O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

O Comunicado de Imprensa da CNE, tornado público no dia 21 do corrente, contém deliberações relativas a passos cruciais do processo eleitoral em curso que se prendem com os direitos dos candidatos, partidos e grupos de cidadãos, que mereceram reacções imediatas dos vários quadrantes políticos, e sobretudo jurídicos. É nesta última perspectiva que pretendo situar o meu breve comentário sobre alguns aspectos em que considero necessário todo o rigor de interpretação das normas pertinentes, sob pena de se ver prejudicada, à partida, a liberdade, justiça e transparência, que devem caracterizar os processos eleitorais.

A controvérsia que se está levantando sobre alguns desses aspectos evidencia o sentido crítico e de vigilância com que se acompanha o processo. Esse sentido crítico e de vigilância faz parte da fiscalização do processo eleitoral, a qual não é restrita ou exclusiva dos candidatos, dos partidos ou dos grupos de cidadãos, pois é interesse de toda a sociedade, podendo constituir uma inestimável contribuição para que se corrijam ou se evitem erros e violações.

Assim,
No n°1 do Comunicado notifica-se um certo número de cidadãos subscritores da lista da AJUDEM para corrigir algumas irregularidades, atinentes aos requerimentos de desistência que submeteram à CNE, em conformidade com o n°2 do artigo 30, da Lei n°7/2018, de 3 de Agosto, que permite «…a desistência de qualquer candidato constante da lista, através de declaração…assinada e reconhecida por notário…», declaração esta que deve ser feita «…até dez dias depois da publicação das listas definitivas…», conforme o n°1 do mesmo artigo. Depois disso a CNE, nos termos do n°3 desse dispositivo, «…manda imediatamente afixar a deliberação respectiva sobre a matéria…», «sobre a matéria» entende-se sobre a desistência do candidato.

O n°3 do artigo 30, ao tratar desta matéria, pára na publicação da deliberação da CNE sobre a desistência, sem que complete, pelo menos de forma explícita, o regime que regula a situação criada. Porque se atentarmos nos números seguintes, o n°4 e o n°5, que tratam da desistência do candidato a cabeça de lista, aí já se prevê expressamente o regime da sua substituição. A qual se faz pelo segundo da lista ou então reorganizando a lista.

Ora, assim como os partidos, coligações de partidos ou grupos de cidadãos, têm a prerrogativa de substituir os cabeças de lista por virtude da sua desistência, também lhes assiste o mesmo direito em relação aos demais membros da lista. Dando lugar à publicação de nova lista em relação aos candidatos desistentes, nos termos do n°2 do artigo 29 desta lei.

Esta é uma prerrogativa inquestionável dos partidos, coligações de partidos ou grupos de cidadãos. Porque a não ser assim estar-se-ia a introduzir um elemento de extrema insegurança, eventualmente de manipulação e de má-fé, que a lei eleitoral não pode propiciar ou caucionar.

Admitir isso seria o mesmo que legitimar todo o tipo de chicana eleitoral, antes mesmo dos próprios pleitos, com o presumível fim de se eliminar concorrentes, fora e à margem das urnas.

Os partidos, coligações ou grupos de cidadãos, não podem ficar à mercê de factores dessa natureza. Uma vez que eles cumpram com as exigências da lei, dentro dos prazos por ela estabelecidos, não podem ser colocados como inadimplentes pela deficiente interpretação da lei, instrumentalizada para dar cobertura a permissividade, caprichos e má-fé, de alguns componentes das suas listas. Senão mesmo á prática, tornada corrente, de «compra de consciências».

Portanto, no caso vertente, a CNE, ao mesmo tempo que torna pública a deliberação sobre as desistências, nos termos do n°3 do artigo 30, terá que dar um prazo não inferior ao previsto no n°5 do mesmo dispositivo, para que o grupo de cidadãos em causa proceda á substituição dos desistentes da respectiva lista.

E, naturalmente tem que haver um limite a partir do qual nem os partidos, coligações ou grupos de cidadãos, nem os integrantes das listas, podem provocar alterações nestas. Para a moral, segurança e estabilidade do processo eleitoral.

Quanto ao artigo 13 da Lei n°7/2018, de 3 de Agosto
A controvérsia sobre a interpretação do artigo 13 tem girado à volta da questão da retroactividade ou irretroactividade da nova lei que veio expressamente revogar a Lei n°7/2013, de 22 de Fevereiro. Não é essa a questão sobre a qual me vou debruçar, mas sobre o n°2 do artigo 155 (Incompatibilidades) da Lei n°7/2007, de 26 de Fevereiro, sobre a eleição do Presidente da República e a eleição dos deputados da Assembleia da República.

Esta norma estabelece, entre outros, o seguinte:
«O Mandato de deputado é incompatível com a função de:
1.………
f) titular de órgãos autárquicos
2. As entidades referidas no número anterior que sejam eleitos deputados e pretendam manter-se naquela função, devem ceder o mandato de deputado nos termos previstos pelo artigo 182 da presente Lei.»

Portanto temos que, por um lado, a Lei n° 7/2018, de 3 de Agosto, Lei da eleição dos membros dos órgãos autárquicos, não impede os titulares de órgãos autárquicos de se candidatarem para a Assembleia da República, e, por outro, temos que é a citada Lei n°7/2007, de 26 de Fevereiro, que vem estabelecer a incompatibilidade entre o mandato da AR e o mandato nos órgãos autárquicos. E estabelece-a de uma forma que não podia ser mais clara, no sentido de que, os titulares de órgãos autárquicos, que forem eleitos deputados da AR, terão que renunciar ao mandato da AR se porventura quiserem permanecer titulares daqueles órgãos. O que significa que se tomarem assento na AR não precisam de fazer mais nada porque perdem automaticamente o mandato nos órgãos autárquicos por efeito dessa tomada de assentos na AR.

Se acaso estes titulares, por via de algum equívoco de interpretação da Lei, submeteram renúncias de mandato nos órgãos autárquicos, sem que isso seja necessário ou exigido por lei, tais renúncias são irrelevantes, porque eles perdem os mandatos por força da lei e não por força das suas renúncias juridicamente irrelevantes.

Por isso não pode a CNE vir agora retirar efeitos jurídicos inexistentes de irrelevantes renúncias.

Na verdade essas renúncias só poderiam relevar se eles não tivessem sido eleitos para a AR. Só e apenas nessa hipótese.

É preciso entender que não se está perante normas isoladas e que possam ser consideradas sem qualquer relação uma com a outra. Estas normas integram o sistema eleitoral, desde as autarquias, às Províncias e aos Órgãos de Soberania. Nesta perspectiva sistémica as normas não se atropelam nem se sobrepõem, mas articulam-se harmoniosamente e em coerência com os objectivos e com o funcionamento integrado do sistema.

Assim, cada norma tem o seu objecto, e tem o seu âmbito de aplicação. A norma que comina as renúncias com a penalização de inelegibilidade, aplica-se àquelas situações em que os membros dos órgãos autárquicos abandonam os respectivos mandatos sem qualquer justificação legal, e «vão à sua vida». Já a norma sobre incompatibilidades aplica-se a outras situações, quais sejam, as daqueles que prosseguem a sua carreira política em Assembleias de nível superior sem interrupção de actividade política. O tratamento que é dado a essas situações nunca poderia ter um carácter sancionatório mas apenas de proibição de acumulação de funções ou de cargos, como a lei justamente fez. Portanto, numa interpretação rigorosa das leis em causa, cabe ao intérprete fazer esta separação de águas, para não criar ele, o intérprete, a confusão que não existe.

No que estou em concordância com a linha de interpretação expendida pelo DR. Teodoro Waty, e sobretudo também com o seu veemente chamamento à ética e moralidade, que se presumem nas leis e que devem prevalecer na interpretação e aplicação das mesmas.
 A posição da CNE quanto à candidatura de Silvério Ronguane

A candidatura de Silvério Ronguane, pelo que sei, encontra-se na mesma situação da candidatura de Venâncio Mondlane. Mas a CNE não teria tomado nenhuma posição em relação à mesma alegadamente porque não recebeu nenhuma reclamação a respeito.
Ora isto me parece de um absurdo inadmissível pelas razões que passo a aduzir.

A Constituição da República estabelece, no n°3 do artigo 135, que «A supervisão do recenseamento e dos actos eleitorais cabe à Comissão Nacional de Eleições, órgão independente e imparcial…»

Por seu lado,a Lei n°8/2007, de 26 de Fevereiro, Lei da CNE, e que regulamenta a definição constitucional, vem determinar, no n°2 do seu artigo 2, que «entende-se por supervisão a função de, orientar, dirigir, superintender e fiscalizar os actos do processo eleitoral».

No artigo 7 (Competências), desta lei, de entre as competências atribuídas à CNE, estabelece no n°1, alínea b), a de «assegurar a igualdade de tratamento dos cidadãos em todos os actos do processo eleitoral», na alínea c), a de «assegurar a igualdade de oportunidade e de tratamento dos partidos políticos e coligações de partidos ou grupos de cidadãos eleitores proponentes em todos os actos do processo eleitoral», e na alínea f) a de «receber e apreciar a regularidade das candidaturas às eleições legislativas e autárquicas».

Os dispositivos aqui transcritos não requerem nenhum particular esforço de interpretação para se constatar que a CNE, ao abster-se de conhecer da candidatura de Silvério Ronguane, com fundamento em não ter recebido nenhuma reclamação, violou a Constituição e a lei.

Violou a Constituição porque não assumiu o seu múnus de supervisão, tal como estabelecido no n°3 do artigo 135.

Absteve-se de dirigir e de fiscalizar a conformação com a lei da candidatura de Silvério Ronguane, no que era seu dever de ofício.

Ao proceder desse modo tratou de forma discriminatória e prejudicial a candidatura de Venâncio Mondlane e tratou com favoritismo a de Silvério Ronguane.

Em duas situações rigorosamente idênticas tratou de forma desigual o Partido RENAMO e o MDM, acabando por, na prática, utilizar «dois pesos e duas medidas».
Recusou-se a apreciar a regularidade da candidatura de Silvério Ronguane, no que era seu dever de ofício como já referi.

Salta á evidência a insustentabilidade da actuação da CNE num caso, e da sua omissão no outro.

Em conclusão, é minha convicção que estes problemas, que desde já perigam a liberdade, justeza e transparência do corrente processo eleitoral, poderão encontrar o devido remédio e correcção no Conselho Constitucional como instância última de recurso.

 

“Eu rebelo-me, nós existimos”
Albert Camus

Eis o voo arriscado da coruja da Minerva sobre os factos políticos antes de o sol se pôr. É mais provável que seja cedo para se lançar uma luz filosófica sobre a natureza imediata dos fenómenos políticos, mas ante o acto de rebeldia de Samora Machel Júnior (Samito) em querer conduzir o destino de Maputo fora das rédeas da Frelimo, a coruja da Minerva sente-se também atentada a rebelar-se do seu horário normal do voo e escalar o céu para avistar a marcha do Espírito absoluto. Na verdade, todo o acto rebelde é, por excelência, espontâneo e indisciplinado no sentido de desconsiderar a circunstância em que se revela e preocupar-se simplesmente com o desejo de impor-se.

Poderá ter havido alguma preparação para saída de Samora Machel Jr. da FRELIMO, embora não deixe de se destacar o espírito de rebeldia no facto de Samito ter deixado a grande máquina política que é FRELIMO para afiliar-se a um minúsculo organismo que é AJUDEM com uma fama de anonimato na esfera pública. O acto inopinado de Samito revela-nos um indivíduo que, agastado com a infâmia do partido tradicional, decide saltar do barco sem muito considerar onde vai cair. O importante para Samito parece-nos que foi salvar a sua consciência e o nome da família Machel, ao discordar explicitamente do comportamento do partido. Após uma FRELIMO colonial e libertadora que, sob a liderança de Mondlane e Machel, se apresentava à maioria do povo moçambicano, disciplinada, austera e focada no bem comum da população, é deveras consternador que a FRELIMO dos dias de hoje esteja implicado em graves escândalos de corrupção. Que as magnas dívidas ocultas, o tráfico de madeira e a devastação económica evitável que ligam elites deste partido não me permitam o engano.

Certamente que nem todos os membros deste partido libertador compactuam com esta má imagem da FRELIMO. Mas se não compactuam, o que é que fazem para distanciar-se? A passividade e a indiferença são filhas da conivência. Dos homens que não quiseram que a sua imagem fosse envolvida a um ignóbil fado tiveram coragem suficiente de dar-se à história como mártires, rebeldes, reacionários, revolucionários ou reformistas. Aqueles que conscientes do problema não tomaram nenhum acto de insurreição são tão coniventes quanto o povo alemão perante o holocausto de Hitler, não importando a forma da sua culpa se é pelo medo ou lealdade ao partido. Embora de maneira tímida, Samito acaba de demarcar um distanciamento moral da FRELIMO. A infâmia que pesa sobre o partido no poder já não é mais da carga de Samito. Ele já está em plena paz política consigo mesmo. Ou melhor, ele devia estar em plena paz espiritual consigo mesmo, pois, como disse Severino Ngoenha, não existe uma moral política separada duma moral pessoal.

Entretanto, ainda que seja louvável desertar o partido, este acto não é única forma de manifestar a discordância activa. É possível continuar dentro de uma instituição sem compactuar com a sua conduta, por meio da crítica e reforma. Um dos melhores exemplos sobre esse modus vivendi num habitat hostil é o próprio Samora Moisés Machel dentro do partido FRELIMO. Quando a FRELIMO da independência começou a mostrar sinais de degeneração política, Machel mostrou-se único de todos os líderes comunistas a criticar publicamente e veementemente o seu próprio partido. Criticou e prometeu sérias reformas sem precisar desvincular-se da FRELIMO. E o povo do então soube que dentro da FRELIMO havia sabotadores e corruptos, mas o presidente não era um deles.

De modo geral, avaliando os últimos eventos de dissensão que têm sucedido aos partidos libertadores em África pode-se vislumbrar que o Espírito absoluto cogitado por Hegel como ideia de autoconsciência está interessado em proceder a sua marcha dialética no continente negro. As peças do grande desígnio já começam a mover-se sob a magna razão. Os fenômenos políticos que, amiúde, se nos afiguram corriqueiros dentro dos partidos de libertação, quando olhados de maneira holística começam a revelar-nos a silhueta do futuro dos partidos políticos em África – que é a democracia interna. Se o fim último da história dos homens visto por Francis Fukuyama é a democracia, há uma obrigação que a organização interna dos partidos políticos termine democrática. Porque o movimento do Espírito absoluto não permite contramãos, todo o partido que resistir ao vento da mudança arrisca-se a ser esmagado, preterido e olvidado.

Vejamos o que está acontecer com o MPLA, após longos anos de ditadura de José Eduardo dos Santos, foi preciso que o Espírito absoluto introduzisse a peça de João Lourenço para operar reformas necessárias rumo à democracia. O trabalho de João Lourenço poderá não ser exaustivo mais já é um grande passo para a democratização do MPLA. O partido no poder da Nigéria, APC, sofre em 2018 deserções profundas motivadas por altos níveis de corrupção e incompetência que enferma a governação de Muhammadu Buhari. É chegada altura deste partido reorganizar-se de maneira mais democrática possível sob o risco de perder o poder. O ANC da África do Sul é relativamente um dos partidos mais democráticos de África desde a deserção de Malema e escândalos de corrupção de Zuma que obrigou o partido a expulsa-lo do poder. Soube gerir a crise e democratizou-se. O ZANU-PF, partido no poder do Zimbabwe, já começou a dar passos significativos rumo à democracia, quando em novembro de 2017, Mugabe foi forçado a renunciar ao poder por ter tentado transformar o partido num órgão familiar cujo chefe era ele. O mesmo espírito de mudança assombra a FRELIMO, no bom sentido, quando Samito decide romper com o partido do seu pai, alegando falta de democracia.

Por isso, o acto de Samito não devia ser visto simplesmente como uma decisão pessoal, mas como um dedo do Espírito absoluto na sua marcha pela democratização dos partidos políticos em África. A crise deu entrada no partido FRELIMO, não só pela dissensão marcante de Samito, mas por existir membros que estão indignados com a imagem ignóbil deste partido tradicional. Mas a crise pode ser motivacional bem como fatal, dependendo da forma como ela é gerida. Cabe, portanto, à FRELIMO, considerar a situação crítica actual em que se encontra como chamada de atenção para sua democratização ou como mais um acontecimento trivial que não coloca em perigo a sua pujante existência. Samito foi mais um dado bem jogado pelo Espírito absoluto. A FRELIMO, assim como MDM, RENAMO e outros partidos da África deviam cooperar o mais rápido possível com a grande marcha de democratização partidária de modo a poupar-se o esforço de despertar tardiamente com grandes perdas, pois, de qualquer forma a democratização dos partidos é certa. Somente os partidos democráticos são capazes de sobreviver num futuro em que Estados do mundo estão condenados a respirar a democracia. Quanto mais cedo os partidos políticos ganhar a consciência que a liberdade de expressão e transparência no seu funcionamento interno é única via de manter-se em “forma”, mais crises desnecessárias poderão evitar.

 

O Apóstolo da Desgraça

Nelson Saúte

Escritor

A guerra e a paz de Kofi Annan

Numa entrevista de celebração, para o programa HARDtalk, da BBC, realizada pela jornalista Zeinab Badawi, aquando dos seus 80 anos, em Abril, em Genebra, Kofi Annan voltou a impressionar-me pela sua figura impassível, indubitavelmente fleumática, quase pachorrenta, mesmo quando a jornalista britânica, de origem sudanesa, agitou os fantasmas que assombram a sua longa e admirável biografia. Quando abordou o genocídio dos tutsis no Ruanda, em 1994, e as responsabilidades de Annan – era ele na altura Subsecretário Geral para as Operações de Paz, Badawi foi intrépida ou até mesmo inclemente. Ela não tem a pesporrência de Stephen Sackur, fá-lo com candura, mas isso pareceu-me até muito mais verrinoso. Tive, porém, dois sentimentos contraditórios: se por um lado, me parecia quase uma traição, num momento festivo, insistir com aquele tema, e daquele modo, reduzindo uma carreira exemplar, a esse facto incontornável, que tem sido recorrente e foi amplamente esclarecido pelo próprio, tanto nas suas memórias, como nas entrevistas que tem dado; por outro, empolgou-me o facto de o interlocutor ter dado uma resposta serena e coerente com aquilo que tem sido a sua posição. Kofi Annan não se exasperou, foi até compassivo. Ali também escrutinei, naquele momento, as razões de uma longa e bem-sucedida trajectória.

Poucas semanas depois estive com o meu bom amigo Carlos Lopes, na Cidade do Cabo, onde nos encontramos amiúde, prolongando um convívio que praticámos há mais de 25 anos. Carlos Lopes é oriundo da Guiné-Bissau e serviu longamente as Nações Unidas. Trabalhou junto de Kofi Annan – tendo sido seu director político e pertence hoje ao grupo de conselheiros da Fundação que leva o nome de Annan. Ele estava na ocasião da entrevista, em Genebra e interveio, como intervieram Mo Ibrahim (sudanês), Martti Ahtissari (foi Presidente da Finlândia e é Nobel da Paz em 2008), Mary Robinson (foi Presidente da Irlanda e foi Alta Comissária para os Direitos Humanos, entre 1997-2002, no tempo de Annan), entre outros. Falei-lhe da minha perplexidade perante a resoluta interpelação de Zeinab Badawi e a sua impolida insistência no tema ruandês. E sobre a impressão que aquela sólida personalidade que o velho diplomata africano voltara a provocar em mim, sobretudo a sua serenidade. Em toda a entrevista Kofi Annan demonstrou a sua fortíssima e corajosa notabilidade e autoridade, o seu bom humor e os valores altruístas: o homem do diálogo, da convergência, da paz, dos direitos humanos, da defesa intransigente das sociedades civis – tudo aquilo hoje vejo sublinhado nos telejornais que dão conta da sua morte. A sua esperança inabalável sempre me causou impressão.

Samantha Power, que foi embaixadora de Barack Obama nas Nações Unidas, proferiu uma das mais impenitentes diatribes contra Annan: “O seu nome vai aparecer nos livros de história ao lado de dois crimes de genocídio definidores do século XX”. Outro que apontou violentamente o seu dedo a Annan foi Romeo Dallaire, que era o comandante da ONU no Ruanda. Dellaire enviara, em Janeiro de 1994, para a sede das Nações Unidas, um fax pedindo autorização de Annan para uma acção militar preventiva visando deter o movimento dos que seriam responsáveis pelo genocídio que ensombraria a história daquele país. Os americanos tinham acabado de ser expulsos da Somália – dois helicópteros dos EUA tinham sido atingidos por milícias somalis e este facto esteve na origem da morte de 18 elementos da força de elite americana. Annan viu na proposta de Dellaire um risco semelhante. “No pedido transmitido por Dellaire para um raide, vimos os ingredientes para um desastre semelhante ao raide falhado a Aidid, em Mogadíscio, três meses antes – mas com uma força que era mil vezes mais fraca em termos de capacidades militares e totalmente isolada de uma possibilidade de reforço”. Annan escreve isto nas suas memórias – Interventions (Intervenções). Ele era, à época, o responsável pelas operações de paz da ONU. Outro episódio tem a ver com a Bósnia e à protecção dos abrigos de civis em Srebrenica. “Para um homem, ou para uma criança, para quem a presença de um capacete azul é tudo o que separa a segurança da morte certa, a conversa sobre mandatos limitados, meios inadequados, e missões com poucos recursos – por mais certas que seja – é no mínimo, e na melhor das possibilidades, uma traição”, admitiria ele nas suas memórias. Não teve o apoio do Conselho de Segurança no caso da Bósnia e não tornou isso público. O seu silêncio justificava-se pela crença de que não caberia a um funcionário público internacional enxovalhar os governos que integram as Nações Unidas. Os EUA decidem, no entanto, intervir na Bósnia, em Agosto de 1995, e Annan apoia a intervenção e é aliado dos americanos para ultrapassar a resistência da ONU ao bombardeamento de alvos sérvios. Esta acção americana com a ajuda dos croatas conduziria às negociações de Dayton.

Paradoxalmente, quando é escolhido para suceder a Boutros Galli, no cargo de Secretário Geral, pelos americanos justamente, Annan emprestou à instituição o seu enorme prestígio moral, que é o seu grande legado, a despeito destes episódios que o perseguiriam desde então. A sua audácia tranquila foi importante para apaziguar os republicanos anti-ONU e permitir que os americanos descongelassem as suas contribuições para a ONU. Hoje, grande parte do trabalho de António Guterres passa-se nesses labirintos sinuosos de Washington. Annan foi um mestre nessa arte. A sua grande habilidade negocial é lendária. Circunspecto mas afável, tinha carisma e charme, e municiava-se de uma capacidade intelectual invulgar. A sua serenidade dava-lhe autoridade. Mas também a humildade. Annan era um grande conciliador. Não recusava falar com ninguém: fosse tirano, criminoso, déspota ou estadista impoluto. Era o homem perfeito para aquele lugar.

A sua reiterada esperança, o seu inabalável idealismo, e a sua enorme e pachorrenta capacidade de diálogo não tem paralelo na história da diplomacia africana e mundial. Michael Ignatieff, que foi líder do partido liberal no Canadá, da oposição, redigiu uma recensão crítica ao seu livro de memórias e descrevê-lo-ia assim: “Como se explica a longevidade do prestígio moral de Kofi Annan? O quebra-cabeças é ter sobrevivido a falhanços, tanto seus como da instituição que serviu durante 50 anos. O carisma é apenas uma parte da história. Para além do seu charme, que é muito, há também a autoridade que vem da experiência. Poucas pessoas passaram tanto tempo em mesas de negociações com bandidos, senhores de guerra e ditadores. Ele tornou-se no emissário mundial para as trevas.”

Outro grande paradoxo da vida de Annan prende-se com o facto de não ter tido lugar para se afirmar na sua terra natal, o Gana. O mesmo paradoxo cobre a brilhante trajectória de Carlos Lopes. Foi nas Nações Unidas, entre Genebra e Nova Iorque, que este africano se tornou num político global. Actuou em áreas complexas da organização como orçamento e recursos humanos. Fez uma impiedosa ascensão. Com um árduo trabalho de paciência e perseverança contornou problemas, manteve intacta a sua reputação. Foi o primeiro funcionário das Nações Unidas a chegar a Secretário-geral. Um outro que fazia o mesmo tirocínio é o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, dez anos mais novo, amigo de Annan, que o representaria fatalmente em Bagdade. São dilacerantes as imagens deste diante do féretro do outro. Annan morre um dia antes dos 15 anos da morte de Mello, que ocorreu a 19 de Agosto de 2003, num ataque terrorista. Samantha Power escreveu uma comovente e belíssima biografia de Sérgio Viera de Mello – One Man´s Fight to Save the World (O Homem que Queria Salvar o Mundo, na versão portuguesa). Não gosto particularmente do que ela disse de Annan, que me parece profundamente injusto, mas reconheço o seu notável trabalho aqui.

O percurso de Annan tem mais acertos de que falhanços. A sua posição sobre o Iraque é uma delas. Ele foi contra a intervenção americana e queria que houvesse mais tempo para que Hans Blix (inspector da ONU) e a Agência Internacional de Energia Atómica confirmassem as suas conclusões que Saddam Hussein suspendera, em 1991, os programas de fabrico de armas de destruição maciça. Annan considerou “ilegal” a invasão americana. A administração Bush não o haveria de perdoar. A sua reputação e a sua autoridade moral permitiam fazer isso. E fê-lo com coragem. Quiseram pôr em causa a sua honorabilidade. Mas a sua rectidão e a sua probidade seriam sempre inquestionáveis. Mesmo quando foi confrontado com o escândalo do programa petróleo por alimentos, no Iraque, que envolvia o seu filho Kojo, que teria acordos sob suspeição, foi provada a inocência de Annan e a sua reputação saiu, de novo, incólume.

Quando fez o seu discurso de despedida, Annan estava crente de que deixava melhor a organização. O seu impulso reformista seria responsável por muitas medidas que visavam transformar aquela máquina pesada e burocrática (a ONU) numa instituição com prestígio moral e capacidade de intervenção humanitária assertiva. A sua chegada ao topo da diplomacia internacional, é preciso dizer, ocorreu num tempo em que o mundo sofria abalos que o redefiniam: quase uma década depois da queda do Muro de Berlim e 5 anos depois da implosão da União Soviética; o 11 de Setembro ocorre em 2001; as invasões ao Iraque e Afeganistão. O mundo estava em rápida transformação e ele entendeu isso. Não seria o mesmo. Sobretudo pelo terrorismo. As suas reformas de uma organização pesada e burocrática, ou as suas iniciativas que tinha esse lastro da comunidade global, quer ao nível da intervenção humanitária – data de 2005 a adopção da “responsabilidade de proteger” da ONU, ou o Fundo Global para SIDA, malária e tuberculose. África esteve no topo de agenda. A fome, a miséria, as guerras. O Prémio Nobel veio coroar-lhe esse esforço.

Kofi Annan escreveu nas suas memórias: “Comecei a perceber que a ideia de comunidade, para mim, iria significar algo diferente do que tinha significado para a geração do meu pai”. Esta outra ideia de comunidade terá permeado o seu notável percurso. O compromisso com os outros levou-o a escalar todos os degraus de uma organização global e fez dele o primeiro negro africano a chefiá-la. Foram 50 anos ao serviço de uma comunidade global, pela qual empregou todo o seu altruísmo. África deve-lhe muito. Provavelmente, não teria sido tão útil se tivesse persistido no Gana, no lamaçal doméstico onde não conseguiu fazer carreira. Este é também um paradoxo. Como é que uma mente tão brilhante é descartada com displicência e descaso? Admirava-o também pelo facto de lhe não conhecer acrimónia alguma em relação a isso. Hoje vejo que é lembrado no Gana como um dos filhos prestigiados. Mas Gana enjeitou-o. África tem disto – desfaz-se dos seus melhores. A pátria, nisso, não está desacompanhada. Grande parte dos recursos, no entanto, que chegaram e chegam aos países africanos para o combate à pobreza, às pandemias como HIV, SIDA, malária ou tuberculose devem-se à luta implacável e à compaixão imprescritível de Kofi Annan. Como Secretário-Geral das Nações Unidas, a sua figura está entre as referências estelares da organização. Ele é comparado a Dag Hammarskjold, que morreu aos 56 anos, num acidente de aviação, em Ndola, na Zâmbia, ao serviço da ONU. Poeta, humanista, altruísta, membro da Academia Sueca, Dag Hammarskjold foi o terceiro SG da ONU e ser-lhe-ia, postumamente, atribuído o Nobel da Paz, justamente no ano da sua morte, em 1961.

Kofi Annan, que hoje morreu, em Genebra, era das últimas personalidades africanas vivas que eu admirava verdadeiramente. Desmond Tutu talvez seja a última. Já não temos referências morais em África de nível planetário. É o que hoje sinto quando oiço dizer que ele partiu e vejo, dilacerado, o que passam as televisões. Revejo também aquela entrevista intrépida de Zeinab Badawi e comovo-me com a compaixão e a honorabilidade deste homem que foi o mais prestigiado emissário africano da paz mundial e que sonhou, tenazmente, com um mundo melhor para todos. Redijo este texto tendo a pungente cumplicidade de Aretha Franklin que me acompanha. A Soul Queen canta: I Never Loved a Man, Save Me, Never Let Me Go, I Can´t See Myself Leaving You, (You Make Me Feel Like) A Natural Women, Respect. No intervalo de dois dias desaparecem dois nomes imperecíveis do nosso Planeta. Curvo-me a ambos. Respect.

 

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Prefiro enfrentar a realidade mais dura a viver na ilusão enganadora

José Rodrigues dos Santos

Serpentear nas esteiras do tempo é um romance cheio de várias histórias, as quais, em geral, desenrolam-se em Gaza. Embora a diegese projecte um contexto colonial, os principais momentos do livro não se concentram nas injustiças sofridas pelos pretos – ainda que tal aconteça – e nem avança pela temática nacionalista típica dos anos 40 do século XIX. Nada disso. Aqui, Lúcia Baptista regressa ao passado para mostrar que até em circunstâncias conturbadas há narrativas boas a serem construídas. Assim, ao invés de balas, tiros e sangue esta autora percorre os labirintos do amor, escolhendo unir em detrimento de separar. São exemplos dessa união o casal Jonas e Joana, que se ama sem receio, nas adversidades, vencendo querelas familiares e toda tradição opressora. Estas duas personagens aparecem como representações contra preconceitos, desses que privam e impedem as pessoas de darem os seus próprios passos, livres dos antepassados e do que se julgam ser seus desejos.

Simultaneamente, este Serpentear nas esteiras do tempo é uma história de três gerações. Aliás, quando a narração começa, pode-se ficar com sensação de que o protagonista é Samuel, pai de Joana, pois, no primeiro capítulo, todas as focalizações incidem nele. Esta é uma maneira de Lúcia Baptista contar as suas narrativas a partir de um princípio, no qual não falta tensão. Dando a imagem de quem é Samuel, um sipaio com ideias próprias, mas que se entrega às mordomias coloniais oferecidas pela administração, o narrador faculta informação relevante para a percepção da sua personalidade e, mais tarde, da filha. Desta maneira, ficam evidentes a existência de pelo menos três classes no romance: dos brancos, dos pretos alienados e dos pretos firmes à ideia de pertença a uma matriz africana.

O livro de Lúcia Baptista consegue juntar cenários moçambicanos de um período nebuloso sem repetir muito do que já se sabe. Na verdade, neste exercício, a preocupação parece ser a de colocar as personagens principais entre a ordem e o desejo. Por isso, constantemente, emana um confronto a envolver os sujeitos em momentos particulares. Por exemplo, entre a espada e a parede, Samuel trai um propósito nacionalista quando se deixa corromper pela administração colonial; Joana torna-se uma personagem além do que deveria ser, demasiado independente para uma mulher do seu contexto; e André – único filho de Jonas e Joana – é a personificação de uma juventude que já não acredita que os pais é que sabem o que é melhor para os filhos.      

Ao nível do projecto, este é um romance com tudo para dar certo. Afinal, nota-se que a autora tem capacidade de contar, descrever, alongar a trama com pormenores necessários, preservando uma atmosfera específica, bem oportuna. Entretanto, o livro peca e muito por apresentar graves problemas em termos de correcção. A pontuação é uma desgraça. À partida, fica-se com a impressão que faltou um revisor e um editor digno da função. Paralelamente a isso, a história pouco surpreende, sendo, a partir de certa altura, muito previsível.

Se, por um lado, Lúcia Baptista consegue recorrer a boas anacronias e a uma descrição bem apropriada, como no capítulo 12, quando Jonas procura pelo filho na cidade, que desaparecera da Missão por recusar ser padre, por outro vê-se nela uma urgência em querer chegar ao fim. Logo, o que deveria ser contado em duas páginas é resumido em períodos.

Este não é um livro para leitores exigentes. Definitivamente não é. Ainda assim, quem for a ler perceberá que as personagens, se calhar com a excepção de Samuel, geram incentivo para o leitor aprender a enfrentar a realidade mais dura ao invés de viver na ilusão enganadora.

 

Título: Serpentear nas esteiras do tempo

Autor: Lúcia Baptista

Editora: Texto Editores

Classificação: 10,5

A Comissão Nacional de Eleições decidiu, na sequência da reclamação do MDM, considerar inelegível o Cabeça de Lista Venâncio Mondlane. Das várias posições que têm sido avançadas, há uma, que me parece a mais acertada, que defende a inconstitucionalidade das normas que ditaram o afastamento daquele candidato. É que, diz-se, não pode uma norma ordinária (a Lei Eleitoral), impedir o exercício de um direito fundamental, até porque a referida norma ordinária limita o direito de participação política sem qualquer fundamento constitucional.

Com efeito, não faria sentido que a Constituição da República permitisse que os cidadãos pudessem participar no processo político, como eleitores ou candidatos, e viesse uma lei limitando esse mesmo direito.

É verdade que a CRM admite a limitação de direitos fundamentais (artigo 56, n.º 2), mas em “razão da salvaguarda de outros direitos ou interesses protegidos pela Constituição”. Não parece razoável admitir que a participação de um cidadão como (candidato a) membro de um órgão autárquico possa ser limitado porque este mesmo cidadão renunciou – ou o que se quiser chamar a esse acto – a um órgão autárquico (menor) para participar activa e politicamente num órgão do Estado (Assembleia da República).

É uma de entre tantas interpretações possíveis. Seja como for, compreendo que a CNE tenha decidido daquela forma. É que a CNE é um “órgão independente e imparcial”, ou seja, um tribunal, sendo constituído por pessoas que têm o direito de interpretar a lei como entenderem mais adequado.

Num órgão colegial, quando não se impõe que as decisões devam ser unânimes, vigora o quórum deliberativo que, neste caso, é o de que a maioria é que vence. Importa, aliás, sublinhar que, sendo estas as únicas normas aplicáveis – confesso a minha limitação, mas também hesitação -, a CNE só poderia ter tomado aquela decisão, uma vez que, apesar de as normas aplicadas para reprovar a candidatura serem inconstitucionais, a CNE não tem legitimidade para recusar a aplicação das normas postas em crise, por considerá-las inconstitucionais.

É que, tal como tem reiteradamente decidido o Conselho Constitucional (v. por exemplo o Acórdão n.º 8/CC/2017, de 6 de Novembro, publicado em http://www.cconstitucional.org.mz/Jurisprudencia/08-CC-2017, pp. 5 e 6), “o nosso sistema de fiscalização da constitucionalidade não é difuso, em que é permitido ao juiz ou tribunal, no julgamento de um caso concreto, decidir se uma norma é ou não inconstitucional, pois essa competência pertence exclusivamente ao Conselho Constitucional, tanto em sede de fiscalização concreta bem como sucessiva abstracta da constitucionalidade.”

Na verdade, se a CNE “(…) tivesse afastado e, consequentemente, desaplicado a norma cuja inconstitucionalidade se suscita, o facto equivaleria a auto investir-se em juiz constitucional, violando o disposto na alínea a), do n.º 1, do artigo 244 da CRM [actual artigo 243, n.º1, alínea a)], pois o Conselho Constitucional é o único órgão de soberania ao qual compete especialmente administrar a justiça em matérias de natureza jurídico-constitucionais, nos termos do n.º1, do artigo 241 da CRM [actual artigo 240, n.º 1]”.

É uma pena que haja pouco tempo para as eleições, porque isso não permitirá decisões serenas e ponderadas, tendo em conta os apertadíssimos prazos da legislação eleitoral.

Em finais de Abril de 1989, um aluno da Universidade Eduardo Mondlane, que estava na organização de uma greve de estudantes, que iria eclodir no mês seguinte, contactou-me, através de um amigo comum, para que eu me informasse sobre aquele movimento reivindicativo, que aglutinava, sobretudo, os que viviam no “Self”, e desse, através da minha tribuna na revista Tempo, conta do mesmo: reclamavam melhores condições de alimentação, transporte, reajustamento de bolsas de estudo, apetrechamento de bibliotecas, comparticipação na definição dos currículos e nos processos de avaliação. Fui levado ao grupo e dos contactos iniciais que tive com os estudantes que estavam na organização da greve percebi que estávamos perante um movimento sério. Informei, de imediato, o meu chefe de redacção e, dados os contactos que eu já tinha, escalou-me para fazer a reportagem dos acontecimentos. Eu não pertencia à editoria da actualidade nem da sociedade. Escrevia sobre escritores e sobre cultura. O tema era delicado e as circunstâncias muito difíceis. O Kok Nam, o grande e mítico fotográfo da revista, que viera do grupo que a fundaram, foi escalado para fazer, comigo, esta reportagem. Foi um grande momento para mim.

Um dia a história fará o devido resgate desta greve. Guardo desses momentos o sentimento de que estávamos a viver algo único – as greves dos estudantes universitários abalam, inequivocamente, os poderes e eu tinha, pelo menos, consciência disso. Era comum haver notícia de repressões violentas contra estudantes em muitos países africanos e não só. Eu estava excitado e ao mesmo tempo receoso. Tudo poderia descambar e poderia haver derramamento de sangue. Até porque, como veremos, houve uma inequívoca ameaça das próprias Forças Armadas, o que poderia ter redundado num violento castigo. Mas galhardamente os estudantes não se amedrontaram.

No dia 6 de Maio os estudantes deixaram de comer no “Self” e deixaram de comparecer às aulas. Estávamos perante um grande embaraço para o governo. Os estudantes estavam decididos a ir até às últimas consequências. Muitos dos vizinhos do “Self” ofereciam-se para acolhê-los nas horas das refeições. Eu via naquele grupo um poder reivindicativo incomum para a altura. Não punham em causa o governo mas estavam firmes nas suas reivindicações, cujo caderno parecia muito claro e objectivo. O partido e o governo (era mesmo assim na época) receberam os estudantes no dia 9 e consideraram que os problemas colocados eram genuínos e reais. A despeito, no dia seguinte, o partido do poder criticava a forma seguida pelos estudantes na busca das soluções, ao mesmo tempo que impunha uma condição para haver diálogo com os estudantes: que estes regressassem às aulas. Numa assembleia de estudantes, bastante concorrida, no pavilhão da universidade, estes decidem retomar as aulas e as refeições no “Self”, mas não desistem das suas reclamações. Nesse mesmo dia, 10 de Maio, as Forças de Defesa e Segurança (FDS) emitem um comunicado ameaçador em relação aos estudantes e de solidariedade com o partido e governo. A moção dizia: “Prontos estamos para enfrentar qualquer que seja a tentativa de pôr em causa esta República, fruto dos sacrifícios e sangue dos melhores filhos da Pátria, muito menos manifestações que minem a unidade nacional”. Os estudantes não se amedrontaram e responderam esclarecendo as suas posições, ao mesmo tempo que declararam – inteligentemente – o seu apreço ao partido e ao governo pela disponibilidade para o diálogo construtivo com eles, sem ameaças, sem intimidação ou qualquer forma de repressão. Numa das frases do comunicado diziam: “Antipatriotismo é enriquecer à custa da miséria dos outros. Antipatriotismo é suportar uma vida de luxo quando milhares morrem de fome. Antipatriotismo é trair o sangue dos que tombaram para que o país fosse livre, independente e respeitado em todo o mundo”. E acrescentavam: “rejeitamos a ideia de que a massa estudantil seja particularmente vulnerável à acção inimiga. Provaremos que, ao contrário, os inimigos do nosso povo é que são particularmente vulneráveis à nossa acção”. Eu vivia empolgado com esta greve, com os seus bastidores, com a inequívoca firmeza dos estudantes, com a tenacidade daqueles jovens, muitos deles sem família em Maputo, sem rede, mas destemidos e genuínos, profundamente solidários. Acompanhei-os aos encontros, com membros do partido e do governo, houve encontros com a reitoria, entre outros.  No dia 20 de Maio, numa ampla assembleia geral, os estudantes decidiram criar um Conselho para a defesa dos seus deveres e direitos. Terminava assim aquela dramática greve que agitou aquele mês de Maio de 1989.

Cobri a greve na companhia de Kok Nam. Ele está, então, à beira dos 50 anos, é um dos mitos do nosso jornalismo. Traz um longo excurso. Eu sou um fedelho de 22 anos, li algumas reportagens famosas do García Márquez ou do John Reed e sonho com os dias que abalaram o mundo. Vejo naquela reportagem esses dias. Vivemos um ano de 1989 de grandes expectativas de mudanças, de transformações no mundo, a Leste da Europa, na África Austral, em Moçambique, onde uma guerra infame esventra o país.  O ano começara com a retirada das tropas cubanas em Angola. No mesmo mês de Janeiro, a polícia dispersa brutalmente manifestantes que assinalavam 20 anos sobre a morte de um estudante que se imolara em protesto contra a ocupação soviética na conhecida Primavera de Praga. Ronald Reagan saía de cena e passava o testemunho a George Bush nos Estados Unidos. As tropas soviéticas retiram-se de Cabul, na sequência disso é decretada a lei marcial em Fevereiro. Em Junho, o Exército Vermelho é implacável na sua reação à greve dos estudantes na Praça Tiananmen. Em Outubro, cai o Muro de Berlim. Em Dezembro, Mikhail Gorbatchev e George Bush encontram-se em Malta, o que foi decisivo para o fim da Guerra Fria. O mês de Dezembro é fértil em acontecimentos: a 20, os americanos capturam o General Noriega, do Panamá, acusado de tráfico de drogas; no dia do Natal, na Roménia, Ceausescu e sua mulher são condenados à morte; e a 29, Vaclav Havel chega a presidente da então Checoslováquia.

Assim como acontecia na redacção, o Kok actua como meu companheiro. Aceita-me como seu par e dialoga comigo de igual para igual. Somos os dois jornalistas. Eu sou um foca. Um principiante.  São dias de aprendizagem na companhia de um grande repórter. Até então eu trabalhara com Naíta Ussene, Jaime Macamo, Alberto Muianga ou Jorge Tomé. Jorge Tomé tinha sido o primeiro foto-jornalista a chegar a Homoine e deu-nos, com a sua corajosa reportagem, a dimensão daquela tragédia que ensombra páginas da nossa História recente. Foi um acontecimento hediondo aquele. O Kok, no entanto, era a grande alma da revista, o nosso líder. Uma espécie de guru. A sua voz soava na redacção. As suas críticas, sobretudo, ao mau jornalismo. Mas também as suas gargalhadas e a sua boa disposição. Emocionava-se a olhar para uma boa fotografia: “Alta foto!” – proclamava.

Uma das coisas que mais me marcou era o seu sonho de cobrir a libertação de Nelson Mandela. Naqueles anos longínquos, nenhum de nós auguraria que Mandela fosse liberto tão proximamente, o que aconteceria a 11 de Fevereiro de 1990. Não creio que o Kok Nam tenha realizado esse seu sonho de repórter. Mas estou certo de que nós, tal como muitos de nós, realizámos, naquele dia em que vimos Nelson Mandela de punho erguido e cerrado, o mais belo sonho das nossas vidas: o sonho da liberdade. O Kok ensinou-me também, com o relato do seu sonho, que o jornalismo era a mais bela profissão do mundo. O jornalismo era uma profissão de causas. O jornalismo era uma profissão dos que cultivavam a liberdade. A liberdade tinha, naqueles anos, um alto sentido semântico e cívico, humano e histórico, cultural e filosófico. Era um vocábulo engrandecedor. O sonho da libertação de Mandela era a grande metáfora de uma África Austral livre. Vivíamos aqueles anos, empenhados, imbuídos pela luta dos povos da África Austral. O Kok tinha esse sentido. Ouvi-o, na festa dos 60 anos do Calane da Silva, em 2005, a elogiar uma belíssima mulher que então se juntava à nossa mesa: “a mais bela da África Austral!”

O Kok tinha também uma paixão incomensurável pela figura de Samora e contava inúmeras histórias que vivera com o presidente, nas inúmeras vezes que o fotografou, desde a Nachingwea aos palcos da revolução, nas viagens em que o acompanhou pelo mundo. Ouvir o Kok, na redacção ou em reportagem ou em convívio, fazia com que um jovem jornalista, como eu, sonhasse ainda mais alto com o alto sentido – sei que estou a ser prolixo – da missão de ser jornalista. Ali estava um homem de grande gabarito. Um verdadeiro Mestre. Um grande e inesquecível Mestre.

Ele fez inúmeras reportagens na sua longuíssima trajectória de repórter fotográfico. A que mais me impressionou, foi uma realizada na Zambézia, no Ile: são fotografias pungentes, imagens lancinantes, que denunciam a miséria humana, a indigência material, a sordidez que fomos capazes de experimentar. Aquela denúncia era também uma grande lição para mim. Nos dias de hoje, faltam fotógrafos como o Kok Nam, capazes de nos interpelar com imagens que possam indagar o sentido das coisas, capazes de nos desassossegar, capazes de pôr tudo em causa. Capazes de serem uma referência moral. O Kok  Nam foi-o até ao fim. Um profissional probo – o que hoje não avulta por aí. Aliás, parece que o jornalismo dispensou um dos seus melhores domínios: a fotografia. A fotografia do repórter audaz. Parece-me tudo complacente. Parece-me que tudo afina pela mediania. Há jovens fotógrafos de grande talento, mas não vejo nos jornais fotografias inescusáveis.

O Kok Nam (1939-2012) começara na profissão num estúdio, a Focus, uma extinta casa de fotografia na baixa da capital, no mesmo prédio onde funcionava, afortunadamente, a delegação do Diário de Moçambique. O diário convidou-o para ser repórter e ele abandonou o estúdio. Foi, posteriormente, fundador da revista Tempo, nos primórdios dos anos 70, onde o iria encontrar nos finais dos anos 80. Ele tinha reportado tudo quando lá cheguei: guerras, fome, misérias, humilhações, o tempo transitivo da revolução, a abertura política, a paisagem da liberdade que se afigurava. Quando, no final de 1990, abandonei a Tempo, viviam-se na revista tempos de incerteza, vivia-se o ocaso, o prenúncio do fim, chegara ao fim uma época, muitas vezes empolgante, quase sempre fascinante, que tínhamos vivido, que eu vivera ali, mesmo sendo no fim. O Kok, de algum modo, também estava de saída. Falava-se num jornal privado. O Carlos Cardoso – outra grande figura –  chegou a falar-me disso e a convidar-me para o projecto. Mas eu já estava de partida para outros hemisférios. Não acompanhei essa aventura do Kok e de outros companheiros – muitos dos seus fundadores tinham sido meus colegas na Tempo. Ele seria o director do Savana. Antes o Cardoso fizera o inovador Mediafax. Não era a primeira vez que um fotojornalista chegava a director, havia o caso do Ricardo Rangel, que o fora no semanário Domingo. Creio que, como na Tempo, no tempo em que eu lá permaneci, o Kok Nam seria a alma do semanário Savana. Estou convencido disso. Não é por acaso que o nome dele figura ainda hoje no jornal como diretor emérito.

Recordo-o aqui hoje, recordo a sua gargalhada estridente, recordo a sua camaradagem afectuosa, o seu profissionalismo e rigor, a sua exigência sem soberba, o seu espírito crítico, a sua capacidade de ensinar e de aceitar os mais novos, a sua coragem de repórter, o seu olhar fulminante, a forma como capturou instantes importantes da nossa história recente, a sua fleuma – dir-se-ia asiática, mas isso é uma redundância -, a sua generosidade, a sua liberdade, o seu amor pela liberdade. Fica como uma das lições mais gratas que tive como jornalista. Não me lembro de ter saído mais vezes em reportagem com o Kok Nam, além daquela greve, mas tive o privilégio de conviver com ele na redacção da Tempo. Tenho uma forte lembrança da sua magistral figura – a de um homem atento e crítico, sábio e generoso, fraternal. Insubmisso. A imagem de um homem livre, apenas comprometido com as causas em que acreditava e pelas quais exerceu a mais bela profissão do mundo – a de ser repórter -, como me haveriam de ensinar os meus mestres, entre os quais ele figura, indubitavelmente.

Introdução

A recente revisão constitucional, ao introduzir a designação dos candidatos a presidentes dos municípios por via da modalidade de cabeça de lista, veio suscitar, no processo da sua implementação pelos partidos políticos, problemas cuja relevância não se confina aos partidos envolvidos.

O facto de que esses problemas evidenciam essencialmente a mesma natureza, obriga a uma reflexão séria, já que nos termos da própria Constituição, no n°1 do artigo 74, «Os partidos expressam o pluralismo político, concorrem para a formação e manifestação da vontade popular e são instrumento fundamental para a participação democrática dos cidadãos na governação do país». Por conseguinte, a qualidade da nossa democracia há-de necessariamente resultar, ou há-de estar à medida, da assunção pelos partidos desses desiderata inscritos na Constituição.

Na fase de designação dos candidatos a cabeças-de-lista ocorreram situações em que estes resultaram, ou podem ter resultado estatutariamente, da indicação do Presidente do partido (tal terá sido o caso do MDM), outras em que trânsfugas de um partido caíram de pára-quedas noutro, para logo ficarem cabeças-de-lista, ao arrepio dos militantes naturalmente candidatáveis (tal terá sido o caso da RENAMO), e ainda aquelas situações em que procedimentos de afastamento de candidatos foram questionados publicamente pelas presumíveis «vítimas» (caso da Frelimo).

Considero importante empreender-se um esforço de análise objectiva dessas situações, formalmente diversas, mas em princípio apenas formalmente diversas, para se identificar a natureza desses fenómenos. Essa análise só pode ser relevante se assumir uma perspectiva supra-partidária, porque, como disse, essas situações prendem-se com a qualidade da nossa democracia, o que consubstancia um interesse que é de toda a sociedade.

A perspectiva da Constituição é justamente aquela que nos coloca na linha dessa objectividade, já que ela, a Constituição, é, por definição, apartidária, e assenta em valores que são, inquestionavelmente, do consenso de toda a sociedade e de todos os partidos.

Será, pois nessa perspectiva, e apenas nela, que me vou situar.

Da Constituição

Na prática as vicissitudes do processo de designação de candidatos a cabeça-de-lista são encaradas como questões internas de cada partido, e, mesmo nas situações mais gritantes de inobservância dos princípios mais elementares de democracia, assume-se uma atitude de tolerância, de complacência ou de mansidão crítica. Próprias de um ambiente em que, havendo tantos telhados de vidro, ninguém quer atirar pedras.

Sendo que no funcionamento da nossa democracia, e, diga-se, no de tantas outras, as escolhas do eleitorado são limitadas ou condicionadas pelas escolhas dos partidos, se estas não obedecerem a princípios estritamente democráticos, a sociedade corre um sério risco de ser levada a fazer escolhas não democráticas e até mesmo antidemocráticas.

Eis porque a Constituição não poderia ser omissa a este respeito.

Com efeito o n°2 do artigo 74, que contém o princípio que transcrevi mais acima, estabelece de forma clara que «A estrutura interna e o funcionamento dos partidos políticos devem ser democráticos».

Isto é, não só a «estrutura» fixada nos estatutos deve ser democrática, como o próprio «funcionamento». Por outra palavra, a vida dos partidos, deve ser democrática.

Este é um comando constitucional e, como qualquer outro comando, não é de observância opcional mas imperativa. Nem é de carácter programático mas vinculativo.

Da operacionalização do comando constitucional

Assumida a clareza do comando constitucional e a vinculação dos partidos à sua observância, a questão que se coloca a seguir é a de como se operacionaliza a sua obrigatoriedade. Em princípio devemos encontrar a resposta na lei ordinária, a qual pode ser omissa, esparsa ou lacunosa, sobre a matéria.

Vejamos então o que a Lei N°14/92, de 14 de Outubro, estabelece sobre este assunto:

O Artigo 3° (Regras básicas) desta Lei, em consonância com a Constituição, preconiza no n°1, alínea h), «não ter natureza antidemocrática», no n°2, alínea a), «definir os seus objectivos políticos, sua estruturação interna e seu modo de funcionamento».

Na alínea c) do n°2 do Artigo 6°, estabelece-se que os estatutos devem conter, entre outras indicações, «os objectivos e princípios por que se rege o partido, designadamente o princípio da eleição democrática e de responsabilidade dos titulares dos seus órgãos»

Estes e outros requisitos são submetidos ao crivo do Ministério da Justiça no requerimento para a constituição dos partidos, e de cuja decisão cabe recurso para o Tribunal Administrativo.

Ora, uma vez aprovados os Estatutos contendo aqueles requisitos, que consubstanciam os princípios fixados no artigo 74 da Constituição, a questão que se coloca, e que é da maior relevância, é a seguinte: o que acontece se, na prática, esses princípios constitucionais e legais não são observados?

Das competências do Conselho Constitucional

Como disse atrás, em matéria de democraticidade, as questões que se suscitam na vida dos partidos têm sido encaradas como estritamente internas, e relegadas ao seu foro privado. Mas tal não passa de mero equívoco, porque se assim fosse delas não cuidaria a Constituição e ainda menos a lei ordinária.

Por isso a Constituição previu, entre as competências do Conselho Constitucional, na alínea f) do n°2 do artigo 244, a de «julgar as acções de impugnação de eleições e de deliberações dos órgãos dos partidos políticos».

Significa que quando ocorrem situações litigiosas na vida dos partidos, elas podem encontrar solução satisfatória e pacífica dentro dos próprios partidos. Mas pode dar-se o caso de não haver resposta consensual. Quando estão em causa ou em litígio prerrogativas de membros, individualmente, é normal invocar-se a disciplina partidária para se pôr fim ao litígio. E normalmente os membros, de boa ou de má vontade, acabam por se submeter, convencidos da justeza das soluções ou convencidos de que não existe outra via, de que não há nada a fazer. Sobretudo convencidos de nada poderem fazer contra o peso esmagador dos aparelhos partidários.

Ora a disciplina partidária não é algo que se sobreponha aos direitos dos membros, a tal ponto que, em nome dela a eles se deva renunciar. Sobretudo não pode a disciplina partidária servir para encobrir violações dos estatutos e para calar quem seja prejudicado por tais violações.

Por outro lado, a dimensão partidária não se pode sobrepor nem à Constituição nem á lei, e a filiação partidária não significa nem implica renúncia de cidadania. Antes de se ser membro de um partido é-se cidadão, e permanece-se cidadão sempre. De tal forma que se um membro de partido se vê prejudicado, de forma injusta e anti estatutária, e não consegue fazer valer o seu direito no quadro do partido, como cidadão, ele tem a prerrogativa de requerer ao Conselho Constitucional a reposição da legalidade estatutária se esta tiver sido violada.

Certamente muitos acharão estranha a ideia de um membro pleitear contra o seu partido. Mas na realidade não está rigorosamente a pleitear contra o partido, mas contra decisões ou deliberações de órgãos ou de dirigentes do seu partido.

E isso só será estranho num clima ou numa cultura dominada pelo endeusamento, pelo culto da personalidade ou pela usurpação dos direitos dos membros pelos aparelhos partidários. Já num Estado de Direito Democrático efectivo tem de ser considerado absolutamente normal.

Assim, nos desenvolvimentos que nos é dado observar, tanto os casos de evidente pára-quedismo, como naqueles chamados de «democracia a dedo», como naqueles em que candidaturas foram afastadas «de forma menos clara» ou de forma «não explicada», todos eles podiam dar lugar a impugnações junto ao Conselho Constitucional.

Sem dúvida que teria sido do interesse da sociedade e do Estado de Direito Democrático ver tais situações esclarecidas ou decididas com toda a objectividade e transparência.

Ao fazer estas análises e considerações não estou dizendo algo de estranho ou de inaudito. O Partido Frelimo, que na verdade, quer se goste quer não, tem sido a matriz de onde os demais partidos replicam normas e práticas, à medida das suas conveniências, passou por fases diferentes daquela em que estão agora a ocorrer as situações a que aludi. Apenas para fazer um breve relance que reavive a memória dos contemporâneos e dê a conhecer aos que vieram depois, relevemos o seguinte:

Quando o Dr. Eneias Comiche, actual cabeça-de-lista da Frelimo para cidade de Maputo, foi candidato a Presidente do Município, foi-o numa ampla e concorrida Conferência Eleitoral em que disputou a designação com um oponente de grande peso, o Dr. Teodoro Waty. Foi uma disputa renhida que se prolongou quase até à boca das urnas. A inquestionável democraticidade do processo conferiu grande legitimidade ao vencedor, primeiro dentro do Partido e, depois, como Presidente eleito do Município.

Mas já na tentativa legítima de renovação do mandato o processo obedeceu a outra norma, entretanto introduzida no Partido Frelimo: a de que a eleição dos candidatos deixava de ser em Conferências Eleitorais para passar a ser competência dos Comités ao nível de cada autarquia. Esta alteração, certamente ditada pela necessidade de maior dirigismo dos processos, evidenciou uma drástica redução da democraticidade que tinha caracterizado os processos anteriores. Daí resultou que, apesar do grande prestígio e popularidade granjeados, no seio do Partido e na sociedade, graças ao seu desempenho, o Dr. Eneias Comiche, na eleição restrita ao Comité da Cidade, perdeu para David Simango.

A evolução das regras ou dos procedimentos eleitorais no seio do Partido Frelimo manteve-se nessa lógica até hoje. Mas é importante referir que essa evolução não tem ocorrido sempre de forma tão pacífica e unânime. Recordemos que, aquando do processo que culminou com a designação de Filipe Nyussi como candidato da Frelimo para as últimas eleições presidenciais, a lista fechada de três candidatos que tinha sido decidida pela Comissão Política, teve que ser aberta por pressão de franjas significativas do Partido, e por força, finalmente, da posição da ACCLN, expressamente inconformada com o carácter fechado dessa lista. Com a abertura conferiu-se, de algum modo e naquelas circunstâncias, maior democraticidade ao processo.

Para dizer simplesmente que a contestação ou «rebeldia», a que assistimos hoje, prende-se fundamentalmente com esta problemática da democraticidade dos processos, e vai levar forçosamente ao repensar de normas e procedimentos. Porque, na minha opinião, e na de muitos, no contexto de uma democracia efectiva e mais ampla, certamente que não fariam sentido algum essas contestações ou «rebeldias».

Em conclusão

É imperioso que os partidos observem a Constituição da República nos seus estatutos, na sua estrutura e no seu funcionamento. Mas para que isso se efective é imperioso que os militantes dos partidos não percam nunca de vista que são cidadãos cujas prerrogativas não são diminuídas nem subalternizadas pela condição de militantes. Que a sua condição de cidadãos não é apropriada pelos partidos.

A democraticidade do funcionamento dos partidos, não é interesse privado dos partidos, antes constitui condição indispensável da democracia e interesse fundamental do Estado. Por conseguinte, não deve ser ignorada, prejudicada ou negligenciada.

Teodato Hunguana

 

 

A sul

Implantado uma cartografia sem limites

Traço e compasso

Depois da madrugada

Luís Carlos Patraquim –  MONÇÃO

Ao Lulú

Naquela manhã o sol era ainda um passarinho tímido. O frio acariciava com vigor o rosto de quem o enfrentava as primeiras horas do dia. O sono de Amadeu Bassopa foi visitado por mensagens e imagens provocantes de Saugineta. Amadeu não percebia, por vezes se estava a sonhar ou se eram caprichos do seu telemóvel. A nova namorada despertava uma inquietação que enfeitiçava o juízo de Bassopa. Gita exigia-lhe, para além do bilhete VIP para um espectáculo musical, um jantar romântico num hotel junto à marginal. Bassopa estava desesperado. Há dias que esgotara as suas últimas economias. Depois do banho pegou no telefone e ligou ao colega Carlos Panguene, seu cúmplice, mas sem sucesso.

Já no centro social do serviço Bassopa não sabia como resolver o problema colocado pela namorada. Pela sétima vez telefonou ao Panguene, amigo e colega no departamento de planeamento territorial. Desta vez o telefone do Carlos estava desligado. Bassopa, pelos sinais que horas revelavam percebeu que os programas daquela sexta-feira corriam sérios riscos.

Amadeu, que não era estúpido nenhum recorreu ao seu baú de estratégias sobressalentes. Tratou de abraçar a primeira ideia que lhe ocorreu. Pegou na sua mota, depois de verificar o nível de combustível, usou o capacete e, pôs-se a galope.

Duas horas percorridas, qual piloto-aviador descendo da sua aeronave em plena zona de expansão. Amadeu esfregava as mãos, o seu sorriso maroto denunciava uma ansiedade crescente para conseguir o jackpot que se anunciava no ar. Bassopa, vestindo o seu inseparável uniforme de fiscal municipal não precisou de contactar nenhuma estrutura local, antes de fazer a vistoria ao talhão. Ele que é funcionário com provas consagradas pelos seus dez anos de serviço foi directo ao local onde havia irregularidades. Amadeu deu umas voltas pelo quintal e verificou que havia por ali muitas árvores por podar e muitas outras por retirar. Para além da obra visada reparou para mais duas casas num raio de quase trinta metros. Depois do ritual, Bassopa redigiu a penalização na parte frontal da obra. Amadeu usou um spray preto indelével que contrastava com a parte rebocada da parede, apesar da mão tremida do fiscal era possível ler o registo a uma distância de vinte metros.

Meia hora depois surgiram no local, entre mirones e outros curiosos que abandonaram o cultivo das suas machambas, levantando poeira, acompanhados pela estrutura local. O proprietário do imóvel acabava de chegar, todo ele fumegando horrores nos olhos vidrados, as orelhas carregadas de poeira, tal foi o impacto da velocidade que Mulomba conduzira a sua bicicleta.

O chefe de quarteirão tomou o lugar cimeiro na sombra da mafurreira. Todos os presentes estavam curiosos de saber a razão da presença do homem do município naquele lugar:

–           Hoje a nossa reunião vai ser breve, amigos. – O chefe de quarteirão abria a sessão.

–           O senhor Mulomba chamou-me com urgência. Ele precisa de saber que escritas são estas, senhor Amadeu?

Perante o silêncio arrogante do fiscal viraram-se todos os presentes para ele. Bassopa estava já no sétimo céu sonhando com pássaros que debitavam o seu cântico agreste pela povoação de Zilinga. Bassopa até roncava junto de um tronco, o seu corpo repousando sobre dois blocos que ele retirara da obra. Duas garrafas de cerveja de uma marca importada, animavam os olhos de quem os via preenchendo os buracos dos blocos de tamanho quinze.

Foi necessário que a voluntariosa dona Felismina requisitasse os seus prestativos dotes para descalçar o fiscal. Felismina teve sorte, foi agraciada por valentes notas de quinhentos meticais escondidos num dos sapatos de Amadeu. A senhora afagou-lhe continuamente a cabeça, deu umas generosas chapadinhas ao que, ele finalmente despertou.

Entre espanto e susto ele levantou-se, esticando-se continuamente. Amadeu abriu a boca num bocejo descomunal para espantar o sono teimoso que lhe perseguia. Bassopa havia passado a noite em branco preparando-se para a quarta licenciatura, desta feita no curso de direito.

O dono da obra estava furioso e pressionado por telefonemas dos colegas. Mulomba precisava de encerrar aquele assunto com maior brevidade.

–           O senhor pode explicar-nos o que pretende dizer com isto aqui nesta parede? – Voltou à carga o chefe de quarteirão.

–           Bem, o meu serviço como fiscal está terminado, meus senhores. Para já não convoquei tanta gente assim! Aproveitem a minha presença, eu até posso ajudar a arrefecer a multa. – Interveio o Amadeu.

–           Senhor fiscal, antes que isto acabe mal precisa de saber de um ponto muito importante. Estamos fora da área de jurisdição do seu município, bem distante da terra sem ninguém. – Advertiu o chefe de quarteirão.

Não se sabe bem como tudo aconteceu. De repente um grupo de homens e mulheres da povoação levantou-se num ápice decidido a desferir golpes no fiscal. E quando Amadeu sentiu as gotas de combustível, pingando sobre o seu corpo fugiu clamando por socorro, numa gritaria desesperada. Para além da motorizada Bassopa abandonou o telemóvel que, por sinal estava a tocar recebendo uma chamada da namorada, o visor do aparelho anunciava o nome LADY G.

 Mais tarde, quando a poeira assentou o senhor Mulomba ficou diante da sua obra e, do alto do seu portentoso perfil, de um metro e oitenta e nove centímetros, pôs-se a ler, para todos ouvirem, o que o fiscal Amadeu registou na parede em letras garrafais:

–           OBRA EMBRIAGADA!

Celso Muianga

 

A medida governamental de “fechar as fronteiras' à saída das estrelas nacionais no pós-Independência, não só prejudicou os visados, como impediu o país de continuar a fazer parte do mapa mundial de estrelas, via Portugal, dando continuidade a um ciclo de centenas de astros, com Eusébio, Coluna e Hilário à cabeça.
Mas como “águas passadas não movem moinhos”, há que repensar estratégias, tendo em conta que Moçambique não é uma ilha e, como tal, o que tem a fazer – no desporto e noutras áreas – é, discutindo internamente o que nos interessa, acertar o passo com o mundo.

As janelinhas que se abrem
Duas janelinhas estão entre-abertas nesta altura. A linguagem e a linhagem do realismo devem imperar, impondo-se o pragmatismo. São elas: a oportunidade que a CAF nos concede de sermos representados por quatro equipas na próxima temporada africana e a porta que se abriu através do projecto Black Bulls/FC do Porto, que a ser apoiado e replicado, pode ser a base de uma nova forma de estar e que, aos poucos, permitirá retomarmos um estatuto que já tivemos no desporto-rei.

O “casamento” entre a alta competição, de um lado e o estímulo à iniciação, do outro, pode significar isso mesmo: construção de um “edifício” a partir da base e do tecto, conjugados de tal forma, que a obra se venha a encontrar no meio, para felicidade de todo um país que apesar do seu inegável potencial, se encontra adormecido. Que o digam os “rankings” que nos colocam praticamente no lixo, obrigando-nos a tomar parte nas pré-eliminatórias das grandes competições.

Interesse comum em primeiro lugar
Há imensos erros de percurso a corrigir, há um aprendizado que já vai longo, sobretudo no dirigismo e que se reflecte, pela negativa, no lugar em que o atleta deveria ocupar no centro de tudo, ao invés de ser sistematicamente subalternizado. Isso é o que sucede nos países que apostam no desporto a sério, que conhecem os reais benefícios para a saúde dos seus cidadãos, para as finanças públicas e para a unidade nacional.

A alta competição não é para quem quer, mas para quem aglutina o querer e o poder. No desporto de massas, o interesse colectivo deve sobrepor-se ao individual. Já na iniciação, cada um deve procurar “fazer a sua parte”, na aldeia, no bairro, no distrito e por aí fora, sabendo que essa acção terá peso na descoberta e motivação de novas estrelas.

Nunca é tarde para se dar à volta e acertar o passo com o que se faz lá fora. A velocidade no mundo é alta, compete-nos acompanhá-la, não só a partir do sofá. As oportunidades estão aí. Há que buscar novas parcerias e acertar o passo com o mundo.
A juventude merece. O país agradece!

 

Viera de Cuba, a ilha de Fidel e da revolução mítica das Caraíbas, quando o conheci. É preciso dizer que, naquela época, o vocábulo “revolução” não se dissolvera ainda no alvoroço, no tumulto, no turbilhão, na voragem, no remoinho, no vórtice de uma sociedade que transitou da utopia do comunismo para a quimera do capitalismo ou do seu simulacro. Ele era um homem de uma energia contagiante, um conversador empolgado, arrebatado, empolgante, culto e sensível. Punha paixão no que fazia e no que dizia. Nascera em Nampula, a 29 Julho de 1954, no interior da burguesia colonial, por assim dizer, mas declinara os privilégios do passado e renegara a herança portuguesa. Ficara moçambicano. Fora professor, activista cultural, encenador de teatro, poeta e contista. Praticava o ofício da escrita com denodo, com desenvoltura, e usava pseudónimos como Si Silva ou Broeiro Duarte São Pedro. Não o fazia para dissimular o que quer que fosse. Pareceu-me, antes, que recusava qualquer tentação de exibicionismo. Ou talvez até fosse mesmo por timidez. Apesar de ser um homem com um discurso e com gestos marcados por um expressivo ímpeto, queria resguarda-se. Sempre o fez. Mas exultava quando lhe reconheciam o dom, a mestria, a vocação.  Por vezes, também assinava Duarte Silva. De seu nome de registo, José António Pastor Duarte Silva, publicou em vida pouquíssimos contos e um punhado de poemas, que assinou como José Pastor, e que denunciam um escritor admirável. Hoje ninguém fala dele. A pátria revê-se no ominoso esquecimento dos seus, sobretudo os melhores. Este ano passam 25 anos sobre a sua morte, que ocorreu a 26 de Agosto de 1993. Queria aqui lembrá-lo, sabendo que não o salvarei do olvido nem da desmemória que fazem parte da ufana e moçambicana desatenção.

Foi o Guilherme Mussane, que estudara em Cuba e andava, à época, como eu, no meio do teatro, que me falou dele. Iniciei a minha plumitiva vida como actor de teatro, de teatro radiofónico, sublinho. Foi na Escola da Rádio, onde fui acolhido, com entusiasmo, pelo saudosíssimo Né Afonso, onde pratiquei os rituais de iniciação na arte de comunicar. Ali, cruzei-me com muito boa gente. O tempo dispersou alguns, matou outros tantos. A vida parece ser mais a arte da disjunção do que o seu oposto. O Mussane falou-me com entusiasmado ardor do seu professor José Pastor e exarou a sentença: tinha de o conhecer! O nosso primeiro diálogo praticámo-lo no Guicalango, ali na provecta Mao Tsé Tung. Acontece que eu senti que estava diante de um amigo longevo. Não parecia que estávamos a encetar a nossa conversa preambular. Já nos conhecíamos sendo que nos encontrávamo-nos pela primeira vez. Isto parece um paradoxo? A empatia é capaz desses prodígios. O assombro tomou conta de ambos e discreteámos sem ocultar a fascinação das palavras. Mais tarde, outro amigo-irmão, de saudosa e grata memória, o António Pinto de Abreu, que se apartou de nós faz um ano, também acrescentou ao depoimento do Mussane a afeição empolgada que tinha pelo José Pastor.

Naquela conversa fizemos os prolegómenos de uma viva tertúlia literária. Há décadas nós cultivávamos amizades literárias. Encontrávamo-nos, amiúde, para falar de livros, de escritores, exultávamos, discordávamos, partilhávamos. As nossas zaragatas eram, por conseguinte, afectivas e não aflitivas. A sua matéria era o júbilo que nos animava, o amor imperecível pelos livros. Há dias, remexendo em antigos álbuns de fotografia – hoje desapareceu também essa prática, as fotografias abandonaram as velhas liturgias e habitavam facilmente as pantalhas dos nossos telefones móveis – encontrei fotografias de uma tarde em que passámos na casa do José Pastor na Matola. Estamos: Eduardo White e Olga Pires, Marcelo Panguana, Sérgio Tique, Ana Juliana e eu próprio. De costas parece-me ser o Ungulani Ba Ka Khosa, mas não tenho a certeza. Esta fotografia data de 25.09.88. Para mim foi um dia inescurecível.

Eu coordenava, nessa época, a “Gazeta de Artes e Letras” e discutia, por vezes, muitas vezes, com o José Pastor, ideias e trabalhos para a secção literária da revista Tempo. Também publiquei poemas e um conto dele. Ele foi sempre foi um autor escasso, avaro. Mas um conversador tenaz.  Ele falava-me da excelente literatura cubana que eu, na altura, desconhecia. Um dos autores, de que era indefectível: Alejo Carpentier (1904-1980), sobre quem escreveria uma belíssima nota sobre Concerto Barroco. Escreve então sobre Carpentier o meu amigo Duarte Silva (foi assim que assinou) na “Gazeta” de 31.07.88: “Sua maestria técnica se demonstra não somente na perícia estrutural das suas obras como num estilo muito próprio cheio de riqueza, complexidade e beleza singulares. Seus temas centram-se no enfrentamento do homem com a sua realidade circundante, especificamente no âmbito do “real maravilhoso” das Caraíbas, do qual é notável mestre e exemplo”.  Quando me entregou as laudas sobre Concerto Barroco para a “Gazeta”, ofereceu-me, na ocasião, um exemplar da obra. Tenho esse livro ainda comigo. Ele falava-me com entusiasmo quase infantil deste escritor e de outros que admirara em Cuba.

Nos finais dos anos 80, vivíamos uma experiência penosa da guerra e José Pastor um dia publicou um poema laborioso sobre aqueles tempos funestos. É um dos poemas mais consternados sobre a guerra. Agora que fizemos desse passado inclemente exéquias pressurosas, ler o poema do José Pastor é um tónico para a memória. Quem me lê, sabe da minha quezília em relação à memória. Esta altercação que temos com o tempo pretérito não augura nenhum bom porvir. Como podemos habitar despreocupadamente, o território da amnésia? Ler o José Pastor ajuda-nos, em parte, no arbítrio contra a desmemória. Comecemos pelo extenso título: “A pessoa de Josefane ficou no massacre de Maluane, mas seu corpo veio a Maputo para pôr velas”. Sempre que passo por Maluane penso neste poema virulento e na realidade violenta que ele testemunha. Nunca compreendi por que razão intentamos nós, hoje, postergar ou procrastinar a História.

José Pastor: “Uma rajada de metralhadora/e ele caiu do camião. / Rachou-se o cóccix. /Coaxaram as rãs do rio vizinho. /Cócegas no sangue dele. /O primeiro grito foi/ o canto plangente do cisne. // As árvores deliravam/ ruídos de harpa. A morte, / com a sua foice aguerrida, / saqueou-lhe todo o sangue baboso/ e levou-lhe a cruz ao calvário/ doloroso da fossa comum. // O rio de lágrimas secou / na roda dentada da vid. / A moagem do coração parou. / Os açudes que represam o sangue/ das veias desmoronaram-se. // No seu organismo/ só ficaram gemidos de grilo, / primeiro; / pilares de coruja, / depois; / e o silêncio sepulcral dos vermes, / por último. // A morte encafuou-se no seu ninho. / E lá, dentro do Josefane madrugador/ ficou quentinha e satisfeita/ a pôr seus ovos de cotovia. // E um louva-a-deus/ foi o primeiro ser vivo/ a pousar seu corpo morto. // Eu vi!, com o coração aos pirilampos…”

Coligi este e outros poemas na antologia que co-organizei com a Fátima Mendonça, Antologia da Nova Poesia Moçambique, que seria publicada em 1993, pela AEMO. Quando organizei a antologia Nunca Mais é Sábado, anos mais tarde, para a D. Quixote, em Portugal, voltei a sufragar parte significativa dos poemas que editara naquela colectânea. Para além disso, José Pastor era um belíssimo contista. O conto que incluí na antologia As Mãos dos Pretos, inicialmente publicado na “Gazeta”, “A Abastança de Fundos de Zefania”, disso faz prova cabal. Dedicado ao autor destas linhas, a Ana Juliana, ao João António, a Marina e ao Genas, é dos poucos registos que ficaram da sua obra ficcional. A sua morte, em 26 de Agosto de 1993, está na origem do desconhecimento que encobre a sua parca e notável obra. Nunca percebi por que razão a obra do José Pastor não chegou a conhecer a luz do dia em forma de livro. Entre 1990 e 1995, vivi fora do país, mas sempre que retornasse a Maputo encontrava-me com ele e sabia do desejo que ele tinha de publicar. Não tendo deixado descendência, na época tive conhecimento de que os inéditos estavam confiados a um amigo. Até hoje perdura um ensurdecedor silêncio deste escritor cujo nome foi também marcado pelo decesso.

Na nossa última conversa, semana antes da sua morte inesperada, percebi que estivera com um homem angustiado, consumido pela inquietude, pela amargura, provavelmente atormentado, mas nada faria prever aquele desfecho trágico.  Quando li, anos mais tarde, o livro Antes que Anoiteça, do cubano Reinaldo Arenas (1943-1990), pensei muito no José Pastor. Aquele pungente livro que releva da experiência duríssima de Arenas teria dado, entre nós dois, um debate longo e perseverante. Pastor, um implacável defensor de Fidel Castro, que opinião teria desta obra e do dissenso deste autor? Gostava de ter falado com ele de Lezama Lima (1910-1976) ou de Virgilio Piñera (1912-1979). Gostava de ter falado com o Pastor sobre o suplício de alguns destes escritores – uns por serem homossexuais, outros por divergirem do regime. Gostava de ter discutido com ele sobre Cabrera Infante (1929-2005) e os seus livros sobre Cuba e do seu exílio – redijo este texto em Londres onde ele morreu proscrito da sua Cuba impenitente -, ou sobre Pedro Juan Gutiérrez (1950), que vive e escreve em Cuba. Falámos dos óbvios: de Nicolás Guillén (1902-1989), de José Marti (1853-1895), que ele admirava de forma inabalável. Não falámos de Herberto Padilla (1932-2000), não falámos de tantos outros. Conheci, anos mais tarde, a belíssima escritora cubana Karla Suárez  (1969), conheci o grande Leonardo Padura Fuentes (1955). Ouvi Zoe Valdés (1959).

Um dia, à mesa, na Póvoa de Varzim, Leonardo Padura, que eu conhecera na primeira edição das Correntes d´Escritas, há duas décadas, um escritor incrível, mas incrivelmente modesto, contou o seu quotidiano em Cuba e de Cuba e nós ficámos siderados, perplexos, atordoados. Foi há dois anos esta conversa. No entanto, estava ele mais esperançado do que nós: Cuba abria-se ao mundo, Barack Obama distendera e ajudara a fazer o degelo na complexa relação entre os Estados Unidos e Cuba. Contei-lhe que assistira, em Joanesburgo, na homenagem a Nelson Mandela, em Dezembro de 2013, ao célebre aperto de mão entre Raúl Castro e Barack Obama, que foi o primeiro sinal de mudança. Como seria conversar sobre tudo isto com o meu amigo José Pastor?

Por vezes, ao longo destes anos, falei dele com o António Pinto de Abreu e, muito pouco, com o Guilherme Mussane. Lamento que o nome dele esteja esquecido e que a sua literatura seja amplamente desconhecida. Quando fundei a Marimbique foi dos nomes que me ocorreu editar, mas nunca consegui chegar aos seus manuscritos. Gostaria de poder fazê-lo em homenagem à sua curta, mas ingente existência e com isso intentar um tributo à nossa amizade e à admiração que sempre nutri por ele. Talvez não tenha feito todos os esforços para tal. Neste mês, Agosto, assinalam-se 25 anos sobre a sua morte. Talvez seja uma boa altura de promover a publicação da obra deste notável escritor desaparecido prematuramente aos 39 anos. Pessoalmente, guardo dele a grata recordação de um amigo atento e sensível, culto e inteligente, afável e solidário. Vejo-o a afagar a sua barba enquanto falava, os seus olhos piscando, ele entregue à graça e ironia, à inteligência e à cultura. Precisamos de fazer algo para o retirar do sepulcro, do olvido, da negligência, da omissão, do descaso e do alheamento. A desonra e o opróbrio da desmemória não podem continuar a vexar o nosso destino individual e colectivo, nem a conspurcar o nome deste escritor e de tantos outros que sofrem o agravo, a ignomínia e a indignidade do desconhecimento e da pátria.

 

 

 

 

                               Uma palavra não diz nada, mas, ao mesmo tempo, esconde tudo

       in Man on fire, Tony Scott      

 

A palavra, em Lica Sebastião, é azagaia, e, como se impõe, potente. Cortante, algumas vezes, e confortante, quase sempre, aquele elemento linguístico é a concretização subtil de uma maneira humilde vs competente de se viver a poesia. O avesso das palavras, colectânea constituída por 47 poemas, é uma constante reafirmação do que esta artista vai-se tornando a cada livro lançado.

Como nos sugere um personagem inventado pelo realizador inglês, Tony Scott, no filme Man on fire, uma palavra não diz nada, mas, ao mesmo tempo, esconde tudo. E, ao esconder, nesse processo de transferências de significados indispensáveis à versificação, O avesso das palavras torna-se terra por desbravar, plenitude por alcançar e alguma coisa por compreender. Temos estas situações misturadas no novo livro de Lica Sebastião, no qual os sujeitos de enunciação fragmentam-se para exprimir sentimentos, logo nota-se, gerados em momentos diferentes. O verso é, em Lica, um desabafo, subterfúgio para aniquilar inquietudes particulares e propor caminhos que levam à percepção, contestação. Por isso, no primeiro poema, há uma comparação entre a palavra e a roupa num jogo formado com o intuito de se separar o essencial da vaidade fortuita. É compromisso da poetisa, logo à partida, destacar a força da palavra – em detrimento dos excessos tangíveis, representações da vaidade –, afinal basta apenas uma para curar, esquartejar e destruir: “Uma palavra do tamanho de uma gotícula/ pode envenenar o oceano do entendimento” (p. 28).

N’O avesso das palavras há diversas finalidades que cabem aos textos, como o de exprimirem desejos (poema 5), repulsa à barbárie dos homens (poema 10) e o protesto ao efeito tristonho de uma espera (poema 14) eternamente adiada: “Quantos dias contei/ pelos dedos das minhas mãos/ o tempo que faltava ainda/ para te ver chegar” (p. 14). Com versos como estes, Lica mantém inabalável uma convicção: de facto a “A poesia é a aventura das emoções” (p. 22), neste livro, com impossibilidades ou incapacidades (poema 21), alertas (poema 31) e resistência, sem essa de acertar o passo (poema 37) para estar ao nível da maioria. Talvez, como Knopfli, Lica prefira as minorias, com o seu grito negro antes de tudo.

Este parece um livro de escrita espontânea, ora sugerindo as emoções da autora existencial, ora desprendendo-se de qualquer associação a esse respeito. Além disso, sente-se que este avesso é produto de estados de espírito assimétricos. Logo, é natural notar-se que os poemas não estão acentuadamente conectados entre si de modo que valham tanto em conjunto sólido.

Sem estar ao nível do seu livro anterior, de terra, vento e fogo – belíssima colectânea de poesia lançada pela editora Kapulana do Brasil, em 2015 –, O avesso das palavras não deixa de mostrar que Lica Sebastião é uma autora com enorme potencial poético. Em autores como Lica a poesia não precisa de grandes circunstâncias para acontecer, pelo contrário, emerge de qualquer nada. Deve ser essa uma razão aceitável para que neste quarto livro seu a simplicidade do enunciado e das consequências daí derivadas estejam preservadas.

Portanto, nesta pequena obra, de leitura breve, Lica Sebastião não apresenta o melhor de si nos poucos poemas que a constituem – poderia ter escrito mais –, mas deixa-nos com o que importa: a poesia como um fim que nos leva a muitos princípios.

Título: O avesso das palavras

Autor: Lica Sebastião

Classificação: 13

 

A Física da Traição é a parte da Física do Amor que trata dos componentes da Traição, os desejos que movem a traição e os resultados destas mesmas forças. Deixar a Física da Traição de lado pode ser considerado uma pura estupidez, tendo em conta os diversos avanços e recuos sociais que este campo tem trazido a todos. Por exemplo, graças a Física da Traição há avanços na compreensão de electromagnetismo da fidelidade; há avanços no entendimento da termodinâmica das mulheres solteiras, avanços esses que possibilitam o aperfeiçoamento mecânico das mulheres solteiras. Todavia, há também recuos; depois da descoberta da Física da Traição muitos casais se deixaram tomar pela impenetrabilidade, ou seja, já não ocupam o mesmo lugar, cama, ao mesmo tempo e passaram a sentir elementos fundidos pela divisibilidade, ou seja, já não se quebram em dois, dividem-se em partes cada vez menores até ao infinito.

A Física da Traição ocupa-se, também, pelo estudo da estrutura da traição e seus estados físicos. Uma traição como qualquer objecto pode estar no estado sólido, líquido ou gasoso. O estado da traição está fisicamente relacionado com a velocidade do movimento das partículas de desejo perante o objecto humano pretendido. Uma traição considera-se como estando no estado sólido quando possui forma e volume constantes; quando as partículas, feminina e masculina, estão a nível do juízo, ocupando posições fixas que não permitem a sua visibilidade por outros. No estado líquido, a traição possui um volume constante e forma variável, dependendo do recipiente onde está contido, ou seja, se a mulher envolve-se com um rico tende a ficar rica, se o homem envolve-se com uma mulher que bebe muito toma essa mesma propriedade, isto é, eles têm volume constante, mas sua forma é variável. E no estado gasoso a traição possui forma e volume variáveis. É o estagio mais elevado porque o homem e a mulher tendem a deslocarem-se de maneira desordenada em alta velocidade.

A traição pode ser mensurada pelas suas consequências por isso podemos chamá-la de grandeza física. Ora, o comprimento da traição pode ser medido pelo tempo de traição ou pelo número de beijos dados; a área pela unidade principal que é a cama-quadrado (c²) e o volume da traição é tomado por sinceridade cúbica, quanto maior for a sua vida em Cristo, maior é o volume.

As traições apresentam um determinado tipo de movimento; isso dependente, essencialmente, da idade das pessoas envolvidas ou por tipo de afinidades que antes de tudo lhes unem. Há primos que se relacionam com as esposas dos primos, tios que se envolvem com sobrinhas, sobrinhas que se envolvem com seus afilhados e vizinhos que rompem as fronteiras dos seus quintais e instalam-se em quartos de vizinhas, viúvas, como autênticos refugiados de guerra. As traições que envolvem pessoas ocupadas ou pessoas da mesmíssima idade tendem a ter uma velocidade uniforme, não mudam a sua dinâmica com o passar do tempo; traições onde os corpos envolvidos apresentam uma ligeira distância existencial de idade e motivações, tendem a apresentar uma velocidade acelerada, quero dizer, a velocidade aumenta com o passar do tempo, a traição ferve e ganha peso e quando a traição é acordada por pessoas sem muita experiência, sem muito juízo no lugar, aqueles que a fazem por puro divertimento, a sua velocidade diminui com o passar do tempo.

A Física da Traição tem-se ocupado, também, por um termo muito importante: a força gravitacional da traição. Quando a traição é mal gerida, abandonada ao improviso da sorte, muitas das vezes os envolvidos caem à realidade dos seus lares por conta da força gravitacional da traição e os seus parceiros e parceiras negam-lhes o perdão porque a força do atrito do arrependimento manifesta-se em excesso sem nenhum elemento de aceleração.

 

Segunda-feira:

A lua, desenhada a compasso, era um ponto branco pingado na noite, entre respingos de astros. Calada, pequena, pequenina, contudo ocupava o céu todo e fazia esquecer a imensidão do escuro. Na falta de sol era um xiphefo para o universo. Entornava a luz prateada sobre a cobertura das casas, sobre o tejadilho dos carros, sobre a pele do chão, sobre a copa despenteada das árvores, sobre as cabeças das pessoas empilhadas na paragem dos chapas, sobre as mechas postiças da Hamina. João respirou fundo.

Terça-feira:

– Hamina, já viste a lua? – João tinha o luar todo no tom da voz, mas ela não parecia derreter-se com coisas lunares. Num olhar breve para o céu, a lua prateou-lhe o rosto, respondeu “sim”, mas voltou rapidamente para o chão, para a realidade, e olhou para a estrada: não era a luz da lua que a preocupava, eram as luzes dos carros, ansiosa pela demora do chapa.

– Hiii! – Suspirou.

– É o quê? – Perguntou o homem, ainda com o luar no tom de voz.

– Não deviam ter adiado as eleições – desabafou, sem olhar para ele.

– Por quê? Gostas de votar?

– Não é isso. Para votarmos em alguém que nos dê transporte – fez um gesto largo apontando para a enchente na paragem.

Quarta-feira:

A lua continuava a entornar o brilho prateado sobre as coisas, sobre os lugares, sobre a multidão, sobre a noite. Parecia incidir mais sobre Hamina. Prateava-lhe os diâmetros, de um lado, e a luz amarela do candeeiro de rua, o outro. Ela esperava, especada no lancil do passeio, pelo transporte possível. A multidão à volta corria, como insectos atabalhoados, por um lugar nos chapas lotados. João achegou-se:

– Olá, Hamina.

Hamina não olhou para ele. Tinha os olhos na estrada, nos carros, a procura de um brilho mais intenso do que a lua: os faróis dos chapas. João inspirou toda a coragem do mundo e balbuciou:

– Hamina, eu…

Um chapa miraculosamente vazio surgiu. A multidão movia-se como o mar em dia de correntes descontroladas. Hamina deixou-se arrastar por essa corrente:

– Tenho de ir, O meu chapa…

João sentiu o coração a desacelerar, como se a cada pulsar um interruptor desligasse o luar.

Quinta-feira:

Na paragem não se via Hamina. A lua continuava a entornar-se sobre tudo mas parecia não ter brilho nenhum. João suspirou. Parecia que a lua o tinha abandonado. Sentiu o peso duma capa escura e fria quando a noite o abraçou. Sentou-se no lancil e ficou a ver as canelas das pessoas a entrecortar as luzes dos carros. Nenhuma parecia Hamina.

– Hamina! – Suspirou.

Sexta-feira:

João, com a coragem aflita de um apaixonado, segurou a mão da Hamina. Ela, meio rosto prateado pelo luar, meio rosto amarelado pelo candeeiro de rua, olhou para o homem e falaram com o hálito muito próximo da respiração um do outro:

– Queria ser a lua, acender-me para ti – confessou o João.

– Não – Hamina lampejou, com pena, um riso sem brilho –, não serias capaz de me iluminar. A lua não tem luz própria, o luar é só um reflexo do sol.

– Mas posso ser o teu sol. Eu amo-te.

 Com a seriedade do “eu amo-te” Hamina recompôs-se. Moveu a cabeça inclinada até ao ombro e inclinou-a para o ombro contrário. Mudou a perna de apoio e o tronco dobrou-se para o lado contrário. Perfurou o homem com o olhar mas os olhos, tal como o sorriso de há pouco, não brilharam.

– João, não se ama alguém que não sobe o mesmo chapa, que não desce na mesma paragem.

– Já viste a lua, Hamina? – João segurava agora a mão dela com as duas suas – Hoje vai haver eclipse. Podíamos ver juntos.

A multidão passava por eles, atabalhoada. Hamina afinou as pálpebras  encandeada pelas luzes de um carro que se aproximava. Ela olhou para o veículo:

– Tenho de ir. A minha boleia chegou.

João esforçou-se para não deixar a mão da Hamina escorregar entre as suas. O rosto iluminado dela moveu-se. Passou pela sombra do João como um eclipse apressado. A boleia desapareceu, com Hamina, entre o tráfego noturno. João sentiu a lua a perder sentido. A apagar-se.

– Hamina!

Se houvesse transporte Hamina não teria ido, pensou, enquanto lhe ocorriam as palavras dela: "Por quê que adiaram as eleições? "

 

Começo por uma célebre e remotíssima “boutade”, do Ungulani Ba Ka Khosa, proferida numa entrevista à brasileira Cremilde de Araújo Medina: “A Charrua é a melhor revista literária do mundo!”. Esta frase denuncia a personagem Ungulani, um verdadeiro iclonoclasta, um  destemido provocador, um desarrumador de ideias. Um homem que gostava de pôr questões – dizia-o à época -, que não tinha respostas, mas fazia perguntas e, de permeio – digo-o eu -, lançava frases como estas. Estas e outras. Recorro ao Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, que tenho à ilharga, para acudir os incautos: “Boutade”: “tirada espirituosa ou engraçada”, “pensamento ou dito subtil, original e imprevisto que freq. contraria propositadamente a verdade” (actualizei um dos vocábulos para ortografia anterior ao acordo de 1990.)

A memória mais remota que tenho do Ungulani é essa mesmo. A de um provocador. É preciso dizer que estamos a falar de meados dos anos 80, em plena I República, com Samora Machel no palco da História, antes da sua tragédia e do fim de um tempo provavelmente único, que foram os primeiros anos da independência. (Éramos jovens e destemidos, gostávamos de polemizar, de discordar, de pôr em causa. Era um tempo em que manifestar uma discordância era muito complicado, mas nós atalhávamos por esse caminho. Era difícil não se seguir o receituário da revolução, havia a reeducação, havia o aparelho ideológico do partido, repressor de ideias que não coubessem no escopo e no ideário “colectivo”, havia um inegável absolutismo. Mesmo assim surgiu uma geração de iconoclastas e a Charrua significou isso mesmo: desalinhamento, sedição, sublevação, desaparelho, desamigo, desajeito ou desafeição em relação aos ditames da época. Khosa, como os seus companheiros, desacfetos do regime, enjeitados até de certo modo, faziam o caminho da contestação. Recusando, inclusive, glorificar o tempo da luta armada que não aparece nos escritos desta geração, pese embora fosse uma prescrição impostergável à época.

Lourenço do Rosário, numa entrevista que me deu para a “Gazeta” da revista Tempo, em 1989, dizia-me, confirmando o que asseverei acima, que a revista funcionara como um instrumento de contestação e de procura de afirmação de um grupo pertencente a uma geração “marginalizada”, que não beneficiava – nas palavras dele -, “da protecção da máquina”. Lembrou-me, a propósito, um termo usado pela jornalista brasileira Cremilda Medina, que classificou a Charrua, naquele contexto, como um “projecto maldito” e ele justificava aquela asserção: “O grupo esteve em contradição com o establishment”. Indubitavelmente.

Ungulani Ba Ka Khosa: “Com toda a sinceridade, digo-te que a Charrua foi um encontro de indivíduos frustrados, que não tinham abertura, digamos, em termos de imprensa, de publicação dos seus textos. Cada um possuía a sua trajectória. Uns à partida já tinham publicação dispersa, outros não. Encontrámo-nos e fizemos a Charrua. Mas não houve filosofia. A publicação era aberta, totalmente ampla, sem preocupações estéticas para cada género. E cada um com a sua filosofia.” Estas palavras são de Setembro de 1990, numa entrevista que lhe fiz, para o livro Os Habitantes da Memória.

Conhecera-o em 1984, justamente à volta da Charrua, que fora lançada em Junho daquele ano. Conheci-o na altura em que conheci os outros charrueiros. Há uma fotografia, da Cremilde de Araújo Medina, no seu livro Sonha Mamana África (título cunhado pelo Calane da Silva) onde estamos (quase) todos. Parece uma equipa de futebol: uns de pé, e outros sentados num banco de jardim: o Ungulani Ba Ka Khosa, o Marcelo Panguana, o Hélder Muteia, o Juvenal Bucuane, o Eduardo White, o Pedro Chissano. Eu e a Olga Pires estamos na fotografia por acaso. Eu não era da equipa dos fundadores da Charrua. Participei da Charrua, mas não a fundei. Ali estavam os fundadores. (À data daquela fotografia o Tomás Vimaró estava já em Lisboa, como correspondente da AIM). Eles eram todos mais velhos. O Ungulani tem, na altura da fotografia e da “boutade” que ilustrava a entrevista, 29 anos, eu tenho 19 – um miúdo.

Havia a tertúlia na cave da Cindoca. Eu bebia coca-cola, participava passivamente das jornadas etílicas que ali se praticavam, por vezes ou quase sempre, de forma intrépida e desassombrada. Eu não bebia nem fumava. Só mais tarde viria a dar-me conta dos avatares de Baco, ou Dionísio, o deus grego do vinho. Mas gostava de ali estar. A malta da Charrua era tudo jovem rebelde, a ela se juntavam, por vezes, o Aníbal Aleluia, ou o Cyprian Kwilimbe, para lembrar duas personagens que abandonaram este reino (White, um dos mais desabridos do grupo, também abandonou este reino). Aleluia escrevia para a revista; Kwilimbe, divulgador obsessivo de Godido, e de João Dias, participava da tertúlia. Havia outras personagens. O Luís Carlos Patraquim antes de zarpar para Lisboa era um assíduo da AEMO e animava a “Gazeta de Artes e Letras” na vetusta revista Tempo. O Calane da Silva ou o Gulamo Khan, que morreu em 1986, em Mbuzini. O Rui Nogar era o secretário-geral e praticava a sua irrepreensível bonomia. Como explicar a Charrua sem a complacência do Rui Nogar? O Albino Magaia que o sucederia. Ou a Fátima Mendonça. Ou o Júlio Navarro. Eu sei lá! Há tantas figuras, que não cabem todas nesta breve homenagem. Nem todos eram dados à espuma da cerveja. Mas à conversa, sim, estávamos todos implicados. Naquele tempo havia tertúlia literária e disso tenho saudades:

Por ali desembarcavam escritores ou ensaístas, oriundos de outras geografias. Recordo-me do chileno Francisco Coloane, referi acima a brasileira Cremilde de Araújo Medina, lembro-me do ensaísta português Arnaldo Saraiva, que nos falou, numa noite memorável, de Carlos Drummond de Andrade, que ele antologiara e estudara e que conhecia pessoalmente. O Mário Pinto de Andrade frequentava a AEMO quando cá estava. Eu sentei-me com ele no mesmo banco da fotografia que aludi e o ouvi tantas vezes. O Manuel Ferreira trouxe o seu Reino de Caliban. A Noémia de Sousa. O próprio Rui Knopfli e o Eugénio Lisboa. O José Saramago. Recordo-me que, anos antes de eu lá aterrar, o Pepetela visitara a AEMO. Só o conheceria em Londres, em 1992, e travámos a nossa primeira conversa lado a lado num mictório, num dos intervalos de um encontro organizado pelo King´s College, onde pontificava o Hélder Macedo, que me convidara por indicação do Eugénio Lisboa.

O Khosa era um dos mais ingentes participantes daquelas memoráveis tertúlias. Tinha lido, tinha bagagem literária. Falava de Jean Paul-Sartre, animavam-lhe os existencialistas franceses. Citava Roland Barthes, um dos emblemáticos da “French Theory”. Falava dos latino-americanos, do Gabriel García Márquez (parece-me incontornável O Outono do Patriarca) ou do Mario Vargas Llosa, o seu predilecto, entre outros. Tinha lido A Conversa na Catedral e citava aquele início fabuloso com aquela frase que o pudor que a revolução impunha a tornara irreproduzível. Mas ele haveria de usar o mesmo vocabulário truculento num conto em que alguns viram o que lá não estava: o vitupério da pátria. Quando li A Festa do Chibo pensei nele. Ele falava do grande Ernest Hemingway, que lhe ensinara a arte do diálogo. O Ungulani é dos poucos prosadores moçambicanos que sabe fazer diálogos. Muitos ínclitos escritores nossos vacilam, oscilam, cambaleiam quando tem de pôr as suas personagens a dialogar. Outro grande mestre americano que concitava o entusiasmo do Ungulani: William Faulkner, o autor de O Som e a Fúria. Por conseguinte, o Ungulani Ba Ka Khosa era e é um interlocutor culto. Um escritor com referências. Um homem que lera. Um escritor tem que ler para saber escrever. Não é possível ser-se escritor sem se ler. Um escritor é, antes de tudo, um grande leitor. Por muito que se acredite que a inspiração é uma coisa insofismável – algo que me põe nos antípodas e pronto para o reproche. Há aí uma malta dissoluta que acredita nisso.

O Ungulani escrevia contos, tinha e tem uma imaginação esquizofrénica, um poder efabulatório e encantatório, uma grande capacidade narrativa. Tinha e tem vocabulário. Tinha e tem a História como bagagem. Citava a Agustina Bessa-Luís: “A História é uma ficção controlada”. Tenho isto na memória. Tinha a experiência da Sibéria moçambicana, como ele chamaria ao Niassa. Fora lá onde começara a escrever. Ali residia um grande universo: as grandes contradições da época jogavam-se no frio distante do Niassa. Mas também escrevia contos urbanos, de uma cidade de Maputo sitiada. Escrevia sobre o tempo do Imperador. Discutíamos aquilo que vinha no JL, as entrevistas do Lobo Antunes, a escrita do Cardoso Pires ou do José Saramago para falar de autores portugueses. Ou do Dinis Machado. Ele citava O que diz Molero. Falávamos de escritores brasileiros. Do Jorge Amado que abraçámos em Lisboa nos intervalos de um congresso, ao qual fôramos com entusiasmo irrepreensível e alento quase juvenil.

O tempo esfumou-se numa voracidade incrível. Mais de três décadas. Entretanto, dispersamo-nos. Eu fui estudar lá fora, retornei cinco anos depois, mas deixei de frequentar a associação, que se havia transformado num santuário de bebedores. Lancei, aliás, uma diatribe contra isso, num trocadilho que os meus velhos companheiros se viram ofendidos. Com razão. Excessos de juventude e abundante uso de ironia. Tudo isso trouxe-me alguns amargos de boca, mas não me queixo. Tenho uma admiração sem hesitações, aliás faço aqui testemunho disso, pela geração da Charrua e uma incólume lembrança, à qual pago aqui o meu tributo.

Ungulani Ba Ka Khosa tinha 30 anos quando, em 1987, se estreou com uma obra seminal Ualalapi, numa colecção igualmente iniciática da Associação dos Escritores. O tempo demonstrou que, tanto este livro, como o que inaugura a mesma – Amar sobre o Índico, do Eduardo White -, estavam, indubitavelmente, na secção errada. Sobretudo este livro, obra que lança, com o livro de Mia Couto, Vozes Anoitecidas, editado no ano imediatamente anterior, a nova vaga de ficcionistas moçambicanos. Moçambique era, até então, uma nação de poetas. Dizia-se que em Angola estavam os ficcionistas e em Moçambique os poetas. Eles derrubam essa espécie de anátema. Antes disso, que tínhamos? Godido de João Dias (1952), Nós Matámos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana (1964), Portagem de Orlando Mendes (1966) ou Contos e Lendas de Carneiro Gonçalves (1975). Não avulta, até então, prosa de ficção narrativa, na literatura moçambicana. Todos os títulos supra-citados prescreviam obras únicas.  Não havia, entre nós, um escritor que tivesse publicado na sequência de uma primeira obra de ficção um título ulterior. Isso acontecerá justamente com Ungulani Ba Ka Khosa e Mia Couto, em 1990, quando Khosa publica Orgia dos Loucos e Couto dá à estampa Cada Homem é uma Raça.

Quando eu editava a revista Índico pedia-lhe colaboração. Ele recolheria, no entanto, muitos desses textos no livro Cartas de Inhaminga (2017), o que me regozija.  Acaba de publicar Gungunhana (2018), onde Ualalapi é acompanhado do inédito As Mulheres do Imperador, com o qual encerra o temário ligado ao Império de Gaza e a Ngungunhane. (A grafia no título desta edição foi imposta pelas circunstâncias editorias.) É ainda autor de Histórias de Amor e Espanto (1993), Os Sobreviventes da Noite (2005), Choriro (2009), O Rei Mocho (infanto-juvenil, 2012) e Entre Memórias Silenciadas (2013). Premiado aqui e no estrangeiro, publicado lá fora, não goza da reputação que merece, a despeito de Ualalapi figurar entre os melhores títulos do século XX africano. O nome e a escrita de Ungulani Ba Ka Khosa mereciam outra fortuna em termos de projecção internacional. A sua verve é indubitável, a sua imaginação telúrica, a sua escrita por vezes vertiginosa, ou mesmo voluptuosa. Disse-lhe uma vez que o seu talento não tem tido o marketing que o devia ter transposto para um patamar muito mais elevado do lugar em que está. Tem obra, tem nome literário muito forte – Ungulani Ba Ka Khosa -, tinha e tem um discurso dos mais originais, indagadores e perturbadores, no seio dos que escrevem. Chama-se Francisco Esaú Cossa, nasceu em Inhaminga, a 1 de agosto de 1957.

Heróis não há mais

Nem depois nem antes

Há é marechais

Vendendo purgantes

Tenentes tementes

Bons comerciantes

 De pasta de dentes

 João Pedro Grabato Dias

Ao Léo Cote!

Arão Cipriano Matenje decidiu criar a sua própria empresa como quem está a vingar-se do desemprego três dias depois do patrão entregar-lhe a chave da rua. Matenje pegou naquela chave, novinha em folha e abriu a sua start-up, com a missão de difundir informação sobre a actualidade dos bairros em expansão e alguns devaneios amorosos. Arão Cipriano criou aplicações para os seus clientes desenvolverem aptidões para falar com Deus e terem sorte no emprego. A empresa de Matenje tem como parte da responsabilidade social, aplicações que difundem informação gratuita sobre exames de admissão, a cursos médio e superior. Um dos ramos concorridos é dos aplicativos electrónicos para o povo aceder a títulos de direito de uso e aproveitamento da terra, os famosos DUATS. Matenje está a liderar uma iniciativa de criação de aplicativos de apoio à campanha de testes para diagnósticos da malária, tuberculose, HIV-Sida e outras doenças. Arão Cipriano Matenje inaugurou uma agenda do xitique electrónico semanal dos mercados da zona suburbana da capital. O nosso empreendedor criou aplicativos sobre notícias da bola, funerais, venda de casas, carros e artigos diversos para os caprichos da ala feminina. A start-up de Matenje cresce a olhos vistos no bairro Zé-galinha.

O segmento com mais visitas nestes dias é o misterioso desaparecimento da Gita, a mãe de todas as virtudes. E para além da divulgação de Matenje, há um ruidoso reforço informativo nas conversas matinais de esquina, sobretudo nos mercados informais, reportando que, afinal Gita foi gwevar para os lados da China. Uma outra ala das comadres, actualizadíssima, diz que ela está em Magude numa consulta a um curandeiro de reconhecido mérito nos místeres da cura…

Arão Cipriano Matenje foi ao meu consultório confirmar que a Gita cometera, como tantos outros, um inexplicável suicídio. Desde esse dia deixei de seguir a esfera pública criada por Matenje, nem sequer dar ouvidos à rádio que de boca em boca dá notícias, investindo até em antenas modernas de batons berrantes e tons que tais.

Numa tarde incerta a curiosidade convocou-me para o bastião de tupilas, a relva de um verde-alface sem fim. Tal é a beleza do imenso jardim que circunda a casa de Saugineta Antónia Fróis Mambasso. E assim de repente uma ruidosa gargalhada apossou-se dos meus ouvidos. Naquele instante Gita surgiu diante dos meus olhos com uma luminosidade sufocante, o sorriso aflorando-lhe o rosto. O perfil da Gita era de cortar a respiração. Saugineta trajava um vestido branco. Ela convidava-me a entrar no seu palacete, sem dizer palavra. Justo eu que não acredito neste mundo onde a vida transforma-se, dia-após-dia num festival incessante de surpresas que sufocam as minhas emoções. Permaneci ali especado fazendo concorrência às estátuas em memória dos artistas moçambicanos, que ainda carecem de aprovação por quem de direito.

Depois da visita ao bastião da Gita consultei a página electrónica de Matenje. Para o meu espanto a notícia da morte está disponível, 24 horas por dia. As criações deste cidadão conciliaram famílias, harmonizaram funerais de gente desavinda e fizeram com muita gente tivesse muitos números à direita nas suas contas bancárias.

 Conheci Arão Cipriano Matenje na noite que Cachela marcou, num disparo notável, um golaço no FNB Stadium, qual mamba solta na galáxia futebolística! Matenje chegou-se junto de mim, todo gabarolas dizendo que aquele puto da selecção moçambicana tinha já um contrato feito para as europas, logo que terminasse o amigável com os Bafana-Bafana. Acreditei, tal era a convicção do fulano.

Hoje nos cruzamos pela manhã e, pelas minhas contas passam já vinte e três anos que conheço o Arão. Cumpri a missão de saudar e escutar Matenje. Este não perdeu tempo pôs-se a divagar, recordando os faustosos momentos da sua vida, do seu voo recente na indústria da comunicação. O meu herói transformou-se num novelo de fumo já dissipado. A start-up de Arão Cipriano Matenje faliu, sem antes publicar na causa de tal destino.

– Estou tão tchonado, irmão. Só tenho mil paus. Isto nem dá para comprar um ovo… – E depois rematou.

– Não pagas uma, senhor embaixador?

Encontros fortuítos com Arão Matenje sucederam-se a uma velocidade incontrolável para o meu desgosto. Avistei-o descendo de uma viatura de alta cilindrada numa bomba de combustível. Saudamo-nos num aceno breve. Outro dia Arão estava na varanda no restaurante Matháta com companhias de alto calibre financeiro, algures na avenida Pássaro da Madrugada. E, mais recentemente, encontrei-o no Cala-a-boca. E depois na sala de jogos do já decadente restaurante militar A Luta-continua. A última vez foi no Espinafre, uma tasca recém-aberta.

– Aquela gaja morreu, meu irmão. – Fuzilou Matenje.

– O quê? – Reagi aturdido, respirando à rasca para poder conter as emoções.

– A Guida, perdão a Gita suicidou-se esta manhã, compadre.

– Vai lá ver se chove lá fora, Matenje. Então a Gita de todas vezes que nos encontramos morre na tua boca, de todas formas e feitios? Tenha o mínimo de controlo nas palavras, irmão. Fazes isto só para cravares dinheiro, Matenje?

Arão Cipriano Matenje meteu-se na primeira boleia que surgiu à frente. Não mais tive notícias dele. Quem estiver interessado pode consultar o google, desde que escreva o nome do artista no motor de busca cibernético.

Fossemos observadores das nossas tendências naturais a coisas da vida, desde crianças, menos dúvidas restar-nos-iam que nós não somos nascidos como uma “tábua rasa”. Chegamos ao mundo com determinadas predisposições que nos permitem exercer com excelência algumas funções capazes de imortalizar-nos. O principal fim último das qualidades inatas dos seres humanos é a glória.  E tal glória que chega a ser guardiã da nossa existência póstuma só nos é possível conquistar, quando as nossas obras ou acções comportam excelência. Daí que é mister a pergunta “quem sou eu?” quando se deseja viver uma vida sublime. A resposta para “quem sou eu?” é das mais difíceis de acesso na vida, requerendo continuamente a introspecção e consistência. Sendo assim, todas as suspeitas daquilo que pensamos que somos devem basear-se nas inclinações naturais que, ao longo da vida, vamos manifestando.

O que se deve tomar como postulado para compreendermos melhor a nossa existência é que tudo na vida tem um propósito, incluindo a própria vida – nada ocorre por acaso. E o segundo postulado deve consistir na crença de que o propósito de todas as coisas na vida é sempre benigno. Todos os fenómenos do mundo convergem para um propósito feliz e, mesmo quando ocorrem falhas, o positivismo mantem-se por meio das lições que se aprendem das experiências negativas. Deste modo, se gozamos da vida, e acreditamos que ela tem um propósito, então, sejamos consequentes em apostar que o propósito das nossas vidas é sempre ditoso. Deste modo, estejamos preparados para ultrapassar as peripécias da vida, provando cada vez mais o que nós pensamos que somos por meio da consistência.

O destino é grandioso e existe, mas pode ser rejeitado para nossa própria desgraça. Ou seja, todos os homens são destinados a ser excelsos na vida, mas quando não atendem ao chamamento missionário com consistência, acabam medíocres e desventurados. E o mais vivo sinal que nos permite identificar o chamamento existencial são as nossas tendências naturais que começamos a manifestar desde criança. Alguém que lida facilmente com instrumentos musicais desde a tenra idade, sem ainda ter passado por longos treinos, o seu maior triunfo onto-existencial é a música. Para quem, quando criança, destacou-se mais em competições físicas, o seu melhor lugar no mundo é a ginástica. E aquele, que sempre se entreteve em compreender a funcionalidade das coisas, devia entregar-se a investigações científicas. Mantendo-se firme sobre tarefas que mais sente comodidade em executar, mas executando cada vez mais com qualidade e ciência, mais alinhado com seu fausto destino o indivíduo estará.

Porém, se o indivíduo se deixar guiar pelas paixões – que, são por excelência, causadoras da cegueira existencial – ou resignar-se diante das peripécias da vida, o seu destino acaba desfalecendo. Nisto, o homem torna-se um arredio, vítima de abandono de um plano metafísico. E, no mundo, há mais pessoas que desistiram do seu próprio destino por razões mesquinhas ou graves de diversas ordens. Dessas pessoas, tenha-se a certeza que a sua morte escamoteará rapidamente a memória da sua existência na terra, pois não haverão deixado obras que excedam o que é usual dos humanos. Somente o extraordinário faz a história. Portanto, se quisermos ser proeminentes na vida, temos de optar por uma educação de excelência que consiste em aprimorar as nossas qualidades inatas.

As qualidades inatas ou o talento, em si, não nos é suficiente para perfazermos obras inéditas capazes de nos granjear a glória. São precisos o treino e a ciência. Porém, quando se treina algo não inato, o esforço é mais penoso e o resultado é acima do medíocre, mas não ao ponto de ser sublime. Por esta razão, torna-se recomendável que o indivíduo procure na vida exercer a actividade em que sua natureza está em vantagem que o desejo. É mister para cada indivíduo o estudo sobre as suas potencialidades inatas de tal modo a desenvolve-las e atingir o sucesso inigualável entre homens ordinários. Quando não se faz tal estudo introspectivo, e faz-se o que o desejo desvinculado da habilidade inata manda, a probabilidade do sucesso é de mediocridade ou moda, mas não de glória que só se alcança com excelência.

É-nos agradável fazer coisas das quais a gente gosta, porém muitas vezes a felicidade assenta no conformismo e não é definitivamente distintivo da grandeza. Assim sendo, dever-se-ia adequar o sonho às qualidades inatas do homem, quando se quer alcançar o que está fora do comum entre os homens simplórios. Dando alma ao talento, o homem torna-se um fenómeno invejável no mundo pelo nível de competência e graciosidade com que faz as coisas acontecer. Quando reparamos nos homens históricos como Sócrates que manifestou a sua excelência na filosofia, Jesus de Nazaré na moral, Alexandre o Magno na arte da guerra, Da Vinci na pintura, Camões na poesia, Mozart na música, Einstein na ciência, Pelé no futebol, é-nos tão difícil conceber que sua excelência não tem a ver com nenhum desenvolvimento da qualidade inata, mas que tudo foi obra do desejo, ensino e esforço. Mas se o sucesso gigantesco destes homens deveu-se tão somente ao desejo, ensino e esforço, porque todos aqueles que desejaram, talvez, tiveram melhor ensino e mais dedicaram-se não se tornaram tão proeminentes quanto eles? Certamente que houve homens que mais estudaram na vida que Sócrates, porém ninguém o superou na reflexão profunda sobre a condição humana, assim como houve jogadores que até passaram pelas grandes universidades, mas o seu brilho chega a apagar-se com a sombra de Pelé.

Outra imaginação de difícil projeção é tentar visualizar estes homens gloriosos fora das áreas onde garantiram a sua brilhante existência histórica. Se Da Vinci ou Michelangelo tivessem preterido a pintura pelo futebol ou culinária, teria sido possível que eles conquistassem o mundo da mesma forma como o fizeram com os seus pincéis? Ou eles definitivamente souberam interpretar os sinais do seu destino glorioso, compreendendo suas tendências naturais e desenvolve-las com afinco rumo à perfeição?! Não basta o talento nem o esforço em si separados. É preciso um casamento entre os dois elementos para o homem atingir o auge da sua existência. Assim como a semente num solo fértil precisa de água para germinar, a dádiva no homem também requer treino para produzir obras de grande dimensão.

Procuremos o que há de bom em nós, tornemo-lo melhor e acreditemos que assim estaremos a cumprir o mais esplêndido desígnio da nossa existência.

 

Fonseca Amaral: “Lembras-te, Lina, / do beijo roubado entre girassóis/ ou de quando íamos/ de mãos dadas, meninos/ ouvir as barcarolas/ do marinheiro negro na praia?// Mamana Celina/ não voltou mais à esquina da rua/ com suas badgias picantes e castanhas de caju/ e o negro coxo que jogava futebol/ morreu numa noite de bebedeira// Lembras-te, Lina,/ do moleque Fabião que nos trazia do mato/ maçalas e amendoim?/ É agora um velho alquebrado/ à porta da palhota/ embrulhado numa réstea de sol.// Os nossos companheiros doutrora/ se dispersaram, também: / os meninos brancos trabalham nos escritórios,/ Zé Mulato sonha Brasis e ritmos de samba/ e o Gungunhana/ vende frutas numa banca do bazar.” (Excerto do poema “Evocação”).

A primeira vez que ouvi falar do Fonseca Amaral foi num texto empolgado e evocativo do Rui Knopfli, no caderno de poesia Caliban, número 2, de novembro de 1971, que ele fazia editar, na companhia do poeta Grabato Dias. Escrevera o autor das Mangas Verdes com Sal: “Fonseca Amaral é, por direito e mérito próprios, um dos nomes mais altos e representativos da Poesia em Moçambique e, simultaneamente, por desleixo ou abulia, um dos menos conhecidos e apregoados, espécie de grande ausente nos vários certames em que vamos acrescentando pátina às nossas acanhadas glórias caseiras.” Assim começavam as “Notas para a recordação do meu mestre Fonseca Amaral”, nas quais se acrescentava: “Tímido, reservado, inseguro de si próprio, que não da sua poesia, membro daquela família de criadores que, cumprindo-se embora, se apagam e auto-anulam não se sabe bem porque estranhos caprichos da vontade, é o poeta em larga medida responsável pela pouca, ou nenhuma, divulgação de uma obra merecedora da mais vasta audiência.” A geração que desponta para a literatura nos anos ulteriores à II Grande Guerra muito lhe deve. Esta geração (à falta de melhor termo, di-lo-ia Knopfli) incluía José Craveirinha, Noémia de Sousa, Ruy Guerra (o cineasta) e Rui Guedes da Silva, Rui Nogar e o pintor António Bronze e o próprio autor daquela pungente homenagem.

Rui Knopfli: “Frágil, mefistofélico, com um rosto elusivo de pássaro, João da Costa Fonseca Amaral – de seu completo nome – estimava dizer que nascera no Cairo, para não confessar que vira a luz, prosaicamente, em Viseu, no final da década de 20. Desde a mais tenra idade, porém, estro e coração ficaram-lhe para sempre ancorados no Largo Albasini, bem na fronteira nevrálgica da “outra” cidade, onde – ao observador mais arguto – não escaparão, ainda hoje, os modelos vivos que tão sugestivamente lhe animam a poesia. Poesia que, alicerçada nos moldes esquiçados pelas correntes modernistas portuguesas da primeira metade do século, é das primeiras a integrar harmoniosa e originalmente, nesse modo de dizer, todo um bem tipificado e colorido microcosmos local erigido – pela escorreita finura de uma límpida e vigilante inspiração lírica – à condição de linguagem e mitologia de sabor iniludivelmente moçambicana. A tal título são acabados exemplos como “Evocação”, “Para um barco…”, “S’Agapo”, ou “Passagem de nível”, coordenadas maiores para a rigorosa consciencialização e delimitação de um espaço literário até aí fluído e incaracterístico.”

Fui visitá-lo à sua casa, em Janeiro de 1990, a pretexto de uma entrevista, tendo como linha de cota o artigo do Rui Knopfli e os depoimentos afectuosos da Noémia de Sousa e do José Craveirinha, que me falavam dele com abundante e transbordante emoção e indisfarçável amizade e bonomia. Era um homem de certo modo sibilino, esquivo, tímido. Mas adorável. A conversa que mantive com ele foi inesquecível e emotiva. Sincera. Profundamente sincera. Nascido em Viseu, em 1928, Fonseca Amaral fora para Moçambique com apenas três anos de idade. A sua infância – e por aí iniciamos a nossa conversa – passara no Xipamanine, nas terras do “Ka Amaral” (seu avô) –, com amigos negros com quem falava Ronga. Também tinha amigos de outras origens e que se misturavam naquelas periferias: muçulmanos, indianos, chineses. Passará pelo Chamanculo e, depois, a ascensão social levá-lo-á ao Alto-Maé, ao Bairro Central e, ulteriormente, à Polana.

Na adolescência foi vizinho do Eugénio Lisboa, que irá, muitos anos mais tarde, prefaciar, com o seu conhecido e festejado tom sulfuroso, o livro Poemas, editado postumamente em 1999, em Portugal. Mas lá iremos. Pus-lhe, depois da romaria à infância, uma questão sobre a juventude, questão similar que eu pusera à Noémia: por que razão é que eles (incluindo, pois, a Noémia de Sousa) haviam colaborado na revista da Mocidade Portuguesa? “Por ingenuidade, por sacanice”, disse-me ele. “Era uma sacanice ingénua.” Julgavam que poderiam tomar de assalto a publicação. Tinham o ideário oposto ao defendido pela Mocidade, tanto mais que alinham com o MUD-Juvenil e, mais tarde, são presos: ele, Rui Knopfli, Ruy Guerra, os mais jovens; ou aqueles que ele chamaria de “os trutas”: Henrique Beirão, Sofia Pomba Guerra, Sobral Campos ou João Mendes, todos eles deportados para Portugal, presos em Caxias. Sem provas, seriam libertados após o julgamento, mas o João Mendes segue degredado para Cabo Verde. João Mendes, é preciso lembrá-lo, irmão de sangue de Orlando Mendes, irmão de coração da Noémia de Sousa, que lhe dedicará Sangue Negro.

Influenciados pelos neo-realistas, irão lançar estes jovens os tentames de uma literatura de raiz marcadamente moçambicana. Não é alheia, no entanto, a figura de Augusto dos Santos Abranches, que traz a Moçambique a experiência do Novo Cancioneiro de Coimbra e que divulga, com Fonseca Amaral, autores neo-realistas, da Presença e do Orpheu. Uma verdadeira agitação cultural. Contou-me o Fonseca Amaral que foi o Augusto dos Santos Abranches que levou muitos dos jovens a desenhar, entre eles, o Rui Knopfli. Em 1955, Fonseca Amaral vai para Portugal onde permanece 20 anos. Escreve para a Voz de Moçambique. Traduz. A sua produção própria é, a despeito, avara.

Regressado, nos alvores da independência, trabalha entre o Ministério da Informação ou o Instituto Nacional do Livro e do Disco, em tarefas sempre urgentes e agitadas, num tempo que avulta a falta de quadros, onde é preciso fazer tudo, Amaral também não escreve. No entanto, aquela poesia que fora, para muitos da sua geração ou anterior, inspiradora do que viria a ser a nova poesia produzida em Moçambique, parece-lhe, a esta altura – aquando da nossa entrevista -, datada, não lhe apetece reuni-la, nem editá-la. Insisto com ele: “Fonseca Amaral, eu quero lembrar-lhe isto que você sabe melhor do que eu: os seus textos, mesmo datados, revestem-se de importância histórica e documental. As gerações presentes não têm à disposição a sua poesia em livro.” Ao que ele irá retorquir-me: “Nelson, eu sempre fui um homem de produção muito escassa. Os poemas, alguns, são dolorosos; doem muito. Para já não quero sofrer. Os poemas custam-me muito. Não é o acto, a caneta, o papel e a máquina. Doem muito. E agora devo fugir à dor. Sofri muito.”

Vi, nesta confissão, um homem sincero e honesto. E não quis escavar mais a sua dor. Porém, ainda quis saber se ele escrevia. Disse-me que sim, às vezes, por catarse: “Para me equilibrar. Não tem interesse. São coisas muito pessoais. Tem que ver com a vida afectiva.” Divergimos, então, do tema que lhe doía, falamos dos extenuantes 5 anos que vivera em Moçambique no pós-independência, das suas frustrações, do seu esgotamento, do regresso a Portugal, onde a mulher tinha uma carreira que lhe garantiria a reforma. Foi muito amável e senti que tinha sido muito franco ao lembrar as suas memórias da sua já longa trajectória. Recordo com saudade aquele encontro e há dias descobri as fotografias que o documentam. Vimo-nos mais tarde, em finais de 1992, na casa do Rui Knopfli, na companhia da Noémia de Sousa, do Eugénio Lisboa e do Eduardo Pitta. Foi pouco tempo antes de ele falecer, em Janeiro de 1993.

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em Portugal, fez editar a reunião da sua escassa produção poética. Rui Knopfli, a quem incumbia a tarefa de organizar o magro espólio, morreria no Natal de 1997, tendo deixado a cargo da INCM os papeis por organizar e antes de redigir o prefácio combinado. Coube tal tarefa a Eugénio Lisboa. Diz o ensaísta com algum vinagre: “Que Fonseca Amaral teve, sobre um grupo de jovens moçambicanos (Noémia de Sousa, Rui Guerra, Rui Guedes da Silva, Rui Nogar, José Craveirinha, António Bronze – pintor – e o próprio Knopfli), uma fecunda e duradoura influência, não é matéria de dúvida. Nenhum deles, suponho eu, o negaria e vários de entre eles o têm repetidamente confirmado. Que tal influência não está à proporção nem da quantidade nem da qualidade da obra produzida (a qual existe, mas, a nosso ver, não o torna, como pretendia Knopfli, “um dos nomes mais altos e representativos da Poesia em Moçambique”) fica também, quanto a nós, fora de qualquer dúvida.” Numa passagem mais adiante, onde também narra os tempos em que foram vizinhos, “no extremo limite da cidade branca”, Lisboa afirma: “Gostava de falar com o Fonseca Amaral, mas devo confessar que, embora reconhecendo-lhe competências na área literária, me sentia singularmente imune às suas seduções. Em primeiro lugar, desconfiava (sem razão, digo-o agora…) de uma personagem que tão frontalmente rejeitava (com desprezo mais afectado do que real?) a magia das ciências exactas. Como se podia não ser sensível à beleza pura da álgebra e da geometria euclideana? Que estranha “falha” existiria naquela organização humana, que assim a tornava impenetrável a uma exigente e pura área de conquistas e promessas que a mim me fascinava? Se quisesse ser sincero – mesmo sem pretender ferir – haveria de confessar que uma tal assintonia com as matemáticas me tornava suspeita a qualidade mesma dos seus juízos literários…”

Não concordo de todo com o Eugénio Lisboa. Creio que neste depoimento se percebe que aquela desconfiança não fazia sentido, de que o próprio Lisboa faz contrição. Não me parece que um bom poeta, um grande poeta até, tenha que ter uma sintonia com as ciências exactas. Creio aliás que a poesia, a grande poesia, vem de outras ordens, de outras sintonias. Provavelmente, o Fonseca Amaral não é um poeta soberbo, não o foi porque a isso não se quis dedicar ou não teve estro para tal, mas não foi a sua assintonia com as matemáticas que o impediu de o ser. Contudo, o poeta de “Passagem de nível” (ou de “Exílio” ou de “Karamchand” ou ainda de “L`Après-midi d´un gala-gala”) escreveu, a seu modo, o seu nome nos armoriais da literatura moçambicana. “Ali a nossa Pátria mal nascia”, queria ele e fê-lo bem. Transcrevo, a terminar, um dos seus mais belos poemas, evocativo, quase elegíaco, como foi toda a sua poesia, desta voz, quase sempre ensimesmada, aludindo a uma memória ulcerada, acenando ao mundo e à emoção que nunca o haveriam de o abandonar no seu longo e dolorido “Exílio”:

Fonseca Amaral: “Longe embora cidade paráclica/ a língua se nos cola ao céu da boca/ se vier o olvido. // Banhas-te connosco em águas de desterro/ flutuas sempre por nossa boca/ nas praias da memória. // Nos dias mais soalheiros da diáspora/ és tu quem materna vem dizer “aqui estou” / à emoção que nos habita//. Marulham outras águas aqui/ mas quando as invocamos é Baía do Espírito Santo/ o nome que nos corre à boca. // São lembranças que viajam para ti/ mãe estuante que nos deste o leite e o mel/ hoje por tão longe dissipados.”

Talvez num futuro longínquo se saberá que a literatura não é um simples jogo de palavras cabeceadas pelo peito das ideias. A literatura, e em concreto o romance, não é uma partida de ideias onde os sonhos e a realidade são enrolados num pano de ficção para servirem de bola de trapos. Uma partida cujo principal objectivo é divertir os homens que sonecam na bancada central sombra da vida. Quando se lê “Ilusão à Primeira Vista” de Almeida Cumbane percebe-se isso. Almeida põe-nos olhos de ver o romance como um espaço de apresentação e representação da condição humana. Ele usa o romance para nos auto-revelar a realidade que escondemos e nos deixamos esconder nela. O romance afirma-se em Almeida como um palco de redenção do homem.

Giovanni Papini dizia que o romancista não é apenas o mineiro ou pescador do seu inconsciente. Mas é também um escravo de seres que se servem da sua arte para regressar ao palco do mundo. E este regresso ao palco do mundo dá-se por aquilo que Papini chama de “rápida ilusão de intimidade”. Eis a redenção que encontramos em Almeida. A redenção que a “Primeira Vista é uma Ilusão”, mas acontece de seguida pela rápida ilusão de intimidade com todo o enredo do livro.

Os molhos de parágrafos que Almeida serve-nos em tabuleiros de palavras têm um sabor da paisagem imparcial e concisa da sociedade moçambicana. Através do professor André Fernando Matuassa percorremos os vários países que existem no nosso país, descobrimos o que a Unidade Nacional separa, escorregamos nas calçadas da política e caímos em campos de corrupção e injustiça social.

Os limites culturais e geográfico jogam um papel muito importante neste enredo. Quando li, pela primeira vez o romance esperava encontrar um baralho incompressível dos vários entes-culturais que fazem o nosso país. Estou acostumado a gente que se predispõe a tratar dum assunto nacional e que no meio da narração puxa tudo para sua cosmovisão cultural. Mas, Almeida soube medir e aferir os grandes países culturais que existem no nosso pequeno país.

A revelação da condição humana, neste romance, faz-se por meios de dois caminhos: o amor fracassado e o questionamento quase existencialista do professor André. “Ilusão à Primeira Vista” narra as peripécias de um professor. Aqui podemos abrir um parêntesis para dizer que Almeida Cumbane é professor. E estamos, talvez, perante um romance de auto-ficção. Subgénero cultivado por um dos meus favoritos romancistas, Lobo Antunes.

Almeida teve o cuidado de tornar esta narrativa um conjunto de narrativas. Ou seja, usando a sua técnica construiu outras narrativas que nos aguçam o apetite pela independência e dependência do enredo principal. A escrita de Almeida surpreende, outrossim, por uma espécie de desconstrução e provocação.

Papini dizia que os que escrevem romances só por lucro e vaidade são os servidores dos gostos do tempo e dos leitores previstos. Mas, os que escrevem romances por impulso do seu génio criador são escravos das suas próprias criações. O romance de Almeida Cumbane mesmo contado a história despedaçada amorosa e socialmente de André, homem de coração desfeito por amor pela Nweti, não se desfaz da sua unidade narrativa. Consegue comunicar-se com cada parte dos seus elementos porque tem como fio de união um génio criador natural.

“Ilusão à Primeira Vista” é o livro que devemos escolher para compreender a vida e as escolhas que o coração faz dela. É verdade que não é um romance que procura arquitectar passados como tantos outros. Mas é um romance que vende o passado pela senha do perdão. E estando no presente procura cheirar as pegadas dum futuro que ainda não passou: “diga apenas que me ama. Que vai sair da cadeia na próxima semana para recomeçarmos uma vida honesta” diz Inocência no fim. E mostra que ela não era uma ilusão.

 

Lília Momplé é um nome desconhecido para a maioria dos amantes de literatura. É, entretanto, uma das maiores referências da moderna literatura moçambicana. Contista e romancista nasceu em 1935 na Ilha de Moçambique. Depois  de ter vivido em Portugal,  na Inglaterra e  no Brasil, Regressou definitivamente a Moçambique em 1971. Foi Diretora de Relações Internacionais do Ministério moçambicano da Cultura e tem representado o seu país em vários eventos internacionais. Integrou o conselho executivo da UNESCO em París e, é membro de honra da Associação dos Escritores Moçambicanos onde já exerceu os cargos de Presidente e de Secretária Geral.

É esta atenta “mamana”   octogenária que aqui apresentamos aos nossos leitores transcrevendo esta, mais que condimentada, conversa mantida no Centro Cultural Brasil/Moçambique, em Maputo, num dia em que aconteceu mais uma das várias homenagens que lhe têm  prestado um pouco por toda a parte.  O seu passado. O presente e o futuro. Os livros, os escritores e as nossas literaturas são o mote do que se segue:    

L.F.-Como foi que tudo começou? O que é que a levou para a literatura?

L.M.-Vários motivos me levaram à literatura e um deles foi o facto de ter nascido na Ilha de Moçambique. Tive lá uma infância muito feliz na medida em que fui muito livre. A minha casa ficava a dez metros da praia. Era uma Ilha muito mítica e eu me lembro de olhar para aquela beleza toda e dizer  ou pensar em um dia escrever aquilo que via e isso  foi o que me levou a querer abraçar uma arte qualquer. Podia ser pintura ou escultura. Algo que me ajudasse a preservar e divulgar aquela beleza da Ilha. Mas o mais importante ainda foi o facto da minha avó macua  ter tido o hábito de me adormecer a contar estórias tradicionais dos macuas.  Ela contava com muita vida, com muita alma e eu adormecia ouvindo aqueles contos maravilhosos e fantásticos dos coelhos, dos leopardos, das princesas e etc. Tudo aquilo foi enchendo o meu imaginário de maneira que eu pensava sempre na possibilidade de poder escrever o que ela contava.  Escrever foi uma maneira de render uma homenagem a essa minha avó pelo facto de ela me ter aberto o imaginário para a vida.

Outra influência grande foi, sobretudo, de dois professores de português. Está a ver qual é a influência que um professor tem na vida futura dos alunos…. –um professor pode marcar um aluno para toda a vida. Eles elogiavam sempre as minhas redações nas outras turmas. Mas apesar de eu sempre ter sido muito pouco atenta às minhas qualidades, era tal o apreço que esses professores tinham por aquilo que eu escrevia, que eu me sentia muito bem quando o fazia.

Depois verifiquei que o que eu mais gostava de fazer era mesmo escrever. Escrever é como se fosse um parto. É um exercício penoso que depois nos dá uma certa alegria. É um exercício gratificante. Gosto de criar personagens com personalidade própria. Que não aceitam morrer ou que são mulheres que não aceitam ser parvas. A escrita é um jogo e eu sempre gostei de jogar.

L.F.- E quando é que começou a publicar as primeiras coisas?

L.M.-Quando comecei a publicar eu já tinha cinquenta e quatro anos. Eu tirei o curso de assistente social em Lisboa , no Instituto Superior do Serviço Social e a minha profissão requeria muito de mim. Ou eu era uma boa assistente social ou então não trabalhava nisso. Trabalhei no Brasil, em S. Paulo, e quando regressei a Moçambique -já casada- não haviam assistentes  sociais profissionais e como sabia inglês, pois estive também um tempo na Inglaterra, fui trabalhar como professora  para a única escola secundária da Ilha de Moçambique  e mais tarde quando se deu a independência nomearam-me diretora da escola. Eu era ainda miúda. Ainda tinha quase quarenta ou quarenta e poucos anos: Era Diretora, professora e trabalhava de manhã, de tarde e de noite para fazer um trabalho pelo menos razoável e, então escrevia muito mas nunca com a intenção de publicar… até quando vim para Maputo, já para o Ministério da Cultura.

L.F.-Agora gostaria que me fizesse uma pequena abordagem das suas relações com os escritores e com a literatura angolana.

L.M.-Infelizmente não são aquelas que eu gostaria que fossem porque eu admiro muito a vossa literatura.

Infelizmente os vossos livros não vêm cá e os poucos que vêm, as vezes, são muito caros e não há nenhum intercâmbio. Mas também eu tenho viajado muito e é possível que eu não tenha estado cá quando vêm os escritores angolanos porque eu viajo muito e a minha vida foi sempre uma vida de viagens e de bons hotéis

Eu fui amiga da Gabriela Antunes. Fomos colegas da universidade e encontramo-nos aqui várias vezes e até lembro-me que quando ela vinha cá ela dizia-me «ó Lília, leva-me ao cinema porque em Luanda não temos cinema!»

Conheci também numa dessas viagens que fiz a Angola pelo Ministério, a Ana Paula Tavares  que depois tornei a vê-la em Lisboa em várias ocasiões.

Os meus escritores de referencia, porque não me foram dados a conhecer outros, são aqueles… os normais, quero dizer, o Pepetela o Manuel Rui e poucos mais.

O relacionamento cultural e literário entre Moçambique e Angola tem muitas lacunas   que devem ser vistas por quem de direito para sabermos o que é que se está a passar porque realmente Moçambique e Angola são  tão próximos, têm raízes tão próximas que não se pode aceitar esse esfriamento.

Por exemplo os macuas e vocês têm tanto em comum. A mulher macua por exemplo é tão asseiadíssima tal como a mulher angolana daquela zona mais próxima. Os hábitos, os costumes,  a culinária … são  tão próximos que eu não entendo por que razão havemos de estar de costas viradas. Os nossos embaixadores são muito amorfos.  Vão para Angola e vêm para cá e tratam de ter a sua vidinha, os seus parques, as suas coisas e não querem nada saber. Então, há qualquer coisa que tem que ser vista porque só viria a  beneficiar os dois povos. Infelizmente isso não depende dos povos mas de outras estruturas que estão lá tão alto e não querem nada saber. Estão cada vez mais distantes dos povos mas isso não é característica, nem dos moçambicanos nem dos angolanos. 

L.F.-Quero que nos fale um pouco do actual panorama feminino da literatura moçambicana…

L.M.-Essa batalha não consegui ganhar. Acontece que a literatura moçambicana contava com Noêmia de Sousa, que era um ícone da nossa literatura, e agora temos a Paulina Chiziane mas  isso não chega  pois não é com essa quantidade que se vai descobrir qualidade.

Quando fui Secretária Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos uma das minhas grandes batalhas era pôr as mulheres a escrever. Uma das coisas que eu me lembro de ter feito foi um concurso literário aberto e nem uma mulher concorreu. Resolvi então fazer com o apoio da UNESCO um outro concurso  só para mulheres de norte a sul de Moçambique e concorreram doze. Então eu perguntei porquê que não haviam concorrido no concurso anterior ao que me responderam dizendo que os homens sempre ganham tudo, portanto, não valia a pena. Vejam lá as mentalidades…

Houve até alguns trabalhos muito interessantes. Eu até tenho estórias para contar sobre os trabalhos destas mulheres e penso que valia a pena apostar mas, foi uma batalha perdida porque depois houve umas que apareceram mas só com aquele espírito de aparecer, fazendo «show off». Isso nunca leva a nada porque não têm qualidade nenhuma.

Olha, eu com um conto chamado “Caniço” participei de um concurso alusivo as festas da comemoração dos cem anos  da cidade de Maputo e dentre sessenta concorrentes fui a única mulher e eu ganhei. Por isso eu digo-lhes sempre, experimentem!.. mas, provavelmente, por motivos ancestrais nada fazem pois na verdade aqui, se tu tens três filhos onde duas são raparigas e um é rapaz, aquele rapaz pode ser burríssimo mas é ele quem vai para a escola e não elas que são mais inteligentes. Isso acontece até mesmo agora. Até nos dias de hoje. Infelizmente. Estamos a perder grandes cabeças só por terem «a pouca sorte» de terem nascido mulheres.

L.F.-Tem ido a Angola?

L.M.-Já lá fui oito vezes, sobretudo em serviço, quando era Diretora do Departamento de Relações Internacionais do Ministério da Cultura.

De Angola só conheço Luanda, mas como já tinha tido muitas colegas angolanas, o contacto lá era muito fácil e sempre gostei muito do convívio com os angolanos. Um povo alegre e solidário.

L.F.-A Lília é uma escritora muito telúrica…

L.M.-Isso quer dizer que desde a minha infância que convivo com gente muito humilde, gente muito pobre. Gente da terra. O meu pai era operário. Era mecânico. A minha mãe era costureira e essa minha avó que teve uma influência «danada» em mim era macua de panos  com aquele veneno que encantou o meu avó  que era cônsul da França.

Estou a dizer que eu sempre convivi com gente dos mais diversos extratos sociais  e depois eu falava perfeitamente macua. Tinha um domínio total e até aos sete anos era a única língua que eu falava. Lembro-me de uma vez o meu lavadeiro perguntar-me em português o que estava eu fazendo, ao que lhe respondi em macua deixando toda admirada a minha mãe pois tinha eu apenas sete anitos. A língua macua é uma língua muito saborosa e aqueles contos que a minha avó contava se fossem em português não teriam metade da graça, da ironia e do impacto que tiveram em mim. Eu conheço muito bem a culinária, os ritos e todas as tradições que depois se acabaram transferindo para os meus textos literários.

L.F.- Quais são as mais visíveis características da mulher macua?

L.M.-A mulher macua sofreu influências e uma evolução profunda nos últimos tempos. Mas houve uma guerra e lá no norte havia uma tal base da RENAMO onde as pessoas eram sujeitas a várias sevícias e as mulheres dessa base, quando a guerra acabou,  fugiram todas para a Ilha de Moçambique. Portanto houve uma aculturação negativa. Elas trouxeram hábitos de desleixo, como exemplo: andarem despenteadas ou andarem a achinelar e então isso tudo hoje nota-se mas aquela que eu conheci antes da guerra era uma mulher que se distinguia pelo seu porte físico e pelo andar. A mulher macua anda parece que está a dançar, haviam aquelas correntes de prata que se punham nos tornozelos e elas andavam muito ao som das correntes. Era verdadeiramente uma dança. Vestiam-se muito bem sempre com panos e nunca punham vestidos. Punham as capulanas e tinham uma maneira muito própria de amarrar o lenço que era mesmo de admirar. Eram todas muito cultas. A minha avó era analfabeta mas era muito culta. Sabia muita coisa!

L.F.-Podemos falar agora da relação entre o livro e a leitura?

                                                         

L.M.-É claro que sim! Sobre os livros há muita coisa para dizer. Para um estudante o livro é a única coisa que dá ginástica mental. O livro e mesmo a literatura oral proporcionam ginástica mental.

Os livros , por exemplo, vacinaram-me contra a sedução do poder. Eu não sou nada apegada ao poder e uma das coisas que aprendi nas estórias que a minha avó contava era que os animais mais fracos sempre conseguiam vencer os animais mais fortes por causa da sua inteligência. É que naquela «fortaleza» dos fortes estava sempre mesclada um pouco de estupidez e isso sempre foi assim e continua sendo assim até hoje.

Veja que os nossos Ministros hoje são quase imortais ou pelo menos assim se sentem. E são as estórias e os livros que me fizeram estar sempre longe do poder, e sem apetência para a ostentação porque  os animais das estórias da minha avó eram sempre fracos mas acabavam por vencer os mais fortes pela sua inteligência.

A importância do livro é única. O livro é que nos dá a cultura geral que nos faz compreender seja lá o que for e, o nosso grande Ricardo Rangel dizia que «quem não lê não sabe o  que é a vida».

O livro é muito mais importante que a televisão. A televisão é uma torneira de qualquer coisa que a gente está ali a consumir assim passivamente ao contrário do livro. O livro não. Com o livro temos que ser ativos somos obrigados a ser ativos. O livro obriga-nos a ir mais além e conseguir compreender o mundo e por isso muitos cientistas são leitores compulsivos porque foram ajudados através da leitura a querer saber muita coisa.

L.F.-…E a internet?

L.M.-A internet é outra torneira que só despeja. Na verdade um aluno que não lê -livros!-, é um aluno medíocre. Em matemática um aluno tem de saber ler as equações. Pode até saber solucioná-las mas não o faz porque não entende o que se lhe pede e isto acaba por acontecer em todas as disciplinas.

Para aqueles jovens que querem escrever, a condição fundamental para escreverem é ler. A pessoa que não lê não pode escrever. Não pode. É impossível. É necessário que tenhamos diariamente contacto com os livros ou com algo que preenche o nosso imaginário como por exemplo a literatura oral.

Tenho imensa pena que este país dê pouca importância a literatura oral pois está a deixar fugir tesouros que quando der por isso… já eles não estão cá.

L.F.-Ganhou um “Grande Prêmio” e vai sendo homenageada aqui e ali  quase oito décadas depois de ter nascido. O que diz?

L.M.-É muito gratificante mas não sou escritora de «prêmios» apesar de já ter ganho muitos até mesmo no estrangeiro. O único prêmio que eu prezo  é o do 1º centenário da cidade de Maputo porque só daqui há cem anos é que outra pessoa vai ganhar. É preciso esclarecer que há muito escritor formidável que nunca ganhou prêmio nenhum e há muito escritor medíocre que já se fartou de ganhar prêmios. Por isso os prêmios não me impressionam mas ajudam sempre, sobretudo quando são monetários, porque os escritores nunca enriquecem com a literatura. Prefiro os prêmios que privilegiam a carreira pessoal dos escritores.

Tenho apenas três livros e com estes três livros já conheci mais de vinte países falando, fazendo palestras e participando em congressos ou conferências, portanto quando sou premiada ou homenageada julgo que acontece não tanto pelo aspecto literário mas mais pela minha carreira pessoal.

L.F.-Sente-se realizada e feliz?

L.M.-Em primeiro lugar não me sinto feliz num país onde o escritor não é respeitado, não é valorizado nem reconhecido. Infelizmente neste país o escritor vale menos que uma artista que mostra as pernas e só canta coisas idiotas. Infelizmente essa gente ganha muito mais e é mais valorizada do que uma pessoa que está ali dias e dias a escrever.

Não me posso sentir feliz por mim e pelos meus colegas. Tenho colegas que têm muito valor e uns até estão a enveredar por um caminho de desespero   porque não vêem a sua obra valorizada. As pessoas não compram os livros porque com esse dinheiro têm que comprar o pão para os filhos. Muita miséria e todos estes problemas. Eu não me sinto feliz vivendo num ambiente destes .

Outra coisa é esta “business society” que se está a gerar. Ela faz com que o associativismo se vai perdendo e, infelizmente é isso que está a acontecer. As pessoas querem é arranjar o seu dinheirinho e não querem saber dos outros.

Agora as pessoas querem é saber mais do “ter” e não do “ser”. Ninguém está preocupado com o SER. Ser Homem ou “ser” gente. Esta preocupação de “ser” hoje não existe. O Mais importante agora é “ter”… Ter cinco carros, ter quatro casas, ter seis mulheres e etc.

L.F.-Está a escrever?… Tem projetos para breve?

L.M.-Sim. Estou a escrever um livro que já está no meio, com mais de duzentas páginas, e que é justamente sobre esta sociedade que se está a gerar. Esta nossa “business society” em que nos vemos envolvidos .O titulo é «Os Fantoches de Aço». «Os Fantoches» porque são mesmo fantoches. Sem nada lá dentro e ao mesmo tempo «De Aço» porque quando se lhes toca ferem pior que o aço!   

 

Manuscrito encontrado nas margens do Rio Save depois das cheias. Despojos de um comerciante. O expediente é conhecido, desde o Dom Quixote ao Manuscrito Encontrado em Saragoça, de Jan Potocki e aos cadernos de que um certo degredado aproveita para nos falar das prisões siberianas no tempo do Czar, Dostoievski, de seu nome, O Quixote e o texto do sábio árabe que Cervantes lê é o monumento que sabemos e funda a narrativa moderna. Potocki escreve um romance picaresco de mistura com elementos do fantástico, embrenha-se pela novela erótica, gozosa sempre e, de mistura com altas fragas filosóficas e goyescas peripécias, oferece-nos um dos grandes livros da literatura em qualquer língua.

Com Recordações da Casa Amarela sofrem-se as solidões do desterro siberiano, uma angústia e um sofrimento aparentemente com causa, anterior à mordacidade judaica da culpa sem causa de o Processo, de Kafka.
Textos dentro de textos, inserts, como se diz para o cinema, impregnam as estratégias narrativas de inúmeros autores e tradições literárias. Mesmo as que não se socorrem do citado expediente.

Os Recados da Alma, romance de estreia de Bento Baloi, recorre aos manuscritos que se salvam de um desastre natural no rio Save, fronteira entre as províncias de Inhambane e Sofala, no sul a centro do país. A possibilidade e razão da sua descoberta definem, logo à partida, a condição do narrador, jornalista de profissão, a quem o desditoso comerciante confia as suas memórias. É como se lhe dissesse: ficam melhor guardadas contigo porque pressago é o tempo e cíclica a catástrofe. E de alguma transfiguração serás capaz.

Passe a propositada repetição, digamos que o manuscrito se autonomiza. E torrencial é o tempo e o enquadramento político- social, cultural, em que as estórias acontecem.

Não me compete substituir-me à estória aqui narrada, melhor, à multiplicidade de situações, remetendo para o convulsivo período da transição entre colonialismo e independência, que Recados da Alma aborda. Que de algum modo pretende transfigurar, descrevendo-os, uma vezes em jeito de quase crónica, outras em registo de reportagem jornalística, outras ainda socorrendo-se explicitamente de uma factualidade que o texto da História refere e confirma, entre as personagens do romance e os protagonistas político-militares ou simples cidadãos que a viveram.

Ao título, algo confessional, de estro lírico redundante, acresce uma espécie de contraponto que lhe anula aquilo que em português quase soa a vulgar. Refiro-me ao título comum a cada um dos seus capítulos, todos sob a referencialidade genérica de Xingombela, seguidos de diferentes sub-títulos consoante o desenvolvimento da narrativa. Como se a alusão à conhecida dança fosse um esforço de tradução para Xi-ronga e Xi-Shangana do nome em língua portuguesa. Escreve Bento Baloi, em nota de autor, onde apõe em epígrafe um provérbio popular tsonga, na língua original: “ Os provérbios não se traduzem. A sua profundidade extravasa os limites das línguas. Os provérbios fundam-se no âmago das culturas das quais emergem e recuam sempre ao infinito dos tempos”. E acrescenta: “Xingombela até pode parecer apenas mais uma dança popular moçambicana. Mas não é só. É muito mais. É uma maneira de ser e de estar das nossas gentes. Reveste-se da mística do amor, da concórdia e da cumplicidade com o próximo.” E conclui Bento Baloi: “ Proponho então que dancemos xingombela numa roda em torno das páginas que se seguem e que nos transmitamos um ao outro testemunhos da nossa essência interior como povo”.

Trata-se de uma proposta legítima. De um desafio também. Nos limites entre um ufanismo, que a narrativa em caleidoscópio se encarrega de complexificar a seu modo, outras vezes em fragmento que o ritmo de uma situação, o crescendo dos muitos conflitos e da dança de encontros e desencontros no palco da História impõe, esta espécie de andamentos em Xingombela acabam por ser, no plano textual, um desafio ao que pode restar de uma oralidade invocada, mudada para um género outro, com recursos diversos – os da língua portuguesa, da prosódia, das marcas de literariedade que o romance implica, como queriam os formalistas russos. Neste conflito e nesta grelha, se assim me posso exprimir, vem mergulhando, debatendo-se, emergindo, muita da novel narrativa moçambicana.

Do subúrbio local, como escreve o ensaísta e professor Francisco Noa, para um subúrbio, se não global, pelo menos ciente da diversidade de gentes, imaginações, referencialidades, esta prosa dança num a contrário da sensibilidade apocalíptica a que se refere Frank Kermode, porque intensa no mostrar, quase em gingação e canto de identidade, o que foi essa espécie de princípio que queria ser verbo e, ao sê-lo, nome, e nessa pulsão, utopia. Como se o narrador se tivesse deslocado à cratera de um começo percebendo, na matéria ígnea irrompendo, o que precisava de ser contado. Repartido como melhor percebeu o fogo e a cinza. Não que se trate aqui da pretensão de abarcar uma totalidade, embora se saiba que esse início é sempre um momento que se sucede a um outro início anterior, para nos enquadrar, propor, situações, plots narrativos, delineamentos de caminhos que tanto podem concorrer para a harmonia como para a disrupção. Embora a dimensão utópica se imponha, mais do que uma retórica onde o ngoma das identidade empeçonhasse o movimento livre da liberdade, essa redundância que funda, como disse Rimbaud, a poesia, ou melhor, uma poética do ente e do existente, plasma-se aqui numa produção plural de sentido. Contraditório, por vezes. Outras, resvalando para uma jubilação ao modo da quase loa e gesta, não obstante ciente da complexidade, pressentindo-a, da sombra, embora se não pressintam ainda os sinais da distopia a rondar.

Digo isto porque o autor não se exime nem ao Amor e à sua inevitabilidade conjuntiva ou disjuntiva, tantas vezes trágica. Bento Baloi socorre-se dos mais diversos recursos estilísticos para nos cronicar sobre a jubilação e a melancolia (esta ao de leve), ou escarificar a traços incisivos as máscaras ensanguentadas da morte e a violência.

Nesta coreografia da alma, de canto inventado e inaugural, porque eufórico, está paradoxalmente também o finco de uma certa finitude. Como primeiro livro de Bento Baloi, percebe-se esse compromisso e entusiasmo com aquilo que também vem sendo, quase obsessivamente para alguns, uma permanente viagem às raízes, nelas fazendo caber conjuntos mais alargados de linhagem, com suas regras e sistemas. Bento Baloi, suburbano na cidade grande, que a conquista, ensaia o seu génesis, sempre comunitário mas também cosmopolita, sempre clamando por todas as vozes, de Maputo a Lisboa, do bairro suburbano de Vieira para o mundo, às vezes convocando mitos urbanos – alguns de controverso, pasmo, veracidade transmutada -, outras arriscando uma osmose que talvez carecesse de maior distanciação.
Outras obras se seguirão, espero. Não peço, nem me cabe, que Bento Baloi tropece na distopia que nos assola, no país e no mundo. Nem que se especialize na arte do naufrágio que atormentou Melville. Esse, do Moby Dick, e que é a barca dos poetas, mas que, como Guimarães Rosa, pressinta a terceira margem, a do rio do tempo, do nosso des (sentido), do amor urgente, da mais lúcida crítica e exigente inquietação, da luta com o demónio, da invocação dos espíritos todos. Os que nos presidem e que somos com eles.
 

O homem é o único animal capaz de rir, como bem observou Aristóteles, mas tanto a comédia como a tragédia afectam todos os animais. Os sentimentos de alegria e tristeza causados pela comédia e tragédia existem em todos os animais, diferindo somente em suas manifestações. Enquanto o homem abre a boca e mostra os dentes, fazendo-se ouvir uma voz afável, o cão saltita, abana a cauda, põe fora a língua como forma de manifestar a sua alegria. O homem chora, mas os outros animais não o fazem, embora todos sejam domados do mesmo sentimento trágico. Isto nos impele a uma nova inferência de que o choro à semelhança do riso é uma manifestação unicamente dos homens por natureza, mas a dor é para todos.

Todavia, a tragédia e comédia aos olhos dos humanos, às vezes, confundem-se e tornam-se relativas. O que me é trágico pode se te afigurar cômico dependendo da distância espiritual a que te pões a observar. Um adultério motivado pela insatisfação sexual é trágico para o marido e pode ser irrisório para o vizinho ou amante. Mas o riso sobre coisas trágicas é um modo indisciplinado de suportar a dor tanto nossa quanto alheia. Quando nos rimos da nossa própria tragédia, somos tolos. E quando o fazemos pela tragédia de outro, merecemos ser chamados sarcásticos. Estas manifestações irônicas são dignas de serem censuradas, pois denotam a pobreza do espírito sob o ponto de vista mais alto da moral. Atendendo a definição aristotélica da educação que é ensinar as pessoas a sentir dor em coisas que causam dor e prazer em coisas que causam prazer devia ser condenável a comédia em tempos de crise, pois ela visa-nos fazer suportar os males que nos afligem. E, neste caso, suportar equivale a adaptar-se, alegrar-se ou conformar-se com uma situação desconfortável e, no pior caso, tentar esquecer.

Esta disposição espiritual é por excelência a característica dos povos pobres em espírito e em bens materiais. Quando uma nação está em crise moral ou económica e o povo, ao invés de indignar-se com o estado das coisas, entretém-se em transformar o censurável em hilariante, é legítimo afirmar-se que o mundo está perante uma nação com atraso mental. A comédia em tempos de crise é o mais vivo sinal da existência de uma educação defeituosa que faz os cidadãos falhar pensar e tomar decisões convenientes para mudança de uma situação crítica. O excesso de entretenimento dentro de uma nação em forma de desporto, telenovelas, pornografia, programas de diversão serve de combate ao sentido de vergonha sem ao menos esmiuçar os preconceitos. Ou seja, quanto mais comédia se oferece ao povo, de modo abusivo, menos capacidade de reflexão ele ganha, pois o entretenimento, não obstante ajude a catapultar a imaginação, carrega consigo o poder de distração.

Dizia François Lyotard que o desenvolvimento humanitário dentro de um país também pode medir-se pela qualidade de informação que circula na esfera pública. Em países com democracias de grande sucesso, o nível de informação que circula entre cidadãos é relativamente de grande importância comparado à informação dos países pobres com democracia precária. Isto se deve, em grande medida, ao comprometimento que o Estado e órgãos de informação pública têm com a educação social. Enquanto maior parte de jovens de alguns países ricos em espírito e matéria serve-se das redes sociais para debater ideias sobre a situação do país ao nível de sistema político, da arte, religião, ciência e oportunidades, no outro lado do mundo, verifica-se uma massa de jovens que se entretém com assuntos sérios, de maneira leviana.

Somente a seriedade em tempos de crise tem o poder de mover a sociedade a insurgir-se dos males que a enfermam. A seriedade como um estado de espírito que revela interesse em determinado objeto é um elemento eficaz para impor responsabilidade dentro do Estado. Satirizar o que é grave emite impressão de não se importar e de desprezo. Há necessidade de a sociedade mostrar-se séria, em assuntos sérios, de tal sorte a ganhar legitimidade de ser tratada como adulta pelo seu Estado.  E, até em assuntos lúdicos, o Estado deve ver-se obrigado a manter o compromisso com a educação do seu povo. A regeneração deve ser sempre a meta do logos da polis.

MZENO WA MELEKWANE

Sem Ítaca não terias saído do caminho.
Mas já nada tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já consegues compreender o que significam Ítacas.
*Konstandinos Kavafis

A Luís Loforte e Dino Foi!

O repórter Carvão Arde Molhado divulga nesta edição uma entrevista concedida pelo famoso ADVOGADO DE INHASSUNGE. A esta personalidade, tão multifacetada que é assenta-lhe bem o cognome pau-para-toda-a-obra.

 Carvão Arde Molhado (C.A.M.) – Saudações, ilustre. O senhor é que é o Advogado de Inhassunge?

O Advogado de Inhassunge (O.A.I.) – Pois, claro. Sou o próprio. Outro é Dubai, digamos falso! Alguma dúvida?

CAM. – Não. Só queria ter certeza, meu senhor.

O.A.I. – Obrigado!

CAM. – O senhor sabia que há, precisamente 17 anos, a sua vida foi retratada e publicada em livro?

O.A.I. – O senhor está a insinuar que sou analfabeto? Pensa que não leio livros?

C.A.M. – Longe de mim pretender criar mau juízo sobre si, meu senhor.

Mas então se o senhor leu o livro tem uma opinião a respeito. Pode partilhar connosco?

O.A.I. – (Em silêncio, pensativo. O advogado não diz palavra)

C.A.M. -De que nos fala este seu texto, meu senhor?

O. A.I. – Como pode depreender, este texto só fala perante quem o lê.

CAM. – Leu ou não, senhor Advogado de Inhassunge?

O.A.I.- O que te parece? O senhor que não me falte ao respeito.

O senhor é jornalista, ou não é? Sabe quais são as suas obrigações neste contexto. Sabe dizer-me?

C.A.M. – Como é que o senhor se sente depois de a sua vida ter sido retratada em livro. E já foi lido quase em todo mundo?

O.A.I. –Muito feliz! Sou um advogado de sucesso. E como vocês jornalistas andam por aí a dizer, sou um verdadeiro empreendedor na minha área de trabalho.

C.A.M. – O senhor está orgulhoso de saber que despreza a sua mulher e filhos?

O.A.I. –(Mudo e calado, frio e quente. O Advogado não reage de imediato. Explode instantes mais tarde, escandalizado) – Onde você viu isso?

C.A.M. –No livro.

O.A.I. -(Envergonhado, mas não derrotado) – Bem. Aquilo não foi  propriamente o que pode afigurar-se como uma envolvente de destrato ou desprezo como senhor jornalista pensa e diz. Sucede, meu senhor que eu estava, por assim dizer com parceiros, investidores, confrades. Era uma oportunidade soberana minha para sair do chão e prosperar. E as minhas infantas, sem aviso prévio da minha senhora, não se fizeram ao banho atempadamente. Foi daí que aconteceu o imbróglio, o meu desagrado, a minha zanga perante, a figura da mãe das minhas filhas.

C.A.M. – E a propósito, o que é que o senhor faz por Inhassunge?

O.A.I. – Muita coisa, meu caro. Muita coisa. Estou agora envolvido em projectos e parcerias diversas. A breve trecho vou pronunciar-me.

C.A.M. – Não sei se o senhor Advogado sabe. Temos um antepassado comum. O meu avó manterno, o doutor Pescoço nasceu e cresceu em Inhassunge. Ele influenciou e muito a minha personalidade. Este meu espírito comunicador e entusiasta das coisas da nossa grande Zambézia, aquele terra maravilhosa deve-se muito ao que aprendi com aquela biblioteca.

O.A.I. – Muito gosto, muito feliz em saber-te meu conterrâneo e grande entusiasta das nossas gentes (O Advogado levanta-se e abraça o jornalista Carvão).

C.A.M – Tio, será que com a ponte Maputo–Catembe, já na fase final e, a ser inaugurada em breve já ocorreu ao senhor solicitar os serviços da transmarítima? Por exemplo transferindo um ferry-boat para Inhassunge?

O.A.I. – Como é que você leu os meus pensamentos, filho! Isso faz parte dos pilares que sustentam o meu projecto em vigor, o petróleo da minha motivação pessoal. Ora nem mais.

C. A. M. – Mas qual deles prefere, ilustre? O Bagamoyo ou Mpfumo?

O.A.I. – Isso é cá comigo, filho. Vou criar uma comissão mista de avaliação desta empreitada. Não tenhas dúvida.

C.A.M. – Voltando às minhas leituras. O livro, seu homónino constitue um marco na literatura moçambicana. Quer comentar.

O.A.I. – Oh, meu caro. Não quero puxar a brasa à minha sardinha. Devo salientar que uma vida exemplar ilumina grandes Homens. E esse escritor é um felizardo. Gostaria de dedicar –lhe uma canção da terra. Vou falar sobre esse propósito com os músicos que sabem do ofício. Não perca por esperar.

C.A.M. –Uma vez mais fica provado que o senhor é porta-voz da sua terra natal.

O.A.I. – Não vou concordar consigo, meu caro. Vocês é que são a vanguarda desta geração estão na linha da frente para receber de nós o testemunho. Aliás, já receberam. Divulguem a nossa literatura nos jornais, nas escolas e, por que não no campo, a toda hora e circunstância, meus senhores.

C.A.M. – Anotado, ilustre. Mas voltando ao livro. Só mais duas questões, para fechar a entrevista.

O.A.I. – Julgo que falamos o suficiente, amigo. Acabo de receber uma convocatória para uma reunião importante das águas grandes. Não me posso atrasar. Foi um prazer!

Caros leitores,

Ficou o essencial. Continuação de boas leituras!

Celso Muianga

* Texto inspirado na obra O ADVOGADO DE INHASSUNGE, Luís Loforte, Quetzal, Lisboa 2001

 

 

 

 

Não tenho muito para dar aos que comigo caminham. Tenho tido poucos caminhos, muitos passos e destinos incertos. Com os meus companheiros sempre terminamos em pequenas missas nas barracas onde o dízimo da cerveja é barato. A única bênção que nos surge e alegra-nos é acordar e o bolso denunciar uma moeda que se escondeu nas contas não pagas. Podíamos falar muito com os meus companheiros, mas nossas bocas tem mais facilidade para rasgar sorrisos e entornar gargalhadas que ateiam lágrimas nos olhos. De barraca em barraca reinventamos a nossa amizade.

Tenho muitos amigos. Tantos amigos que por vezes perco-me neles e não me encontro com facilidade. O exercício de procurar-me em meus companheiros é normal e habitual. Procuro-me em todos amigos, quando me sinto longe de mim. Faço isso como uma mãe que procura o filho ao fim da tarde em ruas onde miúdos jogam futebol. Bato na porta de todos e pergunto: “que tal! O Sérgio está contigo?”. E às vezes escondem-me neles próprios. Dizem que não me viram e não sabem de mim.

Cai a noite e cada um deles é uma casa sempre aberta para me acolher. Há um algo tão íntimo que nos une para além da amizade. O que nos une é algo tão valioso que desafia todas formas de união. Aliás, nós nunca nos unimos; dissolvemo-nos em um apenas. Transformamo-nos em uma língua que fala as mesmas palavras, em uma boca que fermenta a mesma saliva, em mesmas mãos que se abraçam e fecham o zipper depois de regar, com urina, a árvore da esquina.

É incrível como me encontro em cada atitude dos meus companheiros; dos meus irmãos que neste carnaval chamado vida fantasiam-se de amigos. Pequenos detalhes seus fazem-me reconhecer que uma parte de mim faz a eles e assim somos um apenas. O corte bem acertado que um faz sinto-o na minha cabeça, a alegria que um agita dentro de si transborda para o meu sangue, o beijo que um dá fica-me a marca nos lábios e a oração que um faz sinto o milagre em mim. Meus amigos são tão pequenos que ninguém lhes dá interesse. São essas criaturas tão pequenas que vivem na piedade de Deus que me tornam grande. Vês o “estilar” de Pelaginho que carrega um metro e pouco, a perna de Matchine que não está muito longe do ombro: é quase tudo igual. Mas, são meus porque a humildade talvez seja coisa que só cabe em pessoas baixas. São meus companheiros porque sabem a medida da amizade sincera: imensurável.

Não tenho muito para dar aos que comigo caminham. Vou sempre repetir isto porque há amigos que caminham comigo e querem o muito de mim. Eu não tenho muito para dar porque os meus companheiros sabem que nós não nos damos nada; porque tudo pertence-nos. Somos um apenas. Tomamos o mesmo vinho porque é nosso e não porque alguém de nós comprou. Escrevo isto num momento em que o meu contador de CREDELEC avisa-me que está sem energia suficiente. Vou continuar a escrever no escuro, mas isso pouco importa porque não é sobre a luz eléctrica que quero escrever; é sobre os meus companheiros verdadeiros que quero iluminar esta crónica.

Escrevo esta noite porque ontem não tive tempo de escrever este texto. Ontem vivi este texto e hoje o escrevo. Um bar de Magoanine, uma sentada na sombra de Nkobe, um blues no bar de Matchine, uma cerveja bem gelada com Mestre Tchaka e um soro poético servido em copo com Bonde é matéria suficiente para uma espécie de reinvenção existencial em mim, em nós e em nós-um. Se “Guatarri” decide fazer um assalto não anunciado, em minha casa, em forma de visita e “Zicks” faz-me esperar a sua visita que nunca mais acontece é isso que me importa. Importa-me porque sei que tenho amigos que vigiam a minha presença. Ainda vem Zaidely molhado de humildade que só as artes marciais ensinam; vem Mbeve preencher o banco reservado aos acólitos da estupidez. Não tenho muito para dar aos que comigo caminham. Tenho tido poucos caminhos, muitos passos e destinos incertos. Eu tenho apenas batinas para acólitos da estupidez como eu.

Era uma dessas tardes melancólicas, inevitavelmente pungentes, dadas ao recolhimento, ao ensimesmamento, com a chuva diante de mim, que batia as portas de vidro e escorria pelo chão da varanda, ocultando o mar e a paisagem índica e impressiva, quando sobrevieram as belas vozes de Sarah Vaughan (“Misty”), Ella Fitzegerald (“Someone to wash over me”), Dinah Washington (“Mad about the Boy”), Billie Holiday (“Stormy weather” – tinha muito a ver), Nina Simone (“Don´t explain”). A poesia parecia-me o melhor refúgio. Anotações de uma tarde de sábado:

Julius Kazembe: “quisera ter as mãos que tem a água/ para quando vertido sobre ti/ te permear até ao último favo/ contigo trançar um cesto de vime”. Belos versos do poema “Adiemos os brindes para mais tarde.” O meu dilecto amigo Julius Kazembe é um extraordinário poeta. Não publicou em livro. Foi jornalista, foi tradutor. Trabalhou numa agência das Nações Unidas. Viveu no Zimbabwe, nos Estados Unidos. Vive, ao que sei, na África do Sul. “Changara”, outro belíssimo texto, começa assim: “Engoliram luas as crianças de Changara.” Gosto de quase tudo o que ele escreveu e que publicou. Gosto de o ouvir a dizer o poema “A Musa Prostituída”, dedicado ao Luís Carlos Patraquim.

Luís Carlos Patraquim: “afasto as cortinas da tarde/ porque te desejo inteira/ no poema.” É dos mais belos poemas do livro Monção: “E passas de capulana/ teu corpo como as dunas/ plantadas de pinheiros/ rumorejando perto.” O Luís Carlos publicou depois muitos outros belos livros, mas este é notável. O poema termina: “a fúria das ondas/ caindo brandas/ no meu gesto.” Um grande poeta! No mesmo livro, “A Metamorfose”, dedicada a José Craveirinha: “quando o medo puxava lustro à cidade/ eu era pequeno/ vê lá que nem casaco tinha/ nem sentimento do mundo grave/ ou lido Carlos Drummond de Andrade.” Tenho saudades das minhas tertúlias com o Patraquim. Passam mais de 30 anos! Ele foi para Lisboa em 1986. Faz tempo que não o vejo. Convivemos ao longo destes anos em Lisboa, no Bairro Alto, na ronda dos bares. Com o José Craveirinha ou o Rui Nogar, quando ninguém estava morto.

Billie Holiday canta “Come rain or come shine.” Parece que a chuva abrandou. Leio José Craveirinha. Poema “Lustro”: “Velha quizumba/ de olhos raiados de sangue/serve-me os rins da angústia/ e a dentes de nojo/ carnívora rói-me a medula infracturável do sonho.” Moçambique tem, no século XX, notáveis poetas. Craveirinha, Noémia, Knopfli, Nogar, Alba, Patraquim, White, eu sei lá! Penso, enquanto Dinah Washington canta “Cry me a river.” Leio este poema em diálogo intertextual com o Patraquim. Versos finais do poema “Lustro”: “os jacarandás ao menos ainda choram flores/ mas de joelhos o medo/ puxa lustro à cidade.” Está no livro Cela 1.

Sucedem-se Peggy Lee (“They can´t take away from me”), Doroth Dandrive (“The old feeling”), Anita O´Day (“Tenderly”) e eu leio “Quando o José pensa na América”: “Na Mafalala quando o José pensa bem na América/ velhas lágrimas de Spiritual salgam os encardidos/ asfaltos de água do grande Mississipi com muitas recordações.” Leio “Desde que o meu amigo Nelson Mandela foi morar em “Robben Island.” Recordo-me do Tomás Viera Mário dizendo este poema, ali no Tunduru, nos longínquos anos 80. (Ontem, 18 de Julho, Nelson Mandela fez 100 anos. Digo que fez porque um homem da estatura do Mandela não morre. Anoto isto quando revejo este texto, no qual aludo e saúdo poetas meus amigos.) Ou lembro, ao ler “As Saborosas Tanjarinas d´Inhambane”, a voz do Gulamo Khan, no mesmo Tunduru, há mais de trinta anos. O poema, o poeta dedicou-o ao Gulamo sacrificado em Mbuzini.

Vi o Gulamo, pela última vez, sentado num banco do Tunduru, com jat lag, acabara de regressar, com o Presidente, de uma viagem ao Japão. Passaram mais de 3 décadas. Uma vida passa num instante. Ainda estou diante do Gulamo ali no Tunduru e parece que foi ontem. Trinta e dois anos depois. Estarei melancólico? – Interrogo-me. Patti Page canta “I didn´t know about you”. Leio: “céleres as águas /zambezeiam pela memória/ das almadias do silêncio.” O título do poema “Moçambicanto”, como seria o título do livro póstumo do Khan. Gulamo Khan amava e dizia a poesia do Craveirinha, amava e dizia a poesia da Nóemia de Sousa. Quantas vezes o ouvi dizer “Deixa Passar o meu Povo”? – “Oh, Let My People Go!”

Noémia de Sousa: “Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço. /Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines, / viemos do outro lado da cidade/ com nossos olhos espantados, / nossas almas trancadas, / nossos corpos submissos escancarados.” Foi assim que eu conheci Noémia – eu tinha 15 anos – e a amaria para sempre. Este poema colou-se-me à pele. Diana Krall canta: “I´ve got you under my skin.” Andávamos de mãos dadas, ao largo do Tejo, em Lisboa, andávamos de mãos dadas em Londres, andávamos de mãos dadas em Maputo. Ando agora de mãos dadas com a Noémia de Sousa, na memória e na solidão habitada e exultada de seus versos.

O Rui Nogar também era um excelente declamador e vejo-o a dizer: “eu bebeu suruma/ dos teus ólho Ana Maria. / eu bebeu suruma/ e ficou mesmo maluco.” São raros os poetas que sabem dizer poesia. O Julius Kazembe, já o referi, dizia magnificamente, mas também o Eduardo White. O White dizia extraordinariamente, para além de ser um grande poeta, o mais importante da minha geração. Silje Nergaard: “Every time we say goodbye.” Leio enquanto oiço estas vozes longínquas. Leio: “tratávamos o silêncio por tu/ dormíamos na mesma cama/ acordávamos do mesmo sono.” Do Rui Nogar e do poema “Da fruição do silêncio”, que vem no livro Silêncio Escancarado.

Por falar em Rui, sou indefectível do Knopfli. Toda a gente o sabe. “Nunca Mais é Sábado:” um poema soberbo. Pilhei-o para título de uma antologia. O Luís Carlos Patraquim escreveu “Elegia de Sábado”, um aceno intertextual. Encima o presente texto uma referência encomiástica ao Sábado. Não disfarço a sua origem. No caso, elogio, panegírico, aplauso a estes belíssimos poetas da minha terra. Apetece-me transcrever todo o poema do Rui Knopfli. Receio que seja bastante longo. Deixo-me, no entanto, levitar na voz de Ruth Cameron: “Something cool”. Rui Knopfli: “Nós os humildes e os humilhados, / os que não temos rosto próprio porque somos/ o rosto da multidão.” “Da escada de serviço e do elevador/ para o prédio, do prédio para a rua, / da rua para a praça, da praça para a cidade, / da cidade para o subúrbio, onde crescem/ a doença, o medo, a fome e o futuro, / – nunca, nunca mais é sábado.”

Dee Dee Bridgewater canta “Angels eyes” e toca o telefone. No facetime, irrompe o meu filho Irati. Liga-me de Brighton e resgata-me desta melancolia de sábado. Debutei no jazz em Londres no tempo em que o Rui Knopfli lá vivia e fui hóspede dele. Sempre que lá vou, quando vou visitar o meu filho, lembro-me do “escriba acocorado.” Com ele também aprendi o muito do pouco que sei do ofício. Durante anos eu declamei o poema “Adeus Xico.” Uma pungente elegia. Ou o poema “Winds of change:” “De facto como é mansa e boa/ a Polana/ nas suas ruas, túneis de frescura/ atapetados de veludo vermelho. / Tudo joga tão certo, tudo está/ tão bem/ como num filme tecnicolorido. / Passam. Passam/ e tornam a passar. / Ninguém se apercebe de nada.” A voz poderosíssima de Abbey Lincoln – “Say don´t remember” -, diz ela na música “Brother, can you spare a dime?”. Apaixonei-me por Abbey através desta música.

Rui Knopfli escreveu dos mais belos poemas que existem sobre a ilha de Moçambique. “Ilha Dourada:” “A fortaleza mergulha no mar/ os cansados flancos/ e sonha com impossíveis/ naves moiras.” “Em pleno dia claro/ vejo-te adormecer na distância, /Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos/ de sal e esquecimento.A Ilha de Próspero é um belíssimo livro: “Ilha, velha ilha, metal remanchado, / minha paixão adolescente.” Diana Krall, reincidente, canta “Why should I care.” A Ilha também. Agora na voz de Alberto de Lacerda, que lá nasceu: “Ó festa de luz de mar tranquilo/ De casas brancas dum branco rosa/ Dum tempo que aqui ficou.” Isto no belíssimo livro Exílio. O poema homónimo: “O exílio é isto e não mais/ Na sua forma mais perfeita: / Hoje na terra de meus pais/ Somente a luz não é suspeita.” (Acabo de adquirir Labareda, uma bela antologia de Lacerda, que faria 90 anos em Setembro – nasceu a 20 como Noémia de Sousa.) Patraquim cantou a Ilha em “Muhipiti”: “É onde somos inúteis.” Leio isto e oiço Shirley Horn: “I got lost in his arms.” “Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos/ e marulham as vozes.”

Eduardo White: “Amo-te sem recusas e o meu amor é esta fortaleza, esta Ilha encantada, estas memórias sobre as paredes e ninguém sabe deste pangaio que a Norte e na Ilha traz um amante inconfortado. Em tudo habita ainda a tua imagem, o m´siro purificado da tua beleza e das tuas sedas, a rosa-dos-ventos, o sextante dos tempos, em tudo acordas de repente como se ardesses naus, garças, águas, ouros, pratas, vagas, escravos ausentes, tudo o que esta Ilha que sou a Norte, nos pode lembrar. Deito-me, assim, sobre o Sol com a praia funda em meu pensamento” (In Os Materiais do Amor seguido de O Desafio à Tristeza).

Outra vez Ruth Cameron. Agora, “One for my Baby.” Ela canta: “One more for the road.” Comecei a ler estes poetas, como forma de fugir à tristeza. White diria que eu o fiz como um “desafio à tristeza.” Chovia. O dia estava escuro. Eu sentia-me só. A poesia acudiu-me. Estas belas vozes do jazz. “Why are you doing the rest of my life,” canta Laura Fygi. Já não chove e o mar acolhe placidamente a noite. Eu deixo-me aqui ao som destas vozes: Diane Schuur (“The man I love”) e Helen Merril: “Baby ain´t good to you.” A chamada do Irati trouxe-me alento. Ouvi-lo foi maravilhoso. Estas poderosas vozes e estes belíssimos poetas idem.

Entre os humanos há-os que dizem: Cremos em Deus e no Dia do Juízo Final. Contudo, não são crentes. Pretendem enganar a Deus e aos crentes quando só engam a si mesmos, sem se aperceberem disso.

in Alcorão

A arte continua sendo uma dimensão importante na problematização da realidade. No contexto moçambicano, o conto, a novela, o romance e os filmes sempre foram lugares profícuos na recriação de certas peripécias quotidianas. E este é o caso de Entre eu e Deus, documentário cuja essência da história é uma viagem para um lugar distante, no qual se desbrava sonhos, tradições e, algo extremamente grave: a crença, enquanto bênção feita de sinceridade.

O documentário de Yara Costa tem na Karen, jovem cujos atributos não defraudam a fama das muthiyana de Nampula, o centro. Logo, a partir daquela personagem, a história lança uma discussão sobre o que o islão representa e deve representar num território em que muito antes de conhecer as cores do cristianismo já tinha no alcorão uma bússola para o paraíso. Por lidar com a fé há muito enraizada sobretudo no litoral do Norte do país, Entre eu e Deus leva-nos à Ilha de Moçambique, o berço de um país e de uma religião que mantém firme os seus pilares na construção de um projecto de país. De facto, no filme realizado pela moçambicana Yara Costa há uma tendência de se pensar a nação como um espaço de co-existências religiosas, com e sem tolerância, mas sempre à procura de um relativismo cultural elementar, possível na urgência de se aceitar a diferença como parte de algo que nos deve eternamente completar.

Roçando o islão na mira de uma mulher ainda a conhecer-se, determinada a alcançar o resultado que daí pode advir, este documentário mostra-nos que o conceito do “bem” é relativo e que o choque entre culturas também resulta da incapacidade de se aceitar essa abordagem. Aliás, no próprio filme, é evidente: certas personagens são apologistas de um islão, digamos, “puro” – embora não saibamos bem o que isso é –, com origem na “fonte” – outra confusão, afinal, sempre pensamos que a fonte é Deus, e não um espaço. Outras, representadas, por exemplo, nas convicções de uma makhuwa adulta, que aparece no enredo a colorir o semblante à base de muciro, entendem que o islão, na Ilha de próspero, está implicado às tradições locais. Diante desta situação, Karen aconselha-se, quase que de forma infantil, aparentemente ingénua, num sujeito cujos voos da sua experiência passam por Arábia Saudita. Essa é uma das passagens mais importantes do filme, porque, logo se nota, é em conversas como aquelas que se define o futuro de um muçulmano em formação. Na verdade, aquele momento é muito semelhante com o descrito na obra de José Rodrigues dos Santos, Fúria divina, romance em que um menino chamado Ahmed, ao ser confrontado com “dois tipos” de islão, acima diferenciados, opta pelo designado fundamentalista, pelas respostas que foi colhendo na interpretação rija da sharia. Dando-nos este panorama, em que se questiona o que é certo e o que é errado e não em como o certo e o errado podem ser as duas faces do mesmo propósito; ao revelar os preconceitos à volta de certas preferências islâmicas por parte de crentes de outras seitas, Yara Costa desenterra a raiz de um conflito que, caso não fique resolvido urgentemente, pode ser muito bem aproveitado para fomentar outras coisas além da forma de ser e de estar dos muçulmanos em Moçambique.

Este Entre eu e Deus, que deveria ser Entre mim e Deus – que, esta quinta, às 18h, volta a ser projectado no Franco – é um alerta à moderação, bem como uma janela aberta para podermos ver o que se passa com os moçambicanos fora do quintal de casa ou, movimento inverso, o que se passa com os nossos vizinhos no nosso quintal. 

Título: Entre eu e Deus

Autor: Yara Costa

Produtora: YC Films

Classificação: 14

Diágolo captado numa tarde de jogo-grande na Rússia…
– O penálti contra a Colômbia foi justo? Não sabes? Não acompanhas o Mundial? Então és matreco!
A resposta/provocação: e quem vai vencer o Moçambola?
– Isso é Terceira Divisão. Não perco o meu tempo. Prefiro atacar as médias, relaxadamente!
Esta troca de mimos aconteceu durante a prova-maior do futebol mundial e na essência replicou-se pelo país, o que simboliza o quanto o Mundial fez arrefecer nos moçambicanos, o já interesse reduzido no nosso Moçambola.

Em cima do muro é mais cómodo 
Se este sentimento prevalecesse apenas entre os madalas, os tais que “já fizeram a sua parte”, talvez merecesse alguma margem de tolerância. 
Mas o que torna difícil de entender é que é entre jovens, os tais a quem competeria mostrar aos compatriotas “da 3.a divisão”, que com eles em campo atingiríamos o estatuto de Messi e Ronaldo – como em tempos fizeram Eusebio, Coluna e outros – quem coloca acento tónico neste posicionamento.
Pois bem. O país e o mundo sairiam a ganhar bem mais com acções, do que com críticas “em cima do muro”. Aos desportistas no geral e à juventude em particular, o passar das intenções à prática, só poderia conferir mais saúde e prosperidade individual e colectiva.
E porque não? Porém, se os craques do sofá e da TV não se sentem com talento para tal, no mínimo não reduzam a pó as intenções e acções dos que têm o atrevimento de corporizar a nossa pobreza.

Como viver na aldeia global 

É bom, muito bom mesmo que em tempo de festa global do desporto-rei, todos nos sintamos parte dela. Se mais não seja, porque marcamos presença através dos representantes do Continente africano de que fazemos parte.
O que é, então, que nos diferencia da maior parte dos países que se sentem na fase final do Mundial, sem lá terem a sua selecção?
É a forma como lá fora, a festa-maior, longe de eliminar o fervor interno, o galvaniza, fazendo redobrar esforços para alcançar presenças em fases finais de competições futuras! É, na realidade, uma “diferençazinha”… mas que faz toda a diferença

Amo-te cidade da infância
com girassóis e casas de madeira e zinco
a dormir na neblina da memória.
Rui Knopfli

Ao Fernando Manuel, obviamente
e ao Ferdinando M. Torres

Bem vistas as coisas aquele foi o primeiro convite que recebi dos chamados jornais independentes da praça. O que me impressionou foi a saudação trocada com a voz doutro lado da linha:
–    Bom dia, sr., como está?
–    Estou bem, obrigado. E a senhora?
–    Eu estou bem, não sei a parte. O senhor Naíta Ussene precisa de falar consigo aqui no jornal. – Aceitei sem entrar em detalhes da parte…

Este episódio poderia ter acontecido num fim de tarde de um dia qualquer, mas foi numa terça-feira, precisamente.

Antes de enfrentar a redacção daquele semanário, demorei apreciando livros de um alfarrabista  expostos no chão, aplaudindo, em silêncio alguns títulos soberbos de escritores que marcam a vida literária mundial.

Antes que fosse tarde, fiz por cumprir aquela missão, usando o passeio do lado da avenida Agostinho Neto. Ao entrar na redacção deparei-me com o ilustre jornalista Fernando Manuel, como sempre o imaginara, há anos. Naquele dia pareceu-me que estava ali sentado há muitas luas, bem ao centro na sua secretária farta de munições de alto calibre: um computador, com o ecrã virado para o lado, uma chávena carregada de café, recitando alegremente umas nuvens finas de quentura, uma garrafa de whisky, democraticamente próxima do seu tutor de ocasião, uma garrafa de água mineral, um montão de papés, ao que me pareceu recém-resgatados de um funeral adiado. Enfeitiçou-me aquele sorriso magicando levemente a bonomia e a graça nos olhos de Fernando Manuel, dono e senhor de si.

Naíta Ussene, apercebendo-se daquele olhar inquiridor do FM, como quem diz «por que será que este puto olha para mim deste jeito», o poeta da luz interveio, lesto e perspicaz:
–    Fernando aquí está o rapaz. Chegaste na hora certa, Celso!
–    Como vai, mestre! – saudei!
–    Estou bem, desde que foi assinado acordo de Paz. Mas deixa-te de tretas, oh rapaz. Estou bem desde que chegaste – atirou FM.
–    Vou assumir isso como um elogio. E vindo de quem vem posso até considerar-me um eleito.
–    De certeza que não precisarás de segunda volta. Aqui tens os papéis. Podes tomar posse agora. – rematou FM, num notável gesto técnico.

As palavras de FM despertaram em mim uma emoção especial, entre surpresa e susto por não poder manter uma traço firme no verbo a conjugar pus-me a dizer coisas.
–    Obrigado, Mestre. Precisarei de algum tempo para ler estas relíquias que resgatou, a tempo, do Museu do Cairo.

Como que a desmentir o sossego que tentei revelar, a atmosfera desfez-se ao sabor das  gargalhadas vindas de quase uma meia centena de bocas. Aquilo foi um estrondo de bradar os céus.

Apareceu, não sei de onde um mar de gente, o Armando Nenane, a Paola Rolleta, a Flávia Gumende, o Américo Pacule, a Emília Banze, o Eduardo Conzo, o Emílio Beúla, o Abdul Sulemane e muitos outros. Naquele momento reparei demoradamente num retrato, o sorriso luminoso do big Joe Chiziane na parede, por detrás da secretária do FM.  

Até há poucos dias não tinha entendido bem que truque foi aquele, mas o Pacule revelou-me os meandros daquela confraternização. Afinal havia aterrado na redação do semanário verde um enorme material bélico, por conta de um nome sonante da praça, por sinal aniversariante paredes-meias com do Mestre FM. E como tudo isto é maningue nice desatamos todos a desejar alto e bom som, saúde e longa vida ao bom do Fernando Manuel naquele fim de tarde, ainda solarento de 23 de janeiro, três dias após FM completar 60 anos.

Tempos, mais tarde rubricaram o livro, as presenças amigos e incontornáveis, como as águas do Índico, Ana Magaia, Joana Zambéze, Sérgio Santimano, Gabriel Mondlane, Ídasse Tembe, Magoene, Lénio Ussivane, Bartolomeu Tomé, José Pinto de Sá, os filhos de FM, o Júnior e Mauro Pindula.

Há dias Fernando Manuel publicou MISSA PAGÃ, a tão esperada colectânea de crónicas dos últimos 21 anos. Em conversa com o Mestre fiquei a saber que de entre muitos leitores, existe uma senhora que guarda no baú a colecção completa das crónicas publicadas na coluna MISSA PAGÃ do Savana. Isto é obra num país como o nosso, onde escasseiam leitores consequentes. FM falou-me ainda da sua paixão pela música. Ele fez parte do grupo Rock 79, alegrando as noites do Espada,com Betinho vocalista nas letras em inglês aldrabado, Fernando Manuel vocalista nas letras em Português e também no inglês macarrónico, como apelidara Hortêncio Langa, cantando « I`ga dreams to remember». Militavam ainda Arone Nhanala no viola baixo e Bay Salimo.

A mítica Mafalala, com os temíveis Coca-Cola, Gimo Two Batata, Matasete e outros é o Macondo deste nosso Gabriel Garcia Márquez nascido há 65 anos na Maxixe que, beneficiando-se do seu inimitável talento na crónica, pode, querendo, compôr a uma manta de retalhos e, reconciliar-se com os deuses do romance, publicando o tão esperado livro de marcha-longa de um furriel miliciano de outros tempos.

Fernando Manuel, músico, escritor, jornalista, professor de ginástica, dono de um talento só visto nos eleitos.

Esta é a foto-família, que nos é legada por Naíta Ussene, celebrando, o aniversário de Fernando Manuel, ou melhor, O HOMEM SUGERIDO desta edição. Celebrar Fernando Manuel, lendo os seus livros, é o mesmo que visitar um jardim carregado de flores, com o mesmo fascínio na descoberta e inevitável nostalgia de quem recorda. Aqui está o registo a preto e branco do Poeta da luz e sombra, companheiro de todas horas de FM, Naíta Ussene.

 

 

Nelson Mandela: «Além de me dar vida, uma constituição física forte e uma ligação duradoira à casa real thembu, a única coisa que o meu pai me concedeu à nascença foi um nome, Rolihlahla. Em xhosa, Rolihlahla significa literalmente “arrancar o ramo de uma árvore”, mas o sentido coloquial seria, mais precisamente, “o que causa problemas”. Não acredito que um nome constitua um destino, ou que o meu pai de alguma forma estivesse a adivinhar o meu futuro, mas, anos mais tarde, amigos e família atribuíram ao meu nome de nascença as muitas tempestades que causei e sofri. O meu nome mais conhecido, o inglês, só meu foi dado no primeiro dia de escola. Mas estou a antecipar-me.

Nasci no dia dezoito de Julho de 1918, em Mvezo, uma vila pequenina nas margens do rio Mbashe, no distrito de Umtata, a capital do Transkei.»

Assim começa a notável autobiografia de Nelson Mandela Longo Caminho para a Liberdade, originalmente concebida na Ilha de Robben: «Como os leitores se aperceberão, este livro tem uma longa história: comecei a escrevê-lo, clandestinamente em 1974, durante o meu encarceramento em Robben Island. Sem o trabalho infatigável dos meus velhos camaradas Walter Sisulu e Ahmed Kathrada para trazerem de novo à luz do dia as minhas memórias, seria pouco provável que o manuscrito chegasse a completar-se. O exemplar que eu tinha em minha posse foi descoberto pelas autoridades e confiscado. No entanto, para além de terem dotes caligráficos únicos, os meus colegas de prisão Mac Maharaj e Isu Chiba conseguiram fazer o manuscrito original chegar ao seu destino. Voltei a dedicar-me a ele quando saí da prisão em 1990.» O escritor Richard Stengel ajudou-o a fixar o texto. Mas também teve colaboração e conselhos de Nadine Gordimer (1923-2014) e Ezekiel Mphahlele (1919-2008), ambos escritores sul-africanos renomados – Nadine foi prémio Nobel -, do fotógrafo Peter Magubane (1932, tem hoje 86 anos), ou Fatima Meer (1928-2010), escritora e activista anti-apartheid. O livro foi publicado em 1994. Um ano emblemático.

No dia 18 de Julho, quarta-feira, assinala-se o centenário deste homem extraordinário. Haveria muitos motivos para evocá-lo. A sua biografia é colossal. Vou ater-me em um ou dois factos da sua longa vida. Começo por evocar a própria ilha, onde esteve encarcerado quase duas décadas. Visitar a Robben Island é imperativo, um gesto impreterível. Eu fui lá e estive à beira das lágrimas perante aquela cela: os 2 metros de exiguidade e humilhação. O vexame da esteira, do cobertor, da latrina de latão, do prato e do púcaro de alumínio. Aquela cela e aquela cadeia são indispensavelmente uma iconografia da própria liberdade. Conhecia a ilha de nome, referida sempre que se aludia ao nome ínclito de Nelson Mandela. Hoje é indeclinável a sua associação ao legendário homem que dali se tornou um mito. Conhecia a história do homem e dos seus companheiros. Das provações por que passaram. Do calor intolerável no Verão e do irrepreensível frio no Inverno. Sabia do seu labor da pedra, o labor obrigatório de partir pedra sem protecção; dos calções vestidos no Inverno; da fome ou da comida para os bantus; da falta ou proibição de jornais; das reiteradamente más notícias lá fora – a mulher presa, a mulher banida, a mulher impedida de o visitar. Das visitas escassas (só anos depois, em Pollsmoor, é que abraçaria a mulher. A descrição que faz desse encontro é pungente. Fixei uma frase contundente: «Há vinte e um anos que não tocava nem sequer na mão da minha mulher.») Sabia, ainda, da recusa das autoridades para que ele fosse enterrar a mãe, em 1968, ou o filho Thembi, no ano ulterior. Das cartas que não chegavam ao destinatário. Sabia, lera, ouvira, imaginara. Contudo, a despeito disso, não obstante, não me contive naquela cela, naqueles exíguos metros quadrados. Ali, aquele homem deixou de ser prisioneiro e libertou-se ao longo dos anos no cativeiro. Ali o homem agigantou-se, ali Mandela tornou-se Mandela. Como pode um homem viver aquele opróbrio e não ser mau? Como pode alguém suportar o insuportável e depois ter a candura e a magnificência de tratar como tratou os seus opressores? Aquele homem humilhado, aquele belo e hierático combatente pela liberdade, caminha, na minha imaginação, ainda hoje, sempre, o longo caminho da liberdade. Vejo-o solitário e obstinado. E ele fez da solidão uma poderosa arma, com inteligência e coragem. Com altruísmo e intuição. Quero falar-vos hoje da prodigiosa solidão de Nelson Mandela.

Longo Caminho para a Liberdade percorre um longo (perdoe-se-me a redundância) excurso: da infância no campo de Transkei a Joanesburgo, da actividade cívica e do nascimento do lutador pela liberdade à acusação no processo de Rivonia, dos anos sombrios da Ilha de Robben, onde permaneceu 18 dos 27 anos de prisão, aos capítulos em que ele intenta as conversas com o inimigo até à liberdade, este livro é soberbo e fascinante. Esteve preso com Walter Sisulu (1912-2003), Ahmed Kathrada (1929-2017), Govan Mbeki (1919-2001), Raymond Mhlaba (1920-2005), Andrew Mlangeni (tem hoje 93 anos, nasceu em Junho de 1925) ou Elias Motsoaledi (1924-1994), com muitos outros, com tantos outros, estes, muitos deles sentenciados a pena de prisão perpétua. Entre 1963 a 1982 ali viveu (digo-o com sarcasmo, evidentemente) Nelson Mandela, antes de ser transferido para a penitenciária de Pollsmoor, na Cidade do Cabo, e, mais tarde, em 1988, quando fez 70 anos, para a prisão de Victor Verster, perto de Paarl.

Para Pollsmoor parte, em 1982, com os seus velhos companheiros. «Comparado com Robben Island, estávamos num hotel de cinco estrelas.» A luta anti-apartheid atingia, nos anos 80, dimensões planetárias. O MK actuava com virulência. A luta armada prosseguia. O regime estava isolado. P. W. Botha fraquejava, apesar de atacar com ferocidade a maioria negra afastada nas townships, apesar de violentar os países vizinhos, como Moçambique. O nome de Mandela era motivo de uma grande campanha internacional para a sua libertação. Free Nelson Mandela – cantava-se nos palcos do mundo. Mantê-lo na Ilha de Robben era insustentável. «Para nós, a ilha tinha-se tornado o lugar da luta.» Mandela acha que, ao retirá-lo dali, o regime intentava decapitar o ANC. «A própria Robben Island estava a tornar-se um sustentáculo mítico da luta, e, eles queriam retirar-lhe alguma da sua importância simbólica através do nosso afastamento.» Nesse mesmo ano, em Agosto de 1982, o regime assassina, com carta armadilhada, Ruth First, activista anti-apartheid, mulher de Joe Slovo, em Maputo.

A minha geração viveu empolgada essa história e manifestou-se para que Nelson Mandela fosse libertado. Sonhámos com isso. Não existia nenhum retrato dele havia muitos anos e isso era também algo que nos concitava: como seria o rosto de Nelson Mandela tantos anos depois? Recordo-me das campanhas pela libertação de Mandela. Ainda me comovo com Peter Gabriel cantando, de punho cerrado, como numa fotografia de Peter Magubane, “Biko”, em honra de Steve Biko, brutalmente assassinado, aos 30 anos, em 1977. Recordo-me do Kok Nam, meu velho companheiro na vetusta Tempo, que sonhava cobrir a libertação de Mandela. Partilhávamos esse sonho. Lembro-me do belíssimo poema do José Craveirinha dito pelo Tomás Vieira Mário nos “Msahos” do Tunduru – “Desde que o meu amigo Nelson Mandela foi viver para a Robben Island”. Esse momento aconteceu no início da década de 90. Antes da sua libertação, que ocorreu a 11 de Fevereiro de 1990, Nelson Mandela empreendeu uma engenhosa e solitária aproximação ao inimigo e conta essa fascinante história na sua autobiografia.

Nelson Mandela: «Em 1985, depois de um exame médico de rotina feito pelo clínico da prisão, mandaram-me a um urologista, que diagnosticou um aumento da próstata e recomendou uma intervenção cirúrgica. Disse que era uma operação de rotina. Consultei a minha família e decidi ir para a frente com a operação.» Quando teve alta, não o levaram de volta para junto dos seus companheiros de prisão. É aqui que a sua inteligência e a sua coragem revelam um grande líder. Perante o espanto dos seus companheiros revoltados, Mandela diz algo que para eles parece incompreensível: «Oiçam, meus velhos – disse eu -, não parece que nos devamos opor a isto.» Walter Sisulu, Ahmed Kathrada e Raymond Mhlaba estavam perplexos.

Escreve Nelson Mandela: «A minha solidão dava-me uma certa liberdade e resolvi usá-la para fazer algo que ponderava há bastante tempo: encetar conversações com o governo.» Mais adiante: «A minha solidão proporcionar-me-ia a oportunidade de dar o primeiro passo nessa direcção, sem o tipo de escrutínio que poderia destruir tais esforços.» Isto é de uma grande intuição política. «Encontrava-me agora numa espécie de isolamento esplêndido.» Mandela reconhece: «A decisão de falar com o governo era de tal importância que só deveria ter sido tomada em Lusaca. Mas eu achava que era necessário dar início ao processo, e não tinha nem tempo nem meios para comunicar com o Oliver. Alguém do nosso lado tinha de dar o primeiro passo, e o meu isolamento proporcionava-me simultaneamente a liberdade para o fazer e a certeza, pelo menos durante algum tempo, da confidencialidade das minhas tentativas.»

Nelson Mandela: «Decidi não comunicar a ninguém o que ia fazer. Nem aos meus colegas lá de cima, nem aos de Lusaca. O ANC é uma organização colectiva mas o governo tinha tornado a acção impossível neste caso. Não tinha nem a segurança, nem o tempo suficiente para discutir estes assuntos com a minha organização. Sabia que os meus colegas do andar de cima condenariam a minha proposta, e tal matá-la-ia à nascença. Há alturas em que um líder tem de passar à frente do rebanho, afastar-se numa nova direcção, com a certeza de estar a levar o povo para o caminho certo. Por fim, o meu isolamento forneceria à minha organização uma desculpa, no caso de as coisas correrem mal: o velho estava sozinho e completamente isolado, e as acções foram tomadas por ele como indivíduo, não como representante do ANC.»

O ANC ficou naturalmente inquieto quando se apercebeu destes esforços solitários de Mandela, que os ocultou. «Pouco depois disto, recebi um recado do Oliver Tambo, trazido às escondidas por um dos meus advogados. Tinha ouvido dizer que eu encetara conversações secretas com o governo, e estava preocupado. Disse que sabia que eu estava sozinho há algum tempo, separado dos meus colegas. Deve ter-se perguntado: o que se passa com o Mandela? A mensagem do Oliver era breve e directa: queria saber do que é que eu estava a afalar com o governo. O Oliver não poderia nem acreditar que eu me estava a passar para o lado do inimigo, mas talvez imaginasse que estava a cometer um erro de julgamento. Na verdade, o tom da sua mensagem sugeria isso mesmo.»

Em Maio de 1988 faz o primeiro encontro formal do grupo de trabalho secreto. Estas reuniões tinham o consentimento de P. W. Botha. Nelson Mandela fala-lhes da história do ANC, explica os pontos de vista do ANC, sublinha aquilo que os divide do governo, fala dos assuntos críticos: a luta armada, a aliança do ANC com o Partido Comunista e do objectivo do governo de maioria e a ideia da reconciliação racial. Foram dias, semanas e meses. O governo tinha uma condição: para haver negociações o ANC deveria renunciar à violência. «Respondi que o Estado era responsável pela violência, e que é sempre o opressor, não o oprimido, a ditar a forma de luta.» Isto é brilhante: «Cabe-vos a vós – disse -, não a nós, renunciar à violência.» Outro engulho: o Partido Comunista. Mandela argumenta que eram organizações separadas e distintas que prosseguiam um mesmo objectivo. O regime afirmava que o Partido Comunista controlava o ANC. Também aí Mandela é genial na argumentação. Exasperado atira-lhes: «Os senhores consideram-se inteligentes, não é verdade? Consideram-se poderosos, não é verdade? Bem, estão aqui quatro dos vossos e apenas eu, e não conseguem controlar-me ou fazer-me mudar de opinião. O que os leva a pensar que os comunistas são bem-sucedidos naquilo em que os senhores fracassam?»

O governo de maioria, as nacionalizações preconizadas na Carta da Liberdade, de 1955, preocupavam o regime: «Mas remiti-os para um artigo que tinha escrito em 1956 para o Liberation, em que afirmava que a Carta da Liberdade não era um esquema do socialismo, mas do capitalismo de estilo africano. Disse-lhes que não tinha mudado de opinião desde essa altura.» Quanto ao direito das minorias? «A África do Sul pertence a todos os que nela vivem, negros e brancos. Acrescentei que os brancos também eram africanos e que, em qualquer regime futuro, a maioria necessitaria da minoria: Não queremos empurrar-vos para o mar – disse.» Nesse mesmo ano, Mandela é transferido para Victor Verster, em Paarl. A 5 de Julho de 1989, P. W. Botha recebe-o: “visita de cortesia”. Um eufemismo, naturalmente. Botha, que se demitira do Partido Nacional, permanecia, no entanto, na chefia do Estado. F. W. de Klerk, ministro da Educação, ascende à liderança do Partido Nacional. Apesar da ferocidade do Grande Crocodilo (“Die Groot Krokodil”), o encontro corre bem. Tomam chá e são cordiais um com o outro. Um mês depois, em Agosto, P. W. Botha demite-se de presidente da África do Sul. De Klerk assume no dia seguinte. Mandela prosseguia os seus encontros com o comité secreto das negociações. Consegue vencer etapas. Em Outubro de 1989 são libertados: Walter Sisulu, Ahmed Kathrada, Raymond Mhlaba, Andrew Mlangeni, Elias Motsoaledi, jeff Masemola, Wilton Mkwari e Oscar Mpetha. Govan Mbeki saíra antes. Vive-se um momento de esperança.

F. W. de Klerk recebe-o a 13 de Dezembro de 1989. «Apresentei as minhas felicitações ao Sr. de Klerk pela sua ascensão ao cargo de presidente e exprimi o desejo de podermos trabalhar juntos. Ele foi extremamente cordial e retribuiu estes sentimentos.» Ali estava um interlocutor diferente. «Desde o primeiro momento que notei que o Sr. de Klerk escutava o que eu tinha a dizer.» A conversa entre os futuros Prémio Nobel da Paz de forma promissora: «O Sr. de Klerk, disse, imitando a famosa descrição do Sr. Gorbachev por Margaret Thacher, era um homem com quem se podia fazer negócios.»

Nelson Mandela: «Em 2 de Fevereiro de 1990, F. W. de Klerk foi ao Parlamento pronunciar o tradicional discurso de abertura e fez algo que nenhum outro chefe de Estado sul-africano alguma vez fizera: começou realmente a desmantelar o sistema de apartheid e a lançar os fundamentos de uma África do Sul democrática.» Uma semana depois, a 9 de Fevereiro, F. W. de Klerk quis ver Nelson Mandela. Este deslocou-se novamente a Tuynhuys: «Deparei com um Sr. de Klerk sorridente no seu gabinete e, ao cumprimentarmo-nos, ele informou-me que me ia libertar no dia seguinte.» O diálogo entre ambos é igualmente fascinante – De Klerk queria libertá-lo a 10 de Fevereiro em Joanesburgo; Mandela queria tempo para se preparar (ficara aturdido apesar de ter sonhado décadas com aquele momento e temia que uma libertação abrupta não fosse aconselhável)  e queria sair em liberdade na Cidade do Cabo -, mas já não cabe nesta história que vai longa sobre o ingente e prodigioso isolamento de Nelson Mandela.

 

 

 

 

A beleza do homem não está na cara, está é no carácter, na sua posição social, em suas posses: onde já se viu homem rico ser feio?

Jorge Amado

A escrita de Manuel Mutimucuio começa a ganhar registos muito apreciáveis no actual contexto da produção literária no país. Neste movimento presente – futuro, com alguns vaticínios à mistura, o escritor está a conseguir levar à literatura um debate de ideias e de valores pertinentes, questionando o status quo das coisas – e de que maneira. Garante-lhe êxito, nesse exercício, o facto do escritor ser um bom observador da nossa realidade e de, no acto da escrita, conseguir transcender para uma dimensão ulterior, feita de utopias, perguntas, dúvidas e (in)certezas. Só com essa abstração resultante de uma profunda leitura do espaço real nacional podem-se criar livros como Visão, com histórias nossas, dos nossos comportamentos e desvios; só desse modo torna-se possível captar tendências e fazer disso algo além de uma percepção.

Assim, começa a não ser surpresa o efeito literário de boa qualidade causado pela criatividade de Manuel Mutimucuio, pois, ao ler-se o último título do autor, Moçambique com z de zarolho, percebe-se a sua orientação, voltada para o poder da escrita enquanto um escape de retorno à realidade com outras perspectivas.

Moçambique com z de zarolho é uma história sobre como, em determinadas ocasiões, a cultura é algo fundamentalmente político, daí o futuro das personagens ser calculado a partir da língua – na qualidade de instrumento que garante apreensão, transformação e transmissão da própria cultura –, por deputados. Nesta ficção, temos duas entidades importantes no desenlace da história: Djassi, um deputado da Assembleia da República a representar homens bonitos, esses que têm poder e são, de vez em quando, vítima do mesmo, e Hohlo, um empregado doméstico a representar a classe dos desfavorecidos, sobretudo dos que buscam uma oportunidade de ascensão social na capital do país. Através destas duas figuras, ambas humildes na sua condição, Mutimucuio constrói e reconstrói um Moçambique possível, fora de um comodismo assente na herança colonial.

 Na verdade, o autor, com um olhar e atrevimento sociológico muito ousado, coloca as suas personagens a discutir a necessidade de o país ou substituir a língua oficial ou adoptar uma outra, a inglesa, quer porque a portuguesa está decadente quer porque os próprios moçambicanos, na história – e na realidade também –, são absorvidos pelo maior património cultural da Inglaterra. Deste modo, Manuel Mutimucuio sintetiza o que vai no (sub)consciente dos moçambicanos, não importa se insipiente, brinca com isso e projecta uma direcção, cuja finalidade, de longe, continuará a prejudicar a maioria, os miseráveis ou, se quisermos, as massas. Este é um livro que, ao questionar o status quo, com efeito, mostra-nos que há circunstâncias inalteráveis: a condição dos humilhados. Nisso, o escritor aposta numa crueldade suficiente para tornar Hohlo aquilo que, se calhar, o leitor não deseja, mesmo sendo relevante para os desequilíbrios emocionais gerados pelo enredo.

Moçambique com z de zarolho ajuda-nos a identificar as transformações de ordem social no nosso plano existencial. Paralelamente a isso, dá-nos o rumo para o qual o país caminha e a que ritmo.

Título: Moçambique com z de zarolho

Autor: Manuel Mutimucuio

Editora: Fundza

Classificação: 16

Todos os exercícios de leitura são, como é por demais evidente, importantíssimos para a questão e gestão da vida vivida no mundo social cada vez mais globalizado dos nossos novos tempos.

A leitura à que nos referimos é toda aquela que nos remete a alguns momentos de reflexão ou de peregrinação interior em busca do obvio, da transparência e da transcendência superando as, (não raras vezes…), reles e irrefletidas trans/aparências.

 Assim sendo, leituras podem e devem ser feitas também de maneira visual. Com simples mas penetrante olhar em razão das circunstâncias. Entretanto, a leitura que aqui abordo é mesmo aquela que implica a descodificação de textos, literários ou não, com que nos deparamos durante as nossas práticas quotidianas. Esta leitura poder ter um cariz informativo, formativo e até recreativo ou lúdico.

Livros e toda uma gama de publicações periódicas, físicas ou virtuais, conformam o que aqui nos interessa. Dentre estes, especificamente, mais nos interessam os de textos resultantes de estudos literários e da própria escrita criativa.

Sobre estes, que aprendemos a considerar «os mestres mudos», tivemos a oportunidade e rendemos homenagem num texto em jeito poético que se acha inserido na nossa IMPRESCINDÍVEL DOUTRINA CONTRA como sendo uma homenagem aos amigos e subintitulámo-lo poema de amor:         

Estridentes na capa e no verso bem disperso/ -forasteiros- os livros amam-nos em silêncio/ habitam-nos  siliciosamente descarregando/ sóbria iluminação sem nada exigirem de nós.// De quando em quando benevolentes/parece que o sono se adeja sobre eles/os palavrões inscritos nas lombadas/ filtram virgens nuvens paginadas/ sempre que procuramos inertes sonhar.// Os livros representam. Pensam e repensam/ seus títulos e subtítulos linhas e entrelinhas/esperam em silêncio que os aceitemos depois/ na estante do firmamento e do risonho porvir.//-Pacientes- mudos  e  eternos  fluorescentes revelam/ a beleza, o sentido e o olhar dos cegos que somos.// É merecido o silêncio em torno dos vivos/ livros paridos no ardor de pura decantação/ refastelando nossas velhas, novas e nobres amizades!

Assim sendo, vamos considerar os livros como parte do conjunto de meios de produção indispensáveis para o manejo de todo aquele que pensando, repensando e armazenando saber se propõe um cultor das belas letras.

Ler é para nós um exercício primário e primordial pois, se por trás -ou ao lado?- de um grande homem está sempre uma grande mulher, ouso dizer que… por trás de um bom e grande escritor esconde-se sempre um melhor e maior leitor.  

Fartos andamos de ouvir e dizer aos jovens principiantes, – que também já fomos e continuamos sendo, embora em razão do tempo, agora seguimos um pouco menos jovens e consequentemente mais experientes: somos sempre o primeiro leitor de todos os textos que escrevemos, sejam eles literários ou não e jamais um mau ou preguiçoso leitor alcançará o sofrido e ansiado estatuto de  bom aqui… ou melhor escritor ali.

 Sem falsa modéstia, vimos aqui dizer que temos sido dos que mais segue atentamente os dinâmicos movimentos culturais e, particularmente, literários em Angola ou mesmo nos distintos países africanos de língua portuguesa. E que ninguém espere de nós tapinhas ou palmadinhas nas costas pois, a vida nos ensinou que as palmadinhas nas costas, em jeito de elogio, são a pior coisa que existe e, curiosamente, os “likes” e tapinhas é o que a grande maioria dos escritores gosta. Principalmente os jovens escritores encharcados pelo prematuro feto da vaidade e pela ânsia de serem vistos e aparecerem por aparecer nas redes sociais em voga e nas páginas literárias locais em função do “timbre do momento e da paixão”. Os meus “likes” nunca são em vão.

Jamais deixamos de reparar, ensinar e aconselhar todos os que nos procuram e indiciam merecer a nossa atenção. Atendemos, principalmente, aqueles que demonstrando sólidas bases de cultura geral evidenciam um razoável e necessário domínio da língua enquanto fundamental instrumento de trabalho para todo o operário da palavra pois, esta, não raras vezes se apresenta misteriosamente cavilosa.

 Seguindo os mais jovens rejuvenescemos. Assim sendo, evidenciamos e aprimoramos mais facilmente o diálogo inter-geracional. A troca de livros é fundamental e o aconselhamento e introdução à leitura de autores clássicos é não menos importante  e vamos paulatina e progressivamente esbatendo o dialéctico conflito de gerações em razão do princípio filosófico da «negação da negação».

Um conselho, um ensinamento literário ou mesmo de outra qualquer natureza é sempre um motivo de jamais desperdiçar até porque reiteradas vezes ouvimos dizer que quem não ouve os conselhos dificilmente chega à velho e ouvir é uma das maiores virtudes dos humanos conscientes.

Reiner Rilke, ao que se diz, «um rapaz frágil e dotado» tinha fama de complicado e homem muito difícil de lidar. Entretanto, tinha discípulos, sendo Franz Kappus o mais conhecido. Em dado momento, Kappus, ainda e certamente, «com indícios tímidos de uma voz própria», duvidando da sua vocação «…decide enviar a Rilke alguns versos, repetindo um gesto há séculos feito por jovens poetas», conforme nos diz Francisco Vale. Sabe-se que a correspondência entre ambos, mestre e discípulo, seguiu-se por mais de dois anos.            

 Aos cinquenta anos, Virgínia Woolf escreveu a Letter to a Young poet  (hoje por demais conhecida), dirigida ao jovem poeta John. Mesmo não sendo ela uma poetisa mas sim aquela grande romancista que ainda hoje lemos com muito agrado, Virgínia ousou e aconselhou aquele suposto aprendiz de feiticeiro.

Rilk e Woolf coincidiram, nos seus conselhos aos jovens, relativamente a necessidade de mais leitura e muita paciência. Ambos contrariaram a pressa de publicar. Rilke chegou mesmo a dizer que «a paciênciaé tudo!». A paciência e a leitura proporcionam-nos o amadurecimento e lendo um livro rendemos sempre uma profunda homenagem a quem sacrificou horas de um irreversível tempo para o escrever. Só assim entendemos a expressão de Jorge Luís Borges segundo a qual «todos os livros são dignos de serem lidos» cabendo-nos, simplesmente, enquanto leitores, atender as prioridades da nossa consciência pois sempre o leitor desempenha um papel fundamental porque acaba por enriquecer a obra ou o livro e também a si mesmo, fazendo sempre por compreender aquilo que lê e sentindo a necessidade de um maior aprofundamento.       

 Para Borges, a cada uma hora de escrita correspondiam dez horas de leitura. E assim se forja um escritor ou mesmo um verdadeiro intelectual.

Bem próximo dos seus 89 anos, o filósofo Alemão Jurgen Habermas, em entrevista recente ao jornalista Borja Hermoso para o EL PAÍS-Brasil,muito profundo, alerta-nos da impossibilidade da existência de intelectuais não havendo mais bons leitores a quem alcançar com os argumentos esgrimidos e, já nos idos de 80 do século passado, o prof. Manuel Ferreira chamava a atenção para o fraco nível intelectual dos escritores africanos de língua portuguesa. Na leitura, na densidade, no grau de literariedade e nos argumentos da escrita criativa estava, certamente, o cerne da questão então apresentada com uma certa preocupação.

 Um verdadeiro intelectual, em princípio, lê compulsivamente. Escuta atentamente e vive na grandiosidade de saber transmitir humildemente e sem o nefasto “contentismo fácil” (escrevendo ou falando) o seu conhecimento científico e literário da maneira mais simples possível. Portanto, ambas, a- cultura literária e acultura científica- conformam aquilo a que vulgarmente chamamos de Cultura Geralmas, vimos não raras vezes entre nós, gentes que autoproclamando-se intelectuais e escritores, conforme diz o crítico Eugénio Lisboa «…apenas ouvem – quando ouvem- “falar de” coisas de ciência, cujo sentido profundo de todo lhes escapa.»

É Eugénio Lisboa, grande mestre das nossas literaturas, no seu ensaio sobre as DUAS CULTURAS quem nos diz: «Uma boa passagem pelo universo da ciência, pelas exigências da ciência, pelo rigor e cautela, repito, que a ciência requer e recomenda, daria ao discurso literário de quem o produz, outra nitidez, outra transparência, outro sabor, – e outro valor…».

 Lisboa, sugere que, nos dias de hoje, quanto menor for o fosso ou o distanciamento entre asduas culturas… melhor. Sempre em razão do ‘perigo iminente de incomunicabilidade’ e ‘devido àaceleração da produção criativa, a ritmo quase alucinante’.         

Ao terminar, deixo aqui a transcrição de um pequeno extrato de uma longa conversa mantida com Lília Momplé. Lília é uma octogenária escritora Moçambicana que, mesmo não se encontrando na mídia com a vulgaridade habitual, procurei e encontrei nas terras do índico onde, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, passamos uma arejada e amena tarde de conversa, começando por pedir-lhe que me falasse da existência de uma relação livro/leitura/escritor pois, tendo sido professora de profissão, muito ainda tem para nos ensinar.

 [L.M.-Sobre os livros há muita coisa para dizer. Para um estudante o livro é a única coisa que dá ginástica mental. Os livros, por exemplo, vacinaram-me contra a sedução do poder. Eu não sou nada apegada ao poder e uma das coisas que aprendi nas estórias que a minha avó contava era que os animais mais fracos sempre conseguiam vencer os animais mais fortes por causa da sua inteligência. É que naquela «fortaleza» dos fortes estava sempre mesclada um pouco de estupidez e isso sempre foi assim e continua sendo assim até hoje.

Veja que os nossos Ministros hoje são quase imortais ou pelo menos assim se sentem. E são as estórias e os livros que me fizeram estar sempre longe do poder, e sem apetência para a ostentação porque  os animais das estórias da minha avó eram sempre fracos mas acabavam por vencer os mais fortes pela sua inteligência.

A importância do livro é única. O livro é que nos dá a cultura geral que nos faz compreender seja lá o que for…

O livro é muito mais importante que a televisão. A televisão é uma torneira de qualquer coisa que a gente está ali a consumir passivamente ao contrário do livro. O livro não. Com o livro temos que ser ativos somos obrigados a ser ativos. O livro obriga-nos a ir mais além e conseguir compreender o mundo e por isso muitos cientistas são leitores compulsivos porque foram ajudados através da leitura a querer saber muita coisa.

 L.F.-…E a internet?

L.M.-A internet é outra torneira que só despeja. Na verdade um aluno que não lê -livros!-, é um aluno medíocre. Em matemática um aluno tem de saber ler as equações. Pode até saber solucioná-las mas não o faz porque não entende o que se lhe pede e isto acaba por acontecer em todas as disciplinas.

Para aqueles jovens que querem escrever, a condição fundamental para escreverem é ler. A pessoa que não lê não pode escrever. Não pode. É impossível. É necessário que tenhamos diariamente contacto com os livros ou com algo que preenche o nosso imaginário como por exemplo a literatura oral.]

“Não há pensamentos perigosos. O pensar em si já é perigoso”,

Hannah Arendt

Entre a Bíblia e a Constituição que conhecimento nos é necessário para melhorar a condição humana? Quando me refiro à Bíblia, incluo também todas as escrituras sagradas que alegam conter a palavra divina capaz de aperfeiçoar os homens e religa-los ao divino. Quanto à Constituição, refiro-me à Lei-mãe que visa regular a convivência entre homens dentro de uma nação, no sentido de lhes garantir o bem-estar, a segurança e a justiça. A resposta para questão supracitada passa, portanto, por uma reflexão sobre os maiores problemas da humanidade.

E os maiores problemas que afectam a espécie humana têm sido a pobreza e os conflitos no mundo. Os homens estariam numa condição satisfatória se, dia-a-dia, não lhes faltassem os alimentos e não precisassem entrar em conflitos para atingir os seus interesses. Mas que causas geram mais pobreza e conflitos no mundo? A falta do conhecimento e prática da palavra sagrada ou a falta do domínio das leis seculares? Esta disjunção é duplamente justificável. Ora há quem possa defender que a falta da palavra divina no homem torna-o corruptível ao ponto de ele tomar decisões que geram mais pobreza e conflitos no mundo. Ora haverá quem diga que o desconhecimento das leis da polis torna os homens fáceis de serem roubados os seus direitos e deveres ao ponto de haver mais pobreza e conflitos no mundo.

De modo a ultrapassar-se este impasse da busca de causa primeira responsável pela pobreza e conflitos no mundo, urge perguntar-se: entre promover o conhecimento bíblico e conhecimento da constituição, que conhecimento aprimoraria mais a condição humana.  Ora o conhecimento bíblico tem o poder de nos levar à introspeção no sentido de avaliarmos e guiarmos a nossa vida na retidão dos mandamentos divinos, enquanto o conhecimento constitucional lança-nos para fora de nós mesmos, coloca-nos perante o contrato social e apresenta-nos as nossas responsabilidades para podermos conviver como homens civilizados dentro duma polis segura e cada vez mais próspera. Se a Constituição actual não nos permite esta condição, ao menos, dispomos de infinitas possibilidades de altera-la até adaptar-se às nossas utopias, pois as suas leis são, por natureza, revogáveis. Ao contrário, temos as escrituras sagradas que por natureza são mensagens dogmáticas que se arrogam ser verdades eternas.

Por isso, para fim último de melhorar a condição humana, mais vale os homens dedicarem-se mais ao conhecimento da lei secular do que da lei divina, pois enquanto eles confinarem-se às igrejas, consumindo versículos, o mundo lá fora continuará descuidado e inalterado. Mas, quando mediante a Constituição, os homens têm conhecimento dos seus direitos e deveres e fazem esforço para vê-los cumpridos, ainda que desapareçam as escrituras sagradas, haverá avanços na defesa dos direitos humanos, bem-estar e segurança. Sem o conhecimento da Constituição, por mais crentes que sejam, os homens continuaram extremamente propensos à manipulação das elites políticas responsáveis pelo desenvolvimento econômico e humano duma nação.

Não sugiro a erradicação das escrituras sagradas, mas proponho uma maior atenção a coisas da polis, pois este é o espaço onde dispomos de todos os instrumentos necessários para construirmo-nos como uma geração superior daquela que nos precede e deixarmos melhores condições para florescimento da geração posterior e um mundo melhor. A humanidade lucraria mais se a Constituição fosse comprada e lida à mesma frequência quanto o é a Bíblia e se as palestras sobre cidadania ganhassem mais espaço que as sessões de pregação que temos assistido nas praças, paragens, transportes públicos, etc.

Ryszard Kapuscinski: “Em pleno centro, a meio da Independence Avenue, há um edifício de quatro pisos, com varandas com balaustradas destruídas a toda a volta – o New Africa Hotel. No último piso, há um enorme terraço, onde existe um bar com algumas mesas. É aí que conspira a África dos nossos dias. É aí que se encontram os refugiados, exilados e emigrados de todos os cantos do continente. Geralmente, numa mesa sentam-se Mondlane de Moçambique, Kaunda da Zâmbia, Mugabe do Zimbabwe. Noutra, Karume de Zanzibar, Chisiza do Malawi, Nujoma da Namíbia, etc. O Tanganica é o primeiro Estado independente nesta zona, daí que sejam para ali atraídas pessoas de todas as colónias. À noite, quando o tempo arrefece e a brisa vinda do mar se começa a fazer sentir, o terraço enche-se de pessoas, que discutem, decidem sobre planos de ação, medem forças e calculam as possibilidades de sucesso. O terraço então num centro de decisão, numa ponte de comando. Nós, os correspondentes, somos, obviamente, frequentadores deste espaço, para obtermos informações. Como já conhecemos os líderes, sabemos quais as mesas a que vale a pena sentarmo-nos. Sabemos que Mondlane, simpático e aberto, gosta de conversar, enquanto Chisiza, enigmático e reservado, não abre pura e simplesmente a boca.”

Leio este relato impressivo do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski, considerado o maior repórter do século XX, no seu celebrado livro Ébano. Kapuscinski aterrou em 1957 pela primeira vez em África, como correspondente de um jornal de seu país, tendo como objectivo testemunhar o início do fim – parece uma contradição? – da era da colonização. Esteve no Gana nos primórdios da independência, que ocorreu em 1957 – a antiga Costa do Ouro foi a primeira nação africana que se tornou independente, no caso dos ingleses -, onde ouviu Kwame Nkrumah. A sua interacção com Kofi Baako, antigo desportista e professor, que se tornou um dos populares ministros, é paradigmática do tipo de governo e sonho que o Gana então projectava. Ao destino do seu líder carismático e dos seus desígnios aconteceu o que configuraria o destino de África cuja cartografia este livro traça notavelmente. Em 1962, Kapuscinski vivia em Dar es Salaam, altura em que cruzou com personagens como Eduardo Mondlane; viajou de lá para Kampala, no Uganda, para assistir à independência deste país que começa errático. Justamente nesse dia acordava atordoado num hospital recém-inaugurado, por causa de uma malária. Fez aquela viagem de carro sem mapas nem bússolas, o que em si era já uma grande aventura. Foi, mais tarde, dos primeiros jornalistas a aterrar em Zanzibar quando um golpe expulsou o sultão do poder. Conhecera no New Africa Hotel, de Dar es Salaam, Abeid Karume, que viria a ser o primeiro presidente da ilha. Lidou em Dar com os protagonistas das independências. Percorreu o continente ao longo de quatro décadas. Viveu a tragédia africana, testemunhou o genocídio étnico no Ruanda. Cruzou África e escreveu sobre as pessoas que encontrou, que eram pobres na generalidade – interessou-se mais por estas do que pelos poderosos líderes -, redigiu as suas histórias, muitas vezes, quase sempre, violentas, muito duras, duríssimas.

Leio Ébano e sinto-me sobressaltado pelo relato fascinante de um homem que foi testemunha privilegiada da história do meu continente. Estava ele em Zanzibar – a tentar escapar da situação ardilosa que se vivia na ilha – quando se dão golpes simultâneos no Quénia, Tanganica e Uganda. Em 1966 está em Lagos, na imensa Nigéria. Regista no seu diário o golpe de Estado que ocorre na altura. Fala de Abubakar Balewa (na época primeiro-ministro nigeriano), Ahmadu Belo, Samuel Akintola, entre outros, executados a 15 de Janeiro de 1966. O golpe é liderado pelo Major-General Johnson Thomas Aguiyi-Ironsi, que irá presidir à Nigéria, entre 16 de Janeiro de 1966 a 29 de Julho do mesmo ano, quando morre assassinado. Esta história, necessariamente violenta, necessariamente sangrenta, fascina-me. Parece um paradoxo? Leio-a empolgado. Conhecer o passado de África na pena de um jornalista que viveu um momento histórico irrepetível, isso não parece incongruente com uma perspectiva crítica dessa mesma história. Antes pelo contrário.

Esta irresistível viagem ao passado explica muito do que rapidamente esquecemos ou desprezamos, a história recente, dos últimos 50 anos, de uma África devastada pela seca, pela fome, pela guerra, pelo saque, pela corrupção, por uma geração de ditadores e ineptos, uma África que substituiu poderes do ocidente que a dilapidaram por outros (africanos) sequiosos de o fazer, proclamando uma sangrenta legitimidade. Ler este livro é um leniente contra a amnésia. Cresci ouvindo dizer que a culpa do nosso atraso, a culpa da nossa inércia, a culpa do nosso subdesenvolvimento, a culpa da nossa pobreza, a culpa da ausência de futuro ou a culpa da desilusão que sentíamos em África advinha do colonialismo. Passam mais de cinco décadas e somos incapazes de dar, no geral, um sentido que não seja o anátema da desgraça. Entretanto gerações de líderes, entretanto as guerras, entretanto a fome e a seca, entretanto a incapacidade. Leio este livro e uma memória histórica acode-me. Muitas das origens das nossas desgraças estão aqui explicadas. O colonialismo, sem dúvida, mas também a liderança africana é responsável pelo que aconteceu ao continente. Da Nigéria ao Uganda, nos relatos deste grande repórter polaco, que viajou pelas intransitáveis estradas africanas, que enfrentou emboscadas, que se cruzou com ditadores, que foi interpelado por rebeldes insurrectos, que assistiu a golpes de Estado, que falou com muitos dos seus protagonistas, que relatou o quotidiano de miséria que a promessa das independências não conseguiu desfazer, estes testemunhos, repito, são de uma dureza, são de uma extraordinária virulência. O que ele relata de Idi Amin poderia parecer ficção de tão hediondo e inclemente; ou o seu lancinante quotidiano na Nigéria, um dos países mais desiguais de África, entre uma oligarquia rica e uma população paupérrima; a sua pungente descrição de Lalibela, na Etiópia, assolada por uma fome responsável por um verdadeiro genocídio, facto escondido primeiro por Hailé Selassie e depois por Mengistu, que o derrubou e matou; tudo isto é devastador, tudo isto é medonho e atroz. Ao ler os seus relatos do Uganda, no tempo de Idi Amin, precedido por Milton Obote e por Tito Okello, todos eles ditadores que acabaram fugidos para o estrangeiro, no tempo em que os sargentos e coronéis ou generais autoproclamados marechais, desde a República Centro Africana, do infelicíssimo Bokassa, a Uganda do próprio Amin, cobriam o continente de ignomínia e miséria, fica-se com uma cabal ideia do que aconteceu de excruciante em muitos países.

Este relato é fascinante porque é o primeiro esboço da história. A história a quente. Essa é a grande arte do jornalismo: fazer o rascunho da história. A história de África é vista aqui por alguém que a relata no momento em que ela acontece, e não me venham dizer que se trata de um olhar exógeno para desvalorizar este relato. Ler Ryszard Kapuscinski é um murro no estômago. Estes relatos parecem um mundo cruel, malvado, desumano, bárbaro, impiedoso, insensível. São-no, efectivamente, um mundo que existiu, um mundo que existe ainda no nosso tempo, mas sobretudo denunciam uma mentalidade que ainda existe. Por isso, a democracia, a liberdade de imprensa, os direitos humanos e outros avatares do mundo ocidental chocaram com as circunstâncias e os homens de poder em grande parte de África, mesmo quando estes os proclamavam. Por isso é que é tão agreste a paisagem africana, embora, tal como o autor no-lo diz, não exista uma entidade uniforme que seja África, que o conceito uniformizador e necessariamente enquistado não produz a imagem de uma realidade tremendamente diferenciada como é a dos países que constituem o vasto e por vezes implacável continente africano. As lutas fratricidas, as guerras étnicas e tribais, os ódios viscerais, a intolerância em relação ao outro, a brutal incapacidade de aceitar a alteridade, o poder, a corrupção, a ânsia pelo enriquecimento são alguns dos males que atravessaram transversalmente o continente. Esta leitura é também um exercício devastador, mas essencial para a compreensão da chamada crise africana.

O diagnóstico de África parece muito duro. Mas não reflecte a verdade? Ryszard Kapuscinski interpela os africanos. Babashoa Chinsman (da Serra Leoa): “não é verdade que África tenha estagnado. África está a desenvolver-se, não é apenas o continente da fome”. John Menru (da Tanzânia): “África precisa de uma nova geração de políticos, que aprendam novas formas de pensar. A geração actual tem de abdicar do poder. Em vez de pensarem no desenvolvimento, estas pessoas pensam apenas na melhor forma de se manterem no poder, uma saída para África? Tem de ser criado um novo clima político, a) no qual se aceite o princípio de que o diálogo é imprescindível, b) permita uma participação da sociedade na vida pública, c) que respeite os direitos fundamentais do Homem, d) que leve à democracia.” Sadig Rasheed (Sudão): “não há certeza de que as sociedades africanas sejam capazes de adoptar uma posição autocrítica, mas disso dependerá muita coisa”.

Ryszard Kapuscinski: “O espírito europeu reconhece as suas limitações, aceita a sua imperfeição, é céptico, duvida, põe tudo em causa. Há outras culturas às quais falta este espírito crítico. Mais ainda: têm tendência para a superioridade, para considerarem que tudo o que as distingue é perfeito; por outras palavras, não conseguem ser autocríticas. Estão constantemente a responsabilizar outras pessoas e outras forças (maldições, diversas formas de domínio estrangeiro) pelas desgraças. Os representantes destas culturas vêem na crítica uma ofensa pessoal, uma tentativa consciente de os humilhar, uma forma de os maltratar. Se se lhes disser que a sua cidade está suja, é como se se lhes dissesse que eles próprios estão sujos, ou têm as orelhas mal lavadas, o pescoço e as unhas carregados de sujidade. Em vez de estarem disponíveis para a crítica, arrastam atrás de si todo o tipo de traumas, complexos, sentimentos de ódio, indignação, insatisfação e manias. Isto leva a que cultural e estruturalmente eles não sejam capazes de desbravar o terreno do progresso, e sejam incapazes também de ter em si vontade para a mudança e o desenvolvimento.”

Tenho pensado muito neste ponto. O lugar da crítica e da reflexão nas sociedades africanas. Um tema muito difícil, muito complexo e contraditório. Ryszard Kapuscinski interroga-se: “Será que as culturas africanas (em África, há tantas como religiões) pertencem a estas culturas inatingíveis e sem poder de crítica? Africanos como Sadig Rasheed começam a refletir sobre isso, pois querem encontrar uma resposta para a pergunta: por que razão é que África está a ficar para trás na grande corrida dos continentes?”

Boa pergunta.

Tenho um amigo que insiste que a obtenção da liberdade material é indispensável para a afirmação intelectual dos africanos ou para a afirmação do espírito crítico dos mesmos. Estou parcialmente de acordo. Porque nenhuma liberdade material pode ser garantida numa anarquia, no meio de despotismo ou perante a arrogância de poder, em África ou onde quer que seja. Essa liberdade e essas garantias podem desaparecer de um dia para outro e deixar a pessoa literalmente indefesa. As garantias das liberdades são muito frágeis neste contexto. Os direitos de que fala Rasheed não estão, de todo, garantidos.

Ébano relata a cultura da violência no continente. O que aconteceu na Libéria e a descrição do assassinato de Samuel Doe são disso exemplo paradigmático. Lembro-me vagamente desta história. Foi presidente entre 1980 a 90, tendo derrubado William Tolbert, instaurando, pela primeira vez, um poder dominado por descendentes de nativos africanos, até então dominados por descendentes de escravos oriundos da América, que fundaram a Libéria em 1847. A tortura que antecede a morte de Doe às mãos de Prince Jonhson, que lutava contra ele e contra John Taylor para a tomada de poder, foi filmada e circulou na época. Jonhson aparece a beber cerveja enquanto ordena que se corte a orelha do presidente. Ryszard Kapuscinski relata com pormenores esses dias de opróbrio da Libéria. Dias lúgubres. Duros de se lerem. É claro que estão nos antípodas da Libéria de hoje. África, no geral, deixou há muito de ser o retábulo dos ditadores. O que Ryszard Kapuscinski descreve crua e cruelmente, essa realidade duríssima que nos dominou, responsável por guerras, de facções que se querem apoderar do poder por aquilo que este representa como captura dos bens e da riqueza dos seus países é uma advertência. Este livro é um alvitre esmagador. A sua leitura deixou-me exaurido. Estou exausto. É profundo e perturbador. Penetra na selva africana, interpela os demónios que atravessam a longa noite africana. Talvez por isso tenha sido tão fascinante mergulhar nessa densa e demoníaca noite. Leio uma edição recente intitulada Ébano. As anteriores edições levavam o título de Ébano – Febra Africana. Ryszard Kapuscinski, nascido em 1932, morreu aos 74 anos, em 2007. Deixou uma vastíssima e aclamada obra, o seu nome foi cogitado para o Prémio Nobel. Não foi apenas um repórter em África, que conheceu profundamente. Também andou pela América Latina. Tenho deste autor incomplacente para ler Mais Um Dia de Vida – Angola 1975. Preciso, no entanto, de respirar e ganhar um novo fôlego.

 

É através dos nomes que se chega ao conhecimento que os homens têm.

João Paulo Borges Coelho

Ngungunyane é um nome importante, quando se fala da história de Moçambique dos últimos 150 anos. Quer por ter resistido à dominação colonial portuguesa até ao limite das suas forças, quer por ter travado tantas ofensivas contra os chopes, povo que desprezava, enfim, mereceu dos autores moçambicanos muita atenção. Por isso, temo-lo na escrita de Rui de Noronha, Ungulani Ba Ka Khosa, Guilherme de Melo, Paulina Chiziane e, mais recentemente, na de Mia Couto. Cada livro destes autores reivindica o fragmento da história que lhes pertence ao escrever sobre uma figura tão controversa, além dos consensos como foi e é Ngungunyane. Com efeito, esta figura não só inquieta escritores ou historiadores, há também actores apaixonados pela ideia de desbravar um campo fértil de que ela é feita. Assim, não espanta o interesse de se levar aos palcos a peça teatral Os netos de Ngungunyane, que, mais do que ser uma adaptação da trilogia As areias do imperador, deixa evidente a ambição de se buscar conhecimento perdido algures, em algum período do tempo, a partir do nome do imperador e dos valores semânticos aí subjacentes.

O espectáculo encenado por Bruno Huca tem cerca de 20 minutos e, além do encenador como actor a traduzir de forma categórica a ciência da representação, numa actuação incrível, ao nível dos melhores, também conta com as actrizes Rita Couto e Sufaida Moyane. Embora curto, este é um trabalho de teatro muito denso, no qual se convida o espectador a procurar rostos, lugares e episódios na sua memória, no que sabe e ouviu dizer.

A peça até começa sugerindo um bailado, algo que ganha relevo nos movimentos corporais dos actores. Mas logo se percebe que é outra coisa de enorme qualidade. Concorre para o efeito a excelente conexão do trio, que consegue mergulhar num submundo e de lá retirar tantas alegorias relacionadas com o actual momento enfrentados pelos moçambicanos, por exemplo, no Norte do país, com “essas guerras que não começam, já vêm acontecendo”.

A principal pretensão deste texto teatral ainda em preparação é sugerir que a história do Imperador de Gaza não acabou, pelo contrário, continua, mas é preciso procurá-la no ADN da descendência que ele deixou em Moçambique e noutros cantos do mundo. Daí o título da peça e o enredo não se focarem nem nas lágrimas nem no sangue derramado. Vai além disso, complementado a história para a não repetir com excessos. Nessa tentativa de indicar o caminho conducente à moradia dos netos de Ngungunyane, numa encenação aparentemente simples, sem alteração do cenário inicial e quase sem variação da luz, o espectáculo envolve-nos num diálogo a altura do que Aristóteles considera seres superiores, quando se refere ao acto da representação na sua Poética. São discursos muito sólidos os proferidos pelos três personagens, os quais apostam nos recursos estilísticos como elementos fundamentais para tornar o enunciado algo aprazível de se ouvir. Desse investimento, a maior consequência, em alguns momentos, é mesmo essa de as frases sobressaltarem-nos por sugerirem uma realidade tão nossa quanto rotineira: “É assim que se procede em África. Dão-se oferendas aos grandes chefes”. À parte esta verdade, o personagem representado lindamente por Huca diz-nos: “Bebíamos para fugir de um lugar e tornámo-nos bêbados porque não sabíamos fugir de nós mesmos”. Há beleza…

Ora, neste jogo de buscar o passado como quem tenta preencher as lacunas do presente, instaura-se um conflito entre as próprias personagens que almejam encontrar a descendência de Ngungunyane, pois, a certa altura, surge na trama um momento de aceitação vs. recusa da descendência do imperador. Aí nos perguntamos quem são ou podem ser os netos de Ngungunyane e como a partir deles sempre podemos reconstruir os labirintos da história de Moçambique, com ou sem heroicidade.

Título: Os netos de Ngungunyane

Encenador: Bruno Huca

Classificação: 16

 

“Superioridade ou inferioridade?

Porque não tentar tocar o outro, senti-lo e descobrirem um e outro”

Frantz Fanon

“Se nós pararmos, eles vão parar?” Eis a questão hipotética dos que combatem o terrorismo e são combatidos pelo terrorismo. Quanto mais se pensa que se avançou consideravelmente na eliminação de grupos terroristas, mais cedo ou mais tarde, células de terror voltam a reproduzir-se com fim de continuar a infernizar os velhos inimigos dos seus ancestrais. Os laços de amizade, de parentesco e, ou, de lealdade são as mais inabaláveis garantias de que o nosso projecto poderá ser continuado breve ou tardiamente pelos próximos, após o nosso fim energético ou existencial.

Esse espírito de promessas implícitas nas relações humanas também está presente em organizações terroristas movidas fundamentalmente pelas ideias. Na luta contra o terrorismo, a morte dos supostos jihadistas passa a ser um objeto de vingança dos terceiros. Ou seja, basta o assassinato de um pai amado para o filho entregar-se à sua vingança. Se não é o filho, é o irmão. Se não é irmão, é o sobrinho. Se não for um sobrinho, poderá ser um amigo ou um admirador que vai procurar vingar-se ou continuar o projecto do seu ídolo. Tratando-se de uma célula terrorista por eliminar-se, quantos filhos, irmãos, sobrinhos e amigos terão de ser mortos para erradicar-se a organização, lembrando que as vítimas mortais, por sua vez, têm filhos, sobrinhos e amigos dos amigos?

A caça a uma cadeia toda de inimigos em busca de eliminar-se o terrorismo tem uma implicação grave que é de destruir uma parte imensurável da humanidade, pois o homem, terrorista que seja, é um ser sujeito a relações, logo que chega ao mundo. E enquanto o homem mantiver o compromisso com a reprodutividade da espécie, a humanidade estará ligada por laços. Dai que combater células de terrorismo implica declarar guerra uma parte imensurável da humanidade. Mas o mesmo ocorre quando são as células terroristas a banalizar o mal no território dos inimigos. A luta torna-se inexaurível. Em cada civil inocente morto nasce um amante que lhe quer vingar. O amante pode ser um filho, primo, irmão, amigo, sobrinho, pai, etc. Tudo indica que “sangue derramado não seca, nunca”. Ele só faz germinar continuamente sementes de vingança e ódio a estilo da Hidra de Lerna que, quando lhe é cortado uma cabeça, em substituição, crescem-lhe duas. O movimento de solidariedade “Je suis Charles Hebdo” aplica-se a esta ordem de ideias, pois quando os terroristas pensavam ter eliminado cabeças do jornal satírico francês, pouco depois, o mundo ergueu-se como Charles Hebdo.

São dois factores que podem levar o homem a continuar o projecto do mártitr: a ideologia ou o amor. A ideologia como doutrina que visa explicar o passado, o presente e desvendar o futuro mostra-se um sistema capaz de oferecer salvação e felicidade aos seguidores. Quanto ao amor, quando o seu objeto deixa de existir, é capaz de transformar o amante num instrumento de ódio e vingança. Os dois factores tornam-se razões suficientes para o engendramento dum círculo vicioso de vingança dentro do quadro da luta contra o terrorismo. Células terroristas no Médio Oriente podem estar a reproduzir-se ou fortificar-se pelo número de homens que ou acreditam na ideologia do grupo ao ponto de sacrificar as suas vidas ou porque veem o grupo como um meio para vingar os seus entes queridos em guerras passadas e não ultrapassadas.

O que devíamos aprender dessas histórias de luta contra terrorismo é que o espírito de violência consiste em reproduzir mais violência. E o espírito de violência afigura-se-nos fatal, quando concordamos com Frantz Fanon que entende que tudo que é gerado pela violência é só pela violência que pode ser destruído, apoiando-se, sobretudo, em factos da luta contra o colonialismo. Em outro ponto de vista diferente, Hannah Arendt avança a esperança de que só o perdão é capaz de desfazer o círculo vicioso de violência. O perdão como uma decisão de olvidar as mágoas e reiniciar a construção do que estava perdido deve-se afigurar incondicional na relação entre o ofendido e o ofensor. Caso condicional, deixa de ser perdão e torna-se ou vingança ou castigo. A relação entre perdão e vingança é de oposição, porém, quando se trata de castigo, este deve ser visto como alternativa conciliatória do perdão. Enquanto quem se vinga deseja satisfazer o seu ódio pelo sofrimento de outrem, quem procura castigar o opressor deseja reabilitar o indivíduo das suas acções. Ou seja, na vingança, o intento é de destruir o outro na pior medida, desconsiderando totalmente possibilidades da sua regeneração, diferente do castigo que se afigura um meio de o indivíduo expiar os seus males – é, unicamente, por este fim que foram criados os centros de prisão civil. A esperança de que os indivíduos venham a redimir-se dos seus erros é a razão suprema da existência das cadeias civis. A redenção é também a meta do castigo. Pode dar-se o caso de o ofensor convencer-nos de estar arrependido dos seus erros ao ponto de justamente aplicarmos o perdão, ao invés do castigo que se torna desnecessário, salvo quando prevalecem questões de indemnização.

Nesta ordem de ideias, toda a punição dada a um já redimido configura-se como um acto de opressão sádica. E todo o acto vingativo dispõe desse carácter sádico por não mais atender o fim de reabilitação do indivíduo. Todavia, há certos crimes que por se mostrarem tão atrozes e premeditados não mais nos permitem vislumbrar a reabilitação do delinquente. Nesses casos, os sistemas judiciários optam pela prisão perpétua ou pena de morte. Retomando a questão-mor “se nós pararmos, eles vão parar?”, a resposta afigura-se-nos um impasse entre os terroristas e os anti-terroristas por várias razões intrínsecas ao próprio conflito. Os terroristas movidos pela ordem religiosa que manda converter ou matar todos os infiéis, ainda que os anti-terroristas declarem trégua, estes são incapazes de parar até execução da sua missão. A única forma menos violenta de faze-los parar de cometer esses actos macabros seria a desconstrução invalidatória da escritura sagrada, sobretudo, no mandamento mortífero. Caso contrário, a guerra é inevitável. E para os terroristas movidos por questões político-económicas, a trégua passa pelo diálogo virado a programas políticos de inclusão económica. Quanto aos terroristas movidos pela dor de perda dos entes-queridos, o trabalho de paz deve ser feito num sentido fazer-se justiça ao passado e, quando convier, exercer-se o perdão sem se prescindir das indemnizações.

Todavia, dá-se casos em que os indivíduos mostram-se relutantes para ceder os seus interesses, mesmo estando cientes da insensatez das suas causas. Nestes casos em que o mal não mais resulta da falta do conhecimento, o único remédio afigura-se a guerra. É uma desoladora conclusão, mas necessária, dando a entender que ainda que seja pela negativa, a guerra faz parte da condição humana. Desde os primórdios que os homens fabricam a sua própria destruição, vencendo sempre os que dominam a arte da guerra. O maior desafio que se coloca à humanidade em geral para evitar-se cada vez mais conflitos no futuro deve ser uma educação cujo foco é a consciência planetária. Na medida em que decidirmos ser mais cosmopolitas e pensar menos em nossos interesses locais e egocêntricos, menos guerras irracionais registaremos num mundo que nos pomos a construir.

 

Uma utopia é uma realidade em potência.

 Édouard Herriot (1872-1957), político francês

Até agora não sei bem se foi por coincidência da folga no calendário futebolístico do mundial Rússia 2018 que as conversas desta sexta-feira eram todas mornas. Tudo despertou e incendiou-se depois de um velhote pontapear a monotonia, deixando assim a sua marca no livro dos recordes. O madala estava sentadinho na primeira fila do chapa, de óculos escuros, um casaco a condizer com a época de frio e, adicionalmente, usava um pau preto a servir de muleta, como fazia há uns anos o saudoso doutor dos doutores Mujuabure.

No entrocamento entre as avenidas 24 de Julho e Guerra Popular, um carro parou ao lado do semi-colectivo. Um homem de barba farta, qual  monhé à maneira dos filmes da primavera árabe.

O cobrador pôs-se apreciar o homem barbudo, cobiçado, «quem me dera ter aquela barba, John…»

O velhote ao meu lado, quase saltando da cadeira resmungou:

– Mas você não tem nada para gostar, não tens vergonha, menino? Aquilo só vai te dar borbulhas e sujidade, meu filho! E, repisando:

– Se você gosta, então cria a barba e verá o que vai acontecer.

O cobrador, discordando, abanou a cabeça, numa expressão conhecidíssima da sua geração, «mas este velho não bate bem, não está ma apanhar nas ideias».

O velho que deve andar na casa dos 68, 70 anos pontapeou a conversa para bem longe, como se faz no futebol para aliviar a pressão e contra-atacar:

 – Eu não gosto de barba. Até já fiz questão que os meus filhos não tenham.

Escutei tudo aquilo lendo o livro do notável escritor japonês Haruki Murakami, por sinal, um homem também sem barba.

E como  o velho não se dava por satisfeito, nem sequer sentia haver saboreado os louros da glória voltou à carga – Mesmo as minhas filhas quando começaram a ter mamas aos 12, 13 anos mandei tudo voltar para dentro…

Desta vez não pude tolerar o silêncio, já não conseguia manter-me pregado ao livro do nipónico. E desatei a perguntar:

– Como é que isso se faz isso, pai? Sabe que isso é ciência pura… – comentei vagamente.

– Não sou cientista, meu filho.

– Onde aprendeu, mesmo. Com os seus pais cá no sul?

– Sou do norte, sou de Tete, meu filho (talvez quis dizer norte do Zambeze, entenda-se…). Aprendi há muito tempo, antes de ir para tropa portuguesa em Montepuéz. Eu não queria ser incomodado nas folgas. Toda hora os meus amigos, depois da folga me diziam «vou fazer a barba». Eu ficava sossegado no meu cantinho. Para mim a barba é nojenta.

– Mas como isso se faz, pai?- voltei à carga!

– É muito segredo isso, meu filho.

– Mas, pai… – insisti.

– Está bem. Vou te dizer quando descermos. – prometeu o madala!

– Obrigado

Voltei a deitar os meus  olhos nos HOMENS SEM MULHERES  de Murakami,  conservando uma expectativa crescente pelo momento «H».

O velho que não estava para brincadeiras voltou à carga, gabando-se:

– os meus netos também. Os grandes e o pequenos não vão ter barba. Já lhes fiz o tratamento.

Os dois passageiros da frente e o motorista desataram a rir, à bandeiras despregadas. E, nestes tempos do campeonato do mundo até pareciam adeptos senegaleses na vitória à Polónia.

Pus o marcador na página onde me debruçava,  há pouco. E decidi manter a conversa com o velho, até às últimas consequências.  

– Mas pai! Não vê que está agir contra a natureza humana? Os seus filhos gostam de não ter barba? Que eles dizem, mesmo?

– Eles não querem saber de nada. Veem a mim pai deles sem barba. Não se incomondam. Até riem quando ouvem alguém preocupado em fazer barba no fim de semana para ir a uma festa ou cerimónia.

– Mas as coisas estão a mudar. O mundo é o outro, pai. Veja agora muitos jovens e adultos usam barba farta, cabelo grande. – Será que os teus netos vão gostar quando descobrirem no futuro que o avô fez isto de propósito para cumprir com os seus gostos. Não será isto egoísmo? – indaguei!

– Meu filho vocês como andaram aí a estudar pensam que sabem muito. Eu nem quero saber disso. Eu até lhes fiz um favor. – rematou o velho.

A moça, ao meu lado já tinha lágrimas riscando-lhe o rosto, pelas intermináveis risadas, de tão contente.

O cobrador partia a moca, esquecendo-se de dar trocos a uma outra moça desfeita em gargalhadas descontroladas.

– Vocês aqui no Maputo não sabem nada mesmo… – Lamentava o velhote.

Fui obrigado a descer na paragem do Hospital Central de Maputo para continuar a conversa com o velhote. E como já estava atrasado soltei a pegunta de partida, ao que o madala respondeu:

– para o teu filho não ter barba põe gema de ovo de galo.

E velho meteu-se pelo HCM a dentro sem olhar para trás feito Orfeu.

Não se espantem, meus amigos se, por estes dias me virem muitas vezes no HCM, num e noutro canto, deambulando. Ando à procura do velho de Cahora Bassa. Depois de contar esta história a muitos amigos ando à procura da resposta do velhote para saber como ele faz para os seios das meninas voltarem para trás antes dos 16 anos. De tão envolvido que estava em memorizar a história para não ter barba, perdi outros pormenores deste achado. Vejam que esqueci-me de pedir o contacto daquele doutor dos doutores, nem tão pouco perguntei pelo seu nome.

O que me preocupa  é o meu filho de 4 anos, já com manias de querer fazer a barba, um dia desses saiba que eu registei esta história do velhote de Tete. Vou telefonar aos meus amigos Daniel da Costa, Naguib, Sérgio Vinga, Zeca Ussene para certificar-me destes saberes e, porque não sabores do Zambeze.

Se você tiver acesso a uma dezena de canais de televisão e procurar novidades do desporto luso, vai ficar refém em mais de metade deles, das tropelias de um menino mimado, apontado ultimamente como tendo perturbações mentais, que ao invés de ser submetido a tratamentos psiquiátricos, vai abrindo noticiários, monopolizando manchetes e contrariando decisões da justiça portuguesa.
Estou a falar do ex-Presidente do Sporting Clube de Portugal, que sem ser portador de uma arma de fogo, conseguiu – e tudo indica que vai continuar – “disparar” em várias direcções, atingindo o desporto naquilo que de mais profundo deveria ser a sua essência: uma escola de virtudes! É um assunto de Portugal, mas que deve merecer meditação em todos os quadrantes do mundo.

Demoniocracia

O escândalo que Bruno de Carvalho protagonizou nos últimos três meses, virou a Comunicação portuguesa de pernas para o ar, subalternizando assuntos até os grandes incêndios que vitimam milhares de pessoas. Mesmo no que ao desporto diz respeito, os OI's “esqueceram-se” do título conquistado pelo Porto e até subalternizaram a participação lusa no Mundial.
Importa vender, vender, vender. E quanto mais escândalo, melhor!
A partir de vários ângulos, a opinião pública foi verdadeiramente intoxicada com uma novela sem fim à vista. Por alguns, o que aconteceu é entendido como democracia no desporto, mas na realidade não passa de “demoniocracia”.
Mesmo sem ser directo na sua declaração, o Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa, veio a público dizer que se não se pode tolerar a existência de “dois portugáis”: o do desporto e o outro. Isto porque se aquelas acções, sem a cobertura do futebol, já teriam merecido uma acção mais enérgica das autoridades.

Nada será como dantes

Agora, a família leonina poderá ter que passar a incorporar à selvajaria das claques, que separava antes dos grandes jogos os adeptos ferrenhos dos grandes clubes, uma novidade: nos jogos do Sporting, terá que haver separação dos pró e anti-Bruno de Carvalho!
Até onde chegou a febre clubística e a falta de bom senso!
Entre nós, no Norte, há um embrião de algo semelhante, no campo da Bela Vista, em que, recorrentemente, se transformam os jogos em campos de batalha. A responsabilização é encoberta pelo facto de se tratar de adeptos do futebol.
Há que tomar medidas duras enquanto “o jacaré está no ovo”, para que as coisas não se alastrem e façam nascer por cá, “clones” de Bruno de Carvalho, dirigente que, para mal dos nossos pecados, até nasceu na Província de Sofala. 

 

Ao anoitecer brincamos às cinco pedrinhas
no degrau da porta de casa,
graves como convém a um deus e a um poeta
Fernando Pessoa

A
Ouri  Pota e Cremildo Bahule

Saudações, caros ouvintes da Rádio Boca! O escritor Faife respondeu à carta de Suaila Ginabay.  A carta foi entregue há poucos dias, pelo seu agente literário que, depois de rubricar o envelope na presença de um dos membros da comissão organizadora, de mãos nos bolsos, revelou-nos sorridente que Faife, apesar de andar ocupado com um novo projecto literário fez questão de responder à filha de Deus. Confiram, caros ouvintes a lavra do escritor.

Querida Suaila,
É com declarado orgulho que te saúdo esta manhã. Li a tua carta com entusiasmo e quase tenho certeza que se concretizou o milagre vaticinado há séculos. Hoje é um dia especial. Transborda em mim a alegria de uma criança perante o primeiro brinquedo, na presença uma visita ilustre, como a tua, Suaila. Li a tua carta acossado por todos os lados pelos meus filhos, como quem disputa um lugar no concerto de Míriam Makeba no pavilhão do Maxaquene.

Imagino quão lindo é o teu  imenso jardim, esse sorriso.  Sou uma pessoa que aprendeu a admirar as outras, em particular gente que transmite esperança neste mundo, já sem sentido. Sou um felizardo, confesso-te. Implodiste com as minhas emoções, com o que acabaste de me revelar. Vejo na tua correspondência a sugestão de uma manhã aberta para o futuro.

Ainda me interrogo, com tantas novidades na prateleira moçambicana foste logo escolher o meu texto. Quando mais não seja esta admiração que revelas por mim. Grandes autores publicaram recentemente, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Marcelo Panguana, Paulina Chiziane, João Paulo Borges Coelho, Ungulani Ba Ka Khosa, Suleiman Cassamo. E outros notáveis como Rogério Manjate, Pedro Pereira Lopes, Macvildo Bonde, Lucílio Manjate, Andes Chivangue, Mbate Pedro, Sangare Okapi, Lica Sebastião, Sónia Sultuane, Chagas Levene, foste tu,  logo dar ao meu livro. Que mais te posso dizer?

Aceito o desafio, mesmo sem saber onde socorrer-me nesta missão, um pouco espinhosa, ou saber ordenar as ideias para te ajudar na escolha do noivo que te faça justiça. Espero corresponder aos teus mais fundos propósitos.

Entretanto, depois de conversar com a minha esposa entendi que o teu apelido me é familiar, Suaila. Tenho uns primos da parte materna com ligações à família Ginabay. Conheces o Yuri? É fotógrafo num jornal cá da praça.
Vai parecer-te estranho, mas adianto que sou um homem pouco dado à palavra e nem sei de onde vem esta energia que transforma o matraquear das teclas em texto. Sou realmente um desajeitado. Se não fossem os meus amigos a empurrar-me com umas palmadinhas nas costas, nas nossas conversas de café, não sei mesmo o que seria de mim, nem sequer haveria de imaginar o silêncio deitado na minha algibeira.

Vejas, tu Suaila que num assomo repentino, a página ficou encharcada de enormidades, como as vagas do mar sobre a areia da praia. Esta imagem lembra-me Quissico e o som das marrimbas. Espero que isto faça algum sentido.

Cabe a ti aguentares com as escolhas. O meu dedo foi cortado mil vezes e renasceu por que não me arrependo das escolhas que fiz nesta vida. Saberás um dia dizer-me quanto te custou esta aventura.

O meu bocejo não significa sono, nem desinteresse, Suaila. Vou beber água e continuar a sonhar. Espero receber em breve tuas notícias afortunadas, tal é a sina melódica em Zavala.

Preste bem atenção num detalhe que pode transformar a nossa correspondência num castelo de sorte no Verão. O meu e-mail está na antepenúltima página, em caracteres miúdos. Assim escreverás directamente para mim, encurtando distâncias nesta auto-estrada. Há muitas perguntas que reservo para a próxima missiva. Hoje ficarei por aqui, desejando-te bons dias, Suaila.
Com toda admiração,
Um beijinho!

HF
Ficamos por aqui, caros ouvintes. A nossa rubrica promete mais novidades na próxima edição. Por favor leiam obras de escritores moçambicanos para serem muito felizes!
Boas leituras!

 

 

Foi o meu dilecto amigo Álvaro Belo Marques, de quem fui discípulo, quem me havia de levar a Baptista-Bastos. Sabia da minha devoção intrémula por ele. Era, entre os escritores portugueses, aquele a quem mais empregava o meu entusiasmo quando se lhe referisse. Lera sobretudo o cronista, mas também o romancista. Lera-lhe tudo o que era possível encontrar em Maputo: As Palavras dos Outros (crónicas e reportagens), Cidade Diária (crónicas), Capitão de Médio Curso (crónicas), Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura (romance), Elegia para um Caixão Vazio (romance). Recordo-me destes títulos. Cumpliciava com o Álvaro a minha entusiasmada admiração. O Belo Marques era ao tempo o meu mestre em jornalismo, meu e de uma geração. Homem cultíssimo e de uma finíssima sensibilidade, tinha do Álvaro Belo Marques a benesse da conversa e da tertúlia, nas quais falávamos amiúde de livros, de escritores, de música, de cinema, de teatro. Falávamos com urgência da vida. Baptista-Bastos, o autor dos títulos que referi acima, era um ponto de convergência da nossa amizade e na sua veneração. Quando fui a Lisboa, em Junho de 1988, em jornada cultural, ele acederia encontrar-se comigo. Para mim, foi uma espécie de láurea.

Encontrámo-nos, justamente, no dia 25 de Junho de 1988, um dia jubiloso, era um sábado, recordo-me, e foi numa taberna lisboeta do Bairro Alto, denominada Águia D´Ouro. Ali nos encontrámos e ali firmámos a nossa amizade. Para sempre. Nem sempre o escritor que devotamos coincide com a personagem quotidiana que leva o seu nome. Pode acontecer serem duas pessoas diversas. Há tipos que escrevem coisas belíssimas e, no entanto, difíceis no trato e no convívio. É preciso ter cautela. Alguém asseverava que se devia manter distância quando amamos a obra de um determinado escritor para não experimentarmos a decepção de o conhecer. No caso do Baptista-Bastos, o contacto com ele e o convívio que tivemos ao longo dos anos aumentaram a admiração que tenho e que sempre tive pelo escritor. Comigo o homem foi sempre de uma grande afectuosidade. Uma grande generosidade, digo. O homem não desmentiu o escritor, antes pelo contrário. Sobretudo porque nunca abjurou dos seus valores.

Naquele dia, o Baptista-Bastos, também conhecido por B-B, não estava a beber, estava com um abcesso na boca e pediu uma água das pedras.  Ele escrevera algures: “O álcool reconforta-me, dá-me a ilusória aparência de equilíbrio emocional, mas destrói-me a memória vocabular e torna impossível qualquer expressão de dissidência.” Em Elegia para um Caixão Vazio afirmara: “Hoje já não me aflige muito a circunstância de beber em demasia. Desinteressei-me das causas e rebelei-me contra os efeitos.”

Eu estava ali diante de um verdadeiro “demónio tutelar” – expressão usada pelo colombiano Gabriel García Márquez ao falar do mexicano Juan Rulfo, que escreveu esse livro ímpar chamado Pedro Páramo, que o terá influenciado definitivamente -, o mais importante de todos. O mestre foi enfático: “Então, ó Nelson, como vai Moçambique?” e deu-me um abraço, um abraço rijo, como redigiu numa das dedicatórias, de um dos livros que me ofereceu. Falei-lhe de Moçambique com a brevidade necessária de quem queria ouvi-lo sobretudo. Ele falou-me dos episódios do quotidiano, a história de personagens do dia-a-dia. Ele amava as pessoas e gostava de discretear sobre elas. Tudo isto bebericando a sua água das pedras. Eu lera o seu auto-retrato e ali confrontava-me com o homem que não era o simulacro do que tinha descrito no romance Elegia para um Caixão Vazio, antes pelo contrário: “Este sou eu. E olho-me. O cabelo vai ruço, o olhar míope, vago, dorido, taciturno, e outrora não foi nada disso. As pálpebras, velas de muitas palavras sopradas, lidas e escritas; de naus melancólicas cheias de álcool, rumando absurdos portos de abrigo, os bares. À procura de quê, ó Bastos, à procura de quê? Muito mais de metade da vida consumida a aprumar frases, a tentar acertar num livro, numa historinha, numa reportagem, e sempre ignorado, ou conhecido somente pelos estafetas da cordialidade.”

Baptista-Bastos: “Cá estou eu. Um capitão de médio curso que não é capitão nem é nada; um retirante, porventura.” Para mim, sim, ele era um capitão, um capitão de médio e longo cursos. Eu viera de Maputo, de uma geografia longínqua para lhe dar um abraço. Ali estava com ele, o meu mestre, o maior de todos os meus mestres. Falou-me do amor aos homens, o amor irrenunciável à liberdade, a crença de que a felicidade era possível entre os homens, entre todos os homens. Dissera-me ele: “Os homens não foram feitos para serem heróis”. Esta frase ainda reverbera em mim. Os homens foram feitos para viverem em paz e harmonia, acrescentara ele. Os demónios que se escondem no mato das nossas refregas deviam ouvir isto. Os deuses e os demónios. Sabe-se que a paz, a concórdia, o acordo são vocábulos dissonantes da nossa experiência colectiva.  

Falou-me sobretudo do ofício quotidiano das palavras, o ofício de capitão de médio curso; falou-me sobre a azáfama das redacções, onde expendia os seus dias, onde ele debitava o seu amor aos homens e à liberdade. Onde ele contava as histórias da sua gente, a gente do quotidiano. Vinte anos depois daquele nosso primeiro encontro – outros tantos marcariam a nossa amizade -, ele publicaria o livro de crónicas A Cara da Gente. É sobre essa gente que ele se ocupou a vida inteira, nas suas crónicas, nas suas reportagens, nos seus romances. Escritor de primeiríssima água, para mim, indubitavelmente, o maior cronista português do século XX. À época, o maior cronista vivo da língua portuguesa. Naquela ocasião falámos de grandes cronistas e eu referi-me aos cronistas brasileiros, entre eles Rubem Braga. “O meu amigo Braga!”, exultou ele sobre o autor de O Conde e o Passarinho ou A Borboleta Amarela.

Baptista-Bastos ensinou-me, naquela brevíssima tarde, um dos segredos da reportagem: “Começa a reportagem com o facto que mais te emocionou.” Esta foi uma lição de vida. Antes de redigir um texto, diante da pantalha do computador, ou quando batucava – eis um vocábulo pilhado ao meu mestre – na minha vetusta e manual Royal, uma máquina de escrever, que se perdeu nos anos e da qual tenho saudades absurdas -, antes de me atirar ao ofício das palavras, digo, recordo-me da advertência do mestre de sempre: penso sempre no facto que me emocionou.

Outras obras de Baptista-Bastos posteriores àquele primeiro encontro: Um Homem parado no Inverno, O Cavalo a Tinta da China, No Interior da Tua Ausência, As Bicicletas em Setembro (romance) ou a A Cara da Gente (crónicas). Uma extensa e extraordinária obra, premiada e traduzida.  Escritor de grandes paixões, leio-o sempre exaltado e apreendo-lhe as paixões e a ternura torrencial que invade as suas páginas. A sua grande generosidade. O seu profundo humanismo. O seu amor aos outros. Escreve ele: “Jovem escritor, assaltou-me a petulante ambição de narrar invenções sobre os outros, a maneira que entendi melhor para recusar a vida tal como ela se apresentava.” Isto é extraordinário. Li isto, em Agosto de 2008, no frontispício do livro A Cara da Gente. Do quarto do hotel, em plena Copacabana onde me encontrava, escrevi-lhe: “Tenho sobre a mesa, neste quarto de hotel, sobre a Avenida Atlântica, em Copacabana, As Bicicletas em Setembro e A Cara da Gente. Dois livros recentíssimos. Li-os na longa travessia pelo Atlântico e recordei-me daquele dia triunfante. De ti li quase tudo. Leio-te empolgado ainda hoje. Naquele tempo, quando aprendi a batucar as crónicas que eu levava debaixo do braço para o jornal Notícias, lia e relia a Cidade Diária. E intentava o meu caminho tendo-te como meu predecessor. Disse-o e repito: escolhi-te para meu mestre, meu velho Baptista-Bastos. Digo “velho” com o pungente significado de afecto que este adjectivo tem na minha cultura. Para mim, para nós, dizer velho é uma forma de reverência, de respeito. Tu bem sabes, eu sei, mas o aviso serve aos incautos.”

Digo algures: os seus livros estão carregados de um profundo humanismo, mas não escondem, por vezes, uma ternura magoada. João Paulo Guerra, um amigo comum, um grande jornalista português, disse uma vez que Baptista-Bastos escrevia reportagens com lágrimas nos olhos. Eu li-o sempre com lágrimas nos olhos e muitas vezes quis escrever como ele: com lágrimas nos olhos. Comecei por ler as crónicas, li as entrevistas, li as reportagens, li os romances. O esplendor da língua. A luminosidade das palavras. Poucos escrevem com igual competência linguística: vocabular e semântica. Poucos manejam e remanejam a língua portuguesa como ele.  

Ele diz: “O jornalismo é uma disciplina superior da literatura.” Ele está na grande linhagem dos grandes cronistas portugueses. Ele é o maior cronista português do século XX. Sei que esta frase encerra, sublinha, enfatiza, uma veemência, uma exclamação, algo superlativo. Sou assim: veemente e, inadvertidamente, irreverente. Gosto de ser enfático. Ponho nas palavras ou tento pôr tudo quanto sou. Com a intensidade desprevenida de quem ama sem se precaver das desilusões.

Tive a honra e o privilégio de o ter a apresentar e a apadrinhar, em 1997, na Oikos, em Lisboa, o meu livro O Apóstolo da Desgraça, esse título que foi parodiado displicentemente no vocabulário político moçambicano, e que serviu para cercear a liberdade daqueles cujo ofício e destino é baterem-se pela liberdade do pensamento e das palavras, algo incompreendido e malvisto e malquisto, entre nós. Recuperei-o para título desta coluna. Também sou pelo direito à diferença e pela liberdade de discordar. O meu amigo Baptista-Bastos haveria de publicar o texto daquela apresentação num jornal para o qual ambos debitámos textos e paixões – o Público – com um título inesquecível: “A sintaxe do coração.” Nesse belíssimo e comovente texto ele falava da nossa amizade urdida no amor às palavras, no amor à liberdade e no amor incondicional aos outros – o nosso ofício quotidiano.

Sempre que o vi, sempre que nos encontrámos, foi com afecto que sublinhámos a amizade, com ternura incontida, entre o mestre e o discípulo. No longínquo e memorável dia – passam 30 anos! – em que ele bebia água das pedras, numa taberna do Bairro Alto, ainda fomos, pelas ruas estreitas de Lisboa, ao jornal Diário Popular, onde ele exercia então a mais bela profissão do mundo: a de repórter. Naquela redacção, onde se atafulhavam paixões, papéis, notícias, telexes e sonhos, ele tinha uma dezena de livros para me oferecer. Sentou-se à secretária e ajeitou os óculos. Parava e contava uma história, entre um autógrafo e outro. Numa vitrina, por detrás da secretária, coleccionava caricaturas, entre as suas destacava-se uma do grande Ernest Hemingway.

Vim, debaixo do braço, com O Secreto Adeus, O Passo da Serpente, Cão Velho entre Flores, Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura, Elegia para um Caixão Vazio, A Colina de Cristal (ficção), As Palavras dos Outros, Capitão de Médio Curso (crónicas) e O Homem em Ponto (entrevistas), no qual ele redigiu no frontispício: “25. Junho. 1988. Nelson Saúte: Não esqueças, nunca, que O Homem em Ponto põe sempre em ponto a questão da liberdade. Do português para o moçambicano, Baptista-Bastos.” O “nunca” está sublinhado. Nunca me esqueci disso, do seu profundo significado, do profundo significado da questão da liberdade. E faço quezília em lembrá-lo, sempre, sobretudo nestes tempos sombrios e atravessados pela mediocridade e pela intolerância, da qual tento estar a salvo, lendo e escrevendo, ouvindo música e amando sempre – dado que não sou afeito a ódios -, com ênfase e veemência.

Passam 30 anos hoje (redijo este texto à segunda-feira) sobre o dia em que nos encontrámos. A última vez que falei com ele foi a 27 de Fevereiro de 2013, no dia dos seus 80 anos. Falámos brevemente ao telefone. Eu estava emocionado por saudá-lo naquele dia. Há um ano, a 9 de Maio, chegou-me a infausta notícia: Baptista-Bastos deixara de pertencer ao reino dos vivos. Um mês depois, a 16 de Junho, foi o Álvaro Belo Marques. Perdi, numa assentada, dois grandes amigos, duas personagens importantes na minha vida. Um dia voltarei ao Álvaro. Queria hoje recordar-me do meu mestre Baptista-Bastos, quando passam, neste dia 25 de Junho de 2018, dia da nossa independência, três décadas sobre um dos encontros literários mais importantes e decisivos da minha vida.

Numa recente intervenção na Grande Conferencia do 130.º Aniversário do Jornal de Notícias (Português) realizada no dia 1 de Junho, no Porto, Daniel David, o patrão do Grupo Soico, não poderia ter sido mais claro: a língua portuguesa não é um activo estratégico porque não gera rendimento; pelo contrário, é um passivo que as empresas da comunidade lusófona têm de suportar. É que, segundo Daniel David, os negócios em português obrigam a traduções, dificuldades de mobilidade, sendo, por isso, “(…) preciso um sobressalto de inteligência que crie um ambiente favorável para que [os] empresários [façam] negócios”. Mas a língua portuguesa tem um enorme valor, ainda que simbólico, quanto mais seja por ser a nossa língua oficial. E esse simbolismo é importante e deve contribuir para a defesa dos (nossos) interesses nacionais. É inquestionável que a língua inglesa é conhecida por ser uma língua universal, uma língua de negócios. As palavras de Daniel David, ainda que discutíveis, pretendem ilustrar a importância de uma língua de negócios como o inglês. O ano que levo em trabalho fora do país não deixa margem para dúvidas sobre a importância e o uso do inglês como língua de trabalho, ainda que algumas organizações internacionais potenciem o uso de outras línguas como o Francês e o Espanhol. O facto de a nossa língua oficial ser o português é uma desvantagem, mas que devemos aprender a usá-la como vantagem. Moçambique tem feito um enorme esforço para atrair investimento estrangeiro, sendo, nesse âmbito, essencial conhecer o inglês, até porque isso facilita a (nossa) interacção com os investidores. Mas creio que isso não nos pode levar não só a minimizar a língua portuguesa, como a pôr em causa os nossos interesses nacionais. Os exemplos da resolução de litígios através da arbitragem comercial internacional ilustram esta situação. Tem sido comum definir o inglês como a língua que é usada nos casos de resolução arbitral de litígios entre entidades públicas nacionais e entidades públicas ou privadas estrangeiras. Basta olhar para os contratos publicados pelo Instituto Nacional do Petróleo (http://www.inp.gov.mz/pt/Politicas-Regime-Legal/Contratos-de-Pesquisa-Producao-de-Hidrocarbonetos) e o recentemente aprovado Modelo de Contrato de Produção e Pesquisa (Decreto n.º 46/2016, de 30 de Outubro e publicado em http://www.inp.gov.mz/pt/Politicas-Regime-Legal/Modelo-de-Contratos-de-Pesquisa-e-Producao). Nuns casos, os contratos até estão em duas versões – português e inglês – mas a que prevalece em caso de conflito é a versão inglesa. No caso do Modelo de Contrato, a situação é muito mais grave porque condiciona Moçambique nas negociações. Não pretendo defender que o inglês não seja usado, mas ilustrar que o não uso do português é prejudicial para os interesses do país. Regra geral, as negociações são feitas em inglês, até porque são áreas, como é o caso do petróleo e gás, onde o inglês é habitualmente a língua da indústria. Sucede que o mundo arbitral é dominado por países falantes de inglês, cujo sistema jurídico tem raízes na common law, enquanto no nosso país o sistema jurídico é de civil law. Não é uma questão de substituir este por aquele: qualquer um deles é um sistema sólido e que tem implicações culturais. Não cabe neste texto indicar as diferenças entre um e outro sistema, mas trata-se de realidades e culturas bem diversas, sendo o inglês uma língua da common law. Um dos argumentos que pode ser usado para defender o português é de natureza legal, mas os que são mais importantes são de outra natureza. Determinar que em caso de litígio a versão do contrato que prevalece é a inglesa, é, aliás, ilegal, uma vez que esses contratos estão sujeitos a fiscalização prévia do Tribunal Administrativo que só visa contratos em língua portuguesa. Assim, em caso de litígio, como estes contratos determinam que a lei aplicável ao fundo da causa, ou seja, a lei aplicável para resolver a questão concreta colocada ao tribunal arbitral (lei diferente das regras processuais aplicáveis para resolver o litígio) é a moçambicana, então a versão que deveria prevalecer é a moçambicana. Mas, infelizmente não é o que acontece. Basta ver os exemplos acima referidos. No momento da negociação de um contrato não se imagina que possam surgir conflitos, mas um bom negociador deve pensar nisso e precaver-se relativamente ao local ou sede da arbitragem, sobre as regras processuais aplicáveis para a arbitragem, sobre as regras e o processo de escolha de árbitros e sobre lei aplicável ao fundo da causa. É, aliás, por isso que a cláusula da arbitragem é designada por cláusula da meia-noite, justamente porque quando chega a altura de a negociar, não só as partes estão cansadas, como o essencial – na opinião delas – já está negociado, esquecendo-se da essencialidade dessa cláusula. Um negociador de um país da common law vai defender o uso de tribunais estaduais de um país da common law ou uma arbitragem em inglês, com sede num país falante de inglês, aplicando-se regras de instituições arbitrais internacionais inglesas. Sabe, à partida, como resolver as questões acima referidas e, mais do que isso, quer, porque conhece, as regras da common law. Diz-se que a capacidade negocial dos países da periferia como Moçambique não tem permitido que se imponham nessas negociações, exigindo, por exemplo, o português como a língua da negociação, a língua do contrato que prevalece em caso de litígio e a língua da arbitragem. Acrescento uma outra razão: o desconhecimento das consequências da escolha de uma língua diferente do português é um factor relevante. Só posso considerar que foi por ignorância que o Governo aprovou um Modelo de Contrato em que a arbitragem tem sede na Suíça, a língua da arbitragem é o inglês, a versão do contrato que prevalece em caso de litígio é o inglês. E o que não deixa de ser notável, é que a lei aplicável ao fundo da causa é a moçambicana. É isso tem enormes consequências, desde logo os enormes custos que resultarão das traduções que serão necessárias fazer, não só das leis nacionais, como também de outros documentos e dos depoimentos das partes, testemunhas ou peritos, considerando que estas, razoavelmente serão moçambicanas e estarão mais à vontade expressando-se perante o tribunal arbitral em português. É por isso que os contratos deveriam ser, se não forem negociados em português, pelo menos a versão que prevalece deveria ser a portuguesa; a língua da arbitragem deveria ser o português. As instituições arbitrais internacionais estão preparadas para responder a estas situações, tal como estão preparadas para responder a decisão do Brasil de impor o português como língua do contrato em assuntos de direito público. Uma das formas de defender o interesse nacional – permitindo que entidades públicas e não só nacionais estejam mais à vontade nessas situações – é obrigar o uso do português. O meu mandato como Membro da Corte de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional (CCI) foi renovado por mais 3 anos, por isso vou continuar a defender um maior uso da língua portuguesa na arbitragem internacional em defesa dos interesses do país. Como recentemente disse José Miguel Júdice numa conferência no Club Espanhol de Arbitrage, quando ninguém está familiarizado com a linguagem da lei aplicável e/ou com uma certa lei, pode haver uma tendência de conspiração que surge entre os envolvidos, porque aí descobriremos (muitas vezes tarde demais) que a lei que foi escolhida pelas partes para resolver o conflito, será substituída por um sistema ad hoc inventado e posto em prática pelo tribunal arbitral com elementos de várias jurisdições, experiências passadas dos árbitros, ideias subjectivas de justiça e uma disposição para resolver o conflito de uma vez por todas de uma maneira que muitas vezes parece um divórcio, independentemente das regras aplicáveis ??à situação. Quem está numa arbitragem internacional em defesa de Moçambique – o segundo de entre os países de língua oficial portuguesa, depois do Brasil, com o maior número de litígios na Câmara de Comércio Internacional – sabe das dificuldades e consequências do uso de outra língua que não seja o português.

O Cabo de Mongue contracosta com Linga Linga. Estes nomes dizem relativamente pouco, ou, rigorosamente, nada. Uma península e uma ilha, no Índico, na terra da boa gente, que assistiram a dezenas de naufrágios no pré-colonial e, muito para lá, do período da acumulação primitiva do capital.

Mongue fica, em direcção à eternidade  horizonte, pouco mais de meia centena de metros da imaginária linha do nível de tantas águas.  Um precipício que segue e determina, de forma abrupta, o ponto final da viagem para qualquer alma mais curiosa e que sofra de alucinações. Aqui, bem no topo da colina, como lá nas profundezas, final da falésia, só reinam os Deuses das lacunas e a fé dos crentes.

Mongue foi o local escolhido pelos  Franciscanos, em 1893, que, acto contínuo, construíram  uma igreja, bem no cume da montanha. Construir em locais altos, em busca de segurança e calmaria, sempre foi apanágio do colonizador e, indiscutivelmente, dos que navegaram com um crucifixo numa mão e, uma bíblia na outra. Simbologia da força, poder e salvamento das almas perdidas. Mas, construir no topo da colina, infelizmente, também, tinha  incontroláveis contornos e inconvenientes. As poeiras, os frios de fora de época e, os malignos ventos do sul. Para as igrejas, ainda pior, impedia que os fisicamente menos dotados, se fizessem ao culto, com a regularidade desejável.

Um pouco mais que igrejas e missões, Mongue tem algo milagroso. Os caranguejos com brincos de ouro. Difíceis de serem encontrados, segundo o mito que virou verdade, os caranguejos de brinco de ouro, não são, facilmente vistos por qualquer visitante. Existe um conjunto de pescadores que os conhecem e veneram. Uma geração que se recusa a desvendar os segredos, mas que fala sobre os caranguejos com convicção. Estes caranguejos de brincos de ouro, igualmente,  não podem ser pescados e nem consumidos por quem quer que seja. Vivem como senhores da tranquilidade.

Não se conhece bem a sua origem, porém, os locais, muito poucos, por sinal, conhecem bem o mangal e seus habitats. Seria uma espécie de Deuses de Mongue. O mundo tem uma variedade extensa de caranguejos. Uns maiores e outros menores. Os povos adoptaram nomes diferentes para cada espécie. Fazem parte da cadeia alimentar de um vasto conjunto de peixes e aves. Estes, porém, por serem de ouro, devem nascer, viver, procriar e desaparecer, sem obedecer às fatalidades dos predadores. 

Inhambane nos presenteia, de tempos em tempos, com estas raridades que teimam em não ser mitologia. Sempre que se contesta, então, com vivacidade, os locais argumentam, alto e em bom som, sobre a saga da Laurentina. Esta menina que, em 1989, fez parte dos náufragos na baía, quando o barco ancorava no primitivo porto da cidade. Laurentina ficou nas profundezas e as famílias de Homoíne, sua terra de origem, acreditaram sempre que ela regressava à superfície, uma vez por ano, para anunciar a sua eternidade. 

Uma vez por ano, rufavam-se os tambores para que ela levitasse, das profundezas, e confortasse os errantes humanos que eternizam seus dons e poderes. Escutando as descrições e os contornos, somos, todos, intimados a acreditar que a mitologia não faz denominador e nem fracciona as realidades deste povo e terra.

Comecei o novo ano vasculhando estas inconfidências. Quis, com olhos católicos e espírito pagão, entender porque os caranguejos de brincos de ouro irradiam tanto temor, mesmo sendo parecidos às mais belas mulheres da península. Queria descobrir de quantos quilateis são feitos os brincos e, se alguma vez eles se descolam do corpo. Até gostaria de saber onde os caranguejos os escondem quando não estão em uso.

Milhares de perguntas e só uma dezena de respostas. Um país inteiro que quer conhecer os Deuses das lacunas de Inhambane, a terra que mais gente rica e propriedade privada criou ao longo dos tempos. Esta terra de fartos coqueiros que se furtam às pragas e ao amarelecimento letal. Mas apenas consegui regressar como cheguei. Visitas e prolongadas, conversas com mais misticismo e pouca explicação.  

Apesar do desencanto, a  fé, um dia, me ajudará a encurtar as distâncias dos entendimentos dos raros fenómenos da natureza. Enquanto isso não acontece, fica a ressonância das vozes que defendem todas as verdades e nenhuma filosofia. Os caranguejos de brincos de ouro e a Laurentina para quem os tambores deixaram de ecoar. Um cheiro apetecível e deslumbrante de uma terra com todos os tons e sabores.

O primeiro Mundial de Futebol a que assisti, pela televisão, foi o de Espanha em 1982. Tinha quinze anos e era assíduo frequentador do Grupo Dinamizador, ali entre as avenidas Ahmed Sekou Touré e Filipe Samuel Magaia, nos dias dos jogos. Ganhou-o a Itália de Paolo Rossi, o melhor goleador com 6 golos e melhor jogador daquela copa. Diz a lenda que este estripador italiano (que o diga o Brasil) saiu da cadeia para levar a squadra azzurra aos ombros. Não sei se isto é verdade ou não. Mas, como aprendi há muitos anos, numa vetusta película de John Ford, um daqueles westerns inolvidáveis – O Homem que Matou Liberty Valence -, entre a lenda e a verdade, quando a verdade emerge, o melhor é manter a lenda. Mantenho, por conseguinte, a lenda.

A Argentina chegara a Espanha para defender o título de campeã do Mundo, mas soçobrou. Contudo, foi um jogador argentino, de seu nome Mario Kempes, que me haveria de empolgar. Ponho de parte os meus indeclináveis brasileiros, entre eles o Dr. Sócrates, que era mesmo médico: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Não houve outro com semelhante garbo. Nem o caçula Raí. Mas lá iremos ao Brasil e aos desgostos que me tem dado. Falava de Kempes. Tornou-se célebre por comandar a Argentina na conquista do Mundial de 1978 em casa. Era um miúdo de 23 anos. Não brilhara em 1974, o seu primeiro Mundial. Haveria de fazê-lo em Espanha. Era o número 10, o predecessor de Diego Armando.  

O Brasil deu samba mas não teve glória. O escrete canarinho: Waldir, Leandro, Oscar, Luizinho, Toninho Cerezzo, Júnior, Paulo Isodoro, Sócrates, Serginho Chulapa, Zico, Éder, Falcão, entre outros. Curiosamente, da Alemanha, a vice-campeã, lembro-me de Karl-Heinz Rummenigge. Conhecia o mítico Franz Beckenbauer. Ainda vi remotamente um filme com ele a jogar. A França tinha Michel Platini, Jean Tigana e Manuel Amoros, que foi o melhor jogador jovem do torneio. A arqui-inimiga Argentina tinha, para além de Mario Kempes, Daniel Passarella, Osvaldo Ardiles ou o promissor Diego Armando. Os italianos campeões: Dino Zoff, Marco Tardelli, Claudio Gentile, Antonio Cabrini e aquele que desfez o Brasil com três golos: Paolo Rossi.

Eu assistia aos jogos numa caixinha pequeníssima, presa a uma gaiola no canto superior esquerdo da sala do Grupo Dinamizador do meu bairro, o Bairro Central. As cadeiras brancas de plástico não ofereciam nenhum conforto. Mas éramos tão magros que não as partíamos a cada vez que exultávamos. Naquela época julgo que pouquíssimos moçambicanos tinham televisão em casa. O Mundial e o Europeu eram vistos por alguns na Rádio Marconi, num prédio da baixa.

Vi depois o Mundial do México, em 1986, as coisas tinham mudado. Muitas casas tinham televisão. Ainda com antena portátil, que era necessário direccionar para obter o sinal que chegava, quase sempre, com pingos, depois de um exercício de paciência e com o concurso de todos a dizer qual era a melhor posição. Este foi o Mundial do Maradona. Nos quartos-de-final, no jogo contra a Inglaterra, no Estádio Azteca, contra uma equipa inglesa revoltada, o árbitro Ali Bin Nasser validou “a mão de Deus” de Diego. Maradona iria repetir a trapaça – para ser generoso no substantivo -, no Mundial seguinte, em Itália, 1990, usando a sua mão, não para marcar um golo, mas para impedi-lo à Rússia. O árbitro não viu nada.

José Craveirinha: “Será boato meus beiços a babarem os verdejantes relvados mexicanos/ enquanto o povo gasta os dentes em subjectivas bolas de farinha?/ Ou no México são reais as roliças nádegas de um Diego Maradona/ o presunto mais caro do mais recente futebolismo internacional?// Ligo o televisor e oiço um fulano a perder o fôlego no delírio do gôôô…lo!/ tudo via satélite no interior da minha casa sem eu lhe abrir a porta/ com medo dos fleumáticos anglo-saxónicos chefes de zaragatas/ e por causa das guapas moças de “shorts” a abanarem as mamas/ no centro do ecrã e sem que o árbitro assinale a falta.”

Quando este poema “«Mundial» de Futebol no México (em directo)”, do José Craveirinha, surgiu, foi um murro no estômago. Creio que o li em 1987 apenas, quando, na companhia da Fátima Mendonça, frequentava poetas para arregimentá-los para a causa da antologia que então preparávamos. Foi numa dessas visitas à casa do Craveirinha, ali na Mafalala, que este poema nos deslumbrou. Havia um célebre apresentador da TVE reincidente a dar caneladas na língua portuguesa. O Zé foi implacável com ele: “Quem autorizou o hirsuto “stopper” da semântica em riste/ a agredir impunemente o triste e indefeso Luís de Camões?” Lembro-me de comentar estes versos com a Fátima. Neste poema estava o melhor do Craveirinha, estava o poeta de finíssima estirpe.

José Craveirinha: “Aqui onde as crianças adeptas do Futebol Clube Tuberculose/ roem mandiocas fatais com a tal força anímica/ porquê a prioritária urgência em admirar/ um lírico Sócrates a falhar platonicamente/ um golo mais do que certo?

Como disse, li o poema depois do Mundial. Este poema foi um importante alerta, um despertar, um libelo contra a alienação. Começava, na mesma altura, o meu meu percurso como publicista e o acirrar de uma consciência crítica.  Mas antes  – recordo-me – sofri verdadeiramente com o jogo Brasil-França. Terminou a 1 a 1. Foi nos quartos-de-final. Primeiro foi o Zico, que viu, ainda durante o tempo de jogo, um penalti defendido por Bats e, depois, na sorte nas grandes penalidades, Júlio César e sobretudo Sócrates falharam. O meu ídolo da fita na cabeça.  Seus companheiros: Carlos, Júlio César, Edinho, Elzo, Branco, Júnior, Careca, Alemão, Edson e Casagrande. A França passou, chegaria ao terceiro lugar. Os franceses tinham Tigana e Platini e ainda Amoros. Karl-Heinz Rummenigge, Lothar Mattaus  ou Rudi Voller (Alemanha), equipa vice-campeã. Os argentinos, onde pontificavam Jorge Valdano ou Jorge Burruchaga, para além do astro Diego, foram campeões.

José Craveirinha: “Mas porquê esta fortuita indigestão de futebóis de dólares/ saboreados nos olhos via satélite e nas enfermarias/ o drama das ampolas de penicilina que não temos? // Quem autorizou o hirsuto “stopper” da semântica em riste/ a agredir impunemente o triste e indefeso Luís de Camões?// Com as hábeis botas do sr. Diego Maradona a chutar-nos/ quantos sapatos calçariam os pés dos Meninos/ infutebolizados pelo malfazejo júbilo/ das hienas soltas nas matas?

Não me recordo de acompanhar depois um Mundial da mesma maneira como  fiz entre 1982 e 86. Creio que o meu entusiasmo esmoreceu com o Mundial de 90. Recordo-me da Laranja Mecânica com Frank Rijkaard, Marco Van Basten ou Ruud Gullit. Aquela equipa holandesa era impressionante. Lembro-me da Alemanhã campeã com Brehme, Mattahaus, Voller ou Klinsmann. Ou ainda do Diego Maradona. Recordo-me do Roberto Baggio que fez um grande mundial. Em 1993 seria eleito o melhor jogador do mundo. Ainda vi, displicentemente, o Mundial de 1994 e o vi a falhar, na final, o penalti que daria o título ao Brasil. Mas já não me empolgava tanto, nem o Brasil, nem o Mundial. Daí para a frente, lembro-me muito pouco. Lembro de alguns nomes: Ronaldo, Bebeto, Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos, ou Taffarel. Ronaldinho Gaúcho brilharia em 2002, mas em 2006 não esteve à altura. Hoje mal conheço a seleção brasileira. O Neymar não me convence. Ainda gosto de ver Marcelo. Pouco mais.  

José Craveirinha: “Nesta jogada de comida intelevisível/ 60 xambocadas indemocráticas de massas em directo/ mais outras 60 xambocadas em diferido no adiposo/ rabiosque fútil do idolatrado “desporto-rei”/ com dólares “cash” pagos em Maputo/ deliciando o anónimo dono do satélite.”

O futebol tornou-se-me indigesto. O excesso de futebol. O ópio do povo.  Algures no final da adolescência e na entrada da idade adulta percebi que o futebol, a telenovela brasileira e a própria televisão eram lenitivos contra a consciência social e crítica e que, em sociedades como as nossas, com défice de educação e cultura, poderia ter efeitos perversos. É claro que este tipo de avatares ajudam um certo tipo de poderes. Quer isto dizer que não vejo de todo futebol? Não vejo televisão ou não assisto a telenovelas? Vejo o mínimo. Falo de futebol com os meus filhos, mas falo-lhes para além do próprio jogo e dos valores e dos grandes gestos ou das misérias do futebol. Não diabolizo. Não frequento telenovelas – fui um adicto do Bem Amado e do Roque Santeiro -, mas já me deixei disso. A minha droga são os livros. A música. A pintura. A cultura.

A televisão tornou-se um lugar irrespirável: ou política ou futebol. Não há mais nada. Há estações de um país que nos é próximo que ficam semanas com um presidente pária de um clube. Outras tantas cultivam o reino da estupidez. Revoltei-me contra isso aos vinte e poucos anos: as televisões foram invadidas pelo futebolismo. E o desporto? A importância do desporto? O desporto pode ser um instrumento poderoso de inclusão, mas também pode ser de exclusão e de alienação. Vejo com cautela, para não me viciar, um ou outro jogo: Champions, finais de um Mundial, pouco mais. Quando foi do Mundial da África do Sul andei com uma turba amiga a divertir-me por Joanesburgo, Durban e Cidade do Cabo. Não me lembro do que vi em campo, mas dos momentos de cumplicidade e da alegria de levar o meu filho Irati a ver um Mundial. Também me recordo das prodigiosas mamas da Larissa Riquelme, fervorosa adepta do Paraguai, que trazia sempre um voluptuoso telemóvel entre os seus seios.

José Craveirinha terminava aquele seu belíssimo poema dizendo: “Zezé (Um ex-futebolista arrependido)”. Isto por conta dos paradoxais dólares gastos a alugar o sinal de satélite num país com muitas urgências. Muitas vezes me interrogo: quantas bibliotecas se fariam com aquilo que se gasta na incongruência do futebol? Eu não sou contra o futebol, até o acho um espectáculo extraordinário. Só contra um país alienado e pouco educado, um país pouco lido e preparado, um país ululante e nada crítico da realidade circundante. Bem sei que isso não é politicamente correcto. Preferia que se investisse no desporto, incluindo o futebol, nas camadas infanto-juvenis, e não se desperdiçasse dinheiro em clubes insanos, alguns dos quais acreditam que o curandeiro os pode ajudar a ganhar campeonatos. Daí esta minha quezília com o imperialismo do futebol. Porque ele parece ser uma única escolha. Não sou a favor da censura, sou a favor da sociedade aberta. Mas isso implica que eduquemos mais, leiamos mais, cultivemos mais. Quero um país que estime e se reveja na sua cultura, nos seus autores, nos seus escritores, nos seus músicos, nos seus artistas e criadores. Um país que saiba matemática e saiba discernir, um país que consiga destrinçar o essencial do “desimportante.” Um país mais educado e mais exigente. Que tenha no futebol ou lá o que for os seus momentos de lazer e de fruição, mas depois da saúde, educação e cultura.  
Não vejo o Mundial por isso? Vejo-o quando me dá na gana. Não tenho nenhum excessivo entusiasmo e nem me interessa muito. Outro dia um amigo disse que tinha uma aplicação no telemóvel com os jogos e queria passar-ma. Para quê? Não percebeu o meu desinteresse. Não sou nenhum fundamentalista anti-futebol. Nem extremista anti-televisão. Nem anti esses novos instrumentos de comunicação que tanto ocupam boa gente que nem sequer vai perder alguns minutos a ler este meu longo arrazoado a favor da cultura. Os meus momentos de fruição acontecem a ler ou a ouvir música.  Ou entre amigos, dos poucos que cultivo. Por fim, sou capaz de asseverar, a despeito, de que não tenho nada contra o menino que fui aos 15 anos e que comparecia, pontual e religiosamente, no Grupo Dinamizador, ali do Bairro Central, para se deixar exultar com as actuações inolvidáveis de Mario Kempes.

 

Toda a excitação se refugia na esperança de ver o sexo

Roland Barthes

 

Imane Kamal Idrissi, se quisermos, Imane KI, é uma artista plástica que vive em Moçambique lá vão alguns anos. Em Maputo, onde fixou residência, a marroquina tem exposto fragmentos da sua alma, com recurso à essa magia do pincel que apenas cede a poucos seres abençoados. Um desses fragmentos, feito de ilusões, mistérios e narrativas contadas em silêncio – que raio de narrador encontra-se naquelas telas? – é a colectiva A sombra dos sonhos, a qual, além de obras de Imane KI, apresenta, na Fundação Fernando Leite Couto, as de Mi Sook Park, uma artista sul-coreana. Por uma questão de método, hoje, é dos sonhos da artista marroquina que nos ocupamos.

Em O prazer do texto, a certa altura, Roland Barthes diz-nos: “toda a excitação se refugia na esperança de ver o sexo”. Como que a condizer com estas palavras poéticas do intelectual francês, Imane KI dá às suas obras uma série de elementos visuais que as tornam algo envolvente. O principal elemento, na verdade, é a evocação da figura feminina, feita com sedução, numa combinação entre o estético e a razão. Neste exercício, a artista plástica aposta em cores, digamos, taciturnas, (cinzento, preto), buscando, de vez em quando, um vermelho ou amarelo para adicionar um contraste ao essencial das imagens, quase sempre a mulher pintada. É nela que Imane KI aglutina o talento, as convicções e a maneira como se entrevê a partir do que move a sua criatividade.

A sombra dos sonhos, na pintura de KI, é uma exposição em que o desejo, a excitação e a contestação juntam-se para criar um debate sobre a condição da mulher enquanto mãe da beleza e, simultaneamente, vítima primária do que dessa beleza advém. Um exemplo disso é a obra “Pain”, pintada a óleo nas dimensões 102 x 76 cm. Nesta pintura, temos a figura de uma mulher cabisbaixa, escondendo o rosto com recurso às mãos, severamente amarrada. Aparentemente nua, no entanto, sem expor gratuitamente nada. A tela prende, quer pela beleza que possui quer pelo conteúdo ali apresentado. As cordas a sufocarem os pulsos, os tornozelos e as pernas simbolizam essa casmurrice de fazermos do “melhor” da natureza um ser refém da força do homem e das instituições sociais. Imane questiona o fenómeno, lembrando-nos da delicadeza que magoamos, quando partimos essa costela tão parte de nós.

Bem visto, Imane KI faz das imagens femininas uma energia visando derrotar o preconceito, a cumplicidade opressiva, ao mesmo tempo que engrandece predicados, os quais, a nós, os timbilosos, fazem-nos esgotar na esperança aludida por Barthes, afinal, nesta colectiva, está exposta “On the moon light”. Esta pintura (51 x 76cm) há-de ser a mais poética. Não fosse o facto de sabermos que este artigo terá como leitora Angélica Pereira, diríamos que aquela imagem de mulher deitada, expondo tudo à lua, apenas à lua, daí a inveja, é suficiente para trairmos a fidelidade e esbanjarmos em tudo o que a mesma provoca. Enfim, como podemos ferir o sonho de um ser que sabe ser “nossa sombra”? E como podemos não ver a luz que a “sombra” projecta em nós? Parecem ser estas as perguntas centrais da pintura de Imane KI. “Veiled eyes” (64 x 37cm), “Wedding day” (102 x 76) ou “Triangle woman” (43×60) – que também deveria estar nesta colectiva – em conjunto formam um sonho que clama por acontecer. Urgentemente.

Esta é a pintura de Imane Kamal Idrissi, uma obra que mergulha no âmago feminino para cantar a sua causa.

Autora: Imane Idrissi

Título: A sombra dos sonhos

Exposição colectiva

Classificação: 14

 

 

1958, Suécia. Brasil campeão, Pelé, aos 17 anos, revelação da prova e, consequentemente, o melhor do Mundo.

1962, Chile. Masopust, jogador checo, foi para a montra, tornando-se a revelação-mor.

1966, Inglaterra. Eusébio, estrela recém-vinda da Mafalala, deixou boquiaberto todo o planeta.

Naqueles tempos, a grande montra do futebol, era o Mundial. De quatro em quatro anos, “parava tudo” para atender ao valor mais sublime, que era chegar ao título mundial. Para trás, ficavam as diferenças clubísticas, as perspectivas de chorudos contratos e todos os demais feitos dos clubes aos vários níveis, ofuscados pelo bem maior que era levar a Taça Jules Rimet.
Os calendários, os longos estágios e todas as outras agendas, eram hierarquizados de forma a dar primazia àquela que era a montra verdadeiramente universal!

O que mudou

No Mundial da Rússia, o melhor da prova sairá de um “naipe” que não pode fugir a Ronaldo, Messi, Neymar, Pogba ou outra super-estrela já bem conhecida, numa hierarquia que até tem a ver com os “chorudos” salários!
Está-se, na realidade, em presença de uma réplica das principais Ligas Europeias, com a diferença das camisolas permutadas. Dos que actuam nos países que representam, vêm apenas raríssimas excepções. Daí que este Mundial não poderá mediatizar, os já mediatizados.
São estes os sinais de novos tempos e novos ventos. Grande parte dos jogadores estão com os pés na Rússia, mas com o pensamento nos clubes, nas possibilidades de conseguirem melhores contratos. Ou com o temor de perderem as vagas. As épocas estão na forja e candidatos aos seus lugares, são mais que muitos. Representar o país, é bom, mas… o patriotismo pode esperar!
O novo patrão no desporto de competição é o dinheiro. É a ele que os profissionais devem vassalagem. Brilhar ao serviço da Pátria mas perder o lugar na equipa que o sustenta, é um cenário presente, pelo menos nos jogadores ainda sem estatuto (con)firmado.

Aldeia global

Olha-se para a selecção francesa e constata-se que a equipa é composta maioritariamente por naturalizados ou descendentes de africanos. É o que está a dar. Portugal já naturalizou Deco e agora Pepe, para cumprir uma função, não importando o “sótáque”.
O tempo é de globalização, os cifrões ditam as leis. Não é necessário nem saber cantar o Hino de um país, para o representar.
E nós por cá, na nossa pequenez, continuaremos assistentes a participar simbolicamente, sem ultrapassar as pré-eliminatórias? Tentar travar a roda do desenvolvimento, com regras saudosistas que passaram para a história nas grandes nações, é impensável. Fala-se em SAD's mas dificilmente elas sairão das intenções com  profissionalismos de “faz-de-conta”.
Importa reconhecer que o futebol em particular e os outros desportos em geral,  podem ajudar-nos a ser uma parte bem mais activa e actuante nesta ou noutras grandes montras mundiais, com  benefícios imediatos para a nossa auto-estima – e não só – algo que já tivemos o privilégio de experimentar nos tempos dourados de Lurdes Mutola.

Falar de «Recados da Alma», romance de estreia de Bento Baloi, publicado em Moçambique pela Fundação Fernando Leite Couto, em Novembro de 2016, e que teve em 2018 a sua edição portuguesa, pela Ideia Fixa, obriga-me a passar pela memória do nosso primeiro encontro. Conheci o Bento na Póvoa de Varzim, durante o mítico festival literário Correntes d’Escritas, em fevereiro de 2018. Uma das muitas mesas a que tive o privilégio de assistir estava subordinada ao tema “Escrevo para dizer aquilo que não sei”. Entre o cartaz de nomes que iriam intervir, surgia um único desconhecido. Bento Baloi fez a sua comunicação e, quando a terminou, eu senti que passara a conhecê-lo um pouco, pois o texto lido, além de muito belo, entrava por esse mundo fascinante do autor e da sua ficção, entreabrindo a porta para quem era o homem atrás da obra.

O auditório apinhado do Cine-Teatro Garrett comoveu-se com a leitura de Bento Baloi e correspondeu com uma enorme e continuada salva de palmas. Comentei a excelência do texto com quem estava nas cadeiras ao meu lado e, após o término da sessão, venci a minha timidez natural para me colocar junto às escadinhas do palco. Queria cumprimentar aquele desconhecido que, por causa de um texto, passara a ser um camarada, um colega. Acima de tudo, queria dar os parabéns ao Bento Baloi por me ter conseguido emocionar. Apertámos as mãos, num sinal de reconhecimento mútuo, certos de que dali em diante não mais seríamos estranhos um do outro. Na sua generosidade, o Bento ofereceu-me, no dia seguinte, um exemplar do seu romance, assim dedicado: «À Isabel e Paulo, com muita estima e amizade. Um grande abraço fraterno com calor de Moçambique.»

Se cito a dedicatória é porque nela estão contidas algumas pistas para uma possível leitura de «Recados da Alma». As dedicatórias do romance, em parte, prosseguem o texto das Correntes, nesse exaltar de uma mãe que já partiu, mas que, a partir do céu, em forma de estrela, continua a iluminar a mente do autor. Se cito a dedicatória é porque quis entender, nalguns trechos, traços do jornalista tornado romancista, tal como acontecera comigo no meu primeiro livro de ficção, sendo uma curiosidade que os nossos livros comunguem o período dos quentes anos de 1974-1975, embora «Recados da Alma» se estenda por outras décadas. Se cito a dedicatória é por ter sentido nas páginas deste romance o calor moçambicano, seja do sol a aquecer a pele, ou da voluptuosidade dos corpos femininos, ou dos ritmos e movimentos da dança xingombela. E não resisto a ler-vos esta citação: «Sol abrasador fustiga Lourenço Marques. A urbe está calma e as ruas silenciosas demais para o que é habitual. De quando em vez uma meia dezena de automóveis percorre o asfalto da Pinheiro Chagas, alguns à esquerda e outra meia dezena para a direita. O vento não sopra. As acácias vergam-se inertes ao calor húmido que se faz sentir.» Por fim, se cito a dedicatória, é por ter encontrado nesta obra sinais de fraternidade e de mãos estendidas ao próximo.

A sinopse do livro refere que um jovem jornalista, durante a cobertura à operação de salvamento de vítimas das cheias do vale do rio Save, acaba por receber um maço de papéis das mãos de um velho comerciante. Ao analisar os papéis já amarelecidos, o jornalista descobre retratos de várias vidas que o transportam para outros tempos, tempos agitados numa cidade ainda chamada Lourenço Marques que se movia tanto ao ritmo de bailes noturnos animados pelos discos de 45 rotações, como ao medo semeado pelos terríveis «mabandido», ou dos sussurros e mensagens subversivas em torno dos nomes Mondlane e Machel. Há um futuro que se começa a escrever e um passado que se começa a apagar, mas para os jovens Mafalda e Eugénio o mais importante residia no amor que, contra todas as vontades e probabilidades, os passara a unir. Depois, no frenesim de pânico, saques e violência iniciado a 7 de setembro de 1974, os destinos dos jovens amantes, tal como os destinos de Portugal e Moçambique, estilhaçaram-se, obrigando a uma separação violenta. E só a história que poderão ler irá revelar se Mafalda e Eugénio se voltaram a juntar…

Não gosto de estragar o prazer da descoberta aos leitores, nem estou habilitado para fazer teses literárias sobre romances. Tal como na sessão das Correntes, apenas posso transmitir ao Bento, e aos seus futuros leitores, as emoções sentidas ao longo de «Recados da Alma». Estamos perante um livro de uma enorme tolerância. «O que seria da história de um país sem as estórias das suas gentes?», pergunta o comerciante que tomou notas, ao longo dos anos, das vivências de amigos, amigas e companheiros. E eu pergunto: que seria da história de um país, ou neste caso, de dois países, se houvesse uma perceção única e intolerante do passado? A generosidade de Bento Baloi reside na forma como mistura o local e o global, o moçambicano e o português, a tradição e o progresso, através de um conjunto de personagens que nos dão visões diferentes sobre os mesmos assuntos, assuntos graves, sensíveis, geradores de divisões, como a segregação, o amor multirracial, o orgulho pátrio, o colonialismo, o preconceito, sem jamais cair num romance panfletário ou ideológico. Há uma espécie de olhar fraterno, nada fraturante, para com cada personagem, como se o autor quisesse contextualizar e compreender cada ato realizado ou cada ideia expressa. E, na verdade, todos somos filhos de contextos, seja um elemento do gangue mabandido, uma retornada da ponte aérea ou um membro do braço armado Dragões da Morte.

Apesar de nos dar pedaços da história de Moçambique, quer na sua luta pela independência, quer nas subsequentes cisões internas, ou até da vida dos portugueses obrigados a partir de um país que consideravam o seu, nunca se encontra na escrita de Bento Baloi um discurso maniqueísta ou uma tentativa de acerto de contas. Pelo contrário, mesmo nos casos mais delicados, o autor limita-se a expor os acontecimentos históricos e a deixar que as emoções das personagens, e não as suas, conduzam a trama e o leitor. E é neste grande detalhe que a fraternidade e generosidade de Bento Baloi se agiganta, aceitando ser uma ponte, uma mão estendida, em vez de um veículo de ódio. Há em «Recados da Alma» o mesmo afeto improvável que liga Eugénio, empregado preto, ao seu patrão branco racista. Há em «Recados da Alma» a demonstração de que o preconceito, o bem e o mal, não são questões de raça ou de nacionalidade. São questões do ser humano.

A própria escrita de Bento Baloi funciona como elo entre Moçambique e Portugal, por estar escrito num português esmerado, entrecortado com os termos intraduzíveis das línguas autóctones, que, tal como Mia Couto referiu, é capaz de «contar uma história com singular eficácia, mas guardando uma marca poética que envolve e seduz os leitores». A sedução e força do amor estão, aliás, presentes ao longo de todo o livro, nas mais variadas vertentes e situações, numa tentativa de superar os traumas de uma relação que começou torpe – o colonialismo –, e prosseguiu aos solavancos – as vidas alteradas num segundo, as cicatrizes na pele e na alma –, sem com isso se suavizar a história passada ou evitar realidades dos novos tempos, como o imperialismo económico. «Recados da Alma» é um livro que tem política, mas que não é politizado, pois procura manter uma equidistância ideológica. E, porém, é um livro de causas, um livro militante, um livro que se entrega às suas personagens, numa ligação muito próxima, muito afetiva, que evita juízos morais, com base nos estereótipos, preconceitos e visões históricas que, precisamente, vão sendo desvelados nestas páginas.

Foi esta ligação umbilical de Bento Baloi às emoções humanas, provocadas por pessoas reais, como uma mãe falecida, ou por personagens inventadas, como o Eugénio e a Mafalda de um romance, que eu descobri no texto das Correntes d’Escritas e que confirmei em «Recados da Alma». A grande diferença é que no início éramos desconhecidos e agora já nos conhecemos um bocadinho. Obrigado e boa leitura.  

Paulo M. Morais

Vila Nova de Gaia, Maio de 2018

* Título do editor desta página.

 

Foi em 2008 que João Paulo fixou a sua estrondosa voz na pauta musical e silenciosa do tempo. Um Bluesman não morre, porque a sua actividade é a de diluir a morte no blues e no schotch. João Paulo não cantava blues, usava o Blues, atiçava a catarse que há dentro do blues com a vara da sua voz. Sou viciado em blues. E por isso escuto João Paulo como quem ouve sem parar a pregação de um pastor que além de conhecer a escritura sagrada, vive-a.

Se todos acreditamos que o blues nasceu na região do delta do Mississipi, então, cá entre nós, refinou-se ali no “Goa”. O bluesman sentado sempre no “Goa”, com um schotch vigiando os ângulos duma mesa, um maço de cigarros deitado e uma caixinha de fósforos semi-aberta, mirava o seu interior e caía nas escadas do seu olhar como caíam os negros possuídos por “worksongs” nas margens do Mississipi. Eu tinha um privilégio. Via aquela figura, que depois virara meu ídolo, sem nada pagar. Via sempre aquele bluesman afinando a rouquidão da voz com uma, duas, três, quatro garrafas…

Hoje passo por Goa e ainda sinto o cheiro da sombra de João Paulo na primeira mesa. As paredes de Goa eram as camisas de João Paulo, por isso ainda têm marcas da sua existência em todos cantos. Os sovacos das paredes suam João Paulo.

O schotch era o mar de “Goa” onde o bluesman encalhava os remos do blues. Os seus cabelos enrolados era como se enrolassem os seus pensamentos. Seu blazer de napa cheirava suor de um boémio com a alma andarilha. Qual boémio? Ele era casa do blues. Vê-lo no Gil Vicente cantando era como se o blues saísse, um pouco de si, e espreitasse o exterior. Era uma caixa de ressonância humana de blues. Sua vida era um harmónico que ressoava, disfarçado, em cada batida do coração. Sua boca parecia uma gaita de sentidos em cada falar. Falava pouco e tossia quase sempre. Quando sorria os seus lábios ressecados de álcool esticavam-se como se quisessem rebentar.

Era difícil ver o Goa sem João Paulo. Aliás, não era João Paulo que ficava ali no Goa; era o Goa que se tinha instalado no bluesman. João Paulo era mais de Goa que dele próprio. Ali, sentado, via os movimentos do mundo através do borbulhar do seu corpo. E muitos passavam-no pensando que era uma figura cuspida pela rotação e translação da Terra. Seus movimentos eram mínimos: penetrar, com os dedos, uma caixinha de fósforos, coçar os seus longos cabelos, apertar pelos lábios o cigarro, virar para esquerda e direita sem nada olhar e mudar a posição dos pés exaustos de tanto andar dentro de si.

Quando punha-se a mergulhar a cidade o fazia com passos lentos e cheios de charme. Caminhava sem magoar uma mínima matéria de vento. Nos últimos dias, um pilar de gesso segurava-lhe uma das pernas. E o passo crescia entre o gesso e a muleta. Coitado de João! – dizia. João era um fantasma que povoava todas as casas de artes ao cair da noite.

Ninguém como João Paulo soube cantar “Baby Please Don’t Go” de Muddy Waters, “Where Did You Sleep Last Night” de Leadbelly (barriga de chumbo) e “Mazumana” de Fany Pfumo. A lista é enorme que pode não caber neste "Relógio di Oro". João Paulo, JP, não via o Blues como apenas como um estilo musical; o blues era, para ele, um estado de espírito, uma vida que só se respirava pelos pulmões da voz. E eu ainda via JP no “Goa”. Com o seu blazer unido de vários zippers e com botões brilhantes. O dia todo passava-lhe ali sentado.

 

Os últimos anos, amiúde, são tipificados por emboscadas literárias dos combatentes da Luta de Libertação Nacional. Uma espécie de epopeia narrativa e descritiva de uma guerra que foi feita por cidadãos anónimos, com histórias de glória, com memórias e com ensinamentos para os combatentes pela liberdade e justiça, nas mais variadas gerações e transversalidade cultural de todos os continentes. Obras que exorcizam fantasmas que flanquearam as suas vidas no passado, alvejaram as mentes, nem por isso tão jovens, do azul (vermelho) da revolução e empurram matérias inexplicáveis e indecifráveis para este presente que será sempre futuro.

Depois da poesia de combate e de libertação, com textos que ainda ecoam como trovões de morteiro em determinados ouvidos, se abre, de porta em porta, um espaço privilegiado para novas e mais cicatrizadas terapias colectivas, armadas de obuses de outra índole. Ainda sou do tempo onde se encavilhavam estrofes que se envernizaram mentes juvenis ávidas de entendimentos sobre heroísmos exacerbados. Pelos corredores das escolas declamávamos de cor e em voz alta … não basta que seja pura e justa a nossa causa/ é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós…. como se, esse sentido, fosse nosso e estivéssemos, todos possuídos pela nobreza desse alinhamento libertário.

Com intervalos de tiro ou de rajadas solitários, ou ainda, de lança granadas, a resistência dessas memórias e o sentido histórico das kalachi Nikov vão sendo reveladas. Vivências que se acantonaram, algures, galgam os muros da disciplina e dos silêncios militares. Uma espécie de refrão de coral obrigatório.

Verdade que o rigor cartesiano da história nem sempre pode ser exigido a todos estes escritos. Memórias dormentes e cansadas, desavindas, são susceptíveis de amnésias em surdina. Rebuscar os fundos da memória tem um preço. Caro, pesado e de consequências imprevisíveis. O fundamental, louvado por todos, seria deixar os registos e os episódios. Historiadores se encarregam e encarregarão do resto. Ideal será que a energia continue pululando em cada mente libertadora, para que o Cartesianismo impere. Eu existo, logo, escrevo.

Na tentativa de historiar a história desta libertação, feita a ferro e fogo, já se destrataram datas, nomes, locais, rios, montes e comandos. Mas, ainda assim, fica para o presente um discurso que se institucionaliza, formal e até ortodoxo. Aquele encadeamento de factos que transcende a ciência e ganha contornos de religião, senso comum e filosofia, tudo junto, como se acasalam as restantes formas de saber.

Estes novos modelos literários, me perdoem os escritores, os críticos literários e potenciais candidatos, parecem reconfigurar uma nova forma de estar e ser desta literatura que, nos últimos tempos, não tem mãos a medir. Nunca se escreveu tanto, neste país, mesmo que queiramos ignorar e menos valorizar esta realidade. Escrevemos como nós próprios somos. Um linguajar híbrido e distanciado das morfologias e sintaxes, das regras vernaculares. Se escreve da direita para a esquerda e vice-versa. Importante será marchar, marchar e marchar e escrever, escrever e escrever.

Tenho em mãos e olhos uma destas obras. A biografia do Coronel Mateus Óscar Kida. Quis o destino que o seu nome fosse Óscar, pois, ele próprio se confunde com um Óscar desta terra, de simplicidade, humildade e de bom humor. Um Óscar do distinto grupo de combatentes. Mateus Kida não procura glórias, apenas quer recordar uma vida de várias vivências e que fizeram da sua contribuição um exemplo de bravura e dedicação ao seu povo.

Pela sua obra, com inúmeras referências às lideranças político-militares, Óscar Kida cadencia marcha narrativa que desvenda o passado de uma história que, quase se confunde com a história deste país, e bem, na sua contemporaneidade. Confissões e fotografias desgastadas pelo tempo. Uma espécie de autobiografia dessa luta pela libertação da terra e dos homens contra um inimigo colonial e visceral.

Todavia, não são as revelações que mais cativam, assustam ou pretendem metralhar os leitores. São, certamente, as vontades de satisfazer um ego. Promessas e juras de lealdade para com a liberdade. Óscar parece ter lido o poema, por onde passa o exército de libertação/ fica um rasto verde e chuvoso e o caminho para passar a liberdade e o futuro.

Assim, nas centenas de páginas do coronel, diga-se, pessoa humilde e afável, respeitador e inibido, o nosso biografado traduz, de forma simples, os episódios musculados e militarizados que testemunhou. Aliás, muitas facetas ainda são sua marca. Dança como ninguém. Exímio passista e leitor assíduo de todos os jornais que esta praça pode oferecer. As qualidades de dançarino são testemunhadas na voz do Engenheiro Miguel Massingue seu ex-colega nas TDM:

“ … nesse instante o Coronel disse vou à pista dançar, fiquei surpreendido. Como ele quer se expor assim? Dançou e eu ao lado dele a dançar depois notei que a discoteca toda parou e estava a bater palmas… percebi que as plamas eram para ele e não para mim … bati palmas como qualquer um… (p. 332).

Outra das qualidades do Coronel Mateus Óscar kida que salta à vista relaciona-se com a área da segurança de altos responsáveis, iniciada já no II Congresso da FRELIMO e continuado na protecção do Presidente Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique Independente.

… recordo-me por exemplo, daqueles formidáveis mergulhos [em Cuba], acompanhando o Presidente Samora Machel e Fidel Castro, durante os quais este último gostava de caçar lagosta. Foi numa dessas ilhas que tomei pela primeira vez sopa de tartaruga.”(p.212).

 A partir deste livro pode-se compreender que o Coronel Mateus Kida é um Óscar da História recente de Moçambique. O seu contributo para a edificação de um estado soberano e democrático é incomensurável nas várias páginas a si dedicadas, poucas, se comparadas à grandeza da pessoa. Na verdade, as quase quatro centenas de páginas descrevem o suor e segredos mantidos ao longo dos anos, de um homem com características peculiares dada a sua simplicidade e humildade.

 Estes anos não foram suficientes para se entenderem, ou já nem faz parte dos interesses juvenis, compreender como se criaram e se avançava para as bases militares, as cores das trincheiras, os sabores de napalm.

Contudo, neste resgatar, mais ou menos iconográfico, da historiografia militarizada da libertação nacional, presumo que a história desta jovem nação exigirá mais profundidade. A cientificidade dos factos e a validação das fontes. A oralidade suportada pelas evidências, devidamente restauradas, e que confrontem com os estereótipos de um passado, nem por isso muito distante. Existe uma responsabilidade dos narradores que vai muito para além da descrição de um combate, uma vitória ou uma derrota.

A publicação deste livro coincide com um momento histórico crucial na história desta nação arquitetada por Eduardo Chivambo Mondlane, pai da Unidade Nacional. Neste ano de 2018 celebram-se as bodas de Ouro do II Congresso da Frente de Libertação Nacional evento realizado no solo pátrio na mítica e histórica aldeia de Matchedje onde o Coronel Mateus Óscar Kida se fez presente. Cito algumas passagens:

Eu participei no processo, e, nas vésperas da realização do Congresso, participei na preparação do relatório da Província, que devia ser apresentado. Recebi algumas delegações, mas depois, tive que passar para a segurança do próprio Congresso…”(p.105).

Coronel Kida dedicou a sua vida inteira ao combate. Ele não se transformou em combatente, mas numa lenda do próprio combate. Em poucos minutos de conversa deu para entender como se desinteressou por patentes militares mais altas, e compreender a sua postura de guerrilheiro sem exageros. Fala de um combate com perdas e ganhos de ambos os lados. Irmãos que se digladiaram. Relendo sua biografia navegamos ou sobrevoamos os férteis campos das estratégias e tácticas, a bravura e tenacidade dos envolvidos.

Uma espécie de ser de ficção, mas feito de corpo e alma, de sonhos, de desejos e vontades, de amizades e amores. Também ele foi um combatente com medos, receios e hesitações. Coragem e persistência comungadas com temores e incertezas. Afinal, os guerrilheiros são tão seres humanos como todos nós e viveram na pele as emoções que passam pelos jovens e adultos que apenas ouviram falar dessa luta. Este livro, ainda que escrito por outrem, um amigo confidente, surge como uma caixa de surpresas, porém de fortes convicções.

A génese deste empreendimento remonta à amizade entre o autor e o biografado, iniciada no complexo gimnodesportivo do Ferroviário de Nampula em 2004 e percorre momentos e espaços da vida deste actor e contribuinte da História de Moçambique.

Agora, que sua obra chega aos nossos olhos, para os devidos julgamentos, seria importante que o apetite dos jovens para a leitura fosse despertado. Entendo que nada será forçado, nem que esta biografia será introduzida nas escolas, ou onde quer que seja. Se exige sim, que se criem as condições e a responsabilidade de levar esta e outras obras bibliográficas para quem necessita.

Entendo, também, que Óscar Kida continuará ajudando na segunda libertação do seu e nosso Niassa, agora por via da palavra. Depois das bandeiras, seguem-se outras libertações, sobretudo, a económica. Niassa precisa de todos os investimentos, como nós precisamos de oxigénio para respirar.

O Coronel Kida fez a sua parte e o país e Niassa agradecem. Perfeccionista, o coronel passará os seus próximos dias relendo sua própria biografia, na tentativa de ainda incorporar novas memórias. Mas, isso, terá de ser para o próximo livro. 

Tínhamo-nos conhecido na Associação dos Escritores nos meados dos anos 80 e houve, desde logo, uma grande empatia entre nós. Fátima Mendonça era uma reputadíssima professora universitária e divulgadora incontornável da literatura moçambicana e eu um miúdo intrépido que queria saber e fazer tudo. Em finais de 1985 houve em Maputo um encontro que trouxe, entre outras personalidades, o professor Manuel Ferreira que, na altura, deu a conhecer a antologia de poesia No Reino de Caliban III, cujo volume era dedicado a Moçambique. Aquele volumoso livro verde inquietou-me. Apesar de trazer nomes como Luís Carlos Patraquim, Manuela de Sousa Lobo ou Brian Tio Ninguas, entre outros, escapava-lhe uma produção poética onde sobressaísse, sobretudo, a geração da Charrua, revista que tinha sido lançada em Junho de 1984. Pareceu-me, desde logo, que haveria lugar para apresentar uma antologia com a nova poesia moçambicana, a poesia que se produzia naqueles anos, os anos 80, que era o testemunho e o testamento de uma época única. A antologia de Manuel Ferreira cobria muito pouco da poesia que nós então produzíamos, sobretudo a vertente lírico-amorosa, que irá, de certo modo, caracterizar esta época, como a rebeldia e a afirmação de uma nova geração de poetas moçambicanos, que tiveram em Eduardo White, claramente, o seu expoente mais elevado. White, que publicara Amar sobre o Índico – um belíssimo livro de estreia -, em 1984, não constava na antologia. Numa das nossas conversas, ali na associação, interpelei a Professora Fátima Mendonça com essa e outras inquietações. Foi dessas conversas que ficou o repto de trabalharmos num livro conjunto. Combinámos que iríamos fazer uma antologia de poesia com o marco de 1975 para a frente, seria a poesia produzida no contexto do novo país, revelando, por conseguinte, novos poetas e novas propostas, estilísticas e temáticas, que esta então intentava subscrever. Começámos a recolha e sistematização da informação em 1986. A antologia cobrirá o lastro temporal que vai de 1975 a 1988, dado que terminámos o livro em Março de 1989, pese embora este ter sido publicado apenas em 1993.

A nossa ideia era que a associação fosse a editora do livro e nem cogitávamos uma ideia diversa desta. O trabalho de composição começou por ser feito, com o apoio do Ricardo Santos, no CEDIMO (Centro de documentação e informação de Moçambique), onde por acaso cheguei a trabalhar, antes de me decidir a fazer jornalismo. O Ricardo dirigia o CEDIMO e foi determinante o esforço que pôs neste trabalho para que um volume de fotocópias ou originais pudesse ter forma única na composição que se fez no início daquela empreitada. Importante e decisiva seria, também, a colaboração e o empenho de Júlio Navarro, que seria o autor do arranjo gráfico e acompanharia, depois, todo o processo de produção do livro.

A capa branca, com o título em magenta cobrindo-a inteiramente, encimada pelos nomes dos autores e com a chancela em baixo, vista hoje, como o próprio livro ou os acabamentos, parecem demasiado artesanais ou amadores, mas reflectem o melhor que se poderia fazer ou conseguir nas circunstâncias do país e das possibilidades que as gráficas poderiam oferecer. A impressão decorreu no CEGRAF. Vivíamos uma época em que conseguir papel para alimentar a edição de um simples livro era um acto que exigia muito – senão tudo! -, não só dos editores, mas também dos autores. Batíamos as portas das embaixadas pedindo apoio em papel ou computadores para fazer os nossos livros. Inclusive, chegámos a pedir ao Presidente da República apoio, numa visita que lhe fizemos. A sua resposta foi de antologia, mas não posso cometer aqui tal inconfidência. Quando os nossos livros eram então publicados, eram notícia de primeira página. Para os livros, para as revistas literárias, que então surgiram, para alimentar o nosso parco panorama editorial. Fazer um livro, nos anos 80, era um parto longo e dificílimo. Doloroso.

Para além de uma apresentação assinada pelos antologiadores, trazia um estudo da Fátima Mendonça que servia de prefácio. Os poetas apresentavam-se por ordem alfabética do primeiro nome, no final constava um apêndice biobliográfico – nome completo, pseudónimos usados, data e local de nascimento, formação académica, profissão e actividades, livros publicados e outras indicações, constituem este apêndice e, depois, um índice de autores, com referência de poemas e fontes bibliográficas, onde aparecia o autor e o poema, a fonte, a data da publicação e a respectiva página. Muito deste trabalho foi realizado no contacto pessoal com os autores. À distância destes anos, não deixo de verificar que este contacto (não só para confirmar dados, cruzar informação, mas sobretudo para obter textos, muitos inéditos seriam incluídos nesta antologia) foi das tarefas mais gratas que desempenhei na vida. Reuníamo-nos, amiúde, na casa da Fátima, num prédio da Julius Nyerere, com uma vista soberba sobre o Índico. Na varanda, ela tinha uma área de trabalho, onde guardava, sobretudo, fichas, com numerosa e importante informação que coligira na sua longa e distinta trajectória de investigadora, divulgadora e professora da literatura moçambicana. A Fátima Mendonça é uma pioneira estudiosa da nossa literatura. Há muito que merecia uma homenagem pelo extraordinário trabalho que realizou ao longo dos anos. Contudo, sabe-se: vivemos num tempo em que o desconhecimento, o descaso e a displicência imperam e ululam.

Para os incautos: Fátima Mendonça leccionou, na Universidade Eduardo Mondlane, entre 1977 e 2004, quando se reformou: Literatura Moçambicana, Literatura Comparada, Literaturas Africanas Comparadas, Retórica e Poética, Literatura da África Austral e Outras Artes. Foi examinadora externa nas Universidades do Zimbabwe e Durbanwestville e professora convidada nas universidades Patrice Lumumba (Moscovo), Rennies e Poiters (França), Salamanca e Santiago de Compostela (Espanha), Witwatersrand (África do Sul), Universidade de Coimbra e Universidade Nova de Lisboa (Portugal), Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro (Brasil). É autora de uma vasta obra ensaística: Literatura Moçambicana – as dobras da escrita (2012), Rui de Noronha: Meus versos (edição crítica da poesia de Rui de Noronha, 2006), Antologia da Nova Poesia Moçambicana (co-autoria, 1993), Literatura Moçambicana – a história e as escritas (1989). Co-organizou a edição da obra da Noémia de Sousa (Sangue Negro), organizou o livro póstumo Poemas Éróticos de José Craveirinha. É também co-autora de João Albasini e as luzes de Nwandzengele (2014).  Conferenciou sobre a nossa literatura em diversas cidades e universidades do mundo, em colóquios e congressos, redigiu ensaios críticos sobre a literatura nacional, é provavelmente a moçambicana com maior arcaboiço do percurso histórico da Literatura Moçambicana. Pretextos não faltam para a Universidade Eduardo Mondlane, o ministério da Cultura ou lá quem quer que seja fazer-lhe um reconhecimento público. Aqui fica o meu humílimo preito. 

Quando foi publicada a antologia, em 1993, António Pinto de Abreu, António Tomé, Brian Tio Ninguas, Celestino Jorge, Elton Rebelo, Fernando Manuel, Filimone Meigos, Gulamo Khan, Hilário Matusse, José Pastor, Julius Kazembe, Kalungano/Marcelino dos Santos, Leite de Vasconcelos, Luís Cardoso, Nelson Saúte, Noémia de Sousa e Simião Cachamba não tinham a sua obra publicada em livro. Destes autores, Brian Tio Ninguas e Gulamo Khan tinham morrido quando a antologia saiu. De Gulamo seria publicado postumamente Moçambicanto. Tio Ninguas permanece inédito em livro. Elton Rebelo (Júlio Bicá), Hilário Matusse, Leite de Vasconcelos e Noémia de Sousa faleceram muitos anos depois deste lançamento, mas viram antes serem publicados seus livros. Celestino Jorge e José Pastor morreram e continuam inéditos em livro. António Pinto de Abreu, Fernando Manuel, Filimone Meigos, Marcelino dos Santos (livro único), eu próprio, haveríamos de publicar diversos livros ao longo dos anos. Permanecem inéditos Julius Kazembe, Luís Cardoso (publicou um álbum de pintura) e Simeão Cachamba (tinha um livro pronto, mas não tenho notícia da sua publicação.).  Albino Magaia, Armando Artur, Calane da Silva, Carlos Cardoso (livro único), Clotilde Silva, Eduardo White, Hélder Muteia, Heliodoro Baptista, Jorge Viegas, José Craveirinha, Juvenal Bucuane, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Mutimati Barnabé João, Orlando Mendes, Rui Nogar, Sebastião Alba, Sérgio Vieira, FRELIMO (autor coletivo), completam o escol dos poetas escolhidos.

No lapso de tempo em que decorreu este trabalho, a quatro mãos, eu concluí o secundário, colaborara como jornalista cultural na Rádio Moçambique e no Notícias, fizera um curso médio de jornalismo, entrara para os quadros da revista Tempo, onde me tornaria, em 1988, editor da “Gazeta de Artes e Letras”, colaborara abundantemente na imprensa moçambicana. Um sonho que começara a porfiar aos 18 anos vi apenas concretizar-se aos 26 anos, em 1993. Muitas foram as vicissitudes, mas este trabalho foi em si uma espécie de um curso superior de literatura moçambicana (de poesia, no caso), que me permitiu ter um amplo conhecimento das obras, dos autores e das circunstâncias em que muitas delas foram produzidas. Muito devo ao convívio e ao trabalho, minucioso, diligente e informado, que tive com a Fátima Mendonça. Aprendi muito. Aprendo tudo.

Este trabalho iluminou, por assim dizer, o meu trabalho como jornalista cultural. A inversa é válida: o meu labor jornalístico também deve e muito a esta tarefa como antologiador. Muito ou quase tudo o que fiz como jornalista cultural foi divulgar autores – ler as suas obras, recenseá-las, entrevistá-los, anotar, discutir, polemizar. Esta foi a minha tarefa. Aprendi muito com o antologiador e este imenso com o jornalista. Quando, menos de uma década depois, o Nelson de Matos, meu editor na D. Quixote, me desafiou a organizar, primeiro uma antologia de contos (As Mãos dos Pretos), título emprestado a um belíssimo conto de Luís Bernardo Honwana, talvez o mais belo conto jamais escrito na nossa literatura e de poesia, depois, (Nunca Mais é Sábado – título emprestado a um soberbo poema de Rui Knopfli no notável Mangas Verdes com Sal), a minha tarefa e a minha diligência foram facilitadas pelo trabalho, conhecimento que travara, rede que estabelecera, empatia que tivera com autores e obras, o que tornou aquela empreitada menos difícil do que seria se eu não beneficiasse do trabalho de sapa realizado anteriormente. 

Falei em tempos à Fátima Mendonça da necessidade de revermos e reeditarmos esta obra: Antologia da Nova Poesia Moçambicana. O pretexto dos seus 25 anos em 2018 – foi editada em 1993 – poderia ser uma justificação incontornável. Até porque, depois de 1988, não só surgiram novos e belíssimos poetas – há outras ausências que o tempo histórico e as suas circunstâncias não nos “permitiram” incluir e que hoje estariam lá representados indubitavelmente -, assim como muitos de nós publicámos o melhor que soubemos e pudemos, ulteriormente, e isto poderia ser resgatado numa antologia tão ampla quanto significativa, como foi a tentativa daquela, sem dúvida, a primeira que se fez em Moçambique no período ulterior à independência, com a ambição e a relevância que tinha e que tem.

“Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo”, Friedrich Nietzsche

A morte é o recipiente inferior da ampulheta e os grãos de areia que inelutavelmente caiem nele somos nós, os seres humanos. A queda é iminente. Ninguém sabe se está perto ou distante do funil para boca da morte. Estamos todos misturados e distraídos com a fugacidade do mundo até que, de repente, o chão que pisamos se nos abre num abismo sem mais saída. E aqueles, que dispõem da sorte finita de colocar o pé num degrau rígido, voltam-se às pegadas da nossa vida para perceber “qual foi o destino traçado pelos nossos passos?”

Quanto menos cambaleantes tiverem sido os nossos passos na vida, mais nítida é a nossa existência no mundo. Se quisermos deixar uma memória concisa sobre nossa existência no cosmos, é mister que os nossos passos, em forma de decisões e acções, sejam tão consistentes quanto possível. Eis o poder existencial da consistência que não se nos afigura fácil de conquistar tal como qualquer outro tipo de poder. Para conquista da essência da nossa existência, mais do que carácter, é-nos preciso uma vida acorrentada aos princípios ético-morais, a virtudes ou à negação radical de quaisquer princípios – o que se chama nihilismo. Caso contrário, a nossa existência incorre no risco de ser medíocre, extinguindo-se connosco tão rápido quanto o abraço da morte. Os princípios ético-morais, aqui referidos, não têm de ser necessariamente valores convencionados pela sociedade. É-nos possível projectar a nossa essência para o mundo por meio da contra-cultura ou concepção subjectiva dos valores.

Todavia, o homem enquanto vivo está destinado à falibilidade de contemplar-se como projecto final. Tal falibilidade deve-se ao facto do fim da sua acção ser imprevisível, embora definida a sua intenção. Hannah Arendt já cogitara tal impossibilidade de homem conhecer a sua essência em vida, cabendo sempre aos terceiros biografar a sua identidade póstuma. Constitui, especialmente, um dever dos historiadores, escritores, poetas e artistas perpetuar a memória daqueles que em vida disseram e praticaram palavras e actos extraordinários testemunhados pelos homens.

Mesmo que o homem não chegue a se contemplar como resultado final do seu próprio projecto ainda vivo, a sua vida é digna de honra pela consistência com que se desdobrou ao longo do tempo. E para buscar-se uma vida d’honra, todos os homens dispõem das mesmas oportunidades, não importando as circunstâncias a que estão sujeitos. A condição sin qua non de uma vida d’honra inconfundível é a consistência nas palavras e acções. A dupla moralidade é própria de um homem medíocre que deixando se vitimizar pelas circunstâncias fugazes do mundo esvai o barro da sua vida sem nunca ter moldado o seu próprio ser. O aforismo “sou eu e as minhas circunstâncias” de Ortega y Gasset, quando interpretado como manifesto de um homem que busca definir o seu ser em função das circunstâncias, revela-se-nos uma filosofia de vida que ordena ao olvidamento constante de quaisquer traços ontológicos do homem ao longo de uma série de situações. Ou seja, na perspectiva de Ortega y Gasset, o ser humano é incapaz de construir-se ao modelo da sua vontade e pensamento, senão aos tentáculos das circunstâncias em que se insere. Ele é sempre chamado a adaptar-se ao espírito de cada circunstância, assumindo todas as contradições do seu ser que os momentos lhe impõem.  

Um homem de circunstâncias arrisca-se a experienciar a crise existencial que consiste na inquietante ignorância do seu propósito no cosmos. Embora extremamente profunda, esta dor metafísica pode ainda levar o homem a criar-se como um projecto que possa dar sentido à sua existência e, deste modo, curando-se dela. A existência com sentido obriga a vida a ser consistente, e é pela consistência que o homem liberta-se da crise existencial. Além do essencialismo e do existencialismo, o homem tem a terceira alternativa que consiste na redefinição da sua vida supostamente predestinada. O mais crucial já não é mais saber se, de facto, nascemos com um propósito ou devemos criar um, mas sim é manter-nos consistentes no que achamos que somos ou queremos ser.

Só a consistência é capaz de nos livrar de uma vida sem sentido. Que os pequenos desvios da vida cometidos por nós mesmos não nos sirvam como desânimos, mas sim como rascunhos do tipo de existência a partir do qual gostaríamos de ser lembrados.

Vais deixar que eu fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual à noite, calada e constelada.
Pablo Neruda

 

À

Mubayane Muianga, minha avó!

 

A rádio-boca inaugura hoje a rubrica Histórias Criativas. A primeira participante é Suaila, filha do casal Ginabay de Inhambane. Pretendemos promover a leitura de obras de autores moçambicanos. Os ouvintes interessados podem enviar uma carta à apreciação de incontornáveis nomes das letras do país, na residência circular da praceta, a Culpa Morre Solteira, na baixa da cidade.

Suaila escreveu, como ela nos confidenciou, o que leu e gostou e deseja sempre reler.

Eis o conteúdo da missiva dirigida a Hélder Faife:

 

Estimado escritor,

Primeiro gostaria de saber da tua rica saúde! As árvores do meu imenso pomar vibram. As areias de todo Nyambavale quase que se soltam pelos ares, neste momento em que me deito nestas palavras.

Vim revelar-te o que passei nos raros momentos do rico prazer, durante a leitura. Sabias que hesitei, debatendo-me com uma interrogação fundamental. Andei preocupada, pois até hoje ninguém da minha família sabe explicar por que razão um pássaro azul esboçava um cântico triste, no coqueiro grande do quintal durante todas as noites que eu rabiscava esta carta. Aquele fenómeno invulgar sempre acontecia quando o silêncio pincelava a tarde, mordendo o sol pelos calcanhares. E a sombra densa começa a guarnecer o nosso terreiro.

Como deves imaginar, meu escritor, não sou uma mulher de vacilar por assombrações. Nem vou ceder à pressa dos meus velhos, em casar-me cedo.

Gosto quando lês assim, acariciando a minha caligrafia na textura do papel. Eu e as árvores, dedicamos-te a alegria de ramos carregados de frutos. Não nos conheces de lado nenhum. E nem antes permitistes que te tratássemos por tu, neste tom inclinado. Fazemos isto porque precisamos de introduzir-te na mística da terra. A única coisa de Inhambane que imagino conheceres são as tanjarinas. Nesta época terás provado dessas tanjarinas vulgares que andam por aí na capital. E, mal de vocês enganados por oportunistas dizendo que são tanjarinas de Inhambane. Coitados!

Meu escritor, o que me leva a escrever-te é algo mais fundo como os tesouros que estão por debaixo desta terra. Estou deitada, olhando o céu, imaginando coisas. Bem gostaria de ver-te pendurado lá no alto do coqueiro. Contento-me apenas por ver-te nos caracteres que compõem o teu nome neste livro DE(S)DENHOS. Nem me perguntes porquê. Digo-te apenas que isso me preenche. Sinto-te aqui comigo. Só eu sei o que isto significa.

Sei que continuas aí expectante, por mais notícias. Vou contar-te um segredo. Sou a filha mais bonita dos meus pais. Tenho aqui uma fila de gatos-pingados, pedindo a minha mão em casamento. Decidi, então, saber a opinião de alguém que muito admiro. O que te peço, HF, é que a partir do que te escreverei, reproduzindo as intenções daquela gente, possas ajudar-me no razoável. Isto até incomoda-me, sabe.

Lembrei-me de um outro segredo muito meu. Todos os registos que esses parceiros-estratégicos pretendem publicar em livro sobre Zavaleni, a biodiversidade de todo litoral de Inhambane estão comigo. Tenho um manual de valor incalculável, com o registo de todas as canções chopes, todo o nosso imensurável património: a beleza dos lugares, os costumes das nossas gentes, o repositório do Tineve, Ntondo, Mwendje e coisas que não posso nomear. Isto é tão sensível como a polpa da madrugada. Até receio que esta gente da rádio-boca meta o nariz. Proponho-te um pacto: se chegares a meio na leitura da minha lista de coitados, poderei revelar-te as preciosidades que guardo no baú secreto. Está combinado?

 

Um beijinho,

Suaila Ginabay

 

Caros leitores,

Esperamos por mais novidades literárias na próxima edição de Histórias Criativas! Votos de boas leituras!

Saudações,

Celso Muianga

 

Quando, em Novembro 1990, parti para estudar em Portugal, levava na mala, entre outras coisas, uma providencial cassete de música moçambicana. À distância de quase trinta anos, já ninguém grava música em precárias cassetes. Era uma compilação abrangente da música moçambicana e recordo que tinha músicas que tocavam na rádio e eram na altura grandes sucessos: Ghorwane, Xidimingwana, Joaquim Macuácua, Wazimbo, José Mucavele, Avelino Mondlane, Alexandre Langa, Camal Gijá, Fany Mpfumo, Madala, Manecas Tomé, Magid Mussá, Aida Humberto, Ana Juliana, Eva Mendonça, Elsa Mangue, Elvira, Mingas, Guegué, Zena Bacar ou Resiana Jaime, eu sei lá! Tinha comigo outras cassetes, de outro tipo de música, que eu ouvia com devoção na época, e levava a impressionante gravação do “FMI”, do José Mário Branco, que o Álvaro Belo Marques, de grata memória, me dera a conhecer nos meados dos anos 80. Foram anos prodigiosos para a música e nós ouvíamos ou víamos os vídeos, nos vetustos Betamax, grandes sucessos como Michael Jackson, Diana Ross, Marvin Gaye, Freddie Mercury, Madonna, Prince, Tina Turner, George Michael, Lionel Richie, A-ha, The Police, Whitney Houston, Chris Isaak, Phil Collins, Scorpions, entre tantos outros. Cultivava também a música africana: Sam Mangwana, Mbilia Bele, Tabu Ley, Franco Rocherau, Manu Dibango, Salif Keita, entre outros. Debutavam então ou começavam a ser reconhecidos: Youssou N´Dour, Angelique Kidjo, Geoffrey Oryema, King Sunny Ade, Papa Wemba, Touré Kunda, Ray Lema, por adiante. Segui, de perto, o que a rádio dava e ela exercia um forte magistério nesse domínio. A TVE tinha poucos programas de música. Mas lá passavam, nos interlúdios, sobretudo, músicas moçambicanas. Ou concertos que iam acontecendo aqui. Recordo-me do programa de Jorge Morgado, que era um fã dos Jon Bon Jovi. Eu ouvia um pouco de tudo. Não tinha preconceitos.

O Simão Anguilaze, que tinha sido meu colega na Escola de Jornalismo, entre 1987 e 1988, e o Teodósio Bule, que iria formar-se em Economia, foram meus companheiros de viagem e de aventura nos sete meses que iria expender em Chaves. Iam no avião outros bolseiros, entre eles o Gabriel e a Maria Cecília, desaparecida precocemente. Ambos foram para Vila Real. O nosso destino final era Lisboa (eu e o Anguilaze) ou o Porto (no caso do Teodósio, do Gabriel ou da Maria Cecília), mas antes tivemos de cumprir uma espécie de penitência numa escola secundária longe daquelas duas cidades.

Apesar de eu estar no 2º ano na Universidade Eduardo Mondlane, fui obrigado a fazer a 12º ano e lá colocaram-me em Chaves. Chegámos à meia-noite e abrigámo-nos na primeira pensão que encontrámos disponível. Havíamos de lá permanecer aqueles meses todos. A viagem, na altura tortuosa, levava umas 10 horas de autocarro da antiga Rodoviária Nacional. Isto depois de uma viagem de 10 horas de avião! O Eugénio Lisboa ficou escandalizado e ainda tentou intervir quando soube que eu ia passar por aquela provação lá para o fim do mundo, mas disse-lhe que não valeria a pena gastar munições com isso. Se fossem necessárias, iríamos usá-las noutras frentes. As aulas começavam em Setembro e nós já íamos com atraso: estávamos em Novembro. Fiquei, por conseguinte, sete meses em Chaves e foi um tempo de uma longa espera. Um tempo de leituras, sobretudo. Boas leituras. Recordo que li bons livros, de bons romancistas, sobretudo americanos, como John Steinbeck ou Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald ou John dos Passos, Truman Capote ou Mark Twain. Ainda com a mania de ler só americanos naquela época.

O homem da tabacaria, que ficava na praça central, emprestava-nos o jornal Público todos os dias, no final da manhã, e devolvíamos o jornal lido ao final do dia. Era de uma grande generosidade. Tenho pena, mas não me lembro do nome dele. Ficávamos, por vezes, muitas vezes, a conversar, longamente, com ele. Tinha tido um passado africano, mas não era daqueles tipos chatos que ficavam o tempo todo a assombrar-nos com os seus fantasmas de África. Nada disso. Não me queixo do tempo que ali passei, por conseguinte. Acabou sendo um tempo bastante proveitoso. Conheci muito boa gente. As pessoas em cidades pequenas têm outra atitude, dão-se connosco, somos visíveis. São capazes de ter ou desenvolver afecto com forasteiros. É o caso da D. Maria do Céu, lá da escola, que nos tratava como se fôssemos seus filhos. Havia uma canção – “Não há estrelas no Céu” – cantada pelo Rui Veloso, que era um sucesso estrondoso na época. Eu brincava com a D. Maria do Céu fazendo o trocadilho da música. Um dia fiz-lhe um poema: “Não há Céus nas Estrelas!” Ela comoveu-se com esse carinho. Aqui há muitos anos, fomos a Chaves e ainda encontrei a D. Maria do Céu.

Comíamos na escola durante o dia e à noite numa tasca familiar, numa rua oposta à nossa pensão, onde geralmente chegávamos justamente à hora do telejornal – às 8 da noite. Comíamos ali a crédito e pagávamos no fim do mês ou quando podíamos ou quando chegavam os parcos escudos da nossa bolsa. Quando vinha a bolsa, metíamos a caderneta da Caixa Geral dos Depósitos – era o tempo das cadernetas! -, sacávamos o dinheiro e pagávamos as contas, que incluíam o serviço do quarto na pensão – que eu dividia com o Bule e o Anguilaze – e outras despesas como lavandaria. Mas às vezes ficávamos meses sem bolsa. A minha namorada vivia em Madrid e, por vezes, mandava-me de lá umas valiosíssimas pesetas, que davam para equilibrar as contas, sempre periclitantes. A vida de estudante bolseiro é assim: dificílima. 

Quando dava para isso, aos sábados, comprávamos o Expresso, que líamos com devoção ao largo do Rio Tâmega, numa esplanada ensolarada, à espera da hora de comer o nosso sacramental cozido à portuguesa, que aquela família acolhedora e com um vocabulário bastante ilustrado pelo vernáculo e algo inusual para nós – praticavam sem rebuços a língua portuguesa entre eles! -, diligentemente fazia aos sábados. Nunca me esqueço de um belíssimo artigo da Clara Ferreira Alves que li, num desses sábados de sol ao largo do rio, – era Primavera! -, sobre Graham Greene, quando este morreu, em Abril de 1991. Grande Graham Greene! Não teve o Nobel. Também não o deram a Jorge Luis Borges. Ou a tantos que o mereceriam como o Carlos Drummond de Andrade. Grande artigo aquele da Clara Ferreira Alves! Nunca mais me esqueci desse belo escrito da Clara. Muitos anos depois tornámo-nos amigos e eu nunca lhe contei esta história.

Foi quando aconteceu a “Tempestade no Deserto”, uma ofensiva militar, iniciada a 17 de Janeiro de 1991, liderada pelos EUA, que combinava efectivos de dezena de países aliados contra o Iraque, que invadira o Koweit em Agosto de 1990. A rendição dos iraquianos ocorreu a 28 de Fevereiro de 1991. Os nomes dos generais americanos eram comuns nas nossas conversas, fosse Norman Schwarzkopf ou Colin Powell, que merecia – não sei porquê – o nosso entusiasmo. Saddam Hussein fazia parte das nossas conversas ou Tariq Aziz, que teve aquela famosa “boutade” sobre a possibilidade da guerra numa entrevista antes da saraivada de bombas sobre Bagdad: “Fifty fifty”, dissera ele: “Se os americanos quisessem, haveria guerra. Se os americanos quiserem, haveria paz”. Víamos com devoção a CNN, a estação global, e as reportagens do Peter Arnett em Bagdad, com explosões e sirenes, atrás de si, e Bernard Shaw, outro dos nossos heróis, nas suas aparições no famoso hotel Al-Rashid. E lembro-me do Carlos Fino, que encontrei, muitíssimos anos depois, numa festa literária em Ouro Preto, e estivemos à conversa sobre esse tempo impetuoso. Conhecia-o quando era correspondente da televisão pública portuguesa em Moscovo, na turbulenta era do Gorbatchov e aquando do golpe do Ieltsin. Ocorrera antes o eclipse da Dama de Ferro, Margaret Thatcher, e de Londres chegavam notícias das lutas fratricidas para a suceder. Helmut Kohl era o homem todo-poderoso da Alemanha. A América tinha o Bush pai. Nós vivíamos a discutir política internacional e a ler os artigos sobre o que se passava naquele mundo que para nós era um mundo extraordinário. O mundo que a CNN tornara uma aldeia. A chamada aldeia global. Um tempo empolgante. Na África do Sul escrevia-se um breviário empolgante da liberdade, facto não isento de tragédia que ensombrava a empresa de Nelson Mandela. Hoje já ninguém se lembra da refrega dos Zulus e do seu chefe tribal Mangosuthu Buthelezi. Eram tempos fascinantes aqueles anos 90. Em Moçambique insinuava-se um caminho para a paz. A guerra não era apenas uma metáfora nos nossos escritos ou uma alusão idílica nos dias de hoje, de amnésia e displicência em relação à memória. Havia massacres e a sua crueldade era absurda. Como explicar que a receita para fazer um herói tenha sido tão subvertida? Adiante. África debatia-se com os seus dramas, dilemas e chagas. Passam três décadas.

Quando recolhíamos ao quarto, muitas vezes, quase sempre, eu punha, com a adesão e entusiasmo de todos, a minha cassete no meu pequeno gravador/reprodutor Sony. Ouvíamos compungidos aquelas músicas que sublimavam as nossas saudades de casa, da família, da terra. Havia, entre aquele impressivo cancioneiro, uma música que nos empolgava a todos: “Dadinha”, de Joaquim Macuácua. Creio que nos sete meses em que permaneci em Chaves devo ter ouvido, quase todos os dias, aquela música de Macuácua. Depois de Chaves, eu e o Anguilaze fomos para Lisboa, para a Universidade Nova, cursar Ciências da Comunicação; o Bule foi para o Porto, onde estudou Economia; e a minha cassete, entretanto, ter-se-á perdido não sei onde. Perdi outros precisos objectos. Dei emprestado e nunca tive de volta a cassete que tinha gravado o “FMI”, do José Mário Branco, e um exemplar do romance Mayombe, do Pepetela, que tinha marcado a minha juventude, depois de As Aventuras de Ngunga, que me fizeram sonhar, através de uma adaptação para a “Cena Aberta”, feita pelo inesquecível Né Afonso. Muitos anos depois comprei o CD Ser Solidário onde vem aquele poema vibrante “FMI”. Escusado será dizer que voltei a comprar o Mayombe. A última vez que estive com Pepetela, o que ocorreu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, também numa festa literária, em 2014, pedi-lhe que me autografasse o exemplar daquele soberbo romance que tinha um significado literário irrefutável, mas sobretudo uma carga emocional muito grande para mim. Esquecer-me-ia assim definitivamente daquelas perdas de Chaves.

Não oiço “Dadinha” há, seguramente, mais de vinte anos. A rádio, nos anos 90, dava muito essa música. Suponho que continue a dar. Mas também deixei de ouvir rádio e não tenho podido ouvir muitos dos músicos moçambicanos. Há pouco, quando me lembrei de “Dadinha”, consultei o livro Marrabentar e não encontrei nele referência alguma. O Amâncio Miguel vive hoje nos Estados Unidos. Vi que estava online e mandei-lhe um WhatsApp – são os tempos modernos. Pergunto-lhe se o Macuácua está vivo. Diz-me que já morreu. Tanto músico morto, respondo-lhe. Há quase 13 anos publiquei, na Marimbique, o livro compilado e organizado pelo Amâncio, este Marrabentar, onde se biografaram muitos músicos moçambicanos. Não está o Joaquim Macuácua. Também procurei o João Cabaço e não estava. Estão o Arão Litsure e o Hortêncio Langa. Curiosamente, não se referem a Cabaço. Duas grandes referências afectivas para mim – Macuácua e Cabaço. Tenho de desafiar o Amâncio a fazer uma edição nova deste Marrabentar, revista e acrescentada. Falta-nos bibliografia neste domínio. Ou um dicionário da música moçambicana.

Por que razão me lembrei esta noite da música “Dadinha” do Joaquim Macuácua, um músico muito famoso nos anos 90 e que me acompanhou, durante a minha penitência de sete meses, em Chaves? A razão próxima é que eu queria escrever sobre um músico moçambicano. Tenho ouvido ultimamente e recorrentemente os Ghorwane e sobretudo Pedro Langa e Roberto Chitsondzo. Gosto muito dos Ghorwane na voz do Pedro Langa. Como olvidar “U Yo Mussiya Kwini”, “Massotcha” ou “Mamba Ya Malepfu”? Sou um indefectível do Chitsondzo. Oiço-os impenitentemente desde “Akuhanha” dos anos 80 até “Mussakaze” de hoje. Um dia escrevo sobre eles. Lembrei-me de Zaida Lhongo, que era famosa nos tempos em que retornei à Pátria, meados de 90, sobretudo por “Zabelani” ou “Alfândega”, “Sibo” ou “Sifa si Dlheli”, mas não me lembrava de nenhuma narrativa que me ligasse à sua voz, embora eu adorasse Zaida, sobretudo a sua performance em palco. Recentemente vi uns vídeos seus na Internet e recordei-me da sua iconoclastia. A despeito, “Dadinha”, na dilacerada voz de Joaquim Macuácua, impôs-se-me: lembra-me um tempo de espera, em Chaves, entre finais de 90 e meados de 91, que aproveitei atirando-me à leitura de romances americanos, sobretudo os da geração perdida, lendo jornais e acompanhando empolgado a guerra do golfo e os seus efeitos na CNN e exultando com Bernard Shaw, o famoso anchor man preto, talvez o primeiro entre os mais famosos, sonhando com o dia em que aportaria na Universidade Nova de Lisboa para fazer Ciências da Comunicação, um curso que estava na moda e que me levara a Portugal, onde me atardaria 5 exultantes anos da minha vida.

 

 

 

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