta ela. Será amor? "Ele andava estranho e obsecado", disse a mulher já no leito do hospital à equipa da Stv. Como tudo aconteceu? "O que sei é que durante a madrugada despertei do nada… e comecei a sentir cheiro de gasolina. Depois me apercebi de movimentos estranhos no pátio. Levantei-me e espreitei pela janela e vi ele no interior do meu quintal. E porque estava próximo à porta, só senti fogo nos pés – de certeza não era aquele descrito por Camões – pois havia gasolina no chão. A minha preocupação foi de salvar os meus filhos, pois o fogo tendia a alastrar-se", descreveu a mulher que até este momento encontra-se hospitalizada no Hospital Central de Maputo, com queimaduras nas duas pernas. Amor ou obsessão: será um doce veneno?

 

Madala estava irrequieto. De cócoras. Não tirava os olhos do chão, onde buracos disciplinados alinhavam-se e formavam o tabuleiro do n'txuva.

Madala levantou-se para esticar as pernas. Ouviu estalos ruidosos. Eram as engrenagens do corpo a reclamarem. Ficou de pé. Mãos na cintura. Depois cruzou os braços num gesto brusco, denunciado nervosismo. Testa franzida. Olhos no chão. Dobrou o tronco. Apoiou as mãos nas coxas. A cabeça afundou-se entre os ombros. Sempre atento ao chão.

O adversário, um mufana, terminou de distribuir os dados pelos buracos do n'txuva, suscitando murmúrios da assistência que os rodeava, e olhou para Madala, desafiadoramente, dizendo, com os olhos: é tua vez de jogar.

Madala agachou-se. Coçou a calvície grisalha. A cabeça parecia fumegar. Cotovelo no queixo, acariciou as barbichas brancas, ao jeito kasparov de rebuscar ideias. A assistência que os rodeava estava silenciosa. Comunicavam pelos cotovelos, segurando a gargalhada maldosa para o final do jogo, quando se confirmasse a inimaginável derrota de um madala diante de um mufana, contrariando os manuais orais da sabedoria popular que garantem que o n'txuva é um jogo de madodas. Nunca se vira antes um mufana derrotar um madala, até porque, regra geral, os mais novos jogam entre si e nunca com os mais velhos.

Estavam à sombra fresca de uma frondosa árvore. Pelas irrequietas folhas, minúsculas mas capazes de filtrar a luz do sol, adivinhava-se um canhoeiro. À mesma sombra alguns vendedores ambulantes repousavam, um cão dormitava e uma mamana que espantava insectos nos legumes que vendia, berrava insultos aos meninos que lhe atiravam poeiras com a traquinice dos futebóis.

Numa barraca com as cores berrantes  da telefonia móvel, um televisor falava sozinho.

Madala levou a mão calejada em décadas de n'txuva, a um dos buracos que parecia o encovado das suas bochechas desdentadas. Sentiu os calos rasparem os dados feitos de caroços de canhu, da safra de fevereiro último. Distribuiu os dados pelos buracos sem convicção. O derradeiro calhou numa casa que não lhe dava vantagem. O mufana, num salto fez-se ao jogo e gritou sem respeito: "pah!", quando lhe capturou alguns dados.

— Eish! — ouviu-se na plateia.
— Schhh!!! — mandaram-no calar para não interferir no jogo.
Uma gota de suor desceu pelo rosto do madala e pendurou-se na ponta do nariz. Pensava. Pensava. Pensava. Não sabia onde jogar.

— Se fosse no xadrez — ouviu-se baixinho em tom gabarolas — se fosse no xadrez era só mover um peão. Um peão é  capaz de derrubar um rei.

Madala continuava por engendrar uma jogada. Não podia perder com um mufana.

— Xadrez é  um jogo organizado — continuou a voz gabarolas –, cada dado sabe a sua função e respeita a do outro. Agora, no n'txuva, os dados saltam desordenadamente, assaltam os buracos uns dos outros…

De cócoras, com experiência de décadas de n'txuva, o madala percebia, as conversas da assistência pelo movimento dos pés.

— É por isso que as nossas instituições não funcionam como deveriam — o gabarolas enrolava o sotaque e falava agora no tom sábio dos comentadores de TV –, vivemos como n'txuva, em buracos, no chão, em vez de nos civilizarmos num tabuleiro.

O jogo estancou. Madala hesitava a jogada. O mufana zombava com risinhos.
— Se fosse no xadrez, era só mover um peão. No xadrez, um peão pode derrubar um rei.

Na barraca ao lado, a tv que falava sozinha anunciou o noticiário. Uma  fulana com a maquilhagem a pesar-lhe o rosto,  fez cara de contar novidades nos cabeleireiros e atirou a notícia. Alguém gritou "epa!" e tentou aumentar o volume. A fulana referia-se a um jornalista. Enfatizou as palavras "sequestrado" e "espancado" como se as pronunciasse em maiúsculas. Madala suspendeu o mão cheia de caroços de canhu e olhou para a televisão. As pessoas distraíram-se do jogo e viraram-se também, com as bocas a desenharem um "ooohhh" redondo. O fulano gabarolas, insistia:
 
— Se fosse no xadrez, era só mover um peão. No xadrez, um peão pode derrubar um rei.

 

Talvez começasse por vos contar uma história da escritora e dramaturga francesa Marguerite Duras e que foi o tema para uma curta-metragem.

A história tem como personagem principal um rapazinho, o Ernesto, que um dia fugiu de casa. A aldeia inteira foi procurá-lo no bosque que circundava a povoação e ao cabo de três dias de busca, três dias, lá o localizaram, numa barraquita construída no ramo de uma árvore. Mas ele recusa-se a descer da árvore. Nada o convence. Nem a família chorosa, nem o professor que lhe pede. Por fim o Ernesto lá aceita explicar que fugiu de casa porque não queria mais ir à escola. Reage o professor:

– Mas Ernesto, foi alguma coisa que eu falei? Alguma coisa que fiz? Explica-nos por favor.

E responde o Ernesto:

– Não quero ir à escola porque o professor só me quer ensinar o que eu não sei!

Ora, por muito “surpreendente” que isso possa parecer, é esta a missão das universidades, uma instituição que frequentamos para, exactamente, nos ensinar o que não sabemos! E a atitude do Ernesto é um mau exemplo para não se repetir.

Dizem-me que esta história do Ernesto é infelizmente actualíssima e que reflecte uma atitude espalhada entre muitos alunos e que muitos jovens só vão à universidade para obter os diplomas em vez de lá irem para consolidar os conhecimentos. O que é evidentemente o contrário do que seria desejável. A esta atitude junta-se outro perigo: hoje os jovens têm a ilusão de confundir comunicação com transmissão, e a net com o conhecimento, e por isso, ao julgarem-se apetrechados com um poderosíssimo instrumento de divulgação de conteúdos, que é o computador ou o ipad ou o cell inteligente, às tantas acham que podem ter menos empenho nas aulas que depois recuperarão pela net, fugindo de terem atenção aoque lhes é ensinado presencialmente. Como se a experiência de ter sarampo se pudesse explicar pelo telefone.

E se juntarmos essa atitude, à impressão de uma certa saturação de conteúdos que nos dá a internet, acabamos por ver estragada também outra qualidade essencial ao crescimento humano e cognitivo: a curiosidade.

Daí que muitos jovensacabem por dar mais importância, na cultura que absorvem por esses meios, às marcas de reconhecimento e só queiram assimilar o que é parecido ao que já sabem em vez de se abrirem ao questionamento que lhes podia chegar do encontro com o diferente.

Os jovens não deviam perder de vista o que dizia o pintor Picasso e que a vida nos ensina ser verdadeiro: que a juventude não é uma coisa que se tenha mas algo que se conquista.

Há certamente um terreno comum entre as universidades e o teatro, tal como eu o entendo.

O teatro é também uma escola de questionamento, e de sacudidelas nos hábitos adquiridos. É assim há dois mil anos e julgo que na sua expressão mais viva continuará a sê-lo.

E para ilustrar isto, vou contar outra história, que desta vez se passou com o dramaturgo Ionesco, um dos mais famosos do século XX.

Ora, uma vez este dramaturgo franco-romeno recebeu o telefonema de um encenador americano, de Nova Iorque, que lhe comprou os direitos sobre uma das suas peças mais representadas, O Rinoceronte, para uma produção a ser feita de imediato. (1)

O Ionesco ficou todo contente e convidou logo os seus melhores amigos em Paris para uma festa de celebração.

A peça de Ionesco conta a história de uma pequena comunidade, uma aldeia cujos habitantes estranhamente se vão transformando em rinocerontes.

Porque se transformavam as pessoas nestes paquidermes tão desajeitados? O rinoceronte é o mamífero com a pele mais espessa, e por isso nessa comunidade as pessoas iam-se metamorfoseando em rinocerontes por isso simbolizar o desinteresse crescente que manifestavam em relação ao que se passava com os outros(a sua pele tão rija já não permitia o contacto e a empatia faceaos outros), o que acabava por transformar-se em alienação, ou seja as pessoas acabavam por ficar indiferentes ao que se passava consigo mesmo.

Ora, neste Rinoceronte da peça de Ionesco vemos o contrário do espírito doUbuntu, do qual retiramos dois lemas para a vidae para o nosso relacionamento com a comunidade a que pertencemos e são eles: "Humanidade para os outros" ou "Sou o que sou pelo que nós somos". Já veremos o que tal implica em termos éticos e na importância que isso tem para a nossa prática teatral.

Por enquanto, realcemos como nesta peça as pessoas estavam tão egoisticamente isoladas na sua concha, tão absorvidas pelos seus pequenos interesses ou crenças que os outros e a comunidade deixavam de interessar-lhes. E o corno do rinoceronte ajudava a manter os outros à distância.Esta fábula faz todo o sentido em todas as comunidades cujos membros passaram a manifestar um alheamento ou umadesvinculação com o meio ambiente social que os rodeia.

Num mundo como o de hoje, que em alguns aspectos deu tais passos atrás que inclusive passou a caracterizar-se por uma grande intolerância religiosa, um aspecto que julgávamos afastado de todo, a peça do Ionesco, pode funcionar como um despertador, levando as pessoas a capacitarem-se de que para além dos ritos e dos credos à superfície há problemas comuns e insolúveis a todos os homense que isso é que afinal os une no núcleo problemático da existência: a morte, a dor e a fugacidade do tempo estão para além dos pequenos ganhos ou derrotas parcelares. Isto é, a peça podia ajudar os espectadores, fechados na concha das suas diferenças, a darem o passo obrigatório no caminho da abertura e do “senso comum”, enveredando pelo que é mais rico na humanidade: Pensar colocando-se no lugar de outro ser humano.

E é este um dos valores da arte: reforça a empatia (que é esta qualidade de nos identificarmos com aquilo que o outro sente), que é igualmente um dos valores do crescimento segundo o Ubuntu.

Mas prosseguindo, como contei, na peça O Rinoceronte assistimos ao drama de uma personagem, o Béranger, que vê que a todos os seus amigos nascem pequenos cornitos na testa antes de se transformarem em rinocerontes. E o susto dele é o de todo o humano que vê que a dimensão humana em seu redor começa a rarefazer-se e que em vez disso impera um comportamento bestial e uma quebra dos valores humanitários.

Daí que a fábula de Ionesco seja uma peça do século XX mas também uma peça de sempre.

Porém, aconteceu outra coisa inesperada durante a encenação da peça de Ionesco em Nova Iorque.

Está um dia o Ionesco a tomar um cafezinho com o seu amigo Beckett, outro grande dramaturgo, e o seu amigo Cioran, um filósofo, e recebe um telefonema do encenador americano, que começou com grandes rodeios.

O Ionesco percebeu imediatamente que havia ali milando e incitou o outro, Desembuche homem! E o americano lá contou que estava enrascado. Mas qual é o seu embaraço, esteja à vontade!, vociferou o Ionesco. E lá gaguejou o americano para explicar que na transição do segundo acto para o terceiro acto, na peça, o Béranger, preocupado com o silêncio do seu melhor amigo ia a casa deste sem o avisar previamente que lá iria ou pedido autorização para o fazer…Ao princípio Ionesco não compreendia qual era a confusão do americano até que se lhe fez luz e qual era a razão pela qual o encenador americano havia tido de contratar um escritor para reescrever a transição do segundo para o terceiro acto da peça segundo os costumes americanos.

É que para um americano, era inaceitável, absolutamente impossível que alguém fosse a casa do seu melhor amigo de modo espontâneo, de surpresa, digamos, sem telefonar antes a perguntar se podia lá passar.

O Ionesco enquanto ouvia a explicação do americano bebeu ao balcão um copo de vinho, para digerir aquele completo absurdo.E quando chegou à mesa dos seus amigos, Beckett e Cioran, desabafou, Estes americanos são doidos, para eles é normal, faz parte da ordem das coisas, que haja uma comunidade onde crescem chifres de rinoceronte aos seus membros, isso está dentro da razão poética da peça, mas que alguém possa ir a casa do seu melhor amigo sem avisar é inconcebível! E muito riram os três!

Esta incrível história do Ionesco, do enredo da sua peça, e do modo como esta foi recebida na América permite-nos perceber as várias dimensões que uma peça de teatro possa ter.

O teatro é em primeiro lugar uma escola de questionamento, ou seja, o teatro sempre agiu como um espelho face à sociedade em que se movimenta, mas é um espelho muito próprioque interpreta o mundo e interroga os seus hábitos e fundamentos.

Por exemplo, as culturas costumam naturalizar coisas e práticas que são apenas convenções mas que o hábito transformou em dogmas e valores tradicionais inquestionáveis. Como se pode ver por essa convenção americana de que uma pessoa não pode ir a casa do seu melhor amigo sem o avisar primeiro. É uma convenção, que não existe noutros países, entre nós e nos latinos, por hipótese, mas que os americanos naquele momento transformaram em lei. Ou o modo como os moçambicanos vêem a coruja e o mocho, criaturas eternamente associadas à feitiçaria e ao mal. Mas que na Grécia são símbolos de sabedoria ou em certas zonas de Espanha símbolos da sorte. Bastou mudar de geografia e os mochos e as corujas saíram da alçada do mal e deixa de fazer sentido termos receio dessas aves.

Lembramo-nos aqui de um episódio passado com o mimo Marcel Marceau em Moçambique, quando cá veio fazer um espectáculo. A mímica é a arte de representar só com gestos e em silêncio. E o Marcel Marceau, naquela peça, queria significar que o homem que ele representava ia crescendo e ia colocando a mão na horizontal e em escadinha para indicar que o homem ia crescendo. Diz-me um popular no fim, no átrio do teatro, Gostei muito, mesmo quando ele esticou a mão na horizontal, para nosir dizendo que o cão ia crescendo… é que aquele cão parecia mesmo um homem. À noite eu contei esta observação ao Marcel Marceau, e expliquei-lhe que aqui o código era diferente e que para se indicar que um homem cresce se coloca a mão na vertical. O mímico fartou-se de rir com esta diferença entre as duas culturas e no dia seguinte, ao repetir o espectáculo colocou a mão na vertical para indicar que o homem ia crescendo. E foi uma explosão de palmas porque havia um europeu que compreendia que um homem só pode crescer na vertical. 

Ou seja, como se diz num ditado chinês, o problema que atribuímos às coisas não está nas coisas mas no que pensamos sobre elas.

Hábitos. O teatro ajuda a quebrar hábitos, porque leva as pessoas a interrogar-se sobre as regras que a mentalidade de cada momento convencionou e transformou em hábitos, em leis, em não-ditos. E na extensão disto, o teatro é, sempre foi, um lugar para a crítica e a liberdade de pensamento.

Nesse aspecto é um discurso sobre o mundo e muitas vezes entra em choque com os dogmas e as maneiras de ser dominante ou contra os poderes. Como dizia o Bertolt Brecht, ao teatro cabe divertire esclarecersobre o que está oculto atrás das aparências que regem a dinâmica da vida social, mas nenhuma destas duas dimensões pode amputar ou anular a outra.

Esclarecer, ou seja traduzir através de situações dramáticas os males que fazem adoecer a vida colectiva, ou que nela entravam, estorvam,o sentimento da humanidade.

Todas as peças importantes no vastíssimo repertório do teatro têm características idênticas à peça O Rinoceronte, i.é, reflectem situações e conflitos que são comuns a todas as épocas e lugares e daí a sua universalidade.

Ainda o ano passado estreámos uma peça de um autor do século XIX,Ibsen, e que se chama Os Pilares da Sociedade. A acção da peça passa-se na sociedade norueguesa de há 150 anos mas o seu problema central, os malefícios que nascem quando a mentira e o segredo ou a falta de transparência se tornam constitutivos do Estado, era tão próximo dos nossos problemas actuais e de tudo o que padecemos por causa das célebres “dívidas ocultas”, que apresentar esta peça tornou-se obrigatório para nós. Nem precisámos de a adaptar aos dias de hoje, as pessoas faziam imediatamente a relação. Era o nosso diagnóstico como membros empenhados da sociedade civil. 

O teatro já conheceu muitas épocas de obscurecimento e de repressão. Na Idade Média,

o condicionamento religioso sobre os homens era tão grande que inclusive os plebeus eram proibidos de contar os seus sonhos, pois consideravam-se os sonhos uma espécie de canal privilegiado para a comunicação com Deus e então contar os sonhos estava reservado às altas figuras do clero. No teatro só se podia adaptar as parábolas bíblicas. Mas mesmo então havia o Carnaval, que era um período de excepção e no qual o povo podia dar azo à necessidade que tinha de mascarar-se e de fazer do mundo um teatro, onde as hierarquias eram subvertidas e se podia ser o mais crítico possível para com as classes dominantes. E nessa época havia igualmente a figura do bobo, um histrião, que assumia o seu papel para, no meio das piadas, dizer na corte tudo aquilo que era proibido aos outros mortais. O bobo, como se estivesse no palco, tinha o seu traje especial que o projectava imediatamente num espaço de fantasia, para além do real, sendo, como quem não quer a coisa, o mais críticoobservador dos costumes e o mais sarcástico “conselheiro” do rei.

Esta passividade face ao poder, foi mudando com o período da Renascença e, no século XVIII, o pensamento social tornou-se mais irrequieto e começou a impor-se uma necessidade de reformas. Então nasceu uma ideia que galvanizou o pensamento humanista,acabando por determinaras mudanças sociais nos últimos três séculos.E o franco-romeno TzvetanTodorovdefine assim essa ideia:“desde essa época – diz ele -pensamos que a vocação do ser humano exige que ele aprenda a pensar por si mesmo, em lugar se contentar com as visões do mundo previamente prontas, encontradas em seu redor”. (2) Por isso estamos aqui hoje na universidade, se vivêssemos há três séculos atrás seríamos pastores e não sairíamos dessa condição.

Ou seja, desde então as dinâmicas sociais perseguiram três vectores de desenvolvimento humano: uma melhor educação que faça o homem superar-se, uma maior dignidade resumida numa igual liberdade e oportunidade para todos, e uma racionalidade que não secundarize a emoção e que permita ao homem tornar-se adulto e autónomo. Com mais ou menos pincelada à esquerda e à direita, este acabou por se revelar um projecto irrenunciável para o homem e por permitir grandes conquistas na esfera social.

Este fundamento político acabou igualmente por ter uma enorme influência na evolução da arte e também na do teatro. Toda a arte que ao colo das Vanguardas artísticas abalou todos os conceitos durante século e meio, depois da segunda metade do século XIX, bebeu ainda dessa fonte que se chamou O Iluminismo, e onde até se inventou um antepassado para a internet: as enciclopédias.

Se acrescentarmos  a este movimento do espírito que o teatro se define pela prevalência de personagens e pelo modo como apresenta no palco experiências singulares que pela força do seu drama ou conflito se tornam universais, compreendemos o papel político e mesmo ético que o teatro ganhou nestes últimos dois séculos.

Porém, ao perseguir este ideal muitas vezes o teatro chocou com as forças do poder e com os limites que a censura lhe impunha.

Os membros do teatro, que são sempre utópicos e sonhadores, viram-se muitas vezes censurados nas suas realizações e viam o poder mesquinho a distorcer as suas produções, impondo-lhes cortes e destruindo as mensagens das suas peças. Porque o poder estava consciente da capacidade de propaganda do teatro e sempre procurou abafá-lo ou servir-se dele para impor mensagens menos nobres eque só tinham por intuito perpetuar sem mudanças o estado das coisas.

E esta censura camufla-se de muitas maneiras. Na Inglaterra do século XVIII havia um censor oficial, chamado Lorde Chamberlain, que tinha o poder de proibir “quantas vezes ele considerasse pertinente” qualquer peça dramática que se “apresentasse para fins lucrativos”, censura económica que conduzia rapidamente ao fim das companhias de teatro que fossem críticas em relação à conduta de quem governava o estado das coisas. E assim se fechavam teatros, ou se apoiavam outros que só se dedicavam ao divertimento mundano e ingénuo, que vive do trocadilho e da piada fácil.DaríoFo, um grande dramaturgo italiano e prémio Nobel, conta-nos como a ETI, o organismo de Estado que geria, e gere ainda, o circuito das companhias pelas principais salas italianas excluía a sua companhia dessas salas de teatro, sem uma palavra de explicação. Salvou-o da penúria o dinheiro do Nobel. (3)

Esta camuflagem da censura pode adoptar outras máscaras e exercer-se em nome de princípios religiosos ou morais (ou antes moralistas, porque o moralismo é um abcesso da moral, que é uma coisa sã e necessária); censura-se em nome de supostos costumes ou por a peça melindrar certos dogmas políticos e religiosos.

Ou podíamos falar também de outro prémio nobel, o dramaturgo nigeriano YoleSoyinca, perseguido por causa das suas peças e quase morto. E não devemos deixar de fora uma menção ao sul-africano Atole Fugart,encenador, dramaturgo e escritor que fustigou sem descanso o regime do Apartheid, através do Teatro, o qual, pelo seu lado, encarcerava os seus companheiros e os actores negros da sua companhia.

Ao mesmo tempo, nesta guerra, os grupos de teatro também multiplicavam as estratégias para fugir à censura. Quantas vezes, para que as peças não fossem censuradas, muitos grupos recorreram ao artifício das fábulas e usavam animais no lugar dos personagens e assim as peças conseguiam passar sem receber os chamados "cortes", ou serem mesmo submetidas ao cancelamento das peças. Outros grupos usaram e usam máscaras para caracterizar elementos do governo, das elites políticas e religiosos, e como com as máscaras o trabalho de representação que se faz é sobretudo sobre o tipo ninguém se sente melindrado pessoalmente.

E às vezes os poderes são cegos na sua sanha de exercerem a censura. Em Espanha, no período da ditadura do Franco, havia argumentistas e dramaturgos de direita contratados para mudarem as falas dos filmes e de algumas cenas teatrais mais incómodas. E havia situações que estavam proibidas de serem mostradas no palco ou nos filmes, que vinham da América. Aí, com muito profissionalismo os censores mudavam então a história e a condição das mulheres adúlteras que eram convertidas em irmãs dos amantes. Para censurarem a menção ao adultério, em Espanha multiplicavam-se os incestos nas salas de teatro e nos cinemas de um dos países mais beatos do mundo. (4)

E outros exemplos podiam-se dar da perseguição da censura, das suas contradições e até da sua loucura.

Raramente, mas também acontecem surpresas inesperadas, com os censores. O Czar da Rússia, que fazia parte da comissão de censura, achou muita graça a uma peça do Gogol, que nós representamos o ano passado O Inspector, e que aborda o problema da corrupção que contaminava de forma transversala sociedade russa. O Czar, para horror dos outros censores, sentiu que a peçaretratava de forma verdadeira os seus subordinados e o Inspector acabou por inspirá-lo a fazer algumas reformas que minimizaram o problema da corrupção.  

Vê-se assim que o teatro tem sidoatravés dos tempos um laboratório onde se examina e se faz o diagnóstico dos sintomas sociais e os seus temas são como os andaimes que ajudam a construir um caminho. Mas é nosso dever nunca nos esquecermos que dramaturgos importantes como AlfredHutchinson ou Lewis Nkoski foram obrigados a fugir da África do Sul para não serem mortos pelo regime do apartheid e que a censura teatral é sempre fundamentalmente um acto político contra os indisciplinados e os elementos criativos da sociedade, que usam o teatro como instrumento para a mudança.

Porém, é indiscutível que se o Teatro tem um poderoso impacto como correia de transmissão – quer para os valores, quer na crítica a  comportamentos, inspirando ao mesmo tempooutras formas de resolução dos problemas -, isso se deve à sua própria pertinência antropológica. Não é por acaso que nos grandes momentos de abertura ao humanismo no mundo, na Antiguidade Clássica, como na Renascença, ou em todo o século XX, e também aqui ao lado na África do Sul, o teatro foi um meio de expressão privilegiado.

Repare-se, quer na Atenas de Péricles, na Renascença do Século de Ouro espanhol ou na do período do teatro isabelino em Inglaterra, que nos deu Shakespeare, ou na Paris de todas as artes da primeira metade do século XX e onde começou a germinar a queda do colonialismo, verificava-se a mesma preocupação, o desejo de saber até onde o humano podia ir no bem e no mal, na poesia ou na denúncia, no sofrimento, na submissão ou na revolta, face aos poderes que esmagam o homem ou que o ameaçam.

Por isso o teatro é imperecível e retorna sempre, mesmo que por vezes seja abafado.

Entre as qualidades, quase se diria hipnóticas, do teatro está a sua capacidade para produzir uma identificação entre as personagens e o público. Como se as personagem encarnassem as espectativas, as emoções e as decepções do público presente, e igualmente as suas ilusões.

Quando se realizaram as primeiras eleições democráticas no país, o Mutumbela Gogo produziu uma peça de teatro com o título "Vestir a terra". Essa peça foi traduzida nas várias línguas nacionais e apresentada em todo o País, nos distritos, nas línguas mãe de cada província, e foi apresentada em português sobretudo nas cidades capitais e nos países que faziam fronteira com Moçambique, aos refugiados moçambicanos que lá se encontravam para os persuadir a voltarem para Moçambique porque não haveria mais guerra.

Na peça havia várias cenas em que o público, empolgado, reagia de uma forma entusiástica como se aquela acção que se passava no palco fosse verdade.

Vou dar exemplos: 

A Albertina e o José (marido e mulher), e os personagens principais da peça, decidiam voltar a Moçambique. Eles viviam num campo de refugiados na Africa do Sul em Gazankulo. O José tinha uma bicicleta, onde transportavam parte dos seus bens. Durante o caminho, apareceu um indivíduo que reparou que eles os dois eram novos  naquela região e prontificou-se a ensinar-lhes o caminho, ajudando a carregar a bicicleta. Durante a viagem o individuo, que afinal era um ladrão, fugiu com a bicicleta.

O José pôs-se a correr atrás do ladrão. Aqui aconteceu o seguinte, tínhamos mais ao menos entre 300 a 350 espectadores, e sobretudo os homens, embora algumas mulheres também,puseram-se a correr atrás do ladrão aos gritos, apanhando pedras, paus para bater nele. Foi preciso  levar um jipe que ali estava para apanhar o actor que era o Evaristo Abreu, senão este poderia ser morto!

Outra cena interessante na mesma peca: “Vestir a terra":

A peça falava sobre o regresso dos refugiados e informava que todas as crianças que não tivessem documentos ao regressarem a Moçambique poderiam requerê-los, aos documentos, para ficarem legais.

No final da peça, vimos uma fila enorme com as mães segurando os seus filhos ainda pequenos e perguntámos  o porquê da fila. Então elas diziam que queriam registar as suas crianças para voltarem para Moçambique!

Quando falámos que não podíamos ser nós a registar, a população começou a ficar agitada e tivemos mesmo, em combinação com as autoridades do campo de refugiados, de simular uma lista com o nome dos pais das crianças e a localidade de onde eles eram oriundos, para, quando chegássemos a Moçambique, entregarmos essa lista às autoridades, como se esta servisse de um censo rudimentar, pois naquele tempo começava a fazer-se o registo dos refugiados que estavam fora, de modo a que as pessoas participassemnas primeiras eleições democráticas.

Como explicou há dois mil anos o Aristóteles, no primeiro manual desta nossa tradição de teatro, aquilo que é verosímil pode ser tomado por verdadeiro e o teatro vive desse jogo do “e se…”, é o jogo do “faz de conta”. E em nós africanos, por uma questão cultural, isso é inato. Aliás, refere-o Peter Brook, um dos grandes magos do teatro do século XX e que nos anos setenta fez com a sua companhia uma digressão pela África bantu, sobretudo pelas zonas campestres da Nigéria. E explica ele: «O Africano que foi criado nas condições do modo de vida em África tem uma compreensão altamente desenvolvida da dupla natureza da realidade. O visível e o invisível, e o livre trânsito entre ambos, são para ele, de modo muito concreto, dois modos de ser da mesma coisa. Algo que constitui a própria base da experiência teatral – aquilo que chamamos de faz-de-conta – é simplesmente uma passagem do visível para o invisível, retornando no sentido inverso. Na África isto é considerado não como fantasia, mas como dois aspectos da mesma realidade.

Foi isso que nos levou a África, diz ele, para termos a possibilidade de testar o nosso trabalho com o que se poderia considerar um público ideal».(5)

O Peter Brook intuiu aqui algo do nosso Ubuntu, mas voltaremos a isso depois. O que interessa agora salientar é que o teatro vive da verosimilhança das suas situações e da necessidade que as pessoas têm de ilusões. Da ilusão e mesmo de se auto-iludirem.

A este propósito há uma história deliciosa que se passou nos anos cinquenta com o dramaturgo de Nápoles,EdoardoFillipo, um autor muito popular na Sicília. E ele um dia a passear pelos bairros pobres de Nápoles viu que se fazia uma fila para se ir visitar uma certa casa, a pagar. E reparando que as pessoas riam muito enquanto estavam na fila, perguntou o que se passava. Explicou-lhe um popular que queriam ver todos o bebé que havia nascido naquela casa, que era muito diferente dos outros. Mas não lhe disseram porquê. E o EdoardoFillipo, curioso, embarcou também na visita. À porta eram recebidos pelo pai da criança, que cobrava 20 liras pela entrada. E afinal o que era o objecto de tanta curiosidade? Um bebé que os pais enfarruscavam de carvão para parecer que tinha nascido negro. O dramaturgo achou aquiloum acto pouco digno e foi perguntar ao pai, Mas tu não tens vergonha de quereres convencer toda a gente que és “cornuto” e que a tua mulher teve um filho com os estivadores do porto? Naquela época a maior parte dos estivadores do porto de Nápoles eram emigrantes negros. E o que é facto é que toda a gente saía da casa muito excitada por que o pai da criança eramesmo“cornuto”. E explica-se o pai da criança ao dramaturgo, SiñorFillipo, esteja descansado que nós todos os dias damos banho ao bebé!

Eis a necessidade de ilusão que é comum a todas as pessoas, ao ponto de não ser invulgar que as pessoas vejam não aquilo que os seus olhos vêem ou os seus ouvidos ouvem mas antes aquilo em que querem crer. O teatro também se serve deste ilusionismo e às vezes nos seus efeitos sobre o público de teatro não está distante do efeito placebo nos remédios, que funciona como um indutor psicológico para que o sistema imunológico reaja pelos seus próprios meios.

Assim age o teatro sobre a consciência do espectador, fazendo-o aceder a um novo ponto de vista sobre a realidade que o cerca de modo a que aja sobre ela de um modo mais lúcido.

Não vejam nisto qualquer arrogância, mas é de novo uma necessidade antropológica que nos move. Talvez nos ajude a pensar o que li há pouco tempo numa escritora portuguesa, a Silvina Rodrigues Lopes. Dizia ela: «Embora possa haver uma tendência das pessoas para lutarem pela sua servidão, o pensamento é uma força de resistência a isso, uma força de mudança. E as mudanças não decorrem de projectos globais e a longo prazo. Elas começam sempre “agora”, em tudo o que se faz, um agora que torna as memórias vivas, que nasce delas.» (6)

O que me agarrou neste parágrafo foi a frase inicial que diz o contrário do que é habitual. Lembremo-la: «Embora possa haver uma tendência das pessoas para lutarem pela sua servidão, o pensamento é uma força de resistência a isso, uma força de mudança.» Por muito que nos custe admitir, infelizmente, e misteriosamente para mim, a maioria das pessoas quer servir em vez de desejar ser autónoma. A única explicação é que a liberdade é um estado que dá muito trabalho. Contudo, o texto também nos lembra que devemos porfiar, insistir, na resistência.

E as mudanças – tal como esta autora preconiza, e issosentimo-lo na prática do teatro e constitui, de resto, uma das nossas maiores motivações – são conquistas a conta-gotas da seriedade e do empenho que colocamos em tudo o que fazemos.

Há uma tensão própria à actuação no palco que nos faz viver como actores não um tempo vulgar, amorfo, e ordinário mas um tempo de autenticidade e que se nos torna vital tanto no teatro como na vida. Um bom actor habitua-se a esta tensão e depois quer transportá-la para a vida, no sentido de em cada “agora”, em cada instante da sua vida procurar ser, como no palco, o melhor de si e não uma réstia de si.

É aqui que nós militamos, perseverando diariamente contra todas as dificuldades que se colocam às nossas produções mas obstinando sempre em dar o melhor de nós em cada instante.

Entretanto, o teatro é uma actividade cara e onde se tem de ser pragmático – isto é, o teatro obriga-nos a uma atitude ecológica, no sentido de em cada momento termos de adequar a nossa imaginação aos recursos que temos. Nós não fantasiamos coisas impossíveis de realizar, somos um caso de estudo sobre o qual os senhores da política se deviam debruçar, pois sabemos o valor da economia dos recursos e a nossa prática é uma actividade anti-perdulária. Mas é uma actividade cara, pois mobilizamos muita gente e muitos técnicos diferentes. Piora esta situação num país novo que não fez ainda o devido trabalho na formação de públicos ou de leitores, e onde não existe um circuito para a itinerância do teatro, uma das maiores urgências neste momento no nosso ramo. E assim fica mais difícil a uma companhia auto-sustentar-se. Nós criámos uma padaria e temos de bater a muitas portas estrangeiras para conseguirmos prosseguir a nossa actividade e temos tido algum apoio porque em todo o mundo desenvolvido se compreende que o teatro é uma ferramenta essencial para a formação dos valores de uma comunidade.

Quanto a apoios internos, em Moçambique não existem estes subsídios e criou-se em alternativa uma lei do mecenato em cima do joelho e com dificuldadesem ser aplicada, porque não está devidamente regulamentada. O que dá azo a episódios caricatos e que denotam como persiste ainda uma mentalidade antiga e que acha que as artes devem ser controladas ou serem cavalgadas por outros interesses mercantis.

Posso contar-vos alguns episódios caricatos.

Seria obrigação, das grandes empresas partilharem os seus lucros no desenvolvimento das artes e de outras actividades como o desporto, até porque pela tal "Lei do mecenato" as contribuições que as empresas fazem, os apoios em dinheiro ou em géneros contabilizáveis, são-lhes descontadas nos impostos. Há muitas formas de mostrar quem deu esse apoio de uma forma mais discreta, por exemplo,  nos programas, nos agradecimentos feitos pelos apresentadores, enfim, existem mil e uma maneira simples para  agradecer. Contudo, acontece, quando vamos assistir a um espectáculo, ou a uma exposição de pintura, cerâmica, escultura e outros eventos artísticos patrocinados, depararmos à entrada do evento com um festival de "banners", ou de bandeiras de grandes empresas, e nesse reclame tão aparatoso muitas vezes o artista que produziu a obra nem aparece num cartaz. Esqueceu-se quem ali é verdadeiramente o sujeito da acção artística, como se o artista fosse a cereja dispensável no bolo e não ao contrário.Esta agressividade, esta arrogância é constante, como se estivessem a fazer um favor quando afinal são os artistas que lhes dão oportunidade para deduzirem dos impostos.

Dois exemplos de arrogância: um patrocinador, sem avisar, quis entrar no teatro no decorrer de um ensaio e o porteiro do teatro disse-lhe que não podia entrar porque os artistas estavam a ensaiar. O porteiro ainda disse, educadamente, que os artistas precisavam de concentração e não podiam ser interrompidos, mas o senhor insistia em que ele era o patrocinador. O nosso guarda, pediu "o papel" que justificasse isso, e ele, patrocinador, disse que não tinha. O guarda, maroto, disse-lhe então, E como o senhor não tem carimbado na testa: Patrocinador, eu não o posso deixar entrar! Esta cena desnecessária, teve depois como efeito um certo atrito que teve de ser desmanchado. Uma inútil perda de tempo derivada da arrogância.

Um outro caso deu-se quando foi do lançamento de um livro que reunia a obra poética de Noémia de Sousa, uma empresa patrocinou e como sempre trouxe os seus banners, aliás com fotografias de uma jovem lindíssima, bem apetitosa como dizem hoje os jovens, promovendo assim deste modo inoportuno o lançamento do livro da percursora da poesia feminina neste país. Não admira que durante a sessão, um convidado da plateia tenha perguntado se aquela menina nos banners era a Noémia de Sousa quando jovem! Vejam o equívoco!

O que os patrocinadores deveriam fazer,  era comprar livros para as várias bibliotecas espalhadas pelo país e comprar espectáculos para os trabalhadores da sua empresa poderem assistir, ou para as suas crianças, ou peças infantis para as escolas com difícil acesso. É o que acontece nos países nórdicos, nos quais o Estado ou as empresas compram à cabeça 400 exemplares de todos os livros saídos para as bibliotecas e escolas do país, ou patrocinam a itinerância de espectáculos para crianças e assim promovem o desenvolvimento e as indústrias culturais. Mas aí acredita-se que a cultura, os livros e o teatro, são formas de transmissão dos valores societários, e não coisas apenas de lazer periférico. E além disso não perdem tempo a gastar dinheiro em armas que aplicam nos bens culturais. Questão de escolhas.

O que é facto é que para que finalmente possa ter lugar uma verdadeira indústria cultural é necessário massificar o gosto pela leitura, pelo teatro, o gosto de ver exposições de pintura, cerâmica, escultura, artesanato, é necessário assistir a filmes e outras actividades, e tudo isto com uma consciência estética que só pode constituir-se se houver vontade política, escolas de arte com uma cultura de debate instalada, uma imprensa especializada e uma distribuição nacional para os bens culturais – condições que infelizmente estão por realizar. De novo, uma questão de escolhas.

Aquilo que, entretanto, nunca se perde, em relação ao teatro é a sua inegável magia. O teatro tem um aspecto mágico e lúdico.

Uma vez na peça adaptada do conto As mãos dos pretos, do escritor moçambicano Luis Bernardo Honowana, havia uma cena em que os actores imitavam os macacos, e desciam em cordas e faziam alguns malabarismos. Quando fomos apresentá-la numa província e num distrito, as pessoas juravam que eles, os actores,  não eram pessoas de verdade. E teimavamem que aquilo que estavam a ver era cinema, de tal forma aquelas actuações dos actores lhes tinham parecidoincríveis, mais próprias dos “efeitos especiais” do cinema do que das possibilidades físicas de actores reais!

E a magia no teatro também é palpável nos seus processos de trabalho. Como encenadores e produtores também nós às vezes ficamos pasmados quando uma série de ideias descosidas que perseguiam uma visãoainda imberbe para o espectáculoganham uma inesperada conexão e tudo de repente se encaixa, quando minutos antes tudo parecia disperso e à beira de desmoronar. É uma coisa maravilhosa e não é raro que um espectáculo seja a soma impossível de muitas parcelas de improvisos falhados, de sismos emocionais e de dúvidas, que no momento exacto adquirem coerência, ritmo e unidade.

Há um desenhador e pintor japonês antigo, o Hokusai, e que tem um desenho que representa um pintor trabalhando. Este pintor maneja cinco pincéis ao mesmo tempo, um na mão esquerda, outro na mão direita, o terceiro entre os dedos de um pé, o quarto fixa-se nos dedos do outro pé, e ao quinto agarra-o com os dentes. Cada um dos pincéis faz um desenho por conta própria como se cada um dos seus membros vivesse num mundo paralelo. O pintor mostra-nos aqui o seu próprio método de trabalho, a sua agitação interna, uma espécie de desorganização voluntária e da qual podem nascer nós, tramas, tensões, encontros imprevistos? Não se sabe, mas o Hokusai foi autor de trinta mil quadros e gravuras e cultivou muitos estilos, tantos, que até assinava com múltiplos nomes. E como ele escrevia também, no fim da vida escreveu, com 89 anos, escreveu um haiku, que é um tipo de poema japonês que só tem três versos, e que dizia assim: “Escrevo e risco, rasuro/ Reescrevo e risco, rasuro/ E eis que desabrocha uma papoila” (que é uma flor). (7)

Este poema assemelha-se ao que acontece muitas vezes nos ensaios de teatro. Levamos dias a ensaiar numa direcção, depois apagamos o que foi escrito, ensaiamos noutra direcção, voltamos a ficar descontentes, e de repente desse chão cruzado de tentativas falhadas brota uma flor, quase sempre a certa, que é uma terceira situação que não tínhamos imaginado à partida mas que não surgiria se não tivéssemos ensaiado primeiro os“erros”.

E isto, que acontece em todas as actividades criativas, tem realmente algo de mágico, de assombroso e de inefável. Mas ao mesmo tempo só resulta como fruto do trabalho, é inútil ficar à espera da suposta inspiração. Esta só surge da intensidade do trabalho, do seu esforço. O que nos obriga a uma grande humildade e a um respeito disciplinador pelo método que afinal acrescenta ao jeito que possamos ter uma técnica que só pela insistência dominamos. O talento sem trabalho definha. E à medida que a qualidade do nosso trabalho aumenta também aumenta o nosso elo com o público e a transmissão da nossa energia funde-se com a do público que nos assiste.

No seu primeiro significado SÍMBOLO era uma espécie de anel que se partia em duas metades, uma parte ficava com o anfitrião que havia recebido alguém em sua casa, e a outra metade ficava com o hóspede, e quando se voltavam a encontrar as duas metades do anel voltavam a ligar-se e o anel ficava uno, selava aquela estima mútua. É uma ligação deste tipo que sentimos com o público, e não podemos defraudar a sua estima.Como se diz no Ubuntu que é, em suma, “uma forma ética de conhecer e de ser em comunidade”, como diz o seu lema,“eu sou porque nós somos”. Ou seja: eu existo para o outro, e só ganho identidade no reconhecimento mútuo. Tem de haver um respeito mútuo, não cego mas activo.

Esta consciência define uma ética, que é a análise do comportamento moral humano enquanto este se manifesta na prática. E oUbunturealça a importância vital do reconhecimento e respeito mútuos, complementado pelo cuidado e partilha recíprocos na construção de relações humanas.

O trabalho de teatro é um trabalho colectivo e ensina-nos, desde cedo, que dependemos uns dos outros e que um espectáculo é tanto melhor quanto, como se diz no futebol, a equipa se mostrar melhor do que a soma dos seus elementos.

Por isso nós, na nossa companhia de teatro, comungamos deste ponto de vista e achamo-lo vitalna formação do indivíduo em qualquer actividade, mesmo não sendo artística. A ética a que o Ubuntu nos conduz valoriza o homem, tornando-o íntegro, porque participativo, humano e justo, no rigor que coloca na sua participação da vida colectiva da sua comunidade. Não esqueçamos queno Ubuntu não coloca o indivíduo no cen­tro da concepção de ser humano: “A pessoa só é humana – explica – por meio de sua pertença a um colectivo humano; a humanidade de uma pessoa é definida por meio de sua humanidade para com os outros” (8).Foi esta a ética que permitiu a Nelson Mandela encetar a “longa marcha da reconciliação” que impediu que houvesse uma guerra civil na África do Sul. A prioridade tornou-se o interesse colectivo, na sua expressão mais ampla. 

Contudo, isto não deve ser lido como uma obediência cega e deve prevenir-se que ao indivíduo não são retiradas a autonomia e a iniciativa.O Ubuntu não contraria as coisas boas que nos chegaram de outras tradições, como a razão crítica, a qual não devemos descurar e que é um dos sentidos porque vocês estão na universidade, para adquirirem os instrumentos de uma razão crítica; o Ubuntu  acrescenta a estas virtudes a dimensão holística da espiritualidade africana e uma maior atenção à comunicação interpessoal.

Daí que oUbuntu“seja uma expressão viva de uma alternativa eco-­política” e também a antítese do materialismo e do cínico sistema capitalista em que nos mergulharam. A nossa maneira de ver mais íntegra está em maior consonância com a Terra, as suas criaturas e as suas formas vivas, e isso diz respeito a toda a humanidade em toda parte, e além disso respeita a uma Tradição que nos dignifica e que sem descurar o novo não deita fora o que nos tornava seres de partilha e de respeito mútuo, com o vivo e o morto e o não-nascido, que é o mesmo que dizer que nós crescemos a meio de um processo e que não devemos romper os elos.

Respeitar o público, dar-lhe o melhor de nós, para que uma corrente comum nos faça crescer conjuntamente é o “ethos” que nos guia no teatro. Nós temos obrigações para com a nossa comunidade social e se melhorarmos como actores sociais isso faz crescer também o nosso público.

Julgamos que esta nossa lição como actores face ao público não está distante das obrigações de um aluno para com os milhares de anos de investigação e de conhecimento acumulados que agora lhe são transmitidos na universidade.

É preciso respeitar o sacrifício, o esforço aturado desses ancestrais, nossos mentores, e não fazer batota com isso, tornando-nos efectivamente melhores, issoé o que nos garantirá o futuro.

É este o nosso apelo.

 

  1.  Históriacontada no livroEntre la Vie et le Rêve/ Entretiens avec Ionesco, de Claude Bonnefoy, Paris, Éditions Pierre Belfond, 1966
  2. Todorov, Tzvetan, O Espírito das Luzes, Barcarolla, 2008
  3. Fo, Dario, Le monde selon Fo/ Conversations avec Giuseppina Manin, Paris, Fayard, 2008
  4. Informação colhida em Jean-Claude Carrière, A linguagem secreta do Cinema, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2006
  5. Brook, Peter, Ponto de Mudança, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1995
  6. in Lopes, Silvina Rodrigues, A Anomalia Poética, Lisboa, Vendaval, 2006
  7. Parágrafos inspirados num artigo de Eugénio Barba sobre o trabalho do encenador
  8. Extraído de IHU/ONLINE, n. 353, de 2010, revista do Instituto HumanitasUnisinos; número dedicado ao Ubuntu

 

Nelson Mandela: “Uma tarde, durante um intervalo da audiência preliminar, levei um amigo de carro de Orlando até à escola médica da Universidade de Witwatersrand e passei pelo Hospital Baragwanarth, o principal hospital negro de Joanesburgo. Ao passar por uma paragem de autocarro ali perto, reparei, pelo canto do olho, numa jovem lindíssima que estava à espera do autocarro. Fiquei impressionado pela sua beleza e voltei a cabeça para a ver melhor, mas o meu carro tinha andado demasiado depressa. A imagem do rosto desta mulher permaneceu comigo – até cheguei a pensar em dar a volta para passar outra vez por ela na direcção contrária, mas continuei.”

Nomzamo Winnifred Madikizela, o nome da jovem descrita neste impressivo relato de Nelson Mandela, no seu belo e pungente Longo Caminho para a Liberdade, era conhecida como Winnie. Acabara os estudos na Escola de Assistentes Sociais Jan Hofmer, em Joanesburgo, e era a primeira assistente social negra licenciada a trabalhar no Hospital Baragwanath.

Nelson Mandela é, então, um advogado estabelecido, tem escritório com Oliver Tambo e está comprometido com a luta contra o apartheid. Está casado com Evelyn Notoko Mase, com quem tem três filhos. A morte precoce da filha Makaziwe e os problemas causados pela acção política do marido transtornam, irremediavelmente, Evelyn. Ela junta-se às testemunhas de Jeová.

Algumas semanas mais tarde, Nelson ao procurar pelo seu sócio, no escritório, defronta-se, de novo, com aquele deslumbramento: a jovem da paragem de autocarros, ali está sentada diante da secretária de Oliver, na companhia de um irmão. Ficou, naturalmente, espantado. Contudo, disfarçou a surpresa. Oliver apresenta-lhe a bela Nomzamo e explica-lhe que ali estavam em busca de assistência jurídica.

O pai, Columbus K. Madikizela, que fora director de uma escola, era um homem de negócios. Tem onze filhos. Nomzamo é a sexta. O seu nome tem um significado como muitos dos nomes africanos. No caso, significa alguém que se esforça – que luta, se quisermos – ou passa por provações. Nascera em Bizana, Pondoland, no Cabo Oriental, a 26 de Setembro de 1936. É uma zona adjacente ao Transkei, onde Mandela também foi criado. Como o futuro marido, tinha um nome profético. Rolihlahla, o nome de Nelson, significaria “o que causa problemas”.

Nelson, apaixonado perdidamente pela jovem Nomzamo, cogitará subterfúgios para se encontrar com ela. Telefona-lhe para o hospital, no dia seguinte, e pede-lhe ajuda para fazer uma recolha de donativos na Escola Jan Hofmer para o Fundo de Defesa do Julgamento por Traição, a cujas audiências iniciais está submetido. Era um pretexto mais do que perfeito para convidá-la para almoçar. Foi buscá-la e levou-a a um restaurante indiano, dos poucos que admitiam negros, e onde ele almoçava frequentemente, perto do seu escritório.

Nelson Mandela: “A Winnie era estonteante, e até mesmo o facto de nunca ter comido caril e beber copos de água uns atrás de outros para acalmar o seu palato lhe acrescentava o encanto”.

A seguir ao almoço, levou-a a passear pelos arredores de Joanesburgo, num planalto aberto, com vegetação que lhe lembrava o Transkei, onde ambos tinham crescido. Falou-lhe do Julgamento por Traição, das suas esperanças e receios e não escondeu, naquele primeiro encontro, a certeza que tivera desde que a vira na paragem: queria casar com ela: “O seu espírito, a sua paixão, a sua juventude, a sua coragem, a sua força de vontade – senti todas estas coisas no momento em que a vi pela primeira vez”, escreverá ele na autobiografia.

Nos tempos ulteriores a esse encontro, ver-se-ão sempre que possível. Nomzamo conhecerá os filhos de Nelson: Thembi, Makgatho e Makaziwe (filha com o mesmo nome da que falecera). Ia vê-lo ao escritório. Ia vê-lo a treinar no ginásio. Também comparecia nos encontros e discussões políticas. Ele aproveita para a politizar nos cortejos que lhe faz. Quando estudava, a jovem andara próxima do Movimento de Unidade Não-Europeu, em cujo partido militava um dos seus irmãos.

A firma de Oliver Tambo e Nelson Mandela, entretanto, definhava. O Julgamento por Traição durava há dois anos e isso tirava-lhes tempo para se dedicarem aos clientes e à firma. Se antes haviam recusado clientes, agora mendigavam por eles.

Nelson, que se separara de Evelyn, entretanto, por absoluta incompatibilidade – ela era devota dos Testemunhas de Jeová, para além de não concordar com a sua luta -, explica à Winnie que está inadimplente e ela aceita assumir os encargos da futura família, com o seu parco salário de assistente social. “A Winnie compreendeu e disse que estava preparada para correr o risco e partilhar a sorte comigo. Nunca lhe prometi oiro nem diamantes, e nunca lhos pude dar.” Casam-se a 14 de Junho de 1958. Mandela está à beira dos 40 anos. Winnie tem 21, e em três meses terá 22 anos.

A despeito, o noivo providenciara o vestido e a indumentária das damas de honor, e conseguira cumprir o compromisso indeclinável do lobolo, pago ao pai da noiva. Consegue, outrossim, que a interdição lhe fosse abrandada e que ainda lhe fosse permitido ausentar-se de Joanesburgo por seis dias para Bizana. Muitos dos companheiros do ANC, abrangidos pela interdição, não conseguem deslocar-se ao local do casamento. São recebidos com euforia, sob o olhar vigilante dos guardas do regime. O carro dos noivos seria coberto com as cores do ANC. Não faltarão os coros das mulheres da aldeia, a sua vibrante e ululante alegria, a envolver os noivos, e as danças tradicionais. A avó de Winnie dançará em honra dos noivos. No centro cívico de Bizana acontece a recepção. Fazem-se discursos de ocasião. Como é usual.

Nelson Mandela: “O discurso de que me lembro melhor foi o do pai da Winnie. Reparou, como todos aliás, que entre os presentes não convidados para o casamento se encontravam vários polícias de segurança. Falou do seu amor pela filha, da minha dedicação ao país e da minha carreira perigosa de político. Quando a Winnie lhe comunicara pela primeira vez que ia casar, ele exclamou: “Mas tu vais casar com um engaiolado!” Na cerimónia, disse que não estava optimista quanto ao nosso futuro, e que um casamento destes, em tempos tão difíceis, seria implacavelmente posto à prova. Disse à Winnie que casava com um homem que já estava casado com a luta. Desejou boa sorte à sua filha, e acabou o seu discurso dizendo:

– Se o teu homem é um feiticeiro, tens de te tornar bruxa!

Era uma forma de dizer que tinha de seguir o seu homem no caminho que ele tomasse.”

Columbus K. Madikizela lançara a profecia. O resto da história prescreve o anátema que iria marcar a vida daquela jovem: duas filhas, uma vida conjugal improvável, 27 anos de prisão do marido, uma longa e duríssima vida de provação, a sua luta intrépida, as prisões e banimentos, o isolamento, o sofrimento, a confrontação com a polícia e a repressão, o facto de ter erguido, sempre, com punho levantado e firme, o nome de Mandela. A coragem. A sua longa biografia não está, porém, isenta de contradição. A controvérsia, o necklacing (os pneus em chamas no pescoço de supostos traidores), os raptos, o assassinato de Stompie Moeketsie, de 14 anos, e o declínio inexorável do casamento.

A bela e intrépida mulher, que se tornara um ícone, estava agora a viver no anverso da História. Recordo-me de ver, antes desse período sombrio e outonal da sua vida, as suas fotografias e das filhas, sobretudo Zindzi, e de me deslumbrar com a sua lendária beleza. Isto nos anos 70. Peter Magubane, que a fotografou nesses longos anos de luta, releva-lhe essa singular beleza, para além da sua entrega à luta. Os heróis também se contradizem. Por isso, é preciso esperar para os glorificar. A vida de Nomzamo, entre os finais da década de 80 e a década de 90, está cheia de contradições e contrariedades. Algumas, obviamente, insanáveis. Desmond Tutu, grande figura moral, foi certeiro: “Houve qualquer coisa que correu terrivelmente mal”.

A 13 de Abril de 1992, Nelson Mandela anunciou que se separava da sua mulher e companheira de luta, a Camarada Nomzamo, como lhe chamará. Não chegaria a ser primeira-dama como se alude, por aí, enganosa e insistentemente. Foi dos momentos mais dramáticos da longa vida de Mandela. Transcrevo, a seguir, trechos dessa declaração de um homem dilacerado:

“Durante as duas décadas que passei em Robben Island, ela foi para mim um pilar de apoio e amparo indispensável… A Camarada Nomzamo aceitou o oneroso fardo de criar as nossas filhas sozinha… Suportou as múltiplas perseguições lançadas sobre ela pelo governo com fortaleza exemplar, e nunca vacilou na sua dedicação à luta pela liberdade. A sua tenacidade reforçou o meu respeito pessoal, o meu amor e o meu afecto crescente. Também atraiu admiração em geral. O meu amor por ela permanece igual.”

“A minha acção não foi motivada pelas alegações que andam a ser feitas contra ela nos meios de comunicação… A Camarada Nomzamo tem o meu apoio incondicional, e pode continuar a contar com ele, durante estes momentos difíceis da sua vida.”

“Pessoalmente, nunca lamentarei a vida que a Camarada Nomzamo e eu tentámos partilhar. Circunstâncias que nos ultrapassam, porém, ditaram-nos um outro rumo. Separo-me da minha mulher sem recriminações. Abraço-a com todo o amor e a afeição que nutri por ela dentro e fora da prisão, desde o primeiro dia em que a vi. Senhoras e senhores, espero que compreendam o sofrimento por que passei.”

“Talvez estivesse cego a certas coisas devido à dor que sentia por não ter podido desempenhar a minha função de marido para a minha mulher e de pai para os meus filhos. Mas, assim como estou convencido de que a vida da minha mulher enquanto estive na prisão foi mais difícil do que a minha, também o meu regresso foi mais custoso para ela do que para mim.”

Na cerimónia de casamento da filha Zindzi, afirmou que o destino dos lutadores pela liberdade era terem vidas pessoais instáveis: “Quando a vida de uma pessoa é a luta, como a minha foi, sobra pouco espaço para a família. Essa foi a minha maior pena, e o aspecto mais doloroso da escolha que fiz.” (Mandela dixit.)

Os filhos tinham sido claros: “Pensámos que tínhamos um pai, e que um dia voltava. Mas, para nosso desânimo, o nosso pai voltou e deixou-nos sozinhos, porque se tornou o pai da nação.”

Nelson Mandela: “Ser pai de uma nação é uma grande honra, mas ser pai de uma família é uma alegria maior. Porém, foi uma alegria de que desfrutei muito pouco”.

Agora, enquanto termino, ouço “Until When”, de Hugh Masekela (ouvi, antes, “Bring Him Home”: “Bring back Nelson Mandela/ Bring him back all to Soweto. / I want to see him walking down the street/ with Winnie Mandela” -, ouvi todo este disco Hope). Pungente. Como comovente são aquelas palavras, imprescritíveis, de Nelson Mandela, que rememoro no dia do adeus à Camarada Nomzamo. Hoje, fala-se dela com benevolência, chamam-na Mama Winnie, a mãe da África do Sul. Parece-me justo. Ela foi uma bela lutadora pela liberdade. A luta de Mandela foi a vida sacrificada que teve e a luta dela. O seu pai, Columbus. K. Madikizela, proferira, naquele longínquo ano de 1958, sábias e proféticas palavras. Nelson Mandela foi, sem dúvida, o feiticeiro da nação Arco-íris que ele, miraculosamente, fundaria; Winnie, a sua bela filha Nomzamo, acabaria por ser, fatalmente, a bruxa.  

 

 

 

 

 

 

 

Uns vencem pelos seus crimes, outros fracassam pelas suas virtudes

William Shakespeare

 

Os crimes montanhosos é o título mais recente da editora Cavalo do Mar. Esta colecção de poemas é dividida em duas situações, designadamente: “o branco colarinho dos corvos”, escrita por António Cabrita, e “a gravata preta do corvo albino”, com autoria de Mbate Pedro. Porque cada uma destas partes é uma obra em si, dentro de um livro, hoje resolvemos dar atenção aos versos do poeta português, que os do moçambicano merecerão a nossa reflexão em uma semana.  

“o branco colarinho dos corvos” é uma proposta poética bem notável, na qual predomina textos abundantes, com a susceptibilidade de colorirem a imaginação do leitor. Em geral, a escrita de António Cabrita, neste Os crimes montanhosos, é preenchida por uma impressão narrativa, no entanto, sem ser o que a prosa poética nos habituou em termos de mancha gráfica ou do ritmo de enunciação. Aqui, o verso, predominantemente curto, desliza por quatro, seis, oito estrofes, e revela a percepção de que o poeta, de facto, tem muito por exprimir, mesmo sem um egocentrismo exacerbado a acabar-se no eu poético. A partir da impressão narrativa, Cabrita sabe dar-nos a dimensão do “ele”, vertendo a preferência de os seus sujeitos de enunciação falarem de si também por via de outras entidades aludidas nos textos (uma dessas entidades é Deus, que O encontramos no poema inaugural, “Incipit”, e em tantos outros como “Recordação de uma miúda da Mafalala nunca mais entrevista”, “Bazar dos ofícios”, “A via herética” e “As más companhias”). Por exemplo, no texto “Os poemas do meu pai”, há uma passagem que, se calhar, justifica essa tendência do “eu e ele” coabitarem pacificamente: “A minha veia é da dele/ simétrica mas pelo positivo” (p. 33). Duas páginas depois, há um trecho ainda melhor: “Gosto é de espreitar à socapa no espelho/ a ver se alguém que não eu, em gestos/ e expressões que me não pertencem, me perscruta” (p. 35).

Quer numa quer noutra passagem acima, prevalece essa decisão, digamos, de realçar que a existência do sujeito é garantida pela de mais alguém, que pode ser um pai, Pessoa, Krishna, Fellini ou uma jovem bailarina.

À parte esse traço contínuo, em “o branco colarinho dos corvos” os versos parecem traduzir o produto da constatação do poeta, misturado com as suas convicções e não o que necessariamente sente, embora o sentimento não esteja desvinculado disso. Tal evento coloca-nos num contacto com o poeta por via do que a poesia sugere, ou seja, ao contrário do que acontece com muita poesia lírica, em Cabrita não vamos buscar directamente do sujeito de enunciação o que nos mantem cativo no texto, mas nessa alusão falsamente desligada de quem a exprime. O poeta não se importa em anular o protagonismo do sujeito de enunciação, pois interessa-lhe mais tornar a subtileza da subjectividade algo verosímil, muito perto de nós. “o branco colarinho dos corvos” é também uma forte aposta em projecções quase tangíveis, como estas: “Um cão à volta da cauda. Outro. /Um terceiro à volta da cauda do primeiro” (p. 19).

É possível ver esses cães, reconhecê-los até, na mesma proporção que nos reencontramos com uma cidade, lembrada com um desabafo: “é isto, até me dá vontade de urinar. /É uma coisa de miúdo./ Mas em Maputo farta o cheiro a urina” (p. 36).

Exprimidos os versos nesse estilo aparentemente narrativo (como calha bem na poesia de José Craveirinha, de Rui Knopfli e Luís Carlos Patraquim), com nomes de seres animados, acções e lugares, a cumprirem uma função simbólica e não aquela da narração, que garante a narratividade propriamente dita, como efeito, o centro do universo deixa de ser os sujeitos de enunciação, evitando-se que a poesia aqui seja pensada a partir de quem a revela, mas pela referencialidade dessa expressão. Muitas vezes, Cabrita anula os holofotes ao eu poético para, em troca, oferecer-nos uma atmosfera que nos merece.

 

Hoje escuto “bazobuya”, dos Soul Brother’s, repetidas vezes porque nenhuma pilha gasto e nenhuma fita vou rebentar. A cassete dos Soul Brother’s tinha um espaço muito especial no estojo do meu pai. Debaixo da fotografia do grupo, na capa, vinha bem bordada a assinatura, em caneta de filtro, do meu pai e seis números divididos por duas barras anunciavam a data da compra.

A cassete era aberta com um password  de delicadeza e cuidado que só cabia nas mãos do meu pai. O velho tirava a cassete da caixa como quem tira a vida da caixa do tempo para vivê-la. Depois de tirar a cassete, elevava-a um pouco acima da cabeça e vigiava o seu interior; certificava-se, sempre, se havia entre os dois rolos de fita algum insecto ou poeira. Ali no meio da sala grande os Soul Brother’s soavam sem parar. E o velho, que ainda era jovem, costurava o passo que nunca saía pedalando o pé e acompanhava o grupo musical com seu saxofone feito de pequenos sopros de assobios.

Enquanto o “bazobuya” ressoava a sua esperança distante, o meu pai era como se lesse as barbaridades do apartheid no seu copo de vinho. De gole em gole o velho reconstruia sobre a minha total atenção os espectáculos dos Soul Brother’s, as origens de cada membro e as loucuras que alguns seguidores do grupo faziam na África do Sul. A narração do velho ganhava força em cada garrafa de vinho, vazia, que saía pela janela.

Escutar os Soul Brother’s ao lado do meu pai, era viajar no tempo que fazia esse grupo; era ter de lado uma máquina humana que traduzia cada palavra, cada suspiro, cada timbre e cada mágoa que preenchia o bater da nota. Meu pai, de quando em quando, pisava no grande botão azul escrito “Pause” e tecia uma explicação detalhada. Quando o homem, extraordinário, do piano punha-se a manusear a esperança que o seu grupo cantava, meu pai seguindo a sua velocidade, recitava a sua biografia e todas as suas técnicas em espectáculos…
“Bazobuya” é a canção que me resta de tudo isso. Sempre que quero economizar as memórias sobre o meu pai, coloco essa canção. E o que mais impressiona nessa canção é que oiço, dentro dela, o assobio do meu pai vibrando nas mãos dos seus lábios grossos e pintados de vinho. Essa canção é um ode ao regresso. Um pulsar vivo de quem espera e aguarda o regresso. E dói-me a alma ouvir essa canção sabendo que quem ensinou-me a vivê-la já não está aqui para juntos esperarmos o regresso dos outros; oiço essa canção e espero o regresso de duas pessoas: eu e o meu pai à sala grande de casa.

É doloroso como os insectos do tempo roem-nos as coisas mais queridas que temos. Quando ouvia “bazobuya”, com o meu pai, o tempo era apenas aquele espaço fixo e bem limitado: meu pai e música. Naquela altura aprendi a sonhar os sonhos do meu pai. Meu pai tinha o sonho de fazer uma fotografia com os Soul Brother’s e pela distância inexistente entre nós absorvi esse sonho. Também queria tirar uma fotografia com o grupo. E eu no meio para equilibrar a minha altura e deixar o flash da máquina brilhar em meu sorriso vedado por uma dentadura branca e incompleta nos cantos.

Tudo, hoje, pesa-me a memória. Os Soul Brother’s seguiram o mesmo caminho que o meu pai seguiu: foram à nascente do tempo. Cá estou sozinho, neste RELÓGIO DI ORO, órfão de tudo. Na sala grande de casa já não há concertos dos Soul Brother’s. O silêncio é o único piano amargo que se esconde nos cantos da casa. O escuro inunda a sala e tudo cheira a luto. Na parede a fotografia do meu pai é como se observasse, sem parar, a cassete dos Soul Brother’s cheia de poeira na estante…

 

Fevereiro de 1974. Fim de tarde. Abel Faife, um dos poucos jornalistas negros, que se conseguiu “infiltrar” em razão das suas capacidades na Redacção do Notícias, entre profissionais com a “cor adequada de então”, acompanhado de um amigo, sentaram-se no Restaurante Abadia em Lourenço Marques (situado por detrás da Casa da Sorte) e pediram dois copos de cerveja. Mas porque os serventes, todos negros, tinham orientações para seleccionar os clientes a partir da cor nunca mais os atendiam, foram reclamar junto do proprietário.
Condescendentemente, o visado indicou um espaço escondido, junto à cozinha, onde poderiam ser atendidos. Isto porque ele não queria que a presença de negros na esplanada “afugentasse” a clientela.

RECRUTADORES DA FRELIMO

Faife, lutador e contestatário contra uma discriminação que apesar de absurda era ainda uma prática corrente, decidiu usar a única arma de que dispunha: a escrita. Dirigiu-se à redacção e passou o episódio para o papel.
Foi então que Guilherme de Melo, então Director adjunto do jornal, que aos domingos ocupava um espaço de alto a baixo, na 1.a página, muito lido e respeitado, designado “Folhas Dispersas” decidiu pegar no assunto. Com a sua pena incisiva e cheia de originalidade, catalogou os donos do Restaurante Abadia de “recrutadores da Frelimo”.
O assunto chegou ao Governador-Geral, que de imediato mandou fechar o Abadia. Seguiram-se outros procedimentos como multa e publicitação do caso, como exemplo.

FEITIÇO CONTRA O FEITICEIRO

Posto isto, o Governador-Geral mandou um emissário transmitir ao Abel Faife as medidas tomadas e, simultaneamente, procurar saber o que é que ele gostaria de obter, para se ressarcir do episódio de que fora vítima.
Muito embora o então jornalista do Notícias se tivesse manifestado feliz com o desfecho, a verdade é que Sua Excelência queria “ganhar” para o seu lado, um dos mais criativos e prestigiados “escribas” dessa altura em Moçambique. Daí que…
Sem margem de escolha, ao jornalista foi dado um prémio: passar a pertencer à ANP (Acção Nacional Popular), o Parlamento de então, que a todo o custo o regime tentava encontrar formas de “colorir”, com negros e mulatos dóceis. Repórter com vocação para assuntos da cidade, amigo de toda a gente, o Abel viu-se envolvido em política, que não era o seu forte.
Veio a Independência Nacional. Com poucos meses de “Parlamento”, sem nunca ter usado da palavra, passou a constar da lista dos comprometidos. O que dizer e o que fazer?
No meio de Comandos, PIDES e outros que tais, o Abel Faife teve que dar explicações sobre o seu envolvimento na ANP, enfrentando o duro olhar do então Presidente Samora Machel.
Falecido a cerca de três décadas, Abel Faife (cujo filho, Hélder, herdou a veia jornalística) merece ser visto como uma referência, pois a sua imaginação e capacidade, num tempo em que a um não branco as exigências eram redobradas, tem uma história de vida que merece ser (re)conhecida pelas novas gerações de jornalistas moçambicanos.

 

 

 

Albino Magaia tem 40 anos e é um reputadíssimo jornalista e escritor moçambicano. É prócere director da prestigiada e prestigiosa revista TEMPO. O semanário, proveniente dos anos 70, aquando da primavera marcelista, pela mão de excelentes profissionais, é para mim, ainda ou sobretudo, o retábulo do sonho. Já lá não oficiam muitos dos seus míticos nomes, mas o nome retém a proeminência. Remanesce, na editoria de fotografia, o Kok Nam. O director talvez seja o jornalista mais conceituado do seu quadro redactorial. Conhece-se-lhe um percurso ligado ao nacionalismo. Pertencera ao NESAM – Núcleo de Estudantes Secundários Africanos de Moçambique -, fora prisioneiro político. Dessa dura experiência nascera, aliás, Yô Mabalane, livro de ficção narrativa publicado na emblemática década de 80. Antes, em 1982, publicara na colecção Autores Moçambicanos, do INLD (Instituto Nacional do Livro e do Disco), Assim no Tempo Derrubado. Desse livro de poesia avulta o poema “Descolonizámos o Land-Rover”.

Albino Magaia: “Já não é carro cobrador de impostos/ Nós descolonizámo-lo. /Já não é terror quando entra na povoação/ Já não é Land-Rover do induna e do sipaio. / É velho e conhece todas as picadas que pisa. / É experiente este carro britânico/ Seguro aliado do chicote explorador. Mas nós descolonizámo-lo/ No matope e no areal/ Sua tracção às quatro rodas/ Garante chegada às machambas mais distantes/ Às cooperativas dos camponeses. / Entra na aldeia e no centro piloto/ Ruge militante nas mãos seguras do condutor/ Obedece fiel a todas as manobras/ Mesmo incompleto por falta de peças. / – Descolonizámos o Land-Rover/ Com nossos produtos/ Comprámos combustível que consome/ Com nossa inteligência/ Consertámos avarias que surgem/ Com nossa luta/ Transformámos em amigo este inimigo. / Nós, descolonizadores/ Libertámos o Land-Rover”.

Releio este poema, a esta distância, e não deixo de pensar na profissão de fé nele impregnado. Éramos então outro país, tínhamos outra energia e outros sonhos, comungávamos outros valores. Havia valores que eram partilhados. Penso na bonomia do futuro que o Albino Magaia inscrevia ao efundir este entusiástico texto. Isto parece ter sido noutra vida. Hoje vivemos nos antípodas. Muitos jovens com a idade deste poema devem ficar irresolutos perante a sua linguagem e as metáforas persentidas. Poema de uma certa época, poema de um tempo histórico, metáfora de um país que se libertara e que o fizera na transfiguração de um instrumento de colonização tornando-o libertador. Poesia de um contexto e com conteúdo que se funda nele. O Land Rover aqui é a metonímia dessa transfiguração.

Outros poemas de que eu gostava particularmente do Albino Magaia: “Eduardo Mondlane” e “No Sul nada de novo”. A um dos filhos, deu o nome de Eduardo. Parece óbvia a devoção. O outro poema é dedicado a Nelson Mandela: “Lá para o Sul/ Mandela/ continua a sonhar com uma estrela/ Violas electrónicas do Soweto/ vomitam notas de sangue/ sobre os céus de Johannesburg/ enquanto Miriam Makeba/ curte o exílio na Guiné/ Há jovens que morrem/ suicidando-se em Smandje-Mandje/ num contraste de preto e branco/ com a sumptuosidade multinacional/ nos lupanares do Transkey”.

Posto isto, será despiciendo falar da magnificência da figura que me receberá – eu com pouco mais do que 20 anos – naquele ínclito semanário. Quero ser repórter. Sonho em ser grande repórter. Trago no bornal a reportagem, o género dos géneros;  a entrevista, a grande entrevista; a crónica. Sou leitor do repórter Gabriel García Márquez; tornar-me-ei indefectível da Oriana Fallacci, a jornalista italiana de Entrevista com a História; pratico a chamada crónica literária, tenho uma coluna semanal no “Notícias”. Cultuo os mestres brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Mas entrei ali como quem atalha um templo. Eu terminara o curso médio de jornalismo e pediria para ser colocado na TEMPO. Albino Magaia é extremamente afável. Depois de me falar da revista e dos seus valores, indica-me o trabalho que me espera: ler as cartas dos leitores, que não são publicadas, e a partir dali redigir um texto (uma espécie de reportagem) sobre aquilo que versavam aquelas epístolas que, de outro modo, permaneceriam no anonimato.

– Vais aprender a conhecer o país – avisa-me.

Foi, vejo-o a esta distância, uma poderosa lição de vida. Foi um banho de humildade. Ele ensinou-me muita coisa com aquele gesto. Que o percurso se faz de baixo. Refreou os meus exacerbados ânimos. Todos os dias, durante meses, li, anotei, pensei e vivi as angústias, sobretudo as angústias, relatadas pelos leitores, naquelas cartas, muitas delas ilegíveis. No final, produzi o texto que haveria de ser publicado. Isto aconteceu há 30 anos. Entre finais de 1987 e princípios de 1988.

Mantinha, a despeito, a minha colaboração literária na revista. Desde 1985, pela mão do Luís Carlos Patraquim, eu escrevia na “Gazeta de Artes e Letras”. Começara por publicar versos, fazia à época algumas recensões críticas, iniciara o repto das entrevistas e intentava algum ensaio, canhestro, certamente. Quando o Gilberto Matusse assumiu, diligentemente, a coordenação da “Gazeta”, manteve a minha colaboração. Foi uma época empolgante para mim. Publicavam-se livros – os primeiros livros da minha geração – e nós noticiávamos isso e o discutíamos ali. O Gilberto vinha com uma licenciatura da Europa e acrescentava referências inéditas.

Não muitos meses depois, Albino Magaia chamou-me para o seu gabinete e designou-me editor da “Gazeta”, o suplemento literário e cultural da revista TEMPO. Eu que chegara ali para ser repórter, era agora editor. Rui Knopfli, muitos anos antes, Luís Carlos Patraquim (com Gulamo Khan e Calane da Silva), num tempo ulterior, Gilberto Matusse, eram nomes que eu tinha que honrar. Não sendo um prestidigitador, arregacei as mangas e fiz o que sabia. Foram dois anos frenéticos. Para além da “Gazeta” eu estava na redacção. O chefe da redacção era o Luís David. Ele personificava os velhos chefes de redacção, irascíveis, coléricos, que rasgavam ou devolviam textos, que vituperavam a mediocridade. Um dia, passados muitos anos, disse-lhe do muito que estava grato.

Aprendi muito naquela época. Aprendi tudo naquela revista. Em finais de 90, eu estava exausto e queria mudar de vida. O Albino Magaia, no entanto, deixara de ser director da revista. Um tempo menos iridescente adivinhava-se no parco horizonte. No entanto, ele era também o secretário-geral da AEMO. Para além da TEMPO, convivíamos na AEMO. O Albino era um conversador apaixonado. Animava-lhe o passado. Escolhe para a revista que iria editar na AEMO um título evocativo do precursor Rui de Noronha: Quenguêlêquezê – Lua Nova. Um homem culto, tinha um riso contagiante e apostava na juventude. Os seus saberes não se circunscreviam à literatura. Mas já lá vamos.

Albino Magaia incumbiria ao Castigo Zita uma ciclópica tarefa: compilar os textos de João Abasini. Albasini fundou e dirigiu importantes jornais como O Africano e O Brado Africano. Dedicado e paciente, o Castigo recolheu textos, copiou-os dos jornais O Africano, O Brado Africano, tanto nas colecções em papel do Arquivo Histórico como nos micro-filmes que encontrara no Centro Cultural Português em Maputo. Este trabalho árduo e minucioso iria emperrar na fase da composição do livro projectado – na época a composição de textos era feita a chumbo na Tempográfica – e não chegou a ser editado na colecção “Cadernos Tempo”, como Magaia pretendia. Quando a morte surpreendeu o jovem Castigo, em 1988, aos 27 anos, ele preparava-se para fazer o mesmo trabalho em relação a outra grande figura do nosso jornalismo – Estácio Dias, pai do escritor João Dias, autor de Godido e outros contos.

Um outro jovem contista talentosíssimo, Isaac Zita, que também morreu prematuramente, aos 22 anos, a 17 de Julho de 1983 (nascera a 2 de Fevereiro de 1961), teve o amparo e o inequívoco apoio do Albino Magaia. O prefácio que Magaia redigiria para o livro póstumo do Isaac Zita, Os Molwenes, é um dos raros documentos sobre a vida efémera e fulgurante daquele jovem professor que lhe aparecera com uns textos que tanto o entusiasmaram e que publicou na revista TEMPO. Fernando Couto também se entusiasmou com o talento de Zita e publicou-o no jornal Notícias. O Albino era um homem bom, generoso. Um excelente conversador. Um sábio. Tinha uma ampla e sofisticada cultura. Um homem probo, um grande jornalista. Não se furtava a uma polémica ou a discutir ideias. Era, no entanto, de uma grande humildade. Abominava a injustiça. Foi das pessoas que mais me marcou. O seu exemplo, a sua correcção, a sua postura. A falta de soberba.

Conto um episódio que releva a sua personalidade. Em Março de 89, em pleno DC-10, íamos a caminho de Lisboa para um congresso de escritores. Iam na delegação, entre outros, o José Craveirinha, o Sérgio Vieira, o Ungulani Ba Ka Khosa, o Eduardo White, a Fátima Mendonça. O Rui Nogar estava em Lisboa, como o Luís Carlos Patraquim. Foi quando reencontrámos e celebrámos Noémia de Sousa, Rui Knopfli, Eugénio Lisboa, Glória de Sant´Anna. O Albino indagou-me sobre o título que eu dera à peça que anunciava a reunião e a nossa viagem: “Congresso de Lisboa”.

– Congresso de Lisboa? – interrogou-me ele, meu director.

Sim, eu argumentei. Disse-lhe que ele estranhava, provavelmente, por se tratar de Lisboa, se fosse uma outra capital, talvez não se tivesse revelado a mesma perplexidade. Disse-lhe mais: que ele se abstivesse de pensar Lisboa com aquela carga “afectiva” e política que Portugal representava, chegaria à conclusão do acerto do título. Ele olhou para mim e sorriu. Deu-me uma palmada nas costas e reconheceu:

– Tens razão. – disse-me e soltou a sua bela gargalhada.

Voltei daquela viagem carregado de entrevistas e de reportagens com escritores. Escrevi abundantemente sobre alguns deles então proscritos, por assim dizer. Albino Magaia em nenhum momento censurou fosse o que fosse, deu-me toda a liberdade. Falar, como fiz, de um Rui Knopfli, naquele contexto, provocava urticária a alguns. Não faltariam diatribes pelo facto de ele ser adido na embaixada portuguesa e eu, entre outros, o reivindicarmos como poeta moçambicano. Magaia actuou sempre com lisura. A Fátima Mendonça, devo sublinhar, também me haveria de defender. Vivíamos uma época de exacerbados sentimentos patrióticos. Era tempo de todas as exabundâncias e o Albino Magaia sabia, isso custara-lhe a saúde precária que tinha, pagara o preço dos exageros dos prosélitos por estar do lado da justiça. Essa homenagem ele merece-a e temos de, um dia, ter a coragem de a fazer.

Outro episódio aconteceria nos finais dos anos 90. Eu saíra da TEMPO, fora estudar jornalismo em Lisboa, retornara à Pátria. Tendo abandonado o jornalismo activo, fazia comentário, sobretudo político, na Rádio e na Televisão. Vivíamos uma primavera democrática à época e ser crítico não era prática catalogada de nenhum delito. Albino Magaia, Carlos Cardoso, Inácio Chire, Tomás Viera Mário, Salomão Moyana, eram alguns dos meus companheiros nessa demanda. Um dia fui escalado para fazer comentário de uma sessão parlamentar na companhia do Albino Magaia e estivemos intermináveis horas na Assembleia da República em directo. Foi uma experiência estafante e exultante. Quando a terminámos, o Albino Magaia levantou-se para me cumprimentar e proclamou:

– Mestre!

Confesso: fiquei aturdido, estarrecido. Em dez anos eu ganhara o seu reconhecimento, a sua alta estima e a sua consideração. Ouvir aquilo do meu verdadeiro Mestre foi muito estranho. Esperava dele indulgência e não aquele reconhecimento. A sua humildade revelou também, ou sobretudo, grandeza. Devo o pouco que sou ao muito que ele era, que ele foi, que ele será sempre. O Albino Magaia foi um verdadeiro Mestre e gostava de ensinar e aprender. Recordo-me de que tínhamos aos sábados – a revista saía às sextas – reuniões de redacção para discutir as matérias que informavam a edição pretérita, bem como avançar com ideias e propostas para posteriores edições. Às vezes, vinham convidados. Esse magistério do Albino Magaia foi decisivo para mim. Naquele momento, naquela emoção – eu diria comoção até! -, naquele abraço envolvente, recordei-me desse Mestre inolvidável, que ali me saudava e eu estava compungido com aquela sua bondade impagável.

Albino Magaia publicaria Trilogia do Amor (poesia, em 1999), tinha publicado Malungate em 1987, um texto de ficção, e na época dera à estampa Informação em Moçambique – A Força da Palavra (1994). Ele era, indubitavelmente, um dos luminosos nomes do nosso jornalismo. Não viu o seu porfiado Moçambique: raízes, identidade, unidade nacional publicado. Numa belíssima entrevista do João de Sousa para o programa “O Fio da Memória”, que está na origem de um livro homónimo, Albino Magaia revela a intenção de biografar o músico Eusébio João Tamele. Não sei se chegou a trabalhar nesse projecto. Quisera cartografar, antes, a vida de um outro vulto – o escultor Chissano -, mas este morreu antes de ele concretizar o objectivo. Nessa entrevista soberba, Albino Magaia fala com competência e surpreendente conhecimento da música moçambicana. Ele cultiva o gosto pela música moçambicana, pelo jazz, pela música clássica. É um homem eclético. O melómano Albino Magaia escrevia enquanto ouvia Georg Friedrich Handel. Um dia ele fechar-se-á, em casa, num sábado, a ouvir Haendel durante 5 horas, o que dura a celebérrima obra O Messias do famoso compositor germano-britânico.

Por algum capricho da memória, lembrei-me hoje do meu saudoso Mestre Albino Magaia e quis fazer-lhe esta humílima evocação. Acontece que redijo este texto numa segunda-feira, dia 26 de Março, quando passam justamente 8 anos sobre o seu desaparecimento. Albino Fragoso Francisco Magaia nascera a 27 de Fevereiro de 1947, na então Lourenço Marques, faleceria a 26 de Março de 2010. Muitas referências na Internet ditam um erro para a posteridade e falam do seu óbito a 27. É preciso exercer vigilância sobre esses avatares da pós-modernidade.

Na sua Trilogia do Amor há um belo e inacabado (acautela-nos o autor) poema, intitulado “M´Pezi”, no qual Albino Magaia escreve na primeira estrofe: “…e depois quando eu partir/ as ervas dos caminhos e carreiros/ continuarão tecendo confidências aos búzios/ às pedras e grão de areia/ cúmplices e amigas sempre/ de cada grama-força de vento”. O longo poema termina com quatro espantosos, pungentes e ulcerados versos: “Quando eu partir/ quem me dera levar comigo/ o teu corpo de capulana/ embrulhado em meus braços”.

 

– Marrria. Me chamo-me Marrria.

Pronunciou assim mesmo. Com a língua tremelicar no céu da boca, pondo os muitos erres da descontração tsonga no sotaque. Tinha a cabeça timidamente inclinada até ao ombro. As longas mechas descaíam e cobriam o espetáculo da beleza à meio rosto, como cortinas de um teatro que se intrometessem à meio da sessão. Ele olhou para ela. Pronunciou qualquer coisa que a deixou descontraída. Ela sorriu. Estendeu o braço e fechou a porta do carro, por dentro. O veículo arrancou, entremeou-se a outros e desapareceu como uma formiga no meio do  tráfego de um formigueiro intenso.

Foi de manhã. Antes do Sol espreguiçar. À hora da classe operária. O semáforo, ainda sonolento, bocejou e autorizou, com a luz verde, os veículos que rosnavam ansiosos. À beira da estrada, improvisando uma paragem de transporte público informal, um enxame de gente subjugada aos livros de ponto aglomerava-se ao jeito operário de insectos trabalhadores. Alguns veículos abrandavam. As pessoas corriam desesperadas por uma boleia. As viaturas tentavam, com alguns  fretes, conseguir algum que compensasse o custo insípido do combustível.

Foi aí que um sedan, importado do Japão, abrandou, hesitou, por fim parou,  quando viu a Maria lampejando no meio da multidão. As pessoas correram como sardinhas desesperadas por um lugar na boleia de um enlatado. O homem ao volante baixou o vidro de elevador automático e abanou o dedo  indicador a dizer "não". Acto contínuo, apontou com o mesmo dedo para Maria, parada no meio da multidão, deixando claro que  o  frete não seria para todos mas sim para ela. Maria desviou o olhar, recolheu-se à timidez.

– Menina! Estão a chamar ali – gritavam alguns, procurando, com a simpatia, conseguir um lugar naquela boleia.

Maria fingia não ouvir. Num soslaio fortuito percebeu, sob os reflexos do vidro do carro, os dedos da mão do homem ao volante a dobrarem-se num claro "anda cá'. Ignorou, orientada pelo bom senso que recomenda as mulheres mais novas a não ceder ao chamado de estranhos. O homem esperou, ao jeito paciente dos predadores. Um toque  na buzina. Maria olhou sem olhar. Imaginou-o a fazer " anda cá" com os dedos.

– Vai, menina! – Incentivavam os caçadores de boleia.

Os chapas não vinham. Na paragem, a enchente crescia. O tempo corria. Maria pensou nos transtornos  do atraso e cedeu. Olhou de soslaio para o carro. Baixou o olhar. Arrastou o olhar caído e deu um passo para o lado como um caranguejo envergonhado. Deu outro. Devagar, como quem não vai a lado nenhum. A consciência pesava-lhe as pernas.

Na traseira do veículo, as luzes de retaguarda acenderam. O carro recuou, facilitando a distância, as coisas. Ela parou. Esperou, cabisbaixa,  como  se tivesse  perdido  os olhos no  chão.

Viu-se, da paragem, a silhueta do homem a inclinar-se no carro para falar à menina. Maria dobrou o corpo, realçando o arsenal e aproximou-se da janela. As mechas penderam. Ele disse algo açucarado  (percebeu-se no sorriso dela) e abriu a porta. Maria recolheu o olhar caído, ainda com a consciência a pesar-lhe os gestos, e entrou para o carro. Foi ali que, em curta conversa ele perguntou algo e os lábios dela pronunciaram "Marrria, me chamo Marrria", com a cabeça reclinada e as mechas a cobrirem meio rosto. O homem pronunciou algo que a deixou descontraída. Ela olhou para ele, desviou o olhar, sorriu, fechou a porta do carro por dentro, o carro desapareceu no meio do tráfego deixando espencados os fulanos que tentavam lugar na boleia.

Nos dias seguintes Maria dobrou, na saia, alguns centímetros da bainha, deixando exposto o espetáculo dos joelhos roliços. Com as celulites à mostra já não havia crise de transportes para a Maria. Percebeu que se a saia, já sem pano para bainha, subisse mais um pouquinho, prosperaria também as finanças.  Hoje, com a saia do tamanho da economia nacional, faz sucesso nas paragens, desde cedo, até à hora em que os mosquitos e os pássaros nocturnos lhe escoltam o corpo.

 

Leco! Sabes com quantos pés descalços se faz um Solo Pátrio? O solo é uma grandeza física composta por milímetros infinitos de passos. Os passos gastam o solo como uma mão aberta que apaga a cor dos bolsos vazios; o solo serve-se nas ruas e avenidas para ser consumido, como pão, pela boca do sol e espumar, como cerveja, na garganta do vento.

E o Solo Pátrio? Leco Nkululeco! O Solo Pátrio cabe num funil de jornal e tem matéria suficiente para deslizar na língua enjoada de uma mulher grávida? Leco, meu poeta, não tenho nenhuma Elegia de Amor para ti. E se te amasse duas vezes no sono que que escorre as paredes sujas de preto de um caixão? Seria isso uma Elegia de Amor II? O Solo Pátrio que boceja, alto, as acácias malnutridas de urina e com os ramos amputados por um serrote eléctrico? Cabe em ti?

Tu sabes que o mar engole sem mastigar migalhas de solo, ali, na nossa praia. O mar não é um Solo Pátrio. É como uma banheira, enorme, engasgada de água, onde o Solo Pátrio, o verdadeiro Solo Pátrio lava-se; às vezes o Solo Pátrio desaparece no mar, como as curandeiras que vão em busca dum certificado espiritual, e volta para novamente ser chão dos nossos passos. O Solo Pátrio é casa, é cama do mendigo que arrasta sua manta pelas esquinas e mata o roncar do estômago metendo a cabeça, toda, despenteada num contentor de lixo. Ninguém sabe que o Solo Pátrio às vezes é a primeira senha para morrer. Onde vão os cadáveres gelados que pelo carro preto da funéria saem, em macas, das morgues dos hospitais?

E quem sabe o sabor da chuva além do Solo Pátrio? A chuva é o único bálsamo que lava as feridas deste solo. Ah! O Solo Pátrio é aquele milagre de pedras que tropeça nos depósitos nocturnos de desejos na Rua Araújo; ali onde as nossas irmãs equilibram suas ancas que servem de cabides de saias curtas. Ali o Solo Pátrio sua, sua no seu movimento velozmente estático.

O Solo Pátrio, também, caminha dentro de si. Caminha não para chegar a algum sítio, mas sim para inventar caminhos e deixar os outros caminharem. Leco, meu caro, tu sabes como é quente o passo descalço sobre o nosso Solo Pátrio; aquece como um jacto de chá de Five Rose sobre a língua descalça de saliva. E quem caminha descalço sobre o Solo Pátrio inventa movimentos de um canguru com o eixo do estômago apertado pela fome.

Há carga pesada nas costas do Solo Pátrio. Há corcundas de contentores de lixo, há pilhas rectas de prédios excitados de cimento, há igrejas cercadas por recibos de dízimos, há empresas onde máquinas mastigam matéria-prima e cospem fumo pelas chaminés, há escolas onde crianças sentam-se ao chão e cosem letras e números, há txopelas que gaguejam passos nos passeios, há taxistas que sonecam no banco de frente e há seguranças com armas amaradas na cintura.

O Solo Pátrio tem muita carga nas costas. E nas suas costas estamos nós: eu e tu, Leco. E há poetas de barba grande, que leem livros obesos e declamam poemas paralelos como tu, Leco.

A ideologia não é uma religião. A ideologia é uma ideia lógica, que pode ser derrubada, quando estiver errada

José Luis Zapatero

 

Para esta semana, propus-me partilhar, neste espaço, uma leitura à obra Os crimes montanhosos, da autoria de António Cabrita e Mbate Pedro. Na verdade, até pensei em escrever um artigo em duas partes, uma dedicada a cada autor. No entanto, eis que, com muita satisfação, participo no segundo Seminário de Jornalismo Cultural, programa organizado pela Soarte Media e Associação IVERCA, e que termina esta quarta-feira, no Camões. Logo no primeiro dia do Seminário, chamou-me atenção a discussão sobre jornalismo cultural, no painel subordinado “Media e cultura: caminhos para desenvolvimento e maior cidadania”, e, sobretudo, a intervenção do meu camarada Júlio Manjate, quem defendeu que o jornalista cultural deve ir além de cobrir eventos como espectáculos ou lançamentos de livros. Para o Director do Notícias, cobrir essas cerimónias é bom, mas é preciso que se faça mais, por exemplo, desbravar hábitos e costumes ligados à tradição, como é o caso da circuncisão. Nesse momento, ocorreu-me uma pergunta, lembro-me de cor: será que o jornalismo confiado à área cultural não cumpre o seu dever na íntegra ou os termos “jornalismo cultural” é que não se adequam à nossa realidade? Manjate respondeu como pôde, de acordo com a sua longa experiência e convicções. Mas não satisfez à minha vontade de aprender, por isso, volto à carga para um diálogo mais abrangente, com ele e com todos interessados no assunto.

Sempre fui céptico em relação aos termos “jornalismo/ jornalista cultural”. De há uns anos para cá, vou-me convencendo a cada dia que falar de jornalismo cultural, no país, é uma fraude. Na minha percepção, temos, sim, um jornalismo artístico, esse que, bem ou mal, cobre eventos de arte. Bem dito, parece-me haver uma tentativa de reduzir a cultura às artes, ou seja, muitas vezes chamamos cultura às manifestações que cabem neste campo, o que me parece grave, pois, por isso, exigimos ao jornalista que faça o que, na verdade, se calhar, nem é a orientação que tem ou que se pretende.

Se assumirmos que a cultura é um conjunto de património que envolve Desporto, Sociedade ou mesmo Política – algumas editorias dos jornais –, e não apenas artes, então o jornalismo cultural é feito a vários níveis diariamente. Mas não me parece que seja este o assunto em causa. Logo, estamos a discutir o quê, afinal? O que pretendemos, quando exigimos da media um bom jornalismo cultural?

Não poucas vezes, os maiores críticos do profissional que apelidamos “jornalista cultural” são os artistas. Os argumentos que eles trazem, amiúde, têm que ver com a fraca cobertura dos eventos artísticos. De facto, isto é aborrecido para os que enlevam a cultura por via da arte. Eu entendo-lhes e aceito que há muitas batalhas por vencer até erguermos uma indústria artística forte. O que repudio é essa tentativa de se colocar toda culpa atinente à fraca divulgação/ cobertura dos assuntos artísticos aos jornalistas. Se o nosso teatro está fraco, em termos de visibilidade, por exemplo, não é responsabilidade da media. Se o nosso teatro está fraco em termos de projecção interna deve-se a alguma coisa que os actores, encenadores e etc. não conseguem fazer, que Gilberto Mendes consegue. Atenção: não estou a sugerir que todos os grupos façam um teatro à moda Gungu. Nada disso. Até seria terrível. Diria apenas que os grupos devem fazer muito mais para se imporem sem pieguices. Não digo isso porque estou consciente das dificuldades que lhes afectam, tal como estou consciente do que restringe a cobertura de eventos artísticos a um alto nível (temos de falar destes boicotes). Melhor dizendo, do mesmo jeito que os artistas que tanto criticam os jornalistas têm dificuldades (por exemplo, de lançar um livro), estes também têm. E não são poucas. Para começar, as redacções que conheço não têm jornalistas culturais, na prática, mas jornalistas, que podem cobrir escultura, cinema, literatura, futebol, basquetebol, discussões na Assembleia da República ou um acidente. Tudo depende de prioridades e penso que devemos aprender a lidar com isso sem que nos aborrece. As redacções não estão obrigadas a ter as mesmas prioridades que os artistas e nem o inverso.

Melita Matsinhe, à imagem de muitos, no painel subordinado ao tema “Conteúdos de arte na mídia: estética vs recepção”, no Seminário de Jornalismo Cultural, condenou e bem o facto de muitos jornalistas “chaparem” nos jornais tal e qual o comunicado de imprensa que recebem. Há quem chama isso de preguiça. Aliás, a quem chama ao facto de se publicar um comunicado de imprensa no jornal um acto de preguiça, ainda que o jornalista reescreva. E se eu acrescentasse: é um acto de cansaço? Pensemos num jornalista que cobriu um incêndio logo cedo, depois, à tarde, um acidente, e, no fim do dia, um briefing da polícia. Deve ser condenado se, almejando divulgar um evento, já exausto, apenas insira na sua página o comunicado de imprensa sem contactar os artistas? Se o jornalista em causa, exausto, nem publicar esse comunicado, será menos criticado por isso? O que mais vale para o artista, é o comunicado divulgado ou é o texto bonito que fica por sair?

Antes de condenarmos os jornais ou os “jornalistas culturais” devemos nos preocupar com um problema maior. Primeiro, devemos aprender a fazer este tipo de pergunta: que tipo de jornalistas artísticos (e se for cultural também podemos dizer) precisamos? Segundo, como fazemos para os ter? Temos, nas diferentes instituições de ensino, a formação de “jornalistas culturais”? É necessário ter?  Qual é a base do problema, afinal?

Como disse uma vez, antes de uns e outros atirarem-se pedras, devem aproximar-se e discutir o problema com debate sério. E o ponto de partida até pode ser com pergunta: como podemos, juntos, reverter o cenário que nos abala? O Seminário de Jornalismo Cultural é um princípio, mas não será suficiente se de lá não saírem ecos. A discussão deve continuar fora, e é preciso envolvermos escolas de jornalismo e aqueles que na Tempo, n’O País Fim-de-semana ou no Notícias conseguiram contornar todas as dificuldades e marcaram épocas. Um eterno reconhecimento a Albino Magaia, Luís Carlos Patraquim, Calane da Silva, Gulamo Khan, Mia Couto, Nelson Saúte, Marcelo Panguana e tantos outros.

Devemos envolver mais pessoas, permanentemente, nesta discussão, de peito aberto; devemos continuar a produzir arte até que o Ministério da Cultura deixe de ser apenas uma instituição política, para passar a ser o pilar das manifestações artísticas do país; devemos continuar a produzir mais pessoas cultas, amantes das artes. Se a Gazeta de Artes e Letras da Tempo foi o que foi, em grande parte, deveu-se ao facto de os artistas terem-se apropriado da revista, com mérito, talento, paixão e pujança, inclusive, como jornalistas. Nós, os artistas de hoje, estamos a fazer o mesmo? Ou confiamos a função a qualquer Remédios que nos aparece pela frente? Se eles não conseguem fazer o que gostaríamos que fizessem, então que sejamos nós próprios a fazer o que deve ser feito.

Estamos numa sociedade de trocas de favores: materiais, de influência política, promocional e por aí fora. 

Daí que…

As empresas e instituições de referência na praça, vão empilhando sucessivos pedidos de patrocínio, solicitados pelos mais variados motivos. Jornadas de limpeza, edição de revistas, encontros desportivos ou culturais, comemoração de datas, homenagens a personalidades e por aí fora. Grande parte das cartas, apenas são lidas no sector de marketing ou na secretaria, antes de engrossarem a pilha que nem resposta formal merece.

Há casos de corrupção, nua e crua. O interessado tem um padrinho no marketing de uma grande instituição, faz uma aproximação com o sector que “aconselha” o chefe (quando este não está no esquema) e envia um pedido que representa o dobro ou triplo do que necessita. Escusado será dizer que nestes casos o patrocínio, após ser concedido, reentra para alguns dos bolsos dos que autorizaram.

Mas o notório é que a aquiescência depende mais de quem pede do que se pede. A assinatura da carta ou um telefonema, pesam mais do que o “móbil” do pedido.

Está claro que há acções, por exemplo na área literária, que não podem avançar, devido a uma cada vez maior ausência de hábitos de leitura. Dinheiro para o frango assado ou a cerveja média, rebuscados os bolsos, vai aparecendo. Mas para adquirir um livro ou mesmo uma revista…

 

O drama de vender um monstro… sagrado

Um episódio que consubstancia o que atrás digo, nunca mais me saíu da memória. Foi em 2005 quando lancei o Livro “O Monstro Sagrado” em homenagem a Mário Coluna. Cerimónia no Cine África, com a presença do então Presidente da República Joaquim Chissano.

Imprimi 5 mil exemplares, levei mil para a cerimónia. A sala estava cheia. Venderam-se apenas 40 exemplares, a maioria a partir do ciclo de dirigentes que rodeavam o Chefe de Estado e que queriam ser vistos a pedir o autógrafo ao Monstro Sagrado.

Veio então um verdadeiro dilema: como e onde colocar os outros? Fez-se a distribuição de uma porção pelas papelarias e pelo país fora. O resto?

Aconteceu então o inimaginável. Fiz um telefonema para um dirigente que tinha estado no lançamento, o qual confirmou que comprou a obra, “mas que ainda só tinha dado uma vista de olhos”. Porém, disse que a sua instituição poderia adquirir uma boa quantidade para ofertas, de forma a que os jovens passassem a conhecer a vida de um dos maiores desportistas desta terra.

Tudo acordado, recebi o cheque e fui entregar as obras no local indicado. Semanas depois, com certa mágoa, constatei que os livros “O Monstro Sagrado”, apesar de já pagos, continuavam nas caixas, intactos.

Não sei se ainda lá permanecem…

 

Ao Joaquim Boaventura Massingue

 

Há gente que vive no irracional.

Vivem de apetites do mal.

São imprevisíveis feitos crocodilos.

Calculistas feitos chitas.

Ágeis feitos serpentes.

E oportunistas feitos abutres!

 

Ser honesto é um perigo entre nós. Então salve-se quem quiser/puder. Isto está infestado! "Que pena…". Disseste – a nós filhos – repetidas vezes –, no leito do hospital – antes da misteriosa levar-te. Inconsciente já estavas há alguns dias. Os gemidos eram cada vez mais fortes… Não te comunicavas com frequência! Os seus olhos ficavam presos no teto daquele quarto do HCM… Parece que vias coisas. Mesmo com a dor que te consumia… nos momentos de aparente lucidez distribuías sorrisos, bem me lembro do sorriso meu grande amigo! Havia muita esperança que o mal não venceria, até mesmo depois de ouvir… "a situação é mesmo grave, deixemos tudo nas mãos de Deus". Cenário igual vi num filme de ficção… era tudo irreal.

Os gemidos eram sufocantes e perfurantes para todos que te amam. Sentimo-nos reduzidos (minúsculos) e incompetentes por nada pudermos fazer para quem deu tudo por nós. Sempre foste forte, todos sabemos… era para nós mais uma provação! Rios escorrem pelo rosto, são da dor…

E os abutres? Foram os que te levaram ao leito do hospital e, depois, ao além. Desta luta… Dedicaste a vida a inalar o pó de giz naquelas salas de dar dó. Face às dificuldades, foste à faculdade: abriste-nos os olhos! Com seu jeito frontal e dono de si levaram-te ao dirigismo. Mas é lá onde encontraste os abutres. Maltrataram-te. Durante dias colocaram-te num compartimento minúsculo. Nove anos se passaram… lutaste para te defenderes das injúrias e acusações. Provas não tinham e não tinham o porquê as terem… sempre vincaste e nós acreditamos! Lutaste até as últimas consequências… mas venceram os abutres… venceram porque se alimentaram da sua saúde até desgastá-la. Vais com a dor de não ter feito justiça, vais com a dor de não concretizares alguns dos nossos sonhos, os nossos projectos… por isso "que pena", disseste de forma repetida no leito do hospital.

Já há algum tempo que o coração não pulsava com vigor e, com isso, outros órgãos vitais foram disfuncionando. Neste mar de incertezas e de lutas, o que mais nos deixava irritado é que te preocupavas mais connosco e com os outros que consigo próprio. Quem te conheceu sabe, era a sua personalidade! Foste um homem de ideais e convicções próprias. A humildade foi sua marca.

Mesmo na dor, nunca quiseste ser peso para ninguém e ninguém mesmo…

À sua companheira de batalhas, nossa mãe, defendeste "giz nos meus filhos não… já basta eu e você". Mandaste-me à comunicação, onde caí no jornalismo… Orgulhavas-te, mas para ti já era igual a inalar giz. Enfim…

No seu velório, que inundou sua residência, lembrei aos presentes sobre: “Abutres da minha terra”, título do livro que ficaste por escrever. “Muitos, talvez, não percebiam ou não percebem a razão desse desejo do nosso pai. A final de contas, o que é um abutre?”, questionei perante centenas para depois explicar. “Abutre é um animal (ave) que se aproveita dos restos mortais de outros animais para se alimentar. É que o nosso pai apercebeu-se, durante a sua trajectória, que houve gente que agiu, comportou-se e aproveitou-se dele feito abutre. E alguns podem estar aqui”, disse perante um silêncio que era apenas interrompido pelo movimento dos ramos de árvores que plantaste no quintal. “Esquecem-se, os abutres, que podem ser vítima da sua própria natureza, do seu próprio destino!”, concluí.

E porque os abutres ainda moram algures… não querias que derramassem lágrimas de crocodilo no seu adeus. Escolheste o crematório… decisão que quem não percebe tentou contestar. Mas era a sua vontade. Foi sua, mas agora é também nossa! Cumpra-se!

Boaventura – é outra história por contar – nome do seu pai, que fizeste jus. Lembramo-nos das boas aventuras à terra dos macuas, onde ficamos por cinco anos, das conversas à mesa em Xai-Xai ou Chókwè, das piadas que contavas para nos colocar em gargalhadas, dos ensinamentos, das longas viagens via terrestre do Norte a Sul e vice-versa. Lembro-me ainda da vez que voltei à casa sem a pasta e cadernos, isso em Nampula, e consolaste-me… são tantos os episódios. Foste um grande amigo, um sábio companheiro.

Sempre gostaste do mar e foi lá onde depositamos suas cinzas como exigiste no testamento, porque poucos te compreendiam.

Aos seus amigos Victorino (Barrote), Banzima, Tembe, Mubai e tantos outros – que a imperfeição e a memória ofuscam –, os nossos mais profundos agradecimentos, foram grande suporte. Ao tio Zé, seu irmão de sangue e de luta… que esteve de perto nessa dura batalha. Encaminhou-mos, demonstrou-nos o significado e profundeza do amor que sempre vos uniu. Ao tio Cabral, tia Rosália, tia Maria, tio Orlando, Herculano e tantos outros familiares, que nos momentos mais difíceis, mostraram firmeza e apoio incondicional. Foram determinantes!

Nosso pai, palavras são apenas palavras… o que sentimos vai muito além do que podemos traduzir nestas letras que juntas fazem algum sentido.

Apesar de curta, que boa(a)ventura foi a nossa! Descanse em paz nosso herói, amigo, companheiro e eterno professor. Que Deus lhe dê o eterno descanso, até breve!

 

Agradecimentos extensivos aos meus amigos

e colegas pelo suporte e encorajamento!

 

(*) Título do livro que ficaste por escrever, nosso pai…

 

 

 

 

 

Hoje, 21 de Março,  o mundo celebra o dia mundial das florestas. Uma efeméride que se repete ao longo dos anos desde a sua instituição em 2012. Constitui uma oportunidade para cada ser humano reflectir sobre a importância das florestas, a origem da vida humana e animal, sobre a dinâmica das civilizações modernas e sobre o futuro próximo e longínquo de toda a Humanidade. Mais do que isso, é um momento privilegiado para guardar as florestas bem juntinho ao peito, sentir nele as batidas do coração verde que irradia a energia e a vitalidade da mãe Natureza.

O coração humano, esse bate em busca do oxigénio produzido e generosamente disponibilizado na atmosfera pelas florestas. Elas absorvem o lixo que exalamos em forma de dióxido de carbono, transformando-o num enorme reservatório lenhoso que pode ser utilizado para muitos fins: construção, energia, artes, etc. Para além de fornecer oxigénio, as florestas purificam o ar que respiramos de substâncias tóxicas como o monóxido de carbono, dióxido de enxofre e dióxido de nitrogénio. Daí a sensação de ar puro que se respira dentro e em redor das florestas.

Outro elemento essencial para a vida é a água, colocada à disposição dos seres vivos através do “ciclo da água”. Também nele as florestas têm uma função essencial, fazendo parte da equação complexa de evaporação, sublimação, precipitação, retenção, conservação, purificação, filtragem de água. Graças ao papel crucial das florestas, a água corre ligeira ou se armazena em forma de rios, lagos, lagoas, aquíferos, glaciares ou outras formas de reservatórios do tão precioso líquido.

Na hora de produzir os alimentos essenciais para a vida, a floresta é um provedor incansável, através dos seus ecossistemas ricos em biodiversidade. Fornece verduras, frutos, cogumelos, mel, tubérculos, raízes, antílopes, insectos, aves, anfíbios, crustáceos, peixes, lagartas, mel, etc. Uma panóplia de possibilidades e oportunidades ricas em proteínas, vitaminas, minerais, carbohidratos, ácidos gordos essenciais para uma vida saudável e activa. Os polinizadores naturais multiplicam-se nas florestas, semeando vida no reino vegetal. Mesmo os ecossistemas marinhos que fornecem grandes quantidades de pescado, necessitam das florestas para revigorar a sua capacidade productiva.

As florestas representam um imenso reservatório de biodiversidade ao serviço do planeta e da Humanidade. Metade das espécies conhecidas habitam nas florestas. Se considerarmos apenas as espécies que vivem em terra firme, isso corresponde a cerca de 80% da biodiversidade.

Conjuntamente com os alimentos, as florestas produzem e disponibilizam medicamentos naturais, eficazes e acessíveis para o tratamento de muitas doenças, e cosméticos para o tratamento dos cabelos, dentes, pele e rosto.

Os solos também devem a sua fertilidade e capacidade productiva às florestas, não apenas pelo fornecimento sistemático de matéria orgânica, mas também pelo trabalho de eliminar as substâncias tóxicas prejudiciais ao bom funcionamento dos ecossistemas terrestres.

Também sem as florestas, a superfície terrestre seria um lugar inóspito. Elas representam uma das mais sólidas fortificações contraventos, inundações, erosão, deslizamento de solos e poluição sonora.   É nela que muitos seres vivos (incluindo seres humanos) buscam refúgio de ventos, tempestades, inimigos naturais. Cerca de 300 milhões de pessoas, incluindo populações indígenas (como os índios da Amazónia e os pigmeus das florestas da África Central) consideram as florestas como a sua morada natural e uma divindade a respeitar. Os restantes, buscam nela os materiais de construção para as suas casas e outras edificações.

No calor abrasador equatorial, estão as frondosas copas das árvores que absorvem o calor e fazem circular o ar fresco que possibilita uma vida serena e tranquila Numa dimensão mais global, a fotossíntese sequestra o dióxido de carbono prevenindo o aquecimento global e as mudanças climáticas.

Para muitos povos, as florestas fornecem uma energia renovável de valor inestimável, para cozinhar ou aquecer as casas durante a estação fria ou para espantar alguns perigos.

Actualmente, estima-se que cerca de 1.6 bilhões de pessoas utilizam produtos florestais como matéria-prima em múltiplas cadeias de valor e na geração de empregos, como por exemplo na produção de papel, mobília, medicamentos, frutos silvestres, materiais de construção, roupas etc. Também gera oportunidades para o turismo e produção artística.

Uma das mais belas contribuições das florestas para a Humanidade é o prazer de olhar o colorido das paisagens, suas floras caprichosas e seus odores perfumados que alimentam a alma. Embora os poetas e artistas plásticos transmitam essa emoção nas suas obras, é na expressão silenciosa de pessoas comuns que escondem memórias e experiências pessoais únicas de felicidade e bem-estar.

Curiosamente, e por tudo isto, a floresta exige tão somente o seu direito legítimo de existir. Que a guardemos bem juntinho do coração, envolto de amor, responsabilidade, respeito e carinho. Neste momento em que a Humanidade avança para uma crescente urbanização, cresce também a necessidade de cultivar bons hábitos de proteger as florestas contra o desmatamento, contra as queimadas descontroladas, e o abate indiscriminado com fins comerciais.

Pensando bem, a base de recurso naturais que sustenta a vida no planeta é multifacetada e complexa: água, solos, florestas, fauna, ar, energia solar, etc. Não podemos olhar separadamente para cada uma delas. Estão todas interconectadas e se apoiando mutuamente.

Hoje colocamos as florestas no centro desse olhar, como uma justa homenagem. O tema da jornada é: “As florestas e as cidades mais sustentáveis”. Uma convivência que se impõe perante os desafios demográficos da modernidade: em 2050, cerca de 6 bilhões de pessoas viverão em cidades. Não se justifica que, sob o pretexto de construir cidades, abrir campos de cultivo e de pastagem se decapitem as florestas.

A urbanização não deve significar a rejeição e o desrespeito da floresta e da Mãe Natureza. Pelo contrário, a floresta pode e deve estar implantada dentro das cidades do futuro e no coração de cada um, cultivando novos afectos relativamente à essa grande divindade natural. Plantar uma arvore é plantar a esperança e a felicidade no mundo e dentro de cada ser Humano.

 

 

 

Era um dos destaques, nas estantes de uma livraria, da Cidade do Cabo, e o nome em letras brancas sobre a capa preta, à distância da minha miopia, pareceu-me familiar: Moira Forjaz. O título, por baixo, Mozambique 1975/1985 (edição: Fanele, 2015, Joanesburgo). A fotografia, belíssima, de uma jovem moçambicana, inclinada ao ritmo da dança. Os primeiros dez anos da Independência. Comprei-o com entusiasmo. Isto foi em Junho do ano passado. Sorri para o facto de adquirir esta obra naquele mês emblemático e fui para casa com urgência. Fiquei, confesso, nostálgico da revolução. Hoje, bem sei, essa palavra, esse vocábulo, encontra-se dissoluto. Os seus arautos procrastinaram-na. Já ninguém se lhe refere. As suas personagens e os seus protagonistas parecem ter ou sofrer de uma amnésia que impende sobre eles e sobre aquela época. Estas imagens, estas fotografias, devolveram-me esse tempo singular da nossa história. Tenho dito – e faço quezília nisso –  que o tempo histórico que vivemos não deve estar refém do proselitismo que é hábito praticar, entre nós. Mas também deve ser arredado do silêncio a que, por oposição, é votado. Temos de encontrar a dose certa entre a grandiloquência que, por vezes, queremos que a história tenha sido ou tido e o relato comedido e apaziguado de um tempo decisivo.

Mozambique 1975/1985, de Moira Forjaz, dedicado a Samora Machel e a Ruth First, é um documento histórico e sociológico dos primeiros dez anos da vida de Moçambique independente. Samora Machel marcou indelevelmente esta primeira década do país. Não é possível fazer-se uma iconografia dos anos da revolução ignorando Samora – para o bem e para o mal. Os primeiros anos da Independência são marcados pela sua figura exuberante e omnipresente. Moira esteve perto dele e fotografou-o soberbamente, como fotografou Graça Machel e outras/outros protagonistas ou figurantes da História recente, que nos parece, pelas transformações que, entretanto, se operaram no país, longínqua. Estas fotografias, para mim inéditas, são impressivas. Há aqui um tempo que foi o nosso – um tempo colectivo – que se esfumou. Há aqui uma época que agora escorre nas paredes melancólicas da memória. Tempo e história que revisito nas páginas deste soberbo livro.

Foi Barney Simon (1932-1995), um escritor e encenador e ativista sul-africano, que apresentou, num clube de jazz de Hilbrow, a jovem Moira de 20 anos a Ruth First, nos anos 60, de quem seria uma das suas maiores amigas.  Moira, nascida a 17 de Abril de 1942, em Bulawayo, provinha de famílias russas oriundas de Riga e irlandesas provenientes de Country Cork. Forjaz foi apelido que lhe adveio do casamento. First, que se tornaria ícone da luta anti-apartheid, seria vítima com uma carta-bomba a 17 de Agosto de 1982, aos 57 anos. (Esta data, 17 de Agosto de 1982, é importante para a minha mitologia pessoal. Foi naquele dia e por causa daquele bárbaro acontecimento que comecei a escrever. Tinha 15 anos e aconteciam-me os primeiros versos dedicados à Ruth First, que eu não conheci, mas cujo sacrifício tanto me impressionou.) Ela era também mulher de outro nome icónico da luta anti-apartheid, Joe Slovo, que tem uma rua em Moçambique, e que chegou a ministro de Mandela. Morreu em 1995. Viveu e lutou também em Moçambique. Num bairro periférico (Langa) da Cidade do Cabo, onde se erguem casas sociais, há uma delas onde se grafitou a imagem de Slovo. Uma bela homenagem. Foi ele que iniciou o ambicioso programa da habitação social na África do Sul.

Alf Kumalo (1930-2012) foi um fotógrafo documentalista e um fotojornalista importante na África do Sul. Documentou a história da luta anti-apartheid. Tem uma brilhante imagem de Nelson Mandela e Ruth First, antes da prisão do primeiro e do exílio forçado da segunda. Ruth First foi uma intrépida activista da luta contra o apartheid, uma importante jornalista e uma brilhante socióloga e está na origem de estudos incontornáveis nesse domínio entre nós. O trabalho dela no Centro de Estudos Africanos é importantíssimo.

Ouvi falar da Moira, pela primeira vez, nos anos 80. Foi através de um livro de fotografias sobre a Ilha de Moçambique. Eu demandava, na época, a mitologia poética da Ilha. Conheci-a pessoalmente em Lisboa numa galeria de arte. Fotógrafa, curadora de arte, produtora de festivais de música, fomo-nos cruzando ao longo dos tempos, entre exposições e concertos. Recentemente, é curioso, a Ilha voltaria a ser pretexto para admirar o seu trabalho. Curei recentemente uma exposição sobre Muipiti no Camões – “A Ilha dos Poetas” – onde avultam belíssimas fotografias da Moira, entre as quais a imagem de cartaz da mesma. Quando recebi as fotografias exultei, de tão belas e impressivas que eram.

Este livro começa justamente com fotografias da Ilha de Moçambique. Um texto de Jens Hougaard, como sucederá noutros capítulos, faz o enquadramento antes das imagens. A cidade de pedra, a cidade de macuti, aqui estão estas imagens incrustadas no tempo, num tempo sublimado no rosto destas mulheres, desses miúdos, na vista de mar para o continente, no homem que constrói o seu barco, dhow, na rede de pesca de bambu, no maulide, ou na exuberante teta de uma jovem que amamenta em plena maré baixa, com o recorte da ponte, em segundo plano.

“People” (povo) é o segundo capítulo: Samora Machel, Marcelino dos Santos e o rosto cortado de Oliver Tambo. Agostinho Neto em visita a Moçambique, ele e Graça Machel.  Samora, Luís Bernardo Honwana e José Forjaz, que foi casado com Moira. Samora com microfones diante de si e aquele sorriso arrebatador. Graça Machel a dançar em apoteose com as mamanas da OMM, Graça fardada acolhida em Chilembene, terra de Samora. Ruth e os seus colaboradores em Metocheria, em Nampula, aquando do projecto “Algodão”.

Sucessivamente: Oliver Tambo, Janet Mondlane, Pamela dos Santos, Samora e Canaan Banana, que foi o primeiro presidente do Zimbabwe (entre Samora e a sua tradutora oficial Zita Costa), Samora de mãos dadas com Joshua Nkomo e Roberto Mugabe, num palco em Harare, Joe Slovo (belíssima imagem: vencido pelo sono no sofá, com charuto entre os dedos e um gato no colo), Barney Simon, escritor e encenador, António Quadros (João Pedro Grabato Dias/Mutimati Barnabé João), Ricardo Rangel, Funcho (João Costa) a filmar miúdos colhidos de espanto, Jean-Luc Godard, o célebre cineasta, que esteve em Moçambique a colaborar na formação de novos cineastas. Jovens ginastas. Um velho leitor de jornais no Continental. Uma mulher em Boane. Um trabalhador da construção civil: na transformação de um cinema em palácio de congressos.  Samora, Samora, Samora. Jovens. O povo a ouvir o Presidente.

O terceiro capítulo “Mine Workers” (Mineiros). Ruth First dirigiu um projecto de pesquisa muito importante, no Centro de Estudos Africanos, que resultou na obra O Mineiro Moçambicano. Aqui há uma clara ligação entre Moçambique e África do Sul, como aliás este livro subscreve. Esta época já não existe, este documento é impressionante. Alpheus Manghezi escreve sobre os migrantes para as minas da África do Sul. Um poema pungente de Gouveia Lemos sobre a vida agónica dos mineiros. Esta iconografia dos trabalhadores moçambicanos nas minas, vulgo Magaizas, é um documento sociológico imprescindível para o entendimento e conhecimento de um capítulo relevante da história de Moçambique e da África do Sul. Ainda hoje ouvi “Stimela”, a vibrante música do Hugh Masekela, que fazia a evocação destes mineiros oriundos dos países da Africa Austral para as as minas da África do Sul.

“The Wives” (Esposas), como sequência, do capítulo anterior, preenche o quarto.  É o reverso da vida dos mineiros. As crianças e as mulheres que estão do outro lado da fronteira. As famílias dos mineiros. As crianças que deixam e as crianças que encontram. É um contra-ponto interessante.

 O quinto capítulo “Cotton” (Algodão) documenta outro trabalho do CEA e de Ruth First em Nampula, Metocheria. Bridget O´Laughlin escreve sobre este trabalho realizado em 1979. Segue-se-lhe “Coal Miners”  sobre os mineiros de Moatize, o qual reporta um acidente, de 2 de Agosto de 1977. Paola Rolleta faz o enquadramento deste acontecimento.: Kok Nam, célebre fotógrafo que fora para lá enviado para reportar o desastre, é aqui fotografado.

O livro encerra com “Music” (Musica). A fotografia de capa, aliás belíssima, abre este sexto capítulo. José Fonseca e Costa (1933-2015) realizador do filme Música, Moçambique, que documenta um memorável festival de música e dança tradicional, conta com Moira Forjaz como assistente de realização e faz o depoimento do momento histórico que vive e documenta. Neste festival foi convidada Miriam Makeba que cantará para Samora Machel: “Moçambique – a luta continua”.  Cabem neste capítulo Miriam Makeba e a mitologia cultural de um povo, cabem nele executantes anónimos, cabe nele Samora. Sobre Samora depõe impressivamente Óscar Monteiro; Albie Sachs, alvo de ataque bombista em Maputo, faz a memória sentida de Ruth First; Luís Bernardo Honwana e Hilary Hamburguer, ambos amigos de longa da data da Moira, falam da amiga e do seu percurso, do seu notável trabalho, do documento história de uma época, da história de quem esteve na Linha da Frente.

Moira narra o seu longo excurso, desde Bulawayo, passando por Joanesburgo, nos anos 60, por Moçambique (64), Portugal (65 e 66), Londres (65), Nova Iorque (67/68), Swazilândia (68 e Abril de 74), Moçambique (74), com destaques para Marromeu (78), Maputo (em 81, no festival de música e dança tradicional), Maputo em 82, o ano da morte de Ruh First, e Portugal em 86, o ano que em que Samora Machel soçobra em Mbuzini. Esta cronologia comentada é profusamente documentada com imagens pessoais sobretudo.

Mozambique 1975/1985: 244 páginas. Testemunho a favor de Moçambique, a primeira década da sua Independência. Cartografia de um tempo que desapareceu. Imagens belíssimas, documento histórico e sociológico: património afectivo. Primeiro rascunho da História. Aqui se cruzam, na sua grandeza e na sua miséria, Moçambique e a África do Sul e todo manancial de história comum que persistimos em iludir. De Samora Machel a Ruth First, passando por Oliver Tambo ou Joe Slovo. Instantes decisivos. Belíssimas fotografias a preto e branco. Aqui conta-se também o percurso de uma nação, de um país e de um povo. Sem proselitismos, nem grandiloquências.

 

 

Linda é a mulher e o seu canto, ambos guardados no luar

Cecília Meireles

Leitmotiv é um termo alemão, que, ao nível literário, designa “motivos centrais que se repetem numa obra, ou na totalidade da obra, de um poeta” (Wolfgang Kayser, 1958). Entretanto, de acordo com Massaud Moisés (1974), “a recorrência de um objecto no decurso de uma obra não constitui, por si só, um leitmotiv: para sê-lo, é preciso que o reaparecimento envolva uma significação especial”. Em Os poros da concha, de Sangare Okapi, temos no “corpo” e no que o envolve, os motivos, os temas ou fundamentos primários do que norteiam o espírito do poeta, transformado nessas entidades intangíveis, ora alimentadas de ambiguidade, nos versos, ora de sugestões polissémicas.

Diríamos que este livro, como é habitual em Okapi – veja-se, por exemplo, Inventários de angústias ou apoteose do nada –, o poeta segue uma trajectória linear, paradoxalmente, com percursos paralelos, no qual avança sempre recuperando o que já foi dito nos versos anteriores. Estamos a querer destacar, neste Os poros da concha, a prevalência da repetição quase constante da palavra, todavia, não como pretexto para gerar a anáfora. Não. A repetição em causa surge como forma de garantir a abundância de uma série de imagens que dão azo à manifestação espontânea dos sujeitos de enunciação. E como se impõe na lírica, a expressão de sentimentos cor-de-rosa é uma realidade, no caso, a fundir-se com observações, às vezes, carnais, de quem pensa mediante o que os olhos captam. Na repetição a que nos referimos cabem termos como: corpo, voz, lábios, língua, pele, coxas. Nada acidental. Bem visto, aquelas são sugestões do que realmente importa: a contínua inserção de uma imagem que se sabe completa, da mulher, mas projectada aos fragmentos, talvez numa tentativa de se evitar protótipos pré-estabelecidos quanto à caracterização dessa musa inspiradora.

Portanto, o facto deste livro ter no “corpo”, nas suas alusões e circunstâncias, um leitmotiv desvenda, pelo menos, uma atmosfera da qual emana o poder criativo de Sangare Okapi, um poeta, aqui, com muito cuidado no processo de lapidar a palavra e com mais cuidado ainda na sua combinação.

Os poros da concha é um bom livro do ponto de vista do rigor vocabulário. Por isso, o poeta consegue sugerir situações eróticas sem baixar o nível da linguagem ou sem dizer o que é bom de imaginar: “estirpe e tese teu corpo/ alguma realidade oculta/ ou doce vagem insepulta// à vista apetecível o ninho/ na blusa lis em desalinho” (p. 29). Onze páginas antes, encontramos o seguinte texto: “atalhados sentidos na erecção do caule// maduro o fruto adocicado entre as coxas/ ou húmido o musgo na bexiga que a mão/ te alcança nua e secretamente vegetal” (p. 18). Erecção, caule, frutos e coxas são palavras agradáveis de ler neste livro constituído por 54 páginas. Há também o peito, os seios: “como o antílope pulando na savana rubra/ vejo-te os seios rijos no peito convidando/ a fome apetecida e excelsa sem candonga (p. 52).

Com efeito, há neste livro sujeitos muito sensitivos quanto à visão, que recorrem sempre ao meio ambiente, quando estão a emitir desejos e fantasias. Vejamos o seguinte poema: “quero a gruta mítica do corpo/ com seus escuros e vibrações/ para que arguta e nua no topo” (p. 27). Tal evento resulta na materialização da comparação enquanto recurso estilístico. Ao recorrer à natureza vegetal, animal, ao mar, ao sol, etc., Sangare Okapi goza em ser um poeta-ambientalista, enlevando a sua poesia à dimensão adulta, madura de facto. Mas, com isso, perde o efeito Camões, naquele emblemático poema “amor é fogo que arde sem se viver”.

 

Título: Os poros da concha

Autor: Sangare Okapi

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 14

 

 

O vento empurrou a cortina. Maimuna estava sentada, sozinha, a fazer aquilo que as mulheres fazem quando estão sozinhas: cuidar da beleza.

Segurou no caule de mussiro, pressionou-o sobre uma pedra esculpida pela erosão de séculos de monção e outros ventos, acrescentou-lhe água, moeu, moeu, moeu, até tornar-se pastoso. Era o mussiro, o creme com que se maquilhava, alisando a pele, adiando as rugas, eliminando as acnes, tornando-a muthiana orera e reforçando a ideia de que a principal tarefa das mulheres é serem belas, toda a engenharia delas está maquinada para lhes suportar o peso da beleza e torná-las infalíveis sedutoras.

Deslizou os dedos pela face, levemente, pincelando mussiro. Os gestos delicados demoravam na pele, untando-a com muito cuidado, para não quebrar a preciosa porcelana do rosto. Na mão menos destra, um caco de espelho orientava-a. Virava a cabeça para um, depois outro lado. Ora para cima, ora para baixo. Arrastou o mindinho, ao detalhe, pelos trilhos onde as expressões da face acentuavam as marcas do tempo. Dobrou os dedos em pinça e desenterrou as ervas daninhas, os pêlos rebeldes que lhe desenjardinavam a face. Multiplicou demãos onde as borbulhas insistiam em carimbar cicatrizes…

Um suspiro do vento empurrou a cortina. A luz aproveitou-se e entrou, sem pedir licença, sem dizer koshukuro. Uma lagartixa assustada com o clarão, fugiu para a fresta onde morava. A luz espalhou-se pelo chão, trepou pelas paredes lascadas, pela madeira preciosa dos móveis antigos, pelas canelas que despontavam das vestes da cor de tufo… Quando lhe tocou o rosto, a mulher tirou o olhar do espelho, sem interromper os gestos de untar a pele, e olhou num soslaio desconfiado, para a cortina. Puxou instintivamente o pano que vestia e cobriu o joelho. Incomodava-a este modo secreto, silencioso com que o vento empurrava a cortina e se intrometia na sua intimidade. Ainda mais agora, véspera de eleições, em que toda a gente parece suspeita. Ainda se soubesse de que partido é o vento…

O vento voltou. Empurrou a cortina. A luz aproveitou-se e entrou sem pedir licença nem dizer koshukuro. Assustou a lagartixa. Espalhou-se pelo chão. Pelos móveis. Pelas paredes lascadas. Trepou as canela. Tocou no rosto da mulher.

Com o vento chegavam os sons inconfundíveis da campanha eleitoral. A animação louca dos eleitores, o desespero rouco dos canditados. “O vento e a luz, assim indelicados, pareciam os políticos em campanha”, pensou Maimuna, “entrar na intimidade das pessoas para dizer em quem devem votar, como se as pessoas não tivessem consciência, não soubessem o que querem. Ntlha!

Acariciou com o creme os edifícios da face. Percorreu as ruelas da face como se lhes cobrisse os buracos com o mussiro. Untou a pele até à periferia, os subúrbios do rosto. E o vento voltou.

O vento voltou. Empurrou a cortina. O mussiro formava agora uma máscara dura. Esbranquiçava e gretava à medida que secava. Maimuna levou a mão ao cesto de palha, sua bolsa. Vasculhou e trouxe, entre indizíveis coisas femininas, os documentos pessoais. Com o dedo indicador, o mesmo que empurra o boletim de voto para as goelas abissais das urnas, passou mussiro na fotografia do cartão de eleitor.

O vento não parava de empurrar a cortina. A luz aproveitava-se e entrava sem pedir licença nem  dizer koshukuro. Assustou a lagartixa. Espalhou-se pelo chão. Pelos móveis. Pelas lascas das paredes.  Pelas canelas. Tocou no rosto da mulher.

Maimuna olhou para o mussiro a secar na foto do cartão de eleitor. Sorriu e concluiu, para si mesma que, democracia é mussiro a renovar a pele no rosto bonito de um país.

“Para a tarefa do artista, a cegueira não é totalmente negativa, já que pode ser um instrumento”.

Jorge Luís Borges

A cegueira talvez seja o olho puro que a alma usa para ver os mais afinados sons que o sangue dedilha nas veias da existência. A cegueira é um exercício que nos obriga a inventar a dimensão exacta dos objectos. Os olhos fechados pela cegueira são como um punho cerrado de vazio que no seu interior, em côncavo, inventa gestos e movimentos silenciosos.

Ray Charles tinha os olhos piscando sobre seu rosto cego e mesmo assim conseguia ver os frascos musicais certos para enchê-los de um bom soul. O compositor e tenor, Andrea Bocelli, apesar da cegueira que se despejou, em seus olhos, consegue ver as escadas da música e degrau a degrau sobe-as sem nenhuma bengala branca.

Amadou e Mariam é um casal de cegos do Mali. Juntos cantam e olham-se. Reconhecem os seus rostos pela tonalidade das vozes. A cegueira que deixou uma cicatriz de escuro, nos seus olhos, é sugada em cada canção por uma esponja de lágrimas de amor. Isaú Meneses, do “Tapi Djêe”, é um outro génio com o perímetro dos olhos vedados pela cegueira; mede o peso do silêncio dos seus olhos com as notas da música e conhece, sem ver, cada movimento e aceleração da música.

Dr. Mussa Rodrigues era também cego. O nome dele sempre chegou-me aos pedaços. Não o conheci inteiro duma só vez. Precisei de dias para completar o seu nome. Um locutor da RM chamava-o, simplesmente de Dr. Mussa. E brincava com o seu nome a medida que punha a sua voz em cima da sua música: “este som chega-nos de Zambézia. É de Dr. Mussa” – dizia o locutor. O locutor mexia no nome do velho como são mexidos dados num tabuleiro de xadrez. Ora Mussa, por vezes Rodrigues e para poupar a palavra até ousava chamá-lo, simplesmente, de Dr.

Fui obrigado a compilar nas páginas da minha memória todos os dados que faziam o nome desse músico. Todos eles. “Nós somos cantores; … moçambicanos da província da Zambézia” – segurava-me, numa das músicas, a sua toca. O seu berço. Aquela música serviu-me de ponto cardeal para saber o nome do velho. Aquela música foi o fio que uniu os elementos do nome desse velho. E assim o conheci: Dr. Mussa Rodrigues. O seu nome já o tinha firme e junto no pulso da língua como uma missanga.

Este velho alegrava os olhos reformados das imagens com cores de melodias e piscava-os quando a proporção distinta da música penetrava nas impressões digitais das mãos. Nem ele próprio conseguia saber o que era: “até hoje, mesmo assim, eu não sei como interpretar o que eu sou”. Ele era “um homem deste mundo aqui, o mundo sem preço”.

Mentiu-se a ele próprio dizendo que era moçambicano da província de Zambézia. Ele era província moçambicana de qualquer Zambézia. Era cego. Como uma pessoa cega cantou tão bem o país que não via? Ver é o testamento dos sem espírito (como eu) e sentir é a compilação de um infinito visual que transborda do recipiente do olhar.

A guitarra foi para Dr. Mussa Rodrigues a sua bengala branca. Através dela conseguia reconhecer os obstáculos da vida, reconhecia os degraus da amargura, o asfalto da sua miséria, os caminhos da sua humilde voz e as paredes que faziam dele uma casa de talento e génio. Quando o ouvia, pela janela da RM, imaginava-o sentado no sossego do seu existir, deambulando nas ruelas da sua criatura gasta pelo tempo; imaginava-o pegando na sua guitarra e servindo, nela, a sua alma líquida e liquidada de tanto viver. A guitarra era o copo que ele usava para nos servir a sua alma e as antenas da RM eram as mesas.

Dr. Mussa Rodrigues era como uma fábrica humana; com a musculatura de génio batia na viola e a boca era a chaminé que tirava o fumo da voz. Os seus olhos roncavam na sua cegueira em cada piscar como esferas duma máquina que tece sentimentos.

 

O teu nome titula este infausto texto. É-me impossível pensar num outro epíteto ao redigir esta evocação. Hoje, como a 2 de Agosto, quando morreste, quando nos morreste, eu queria eximir-me desta tarefa. Há precisamente um ano abrias uma garrafa de champagne e celebravas os meus 50 anos, quando regressei de uma viagem e fui dar-te um abraço. Ainda agora enviei um whatsApp à Silvina com esta imagem. Estamos: tu, o Moisés Jorge e eu. A fotografia está aí e fere até à contundência. Procurei todos os subterfúgios para não o fazer, mas aproxima-se o 21 de Março, o dia dos teus anos, o dia da Poesia, e a tua ausência é ainda mais contundente. Todos os dias me nego a aceitar a dura realidade da tua morte.

Rui Knopfli: “Nunca mais/ nos encontraremos. Jamais. / A morte é isso, é acabar/ simplesmente, não acontecer mais/ jamais. / Nada me auxiliam as lágrimas/ que me salgam a face/ e o muito que tenho blasfemado/ de borco, rente ao teu silêncio gelado. / Esta a lógica prosaica dos factos: / Continuamos a viver, dolorida/ a consciência/ da tua cada vez maior ausência.”

O Knopfli escreveu estes versos dilacerados e dilacerantes para a filha. Eu não sei escrever-te versos. Todos os dias me lembro de ti. Pergunto quase sempre: qual é a razão desta lógica prosaica dos factos? Como continuar a viver com a consciência da tua ausência? Não há dia em que nós, o Moisés Jorge e eu, não choramos em silêncio a tua morte. Sempre que falamos pronunciamos o teu nome. Por vezes, a tua sobrinha Sandra chama por mim – o irmão do tio – e lembra-me essa condição inexpugnável. Sempre que falo com a Silvina falamos das saudades que temos de ti. Acabamos a chorar ambos, sendo que a dor dela não se traduz em nenhuma língua. Com o Moisés falo de ti sempre que estamos os dois e conversamos sobre a urgência de viver. Éramos os três e a fotografia está vazia sem ti. Perdeu conteúdo. Ficou desapossada de significado.

Trinta e tal anos depois de uma amizade indefectível, já eras mais do que um amigo, o meu irmão mais velho. Eu, o teu mais novo. Conhecemo-nos por via da literatura, que queríamos como bandeira das nossas vidas. Tínhamos sonhos e éramos jovens. A cultura era um acto que praticávamos com convicção. A cidadania não era um negócio, mas um imperativo das nossas vidas. A liberdade era o nosso viático. A literatura esse espaço. Discreteávamos sobre tudo. Estávamos nos anos 80. Tu vieras de Cuba e eu de Nacala. A Charrua e a iconoclastia de uma geração – a nossa. Éramos felizes e, provavelmente, não sabíamos.

Tinha contigo muitas cumplicidades. Não ouvirei mais Pablo Milanés contigo  – paro e ponho a tocar o Pablo Querido, que me trouxeste um dia de Cuba  -, nem me falarás mais de Silvio Rodriguez, da revolução cubana ou de Fidel. Custa-me aceitar essa realidade incontornável – vocábulo que era tão caro! Não irei contigo a Havana. Não estaremos na Macaneta na cúmplice companhia de um cão vadio, enquanto o mar nos suspende de azul naquela imensidão soberana. Não leremos versos um do outro. Não ouvirei o teu riso estridente. Pregaste-nos uma partida e lá do céu deves estar a zombar de nós com aquela tua gargalhada e aquele teu olhar malandro. Ou deves estar a olhar-nos com o teu sorriso mefistofélico.

Foi um poema – “Milagre obstétrico” – que publicaste num dos espaços que eram consagrados à literatura que me chamou a atenção para o teu nome de poeta. Vivíamos, talvez como hoje, tempos sombrios. Dias obsidiantes. A mediania medrava. A incongruência das cidades – um dos teus temas electivos. Tu fazias da cidade a nossa ágora, o teu espaço de liberdade, a metáfora da democracia, que te (nos) concitava.

António Pinto de Abreu: “As lâmpadas da cidade/ fundiram-se todas// e numa das esquinas/ da grande aldeia de cimento/ um latão urbanizado/ pariu um pirilampo…// Glória ao novo ser/ que nasceu ao anoitecer. // O jornal não deu a grande notícia/ – os fotógrafos tinham as máquinas/ aguardando o plano superior. // Contudo/ no velho latão urbanizado/ o pirilampo brinca e chora/ (como alguns meninos) / luzindo com o satírico brilho/ da esvaziada lata de sardinhas/ da “ração de combate”.”

Levaste tempo a publicar. O primeiro livro surgiria no ano 2000. Murmúrio de Acácia, que trazia, no seu ADN, uma espécie de programa poético da tua vida, a tua matriz poética. Havia ali um poeta, na sua matura idade, não era um poeta errante, antes pelo contrário. A tua era já uma poesia vigiada, tinhas uma gramática própria, uma sintaxe e uma dicção de quem estava seguro do seu estro.

 

O amor será o teu tema primordial. Tu és sobretudo um poeta do amor. A tua palavra, a tua invenção poética, a tua gramática e a tua dicção informam um discurso amoroso. O teu alto canto alicerça-se na tua amada, a escrita sagra-se e consagra-se na celebração do amor. O corpo da mulher inscreve-se, com desvelo e candura, nessa gramática do amor. A sensualidade.

Por outro lado, o poeta que és está atento à realidade social, em constante transformação, às contradições do devir moçambicano cartografadas em poemas onde o sarcasmo é ineludível e cortante. Por vezes, muitas vezes, como prática e como ética daquilo que insistias em apresentar e representar e que era a essência do ser moçambicano. Tu foste sempre um patriota quezilento.

Poeta do amor – disse-o -, mas também da infância – o bairro da Manga testemunha isso -, da tua tribo – o mano Arlindo, da Mãe, da tua musa soberana Silvina, dos teus filhos Edwina e Luan são referenciais importantes -, poeta do quotidiano, poeta da realidade social. Poeta, finalmente, do devir moçambicano. Não só no Murmúrio de Acácia, mas também na Cascata de Sinos ou na Brisa de Luz. Mas também contista de Luar de Nwanzi ou, mais recentemente, memorialista, em Algumas das Memórias que eu ainda Retenho, registo biográfico e uma espécie de inventário da tua brevíssima existência. Inventário poético, evidentemente. Testamento e despedida.

Há mais de três décadas que somos amigos ou mais do que isso: irmãos. Releva desse lapso de tempo o compromisso com a poesia, a vida como uma obra de arte, a tua extrema sensibilidade, a tua ironia auto-complacente. Avultariam outras admiráveis qualidades tuas, como a do economista, mas eu aqui me desendivido delas. Tu és sobretudo um poeta. Atenho-me, por conseguinte, às tuas qualidades literárias. Foi por ali que alicerçámos a nossa amizade, foi por ali onde andámos a cumpliciar ao longo dos anos. Sou um leitor amigo, cúmplice e exultado. Sou o teu mais novo, o irmão mais novo e fazemos gala nisso. Vivemos e cumpliciámos, visitámo-nos amiúde, frequentámo-nos, partilhámos a felicidade desta existência provisória. Fazíamos uma tertúlia entre amigos que tinham a mesma urgência de amar a pátria. Falámos com urgência, procurámos ser diligentes no que fazemos. Une-nos o amor incondicional pela pátria. Pelo presente, pelo passado e pelo futuro. A nossa vida é isso mesmo, um apelo lancinante ao futuro. Um apelo à esperança. Um apelo à pátria. Um apelo desesperado, digo eu agora.

A pátria. A pátria concita-nos. A pátria impele-nos. A pátria instiga-nos. A pátria mobiliza-nos. Temos um amor impenhorável por Moçambique e proclamamo-lo com abundância. Escrevemo-lo nos nossos textos. Esse amor pela vida e pela poesia, esse amor por tudo. Mesmo diante de um copo de vinho e de uma conversa vagabunda, a pátria não se exonera de nós.

Escrevo no presente e não no pretérito, a despeito de o fazer sete meses depois de teres partido. Hoje eu não queria ter escrito este texto. Mas aproxima-se o dia 21 de Março e não vou ouvir-te do outro lado da linha. Esta noite, vais debruçar-te, certamente, sobre o meu ombro enquanto redijo estas palavras para te lembrar e zombarás de mim, onde quer que estejas, com um ruidoso “vai-ta lixar!” e soltarás, por certo, aquela tua prodigiosa gargalhada. Penso em ti, nos teus breves, mas intensos 52 anos, na tua inteligência arguta, na tua sensibilidade, na tua cultura, na tua sageza, tu que eras um dos poucos, dos poucos bons de que a pátria poderia orgulhar-se. Tu que eras o melhor, entre nós. E aquele que praticava uma esperança intransigente. Tu nunca deixaste que nós soçobrássemos perante a urgência do futuro ou diante do desespero. Eras de uma esperança tenaz neste país e no seu destino e isso ajudava a combater a depressão, que por vezes nos atingia, em momentos sombrios. Penso em ti e lembro-me daqueles versos cortantes de “Funeral Blues”, de W.H. Auden: “Parem todos os relógios, desliguem o telefone, / Evitem o latido do cão com um osso suculento, /Silenciem os pianos e com tambores lentos/ Tragam o caixão, deixem que o luto chore”.

Onde estás, nessa galáxia para aonde emigraste, danças agora uma rumba naquele teu estilo irrepetível. Já te excedeste a falar de Cuba. Já bebemos um rum com coca-cola (um cuba libre) e fizemos o escárnio sem complacência da mediocridade. A pátria viajou contigo para esse planeta para onde resolveste emigrar, deixando-me, deixando-nos, inexoravelmente, mais sós e mais pobres. Oiço esta rumba, esta salsa e este mambo. Pablo Milanés e Soledad Bravo cantam agora, neste preciso momento: “mira Soledad como es hermosa la vida!

Mi hermano, mi buen hermano, mi hermoso hermano: recordo-me daquele abraço à porta de tua casa, aquele abraço de despedida. Sabíamos ambos que ali terminava a nossa aventura comum. Que eu não te ouviria mais, que eu não te veria mais, que não havias de praticar a tua saudosa ironia e a tua ruidosa gargalhada, com as tuas mãos sublinhando a ênfase do que dizias, que não me surpreenderias com as tuas mensagens ou teus gestos. Que não me ligarias mais. Ali chegavas ao fim para mim. Foi demorado aquele abraço. Não te vi mais, não te quis ver naquele ominoso féretro naquele 5 de Agosto. Falei-te, naquele sábado, a cargo dos nossos amigos das nossas tertúlias, que me incumbiram da mais difícil das tarefas e da qual não me pude exonerar: dizer-te adeus em nosso nome, em nome de todos. Fi-lo em nome do Tio Luís, do Magid, do Lourenço, do José Norberto, do Abdul Carimo, do Óscar, do Noa, os companheiros das nossas tertúlias, e desci aquele estrado desamparado. Depois, abraçado ao Moisés Jorge, amparámo-nos da solidão que nos atingira. Abraçados, chorámos ali. Fomos levar-te e acompanhámos-te ao cemitério de Lhanguene. Chorámos outra vez. Ainda hoje choro, ainda hoje te choramos. Agora, tenho de parar. Pablo Milanés canta com os seus amigos belas canções que nos empolgaram estes anos todos. Tenho lágrimas nos olhos que me turvam a escrita. Queria ter falado do dia 21 de Março, dia da Poesia, o teu dia. Não irei ligar-te este ano. Estou, finalmente, resignado ao aforismo grego: “Morrem cedo os que os deuses amam”. Só aqui reside o meu consolo improvável.

Post Scriptum  – Queria falar-te da Camila Cabello, uma bela cantora de 21 anos – ela é também de Março! -, nascida em Cojimar, na ilha caribenha, que anda a fazer sucesso com um hit intitulado “Havana” e o disco Camila. Haverias de gostar de ouvi-la e dançarias por certo, como naquela noite em Madrid em que fomos dar a uma discoteca do Sol e não paraste de dançar aquelas rumbas, salsas e mambos da tua juventude na Ilha de Fidel. Camila canta aqui com o rapper Young Thug. Oiço-a, obsessivamente, por ti.

A letra é um som, quando o olhar é uma esperança

Mirette Muzi  

Albino Mbie brinca de ser um músico a sério. Na verdade, é nisso o que ele se torna, quando, em dois álbuns, apresenta-se com uma qualidade bem apreciável. Quer em Mozambican dance quer no mais recente Mafu temos um artista categórico, que sabe o que está a compor, para quem e as razões de seguir por uma via e não por outra. Mas não é nada disso que nos traz cá. Hoje, o que nos move é a complementaridade existente entre duas músicas: “Dondza”, do álbum Kwiri, da autoria de Roberto Chitsondzo, e “Ahirimeni”, do álbum Mafu, da autoria de Albino Mbie. As duas músicas têm em comum uma dimensão moralística sintetizada num nós capaz de fortalecer o equilíbrio social. Nos dois casos, nota-se claramente o compromisso que cada um dos músicos tem com a sua gente. Logo, as letras aparecem com teor fraterno, veiculado numa linguagem apelativa, moderada e emocionante. A pretensão é a mesma: fazer das composições um mecanismo de persuasão de modo a que a lucidez possa ser cantada e disseminada quando a música é ecoada aos ouvidos. Vejamos:

 “Dondza”, de Roberto Chitsondzo, o eterno professor de educação física muito comprometido com o ensino, é uma música com três minutos e cinquenta e oito segundos. Neste tema, na verdade, o músico canta a educação, aquela que depende de nós, do nosso interesse e que deve constituir um modo de vida. É uma educação nunca tardia. Por isso, a música sugere a todos – às mães, aos pais, aos jovens em geral e às crianças – para investir na escola, esse lugar caro a muita gente sem possibilidades financeiras e sociais para frequentar. A letra de Chitsondzo é simples, breve e, por via desta música, o autor dirige-se aos seus com a convicção de quem sabe o que é a vida sem escola e o que pode ser com os seus ensinamentos.  

A terceira música de Kwiri começa, de facto, com uma recomendação (estude), meio nostálgica, restrita à sua mensagem abrangente. No entanto, a medida que progride vai ficando (mais) animada, mesmo sem abstrair-se dessa atmosfera melancólica, de tal forma que lá para o fim até estimula uns gestos passos de dança, ao de leve.

Se, por um lado, Roberto Chitsondzo aposta, em “Dondza”, numa mensagem dirigida à necessidade de se investir na escola, em “Ahirimeni”, Albino Mbie convida os seus a lutarem por um futuro digno. Neste aspecto, Mbie alia-se ao “bom rapaz” por também ser sua percepção a importância dos livros, dos seus ensinamentos. Entretanto, Mbie não se prende à escola. Naquela música, a oitava do álbum Mafu, temos a convicção de que a escola é importante, é verdade, na mesma proporção que a arte e a agricultura, por exemplo. Aliás, a partir da actividade agrícola, “Ahirimeni” (vamos cultivar), num claro jogo metafórico, sugere que as pessoas cultivem, pois, assim, poderão colher no futuro. Mais do que se pegar na enxada, o que está a ser dito é outra coisa: todo sucesso provém do trabalho árduo.

Ambas as músicas, ao apontarem uma direcção, idealizam os benefícios possíveis de serem alcançados com uma vida preenchida de dignidade, sabedoria e bem-estar. Chitsondzo e Mbie cantam pela educação e pela perseverança no trabalho por se preocuparem com indivíduo enquanto entidade que faz um grupo, uma comunidade e, no sentido mais lato, uma nação. Por isso, a mensagem das músicas dois autores é sempre plural. Em “Ahirimeni” temos, constantemente, traduzido do rhonga, “Vamos cultivar [trabalhar], meus irmãos”. Não são irmãos de sangue, mas da afinidade a ser salvaguardar pelo facto de um conjunto de gente ter nascido no mesmo espaço territorial ou então por fazer parte deste espaço, independentemente da sua naturalidade. Em “Dondza” também não falta o colectivo, representado em grupos: crianças, jovens, homens e mulheres.

Sem se absterem da sua qualidade artística, bem preservada, “Dondza” e “Ahirimeni” traduzem o desejo de ambos os músicos contribuírem na construção de um país com mensagens acertadas e, com isso, envolver mais pessoas nessa construção.

 

 

Três figuras do desporto, com o “C” maiúsculo como inicial no nome, personificam a contra-mão de uma prática cada vez mais presente nos dias que correm: a corrida desenfreada dos africanos rumo à Europa, atraídos pelo néon, num “salve-se como puder” que tem custado muitas vidas.

São nossos exemplos reais, que têm que ser valorizados.

Mário Coluna

Querido e idolatrado na Europa, Mário Coluna cruzou os céus entre o nosso país e Portugal, em sentido contrário à debandada que então acontecia. Com a Independência Nacional, realizava o sonho de servir e ajudar no crescimento do seu país.

O Monstro Sagrado, que em mais de duas décadas actuou ao mais alto nível na Europa e no Mundo, tendo o nome gravado nos anais da FIFA, manteve no interior de si o verdadeiro desejo de regressar. Assim sendo, e deixando para trás a certeza do conforto, assinou um contrato com o Textáfrica do Chimoio, já como técnico, conquistando o primeiro título de campeão de futebol em Moçambique Independente. Depois foi técnico dos Mambas e Presidente da Federação.

Calton Banze

Saiu de Moçambique em Dezembro de 1988, aos 31 anos, após ter conquistado o título de campeão pelo Desportivo de Maputo. O destino era o Sporting de Lisboa, após rubricar um contrato de quatro anos. Para trás ficava uma carreira ímpar de sucessos. Chegou, lutou e… não se pode dizer que tenha vencido totalmente, porque nunca quis renunciar à sua nacionalidade.

Chegada a hora do regresso, despediu-se de quem tão bem o estava acolhendo, numa festa incompreendida pela maioria dos africanos que acabavam de emigrar para tentar a sorte na Europa. Diziam-lhe: “então nós enfrentamos oceanos, arriscamos as nossas vidas e festejamos a nova vida na Europa. O senhor faz exactamente o contrário”?

Clarisse Machanguana

Foi a única(o) basquetebolista moçambicana a actuar no maior campeonato do mundo da bola ao cesto: a WNBA. É, inegavelmente, uma mulher de fibra que levou o nome do país ao Mundo, tendo actuado para além dos EUA, em Portugal, Brasil, Itália, Espanha, França e Coreia. Representou a Selecção de Moçambique por várias vezes, com destaque para os Jogos da Lusofonia, Macau/2006. No profissionalismo ao mais alto nível, Machanguana completou a sua carreira com 1.813 pontos.

Regressou, criou uma Fundação que leva o seu nome e que se dedica, com amor, carinho e honestidade, a ajudar os compatriotas necessitados. No dia-a-dia, Clarisse tem que dar explicações em redor da sua decisão de regressar, sendo confrontada com a designação de “matreca”.

“Então tu estava bem na América, fizeste um curso superior, eras conhecida e reconhecida, estavas no “bem bom” e voltas para o sofrimento”?

Está claro que nem a resposta, convicta da “Match, apontando os superiores interesses em transmitir conhecimentos, o convívio com a família, a comida, os cheiros e o amor pela origens, convence a maioria.

Três personagens, três exemplos de nacionalismo de verdade. Muitos outros existirão, numa era em que o discurso da auto-estima virou falácia e os valores estão mais virados para o umbigo do que para a satisfação em contribuir para o avanço da Pátria que nos fez nascer.

 

Ali na rotunda da Junta, avenida de Moçambique, temos a estátua do herói nacional Filipe Samuel Magaia. Uma verdadeira celebração dum herói que em vida deu a sua vida à causa do país. Um herói que Chamanculo viu nascer. O autor de “Os Miseráveis”, Victor Hugo, disse que “modelar uma estátua e dar-lhe vida é belo; modelar uma inteligência e dar-lhe verdade é sublime”.

Os egiptos sempre procuraram em suas estátuas representar, objectivamente, os seus heróis e faraós – os seus retratos – para que no dia da ressurreição fossem reconhecidos facilmente pelos deuses. A estátua era vista como um caminho a eternidade. Os gregos introduzem o nu na arte. Procuravam fazer uma síntese entre a paixão e a razão em suas esculturas.

E nós tal como os romanos que herdaram as estátuas gregas, arrancamos da nossa história as armas. Produzimos estátuas armadas. A estátua de Filipe Samuel Magaia não precisava de uma arma para ter o simbolismo que se queria nela. A história precisa também ser desarmada. O que queremos? Encher o estendal da nossa memória de armas? Pendurar armas nos quadros do tempo da nossa memória?

Um militar parado. Mirando o caminho que não segue parece uma daquelas estátuas egípcias do príncipe Rahotep e sua esposa Nofret em pedra calcaria presas numa estática que não chega a ser um não-movimento esteticamente aceite.

O estatismo daquele estátua não só cria um engulho estatual, assim como torna o estatuado um verdadeiro herói das batalhas estáticas. A representação iconográfica da estátua de Magaia teria sido uma admirável obra de arte se o seu estatuário tivesse fixado um mínimo movimento nele. Um mínimo movimento típico de estátuas equestres. Uma estátua pedestre conjugado com um pouco de movimento consuma-se a si mesmo enquanto uma obra.

A partir da execrável estátua de Magaia há que pensar em estátuas com um pedestrianismo terreno. Estátuas erguidas que quase pisam o mesmo chão connosco. Estátuas que descem dos altares das rotundas e praças.

Filipe Samuel Magaia olhando o terminal da Junta parece-se mais com a esposa de Ló transformada em uma estátua de sal quando fugia de Sodoma. O estatuário desse herói teve medo de ver a sua obra convertida em sal por isso preferiu mantê-la  parada, olhando para frente.

A estátua é a prisão exacta do movimento e do acontecido no tempo. É a negação da memória que se tem por direito esquecer. Como bem diz Papini a estátua é oferta voluntária da beleza transfiguradora mas a sua função é ainda sempre a de opor-se, até onde for possível, a dissimulada mas perene ofensiva da morte, do tempo que tudo degrada, revolve e consome.

Muito se tem falado e escrito sobre a importância da “alimentação saudável” como precondição para o exercício e usufruto da condição humana. Na maioria dos casos, as análises fixam-se sobre os nutrientes e o seu papel fisiológico. Porém, esta perspectiva incorre no risco de ser restrictiva, deixando de lado as dimensões sociais, culturais e espirituais da alimentação.  

Cientes dessa lacuna, as abordagens mais recentes têm procurado explorar outras vertentes, particularmente as relacionadas com o “Direito Humano à Alimentação Adequada”. Embora muito timidamente, o reconhecimento da existência desse direito elementar ajuda a equacionar o papel da alimentação na dignificação da condição humana e, consequentemente, na garantia de uma sustentabilidade social, baseada na redução das discrepâncias no acesso aos alimentos.

É preciso ter em conta que, numa sociedade cada vez mais consumista, a coexistência entre a opulência e a miséria gera focos de tensão que podem colocar em risco a harmonia e a integridade das pessoas, famílias, países e sistemas.
Nesta abordagem que se pretende mais abrangente, para além dos aspectos meramente nutritivos, destacam-se alguns aspectos socioculturais como a cadeia de valor de alimentos, os sistemas de valor inerentes, as preferências alimentares e a perspectiva sociofamiliar.

Cadeias de valor e qualidade de vida
Cada vez mais, a cadeia de valor dos alimentos se expande, ganhando mais etapas e tornando-se mais complexa: utilização de maquinarias, sistemas de irrigação, agroquímicos, tecnologias de conservação, acondicionamento, processamento, distribuição e venda.

Esse alargamento está em grande medida associado à urbanização. Nessa perspectiva, enquadra-se nos esforços naturais de busca de eficiência, qualidade, conveniência e preço.

Embora alguns estudos recentes demonstrem essa tendência natural e evidenciem algumas vantagens desse processo, particularmente na geração de postos de trabalho e no combate ao desperdício, há sectores que questionam alguns dos seus procedimentos e resultados.

Alguns dos casos mais gritantes estão relacionados com a utilização massiva e indiscriminada de alimentos geneticamente modificados, adoçantes, corantes e conservantes. Também se questionam a sustentabilidade ambiental de algumas prácticas, os maus tratos aos animais e plantas, e os atropelos aos princípios do emprego decente.

Estas realidades suscitam, naturalmente,  questões sobre os sistemas de valores e acabam por ser focos de tensão social, ambiental, económica e política.
As cadeias de valor do sector agroalimentar são mais complexas e dinâmicas no meio urbano, particularmente nos países mais desenvolvidos, onde o mercado gera possibilidades e oportunidades na produção, processamento, distribuição e acesso. Já no meio rural, a ausência de infraestruturas, energia e tecnologias de processamento afecta a gestão de tempo e esforço.  Por exemplo, em África e na América Latina, as mulheres são forçadas a dedicar entre 60 a 80% do seu tempo útil à confecção das refeições, exercendo trabalhos duros (como moer, pilar, lavar, cortar, descascar, transportar, cozinhar, servir, etc.), desafiando a sua dignidade, condicionando a sua integração noutras actividades socializantes, e pondo em causa certos princípios da emancipação da mulher.

A disponibilidade, acesso, estabilidade e utilização de alimentos, através da produção, conservação, processamento e distribuição, têm um impacto na qualidade de vida, saúde pública, biodiversidade, ambiente e bem-estar das pessoas.  A nível do consumidor, afecta particularmente a satisfação ou saciedade, obesidade, flatulência, carências nutricionais, intoxicações, etc.

O conceito de obesidade, por exemplo, tem revelado uma evolução interessante. No passado era considerada sinónimo de saúde, bem-estar e riqueza. Recentemente é apontada como um dos mais medonhos vilões do bem-estar e autoestima.  As cerca de 600 milhões de pessoas obesas que habitam o planeta são hoje consideradas doentes pela Organização Mundial de Saúde. Há ainda cerca de um milhão e 600 mil pessoas padecendo de sobrepeso, as quais enfrentam dificuldades no bem-estar, autoestima, busca de parceiros, emprego e inserção social.

O sal e o açúcar, antes considerados estímulos naturais do “prazer” alimentar, hoje fazem parte dos aditivos alimentares mais controlados e evitados. Por seu turno, a fibra, muito presente em alimentos considerados mais rústicos e pouco apetecíveis, hoje é procurada enquanto componente essencial de uma dieta equilibrada.

Sistemas de valor e preferências
A dimensão sociocultural da alimentação também inclui os sistemas de valor. A nível da produção, por exemplo, surgem novas sugestões para uma agricultura mais inteligente face ao clima (permacultura, agricultura biológica, etc). Na busca de um mundo mais justo, multiplicam-se os apelos para combater o oligopólio industrial, a conversão dos alimentos em meras “commodities”, a sua utilização em prácticas de especulação financeira e busca desenfreada pelo lucro. Cresce também a necessidade de adoptar novos paradigmas e prácticas como preservar, reciclar, reaproveitar, reutilizar, valorizar etc.

Nas abordagens mais recentes, os alimentos transcendem a sua função nutritiva. Quando, por exemplo, fazem parte da equação para uma melhor imagem corporal, quando são dados como presentes e portadores de afectos. Quando os seus sabores, odores, cores, formas e texturas são veículos de rituais e valores como cultura, religião, partilha, recordações, tradições, crenças, preconceitos e tabus. Nessa dinâmica, muitos nichos e marcas nascem: dietas de emagrecimento, “bio”, “glúten-free”, “dairy-free”, “vegan”, “no GMO”, “fair trade”, hallal, etc.

A perspectiva familiar
A alimentação é um factor agregador e integrador dos membros da família. Cada um tem um papel especifico na produção, colecta, aquisição, confecção e distribuição dos alimentos. Só isso permite uma extensa partilha de afectos.

As refeições representam uma instituição familiar privilegiada que determina os hábitos alimentares, e os transmite de geração em geração.

Há estudos que demonstram que as pessoas que se alimentam em família estão geralmente melhor nutridas do que as pessoas que se alimentam individualmente. No primeiro caso, há uma “democratização” do ritual, permitindo uma utilização mais equitativa e partilhada, enquanto que no segundo caso, os mais fortes tendem a sobrepor-se aos restantes.

Os aromas da velha cozinha da avó, a textura  e delicadeza dos alimentos preparados à mão, as gargalhadas das refeições colectivas (particularmente no Natal,  Eid e demais celebrações), guardam mensagens indecifráveis de aconchego.

 

 

Ao Belmiro Quive, amizade…

O melhor dos poetas está na flor que a palavra não descreve

Mirette Muzi

Traduzido do cicopi para português… Mafu significa areia [e por que não terra?], aí onde encontramos “o chão de todas as coisas”, a génesis e o apocalipse. É esse o título do segundo álbum de Albino Mbie, músico cujos créditos vão se multiplicando ao ritmo do vento, com muita originalidade. Bem visto, o próprio título do segundo disco de Mbie revela esse poder criativo, que se robustece com uma imaginação baseada em argumentos simples, a sugerirem sempre um regresso de espírito para quem há anos vive nos Estados Unidos.

O músico, este guitarrista previamente conotado com monstruosidade dos bons, é um daqueles artistas que, estando no estrangeiro, conforme nos referimos no artigo “Os recriadores da tradição II – uma escuta aos grandes”, mantém-se leal a um conjunto de valores moçambicanos, sintetizados na mundividência, na valorização da língua como elemento que engrandece o discurso apresentado na musicalidade. Não é por acaso que este disco, constituído por 12 temas, tem nove em línguas bantu, mesmo tendo sido editado na América. Só por aí, temos elementos que nos revelam a importância que o músico dá à sua origem, facto já manifestado no seu álbum de estreia: Mozambican dance.

Quem conhece Albino Mbie sabe que é um sujeito tranquilo, sereno. No diálogo, sabe ser breve ao dizer e paciente ao ouvir. Estas características do homem atinentes ao estado de alma aparecem constantemente nas composições do artista, daí podermos escutar as músicas em qualquer momento do dia, como se tudo fosse uma conversa que, na verdade, não deixa de ser. Mas o melhor de Albino Mbie, neste Mafu, não está nisso, em particular, e sim numa outra coisa: a lírica. Por via desta combinação poética que tanto enaltece os sentimentos do “eu”, não importa se fictício, Mbie é comovente, convincente e cativante, pois consegue transparecer o sentimento de estar a sentir a dor “fingida”, a que “deveras sente”. Fernando Pessoa. Por exemplo, em “Xiluva”, uma das melhores músicas deste disco, Albino Mbie consegue transformar um tema cliché, muito cantado por várias gerações moçambicanas, numa obra bela, com um perfeito uso da hipérbole no coro, quando um sujeito nos diz que não existe uma flor mais brilhante do que a sua musa. Esse “mafioso” armado em galanteador sabe muito bem que existe uma “Xiluva” mais linda do que a dele, mas diz o que deve ser dito, da maneira mais arrebatador, de modo a alcançar os seus interesses. Além disso, o carácter narratico da música, num tom humilde, “coitado” até, faz da letra penetrante – ainda bem que a “Xiluva” em causa não se chama, nem de longe, Angélica Pereira. Aí, sim, este artigo teria tudo de violento.

À parte o desabafo, o efeito lírico da composição de Albino Mbie aparece bem executado na quarta música do disco, “Rosa”, um tema muito melancólico, feito serenata, na qual o maior objectivo da entidade textual é ter aberta a porta do coração dessa rapariga que pode ser qualquer uma, menos Angélica. “Hodi nili hodi. Nipfulele n’kata”. Fany Mpfumo. Aqui, de facto, Mbie investe num amor feito Jack Dawson e Rose Bukater. Ideal até às últimas consequências, como se ele fosse uma espécie de James Cameron. O que o músico nos está a dizer é que o amor, esse “Lirandzo” que faz a nona faixa, é tudo que vê, ouve e sente. Por essa razão, o empenho numa busca que o permite aprender sobre “xa vutomi”, a vida. “Lirandzo” é acústico, e apresenta um dado interessante. Se em “Rosa” encontramos voz com pretensão de conquistar, em “Lirandzo” temos uma que se dá por satisfeita por ter conseguido cantar a sua Marilyn Monroe numa versão muito refinada.  Muito bom!

Com efeito, há uma sequência lógica neste Mafu. Os temas estão relacionados, nessa conexão entre “eu” e “tu” (subentendido), enaltecendo um bem-estar incondicional. “Zula mbilo” é um exemplo claro disso, de uma música feita para as pessoas, para as pacificar, tornando-as generosas com elas mesmas. “Zula mbilo” significa sossegue o coração e traz a preocupação por uma humanidade feliz. A música que intitula o álbum, a sexta, “Mafu”, é também exemplo dessa preocupação pelo bem do próximo, daí possuir muito aconselhamento.

Nem mais, Mafu é a personificação de uma voz doce, feita de textos bem assentes no chão, portanto, na areia.

 

Título: Mafu

Autor: Albino Mbie

Editora: AM Productions

Classificação: 16

O Rui Nogar morreu há 25 anos. Foi a 11 de Março de 1993. Hoje já ninguém fala dele. Deram-lhe o nome de uma rua, mas esqueceram-no. Este país cultiva o silêncio e o esquecimento, a ignorância e o despeito em relação a muitos dos seus melhores. O Rui foi um dos nossos melhores. Não só como poeta, mas como cidadão. O Rui foi das pessoas que mais estimei no universo literário moçambicano e não só. Eu viera de Nacala, quando um meu amigo de infância, Luís Guevane, hoje colunista do semanário Savana, com quem partilhava inquietações literárias na juventude, me levou, em 1984, à Associação dos Escritores Moçambicanos. Tinha 17 anos e o então secretário-geral da AEMO recebeu-me com uma disponibilidade e um afecto invulgares. Afinal, ele era um escritor consagrado e eu um pretenso candidato a escritor. Um miúdo que tinha essa veleidade, no entanto ele abraçou-me como par. Tenho-lhe essa dívida de gratidão impagável e uma imensa amizade.

Armando Artur: “(Ao Rui Nogar) – Escrevo-te, melancólico, / estas palavras reverberadas/ nas folhas das palmeiras. / A tua ausência ganha, / em mim, a forma de um poema/ subitamente inacabado. / O nojo e o frio do teu silêncio/ apaga a lógica poética/ em que me fundo. / A bordo do teu nome vazio/ escrevo-te estes versos/ com o azul absurdo deste dia”.

Neste lancinante poema do Armando, publicado no seu livro Estrangeiros de Nós Próprios, de 1996, está a subsunção de um sentimento geracional. Pessoalmente, sinto-me aqui sub-rogado e ainda bem. O Rui merece de nós memória persistente e um afecto sem tréguas.

Francisco Rui Moniz Barreto nascera a 2 de Fevereiro de 1932 e tinha no curriculum o mito de um grande declamador, de um intelectual preso, de um activista e militante, com poemas que publicara em O Brado Africano, e um título na sua estante de autor – Silêncio Escancarado. Com o convívio na AEMO, primeiro, em viagens ou em Portugal, onde viveu parte final da sua vida, depois, conheci-o melhor e admirei-o ainda mais. Tive o privilégio de o ter como amigo e tenho deste meu camarada de ofício uma saudosa memória.

Para além de frequentar a Associação Africana, ele teve uma assídua convivência com José Craveirinha – aliás a edição do Karingana ua Karingana dos finais dos anos 70 e a dos anos 80 trazia um texto do Rui Nogar -, conviveu com Raúl Peres da Silva, Máximo Viana Fernandes ou os irmãos Primavera. Faziam tertúlias, trocavam livros, divertiam-se. O Rui, oriundo da burguesia colonial, penetrava no universo suburbano sem dificuldades nem hesitações – “Nove Hora”, poema que será dramatizado pelo Mutumbela Gogo, nos anos 90, é disso apanágio! Pertencia aos “Marechais de Areia”, grupo em que se mesclavam todos: intelectuais ou mecânicos – todos! -, unidos pelas amigas que partilhavam no subúrbio. Já citei “Nove Hora”, parece incontornável citar “Xicuembo”, um outro notável poema do Rui Nogar, testamental dessa época:

Rui Nogar: “eu bebeu suruma/ dos teus ólho Ana Maria/ eu bebeu suruma/ e ficou maluco// agora eu quere dormir quere comer/ mas não pode mais dormir/ mas não pode mais comer// suruma dos teus ólho Ana Maria/ matou socego no meu coração// eu bebeu suruma oh suruma suruma/ dos teus ólho Ana Maria/ com meu todo vontade/ com meu todo coração// e agora Ana Maria minhamor/ eu não pode mais viver/ eu não pode mais saber/ que meu Ana Maria minhamor/ é mulher de todo gente/ é mulher de todo gente/ todo gente todo gente// menos meu minhamor”

A vida, o quotidiano, as injustiças sociais, as desigualdades sociais, que ele abominava e contra as quais lutava, estão no lastro da sua escrita. Sobretudo, a sua passagem pela cadeia da Machava, que está na origem de poemas pungentes, belos, doloridos e dolorosos.  Alguns versos: “tratávamos o silêncio por tu/dormíamos na mesma cama/acordávamos do mesmo sono”. Este poema, “Da fruição do silêncio”, escrito em 1967, tem versos notáveis: “ninguém pressentia/ no gume acerado/da quase indiferença/ que o silêncio aparentava/ o perfeito sincronismo” ou: “nada sabíamos de nós próprios/ além da angústia lacerante/ coagulando-nos um a um/ nos limites da expectativa”. Ou ainda: “era o silêncio devorando o silêncio/ era o silêncio copulando o silêncio/ era o silêncio assassinando o silêncio/ era o silêncio ressuscitando o silêncio”.

Há um episódio que fica para os armoriais da resistência. O Rui, sabendo da presença dos agentes da polícia na primeira fila, numa Associação Africana apinhada, declama um poema de Carlos Maria (“Balada dos homens da caça”), que tinha um estribilho: “Venham todos os homens da caça/ Venham todos/ Tragam as azagaias”. Fazia-o com gestos provocatórios, apontando para a primeira fila. Seriam presos nessa mesma madrugada: ele, o José Craveirinha, o Luís Polanah e a Cacilda Reis. Interrogando-o, o torcionário Roquete, de triste memória, seria assertivo na indagação: “Porque é que você anda com pretos?”

Foi o amigo Raúl Peres da Silva, que, em 1964, estando na Argélia, o convidaria a juntar-se à UDENAMO, um dos movimentos que estão na origem da FRELIMO. Estando de férias na Rennies, onde então trabalhava, vai a Paris para iniciar esse percurso libertário. Marcelino dos Santos, com quem se encontra na capital francesa, aconselha-o a regressar, era necessário organizar a luta no interior. Joel Madunaxinana procura-o por incumbência de Marcelino. Numa reunião em casa de Armando Pedro Muiuana, em 1964, são arrastados pela polícia. Presos o próprio Armando Pedro, Rui Nogar, José Craveirinha e outros. Adrião Rodrigues, Almeida Santos e Santa Rita advogam a favor destes presos. Rui Baltazar, identificado com um dos presos, Albino Maeche, que viera da Tanzânia, é impedido de o fazer. São ilibados. Pouco tempo depois, o julgamento é repetido. A ordem, vinda de Portugal, era clara: cadeia. Assim, Malangatana, Craveirinha, Luís Bernardo Honwana serão companheiros de prisão – companheiros de sempre. Os escritos da cadeia saíam disfarçados nas marmitas que levavam comida e eram entregues a Rui Baltazar.

Depois da Independência, passará pelo opróbrio de uma penitência em Nampula, ironia e contradição da revolução: ele e o Malangatana. O Craveirinha foi poupado à purga graças a Samora Machel. Rui Nogar seria Director Nacional de Cultura, Director do Museu da Revolução, deputado da Assembleia Popular e, quando o conheci, era secretário-geral da AEMO, o primeiro a dirigir a casa dos escritores. Conheci-o aos 52 anos. Tinha sempre os cabelos penteadíssimos, a barba aparada, um tique quase nervoso, uma inquietude permanente, uma intranquilidade em relação à condição humana. Tivemos muitas conversas, discordávamos muito, mas sempre fraternalmente. A AEMO era o lugar da democracia.

Minhas prematuras conversas com Mário Pinto de Andrade, ali nos bancos da AEMO, ou na casa da Julius Nyerere, nas quais me dizia ter chegado a hora da mudança: os partidos únicos, sucedâneos dos movimentos de libertação, não representavam mais o lastro social e a realidade política e económica e social dos nossos países, faziam-me ansiar, naqueles anos 80 ainda, pela democracia, pela mudança. O Rui, embora concordasse com a democracia – é preciso dizê-lo – achava que não chegara ainda o momento. Mas era aberto à discussão.

O Rui convivia muito bem com a geração da Charrua e todos os jovens rebeldes da época. Nunca o vi incomodado, antes pelo contrário. Creio que a nossa geração – disse-o algures – deve-lhe muito, deve-lhe tudo, principalmente os charrueiros, que albergou e acarinhou. Uma vez, disse-lhe que a nossa afirmação teria de ser pela poesia lírica. Ele contradisse-me dizendo que, entre a flor e a luta, escreveria sobre a luta. Mas aceitava a nossa deriva lírica, quando intentávamos um caminho novo para a poesia moçambicana. A despeito, devo dizer que lhe pertence um dos poemas mais belos da nossa lírica – “Xicuembo” – acima citado na íntegra. Parece contraditório? Não.

Na entrevista de vida que lhe fiz para Os Habitantes da Memória ele resumiu muito bem o ideário da sua vida: “Não me interessa que seja ou não considerado poeta. O que me interessa é que eu seja considerado homem que se preocupa com os outros homens da sua época.” Está tudo dito. Rui foi um grande poeta, sim. Um poeta extraordinário: as suas imagens, as suas metáforas, o seu domínio da língua e da linguagem, faziam-no exegeta. Era ainda um excelente tribuno, um belíssimo declamador, amigo do seu amigo, um homem bom. Um homem apaixonado pela vida.

Gostei de fazer uma viagem com ele a Sevilha, em 92, com o Craveirinha e o Rui Knopfli. Estavam também o Eugénio Lisboa, a Maria Velho da Costa, o Pedro Tamen, entre outros. Foi através do Rui Nogar que me tornei amigo do Egito Gonçalves. Ainda hoje me lembro dos rojões à moda do Porto, que comi em casa do Egito, e da cidade invicta, em vários ângulos, mostrada pelo grande poeta português. A última vez em que estivemos os três juntos foi a 25 de Novembro de 1991, saíramos de um congresso bocejante. Fomos para a casa do Rui no Areeiro, em Lisboa. Comemos umas costeletas que ele preparou e de sobremesa uma bebinca que ele tinha. Quando o Rui morreu, em Março de 1993, o Egito escreveu um poema evocativo – “Lembrança para Rui Nogar”:

Egito Gonçalves: “Imagens tuas ganharam alicerces, / fragmentando-se em gavetas diversas/ como amostras de minerais, receitas/ de comida moçambicana, fotografias ao lado de Rumiana I tiradas/ por Rumiana II (onde estarão?)/ na tarde em que a tempestade estiou/ e descemos para ver o velho molhe destruído/ e os fotógrafos da Sófia Press ao trabalho/ (Maria Bakalova cortava o vento/ com os olhos), as ondas incendiavam/ a nossa imaginação – e o passado / descia pelas falésias, trocávamos/ memória de um tempo de silêncio/ de telegramas cifrados. A espuma/ era um fumo de inverno. Depois/ houve um leão de bronze onde o sol/ escurecia – e anos mais tarde/ uma costeleta lisboeta com o Nelson/ entre duas comunicações repetitivas/ de um congresso que nos aborrecia. / E rimos com vontade. Para isso estávamos/ percorrendo pontos de referência/ das vidas que tínhamos lavrado/ arduamente – para que a morte/ não fosse apenas uma sombra inútil, / uma pedra rolando sem nome no abismo.”

Como me lembro daquela data remota que o Egito alude neste belíssimo poema? No meio da nossa galhofa, o Rui ligou a televisão para vermos as notícias. Foi justamente naquele momento em que anunciaram a morte do Freddy Mercury e eu sendo um indefectível daquele exuberante Queen jamais esqueceria aquela infausta data.

Aqui estou, vinte e cinco anos depois, impelido por esse sentimento de que a morte não seja, no caso do Rui Nogar, apenas uma “sombra inútil”, como escreveu o nosso amigo Egito Gonçalves, muito menos “uma pedra rolando sem nome no abismo”.

 

 

Da janela do meu quarto no hotel local, onde por pouco menos de uma semana me encontro, vislumbro e contemplo o turbulento mar atlântico da  Póvoa de Varzim.

Uma simpática e acolhedora cidade do norte de Portugal que, nos Fevereiros meses dos recém/passados anos da minha vida litéro-cultural, me tem  recebido -em companhia de mais outros, quase uma centena agentes culturais do mundo ibérico das belas letras- em razão das CORRENTES D’ESCRITAS que consideramos ser o mais velho, mais aberto,  mais representativo e menos preconceituoso evento literário jamais realizado em Portugal.

Por uma semana, em Fevereiro, a Póvoa é  uma cidade de letras. Cidade criativa. Na Póvoa de Varzim celebra-se o livro e a literatura pois, por estes dias, todas ou mesmo quase todas, as superfícies comerciais, lojas, cafés, mercados populares, restaurantes, bares e similares, transformam-se em plenas  livrarias, dando as boas vindas aos visitantes e fazendo as honras no centro da cidade.

Constatamos localmente que, os livros podem ser encontrados em qualquer esquina de rua com um tapete convidando –nos para entrar e vê-los entre roupas, assessórios, sapatos,  malas, estantes, carteiras, garrafas, tecidos, óculos e, para além de  agradáveis e gratuitas conversas à volta da literatura, haverá sempre um título de livro procurando por quem o lê, em qualquer parte, no todo ou em parte.     

Neste único 2018 das nossas vidas literárias, uma vez mais marcamos presença por Angola, em companhia do escritor Manuel Rui Monteiro -autor de célebres títulos- contando com mais de uma trintena de livros desde a poesia ao romance, passando pela assinatura de algumas das mais agridoces crónicas literárias angolanas, contos e novelas do mundo autoral lusófono e, dentre os quais saliento: Regresso adiado, Sim camarada,  Quem me dera ser onda, Um morto & os  vivos, O manequim e o piano, Estórias de conversa, Memória de mar,  Crónica de um mujimbo e, como obrigatoriamente tinha de referir, Rio seco.

Em abono da justiça, Manuel Rui, Onésimo Teotónio de Almeida e mais um ou  outro cujo nome agora não me ocorre, são mesmo os «sobas dos sobas» em termos de presenças nas Correntes.

Contam-se dezanove consecutivas estadias no Axis Vermar e consequentes romarias pela cozinha caseira da casa de restauração com o mais sugestivo nome de restaurante para escritores -e não só!- que já encontrei, nas minhas andarilhiçes e itinerâncias,  por tudo quanto é canto com eventos literários no mundo. O Zé Das Letras. Um típico cantinho da Póvoa de Varzim onde muito mais que cinco centenas de figuras e figurões das letras do mundo ibérico tiveram já a oportunidade de fazer o gosto aos sabores da casa.

Considerado o mais importante evento literário em Portugal, julgo ser também e com certeza um dos mais importantes festivais literários no mundo. Pelas Correntes D’Escritas passaram já quase todos os maiores autores dos países lusófonos e, igualmente, alguns dos maiores nomes, das artes e da contemporânea literatura  latino-americana.

Nesta que foi a décima nona realização, depois de no ano de 2017 o festival ter alcançado a sua maioridade, nas Correntes D’Escritas, como sempre em anteriores edições, juntaram-se novos nomes com diferentes andanças culturais e provenientes de distintas e longínquas latitudes geográficas para a sua estreia tal como o moçambicano Bento Balói, jornalista que, enquanto autor, estreou-se como ficcionista com o romance Recados da Alma.

Outro nosso estreante atende pelo nome de Vicente Abraão, cujo nome já não deve ser estranho pois, é presentemente o Ministro da  Cultura e das Indústrias Culturais da República de Cabo Verde mas, que aparece e se estreia, no festival,  na condição de escritor já com alguns títulos publicados, entre o romance, poemas, crónicas e conto infantil.  

Mû Mbana da Guiné-Bissau, multi-instrumentista, compositor musical e poeta, esteve igualmente de passagem em  primeira viagem, representando e prestigiando a cultura e os autores do seu país.

O mais novo estreante vindo do continente africano, «seria» o jovem angolano Hélder Simbad, para quem “a palavra é uma força oculta que se move secretamente” e que, em razão das malhas e falhas que  o «império?» ainda vai tecendo, (refiro-me –infelizmente!- às complicações para a obtenção de um visto junto do consulado de Portugal em Luanda, mesmo com toda a documentação em ordem),  não pôde chegar a tempo de fazer a sua intervenção aprazada para partilhar ideias numa das mesas de debate, em companhia  da cubana Carla Suarez e dos portugueses João Tordo e Sandro William.

Uma nota curiosa que não posso deixar de reportar foi o facto de  que, consumada a ausência do autor, pediu-me –ele mesmo em concertação com a curadoria- que o representa-se fazendo a leitura de uma comunicação preparada para o efeito. Em razão da solidariedade intelectual logo acedi ao pedido, mesmo sem a necessária leitura prévia pois, estávamos  em cima da hora.

O texto foi deveras aplaudido e ovacionado depois da explicação que fizemos dada a ausência autor das linhas que lí, lamentando pela dificultada, quase inexistente e tão desejada circulação de autores, artistas e bens culturais no âmbito da  comunidade de países falantes da língua portuguesa, vulgo CPLP.

No texto, cujo mote  era o verso segundo o qual: “O que escrevo atormenta o que sou”,  mesmo como quem se estreia nas lides internacionais da literatura, com algum conseguimento e motivo de reflexão, o Hélder acabou escrevendo o que aqui cito: “O  que sou pouco importa, o mais importante é o que escrevo. O que escrevo é o que é. E eu posso não ser o que julgam, isto, de facto, me atormenta”.

Finalmente, porque o texto já vai longo e na verdade vou, sem como…, para encurtar a escrita, finalizo observando que para nós, africanos de língua portuguesa e particularmente para Moçambique, o destaque foi indubitavelmente, o nosso Ungulani Ba Ka Khosa autor  do festejado e celebrizado Ualalapi. 

Vindo de Luanda, em cansativa e demorada viagem com escalas em Casablanca e Lisboa, passadas horas e horas, atraco na Póvoa. Feito o check-in e já depois de hospedado, adentro a primeira livraria local em razão do vício e, para meu satisfatório espanto, logo saltam-me aos olhos as páginas da mais recente edição do JL  -Jornal de Letra Artes e Ideias, referenciando Escritas de distintas tonalidades. O propósito era, uma vez mais, a 19ª edição das Correntes D’Escritas antecipadamente anunciadas neste periódico.

Ungulani é  capa do jornal ao lado de três outros grandes das minhas últimas leituras, nomeadamente: Luís Fernando Veríssimo; o homenageado no evento deste ano, Ignácio de Loyola Brandão;  «um amigão da gente!» com quem  já partilhamos mesa no anterior festival e,  igualmente, o andarilho latino-americano Eric Nepomuceno. Um amigo com quem também já partilhamos mesa em distintos festivais e não só. Um bom observador e grande companheiro para as bem recheadas mesas de bar.

O nosso Charrueiro esteve em grande nesta jornada literária  com a redação e publicação do texto intitulado A vida em cinco actos. Recriada e resumida autobiografia encomendada pelo JL. Dele ouvimos também uma comovente  intervenção na mesa cujo mote referia-se a censura e/ou a autocensura. A imparcialidade silencia a escrita. Será?

Entretanto, passadas mais de três décadas da publicação de Ualalapi, Ungulani retoma a história do imperador de gaza e apresentou a sua mais recente obra literária em duas sessões que tivemos a felicidade de testemunhar. Na Póvoa de Varzim e em Lisboa. Gungunhana (Porto Editora 184 pp.)

Para Agripina Carriço Vieira, “Esta é a história de um território que procura encontrar a sua identidade feita de múltiplas pertenças que se constituem como os alicerces sobre os quais se constrói a nova nação, demanda a que dá voz o narrador de As mulheres do imperador…”.    

Digo agora, em jeito de remate final, que Ungulani é sempre um grande ao lado dos grandes e no âmbito da sua profunda humildade, continua palmilhando a sua estrada, desinteressadamente, fazendo-se um dos maiores da língua portuguesa no mundo.      

 

Março de 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na minha abordagem destaquei até aqui três questões, a saber: a da observância do n°2 do artigo 291, a da necessidade ou não da «dupla revisão» e a da composição dos Governos Provinciais, Distritais e dos Conselhos Executivos autárquicos.

De fora ficaram algumas questões cuja solução, não me parecendo muito problemática, caberia, sem grande controvérsia, no âmbito do trabalho de aperfeiçoamento e de garantir a coerência jurídica da própria Proposta de Revisão, trabalho a fazer-se na AR.

Mas pelas dúvidas e questionamentos que se têm levantado, e porque perfilho algumas delas, sou levado a crer que, provavelmente, subestimei o potencial de controvérsia que pelo menos uma dessas questões pode encerrar.

Trata-se do previsto na alínea h1) do Artigo 159 (Competências gerais), nos termos da qual,

«Compete ao Chefe do Estado no exercício da sua função:

…………………………………………………………………………………………………………………..

h1) nomear o Governador de Província, dentre os membros da assembleia provincial e de acordo com a proposta por esta submetida, nos termos da alínea d) do número 3 do artigo 270-K».

Por sua vez esta alínea d) do n°3 do artigo 270 estabelece que,

 «Às assembleias provinciais compete, nomeadamente:

……………………………………………………………………………………………………………….

d) submeter ao Presidente da República a proposta de nomeação do Governador de Província, apresentada pelo partido político, coligação de partidos políticos ou grupo de cidadãos eleitores que obtiver maioria de votos nas eleições para a assembleia da província;»

Sobre a inconstitucionalidade desta previsão, que desloca a titularidade da soberania do povo para os partidos, reitero o que já disse: é insanável e insusceptível de referendo.

O aspecto que deve ainda merecer atenção é o da própria formulação destes dispositivos. Formulação que carece, por um lado, de conformação com o conceito de descentralização em que assenta esta proposta de revisão constitucional, e, por outro, de rigor jurídico.

Da conformação com o conceito de descentralização

A descentralização consiste essencialmente no reconhecimento da prerrogativa de os cidadãos se organizarem para a solução dos problemas próprios das suas comunidades e de promover o desenvolvimento local através do aprofundamento da democracia, para isso elegendo órgãos deliberativos e executivos para a prossecução desses fins. É nisso que se concretiza «a autonomia dos órgãos de governação provincial, distrital e das autarquias locais» que o Estado consagra e respeita, nos termos do Artigo 8 (Estado unitário) da presente proposta de revisão pontual.

Significa que esses órgãos eleitos pelos cidadãos são autónomos, possuem uma legitimidade democrática directa e subordinam-se apenas à lei. Na esfera da sua actuação exercem poderes próprios e não por delegação do Estado, como acontece no caso de mera desconcentração.

Ora, estes órgãos, tanto os deliberativos como os executivos, que surgem no quadro da descentralização, são eleitos, não são nomeados. Com efeito, nestes casos, não há, não pode haver, lugar a nomeação, porquanto eles possuem uma legitimidade directa resultante do sufrágio universal directo.

Por isso é absurdo que se preveja a sua nomeação como prerrogativa do Chefe de Estado. Talvez o objectivo por detrás desta formulação “nomeação pelo Chefe do Estado” fosse o de salvaguardar, aos olhos dos cidadãos preocupados com a defesa do Estado unitário, que os seus receios estavam a ser tidos em conta.

Mas achamos que não era preciso ir tão longe. Senão vejamos.

Se o Chefe de Estado, actualmente, nomeia os Governadores, ao abrigo da alínea b) do n°2 do Artigo 160 da Constituição, é porque, nos termos do n°1 do seu Artigo 141, «O representante do Governo a nível da província é o Governador Provincial». Portanto, estes Governadores, os actuais, subordinam-se e respondem perante o Presidente da República, que os nomeou.

Com a presente Proposta de revisão pontual, a situação é bem diferente. Com efeito, vai-se completar, a este nível, a descentralização já iniciada com a introdução das Assembleias Provinciais no Artigo 142 da Constituição, provendo-as com o respectivo executivo, o que não fora possível fazer aquando da revisão constitucional de 2004 que consagrou essas Assembleias. Assim os Governadores deixam de ser representantes do Governo Central e passam a ser eleitos por sufrágio universal directo, tal como as respectivas Assembleias Provinciais, que já o são, e perante as quais passam a responder, e deixam de responder perante o Presidente da República que apenas lhes confere posse.

Após a eleição, estes órgãos, os Governadores, ou os Presidentes das autarquias, não são propostos á nomeação, eles são, eles foram, designados pelo sufrágio universal directo para tomarem posse ou serem investidos. Quem confere a posse não tem a prerrogativa de não a conferir, ou de a conferir a outros que não a quem foi eleito. Portanto não decide sobre a decisão já tomada pelo eleitorado, não nomeia, apenas limita-se a cumprir aquela decisão conferindo posse aos órgãos eleitos.

Pelo que deve ser necessariamente corrigido o texto da Proposta substituindo o conceito de nomear pelo conceito de conferir posse.

A mesma objecção vale para o previsto nos números 4 e 5 do Artigo 275 da Proposta. O órgão executivo da autarquia é dirigido por um presidente que será, propusemos nós, o cabeça de lista da lista mais votada, dos partidos, grupos de cidadãos, ou designado pela coligação pós-eleitoral com maioria de assentos na Assembleia. Do mesmo modo o Presidente da Assembleia não o nomeia, não tem esse poder, apenas lhe pode conferir posse.

Um ponto merece atenção: o sistema de cabeça de lista como o dirigente do executivo (Governador, Administrador, Presidente de Conselho Municipal) deve ser consagrado na Constituição bem como a provisão de que em caso de impedimento definitivo do cabeça de lista, a sua substituição é automaticamente feita pelo segundo da lista e assim por diante, retirando pois todas as virtualidades da “lista”. No que aliás é uma aplicação do mesmo princípio que neste momento vigora ao nível de deputados

Dos Governadores e dos Secretários de Estado nas Províncias

Como os Governadores, com a descentralização, passam a ser eleitos e deixam de representar o Governo Central, isto é o Estado, este precisa de garantir a sua representação por outra via, uma vez que continuamos , por definição, Estado unitário.

 Essa via é o Secretário de Estado na província.

É frequente o argumento de que tal vai criar conflitos. Para esclarecer este ponto é essencial entender a distinção entre funções centrais e funções locais. As funções centrais são aquelas que já na comunicação do Presidente da República foram citadas (funções de soberania, exemplo relações diplomáticas, delimitação das fronteiras, organização do território – uma Província não pode delimitar-se a si própria!). As funções locais são como regra aquelas que permitem aos cidadãos exercer o seu cometimento e empregar o seu talento ao serviço dos interesses comuns

A governação provincial, a exercer por quem tem maioria na Assembleia Provincial – e que em anterior artigo propus que fosse inclusiva dos outros grupos representados na Assembleia – ocupa-se de funções relacionadas em linha geral com o desenvolvimento local e prestação de serviços locais: assim para tomar um exemplo de como funciona o sistema vejamos os transportes públicos. Os grandes serviços de transporte terrestre ou aéreo que cobrem várias províncias são de âmbito central, que os pode realizar ou licenciar a privados, a governação provincial ocupa-se do transporte inter-provincial e as autarquias do transporte urbano e peri-urbano.

Por isso,  e para além de idiosincracias pessoais, não há confusão nem sobreposição de tarefas.

Por isso é-me difícil entender toda a controvérsia sobre a própria existência do Secretário de Estado como representante desse Estado unitário, que «respeita na sua organização e funcionamento a autonomia dos órgãos de governação provincial, distrital e das autarquias locais…», como se pode ler no Artigo 8 (Estado unitário) da Proposta de Revisão…Ou será que se deveria antes prever que as Províncias, os Distritos e as Autarquias, é que respeitam na sua organização e funcionamento, o Estado unitário, e nele designam seus representantes?!

O que seria um contra-senso porquanto nós estamos num processo de descentralização a partir de um Estado unitário (é esse o processo histórico), e não num processo de união ou de unificação a partir de Estados ou de entes autónomos….

Só posso tentar entender que as preocupações e perplexidades que se suscitam, prendem-se com os medos e preconceitos criados ao longo deste processo, sinuoso sem dúvida, sobretudo na fase que antecede a presente etapa.

 

Isso é consequência do facto de que, uns, temerosos da mudança e do futuro, apegam-se á História e ao passado de forma unilateral, esquecem a vertente e a vocação descentralizadora dessa mesma História e privilegiam apenas a vertente unitária fundacional, para se oporem ou resistirem à descentralização, nela identificando o perigo do fim do Estado fundado em 1975. Outros, face a essa resistência, e porque anteviram na descentralização a possibilidade de verem reconhecido, a nível local, os ganhos obtidos nas urnas, tomaram a descentralização como sua invenção e bandeira eleitoralista, e procuram ignorar ou desvalorizar toda a História passada, incapazes de ler a actual evolução como fase de um processo que tem as suas raízes nessa História.

Assim, o que deve ficar claro e expresso na Constituição, são as delimitações de competências, por um lado, do Governador e, por outro, do Secretário de Estado na Província. Sem qualquer hierarquização entre os dois, já que, no território da Província, um tem uma legitimidade democrática directa, o Governador, ao passo que o outro, o Secretário de Estado, tem uma legitimidade democrática indirecta, derivada do PR, titular da legitimidade democrática directa.

Se houver uma delimitação clara de competências e de esferas de actuação, e se cada um, o Governador, por um lado, e o Secretário de Estado na Província, por outro, se mantiver dentro das respectivas competências e esfera de actuação, será normal a coexistência institucional. Não temos porque vaticinar uma permanente conflitualidade, menos ainda uma conflitualidade insolúvel,

Claro que tudo isso exige uma mudança séria de mentalidade, da parte de todos nós. A Constituição e as leis, quanto mais claras e expressas forem, mais contribuirão para acelerar essa mudança.

Porém, agora que temos que tomar decisões, é imperativo que serenemos. É imperativo que o façamos distanciados desses extremos, para, com serenidade, e fora de calculismos eleitoralistas, regionalistas, tribalistas ou outros, tomarmos as decisões que sirvam o Povo, a Nação e o Estado Moçambicano, que somos todos nós, e que queremos continuar a ser.

 

Da tutela

Quanto à tutela administrativa do Estado, em princípio, deveríamos incidir a nossa atenção naquilo em que o previsto no Artigo 270-D(Tutela Administrativa) do texto da Proposta de Revisão fosse para além do  regime já estabelecido no Artigo 277 (Tutela administrativa) para as autarquias locais.

Nesta perspectiva, sem dúvida que o n°4 deste Artigo 270-D merece sérias reservas na medida em que contém formulações que podem abrir caminho para actuações que vão para além do controle de estrita legalidade. Com efeito, expressões de uma imprecisão tal como «abuso de autonomia», «que possa conduzir à violação grave da Constituição e das leis» ou actuar «de forma que ameace gravemente o interesse geral» ou “perturbe a satisfação das necessidades provinciais e distritais», não podem ser encaradas com ligeireza, sobretudo no prevalecente clima de medos, preconceitos e desconfianças cujas causas procuramos acima identificar.

Consideramos que neste domínio a Constituição deve operar com conceitos precisos, e  da maior objectividade, de forma a evitar-se qualquer arbitrariedade e subjectivismo. A Constituição não trata de possibilidades de violação da Constituição mas de violações da Constituição. Nem de ameaças ao interesse geral do Estado mas de actuações ilegais atentatórias do interesse geral do Estado. Nem de perturbações da satisfação das necessidades provinciais e distritais, mas de impedimentos ilegais à satisfação dessas necessidades.

Mais,

Finalmente, e embora a tutela de mérito já estivesse prevista no n°3 do Artigo 277 da Constituição, para as autarquias locais, sou de opinião de que, para se  eliminar ou reduzir a margem de arbitrariedade e de subjectivismo, deveríamos eliminar em definitivo do texto constitucional este tipo de tutela, retendo apenas a tutela assente no controle de legalidade.

 

O mês de Fevereiro deverá entrar para a nossa história desportiva recente, por motivos que chamaram à atenção aos observadores mais atentos. Os atletas do basquetebol e do boxe, enfrentando potências com claras, visíveis e mensuráveis diferenças, “olhos nos olhos”, deram um sinal de superação, cada vez mais ausente no dia-a-dia da vida dos moçambicanos.

Utilizando palavras de Mia Couto, venceram o coitadismo!

 

Basquetistas: estilosos e garbosos…

Exibindo uma altura e musculatura trabalhadas, sem complexos, sabendo ao que iam, os nossos basquetebolistas, com uma mescla de juventude e experiência, lançaram uma forte mensagem de esperança para o futuro. Falava-se antes “só” na aposta nos femininos, mas os masculinos, mostrando “que os têm no sítio” impuseram-se nas eliminatórias africanas ao mais alto nível .

O Pavilhão do Maxaquene vibrante, afinal não estava meio vazio, pois os apoiantes, patrioticamente unidos à família dos rostos do passado, demonstraram querer continuar a dizer presente! A Inhaki Garcia e seus dois adjuntos, tem que ser debitada uma boa dose de mérito do sucesso, pelo treinamento propriamente dito, mas sobretudo pela forte acção da componente psicológica.

 

Punhos não se medem aos palmos

E o boxe? De modalidade triste e semi-abandonada, sobrevivendo graças à dedicação dos antigos internacionais que criaram academias sustentadas praticamente com recurso ao “estou pidir”, para substituir a indiferença de alguns dos tradicionais clubes da modalidade… de repente: “bum”.

Espectáculo, público novo, patrocinadores, luz, glamour e combates. E o que se pensava que era apenas para consumo interno, deu para conquistar um título africano zonal.

Espantou o sector feminino. As nossas representantes (com)provaram que não sobem ao ringue para “porrada entre mulheres”, mas para jogar com lealdade, um desporto que exige muita disciplina e treinamento, senão… paga-se com o físico.

Claro que este salto tem a ver com um nome: Gabriel Júnior – que na modalidade até parece ser um sénior – pela forma como conseguiu (re)motivar as antigas glórias, revertendo insensibilidades do empresariado para um jogo que muito rejeitam, sem mesmo o conhecerem por dentro.

 

Sinais encorajadores

Perante um fracasso ou sucesso, não devamos passar de bestas as bestiais. Aqui está-se a falar apenas de importantes sinais, que contrariam uma realidade nacional de derrotismo e conformismo. A quase ausência de espírito ganhador, o “xa fana” (é igual) que cada vez mais comanda o nosso desporto e as nossas vidas.

Nas duas jornadas em referência, sem serem necessários decretos, os citadinos de Maputo, “envergaram” os símbolos nacionais e apoiaram, de forma incondicional, as nossas cores.

Se alguém punha em dúvida a possibilidade de subalternizarmos diferenças partidárias ou regionais, quando o que está em causa é o nome de Moçambique, a prova foi concludente.

E os atletas, meus senhores, deixaram claro que, mesmo em período de crise, se podem colocar em sentido potências com outro patamar de condições.

 

“Republic of Ghana” é onde estás, meu irmão. Custa-me pagar o imposto da distância por estas palavras. Sei que a senha da saudade paga-se nas manhãs chuvosas de lágrimas no balcão da memória ou no guiché da cama. Todavia, eu quero paga-la aqui neste meu “Relógio di Oro”.

Quantas vezes sacudimos o sal do cansaço dos nossos passeios e o cheiro do sol ali na Avenida Kwame Nkrumah? E quantos abraçamos dobramos em nossos corpos esperando as nossas namoradas naquela avenida? Tudo isso, afinal, era um projecto do instante. Hoje estás na terra de Kwame Nkrumah. E aquela avenida está sem nós. Existirá, ali, uma cratera que engole a massa pesada da amizade? Por que saímos de Chamanculo só para nos abraçar ali?

Cá estou pensando em ti, meu irmão. É como se tivesses fugido do bairro por culpa de algum medo qualquer. Recordas das nossas fugas sempre que a porrada das nossas mães estivesse por perto? E quem conhece o nosso pequeno esconderijo que inventávamos e passávamos as tardes e noites para despistar o velho que fazia circuncisão?

Quero pensar em ti, mas sempre me derrubo em nós. Ainda lembras dos nossos cigarros de jornais que nos enchiam os pulmões de tosse, os olhos de um vermelhão rígido e tonturas imaginárias que não tínhamos? Tossíamos e o vermelho nublava o céu dos nossos olhos. A cada tosse as nossas fisgas em riste, nos pescoços, baloiçavam e voltavam a fixar o seu formato “Y” na divisão dos nossos peitos esticados por ossos.

Será que aí há espaço para lavares na memória as nossas camisas antigas rotas; estampadas de ranho seco escorregadiço e brilhante e com nódoas de jambolão bem desenhadas pela tinta da nossa saliva que não cabia em nossas bocas? E as mangas? As mangas que temperávamos com grãos grossos de sal para terem sentido na língua. E trincávamos a mesma manga, com o mesmo sal, obedecendo a medida marcada pela unha suja na pele verde da manga. Era como se as unhas fossem a finta métrica das nossas bocas.

Deves te recordares que gostávamos de girar pneus sujos em todo bairro; e de quando em quando servíamos de jantes dos pneus. Dobrávamo-nos para entrar no pneu e alegrarmo-nos por ver cada um de nós girando, a cabeça e os pés imitando as voltas infinitas dos raios. O corpo o único diâmetro. E por vezes a força esgotava e o pneu em forma de espiral caía; as jantes que éramos saíam do pneu. A pele que se arrastava no chão seco e sangrava era cicatrizada por um penso improvisado de areia.

Éramos uma dupla e escrevo-te porque ainda sei que somos. E como éramos cortados o cabelo? A minha mãe, também tua mãe, alinhava uma lâmina, “Made in China”, num pente amarelo e deslizava-a em nossas cabeças. Aquela lâmina em nossas cabeças parecia uma charrua desfazendo os nossos cabelos enrolados. E quando parava, um molho de cabelos caía-nos sobre o corpo enrolado por uma capulana com desenhos do alfabeto. Era o nosso salão aquele. A lâmina passava para arrancar os cabelos e o pente seguia para descolar a caspa de areia que crescia.  As pernas da velha prediam-nos os movimentos e o corte saía. Ficávamos dias com restos de cabelos nas orelhas.

Não sei se Gana dá-te espaço para te lembrares de tudo isso. Não sei se ainda há luz suficiente na tua memória para clarear as cavernas que nos acolhiam em jogos das escondidas. Nós não nos escondíamos, mas sim desaparecíamos. E o jogo termina antes da nossa descoberta. Sim. O jogo terminava e não arrebentava porque nunca éramos descobertos.

Aí é terra de Michael Essien. Aquele fantástico futebolista que um dia queríamos se-lo. Escrevo-te, isto, porque quero fintar uma lágrima de saudade que avança no meio campo dos meus olhos. Sem chuteiras, apenas de peúgas, fazíamos rolar uma bola feita pela mestria das tuas mãos. Sempre que chegasse a hora do jogo cada um de nós, em grupo, contribuía o material que se transformava em uma bola: meias, camisas sujas, linhas de sacos de carvão, esponjas e plásticos. Tu, na baliza, eras como um macaco que espera bananas dum galho duma criança.

E hoje estás aí. Pagando as contas das cervejas que tomas com uma moeda estranha que não te cabe no bolso (CEDI?). E sei que ainda tens o cheiro do metical nas linhas das tuas mãos. E sentes o cheiro das acácias gastas de urina da nossa cidade, a raiva dos txopelas derretendo entre longas filas de autocarros na nossa paragem (Romos) e as moedas molhadas de suor que juntávamos para pequenos passeios sem destino no bairro. E eu termino este texto porque oiço dentro de mim teu assobio chamando-me…

 

 

Eu era um miúdo, tinha 18 anos, quando me tornei amigo do Luís Carlos Patraquim, que me publicou, na “Gazeta” da insigne revista Tempo, os meus primeiros versos impressos, em Agosto de 1985. Começou aí a minha amizade com o poeta e, vezes sem conta, ia visitá-lo à casa da Mao Tsé Tung. Não raro, cruzava-me ali com o Mia Couto, que ia discutir com o Patraquim as versões dos contos, que mais tarde dariam no livro Vozes Anoitecidas. Posso, abusivamente, dizer que acompanhei a génese de um dos livros icónicos do último quartel do século XX na ficção moçambicana. Surgido em 1986, em sua primeira edição, o livro levava um prefácio do Luís Carlos Patraquim e ilustrações do Miguel César. Paradoxalmente, não foi em casa do Patraquim que me tornei amigo do Mia, mas quando ele lançou aquele luminoso livro de contos, na sequência da entrevista que lhe faria para a Rádio Moçambique, para o programa “Cultura Viva”, do Emílio Manhique, de que eu era colaborador.

O meu convívio com Patraquim foi decisivo. Discutíamos a arte de fazer poesia e eu levava comigo emprestados sempre alguns livros. Isso é importante para um debutante. Na altura, eu escrevia poemas breves, mas não conhecia Bashô nem a poesia haikai (ou haiku, forma da poesia japonesa, composta por três versos, com cinco, sete e cinco sílabas). O Luís introduziu-me nesse universo. Também escrevia intuitivamente prosa poética. Ele haveria de dar-me a ler Conde de Lautréamont – Os Cantos de Maldoror. A leitura deste livro representou um choque brutal e um mundo novo que se abriu no meu universo. Também me recordo de ler Omar Khayyam, poeta persa de Rubaiyat, pela mão do meu mestre de sempre.

O Luís Carlos publicara, naquele ano de 1985 em que nos tornámos amigos, um belíssimo livro de poesia – A Inadiável Viagem: “agora vou com amendoins na língua ínsula”, começava assim o poema que dava o título ao livro. Eu gostava particularmente da “Canção” dedicado a Paula, musa soberana: “chegarei com as árvores/ meu amor ao som do sangue/ às catedrais do puro gesto/ com o grito e as aves/ marítimas dentro das sílabas/ ao breve cume da espuma/ mãos nas mãos chegarei”. Do livro anterior, Monção, não esqueço: “afasto as cortinas da tarde/ porque te desejo inteira/ no poema”. Isto é sublime.

Era fascinante discutir com o poeta a sua oficina literária, a sua “ars poética”, descobrir o que o motivava, os segredos da sua carpintaria, da forma como trabalhava os seus versos. Mas também o seu ofício de exegeta sobre os outros poetas. O Luís publicaria dois poemas meus, no “Pássaro azul”, da “Gazeta”, na companhia de um poema de Sebastião Alba. Uma honra para um miúdo que se iniciava e, ainda por cima, admirador do autor de A Noite Divida. Não sei que influência teria, mais tarde, no facto de o meu livro de poesia iniciático se intitular A Pátria Dividida. Vem do Sebastião Alba? Não sei, nunca saberei. Sei que o lia, lia O Ritmo de Presságio e lia A Noite Dividida. O poema que aludi acima era inédito em livro. Um belíssimo texto – “Poema ao pai”. Tinha uma epígrafe de Constantino Cavafy, que seria uma referência poética ulterior, trazia aquele verso celebérrimo: “Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu”. O Luís Patraquim chamou-me à atenção para a beleza do poema do Sebastião Alba e para o fino recorte das imagens. A poesia é o reino das imagens. Das metáforas, sobretudo, para além da sua musicalidade. Aquele poema tinha, a meio, quatro versos notabilíssimos: “Pousa, no joelho, a mão:/ o destino permanece/ na obscuridade assim acautelada/ da palma”. Estes versos são distintos. Só um poeta da estirpe dos eleitos é capaz de algo semelhante. Desde aquela altura que leio isto e me comovo com a beleza deste poema sempre que a ele retorno. A melancolia deste poema. A melancolia é criadora. É fecunda.

Levanto-me, busco na estante o dicionário e procuro a definição de “melancolia”: “tristeza profunda e duradoira, desgosto, abatimento, hipocondria”. Para além disso, alude ao universo da medicina: “afecção mental caraterizada por uma depressão, mais ou menos acentuada, um sentimento de incapacidade, um desgosto da existência, e, às vezes, por ideias delirantes de autoacusação, de indignidade, etc.”

Por que raio escrevo eu esta noite estas notas sobre a melancolia e a criação? De onde me vem a lembrança do poema do Alba? Dá-se a circunstância de que estava aqui, a noite ia já alta, pensando num tema sobre o qual me debruçar, quando pus a tocar, ao acaso, a banda sonora do filme Era Uma Vez na América de Sergio Leone. Digo ao acaso, mas talvez não tenha sido tanto assim. Esta tarde lembrei-me, efectivamente, do filme Era Uma Vez na América. Acho este disco com a música que Ennio Morricone fez para o filme profundamente melancólico. Mas não era sobre a música do Ennio que eu queria escrever. Na verdade, quando me lembrei do meu mestre Patraquim, era para falar da crónica e do facto de ter sido ele a iniciar-me neste género jornalístico e literário, mas tropecei na poesia do Alba e na música do Morricone. Perdi-me na melancolia.

Previno: não estou melancólico. Contudo, hoje, lembrei-me do filme e, sobretudo, de uma cena em que David Aaronson (ou Noodles, a alcunha, interpretado por Robert De Niro) e Deborah Gelly (encarnada por Elizabeth McGovern, que tem uns olhos brutalmente belos) dançam “Amapola”, num restaurante à beira mar, que abrira só para eles. Escrevo isto e calha que toca agora mesmo “Amapola” e vejo aqueles passos lentos de paixão ardente e desespero, de melancolia na lenta dança do David e a sua amada de sempre, Deborah.

Este filme é genial. Vejo-o sempre com lágrimas nos olhos. É longo e complexo. Não é linear. Tem filmes dentro do mesmo filme. Sergio Leone conta a história de um grupo de miúdos amigos em Nova Iorque. Começam com pequenos roubos e acabam como verdadeiros mafiosos. 35 anos depois, o único sobrevivente retorna ao Lower East Side, de Nova Iorque, para saber o que teria acontecido e para descobrir a traição. Um filme sobre a amizade e a lealdade, companheirismo e ambição. Longo, épico, pungente. Nunca me esqueci do “Fat” Moe Gelly, interpretado pelo Mike Monetti, um puto giríssimo que cai numa perseguição e, antes de ser atingido, proclama com candura: “Escorreguei!”. Quantas vezes escorreguei na vida? – pergunto-me.

Oiço esta banda sonora magnífica e recordo-me do filme, releio versos do Sebastião Alba num poema, igualmente pungente, ao pai: “Deixa que o fumo espirale/ a um canto de ti, que envelheces, / quando o regresso das pombas/ é já cinéreo, e senta-te na pedra”, diziam os versos que antecedem aquela imagem belíssima que está na origem do tema da melancolia neste texto para além da comovente e cortante banda sonora do filme de Leone.

Melancolia, angústia, inquietação, abatimento, nostalgia, pena, consternação, saudade são outras formas de dizer tristeza. A tristeza é criadora: “Photographic memories” é uma música desta trilha. É a flauta de Gheorghe Zamfir. Toca com uma beleza contundente. Escrevi uma elegia com este título e à base deste tema, de longuíssimos versos, numa única estrofe, quando morreu o meu irmão Carmo da Conceição Saúte, que emigrado viveu com o nome de Sipho. O tema, o disco, as músicas são dilacerantes. Belas músicas, bela trilha sonora, mas intensamente melancólica. O poema está no meu livro A Viagem Profana.

Pergunto-me agora: de que trato eu verdadeiramente neste texto e esta noite? Da aprendizagem da arte de fazer poesia? Do júbilo de me ver publicado com menos de 20 anos ao lado de um poeta consagradíssimo? Da pungente melancolia dos versos de Sebastião Alba ao Pai? Da banda sonora do filme de Sergio Leone, Era Uma Vez na América, criada brilhantemente por Ennio Morricone? Da tristeza que me invadiu ao ouvir “Photographic memories” no momento em que enterrava algures, em Malelane, o meu irmão Carmo sul-africanizado Sipho? Ou tratei hoje do tema do mistério da escrita e da criação? Ou quis falar da amizade? Do meu mestre Luís Carlos Patraquim? De que falo eu quando falo de tudo isto?

Recordo-me que me sentei para redigir estas notas com a ideia de falar da crónica, género que o Luís Carlos Patraquim me incitou a praticar, era eu estudante no secundário, na Francisco Manyanga, tinha 18 anos. Escrevia na “Gazeta” a “Crónica de Carteira” e assinava com um pseudónimo – primeiro N. Marimbique e depois Nelson Marimbique. Não era imaginativo nos nomes. Contava os episódios que ocorriam nas aulas ou na escola. A minha professora Ilundi Santos um dia veio dizer-me que sabia que eu era aquele Marimbique e fulminou-me com os olhos. Foi um olhar tão assertivo que eu não tive como disfarçar. Capitulei. Ficámos amigos. Falávamos de livros. Ela lia à época Ninguém Escreve ao Coronel, do Gabriel García Márquez. Comentávamos sobre o boom latino americano. Seria do meu início na escrita que eu estava aqui a tratar? – Indago-me. As primeiras palavras levaram-me para o território da poesia porque queria situar o poeta meu amigo, a poesia levou-me para o universo da melancolia, a melancolia foi assaltada pela banda sonora que toca, outra vez esta noite, um dos temas, dos mais impressivos, que me levou, por sua vez, a lembrar a tristeza da perda de um irmão, a origem de um poema prolixo que escrevi em sua memória. E tudo isto gerou um turbilhão de imagens e lembranças.

Levado pela mão, ao matraquear do teclado deste inditoso MacBook Air – continuo a escrever com a força que imprimia nas velhas máquinas manuais AZERT -, trespassado pela flauta de Gheorghe Zamfir, que agora toca de novo, redigi este texto sonâmbulo sobre não sei o quê. Quando lia os meus mestres cronistas daquela época havia um tema a que eles voltavam quase sempre: a falta de assunto. Este texto tem assunto? Ou o seu assunto são vários assuntos? Ou ainda: o assunto deste texto é não ter assunto? Como saberei? Não sei. Ou melhor: nem me parece que queira saber.

Os mistérios da criação são vastos e inextricáveis. Fico agora prostrado a ouvir este solo de flauta. Isto é de uma beleza cruel. A beleza disto dói. Isto, como diria Rainer Maria Rilke num poema, isto é indescritível. Comprei este disco numa pequena aldeia do País Basco – Tafalla. Acordei a ouvir da rua estes sons que me eram familiares e desci em busca do CD. Aí está uma história interessante, a daquela viagem que está na origem do nome do meu primogénito, Irati, que em euskera significa resistência. Também nome de um rio e uma selva. Mas isso é mesmo outra história e já não cabe na prosa, na deriva ou no desvario desta noite. Agora tenho de parar mesmo: está a tocar, outra vez, como se fosse uma primeira vez, “Amapola” e o De Niro dança, com a paixão da sua juventude, num passo lesto e arrebatado – eu diria que está compenetrado, compungido e feliz -, como aliás devemos fazer quando dançamos com a mulher da nossa vida.

 

É quando um homem enfraquece que se percebe a força de uma mulher

Hélder Faife

Na verdade, hoje, são as recriadoras da tradição que trouxemos, portanto, uma escuta às grandes. Nesta onda, escolhemos duas moçambicanas, que, além de formosas e simpáticas, são deveras talentosas. Referimo-nos a Isabell Novella e Selma Uamusse, cantoras de alma vasta, coerentes nos seus labores artísticos.

Quer Novella quer Uamusse – mesmo a condizer com o que Otis e Jimmy Dludlu fazem há anos, por exemplo –, ao exprimirem os vários egos que têm num lugar encantado dentro de si, reservam atenção a um repertório musical moçambicano além do tempo. Por uma questão identitária ou de ordem emocional, ambas reclamam o passado que as pertence, buscando, no caso, sons que, de algum modo, as fizeram ser o que são: mulheres de vanguarda, elas também, a oscilarem entre o universal e a tradição, o princípio de uma trajectória reinventada por via das duas vozes.

É comum as novas gerações não saberem muito sobre o que de melhor se fez no país, ao nível artístico, desportivo, político e etc.. É mais comum ainda os conservadores de uma época olvidarem o compromisso de, num contexto em que a música caminha com pernas para o ar, fazerem chegar ao presente o que deve continuar no futuro. Querendo ou não, ao tocarem “Xonquile” (Original de José Barata), no caso de Isabel Novella, e “Baila Maria” (de Chico António e Mingas), no caso de Selma Uamusse, ambas as cantoras fazem da música um veículo de viagem por um Moçambique diferente deste e, ao mesmo tempo, expressam quem elas são interiormente. Cantar Barata ou Chico António é mais do que recriar a matriz de um sucesso inquestionável. Cantá-los também é distingui-los num universo de bons músicos, como Jaco Maria, na África do Sul, ou Tony Django, prematuramente perdido. Simultaneamente, essa apropriação criativa de “Xonquile” e “Baila Maria” revela que hoje, em geral, precisamos ainda mais das experiências do passado, do que foi bem feito, de modo que o precipício seja uma palavra cativa nos dicionários.

Ao cantar o seu “Xonquile”, Isabel Novella introduz na música aspectos mais alegre, dançante e técnico, claro, de modo que o tema preserve a sua identidade, mas sem fazer esquecer José Barata. Há sempre uma relação entre as duas versões – nada de problemático –, como também diferenças vocais que valorizam outras formas de cantar a mesma composição. Sem superar a versão de José Barata, a de Isabel Novella sai do texto e esbanja-se, em alguns momentos, na possibilidade de se deixar levar por outros factores que a música permite, sem dizer nada, mas preenchendo os espaços vazios e o silêncio.

Ao contrário de Isabell Novella, que canta nos padrões do original de Barata, Selma Uamusse extravasa a “Baila Maria” que conhecemos, de tal maneira que, os mais distraídos, até podem não se dar conta da recriação, e ouvirem a música como se fosse nova. O instrumental também é muito dançante, agitado e festivo. A timbila de Cheny Wa Gune ajuda, completamente, a manter esse carácter vibrante, arrepiante até. Assim, a música acaba sendo nova, sem deixar de ser velha.

Portanto, temos nestas recriadoras da tradição a renovação de obras importantes para o repertório artístico moçambicano. Ouvir “Xonquile”, de Isabel Novella, e “Baila Maria”, de Selma Uamusse, permite-nos revisitar os “esquecidos” que não devemos esquecer. E esta é uma forma bem conseguida de reproduzir a qualidade e manter-nos perto do nosso passado. Desta maneira, afastamo-nos do efémero e das banalidades sonoras que tanto ensurdecem os nossos ouvidos.

A problemática da descentralização reveste-se de certa complexidade e as questões que no processo suscita são susceptíveis de diferentes opiniões, opções ou soluções. Sem dúvida que umas menos outras mais descentralizadoras. Esta seria uma razão de fundo para a necessidade de um debate amplo que informasse as opções e decisões a tomar em cada momento por quem de direito.

A fragilidade do nosso processo reside justamente no deficit de debate público que rodeou esta problemática, pelo menos até ao envio da Proposta de Lei de Revisão Pontual pelo PR à AR. E o compasso de tempo que é agora reservado a este debate, e as circunstâncias em que o mesmo  decorre, não o facilitam, não lhe são muito profícuos.

Um dos riscos que corremos é o de precipitar conclusões sem termos esgotado as questões. Outro é o de reagirmos às opiniões dos outros, de nos posicionarmos, delas concordando ou discordando, sem termos escrutinado com rigor essas opiniões.

Não tenho que me sentir atingido ou prejudicado por isso, mais do que os outros, mas sinto a necessidade de clarificar onde me pareça não ter sido bem entendido no que pretendi expor. Assim,

I

Do n°2 do artigo 291 e do artigo293

A interpretação que fiz do artigo 293 tinha a ver exclusivamente com o afastamento do prazo estabelecido no n°2 do artigo 291, nos termos do qual «As propostas de alteração devem ser depositadas na Assembleia da República até noventa dias antes do início do debate». Considerei pertinente abordar a questão porque embora o proponente a ela não se referisse expressamente, eu tinha conhecimento de que a sua intenção, subjacente ao entendimento com a contraparte no consenso alcançado, era de que a proposta fosse agendada para ser apreciada e deliberada de imediato. E que a urgência neste caso era incompatível com a observância daquele prazo.

Portanto o que pode estar em causa é a minha interpretação do artigo 293 em conexão com o n°2 do artigo 291, e nunca, como há quem tenha entendido, com o artigo 292 (Limites materiais). Pelo menos naquela abordagem.

O artigo 293 (Tempo) estabelece que «A Constituição só pode ser revista cinco anos depois da entrada em vigor da última lei de revisão, salvo deliberação de assunção de poderes extraordinários de revisão, aprovada por maioria de três quartos dos deputados da Assembleia da República». Há uma interpretação segundo a qual esta assunção de poderes extraordinários de revisão só pode ter lugar unicamente para afastar o limite temporal estabelecido na primeira parte do dispositivo. Que teria o único sentido de excepcionar esse limite-regra, estando vinculado exclusivamente a esse sentido.

Tenho para mim que essa é uma interpretação deliberada e infundadamente restritiva da segunda parte do artigo 293. No meu entender, o dispositivo deve ser interpretado no sentido de que o limite temporal em causa só pode ser afastado em caso de assunção de poderes extraordinários de revisão. Mas não deve ser entendido no sentido de que os poderes extraordinários de revisão são assumidos com o único fim de afastar esse limite temporal. Tal seria caso o objectivo fosse o de se antecipar a revisão ordinária.

Assim, se por via de uma revisão extraordinária, se abrisse para uma revisão geral da Constituição, estaríamos perante uma antecipação da revisão ordinária.

Porém, uma revisão extraordinária não é necessariamente uma antecipação da revisão ordinária. Ela pode corresponder á necessidade de uma intervenção cirúrgica para remover, ou resolver, uma dificuldade consubstanciada em determinados dispositivos. É precisamente o caso vertente em que estamos perante uma revisão pontual. Diferentemente, no caso de antecipação de uma revisão ordinária, uma vez tomada a iniciativa pelo proponente, ela teria que estar aberta às propostas de todos os outros interessados, nos termos do n°1 do artigo 291.

O conceito e conteúdo dos «poderes extraordinários de revisão» depende das razões que justifiquem, fundamentem ou determinem a sua assunção. Portanto o afastamento deste limite não constitui, em si mesmo, a causa, ou causa única, da referida assunção.

Foi precisamente a reflexão sobre a experiência da adopção do AGP em 1992 que levou á inserção da segunda parte do artigo 293.

Com efeito, a Constituição de 1990 já estabelecia, no n°2 do seu artigo 198, o prazo de 90 dias antes do início do debate para o depósito das propostas de alteração. Por sua vez, o Protocolo VI, Do Cessar Fogo, do AGP, estabelecia, na alínea a) do n°5, que «O cessar fogo entrará em vigor no Dia E…O Dia E é o dia da adopção do Acordo Geral de Paz pela Assembleia da República, incorporando-o na lei moçambicana.»

 Daí que, quando em Outubro de 1992, o Presidente Chissano regressou de Roma, face à urgente e inadiável necessidade de imediata entrada em vigor do AGP para se pôr termo à guerra, sem exagero, pode dizer-se que desceu do avião e dirigiu-se à AR para submeter o Acordo á sua aprovação, com as incontornáveis alterações constitucionais que eram pressupostas. Embora não existisse dispositivo que acautelasse a existência de uma revisão extraordinária, na circunstância não era possível observar-se aquele prazo de 90 dias para o depósito do AGP, prévios à sua apreciação e aprovação pela AR.

No subsequente processo de revisão constitucional, que culminou com a adopção da Constituição de 2004, era inevitável ter presente essa emergência que nos levara, em 1992, a uma revisão constitucional fora da estrita conformidade com as normas da Constituição que se impunha observar.

Concluindo: a minha abordagem visava explicitamente afastar o prazo do n°2 do artigo 291 em razão da causa fundamental que é a de se alcançar a paz, e da mais que reconhecida urgência dessa causa, no caso, incompatível com o limite temporal do artigo 293 e também com o prazo do n°2 do artigo 291. Não qualquer outro motivo «oculto» ou obscuro.

II

Da natureza do sufrágio, da alínea e) do n°1 do artigo 292 e do seu n°2

A interpretação que eu faço da alínea e) do n°1 do artigo 292 também não tem a ver com algum presumível objectivo «oculto» de retirar o sufrágio directo «…na designação dos titulares electivos dos órgãos …do poder local.», no caso vertente dos Presidentes das autarquias.

Antes pelo contrário. O consenso entre o PR e o Presidente da Renamo, tal como submetido à AR, é que retira esse sufrágio directo ao estabelecer que passam a ser os Partidos com maioria nas assembleias eleitas quem designa o Presidente. Aí de facto deixa de ser o sufrágio dos cidadãos a designar o Presidente para serem os Partidos.

 Eu referi claramente, no meu texto anterior, que esta designação directa pelos partidos, «…constituiria uma alteração de todos os pressupostos em que assenta a legislação eleitoral e o funcionamento das instituições delas resultantes.» O que iria levantar «insolúveis questões…não só quanto á democraticidade desse processo, como quanto à juridicidade do mesmo para se poder inserir numa Constituição da República.»

Quer dizer que ponho em causa de forma expressa a constitucionalização de um tal modo de designação. Agora explicitando melhor o meu raciocínio, considero como matéria não «constitucionalizável», não sendo nem mesmo subsumível a referendo nos termos do n°2 do artigo 292.

Razões?

 Poria em causa o princípio fundamental, consagrado no próprio frontispício da Constituição, no n°1 do artigo 2 (Soberania e legalidade), nos termos do qual «A soberania reside no povo».

Com a designação pelos partidos a soberania passaria sem dúvida a residir nestes…Ora se a estes cabe, nos termos do artigo 74 (Partidos políticos e pluralismo), expressar «o pluralismo político..», e se «concorrem para a formação e manifestação da vontade popular e são instrumento fundamental para a participação democrática dos cidadãos na governação do país», transferir para eles a titularidade do sufrágio, passando eles a designar directamente os edis ou os governadores, seria exactamente transferir-lhes a titularidade da soberania, que deixaria de residir no povo para residir nos partidos.

Isto não seria subsumível a referendo, nos termos do n°2 do artigo 292, porque violaria flagrantemente o estabelecido na alínea a) do n°3 do artigo 136, nos termos da qual «Não podem ser sujeitos a referendo…as alterações à Constituição, salvo quanto às matérias constantes do n°1 do artigo 292». Como esta alteração afectaria directamente o n°1 do artigo2 da Constituição, logo cairia na alçada da proibição desta alínea a) do n°3 do artigo 136 da Constituição. Isto é, não poderia sequer ser submetida a referendo.

Perante esta dificuldade, que se constituiria em obstáculo insuperável, definitivamente insuperável, considerando a urgência de apreciação e deliberação com que estes consensos são submetidos à AR´, apontei como única via a de se consagrar uma solução que respeitasse o conceito de sufrágio directo estabelecido na nossa Constituição, nomeadamente nos artigos 73, 135 e 275, que consistiria em se adoptar a eleição, tanto dos Presidentes das autarquias como dos Governadores de província, pelo sistema de lista com cabeça de lista, que identifica expressamente este como o candidato ao cargo de Chefe do executivo.

Este sistema salvaguarda o sufrágio directo, tal como defendi no meu texto anterior, e tal como podemos extrair do Direito Comparado. Neste ângulo, é interessante e esclarecedora a entrevista de Michel Cahen na última edição do semanário Savana.

Na verdade, e pelo que consegui colher de fontes ligadas ao processo negocial, a exigência de que sejam os partidos a designarem directamente os edis e os Governadores foi colocada pela própria Renamo, escaldada que ficou com a eleição, por voto secreto, em algumas Assembleias Provinciais dos Presidentes destas.

A eleição pelo sistema de lista, com o cabeça da lista vencedora como titular do cargo executivo, resolve, por um lado, essa preocupação da Renamo, e, por outro, respeita estritamente o conceito de sufrágio directo dos artigos 73 e 135 da Constituição da República, como procurei demonstrar. Haveria apenas que alterar o seu artigo 275 sobre o modo de organização desse sufrágio directo, para se estabelecer que não é em lista separada que se elege o Presidente da autarquia mas na mesma lista em que se elege a assembleia. Que nessas listas se elegem as assembleias, o Presidente e o Governador, mas directamente. Aos partidos, ou aos grupos de cidadãos, cabe apenas ordenar a seu critério as listas que os eleitores votam, antes da sua fixação definitiva pela CNE, tal como acontece hoje nas eleições de deputados à Assembleia da República, para os membros das Assembleias Provinciais e das Assembleias Autárquicas.

Michel Cahen considera que com esse modo de eleição se evita o risco de «bonapartismo» que se corre com a eleição «directa» tanto a nível nacional como a nível local. Acho que este é um convite à reflexão sobre os vícios da instituição de autênticos regulados, em que nós próprios já incorremos, e que nos levaram a «soluções de emergência» que muito pouco tinham a ver com democracia.

 

O poder da palavra

Quem falta morrer em acidente de viação na Estrada Nacional Número 4 envolvendo viaturas particulares e os milhares de camiões que todos os dias circulam por aquela estrada, para de uma vez por todas entendermos que a vida das pessoas vale mais que o dinheiro que podemos ganhar em toda a nossa vida?

Quase todas as semanas há pessoas a morrerem naquela estrada vital na ligação entre Moçambique e África do Sul, aliás a mesma é gerida por um consórcio de capitais moçambicanos e sul-africanos, vítimas de acidentes de viação envolvendo, regra geral, camiões pesados e de longo curso e viaturas de particulares. O mais recente envolveu um casal de jovens, recém-casados e com menos de trinta anos. O casal seguia para o trabalho quando sua viatura foi surpreendentemente colhida por um camião, o esposo perdeu a vida no local e a esposa luta pela vida no leito do hospital.

Impávidos vimos a esposa do anterior ministro das Finanças, Manuel Chang, perder a vida nas mesmas circunstâncias, para não falar de outros milhares de moçambicanos anónimos que morrem quando vão a procura do pão-de-cada-dia para alimentar suas famílias.

Não sei se existe no mundo uma estrada com o tráfego de camiões tão intenso quanto a EN4 a passar no coração de duas cidades sem quaisquer restrições. Tal só pode ter alguém que ganha todos dias avultadas somas de dinheiro com o negócio, porque Moçambique e África do Sul têm ligação via linha-férrea que é bastante para escoar o carvão, ferro e outros recursos para o porto de Maputo.

Não faz sentido que tenhamos uma linha-férrea sub-utilizada para pôr milhares de camiões na estrada e matar moçambicanos. Todos nos tornamos cúmplices daquela carnificina e eu me recuso a sê-lo.

Reitero, mas quem afinal tira lucros com a circulação de camiões na EN4? O seu dinheiro vale mais que as mortes que assistimos? Quem põe basta a esta situação? Claro que não há dúvidas que deve ser o Governo, mas onde está o Governo?

Não podemos continuar a assobiar ao lado e fingir que não vemos as lágrimas de diversas famílias que têm de enterrar seus ente-queridos perante o enriquecimento de alguém. A vida de cada um dos moçambicanos vale tanto o quanto a de quem tira ganhos com a circulação de camiões.

No centro e norte do país estão a ser investidos biliões de dólares em obras de ferrovias para escoar os recursos minerais, porquê não se faz o mesmo com a Linha de Ressano Garcia? No mínimo, se não querem perder dinheiro, que se interdite a circulação de camiões durante o dia, melhor entre as 5 horas até as 20 horas. Este facto, cria embaraços e congestionamentos, mas vale a pena isso que a vida das pessoas que se perdem naquela estrada.

Não podemos olhar para esta situação de ânimo leve, temos de nos rebelar quando pessoas morrem por causas que podem ser evitadas. A dor que abala às famílias vítimas daqueles acidentes deve ser encarada como de todos nós. E não podemos nos calar perante esta situação. Nossas estradas não podem continuar a ser corredor de morte.

Descanse em paz Nelson Chinowawa e rápidas melhoras Teresa Nunes Chinowawa. Descansem em paz todos aqueles que foram vítimas destes camiões assassinos. A vossa morte e o sofrimento de todas as famílias vítimas dos camiões da EN4 têm de nos levar a lutar por uma EN4 livre de camiões assassinos. Abaixo o dinheiro de sangue, que enriquece alguns e deixa na miséria milhares de pessoas.

 Que Deus abençoe Moçambique!

“Fujam camaradas!” – com este grito Areosa Pena, então jornalista do Notícias avisava os colegas das oficinas para um perigo eminente. Qual?

Estava-se a 7 de Setembro de 1974, seis meses após o golpe de Estado em Portugal. As movimentações entre a Frelimo e os capitães de Abril em Lusaka encontravam-se no auge. Porém, em Maputo, o grupo denominado “FICO” tinha tomado a Rádio Moçambique e o alvo a seguir era o Notícias. Os nossos cidadãos, liderados pelos democratas, haviam mobilizado os maputenses para uma greve geral, com concentração num Estádio da Machava, cheio como um ovo, com toda a gente entoado hinos do partido libertador.

Arruaça

Na altura eu era compositor mecânico – operador na máquina linotype – e não tinha bem a dimensão do que se estava a passar. Fugir de quem, de quê e porquê? A quem beneficiaria a tomada do matutino? Aos FICO ou à FRELIMO?

Pelas traseiras, com os restantes colegas, “pernas para que vos quero”, descemos as escadas, duas a duas.

O que se passava então cá fora, diante da sede do jornal?

Um considerável grupo de reaccionários à possibilidade da Independência de Moçambique, vociferava impropérios, colava cartazes e cuspia sobre fotografias do Presidente Samora Machel, atirando pedras que destruíam os vidros da fachada principal da empresa, ao mesmo tempo que colocavam de rodas para o ar todas as viaturas com o timbre Notícias. Um dos maiores pandemónios que presenciei na minha vida.

Eu e outros colegas optamos por recolher às nossas casas, tendo a edição do dia sido concluída por jornalistas e gráficos identificados com os revoltosos.

Fogo na rotativa

Retomada a “normalidade”, regressamos ao trabalho. Porém, dias depois…

A edição estava praticamente pronta para avançar para a máquina de impressão, uma rotativa de 4 corpos, quando um grupo de mascarados invadiu as instalações do Notícias. Dois dos invasores apontando uma pistola, controlavam o aterrorizado porteiro, enquanto os restantes despejavam combustível na rotativa, ateando fogo, para em seguida se porem em fuga. Bombeiros, apoiados pelos operários, com muito trabalho, acabaram debelando as chamas.

Como agora manter a tradição de fazer o jornal chegar às mãos dos leitores, honra e glória daquele matutino?

Técnicos da empresa e operários da Electricidade equacionaram o assunto. A máquina, na plenitude, operava com quatro corpos. Felizmente para nós, apenas dois haviam sido afectados. As outras unidades, com pequenos arranjos iriam funcionar.

Moral da história: num acto que considero de heroicidade por uma causa pública – imprimir, dobrar, entrecalar – o matutino acabou saindo, embora com o dobro do trabalho.

O país vivia então sedento de novidades, a pátria nascia e o tempo era de auto-estima que ficou demonstrada naquela militância… no verdadeiro sentido!

 

Antigo porto, feitoria, entreposto, desterro, presídio e até mesmo lupanar, foi a primeira capital de Moçambique, marco talassocrático do Índico, conheceu o apogeu e o ocaso, a distinção e o opróbrio, a riqueza e a pobreza. Demandada por todos, desde sultões a vice-reis, de almirantes a soldados, de mercadores a negreiros, de clérigos a sátrapas, foi através dos poetas que aprendi a amá-la e a cultuá-la. Percorrendo, sobretudo, comovidamente, a iridescente luminosidade e a melancólica obscuridade dos versos de A Ilha de Próspero de Rui Knopfli, a quem se deve a invenção da mitologia poética da Ilha de Moçambique.

Rui Knopfli: “A fortaleza mergulha no mar/ os cansados flancos/ e sonha com impossíveis/ naves moiras. / Tudo mais são ruas prisioneiras/ e casas velhas a mirar o tédio. /As gentes calam na voz/ uma vontade antiga de lágrimas/ e um riquexó de sono/ desce a Travessa da Amizade. /Em pleno dia claro/ vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique,/ e faço-te estes versos/ de sal e esquecimento.”

Este poema – “Ilha Dourada” – está no primeiro livro do poeta, O País dos Outros, editado em 1959, e servirá, anos mais tarde, de leit motiv para o roteiro poético que haveria de empreender. A Ilha de Próspero – Roteiro Poético da Ilha de Moçambique conheceu a luz em 1972. Poemas e fotografias do autor de Mangas Verdes com Sal, bem como um prefácio luminescente do historiador Alexandre Lobato.

Rui Knopfli: “Ilha, velha ilha, metal remanchado, / minha paixão adolescente, / que doloridas lembranças do tempo/ em que, do alto do minarete, / Alah – o grande sacana! – sorria/ aos tímidos versos bem comportados/ que eu fazia. (…) Mas retomo devagarinho as tuas ruas vagarosas, /caminhos sempre abertos para o mar,/ brancos e amarelos filigranados/ de tempo e sal, uma lentura/ brâmane (ou muçulmana?) durando no ar,/ no sangue, ou no modo oblíquo como o sol/ tomba sobre as coisas ferindo-as de mansinho/ com a luz da eternidade.”

Atente-se a estes versos do poema “Muipiti”: “no modo oblíquo como o sol/ tomba sobre as coisas ferindo-as de mansinho/ com a luz da eternidade.” São versos lapidares. Como o são os versos de um outro grande poeta, neste caso Alberto de Lacerda, que nasceu justamente na “L`isle joyeuse”, como lhe chama. O poema “A minha Ilha”, recolhido no seu belíssimo livro Exílio: “Ilha onde os cães não ladram e onde as crianças brincam/ No meio da rua como peregrinos/ Dum mundo mais aberto e cristalino.”

Estes cristalinos versos foram escritos a 1 de Março de 1963, há 55 anos, na revisitação da Ilha, que haveria de merecer outros versos igualmente luminosos: “Ó minha Ilha de Moçambique/ Perfume solto no oceano/ Como se fosse em pleno ar”, escreveria o poeta no dia seguinte. Li, fascinado, estes e outros poetas: Glória de Sant´Anna, em “Bairro Negro”: “As pequenas casas maticadas/ erguem-se de longe (de séculos, de antigas datas) / contra o mar e as ondas e as algas.” A Ponta da Ilha, sufragada em belíssimos versos de Rui Knopfli, Alberto de Lacerda, Glória de Sant`Anna, Orlando Mendes, entre outros.

Virgílio de Lemos escreveu abundantemente sobre a Ilha. Pertence-lhe, no entanto, esta formulação sinóptica do espanto: “Ilha/ que dorme na utopia/ pródigo mito/ da poesia.” Lapidar! Está tudo dito!

A Ilha como utopia. Outros versos, outras iridescências. Muito antes, a IIha concitara o estro de Tomás António Gonzaga (“A Moçambique aqui vim deportado. / Descoberta a cabeça ao sol ardente; / Trouxe por irrisão duro castigo/ Ante a africana, pia, boa gente”) ou José Pedro da Silva Campos Oliveira. Muitos anos mais tarde, Luís Carlos Patraquim ou Eduardo White, da minha geração, expenderam as suas liras cantando-a. Outros também o fizeram, descubro-o agora:  Mia Couto, Calane da Silva. Rui Knopfli acompanhou Jorge de Sena, em 1972, a uma viagem à Ilha, na qual o segundo presta tributo a Camões (“Camões na Ilha de Moçambique”, um belíssimo poema) -, o primeiro o invocara, entre a elegia aos monumentos, à rememoração das lápides, o preito às igrejas e aos minaretes, ou a alusão expressa aos ocultos filhos de Caliban, na Ponta da Ilha. “Por ali estiveram Camões das amarguras itinerantes/ e Gonzaga da Inconfidência no desterro em lado oposto.”, escreveria Orlando Mendes, em “Minha Ilha”. Campos Oliveira, Orlando Mendes e Alberto de Lacerda nasceram naquele lugar mágico.

Luís Carlos Patraquim: “Aqui me ergo, pendurado em panos às janelas, imagem de despudor sem mim. Porque aqui me esqueço do que me querem. Da história que me fizeram e fui. Olhem estas paredes que respiram! Arfam? Olhem onde não me posso esconder, no laborioso percurso das tardes jogando-me, brincando, obsessivo gerúndio doutra estória às avessas da história, onde não me vissem mais, quando me distraio, viandante de mim nos alvéolos iluminados do tempo.”

Luís de Camões cita-a pela primeira vez em língua portuguesa na sua egrégia obra – Os Lusíadas: “Esta ilha pequena, que habitamos, / É em toda esta terra certa escala/ De todos os que as ondas navegamos, / De Quíloa, de Mombaça e de Sofala, / E, por ser necessária, procuramos, / Como próprios da terra, de habitá-la; / E, por que tudo enfim vos notifique, / Chama-se a pequena ilha – Moçambique.”

Reli recentemente toda a obra poética de José Craveirinha e descobri uma referência à Ilha muito antiga: (“ambos entristecidos ao galope de pés humanos/ sem ferraduras mas puxando riquexós/ só de ver puxar nós também puxamos/ nas transpiradas ruelas antigas/ da Ilha de Moçambique”). Tinha na memória “O Mote de Camões”, mas no poema “Canto do nosso amor sem fronteira”, a que pertencem os versos citados, Craveirinha alude à Ilha. “O mote de Camões” perfaz, por assim dizer, o diálogo magistral entre dois dos insignes cultores da língua portuguesa e da Ilha de Moçambique.

José Craveirinha: “Exausto/ de insónias/ peço ajuda ao bom Luís Vaz de Camões.// O então malquisto exilado português de Muipiti/ senhor de ínclitos dotes na arte do soneto/ generoso empresta-me seu método/ de falar com os bruxos/ no ambíguo tempo/ dos homens”.

“A Ilha dos Poetas” é o título de um poema meu antiquíssimo no qual tentava homenagear, no entusiasmo juvenil que me movia, os grandes poetas que tinham, antes de mim, escrito sobre a Ilha de Moçambique. Foi Luís Bernardo Honwana que me lançou o repto, de co-organizar, com o António Sopa, A Ilha de Moçambique Pela Voz dos Poetas, antologia poética sobre a Ilha de Moçambique. Aquela lírica empreitada permitiu-me alargar o meu parco conhecimento da aventura poética que a Ilha desencadeara. Circunscrevemo-nos a textos de língua portuguesa, aduzindo-lhes parco material em língua inglesa e duas ou três canções macuas. Havia, e provavelmente persiste, uma visão lacunar sobre a Ilha de Moçambique. Há um quarto de século, quando trabalhei sobre a Ilha, tinha a esperança de que uma recente proclamação da UNESCO, como património da humanidade, haveria de franquear-lhe outras possibilidades para o seu destino. Escrevi então no prefácio do livro: “A notícia de que a Ilha de Moçambique agonizava na modorra do tempo e sob as adversidades que obstam ao incremento de um projecto de sociedade na minha pátria sempre me derrotava num impotente dilaceramento. Mas o conhecimento de que esta fora proclamada recentemente património da humanidade pela UNESCO reacendeu em mim essa crença (já obscura) de que aquelas ruínas, que amortalhavam o monumento singular da nossa identidade, teriam remissão”. A esta distância, creio não estar longe da verdade se asseverar que esse destino persiste improficiente ou essa possibilidade adiada, como são adiadas as nossas mais obstinadas esperanças. A sagração da Ilha nunca foi, por conseguinte, ao arrepio do seu abandono. Antes pelo contrário, actuou como consciência de que era precisa fazer algo. Também por isso, esta alusão, esta celebração, não pode nem deve ignorar quem lá habita.

Não cultivava, a despeito, a veleidade de que aquele livro ou um outro qualquer pudesse fazer muito para intervir directamente no melhoramento da vida daqueles que lá remanescem, nem esse era o seu escopo, mas tenho a ilusão (uma vez mais) de que talvez tenha tinha do lastro que lançou sobre o génio dos poetas alguma benesse.  Li recentemente muitos outros poetas que sobre a Ilha se debruçaram: um poema de Mia Couto ou os versos de Calane da Silva, também eram inéditos para mim. Conhecia o fascínio do Eduardo White, o seu conhecido encantamento pelo Oriente, e nessa busca ele não ficara incólume ao fascínio pela Ilha de Moçambique. Segue-se-lhe Sangari Okapi, entre outros. Hoje abundam textos sobre a Ilha, da época em que organizámos aquela antologia – cotejamos, certamente, os nomes mais importantes e que ainda hoje permanecem – mas agora podemos ter o benefício de poetas mais jovens.

Eduardo White: “Amo-te sem recusas e o meu amor é esta fortaleza, esta Ilha encantada, estas memórias sobre as paredes e ninguém sabe deste pangaio que ao Norte e na Ilha traz um amante inconfortado. Em tudo habita ainda a tua imagem, o m'siro purificado da tua beleza e das tuas sedes, a rosa dos ventos, o sextante dos tempos, em tudo acordas de repente como se ardesses naus, garças, águas, ouros, pratas, vagas, escravos ausentes, tudo o que esta Ilha que ao Norte, nos pode lembrar. Deito-me, assim, sobre o Sol com a praia funda em meu pensamento.”

Eduardo Pitta escreveu sobre a Ilha e não sei explicar a sua exclusão na nossa antologia, nem em recolhas ulteriores. Pertencem-lhe estes belos e melancólicos versos: “Aqui fazemos o circuito/ inevitável das coisas ociosas/sem sentido.”. Pitta, nascido em Lourenço Marques, é assumidamente poeta português. Isso não seria razão bastante para não incluí-lo. Camões, antes de todos, está representado. À época não tinha sido escrito o belíssimo poema “Áfricas”, do meu amigo Luís Filipe Castro Mendes – incluído no seu livro Modos de Música, senão estaria certamente antologiado. Lembro-me de conversarmos sobre o maravilhamento comum da Ilha aqui há muitos anos. Como me recordo da conversa emocionada com o Francisco José Viegas, que a visitou depois e escreveu um belíssimo texto sobre ela. Castro Mendes ou Francisco José Viegas são dois nomes importantes da literatura portuguesa. A Ilha não é, por conseguinte, apenas património poético nosso. O notável poema, que nobilita a Ilha, e que a seguir transcrevo, demonstra que a Ilha pertence a todos.

Luís Filipe Castro Mendes: Não se faz da memória um novo amor, / por isso nada em mim te procurava. /Não te sonhei sequer quando criança, /teu nome não brilhava como estrela.// Porque amor é só feito de surpresa, /mais nos agarra quando nunca o vimos. /Para mim teu país no mapa era/ uma confusa mancha de incerteza. // A guerra, a solidão, fim do Império, / vieram dar o rosto da tragédia/ ao que eu nunca sonhara como história // que fosse pessoal. Coube-nos todo/ este peso da História e esta surpresa/ de te reconhecer como eu respiro.”

Paixão adolescente, memória ou novo amor, canto sem fronteira, paraíso onde os cães não ladram, e as crianças brincam como peregrinos, exílio ou refúgio perdido, utopia, demandada por todos, disse-o, desde sultões a vice-reis, de almirantes a soldados, de mercadores a negreiros, de clérigos a sátrapas, esta Ilha convoca e invoca uma sintaxe poética marcada pela exuberância das suas cores, pela beleza das suas mulheres ou pela alegria das suas crianças, e pela nostalgia das suas sombras, das suas ruas, onde o sol toca as coisas ferindo-as de mansinho, com a luz da eternidade, ou na cidade de Macúti – permitam-me a exorbitância da linguagem – onde não se pode obliterar as precárias condições de vida de muitos que nela habitam. Lugar de encontro, portanto, onde se fala árabe, swahíli, macua, português, eu sei lá…! lugar da diversidade e, não raro, da adversidade, utopia, disse-o, mas também distopia, hierático mosaico cultural moçambicano, sempre por descobrir e celebrar. Ilha de poetas, de grandes poetas, digo. Se a Camões, que nela se atardaria dois anos, pertence a primeira citação na nossa língua, devemos, sobretudo, a Rui Knopfli e ao seu nobilíssimo A Ilha de Próspero (reitero) esta singularíssima mitologia poética que se engendrou à volta Ilha: “À nossa volta sobram os templos e os deuses.” (Knopfli dixit.)

Termino, este texto redigido ao som de Mama Mosambiki, dos Eyuphuro, e com a poderosa e melancólica voz de Zena Bacar, citando uma canção popular, numa versão livre em português, a partir de uma transcrição em macua, ambas estão na aludida antologia A Ilha de Moçambique Pela Voz dos Poetas: “De longe esta Ilha parece pequena/ Esta Ilha é grande. / Tem longa história desde os habitantes aos seus monumentos/ Não nos é possível contar-vos tudo quanto temos/ Pois há outros que querem também falar-vos/ Se ainda quereis ouvir algo nosso/ ficais muito tempo nesta Ilha. / Assim mostrar-vos-íamos a rua de fogo/ aonde vós nunca chegastes.”

 

Introdução

Depois de tanta incerteza, também ditada pelas circunstâncias próprias do diálogo e das negociações, chegou-se a um ponto em que foi possível tornar públicos alguns consensos e submete-los à AR.

O aspecto que me parece transcendente é que finalmente se deu um passo significativo, na medida em que se definiu a direcção e o objectivo a alcançar. Pelo que doravante não se vai mais discutir se avançamos ou não com a descentralização. O que se pode e deve discutir agora são as formas, o grau e o ritmo do processo.

Por isso me parecem precipitadas, ou excessivas, as críticas que proclamam tratar-se de um total retrocesso da democracia.

Penso que devemos ter uma perspectiva crítica, esse é um direito e um dever, porque afinal estamos a discutir o nosso próprio futuro, o que queremos ser e como queremos ser. Daí que todo o cidadão tem direito á palavra.

Por razões que todos gostaríamos de poder escrutinar, não houve, infelizmente, uma fase de socialização desta problemática, nem nos partidos nem na sociedade em geral.
Mas como o debate na AR é o momento em que se vai proceder ao «aprimoramento» ou «aperfeiçoamento» do documento submetido, é nesse compasso que a sociedade tem oportunidade de contribuir no debate, fazendo ouvir a sua voz, melhor, as suas vozes, às quais certamente os deputados estão e estarão atentos.

É neste espírito e contexto que junto a muitas outras opiniões a presente abordagem.

Das muitas questões que a Proposta de Lei de Revisão Pontual da Constituição submetida à AR pelo PR, no dia 9 de Fevereiro de 2018, tem suscitado, considero necessário, pela sua importância crucial, destacar três, de cuja solução depende a garantia de uma revisão juridicamente coerente e democraticamente aceitável. Trata-se das seguintes questões:

1.    A questão da observância ou não do prazo do nr°2 do artigo 291 da Constituição;
2.    A questão da necessidade ou não da dupla revisão;
3.    A questão da composição dos Governos Provinciais, dos Governos Distritais e dos Conselhos autárquicos.

I
Da observância ou não do nr°2 do artigo 291
O nr°2 do artigo 291 fixa um prazo de 90 dias, antes do início do debate, para o depósito das propostas de revisão. A aplicar-se este prazo ao caso vertente, o debate só poderia ter lugar em Maio, provavelmente depois, ou então em cima, do encerramento da sessão da AR, com o risco de sobreposição com os prazos do calendário eleitoral.

Porém, esta questão só é suscitada pelo erro na indicação do dispositivo aplicável ao caso. Com efeito nós estamos perante uma proposta de revisão, a um tempo pontual e extraordinária, a qual deve ser feita, não ao abrigo do nr°2 do artigo 291, mas ao abrigo da segunda parte do artigo 293 (Tempo). Portanto o que a AR deve fazer é assumir, por via de deliberação, os «poderes extraordinários de revisão, aprovada por maioria de três quartos dos deputados da Assembleia da República» tal como previsto neste dispositivo.  
Assim, este é um falso problema.

II
A questão da «dupla revisão»

É pacífico que qualquer revisão constitucional deve fazer-se com observância da própria Constituição. Uma vez que a Constituição estabelece limites materiais ao poder de revisão, estes deverão ser respeitados sob pena de inconstitucionalidade. Salvo se, previamente, e antes de a AR entrar na apreciação e deliberação sobre a presente proposta, proceder á alteração dos limites materiais que a obstaculizem.
Porém, ainda, no nosso caso a Constituição estabelece, no nr°2 do artigo 292, que as alterações aos limites materiais «são obrigatoriamente sujeitas a referendo». Assim, o referendo afigurar-se-ia como uma barreira intransponível, pelo menos em tempo útil, para a viabilização da presente proposta de revisão.
Contudo, para entendermos a natureza da dificuldade com que nos confrontamos e o seu carácter, superável ou insuperável, temos que lançar mão de elementos extra-constitucionais que levam, neste caso, a relativizar o próprio texto da Constituição. Assim,

1.    O presente texto da Constituição formalmente resulta de um processo de revisão, tendo sido adoptado por uma maioria de dois terços dos Deputados da AR.
2.     A AR que adoptou o presente texto não foi uma Assembleia Constituinte eleita para o efeito, mas foi a Assembleia ordinária assumindo poderes de revisão.

A questão, que é imperioso colocar, é: se a presente AR tem precisamente os mesmos poderes de revisão que aquela que adoptou a Constituição de 2004, isto é, nem mais nem menos poderes, como se pode tomar como intransponível uma condição que funciona como um super-limite, na medida em que cobre todos os outros limites? Que funciona como imposição de uma limitação aos poderes de revisão da actual AR que, como disse, tem exactamente os mesmos poderes da AR que em 2004 adoptou a presente Constituição?

Tal só seria admissível se aquela AR de 2004 tivesse sido uma Assembleia Constituinte, eleita como tal, ou, não o sendo, tivesse submetido a referendo o texto constitucional.

Não se tendo verificado nenhuma das referidas circunstâncias, forçoso é concluir que a presente AR pode alterar, tanto os limites constantes do nr°1 do artigo 292( o que, aliás, tem sido a prática em relação à Constituição Portuguesa, matriz da moçambicana) , como o próprio nr°2 desse dispositivo, sem o condicionalismo do referendo, em processo de revisão prévia ou autónoma.

III
Da desnecessidade de «dupla revisão»
Sem prejuízo de quanto acaba de ser dito, a suposta necessidade de se proceder por via de uma «dupla revisão», como condição para se avançar com a presente Proposta de Revisão, decorre de se considerar que a alteração do modo de eleição dos presidentes dos municípios, da actual «eleição directa», nos termos do nr°3 do artigo 275 da Constituição( o qual estabelece que «O órgão executivo da autarquia é dirigido por um Presidente eleito por sufrágio universal, directo, igual, secreto, pessoal e periódico dos cidadãos eleitores residentes na respectiva circunscrição territorial»), para uma eleição por via da Assembleia da autarquia, violaria o limite material estabelecido na alínea e) do nr°1 do artigo 292.
Vejamos o que estabelece esta alínea e), a saber:
«As leis de revisão constitucional têm de respeitar:
………………………………………………………………………………..
e) o sufrágio universal, directo, secreto, pessoal, igual e periódico na designação dos titulares electivos dos órgãos de soberania das províncias e do poder local;»

Para dissipar equívocos desnecessários esclareça-se desde logo que «titulares dos órgãos» são o PR, os Deputados da AR, os membros das Assembleias Provinciais, os membros das Assembleias autárquicas e os Presidentes das autarquias.

Ora os cidadãos exercem o direito de sufrágio, nos termos desta alínea e), tanto quando votam em boletins separados, um para a Assembleia e outro para o candidato a Presidente do Município, como quando votam num único boletim e numa lista para todos os titulares. O que se exige neste último caso é que haja a clara e explícita individualização de quem no boletim de voto é o candidato a Presidente. E universalmente a forma de designação do candidato, neste caso, é por via do cabeça-de-lista. Mas isso tem de constar imperativamente na própria Constituição. E nesse caso continuamos a ter «sufrágio universal, directo, secreto, pessoal…»

Tanto assim é que não ocorreria a ninguém considerar que o sistema vigente na RAS, nos EUA, em Angola ou nas autarquias em Portugal, não respeitasse o princípio do «sufrágio universal, directo, secreto, pessoal…», quer porque, nos casos da RAS, de Angola e das autarquias em Portugal (vejam-se no caso de Portugal, o nr°3 do artigo 239 e a alínea h) do artigo 288 da Constituição), sejam os cabeças de lista, quer porque, nos EUA, seja um colégio eleitoral eleito pelos cidadãos a designar o Presidente!

Portanto a alteração, se for feita nos termos aqui expendidos, rigorosamente não viola a alínea e) do nr°1 do artigo 292, porque a eleição não deixa de ser directa (contrariamente ao equívoco que se está a generalizar sobre o que é uma eleição directa…). Apenas altera o modo como se organiza o sufrágio, sem lhe retirar os elementos essenciais contidos naquela alínea e). Mas, no caso vertente, constando o modo específico de organização do sufrágio no nr°3 do artigo 275 da Constituição, haveria sim que se alterar este dispositivo, sem necessidade de se mexer nos limites materiais, logo sem se enveredar pelo mecanismo da «dupla revisão».

O que já não colhe se forem os partidos com maioria nas Assembleias a designarem directamente os Governadores ou os Presidentes dos Municípios, independentemente da ordem em que estiverem nas listas submetidas à CNE e tornadas públicas. É preciso ter presente que estas listas, uma vez aprovadas e publicadas pela CNE, são inalteráveis durante todo o processo eleitoral e durante todo o mandato dos órgãos eleitos.
Pelo que, nesta hipótese de designação directa pelos partidos, que constituiria uma alteração de todos os pressupostos em que assenta a legislação eleitoral e o funcionamento das instituições delas resultantes, seria inevitável a «dupla revisão». E não vou discorrer aqui sobre as insolúveis questões que se levantariam não só quanto á democraticidade desse processo, como quanto á juridicidade do mesmo para se poder inserir numa Constituição da República.
IV

Da composição dos Governos Provinciais
A questão da composição e do funcionamento do Governo Provincial, na Proposta designado de «Conselho Executivo Provincial», está omissa, levando a pensar que é tacitamente remetida á lei ordinária.

Considero que a ser assim, tudo continuará a passar-se como até aqui, isto é, tal como nas autarquias com os Presidentes dos Municípios, o Governador que sair das eleições, irá designar a seu critério os restantes membros do Governo. Do que vai resultar invariavelmente uma composição monopartidária, independente da composição pliuripartidária da Assembleia respectiva.

Ora, a ser assim, não se terá dado absolutamente nenhum passo para a inclusão de que tanto se fala, nem se terá criado o espaço de convivência e coabitação que é essencial para a reconciliação. O critério do «the winner takes all» é por definição excludente, não abre caminho nem á inclusão e ainda menos á reconciliação. E está visto que estas questões, enquanto ficarem apenas dependentes da boa vontade das pessoas, não passarão de meros discursos sobre inclusão e sobre reconciliação.

É imperioso que a Constituição e as leis estabeleçam as balizas fundamentais que nos levem a realizar a inclusão e a reconciliação.

Com efeito não faz sentido que numa Província em que um partido elege o Governador, porque ao nível da Assembleia ganhou 51% dos assentos, ficando os restantes 49% com os outros partidos concorrentes, o Governo seja constituído apenas pelo primeiro partido.

A este nível é do interesse de todos os partidos, e dos cidadãos em geral, que na composição do Governo esteja reflectida de forma proporcional a composição da própria Assembleia. Assim a governação ao nível provincial, distrital e autárquico, reflectiria a situação real de cada um desses níveis, na sua complexidade e diversidade.

Certamente que para se viabilizar a governação poderá haver a necessidade, e em função dos resultados eleitorais de cada lugar, de fazer coligações pós-eleitorais. Isto é o que decorre da descentralização e da autonomia, porque a descentralização não é meramente administrativa: é descentralização política, e como tal, a diversidade política reflectir-se-á na vida das instituições dela resultantes.

Só nestas condições fará sentido afirmar que «o País não será o mesmo», para significar que teremos uma nova maneira de fazer a política no nosso País. Uma maneira verdadeiramente nova, aberta à inclusão de todos e à reconciliação entre todos os moçambicanos.

Por isso, não bastará, a meu ver apenas consagrar o sistema de lista e do cabeça de lista. É preciso pôr de lado o critério de que ganha quem tiver maioria absoluta, isto é, mais de 50%. Um partido, ou grupo de cidadãos, podem ganhar com uma maioria relativa. A solução não é ir-se a uma segunda volta, num oneroso «tira-teimas» (imagine-se o cenário, não numa autarquia, mas á extensão de todos os distritos e autarquias do País) … A solução é negociar uma solução pós-eleitoral que viabilize a governação. Negociar a coligação a que nos referíamos atrás.

Ao entrarmos nesta nova fase do processo de descentralização é preciso termos consciência de que não é um processo instantâneo, que se desencadeia num momento e, logo no momento seguinte, se chega ao estágio final dessa fase. A questão que é inevitável abordar é sobre o regime de transição, que é preciso definir, entre  a Revisão da Constituição e a implementação completa de todas as implicações desta fase da descentralização. Por exemplo, sobre a designação dos membros do Governo Provincial, entre a situação actual e a que vai prevalecer com a conclusão da implementação da descentralização a esse nível. Ou, no que se refere aos distritos, entre a situação actual e a que vai prevalecer em 2024 (ou 2023…). Esta questão é inadiável, deve ser abordada agora e têm que ser definidos agora os princípios desse regime de transição de forma que, desde já, a mudança se comece a verificar, e a descentralização não fique vazia de conteúdo.
Dada a complexidade desta questão é de se considerar a adopção de uma lei de transição e de gestão da transição, criando-se uma Comissão de Implementação ou de Monitoria do processo, eventualmente integrada também por personalidades de fora dos partidos, para se reduzir a margem de manobra ou de controvérsia partidária.

Então, fazer descentralização para configurar o País do futuro, não para reproduzir o País do passado, não para reproduzir indefinidamente as fontes de todas as conflitualidades que nos dividem e que nos armam uns contra os outros, eis a dimensão do desafio que a todos se nos coloca.

 

 

 

Ali está a Augusta. Pela justiça dos olhos parece uma moça normal. É uma ruína humana escura habitada por corvos de incerteza e fungos de medos. Pela manhã, a Augusta, lava o branco da sua dentadura com intervalos com uma escova, borda o rosto com o colchete das suas tintas, esconde a gordura das bochechas com pequenos remendos de sorrisos, prende o tecto do seu cabelo com pregos de rolos, pinta com um pincel a rolo as paredes dos lábios e desenha interjeições nas suas sobrancelhas; e vai à casa do namorado.

Em casa do namorado ouve “Olhos Sonhadores” de Doppaz enquanto ele rasga-lhe suavemente os seios com as unhas de desejo. A cama do namorado é um mar; seus corpos barcos perdidos sem tripulantes. O corpo da Augusta nu é a ração humana que alimenta o leão que vive nos gemidos do namorado. Os brincos dela amassam-se na cabeceira com o tic-tac do relógio do namorado; o seu sutiã adormece no ronco do chulé das peúgas do seu namorado. Amam-se de dia porque de noite Augusta entrega as latitudes da sua nudez a um geógrafo oculto.

Já é noite. Augusta o sela o seu sorriso com um beijo no portão da casa do namorado. Assim toda a inspecção masculina, na rua, não terá espaço.

Chega à casa; a avó ajuda-lha a arrumar-se: limpa os dentes com raízes secas, as lágrimas são os pincéis que limpam a maquilhagem no rosto, suas bochechas calçam rugas de amargura, prende o cabelo com um pedaço de um tecido vermelho, os colares caiem e amuletos crescem nos seus pulsos e enfeita o pescoço com um colar de ossos e moedas com sangue.

A batucada cresce dentro dela. “Minha neta uma dia isso vai acabar”. Avança Augusta para a palhota com lâmpadas de escuridão. Semi-nua arranja a esteira velha com o lençol lavado pela curandeira. Varre o quarto enquanto entoa as canções que o seu marido da noite gosta. Lembra-se que os mortos têm pressa. Deita o seu corpo e faz sonho com seus bocejos de impaciência. Seus seios são duas gotas de cera descendo na vela do seu corpo. Dorme enquanto aguarda o seu marido espiritual.
 

 

Nasceu a 15 de Fevereiro de 1924, na vetusta Lourenço Marques – passam hoje 94 anos -, morreu a 11 de Junho de 2009, aos 85 anos. Era conhecido, sobretudo, como fotógrafo – repórter fotográfico ou fotojornalista -, dos mais talentosos que Moçambique viu nascer. Chamava-se Ricardo Achiles Rangel. Tinha origem afro-asiática, filho de enfermeiros, o que lhe permitiu deambular por muitas províncias do país. Viveu também com a sua avó negra durante grande parte da sua juventude. Desde muito cedo que tinha a paixão pela imagem, o que fez dele, mais tarde, um grande fotojornalista, com um olhar sublime, não só para a bitola do país, mas ao nível do continente africano. As suas fotografias, os instantes que capturou são surpreendentes e reveladores. Ele ajudou a fazer o primeiro rascunho da História numa determinada época, história de grande parte do último quartel do século XX moçambicano. A despeito, cultivava outras paixões e hoje, ao recordá-lo, quero referi-lo como amante vigoroso de jazz. Assinalo, porém, que fui editor de dois dos seus livros: Pão nosso de cada noite, título dado pelo José Craveirinha, que lancei na Marimbique, em 2004, e, em 2014, justamente dez anos depois, iria publicar Ricardo Rangel: Insubmisso e Generoso, edição coordenada pelo ínclito Luís Bernardo Honwana, numa iniciativa da Henny Matos, da Kulungwana. A despeito do título, pilhado do seu livro, quero falar do jazzista. Aliás, seria despiciendo argumentar que na Rua Araújo também se ouvia jazz, blues, marrabenta, entre outras expressões musicais. Há belíssimos poemas, desde o Reinaldo Ferreira ao José Craveirinha, sobre as bêbadas, lascivas e estereofónicas noites daquela rua onde esplendiam os seus lupanares e as personagens que a fizeram.  

Foi através de um marinheiro – dos muitos que expendiam os seus dias em Lourenço Marques -, oriundo de frotas que protegiam os comboios navais da rota da Cidade do Cabo, que Ricardo Rangel se ria defrontar com uma das suas paixões electivas – o jazz. A sua “afición” pelo jazz é lendária. Foi um jazzista exemplar sem tocar um único instrumento. Foi também um coleccionador impenitente de LP de jazz. Impenitente e intransigente, digo. Talvez seja o moçambicano que mais discos de jazz de 78 rotações deteve. Conhecia – até pessoalmente – alguns dos maiores jazzistas da sua época – de todas as épocas. Posso dizê-lo – e isso não significa nenhum afoito – que Ricardo Rangel é um dos responsáveis pela introdução e disseminação do jazz em Moçambique. Aqui está outra dívida que o país tem para com ele.

Ricardo era um rebelde, um iconoclasta, não abdicava de intervir, rebelava-se contra a injustiça, denunciava-a, um homem probo (lá está um vocábulo raro no dicionário da nossa contemporaneidade!), um repórter genial, absolutamente genial. Cartier-Bresson, que fundou em 1947 a famosa agência Magnum, com Robert Capa e outros, falava no “instante decisivo”, como um dos fautores da História. As imagens do Ricardo são-no cabalmente. Tem fotografias que estão nos anais da História. Instantes brutais. Fotografias corajosas. Ter convivido com ele, a despeito do seu génio difícil, foi um dos privilégios da minha vida. Ouvir as histórias que estavam na origem daquelas imagens inolvidáveis. Por vezes, era colérico. Irascível. Abominava o que era mediano. Vi-o muitas vezes vituperar a mediocridade que grassava – e grassa ainda hoje! – na nossa pátria, desde o paupérrimo jornalismo que se praticava, ou se pratica, à ausência dele – dizia-me o Ricardo que o jornal “Notícias” se tinha transformado num jornal de anúncios classificados. Vociferava, zangado, contra o estado das coisas – o lamentável estado das coisas, digo eu. Muitas vezes, fui testemunha de conversas entre ele e o José Craveirinha, ali na Mafalala, na casa do Poeta – tantas vezes na companhia do inesquecível amigo Dr. Óscar Monteiro (o médico) -, algumas das quais, absolutamente hilariantes – então sobre os malefícios da idade nos homens, nem vos falo! Era um grande conversador. Um homem enfático. Um homem que sublinhava as coisas. Um homem vigoroso. Obstinado. Sempre insatisfeito com o que fazia, procurava superar-se. Sabia ser afectuoso. E era-o.

Recordo que o Ricardo Rangel tinha um grande prazer na vida, em viver a vida. Recordo-me do seu riso, da sua expressão, dos seus olhos orientais enquanto ria. Dos zigomas marcados no rosto. Tinha alegria e vivia com alegria e isso não contradita em nada com o homem, por vezes ríspido, que nos confrontava profissionalmente. Era doce no convívio. Não esqueço uma festa em casa dele, uma festa de anos, com bom jazz, vinho e a vista sobre o Índico, somado a isso as suas magníficas histórias. Era um belíssimo contador de histórias. Um repórter conta histórias e ele foi-o toda a vida. Deve ter-lhe custado horrores a última fase, quando teve amputada uma perna. Mas não ficou em casa. Continuava a dirigir o Centro de Fotografia que fundara, tendo a mulher, Beatrice, como braço direito. Aliás, quando o Mestre morreu, foi ela quem o substituiu na direcção daquele Centro – agora também afastada pela doença. Eu fui frequentador do Centro. Ali admirava o país, as suas metamorfoses, as suas idiossincrasias. Ali organizei alguns livros de fotografia. O Ricardo um dia ofereceu-me uma fotografia, da série que eu viria a editar, de uma mulher, cujo olhar melancólico atinge-me, com contundência, ainda hoje. Uma mulher de uma beleza incrível, de vestido e gabardina, com a mão esquerda na cintura, na Rua Araújo – hoje Bagamoio, rua que frequento amiúde, em horário diurno (sublinhe-se) pois nela se situa uma das melhores tascas da baixa, onde um orgulhoso ferroviário, como eu, pica o ponto ao almoço. Aquela imagem daquela mulher ainda hoje me dilacera e, quando percorro aquela rua melancólica, recordo-me daquele seu olhar tímido e penetrante, no entanto perturbador. Naquele olhar ressoava um velho blues. Naquele olhar ficou inscrito um gesto de amizade do Ricardo. Guardo a fotografia e a dedicatória.

Alguma da nossa “tradição” (à falta de melhor termo) jazzística devêmo-la a ele – disse-o e repito-o. Foi um activista do jazz, divulgou-o, organizou sessões de jazz ao vivo, comentou o estilo musical na rádio, num programa remoto com o John Marley, foi um comprador compulsivo de discos de jazz, viajou ao encontro dos seus mitos, esteve com Dizzy Gillespie, Miles Davis, Theleonious Monk, Ornette Colleman, entre outras legendas do jazz. Fotografou-os. Os lugares de culto de jazz nesta cidade guardam a sua presença: o Topázio, o Zambi, o Sanzala, o restaurante da Costa do Sol ou a Princesa, ou até mesmo o Espaço Arco Íris do pintor Noel Langa, na mítica Munhuana da minha infância, ou no Chez Rangel, na velha e hierática estação dos Caminhos de Ferro, na baixa, onde labuto. A sua presença, em todos os lugares, era inspiradora. Incondicional do Bebop, conhecia os mais diversos estilos de jazz. Como ninguém.

Memphis Slim (pianista, blues man americano – morreu em 1988), Chris McGregor (compositor e pianista) e Dudu Pukwana (saxofonista), ambos sul-africanos, desapareceram no mesmo ano (1990) ou Dollar Brand (hoje Abdulah Ibrahim, que encontrei aqui há tempos e com ele falei brevemente no aeroporto de Joanesburgo, sob o olhar espantado da minha filha que nos tiraria uma fotografia), quando visitaram Moçambique e aqui tocaram, cumpliciaram com Ricardo Rangel. Dollar Brand, aliás Abdullah Ibrahim, descobriu em casa do Ricardo Rangel um exemplar do seu primeiro disco, que ele próprio não possuía. Não o vi tocar, mas ouvia “Mannenberg” obsessivamente. Era o hino anti-apartheid e isso diz muito à minha geração. Só muitos anos depois, em Joanesburgo e na Cidade do Cabo, eu iria ver tocar o legendário pianista.

Estranhamente, ou por timidez, ou por algum complexo, não sei, no meu longo convívio com ele, falei pouco de jazz com o Ricardo. Dou-me conta hoje de que gostava de ter conversado com o Ricardo Rangel sobre o deus do trompete Miles Davis, ou sobre o pianista Count Basie, o trompetista Dizzy Gillespie, ou sobre o pianista Theleonious Monk e do seu genial “Hacksensack”. Ter-lhe-ia perguntado sobre Herbie Hancock, o que ele achava de “Maiden Voyage” ou “ Cantaloupe Island”. Vi-o tocar. Como vi Ron Carter tocar “So What”, em honra do velho Miles. Ambos foram companheiros de Davis. Como foi do jovem Marcus Miller: oiço-o tocar “Full Nelson”, “Tutu”, “Gorée” e, sobretudo, “Maputo”. Poderia ter perguntado sobre outro genial saxofonista – John Coltrane (sou indefectível de “Naima” ou “Blue Train”). Ou de Bill Evans, outro exímio pianista que tocou com Miles em Kind of Blue. Poderia ter ouvido com ele “Take Five”, de Paul Desmond, tocado pelo quarteto de David Brubeck, ou Dizzy Gillespie e Thelounious tocando “A Night in Tunisia”. Ou mesmo Miles, do “All Blues”, cujo som me espantou em pleno passeio na Greenwich Village, em Nova Iorque, certa vez. A minha memória de Nova Iorque é o trompete de Miles Davis. Que ele achava de Billie Holiday a cantar “You´re my Thrill”, ou Nina Simone em “I loves you Porgy”. Tê-lo-ia ouvido falar de “St. Louis Blues” na voz de Louis Armstrong. “Take the a Train” na gravação de Duke Ellington. Queria tê-lo ouvido falar das composições de Cole Porter ou de George Gershwin. Haveria muito para ouvir dele. Não o fiz por acanhamento. Diante de um vulto tão grande ficamos paralisados e não sabemos discernir. Nunca discuti ou falei de poesia com Craveirinha, ou com Knopfli, ou com Noémia. Falávamos das coisas banais da vida e eu ouvi-os com denodo. Não me permitia pôr-me em bico de pés e querer discutir literatura com eles. Foi assim também com o Ricardo. Como discutiria jazz com ele? Bastava ouvi-lo e agradecer essa benesse.

Um dia, contou o Ricardo Rangel ao falar do seu encontro com os magos do jazz, estivera num espectáculo, em Portugal, nos anos 70, onde o contrabaixista americano Charlie Haden dedicou a sua “Song for Che” aos combatentes pela liberdade em Angola, Moçambique e Guiné, o que originou a sua prisão no aeroporto de Lisboa no dia seguinte. Esse episódio é mítico e seria lembrado quando Haden morreu em 2014. Na época da minha conversa com o Ricardo Rangel eu ouvia “Nocturne” e não me atrevi a dissertar sobre aquele outro vulto do jazz que inspirava as minhas noites nos anos 90. Poderia ter falado da minha paixão pela bossa nova e por António Carlos Jobim. Ou do encontro de Jobim e Frank Sinatra. Eu ouvia Abbey Lincoln (regresso amiúde a “A Turtle´s Dream”), Dianne Reeves, Diana Krall, Dee Dee Bridgewater, entre tantas outras. Não lhe falei delas. Hoje eu falaria do americano Gregory Porter, do camaronês Richard Bona, da norueguesa Inger Marie, da brasileira Luciana Souza, do cubano Roberto Fonseca ou do americano Kenny Garrett. Ou da Lizz Wright ou da Norah Jones ou da Esperanza Spalding.

Enquanto faço esta breve evocação do meu bom amigo Ricardo Rangel – porque a vida permitiu-me o privilégio de ter entre amigos gente de boa cepa e eu sou grato a essa verdadeira prebenda – oiço um belíssimo CD, que me acompanha há séculos, que junta os talentos de Herbie Hancock, Michael Brecker e Roy Hardgrove – Directions in Music – Celebrating Miles Davis & John Coltrane. O alinhamento é fabuloso: “The Sorcerer” (Hancock), “The Poet” (Hargrove), “So What/Impressions” (Davis-Coltrane), “Misstery” (Hancock, Brecker, Hargrove), “Naima” (Coltrane), “Transition” (Coltrane), “My Ship” (Well-Gershwin), “D Trane” (Brecker).  Acho que o Ricardo ouve comigo, lá onde está, este disco, esta noite.

Velho Tembe é guarda duma loja na baixa da cidade. Segura um chamboco na mão esquerda, a direita usa-a para abrir a porta aos chefes e na cintura um par de algemas espreita. É um velho que se divide durante todo dia; dorme metade do sono em casa e a outra no serviço. Controla a massa de gente na loja, em pé, enquanto de tempo em tempo gerencia a sua banquinha de pastilhas, mentas e cigarros.

Ao meio-dia lava carros de chefes enquanto à distância os olhos vigiam a porta da loja. Rola os círculos das moedas que recebe para o interior das peúgas. Com seu balde na mão faz uma diagonal na estrada. Puxa uma cadeira e senta-se. Senta-se sempre que os chefes fecham as portas da loja. Estica o auricular para o ouvido e faz-se adepto duma partida de futebol. Murmura a cada falha e assiste eufórico ao jogo pelos olhos do locutor.

Termina o jogo. Começa uma partida de cartas com um colega seu. Riem-se enquanto baralham o sono e a noite nas cartas. O escuro torna-se gigante nas avenidas. Os dois matam a saudade das suas damas iniciando uma partida interminável de dama. Trocam cigarro em cada partida e espionam o sono de cada um.

O colega do velho Tembe cai de sono no peito do tabuleiro da dama e põe um ponto final à partida. Tembe dobra-se e obriga a camisola a cobrir os pés. O gorro com duas janelas para os olhos e uma porta para o nariz cobre-lhe o rosto inteiro. Adormece profundamente na cadeira. Um conjunto de cães que alarga a vagina duma cadela acordam-no constantemente. Lembra-se que os cães e ele têm a mesma função, logo arranca o seu motor de roncos e saliva dentro do seu gorro preto.

Os noivos das algemas chegam e amarram-no enquanto dorme. Espancam-no até a morte. Morre dentro do sono. Violam a loja e limpam todas prateleiras e voam na asa do seu Toyota.

Dia seguinte o velho Tembe é encontrado morto. Ensopado de saliva, sangue, sono e morte. É desamarrado da cadeira e o corpo enrolado num pano que servia de cortina na monstra da loja. O corpo do velho Tembe é atirado numa camioneta da loja e o motorista carrega para o lado do corpo, 5 quilogramas de arroz, 3 litros de óleo, duas barras de sabão e 9 quilogramas de sal.

– “Diga a família que é tudo que temos” – diz o gerente da loja.

 

 

Quando fui ao seu encontro para a aprazada entrevista de vida, que me propusera fazer no roteiro de os Habitantes da Memória, e que concluí em duas longas tardes, em sua casa em Maputo, ele tinha justamente o dobro da minha idade: 46 anos. Comunicador exímio, homem de escrita, de rádio e de televisão competentíssimo, cronista instigante e polemista mordaz, dramaturgo, actor e locutor, possuía uma vasta e poderosíssima cultura. Era, não tenho dúvida em afirmá-lo hoje, de longe, a maior figura no nosso espaço mediático. Dominava todos os meios em que actuava com uma proficiência notável. Também era dos poucos pensadores na nossa comunicação social. Em Agosto de 1990, quando o visitei, não tinha ainda editado o seu primeiro livro de poesia, de título Irmão do Universo. A despeito, era já um dos mais altos nomes da nossa lírica. Escrevera um dos mais belos textos da lírica moçambicana da década de 80: “Lamento”.

Leite de Vasconcelos: “Cantei-te serenatas em noites de cetim/ com timbilas e violinos/preparei-te um jantar de ushua e lagostim/com cebola e pepinos. // Falei segredos a búzios da Macaneta/ e mandei-tos pelo correio/ aluguei à semana o estro de um poeta/ e fiz um verso à curva do teu seio. // Colhi flores de madrugada nas Barreiras/ abri uma machamba em Matutuíne/ disse-te amor em trinta línguas estrangeiras/ passeei-te no bazar em Xipamanine. / Comprei um anel de pêlo de elefante/ um disco de sungura/ um sofá, uma cama e uma estante/ um fato azul e um garrafão de sura. // Levei-te às farras das noites de sábado. / À sombra das acácias/ contei-te lendas de um tempo passado. / Deixei de ter notícias/ e o fluir da tua ausência não se estanca. / Namorado, só, itinerante / busco-te nas ruas, encontro-te na Franca/ perdi-te em casa dum cooperante.”

Este é, seguramente, um dos mais belos poemas de amor que se escreveram, entre nós. Recordo-me ainda hoje da emoção, da intensa e incontida emoção, que senti quando o li, pela primeira vez, publicado na “Gazeta de Artes e Letras” da revista Tempo, em Outubro de 1985. Num texto, fatalmente pueril, que redigi sobre poesia moçambicana (“A Viagem da nossa poesia”), em Janeiro de 1987, referi-me a este poema e isso foi motivo para que o Leite de Vasconcelos me convidasse para uma conversa sobre literatura. Ele era Director-Geral da Rádio Moçambique, meu director por conseguinte, pois na altura eu debutava na profissão justamente na RM, onde entrara em 1983. Essa conversa foi exultante. Eu, um miúdo de 19 anos, à beira dos 20, estava ali perante uma grande figura do nosso jornalismo e da nossa literatura, da rádio e da televisão, que ele chegou a dirigir por dois anos. Tínhamos empatia. Quando me propus a entrevistá-lo, anos depois, tinha as seguintes linhas-mestras para o diálogo: a sua trajectória inicial, a sua participação no 25 de Abril, os primeiros anos de jornalismo pós-independência e a escrita literária.

Teodomiro Leite de Vasconcelos nascera a 4 de Agosto de 1944 em Arcos de Valdevez, em Portugal, e viera cedo para Moçambique. Crescera na Beira, numa família humilde, o que assumia sem pejo nenhum. Começou a ler muito cedo. Lembrava-se da influência profunda que uma obra de Roger Martin du Gard provocara em si: O Drama de João Barois. Ou O Pão da Mentira de Horace Mackoy. Acrescentava a estas leituras os americanos dos anos 50: Ernest Hemingway, Erskine Caldwell, John Steinbeck, entre outros. Só muito tarde, lera os portugueses e referia Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro. Mas lera de tudo: ficção científica, policiais, romances de todo o género, poesia. Praticava, em termos de escrita, vários géneros: poesia, teatro, contos.

Na Beira, aos 18 anos, fundara, com um grupo de amigos, a Associação dos Jovens de Moçambique, que logo seria interditada. Ainda encenaram uma peça de teatro, mas a seguir as autoridades dissolveram a associação, persuadindo-os a juntarem-se à Mocidade Portuguesa, o que eles recusaram. No entanto, a rádio tinha sobre ele um grande fascínio. Era o meio que chegava ao seu estrato social. Não vivia na cidade, mas sim no interior, ela chama-lhe mato. Entre 1964 e 1968, foi estudar ciências sociais a Portugal e, no regresso, ainda teve uma breve passagem pelo Banco Standard Totta. Uma experiência atroz, dizia. Não muito tempo depois, abriu um concurso para locutores na Rádio (tivera uma experiência no Aeroclube da Beira, com um programa de rádio, promovido pela tal associação, que duraria brevíssimos 4 meses), concorreu e foi admitido. Em finais de 1972, a sua voz estava banida em Moçambique e decide ir para Portugal. Colaborou no arranque do semanário “Expresso”, mas, mais do que isso, ele e o Manuel Tomás – que era sonorizador no Rádio Clube de Moçambique e resolvera também sair, com o Eugénio Corte Real, na mesma altura que o Leite -, com mais um angolano, que era profissional de rádio e ainda um funcionário do Instituto Português do Café, na Guiné-Bissau, compraram um espaço de antena na Rádio Renascença e fundaram o programa “Limite”. O programa – que tinha um escol importante de colaboradores, que o faziam pro-bono – arregimentou audiência e afirmou-se imediatamente. Tentavam ir até ao limite do que a censura permitia. Iam para o ar entre a meia-noite e as duas da manhã. O Movimento das Forças Armadas haveria de escolhê-lo para emitir a “senha” do golpe. Leite de Vasconcelos leu, antes de passar, a “Grândola, Vila Morena”, os versos da canção de Zeca Afonso. Ficavam assim, ele e o Manuel Tomás, dois jovens oriundos de Moçambique, ligados à história da Revolução de Abril. Entre Agosto de 74 e Abril de 75, permanece, sob sugestão da FRELIMO, em Portugal, a colaborar na delegação do Rádio Clube de Moçambique, em Lisboa.

Entre Maio e princípios de Junho de 1975, acompanha a viagem de preparação da Independência, empreendida pelo então primeiro-ministro do Governo de Transição – Joaquim Chissano. Tem o contacto com vilas e povoações, com população e com os dirigentes da FRELIMO. Já os contactara, em Lisboa e em Londres, mas este contacto em Moçambique foi marcante. Também seria marcante a cobertura da viagem triunfal do Rovuma ao Maputo, iniciada em Dar-es-Salaam por Samora Machel. Viveu empolgado essa fase. Machel seria, aliás, a figura que o marcaria para sempre. Sem o mitificar, referindo que poderia ter tido provavelmente atitudes discutíveis, via no seu “daltonismo” – não via cores na sociedade moçambicana, em termos raciais, sublinhe-se! -, na sua extrema inteligência e velocidade de raciocínio para encontrar e discernir sobre fenómenos e acontecimentos muito complexos, o eixo essencial das questões. Para Leite de Vasconcelos, Samora Machel vivia no vértice da História.

Cronista e polemista nos jornais, locutor de rádio, produtor e apresentador de televisão, tornar-se-á, nos anos 80, a mais insigne figura do nosso espaço mediático. Acompanhei, com entusiasmo, as polémicas em que interveio, entre elas, uma sobre a língua portuguesa, na qual esgrimiu argumentos contra Moura Vitória, que tinha, em relação à língua portuguesa, uma concepção bastante redutora, sendo que Leite de Vasconcelos via – e com razão – uma língua que haveria de se diferenciar pelo uso dos seus falantes em Moçambique. Mas houve várias outras polémicas, seria fastidioso contabilizá-las todas aqui.

Disse-me, em relação, à prática de jornalismo, na primeira República, algo que constituiu uma confissão dilacerante, mas sincera: a nossa informação tinha praticado – e ele assumia-o – actos de auto-censura. No entanto, asseverava: não tinha mentido deliberadamente, mas sim omitido. Omitira factos, acontecimentos e processos. Tinha sobrevalorizado o papel do Partido no poder, ou do próprio Estado. Isto é importante para perceber a trajectória dos intelectuais, intelectuais orgânicos na generalidade, em Moçambique. É preciso dizer que vivíamos num contexto de monolitismo político. Achei corajosa esta confissão do Leite de Vasconcelos e admirei-o ainda mais por isso. Por admiti-lo, num contexto de mudança que então se operava, e não proceder a uma metamorfose camaleónica, como se nada tivesse a ver com o passado. Não era pessimista, nem catastrofista, mas assumia que, em relação aos primeiros 15 anos da Independência, que era o tempo que nós estávamos a escrutinar, havia que discutir e tirar ilações dos erros que se haviam cometido. Tinha receio de uma tendência que se afirmava que estava a passar uma espécie de esponja sobre o passado recente. Falámos da tragédia da guerra, do país devastado, do drama social, de progressos na Educação e na Saúde, não obstante, da pobreza, da experiência do Leste, que estava a conhecer o ocaso, da literatura, dos livros que sonhava publicar, dos escritores que o haviam influenciado. A esta distância, queria ter a benesse da sua análise e da sua sensibilidade arguta, sobre o tempo presente. Creio que haveria de ser testemunha de uma brilhante análise.

Eu lera o original do seu Irmão do Universo (1994) e estava convencido de que este livro o colocaria na primeira linha da nossa lírica. Este e o ulterior – Resumos, Insumos e Dores Emergentes (1997), publicado postumamente, confirmaram-no em absoluto. Dele também constariam: Pela Boca morre o Peixe (Crónicas, 1999), As Mortes de Lucas Mateus (teatro, 2000). Foi realizado, em 2001, por Fernando Vendrell, um filme com base em um argumento seu: O lento gotejar da luz. Uma co-produção Portugal-Moçambique, na qual participam como actores moçambicanos, a jovem Alexandra Antunes e o político veterano e actor estreante Amaral Matos, de saudosa memória. , Em 2004, seria dado à estampa A Nona Pata da Aranha e outros Contos que revela um constista primoroso.

Tínhamos uma referência literária em comum: Rui Knopfli. Ele colaborara na revista Caliban. Apreciava a atitude poética de José Craveirinha, reconhecia António Gedeão e Jorge de Sena como tendo alguma influência na sua poesia. Sobretudo Fernando Pessoa. Outros poetas cuja influência não sabia aferir, mas que eram importantes para a sua formação poética: Camões ou Bocage. Era um declamador exímio, começara por fazê-lo na Associação Africana. Dizia poemas do José Craveirinha, da Noémia de Sousa, do Rui Nogar e do Rui Knopfli.

Eu entrara, em 1983, na Rádio – já o disse -, onde o conheci, para fazer teatro radiofónico, onde ele pontifica como uma das suas figuras exemplares: adaptando peças, escrevendo outras tantas, interpretando-as, produzindo-as outras vezes. Lembro-me da sua voz, dizendo poemas e contos na rádio, lembro-me da sua voz e da sua figura imensa na televisão, lembro-me sobretudo do seu alto sentido ético e estético na intervenção que fez no nosso espaço público naqueles anos primordiais a seguir à Independência. Lembro-me da sua cultura exuberante e da sua proficiência intelectual. Da sua arguta inteligência. Lembro-me das reuniões ou assembleias gerais da AEMO, das suas intervenções informadas e equilibradas, da sua experiência vasta, do seu bom senso, da sua estatura, da sua grande estatura como homem de letras e como cidadão moçambicano. Recordo-me do conversador fascinante que ele era. Gostava de o ouvir. Viveu muito pouco, aos 52 anos uma impenitente doença profligou-o, estava-se a 29 de Janeiro de 1997 – passaram vinte um anos. Há duas semanas, quando redigia esta breve nota, seria tolhido pela morte de Hugh Masekela. Tive de postergar a homenagem ao Leite de Vasconcelos. Aqui fica o meu reconhecimento àquele que era, indubitavelmente, o nosso maior publicista na primeira República e nos primórdios da ulterior. Hoje praticamente deslembrado.

Em razão da data do passamento físico do poeta Craveirinha, propus-me sair, pondo os pés na estrada, para saber a que ponto vai, em termos de cultura literária, a juventude estudantil do bairro de Benfica na urbe luandense, há quatrocentos e quarenta e dois anos baptizada com o nome de São Paulo da Assumpção de Loanda pelo capitão português Paulo Dias de Novais que, à frente de uma armada,  derrotou o resistente rei Ngola Kiluanji Kiá Samba,  embora a presença portuguesa na região datava já de há  cerca de um século, sendo mais visível e acentuada sobretudo no reino do congo, um pouco  mais a norte da ilha do cabo, onde primeiramente haviam atracado.

Como habitualmente, refaço a primeira esquina há  menos de um quilómetro do nosso pobre e humilde castelo. Para o alívio do pecador, logo encontro o quintal de uma instituição escolar de nível pré-universitário no ramo das ciências sociais e, considero que não podia ser  melhor  o palco para a avaliação dos conhecimentos litéro-culturais de uma franja da nossa juventude, supostamente apurada  para os desafios intelectuais dos tempos que se avizinham em África e no nosso mundo glocal. 

Identificada uma turma estudantil em momento de intervalo, me aprochego e, depois de muito bem identificado –por eles mesmo!-, à queima roupa interrogo os meus Wís:

-Vocês conhecem  Craveirinha?   

Silêncio.  Para meu espanto… silêncio total. Então decidi fazer a recarga.

-Quem já ouviu falar do moçambicano José Craveirinha? Os  vossos professores na escola, ou fora dela, nunca vos falaram da obra de José Craveirinha?

Por momentos reinou, entre nós, mais um profundo silêncio ensurdecedor quando o mais corajoso e iluminado jovem postou-se na dianteira de todos os outros e afirmou: -Eu já sim. Eu já ouvi falar do nome desse sujeito. Salvo o erro. Se não foi um músico antigamente parece-me que foi um grande futebolista da gloriosa selecção moçambicana no tempo do Eusébio.

 Aí o mundo calou fundo. E ao semblante do jovem concentraram-se  orgulhosos os olhares dos incrédulos colegas, como quem admira e manifesta regozijo por um amigo e coetâneo.

Estarrecido, sem saída e sem  saber o que dizer, logo cavei coragem e parti para o ataque como que palestrando numa conversa que de tão tocante e profunda provocou a “matação” da aula seguinte por parte de alguns, ávidos de saber. E tinha que ser básico. Não tinha como!…. tal como eles se expressam na gíria juvenil.      

Com certeza, na hora não foi assim tão fácil, e jamais será, falar daquele humilde Cidadão nascido, simplesmente, José João Craveirinha no longínquo ano de 1922 no sagrado espaço índico de Muíphiti.

Falar com jovens sobre uma lenda viva e imortal da dimensão de um percursor de “vaticínios infalíveis”,  do tamanho de José Craveirinha, implica e obriga-nos a falar não somente do poeta, mas principalmente do Cidadão, do inveterado polémico e do fino bem humorado provocador, do militante e das suas causas, do associativista, do desportista, do jornalista  do cronista, do folclorista local, do confrade, do companheiro e autor de MARIA, de um cometa,… aliás Poeta universal, que partindo da Mafalala internacionalizou a pátria moçambicana despertando-nos para o adocicado dAs Saborosas Tangerinas de Inhambane sem esquecer-se do azedume das Tâmaras… de Beirute tendo polvilhado por amigos e conhecidos e por distintos jornais, grande e quiçá, a maior  parte da sua poesia ainda por reunir e, (o que sei eu para dizer…), finalmente do grande  Senhor e camarada premiado, condecorado e medalhado internacionalmente.

Uma particularidade do cidadão do mundo que consideramos o mais telúrico  poeta moçambicano de sempre, reside no facto de que, enquanto levava a realidade cultural e, especificamente, a poesia moçambicana além fronteiras, Craveirinha escrevia e escrevia muito. Dedicava e, – já o dissemos!-, oferecia versos aos conhecidos e amigos que fazia mundo fora.  Na Itália, África do Sul, Rússia, Cuba, Suazilândia, Portugal e Alemanha dentre outras paragens, escreveu os poemas, reunidos,  editados e publicados  póst mortem em Maputo no ano de 2012 no  livro intitulado, Vila Borghesi e Outros Poemas de Viagem.

Luanda, Lucala e o seu caudaloso rio, «as belas águas de Kalandula», os cantares e os choros dos filhos de Malange (cidade que viu nascer o progenitor da Pantera Negra moçambicana), a «gente assassinada na Baixa de Kassange» em Janeiro de 1961, o «sagrado chão de Cuíto Cuanavale» enquanto marco histórico da África austral, as intensas e históricas batalhas nos «decabaçadoscéus de Cuando-Cubango» e o verde e sacrificado capinzal do Cuíto,  são motivos da avultada poesia que em Angola escreveu e  dedicou a íntimos amigos dentre os quais destaco os nacionalistas e escritores Luandino Vieira, António Jacinto, António Cardoso,  Pepetela, Fernando Costa Andrade, Aires de Almeida Santos  e também ao poeta e crítico literário David Mestre que sobre ele escreveu em 1996 no Suplemento  Vida & Cultura do Jornal de Angola: “…há três décadas que a poesia de José Craveirinha exerce sobre mim um fascínio sempre acrescentado… nenhum outro poeta africano lusófono empreendeu com tão alucinante rigor o mergulho em profundidade na alquimia do fenómeno poético em sua dimensão transcultural, das atónitas fundações do verbo à matriz de autenticidade que constitui a marca de água dos clássicos e dos que, antes de o serem, já eram”.

Entretanto, eis a questão: Luanda é das maiores e supostamente mais intelectualizadas, metrópoles litorâneas de África, tendo registado, a impressão e publicação do primeiro livro ao sul do deserto do Saara no longínquo ano de 1849. É a cidade capital da República de Angola, país africano que oficialmente se expressa em português e como tal, membro da comunidade de países de língua portuguesa  que no continente tem a cultura moçambicana como cultura de um país irmão mas, quando perguntamos, -e assistimos por via da comunicação social-, aos jovens estudantes até mesmo universitários, algo relacionado com motivos identitários e fraternais, em termos culturais, nada «que» resulta.

Para o caso referente ao domínio ou o simples conhecimento da vida e obra de um dos maiores vultos da palavra poética africana, da língua portuguesa e,  agraciado com o Prémio Camões em 1991, pensamos ser incrível e inadmissível que um «dito» quadro licenciado superiormente, professor de língua portuguesa, autoproclamado escritor e crítico literário faça só, e somente, uma vaga  ideia de um único poema de Craveirinha  incluído  há já alguns anos numa colectânea de Textos Africanos  de Expressão Portuguesa editada já no período pós independência e no final dos anos setenta, justamente com fins pedagógicos.

De José Craveirinha, «faço somente uma pequena ideia de um texto que falava de negros e de carvão», disse-nos o professor, circunstancialmente, nosso interlocutor.

É triste e  doloroso ouvir isto e, assim. Indubitavelmente, algo vai muitíssimo mal no nosso sistema e universo pedagógico e por isso mesmo é que não raras vezes temos afirmado e reafirmado que quanto a agentes, acções, propostas estéticas, projectos e estudos, em termos litéro-culturais , depois da geração angolana de 80 que para Moçambique corresponde à geração da Charrua ou dos «charrueiros», por aqui, pouco ou nada mais de realce aconteceu. Exceptuando, naturalmente, alguns casos pontuais, para que justiça seja feita.

Craveirinha, como todos os grandes poetas, é universal, incomparável, insubstituível e, como tal, imortal. Cabe-nos divulgar constante e permanentemente o seu legado artístico-literário para o constante e maior aperfeiçoamento da humanidade, material e espiritualmente, em estado caótico.

                           Luanda Fev./2018

 

Ano de 2003. A história da sua vida, titulada o Monstro Sagrado, que me havia sido confiada, estava quase pronta. Apareceram então dois jornalistas portugueses a propôr que essa missão me fosse retirada e lhes fosse confiada. Coluna foi breve, mas incisivo na resposta: “eu estive mais de duas décadas a jogar ao mais alto nível por Portugal e vocês nunca se aproximaram. Agora, que um compatriota meu decidiu avançar, é que vocês 'acordam'? Esqueçam”!

O ídolo, a estrela que em mim morava deste Monstro (con)Sagrado, cresceu. E a responsabilidade também. Fiquei com a honra e o privilégio de escrever a biografia de Mário Esteves Coluna, um nome que tem que ser pronunciado com respeito, porque o aprumo e a lealdade do dono, de coluna sempre direita, assim o impõem. No próximo dia 25 deste mês de Fevereiro, faz 4 anos que perdeu a vida. Tanto moçambicanos como portugueses, temos que recordar e venerar esta esta figura.

Ele é… a montanha sagrada!

25 de Abril de 1974. Acordos de Lusaka, Governo de Transição, Independência de Moçambique. É aqui que o passado e o presente de Mário Esteves Coluna se entrecruzam. Depois de (per)correr o planeta… a correr, depois de registar, com letras de ouro, a sua imagem de marca como “manda chuva”, na Europa e no Mundo, graças aos pés, mas sobretudo à cabeça que ditava a liderança por onde passava, finalmente, a não enjeitada oportunidade de regressar e servir a sua Pátria.

Numa entrevista em Portugal, o Monstro já havia revelado uma mágoa que o acompanhou por toda a vida: a de não ter podido vestir, como jogador, a camisola da Selecção Nacional de Moçambique Independente. Viria mais tarde a ter o privilégio de ser internacional pela terra que o fez nascer, mas como seleccionador. Porém, antes disso, uma conquista irrepetível: a de primeiro campeão nacional, pelo Textáfrica.

Em tempo de “debandada” em direcção à ex-metrópole, Coluna cruzou os céus no sentido contrário. Para trás ficava a lógica do conforto, a segurança que o seu nome lhe permitia, criado com suor e sacrifício, granjeado numa das mais belas actividades: o desporto. O bichinho do amor à pátria e às origens, obrigou-o a regressar, de forma a contribuir para que os meninos da sua terra tenham esperança num sol mais brilhante.

Um estilo em extinção

Tudo nele era solene. O andar, o falar e até o comemorar. Ritmo morno, fala suave e lenta, mas incisiva. No interior das quatro linhas, funcionava como um GPS, uma placa giratória por onde o jogo passava, para ser pensado quanto à alternância para os flancos e aproveitamento dos espaços vazios.

Actuando pelo Benfica ou pela Selecção de Portugal, como meio-campista, passou a fazer parte de uma galeria de estrelas muito restrita, cabendo nela apenas jogadores como Didi, Beckenbauer e Platini. Uma espécie em extinção. A sua importância para o desenvolvimento do desporto-rei, foi reconhecida pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol, um departamento da FIFA que incluiu o seu nome como um dos 100 melhores jogadores do Século XX!

Capitão e protector

Nos dias que correm, pela Europa e pelo Mundo, a grande maioria das equipas queixa-se da falta de jogadores/patrões… “à Coluna”. Ele era um falso-lento, com uma resistência a toda à prova, que dispunha de uma apurada intuição para se movimentar junto à área adversária, juntando a isso um forte remate à meia distância.

Porém, como capitão, era um líder protector, que não admitia que ninguém crescesse para um seu colega. Nessas alturas, usava uma frase que intimidava os adversários: “Se tocas mais no miúdo, sais daqui com uma perna a lamber a outra”.

Aconteceu até frente a Pelé, quando um dia o seu colega da selecção portuguesa Morais se sentiu intimidado ao marcar o rei. Coluna foi-lhe dizendo: “Continua a jogar durinho, porque lá por ele ser chamado de rei, cá dentro não tem qualquer estatuto especial”.

Líder carismático

O que é que tornou este Monstro Sagrado tão carismático? Os 126 golos em 525 jogos oficiais com a camisola do Benfica? O facto de ser o jogador com mais jogos realizados com a braçadeira de capitão, de 1963 a 1970?

Talvez um pouco de tudo, a partir da imagem de marca que trouxe do berço, que lhe conferia autoridade e liderança, tanto dentro como fora do campo. E, claro, a sua anormal resistência, pois quando a maioria dos colegas e adversários se encontrava “com a língua de fora”, ele impunha as suas regras.

Das poucas vezes em que “perdeu a cabeça”

Um episódio inédito. Coluna reconhece que perdeu a cabeça, e optou pela agressão, mesmo assim não sendo expulso. Mais uma vez, ao papel de grande capitão juntou o de justiceiro.

Tudo aconteceu na Roménia, num jogo difícil, em que Eusébio estava a “partir a loiça” sendo alvo de uma marcação dura por parte de um latagão que não lhe dava tréguas, batendo forte e feio. A certa altura, o romeno pisou a Pantera Negra, que caiu e uma bota saiu-lhe do pé. O romeno pegou na bota para atirá-la para lá da vedação. Eu estava perto e segurei-a. Travámos uma pequena luta pela posse da bota e eu consegui arrancá-la. Ele preparou um escarro e cuspiu-me no rosto. Confesso que foi uma das poucas vezes em que perdi completamente a cabeça. Bati-lhe repetidas vezes na testa, com a bota que tinha na mão, fazendo sangrar. O árbitro, um inglês, correu para o local, já preparado para me expulsar. Mostrei-lhe o meu rosto cheio de ranho, misturado com saliva. O juiz raciocinou rapidamente, viu que a justiça estava feita, pois ninguém com uma bota na mão resistiria à tentação de tirar desforço após uma baixeza daquelas. Retirou do bolso de trás um lenço, limpou-me a cara, e… mandou prosseguir o jogo sem me expulsar.

A centímetros da pide

Praga, 1966. Eliminatórias da selecção portuguesa, para aquilo que viria a ser uma grande epopeia lusa, com a conquista do terceiro posto no “Mundial”. Comunismo lá. Fascismo em Portugal. A desconfiança entre tudo e todos era total. “Por isso é que Salazar governou até á morte”. O Monstro esteve a milímetros de sentir na pele aquilo que já havia acontecido ao seu colega Santana e a Daniel Chipenda: a estada nas masmorras da PIDE. Uma circunstância feliz salvou-o:

Essa história da PIDE tem a ver com uma viagem à Checoslováquia. Jogo difícil, em que alinhámos muito tempo com menos um jogador e rendemos até aos limites. Mas antes, apareceram-nos no hotel alguns estudantes angolanos, pediram convites, pois a ideia era apoiarem a selecção portuguesa.

Coluna, como capitão, reuniu os ingressos que os colegas não precisavam e ofereceu-lhes. Nada mais do que isso. A vitória por 1-0, com golo de Eusébio foi memorável. E deu direito a festa, em pleno cenário comunista numa casa alheia, episódio inofensivo e fugaz, rapidamente esquecido.

Só a PIDE não estava de acordo. Algum acompanhante/infiltrado viu nisso um pactuar com os terroristas. Chegados à Lisboa, dias depois, o Monstro recebia uma convocatória para ir à PIDE. Algum engano? Não fazia a mínima ideia do que se tratava, mas a verdade é que os seus pés já não se deslocavam com a segurança com que o faziam na relva, o seu reino.

Num “terreno” desconhecido e hostil, de pergunta em pergunta, lá chegou a um gabinete guardado à porta por dois “caras-de-pau”, dirigindo um ar de poucos amigos ao recém-chegado, “borrifando-se” (talvez por desconhecimento), no seu estatuto.

Mandaram o Monstro entrar para o gabinete para as formalidades que o conduziriam à cela PIDESCA. O inspector que o atendeu era benfiquista e seu admirador. “Olha o Mário, meu grande capitão. O que o traz por cá?” Com a habitual calma mas com o coração aos pulos mostrou o impresso que o convocava. Finalmente, fez-se luz e safou-se.

O impressionante BI

Mário Esteves Coluna nasceu a 6 de Agosto de 1935, em Magude e faleceu em 25 de Fevereiro de 2014.

Começou a jogar a ponta de lança, no João Albasini e no Desportivo de Lourenço Marques. Na Europa, actuou no Benfica, de 1954 a 70; fechou a sua carreira no Olympique de Lyon, em 1971.

Nas 16 temporadas na equipa principal do Benfica, participou em 677 jogos, num total de 59.702 minutos, marcando 150 golos. Ainda hoje, é o futebolista que mais vezes capitaneou a equipa encarnada: 328 jogos. Foi 10 vezes campeão português (55, 57, 60, 61, 63, 64, 65, 67, 68, 69).

Venceu seis vezes a Taça de Portugal.

Foi bicampeão europeu pelo Benfica (61 e 62) e três vezes finalista vencido (63, 65, 68).

Actuou 60 vezes pela selecção portuguesa, tendo sido capitão em 21 jogos. O ponto mais alto foi o 3º lugar, no “Mundial” de Inglaterra, em 1966.

Realizou 60 jogos (com 11 golos) na Taça dos Campeões Europeus e dois na Taça UEFA.

Capitaneou a selecção da Europa frente ao Resto do Mundo.

Como treinador: Orientou as equipas Sport Lisboa e Huambo, Textáfrica do Chimoio, Ferroviário de Maputo, Maxaquene, Desportivo de Maputo e Ferroviário da Beira. Foi seleccionador nacional de Moçambique.

Distinções: Sete louvores da Federação Portuguesa de Futebol: Medalha de Ouro ao Mérito Desportivo, Medalha de Prata da Ordem do Infante D. Henrique (a mais alta condecoração portuguesa), pelo brilhante comportamento no Campeonato do Mundo de 1966. Louvor da Direcção-Geral dos Desportos, em atenção a toda a sua exemplar carreira desportiva, e Medalha Nachingweia.

 

 

 

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