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O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

O primeiro Mundial de Futebol a que assisti, pela televisão, foi o de Espanha em 1982. Tinha quinze anos e era assíduo frequentador do Grupo Dinamizador, ali entre as avenidas Ahmed Sekou Touré e Filipe Samuel Magaia, nos dias dos jogos. Ganhou-o a Itália de Paolo Rossi, o melhor goleador com 6 golos e melhor jogador daquela copa. Diz a lenda que este estripador italiano (que o diga o Brasil) saiu da cadeia para levar a squadra azzurra aos ombros. Não sei se isto é verdade ou não. Mas, como aprendi há muitos anos, numa vetusta película de John Ford, um daqueles westerns inolvidáveis – O Homem que Matou Liberty Valence -, entre a lenda e a verdade, quando a verdade emerge, o melhor é manter a lenda. Mantenho, por conseguinte, a lenda.

A Argentina chegara a Espanha para defender o título de campeã do Mundo, mas soçobrou. Contudo, foi um jogador argentino, de seu nome Mario Kempes, que me haveria de empolgar. Ponho de parte os meus indeclináveis brasileiros, entre eles o Dr. Sócrates, que era mesmo médico: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Não houve outro com semelhante garbo. Nem o caçula Raí. Mas lá iremos ao Brasil e aos desgostos que me tem dado. Falava de Kempes. Tornou-se célebre por comandar a Argentina na conquista do Mundial de 1978 em casa. Era um miúdo de 23 anos. Não brilhara em 1974, o seu primeiro Mundial. Haveria de fazê-lo em Espanha. Era o número 10, o predecessor de Diego Armando.  

O Brasil deu samba mas não teve glória. O escrete canarinho: Waldir, Leandro, Oscar, Luizinho, Toninho Cerezzo, Júnior, Paulo Isodoro, Sócrates, Serginho Chulapa, Zico, Éder, Falcão, entre outros. Curiosamente, da Alemanha, a vice-campeã, lembro-me de Karl-Heinz Rummenigge. Conhecia o mítico Franz Beckenbauer. Ainda vi remotamente um filme com ele a jogar. A França tinha Michel Platini, Jean Tigana e Manuel Amoros, que foi o melhor jogador jovem do torneio. A arqui-inimiga Argentina tinha, para além de Mario Kempes, Daniel Passarella, Osvaldo Ardiles ou o promissor Diego Armando. Os italianos campeões: Dino Zoff, Marco Tardelli, Claudio Gentile, Antonio Cabrini e aquele que desfez o Brasil com três golos: Paolo Rossi.

Eu assistia aos jogos numa caixinha pequeníssima, presa a uma gaiola no canto superior esquerdo da sala do Grupo Dinamizador do meu bairro, o Bairro Central. As cadeiras brancas de plástico não ofereciam nenhum conforto. Mas éramos tão magros que não as partíamos a cada vez que exultávamos. Naquela época julgo que pouquíssimos moçambicanos tinham televisão em casa. O Mundial e o Europeu eram vistos por alguns na Rádio Marconi, num prédio da baixa.

Vi depois o Mundial do México, em 1986, as coisas tinham mudado. Muitas casas tinham televisão. Ainda com antena portátil, que era necessário direccionar para obter o sinal que chegava, quase sempre, com pingos, depois de um exercício de paciência e com o concurso de todos a dizer qual era a melhor posição. Este foi o Mundial do Maradona. Nos quartos-de-final, no jogo contra a Inglaterra, no Estádio Azteca, contra uma equipa inglesa revoltada, o árbitro Ali Bin Nasser validou “a mão de Deus” de Diego. Maradona iria repetir a trapaça – para ser generoso no substantivo -, no Mundial seguinte, em Itália, 1990, usando a sua mão, não para marcar um golo, mas para impedi-lo à Rússia. O árbitro não viu nada.

José Craveirinha: “Será boato meus beiços a babarem os verdejantes relvados mexicanos/ enquanto o povo gasta os dentes em subjectivas bolas de farinha?/ Ou no México são reais as roliças nádegas de um Diego Maradona/ o presunto mais caro do mais recente futebolismo internacional?// Ligo o televisor e oiço um fulano a perder o fôlego no delírio do gôôô…lo!/ tudo via satélite no interior da minha casa sem eu lhe abrir a porta/ com medo dos fleumáticos anglo-saxónicos chefes de zaragatas/ e por causa das guapas moças de “shorts” a abanarem as mamas/ no centro do ecrã e sem que o árbitro assinale a falta.”

Quando este poema “«Mundial» de Futebol no México (em directo)”, do José Craveirinha, surgiu, foi um murro no estômago. Creio que o li em 1987 apenas, quando, na companhia da Fátima Mendonça, frequentava poetas para arregimentá-los para a causa da antologia que então preparávamos. Foi numa dessas visitas à casa do Craveirinha, ali na Mafalala, que este poema nos deslumbrou. Havia um célebre apresentador da TVE reincidente a dar caneladas na língua portuguesa. O Zé foi implacável com ele: “Quem autorizou o hirsuto “stopper” da semântica em riste/ a agredir impunemente o triste e indefeso Luís de Camões?” Lembro-me de comentar estes versos com a Fátima. Neste poema estava o melhor do Craveirinha, estava o poeta de finíssima estirpe.

José Craveirinha: “Aqui onde as crianças adeptas do Futebol Clube Tuberculose/ roem mandiocas fatais com a tal força anímica/ porquê a prioritária urgência em admirar/ um lírico Sócrates a falhar platonicamente/ um golo mais do que certo?

Como disse, li o poema depois do Mundial. Este poema foi um importante alerta, um despertar, um libelo contra a alienação. Começava, na mesma altura, o meu meu percurso como publicista e o acirrar de uma consciência crítica.  Mas antes  – recordo-me – sofri verdadeiramente com o jogo Brasil-França. Terminou a 1 a 1. Foi nos quartos-de-final. Primeiro foi o Zico, que viu, ainda durante o tempo de jogo, um penalti defendido por Bats e, depois, na sorte nas grandes penalidades, Júlio César e sobretudo Sócrates falharam. O meu ídolo da fita na cabeça.  Seus companheiros: Carlos, Júlio César, Edinho, Elzo, Branco, Júnior, Careca, Alemão, Edson e Casagrande. A França passou, chegaria ao terceiro lugar. Os franceses tinham Tigana e Platini e ainda Amoros. Karl-Heinz Rummenigge, Lothar Mattaus  ou Rudi Voller (Alemanha), equipa vice-campeã. Os argentinos, onde pontificavam Jorge Valdano ou Jorge Burruchaga, para além do astro Diego, foram campeões.

José Craveirinha: “Mas porquê esta fortuita indigestão de futebóis de dólares/ saboreados nos olhos via satélite e nas enfermarias/ o drama das ampolas de penicilina que não temos? // Quem autorizou o hirsuto “stopper” da semântica em riste/ a agredir impunemente o triste e indefeso Luís de Camões?// Com as hábeis botas do sr. Diego Maradona a chutar-nos/ quantos sapatos calçariam os pés dos Meninos/ infutebolizados pelo malfazejo júbilo/ das hienas soltas nas matas?

Não me recordo de acompanhar depois um Mundial da mesma maneira como  fiz entre 1982 e 86. Creio que o meu entusiasmo esmoreceu com o Mundial de 90. Recordo-me da Laranja Mecânica com Frank Rijkaard, Marco Van Basten ou Ruud Gullit. Aquela equipa holandesa era impressionante. Lembro-me da Alemanhã campeã com Brehme, Mattahaus, Voller ou Klinsmann. Ou ainda do Diego Maradona. Recordo-me do Roberto Baggio que fez um grande mundial. Em 1993 seria eleito o melhor jogador do mundo. Ainda vi, displicentemente, o Mundial de 1994 e o vi a falhar, na final, o penalti que daria o título ao Brasil. Mas já não me empolgava tanto, nem o Brasil, nem o Mundial. Daí para a frente, lembro-me muito pouco. Lembro de alguns nomes: Ronaldo, Bebeto, Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos, ou Taffarel. Ronaldinho Gaúcho brilharia em 2002, mas em 2006 não esteve à altura. Hoje mal conheço a seleção brasileira. O Neymar não me convence. Ainda gosto de ver Marcelo. Pouco mais.  

José Craveirinha: “Nesta jogada de comida intelevisível/ 60 xambocadas indemocráticas de massas em directo/ mais outras 60 xambocadas em diferido no adiposo/ rabiosque fútil do idolatrado “desporto-rei”/ com dólares “cash” pagos em Maputo/ deliciando o anónimo dono do satélite.”

O futebol tornou-se-me indigesto. O excesso de futebol. O ópio do povo.  Algures no final da adolescência e na entrada da idade adulta percebi que o futebol, a telenovela brasileira e a própria televisão eram lenitivos contra a consciência social e crítica e que, em sociedades como as nossas, com défice de educação e cultura, poderia ter efeitos perversos. É claro que este tipo de avatares ajudam um certo tipo de poderes. Quer isto dizer que não vejo de todo futebol? Não vejo televisão ou não assisto a telenovelas? Vejo o mínimo. Falo de futebol com os meus filhos, mas falo-lhes para além do próprio jogo e dos valores e dos grandes gestos ou das misérias do futebol. Não diabolizo. Não frequento telenovelas – fui um adicto do Bem Amado e do Roque Santeiro -, mas já me deixei disso. A minha droga são os livros. A música. A pintura. A cultura.

A televisão tornou-se um lugar irrespirável: ou política ou futebol. Não há mais nada. Há estações de um país que nos é próximo que ficam semanas com um presidente pária de um clube. Outras tantas cultivam o reino da estupidez. Revoltei-me contra isso aos vinte e poucos anos: as televisões foram invadidas pelo futebolismo. E o desporto? A importância do desporto? O desporto pode ser um instrumento poderoso de inclusão, mas também pode ser de exclusão e de alienação. Vejo com cautela, para não me viciar, um ou outro jogo: Champions, finais de um Mundial, pouco mais. Quando foi do Mundial da África do Sul andei com uma turba amiga a divertir-me por Joanesburgo, Durban e Cidade do Cabo. Não me lembro do que vi em campo, mas dos momentos de cumplicidade e da alegria de levar o meu filho Irati a ver um Mundial. Também me recordo das prodigiosas mamas da Larissa Riquelme, fervorosa adepta do Paraguai, que trazia sempre um voluptuoso telemóvel entre os seus seios.

José Craveirinha terminava aquele seu belíssimo poema dizendo: “Zezé (Um ex-futebolista arrependido)”. Isto por conta dos paradoxais dólares gastos a alugar o sinal de satélite num país com muitas urgências. Muitas vezes me interrogo: quantas bibliotecas se fariam com aquilo que se gasta na incongruência do futebol? Eu não sou contra o futebol, até o acho um espectáculo extraordinário. Só contra um país alienado e pouco educado, um país pouco lido e preparado, um país ululante e nada crítico da realidade circundante. Bem sei que isso não é politicamente correcto. Preferia que se investisse no desporto, incluindo o futebol, nas camadas infanto-juvenis, e não se desperdiçasse dinheiro em clubes insanos, alguns dos quais acreditam que o curandeiro os pode ajudar a ganhar campeonatos. Daí esta minha quezília com o imperialismo do futebol. Porque ele parece ser uma única escolha. Não sou a favor da censura, sou a favor da sociedade aberta. Mas isso implica que eduquemos mais, leiamos mais, cultivemos mais. Quero um país que estime e se reveja na sua cultura, nos seus autores, nos seus escritores, nos seus músicos, nos seus artistas e criadores. Um país que saiba matemática e saiba discernir, um país que consiga destrinçar o essencial do “desimportante.” Um país mais educado e mais exigente. Que tenha no futebol ou lá o que for os seus momentos de lazer e de fruição, mas depois da saúde, educação e cultura.  
Não vejo o Mundial por isso? Vejo-o quando me dá na gana. Não tenho nenhum excessivo entusiasmo e nem me interessa muito. Outro dia um amigo disse que tinha uma aplicação no telemóvel com os jogos e queria passar-ma. Para quê? Não percebeu o meu desinteresse. Não sou nenhum fundamentalista anti-futebol. Nem extremista anti-televisão. Nem anti esses novos instrumentos de comunicação que tanto ocupam boa gente que nem sequer vai perder alguns minutos a ler este meu longo arrazoado a favor da cultura. Os meus momentos de fruição acontecem a ler ou a ouvir música.  Ou entre amigos, dos poucos que cultivo. Por fim, sou capaz de asseverar, a despeito, de que não tenho nada contra o menino que fui aos 15 anos e que comparecia, pontual e religiosamente, no Grupo Dinamizador, ali do Bairro Central, para se deixar exultar com as actuações inolvidáveis de Mario Kempes.

 

Toda a excitação se refugia na esperança de ver o sexo

Roland Barthes

 

Imane Kamal Idrissi, se quisermos, Imane KI, é uma artista plástica que vive em Moçambique lá vão alguns anos. Em Maputo, onde fixou residência, a marroquina tem exposto fragmentos da sua alma, com recurso à essa magia do pincel que apenas cede a poucos seres abençoados. Um desses fragmentos, feito de ilusões, mistérios e narrativas contadas em silêncio – que raio de narrador encontra-se naquelas telas? – é a colectiva A sombra dos sonhos, a qual, além de obras de Imane KI, apresenta, na Fundação Fernando Leite Couto, as de Mi Sook Park, uma artista sul-coreana. Por uma questão de método, hoje, é dos sonhos da artista marroquina que nos ocupamos.

Em O prazer do texto, a certa altura, Roland Barthes diz-nos: “toda a excitação se refugia na esperança de ver o sexo”. Como que a condizer com estas palavras poéticas do intelectual francês, Imane KI dá às suas obras uma série de elementos visuais que as tornam algo envolvente. O principal elemento, na verdade, é a evocação da figura feminina, feita com sedução, numa combinação entre o estético e a razão. Neste exercício, a artista plástica aposta em cores, digamos, taciturnas, (cinzento, preto), buscando, de vez em quando, um vermelho ou amarelo para adicionar um contraste ao essencial das imagens, quase sempre a mulher pintada. É nela que Imane KI aglutina o talento, as convicções e a maneira como se entrevê a partir do que move a sua criatividade.

A sombra dos sonhos, na pintura de KI, é uma exposição em que o desejo, a excitação e a contestação juntam-se para criar um debate sobre a condição da mulher enquanto mãe da beleza e, simultaneamente, vítima primária do que dessa beleza advém. Um exemplo disso é a obra “Pain”, pintada a óleo nas dimensões 102 x 76 cm. Nesta pintura, temos a figura de uma mulher cabisbaixa, escondendo o rosto com recurso às mãos, severamente amarrada. Aparentemente nua, no entanto, sem expor gratuitamente nada. A tela prende, quer pela beleza que possui quer pelo conteúdo ali apresentado. As cordas a sufocarem os pulsos, os tornozelos e as pernas simbolizam essa casmurrice de fazermos do “melhor” da natureza um ser refém da força do homem e das instituições sociais. Imane questiona o fenómeno, lembrando-nos da delicadeza que magoamos, quando partimos essa costela tão parte de nós.

Bem visto, Imane KI faz das imagens femininas uma energia visando derrotar o preconceito, a cumplicidade opressiva, ao mesmo tempo que engrandece predicados, os quais, a nós, os timbilosos, fazem-nos esgotar na esperança aludida por Barthes, afinal, nesta colectiva, está exposta “On the moon light”. Esta pintura (51 x 76cm) há-de ser a mais poética. Não fosse o facto de sabermos que este artigo terá como leitora Angélica Pereira, diríamos que aquela imagem de mulher deitada, expondo tudo à lua, apenas à lua, daí a inveja, é suficiente para trairmos a fidelidade e esbanjarmos em tudo o que a mesma provoca. Enfim, como podemos ferir o sonho de um ser que sabe ser “nossa sombra”? E como podemos não ver a luz que a “sombra” projecta em nós? Parecem ser estas as perguntas centrais da pintura de Imane KI. “Veiled eyes” (64 x 37cm), “Wedding day” (102 x 76) ou “Triangle woman” (43×60) – que também deveria estar nesta colectiva – em conjunto formam um sonho que clama por acontecer. Urgentemente.

Esta é a pintura de Imane Kamal Idrissi, uma obra que mergulha no âmago feminino para cantar a sua causa.

Autora: Imane Idrissi

Título: A sombra dos sonhos

Exposição colectiva

Classificação: 14

 

 

1958, Suécia. Brasil campeão, Pelé, aos 17 anos, revelação da prova e, consequentemente, o melhor do Mundo.

1962, Chile. Masopust, jogador checo, foi para a montra, tornando-se a revelação-mor.

1966, Inglaterra. Eusébio, estrela recém-vinda da Mafalala, deixou boquiaberto todo o planeta.

Naqueles tempos, a grande montra do futebol, era o Mundial. De quatro em quatro anos, “parava tudo” para atender ao valor mais sublime, que era chegar ao título mundial. Para trás, ficavam as diferenças clubísticas, as perspectivas de chorudos contratos e todos os demais feitos dos clubes aos vários níveis, ofuscados pelo bem maior que era levar a Taça Jules Rimet.
Os calendários, os longos estágios e todas as outras agendas, eram hierarquizados de forma a dar primazia àquela que era a montra verdadeiramente universal!

O que mudou

No Mundial da Rússia, o melhor da prova sairá de um “naipe” que não pode fugir a Ronaldo, Messi, Neymar, Pogba ou outra super-estrela já bem conhecida, numa hierarquia que até tem a ver com os “chorudos” salários!
Está-se, na realidade, em presença de uma réplica das principais Ligas Europeias, com a diferença das camisolas permutadas. Dos que actuam nos países que representam, vêm apenas raríssimas excepções. Daí que este Mundial não poderá mediatizar, os já mediatizados.
São estes os sinais de novos tempos e novos ventos. Grande parte dos jogadores estão com os pés na Rússia, mas com o pensamento nos clubes, nas possibilidades de conseguirem melhores contratos. Ou com o temor de perderem as vagas. As épocas estão na forja e candidatos aos seus lugares, são mais que muitos. Representar o país, é bom, mas… o patriotismo pode esperar!
O novo patrão no desporto de competição é o dinheiro. É a ele que os profissionais devem vassalagem. Brilhar ao serviço da Pátria mas perder o lugar na equipa que o sustenta, é um cenário presente, pelo menos nos jogadores ainda sem estatuto (con)firmado.

Aldeia global

Olha-se para a selecção francesa e constata-se que a equipa é composta maioritariamente por naturalizados ou descendentes de africanos. É o que está a dar. Portugal já naturalizou Deco e agora Pepe, para cumprir uma função, não importando o “sótáque”.
O tempo é de globalização, os cifrões ditam as leis. Não é necessário nem saber cantar o Hino de um país, para o representar.
E nós por cá, na nossa pequenez, continuaremos assistentes a participar simbolicamente, sem ultrapassar as pré-eliminatórias? Tentar travar a roda do desenvolvimento, com regras saudosistas que passaram para a história nas grandes nações, é impensável. Fala-se em SAD's mas dificilmente elas sairão das intenções com  profissionalismos de “faz-de-conta”.
Importa reconhecer que o futebol em particular e os outros desportos em geral,  podem ajudar-nos a ser uma parte bem mais activa e actuante nesta ou noutras grandes montras mundiais, com  benefícios imediatos para a nossa auto-estima – e não só – algo que já tivemos o privilégio de experimentar nos tempos dourados de Lurdes Mutola.

Falar de «Recados da Alma», romance de estreia de Bento Baloi, publicado em Moçambique pela Fundação Fernando Leite Couto, em Novembro de 2016, e que teve em 2018 a sua edição portuguesa, pela Ideia Fixa, obriga-me a passar pela memória do nosso primeiro encontro. Conheci o Bento na Póvoa de Varzim, durante o mítico festival literário Correntes d’Escritas, em fevereiro de 2018. Uma das muitas mesas a que tive o privilégio de assistir estava subordinada ao tema “Escrevo para dizer aquilo que não sei”. Entre o cartaz de nomes que iriam intervir, surgia um único desconhecido. Bento Baloi fez a sua comunicação e, quando a terminou, eu senti que passara a conhecê-lo um pouco, pois o texto lido, além de muito belo, entrava por esse mundo fascinante do autor e da sua ficção, entreabrindo a porta para quem era o homem atrás da obra.

O auditório apinhado do Cine-Teatro Garrett comoveu-se com a leitura de Bento Baloi e correspondeu com uma enorme e continuada salva de palmas. Comentei a excelência do texto com quem estava nas cadeiras ao meu lado e, após o término da sessão, venci a minha timidez natural para me colocar junto às escadinhas do palco. Queria cumprimentar aquele desconhecido que, por causa de um texto, passara a ser um camarada, um colega. Acima de tudo, queria dar os parabéns ao Bento Baloi por me ter conseguido emocionar. Apertámos as mãos, num sinal de reconhecimento mútuo, certos de que dali em diante não mais seríamos estranhos um do outro. Na sua generosidade, o Bento ofereceu-me, no dia seguinte, um exemplar do seu romance, assim dedicado: «À Isabel e Paulo, com muita estima e amizade. Um grande abraço fraterno com calor de Moçambique.»

Se cito a dedicatória é porque nela estão contidas algumas pistas para uma possível leitura de «Recados da Alma». As dedicatórias do romance, em parte, prosseguem o texto das Correntes, nesse exaltar de uma mãe que já partiu, mas que, a partir do céu, em forma de estrela, continua a iluminar a mente do autor. Se cito a dedicatória é porque quis entender, nalguns trechos, traços do jornalista tornado romancista, tal como acontecera comigo no meu primeiro livro de ficção, sendo uma curiosidade que os nossos livros comunguem o período dos quentes anos de 1974-1975, embora «Recados da Alma» se estenda por outras décadas. Se cito a dedicatória é por ter sentido nas páginas deste romance o calor moçambicano, seja do sol a aquecer a pele, ou da voluptuosidade dos corpos femininos, ou dos ritmos e movimentos da dança xingombela. E não resisto a ler-vos esta citação: «Sol abrasador fustiga Lourenço Marques. A urbe está calma e as ruas silenciosas demais para o que é habitual. De quando em vez uma meia dezena de automóveis percorre o asfalto da Pinheiro Chagas, alguns à esquerda e outra meia dezena para a direita. O vento não sopra. As acácias vergam-se inertes ao calor húmido que se faz sentir.» Por fim, se cito a dedicatória, é por ter encontrado nesta obra sinais de fraternidade e de mãos estendidas ao próximo.

A sinopse do livro refere que um jovem jornalista, durante a cobertura à operação de salvamento de vítimas das cheias do vale do rio Save, acaba por receber um maço de papéis das mãos de um velho comerciante. Ao analisar os papéis já amarelecidos, o jornalista descobre retratos de várias vidas que o transportam para outros tempos, tempos agitados numa cidade ainda chamada Lourenço Marques que se movia tanto ao ritmo de bailes noturnos animados pelos discos de 45 rotações, como ao medo semeado pelos terríveis «mabandido», ou dos sussurros e mensagens subversivas em torno dos nomes Mondlane e Machel. Há um futuro que se começa a escrever e um passado que se começa a apagar, mas para os jovens Mafalda e Eugénio o mais importante residia no amor que, contra todas as vontades e probabilidades, os passara a unir. Depois, no frenesim de pânico, saques e violência iniciado a 7 de setembro de 1974, os destinos dos jovens amantes, tal como os destinos de Portugal e Moçambique, estilhaçaram-se, obrigando a uma separação violenta. E só a história que poderão ler irá revelar se Mafalda e Eugénio se voltaram a juntar…

Não gosto de estragar o prazer da descoberta aos leitores, nem estou habilitado para fazer teses literárias sobre romances. Tal como na sessão das Correntes, apenas posso transmitir ao Bento, e aos seus futuros leitores, as emoções sentidas ao longo de «Recados da Alma». Estamos perante um livro de uma enorme tolerância. «O que seria da história de um país sem as estórias das suas gentes?», pergunta o comerciante que tomou notas, ao longo dos anos, das vivências de amigos, amigas e companheiros. E eu pergunto: que seria da história de um país, ou neste caso, de dois países, se houvesse uma perceção única e intolerante do passado? A generosidade de Bento Baloi reside na forma como mistura o local e o global, o moçambicano e o português, a tradição e o progresso, através de um conjunto de personagens que nos dão visões diferentes sobre os mesmos assuntos, assuntos graves, sensíveis, geradores de divisões, como a segregação, o amor multirracial, o orgulho pátrio, o colonialismo, o preconceito, sem jamais cair num romance panfletário ou ideológico. Há uma espécie de olhar fraterno, nada fraturante, para com cada personagem, como se o autor quisesse contextualizar e compreender cada ato realizado ou cada ideia expressa. E, na verdade, todos somos filhos de contextos, seja um elemento do gangue mabandido, uma retornada da ponte aérea ou um membro do braço armado Dragões da Morte.

Apesar de nos dar pedaços da história de Moçambique, quer na sua luta pela independência, quer nas subsequentes cisões internas, ou até da vida dos portugueses obrigados a partir de um país que consideravam o seu, nunca se encontra na escrita de Bento Baloi um discurso maniqueísta ou uma tentativa de acerto de contas. Pelo contrário, mesmo nos casos mais delicados, o autor limita-se a expor os acontecimentos históricos e a deixar que as emoções das personagens, e não as suas, conduzam a trama e o leitor. E é neste grande detalhe que a fraternidade e generosidade de Bento Baloi se agiganta, aceitando ser uma ponte, uma mão estendida, em vez de um veículo de ódio. Há em «Recados da Alma» o mesmo afeto improvável que liga Eugénio, empregado preto, ao seu patrão branco racista. Há em «Recados da Alma» a demonstração de que o preconceito, o bem e o mal, não são questões de raça ou de nacionalidade. São questões do ser humano.

A própria escrita de Bento Baloi funciona como elo entre Moçambique e Portugal, por estar escrito num português esmerado, entrecortado com os termos intraduzíveis das línguas autóctones, que, tal como Mia Couto referiu, é capaz de «contar uma história com singular eficácia, mas guardando uma marca poética que envolve e seduz os leitores». A sedução e força do amor estão, aliás, presentes ao longo de todo o livro, nas mais variadas vertentes e situações, numa tentativa de superar os traumas de uma relação que começou torpe – o colonialismo –, e prosseguiu aos solavancos – as vidas alteradas num segundo, as cicatrizes na pele e na alma –, sem com isso se suavizar a história passada ou evitar realidades dos novos tempos, como o imperialismo económico. «Recados da Alma» é um livro que tem política, mas que não é politizado, pois procura manter uma equidistância ideológica. E, porém, é um livro de causas, um livro militante, um livro que se entrega às suas personagens, numa ligação muito próxima, muito afetiva, que evita juízos morais, com base nos estereótipos, preconceitos e visões históricas que, precisamente, vão sendo desvelados nestas páginas.

Foi esta ligação umbilical de Bento Baloi às emoções humanas, provocadas por pessoas reais, como uma mãe falecida, ou por personagens inventadas, como o Eugénio e a Mafalda de um romance, que eu descobri no texto das Correntes d’Escritas e que confirmei em «Recados da Alma». A grande diferença é que no início éramos desconhecidos e agora já nos conhecemos um bocadinho. Obrigado e boa leitura.  

Paulo M. Morais

Vila Nova de Gaia, Maio de 2018

* Título do editor desta página.

 

Foi em 2008 que João Paulo fixou a sua estrondosa voz na pauta musical e silenciosa do tempo. Um Bluesman não morre, porque a sua actividade é a de diluir a morte no blues e no schotch. João Paulo não cantava blues, usava o Blues, atiçava a catarse que há dentro do blues com a vara da sua voz. Sou viciado em blues. E por isso escuto João Paulo como quem ouve sem parar a pregação de um pastor que além de conhecer a escritura sagrada, vive-a.

Se todos acreditamos que o blues nasceu na região do delta do Mississipi, então, cá entre nós, refinou-se ali no “Goa”. O bluesman sentado sempre no “Goa”, com um schotch vigiando os ângulos duma mesa, um maço de cigarros deitado e uma caixinha de fósforos semi-aberta, mirava o seu interior e caía nas escadas do seu olhar como caíam os negros possuídos por “worksongs” nas margens do Mississipi. Eu tinha um privilégio. Via aquela figura, que depois virara meu ídolo, sem nada pagar. Via sempre aquele bluesman afinando a rouquidão da voz com uma, duas, três, quatro garrafas…

Hoje passo por Goa e ainda sinto o cheiro da sombra de João Paulo na primeira mesa. As paredes de Goa eram as camisas de João Paulo, por isso ainda têm marcas da sua existência em todos cantos. Os sovacos das paredes suam João Paulo.

O schotch era o mar de “Goa” onde o bluesman encalhava os remos do blues. Os seus cabelos enrolados era como se enrolassem os seus pensamentos. Seu blazer de napa cheirava suor de um boémio com a alma andarilha. Qual boémio? Ele era casa do blues. Vê-lo no Gil Vicente cantando era como se o blues saísse, um pouco de si, e espreitasse o exterior. Era uma caixa de ressonância humana de blues. Sua vida era um harmónico que ressoava, disfarçado, em cada batida do coração. Sua boca parecia uma gaita de sentidos em cada falar. Falava pouco e tossia quase sempre. Quando sorria os seus lábios ressecados de álcool esticavam-se como se quisessem rebentar.

Era difícil ver o Goa sem João Paulo. Aliás, não era João Paulo que ficava ali no Goa; era o Goa que se tinha instalado no bluesman. João Paulo era mais de Goa que dele próprio. Ali, sentado, via os movimentos do mundo através do borbulhar do seu corpo. E muitos passavam-no pensando que era uma figura cuspida pela rotação e translação da Terra. Seus movimentos eram mínimos: penetrar, com os dedos, uma caixinha de fósforos, coçar os seus longos cabelos, apertar pelos lábios o cigarro, virar para esquerda e direita sem nada olhar e mudar a posição dos pés exaustos de tanto andar dentro de si.

Quando punha-se a mergulhar a cidade o fazia com passos lentos e cheios de charme. Caminhava sem magoar uma mínima matéria de vento. Nos últimos dias, um pilar de gesso segurava-lhe uma das pernas. E o passo crescia entre o gesso e a muleta. Coitado de João! – dizia. João era um fantasma que povoava todas as casas de artes ao cair da noite.

Ninguém como João Paulo soube cantar “Baby Please Don’t Go” de Muddy Waters, “Where Did You Sleep Last Night” de Leadbelly (barriga de chumbo) e “Mazumana” de Fany Pfumo. A lista é enorme que pode não caber neste "Relógio di Oro". João Paulo, JP, não via o Blues como apenas como um estilo musical; o blues era, para ele, um estado de espírito, uma vida que só se respirava pelos pulmões da voz. E eu ainda via JP no “Goa”. Com o seu blazer unido de vários zippers e com botões brilhantes. O dia todo passava-lhe ali sentado.

 

Os últimos anos, amiúde, são tipificados por emboscadas literárias dos combatentes da Luta de Libertação Nacional. Uma espécie de epopeia narrativa e descritiva de uma guerra que foi feita por cidadãos anónimos, com histórias de glória, com memórias e com ensinamentos para os combatentes pela liberdade e justiça, nas mais variadas gerações e transversalidade cultural de todos os continentes. Obras que exorcizam fantasmas que flanquearam as suas vidas no passado, alvejaram as mentes, nem por isso tão jovens, do azul (vermelho) da revolução e empurram matérias inexplicáveis e indecifráveis para este presente que será sempre futuro.

Depois da poesia de combate e de libertação, com textos que ainda ecoam como trovões de morteiro em determinados ouvidos, se abre, de porta em porta, um espaço privilegiado para novas e mais cicatrizadas terapias colectivas, armadas de obuses de outra índole. Ainda sou do tempo onde se encavilhavam estrofes que se envernizaram mentes juvenis ávidas de entendimentos sobre heroísmos exacerbados. Pelos corredores das escolas declamávamos de cor e em voz alta … não basta que seja pura e justa a nossa causa/ é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós…. como se, esse sentido, fosse nosso e estivéssemos, todos possuídos pela nobreza desse alinhamento libertário.

Com intervalos de tiro ou de rajadas solitários, ou ainda, de lança granadas, a resistência dessas memórias e o sentido histórico das kalachi Nikov vão sendo reveladas. Vivências que se acantonaram, algures, galgam os muros da disciplina e dos silêncios militares. Uma espécie de refrão de coral obrigatório.

Verdade que o rigor cartesiano da história nem sempre pode ser exigido a todos estes escritos. Memórias dormentes e cansadas, desavindas, são susceptíveis de amnésias em surdina. Rebuscar os fundos da memória tem um preço. Caro, pesado e de consequências imprevisíveis. O fundamental, louvado por todos, seria deixar os registos e os episódios. Historiadores se encarregam e encarregarão do resto. Ideal será que a energia continue pululando em cada mente libertadora, para que o Cartesianismo impere. Eu existo, logo, escrevo.

Na tentativa de historiar a história desta libertação, feita a ferro e fogo, já se destrataram datas, nomes, locais, rios, montes e comandos. Mas, ainda assim, fica para o presente um discurso que se institucionaliza, formal e até ortodoxo. Aquele encadeamento de factos que transcende a ciência e ganha contornos de religião, senso comum e filosofia, tudo junto, como se acasalam as restantes formas de saber.

Estes novos modelos literários, me perdoem os escritores, os críticos literários e potenciais candidatos, parecem reconfigurar uma nova forma de estar e ser desta literatura que, nos últimos tempos, não tem mãos a medir. Nunca se escreveu tanto, neste país, mesmo que queiramos ignorar e menos valorizar esta realidade. Escrevemos como nós próprios somos. Um linguajar híbrido e distanciado das morfologias e sintaxes, das regras vernaculares. Se escreve da direita para a esquerda e vice-versa. Importante será marchar, marchar e marchar e escrever, escrever e escrever.

Tenho em mãos e olhos uma destas obras. A biografia do Coronel Mateus Óscar Kida. Quis o destino que o seu nome fosse Óscar, pois, ele próprio se confunde com um Óscar desta terra, de simplicidade, humildade e de bom humor. Um Óscar do distinto grupo de combatentes. Mateus Kida não procura glórias, apenas quer recordar uma vida de várias vivências e que fizeram da sua contribuição um exemplo de bravura e dedicação ao seu povo.

Pela sua obra, com inúmeras referências às lideranças político-militares, Óscar Kida cadencia marcha narrativa que desvenda o passado de uma história que, quase se confunde com a história deste país, e bem, na sua contemporaneidade. Confissões e fotografias desgastadas pelo tempo. Uma espécie de autobiografia dessa luta pela libertação da terra e dos homens contra um inimigo colonial e visceral.

Todavia, não são as revelações que mais cativam, assustam ou pretendem metralhar os leitores. São, certamente, as vontades de satisfazer um ego. Promessas e juras de lealdade para com a liberdade. Óscar parece ter lido o poema, por onde passa o exército de libertação/ fica um rasto verde e chuvoso e o caminho para passar a liberdade e o futuro.

Assim, nas centenas de páginas do coronel, diga-se, pessoa humilde e afável, respeitador e inibido, o nosso biografado traduz, de forma simples, os episódios musculados e militarizados que testemunhou. Aliás, muitas facetas ainda são sua marca. Dança como ninguém. Exímio passista e leitor assíduo de todos os jornais que esta praça pode oferecer. As qualidades de dançarino são testemunhadas na voz do Engenheiro Miguel Massingue seu ex-colega nas TDM:

“ … nesse instante o Coronel disse vou à pista dançar, fiquei surpreendido. Como ele quer se expor assim? Dançou e eu ao lado dele a dançar depois notei que a discoteca toda parou e estava a bater palmas… percebi que as plamas eram para ele e não para mim … bati palmas como qualquer um… (p. 332).

Outra das qualidades do Coronel Mateus Óscar kida que salta à vista relaciona-se com a área da segurança de altos responsáveis, iniciada já no II Congresso da FRELIMO e continuado na protecção do Presidente Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique Independente.

… recordo-me por exemplo, daqueles formidáveis mergulhos [em Cuba], acompanhando o Presidente Samora Machel e Fidel Castro, durante os quais este último gostava de caçar lagosta. Foi numa dessas ilhas que tomei pela primeira vez sopa de tartaruga.”(p.212).

 A partir deste livro pode-se compreender que o Coronel Mateus Kida é um Óscar da História recente de Moçambique. O seu contributo para a edificação de um estado soberano e democrático é incomensurável nas várias páginas a si dedicadas, poucas, se comparadas à grandeza da pessoa. Na verdade, as quase quatro centenas de páginas descrevem o suor e segredos mantidos ao longo dos anos, de um homem com características peculiares dada a sua simplicidade e humildade.

 Estes anos não foram suficientes para se entenderem, ou já nem faz parte dos interesses juvenis, compreender como se criaram e se avançava para as bases militares, as cores das trincheiras, os sabores de napalm.

Contudo, neste resgatar, mais ou menos iconográfico, da historiografia militarizada da libertação nacional, presumo que a história desta jovem nação exigirá mais profundidade. A cientificidade dos factos e a validação das fontes. A oralidade suportada pelas evidências, devidamente restauradas, e que confrontem com os estereótipos de um passado, nem por isso muito distante. Existe uma responsabilidade dos narradores que vai muito para além da descrição de um combate, uma vitória ou uma derrota.

A publicação deste livro coincide com um momento histórico crucial na história desta nação arquitetada por Eduardo Chivambo Mondlane, pai da Unidade Nacional. Neste ano de 2018 celebram-se as bodas de Ouro do II Congresso da Frente de Libertação Nacional evento realizado no solo pátrio na mítica e histórica aldeia de Matchedje onde o Coronel Mateus Óscar Kida se fez presente. Cito algumas passagens:

Eu participei no processo, e, nas vésperas da realização do Congresso, participei na preparação do relatório da Província, que devia ser apresentado. Recebi algumas delegações, mas depois, tive que passar para a segurança do próprio Congresso…”(p.105).

Coronel Kida dedicou a sua vida inteira ao combate. Ele não se transformou em combatente, mas numa lenda do próprio combate. Em poucos minutos de conversa deu para entender como se desinteressou por patentes militares mais altas, e compreender a sua postura de guerrilheiro sem exageros. Fala de um combate com perdas e ganhos de ambos os lados. Irmãos que se digladiaram. Relendo sua biografia navegamos ou sobrevoamos os férteis campos das estratégias e tácticas, a bravura e tenacidade dos envolvidos.

Uma espécie de ser de ficção, mas feito de corpo e alma, de sonhos, de desejos e vontades, de amizades e amores. Também ele foi um combatente com medos, receios e hesitações. Coragem e persistência comungadas com temores e incertezas. Afinal, os guerrilheiros são tão seres humanos como todos nós e viveram na pele as emoções que passam pelos jovens e adultos que apenas ouviram falar dessa luta. Este livro, ainda que escrito por outrem, um amigo confidente, surge como uma caixa de surpresas, porém de fortes convicções.

A génese deste empreendimento remonta à amizade entre o autor e o biografado, iniciada no complexo gimnodesportivo do Ferroviário de Nampula em 2004 e percorre momentos e espaços da vida deste actor e contribuinte da História de Moçambique.

Agora, que sua obra chega aos nossos olhos, para os devidos julgamentos, seria importante que o apetite dos jovens para a leitura fosse despertado. Entendo que nada será forçado, nem que esta biografia será introduzida nas escolas, ou onde quer que seja. Se exige sim, que se criem as condições e a responsabilidade de levar esta e outras obras bibliográficas para quem necessita.

Entendo, também, que Óscar Kida continuará ajudando na segunda libertação do seu e nosso Niassa, agora por via da palavra. Depois das bandeiras, seguem-se outras libertações, sobretudo, a económica. Niassa precisa de todos os investimentos, como nós precisamos de oxigénio para respirar.

O Coronel Kida fez a sua parte e o país e Niassa agradecem. Perfeccionista, o coronel passará os seus próximos dias relendo sua própria biografia, na tentativa de ainda incorporar novas memórias. Mas, isso, terá de ser para o próximo livro. 

Tínhamo-nos conhecido na Associação dos Escritores nos meados dos anos 80 e houve, desde logo, uma grande empatia entre nós. Fátima Mendonça era uma reputadíssima professora universitária e divulgadora incontornável da literatura moçambicana e eu um miúdo intrépido que queria saber e fazer tudo. Em finais de 1985 houve em Maputo um encontro que trouxe, entre outras personalidades, o professor Manuel Ferreira que, na altura, deu a conhecer a antologia de poesia No Reino de Caliban III, cujo volume era dedicado a Moçambique. Aquele volumoso livro verde inquietou-me. Apesar de trazer nomes como Luís Carlos Patraquim, Manuela de Sousa Lobo ou Brian Tio Ninguas, entre outros, escapava-lhe uma produção poética onde sobressaísse, sobretudo, a geração da Charrua, revista que tinha sido lançada em Junho de 1984. Pareceu-me, desde logo, que haveria lugar para apresentar uma antologia com a nova poesia moçambicana, a poesia que se produzia naqueles anos, os anos 80, que era o testemunho e o testamento de uma época única. A antologia de Manuel Ferreira cobria muito pouco da poesia que nós então produzíamos, sobretudo a vertente lírico-amorosa, que irá, de certo modo, caracterizar esta época, como a rebeldia e a afirmação de uma nova geração de poetas moçambicanos, que tiveram em Eduardo White, claramente, o seu expoente mais elevado. White, que publicara Amar sobre o Índico – um belíssimo livro de estreia -, em 1984, não constava na antologia. Numa das nossas conversas, ali na associação, interpelei a Professora Fátima Mendonça com essa e outras inquietações. Foi dessas conversas que ficou o repto de trabalharmos num livro conjunto. Combinámos que iríamos fazer uma antologia de poesia com o marco de 1975 para a frente, seria a poesia produzida no contexto do novo país, revelando, por conseguinte, novos poetas e novas propostas, estilísticas e temáticas, que esta então intentava subscrever. Começámos a recolha e sistematização da informação em 1986. A antologia cobrirá o lastro temporal que vai de 1975 a 1988, dado que terminámos o livro em Março de 1989, pese embora este ter sido publicado apenas em 1993.

A nossa ideia era que a associação fosse a editora do livro e nem cogitávamos uma ideia diversa desta. O trabalho de composição começou por ser feito, com o apoio do Ricardo Santos, no CEDIMO (Centro de documentação e informação de Moçambique), onde por acaso cheguei a trabalhar, antes de me decidir a fazer jornalismo. O Ricardo dirigia o CEDIMO e foi determinante o esforço que pôs neste trabalho para que um volume de fotocópias ou originais pudesse ter forma única na composição que se fez no início daquela empreitada. Importante e decisiva seria, também, a colaboração e o empenho de Júlio Navarro, que seria o autor do arranjo gráfico e acompanharia, depois, todo o processo de produção do livro.

A capa branca, com o título em magenta cobrindo-a inteiramente, encimada pelos nomes dos autores e com a chancela em baixo, vista hoje, como o próprio livro ou os acabamentos, parecem demasiado artesanais ou amadores, mas reflectem o melhor que se poderia fazer ou conseguir nas circunstâncias do país e das possibilidades que as gráficas poderiam oferecer. A impressão decorreu no CEGRAF. Vivíamos uma época em que conseguir papel para alimentar a edição de um simples livro era um acto que exigia muito – senão tudo! -, não só dos editores, mas também dos autores. Batíamos as portas das embaixadas pedindo apoio em papel ou computadores para fazer os nossos livros. Inclusive, chegámos a pedir ao Presidente da República apoio, numa visita que lhe fizemos. A sua resposta foi de antologia, mas não posso cometer aqui tal inconfidência. Quando os nossos livros eram então publicados, eram notícia de primeira página. Para os livros, para as revistas literárias, que então surgiram, para alimentar o nosso parco panorama editorial. Fazer um livro, nos anos 80, era um parto longo e dificílimo. Doloroso.

Para além de uma apresentação assinada pelos antologiadores, trazia um estudo da Fátima Mendonça que servia de prefácio. Os poetas apresentavam-se por ordem alfabética do primeiro nome, no final constava um apêndice biobliográfico – nome completo, pseudónimos usados, data e local de nascimento, formação académica, profissão e actividades, livros publicados e outras indicações, constituem este apêndice e, depois, um índice de autores, com referência de poemas e fontes bibliográficas, onde aparecia o autor e o poema, a fonte, a data da publicação e a respectiva página. Muito deste trabalho foi realizado no contacto pessoal com os autores. À distância destes anos, não deixo de verificar que este contacto (não só para confirmar dados, cruzar informação, mas sobretudo para obter textos, muitos inéditos seriam incluídos nesta antologia) foi das tarefas mais gratas que desempenhei na vida. Reuníamo-nos, amiúde, na casa da Fátima, num prédio da Julius Nyerere, com uma vista soberba sobre o Índico. Na varanda, ela tinha uma área de trabalho, onde guardava, sobretudo, fichas, com numerosa e importante informação que coligira na sua longa e distinta trajectória de investigadora, divulgadora e professora da literatura moçambicana. A Fátima Mendonça é uma pioneira estudiosa da nossa literatura. Há muito que merecia uma homenagem pelo extraordinário trabalho que realizou ao longo dos anos. Contudo, sabe-se: vivemos num tempo em que o desconhecimento, o descaso e a displicência imperam e ululam.

Para os incautos: Fátima Mendonça leccionou, na Universidade Eduardo Mondlane, entre 1977 e 2004, quando se reformou: Literatura Moçambicana, Literatura Comparada, Literaturas Africanas Comparadas, Retórica e Poética, Literatura da África Austral e Outras Artes. Foi examinadora externa nas Universidades do Zimbabwe e Durbanwestville e professora convidada nas universidades Patrice Lumumba (Moscovo), Rennies e Poiters (França), Salamanca e Santiago de Compostela (Espanha), Witwatersrand (África do Sul), Universidade de Coimbra e Universidade Nova de Lisboa (Portugal), Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil). É autora de uma vasta obra ensaística: Literatura Moçambicana – as dobras da escrita (2012), Rui de Noronha: Meus versos (edição crítica da poesia de Rui de Noronha, 2006), Antologia da Nova Poesia Moçambicana (co-autoria, 1993), Literatura Moçambicana – a história e as escritas (1989). Co-organizou a edição da obra da Noémia de Sousa (Sangue Negro), organizou o livro póstumo Poemas Éróticos de José Craveirinha. É também co-autora de João Albasini e as luzes de Nwandzengele (2014).  Conferenciou sobre a nossa literatura em diversas cidades e universidades do mundo, em colóquios e congressos, redigiu ensaios críticos sobre a literatura nacional, é provavelmente a moçambicana com maior arcaboiço do percurso histórico da Literatura Moçambicana. Pretextos não faltam para a Universidade Eduardo Mondlane, o ministério da Cultura ou lá quem quer que seja fazer-lhe um reconhecimento público. Aqui fica o meu humílimo preito. 

Quando foi publicada a antologia, em 1993, António Pinto de Abreu, António Tomé, Brian Tio Ninguas, Celestino Jorge, Elton Rebelo, Fernando Manuel, Filimone Meigos, Gulamo Khan, Hilário Matusse, José Pastor, Julius Kazembe, Kalungano/Marcelino dos Santos, Leite de Vasconcelos, Luís Cardoso, Nelson Saúte, Noémia de Sousa e Simião Cachamba não tinham a sua obra publicada em livro. Destes autores, Brian Tio Ninguas e Gulamo Khan tinham morrido quando a antologia saiu. De Gulamo seria publicado postumamente Moçambicanto. Tio Ninguas permanece inédito em livro. Elton Rebelo (Júlio Bicá), Hilário Matusse, Leite de Vasconcelos e Noémia de Sousa faleceram muitos anos depois deste lançamento, mas viram antes serem publicados seus livros. Celestino Jorge e José Pastor morreram e continuam inéditos em livro. António Pinto de Abreu, Fernando Manuel, Filimone Meigos, Marcelino dos Santos (livro único), eu próprio, haveríamos de publicar diversos livros ao longo dos anos. Permanecem inéditos Julius Kazembe, Luís Cardoso (publicou um álbum de pintura) e Simeão Cachamba (tinha um livro pronto, mas não tenho notícia da sua publicação.).  Albino Magaia, Armando Artur, Calane da Silva, Carlos Cardoso (livro único), Clotilde Silva, Eduardo White, Hélder Muteia, Heliodoro Baptista, Jorge Viegas, José Craveirinha, Juvenal Bucuane, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Mutimati Barnabé João, Orlando Mendes, Rui Nogar, Sebastião Alba, Sérgio Vieira, FRELIMO (autor coletivo), completam o escol dos poetas escolhidos.

No lapso de tempo em que decorreu este trabalho, a quatro mãos, eu concluí o secundário, colaborara como jornalista cultural na Rádio Moçambique e no Notícias, fizera um curso médio de jornalismo, entrara para os quadros da revista Tempo, onde me tornaria, em 1988, editor da “Gazeta de Artes e Letras”, colaborara abundantemente na imprensa moçambicana. Um sonho que começara a porfiar aos 18 anos vi apenas concretizar-se aos 26 anos, em 1993. Muitas foram as vicissitudes, mas este trabalho foi em si uma espécie de um curso superior de literatura moçambicana (de poesia, no caso), que me permitiu ter um amplo conhecimento das obras, dos autores e das circunstâncias em que muitas delas foram produzidas. Muito devo ao convívio e ao trabalho, minucioso, diligente e informado, que tive com a Fátima Mendonça. Aprendi muito. Aprendo tudo.

Este trabalho iluminou, por assim dizer, o meu trabalho como jornalista cultural. A inversa é válida: o meu labor jornalístico também deve e muito a esta tarefa como antologiador. Muito ou quase tudo o que fiz como jornalista cultural foi divulgar autores – ler as suas obras, recenseá-las, entrevistá-los, anotar, discutir, polemizar. Esta foi a minha tarefa. Aprendi muito com o antologiador e este imenso com o jornalista. Quando, menos de uma década depois, o Nelson de Matos, meu editor na D. Quixote, me desafiou a organizar, primeiro uma antologia de contos (As Mãos dos Pretos), título emprestado a um belíssimo conto de Luís Bernardo Honwana, talvez o mais belo conto jamais escrito na nossa literatura e de poesia, depois, (Nunca Mais é Sábado – título emprestado a um soberbo poema de Rui Knopfli no notável Mangas Verdes com Sal), a minha tarefa e a minha diligência foram facilitadas pelo trabalho, conhecimento que travara, rede que estabelecera, empatia que tivera com autores e obras, o que tornou aquela empreitada menos difícil do que seria se eu não beneficiasse do trabalho de sapa realizado anteriormente. 

Falei em tempos à Fátima Mendonça da necessidade de revermos e reeditarmos esta obra: Antologia da Nova Poesia Moçambicana. O pretexto dos seus 25 anos em 2018 – foi editada em 1993 – poderia ser uma justificação incontornável. Até porque, depois de 1988, não só surgiram novos e belíssimos poetas – há outras ausências que o tempo histórico e as suas circunstâncias não nos “permitiram” incluir e que hoje estariam lá representados indubitavelmente -, assim como muitos de nós publicámos o melhor que soubemos e pudemos, ulteriormente, e isto poderia ser resgatado numa antologia tão ampla quanto significativa, como foi a tentativa daquela, sem dúvida, a primeira que se fez em Moçambique no período ulterior à independência, com a ambição e a relevância que tinha e que tem.

“Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo”, Friedrich Nietzsche

A morte é o recipiente inferior da ampulheta e os grãos de areia que inelutavelmente caiem nele somos nós, os seres humanos. A queda é iminente. Ninguém sabe se está perto ou distante do funil para boca da morte. Estamos todos misturados e distraídos com a fugacidade do mundo até que, de repente, o chão que pisamos se nos abre num abismo sem mais saída. E aqueles, que dispõem da sorte finita de colocar o pé num degrau rígido, voltam-se às pegadas da nossa vida para perceber “qual foi o destino traçado pelos nossos passos?”

Quanto menos cambaleantes tiverem sido os nossos passos na vida, mais nítida é a nossa existência no mundo. Se quisermos deixar uma memória concisa sobre nossa existência no cosmos, é mister que os nossos passos, em forma de decisões e acções, sejam tão consistentes quanto possível. Eis o poder existencial da consistência que não se nos afigura fácil de conquistar tal como qualquer outro tipo de poder. Para conquista da essência da nossa existência, mais do que carácter, é-nos preciso uma vida acorrentada aos princípios ético-morais, a virtudes ou à negação radical de quaisquer princípios – o que se chama nihilismo. Caso contrário, a nossa existência incorre no risco de ser medíocre, extinguindo-se connosco tão rápido quanto o abraço da morte. Os princípios ético-morais, aqui referidos, não têm de ser necessariamente valores convencionados pela sociedade. É-nos possível projectar a nossa essência para o mundo por meio da contra-cultura ou concepção subjectiva dos valores.

Todavia, o homem enquanto vivo está destinado à falibilidade de contemplar-se como projecto final. Tal falibilidade deve-se ao facto do fim da sua acção ser imprevisível, embora definida a sua intenção. Hannah Arendt já cogitara tal impossibilidade de homem conhecer a sua essência em vida, cabendo sempre aos terceiros biografar a sua identidade póstuma. Constitui, especialmente, um dever dos historiadores, escritores, poetas e artistas perpetuar a memória daqueles que em vida disseram e praticaram palavras e actos extraordinários testemunhados pelos homens.

Mesmo que o homem não chegue a se contemplar como resultado final do seu próprio projecto ainda vivo, a sua vida é digna de honra pela consistência com que se desdobrou ao longo do tempo. E para buscar-se uma vida d’honra, todos os homens dispõem das mesmas oportunidades, não importando as circunstâncias a que estão sujeitos. A condição sin qua non de uma vida d’honra inconfundível é a consistência nas palavras e acções. A dupla moralidade é própria de um homem medíocre que deixando se vitimizar pelas circunstâncias fugazes do mundo esvai o barro da sua vida sem nunca ter moldado o seu próprio ser. O aforismo “sou eu e as minhas circunstâncias” de Ortega y Gasset, quando interpretado como manifesto de um homem que busca definir o seu ser em função das circunstâncias, revela-se-nos uma filosofia de vida que ordena ao olvidamento constante de quaisquer traços ontológicos do homem ao longo de uma série de situações. Ou seja, na perspectiva de Ortega y Gasset, o ser humano é incapaz de construir-se ao modelo da sua vontade e pensamento, senão aos tentáculos das circunstâncias em que se insere. Ele é sempre chamado a adaptar-se ao espírito de cada circunstância, assumindo todas as contradições do seu ser que os momentos lhe impõem.  

Um homem de circunstâncias arrisca-se a experienciar a crise existencial que consiste na inquietante ignorância do seu propósito no cosmos. Embora extremamente profunda, esta dor metafísica pode ainda levar o homem a criar-se como um projecto que possa dar sentido à sua existência e, deste modo, curando-se dela. A existência com sentido obriga a vida a ser consistente, e é pela consistência que o homem liberta-se da crise existencial. Além do essencialismo e do existencialismo, o homem tem a terceira alternativa que consiste na redefinição da sua vida supostamente predestinada. O mais crucial já não é mais saber se, de facto, nascemos com um propósito ou devemos criar um, mas sim é manter-nos consistentes no que achamos que somos ou queremos ser.

Só a consistência é capaz de nos livrar de uma vida sem sentido. Que os pequenos desvios da vida cometidos por nós mesmos não nos sirvam como desânimos, mas sim como rascunhos do tipo de existência a partir do qual gostaríamos de ser lembrados.

Vais deixar que eu fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual à noite, calada e constelada.
Pablo Neruda

 

À

Mubayane Muianga, minha avó!

 

A rádio-boca inaugura hoje a rubrica Histórias Criativas. A primeira participante é Suaila, filha do casal Ginabay de Inhambane. Pretendemos promover a leitura de obras de autores moçambicanos. Os ouvintes interessados podem enviar uma carta à apreciação de incontornáveis nomes das letras do país, na residência circular da praceta, a Culpa Morre Solteira, na baixa da cidade.

Suaila escreveu, como ela nos confidenciou, o que leu e gostou e deseja sempre reler.

Eis o conteúdo da missiva dirigida a Hélder Faife:

 

Estimado escritor,

Primeiro gostaria de saber da tua rica saúde! As árvores do meu imenso pomar vibram. As areias de todo Nyambavale quase que se soltam pelos ares, neste momento em que me deito nestas palavras.

Vim revelar-te o que passei nos raros momentos do rico prazer, durante a leitura. Sabias que hesitei, debatendo-me com uma interrogação fundamental. Andei preocupada, pois até hoje ninguém da minha família sabe explicar por que razão um pássaro azul esboçava um cântico triste, no coqueiro grande do quintal durante todas as noites que eu rabiscava esta carta. Aquele fenómeno invulgar sempre acontecia quando o silêncio pincelava a tarde, mordendo o sol pelos calcanhares. E a sombra densa começa a guarnecer o nosso terreiro.

Como deves imaginar, meu escritor, não sou uma mulher de vacilar por assombrações. Nem vou ceder à pressa dos meus velhos, em casar-me cedo.

Gosto quando lês assim, acariciando a minha caligrafia na textura do papel. Eu e as árvores, dedicamos-te a alegria de ramos carregados de frutos. Não nos conheces de lado nenhum. E nem antes permitistes que te tratássemos por tu, neste tom inclinado. Fazemos isto porque precisamos de introduzir-te na mística da terra. A única coisa de Inhambane que imagino conheceres são as tanjarinas. Nesta época terás provado dessas tanjarinas vulgares que andam por aí na capital. E, mal de vocês enganados por oportunistas dizendo que são tanjarinas de Inhambane. Coitados!

Meu escritor, o que me leva a escrever-te é algo mais fundo como os tesouros que estão por debaixo desta terra. Estou deitada, olhando o céu, imaginando coisas. Bem gostaria de ver-te pendurado lá no alto do coqueiro. Contento-me apenas por ver-te nos caracteres que compõem o teu nome neste livro DE(S)DENHOS. Nem me perguntes porquê. Digo-te apenas que isso me preenche. Sinto-te aqui comigo. Só eu sei o que isto significa.

Sei que continuas aí expectante, por mais notícias. Vou contar-te um segredo. Sou a filha mais bonita dos meus pais. Tenho aqui uma fila de gatos-pingados, pedindo a minha mão em casamento. Decidi, então, saber a opinião de alguém que muito admiro. O que te peço, HF, é que a partir do que te escreverei, reproduzindo as intenções daquela gente, possas ajudar-me no razoável. Isto até incomoda-me, sabe.

Lembrei-me de um outro segredo muito meu. Todos os registos que esses parceiros-estratégicos pretendem publicar em livro sobre Zavaleni, a biodiversidade de todo litoral de Inhambane estão comigo. Tenho um manual de valor incalculável, com o registo de todas as canções chopes, todo o nosso imensurável património: a beleza dos lugares, os costumes das nossas gentes, o repositório do Tineve, Ntondo, Mwendje e coisas que não posso nomear. Isto é tão sensível como a polpa da madrugada. Até receio que esta gente da rádio-boca meta o nariz. Proponho-te um pacto: se chegares a meio na leitura da minha lista de coitados, poderei revelar-te as preciosidades que guardo no baú secreto. Está combinado?

 

Um beijinho,

Suaila Ginabay

 

Caros leitores,

Esperamos por mais novidades literárias na próxima edição de Histórias Criativas! Votos de boas leituras!

Saudações,

Celso Muianga

 

Quando, em Novembro 1990, parti para estudar em Portugal, levava na mala, entre outras coisas, uma providencial cassete de música moçambicana. À distância de quase trinta anos, já ninguém grava música em precárias cassetes. Era uma compilação abrangente da música moçambicana e recordo que tinha músicas que tocavam na rádio e eram na altura grandes sucessos: Ghorwane, Xidimingwana, Joaquim Macuácua, Wazimbo, José Mucavele, Avelino Mondlane, Alexandre Langa, Camal Gijá, Fany Mpfumo, Madala, Manecas Tomé, Magid Mussá, Aida Humberto, Ana Juliana, Eva Mendonça, Elsa Mangue, Elvira, Mingas, Guegué, Zena Bacar ou Resiana Jaime, eu sei lá! Tinha comigo outras cassetes, de outro tipo de música, que eu ouvia com devoção na época, e levava a impressionante gravação do “FMI”, do José Mário Branco, que o Álvaro Belo Marques, de grata memória, me dera a conhecer nos meados dos anos 80. Foram anos prodigiosos para a música e nós ouvíamos ou víamos os vídeos, nos vetustos Betamax, grandes sucessos como Michael Jackson, Diana Ross, Marvin Gaye, Freddie Mercury, Madonna, Prince, Tina Turner, George Michael, Lionel Richie, A-ha, The Police, Whitney Houston, Chris Isaak, Phil Collins, Scorpions, entre tantos outros. Cultivava também a música africana: Sam Mangwana, Mbilia Bele, Tabu Ley, Franco Rocherau, Manu Dibango, Salif Keita, entre outros. Debutavam então ou começavam a ser reconhecidos: Youssou N´Dour, Angelique Kidjo, Geoffrey Oryema, King Sunny Ade, Papa Wemba, Touré Kunda, Ray Lema, por adiante. Segui, de perto, o que a rádio dava e ela exercia um forte magistério nesse domínio. A TVE tinha poucos programas de música. Mas lá passavam, nos interlúdios, sobretudo, músicas moçambicanas. Ou concertos que iam acontecendo aqui. Recordo-me do programa de Jorge Morgado, que era um fã dos Jon Bon Jovi. Eu ouvia um pouco de tudo. Não tinha preconceitos.

O Simão Anguilaze, que tinha sido meu colega na Escola de Jornalismo, entre 1987 e 1988, e o Teodósio Bule, que iria formar-se em Economia, foram meus companheiros de viagem e de aventura nos sete meses que iria expender em Chaves. Iam no avião outros bolseiros, entre eles o Gabriel e a Maria Cecília, desaparecida precocemente. Ambos foram para Vila Real. O nosso destino final era Lisboa (eu e o Anguilaze) ou o Porto (no caso do Teodósio, do Gabriel ou da Maria Cecília), mas antes tivemos de cumprir uma espécie de penitência numa escola secundária longe daquelas duas cidades.

Apesar de eu estar no 2º ano na Universidade Eduardo Mondlane, fui obrigado a fazer a 12º ano e lá colocaram-me em Chaves. Chegámos à meia-noite e abrigámo-nos na primeira pensão que encontrámos disponível. Havíamos de lá permanecer aqueles meses todos. A viagem, na altura tortuosa, levava umas 10 horas de autocarro da antiga Rodoviária Nacional. Isto depois de uma viagem de 10 horas de avião! O Eugénio Lisboa ficou escandalizado e ainda tentou intervir quando soube que eu ia passar por aquela provação lá para o fim do mundo, mas disse-lhe que não valeria a pena gastar munições com isso. Se fossem necessárias, iríamos usá-las noutras frentes. As aulas começavam em Setembro e nós já íamos com atraso: estávamos em Novembro. Fiquei, por conseguinte, sete meses em Chaves e foi um tempo de uma longa espera. Um tempo de leituras, sobretudo. Boas leituras. Recordo que li bons livros, de bons romancistas, sobretudo americanos, como John Steinbeck ou Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald ou John dos Passos, Truman Capote ou Mark Twain. Ainda com a mania de ler só americanos naquela época.

O homem da tabacaria, que ficava na praça central, emprestava-nos o jornal Público todos os dias, no final da manhã, e devolvíamos o jornal lido ao final do dia. Era de uma grande generosidade. Tenho pena, mas não me lembro do nome dele. Ficávamos, por vezes, muitas vezes, a conversar, longamente, com ele. Tinha tido um passado africano, mas não era daqueles tipos chatos que ficavam o tempo todo a assombrar-nos com os seus fantasmas de África. Nada disso. Não me queixo do tempo que ali passei, por conseguinte. Acabou sendo um tempo bastante proveitoso. Conheci muito boa gente. As pessoas em cidades pequenas têm outra atitude, dão-se connosco, somos visíveis. São capazes de ter ou desenvolver afecto com forasteiros. É o caso da D. Maria do Céu, lá da escola, que nos tratava como se fôssemos seus filhos. Havia uma canção – “Não há estrelas no Céu” – cantada pelo Rui Veloso, que era um sucesso estrondoso na época. Eu brincava com a D. Maria do Céu fazendo o trocadilho da música. Um dia fiz-lhe um poema: “Não há Céus nas Estrelas!” Ela comoveu-se com esse carinho. Aqui há muitos anos, fomos a Chaves e ainda encontrei a D. Maria do Céu.

Comíamos na escola durante o dia e à noite numa tasca familiar, numa rua oposta à nossa pensão, onde geralmente chegávamos justamente à hora do telejornal – às 8 da noite. Comíamos ali a crédito e pagávamos no fim do mês ou quando podíamos ou quando chegavam os parcos escudos da nossa bolsa. Quando vinha a bolsa, metíamos a caderneta da Caixa Geral dos Depósitos – era o tempo das cadernetas! -, sacávamos o dinheiro e pagávamos as contas, que incluíam o serviço do quarto na pensão – que eu dividia com o Bule e o Anguilaze – e outras despesas como lavandaria. Mas às vezes ficávamos meses sem bolsa. A minha namorada vivia em Madrid e, por vezes, mandava-me de lá umas valiosíssimas pesetas, que davam para equilibrar as contas, sempre periclitantes. A vida de estudante bolseiro é assim: dificílima. 

Quando dava para isso, aos sábados, comprávamos o Expresso, que líamos com devoção ao largo do Rio Tâmega, numa esplanada ensolarada, à espera da hora de comer o nosso sacramental cozido à portuguesa, que aquela família acolhedora e com um vocabulário bastante ilustrado pelo vernáculo e algo inusual para nós – praticavam sem rebuços a língua portuguesa entre eles! -, diligentemente fazia aos sábados. Nunca me esqueço de um belíssimo artigo da Clara Ferreira Alves que li, num desses sábados de sol ao largo do rio, – era Primavera! -, sobre Graham Greene, quando este morreu, em Abril de 1991. Grande Graham Greene! Não teve o Nobel. Também não o deram a Jorge Luis Borges. Ou a tantos que o mereceriam como o Carlos Drummond de Andrade. Grande artigo aquele da Clara Ferreira Alves! Nunca mais me esqueci desse belo escrito da Clara. Muitos anos depois tornámo-nos amigos e eu nunca lhe contei esta história.

Foi quando aconteceu a “Tempestade no Deserto”, uma ofensiva militar, iniciada a 17 de Janeiro de 1991, liderada pelos EUA, que combinava efectivos de dezena de países aliados contra o Iraque, que invadira o Koweit em Agosto de 1990. A rendição dos iraquianos ocorreu a 28 de Fevereiro de 1991. Os nomes dos generais americanos eram comuns nas nossas conversas, fosse Norman Schwarzkopf ou Colin Powell, que merecia – não sei porquê – o nosso entusiasmo. Saddam Hussein fazia parte das nossas conversas ou Tariq Aziz, que teve aquela famosa “boutade” sobre a possibilidade da guerra numa entrevista antes da saraivada de bombas sobre Bagdad: “Fifty fifty”, dissera ele: “Se os americanos quisessem, haveria guerra. Se os americanos quiserem, haveria paz”. Víamos com devoção a CNN, a estação global, e as reportagens do Peter Arnett em Bagdad, com explosões e sirenes, atrás de si, e Bernard Shaw, outro dos nossos heróis, nas suas aparições no famoso hotel Al-Rashid. E lembro-me do Carlos Fino, que encontrei, muitíssimos anos depois, numa festa literária em Ouro Preto, e estivemos à conversa sobre esse tempo impetuoso. Conhecia-o quando era correspondente da televisão pública portuguesa em Moscovo, na turbulenta era do Gorbatchov e aquando do golpe do Ieltsin. Ocorrera antes o eclipse da Dama de Ferro, Margaret Thatcher, e de Londres chegavam notícias das lutas fratricidas para a suceder. Helmut Kohl era o homem todo-poderoso da Alemanha. A América tinha o Bush pai. Nós vivíamos a discutir política internacional e a ler os artigos sobre o que se passava naquele mundo que para nós era um mundo extraordinário. O mundo que a CNN tornara uma aldeia. A chamada aldeia global. Um tempo empolgante. Na África do Sul escrevia-se um breviário empolgante da liberdade, facto não isento de tragédia que ensombrava a empresa de Nelson Mandela. Hoje já ninguém se lembra da refrega dos Zulus e do seu chefe tribal Mangosuthu Buthelezi. Eram tempos fascinantes aqueles anos 90. Em Moçambique insinuava-se um caminho para a paz. A guerra não era apenas uma metáfora nos nossos escritos ou uma alusão idílica nos dias de hoje, de amnésia e displicência em relação à memória. Havia massacres e a sua crueldade era absurda. Como explicar que a receita para fazer um herói tenha sido tão subvertida? Adiante. África debatia-se com os seus dramas, dilemas e chagas. Passam três décadas.

Quando recolhíamos ao quarto, muitas vezes, quase sempre, eu punha, com a adesão e entusiasmo de todos, a minha cassete no meu pequeno gravador/reprodutor Sony. Ouvíamos compungidos aquelas músicas que sublimavam as nossas saudades de casa, da família, da terra. Havia, entre aquele impressivo cancioneiro, uma música que nos empolgava a todos: “Dadinha”, de Joaquim Macuácua. Creio que nos sete meses em que permaneci em Chaves devo ter ouvido, quase todos os dias, aquela música de Macuácua. Depois de Chaves, eu e o Anguilaze fomos para Lisboa, para a Universidade Nova, cursar Ciências da Comunicação; o Bule foi para o Porto, onde estudou Economia; e a minha cassete, entretanto, ter-se-á perdido não sei onde. Perdi outros precisos objectos. Dei emprestado e nunca tive de volta a cassete que tinha gravado o “FMI”, do José Mário Branco, e um exemplar do romance Mayombe, do Pepetela, que tinha marcado a minha juventude, depois de As Aventuras de Ngunga, que me fizeram sonhar, através de uma adaptação para a “Cena Aberta”, feita pelo inesquecível Né Afonso. Muitos anos depois comprei o CD Ser Solidário onde vem aquele poema vibrante “FMI”. Escusado será dizer que voltei a comprar o Mayombe. A última vez que estive com Pepetela, o que ocorreu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, também numa festa literária, em 2014, pedi-lhe que me autografasse o exemplar daquele soberbo romance que tinha um significado literário irrefutável, mas sobretudo uma carga emocional muito grande para mim. Esquecer-me-ia assim definitivamente daquelas perdas de Chaves.

Não oiço “Dadinha” há, seguramente, mais de vinte anos. A rádio, nos anos 90, dava muito essa música. Suponho que continue a dar. Mas também deixei de ouvir rádio e não tenho podido ouvir muitos dos músicos moçambicanos. Há pouco, quando me lembrei de “Dadinha”, consultei o livro Marrabentar e não encontrei nele referência alguma. O Amâncio Miguel vive hoje nos Estados Unidos. Vi que estava online e mandei-lhe um WhatsApp – são os tempos modernos. Pergunto-lhe se o Macuácua está vivo. Diz-me que já morreu. Tanto músico morto, respondo-lhe. Há quase 13 anos publiquei, na Marimbique, o livro compilado e organizado pelo Amâncio, este Marrabentar, onde se biografaram muitos músicos moçambicanos. Não está o Joaquim Macuácua. Também procurei o João Cabaço e não estava. Estão o Arão Litsure e o Hortêncio Langa. Curiosamente, não se referem a Cabaço. Duas grandes referências afectivas para mim – Macuácua e Cabaço. Tenho de desafiar o Amâncio a fazer uma edição nova deste Marrabentar, revista e acrescentada. Falta-nos bibliografia neste domínio. Ou um dicionário da música moçambicana.

Por que razão me lembrei esta noite da música “Dadinha” do Joaquim Macuácua, um músico muito famoso nos anos 90 e que me acompanhou, durante a minha penitência de sete meses, em Chaves? A razão próxima é que eu queria escrever sobre um músico moçambicano. Tenho ouvido ultimamente e recorrentemente os Ghorwane e sobretudo Pedro Langa e Roberto Chitsondzo. Gosto muito dos Ghorwane na voz do Pedro Langa. Como olvidar “U Yo Mussiya Kwini”, “Massotcha” ou “Mamba Ya Malepfu”? Sou um indefectível do Chitsondzo. Oiço-os impenitentemente desde “Akuhanha” dos anos 80 até “Mussakaze” de hoje. Um dia escrevo sobre eles. Lembrei-me de Zaida Lhongo, que era famosa nos tempos em que retornei à Pátria, meados de 90, sobretudo por “Zabelani” ou “Alfândega”, “Sibo” ou “Sifa si Dlheli”, mas não me lembrava de nenhuma narrativa que me ligasse à sua voz, embora eu adorasse Zaida, sobretudo a sua performance em palco. Recentemente vi uns vídeos seus na Internet e recordei-me da sua iconoclastia. A despeito, “Dadinha”, na dilacerada voz de Joaquim Macuácua, impôs-se-me: lembra-me um tempo de espera, em Chaves, entre finais de 90 e meados de 91, que aproveitei atirando-me à leitura de romances americanos, sobretudo os da geração perdida, lendo jornais e acompanhando empolgado a guerra do golfo e os seus efeitos na CNN e exultando com Bernard Shaw, o famoso anchor man preto, talvez o primeiro entre os mais famosos, sonhando com o dia em que aportaria na Universidade Nova de Lisboa para fazer Ciências da Comunicação, um curso que estava na moda e que me levara a Portugal, onde me atardaria 5 exultantes anos da minha vida.

 

 

 

Sou uma mulher independente, sim. Independente de tudo, mas infelizmente dependente de parvos como tu. Fumávamos o mesmo cigarro, aliás fumei os cigarros todos que acendias nos teus lábios, bebi os vinhos todos que desaguavam na tua língua. Fiz tudo por ti. Larguei o pateta que se dizia meu marido. Ele de marido não tinha nada, mas tinha muito de tudo que tu não tens. Iludiste-me com a conversa do divórcio, com as chamadas falsas a falsos padrinhos, com as confissões de amor que não sabiam direito da tua língua.

Tu não prestas. O que fizeste de mim foi destruir uma mulher que estava te construindo. Tenho pena de ti. Afinal, tu sabias que só querias fazer de mim um carrossel de desejos? Uma mulher-bombeira das suas loucuras e fantasmas sexuais? Tu só mereces uma coisa no mundo: um palácio no inferno. Inferno. Mas até o inferno pode recusar-te, porque tens tanto inferno dentro de ti. Um homem crescido, como tu, deixa, de jogar a bola vem jogar uma mulher. Isso é falta de organização mental para reconhecer as coisas e as pessoas. As pessoas, as mulheres não foram feitas para serem jogadas. Podem ser jogadas, como me fizeste, mas nunca se partem. Como podes saber disso se nunca soubeste quantas vezes eu fugi de casa para estar contigo.

Tens cartões de bancos, mas não tens banco dentro de ti para guardar um sentimento mínimo. Coitado! O teu coração é um objecto morto que não saberá nunca o que é amor. Não sei porque escrevo sobre ti, seu parvo. Sim, és parvo, sim. Talvez estejas acima disso na hierarquia da inferioridade. Um parvo só gasta tempo fazendo parvoíces e tu gastaste-o fazendo estupidez com a tua afinada insensatez.

Varro todos dias a casa para ter a certeza que já não tem um passo teu aqui. O teu cheiro tem o mesmo selo com o do esgoto. Molho, todos dias, a casa com incensos para matar o teu cheiro. Dá nojo a presença do teu cheiro aqui. Dá nojo saber que o meu corpo foi, um dia, teu. Sinto nojo de tudo. Nojo de mim por ter te ensinado a viver em vão, nojo de ti por te suportares mesmo não valendo nada. E sinto nojo do mundo por existires. O mundo é baixo demais para aceitar pessoas como tu. O mundo devia expulsar-te ou ele sair de ti.

Fique sabendo que tudo que um dia fizemos juntos desfiz sozinha. Agora percebo porque fui tão cega ao teu lado. Como não ser cega perante um objecto que nem quase existia? Sim, não existias. Passavas por mim e eu não te sentia, beijavas-me e eu não movia os lábios, acariciavas-me as mãos e eu nem dava-te a unha, tudo que fazias não sentia. Tu é que me fazias esforço para sentir. És baixo. És uma criatura que não sei com que cegueira vi.

Tenho certeza que agora estás a destruir mais uma mulher. Tenho certeza que já fizeste outra cair na tua isca. Com certeza estás enganando uma, como eu, com falsas declarações de amor, com envelopes selados de saliva estúpida e suja, com essa sua voz que nem sabe pronunciar bem os ditongos. Nunca soubeste nada. Até o meu nome nunca soubeste pronunciar, por isso sempre me chamaste de amor. A única coisa que sempre soubeste foi mentir, esconder o rosto debaixo da almofada para disfarçar o arrependimento em cada noite passada comigo.

Onde estiveres saiba de algo: nunca voltarás a ser homem suficiente para mentir para outras. No fundo mentes para ti mesmo, pois te achas homem! Oh, meu Deus, homem tu? Tu nem serves para ser a capa de um homem barato como o sapateiro da rua 5. Nem tens a mínima estética para ser um corcunda. Só tens jeito para uma coisa: para ser nada. E mesmo nesse nada tens dificuldades sérias. Queres mesmo saber: eu quero que todas as pedras das ruas levantem um castelo de dor sobre a tua cabeça.

 

Há ausências que não se preenchem,

Há amores que não morrem,

E há pessoas que vão, mas ficam!

 

Ao Joaquim Boaventura Massingue,

três meses de permanente saudade!

 

22h00 fomos depositar as suas cinzas no mar! Era o seu desejo, sempre gostaste do mar, talvez pelos seus mistérios, sua imensidão, sua tranquilidade, sua (…). Na cidade não se falava em outra coisa, senão na decisão que tomaste em vida…soava estranho, mas quem te conhece entendeu. Há pessoas que nos marcam e tu foste uma delas, não só para nós, seus filhos, mas mesmo para quem contigo travou um dedo de conversa, eras diferente! Não é por seres nosso pai, mas pelo homem que eras…esperamos dignificar-te!

– Meus filhos preparem-se vamos à praia, surpreendeste-nos várias vezes. No seu Datsun (MIA 33-84), no Land Rover ou pelo Vitz, íamos todos e partilhavas histórias…dávamos gargalhadas à ida até à volta. Gostavas de dar mergulhos, a mamã não gastava nada daquilo…

– Joaquim volta aqui…Joaquim, mano Joaquim volta phaaa. Vejam lá o vosso pai…é por isso que não gosto nada de vir aqui. Dizia minha/nossa mãe, sua esposa! E tu de longe enchias-te de risos, era contagiante.

Eras sorridente, feito um aventureiro destemido, fazias questão de ir mais fundo…Confesso que tínhamos medo, mas era seu jeito, não temias uma (boa)aventura.

Lembro-me dos anos que passamos juntos em Nampula.

– Meu filho quer viajar?

– Para onde papá?

– Vamos lá conhecer Pemba amanhã!

Foi numa noite e no dia seguinte lá estávamos no autocarro, foi assim que conheci a praia do Wimbe e a cidade de Pemba. São tantos os episódios, enfim.

Não te entendo, confesso que não. Convivi contigo boa parte da minha vida, mas me surpreendo até hoje. É como se se apercebesses que o mal queria dar o golpe final. Antes de chegar a capital, te certificaste que as finanças estavam saudáveis para não ser encargo para ninguém, sempre o disseste, mesmo quando a saúde abundava em ti. Enfim…

Partiste! Que pena, já me vou…repetiste várias vezes no leito daquele hospital que só é grande pelo nome e em tamanho, mas na hora da verdade nem medicamentos tinha. Contrariando discursos de quem deveria estar mais atento a esses míseros que nos tornamos. Há coisas e coisas, há momentos e momentos, há tristezas e tristezas. Infelizmente, o mal não vive solteiro, procura sempre amantes para enaltecer a sua musculatura, o seu nome e para garantir a sua procriação. Já o bem é solteiro, vive de pequenas aparições, depende de corações, não é omnipresente. Faz mesmo falta. Injustiças foi o que tentaste combater nesta aldeia de miseráveis, mas o mal tem sogros, filhos, sobrinhos e até netos para garantir a sua omnipresença nas cabeças de quem tem terreno fértil. Sabias que eras o nosso porto seguro, por isso que pena! Disseste a nós filhos, não me esqueço!

Madrugada amena, ruídos, gritos, músicas assaltam o meu compartimento. O sono apercebe-se e desperta-me. A saudade invade…

– Neste mundo reina a lei do mais forte, vive-se num do mundo do mal. A esses patrões chamaste-os “Abutres da minha terra”, o livro que ficaste por escrever.

Antes da doença chamar por si, já o dizias e com conhecimento de causa! O terreno encarregou-se de justificar tais palavras.

– 17h00…Ele não está bem…deixemos tudo na mão de Deus, disse aquele médico um dia antes da misteriosa levar-te.

– Procurem este medicamento para vermos se atenuamos a infecção…mas vos adianto que aqui no HCM não tem e é difícil ter nas farmácias privadas. O mal não anda solteiro mesmo!

Corremos…a luta era contra o relógio do mal. E como acelera…conheci a cidade onde moro há mais de oito anos como nunca…mas o destino era previsível. Qualquer ideia era válida, sentíamos que o mal ganhava espaço e apadrinhava a misteriosa.

O nosso país é aquela coisaaa! E a culpa­? De certeza morrerá solteira… Enfim, fomos aos terminais de autocarros que fazem viagens à África do Sul numa tentativa desesperadora de encomendar os fármacos. Mas o relógio, esse, (parecia numa maratona) marcava 21:30, não logramos sucessos!

Apareceu então a ideia de contactar uma mulher – estava feito uma amiga, mostrava-se sempre presente neste mar de agonias…ela é de uma beleza e simpatia de afugentar qualquer mágoa, seu falar, gesticular é de trazer paz, enfim este é outro mar de incertezas – que se prontificou a ajudar através de uma conhecida na terra do rand. Era sábado e a esperança é que os medicamentos chegassem na segunda-feira. Enfim era o possível, embalamos na esperança…

Como era de praxe às 5h00 da manhã de domingo… Já estávamos no percurso para o hospital. Segui na frente, com uma tigela verde com papa de soja… o mano irmão Ânsio – meu mais velho – veio logo depois. Os guardas já nos conheciam… era nossa casa e como era habitual.

– Bom dia, como está a ser o trabalho?

– Haaa como sempre normal, disse um deles com semblante de quem estava cansado.

Enfim, fui subindo as escadas na esperança (…). Já naquele piso…parte dos seus pertences estavam arrumados no chão como se tratasse de um regresso a Xai-Xai sua/nossa casa.

– Come mais um pouco meu pai. Não quer voltar para casa? É o que eu dizia para te animar, nada falavas, apenas me reparavas e sorrias! Reabria-se a esperança.

Sua casa (Xai-Xai) era/é o seu porto seguro, seus olhos brilhavam quando te falavamos.

Naquilo tudo…seu irmão Orlando – com quem passamos momentos divertidos em Chókwè e em Xai-Xai – estava num canto estático. O cérebro faz cálculos e como faz.

– O que se passa? Porque que essas roupas estão aqui? Questionei.

O silêncio tomou conta dele, ficou trémulo e gago…algumas pessoas que estavam nas proximidades sentiram o peso. E eu não senti as minhas pernas, o meu tronco, por instantes perdi o discernimento. Enfim, a coisa terminou no mar (onde depositamos as suas cinzas), mar de tristezas, mar de incertezas, mar…

Meu pai, a nossa história lembra-me tantas outras que ouvi por aí…e que outras chegaram até mim nesta coisa de fazer jornalismo. Lembro-me de um senhor de Inhambane que ficou paraplégico por um alegado erro médico, de um cidadão que me disse não ter sido atendido no hospital porque o médico nada podia fazer…já estava de saída, da prescrição do paracetamol para enfermidades que não têm nada a ver, da falta de paciência no atendimento de doentes, da falta de luvas, da falta de máscaras. Enfim…há filhos e enteados… as lições da sua morte!

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.

Fernando Pessoa

Ao Badrudine Remane,
pelo aniversário e amizade!

Quando a luz da viatura deflagrou sobre os meus olhos ao contornar a esquina do Moiane, a noite ainda era uma criança. A conversa com Amós Tembe fluía ao sabor das baforadas do Maronga que discorria novelos dos seus momentos áureos. Como uma vez disse o saudoso Amaral Matos foi no tempo que o rico ainda era pobre.

Aquela viatura sintonizava o meu olhar, num misto de curiosidade e desassossego, marchando lentamente, ao passar diante do bar Barcelona, iluminando silhuetas que, vistas à distância me pareciam do próprio Dakêles, o Badrudine Amade na companhia do Caniate, meu chará pendurados no murro.

Vou abrir um parênteses, explicando o cognome Dakêles. No ano das primeiras eleições autárquicas juntámos meticais e decidimos ir em grupo a um lugar que apenas era frequentado pelos nossos pais. Naquela época a nossa obrigação passava por cumprir a missão matinal de ir à padaria Império, no mesmo edifício do emblemático restaurante matolense. Foi numa tarde de sábado que decidimos enfrentar a esplanada do restaurante O Condestável. E, quando degustavámos já da refeição deu-se uma algazarra qualquer. Levantámo-nos para conferir as imagens do combate, em directo. Mas afinal era tudo fogo de palha! O guarda tratou de enxotar os dois desocupados. Ao retomarmos à mesa os seis pratos tinham sumido, misteriosamente. Interpelámos a moça que nos atendera à chegada. Ela reagiu de forma memorável!

– Xi! Me desculpem, moços. Pensei que vocês fossem daqueles que comem um pouco e depois deixam.

Naquele instante desabou uma ruidosa gargalhada, entre gozo e espanto. O Badru era o tesoureiro do dia, por isso herdou a alcunha Dakêles até hoje.

E, voltando à viatura que riscava o meu olhar, já bem perto, aproximando-se do nosso refúgio. A prata debruando a chaparia do bólide, não nos intimidava. Estávamos metidos naquela conversa terapêutica na Casa Guida. O Xandolas rondava gesticulando solenemente, atendendo a um telefonema regado de importância que só ele sabe conferir.

Oh, Guida, mais uma rodada p`ra estes plebeus – berrava Amós Tembe, naquela voz enrouquecida e jovial.

De seguida uma jovem rompia entre os assentos, fintando as mesas onde militavam Ana Maria, a Melinha, a ministra, o Eng. Sidónio, a professora Emeliana Kanko, a Ivete, a turma dos ireverrentes da mesa 9, em conversa animadíssima, o Miro, o Ferdinando, o Julinho, a Pipinha, a Míriam, o Zú, o Herbok, o Ben Hur, o stôr Ckobra e outros que já perdí de memória.

Antes de voltar à história da viatura que prendia a minha atenção, o velho Nhanombe, ao levantar-se da sua mesa para os lavabos exibiu os seu status, dirigindo-se ao Miro:

– sobrinho, deixa-te de histórias. Se não tens nada para falar assobia! Estás espantado por eu te dizer que vi este carro a ser montado na Escócia, hein? Vi-o, mazé ainda a ser rebitado. Isto é um Defender da última geração. Um carro quando é caro é assim… O Miro permanecia sereno, ignorando a fumaça de vaidade espelida por alguém que tinha idade para ter o juizinho no lugar. Apercebi-me naquele instante que Zú, Julinho, Herbok e Ben Hur levantavam-se, num gesto de respeito e cortesia.

É ele. Sim, ele mesmo. É, juro cinco chagas – a prima Ana Maria era a ilustração do espanto colectivo.

Os nossos olhares fisgados debruçavam-se sobre a figura sorridente que ia nos saudando.

O homem meteu-se entre a multidão, qual comitiva de recepção improvisada. A mão foi passando ao de leve por todos os presentes, numa saudação breve, mas fraterna. O senhor de fato preto fez-se ao balcão entre obediência e hesitação num terreno que era suposto ser ele a comandar as operações. O líder, sempre sorridente era o centro dos olhares e da conversa animada.

Tia Guida não cabia em si de contente. Os maiorais, com lugar reservado no quintal, movidos pelo vapor da cortesia entregavam-se ao aperto das mãos, entre sorrisos e brilho nos olhos.
– Como vai, Chefe? – ouvíamos o velho Nhanombe, liderando já o grupo dos mais-velhos, composto por nomes sonantes, quais anfitriões de ocasião, perguntando pela saúde do visitante.

Muito bem. E agora estou muito feliz por estar convosco, meus irmãos.
O senhor de fato preto arremessou a encomenda para a viatura. Antes do aceno final, o ilustre visitante selou a noite.
Dona Guida não esquece daquela oferta p`ra os meus amigos se divertirem todos.

Uma ruidosa salva de palmas ecoou sobre o lugar.

Não fosse aquele o dia inaugural e talvez o último, de visita à Casa Guida estas imagens não conservariam a frescura, desfilando o sorriso escoltado pela brancura dos marfins e aquele aceno na despedida.

As luzes do mercedes benz voltaram a incendiar as sombras das acácias que se perfilam na rua Malangatana. Aquela noite estava condenada a ser memorável e, do lugar onde estávamos sentados podíamos ver as pétalas amarelas que atapetavam o chão, ilumunadas por faróis dakêles.

 

Uma casa sem nome, mas cheia de rostos: comecemos pelo lado carrancudo que se dá pelo nome de Vasquez e assim começo também eu por cumprimentar o meu colega do painel e irmão de São-Tomé e Príncipe, Orlando Piedade, autor dos livros que confesso desconhecer: O Amor Proibido e Os Meninos Judeus Desterrados;

Estendo o meu frágil, mas animado aceno ao escritor e diplomata brasileiro, Fortuna, que um dia escreveu: nenhuma rotina adormece, e nem cabe reclamar das dores faveladas e dos acidentes.

Falando em rotinas, espero que as minhas vindas à Angola sejam mais frequentes. Por enquanto, devo contentar-me com o facto de ser a minha primeira vez a estar nesta bela pátria, país que gerou tantos autores cujas obras fazem parte da minha formação literária. Cito dois desses: Arlindo Barbeitos e Ruy Duarte de Carvalho.

Encontro-me aqui, mais uma vez, com o Lopito Feijoó, esse continuador de David Mestre e a quem tenho denunciado a dura realidade de me encontrar e reencontrar com outros escritores africanos, mais na Europa ou no Brasil do que em África.

O FESTLAB veio para me desmentir e para me dizer que estou redondamente enganado. Por isso agradeço à curadoria deste Encontro pelo convite e um especial Thank you (com sotaque, como dizem os namibianos aqui ao lado) para Nídia, a Vera e a amiga Maria Cantinho, pessoas generosas que tornaram possível a minha primeira vez, isto é, a minha vinda…

…e presença neste festival que é a prova inequívoca de que a literatura desempenha um papel importante na construção contínua da ideia da lusofonia, estimulando os vários processos para a sua afirmação e para o desenvolvimento das nossas nações.

Apesar dos inúmeros desafios e de algum desencanto, a luta pela afirmação das literaturas lusófonas, com as suas próprias marcas identitárias, deve continuar e este tipo de encontros, de intercâmbio cultural, representam um dos mais nobres contributos para aprofundar a nossa visão literária e colectiva do mundo lusófono e, para unirmos os nossos esforços com vista a ultrapassarmos as grandes preocupações actuais, como por exemplo, o escasso acesso ao livro e à leitura e a urgente necessidade de formarmos leitores.

Estes encontros são também importantes para encurtar distâncias, construindo diálogos que respeitem, obviamente, a pluralidade do mundo lusófono, porque tal como dizia o outro, a lusofonia é per si, cada um de nós.

O FESTLAB ocorre no mês em que celebramos a língua portuguesa, o troféu de guerra dos países africanos de língua portuguesa, como diria Luandino Vieira, essa língua que é o maior unificador do mundo lusófono e que nos lembra que somos todos filhos da mesma mãe, ainda que os contextos de cada país sejam diferentes, e que cada um de nós tenha a sua marca estilística.

Não podemos também nos esquecer que partilhamos as mesmas preocupações, que acabam por atormentam-nos a todos, como por exemplo, a deficiente circulação do livro dentro de cada um dos nossos países e entre eles.

Depois deste preâmbulo, deixem-me contar-vos uma pequena história (fictícia)

Há dias, um amigo meu, proprietário de uma livraria independente, em Maputo, das menos de 10 que existem e da qual sou um assíduo frequentador, disse-me que iria instalar na sua livraria um sistema de vigilância por câmaras, em circuito semi-fechado (sei lá o que isso significa), para detectar o roubo de livros. Decisão legítima a do meu amigo João Taraduma***, nestes tempos difíceis em que há cada vez menos leitores a comprarem livros.

É preciso fazer-se um combate cerrado contra esses ladrões, esses filhos da… quase ia eu dizer-lhe, quando me lembrei que foi graças ao furto de um livrinho, em tempos remotos, que tive a minha primeira febre literária, quando li pela primeira vez este verso: “o amor é fogo que arde sem se ver”. Estava eu no fulgor da adolescência e nas minhas primeiras paixões.

Fiquei obviamente calado e meio-confuso. Pensei aqui para os meus botões: Este ataque tecnológico que o meu amigo quer fazer contra o furto dos livros, não irá inibir o surgimento de novos escritores? Não estará o futuro da literatura moçambicana e, por extensão, a lusófona, em risco?

Sai de imediato do interior do meu silêncio e abordei o meu amigo: Oh, Taraduma, meu grande irmão, não estarás a exagerar em colocar câmaras? Entendo que esses ladrões de livros acabam por dar golpes duros à nossa cultura e afectam profundamente a economia nacional.

Mas veja lá: isto não é um caso de só colocares alguns espelhos circulares em dois ou três cantos e resolve-se logo o problema e gastas menos com aparelhagens de vigilância?

Nada disso, amigo, interrompeu-me exaltado o livreiro. Os espelhos não funcionam para a qualidade e inteligência de ladrões que frequentam esta livraria.

Falo-te de gente erudita, leitores fervorosos, que devoram tudo que lhes aparece a frente, desde um Patraquim a um Lucílio Manjate, ou desde um Armando Artur a um José Luís Mendonça. Conheço os malandros. Um espelho iria permitir-lhes contemplar a imagem da pessoa a quem querem iludir, proporcionando-lhes a escolha do momento mais propício para agirem.

Decisão tomada, meu caro amigo. Vou colocar câmaras, sofisticadíssimas, por tudo quanto é canto neste espaço. As câmaras são infalíveis. E digo-te, desde já: vou também equipar a livraria com um sistema magnético de detecção de roubos. Rematou.

Voltei a ficar mudo. Não por falta de argumentos, mas para que não tropeçasse na minha própria fala e fosse logo magneticamente detectado pelo meu amigo.

Ouviu-o falar durante minutos e minutos. João Taraduma era um homem visivelmente entusiasmado com a aparelhagem de vigilância e de detecção de furtos que iria instalar na livraria. Tudo tecnologia de ponta, disse-me. E a coisa mais interessante é que as câmaras, segundo ele, não estariam nunca apontadas para as portas e janelas da livraria, controlando quem entra ou sai. Nada disso. Até porque o sistema de vigilância seria desligado durante as horas em que a livraria estaria fechada para voltarem a ser ligadas durante a hora de funcionamento. Segundo o meu amigo, as câmaras estariam vocacionadas para vigiar o leitor, directamente apontadas para os seus olhos, como se fossem verdadeiras Kalashnikovs.

E só pelo olhar interessado do leitor num dos livros, a maneira como ele o pega e o tempo que leva a folheá-lo ou o tempo que o livro fica na mão, seria suficiente para detectar um potencial ladrão de livros e pronto, a campainha de alarme iria soar e katlha, estava apanhado o ladrão.

Quando eu já ia protestar e dizer que tanta sofisticação e tecnologia talvez fosse afugentar os poucos e bons leitores que ainda entram na livraria, o meu amigo João Taraduma voltou à carga: a preocupação da sociedade literária actual não é só com os futuros furtos.

Estamos também preocupados com os roubos de milhares de livros que aconteceram nos últimos 20 anos e que arruinaram por completo a economia nacional. Para estes casos, meu caro amigo, aventa-se a criação de uma Comissão da Verdade e Reconciliação, para lidar com os roubos acontecidos entre 1997 e 2017.

Os que mostrarem algum sinal de arrependimento e voluntariamente confessarem, serão imediatamente perdoados.

Já esses outros, ladrõezinhos sem moral, serão condenados a pagar pesadas indemnizações. Já me candidatei para ser membro da Comissão e se estiveres interessado diz-me e darei o teu nome.

Pautei-me obviamente pelo silêncio e pensei novamente cá para mim: mas estas ideias e incursões do João Taraduma, não são uma traição à causa literária? Nessa tarde tão recente, sai sorrateiramente da livraria do meu amigo, mais mudo que nunca e como só decidi aventurar-me na escrita porque, como se viu acima, não sei argumentar e nem falar (e aqui abro um parêntesis para reconhecer que entro em profunda contradição com o slogan do FESTLAB: fazer, falar, viver), acabei por escrever esta carta, esta manhã, ao meu amigo João, porque tal como dizia Craveirinha, nosso Poeta-mor, traição maior é saber escrever e não o fazer.

*** nome fictício

Nota sobre o fim dos roubos e a morte do livro

Caro João,

Perdoa-me a saída repentina da tua livraria, noutro dia, sem que terminássemos a interessante conversa que estávamos a ter, mas tinha mesmo que te abandonar a fim de me preparar para uma viagem a Luanda, onde vim participar num encontro de escritores. De entre vários assuntos, será discutido o Livro e a Tecnologia (veja só as coincidências, Taraduma) tema que, devo confessar-te e o faço só a ti, desconheço em absoluto, tirando a belíssima aula que me deste, dias atrás, sobre o sistema de vigilância que pretendes colocar na tua livraria. Só não revelei a minha ignorância à organização do FESTLAB, por receio que cancelassem o convite. Assim perderia a oportunidade de conhecer Luanda, o Atlântico, e a excelente culinária angolana, para além das suas belas mulheres.

Agora, com mais calma, e instalado no quarto 2205 de um hotel que tem uma vista magnífica sobre o Cais do Porto, escrevo-te esta nota para dizer-te o seguinte:

Julgo que qualquer conversa sobre o livro e a tecnologia deve incluir, sempre que possível, uma breve referência sobre o desenvolvimento histórico do livro e as origens da escrita.

E aqui está a primeira dificuldade que encontro, nesta tentativa quase falhada de tentar abordar o tema: é que o livro e a literatura são a maior invenção ‘tecnológica” da humanidade.

Como sabemos, já vamos num longo caminho percorrido de mais de 10 séculos, desde o tempo em que se escrevia no bambu, tão pesado ou, em bocados de seda, que era caríssima usando-se mais tarde o pergaminho, indo à época do manuscrito medieval, passando pelos tempos de Gutenberg e do livro dos nossos dias para desaguarmos por fim nos Gadgets e no livro electrónico.

A história tem-nos ensinado que o livro foi sempre tecnologicamente evoluindo, dentro de uma certa manifestação estética, obviamente e, assim se espera que aconteça nos próximos tempos.

Sendo assim, é inevitável empreender esta aventura, sem que me debruce, ainda que levemente, sobre a história da impressão e da produção do livro.

Como sabes, meu caro livreiro, evoluímos do bambu e do pergaminho para o papel, que foi fabricado pela primeira vez na China e que hoje tens aos montes aí na tua livraria, graças ao génio do Marquês Ts’ai Lun, no ano 105 da era cristã.

Faço esta introdução para desconstruir certas certezas de ontem, que hoje têm-se revelado não serem assim tão certeiras. Falo, por exemplo, de uma suposta morte do livro convencional, em favor das formas digitais do livro, revelada há cerca de 10, 15 anos, no esplendor e boom dos e-books, gadgets e de outros aplicativos e formas electrónicas de difusão literária.

Lembra-te que houve em todo o mundo debates tão fervorosos e acesos, que alguns juravam pelas almas dos seus antepassados, que o livro, como objecto que o conhecemos, teria os dias contados e muito provavelmente seria hoje uma das peças a ser mais admirada, durante a visita que alguns de nós faremos aos Museus, no próximo dia 18 de Maio, Dia Internacional dos Museus.

Ora, uma década depois do frenesim inicial, caracterizado por um aumento exponencial das vendas e do acesso à literatura através do material digitalizado, sabemos hoje que as vendas dos livros digitais caíram substancialmente, passando de cifras de 70% do total de livros vendidos em algumas plataformas, para cerca de 30%.

Em alguns meios, onde há electricidade e internet, sejamos sinceros, o livro digital teve o codão de aumentar o acesso ao conhecimento e ao entretenimento em grupos em que o livro, na sua forma convencional, não chegava.

Entretanto, devido, em parte, ao preço ainda alto e a outros factores elencados aqui, em muitos meios, o livro digital não se democratizou, continuando inacessível para a maioria dos cidadãos. Portanto, quer seja electrónico ou não, volvidos mais de quinhentos anos, em alguns contextos, o livro continua a ser um objecto raro e um privilégio de alguns e propriedade exclusiva de um grupinho.

Sabemos também que uma parte dos novos leitores, depois de se introduzirem na leitura, através do livro digital, acabaram por migrar para o livro tradicional, pois, até hoje, os e-books ou livros electrónicos têm alguns desafios que ainda precisam de ser resolvidos, para que de facto se transformem em elementos complementares do livro convencional, nessa batalha de todos para o aumento do acesso à literatura e à cultura.

Um dos desafios dos gadgets, por exemplo, é que por muito que contenham os melhores livros da literatura universal, são ainda um meio esteticamente perturbador a alguns de nós, retirando-nos o tal prazer do texto, que tanto advogava Roland Barthes. É como se “A Va Sathi Va Lomu”, do meu conterrâneo Fany Mpfumo, passasse a ser cantada pela tua voz, João.

A tipografia, quando surgiu no séc. XV, veio satisfazer uma exigência do mercado: multiplicar os textos e expandir o acesso. Como sabes, no nosso país e nos outros, há ainda problemas estruturais relacionados com a distribuição do livro e a sua deficiente circulação: os livros não chegam onde deviam chegar e quando chegam, é com um atraso considerável.

Taraduma, longe vão os tempos em que era tao fácil darmos de caras com um Uahenga Xitu estacionado numa qualquer prateleira de uma livraria em Maputo ou, com um Arménio Vieira.

Não quero aqui incitar à violência alguma, mas quero lembrar-te que os livros dos autores referidos acima, de tão boa qualidade, circulavam mais dentro da lusofonia, quando os nossos países estavam debaixo de regimes totalitários do que agora.

Tudo isto, na verdade, não tem muito a ver com o livro em si, mas sim com um sistema deficiente e não-inclusivo de distribuição de quase tudo que é essencial, desde alimentos, medicamentos, preservativos, rendimentos, volvidos mais de quarenta anos após as independências das colónias portuguesas. Mas a cerveja chega a todo lado, dirias tu. Será?

Passaram-se séculos e a expansão do acesso à literatura e ao livro deve ser também objectivo do livro digital nas suas várias formas. Mas expandir o livro digital num contexto de uma baixa cobertura eléctrica e de internet é muito diferente dos ambientes em que a Internet e a electricidade abundam. Para além das habituais dificuldades económico-sociais que definem também o leitor, já para não falar das questões estruturais do mercado.

Agora, em tom meio-confessional, digo-te o que não consegui dizer-te há dias, meu Taraduma: tenho uma relação difícil com a tecnologia, mais por inaptidão do que por desprezo.

Daí que a conversa no outro dia sobre a instalação de câmaras na tua livraria, tenha-me dado algumas voltas à cabeça. Porque tal como muitos, sou daqueles que ainda olha para o livro como um objecto de partilha, acto tão importante nestes tempos duros em que cada um vive fechado em si mesmo.

Olho para o livro como algo que também deve ser emprestado ou oferecido. O livro é para mim, sobretudo, um lugar de partida e de chegada e, até hoje, os e-book e algumas formas de livro digital falharam em cumprir em plenitude esse papel tão essencial da humanidade.

E podemos imaginar porquê. Porque o livro tradicional exerce uma maior influência estética no gosto do leitor do que os e-books e, às vezes, do que qualquer arte.

Um livro impresso e belo é sempre melhor que um gadget e ainda é o maior veículo para ensinar às crianças o amor incondicional à vida e às coisas belas.

E isso é tão crucial, nestes tempos difíceis, caracterizados por uma ausência do apreço ao belo e da falta de gosto. É uma fase, dizem uns, é algo global a que não podemos fugir, dizem outros.

Seja o que for, é sobretudo, uma revelação da crise de valores que todos os dias desfila nos nossos rostos. Esse facto pode ser suficiente para explicar a situação actual de apuros em que o livro se encontra e em consequência disso, em que tu te encontras, Taraduma.

Não nos esqueçamos que o livro representa um sistema de valores. Dos mais nobres. E essa é, provavelmente, uma das razões de fundo por que é que é combatido em todas as frentes. Mas não desanimemos: há ainda alguns raios de luz por entre as trevas, como tu costumas dizer.

E uma das formas de resistência, penso eu, é a de termos editores de bom gosto, que dêem à estampa livros esteticamente belos, bem executados, com um cuidado na parte tipográfica e na encadernação, com excelentes ilustrações e imaculadas revisões linguísticas. Parafraseando Douglas McMurtrie: a ambição de qualquer autor é a de ter uma boa obra de literatura com um belo aspecto gráfico.

Portanto, quer-se livros com qualidade gráfica e literária. Se não fizermos nenhuma concessão nesse domínio, o livro resistirá.

Como sabes, eu sou daqueles que ainda aprecia a forma dos livros, o seu cheiro, a textura e quanto mais anos os livros tiverem, mais charmosos e atraentes são. Este é que é o encanto dos livros. O cheiro agradável do papel velho ainda me seduz.

João, em qualquer discussão acerca do livro tradicional versus livro electrónico, tenho sempre o cuidado de separar o debate entre literatura, portanto, a arte de escrever livros, e a arte de imprimir e produzir livros, para assim não confundir o conteúdo do contido ou o meio do fim.

E é aqui que surge a magia da arte e a sua beleza: é que a literatura, essa mãe das artes, sempre sobreviverá, como aliás a história nos ensina, quer ela seja escrita e inscrita em pedras ou em papel.

A literatura, essa invenção única da humanidade e a única prova da sua existência, não deve ser uma simples reprodução, mas sim uma nobre criação. Quer ela esteja estampada em madeira ou na palma das mãos. Porque ela deve, essencialmente, não se desviar do essencial: o de ser uma boa literatura. Não devemos perder o nosso fascínio pelos bons livros, assim como não devemos deixar de beber uma cerveja angolana, quer nos sirvam num copo descartável ou numa mbenga.

O nosso compromisso deve ser, pelo menos penso eu, com a boa literatura, aquela que nos faz ter febres ou arrepios quando o sujeito poético em Rui Knopfli diz: não conheço esse mar que me vem beijar os pés. Tudo isto vem só lembrar-nos a mais pura verdade, Taraduma: o mercado livreiro é bastante complexo e está em constante transformação.

É provável que um dia o livro impresso transforme-se em livro digital e desapareça. Pode acontecer que o leitor do futuro exija novas maneiras de ter acesso à literatura e contra isso não podemos lutar. O homem é um animal de hábitos e tudo dependerá dos hábitos dos leitores nos próximos tempos. Mas julgo que esse processo vai levar ainda algum tempo e dependerá, em muito, do perfil do leitor nas próximas décadas.

Não nos esqueçamos do essencial: quem determina a forma que a literatura tem hoje e terá no futuro é sempre o leitor. Tudo dependerá então da sua preparação e capacidade de transformar e dar vida aos símbolos mortos que se encontram impregnadas nas páginas das grandes obras literárias.

Assim, o futuro do livro tradicional dependerá, em parte, do comportamento do leitor médio, das suas necessidades, gostos e sobretudo do seu conforto e do seu nível de preparação para a invenção. Não nos distraiamos: o leitor comum quer um livro fácil de ler, de manusear e de adquirir. Até agora o livro electrónico não preenche em plenitude estes requisitos

Outra confissão minha: o meu apego ao livro impresso é talvez o jeito que encontro de ser patriota. Moçambique é dos poucos países no mundo que ostenta um livro na sua bandeira. Mas se a virada for para os livros digitais e gadgets, estou preparado e não serei menos nem mais patriota por isso.

E para terminar, João, julgo que devias pensar seriamente em abandonares o livro tradicional e apostares no digital e nos gadgets. A vantagem dos gadgets, João, é que já não terás que te preocupar com as quantidades de pó que se acumulam nos livros, o tempo que perdes para os limpar, o peso que são quando os carregas de um lado para o outro. Outra importante vantagem, e talvez a mais importante: com o livro digital, acaba-se de vez com essa tua preocupação com o furto dos livros.

E agora pergunto-te: não é mais fácil, João, investires na digitalização do livro ao invés de digitalizares a tua livraria? Bem, aqui fica a questão.

Daqui da janela do Atlântico e distante de qualquer sistema de detecção de roubos, envio-te um aceno, meu caro amigo João Taraduma, e vou ter que terminar abruptamente esta carta, porque se aproxima o início do debate na mesa em que estou inserido no FESTLAB e como sabes, nem sei o que vou dizer.

 

 

As mulheres têm, em todas as situações, mais causas de sofrimento do que o homem, e padecem mais do que ele.

Honoré de Balzac

O novo livro de Dany Wambire é uma proposta para o leitor viajar pela realidade moçambicana. À imagem do seu primeiro livro, este A mulher sobressalente é feito de circunstâncias próximas às peripécias dessas Munhavas abundantes no país. Este é um livro constituído por 10 contos, nos quais o universo suburbano é um espaço com muito por ser explorado. Desde “O linchamento dos dólares” a “O filho do camponês”, de “O bêbado corrigível” ao “Conselheiro da enfermeira”, esta colectâna encerra nas suas histórias o empenho do autor fazer da escrita um recurso didático. Talvez, por ser professor, Wambire apresenta, de forma recorrente, narrativas com esse teor paternal, pronto a contar na mesma proporção que veicula valores essenciais para boa conduta.

Em todo o caso, dos 10 contos existentes no quarto livro de Wambire interessam-nos três. O primeiro é a “A mulher sobressalente” (que intitula o livro), provavelmente, o melhor do livro. Nesta narrativa, o escritor dá voz a uma narradora autodiegética, o que pressupõe ser protagonista. Confessamos que não somos apreciadores deste tipo de narradores. No entanto, neste caso, a narração acontece tão bem na primeira pessoa que as dores da personagem tornam-se quase tangíveis. Esta é uma história de uma rapariga do campo que é arrancada da cidade para onde fora morar enquanto a menstruação não descia de modo a assumir a responsabilidade de saldar as dívidas do pai e salvar o casamento da irmã. Por isso, Quinita, A mulher sobressalente, é obrigada a deitar-se com o cunhado – com a anuência da irmã mais velha – para gerar um varão. Depois de nascer, o bebé é arrancado dos braços da mãe, afinal…: “ – Este bebé fica aqui. Pertence agora à tua irmã. Tu fizeste-o para ela. Assim salvaste-lhe o casamento, pois ela só fazia meninas” (p. 45). Diante da indignação de Quinita, o pai responde, autoritário: “ – Isso é tradição e pronto. Vamos para casa”. E a rapariga obedece.

No conto A mulher sobressalente, a tradição é uma prisão, que usa, humilha, subalterniza e desgraça a protagonista da história. E, a própria irmã de Quinita, embora se beneficie da tradição, por ter o lar garantido depois de o marido conseguir o almejado filho, também é vítima desse conjunto de valores machistas sempre a favorecerem os homens na história.

Os valores tradicionais voltam a subalternizar uma personagem no conto “Casal de Brincadeira”. Nesta história, a certa altura, o narrador relata: “Tina tinha 4 anos de idade, mas já tinha aprendido da mãe a cuidar do cabelo, a lavar a loiça, a limpar o chão e a tomar banho para gingar. A ser submissa também. Motivo que fizera com que Dinhito a elegesse como esposa de brincadeira” (p. 73).

À imagem de “A mulher sobressalente”, em “Casal de Brincadeira” há uma educação baseada numa tradição que algema as mulheres, fazendo delas utensílios domésticos, usados enquanto não quebram. Ao investir neste tipo de histórias, Dany Wambire é cruel como se sugere. Vai à origem dos problemas e coloca-nos na pele das personagens para nos apropriarmos das suas dores.

Na terceira história que nos chama atenção, “A bolsa diz tudo”, temos um facto curioso. Ginho, o protagonista, ao ganhar uma bolsa de estudos para Europa, informa ao pai. Antes de autorizar a viagem do filho, pede-lhe que arranje, primeiro, uma nora. Essa é a garantia de que o velho necessita para acreditar no regresso do filho. A felicidade da tal nora, condenada a enfrentar anos sem o marido, nunca é pensada. Mais tarde, cumprido o desejo do pai, Ginho vai cursar Economia na Europa, onde engravida Vânia, uma brasileira lá a doutorar-se em Antropologia. A paixão por Ginho foi intensa. Por isso, a brasileira preferiu viver em Moçambique. Para sua infelicidade, perde o marido e logo de seguida é obrigada a cumprir o ritual de viúva, deitando-se com o cunhado mais novo, mesmo contra a sua vontade.

De facto, “as mulheres têm, em todas as situações, mais causas de sofrimento do que o homem, e padecem mais do que ele”. Honoré de Balzac oferece-nos esta frase em Eugénie Grandet. Dany Wambire, neste A mulher sobressalente, lembra-nos isso, com aquele vigor de quem é contra… Por ter sido educado por uma grande mulher? Isso pouco importa.

Título: A mulher sobressalente

Autor: Dany Wambire

Editora: Fundza

Classificação: 14

Carneiro Gonçalves: “Caminhai célere, ó jovem povo do Quiteve, e vinde ouvir a história de Malidza, que morreu de amor. Uma grande ternura agasalhava-lhe o corpo de ébano (que ela protegia para Kilomko, o guerreiro) e punha nos seus olhos cintilações habitadas pelos génios antigos das florestas. O colo guardava a macia tepidez das sombras e era tão silenciosamente como a luz que Malidza percorria as veredas, as savanas. Requestavam-na os mais expeditos; transformou em temeridade a audácia dos mais valentes. Caíram alguns no calor das refregas, peito trespassado pela lança dos guerreiros de Maruça. Havia nas suas gargalhadas duas coisas: a alegria da brisa das alvoradas que despenteia as árvores e, também das árvores, a frescura da seiva.

Um dia apareceu na aldeia o nhamessoro para invocar Zúzu, o espírito das águas. Todas as moças acabadas de donzelar na última lua, espantadas ainda pelo prodígio grandioso de um pouco de sangue entre as coxas, dançavam então o seu espanto. Dois embondeiros soberanos, tão cheios de rumores eucarísticos como dois altares, cruzavam as ramagens por cima do terreiro lançando sobre as moças uma bênção de sombra. Malidza, como as outras, dançava. Dançava e ria. Kilomko, de longe, espreitava-lhe o corpo a requebrar-se nos espasmos da dança. Os seus feitos de guerra enchiam de espanto as aringas. Pela noite adiante, quando as famílias se acocoravam em torno das fogueiras, os mais velhos evocavam Kilomko e os mais novos tremiam de uma admiração sagrada.”

São oito brevíssimos parágrafos de uma belíssima e trágica história de amor. Kilomko encontrou, em certa madrugada, Malidza, regressava ele dos seus combates. Diante do seu olhar, caiu-lhe a lança da sua mão invencível pela primeira vez. Esperava desde então o fim das guerras para desposar Malidza. Mas, um dia, o nhamessoro apareceu na aldeia para invocar o espírito das águas. No momento da dádiva, o mago poderia escolher a jovem que o impressionasse mais. Escolheu Malidza.

Carneiro Gonçalves: “Gritaram as mulheres saudando a escolha. Mas Malidza recuou, recuou sempre, levou consigo o sofrimento de Kilomko e o espanto das outras mulheres que não compreendiam a fuga sacrílega.

Diz-se que a floresta matou Malidza.

Mas notai, ó jovem povo de Quiteve, que Kilomko sabe onde repousa o corpo de Malidza, que foi encontrar no sítio onde a viu pela primeira vez. Dois abutres debicaram-lhe os olhos. Levantaram para o céu quando Kilomko se aproximou. E o antigo guerreiro também sabe que o espaço agora é mais azul porque o encheram de luz mais duas estrelas.

António Carneiro Gonçalves nasceu a 21 de Junho de 1941 e morreu, a 20 Janeiro de 1974, num acidente de viação, aos 32 anos, deixando não apenas este belíssimo texto, que iria integrar o livro Contos e Lendas, editado pela mão do poeta Sebastião Alba (pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves), seu irmão, mas também contos que dariam para um outro livro e um romance escrito e reescrito. Era jornalista, deveria integrar, naquele ano, a redacção do Expresso, em Lisboa, viajava para a então Lourenço Marques, hoje Maputo, onde iria apanhar o avião para Lisboa, ia também no carro o poeta Julius Kazembe. O prefácio do livro é um pungente elogio de irmão para irmão.

Sebastião Alba: “Na noite de 20 de Janeiro de 1974, meu irmão ia ao volante, ao largo das estrelas. Seu companheiro de viagem ter-lhe-ia dito: “Carneiro Gonçalves, olha que noite!”; e o carro em que seguia despistava-se a vinte quilómetros de Vilanculos; ele morreria hora e meia depois, no posto sanitário dum areal nocturno. Tinha trinta e dois anos e – rigorosamente – o que sonhou. A mim, apenas quinze meses mais velho do que ele, fora destinado o definitivo infortúnio de escrever estas linhas.”

O texto de Alba é escrito vinte dias depois da tragédia e é o prólogo do livro que ele organizou. Traz duas lendas, entre as quais “Malidza”, contos, e o fragmento de uma novela. Um ano antes, na revista Tempo, no suplemento literário dirigido por Rui Knopfli, que o entrevista, o autor de Contos e Lendas deixaria a sua biografia sintética e magistralmente grafada.

Carneiro Gonçalves: “Tenho trinta e um anos, vi a luz do dia em Braga, mas nasci em Tete. Faço questão de conhecer o Zambeze. Com os contos que tenho poderia pelo menos publicar dois livros. Lá virá o dia. Ensaiei um romance que reescrevi já algumas vezes. Ontem mesmo ia na primeira página…”

Eu li esta lenda no secundário e ao longo dos anos sabia-o de cor. Este é um dos textos que mais me empolgou –  a par de “As Mãos dos Pretos”, de Luís Bernardo Honwana – ao longo de largos, larguíssimos anos. Carneiro Gonçalves tinha outros belíssimos textos, como “A Lua do Advogado” ou “A Mulher do Escritor”. Mas foi “Malidza” que sempre concitou o meu entusiasmo. Durante anos acreditei que se tivesse uma filha ela teria o nome de Malidza, era tal a minha paixão por esta belíssima história de amor. Bela e trágica: o sacrifício de Malidza, o sofrimento de Kilomko acompanharam-me desde sempre.

Talvez eu também tenha querido ser escritor por causa deste belíssimo texto. Recordo-me do quanto ficava empolgado nas aulas de português, com o professor Agostinho Mamade, na Josina Machel, quando dávamos este texto. Líamo-lo e descodificávamos as palavras. O vocabulário, as expressões linguísticas, as metáforas. Um parágrafo dava para discussão de uma aula inteira. O dicionário para encontrar o significado. O exercício da sinonímia. A riqueza vocabular, a riqueza semântica, a expressiva capacidade de contar, em pouco mais de três páginas, uma belíssima história seriam para mim uma grande lição de escrita.

A poesia: aprendi ainda com este texto de que a narrativa, a prosa, não eram expressões despidas de poesia. Antes pelo contrário. A bela prosa era também a expressão cabal de boa poesia. O ritmo das frases. As suas metáforas. As suas imagens. O seu encadeamento. As suas invocações. A escolha das palavras. As palavras certas na frase. As palavras escolhidas com cuidado. As palavras ditas com enlevo. As palavras escritas com inequívoca beleza.

Aquelas aulas com a leitura cuidada de “Malidza” foram, por assim dizer, as minhas primeiras lições de escrita literária, uma espécie de iniciação na chamada escrita criativa. Escrever é um ofício que se ensina e se aprende. É tradição anglo-saxónica. Nós adviemos de um universo onde se cultiva um certo misticismo em relação à criação literária. Onde ao talento se consigna uma certa ideia de um poder divino ou encantatório que nos leva a escrever ou a criar. Devo dizer que não comungo dessa visão. A literatura procede de trabalho, de exercício, de leitura antes de tudo, de conhecimento, de conhecimento da tradição literária, de conhecimento de outras escritas, de dedicação, de obstinação. Mas isso é tema de outra conversa.

Em 2005 foi publicado em Portugal o volume A Escrita de Anton, de Carneiro Gonçalves (organização e estudo introdutório de Calane da Silva e notas biobliográficas de António Sopa), que recolhe os textos que haviam sido dados à estampa na recolha Contos e Lendas, acrescenta-se-lhe uma lenda pelo menos, alguns contos, crónicas e uma massa espessa de textos puramente jornalísticos. Li o longo texto do Calane da Silva, polvilhado de muita informação, que ajudam a compor o perfil deste escritor desaparecido precocemente. Chamavam-no os mais próximos de Anton, o nome do seu primeiro contista predileto, Anton Tchekov.

Li os textos, dos muitos publicados em A Tribuna, Diário, Notícias da Beira, nas colunas que Carneiro Gonçalves teve. Pessoalmente, atenho-me aos contos e às lendas. Reconheço que haverá, algures, noutros textos, o quilate da escrita do autor, mas nada melhor do que nos textos que o próprio exerceu, até ao limite, a sua oficina, burilou e expurgou tudo que era expurgável. Nada tenho contra a recolha de textos jornalísticos, interrogo-me apenas quais seriam os limites. Publica-se tudo? Quem afere a sua qualidade? O autor, se estivesse vivo, aprovaria? Bastará, como no caso, a vontade da família?

Esta questão ponho-a em relação ao que está na imprensa, não em relação a obras literárias inéditas – há casos de autores que se manifestam contra a publicação póstuma de certas obras que deixam inéditas e que se revelam, ulteriormente, obras-primas. O caso de Franz Kafka que pediu que o seu amigo Max Brod queimasse os seus manuscritos é revelador. Vieram a confirmar-se como obras-primas. Kafka, se quisesse, as queimaria ele próprio. Não queimou porque tinha, ainda que remotamente, esperança na obra que deixava. Isso é um caso diferente. Outra coisa é a exumação de textos de circunstância, nos sepulcros dos jornais. Aí me interrogo. A despeito, a escrita de Carneiro Gonçalves é uma das mais belas escritas que se podem encontrar no universo da literatura moçambicana, não obstante o facto de ele ter-se apartado muito cedo do reino dos vivos.

Rui Knopfli: “Carneiro Gonçalves comete às letras moçambicanas o ânimo e a frescura do seu discurso lesto e elegante, de um rigor que não pactua com fáceis efeitos de embelezamento, antes se cinge aos calculados riscos de uma disciplina que é, simultaneamente, a da cultura e a de uma ática simplicidade. (…) Razão, talvez, por que a sua prosa desencadeia em nós a fragrância de um vinho novo e generoso, acidulado e nobre.”

Sebastião Alba: “Meu irmão caminhava em sombra; caminharia sem se voltar até ao fim das nossas vidas. E, afinal, era o que a todos nos restava dele. Não estou certo de que tenha feito uma boa escolha, pois de quase nada estou seguro. Como sucede com muitos de nós, ele acreditava que aquilo a que se chama a visão de um artista é a sua primeira imagem poética do mundo, essa que ao longo da vida se busca fixar num fundo de luz permanente. Vinte dias após a morte dele, não posso ainda impedir-me de esbarrar no que se me afigura uma evidência pavorosa: a obra desde já irrealizável e a que, algum dia, lograsse acabar, tiveram para ele um mesmo e último sentido.”

Creio que o Alba explicita, enunciando as dúvidas que teve em resolver o vazio que encontrara, após cotejar o índice encontrado na pasta que Carneiro Gonçalves levava consigo, que o levou – passe-se a redundância! – a substituir um conto que não descortinou por um texto escrito aos vinte anos: “Um circunstancialismo jugulante impediu que outro feixe de contos se atasse, desde logo, no presente volume.” (Sebastião Alba)

Carneiro Gonçalves tinha uma estranha predilecção pela lua. A lua ou o luar são títulos de seus contos ou escritos, atravessam as suas histórias. Naquela noite de 20 de Janeiro de 1974, ele ia ao volante e terá dito o seu companheiro de viagem: “Olha que noite! Que luar tão lindo!”. Carneiro Gonçalves, ao que parece, fascinado com o luar, despistou-se entregue a essa visão sublime que o prendeu ali para sempre.

 

No texto de Alba, redigido próximo da morte do irmão, não aparece a referência ao luar: “Que luar tão lindo!” Calane da Silva acrescenta-lhe essa frase e diz que a confirmou de um amigo indefetível de Gonçalves, João Schwalbach. Sou amigo há mais de trinta anos do Julius Kazembe. Sei que ele ia com o Carneiro Gonçalves naquela noite, falámos eventualmente de Carneiro Gonçalves, mas sempre evitei abordar a história e os pormenores de um dos trágicos acidentes que marcam a história literária de Moçambique.

 

Há muitos anos que não lia “Malidza”. Olhei sem desespero para a estante e a memória levou-me a esta história da minha adolescência, história que marcou definitivamente a minha vida e que ainda hoje me comove quando a leio como se a lesse pela primeira vez. Tenho dois filhos. A mais nova é uma menina. Uma belíssima rapariga à beira dos 18 anos. Não cheguei a dar o nome da heroína da lenda do Carneiro Gonçalves, como sonhei algures na juventude. Nem sequer teve o nome da cantora Sade Adu por quem me haveria de apaixonar anos mais tarde. Ela chama-se Mayisha, foi o nome escolhido pelo seu mano Irati.

Reuniram os meninos de rua numa pilha de fila e noutro canto da sala, onde crescia uma árvore de Natal com luzes, tinham sido amontoados miúdos vindo dum infantário próximo. Os meninos de rua sujos, com suas vestes brilhando de sujidade e os miúdos do infantário cheirando ranho seco esperavam, na sala, o Pai Natal Solidário.

Os rapazes do infantário, uns colados às cadeiras de rodas e outros de cabeças arredondas de doenças estranhas, eram cuidados e concentrados em molho por um grupo de irmãs brancas, baixas, com saias gotejando até as dobradiças dos joelhos e com cruzes em terços de ferro cruzando-se entre os seios pestanejando tetas nas suas batinas.

Os meninos de rua faziam da sala uma rua. Arrancavam-se balões inchados de ar e molhados de saliva; faziam de golpes e pontapés meios de divertimento e caçavam-se piolhos em suas cabeças cheirando a erva daninha das suas almofadas de pedra. A filosofia da rua andava com eles em todos sítios.

Os meninos irmanados pelo infantário e os familiarizados pela rua fizeram fila na sala grande. Palhaços de cabelos coloridos, com vestes abotoadas de cores diversas, tentavam alegrar aquelas criaturas tristes. Uma música infantil ressoava dos altifalantes sobrepostos. Uma figura vestida de Pai Natal distribuía rebuçados aos meninos. Era o Natal Solidário. Tudo era feito pela solidariedade.

Cada menino foi servido uma sopa onde legumes flutuavam como sobreviventes dum acidente culinário. Os meninos de rua tomavam-na sem usar as colheres e enfiavam-se na fila vezes infinitas para repetir a dose líquida. Sorviam a sopa como pequenos monstros. As mãos das irmãs carregadas de colheres de sopa pareciam máquinas de guindastes nas bocas dos rapazes do infantário. Todos tomaram sopa, fizeram os estômagos nadaram na sopa quando saltitaram num pula-pula.

Moças lindas, vestidas de jeans, com camisetas estampadas a frase: “Natal Solidário para Todos”, circulavam e recolhiam os pratos de sopa atirados ao chão. As moças por questões de higiene trabalhavam com a nudez das mãos vestida de luvas. E os tinham máscaras. Eram voluntárias apesar de voluntariadas pelo subsídio mais alto que alguns salários.

O “Natal Solidário” terminou. Os presentes do Pai Natal não se fizeram mais presentes. Os meninos com a sopa gaguejando nos estômagos voltaram ao calor da rua e os outros recolheram a casa das irmãs. O coordenador da equipa solidária, carregando ao colo uma criança abananada no infantário, falou aos microfones de rádios e televisões que eram excitados por mãos de jornalistas. Falou e falou. Agradeceu aos patrocinadores.

A equipa da solidariedade foi a uma sala luxuosa dum restaurante. Balançou copos bem gordos de vinhos ao ar e fez balanço. Conferiu os cheques, contou os parceiros sérios e seleccionou fotos bem focadas de crianças sorrindo com a sopa na boca para publicá-las nos jornais. Todos foram às suas casas carregados de salários oferecidos por Pai Natal, embrulharam números enormes em suas carteiras e esqueceram o apetite que abriram aos meninos.

 

Na semana passado fui designado para acompanhar a visita do Presidente da República à província de Sofala. Era o regresso de quem lá viveu um ano e oito meses, igualmente a mando do serviço, o que me permitiu viver experiência enriquecedora e conhecer melhor aquela província e suas gentes que literalmente não só fala como o nome da província sugere, mas também age e trabalha arduamente.

Apesar de que já tinha estado na Beira uma semana antes, a passagem pela cidade por apenas um dia me permitiu ir a locais que na semana anterior não tinha conseguido ir. E foi de coração partido que vi a cidade com as ruas totalmente partidas. Em algumas vê-se o esforço inglório do município a tentar tapar os buracos. Por outro foi de satisfação pois senti uma Beira que cresceu muito desde que de lá sai em finais de 2014. Novas infra-estruturas económicas surgiram, o bairro de Estoril parece não dever nada a Triunfo de Maputo e o percurso da Beira a Inchope vai ganhando nova vida.

Foi com satisfação que percorri a Estrada Nacional Número 6, aquela mesma que fiz várias reportagens entre 2013 e 2014 a denunciar a sua acentuada degradação sendo a principal via de interligação do nosso país a vários países da SADC. A estrada está quase pronta e com novo rosto.

No Domingo dia 19 iniciamos a aventura que nos levaria ao norte da província de Sofala região que foi assolada pelo conflito militar e que o Chefe de Estado decidiu visitar este ano. As 9 horas as duas Toyota Land Cruizers, comumente chamadas HZ estavam estacionadas no hotel e prontas para levar os 13 jornalistas idos de Maputo para cobrir a Visita Presidencial. Uma das HZ era do tipo que é usada como ambulância, pelo que a maioria dos jornalistas usaram-na a outra tinha mais conforto e por isso todos lá queriam entrar, mas só os mais teimosos conseguiram usa-la. Tinha capacidade só para 4 passageiros.

As 10 horas partimos com destino final o distrito de Chemba, mas com paragem em Caia para pernoitar. Depois de discussão sobre a via a usar venceu o grupo que preferiu usar a Estrada Nacional Número Um, com desvio em Gorongosa via Casa Banana até Cheringoma e depois até Caia. Assim fizemos e só às 19h30 minutos chegamos a Caia.

O percurso foi extremamente doloroso. A EN1 está completamente irreconhecível, cheia de buracos enormes que engolem qualquer viatura ligeira. Mas tive satisfação ao ver o renascer da vida ao longo de toda estrada que liga a vila de Gorongosa passando por Vunduzi até Casa Banana. Percorri aquela região altamente produtiva em meados de 2014 e estava totalmente abandonada. As poucas pessoas com que se cruzava só se via lágrimas de sangue nos seus rostos, mas agora vi alegria, vontade de produzir mais. Vi baracas abertas, muita gente a circular, mulheres e crianças a lavar roupa nos riachos que nascem da Serra da Gorongosa.

Aquela terra que testemunhou o derramamento de sangue entre irmãos mostrou-me que está pronta para transformar a tragédia e os momentos difíceis porque passou em força para produzir mais e combater a pobreza no seu seio e no país em geral. O mesmo vi em Casa Banana, em Mazamba e em Cheringoma que visitariamos dias depois.

Chegados a Caia pernoitamos na Pensão do músico Esaú Menezes. As 5h00 do dia seguinte partimos, mesmo com reclamações dos colegas que se faziam transportar na “ambulância” pois a noite não fora suficiente para acalmar as dores causadas pelos bancos de napa e madeira aliados aos saltos nas covas das estradas esburacadas. Mas fazer o quê a jornada estava apenas a iniciar.

Partimos para Chemba via Sena, ao longe deu para matar saudades da ponte ferroviária Dona Ana sobre o rio Zambeze. Nunca tinha estado em Chemba mas a nova fábrica de açucar em fase terminal de construção e o enorme canavial dão indicação de que nos próximos tempos Chemba vai ter uma outra realidade. A feira provincial que mostrou as potencialidades económicas de Sofala realizada em Mulima voltou a mostrar o quanto aquela província está determinada em desenvolver.

No fim do dia e depois do trabalho devíamos partir para Maríngue onde devíamos passar a noite para dia seguinte receber o Chefe de Estado. Mas uma informação vinda de Marínguè diz que o local onde devíamos pernoitar foi ocupado por outras entidades e a solução era irmos dormir em Caia. Lá fomos nós. Mas para nosso azar todas hospedagens de Caia estavam ocupadas. Solução: dormir no carro. E porque na “ambulância” não era possível oito pessoas dormirem alguns recorreram às cadeiras da esplanada do Rocha para tentar acalmar o corpo castigado pelas péssimas estradas e os bancos dolorosos do carro, isso já passavam das duas horas da madrugada.

As 4 horas da manhã uma parte conseguiu negociar com o pessoal da pensão Rocha para fazer o banho outros não. E mesmo assim partimos para Nhamapaza onde o Presidente inaugurou a extensão da energia eléctrica algo que acontece pela primeira na história daquele povoado. À nossa chegada, procuramos sítio para o matabicho e indicaram-nos a barraca Sobra de Mbuzine da dona Tina. Logo as 7 horas ela serve como matabicho arroz ou xima com galinha cafreal e dobrada. Não tinhamos escolha pois não sabiamos quando teriamos a próxima refeição. Alguns dos que não conseguiram fazer banho em Caia, tentaram pedir nas residências particulares de Nhamapaza mas a falta de água que aponquenta aquela região não permitiu satisfazer o nosso desejo.

De Nhamapaza seguimos para a vila de Marínguè. Depois das reuniões acompanhamos o presidente que decidiu caminhar pelas ruas daquela vila. Aqui foi onde ganhei mais uma recompensa. Conhecer um Marínguè que nunca tinha ouvido falar. E de jovens que através do comércio procuram reverter a sua história de pobreza. Alguns mostraram as pequenas e degradas barracas que lhes têm permitido ganhar a vida e com orgulho estarem a construir outras barracas convencionais e maiores. Outros que de pequenas pensões estão a evoluir para pensões maiores e com melhores condições e até expandir o negócio para outros locais.

Foi agradável ver Marínguè que luta para deixar para traz os anos de um passado sangrento e a abraçar um presente de busca incensante pela prosperidade.

De Marínguè já depois das 20 horas partimos para Inhaminga, a vila sede do distrito de Cheringoma. Usamos a EN1, entramos por Phiro deixando a Serra da Gorongosa do lado direito e mais uma vez pela Casa Banana. Chegados à vila, passava da uma hora da madrugada fomos à pensão Safari onde deviamos pernoitar. Já não havia quartos. O pessoal local decidiu desfazer a reserva feita. Fomos ver outros locais e nada. Alguém nos indicou uma tal de pensão Bombinha. Na procura da tal cruzamos por sorte com uma das pessoas que devia nos receber e acomodar. Admirada disse que já não contava connosco. Mesmo assim acordou o colega que nos levaram para o Instituto de Formação de Professores de Inhaminga. Depois de negociações conseguem arranjar colchões que foram colocados numa sala de aula para descansarmos. Felizmente aqui conseguimos água para o banho. Só depois das 3h30 da madrugada conseguimos dormir. As 5 horas tinhamos que partir para Mazamba, que dista 42 km da Vila. E lá fomos trabalhar.

Inhaminga surpreendeu-me por ser uma vila organizada e com o movimento que mostra que está a recuperar os seus tempos áureos, antes da guerra que a devastou, e não entendi porque não é município. Depois do trabalho não haveria outra escolha senão ir dormir na Beira. E desta vez escolhemos usar a via de Muanza até Dondo. A estrada também é péssima. Encontramos camiões transportando madeira enterrados. Precisamos de mais de 4 horas para fazer apenas 177 km. A viagem viria a terminar em Nhamatanda. Uma Vila municipal que por estar ao longo da EN6 teve sempre uma actividade económica intensa.

Definitivamente, a viagem permitiu perceber que o conflito de 2013 a 2016 teve impactos muito negativos na economia e na vida das pessoas na província de Sofala. E a população tenta mostrar com trabalho e determinação que não quer mais a guerra, as pessoas querem dar um rumo diferente para as suas vidas e seus filhos. E urgentemente o governo precisa de repor as estradas da província de Sofala para dar a oportunidade àquela população de lutar pelo seu desenvolvimento.

Que Deus abençoe Sofala.

 

Todos os exercícios de leitura são, como é por demais evidente, importantíssimos para a questão e gestão da vida vivida no mundo social cada vez mais globalizado dos nossos novos tempos.

A leitura à que nos referimos é toda aquela que nos remete a alguns momentos de reflexão ou de peregrinação interior em busca do obvio, da transparência e da  transcendência superando as, (não raras vezes…), reles e  irrefletidas trans/aparências.

Assim sendo, leituras podem e devem ser feitas também de maneira visual. Com simples mas penetrante olhar em razão das circunstâncias. Entretanto, a leitura  que  aqui abordo é mesmo aquela que implica a descodificação de textos, literários ou não, com que nos deparamos durante as nossas práticas quotidianas. Esta leitura poder ter um cariz informativo, formativo e até recreativo ou lúdico.

Livros e toda uma gama de publicações periódicas, físicas ou virtuais, conformam  o que aqui nos interessa. Dentre estes, especificamente, mais nos interessam os de textos resultantes de estudos  literários e da própria escrita criativa.

Sobre estes, que aprendemos a considerar «os mestres mudos», tivemos a oportunidade e rendemos homenagem num texto em jeito poético que se acha inserido na nossa IMPRESCINDÍVEL DOUTRINA CONTRA como sendo uma homenagem aos amigos e subintitulámo-lo  poema de amor:         

Estridentes na capa e no verso bem disperso

-forasteiros-os  livros amam-nos em silêncio

habitam-nos  silenciosamente  descarregando

sóbria iluminação sem nada exigirem de nós.

De quando em quando benevolentes

parece que o sono se adeja sobre eles

os palavrões inscritos nas lombadas

filtram virgens nuvens paginadas

sempre que procuramos inertes  sonhar.

 

Os livros representam. Pensam  e  repensam

seus títulos e subtítulos      linhas e entrelinhas

esperam em silêncio que os aceitemos depois

na estante do firmamento e do risonho porvir.

 

-Pacientes- mudos  e  eternos  fluorescentes revelam

a beleza, o sentido e o olhar dos cegos que somos.

É merecido o silêncio em torno dos vivos

livros paridos no ardor de pura decantação

refastelando nossas velhas, novas e nobres amizades!

Assim sendo, vamos considerar os livros como parte do conjunto de meios de produção indispensáveis para o manejo de todo aquele que pensando repensando e armazenando saber se propõe um cultor das belas letras.

Ler é para nós um exercício primário e primordial pois, se por trás -ou ao lado?- de um grande homem está sempre uma grande mulher, ouso dizer que… por trás de um bom e grande escritor esconde-se sempre um melhor e maior leitor.   

Fartos andamos de ouvir e dizer aos jovens principiantes, – que também já fomos e continuamos sendo, embora em razão do tempo, agora seguimos um pouco menos jovens e consequentemente mais experientes: somos sempre o primeiro leitor de todos os textos que escrevemos, sejam eles literários ou não e jamais um mau ou preguiçoso leitor alcançará o sofrido e ansiado estatuto de  bom aqui… ou melhor escritor ali.

Sem falsa modéstia, vimos aqui dizer que temos sido dos que mais segue atentamente os dinâmicos movimentos culturais e, particularmente, literários em Angola ou mesmo nos distintos países africanos de língua portuguesa. E que ninguém espere de nós tapinhas ou palmadinhas nas costas pois, a vida nos ensinou que as palmadinhas nas costas, em jeito de elogio, são a pior coisa que existe e, curiosamente, os “likes” e tapinhas é o que a grande maioria dos escritores gosta. Principalmente os jovens escritores encharcados pelo prematuro feto da vaidade e pela ânsia de serem vistos e aparecerem por aparecer nas redes sociais em voga e nas páginas literárias locais em função do “timbre do momento e da paixão”. Os meus “likes” nunca são em vão.

Jamais deixamos de reparar, ensinar e aconselhar todos os que nos procuram e indiciam merecer a nossa atenção. Atendemos, principalmente, aqueles que demonstrando sólidas bases de cultura geral evidenciam um razoável e necessário domínio da língua enquanto fundamental instrumento de trabalho  para todo o operário da palavra pois, esta, não raras vezes se apresenta misteriosamente cavilosa.

Seguindo os mais jovens rejuvenescemos. Assim sendo, evidenciamos e aprimoramos mais facilmente o diálogo inter-geracional. A troca de livros é fundamental e o aconselhamento e introdução à leitura de autores clássicos é não menos importante   e vamos paulatina e progressivamente esbatendo o dialéctico conflito de gerações em razão do princípio filosófico da «negação da negação».

Um conselho, um ensinamento literário ou mesmo de outra qualquer natureza é sempre um motivo de jamais desperdiçar até porque reiteradas vezes ouvimos dizer que quem não ouve os conselhos dificilmente chega à velho e ouvir é uma das maiores virtudes dos humanos conscientes.

Reiner Rilke «um rapaz frágil e dotado» tinha fama de complicado e homem muito difícil de lidar entretanto, tinha discípulos sendo Franz Kappus o mais conhecido. Em dado momento, Kappus, ainda e certamente «com indícios tímidos de uma voz própria»  duvidando da sua vocação «…decide enviar a Rilke alguns versos, repetindo um gesto há séculos feito por jovens poetas»,  conforme nos diz Francisco Vale.

Sabe-se que a correspondência entre ambos, mestre e discípulo seguiu-se por mais de dois anos.             

Aos cinquenta anos, Virgínia Woolf escreveu a Letter to a Young poet  (hoje por demais conhecida), dirigida ao jovem John, poeta. Mesmo não sendo ela uma poetisa mas sim aquela grande romancista que ainda hoje lemos com muito agrado, Virgínia ousou e aconselhou.

Rilk e Woolf coincidiram, nos seus conselhos aos jovens, relativamente a necessidade de mais leitura e muita paciência.

Ambos contrariaram a pressa de publicar. Rilke chegou mesmo a dizer que «a paciência é tudo!».  A paciência e a leitura proporcionam-nos o amadurecimento e lendo um livro rendemos sempre uma profunda homenagem a quem sacrificou horas de um irreversível tempo para o escrever. Só assim entendemos a expressão de Jorge Luís Borges segundo a qual «todos os livros são dignos de serem lidos» cabendo-nos, simplesmente, enquanto leitores, atender as prioridades da nossa consciência pois sempre o leitor desempenha um  papel fundamental porque acaba por enriquecer a obra ou o livro e também a si mesmo,  fazendo sempre por compreender aquilo que lê e sentindo a necessidade de um maior aprofundamento.        

Para Borges, a cada uma  hora de escrita correspondiam dez horas de leitura. E assim se forja um escritor ou mesmo um verdadeiro intelectual.

Bem próximo dos seus 89 anos, o filósofo Alemão Jurgen Habermas, em entrevista recente ao jornalista Borja Hermoso para o EL PAÍS-Brasil, muito profundo, alerta-nos da impossibilidade da existência de intelectuais não havendo mais  bons leitores a quem alcançar com os argumentos esgrimidos e, já nos idos de 80 do século passado, o prof. Manuel Ferreira chamava a atenção para o fraco nível intelectual dos escritores  africanos de língua portuguesa. Na  leitura, na densidade, no grau de literariedade e nos argumentos da escrita criativa estava, certamente, o cerne da questão então apresentada com uma certa preocupação.

Um verdadeiro intelectual, em princípio, lê compulsivamente. Escuta atentamente e vive na grandiosidade de saber transmitir humildemente e sem o nefasto “contentíssimo fácil” (escrevendo ou falando) o seu conhecimento científico e literário da maneira mais simples possível. Portanto, ambas, a- cultura literária e a cultura cientifica- conformam aquilo a que vulgarmente chamamos de Cultura Geral mas, vimos não raras vezes entre nós, gentes que autoproclamando-se intelectuais e escritores,  conforme diz  o critico Eugénio Lisboa «…apenas ouvem – quando ouvem- “falar de” coisas de ciência, cujo sentido profundo de todo lhes escapa.».

É Eugénio Lisboa, grande mestre das nossas literaturas, no seu ensaio sobre as DUAS CULTURAS quem nos diz: «Uma boa passagem pelo universo da ciência, pelas exigências da ciência, pelo rigor e cautela, repito, que a ciência requer e recomenda, daria ao discurso literário de quem o produz, outra nitidez, outra transparência, outro sabor, – e outro valor…».

Lisboa sugere que, nos dias de hoje, quanto menor for o fosso ou o distanciamento entre as duas culturas melhor, em razão do ‘perigo iminente de incomunicabilidade’ e ‘devido à  aceleração da produção criativa, a ritmo quase alucinante’.         

Ao terminar, deixo aqui a transcrição de um pequeno extrato de uma longa conversa mantida com Lília Momplé.

Lília é uma octogenária escritora moçambicana que mesmo não se encontrando na mídia com a  vulgaridade habitual, procurei e encontrei nas terras do índico onde no Centro Cultural Brasil-Moçambique passamos uma arejada e amena tarde de conversa começando  por pedir-lhe que me falasse da existência de uma relação livro/leitura/escritor pois, tendo sido professora de profissão, muito ainda tem para nos ensinar.

[L.F.-Podemos falar agora da relação entre o escritor, o livro e a leitura?

L.M.-Sobre os livros há muita coisa para dizer. Para um estudante o livro é a única coisa que dá ginástica mental. Os livros, por exemplo, vacinaram-me contra a sedução do poder. Eu não sou nada apegada ao poder e uma das coisas que aprendi nas estórias que a minha avó contava era que os animais mais fracos sempre conseguiam vencer os animais mais fortes por causa da sua inteligência. É que naquela «fortaleza» dos fortes estava sempre mesclada um pouco de estupidez e isso sempre foi assim e continua sendo assim até hoje.

Veja que os nossos Ministros hoje são quase imortais ou pelo menos assim se sentem. E são as estórias e os livros que me fizeram estar sempre longe do poder, e sem apetência para a ostentação porque  os animais das estórias da minha avó eram sempre fracos mas acabavam por vencer os mais fortes pela sua inteligência.

A importância do livro é única. O livro é que nos dá a cultura geral que nos faz compreender seja lá o que for…

O livro é muito mais importante que a televisão. A televisão é uma torneira de qualquer coisa que a gente está ali a consumir  passivamente ao contrário do livro. O livro não. Com o livro temos que ser ativos somos obrigados a ser ativos. O livro obriga-nos a ir mais além e conseguir compreender o mundo e por isso muitos cientistas são leitores compulsivos porque foram ajudados através da leitura a querer saber muita coisa.

L.F.-…E a internet?

L.M.-A internet é outra torneira que só despeja. Na verdade um aluno que não lê -livros!-, é um aluno medíocre. Em matemática um aluno tem de saber ler as equações. Pode até saber solucioná-las mas não o faz porque não entende o que se lhe pede e isto acaba por acontecer em todas as disciplinas.

Para aqueles jovens que querem escrever, a condição fundamental para escreverem é ler. A pessoa que não lê não pode escrever. Não pode. É impossível. É necessário que tenhamos diariamente contacto com os livros ou com algo que preenche o nosso imaginário como por exemplo a literatura oral.].

 

 

Liga “ligou-se” aos escribas

Mesmo sofrendo críticas mais ou menos contundentes, afinal os que dirigem o futebol sentem que todos somos parte de uma mesma causa: a de edificar o desporto nacional. Foi essa a mensagem que a Liga e a Federação de Futebol transmitiram ao país, quando orientaram que antes dos jogos da ronda 10 do Moçambola, se fizesse um minuto de silêncio em homenagem a Boavida Valente Funjua, um jornalista de referência, que deu grande parte da sua vida a (d)escrever o desporto nacional, com ousadia e sentido patriótico.

Devido a uma doença que o debilitou nos últimos anos, a sua vigorosa pena andou arredia do Jornal Desafio, pelo que para muitos já andava esquecido. Porém, num gesto com muita profundidade, a figura de Funjua foi exaltada de uma forma que só é usual em figuras que pugnaram, marcando a diferença, por uma causa. Neste caso, atingiu particularmente os jornalistas desportivos, o reconhecimento de que, mesmo trabalhando em trincheiras diferentes, o fim ambicionado é comum. Parabéns, Liga e Federação Moçambicana de Futebol!

Em contra-ponto, com mágoa, muita mágoa mesmo, “esqueceu-se” o Jornal Desafio, onde o jornalista deu grande parte do seu saber ao longo de três décadas, de editar um jornal totalmente a preto-e-branco, como sinal de luto pelo desaparecimento físico, de alguém que foi um dos seus apaixonados fundadores.

Uma pena irreverente

Trabalhei com Boavida Funjua mais de 20 anos. Ao longo desse tempo, alguns dos seus escritos acabaram por me provocar alguns “amargos de boca”, pela contundência da sua abordagem.
Vou recordar um episódio, em pleno período de direcção centralizada, e em que os jornalistas tinham que pautar pelas “linhas orientadoras” do partido no poder.

Eu era o responsável editorial do Desafio, estava de férias, quando foi publicada uma grande entrevista com Zaid Ali, então dirigente do Desportivo de Maputo, conduzida pelo irreverente Funjua. Tratava-se da polémica transferência de Ali Hassan, apontado ao Benfica de Lisboa e que acabou rumando para o Sporting. O conteúdo era directo, sugerindo um eventual envolvimento promíscuo de José Júlio de Andrade, então
“todo-poderoso” Secretário de Estado de Educação Física e Desportos e Chefe do Gabinete do Presidente Samora Machel. Dizia o Zaid Ali que aconteceram situações no processo, envolvendo aquele alto dirigente, “que lhe davam vontade de vomitar”.

O que se seguiu, devem calcular. Um “rodopio” de convocatórias ao Ministério Público, as minhas férias estragadas, com pressões e insinuações que me tiraram o sono em vários dias. E porque não havia gravação da entrevista, o Zaid Ali ficava-se pelo “nim” (nem sim, nem não quanto à responsabilizando-se das suas declarações).

Mas o Funjua, como parte do seu carácter, não desarmava e dizia que tinha feito bem o seu trabalho e que não receava as consequências. Foi preciso muito jogo de cintura para se arquivar o processo.

Está claro que este é apenas um episódio que ilustra o carácter por vezes inflexível, roçando a teimosia do recém-falecido colega. Não tinha só coisas boas, pois o seu feitio era mesmo difícil. A verdade porém, é que se tem que render homenagem à forma séria, abnegada e convicta com que Funjua encarou ao longo da sua vida o jornalismo e o desporto, seguramente dois grandes amores da sua vida.

São estas facetas que vão permanecer em quem com ele conviveu e que deveriam ser, indubitavelmente, um legado a transmitir às novas gerações de jornalistas.

 

Tributo a  Ali Juma Issufo

Abrimos alas para os homens de fato preto e de semblantes carregados. Uma canção descia dos céus enquanto um grupo de seis homens de braços firmes e unidos movem-se num olhar ausente entre a multidão, arrastando-se solenemente. Cumpria-se o acto derradeiro. O meu silêncio ilustrava-se no breve arrastar dos lábios para ajeitar a mímica celestial. Um vulcão de canções em erupção nesta homenagem ao meu amigo das habituais conversas no TPM das 19horas. 

O pastor percorria a parte final do evangelho quando, num repente pisei a Teasse sem querer, empurrado por Quito, magoando-a.  Por sorte daquele momento infeliz talvez os presentes terão pensado que o choro abafado de Teasse fosse em memória do finado. Outras senhoras à volta afastaram-se, temendo uma segunda vaga de pisadelas. 

O sol escaldante de fevereiro toldava-nos os rostos. Suores marejantes sulcavam-nos o corpo em cascata. Os casacos de ocasião tornavam-se insuportáveis. 

A viúva mal se via. Para além das vestes negras, um batalhão da tropa das comadres guarnecia-lhe por todos os lados. O espaço contíguo onde decorria o velório estava impossível. O choro incontido de algumas vizinhas contrastava com a contínua e descompassada gritaria da viúva, em desespero temendo o traço curvado do futuro que somente a Deus ainda pertence.

Nesta noite, debruçado sobre a varanda de casa, ponho-me a meditar. Povoam-me lembranças do militar que, sem o conhecer, bastas vezes vimo-nos em frente à base N`Tchinga onde vivi com o tio Benedito, há décadas. Ele na guarita e eu ali, do lado oposto, junto ao murro, contemplando os carros que por ali passavam, Niva, Lada,  Madjedje, Kamaz, Tatra,  a abelha da wolkswagen, etc.

Voltamos a cruzarmo-nos com regularidade anos mais tardel. Foi quando o meu tio esteve de visita à casa dos meus pais, acompanhado por um numeroso grupo de colegas, todos fardados. Um deles chamava-se.  Ali Juma. Estava fora das minhas cogitações pensar que era aquela a última vez que o via nas fileiras das forças armadas.

Não me recordo bem do mês nem do dia em que escutámos uma proclamação tão demorada, plena de fazer concorrência àquela mítica noite de 25 de Junho inaugural da República Popular.

– Estão ma ouvir bem? Estão ouvirê? Eu Ali Juma Issufo, o próprio Mwakilompa amanhã esse huora, Nampula. Estão a ma ouvir bem, nampula. – E continuou.

– Amanhã esse huora nampula axinêni, minha terra. Vocês vão me lembrar. Vou amanhã mesmo. O bilhete de avião está aqui estão a ver bem. – Exibindo-o para a plateia de ocasião composta por uma fila de gente do bairro que já estava desejosa do brinde de despedida.

– Eu, o próprio Mwakilompa vou-me embora. Já acabou guerra. Já fui desmobilizato. Vou ver minha terra, meus amigos. Já lutei. Agora estou desmobilizdo. Não vou demorar muito muito chegar na casa. Minha casa é ali quando sai do aeroporto de Nampula, estão a ouvir bem? 
E continuou naquela declaração efusiva– Esse huora Nampula axinene, nu vali pena. Esse huora Nampula, sim senhora, heheheh. E exultou – Ungawihihihihiii. Uungaaawihiiii –completamente eufórico.

Durante o brinde de despedida surgiu o inesperado. O filho mais-velho da esposa de Mwakilomba pôs-se a discurtir desajeitamente. A voz num tom bastante alto, completamente sem respeito nenhum pela progenitora. Mwakilompa levantou-se para serenar os ânimos, separando o rapaz que já se preparava para desferir um golpe à mãe. Na segunda tentativa o Madiskobe acertou de forma contundente no braço esquerdo de Mwakilompa que pairava no ar segurando uma garrafa de um refrigerante qualquer, em defesa da esposa. 

Seis meses depois daquele noite de proclamação da viagem adiada Mwakilompa foi promovido a estivador-chefe, num dos armazéns da baixa. 

Era frequente ver Ali Juma aos domingos, metido num fato preto, a regressar da igreja doze apóstolo. Mas nem por isso deixava de fazer parte das celebrações islâmicas como o Ide-Ul-Fitre e outras mais, trajado a rigor entre irmãos muçulumanos. 

Anos mais tarde, no mesmo TPM voltamos a cruzarmo-nos. O homem de Nampula apresentava um semblante frágil. Os músculos outrora fortes estavam vencidos por uma doença que ele me não sabia explicar em palavras. Fiquei a saber que já trabalhava no escritório, cuidando de algum expediente. 

– Estou a trabalhar mas nô estou a trabalhar aquele serviço de carga. Já nô pode carregar mais carga, sabe. Esse meus braços não aguenta mais. Minha vida está mal, cada vez mais, amigo.  Senti um desalento acelerado naquela fala morna do Mwakilompa. Um gigante doutros tempos. Um gigante entre Khambu e Nadjimbu, dois colossos do bairro, de músculos arredondados. 

– Agora só vou no banco depositar cheque. Depois voltar, entregar talão patrão. Meu serviço é receber carta e entregar patrão.

 Desta vez Ali Juma, falou transpirando um ar desolado. Não reconheci o próprio Mwakilompa, macua de Nampula, de olhos vidrados de emoção. Pairava no ar  uma ave qualquer anunciando, talvez, que estava para breve a chegada dos homens de semblantes carregados.
 

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*Do emakhuwa, louvado, adorado

Marcelino dos Santos redigiu, de Portugal, onde se encontrava a estudar desde 1947, uma carta que seria publicada no prestigiadíssimo O Brado Africano, onde anuncia, com irredimível convicção, a sua combatividade, aos 20 anos. Isto nos finais dos anos 40. Permanecerá quatro intensos anos na antiga capital do Império. Estuda e conspira, milita clandestinamente. Envolvido numa organização dos estudantes das colónias, sairá para Paris, em 1951, onde prossegue a sua actividade política com premência, a par dos seus estudos. Abandonado o curso de engenharia, estuda ciências económicas e sociologia. Reúne, no seu quarto, a 100 metros da Sorbonne, futuros lutadores pela liberdade. Intentava fazer um movimento anti-colonial, que precede a formação da frente – no caso de Moçambique – que irá concretizar o objectivo da luta. Participa em importantes encontros internacionais, como os festivais da juventude. Em 1959 é expulso de França. Razões? A sua intensíssima actividade política. Bélgica e Inglaterra inscrevem-se nos territórios de exílio. Em 1961 (18 e 19 de Abril) participa na fundação da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas). O PAIGC, que nascera em 1956, representa a Guiné-Bissau e Cabo Verde, o MPLA (igualmente fundado em 1956) representa Angola, o MLSTP (nasceria em 1960) participa em nome de S. Tomé e Príncipe, e a UDENAMO (também de 1960, que será substituída pela ulterior FRELIMO na organização) defende o nome de Moçambique. Marcelino dos Santos é eleito secretário-geral da CONCP e secretário das Relações Exteriores da UDENAMO. Seria, em 1962, fundador da FRELIMO, da qual chegará a ser vice-presidente.

Em Setembro de 1990, quarenta anos depois daquela imprescritível carta, quis saber, numa longa entrevista que lhe fiz em dois dias, no seu gabinete de Presidente da Assembleia Popular, de onde herdara essa costela nacionalista.

Marcelino dos Santos: «O porquê de arvorar, de brandir essas ideias? É preciso considerar a realidade vivida: vários aspectos, seguramente. Mas o primeiro é que, quando eu deixo Maputo, nos anos anteriores, os mais velhos falavam sempre da “causa”, “a causa africana”. Muitas vezes só diziam: “a causa”. Alguns, na altura, com a idade do meu pai. Quando souberam que ia partir, se me encontrassem na rua diziam: “Vem cá, ó miúdo. Tu vais para Lisboa, não é?” “Sim”. “Então, vai lá e volta formado para vires defender a nossa causa”.»

O Brado Africano titula, numa breve e ilustrada coluna, “Dr. Marcelino dos Santos: Por notícias recebidas de Paris, soube-se, nesta cidade, que um moçambicano acaba de concluir a sua formatura em Ciências Económicas e Sociologia na Universidade de Sorbonne. Trata-se de Marcelino dos Santos, ex-aluno da Escola Técnica Sá da Bandeira, que cedo deixou a sua terra a caminho da Mãe-Pátria, seguindo depois para Paris, onde prosseguiu os seus estudos. Formou-se agora em Ciências Económicas e Sociologia, concretizando o seu ambicionado sonho. Marcelino dos Santos, nosso distinto colaborador, a quem sinceramente felicitamos, é filho do sr. Firmino dos Santos, ex-administrador deste jornal, e de sua esposa sra. D. Teresa Sabina dos Santos, a quem endereçamos os nossos parabéns.”

Como se atesta acima, Marcelino dos Santos foi e formou-se. A despeito, não voltou de imediato. A “causa” reteve-o perto de três décadas. Quando voltou trazia consigo “a nova árvore/ da Independência Nacional”, como escreveu num dos seus mais belos e célebres poemas – “É preciso plantar”.

Marcelino dos Santos: “É preciso plantar/ mamã/ é preciso plantar// é preciso plantar/ nas estrelas/ e sobre o mar// nos teus pés nus/ e pelos caminhos// é preciso plantar// nas esperanças proibidas/ e sobre as nossas mãos abertas// na noite presente/ e no futuro a criar/ por toda a parte/ mamã// é preciso plantar// a razão/ dos corpos destruídos/ e da terra ensanguentada/ da voz que agoniza/ e do couro de braços que se erguem// por toda a parte/ por toda a parte/ por toda a parte// por toda a parte/ é preciso plantar/ a certeza/ do amanhã feliz/ nas carícias do teu coração/ onde os olhos de cada menino/ renovam a esperança// sim mamã/ é preciso/ é preciso plantar// pelos caminhos da liberdade// a nova árvore/ da Independência Nacional”.

A mãe Teresa viu-o plantar essa árvore. Aliás, a poesia do filho elucida o amor incorruptível pela pátria através da figura da mãe. Não só no poema que citei, mas num conjunto significativo de textos. A mãe é a metáfora dessa terra que é preciso libertar e pela qual se luta. O pai, antigo operário dos Caminhos de Ferro, não o viu chegar, na condição de herói e mito da velha “causa”. Morreu em 1965 aos 67 anos. Para além dos Caminhos de Ferro, onde trabalhara, fora da direcção do jornal fundado por João Albasini e onde avultaram nomes como os de Estácio Dias, pai de João Dias, escritor prematuramente desaparecido.

Marcelino não acompanha aqui a florescente actividade literária e a consagração de nomes como José Craveirinha (1922-2003), Noémia de Sousa (1926-2002), Rui Knopfli (1932-1997), Rui Nogar (1932-1993) ou Luís Bernardo Honwana (1942). Noémia segue o caminho do exílio e vai para Lisboa em 1951. Quando o cerco aperta em Portugal, salta a fronteira, com a filha às costas, em 1964. Marcelino dos Santos consegue-lhe um emprego no Consulado de Marrocos em Paris. Noémia, cujo nome se tornou, por alguma razão estranha, disjuntivo neste percurso, está na primeira linha da luta anticolonial e participa desta geração de libertários. Não obstante, ela falou-me sempre com ênfase e empatia dos seus companheiros: o guineense Amílcar Cabral (1924-1973); os angolanos Agostinho Neto (1922-1979), Lúcio Lara (1929-2016), Viriato da Cruz (1928-1973) ou Mário Pinto de Andrade (1928-1990); o moçambicano Marcelino dos Santos (1929). Foi com a Noémia que eu obtive o retrato humano e apaixonante de Marcelino, longe da retórica dissimulada da revolução.

Eduardo Mondlane, impedido de continuar os seus estudos na Universidade de Witswatersand, na África do Sul, permanece um ano em Lisboa, no início da década de 50, enquanto aguarda a oportunidade para ir para os Estados Unidos. Está também em Lisboa Fernando Vaz, médico, envolvido, como muitos dos estudantes, na Casa dos Estudantes do império. Não se estabelece ainda entre eles uma forte ligação: Mondlane vai para os Estados Unidos e Marcelino para Paris. Terá, na capital francesa, uma frenética actividade política. Participa no Festival Mundial da Juventude em Bucareste, em 1953, com Agostinho Neto, Guilherme Espírito Santo, de S. Tomé e Príncipe, e Vasco Cabral, da Guiné-Bissau. Foram para lá enquadrados no MUD-Juvenil (Movimento de Unidade Democrática, de oposição ao regime de Salazar), mas apresentam-se como representantes de cada um dos seus países, com tabuletas indicando Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe. Mais tarde irão representar os seus países nos festivais de Varsóvia (1955) e Moscovo (1957).

Marcelino dos Santos começa por estudar em Grenoble, mas muda-se para Paris. Em Grenoble leram Franz Fanon (1925-1961). O seu Pele Negra, Máscaras Brancas surgiu em 1952 e esteve na origem de debates. O Orfeu Negro, de Jean-Paul Sartre, fora publicado em 1948. A questão da raça inflamava os contraditórios. Discutiram estes e outros livros. Organizaram palestras denunciando aquilo que pareciam ser aspectos menos positivos na obra de Fanon. Isto ainda em Grenoble, onde estava com Aquino de Bragança (1924-1986). Partem para Paris em 1953. Aquino de Bragança acompanha-o. Mário Pinto de Andrade transfere-se de Lisboa para Paris em 54 e desenvolve sobretudo uma importante actividade cultural, da qual avulta a sua colaboração na Presence Africaine. O Congresso dos Homens Negros é um dos eventos realizados pela Presence Africaine.

Paris é também uma capital cultural indeclinável e Marcelino convive com grandes figuras do mundo cultural africano ou com o ideário próximo dele: Aimé Cesaire (1913-2008, poeta, dramaturgo, ensaísta e político, ligado ao movimento surrealista e fundador da Negritude, nascido na Martinica); Alioune Diop (1910-1980, senegalês, escritor e editor, fundador da Presence Africaine, talvez a maior figura intelectual negra da primeira metade do século XX, o primeiro preto editor em França); Léon-Gontran Damas (1912-1978, escritor e político francês, nascido na Guiana francesa); David Diop (1927-1960, poeta senegalês, morreu cedo, um dos poetas promissores de língua francesa, ligado à negritude, de quem Marcelino foi muito próximo); René Depestre (poeta do Haiti, tem hoje 91 anos); Edouard Glissant (1928-2011, poeta e romancista francês, oriundo da Martinica); entre outros.

Conviviam, embora o olhassem com alguma desconfiança, com Leopold Senghor (1906-2001, escritor e político, foi presidente do Senegal entre 1960 e 80, e foi, com Aimé Cesaire, um dos ideólogos da Negritude). Conviveu ainda com W. E.B. Du Bois (1868-1963), historiador, sociólogo, nascido nos EUA e autor e figura célebre. Também conviveu com Jacques Rabemananjara (1913-2005), político e intelectual malgaxe. Ou com Jean Price-Mars (1876-1969), do Haiti, escritor, médico e diplomata.

Mário Pinto de Andrade contou-me certa ocasião que Marcelino dos Santos cedeu parte dos direitos autorais de um livro seu publicado na antiga União Soviética que permitiu a edição do Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Há quase trinta anos confirmei com o próprio Marcelino dos Santos esta informação. O Caderno foi importante iniciativa editorial de Mário Pinto de Andrade e de Francisco José Tenreiro (1921-1963, poeta santomense, autor de Ilha de Nome Santo, desaparecido prematuramente). Este caderno é dedicado a Nicolás Guillén, poeta cubano. Tem poemas de Noémia de Sousa.

Marcelino dos Santos: “Verde carmin azul e violeta/ e nós / marchando no planalto.” Estes belos versos foram escritos em 1968 durante a marcha pela liberdade: “e sempre nos nossos olhos/ as cores suaves e doces/ de verde carmin azul e violeta/ na paisagem quente/ da terra livre de Moçambique”. O poema “Nampiali” é um dos mais belos textos deste poeta-guerrilheiro. Em 1953, escrevera, ainda em Paris, “Canto do amor natural”, que será muitos anos depois o título do seu livro em Moçambique, em 1987. “No lento balancear/ Das palmeiras/ Torcendo-se em movimentos melancólicos/ eu canto-te o meu amor.”

Marcelino dos Santos: “Mãe negra/ Embala o seu filho/ E na sua cabeça negra/ Coberta de cabelos negros/ Ela guarda sonhos maravilhosos”. A figura da mãe, no sentido denotativo, mas também a metáfora: a terra. O sonho intransigente da liberdade. A luta, a razão da luta. Pátria, Moçambique: “fonte do meu querer/ e razão do meu viver”, escreverá em “À minha Pátria”. “Terra mãe” será título de um dos seus poemas.

Poeta da revolução, combate, através das palavras, de seus versos, alguns, muitos, panfletários, como assumirá, no texto “Para uma moral”, de 1967. Poema-panfleto, poema-comunicado, documento, didáctico e moralista. Texto destinado a jovens que preferiam seguir seus estudos em vez de empregar os seus conhecimentos ao serviço do povo nas zonas libertadas: “Continuar ou não a estudar/ não é problema teu nem meu// é nosso”. “Somos soldados da FRELIMO”, dirá no “Primeiro panfleto”. No “Segundo panfleto”: “O importante não é o que EU quero/ o que Tu queres// mas o que NÓS queremos/ A Revolução é assim”.

A minha geração, quando, nos anos 80, intentou um caminho, fez o percurso literário adverso. Não tenho pruridos em considerar e relevar a importância histórica e, talvez sociológica, daquela produção literária, designada de combate, mas tinha e tenho reservas de cariz estético. Discuti muito com o Rui Nogar a este respeito. Discutimos fraternalmente. Mas o Rui tinha o condão de acreditar que a causa era de ordem suprema na literatura e, mesmo assim, não enjeitar outras possibilidades. Foi o Nogar, aliás, que acolheu a nossa geração, que era uma geração rebelde, que era uma geração crítica, na Associação dos Escritores. Foi ele quem lhe criou espaço para a afirmação. Não é por acaso que a nossa geração se afirma com uma poesia lírica contraditando esta – a do Rui Nogar ou Marcelino dos Santos, designadamente.

Marcelino dos Santos, que também foi Kalungano ou Lilinho Micaia, publicou o seu único livro em Moçambique há 30 anos – Canto do Amor Natural – pela Associação dos Escritores. Foi, por assim dizer, um acontecimento literário. A densidade histórica da sua poesia merecia um novo acolhimento e enquadramento editorial. Mas vivemos num país onde nem sequer os seus heróis – Marcelino dos Santos é indubitavelmente um deles – merecem a atenção e o cuidado dos poderes públicos na área da cultura para que a sua obra seja reenviada para o trânsito dos leitores, lida, estudada e reconhecida. O poeta-revolucionário merece essa láurea em vida. A sua produção recente, alguma dela que integrou as antologias que organizei ou co-organizei, ou outras, devia ser resgatada. Fica o repto para quem de direito. Marcelino dos Santos é um dos poetas mais importantes da chamada poesia de combate e a sua poesia confunde-se não só com a sua vida mas com parte relevante da nossa história. Por outro lado, não é possível discernir sobre a sua poesia sem pensar e entender o seu percurso de vida, de militante e de combatente. A sua utopia. A utopia da sua geração.

Primeiro na Associação dos Escritores que ele frequentou assumindo-se como poeta e despojado do poder – e é interessante isso e é aparentemente paradoxal -, depois em inúmeras circunstâncias, convivi, ao longo dos últimos 30 anos, com Marcelino dos Santos, e, não obstante as contradições que marcaram e marcam o seu trajecto pessoal, aprendi a admirá-lo e respeitá-lo sem sujeitar o meu juízo a nenhuma espécie de rigor moral ou de outra ordem. Quem seria eu para o fazer? Mais do que isso, reputo como um dos mais coerentes da sua geração. Não o vi transfigurado nem camaleónico. Podemos não concordar com ele, mas temos que respeitar a sua coerente obstinação.

Releio os seus poemas, relembro a sua longa e bela trajectória, recordo-me das imensas ocasiões em que falámos, discutimos fraternalmente, das vezes que o visitei em casa, do seu olhar penetrante, da sua voz poderosa, dos tempos em que ele era um tribuno audaz, um dos grandes tribunos moçambicanos, relembro o elogio fúnebre a Samora, a sua voz embargada, que a todos nós comoveu, das lágrimas de Marcelino diante do féretro de Machel, de outros momentos, tantos outros momentos, hoje e sempre, numa relação sempre fraterna do poeta e meu camarada de letras. No domingo, 20 de Maio, ele fez 89 anos. Regozijo-me por isso e saúdo-o aqui vivamente.

 

A cultura na educação
Caros estudantes,
Assistimos, hoje, ao lançamento da 7a edição do Concurso Vodacom Turma Tudo Bom. Trata-se, como vocês sabem, de um concurso cultural e educativo, o que demonstra que existe uma relação entre a cultura e a educação. Mas qual seria essa relação?
Se nós definirmos a cultura como tudo o que o homem cria, transforma e transmite às gerações futuras, vamos perceber que a própria educação faz parte da cultura. Ou seja, cada sociedade, cada país, educa os seus filhos de acordo com os seus hábitos culturais. Se vocês se recordarem, alguns dos nossos manuais, como o de Português, trazem canções, jogos, rituais tradicionais, lendas, mitos, como elementos da cultura importantes para a nossa educação. Isto significa, também, que educar é transmitir cultura. Ou seja, transmitir cultura é educar, da mesma forma que educar é um acto de valorização da cultura. Enfim, podemos dizer que cultura e educação são a mesma coisa. Faz parte da nossa cultura, por exemplo, acordar aos sábados e ajudar na limpeza da casa, mas muitas vezes não nos apercebemos que assim os nossos pais nos educam a ter uma casa sempre asseada, sempre limpa. Faz parte da nossa cultura ir a um culto religioso aos domingos, e assim somos educados a respeitar e a ajudar o outro. Algumas pessoas têm dito que faz parte da nossa cultura chegar atrasado a uma aula, a uma reunião familiar – o xitique começa sempre tarde, porque todo o mundo atrasa –, ou atrasar quando vamos à consulta com o médico. Aqui não concordo; não concordo que o atraso faça parte da cultura moçambicana. E porquê, porque penso que se os moçambicanos atrasam a fazer o que têm que fazer, então é Moçambique que se torna um país atrasado. E como não concordo que o meu país seja atrasado, começo a pensar que, afinal, a cultura e/ou a educação, podem ser melhoradas.
De facto, tudo na vida pode ser melhorado. Os primeiros telemóveis que se venderam em Moçambique pareciam barras de sabão-bingo, hoje, os telemóveis quase que são umas folhas de papel. Pensemos em qualquer objecto, e vamos verificar que todos sofreram um processo de melhoramento. Um dia os televisores foram de duas cores, preto e branco, hoje são coloridos, e já não têm aquela corcunda a ocupar muito espaço nas estantes das nossas salas de estar, são mais delgados e confortáveis. As próprias estantes das nossas salas mudaram, já não temos estantes de um metro e vinte ou trinta centímetros, onde guardávamos copos e pratos que só usávamos nos dias de festa, hoje as estantes – se é que podemos chamar de estantes – têm menos de cinquenta centímetros. Ou seja, a cultura e a educação são dinâmicas, porque o homem também é dinâmico.
Ora, se, como disse Lavoisier, na natureza nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma, então a cultura e a educação também podem ser transformadas. A nível mais restrito da educação, é fácil de ver: periodicamente, temos programadas curriculares novos, novos manuais e novos métodos de ensino e aprendizagem. Estas mudanças vão ao encontro de novas transformações culturais: o uso do telemóvel, o uso das redes sociais, são novos elementos que entraram para a nossa cultura e para a forma como a sociedade nos educa. Por isso, devem fazer parte dos programas de ensino, de modo que possamos corrigir o que não estiver de acordo com uma boa conduta como cidadãos. Temos que parar de pensar, por exemplo, que atrasar é normal, que ter duas, três namoradas é normal, que ir à sala de aulas alcoolizado é normal, que bater na namorada ou no namorado é normal, que cabular é normal, que tentar subornar os professores é normal, que envolver-se com drogas é normal. Nada disto é normal, são anomalias da nossa cultura e da nossa educação. Estas anomalias devem ser retiradas, ou seja, devemos melhorar a nossa cultura naqueles aspectos que não nos dão dignidade. E é aqui onde entra a literatura moçambicana.

A importância da literatura moçambicana
A literatura moçambicana, como qualquer outra literatura, é importante porque pode ajudar a corrigir os vícios da nossa cultura, corrigir os nossos defeitos. Mas não é possível falar da função da literatura moçambicana se não falarmos, antes, da necessidade que temos de ler. Ou seja, para que a literatura moçambicana exerça a função de curar os nossos vícios, primeiro temos que ler; temos que saber qual é a importância da leitura.
Caros estudantes,
A leitura é importante por, pelo menos, cinco razões. A primeira razão: a leitura é importante para o nosso desenvolvimento cognitivo. Isto significa que ao lermos um livro aumentamos os nossos conhecimentos. Mas, mais do que isso, é interessante reparar que, uma vez que nós adquirimos os conhecimentos através do nosso cérebro e do nosso pensamento, quanto mais as pessoas lêem, mais exercitam o cérebro e o pensamento, de modo que aumentem as suas capacidades de adquirir conhecimentos. Ou seja, se quisermos combater aqueles vícios da cultura de que falei, temos que melhorar a capacidade do nosso cérebro em adquirir conhecimentos e o melhoramento desta capacidade só se faz através da leitura.
A segunda razão: a leitura é importante para a formação do juízo crítico. Isto significa que um livro de contos, por exemplo, nos ensinam a saber julgar e decidir diante de qualquer situação em que nos encontremos. Um livro de histórias pode ensinar-nos a separar o bem do mal, o mau do bom, o justo do injusto, a cumprir com os nossos deveres e a exigir os nossos direitos. A única diferença é que no processo de leitura nós não nos apercebemos destes ensinamentos; o livro não é propriamente uma sala de aulas, em que temos um sumário para cada lição. Na leitura, estes ensinamentos estão lá, e revelam-se, por exemplo, quando nós não gostamos de uma personagem, quando nos rimos de uma cena, ou quando choramos ou ficamos triste porque um animal da história morreu. Ao vivermos estes estados emocionais, significa que, nesse momento, há muitos ensinamentos que são transmitidos e que podem, mediante um processo de reflexão individual, ajudar-nos a combater aqueles vícios da cultura.
A terceira razão: a leitura é importante para o acesso à informação. António Jamal, um grande repórter da Rádio Moçambique, tinha o hábito de dizer que “um cidadão informado vale por dois”. De facto, quem tem o hábito de ler, lê tudo e anda informado. A informação, seja de que natureza for, ajuda a melhorar ou a mudar os nossos hábitos culturais: saber sobre os efeitos do álcool ou das drogas ou que o dia tem apenas 24 horas e que todos na vida têm 24 horas do dia para melhorarem o seu desempenho, é importante e, mais importante ainda, é importante reflectir sobre isso de modo que possamos mudar a nossa forma de viver.
A quarta razão: a leitura é importante para a expressão. Uma reclamação que, geralmente, os professores apresentam, é o facto de os alunos não conseguirem expressar as suas ideias. Esta dificuldade deve-se à falta de leitura. Quando as pessoas cultivam o hábito de ler, aprendem novas palavras e o significado delas, o que significa que passam a conhecer mais coisas. Assim, elas podem expressar melhor o que pensam, pois, repito, já conhecem muitas palavras e as coisas que elas significam e, portanto, podem falar à vontade das coisas que vêem, das coisas que imaginam ou sonham. Melhoramos também a nossa forma de pensar, passamos a organizar melhor o nosso pensamento, para melhor expressarmos as nossas ideias.
A quinta e última razão: a leitura é importante para o enriquecimento cultural. Isto significa que ao lermos um romance ou um livro de poesia, por exemplo, ficamos mais ricos, porque passamos a conhecer mais sobre a nossa cultura e sobre a cultura dos outros, ou seja, a origem das coisas que os homens inventaram, o que os homens pensavam ao inventarem essas coisas; podemos conhecer muitos povos e lugares, as suas invenções, os seus pensamentos, as suas crenças. Este enriquecimento cultural nos ensina a ser tolerantes, a aceitar a diferença entre colegas e amigos, entre pessoas de origens diferentes, entre pessoas de crenças diferentes da nossa; este enriquecimento ensina-nos a saber dialogar para resolvermos os nossos problemas.
Como disse antes, tudo o que nós comemos, fazemos, pensamos, sonhamos, desejamos, inventamos, tudo isso é a nossa cultura, que nós recebemos dos nossos avós e vamos deixar para os outros que virão. Aqui é que entra a literatura moçambicana de forma muito específica. Porque dizemos literatura moçambicana, o adjectivo “moçambicana” nos alerta que iremos encontrar nos nossos textos vários aspectos ligados à nossa cultura e/ou educação: aspectos que têm a ver com a nossa moral, a nossa ética, a nossa filosofia, a nossa religiosidade, as nossas invenções, os nossos conhecimentos. Isto significa que ler a nossa literatura nos permite entrar em contacto com a nossa própria cultura, a cultura que os nossos antepassados deixaram, os seus ensinamentos, e perceber, finalmente, que atrasar a um compromisso não é normal, que ter duas, três namoradas não é normal, que ir à sala de aulas alcoolizado não é normal, que cabular não é normal, que tentar subornar os professores não é normal, que envolver-se com drogas não é normal. E vamos perceber isso porque, como diria Hegel, a função de qualquer literatura é melhorar a nossa humanidade, melhorar os homens que somos. E como é que ela faz isso? Fazendo-nos às vezes chorar, às vezes rir, às vezes deixando-nos tristes e inconformados. Pois é, como disse antes, às vezes lemos histórias que têm personagens que não nos agradam. Isto significa que com elas aprendemos alguma coisa que pode ajudar-nos a melhorar a nossa forma de viver, a nossa cultura e a nossa educação. Por isso leiam, ler está na moda e é a única moda que não passa. Não importa em que suporte for, se é um livro impresso ou se é um e-book, os livros electrónicos. O importante é que a gente leia. Não importa se é um poema que nos chegam pelo whatssap ou pelo facebook, o importante é que possamos ler. Porque a leitura é tão necessária como o pão que comemos todos os dias ou o ar que respiramos o dia todo!
Obrigado!

 

“Só há duas forças neste mundo: O espírito e a espada.

Mas no final o espírito supera a espada!”

Napoleão Bonaparte

 

Toda a virtude clama continuamente por circunstâncias adversas para poder se afirmar. A sabedoria requer problemas para poder enaltecer-se. A temperança precisa passar por meio de tentações para provar-se, assim como a coragem só se revela em momentos de perigo. E é por meio da coragem que homens viris distinguem-se dos efeminados. Há homens que mesmo destruídos revelam-se mais corajosos que os seus próprios destruidores. Um pigmeu que enfrenta um gigante em proteção à sua família, ainda que seja esmagado no meio da luta, é digno duma laje de valentia, o mesmo não podendo valer para o gigante que teve um opositor desnivelado em termos da força e altura. Isto significa que, em termos de coragem, a força é uma propriedade de menos relevância que a predisposição em defender um determinado bem contra todos os perigos.

Neste sentido, o guia moral de um homem valente é de quem pratica um acto nobre, não porque pode, mas porque deve. Não se trata de conseguir fazer, trata-se de fazer o que tem de ser feito. É digno de ser chamado corajoso o pai do Heitor que, sozinho na sua velhice, foi recuperar o corpo do filho na cabana de Aquiles, principal inimigo da Troia. Sabia dos perigos que corria, mas julgou que fosse opróbrio permitir que o corpo do seu filho se consumasse sem ter tido um funeral condigno devido ao medo de Aquiles. Afigura-se-nos que a coragem resplandece melhor em indivíduos que se encontram em situação que lhes é desfavorável. Dai que o prémio de valentia não cabe aos vencedores, mas àqueles que se dispuseram a enfrentar o perigo cujo fim era incerto.

Não obstante as guerras não sejam bem-vindas ao mundo pelo número de vidas que cobram em troca da paz, elas são, por excelência, arenas onde a coragem se torna objeto de elogio. A guerra se apresenta um caça-valente no embate dos guerreiros adversário. Nela se conhecem heróis, vilões, corajosos e cobardes. Deste modo, resistir ao medo da morte e violência é a prova belicosa que honra os corajosos e avilta os cobardes. Embora com pêsames, a guerra travada por soldados entre nações permite-nos medir a valentia dum povo para com outro. Da mesma forma que a guerra Peloponeso nos permitiu descobrir a valentia dos espartanos, as conquistas ecuménicas do Alexandre o Grande nos provaram a sua valentia e mestria na arte da guerra. Toda a virtude clama continuamente por circunstâncias adversas para reafirmar-se.

Todavia, com o advento da nuclearização dos países como forma de garantir a sua soberania no séc. XXI, o nosso mundo incorre no risco de perder o aparato para avaliação da valentia dos povos. Quando a força dum Estado deixa de consistir na valentia dos seus homens e passa a incidir em bombas nucleares, consequentemente se arranca ao homem a honra de ser um guerreiro. Num mundo em que as guerras entre as nações são feitas com disparos de mísseis balísticos intercontinentais, não haverá mais necessidade de existir tropas altamente treinadas nem tampouco estrategos militares. O pouco de exército a ser formado servirá para assuntos de ordem interna civil. E há menos honra em guerreiros que combatem os filhos da sua própria terra que os adversários estrangeiros.

A guerra como uma arte, a honra e a glória lhe importam. Tal entendimento pode ser obtido no encontro histórico entre Cipião Africano e Aníbal do Cartago, na véspera da batalha de Zama. Conta-se que Cipião, imperador romano, e Aníbal, líder do Cartago, não obstante grandes inimigos fossem, teriam agendado um encontro pessoal para discutir termos e condições duma provável guerra. Quando, pela primeira vez, se avistaram, um sentimento de honra comoveu-lhes o espírito por causa da imensurável consideração que um tinha pelo outro. Porém, tal admiração não foi razão suficiente para impedir que a guerra acontecesse. Os dois definiram o local onde era suposto deflagrar a segunda batalha púnica longe dos civis inocentes. Foi deveras esta brilhante diplomacia que tornou a guerra púnica honrosa e justificou a glória de Cipião que comandava um grupo reduzido de homens, mas altamente destros contra Aníbal que liderava um extenso grupo de homens com uma frente de elefantes, no dia 19 de outubro de 202 a.C.

Esta nobre guerra tem menos chances de ter lugar em séc. XXI, tempo em que as nações acreditam que seu futuro só pode ser guarnecido por bombas nucleares. Mas basta carregar-se num botão nuclear para que uma cidade toda desapareça junto com milhões de humanos em menos de poucos minutos. Ao contrário dum ataque de forças militares que levaria semanas ou meses para destruir um inimigo como uma cidade. Ou seja, as bombas nucleares têm a propriedade de acelerar o tempo de uma guerra por causa do seu poder de destruição massiva. E quando a guerra torna-se um fenómeno que se consome em minutos ou horas, ela escamoteia consigo as oportunidades diplomáticas entre as partes conflituosas que poderiam resultar em armistícios ou cessação definitiva da guerra.

É consabido que desde sua presença no planeta terra, os homens sempre atentaram contra sua própria existência e, por um triz, voltam à reconciliação. Mas ponderando-se o nível de perigo das armas com que os homens ameaçam sua existência hoje em dia, o fim duma parte considerável da humanidade tornou-se uma questão iminente. O mundo estaria em boas condições de segurança se todos os Estados dispusessem de armas nucleares, pois haveria medo entre eles de directamente destruir-se como acontece entre a Rússia e os Estados Unidos da América. Por outro lado, o mundo seria relativamente um lugar mais seguro se nenhum dos Estados fosse nuclearizado, assim não haveria sérios riscos de destruição em massa.

Enfim, o que se mantém fora de hipóteses da cogitação é a guerra. Os homens são naturalmente propensos a desencadear conflitos por conta dos seus interesses pessoais. É sempre preciso um esforço racional para conter-se os nossos instintos egoístas e deliberar-se pelo bem de todos, ou ao menos, da maioria. Sendo assim, é uma responsabilidade da humanidade envolver-se em actos de educação na construção de um mundo que dê oportunidades aos homens de provar suas virtudes. Tudo quanto nos possa proibir de manifestar o que há de mais sublime em nós, deveria ser banido da esfera humana. E porque as armas nucleares colocam em risco as virtudes de um guerreiro deviam ser conduzidas à destruição.

 

Durante muito tempo a biodiversidade foi ignorada. Falava-se da flora e da fauna como entidades complementares, mas nunca se ia ao fundo da complexa relação entre os seres vivos. A noção de que a vida plena, tal como a conhecemos hoje, depois de milhares de milhões de anos de evolução, baseia-se na diversidade para estar em equilíbrio é uma ideia relativamente recente.

Foi com a adopção, a 22 de Maio de 1992, do texto final da Convenção da Diversidade Biológica, sua assinatura na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, e a sua entrada em vigor a 29 de Dezembro de 1993, que o mundo acordou para essa nova realidade, em que a biodiversidade ganhou uma identidade própria. Por isso, o dia 22 de Maio foi designado o Dia Mundial da Biodiversidade.

Era o reconhecimento colectivo de que cada espécie de ser vivo cumpre um papel importante na manutenção do equilíbrio ecológico. Cada vez que uma espécie é extinta ou reduzida, é uma punhalada nesse frágil equilíbrio chamado ecossistema. Estima-se que 99 % das espécies que habitaram o planeta já estejam extintas. Alguns por fenómenos naturais que causaram extinções massivas. Outros pela actividade humana, relacionadas com a aceleração do aquecimento global e as mudanças climáticas, o desmatamento, o uso abusivo de agro-químicos, queimadas descontroladas, etc.

Cresce a consciência de que a biodiversidade é uma “amiga oculta”, longamente ignorada e menosprezada. Grande parte dos seus benefícios ainda não foi estudada, conhecida ou reconhecida. Embora seja difícil dizer com exactidão, muitos cientistas estimam o número de espécies que habitam actualmente o planeta em cerca dos 8-11 milhões, dos quais apenas 1,9 milhões são conhecidos e documentados. Numa coisa os cientistas são unânimes: que milhões de espécies vão desaparecer antes mesmo que sejam conhecidas. Só no reino animal, das cerca de 8800 variedades conhecidas, 7% já foram extintas e 17% estão em risco de extinção.

Com essa sistemática perda de biodiversidade, a biosfera fica fragilizada e também enfraquecem os seus diversos ecossistemas que sustentam a manutenção da vida, a produção de alimentos, a oxigenação do ar atmosférico, o equilibro do carbono, etc. Daí a urgência de olhar para a biodiversidade como fonte de vida e resiliência.

Nessa constante busca de equilíbrio, alguns sectores têm merecido uma atenção especial: os solos, a flora, a fauna, e os ecossistemas aquáticos.

Solos

Uma grande parte dos alimentos que consumimos é plantada em solos férteis. E para que os solos garantam a sua fertilidade é importante a contribuição de diversos microorganismos (vírus, bactérias, fungos e protozoários), plantas e animais que garantem matéria orgânica, nutrientes e minerais.

Sendo um reservatório natural de biodiversidade, o solo fértil é considerado um ser vivo. Suporta e fixa as plantas através das suas raízes; alimentando-as com água, minerais e outros nutrientes; fornece habitats para mamíferos, insectos, lagartos, crustáceos e vermes; protege uma infinidade de seres vivos contra ventos e correntes de água; contribui para a filtragem da água, e para a manutenção do ciclo dos gases atmosféricos.

Flora (incluindo florestas)

O reino vegetal cumpre um papel fundamental na biosfera. A cadeia alimentar na crosta terrestre começa com a disponibilidade de plantas para os animais herbívoros. Seguindo-se outras sequências da cadeia. Os seres humanos estão entre os benificiários mais directos, pois alimentam-se, simultaneamente, de plantas e animais.

As plantas também contribuem para a regulação da composição do ar atmosférico através da fotossíntese, produzindo oxigénio e removendo o dióxido de carbono da atmosfera. Este processo também ajuda diminuir o “efeito estufa” e o aquecimento global.

Através de diversos ciclos “biogeoquímicos” de que as plantas são parte importante, muitos recursos fundamentais são reciclados e disponibilizados. Por exemplo o ciclo da água, através do qual as plantas absorvem água do solo e subsolo e a lançam na atmosfera através da evapotranspiração ou ainda a fixação de nitrogénio atmosférico no solo em parceria com micróbios designados rizóbios.

Uma única planta (uma árvore, por exemplo) pode criar ecossistemas essenciais para muitas espécies de aves, insectos, mamíferos, vermes e répteis. Também fornece combustível lenhoso, madeira, fibras, medicamentos, essências, borracha, óleos e medicamentos.

Cerca de 80% da dieta humana é composta por plantas. Estima-se que, na História da Humanidade, 7 mil espécies de plantas são ou já foram cultivadas para o consumo humano.

Fauna

Chamamos fauna ao conjunto de animais que habitam o planeta. Eles povoam os meios terrestres, aquáticos e aéreos. Como os animais que habitam os meios aquáticos são aqui abordados especificamente (ecossistemas aquáticos), importa realçar o papel da fauna que habita os meios terrestres.

A fauna tem um papel fundamenta no equilíbrio ecológico: faz o processo inverso das plantas, absorvendo o oxigénio e libertando dióxido de carbono, contribuindo assim para o precioso equilíbrio na composição do ar atmosférico; é peça fundamental da cadeia alimentar, primariamente através dos herbívoros e granívoros, que por sua vez são fontes de proteína e muitos outros nutrientes, essências para carnívoros e omnívoros; também contribuem para a fertilização dos solos, polinização, disseminação de sementes, etc..

A produção pecuária beneficia de cerca de 25 espécies de animais que foram domesticados e utilizados na agricultura e para consumo. Outros são capturados ou retirados dos seus habitats naturais para consumo humano. A fauna representa assim uma inesgotável fonte de alimentos ricos em proteína.

Ecossistemas aquáticos

Os ecossistemas aquáticos podem ser naturais (mares, oceanos, rios, lagoas e mangais) e artificiais (albufeiras, canais de irrigação, aquários, campos inundados de produção de arroz, etc.). Os meios aquáticos geram múltiplos ecossistemas. Acredita-se que foi em meios aquáticos que a vida teve origem. Estes ecossistemas aquáticos jogam um papel fundamental na multiplicação do fitoplâncton e zoo-plâncton, muito importantes na cadeia alimentar e no ciclo do oxigénio e carbono. São também importantes para fornecer água, regular a temperatura e o clima.

A pesca e aquacultura não só representam uma fonte importante de alimentos, como também uma fonte de rendimentos para cerca de 820 milhões de pessoas no mundo, em toda a sua cadeia de valor. Só em 2015 foram capturados cerca de 92,6 milhões de toneladas de pescado. O consumo anual de pescado per-capita é estimado em 16 Kg.

A concluir

A preservação da biodiversidade é importante para evitar a perda de recursos naturais que sustentam a vida no planeta. Ela requer uma luta feroz para combater ao aquecimento global e as mudanças climáticas, mas também outras medidas mais específicas como o combate contra o desmatamento, as queimadas descontroladas, a caça furtiva, a pesca ilícita e ilegal, o uso de pesticidas e agro-químicos poluentes, a intoxicação dos mares com plástico e a contaminação dos solos.

 

É interminável a lista de gente que se suicidou. O suicídio é uma corrente do fim que ganha anilhas nas filas dos hospitais, nas pontes das cidades, nos terraços dos prédios, nos quartos escuros, nos ramos da árvores e em tudo que tem vida. O peso do corpo é a corda do suicídio quando as escadas nos levam ao último piso do prédio. Uns entre a roupa molhada enfiam o pescoço no estendal e fazem a vida secar para sempre. A água do mar, do rio também serve de corda para afogar a vida.

Pequenas dimensões de matéria sinalizam o suicídio em todo lugar. Um pano branco que tapa um chão avermelhado de sangue, rodeado por criaturas que lamentam o desconhecido que desenhou o seu fim, uma camisa que flutua no mar dá o último sinal de uma vida que foi diluída por ondas e espuma, uma corda que segura um corpo que flutua nas ondas no vento, um revólver com sangue, tudo isso espalha-se na cidade. O suicídio testa-se em toda parte como se fosse uma nova ciência da vida. E a dor é maior porque o suicídio tem um perímetro mais vasto que a vida.

O suicídio é a fórmula vital de problemas que não resolve. Os jovens suicidam-se e os mais velhos suicidam-se no tempo suicida. José Manuel Balmaceda, ex-presidente do Chile, deu um tiro na sua cabeça, Vincent Van Gogh atirou contra o seu peito, Adolf Hitler e sua esposa envenenaram-se, Amy Winehouse explodiu por conta duma overdose, Gilles Deleuze atirou-se dum prédio. Ali na Matola, o sofrimento das estátuas mastigam com suas bocas cheias de fome o suicídio de Alberto Chissano.

A 14 de Março de 2018 Stephen Hawking morreu. Esse físico teórico e cosmólogo britânico, um dos sucessores de Isaac Newton na Universidade de Cambridge no cargo de titular da cadeira Lucasiana de Matemática, disse antes da sua morte que apoiava o suicídio assistido. Mas, somente quando a pessoa envolvida faça essa escolha sem nenhuma pressão. Em seu último suspiro defendeu que a partir do Big Bang, o Universo se expandiu de um ponto minúsculo em um processo conhecido como inflação, criando universos infinitos que poderiam ser muito diferentes do nosso.

Voltamos à Grécia antiga e encontramos o tratado "Elogio da Morte" de Alcidamente. Orador celébre. Alcidamente argumentava que o acto supremo da vida era o de aniquilá-la voluntariamente. O suicídio era, para ele, um acto de liberdade e sabedoria. Convidava todos homens a suicidarem-se.

A Filosofia do Suicídio do grego soou, mais alto, na Alemanha. Filipe Batz, publicou com o nome de Filipe Mainlander o livro "Filosofia da Redenção". Mainlander convidava a todos para um suicídio universal. Argumentava que a morte de todos homens seria o fim do Ser, visto que a morte de Deus constituiu o princípio da vida e do Mundo. Mainlander defendeu a sua teoria com a sua própria vida; suicidou-se tempo depois. E a possível filosofia do suicídio ganhou um capítulo importantíssimo.

Entre Hawking, Alcidamente e Mainlander há um caminho que "legitima" o suicídio. O nosso tempo é andarilho e peregrino desse caminho. Suicidamo-nos e deixamos tudo nos suicidar. Temos pressa em morrer e impaciência em esperar a morte. Escrevemos com a grafia do nosso tempo o compêndio do suicídio.

Continuo escrevendo sobre o suicídio, mas há no fundo dessa caneta que, agora, uso duas gotas de suicídio: o suicídio da incerteza e o do medo. A incerteza de continuar a escrever sobre o suicídio e o medo de parar de escrever e parecer que pretendo suicidar o texto antes do fim. Cada linha de um texto pode ser uma corda resistente para o suicídio do sentido. Escrevo a mão e devo depois passar tudo a limpo no computador. O meu computador tem na sua testa uma maça mordida. Uma Apple. E que significa aquela maça mordida? Sei que ela cheira a suicídio. O pai da computação moderna, Alan Turing, em 1954 trincou uma maça envenenada com cianeto e consumou o suicídio. Eis como termino o texto: escrevo sobre o suicídio, com uma caneta que gagueja suicídio e sobre um computador com uma homenagem ao suicido.

 

«Escrever sobre o presente é como caminhar à beira do precipício: podemos cair»

Salman Rushdie

Informação de última hora!

Interrompemos o show de Gatafox na casa Mapiko para apresentar uma notícia que promete fazer correr muita tinta. Convidamos o repórter volante, que está na sede do comando-geral da polícia a nos brindar com as últimas sobre este caso.

Caro colega repórter volante Carvão Arde Molhado venha daí:

– Saudações senhores telespectadores,

Estamos perante o que se fornece como sugestão aos nossos cineastas para uma longa-metragem, um caso próximo a um policial do western americano, que até se pode chamar BARCOLINO e o Detective DZAHELA.

As autoridades policiais anunciaram há momentos que estão no encalço de um perigoso cadastrado conhecido nos meadros especiais operativos como BARCOLINO, O INQUERÍVEL. Este sujeito lidera uma quadrilha que se dedica à burla qualificada, desperta agudas paixonites, incontroláveis e enganosas. Barcolino é acusado por mais crimes, tais como pecolato e branqueamento de capitais, incluindo cinquenta e cinco crimes que aguardam parecer da comissão mista e interministerial entre os Ministérios da Justiça, Mar e Águas Interiores e Pesca; Terra e Meio ambiente; Ministério da Saúde e Ametramo. Barcolino e seus comparsas têm actuado preferencialmente nas regiões da Costa do Sol e João Mateus, na Matola.

 Barcolino é alvo de uma denúncia popular que chegou até nós na última madrugada, emitida pelas autoriadades locais da zona do Chiango. Este fulano é tido como peixe, perdão, persona non grata. Na ficha que recebemos consta que a sua lacalaca, ou melhor, o seu modus operandum tem veneno. É um perigo para a saúde pública, terrestre, aérea e marítima. Até ao momento foi emitida uma ordem nacional de busca e captura, usando meios disponíveis para a corporação, entre os quais anzol, rede de pesca, munições diversas para o uso no espaço aéreo, marítimo e terrestre.

Neste instante, a intervenção do repórter foi interrompida por uma ruidosa salva de palmas de jornalistas e populações circunvizinhas que estão no comando-geral. – E o repórter Carvão Molhado volta à carga:

– E mais se informa que o detective Dzahela foi destacado para esta inadiável e urgente operação. Segundo informações recentes o Major Dzahela caracteriza-se por usar elementos típicos, de infalível sucesso, onde quer que seja: lápis na orelha esquerda, pistola amarrada sobre a cabeça e fisga no pescoço. A sua última missão, antes de passar para a reserva é mesmo procurar e neutralizar o cadastrado Barcolino.

O ilustre detective, depois de receber a sua nova missão, com elevada determinação que lhe é característica e, somos impelidos a reforçar mais alguns atributos. Senhores espectadores, a lista de atributos prevê-se de longa leitura. O detective Dzahela é internacionalmente conhecido, sobretudo nas cidades da Matola, Maputo, da baixa a Costa do Sol. As suas fontes estão em alerta máximo e, segundo informações recentes, podemos referir que estão no encalço do meliante. E antes que seja tarde o nosso detective, graças às tecnologias já emitiu uma declaração pública, via-skype, a partir do seu escritório móvel. Esta declaração está a tornar-se célebre, tal é a velocidade de partilhas nas redes sociais, estremecendo meio mundo nos quadrantes do crime.

HOJE VAI MORRER UM CÃO E UMA CÃ!

Informo aos moradores das zonas da Matola, de João Mateus ao Língamo, de Língamo à Baixa da cidade, e de lá até a Costa do Sol, que o cidadão Barcolino, o inquerível está mal comigo. Através de indicações superiores e jurando as minhas platinas fui destacado para esta missão. Garanto cumprir com brio e eficácia. E não tenho receio nenhum em dizer que o senhor Barcolino, sim você mesmo que me está a mirar vou-te prender, em 25 horas, no máximo. O mundo está farto de saber que és um Mafioso incorrigível. Não vou aqui reveler a minha táctica. Adianto apenas que vou-te procurar na tua casa no bairro dos pescadores. E, se te encontrar enquanto não estás, vou directo à Parte Incerta. Lá no teu bar favorito, ah, ah, aha – todo gabarolas e convencido – não falha nada. Vou-te prender bem, mesmo antes de terminares o último copo e de beijares a nova amante. Vou interromper esse festim sem gastar uma bala. O meu equipamento resolve tudo!

Mas oiça aqui. Venho de longe, batendo no peito, por três vezes, com os olhos desorbitados de fúria – o meu admirável ídolo Xidiminguane já senteciou a nossa missão comum. Vou-me guiar no registo de Lucílio Manjate*. A tua missão Barcolino é fugir. A minha, o próprio detective Dzahela é te prender. Xidiminguane disse e eu aqui, na paz dos deuses do mar e da terra informo-te: «onde vamos nos encontrar nunca mais o capim germinará». Não te rias, seu infame e miserável. Vou acabar com essa mania de mafiares malta nós, andares por aí a fingires que morreste enquanto estás vivo na morte da vida.

Tenho dito!

O comandante

Dzahela

*Crónica inspirada na novela de Lucílio Manjate, A TRISTE HISTÓRIA DE BARCOLINO, Cavalo do Mar, 2018

 

Conheci o Heliodoro Baptista em 1987, numa das suas raras vindas a Maputo, à época, e tornámo-nos amigos imediatamente. Recordo-me de, numa ocasião, no jardim Tunduru, meses antes de ele dar à estampa o seu primeiro livro Por Cima de Toda a Folha, me ter dado a conhecer o seu original. Estranhei que o livro não tivesse aquele que eu considerava o seu mais belo e pungente poema até à data – “Poema à Filha de Thandi” – que era e é um poema arrebatador. Felizmente, o Heliodoro ainda foi a tempo de incluí-lo no livro. Na verdade, ele pensava que o mesmo deveria fazer parte de um livro posterior. Por Cima de Toda a Folha foi editado em 1987, e o livro seguinte – A Filha de Thandi – seria publicado em 1991.

O Heliodoro era um poeta da linhagem dos poetas que se revêem numa poesia como forma de conhecimento, numa poesia eclética. Releva daí o facto de a discussão que se despoletou sobre a questão da intertextualidade, naqueles anos, não ser de todo, em relação a ele, alheia. A poesia de Heliodoro é uma poesia que nos interpela, que nos confronta, que nos defronta, que nos inquieta. Mas também uma poesia que dialoga com a melhor poesia e com os poetas que ele reputava.

Quando me encontrei, em Junho de 1988, em Lisboa, com o meu mestre Baptista-Bastos, levava-lhe o livro do Heliodoro. Numa carta (naquele tempo nós correspondíamo-nos através de missivas) que ele me redigiu a agradecer os livros que lhe oferecera, considera o Heliodoro um grande poeta. Dei boa nota dessa opinião do Baptista-Bastos ao Heliodoro e sei que ele ficou muito feliz com tal reconhecimento. A despeito do quilate da sua poesia, quando publica o seu livro de estreia, que era a súmula de 14 anos de escrita, Heliodoro Baptista estava marginalizado.

Heliodoro Baptista: “Eu penso que o livro, de facto, talvez me tenha retirado definitivamente de uma certa marginalidade, orquestrada pelo Poder.” O poder, que fora aliás tema de muitos dos seus poemas, entre os quais o emblemático “As outras mãos”, um dos seus mais belos textos: “As mãos do poder, meu amor, /são mãos humanas”, começa assim o poema que tem como epígrafe uma citação de “O Estaleiro”, de Juan Carlos Onetti, um escritor uruguaio, um dos maiores prosadores em castelhano do século XX: “É estranho que aqui ninguém soubesse mesmo de nada!”

Este livro de estreia tem poemas belíssimos. Os primeiros versos do poema alusivo ao massacre de Wiriamu nunca me saíram da cabeça: “Vede/ a amabilidade das manhãs/ exprimindo-se tão bem/ por sobre o espaço das bombas”. É notável. Ou estes versos de “Alegoria”: “Em Inhaminga, meu amor, / estão as armas apontadas para o céu/ mas só há pássaros”. Isto é de um grande poeta. A voz de um eleito.

Heliodoro  Baptista era um grande leitor de poesia. Pablo Neruda foi, indubitavelmente, um dos seus poetas electivos. Os filhos menores, à época em que os conheci, Pablo e Guy, recitavam o poema 20 dos Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. Não é despiciendo, aliás, o nome do filho Pablo, a quem ele dedicou um belo poema “Variações Onomásticas”: “E tu, meu filho, / que carregas esse nome diabólico/ por que dizes já com 2 anos/ a mim de cenho mortuário/ que assim, assim mesmo, / «estás farto desta merda»?

Outro poeta que ele leu com admiração e com quem dialogou imensamente na sua poesia é o português Herberto Hélder. Aliás, o poema “Paisagem com poeta em segundo plano” começa e termina com dois versos entre-aspas, que ele não identifica o autor, que são de Herberto: “Tantos nomes que não há/ para dizer o silêncio”. Creio mesmo que Herberto foi o arquétipo do poeta que ele pretendeu ser.

Herberto Hélder: “Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.” Assim começa o livro Poemacto, que se seguiu ao A Colher na Boca, que tinha aquele belíssimo poema “O Amor em Visita”: “Dai-me uma jovem mulher, com a sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela/ encantarei a noite”. Imagino o Heliodoro, rodeado dos seus fantasmas, lendo, na Beira, este imensíssimo poeta. “Em cada mulher existe uma morte silenciosa” – escreve Herberto. O amor e a morte perseguiram-no, de certo modo.

Homem de palavras, cultivava-as com perícia de relojoeiro suíço. Os seus poemas, para além de terem soberbas metáforas e imagens poderosas ou até mesmo pavorosas, eram feitos de palavras e de um ofício que lembra a “Ars Poetica” do Rui Knopfli, outro poeta cujo amor e devoção nos aproximava. Num poema de A Filha de Thandi, intitulado “À volta das origens”, dedicado a Rui Knopfli e a Eugénio Lisboa, o diálogo intertextual é explicito com um texto do Knopfli: “Sim, de facto, ‘uma só e várias línguas/ eram faladas e a isso/ por estranho que pareça, também chamávamos pátria’”.

Heliodoro Baptista: “As palavras amadurecem, transcendem-nos. / Como os dias. Este trajecto imemorial.” – isto na “Poema à Filha de Thandi”, que assim termina: “Mas os poetas têm boca. / As metáforas são o seu próprio ardil/ para que outros leiam/ o que ele nunca disse.” As Palavras Amadurecem seria o título de uma antologia publicada, em 1988, na Beira pelos dez anos da página “Diálogo” do Diário de Moçambique.

Há imensíssimos poemas do Heliodoro Baptista de que gosto implacavelmente. Poemas que nos desassossegam. Poemas que querem subverter. Aliás, Jorge Viegas, que inicia, em Quelimane, um convívio literário, escreverá no belíssimo poema “Subversão”: “À subversão devemos/ A estatura do que somos”, depois de asseverar que “o poeta subverte os planos da linguagem”. Heliodoro Baptista, um poeta subversivo, no poema “De nós e dos outros”, que tem uma epígrafe do japonês Yukio Mishima (“A verdadeira pureza é sujarmo-nos e, no entanto, não nos sujarmos realmente”), escrevia: “Querem-nos, a alguns, bem sentados/ na fofa realidade escamoteada/ a uma outra realidade desavinda/ onde crescem agudas, ásperas vozes.”

Ouso falar extremamente de mim mesmo”, escreve Heliodoro Baptista em A Filha de Thandi. E diz adiante: “da imobilidade do poema/ explodirá o mais prodigioso grito de amor”. Aqui está a definição da sua poesia. “Falo-vos destas vozes mansas, chamando-nos docemente, / deste país em agonia mas vivo, / com seus fluxos, grutas, segredos, xistos, volição, / onde, de resto, se confundem/ estas recém-nascidas palavras, / adventícias, nunca. Consumadas, talvez.”

Heliodoro Baptista: “O pecúlio são os filhos, / o horizonte raso dos versos, / a doçura oriental dos teus olhos/ e o castanho desenvolto/ do teu corpo inextinguível / onde, às vezes surpreso, / restauro comovidamente/ o deus que em menino/ quis ser.” Belo poema dedicado à musa soberana Celeste. No livro de estreia dedicara à Celeste um outro belíssimo poema: “Gravidez”: “Traço a traço/ desvendo-lhe as feições/ por onde a vida rufla/ as grandes asas”. Este livro – A Filha de Thandi – está cheio de belas metáforas. Num poema, “Prova dos Nove” (dedicado ao Eduardo White e à Olga): “Assim crescem as arestas da angústia, / as mesas estão cada vez mais vazias”. Isto é extraordinário. Num outro, “Preço dos sonhos” (dedicado ao Jaime Santos e ao Fernando Cunha): “É de vidas que se fala aqui/ e, sobretudo, de destroços humanos, / do que restou de todos nós.”

Gosto maningue muito (“maningue muito” é pilhado ao Craveirinha) do poema “A Uma Ingénua Nórdica”. Queria citá-lo na íntegra mas aqui não caberia. Também gosto do pungente “Ao Futuro”, dedicado ao filho Guy: “Saberás um dia que o amor nunca/ nasce, nunca deve. O amor é, / sempre foi, sempre esteve”, começa assim o texto que fecha o livro. Tem versos seminais: “Rigorosamente contemporâneo/ da explosão cósmica/ que, contam, declinou ao princípio/ do escuro e da luz”. Termina com a seguinte estrofe: “Nunca aceites ser mártir. / Ama o teu presente e o futuro/ e, por certas tardes de sábado, / de olhos porventura humedecidos, / limpa docemente a minha tumba”. 

Haveria muitos outros exemplos para citar, nesta noite em que o evoco. Quero terminar com o poema “Hablando, com amor, em setembro”, que ele dedicou a Ungulani Ba Ka Khosa, ao Eduardo White e a mim próprio. No meu livro, A Pátria Dividida, de 1993, tenho um poema dedicado ao Heliodoro. Em A Filha de Thandi, ele dedica-me o poema “O Amor em movimento”. O Heliodoro foi dos poetas mais generosos no afecto e isso vê-se como proliferam dedicatórias em seus livros. Este poema invoca Pablo Neruda no diálogo que ele estabelece connosco. “Nosotros, irmão Pablo, / também fazemos milagres a sorrir”, di-lo. Ou: “a realidade aqui é um repto/ um grito vocabular”.

Releio este belíssimo poema e tocam-me estes versos fulminantes. Heliodoro era um poeta inspiradíssimo. Apetece-me citá-lo todo, mas falta espaço para o fazer. Leio: “Nosotros, irmão Pablo, / nós também somos os mesmos:/ com astúcias, tumultos, originalidade, / na dor exaltante desta transparência carnal/ se sermos coisas, aromas, corações atónitos (ou atómicos) / abraços penitenciários, suicídios de luz.

Heliodoro Baptista: “Os jardins ainda não são jardins, / a fome es muy fuerte e alguns dias, seus poentes, / dão-nos a gramática incontrolável desta candonga/ da desordem programada, o rigor selectivo desse negócio/ que é a desolação animada pelos anunciados humanismos, / das imperiais conveniências do dólar”. Este poema é lindíssimo e me sinto orgulhoso de me ter sido dedicado, como ao Khosa e ao White: “Entretanto, aqui estamos,/ numa casa, em Setembro,/ com nossas praças, hablando em Setembro,/ nesta cidade índica e austral, esculpindo/ contigo em Setembro de todos nós, / que produziu depois esta fúria de amarmos a liberdade/ e esta coragem, sem exibições de nunca temer o látego,/ o banco do tribunal, as armas, / quando nos localizam e apontam a subversão/ de amar o valor erótico, beijar o sexo como a uma hóstia,/ a ajoelhar defronte do altar de uns seios, sem ocultações, / puros, feridos pela paixão de se ser homem, entidade,/ motor próprio, paisagem sempre nascida em cada cópula,/ porque o amor é tudo, sempre será tudo e todos, / belo, paranoico, avassalador, canibal, suspeito,/ veneno, vitamina, lâmina de punhal que dá vida, soro vital”.

Não haveria melhor definição para a sua poesia nem haveria melhor inscrição no horizonte intemporal desta escrita na qual se inscreve (passe-se a redundância) a sua memória e a sua biografia como, por exemplo, nestes belos e doloridos versos, que citei acima. A sua experiência está neles sublimada: “Por que não experimentam prender as estrelas?” – indaga-nos. Querem melhor metáfora? Este pungente texto, como tantos outros que Heliodoro produziu, na sua tumultuosa vida, são a lídima expressão de uma voz singularíssima da nossa lírica, de um poeta que nunca abdicou do amor e da liberdade, de um poeta quizilento, se quisermos, mas que tudo o que escreveu, como queria Rui Knopfli, foram poemas de amor, aliás, apanágio de grandes poetas.

Termina assim aquele poema que ele nos dedicou: “Não poder viver senão uma vida/ é como não viver”. Não tenho mais palavras esta noite. Ella Fitzgerald e Louis Armstrong cantam “April in Paris”, um velho clássico dos anos 30, composto por Vernon Duke, com letra de E. Y. Harburg, para um musical na Broadway (Walk a Litle Faster) e interpretado profusamente ao longo de anos: Billie Holiday, Bill Evans, Charlie Parker, Sammy Davis Jr., Count Basie, Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Wynton Marsalis, eu seil lá!

Heliodoro Baptista nasceu a 19 de Maio de 1944, em Gonhane, Quelimane. Morreu a 1 de Maio de 2009, na cidade da Beira. Poeta inconformado, está na primeira linha da lírica moçambicana. Sofreu, por muitos anos, o opróbrio da marginalização. Foi jornalista e contista. Para além dos títulos acima referidos, publicou, em 2005, Nos Joelhos do Silêncio, no qual retoma alguns dos seus temas electivos, entre eles a mitologia de Thandi. Ele sempre recusou o silêncio. Mesmo quando precavia os filhos: “Pode ser que tenha de regressar/ aos dias das mil ciladas. //Como a outros, na exactidão deste tempo, / nada é imune.” Foi sempre poeta do amor: “Digo-vos: no amor não importa o espaço/ e muito menos o tempo”. Celebro-o aqui na companhia de Ella Fitzgerald e de Louis Armstrong: “never missed a warm embrance” (nunca perdi um caloroso abraço). O seu “grito vocabular”, mais do que um repto, é uma realidade esta noite. Por cima de toda a folha.

 

 

O inusitado pedido de morte do cientista britânico de 104 anos de idade foi, enfim, deferido. Ao som de “ode of joy” de Bethoven, Goodall deitado sobre uma cama de altura de joelhos na clínica suíça Cycle of Life sentiu a vida a esvair-se lentamente afora. E foi assim que a morte e o livre arbítrio estiveram de mãos dadas num estranho consórcio. Num mundo que nos habituou a correr atrás do tempo para ganhar a vida, é-nos sempre comovente ver alguém que corre contra o tempo para conquistar a morte. Para Goodall, cessar a vida tornava-se necessária ante a inelutável debilidade física protagonizada pelo tempo. O cientista ecológico chegou a questionar que sentido havia restado numa vida cuja rotina se resumia em acordar, alimentar-se, mover-se alguns centímetros e dormir.

É, portanto, sob estas condições que nos urge pensar o suicídio e, uma das suas vertentes, a eutanásia. O que nos é permitido aprender desses dois fenómenos? A reflexão sobre suicídio ou morte em geral coage-nos sempre a pensar a vida ou num sentido valorativo-comparativo. O suicídio como escolha problematicamente livre da própria vítima encontra o seu fundamento ou na crise existencial ou no utilitarismo. Ou seja, há dois tipos de suicidas que concorrem à morte. Há os que se libertam da vida pela dor de existência e falta do sentido da vida. Há aqueles que o fazem por um determinado interesse que pode ser secular ou sobrenatural. O importante a sintetizar é que há sempre algo acima duma ingénua vontade de morrer que impulsiona o homem à auto-destruição.

Sendo assim, há um imperativo de olharmos para o suicídio, não como uma escolha livre, mas sim uma escolha forçada pela crise de existência ou pelo utilitarismo moral. A morte nunca é escolhida por si. Nesta ordem do pensamento, entende-se que o suicídio é tanto uma morte natural como homicídio, porquanto a vítima não se apresenta como autor, mas sujeito da sua própria morte. Nisto, ele é ao mesmo tempo vencido e vencedor. E as dores e os princípios de existência são, por excelência, os verdadeiros autores dos suicidas.

Goodall não foi livre na tomada da sua decisão. O insignificante da sua existência impeliu-o à eutanásia. Todavia, há algo em comum que se encontra em todos os suicidas: o amor à dignidade humana. Todos aqueles que renunciam à sua própria existência, no fundo, clamam por uma vida digna. São tão radicais que se predispõem ou a viver condignamente ou não a viver vida nenhuma. Para os suicidas, não basta viver mas viver bem. Deste modo, a vida em si não tem valor algum. É preciso um exercício axiológico para o enriquecimento da existência. Se calhar tenha sido esse o maior legado filosófico de Séneca ao preconizar os humanos a darem sentido à sua própria vida para que no fim sejam dignos de ser lembrados.

Para este filósofo estoico, o homem sábio alongará sua vida não enquanto puder, mas enquanto dever, isto porque a vida assemelha-se a uma peça teatral, não importando a sua duração, mas a sua qualidade. Aquiles foi um exemplo duma vida breve, mas memorável, depois que preferiu ir à guerra onde encontraria uma morte prematura mas gloriosa a ficar em casa e envelhecer nos braços da sua amada sem direito a nenhuma página na história da humanidade.

Olhando para além do bem e do mal do suicídio, é possível vislumbrarmos o belo quando alguém renuncia à sua vida por não poder viver de acordo com os seus termos e condições, tal como não deixa de ser nobre que um trabalhador demita-se a ser demitido. O amor à vida é capaz de sujeitar o homem a uma existência humilhante, quando o faz preterir feitos nobres pela sua própria sobrevivência.

Enquanto humanos, que nos permitamos sempre uma vida digna, sem perder a consciência que a vida não é ao todo “um mar de rosas” e é em grandes tempestades que se relevam grandes marinheiros.

 

A saúde é certamente um dos principais factores estruturais para o desenvolvimento sustentável. Ela afecta não apenas o bem-estar das pessoas, mas também a sua produtividade. Porém, o estudo da relação entre a saúde e o desenvolvimento é complexo. Há muitos elementos, variantes e variáveis a levar em consideração.

Esta complexidade foi aumentando à medida que a definição de desenvolvimento se modernizou, deixando de ser um mero sinónimo de crescimento económico, passando a considerar outros aspectos de natureza social, cultural, ambiental e política, como os níveis de desigualdade, o equilíbrio de género, o desemprego e o uso sustentável dos recursos naturais.

A abordagem economicista centrava-se no “capital humano” (emprego, divisão e diversificação do trabalho) e o seu impacto na produtividade. Partindo desta perspectiva, a saúde seria uma função do desenvolvimento. Um maior investimento nos sistemas de saúde como um todo, tanto pelo sector público como privado, resultaria numa melhor capacidade produtiva.  

O risco era o de tratar os seres humanos como capital físico, como se fossem máquinas. Porém, a saúde de uma comunidade não se resume aos índices de morbilidade e mortalidade, e demais estatísticas, nem mesmo no quadro organizacional e institucional do sector da saúde.

A abordagem carecia de elementos de humanização, numa perspectiva multissectorial e aberta, partindo mesmo da definição dos termos “saúde” e “desenvolvimento”; da distinção entre infecção e doença; de como cada uma delas afecta o estado físico e mental e a produtividade per capita; e, de quais os desafios relevantes no continente africano.

Daí o recurso à uma solução pragmática, realçando preocupações relevantes, actuais e urgentes: a saúde materno-infantil, as doenças não transmissíveis, as zoonoses (tuberculose, salmonela, ténia, raiva, gripe aviária etc.), as epidemias (como a malária, a cólera, diarreias, o ébola e o HIV/SIDA).

Saúde materno-infantil

Um dos indicadores mais importantes numa comunidade é a saúde materno-infantil. Nesse elo entre a mãe e a criança está a matriz da qualidade dos recursos humanos. O estado de saúde da mãe define o estado de saúde da criança e das gerações vindouras, a curto, médio e longo prazos.

Em África, os problemas começam logo com a elevada incidência de gravidez precoce. Neste caso, tanto a mãe como a criança são expostos a elevados riscos biológicos (como complicações da gravidez e partos distócicos), sociais, demográficos e económicos. Todo o processo de gravidez é afectado não apenas pela imaturidade biológica da mãe, mas também por um cocktail de problemas como baixa renda, habitação precária, anemia, alimentação inadequada, instrução limitada, e baixa utilização de serviços pré-natais, que no conjunto resultam no baixo peso à nascença.

Após a nascença, uma nova vaga de factores como a persistência da anemia nas mães, desmame precoce, abandono da criança, desnutrição proteico-calórica da criança e vulnerabilidade às doenças infecciosas como a diarreia e o sarampo resultam em elevados coeficientes de mortalidade infantil até aos 5 anos e em insuficiência ponderal (baixo peso e raquitismo).

Doenças não transmissíveis

As doenças não transmissíveis, também conhecidas como “não infecciosas”, por não serem causadas por agentes patogénicos, são cada vez mais importantes para a saúde pública e podem ter natureza crónica. Entre elas estão as doenças autoimunes, doenças cardiovasculares, diabetes, osteoporose, cataratas, pedras nos rins, anemia, obesidade, alzheimer e outros problemas mentais.

Em África a situação é preocupante por falta de medidas preventivas adequadas e de tratamento especializado que algumas dessas doenças requerem.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 70% das mortes têm como causa doenças não transmissíveis. Embora algumas tenham origem genética, outras estão associadas à pobreza, como a anemia (deficiente acesso a uma alimentação adequada, agravada por falta de informação), obesidade (alimentação desregrada), enfisema pulmonar e bronquite (associado ao consumo do tabaco), a hepatite ou cirrose hepática (provocada pelo alcoolismo). Outras estão ligadas a degradação ambiental, poluição do ar e dos cursos de água, intoxicação com metais pesados, material radioactivo e agroquímicos.

Zoonoses

As zoonoses são doenças transmitidas dos animais vertebrados para as pessoas, e vice-versa. Os agentes patogénicos em causa podem ser vírus, bactérias ou parasitas. Considerando que em África o contacto com os animais é íntimo e inevitável (animais de estimação e de consumo), as zoonoses representam uma ameaça real.

Devido à fraqueza dos mecanismos de vigilância sanitária na cadeia de valor dos alimentos em África, a tuberculose bovina, a salmonela, a listeriose, e a campilobacteria representam preocupações constantes. A raiva, por seu turno, faz muitas vítimas mortais todos os anos, pois o diagnóstico e tratamento em humanos é difícil e oneroso. Requer-se uma estratégia de vacinação dos animais domésticos, particularmente cães, que representam a maior ameaça relativamente à transmissão da raiva para humanos. A gripe aviária já fez alguns mortos entre humanos, por isso requer o controlo da doença a nível das aves para minimizar o risco de contaminação às pessoas.

Epidemias

No continente, a malária continua uma assassina implacável, causando mais de 1 milhão de mortes por ano; a cólera não só provoca elevada mortalidade, mas também abala as estruturas económicas e sociais; a tuberculose mata em série e representa um elevado custo (agravada pela HIV/SIDA); as diarreias causam numerosas mortes, particularmente em crianças; a poliomielite, a ébola, a febre-amarela e a hepatite B ainda fazem vítimas inocentes e indefesas.

Todas elas são peças fundamentais do ciclo da pobreza. No caso da malária, os resultados dos esforços preventivos, baseados na utilização de redes mosquiteiras, e no combate aos focos de proliferação de mosquitos, são encorajadores, mas carecem de massificação. A busca de uma vacina efectiva gera esperança, mas ainda não se chegou a um resultado satisfatório. A cólera persiste, agravada pela falta de água potável, inexistência de latrinas melhoradas, falta de higiene nos mercados e casas de pasto.

A HIV/SIDA é uma epidemia (elevada à condição de pandemia) preocupante: é transmissível, não tem cura, tem um custo elevado de tratamento, debilita as pessoas e as famílias (crianças órfãs), prejudica a produtividade e promove a exclusão.

A África é o continente mais afectado por este flagelo, com cerca de 26 milhões de pessoas infectadas, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Novos avanços terapêuticos permitem controlar a doença e impedir a transmissão do vírus da mãe grávida para os filhos, mas estes serviços ainda não foram generalizados no continente.

Factores retardadores

Os avanços dos sistemas de saúde em África são muitas vezes barrados ou retardados por alguns factores. Um deles é o obscurantismo que funciona paralelamente aos sistemas convencionais de saúde. Está muitas vezes associado a práticas de feitiçaria e bruxaria que geram vinganças e ódios. Também promovem mutilações genitais femininas e masculinas, ritos de iniciação, tatuagens em condições precárias, poligamia e exclusão de pessoas deficientes, albinos e homossexuais.

De igual modo, a corrupção e o oportunismo proliferam nas esferas da saúde, promovendo o charlatismo, a vulgarização de clínicas clandestinas (particularmente para a prática do aborto), a “explosão” de farmácias improvisadas comercializando falsos remédios, o tráfico de medicamentos e equipamentos hospitalares, as curas miraculosas por seitas clandestinas, e o “vale-tudo” para a obtenção do dinheiro fácil.

Importa ainda realçar que as guerras e demais conflitos, os desastres naturais e a emigração em massa, estão na origem de algumas epidemias e complicam a equação de combate às mesmas.

Conclusão

Os sistemas de saúde do futuro devem ser concebidos de forma integrada, com toda a sua multissectorialidade, tendo como esteio um conjunto de medidas preventivas: Combate à pobreza, boa alimentação (pois o preventivo e medicamento mais genérico é a alimentação), infra-estruturas adequadas, legislação, informação, formação e educação sobre práticas e hábitos saudáveis, acesso a água potável, saneamento, combate aos vectores e vacinações. Isso requer lideranças fortes e colaboração de todos, particularmente da sociedade civil.

 

Quando se domestica um membro da nossa espécie,

diminui-se o seu rendimento

Jean-Paul Sartre

 

Como é que um vivo pode estar morto ou, sendo morto, estar vivo? Esta colocação lembra-nos “O regresso do morto”, texto em que um “finado” deixa de ser isso num ápice, ao ser desenterrado na memória. Aquela narrativa de Suleiman Cassamo tem muita relação com a nova de Lucílio Manjate, A triste história de Barcolino, pois, em ambas há um personagem decadente, a resistir para não morrer de facto. Como calha no personagem Moisés, de Cassamo, em Manjate temos Barcolino que se esgota num trabalho difícil. Mas neste, não é a prospecção do subsolo o ofício, e sim o mar (a pesca). Daí o nome do nosso herói sofredor: Barco+lino.

Semelhanças à parte, em A triste história de Barcolino, Manjate conduz-nos ao Bairro dos Pescadores para encarnarmos os insucessos de um personagem que transporta consigo muita existencialidade. Por via do protagonista, temos a descrição de um certo estrato social, cujos problemas resumem-se na infelicidade de terem uma vida sossegada e abençoada. Brincando de ser cruel, Manjate destrói a vida de Barcolino, um sujeito incompreendido quer pela sua esposa Cantarina, quer pelos moradores do seu bairro.

Escrevendo sobre Barcolino, Manjate assume-se como um escritor sensível aos dramas, fazendo disso um exercício capaz de provocar questionamentos sobre certas atitudes do Homem, que, muitas vezes, prefere julgar ao invés de compreender. A triste história de Barcolino é uma narrativa de incompreensões, de traumas, obsessões, escolhas e propósitos. Esta é uma narrativa sobre a condição humana e sobre como o Homem, em geral, reage quando o seu semelhante encontra-se numa situação desfavorável ou contrária à sua. Para o efeito, o autor combina Barcolino e Cantarina, com suas frustrações e desilusões. 

Mas por que Lucílio Manjate aposta num enredo em que o amor e a felicidade são sentimentos transformados em cinza? Por que, nesta novela, as relações entre personagens são miseráveis? Por que o amor é matéria-prima para sangrar corações de quem ama um e é amada por outro? Podemos responder a estas questões citando o seguinte excerto: porque “ – O mundo precisa de uma bela tristeza”. Entretanto, aí surge uma outra questão: por que o mundo precisa de uma bela tristeza? Talvez, porque as belas tristezas prendem mais do que as belas alegrias.

Até hoje, o mundo chora o fim de Titanic ou de Jesus Cristo. Se o navio tivesse chegado aos EUA e o Messias tivesse morrido feliz numa cama de palha, não haveria história secular. É assim, precisamos chorar para aprender o preço do sorriso. Além disso, há um efeito catártico nas tristezas – sobretudo se forem trágicas –, que, depois, nos levam a investir numa alegria. Na verdade é isso. Ao escrever sobre a tristeza de Barcolino, Manjate retrata o cenário que afecta os incompreendidos, coitados, carentes de amor e de tudo o resto, descrevendo a vida dos que vendem o suor por um abraço, mas, ao invés disso, colhem humilhação. Assim, Manjate revela-se um autor preocupado com a espécie humana, pois, ao partilhar as tristezas enterradas nos seus universos interiores, na verdade, está a criar um mundo bom, tendo como princípio o investimento numa trama sobre do que é feito a nossa realidade. Barcolino somos todos nós a tentar navegar no barco de que fomos feito. Esta história propõe-nos curar o nosso herói, por nele existirmos, e os seus detractores. E curar toda essa “gente”, o medo de perdoar, de voltar a acreditar e a amar, é fazer da literatura parte de um conflito, no entanto como solução.

 

Título: A triste história de Barcolino

Autor: Lucílio Manjate

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 15

 

Estava sentado no mercado Mandela. A minha frente estava uma Torre Eiffel levantada com pilares de batatas bem fritas, o peito mal assado do frango era a Casa de Ferro enferrujada da Cidade de Maputo. A salada de alface sangrando o vermelho do tomate, o arroz pintado pelo batom da cebola e o carril que descaía pelo prato e pelo pano branco da mesa era como água suja dos prédios lutando na entrada dum esgoto com um cadeado de resíduos sólidos; tudo isso dava um ar gostoso ao prato.

Os gatos vigiavam cada osso que minha dentadura não conseguia resmungar. A vendedeira aguardava pela ida da minha mão ao bolso para o quebrar o vaivém dos seus olhos ao meu garfo e faca.

– “Mano, melhor pagar agora para facilitar o troco” – disse ela afogando suas mãos na algibeira do seu avental sujo, com um bordado no fundo, mal escrito: “Quiosque Dona Xperaçinha”. Pena que Mandela não conheceu esse mercado. Este pensamento aconteceu-me quando o gás da coca-cola desbravava os pêlos das narinas.

Um rapaz sem caminha vinha correndo do fundo das bancas. Corria atrás duma borboleta. A borboleta tinha suor de vento nas asas e seu corpinho, minúsculo, carregava um botija de cansaço às costas. O rapaz tinha olhos puxados para cima, a cabeça menor, o nariz pequeno como um amendoim, o corpo coberto por uma tecido de gordura, os seus cabelos lisos voavam no caminho que a borboleta abria e suas orelhas pequenas não captavam o barulho que o mercado fazia; eram como antenas sem altura.

– “Esse aí é maluco”. – “Mentira é doente”. – “O filho é maluco, os pais são ricos; há alguma raiz no meio”. As senhoras do mercado batiam-se tal qual lutam os deputados na Assembleia. Discutiam decretos de preconceitos, leis de estupidez e pequenez. O rapaz com síndrome de Down não parava de correr atrás da borboleta enquanto isso as deputadas do mercado discutiam e aprovavam verdades sobre si nas panelas e faziam das suas colheres de pau martelos de decisão.

A borboleta rasgou o tecto do mercado como vozes muçulmanas rasgam o tecto das mesquitas. Sumiu a borboleta. O rapaz olhou as senhoras deputadas. Seus olhos sobre ele pareciam câmaras de televisões públicas. Chorou. Chorou. As lágrimas desciam como chuva humana dos seus olhos com inclinação lateral. Achegou-se a um lavador de carros que comia à mão e disse:

– “Aquela borboleta é minha. Você pode me levar à sua casa?”

Olhei a estupidez de todos que estão no mercado. Olhei aquele garoto com síndrome de Down. E vi que todos tinham síndromes mais maléficos que a síndrome daquele garoto. Todos tínhamos síndromes e o garoto era o único que via.

Reajustei-me na cadeira. Olhei a Torre Eiffel levantada com pilares de batatas bem fritas, o peito mal assado do frango que era a Casa de Ferro enferrujada da Cidade de Maputo. A salada de alface tesa de vermelho do tomate, o arroz pintado pelo batom da cebola e o carril que descaía pelo prato e pelo pano branco da mesa era como água suja dos prédios lutando na entrada dum esgoto com um cadeado de resíduos sólidos. Olhei tudo aquilo. Paguei o prato e sumi na síndrome da cobardia e do desaparecimento…

 

 

“Cogito, ergo sum” René Descartes

Porque enquanto humanos corremos riscos de sermos seres pensantes mas que não pensam. E o pensar é um exercício espiritual que busca o sentido das coisas compreendidas no tempo e no espaço. Esta actividade é condição sine qua non para o homem salvaguardar a sua consciência e tornar-se o princípio das suas acções.

À toda humanidade é mister filosofar em nome duma contínua actualização da consciência sobre o trajecto do nosso mundo e a preservação da nossa condição humana. Entre filosofar e pensar há uma relação de subordinação, na medida em que filosofar é a forma mais sublime de pensar. Ao invés de pensar o mundo, num sentido vulgar de procurar  o seu significado dentro dum sistema convencionado, o homem deve pensar o mundo, num sentido regenerativo e inconvencionalmente humanitário. Urge o homem aprender a pensar “fora da caixa” e gerar cada vez mais consciências cósmicas e menos locais. O tipo de homem que a filosofia nos pode oferecer quanto mais cultivada ela for é um homem cosmopolita, abolidor das fronteiras e eterno destruidor das cavernas platónicas.

Ainda que se nos afigure onerosa tal tarefa de pensar o onto-existencialismo das coisas do mundo, o desafio é deveras mais nobre em relação à abdicação mental capaz de nos gerar um mundo fantasmagórico. Devemos filosofar como forma de salvaguardar a nossa existência num mundo em que as coisas ainda cooperam entre si numa ordem supra-sensível. Em primeiro lugar, haja o pensamento, depois a acção, de modo que esta seja comedida e racionalmente justificável.

Descartes já havia dado tal aviso: ''para agir bem, basta pensar bem''. Agir bem significa operar uma acção que resulta duma consulta minuciosa da nossa própria faculdade racional. Um indivíduo que não pensa torna-se vulnerável a inadequadas decisões. E se ainda lhe restar a consciência, no fim da sua acção, perguntar-se-á: ''porquê fiz aquilo?'' – uma pergunta a fazer quando se nos escapa o sentido das nossas acções – ''PORQUÊ?'' é a pergunta-mãe de todo o acto de pensar. E o porquê busca exclusivamente o sentido. Em todos os casos, o sentido equivale à direcção, ordem, lógica, coerência, seguimento – elementos que gnosiologicamente nos permite relacionar connosco mesmos e com as coisas à nossa volta. Imagina se nos escapasse essa faculdade de pensar que é sustentada pelo próprio acto de pensar? Restar-nos-ia o pathos, o instinto e o preconceito. E como seria nos mover num mundo guiado pelo pathos, instinto e preconceito? Seria paradoxalmente caótico e automático. O homem agiria em função dos seus desejos imediatos, sem ponderar eticamente os meios e consequências. Doutro lado, ele agiria docilmente sob o comando de correntes ilusórias. A ausência da filosofia nos abre dois mundos: um mundo nihilista em que os homens se permitem todas as loucuras possíveis resultado de estímulo-resposta e outro em que os homens não são mais que ovelhas sob o comando de doutrinas fantasmagóricas.

Estes são os mundos dos quais Sócrates quis nos livrar, quando, em vida, apelava para os atenienses reflectir sobre as coisas que faziam no seu dia-a-dia. Ao longo da caminhada filosófica, ele ia percebendo que as pessoas faziam suas actividades sem pensar nelas, ou seja, ignorando a sua essência, a razão da sua existência e implicações. Sócrates questionou os poetas e eles não souberam dizer-lhe o sentido da sua poesia. Os oradores não souberam comunicar-lhe o sentido da sua retórica. Os juízes não lhe responderam o sentido das leis. Não que estas coisas, per si, não tivessem sentido, mas os homens haviam alienado a sua razão ao sonambulismo da rotina, do hábito e dos preconceitos consuetudinários. Todos eles achavam que sabiam o que, na verdade, não sabiam.

Todavia, não sejamos Sócrates, sejamos uma espécie de Sócrates. Este homem grego foi definido tautologicamente como um pensador, como quando se define alguém como ser falante, ouvinte ou respirante, sem lhe acrescentar nada que esteja fora da natureza humana. Mas porque merceu tal destaque entre os humanos quando  ele apenas exercitou uma faculdade inerente a todos os humanos? Sócrates nem precisou de grandes sacríficios para fazer justiça à sua faculdade racional, ou seja, ele viveu uma vida comum dum homem da polis, chefe da família, rodeado de amigos com quais trocava ideias e copos de cerveja. Sócrates foi o modelo dum homem normal que simplesmente se pôs a exercitar as faculdades que lhe eram intrinsicamente humanas. Por isso, sendo nós homens definidos como animais racionais por natureza temos obrigação de fazer justiça à essa faculdade que nos distingue superiormente de outros seres vivos.  

No séc. XXI, a filosofia vem perdendo espaço na esfera intrapessoal e interpessoal por conta das ideologias em forma da política, religião e moral social. Hoje em dia, pouco questionamos a justiça dos nossos sistemas políticos, a sabedoria dos mandamentos religiosos e o bem dos nossos valores sociais. Andamos preocupados com o imediato e ignoramos o necessário. Como consequência disso, vivemos em tempos de consumo desmedido, desequilíbrio económico, terrorismo ideológico,  insegurança nuclear e torpeza sexual.

Falta-nos o filosofar, condição sin qua non para nos evadirmos da caverna platônica e destruirmos os ídolos baconianos que nos impedem de ser super-homens nietzschianos. Ousemos pensar as coisas em primeira mão, antes de nenhuma teoria ou doutrina alienantes.

Devemos filosofar, pois quanto menos filosofamos, mais propensos a horríveis crimes estamos. O povo hitlerista e o povo stalinista foram, por excelência, a expressão duma humanidade que abdicou da actividade de pensar fora dos sistemas a que se encontravam submetidos ao ponto de permitir que milhares de crianças, mulheres e homens judeus fossem conduzidos a câmaras de gás. Era uma humanidade cujo pensamento estava preso em camisas-de-força da ideologia. A filosofia é necessária para todos os humanos, pois glorifica o que há de mais sagrado no homem: o espírito. O tempo de filosofia é agora. Não há idades para filosofar-se.

Se fôssemos ensinados a filosofar desde criança, ao assistirmos aos desenhos de Cinderella, já nos teriamos perguntado porquê, quando o feitiço da fada madrinha expirou, desfizeram-se o vestido, o cavalo, a carroça, os motoristas, mas os sapatos de cristais de Cinderrela mantiveram-se intactos.
Ao sermos introduzidos à religião, se calhar, indagassemos se Deus é todo-poderoso, porquê não acaba duma vez com o senhor diabo.

Ao passearmos pelo supermercado, talvez, pudessemos questionassemos porquê um anel de diamante custa mais caro que uma bicicleta.
Ao vermos a televisão, provavelmente nos perguntariamos porquê essa senhora que desfila semi-nua é mais rica que meu pai camponês.

Porém, nada disso acontece. Somos nascidos com calhamaços de lições à nossa espera, sem antes termos experimentado o mundo. Nas escolas, somos ensinados as respostas e nunca as perguntas. A ordem da vida é primum vivere, deinde philosophari. Mas se os romanos tivessem dito o contrário, como o mundo seria? O que nos é mais conveniente: viver para pensar bem ou pensar bem para viver?

Filosofar é desconstruir os velhos hábitos mentais.

 

Confesso que foi uma grande surpresa para mim, ter recebido este convite para vir proferir uma aula de abertura do ano académico, na Universidade Pedagógica, mais propriamente na sua Delegação de Massinga.

Em primeiro lugar, a gente considera que quanto mais longe da Capital, menos nos conhecem, por isso foi surpreendente este convite, que muito me honra.

Em segundo lugar, é a primeira vez que me dirijo a académicos e estudantes da Universidade Pedagógica, num Distrito onde, naturalmente os momentos de reflexão como este, são raros e por isso, maior é a exigência de quem tem a ventura de ser chamado para o efeito.

Não é a primeira vez que estou perante académicos e estudantes da Universidade Pedagógica. Já estive em Maputo e na Beira, para o mesmo efeito, mas esta presença em Massinga, tem particular importância, pelo facto de ser Massinga, a minha primeira vez na Pedagógica, na província de Inhambane. Por isso, quero agradecer aos dirigentes desta Delegação e manifestar-lhes a minha emoção por poder estar aqui e partilhar convosco algumas linhas de reflexão sobre o tema que me propõem.

Naturalmente, que não posso deixar de estender o meu cumprimento ao Magnífico Reitor da Universidade Pedagógica, Prof. Doutor Jorge Ferrão, amigo de longa data, companheiro e cúmplice de muitas caminhadas.

O tema que me propõem, exige de mim que entre por ele com algumas notas introdutórias. Logo na primeira expressão “Visão Estratégica da Liderança” , aparecem três conceitos que nos levam a uma percepção de movimento. Visão demonstra uma percepção do olhar à distância para prevenir obstáculos e procurar êxitos. Visão significa que o visionário só pode dar passos seguros que sejam em direcção ao êxito. Estratégica é um conceito que foi retirado do contexto militar, adoptado depois pela Economia e pela Gestão. Falar de Estratégia, significa pensar-se antes de encetar qualquer caminhada, de modo a apetrechar-se, para evitar percalços ao longo do percurso que se vai ter, tendo em conta as probabilidades de obstáculos que podem ser encontrados. Estratégia não é mais do que definir os contornos de um percurso, colocando em cima da mesa, todas as variáveis que podem facilitar ou dificultar a caminhada mais o objectivo definido.

Os militares quando vão para as campanhas bélicas, nunca deixam de se reunir primeiro, para planificar cada passo que vão dar, analisando os prós e contras que possivelmente podem estar no seu caminho e quais as probabilidades de os ultrapassar, tendo como fim último, o êxito da missão.

Finalmente, “Liderança” é um termo que foi retirado da Política e dos Desportos que por sua vez foram buscar estes conceitos aos primórdios da História da Humanidade, sobretudo entre os caçadores, no início da formação dos grupos sociais. Líder significa aquele que melhor sabe conduzir os seus pares para qualquer êxito. Os Romanos chamavam-nos primus inter pares, o primeiro entre iguais.

O conceito Liderança diferencia-se completamente do conceito Chefia. Chefe vem do latim caput, que significa cabeça. Por isso, o Líder conduz de uma forma horizontal e o Chefe conduz de uma forma vertical. Chefe é obedecido pelos subordinados e o Líder é acompanhado pelos seus pares. Nunca devemos confundir estes dois conceitos liderar ou chefiar, duas formas muito diferentes de comandar uma missão.

A segunda parte do tema que me apresentam, “Instrumento para o Desenvolvimento da Comunidade em Tempos de Crise” , o conceito Instrumento, leva-nos a considerar que o homem para alcançar determinados fins, precisa de amplificar as suas capacidades, utilizando elementos que reforçam essas mesmas capacidades. Um guerreiro destemido é muito mais forte com a sua arma. Um orador exímio é muito mais forte com a sua oratória, um músico talentoso é muito mais forte com a sua viola, com o seu saxofone. Todos esses adereços que são usados para reforçar a capacidade de alguém, são elementos importantes e mostram que quando bem usados alcançam resultados seguramente mais vantajosos. Naturalmente que a conjugação de uma visão estratégica de liderança necessita de instrumentos que permitam poder chegar a áquilo que é no fundo a pretensão última do tema que venho aqui desenvolver.

Falar de Desenvolvimento da Comunidade em Tempos de Crise, pode parecer um paradoxo, porque em tempo de crise é suposto não haver desenvolvimento, porém como atrás se referiu, há uma visão estratégica de liderança, o que significa que em tempo de crise é sempre possível aqueles que o são “primus inter pares”  ter a criatividade suficiente para usando das suas diversas capacidades como instrumento, conduzir os seus pares ao encontro de identificação de oportunidades, de modo a que a crise não seja o fim, mas sim o ponto de partida para se começar a caminhar. Como se diz vulgarmente “A crise nunca será um obstáculo, mas sim uma oportunidade” .

 

Minhas senhoras, meus senhores, caros colegas e caros estudantes,

Na proposta do tema a desenvolver não se tipifica o conceito Comunidade. Este facto deixa em aberto a abordagem que vou fazer sobre como contribuir para o Desenvolvimento da Comunidade em Tempos de Crise.

No sentido mais amplo, uma comunidade pode coincidir com a sociedade, isto é, falamos de crise internacional, logo toda a Comunidade Humana sofre efeitos dessa crise. Mas também podemos fraccionar o todo por diversas partes que compõem o expectro, assim, a crise internacional afecta a comunidade de trabalhadores, a comunidade empresarial dos países pobres, a comunidade de agricultores, a comunidade académica e por ai abaixo.

Quer isto dizer que os sintomas da crise não duram para sempre, daí a determinação “Em tempos de crise”. Contudo, todos sabemos que apesar de as crises terem o seu ciclo de vida, quando estas reaparecem de uma forma cíclica, assumem a natureza de síndrome e podem provocar ansiedade e pânico.

Minhas senhoras e meus senhores, caros colegas, caros estudantes

Vivemos em África e temos que olhar o mundo a partir desta realidade. O nosso continente, os nossos países não são pobres, mas as nossas populações são muito pobres e as nossas instituições são demasiado frágeis e pouco funcionais para enfrentar com robustez os desafios globais. A partir deste pressuposto devemos interrogar-nos que tipo de liderança precisamos para enfrentar esses desafios globais. Quero chamar atenção prévia antes de desenvolver esta questão.

Temos um enorme defeito de considerarmos que o Governo do dia é que é o único responsável por tudo quanto de bom ou de mal nos acontece. E que os nossos políticos não se preocupam com os seus povos. Mas esquecemos de que cada povo tem os políticos que merece. É o reverso da medalha.

Desde que os Países Africanos saíram da situação de dominação colonial que vivem permanentemente em situação de alguma crise qualquer, seja ela política, seja ela económica e financeira, seja ela resultante de calamidades naturais, seja ela de golpes de estado, seja ela de conflito de vária ordem e até guerras, umas civis, outras entre estados.

Esta situação tem nos levado a uma percepção de que no nosso Continente, as coisas não estão bem. Quer isto dizer, que os Afro – pessimistas de dentro e de fora, juntam-se em coro para proclamar de que África é um continente inviável por culpa dos próprios africanos. O afro – pessimismo é, não só um preconceito, como também uma ideologia e até está a torna-se sobretudo numa teoria. Qualquer que seja a sua aferição, desde um puro preconceito com base no senso comum, passando por posicionamento ideológico de que falta à África uma escola que produza de uma forma genuína e sistemática uma escola de liderança que verdadeiramente se preocupa com as questões da boa governação, até desembocar nas tentativas de produção teórica de que a África é um continente inviável, devido á falta de reflexão epistemológica verdadeiramente africana, isto é, falta aos africanos um pensamento produzido pelos próprios. Tudo isso entronca directamente no eurocentrismo. Quer isto dizer que, do ponto de vista africano, dada a convicção do fracasso das suas dinâmicas, a solução deve ser encontrada a partir dos pressupostos eurocêntricos, ou seja, a partir dos modelos ocidentais.

O pior é quando são os próprios africanos a pleitarem pela validade dos modelos eurocêntricos para a salvação de África, sem que haja qualquer crivo que permita a indigenação dos pressupostos filosóficos e dos elementos que permitiriam a produção de parâmetros apropriados para o desenvolvimento de África como sujeito no contexto global.

Contrariamente ao que se possa supor o Afro – Pessimismo tem estado a crescer a par do surgimento de cada vez maiores assimetrias que se vão constatando entre a África e os outros continentes. Do ponto de vista político, os dirigentes africanos de uma forma geral não têm merecido um grande apreço junto dos seus pares de outros continentes, mercê de atitudes a eles próprios imputados, nomeadamente a evidente preocupação de se perpetuarem no poder, o descaso que fazem às constituições dos próprios países, o desprezo às Instituições credenciadas que possam monitorar problemas de má governação, a incapacidade de combater com eficácia o fenómeno da corrupção, a fragilidade das organizações da Sociedade Civil, a intolerância e desrespeito pela opinião de quem pensa diferente e o desrespeito dos direitos fundamentais do cidadão, nomeadamente à justiça, à habitação condigna, à saúde, à educação, ao transporte e ao serviço público eficiente e eficaz.

Contudo, devemos considerar que nem sempre foi assim. A África já produziu filhos que foram capazes de reflectir sobre o futuro de África e muitos deles conduziram este continente de uma forma exemplar rumo à erradicação da dominação colonial. Então pergunta-se onde e quando é que perdemos o foco?

 Em 1993, os dirigentes africanos decidiram liquidar a Organização da Unidade Africana – OUA e criar a União Africana – UA, fizeram nessa ocasião uma profunda reflexão sobre as razões porque África desde a década de 60, marco histórico da libertação do continente face ao colonialismo até a década de 90, não havia conseguido perfilar-se de igual para igual no concerto das nações como um continente a respeitar e ter em conta.

Os dirigentes africanos, nessa data, não se ficaram pela reflexão, definiram as linhas da boa governação na área política e democrática, na área económica e empresarial e na importância do desenvolvimento social e humano.

E algum exercício foi feito de 90 até a esta parte, para tornar as Instituições dos países africanos em Instituições mais robustas, de modo a que não seja apenas o Homem, o dirigente, a peça fundamental para o bom funcionamento de uma nação, mas sim a robustez das próprias Instituições.

Por outro lado, o projecto de Muhamar Kadafi, o então Presidente da Líbia, que retomava as teses da geração do Kwame Nkrumah, fundadas nos pressupostos teóricos do Pan Africanismo, mostravam claramente que África só podia ser uma grande potência se fosse capaz de se unir politica, social e economicamente. Portanto, África tem procurado reflectir sobre si própria e tem muitas vezes encontrado fórmulas para definir os pontos de saída para este marasmo.

A História ensina-nos que sempre que África se levanta e tenta reflectir sobre si próprio, por causa da fragilidade das Instituições então criadas, um movimento em contramão faz fracassar estas dinâmicas. Daí que os teóricos do Afro Pessimismo venham ao de cima, defender que de boas intenções África esta cheia, mas não tem capacidade para as pôr em prática. Temo que o Afro – Pessimismo seja uma enfermidade que nos está a enredar a todos nós, de tal forma que facilmente o senso comum que dirige os preconceitos contra África venha a defender que a salvação de África será uma nova colonização. Que no fundo, de uma certa forma sub-reptícia existe na sobrevivência de algumas organizações que lutam permanentemente pela nossa forma de ser e estar, clamam a nossa falta de qualidade, sem reflectir a questão da qualidade, ela própria e sobretudo, esta nossa ânsia permanente de afirmar que o que vem de fora é melhor.

Senhoras e Senhores, Caros Colegas, Caros Estudantes

O nosso País, como País Africano que é não escapa a esta reflexão. Moçambique tornou-se independente após uma Luta Armada de Libertação Nacional de 10 anos, que muito nos orgulha.

Moçambique enfrentou durante os primeiros anos da sua independência poderosos inimigos, a partir das suas fronteiras e aguentou-se, estoicamente com grandes dificuldades de sobrevivência dos seus cidadãos, passando fome e necessidades, mas contribuiu grandemente para a modificação da geopolítica da região. O Zimbabwe tornou – se independente, a África do Sul aboliu o Apartheid e a Comunidade dos Países da África Austral, tornou-se numa respeitável sub-região de toda África, graças ao grande empenho e muito sacrifício de Moçambique. O nosso País produziu ao longo de quase 5 décadas de Independência muitos documentos pensados e elaborados por cidadãos moçambicanos. Quero destacar aqui o Plano Prospectivo Indicativo – PPI, a Agenda 2025 e os Relatórios do Mecanismo Africano de Revisão de Pares – MARP. Todos estes documentos mostram que nós os moçambicanos temos conhecimento profundo das nossas realidades, das nossas dificuldades e dos possíveis caminhos a seguir.

No entanto, a assunção dos métodos correctos para a implementação dos pressupostos enunciados nos tais documentos tem sido problemática.

Torna-se difícil para mim, pegar nestes assuntos todos numa conferência de cerca de uma hora e desenvolvê-los de modo a discutir ponto por ponto os elementos centrípetos e centrífugos, relativamente ao que falta para que o nosso país possa sair das crises cíclicas que tem vivido. 

Desenvolvimento da Comunidade em Tempos de Crise é um pressuposto de que a Crise tem tempos no plural, e isto é um facto. Moçambique desde que se tornou independente tem conhecido crises cíclicas, de natureza política, social, económica, militar ou político – militar, apesar de ter sido até este momento governado continuamente por um só partido. Então o problema não está na continuidade ou descontinuidade de quem governa.

Muitos dos nossos considerados parceiros e amigos têm – nos aconselhado de que a saída das crises para Moçambique seria haver uma alternância governativa. Pessoalmente considero esta posição uma pura falácia, porque parto do princípio de que o que enfraquece a nossa existência, como nação, não são só os partidos políticos que pretendem governar este País, mas também todo o conjunto de Instituições que compõem o Estado Moçambicano.

Por isso, faço aqui uma guinada para falar da nossa Academia. Estou neste momento na Universidade Pedagógica, sua delegação de Massinga. Este acto é um acto formal e solene de abertura do ano lectivo. No entanto, as ideias e o pensamento que me foram solicitados a apresentar como tema, deveria merecer uma reflexão continuada sobre qual a saúde da nossa Academia e qual o seu papel no contexto das Instituições Académicas Moçambicanas, para contribuir positivamente no sentido de tornar o nosso País mais visível na região, no continente e no mundo. Em suma, a pergunta é, será que a Academia moçambicana exerce o seu real papel como centro de formação avançada e produtora do conhecimento e promotor do debate que permite alavancar o desenvolvimento do País e consolidar os valores da cidadania?

A Agenda das Universidades e das Instituições de Ensino Superior é ainda muito difusa e a razão primeira que se coloca, é que a nossa Academia é muito jovem ainda e que neste momento se preocupa mais com a sua expansão territorial e numérica. Mas a História do Ensino Superior em Moçambique remonta de 1962, portanto não devemos apenas olhar só para cada uma das nossas próprias Instituições e preocuparmos – nos apenas com a nossa agenda de crescimento, apetrechamento em infraestruturas e equipamentos e Docentes e mais e mais alunos, mas também olharmos que somos parte de um corpo que se chama Universidade ou Academia Moçambicana. Sejamos nós públicas ou privadas, o nosso objectivo é comum, perseguir a Ciência, o conhecimento e formar cidadãos, mas sobretudo, ter uma voz respeitada na República.

A Academia é o pilar e guardião dos valores de uma nação, por isso, independentemente de quem esteja a dirigir qualquer Instituição de Ensino Superior, esse alguém, deve inserir-se na filosofia da Instituição e não tentar dirigi-la como um Chefe. Por outro lado, quando nos debatemos hoje, com questões de corrupção na Academia, significa que não estamos a ser bons guardiões dos valores da nação. Não podemos desempenhar o papel de Instrumento para o Desenvolvimento da Comunidade em Tempo de Crise quando nós próprios estamos em crise. Muitas vezes, ficamos perplexos quando confrontados com a questão da qualidade e fazemos eco com o senso comum. A Academia Moçambicana não produz quadros com qualidade e nós ficamos calados ou pior, sentimos vergonha por não saber como responder. Nunca fomos capazes de ir buscar elementos que definem claramente os contornos daquilo que é qualidade ou não qualidade. A agenda da Universidade no nosso País não se esgota na questão do ingresso e graduação dos estudantes.

Nós não somos fábrica que produz em série a montagem de qualquer produto. Temos sérias e grandes responsabilidades. Todo o sistema do Estado Moçambicano, todos os órgãos, desde o Governo, passando pelas empresas, organizações, etc são dirigidos por cidadãos que nós formamos. Por isso, se esses cidadãos não estão a cumprir cabalmente as suas obrigações, por causa dos problemas que atrás enumerei, a nós não se deve, em primeiro lugar, atribuir as responsabilidades de não estarmos a cumprir com os objectivos que nos foram entregues. Para que servem as Universidades?

Por isso, Visão Estratégica da Liderança, passa em primeiro lugar, não por criar líderes individuais, mas sim, por sermos capazes de formar pessoas que se integram na liderança das Instituições fortes e capazes de conduzir os destinos de uma nação.

O Presidente do Gana, após tomar posse, numa breve conversa com os jornalistas, falava da sua grande vontade de combater os grandes males, considerados transversais em África, a cabeça dos quais estava a corrupção, o favoritismo e a pouca produtividade do aparelho do estado e desabafava “esta é a minha vontade e grande parte das pessoas que convidei para integrar a minha equipa parecem entusiasmadas com estas ideias. No entanto, meus caros jornalistas, eu próprio não estou certo se ao fim do meu mandato, serei a mesma pessoa, com as mesmas ideias e convicções que aquela pessoa que hoje aqui vos fala” .

Samora Machel afirmava constantemente que o podercorrupto tão docemente como as balas de açúcar. Estes testemunhos dados pelos próprios líderes, face ao temor que sentem quando assumem a direcção de um estado, mostram que ninguém está imune de ser contaminado pela veracidade dos defeitos, que as pessoas acabam por assumir quando se sentem impunes e imunes.

Tendo perguntado eu, para que servem as Universidades, por uma questão retórica, a resposta deve vir de dentro de nós próprios. Sendo este patamar do sistema da educação, o ponto mais alto na formação do cidadão, não podemos de forma nenhuma deixar de exigir que cumpra com as suas obrigações, de modo a que tenha capacidade moral para monitorar os cidadãos que de si saem, a fim de dirigirem os diversos sectores da sociedade.

Colegas, nós não temos a real noção da importância do sistema universitário na vida das nações, porque grande parte de nós faz do espaço universitário, mais um lugar para o exercício das várias profissões que temos, de modo a termos uma vida mais confortável.

Salazar tremeu quando a Universidade de Coimbra se levantou, Suharto, ditador indonésio, caiu quando a Universidade se levantou. Depois de Maio de 68, a França nunca mais foi igual com o levantamento da Universidade. 

Será que a Universidade moçambicana como um todo, tem consciência de que é ela que a comunidade espera, com uma visão estratégica de liderança? Fica esta questão para reflexão futura a todos os colegas de Massinga, de Inhambane e de Moçambique.

Muito Obrigado.

Ao Emílio Manhique

 

A tarde ardia a sua sina de verão. A rua José Mateus conduz-me para um imenso desfiladeiro de gente ocupadíssima. Algumas viaturas passando a um rítmo morno, rebentando ruidosas músicas destes tempos. Estou num espaço comercial apinhado de barracas, compondo o meu sinuoso olhar à multidão que à hora do almoço defronta-se nas mesas, conjugando o verbo. No Alex, a massa esparguete misturada com legumes e peixe, ou carne de porco ou até de vaca, à moda vietnamita é a isca dos clientes. Ao lado, sonoras gargalhas de moças, um arco-íris, com uma naipe de artistas-plásticos, gente do teatro e alguns músicos degustando petiscos variados. Um aroma convidativo rebenta-me os sentidos. Ao chegar ao sítio da Dona Fikirta, a feijoada provocante é disputada por uma congregação de gente feita. Na sua maioria às portas da reforma, entre diplomatas a técnicos de hotelaria, jornalistas, professores universitários e alguns pastores em início de carrreira.

– Adélia vem atender Ti Emílio.– Mamusca Fikirta, sentada num cantinho costurando chama a empregada de mesa,.

A moça serviu um whisky seco ao Jaime Santos e mexeu-se até à mesa do Manhique.

– O que tens para petiscar, Adélia?

– Água-e-sal de galinha e cabeça de peixe.

– Ei, boa! Sirva-me cabeça de peixe.

– Mais um pouco de vinho, ti Emílio?

– Não. Ainda tem algum vinho na garrafa  que está na geleira. – esclareceu o jornalista, prosseguindo.

– Olha Mamusca, estou a recordar-me agora do Timba da embaixada da Tanzânia. Ele gostava muito de sentar-se aqui nesta mesa ao meu lado.

– Xi, ti Emílio. Aquele homem nem sei como Deus le levou, sabe…- lamentava-se a Mamusca.

– E olha aqui, Emílio. – a Dona Elisa, depois de pousar o copo de vinho branco assumia a dianteira. – uma vez estiveram aqui na Fikirta os teus colegas, o Cuembelo, o Magaia, o Macaringue e o Azevedo, lembras-te Emílio?

– E o Vítor José, Emílio! Até sentou-se na cadeira de Ngungunhana – entrou em cena o Duvane da Televisão pública.

– Depois de servir um whisky ao Vitor aviselhei-lhe que essa cadeira era reservada ao Ti Emílio. – esclareceu a Dona Fikirta.

– Ora nem mais, ministro. Já me estava a esquecer do Vítor José, oh Duvane. Eh, pá isto está mesmo a virar um verdadeiro Museu. – rematava Manhique que voltava à carga.

– É pena que não posso levar estas matérias ao café da manhã. Mas bem vistas as coisas se fizermos um inquérito a esta gente que vem para estes lados da cidade de chapa ou a pé. Se perguntarmos, por exemplo a esta miudagem das escolas onde é o museu, de certeza que vai apontar para esta rua das barracas…

– aposto que sim, Emílio. E até virão ter aqui à Fikirta. – entrava em cena o Jaime. – A gente passa horas e horas aqui, como se fôssemos peças de um autêntico museu. Só vamos a casa e ao trabalho, no caso de vocês que trabalham, só para um restauro… Passamos muito tempo aqui. – Eu adoro exibir a minha inutilidade – regozijava-se o Jaime Santos.

– Jaime a tua mãe ligou-me. Já almoçaste? – alertava a Mamusca ao grande declamador.

– Olha, minha gente, depois desta do Jaime pus-me a fazer as contas aos amigos que já morreram e que frequentavam aqui o sítio da Mamusca: o Zeca, o Tinduana, o Marcos, o Albano, o Mendonça, a mulher do Pescoço, aquele tipo da zambézia, a minha malta do jornalismo, diplomatas, e até um tipo que trabalhava na Assembleia da República. Este museu está cheio de relíquias. – rematava Emílio Manhique, carregado de nostalgia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao longo dos meus alongamentos cerebrais, não raras vezes, tenho cruzado com um assunto que é – nada mais nada menos –, o assunto das crónicas sem assunto. Agora, ao arriscar tocar neste assunto, corro o risco de ser considerado como tal. Um tal de autor de texto sem assunto.

Na verdade, predispus-me a escrever em razão de uma aguda e insolente insónia que há dois dias me assola, provavelmente, tendo como causa as exageradas doses de cafeína, mais uns charutansos nas jornadas retrasadas.

São três da matina e rebolando na posição horizontal – claro! –, olho pró lado e contemplo o Bicho numa aparente, saudável e luxuosa soneca. Antes mesmo de me levantar confirmo ser ela muito boa de respiração. Não há rinoceronte que lha enfrenta em caso de desafios a fio. Sinto-me também nas vestes dos Pablos. Primeiro, de Picasso delineando com os olhos os contornos do alheio corpo desnudo. Depois, de Neruda que num instante me incendiou as entranhas inspirando-me estes versos para uma por/suposta:

VERÓNICA. No meio das tuas temperadas coxas/contundente reside um continente com seus mares/de mais intercalares e felinos olhares seculares/onde desaguam incolores os jorros deste jarro.//No seio dos teus seios de divinos paladares/habita o leite ainda não derramado/nas papilas deste faminto andarilho que sou/ nos (uni)versos do teu corpo!

Da janela do quarto, observo uma divinal paisagem nocturna, com o Mussulo e a Ilha Dos Pássaros já bem às escuras, quando num repente tudo ao redor escurece também. Triste. Resta-me a beleza do mar agora envaidecido com o flourescente brilho da lua reflectindo na sua pele ondular. Sevícias da empresa de distribuição eléctrica em Luanda. A EDEL dos nossos hábitos e costumes.

Irritado mas conformado, volto a deitar-me e, logo-logo, minutos depois, é reposta a «legalidade» iluminática. Provavelmente, um qualquer animal (ir)racional ou mesmo um sapateiro matreiro, dado à elétrico-electrónicas aventuraças, por (des)propositado engano, deve ter posto as patas na patilha em que não devia. Então levanta-se (de)novamente o escriba que, espiritualmente e por momentos, deixou de habitar em mim.

Adentro o escritório, pela porta ao lado da porta do quarto da Casa-Museu que me recolhe neste merecido 2º piso, onde me encontro na rua do pôr-do-sol ao Benfica de Belas silhuetas caluandas e, prossigo a aventureira procura de um assunto para então consumar a minha escrita neste texto cujo assunto – sei de antemão! –, reside no facto de inexistir um assunto para redigir, iniciando assim, esta crónica sem assunto.

Sem mais contra-curvas, sento-me na cadeira já a precisar de substituição nos próximos dias e, debruço-me sobre a escrivaninha com tampo de correr, do tipo daquela do poeta Pessoa que o pessoano João Paulo Cavalcanti Filho, juntamente com a Royale máquina de escrever do Senhor Fernando, arrematou por uns míseros noventa e tal mil euros num leilão em Lisboa.

Já sentado e decidido, recupero a inspiração do cronista ainda sem assunto que por culpa da EDEL nossa de todos os dias se havia já passado.

Mentalmente recuperado, pese a chatice da insónia, cá estou à procura do assunto. Primeiro, arrumando a mesa e na sequência, mexendo e remexendo. Papéis pra aqui, papéis pra acolá. Vou ordenando o papelsório e o pensamento, quando – depois de ter avistado o Livro dos Livros –, inesperadamente ataco com os olhos e saltam-me para as mãos as mais importantes cartas que qualquer jovem poeta deve ler e reler.

Refiro-me, sem medo de errar, às «Cartas a Um Jovem Poeta», assinadas por um tal de Maria Rilke que, nascido em Praga, então capital da Boémia integrada no Estado dos Habsburgos, em vida atendia pelo nome de Rainer.

São dez cartas no total, endereçadas para um destinatário concreto. Franz Kappus. Um jovem oficial do exército austríaco autor de algumas experiências poéticas que aos dezanove anitos ousou escrever para o poeta, pedindo opinião sobre aquilo que rabiscava em seus papéis nas horas de lazer.

Segundo o próprio Kappus, «várias semanas passaram até que a resposta chegasse. A carta selada de azul trazia o carimbo de Paris, era pesada e exibia no sobrescrito a mesma caligrafia nítida, bela e segura que compunha o texto da primeira à última linha», tendo assim começado uma troca de correspondência regular que se prolongou até 1908 e cuja importância reside fundamentalmente no facto de serem cartas que podem interessar «também a muitos dos que hoje crescem e aos que ainda estão por vir nos dias de amanhã», pois segundo ainda o discípulo de Rilke em 1929, «quando fala um Grande e Inigualável os pequenos calam-se» e, acrescento, escutam, aprendem e devem agradecer.

É justamente por isso que ainda cá andamos à procura de um assunto para este texto. Acreditem. E não vai este tornar-se, definitivamente, o assunto desta viagem no texto que agora desejo sem assunto até ao fim, mas, tenho na memória também uma outra importantíssima “Carta”. De Virginia Woolf, também “… A Um Jovem Poeta” que, há cerca de trinta anos, o David Mestre me deu para ler com sérias recomendações, que ainda hoje me têm sido úteis e, só agora e tardia mas publicamente, agradeço.

Tanto Rilke como Woolf aconselham jovens principiantes. Diz-se que os seus conselhos vão em sentidos opostos, mas coincidem fundamentalmente no momento em que aconselham os seus correspondentes a não terem pressa de publicar, pois para Virginia, enquanto jovens podemos escrever disparates, cometer até erros gramaticais e inventar seja lá o que for… sendo assim que se aprende a escrever, ficando com a sua liberdade em perigo todo aquele que, em jovem, indiscriminada e apressadamente publicar.

Já Rilke insiste na paciência, no trabalho e na crença na própria vida, pois, para ele a vida tem sempre razão e, «Nessa vida o tempo não é uma medida. Um ano nada é, e dez anos não são nada; ser artista significa: não fazer cálculos nem contas, amadurecer como uma árvore que não força a sua própria seiva e resiste, confiante nas tempestades da Primavera, sem recear que o Verão possa não vir depois …a paciência é tudo!». Até mesmo na vã tentativa de encontrar um assunto para esta crónica que definitivamente terminará por acabar ou acabará por terminar sem o dito cujo assunto.

Finalmente, vem-me à tona uma questão identitária. A questão da idade que, suponho, não deve ser vista sob parâmetros balizados de forma rigorosa, apesar de Ortega Y Gasset – na sua Meditação Del Pueblo Joven –, ter dito ser (mais ou menos) aos trinta anos de idade que os Homens começam a ser fiéis a si mesmo, pois, em jovens sempre preferimos as coisas dos outros em vez das nossas, vivendo sempre em constante imitação.

Assim sendo, com assunto ou sem assunto, apraz-me visitar uma vez mais o pensamento da “lírica” prosadora fascinada por versos que foi Virginia Woolf. Corajosamente disse esta ao seu jovem correspondente: «A maior parte dos defeitos dos poemas que li pode ser explicada, creio, pelo facto de estes serem expostos à luz feroz da publicidade, quando são ainda muito novos para lhe resistirem». Entretanto lhe havia já dito:«…E, por amor de Deus, não publique nada antes dos trinta anos». Ponto & final!

 

 

Aníbal Aleluia: «Da parte paterna, só conheço a genealogia até ao meu bisavô, precisamente Aníbal Aleluia, vindo, segundo me contaram os meus ascendentes, “muito de fora”. Meu avô, Henrique Aníbal Aleluia, e meu pai, Roberto, Roberto, eram naturais de Séui (Inhambane, cidade). Eu nasci na Península de Linga-Linga. Desde o meu bisavô, eu é que quebrei a tradição de construtores barcais.»
 

Henrique Aníbal Aleluia descrevia-me, assim, a sua ascendência. Nascera em Agosto de 1921. Estávamos em Agosto de 1990. Da parte materna registava que a família remontava ao século XVI. Registei esse diálogo para um livro de entrevistas: Os Habitantes da Memória. Naquele dia, como em outras diversas ocasiões em que me atardei a ouvi-lo e a cumpliciar com ele, senti que o tempo que vivera – atravessara dolorosamente o período colonial – deixara marcas vivas e fortes. Também percebi que estava diante de um homem que soubera perseverar. Um homem obstinado. Tinha uma bondade extraordinária. Tinha uma respeitável e caudalosa cultura.

Leitor compulsivo, chegara a ler dez romances por mês quando frequentava a Escola de Professores. Observador atentíssimo da realidade. Os seus escritos nasceriam desse olhar avisado (“os meus contos nascem da observação de factos do quotidiano, um gesto, uma palavra”). Além disso, era um nómada: “calcorreei Moçambique de tal modo que vivi no extremo norte (em Palma), em Angoche (a Leste), a Oeste (Zóbuè e em Espungabera) e aqui no Maputo, que conheço desde 1935” (Aníbal Aleluia).  

Esteve para ser professor indígena (era assim que se designava!), foi enfermeiro, escreveu para jornais, foi escriturário. Palmilhou o país. Tinha um profundo conhecimento do país, eu diria até antropológico. Ainda se matriculou em Direito, contudo as adversidades da vida impediram-no de fazer o curso. Era um homem culto, uma biblioteca ambulante. Falava, com rigor, um português escorreito, culto, sem perder a sua pronúncia de Inhambane. Para além de assinar com nome próprio, Aníbal Aleluia escreveu sob diversos pseudónimos: Roberto Amado, Augusto António e Bin Adam.

Redigi, anos depois, no empolgado lead daquela remota entrevista: “Tinha eu um grande afecto pelo velho Aníbal Aleluia. Tinha igualmente um enorme respeito pela sua trajectória que foi marcada por uma corajosa persistência de um homem que sempre teimou em afirmar a sua dignidade. Era uma lição exemplar a daquele senhor que escondia na sua modéstia uma grande sabedoria porque sabia que não há Faculdade que substitua a vida.”

Não me cansava de ouvi-lo. Tinha uma história de vida exemplar: corajoso, persistente, digno. Escrevera no Itinerário e n'O Brado Africano. Chegou à ficção porque António Caetano Fernandes – uma figura do burgo lourenço-marquino – o informa de que na revista Elo havia quem “asseverasse existir um substracto orgânico que incapacitasse o negro de fazer ficção e a minha recusa é disso prova bastante.” Na época, Aleluia achava a intervenção nos jornais mais adequada ao espírito contestatário que animava a sua geração. A ficção, algo lúdico, não lhe parecia ter essa capacidade reivindicativa, era demasiado “frouxa”. A despeito, esse repto levou-o a escrever um conto. Ainda julgou ser o único. Não o foi. Entre 1955 e 1956 escreveu os contos que iriam constituir Mbelele e outros contos. Os textos permaneceram na gaveta décadas. Publicou-os à beira dos 70 anos. Publicaria ainda O Gajo e os Outros. Estão por editar Contos Avulsos e Contos do Fantástico Litoral.

Tinha um livro a caminho do prelo nos primórdios da década de 60. Retirou-o quando foi preso a 27 de Maio de 1961 pela PIDE, acusado de ser “nacionalista africano”. Diziam que “mancomunava com o Baltazar da Costa a revolta do Norte da Zambézia”, acusavam-no, delirantemente, de se encontrar com o Dr. Banda, do Malawi, atribuíam-lhe filiação ao MUD-Juvenil. Tudo invenções de “bufos do Zóbuè, na sua maioria enfermeiros.” Os contactos que ele tinha: os Democratas. Santa Rita, Soares de Melo, Ricardo Fernandes, Rainho da Silva e Bradeiro de Matos. Ele trabalhava no Foro, praticava para tirar a carta de solicitador.

Aníbal Aleluia: “Eu pertenço ao número dos que não fizeram da detenção crachá nem bandeira e muito menos gazua.”

Do vício da leitura, que lhe vinha da infância, acompanhava o que se escrevia na então emergente literatura moçambicana. Lia José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Knopfli, Rui Nogar, Ruy Guerra, Fonseca Amaral, Augusto Santos Abranches. Lia Sobral Campos, Alípio Rama, António Só, Irene Gil, Glória de Sant’Anna, Augusto Conrado, Rui de Noronha. Lia sobretudo os poetas. “A prosa era monopolizada por um homem que se orgulhava de ser fascista e cuja temática colidia com os meus pontos de vista.”  

Quando eu era miúdo cultivava a prática de estar com os mais velhos. Gostava de ouvir os precatados. Visitava-os, lia-os e interpelava-os. Atraía-me a memória. Sempre me fascinou a memória. O conhecimento, a experiência, a sabedoria, a sagacidade, a inteligência. Ouvir do aviso dos que nos podiam alertar. Ouvir a história, diversa daquela que estava nos compêndios. Sobretudo num contexto em que o passado era uma espécie de oráculo. Aníbal Aleluia disse-me, naquela remota conversa, que andava às voltas com um romance histórico. Isso aguçou a minha curiosidade. Qual era a ideia central do romance? – quis saber.

Aníbal Aleluia: “Que o nacionalismo (chamemos-lhe antes proto-nacionalismo) brotou no Centro e Norte, antes do Sul. Nunca vi esta tese defendida pelas oficinas de História oficiais. O berço da resistência anti-portuguesa não é Gaza, como se convencionou oficialmente por razões que me parecem tribais, mas Angoche, onde, desde o tempo de Mogossurima, no século XVIII, até ao sultanato de Farley, já no limiar deste século, os sultões cotis, de origem quiloana, opuseram o Crescente à Cruz.”

Para mim foi um dos grandes privilégios da minha vida conviver com Aníbal Aleluia. A amizade partilhada com gente da estirpe da do Aníbal Aleluia. E não estou só. O Marcelo Panguana, num livro recente, Os Peregrinos da Palavra, que recolhe velhas entrevistas, ao falar do Aleluia releva o mesmo tipo de sentimento que eu tenho ao enunciar que “tive a honra de conviver com Aníbal Aleluia”, de quem escutava “palavras sábias.”

Marcelo Panguana: “Detentor duma invejável cultura geral, de extraordinária memória e um profundo domínio da língua portuguesa, adicionados à sua coragem e frontalidade, cedo se transformou numa incontornável referência nos meios literários.”

Revejo-me nas palavras do Marcelo: “Infelizmente somos pouco dados à evocação dos nossos mortos, mesmo quando possuem a grandeza que os diferencia dos simples mortais. E penso que será esta uma das razões pelas quais não somos capazes de aumentar os níveis da nossa moçambicanidade e enriquecer a nossa auto-estima. E o que se torna mais grave é a incapacidade de indicar às novas gerações as referências nacionais que escreveram, a seu modo, a história deste país. Aníbal Aleluia quase que deixou de fazer parte da nossa memória colectiva, tal como acontece com outras figuras que se tornaram célebres. Hoje, pouco se fala do poeta Rui Nogar. Recusamo-nos a reconhecer a importância de um Estêvão Macambaco na história da pintura moçambicana. Como alguém dizia, no nosso país, quando uma figura de destaque morre, morre de vez! De resto, incapazes de homenagear os vivos, como seríamos capazes de idolatrar os mortos?”

Quando, em 1984, surgiu a Charrua, fundada por um grupo de jovens irreverentes – Eduardo White, Armando Artur, Juvenal Bucuane, Ungulani Ba Ka Khosa, Hélder Muteia, Filimone Meigos, Marcelo Panguana, entre outros – Aníbal Aleluia haveria de participar activamente naquele projecto e abraçar o seu ideário. Ali estava ele, no meio daquela juventude: escreveu e publicou imenso na Charrua. O Aníbal tinha a juventude e a irreverência da nossa geração. Atrevo-me a dizer, não obstante, o facto de ele ser oriundo de outras décadas, que Aleluia pertencia à nova geração de escritores moçambicanos. Um outro testemunho, o de Ungulani Ba Ka Khosa, num texto do livro Cartas de Inhaminga, numa fabulosa evocação geracional, na qual honra a escrita do Eduardo White, fala de Aníbal Aleluia.

Ungulani Ba Ka Khosa: “Criámos uma revista, a CHARRUA, lutámos pelos nossos ideais literários, formámos uma malta maravilhosa que estendeu os laços de solidariedade até aos dias de hoje, com respeito às idiossincrasias de cada um: Juvenal Bucuane, Pedro Chissano, Aldino Muianga, Marcelo Panguana, Armando Artur, Hélder Muteia, Filimone Meigos, Tomás Vieira Mário, Ídasse Tembe, Nelson Saúte, Pinto de Abreu, o falecido Aníbal Aleluia, o também falecido amigo Ciprian Kwilimbe, e outros. Foi um período fecundo. A poesia, o lugar dos deuses no nosso panteão. E não foi por acaso que a colecção por nós criada na Associação dos Escritores Moçambicanos, a Colecção Início, teve como obra iniciática o Amar sobre o Índico, do Eduardo White. Em White, como dizíamos, nesses tempos de iniciação, estava o vulcão em permanente actividade. Dele são os versos: E hei-de ser o veneno/ o infame selvagem/ o duro seio das rochas/ e moldar no barro a pele que me acolhe.”

Ba Ka Khosa refere-se a factos de 1984. O Aldino Muianga era o mais velho entre nós e tinha 34 anos. O Juvenal Bucuane e o Marcelo Panguana tinham ambos 33 anos. O Pedro Chissano tinha 28 anos. O Ungulani, 27 anos. O Tomás Vieira Mºario estava com 25 anos, o Filimone 24, o Muteia 24, o Armando, 22, o White 21, o Pinto de Abreu 19 e eu, 17. Estávamos nos antípodas do sistema. Acreditávamos que a literatura era o lugar do questionamento, da indagação, da crítica. Por vezes, muitas vezes, éramos severos em relacção ao establishment. Éramos rebeldes. Aníbal Aleluia tinha 63 anos e estava connosco. Isso foi extraordinário. Pode atestar-se aqui a sua juventude. Nos nossos convívios, entre cerveja, coca-cola e muita zombaria, seja no bar da Cindoca, na cave, ou nos bancos do jardim, da AEMO, divertíamo-nos a caricaturar, afectuosamente, o recorte peculiar do português do nosso Mais Velho Aníbal Aleluia.  

Por vezes, perante aquela transbordante sabedoria, perguntava-lhe se não escreveria memórias. Admitia que sim. Mas também lembrava que a sua vida tinha sido marcada por dificuldades e que talvez “a leitura do meu testemunho acordaria em algumas pessoas recordações amargas.” E disse-me, na sequência disso, uma frase brutal: “Tenho um hábito que atrai empatias incómodas.” Dizia-o magoado, de certo modo, por se sentir incompreendido. Creio que ele morreu com essa mágoa. “Chamar as coisas pelos seus próprios nomes sem chamar nomes às pessoas.” Era isso o que ele dizia e praticava.

Em Fevereiro de 1989, fomos a Lisboa, a um congresso de escritores, ele partilhou comigo muita recordação da sua vida sofrida, das suas memórias magoadas, mas falou sempre com candura dos jovens que escreviam à época e foi gratificante ouvi-lo. Estava encantado com aquela viagem e um dia retornou ao hotel, exultante, depois de ter reencontrado Almeida Santos. No ano seguinte, fui-me embora daqui. Deixei de o ver. Continuei a lê-lo e a recordá-lo. Faleceu a 14 de Maio de 1993. À época redigi, para o Jornal de Letras, onde assentara arraiais, um “Elogio de Aníbal Aleluia”. Texto juvenil e ulcerado, comovido e agradecido. Como estou hoje e sempre.

Tenho-me recordado dele, amiúde. A sua bondade, a sua transbordante sabedoria, a sua cultura e a imensidão do seu carácter. O homem probo e generoso, que me aceitou, entre o fim da minha adolescência e o início da minha idade adulta, como seu igual, como seu par. Recordo-me das nossas intermináveis conversas. E estou grato a essa magnanimidade. A antiga Eduardo Noronha, no bairro da Coop, é agora Rua Aníbal Aleluia. Em tempos frequentei idilicamente aquela rua. Continuo a passar por lá. Ontem, divisando o nome na chapa da rua do meu bom amigo Aníbal Aleluia, inclinei ligeiramente a cabeça, em sua honra, agora que passam 25 anos sobre a sua morte, a quem faço esta humílima vénia aqui nestas páginas.

 

O nosso Governo está a dar-nos uma sublime lição de grandeza pela extraordinária forma como está a gerir a morte e velório de Afonso Dhlakama e mesmo algumas vozes ruidosas que tentaram forçar desnecessárias tolerâncias de ponto ou a transladação do corpo do líder da Renamo para Praça dos Heróis, cedo compreenderam a sua própria falta de razão. Não cabemos todos na cripta de Maputo e essa não deve ser bem a nossa meta colectiva nem a condição necessária do nosso reconhecimento.

Um Chefe de Estado adiar visita de Estado ao estrangeiro, mandar cobrir a urna do seu principal opositor com a bandeira nacional e uma guarda militar de honra, é algo incomum nos estados africanos. Louve-se.

Há aqui um pungente simbolismo que deve ser capitalizado no complexo processo da nossa reconciliação.

O Governo dá a Dhlakama um reconhecimento de sua cidadania como moçambicano, simbolizando que todos somos merecedores dessa condição, independentemente do lado que escolhemos no processo de construção do país. Temos que aproveitar esta decisão como o mote para a viragem definitiva.

Obviamente, isso não implica escamotearmos os factos históricos. Afonso Dhlakama é querido por muitos, mas está longe de ter sido um anjo (acaso, há algum do outro lado?). Está profundamente ligado ao lado lunar na nossa história nos últimos 42 anos.

Mas colocar uma pedra gigantesca sobre as fases nebulosas da nossa história não é uma fraqueza. Antes pelo contrário. Afinal, as feridas de um povo também se saram exorcizando os seus próprios tormentos. E, mais do que o passado, há um presente e um futuro importantes para construir para os moçambicanos.

 

 

Parou em frente à ponte. Acendeu um cigarro e pintou com o pincel do seu bafo nuvens de fumo na tela do escuro. Os bolsos das calças estavam fartos de garrafas de pescoços apertados por rótulos. Lançou os olhos para ver as horas no relógio preso no pulso e viu todos ponteiros correndo na circunferência vedada por números enormes. Parecia que as horas escondiam-se dos seus olhos pingando pestana carregadas de sono e cansaço. Gotejou um gole de cerveja sobre a lona de chuinga que cobria o tecto da sua língua. Passou debaixo das pernas da ponte como um gato no meio duma saia feminina. Nenhum carro dava sinal na estrada. Seu corpo, com dobradiças de cansaço, em cada passo parecia um colchão com pilares de casca de coco em rotação.

Antes de engolir, com a tesoura dos passos, a sombra enorme da ponte deitada na estrada fervendo de alcatrão, parou nos pelos de capim da ponte e concentrou as mãos no limite entre o norte e o sul do corpo. Fez momentos rápidos para desfazer o cadeado dos botões e desenhou uma figura estranha com a sua urina. Quando terminou, o desenho respirava e parecia queimar. Para não pôr ao público a sua obra, tampou-a com areia que arrastou com o pé direito.

Numa das pernas da ponte um agente da FIR, hoje UIR, alisava a sua corcunda com a sombra da ponte. Era um agente que tinha mais músculos que qualquer coisa. Na cintura um par de algema disputava espaço com um cinto preto e enorme.

– “Por que não usaste a ponte?”.

– “A ponte demora muito, chefe. Estou manigue apressado”.

O agente tirou a mão do bolso. Uniu os dedos na sua mão como uma família quando se senta à mesa. O polegar parecia um maestro de todos dedos com um casaco de suor; mexia-se sem parar. Os caminhos da palma da mão do agente indicavam a rua do rosto do jovem. O agente deu uma moda bicicleta, em forma de chapada, na bochecha do jovem.

Aquela chapada parecia um drible de Ronaldinho Gaúcho com a camisa 5. Eram 5 dedos. A bochecha era a grande área. E os dentes, brancos e bem quadrados, que logo espreitaram eram as redes da baliza.

O jovem caiu no berço da estrada. As garrafas de pescoços virados, nos bolsos, vomitaram espuma. A chapada criara uma sinfonia de estrelas nos funeis das orelhas do jovem. As marcas dos dedos na bochecha do jovem pareciam uma cadeia de montanhas ou lombas duma estrada de areia vermelha. A chapada parecia um tsunami na boca do jovem. A dentadura do jovem emigrou geograficamente uns centímetros como uma placa tectónica, a saliva parecia um mar invadido por um maremoto, a língua mastigou-se e sangrou nos balões da chuinga. Pode-se dizer que foi uma chapada com diversos ingredientes: dentes finos de bofetada, grãos cortantes de unha e uma dose exagerada de força.

O agente deu uma bengala de pontapé e o jovem organizou-se, recolheu os ossos e levantou-se. Sacudiu os restos de chapada que ainda tinha na bochecha. Cuspiu no chão do seu estômago uma saliva de sangue. O cão que de orelhas esticadas que captava os sinais magnéticos da chapada, latiu. E o jovem equilibrou os pés nos seus New Balance e voltou as escadas da ponte. Uma chapada, apenas, tinha transformado o jovem em uma ruína humana com fendas de embriaguez. Não parecia o mesmo jovem que parou, acendeu um cigarro e pintou com o pincel do seu bafo nuvens de fumo na tela do escuro.

Carlos Queirós, o brilhante técnico nascido no norte de Moçambique e que já brilhou nos cinco continentes, disse-me um dia que não assina contrato com uma equipa de um país que não conhece, se não tiver tempo para estudar, com alguma profundidade, a história e a cultura dessa Nação.

Não entendi à partida, mas ele explicou-se, estabelecendo, com propriedade, exemplos e comparações:
– O jogador africano, de uma forma geral irreverente, é avesso a regras. Isso tem a ver com hábitos histórico-culturais. Daí que os técnicos, respeitando isso, devam libertar à sua criatividade, tirando vantagens rumo ao objectivo comum que é o de ganhar;
– Já o atleta árabe, em regra vive um dia-a-dia de calmaria, tal como recomendam os rituais religiosos. Na sua juventude anda de chinelos e nas suas caminhadas, raramente ultrapassa alguém. Como mentalizá-lo para em campo, ultrapassar os adversários?
– Por seu lado, o japonês nasce com a matemática no berço. Ele recebe as instruções do técnico e depois pensa passá-las à prática, como se se tratasse de um regra de três simples. Se lhe indicam o posicionamento X, a sua reacção é Y. Se falhar, a culpa é do treinador. Mentalizá-lo para improvisos, bem ao gosto do africano, é um bico-de-obra.

Estes e outros elucidativos exemplos, foram-me transmitidos pelo eloquente Professor, numa gratuita aula de sapiência que registei com agrado.

O homem do jogador

A meditação em redor deste assunto, vem a-propósito do despedimento pelo Costa do Sol do técnico argentino Costas e a sua substituição pelo português Horácio Gonçalves, antes do fim do primeiro terço do Moçambola.

Longe de mim equacionar as competências de qualquer deles. O que ponho em causa é o imediatismo do clube, ao despedir um técnico estrangeiro que mal conhecendo os cantos do país, se esforçava ainda por (re)conhecer os da turma canarinha.

A opção foi por alguém que terá de iniciar a sua “aculturação” a partir do zero, o que o coloca claramente em desvantagem em relação aos adversários.

Pensa-se na competência do técnico e do jogador, subestimando o homem que é comandado pela mente, esta por sua vez sujeita a vários factores culturais, influenciados pela sociedade em que vive.

Pode-se vencer, a partir de improvisos. Mas, de facto, a acontecerem sucessos, o princípio de “a vitória prepara-se e organiza-se”, fica esvaziado.
Pensar no futebol apenas como pontapé na bola, subestimando a acção mental sobre a história e os hábitos culturais do cidadão, é pensar curto (e só) no imediato.

 

Houve um tempo em que os humanos eram livres de adorar os seus deuses sem entrar em conflito com outros humanos nem com outros deuses. Nesse tempo, também se tolerava a existência de humanos sem crença divina. Não havia imposições religiosas. Não havia escrituras sagradas. Não havia mandamentos ou fórmulas de como manifestar sua devoção a uma entidade divina.

Havia puramente uma democracia religiosa sob a qual os humanos se relacionavam pacificamente com diversas entidades divinas. Por sua vez, estes deuses venerados por humanos não clamavam monopólio dos céus, ainda que, de quando em vez, se envolvessem em conflitos de diversas ordens entre si. Os deuses politeístas aceitavam o pluralismo da sua existência e não viam nenhum perigo em ser devotados por um povo e ignorados por outro. Os deuses do antigo Egipto, Grécia, Roma, Nigéria, países nórdicos eram, por natureza, democráticos e tolerantes até que um dia emergiram deuses monoteístas prontos a reclamar o monopólio dos céus e da terra.

Nesta nova fase, a convivência entre deuses politeístas e monoteístas tornou-se insuportável ao ponto de despoletar uma guerra fria que envolvia os humanos. Povos abraâmicos e povos pagãos viram-se obrigados a envolver-se em guerras santas, os primeiros lutando pela nova monarquia religiosa e aqueles pela democracia. Foi esta luta que se desenvolveu e terminou com a diabolização dos símbolos e práticas do paganismo.
Com reputação maculada e sem mais o aparato humano para sua contínua influência no mundo, os deuses politeístas resolveram partir com todo o seu legado democrático. Abandonaram a humanidade sob a custódia problemática do monoteísmo. Desde então, a liberdade humana de adorar a múltiplas divindades foi escamoteada pelas escrituras sagradas abraâmicas que preconizam a existência e adoração de um e único deus. Este deus, para os cristãos, é Jesus. Os hebreus chamam-no de Javé. E os muçulmanos consideram-no Alláh.

Eis o novo conflito de supremacia religiosa que semeou ódio e menos paz no seio da humanidade. Os deuses monoteístas não aceitam a existência dos seus homólogos. Os deuses monoteístas são, por natureza, ciumentos cuja palavra de ordem é “amarás somente a mim, teu deus e único deus no mundo”. Nesta ordem ideológica, o sacrilégio capital que possa ser cometido contra um deus monoteísta é a idolatria. E, de modo que sua palavra fosse temida e obedecida, os deuses monoteístas intitularam-se proprietários de paraíso celestial que só e só se abre para os fiéis. Aos ateus, agnósticos e infiéis estão destinados a ser consumidos pelo fogo do inferno.

Ante esta dicotomia sobrenatural, o que se entende é que os crentes monoteístas não nutrem uma paixão moral pelos seus deuses. Eles seguem-nos muito mais pelo medo de inferno e desejo pelo paraíso privado do que pelo amor em si. Sendo assim, os humanos viram-se obrigados a aceitar os deuses monoteístas pelo bem da sua pós-vida. E aceitação é a condição sine quan non para admissão ao “reino dos ceús”, não importando sua dedicação ao bem e seu compromisso com o desenvolvimento da humanidade. Aos céus, não pertencem os virtuosos, mas somente os fiéis.
Sendo assim, o fiel que convencer mais humanos ao monoteísmo, mais se lhe abrem as portas do paraíso. Foi deste modo que a competição em converter humanos ao monoteísmo culminou no terrorismo do séc. XXI. Os infiéis, ateus, agnósticos e ímpios, sob a ditadura monoteísta, passaram a ter duas alternativas: ou convertem-se ou morrem. O princípio da terceira escolha é inválido. Somos nascidos dentro da religião.

Nem sequer nos é dado o tempo de aprendermos diversas religiões para, depois, escolhermos aquela que nos convém ser a palavra de Deus. Muitos de nós somos cristãos, muçulmanos, judeus, hinduístas, budistas, etc, mas não sabemos a razão de ser. Tudo quanto dizemos é que nascemos em famílias religiosas, sociedades religiosas e países religiosos. E, somos obrigados a ver o mundo na perspetiva destas religiões. A conversão religiosa passou a significar a alienação da mente devido à natureza das religiões monoteístas que é dogmática, universal, absolutista e prescritiva.

A democracia religiosa e liberdade do pensamento sobre o sagrado partiu com politeísmo e, tudo quando nos restou, é o terrorismo e a apelos impotentes para laicismo. Todavia, os homens ainda habitam num mundo de possibilidades. Se foi possível a partida dos deuses politeístas, é, também, possível a partida dos deuses monoteístas e suas escrituras plenas de ilogicidade que contribuem para benévolas e malévolas interpretações.
E se pesarmos o impacto empírico-existencial das benignas interpretações com o impacto das malignas interpretações em dois cestos da mesma balança, decerto que o cesto com impacto negativo terá mais peso que o outro. Em poucas palavras, a religião trouxe mais trevas ao mundo que luz. Basta lembrarmo-nos das inquisições da Igreja Católica. Quantas pessoas foram perseguidas e linchadas? Da colonização dos negros e índios, quantos povos foram massacrados e idiotizados em nome de deus? E o que dizer do islamismo que por meio do alcorão proliferou grupos jihadistas que já mataram milhões de almas inocentes e roubaram tranquilidade ao mundo em nome de Alláh?

Das contínuas guerras sangrentas entre cristãos e muçulmanos na República Centro Africana, Nigéria, Chad, Níger, Egipto, Somália, e noutros cantos do mundo, quantas crianças, mulheres e homens serviram de mártir por ideologias mortíferas? Quantos mortos? Quantos dispersados? E quantos fundos gastos que podiam ter sido alocados na educação livre do homem?
Uma educação livre capaz de levar o homem a fazer o bem sem temor a Deus é possível. E um mundo mais seguro, próspero e digno sem influências religiosas é humanamente possível de construir-se. Schopenhauer, Marx, Kant e outros filósofos com tendências iluministas já haviam previsto uma humanidade livre de partidos religiosos. Schopenhauer dissera que, na verdade, o homem quando quer praticar um crime, as primeiras considerações que faz são: há riscos de ser apanhado? E qual é a pena a pagar? Feitas estas perguntas, por última instância, é que se pergunta sobre aprovação do seu acto aos olhos de Deus. Isto nos faz perceber que tudo quanto um Estado precisa para diminuir crimes é a forte segurança e leis justas.

Na ausência destes dois elementos, o Estado torna-se caótico e pobre mesmo aglomerado de crentes. Que fique claro que minha tese não consiste em convidar os humanos a não mais crer em Deus, mas simplesmente a desligar-se de partidos religiosos que se arrogam dispor da verdade absoluta sobre coisa divina. Para crer, não precisamos de associações. Dentro de ideologias, os homens abdicam do seu direito de pensar e guiam-se cegamente por preceitos dogmáticos. Só com liberdade do pensamento é que somos capazes de conceber o verdadeiro Deus que procede em consonância com os valores mais nobres da humanidade: Sabedoria, Justiça, Temperança e Altruísmo.  E, se por acaso, o ser que consideramos Deus nos obrigar a ir contra esses valores, temos de parar e reflectir mais uma vez sobre nossa concepção divina.

 

A urbanização é um fenómeno global. Uma tendência que se acelera desde a revolução industrial, no século XVIII. Foi catapultada pela inovação tecnológica e reformas políticas. É um dos rostos mais emblemáticos do capitalismo industrial, deixando marcas muito profundas nos tecidos económicos, social e ambiental

Actualmente, mais de 50% da população mundial vive em contextos urbanos, mas as projecções demográficas indicam que em 2050 esta cifra poderá ultrapassar os 60%. Estes dados não causam estranheza no mundo ocidental, onde a maioria dos países já vive esta realidade. Porém, nos países em desenvolvimento, particularmente em África, a corrida para os centros urbanos tem sido feita de forma apressada e atabalhoada, fruto do “boom” populacional e da busca desenfreada por oportunidades de emprego e sonhos de uma vida mais iluminada, mais farta e menos sofrida.

Segundo dados recentemente publicados pela UN-Habitat, a população urbana em África duplicou nos últimos 10 anos. Assim, todas as capitais de países africanos estão, literalmente, a “arrebentar pelas costuras”: guetos desordenados, mercados improvisados em esquinas e sombras de árvores, mendicidade generalizada, subemprego galopante, delinquência infantil, desnutrição crónica, epidemias persistentes, poluição ambiental, etc.

Herança colonial

No contexto colonial, a classe dominante habitava as cidades envoltas de luzes, cores, cimento e asfalto. Os colonizados eram mantidos nas suas palhotas tradicionais e precárias, sem acesso à luz, estradas asfaltadas, água canalizada, escolas decentes e hospitais adequados.

Naturalmente, após a descolonização, o primeiro impulso dos descolonizados foi o de conquistar as cidades, com todas as delícias reais e aparentes que lhes eram outrora vedadas. Uns se adaptaram mais facilmente do que outros, mas as marcas da transição forçada são ainda visíveis em muitas cidades africanas. Mesmo quando as condições de vida se tornam difíceis, o regresso ao campo não é a opção mais óbvia.

Mesmo os jovens que migram para as cidades para frequentarem o ensino superior, muito cedo se viciam com os hábitos urbanos, e muito dificilmente optam pelo regresso às suas aldeias de origem. O sonho de ser funcionário público tornou-se quase uma obsessão para a maioria dos jovens recém-formados, como forma de se instalarem em gabinetes climatizados, obterem direito a residências do Estado, disporem de viaturas confortáveis e frequentarem supermercados e centros de lazer.

Concorrendo para o fluxo migratório em direcção às cidades estão também os conflitos armados e sociais que primeiramente obrigam à busca de um refúgio seguro e, posteriormente, à procura de alternativas de sobrevivência.

 A questão das infra-estruturas

O primeiro grande choque da onda galopante de urbanização em Africa é a falta de infra-estruturas para responder às necessidades básicas das populações. As cidades são forçadas a acomodar o dobro ou triplo das suas capacidades. O caso da ocupação dos apartamentos urbanos coloniais é emblemático dessa realidade: apartamentos superlotados, sistemas de esgotos não dimensionados para a pressão de utilização, deficiente disponibilidade de electricidade e água, e estradas submetidas a uma utilização não prevista aquando da sua projecção e construção.

De um modo geral, o ritmo de crescimento das novas construções não corresponde, ao crescimento demográfico. Mesmo considerando a superlotação dos prédios habitacionais, muitas pessoas ficam à margem, relegados aos subúrbios, guetos, bairros de lata, em condições extremamente precárias. Dados da UNHabitat indicam que cerca de 60% dos habitantes das cidades vivem nestas condições degradantes e sub-humanas. Em África são cerca de 72%.

Desigualdades sociais

Quando bem geridas, as cidades oferecem oportunidade de desenvolvimento económico e social. O seu papel de centros de produção e consumo, normalmente estimulam a inovação e a criação de oportunidades de emprego. Também oferecem oportunidades de uma boa formação académica, serviços de saúde, e o desenvolvimento de iniciativas culturais (teatro, cinema, literatura, museus etc.). Contudo, a urbanização desordenada é uma das principais causas da pobreza urbana e acentuação das desigualdades sociais em África. Por um lado, as elites detentoras do poder económico e político ostentam riquezas acumuladas, por vezes ilicitamente, e por outro, os habitantes dos subúrbios sujeitam-se a uma vida forçosamente minimalista, em torno de escassas oportunidades de subemprego, negócios informais, mendicidade, delinquência e prostituição.

A escassez de água, electricidade, escolas, hospitais e vias de acesso, forçam o desenvolvimento de mecanismos alternativos de sobrevivência nem sempre recomendáveis, como a delinquência, a superstição, o curandeirismo, o charlatanismo, a prostituição e a venda de bebidas alcoólicas.

O comércio é improvisado e informal. Pequenos mercados pululam como cogumelos e são invadidos por produtos baratos, mas de proveniência duvidosa, vendidos no chão, misturados com a imundície.

A partilha de espaços, latrinas e salas improvisadas de convívio fomenta a promiscuidade. Multiplicam-se os casos de estupro, casamentos prematuros, mães adolescentes, alcoolização, epidemias, tráfico e consumo de drogas.

Problemas ambientais

O sobrepovoamento das cidades aumenta a pressão sobre os ecossistemas e recursos naturais, partiularmente resultantes do abate indiscriminado de árvores para a construção de casas e obtenção de combustível lenhoso,  e das construções desordenadas que causam obstrução dos cursos naturais das águas pluviais e erosão nas encostas.

Com a falta de infra-estruturas de saneamento a gestão dos resíduos domésticos, e particularmente os dejectos humanos, torna-se um desafio sem solução aparente e uma ameaça latente à saúde pública. Tudo isto agravado pelo cheiro nauseabundo e a proliferação de ratos, baratas, moscas e mosquitos, poluição atmosférica, sonora e visual.

Anarquia económica

Um dos maiores problemas nas grandes capitais africanas é a coexistência tumultuosa entre a economia formal e a informal. Por um lado, a economia formal tenta impor as suas regras com recurso à lei e à repressão, e a economia informal defende-se através da sua inevitabilidade, resultante da anarquia e a urgência generalizada de sobrevivência.

 Os mecanismos institucionais são normalmente frágeis, ou fragilizados por factores sociais, culturais e infra-estruturais. Os próprios agentes da lei e ordem carecem de formação adequada e são muitas vezes forçados a improvisar ou agir emocionalmente perante situações mais delicadas ou complexas. Por exemplo, um agente que cresceu e foi formado graças ao sacrifício da sua mãe vendedora de “badgias”, e que durante a vida estudantil se alimentou de “badgias” com pão, dificilmente terá coragem de confiscar uma peneira de “badgias” de uma vendedeira informal. De igual modo, nenhuma autoridade municipal teria coragem de parar com os transportes municipais, vulgo “my-love”, ou multar a sobrelotação dos transportes semicolectivos de passageiros sem que uma alternativa credível esteja disponível.

Uma particularidade dessa economia informal é a de viver nos limites e não gerar contribuições para o erário público. Por outro lado, a economia formal não progride porque vive atolada em impostos, burocracia e corrupção.

A concluir

O desafio da urbanização em África requer um profundo exercício de reestruturação e um esforço sistemático de planificação e gestão. Isso requer a emergência de uma liderança forte e visionária capaz mobilizar todas as forças vivas para um ideal comum.

Entre as acções mais urgentes, importa destacar a questão fundiária, relativamente à planificação territorial e o parcelamento de terras. As infra-estruturas básicas devem ser parte integrante da planificação e do programa de investimentos públicos.

Importa ainda criar incentivos para a permanência ou regresso ao campo, para descongestionar as cidades, promover o desenvolvimento rural e alargar a base económica. Como a tendência de urbanização é quase irreversível, uma solução viável para evitar o crescimento das megacidades seria a promoção de pequenas cidades, mais condizentes com as políticas de desenvolvimento rural.

É importante também combater a precaridade através de mecanismos institucionais, legais e económicos, de modo a promover a legalização dos negócios informais, o combate ao subemprego e dignificação da condição humana. Uma atenção muito específica deve ser dada ao papel das mulheres e dos jovens, através de políticas de formação e integração, programas de educação cívica, incentivos às boas práticas de convivência urbana, e o envolvimento comunitário em trabalhos de limpeza e preservação ambiental.

 

 

 

A política democrática proporciona, igualmente, um escape para as personalidades ambiciosas

Francis Fukuyama

Há cada vez mais bons livros infanto-juvenis no país, nos quais, crianças e adultos reencontram-se na Humanidade que lhes é comum. Durante anos, tivemos défice daquele tipo de literatura, mas agora, a qualidade acompanhada com a quantidade está a trilhar um percurso assinável. A continuar assim, “Os meninos de Huambo” – e quem diz Huambo sugere Nicuadala, Machipanda, Macanga ou Infulene – resgatarão o calor da fogueira africana no papel. Precisamos muito desse calor que nos mantém imortais na nossa integridade; precisamos de mais páginas brancas e limpas, nas quais possamos realizar o sonho de fazermos das estórias bem contadas um modo de vida.

À parte o exórdio, um dos bons livros infanto-juvenis publicados em Moçambique é Quem manda na selva, de Dany Wambire, título que nos lembra um outro, “Quem manda aqui?”, de Paulina Chiziane. Nesta fábula, como é hábito, com valores a transmitir, Wambire conta, simultaneamente, uma estória divertida e outra grave. Em ambas é descrita uma intensa disputa, feita de artimanhas e vingança. O que move todos esses comportamentos é a ambição na luta pelo poder. Nessa contenda, destacam-se dois grandes amigos: o gato e o leão. “Ambos eram ambiciosos: queriam dirigir uma região. Então, combinaram amavelmente que o leão fosse o rei de lá, e o gato fosse o rei de cá. Ou seja, o leão teria o poder sobre a Selva da Gorongosa, enquanto o gato teria o poder sobre a localidade de Nhambita.” (p. 5). Para o efeito, os mamíferos fizeram uma lista e dividiram os animais que seriam subordinados de cada. Aí criou-se uma política democrática, apenas para o benefício dos reis. Mas, mesmo em democracia, quando existem partes autoritárias, o descontentamento generaliza-se. Foi o que aconteceu, quer na Selva quer em Nhambita. E com o descontentamento popular, a arrogância dos reis leão e gato, misturada com incompetência, aumenta, de tal modo que os protagonistas acabam sendo vítimas do respectivo canibalismo, já sem a amizade de outrora.

Este livro, ao partir daquele eterno “era uma vez…” que embala toda criança, desafia o leitor a lê-lo enquanto estabelece um paralelismo entre o universo fictício e a nossa realidade. Na selva da Gorongosa e Nhambita, mais do que animais, estão representadas atitudes humanas. Na verdade, o leão e o gato são construções metafóricas do que escolhemos ser como país. No livro estamos todos, divididos, ora à procura de uma corrente de água limpa para beber ora à espera que um sacrifício, como o do rato que deu a vida para salvar o gato, tenha um retorno favorável a maioria.

Está claro. Quando Dany Wambire descreve dois regimes, em Quem manda na selva, questiona a força do poder e se nessa força existem alternativas diferentes, genuínas. Quiçá, por se dirigir às crianças, o recurso ao eufemismo – figura estilística aqui sempre acompanhada pela metáfora e personificação – constitui uma maneira de disfarçar a complexidade que a narrativa encerra. Em Quem manda na selva encontramos um Moçambique conflituoso e as causas prévias dessa condição social.

Quem manda na selva possui um forte teor político, vulgariza a inteligência dos governantes que, como o rei leão, aconselham-se mal – por exemplo, o episódio em que o leão manda desviar o rio Púnguè da Gorongosa –, e valoriza as maquiavelices resultantes da sedução do trono. Não para as promover, mas para as inferiorizar. O livro retrata a maldade dos Príncipes, já agora, para mostrar como têm terminado: odiados, isolados e traídos.

 

Título: Quem manda na selva

Autor: Dany Wambire

Editora: Fundza

Classificação: 16

 

 

 

Quando pergunto, aqui em Moçambique, aos que me são próximos e que são leitores contumazes, se já leram Chimamanda Ngozi Adichie, quase invariavelmente dizem-me que não. Há uma literatura pujante no nosso continente que nos passa ao largo. Somos cada vez mais uma ilha isolada. Pouco sabemos do que se faz lá fora. Conhecer os outros tem muitos aspectos positivos: obriga-nos a estar em perspectiva. O exacerbado narcisismo nacional, muitas vezes, ou quase sempre, leva-nos a ter de nós uma imagem que nos parece sempre benevolente. Mal conhecemos o que fazem os nossos confrades aqui do lado, seria muito pedir que estivéssemos a par do que acontece longe do nosso hemisfério.

Esta notabilíssima escritora nigeriana é um dos nomes cimeiros dessa escrita vibrante. Nasceu na Nigéria, em 1977, foi estudar para os Estados Unidos aos dezanove anos, e vive entre a América e a Nigéria. Escreve esplendorosamente sobre estes dois mundos, sendo que a América que ela descreve é a América demandada de certa forma pelos nigerianos, com os seus sonhos e fracassos, a quimera do El dourado. Também descreve, ou escreve, sobre uma África profunda e soberba, África que não está nos jornais, os dramas da guerra civil, a corrupção, as anomias sociais da Nigéria, as sociedades, as tradições, o confronto com a modernidade, as relações.

Chimamanda Ngozi Adichie é sobretudo uma brilhante contadora de histórias, ela conta muito da nossa miséria, das tristes e feias histórias do nosso quotidiano, do nosso destino individual e colectivo, mas também dos nossos sonhos. Creio que será uma das vozes que melhor interpelam o nosso continente. Para além da ficção, ela viaja e fala pelo mundo afora. É uma feminista aguerrida. Uma conferência sua sobre feminismo deu origem a uma publicação: Sejamos Todos Feministas. É uma voz activíssima, não só na Nigéria, na América e nos palcos do mundo. Beyoncé tem uma música na qual aparece um trecho desse texto sobre o feminismo lido pela Chimamanda.

Chimamanda representa também um corte com uma literatura africana marcada pelo passado colonial em África. O boom, por assim dizer, dos notáveis africanos, como Chinua Achebe, como Ngugi Wa Thiong´o, como Sembène Ousmane, como Wole Soyinka, que nos falavam de uma outra paisagem africana. Lembro-me de ler, nos primórdios dos anos 80, Os Intérpretes, do nigeriano Wole Soyinka, que viria a ser o primeiro africano negro a ganhar o Nobel da literatura, em 1986. Lembro-me de ler O Harmatão, de Sembène Ousmane, escritor e realizador senegalês. Ou Um Homem Popular, do nigeriano Chinua Achebe, que talvez tivesse merecido o Nobel, sendo um dos romancistas, contistas, ensaístas e poetas africanos que verdadeiramente marcou o século XX. Achebe morreu em 2013. Há um livro – Chinua Achebe: Tributes and Reflections – no qual grandes nomes da literatura africana prestam homenagem a Chinua, entre eles Wole Soyinka, Chimamanda  Ngozi Adichie  ou o queniano Ngugi Wa Thiong´o. Thing`o, aliás, é um dos nomes na lista dos favoritos do Nobel há anos. O autor de Um Grão de Trigo ou Pétalas de Sangue foi cotado em 2010 quando ganhou o peruano Vargas Llosa. Recentemente voltou a falar-se dele para a máxima láurea literária.

Recordo, nostalgicamente, que lia, naqueles anos, o egípcio Naguib Mahfouz, que ganhou o segundo Nobel para África, dois anos depois de Soyinka. Da África do Sul, antes do J.M. Coetzee (outro Nobel), lia André Brink, Breyten Breytenbach, Alan Paton (Cry, Beloved Country). Lia Alex La Guma, País de Pedra ou Tempo da Morte Cruel. Mais tarde, li e conheci pessoalmente, Nadine Gordimer (outra Nobel). Li, exultantemente, J.M. Coetzee. Bastava ter escrito Desgraça para entrar no panteão dos grandes da literatura mundial. Coetzee é um grande escritor.

Dambuzo Marechera, que morreu prematuramente, aos 35 anos, em 1987, foi escassamente traduzido entre nós, pelo menos recordo-me de ler um conto magnífico seu na “Gazeta”. Escreveu The House of Hunger, conhecido como o seu título mais notável. Conheci em Harare o escritor Chenjerai Hove, que seria o nome mais expressivo depois de Marechera, no Zimbabwe. Recordo-me do seu Bones. Morreu em Julho de 2016, na Noruega. Hoje, NoViolet Bulawayo é uma das vozes mais importantes do Zimbabwe. Da nova geração de escritores zimbabweanos vejo referido, nas antologias do Caine Prize, o nome de Tendai Huchu, Isabella Matambanadzo, Barbara Mhangami-Ruwende, Violet Masilo, entre outros. Uma edição da Granta (The Granta Book of the African Short Story) antologiava, em 2011, textos do moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, do zimbabwiano Dambuzo Marechera, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, da senegalesa Fatou Diome, do zimbabwiano Brian Chikwava, da tunisina Rachida el-Charni, da serra-leonese Aminatta Forna, da marroquina Laila Lalami, da sul-africana Zoe Wicombi, ou do queniano Binyavanga Wainaina. Muitos deles, ou quase todos, premiados com o Caine Prize. O Caine é um prémio que tem revelado muitos bons contistas africanos de língua inglesa.

Recordo-me (retorno assim aos anos 80) também do Remember Ruben do camoronês Mongo Beti e do seu compatriota Ferdinand Oyono, autor de O Velho Preto e a Medalha. Ou Camara Laye, da Guiné. Ou Mariama Bâ do Senegal. Do Mali, a voz de Amadou Hampâte Bâ. O poeta Senghor do Senegal. Lia estes escritores e muitos mais. Refiro-me aqui aos escritores que escreviam originalmente em línguas diversas da portuguesa. Falo da África que escrevia em inglês, francês ou árabe, a África que se exprimia nas suas línguas, ainda que distante, por vezes, e que desaguava aqui. Hoje não são mesmos os afluentes dessa escrita. Outras são as vozes. De Angola, ou Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, ou ainda Guiné-Bissau havia um livre curso que nos permitia ler os seus autores emblemáticos: de Luandino Vieira a Manuel Rui ou Pepetela, ou ainda Sousa Jamba (angolanos); de Baltazar Lopes a Arménio Vieira ou Germano Almeida (cabo-verdianos); de Francisco José Tenreiro a Alda do Espírito Santo ou Conceição Lima (santomenses); de Hélder Proença a Abdullai Silla ou Odete Semedo (guineenses).

Chimamanda Ngozi Adichie é herdeira desta imensa e, provavelmente, desconhecida literatura. Hoje não a vejo referida por aí. Presumo que já não se leiam, entre nós, escritores africanos. Estamos de costas voltadas para o que o nosso continente produz, quer por barreira da língua, quer por outro tipo de fronteiras. Há muito que a literatura no plano geral deixou de ser importante. Não há páginas literárias nos jornais, desapareceu o pouco jornalismo cultural ou o arremedo disso, os dias e os jornais são afadigados com outro tipo de notícias.

Terminei de ler, há dias, esse romance soberbo intitulado Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie. Empolgante história de amor de dois jovens nigerianos (Ifemelu e Obinze), que se apaixonam na adolescência, num país sombrio, mergulhado numa ditadura, onde sonham emigrar. Ela, Ifemelu, consegue ir estudar para os Estados Unidos, onde chegará a ser uma blogger de culto; ele, Obinze, não consegue realizar o sonho americano: irá para Londres onde viverá, até ser deportado, como imigrante ilegal. Mais tarde, numa Nigéria ulterior, Obinze transfigurar-se-á num riquíssimo homem de negócios. A essa nova Nigéria, efervescente, Ifemelu regressará anos mais depois para se defrontar com a memória e reinventar o futuro. A história é caleidoscópica e atravessa a América e a Nigéria, interpela a condição humana, põe em questão a questão da identidade (passe-se a redundância!), da nacionalidade, da raça, da alteridade, do amor, da solidão e da sorte. Este soberbo romance – Americanah – foi aplaudido pela crítica literária e por importantes publicações americanas ou inglesas, como o The New York Times, New York Magazine, The Washington Post, The Guardian ou The Telegraph. O livro é ambicioso, ingente, belo, pungente. Uma escrita luminosa. Uma técnica impecável sob o ponto de vista narrativo. Domínio absoluto da narrativa. Escrita com verve.

Lida e celebrada, saudada e premiada, Chimamanda Ngozi Adichie é hoje uma estrela. Aparece até em importantes revistas de moda. Tem 40 anos e uma obra consistente. Tem traduzidos, para a língua portuguesa, os seus romances A Cor do Hibisco, Meio Sol Amarelo, e o livro de contos A Coisa à volta do teu pescoço. Esta colectânea de contos é surpreendente. O conto que dá o título ao livro é absolutamente comovente. Também fala dessa relação quimérica entre a Nigéria e os Estados Unidos. Tem histórias belíssimas. Também está traduzida a sua conferência sobre feminismo: Sejamos Todos Feministas. Ela é polémica e aguerrida, culta e inteligente. Escreve esplendorosamente. Leiam-na, descubram uma nova escritora, uma nova literatura que se faz em África. Ela é uma das autoras de culto. Uma grande voz. Uma grande autora. Uma grande escritora. Não só o é entre as fronteiras do nosso continente. É uma escritora de renome mundial. Temos o defeito de nos fecharmos no nosso casulo. Sofremos da síndroma do espelho. Não lemos o que vem de fora e nada sabemos o que se escreve lá fora. Devíamos evitar a tentação de narciso. Há escritores notáveis lá fora. Há coisas extraordinárias a acontecer. Há livros belíssimos a serem publicados. Americanah é um deles. Chimamanda Ngozi Adichie talvez  seja a mais notável escritora da nova geração de autores em toda África.

 

 

O velho Bila era cego. Um par de óculos escuros desviava as imagens que lhe chegavam. Era uma porta inválida para imagens. Parecia um soldador de instantes com os raios quentes do sol. Os rostos dos filhos captava-os a partir da rouquidão das suas vozes. Era como se o timbre das suas vozes fosse um corpo palpável e mensurável. Nunca falhava. Os passos eram os seus binóculos à distância e os odores eram os olhos de reconhecer quem se aproximasse.

Era como se o som dos passos, o odor, as vozes transportassem os rostos dos seus donos. Com as mãos, o velho, lia o amarelo da sua bengala, o verde da sua camisa e o vermelho da porta da sua cabana. Pela manhã a sua neta cortava-lhe as unhas enquanto de olhos abertos, mas bem fechados, mirava o escuro do seu interior. O velho Bila sorria sempre que ouvisse ruídos de passos vindo até si. A sua camisa era uma peça que se usava duas vezes: ora era o lado de dentro que ficava de fora, ora era o lado de fora que ficava de dentro, vice-versa.

O velho Bila já não vigiava o mundo, o mundo vigiava a ele. O mundo tinha-lhe como espelho – dizia-me sempre o meu pai. Sentado de olhos tão abertos e fechadíssimos assustava pela sua presença os cães e as galinhas que passavam por ele. Os que não conheciam, o velho, de longe até levantavam a mão para o cumprimentar. Os filhos à hora do almoço lançavam gargalhadas vendo televisão em cores que o velho comprara em tempos. Divertiam-se no interior de casa e por vezes até se esqueciam do velho. Era como um objecto de casa que a sua presença equivalia com a de uma pá ou uma enxada.

“Esquecemos, o pai lá fora” – era sempre normal ouvir isso de madrugada. O velho era depois resgatado pela sua bengala no escuro e puxado para o seu quartinho escuro. Que quarto? O seu quarto era um ensaio a morte. Tinha aspecto de um caixão e tudo cheirava a morte. Entrava de corpo dobrado. Apesar de ter os olhos cegos conseguia pisca-los e contornar as curvas de sujidade…

O velho sentado, com uma mão segurando uma terrina de sonhos, molhava o seu rosto com a chuva dos seus olhos nublados de cegueira. Com a mão esquerda, trémula, desembainhava o seu rapé e cheirava-o com quem bebesse uma taça de oxigénio.

– “Papá quando terminar de comer vai me chamar para trazer água”.

Afastava as moscas do lado que não vinham e ajeitava com dificuldades a blusa feminina que usava. Destilava as horas, mastigava espinhos de pensamentos e por vezes se esquecia dele próprio para não sofrer tanto. Afastava-se dele. Quando se via em sonhos enxergando, medindo com seus próprios olhos a altura do seu corpo, um fogo-fátuo corria-lhe o rosto.

Nas sextas-feiras o velho era aprumado, escovado os dentes, penteado a barba e levado para receber sua cesta básica: um quilograma de arroz, três barras de sabão, um quilograma de sal e duas unidades de leite em pó. O velho sorria. Sorria porque é isso que podia fazer enquanto criatura de pouco interesse na família. O peso da cesta básica era a única coisa que fazia o velho esquecer o peso da carga do mundo que tinha nos olhos.

“Tem açúcar? Hoje deram muito leite?” procurava saber o velho pelos olhos dos netos que lhe acompanhavam.

“O velho Bila não é cego, filho. Ele só não gosta de olhar o mundo com os olhos. Usa o coração” – dizia-me o meu pai.

 

É comum ouvir que o trabalhador merece dignidade, porém esta condição continua uma miragem em Moçambique. Não precisa ser especialista em assuntos laborais para perceber que o patronato rouba descaradamente o trabalhador que garante a economia nacional e fornece pulmões para a respiração da sociedade.

É sabido que 1 de Maio resulta de greve dos trabalhadores secularizados no Sec. XIX submetidos à exploração do homem pelo homem, artefactos dos tempos inglórios inundados pela escravatura. Já dissemos em ocasiões anteriores que a história sempre se repete apenas muda de protagonistas porque os sindicalistas de ontem tornaram-se burgueses de hoje.

Não viemos reproduzir as músicas das décadas passadas sobre a insatisfação da massa laboral num país onde acreditamos que todo mundo deveria fazer um estudo de caso. Isto porque já disseram os filósofos que é impossível agradar a gregos e troianos. A nossa missão é trazer um contributo para resolver problemas passados, presentes e futuros, pois a dinâmica social é irreversível e o presidente Nyusi nos recomenda a antecipar fenómenos. Apenas queremos nos associar aos compatriotas que de tudo fazem para encontrar soluções e ajudar o governo, sector privado e sociedade civil no delineamento de estratégias acertadas e não populistas para garantir dignidade ao trabalhador.

Louvamos o governo por ser o maior empregador apesar das carências que enfrenta nos últimos anos, o que o limita em proporcionar condições mínimas a todos os servidores públicos embora esteja a mimar apenas os professores e profissionais da saúde. Desta feita, deixamos a questão: o que será feito dos polícias, agricultores, comerciantes, desportistas, administrativos, judiciais, jornalistas, entre outros, isto faz do Estado pai e padrasto em simultâneo, será que temos duas repúblicas? Não deixamos para trás o sector privado que mesmo sendo menor empregador continua maior pagador, apesar de se reconhecer que o que se ganha ainda desproporcional ao custo de vida.

É tempo de desconstruirmos o pensamento de palhota de que salário é factor sine qua non para a dignidade do trabalhador, pois a ser assim, especula-se que os trabalhadores moçambicanos pensam com estômago. O patronato também deve abandonar definitivamente a música de que o salário resulta dos níveis de produção, sem explicar o condão desta relação de forças. O presidente Nyusi defende e recomenda de forma recorrente que devemos deixar de brincar com números apenas, é necessário que sejam apresentados argumentos válidos sobre a razão desses números. Isto porque já está claro que este país foi capturado por mafiosos que se digladiam entre si e dão com uma mão mas retiram com duas. Urge igualmente, retirar do nosso vocabulário a expressão de que "é o possível não se pode fazer mais e não é como não dar nada".

Vamos todos trabalhar e usufruir de forma equitativa dos benefícios, pois as justificações apresentadas pelo patronato com relação aos níveis de aumento salarial são infundadas. Isto para dizer que o governo deve ser justo com o trabalhador e com o patronato ao invés de se prostituir com o segundo em nome das mais-valias. Quem não sabe que neste país a Lei do Trabalho e o Estatuto Geral dos Funcionários e Agentes do Estado transformaram-se em instrumentos de exploração. Dizendo de outro modo, estes instrumentos ao invés de amenizar a relação entre os burgueses e o proletariado agrava o sentimento de injustiça e desrespeito à condição humana.

Numa sociedade sã e séria, o mais sensato é elaborar leis de macacos para orientar a relação entre macacos. Agora, o que ocorre nesta selva elabora-se leis de leões para combater gazelas e o resultado e este que assistimos. Vimos gazelas andarem quilómetros e horas a fio, à procura de erva e água com vista a alimentarem-se condignamente, tornando-se gordas e formosas para que os leões comam-nas também condignamente e após a refeição os últimos começam a dizer desaforos (arrotar). 260 Meticais de aumento salarial, consubstancia um crime, insulto e falta de consideração para os moçambicanos descendentes dos libertadores da pátria. A madame Buchili devia agir já, pois as provas deste crime estão na janela do seu quarto e não no estrangeiro.

É comum nesta pátria procurar-se responsáveis de crimes alheios pontapeando o acórdão n° 4/2014 do Conselho Constitucional que acrescenta cordas (amarra) a própria polícia para prender os pilha-galinhas, somente em flagrante delito. A situação do trabalhador moçambicano é deveras preocupante e os ditos cujos armados em experts, sabetudo e faz-tudo (é que fez, é que faz) devem assumir suas irresponsabilidades e não nos ponham arreia nos olhos. Passam a vida a seguir o King Bow, catando mentiras para Guilhermina enquanto está em Maputo com Liloca na Somerchild porque a dependência de Ka-Maxaquene só serviu para o vídeo clip.

Este é o nosso sentimento que não constitui novidade para ninguém, pois há décadas que reclamamos a nossa condição de trabalhadores indignos e para concordar com os patrões, apresentamos como sempre as possíveis saídas deste imbróglio. Entretanto, desta vez documentamos para que fique registado na história a visão da massa laboral actual, porque ouvir dizer não se escreve. Este contributo serve para consciencializar o patronato e as novas gerações de modo a perceberem que o trabalho em Moçambique se assemelha a toponímia do bairro "nobre" da Mafalala, visto que tem mais becos e de águas estagnadas do que estradas e ruas para transitabilidade de ambulâncias ou mesmo de "txovas".

Como se explica que o fórum de concertação social faça passeatas na 24 de Julho durante três meses e meio para discutir e defender interesses de patrões e trabalhadores e chegar a uma conclusão inconclusiva? Senhores ou senhoras, trabalhem. Já que está na moda, visto que neste pais dizer senhores num grupo onde também estão mulheres subentende-se violação de igualdade de género. Quanta infantilidade intelectual! Os que se dizem representantes dos trabalhadores tornaram-se traidores pois tem dificuldades em transmitir fielmente o sentimento dos seus mandantes, sendo assim apela-se a demissão e exílio  desses mafiosos e deixar os trabalhadores dialogarem directamente com seus patrões. Não se justifica que a empresa produtora de tomates e a de tseque aumente na mesma proporção o salário dos seus sequazes sem critérios específicos.

Este tiro vai também para o governo sobretudo o ministério que emite circulares e decretos de meia tigela que mais nada fazem senão retirar direitos constitucionais de bónus especial e subsídios de localização de cerca de 90% de funcionários, roubar 13° vencimento, em detrimento de salário extra e regalias à moda Abu Dabi para os comparsas só por início de funções? É difícil um país jovem compreender a atitude de uns velhos estrangeiros que adquiriram nacionalidade moçambicana debaixo do cajueiro, a justificar pelas perturbações políticas e falta de senso para com os nacionais. Chega de aprovar por encomenda o aumento salarial, sem antes ouvir o destinatário sob o risco de vir a tona o adágio popular "o Estado finge que nos paga e nós fingimos que trabalhamos". Aliado a isto, confirma-se a hipótese de que os níveis de corrupção aumentam 1000% enquanto os níveis salariais aumentam 6%

A pergunta que não quer calar: como se aprova o aumento salarial a uma semana da celebração do dia Internacional do Trabalhador? Alguns súbditos do principado dirão que é óbvio, sem antes perceber a nossa inquietação. Apesar de o Estado pagar a posterior os famosos retroactivos é tempo de transformarmos o discurso do rei do planalto em acções concretas, pois defende que os moçambicanos devem antecipar fenómenos e não remedia-los. Apesar de se pagar retroactivos o que justifica tal acto? Se a análise económica é feita até 31 de Dezembro do ano corrente e já em Janeiro, o mais tardar no final deve-se aprovar o aumento salarial. Ninguém calcula o transtorno e desconforto que ocorre quando em três a quatro meses os trabalhadores acumulem dívidas e sejam desprovidos de bens essenciais para alimentação e saúde.

A nossa proposta é simples e clara, os especialistas em assuntos laborais devem justificar por A mais B a sua actuação e o espírito com o qual actuam em prol dos trabalhadores. Em futebol, não se admite que o árbitro pertença a um dos clubes em campo principalmente nos jogos da final, isto consubstancia prática de ocupação e conflito de interesse. Caros patrões, quando quisermos celebrar 1 de Maio deve-se recorrer a informações sobre as condições de trabalho em Moçambique que se refere a vários aspectos tais como: meios, ambiente, relação entre patronato e trabalhadores, sindicato, transporte, segurança, saúde, alimentação, habitação e por último salário. Alguns patriotas vão nos condenar por ter colocado o salário em último, mas justificamos que fazemos isso porque somos parte de cidadãos e trabalhadores que não pensam com estômago, mas sim com a mente.

Alguns já começaram a publicar nos facebooks, watsapps a sua indignação com os 260 meticais e apelam aos demais a recensearem-se até 17 de Maio de forma a ajustar as contas em Outubro, um sinal de que 260 não é o resultado correcto. Esta visão não má e não faz dos proponentes anti-patriotas, mas revela preocupação em resolver de uma vez por todas o problema, visto que aqueles a quem delegam não percebem nada de matemática do ensino primário. Será difícil, para os economistas e pseudo analistas formados em universidades de gabarito mundial: somar, subtrair, dividir e multiplicar?

 O Estado moçambicano tornou-se nos últimos anos uma terra sonâmbula na gestão dos assuntos laborais e por ironia o aumento salarial só serve à semelhança dos outros anos para se sujeitar a uma "babalaza" por oito meses, fruto de 1 de Maio celebrado com tseque, atum, camarão gigante, pão espiga d´ouro e bebidas Impala, Zed, Doublepunch e Soldado. 1 de Maio Hoyee!

 

 

 

Para se desenvolver o desporto, fica claro que cada passo que damos, tem que ter em conta a situação do país e os avanços dessa actividade no Mundo.

No futebol, não podemos e nem devemos ficar '”embebedados” com os avanços – tecnológicos e não só – que nos chegam e que noutras latitudes permitem aos atletas de alto nível, atingir patamares quase inacreditáveis, graças a um conjunto de meios que não estão ao nosso alcance.

Sonhar não é pecado. Mas a “macaquice de imitação” a que assistimos, só nos tem afundado nos “rankings”.

KMS do Moçambola: os de lá e os de cá

Há exigências da FIFA via CAF, que impõem obrigatoriedade no que toca a campos, equipas da formação, contabilidade organizada e outras, para se fazer alta competição. Entre nós, só um diminuto núcleo dos clubes atingiu.

Mas todos querem estar no Moçambola, chegar ao título para representar o país, sem satisfazer as exigências básicas.

De uma vez por todas, importa que fique claro que para se tomar parte na mais alta competição de qualquer país, não basta querer. É necessário também poder.

Os grandes clubes, que se impõem em de todo o mundo, representam regiões ou associações com tradição e mística, consolidada ao longo de décadas ou mesmo de centenários!

Temos, no nosso país, exemplos mais do que suficientes de clubes que nasceram por geração espontânea, fruto de entusiasmos ou  de endinheirados de momento, que “sobrevoaram” o Moçambola e rapidamente desaparecerem do panorama e da memória dos moçambicanos. Dois exemplos”: Wan Pone e Atlético Muçulmano.
Agora, com culpas repartidas entre clubes, Liga e Federação, após a promessa de um tipo de campeonato, vamos ter um Moçambola terrestre, nas ¾ partes do que falta jogar, mas cada vez mais aéreo. Ninguém pode prever o final desta aventura, num cenário de milhares de quilómetros num vasto território em que as estradas esburacadas e a má condução, são como que o pão nosso…
Previsões?
Os dirigentes de topo da prova, não vão acompanhar os atletas nos cansativos quilómetros, por questão de estatuto e de “outras tarefas inadiáveis”.

A qualidade do futebol, até agora com pouca espectacularidade, poderá ser para os atletas, apenas para “cumprir calendário”. Isto porque, uma vez mais, o artista que é o jogador e que deveria estar no centro das preocupações, será o “bode expiatório” da falta de realismo que ditou tudo isto.

Não faltarão “chicos espertos” a tentar comparar o incomparável: é que Messi e Ronaldo também fazem dois jogos por semana e por vezes percorrem grandes distâncias de autocarro… Tenham dó e, por favor, não se ridicularizem a comparar o incomparável!

 

 

“Nós não morremos na cama”, Rorschach
Se o imperialismo e a descolonização do sec. XX transformaram o mundo num campo de grandes guerras, o terrorismo do séc. XXI veio mergulhar o mundo em tempos sombrios.  A esfera pública, onde é suposto os humanos encontrarem-se e manifestarem seu ser através da palavra e acção, incorre no risco de transformar-se numa esfera de medo e solidão por conta do terrorismo.

A sensação de frequentar lugares públicos em países com mais registos de atentados terroristas é certamente de menos tranquilidade, pois nunca se sabe se o homem que passa por ti na rua não é um jihadista capaz de, repentinamente, tirar uma faca e começar a atacar qualquer indivíduo à sua frente; ou, se calhar, o veículo que segue contra tua direção é conduzido por um fanático capaz de irromper no passeio e atropelar toda gente que puder.

A insegurança também se faz sentir em transportes colectivos, supermercados, praças e outros locais públicos que, por registar maior fluxo de pessoas, se tornam centros estratégicos dos terroristas para detonar explosivos ou abrir fogo contra pessoas indefesas e desconhecidas. Nos tempos que correm, o terrorismo tornou-se, por excelência, um acto de banalização da morte por simplesmente atentar a vida de maior número possível de pessoas que nem sequer têm intimidade com autor do crime.

Ante este mundo que se nos afigura caminhar em direção ao abismo, constitui-nos uma surpresa que, no meio de tanta inércia humana ao sofrimento alheio, surja uma mulher voluntária chamada Aisha Bakari Gombe pronta a resistir ao terrorismo. Aisha Bakari é uma mulher nigeriana que, há três anos, decidiu usar sua espingarda familiar, não mais para caçar elefantes ou búfalos, mas para combater um dos grupos mais mortíferos da África e do mundo (Boko Haram).

Bakari coordena um grupo de sete voluntários de idade entre 15 e 30 anos e, juntos, já resgataram centenas de pessoas sob o domínio de Boko Haram, bem como mandaram para prisão vários militantes deste grupo. Mas o que mais há de formidável nesta mulher é o facto de ela ser desprovida de dotes físico-intelectuais que a possam assemelhar aos heróis de excelente inteligência e porte físico aos quais a história política nos habituou, porém, tampouco ela se sente desabilitada para lutar pelos seus ideiais.

Vendo e ouvindo-a, percebe-se que Aisha Bakari é, por excelência, uma anti-heroína cujo amor pela paz e justiça a faz desconsiderar sua falta de mestria na arte da luta, mas a move a combater pela liberdade dos outros.  Mesmo quando o governo da Nigéria parou de oferecer apoio militar e financeiro aos caçadores de Boko Haram – o que resultou na deserção da maioria – Aisha continuou a combater firme o grupo islâmico.

Enquanto outros são movidos por vingança dos seus entes queridos assassinados brutalmente pelo Boko Haram, ela deixa-se guiar pelos valores mais altos da humanidade: paz e justiça.
Por estas razões, julgo que Bakari perfaz o modelo duma ética de anti-herói digno de inspirar a nossa geração a erguer-se contra ondas de violência que infestam o mundo, não obstante a nossa falta de superpoderes.  

 

Escrevo debulhado em lágrimas. Oiço repetida e obsessivamente “Mamana” de João Cabaço. Uma vetusta gravação, realizada nos exultantes anos 80, em Berlim, na companhia de Hortêncio Langa e de Arão Litsure. Ouvi esta música durante esta tarde e comovi-me até às lágrimas. Oiço-a agora, que já anoiteceu. Choro de novo. Paro para chorar, continuo comovidíssimo. Ouvir o João cantar “Mamana waku hi xicuembo xa misava!”, naquele tom único da sua voz, naquele falsete, depois de um longo assobio, de cerca de um minuto, provoca um terramoto emocional, até em corações precatados, e eu não sou nem tenho, definitivamente, um coração prevenido.

Certamente que a plateia que o aplaude, em Berlim, não percebe o que ele diz, mas percebe aquilo que a música tem de mais universal: o sentimento. Este sentimento que perpassa por esta fissurante interpretação pode traduzir-se em todas as línguas do mundo. O João Cabaço morreu no dia 26 de Abril de 2016, faz, esta quinta-feira, 2 anos. Nunca tive esta música em disco ou em cassete, o que era usual naquela época. Recebia-a, pelo WhatsApp, há dois anos, e quando a ouvi, de novo, diante da comoção da morte do João, tive um grande sobressalto. Foi na rádio, quando só havia Rádio Moçambique, que eu a ouvi pela primeira vez e todas as primeiras vezes que se seguiram. Nunca a ouvi pela segunda vez. Não era possível. Não se ouve pela segunda, terceira ou quarta vez esta música.

Ouve-se sempre pela primeira vez. Cada vez que a oiço colhe-me e tolhe-me de surpresa. A magnífica simplicidade desta música: a letra, a composição e os arranjos sofisticados. A sua altíssima dimensão e densidade, a sua beleza e o seu conteúdo fortíssimo. Vi o João cantar esta música, com o Arão e o Hortêncio, ambos tocando guitarras acústicas, e ele nas congas. O João era um homem alto, bonito, imponente. Simpatiquíssimo. De uma humildade arrebatadora. Quem não o conhecesse, quem não o tivesse visto a cantar, quem não o ouvira, jamais poderia imaginar que estava diante de um músico genial. O João tinha um grande talento e passou ao lado de uma brilhante carreira.

Provavelmente, porque nasceu num país onde não é possível ser-se grande. Provavelmente, porque o génio dele dava para isso mesmo – para descurá-lo. A humildade do João Cabaço até hoje me espanta e aborrece: como ele desperdiçou a voz, o talento? Fui amigo dele. Mais do que amigo – um admirador. Ele era um gigante. O seu talento não desmentia a sua altura. Visitou-nos, algumas vezes, na nossa casa, quando vivíamos na 24 de Julho, em meados dos anos 90.

Passava para conversar. Ficávamos ali, diante de um copo de uísque, a falar. Incitava-o a gravar, a fazer um álbum que merecesse o seu extraordinário talento. Ele sorria. Tinha um sorriso que poderia parecer mefistofélico, mas não o era. Talvez fosse timidez, penso a esta distância.

Brincava com o Irati, um miúdo que mal andava. Vivíamos ali, numa casa despretensiosa, com uma sala ampla, quase desprovida de móveis e recebíamo-lo de braços abertos e ele sentia-se em casa. O João era assim. No entanto, um grande senhor da nossa música. Um imenso senhor, digo. Afável, humilde, discreto. Amigo dos seus amigos. Ali estava, na nossa casa, o cantor moçambicano que eu mais admirava e admiro.

Desde sempre e para sempre. Não havia outro, era ele. “Mamana”, se ele não tivesse composto mais nada, se ele não tivesse cantado mais nada, seria o bastante para ele constar no armorial da música moçambicana. Aquele assobio inicial, de cerca de um minuto, as guitarras do Arão e do Hortêncio, a voz. Aquela voz. Aquela soberba voz. A grande voz de Moçambique. Ouvi-lo cantar era uma dádiva. Tínhamos de estar gratos por ouvi-lo. E chorar de emoção por estar diante de tanta beleza. O João cantava como quem sussurra. Por vezes, fazia aquele falsete, e, depois, aquela voz soberana. Ele falava da figura da Mãe como Deus na Terra, do respeito divino e amor superior pela Mãe, pelas Mães, ele advertia que devíamos amar as Mães, não as esquecermos, que dava sorte temer, venerar, amar as nossas Mães. Oiço esta música e sinto qualquer coisa que não sei descrever que não sinto em mais música nenhuma. Uma força interior, uma força da natureza, uma força telúrica que se expressa contida e numa voz maviosa. Contradição? Não sei. Sinto um apelo. Um fortíssimo apelo. Esta música é uma música de uma grande beleza, de uma elevação, de uma estética e poética improváveis. Temos de temer os grandes, dizia Cabaço. No sentido da cultura africana. Como respeito. Como veneração. Como deferência. Ouvi esta música, em lágrimas, a pensar também na minha Mãe. Estive com a minha Mãe no domingo numa galhofa inesquecível. Aos domingos, quando estou em Maputo, visito os velhos. Falávamos das mulheres que o meu Pai amou, das muitas que amou, e ele, poeticamente, com a resposta na ponta da língua: amei só uma e olhou para ela. A minha Mãe. O José Craveirinha disse-me um dia: um homem, para amar uma, tem de gostar de muitas. Nunca me esqueci. Citei-o e o meu Pai não poderia estar mais de acordo. Exultou. Então, para celebrarmos a vida, abri um vinho e brindámos aos seus belos 81 anos, bebi uma taça e ele persistiu no seu velho uísque. É uma bênção tê-los vivos, penso sempre: a minha Mãe a caminho dos 80, em Outubro, a despeito da doença que a debilita, inexoravelmente. Esta música e esta interpretação, neste registo que oiço e volto a ouvir, está para além do nosso entendimento, do meu entendimento cabal. É algo transcendente. “Ooohhh, Mamana waku hi xicuembo xa misava, wenê!!!” – canta o João. E eu ali, mirando a minha Mãe, e pensando que sim: a Mãe só pode ser isso. Mãe é Deus na Terra, Mãe é sagrada, Mãe dá sorte. A Mãe do João, de nome Hagar John Mfumo, teve muitos filhos. O João era o terceiro, entre os rapazes, o último dos quais é o André, que também é músico. Quer as meninas ou outros dois rapazes não serão músicos. O João era, sem o desprimor dos outros, o filho predilecto da Mamana Hagar. O João Cabaço era um grande cantor, um grande intérprete, um grande compositor. Oiço e volto a ouvir pela primeira vez este “Mamana”, na grande voz, na belíssima voz, do João Cabaço. Ele teve a fortuna que o destino impõe aos músicos moçambicanos – o infortúnio. Agora cobre-se-lhe um manto de esquecimento. É o que está escrito no breviário da moçambicanidade. A morte dele provocou, há dois anos, uma comoção displicente. Dois anos depois, a despeito da família, não o oiço referido. É um homem esquecido. O maior cantor moçambicano teve este destino. Tiveram-no tantos outros. Faz parte do dislate da pátria ocultar os seus melhores. A eles se reserva o opróbrio disjuntivo da indiferença. A mediania impera e ulula, no entanto. Prefiro estar na companhia dos expungidos. Dou-me mal com a enxúndia. Aqui fica este meu parágrafo, inclinado e compungido, para o João Cabaço, enquanto oiço comovido até às lágrimas, pela primeira vez, outra vez, “Mamana”, o mais belo tema da música moçambicana, na mais bela e pungente voz que alguma vez ouvi, entre nós.

 

Há mares e mores;

Há verdades e grandes mentiras;

Constrói-se fama, mas também se difama.

Há muita gente, mas ninguém conhece ninguém…

Há egoísmo, há intolerância, há lobos, há crimes.

Sede prudentes?com a internet.

 

Sala de julgamento…agentes fortemente armados em cada canto do compartimento…o calor era dos infernos…vi suor gotejando/deslizando pelos contornos da cabeça de um dos réus, feito em uma cascata…

Senhor jornalista levante-se! Ordenou aquele juiz. Gelei…senti-me também réu. A sala estava cheia…todos os olhos grudaram em mim. O medo namorou-me em segundos conquistou-me e até quis casar-me. Eu também… porquê não recusei? Haaa…Não tinha como dizer não…foi tão rápido. Foi tiro e queda!

– Senhor jornalista. Algo a comentar?

Um suspiro…"Sim, meritíssimo. Venho cobrindo este caso há meses e sinto-me no dever de levar o seu desfecho aos  leitores e telespectadores!"

– Sente-se! Disse em tom de quem manda aquele juiz que tinha um calhamaço de papéis ao seu lado e o martelo de madeira prontinho…da silva para anunciar o veredicto.

 Uff…rapidamente pousei as traseiras naqueles bancos duros de doer.

– Ministério Público?

– Nada meritíssimo! Respondeu a parte acusatória.

– Como sabeis este é um acto público. A imprensa esteve aqui na leitura da acusação e fez o seu trabalho. Não há nenhum ilícito em permitir que eles o façam novamente hoje. Sendo assim, as vossas alegações não são procedentes.

Respondia assim, o juiz à recusa da defesa dos réus em permitir que nós – a imprensa – cobríssemos a leitura da sentença de um crime de rapto a um cidadão britânico na cidade de Maputo, sob pretexto de que os mesmos gozavam de presunção de inocência…

E o crime cibernético? Aparece como mais uma ramificação do dossier rapto.

Vamos a história…ela trabalha numa instituição do estado com fama de pagar bem aos seus funcionários…E sabe…Nessa coisa da vida, os amores aparecem em locais menos prováveis – e ao que tudo parece quanto mais improvável, mais caliente ele se torna – e foi o que conheceu! Ela conheceu um jovem que o descreveu como sendo elegante numa dessas redes socais. Ele apresentou-se como alguém que lida com pedras preciosas, mas tudo legal?… Sem muito tempo passar, ela teve uma explosão daquela coisa que arde por dentro chamada amor. Já trocava fotos e palavras daqueeelaaas…já sabem né? Sim, de amor…Meses se passaram e aquele sentimento indiscritível…começava a fazer "estragos' no coração dela…e quem nunca sofreu tais estragos, tais abalos, tais…?

Certo dia, ela recebeu uma chamada telefónica de alguém que se identificou como um agente da polícia a dizer que o seu namorado – diga-se virtual – estava detido em Manica e que ela era a única esperança dele. Exigiu que ela tinha que arranjar… tantos dólares para que o seu amado fosse solto.

– Não tinha o referido valor, mas pedi para que me desse provas de que se tratava dele. No primeiro dia disse que não era possível. Só no segundo dia é que consegui falar com ele. Avançou ela em sede do tribunal, perante o olhar e escutar atento daquele juiz, e continuou.

– Na conversa que tivemos ele pediu ajuda e disse que me iria reembolsar o valor logo que chegasse a Maputo…

Movida então pela força (ir)racional do sentimento que a possuía, juntou o que tinha e ainda endividou-se para safar o seu príncipe do covil? E assim foi…combinou-se que o valor seria entregue em mãos a um amigo dele numa dessas ruas da cidade da Matola e tal sucedeu.

– Estranhei como estava vestida a pessoa que veio buscar o dinheiro. Era magra, com aparência estranha e débil, detalhou a senhora ao juiz.

O que ela não sabia, na altura, é que estava feito uma ovelha no meio de lobos.

Dias se passaram… feedback que é bom? Nadaaa!

– Ligava para aquele número…mas ninguém atendia. Recordou…

Noites em branco ela passou – já imagino a angústia e desespero…provavelmente mil e um cenários atravessaram os seus miolos – mas nada!

Eis que num dia…recebeu uma chamada proveniente da PIC (agora SERNIC – Serviço Nacional de Investigação Criminal). É que ela estava embrulhada num conjunto de contactos associados ao rapto, sim o rapto…mas como? Calmem já explico…

É que o seu suposto namorado não trabalhava com pedras preciosas coisíssima nenhuma….era sim um recluso a cumprir pena na BO (Cadeia – Supostamente – de Máxima Segurança). E o seu colega de cela – o polícia aquelee que ligou para exigir aquela quantiaaa a senhora – foi quem ligou para o filho da vítima do rapto a exigir o dinheiro de resgate. Isso mesmo…o resgate foi exigido a partir de uma das celas da BO.

– Não se explica… que num dia como hoje as equipas de fiscalização recuperem todos os telemóveis nas celas, para dias depois voltar a se encontrar mais aparelhos nos mesmos locais. Estranhou o juiz, com semblante de preocupação.

Durante a investigação descobriu-se que o namorado virtual não era quem se mostrava ser no perfil da rede social, não era tão jovem. Era sim… um colombiano de idade avançada.

E o amor incompreensível? Foi o juiz quem denunciou em sede de julgamento.

– Como a senhora foi capaz de fazer isso? Com tantas crianças órfãs desde a Matola até a cidade de Maputo, algumas delas em orfanatos?Como é que foi capaz? Questionou aquele juiz em tom de preocupação e sentimento de incompreensão perante a senhora burlada.

Sucede que depois da ligação feita pela PIC, acabou se concluindo que ela era mais uma vítima. Colocaram-na frente-a-frente com o seu carrasco.

– Porquê fizeste isso comigo? Questionou ela.

– Peço desculpas pelo que fiz, sinto muito. Disse o recluso

Palavras descritas pelo juiz em sede de julgamento.

O estranho é que mesmo depois do sucedido, ela comprou material higiénico e outros produtos para ofertar àquele homem. Uma atitude não encaixava nos parâmetros de lucidez daquele juiz.

– Mas minha senhora, o que pretendia com aquela atitude. É assim…alguém lhe faz tanto mal e ainda tem caridade para com ele? Aquele é um criminoso é um cadastrado. Reiterou o juiz perante um silêncio ingênuo da senhora que parecia não ter a dimensão das palavras do juiz.

E o débil, aquele que recebeu a quantia conseguida pela vítima do golpe? A investigação chegou à sua identidade…tratava-se de um recluso que se encontrava fugitivo da BO desde 2011. Foi quem – na companhia de seus comparsas – executou o rapto na Avenida de Angola. Na altura, eles dispararam contra a vítima – diga-se idosa – e porque até a sentença não se tinha seu paradeiro concluiu-se que não teria resistido aos ferimentos: foi dado como morto. Até a leitura da sentença… o fugitivo ainda vagueava por aí…não se sabia a sua localização. (Qual filme de hollywood? Cenas made in Mozambique.)

– Como é possível que alguém consiga fugir da BO, entre na cidade de Maputo execute um crime à luz do dia e a Polícia não o encontre. Não sei  porque é que a nossa Polícia não copia procedimentos tão simples quanto divulgar fotografias de pessoas suspeitas ou foragidas…Lamentou o juiz

E o martelo? Sim aquelee de madeira… Sentenciou que parte dos réus cumprissem penas de prisão maior por se ter provado o seu envolvimento naquele crime macabro.

Esta é apenas uma parte de várias histórias de um julgamento que cobri em 2015…não me esqueço!

 

 

Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas.

Mateus 10:16

 

 

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