O País – A verdade como notícia

Um Farol Dakêles

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.

Fernando Pessoa

Ao Badrudine Remane,
pelo aniversário e amizade!

Quando a luz da viatura deflagrou sobre os meus olhos ao contornar a esquina do Moiane, a noite ainda era uma criança. A conversa com Amós Tembe fluía ao sabor das baforadas do Maronga que discorria novelos dos seus momentos áureos. Como uma vez disse o saudoso Amaral Matos foi no tempo que o rico ainda era pobre.

Aquela viatura sintonizava o meu olhar, num misto de curiosidade e desassossego, marchando lentamente, ao passar diante do bar Barcelona, iluminando silhuetas que, vistas à distância me pareciam do próprio Dakêles, o Badrudine Amade na companhia do Caniate, meu chará pendurados no murro.

Vou abrir um parênteses, explicando o cognome Dakêles. No ano das primeiras eleições autárquicas juntámos meticais e decidimos ir em grupo a um lugar que apenas era frequentado pelos nossos pais. Naquela época a nossa obrigação passava por cumprir a missão matinal de ir à padaria Império, no mesmo edifício do emblemático restaurante matolense. Foi numa tarde de sábado que decidimos enfrentar a esplanada do restaurante O Condestável. E, quando degustavámos já da refeição deu-se uma algazarra qualquer. Levantámo-nos para conferir as imagens do combate, em directo. Mas afinal era tudo fogo de palha! O guarda tratou de enxotar os dois desocupados. Ao retomarmos à mesa os seis pratos tinham sumido, misteriosamente. Interpelámos a moça que nos atendera à chegada. Ela reagiu de forma memorável!

– Xi! Me desculpem, moços. Pensei que vocês fossem daqueles que comem um pouco e depois deixam.

Naquele instante desabou uma ruidosa gargalhada, entre gozo e espanto. O Badru era o tesoureiro do dia, por isso herdou a alcunha Dakêles até hoje.

E, voltando à viatura que riscava o meu olhar, já bem perto, aproximando-se do nosso refúgio. A prata debruando a chaparia do bólide, não nos intimidava. Estávamos metidos naquela conversa terapêutica na Casa Guida. O Xandolas rondava gesticulando solenemente, atendendo a um telefonema regado de importância que só ele sabe conferir.

Oh, Guida, mais uma rodada p`ra estes plebeus – berrava Amós Tembe, naquela voz enrouquecida e jovial.

De seguida uma jovem rompia entre os assentos, fintando as mesas onde militavam Ana Maria, a Melinha, a ministra, o Eng. Sidónio, a professora Emeliana Kanko, a Ivete, a turma dos ireverrentes da mesa 9, em conversa animadíssima, o Miro, o Ferdinando, o Julinho, a Pipinha, a Míriam, o Zú, o Herbok, o Ben Hur, o stôr Ckobra e outros que já perdí de memória.

Antes de voltar à história da viatura que prendia a minha atenção, o velho Nhanombe, ao levantar-se da sua mesa para os lavabos exibiu os seu status, dirigindo-se ao Miro:

– sobrinho, deixa-te de histórias. Se não tens nada para falar assobia! Estás espantado por eu te dizer que vi este carro a ser montado na Escócia, hein? Vi-o, mazé ainda a ser rebitado. Isto é um Defender da última geração. Um carro quando é caro é assim… O Miro permanecia sereno, ignorando a fumaça de vaidade espelida por alguém que tinha idade para ter o juizinho no lugar. Apercebi-me naquele instante que Zú, Julinho, Herbok e Ben Hur levantavam-se, num gesto de respeito e cortesia.

É ele. Sim, ele mesmo. É, juro cinco chagas – a prima Ana Maria era a ilustração do espanto colectivo.

Os nossos olhares fisgados debruçavam-se sobre a figura sorridente que ia nos saudando.

O homem meteu-se entre a multidão, qual comitiva de recepção improvisada. A mão foi passando ao de leve por todos os presentes, numa saudação breve, mas fraterna. O senhor de fato preto fez-se ao balcão entre obediência e hesitação num terreno que era suposto ser ele a comandar as operações. O líder, sempre sorridente era o centro dos olhares e da conversa animada.

Tia Guida não cabia em si de contente. Os maiorais, com lugar reservado no quintal, movidos pelo vapor da cortesia entregavam-se ao aperto das mãos, entre sorrisos e brilho nos olhos.
– Como vai, Chefe? – ouvíamos o velho Nhanombe, liderando já o grupo dos mais-velhos, composto por nomes sonantes, quais anfitriões de ocasião, perguntando pela saúde do visitante.

Muito bem. E agora estou muito feliz por estar convosco, meus irmãos.
O senhor de fato preto arremessou a encomenda para a viatura. Antes do aceno final, o ilustre visitante selou a noite.
Dona Guida não esquece daquela oferta p`ra os meus amigos se divertirem todos.

Uma ruidosa salva de palmas ecoou sobre o lugar.

Não fosse aquele o dia inaugural e talvez o último, de visita à Casa Guida estas imagens não conservariam a frescura, desfilando o sorriso escoltado pela brancura dos marfins e aquele aceno na despedida.

As luzes do mercedes benz voltaram a incendiar as sombras das acácias que se perfilam na rua Malangatana. Aquela noite estava condenada a ser memorável e, do lugar onde estávamos sentados podíamos ver as pétalas amarelas que atapetavam o chão, ilumunadas por faróis dakêles.

 

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