O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

Não, não e não. Recuso-me a aceitar o silêncio do governador do Banco de Moçambique, enquanto dirigente máximo da instituição com maior número de acções na Sociedade Interbancária de Moçambique (SIMO): 51%. É um silêncio covarde para quem nos habituou a frontalidade, independentemente de elogios, críticas ou ainda dimensão da tempestade.

Passam três dias que o país vive um apagão na infra-estrutura de pagamentos electrónicos da rede SIMO, causando danos sem precedentes aos moçambicanos que aderiram à tecnologia para movimentar dinheiro. Empresários a somar prejuízos, clientes de bancos forçados a usar os seus recursos financeiros à moda antiga e o país numa abrupta marcha atrás.

Um retrocesso com efeitos socioeconómicos em cascata, considerando as estatísticas das transacções financeiras nesta rede. Um cenário sombrio que não comove as mais altas estruturas desde país, até mesmo quando se belisca a soberania do Estado.

Rogério Zandamela, que seguramente conhece muito bem os contornos deste negócio, assim como tem influência nas decisões tomadas, optou pela mão dura nas negociações com o provedor do sistema, mas não foi assertivo nas consequências: o risco de colapso do sistema financeiro. Só agora, há indícios de migração massiva para o único banco que por força da sua grandeza não tinha, ainda, aderido a este sistema. Depois ouvir que não há solução à vista para este problema e possíveis soluções apontarem para médio e longo prazo, escuso-me de pensar no resto…

Não se coloca em dúvida a inteligência e experiência do governador do Banco de Moçambique, de tal forma que era expectável que fosse o próprio a argumentar o porquê de uma negociação que data de Abril deste ano ter culminado com este apagão no sistema.

A administração da SIMO, a quem coube abordar este problema da Nação, foi clara em esclarecer que as exigências da empresa provedora do software tinham impacto financeiro e outras punham em causa a soberania do Estado. Olha, quando se belisca a soberania de um Estado no mínimo é ver respostas vindas do topo da estrutura, no caso, do governador do Banco de Moçambique e, por que não, do Conselho de Ministros e até mesmo do Presidente da República.

O silêncio sobre os detalhes do contracto entre a SIMO e a Bizfirst, conjugado com a informação a conta-gotas que nos chega, nomeadamente, da cedência de uma das exigências atinente à actuação exclusiva do provedor desde Agosto deste ano, leva-nos a crer que existe muita sujeira por limpar debaixo do tapete.   

O comunicado emitido este domingo pela empresa chantagista, como apelidou a PCA da SIMO, requer esclarecimentos urgentes, pois descredibiliza toda a comunicação nacional, que agora fica com a fama de mentirosa, até nova defesa.

Para já, o TPC para a próxima conferência de imprensa: que não seja uma ilustre desconhecida a falar sobre assuntos que põem em causa a soberania do Estado; que se explique por que optamos por esta empresa e aceitámos as condições que hoje nos amarram; que tipo de contrato foi celebrado com a Bizfirst; por que depois da primeira paralisação, em Junho e Julho, não tomámos as providências necessárias para evitar o apagão; por que forçámos os bancos a aderirem a este serviço; que limitações temos em encontrar alternativas seguras…

O equinócio de Março acabava de visitar Lisboa e consigo tinha trazido a Primavera. Frágil como uma mulher que acabava de dar a luz, mas ali estava ela. Algumas folhas preguiçosas iam esverdeando as árvores. A noite que noutros tempos nascia e morria cinzenta, frígida, e, quiçá, desinteressante, se mostrava reconciliada com a cidade.

Quando vivemos momentos como este, não vemos o que vivemos. Os pés desconhecem o chão e tudo que nos rodeia parece ser engolido apenas por um querer sentir que nos possui sem talvez ou sem chance de outra vez.

O semblante matreiro de Zé Manel acendia quando cambaleante descia a rua. Já há muito lhe fazia falta uma Lisboa como aquela.  Entre jolas e fados do Bairro Alto, Lisboa se lhe tinha feito brilhar a luz do luar.

Minutos antes Joaquim, seu copincha, tentava convencê-lo que a noite parecia ter dado tudo que tinha para dar, contudo desde que chegara ao "Maria Caxuxa" que Zé Manel colocara na cabeça que aquela noite seria uma daquelas dos marinheiros. Acaba quando não mais há lua e só revela os seus encantos se a falarmos coisas doces aos ouvidos.

-Nada mais temos aqui a fazer, compadre!- Disse Joaquim fazendo sinal que era hora de abandonar o bar "Maria Caxuxa".

-Eu já disse que esta não era noite para paneleirices, Jaquim! A noite só acaba quando o sol nascer… – gritou Zé Manel enquanto encaminhava o copo de cerveja à boca.

-Tenho dito compadre, esta Lisboa já não é a mesma… – Respondeu Joaquim com um ar resignado.

-Tu estás é com a jola a te subir os cornos! Isso é transmissível! – disse Zé Manel interrompendo a fala com pequenos, mas fortes, risos de mofa. – Prefiro ser eu a te deixar, que tu a me deixares. Vou-me embora, vou descobrir essa noite que ainda anda pela cidade abaixo.

Zé Manel encheu o peito de ar, ganhou força, levantou-se e começou a descer a rua cambaleante. Ainda ao longe vira aquilo que o fizera dizer, como se se congratulasse:

– E agora a cereja no topo do bolo!

Estava ela de costas ao fundo da rua com uma saia que deixava o vento noturno se deleitar das carnudas pernas brancas. Os cabelos compridos quase que tocavam o traseiro arrebitado. O salto alto que calçava a dava um ar de senhora da noite.

Como que impelido por alguma força sobrenatural Zé Manel esforçou-se para aumentar o passo sem se dar o luxo de sentir o tempo acontecer. Quando deu por si tinha as mãos no traseiro da "senhora da noite" e sentiu a respiração cessar ao ouvir uma voz masculina dizer-lhe:

– Cinquenta euros-meia hora.

Foram milhares de quilómetros percorridos, por pessoas com experiências e ideias diferentes, foram milhões de meticais consumidos. Marcaram-se muitos golos, não tantos quantos os desejáveis e até expectáveis, mas aconteceram jogadas e momentos dignos dos maiores estádios do mundo.

Nas bancadas, viveram-se emoções ao rubro, com abraços e afectos, novas amizades e conhecimentos, propiciadores de ideias para novos negócios. Os vendedores formais e informais, foram fazendo os seus negócios.

É o Moçambola, a maior competição futebolística interna, que chegou ao fim, nesta temporada, com ganhos difíceis de quantificar e até qualificar.

PASSOS A DAR

Com o mesmo ou com um novo figurino, algo mais poderia e deveria ser projectado nas componentes da recolha, troca e transmissão de experiências e conhecimentos, pois nessas perspectivas e tendo em conta até o investimento, o saldo é negativo.

Vejamos alguns factos: metade das 16 equipas, semanalmente na condição de visitante, movimentam 20 jogadores e técnicos, mais os dirigentes e pessoal de apoio, qualquer coisa como 30 elementos, o que totaliza 240 pessoas. Elas viajam e aterram em vários lugares do país, para alguns totalmente desconhecidos.

A pergunta é: o que lá deixam (ou levam), para além dos pontapés na bola e queixas das arbitragens?

Por serem adversários, antes dos jogos torna-se aceitável que procurem resguardar conceitos e outros trunfos, dos adversários. Mas porque não se verificam contactos em áreas sociais e do conhecimento, focados nos benefícios da troca de ideias e conceitos a serem partilhados, sem que isso interfira na competitividade que se pretende?

Faltam visitas a locais de interesse histórico, político e social, contactos com culturas, hábitos e formas de vida diferentes das do seu dia-a-dia. Elas trariam um enriquecimento cultural grande aos componentes de cada delegação, algo que nem todos podemos alcançar, pela dificuldade de nos deslocarmos pelo país, com a facilidade que o Moçambola proporciona aos seus protagonistas.

De premeio, palestras envolvendo treinadores, médicos, massagistas e dirigentes, claramente “mais valias” que justificariam e “dariam força” ao investimento.

Agora que a época terminou, seremos bem capazes de ver clubes, a gastarem valores avultados para que técnicos envolvidos no Moçambola se desloquem para locais onde já tinham estado, a fim de darem cursos ou palestras!

É incompreensível, mas real, que há jogadores que se deslocaram a várias províncias, várias vezes, mas acabam por voltar sem os conhecimentos básicos das danças, iguarias ou hábitos culturais desses locais. Faz sentido?

Disse o Presidente Nyussi que o Moçambola é um factor importante de unidade nacional. Por isso, importa reforçar esse papel, indo para além dos muitos pontapés na bola fora de casa!
 

Mzeno Wa Melekwane

 «O futebol profissional é algo parecido com uma guerra. E quem se comporta de maneira muito gentil perde».

Rinus Michels

(1928-2005)

Singela homenagem a Míster Baba!

                  (1964- 2001)

No dia que cheguei atrasado ao muro descobri muitos outros companheiros, que para além de mim, todos os sábados se dedicavam a assistir aos treinos de futebol no campo da São Gabriel. Um senhor de casaco preto, funcionário do Conselho Executivo da Matola tinha abandonado a viatura encostada ao passeio, com a chave na ignição. Talvez movido pela curiosidade, a gritaria, os aplausos que choviam na assistência. A senhora que vendia arrufadas e sumos aos jogadores e à assistência. Um velhote batia palmas ao sabor dos malabarismos da rapaziada. O madala todo entretido pelas jogadas frenéticas, exibindo um par de marfins escassos e uma careca reluzente.

Mister Baba, ao centro dava instruções rodeado por jogadores, de rostos suados depois do aquecimento. Há medida que ia falando, o míster dividia os pupilos em grupos, criando sete equipas. Para além destes havia o grupo de guarda-redes: Euclides, Mitó, Avelino e Elias.

O dia era de um sol fulgurante. Míster Baba, de fato de treino, apito pendurado ao pescoço, sapatilhas, uma prancheta debaixo do braço e um boné à cabeça. Os místeres Baba e Nino orientavam a movimentação dos jogadores, ensaiando jogadas diversas, explorando jogadas pelas laterais, em movimento ofensivo. Um outro grupo de jogadores, na faixa central, esmerava-se no plano defensivo. A cada jogada mal feita o míster Baba interrompia, dava instruções, aconselhava, insistindo sobretudo com a condução da bola rente ao chão. O míster recomendava repetidamente a prática do cruzamento em queda caso a bola fosse lançada em velocidade junto à linha. Isto permitia que a bola ganhasse altura ao ser cruzada. Assim o atacante ou defesa haveria de receber a bola, com potência suficiente para cabecear à baliza ou aliviar, dependendo do interveniente que ganhasse o esférico.

Um outro grupo, junto à baliza da parte norte fazia uma peladinha. Jogava à bola rentinha ao chão, como fazem as galinhas debicando os grãos sobre a terra: GALINHA COME NO CHÃO. Um, dois toques, depois o portador fazia o passe. A bola é trocada entre os colegas, pressionados pelos adversários de ocasião. Os grupos distinguiam-se por haver uns vestindo coletes amarelos, com inscrição OBSERVADOR NACIONAL. Os outros envergavam camisetes brancas.

Míster Baba desdobrava-se, incansável e paciente entre os grupos. O mestre preocupava-se com a postura do jogador ao transportar a bola, a marcação de jogadas rápidas, cantos curtos, a técnica de bloqueio, a astúcia dos defesas perante a ratice dos avançados. O treino era um regalo de se ver, sobretudo pela idade dos executantes, a rondar entre 11 a 14 anos. Corria o ano 1994. Aos treinos a rapaziada levava pastas, porque para além da roupa para mudar era preciso levar cadernos para apontamentos técnicos-tácticos e cultura-geral. O míster queria que todos jogadores dominassem os rudimentos do futebol, desde as medidas do rectângulo do jogo ao mínimo detalhe. Baba leva ao extremo a influência do futebol total de Rinus Michels.

Ubaldo Muthambe, mais conhecido por Míster Baba decidiu abraçar o projecto da escola de jogadores GALINHA COME NO CHÃO, após o seu regresso de Angola onde cursara petroquímica. Baba fundou a equipa de futebol PROGRESSO, enquanto prosseguía com os estudos tendo se formando em sociologia. Os místers Baba e Nino recolheram, desde os irmãos, sobrinhos de casa, aos vizinhos, andando por vários bairros da cidade da Matola para iniciá-los no ofício da Bola. No campo da Igreja São Gabriel treinavam iniciados, juniores, seniores, uma equipa feminina e até veteranos todos sob o olhar tutelar de Míster Baba.

Olga Muthambe, irmã que acompanhou-o de perto revelou que Baba foi influenciado por um vizinho da família Calado na mítica Mafalala, onde nasceu no 1.º de Maio de 64. Uma influência que obviamente se estendia a craques da Mafalala e outros subúrbios que já jogavam em Portugal, isto para não falar de Hilário, Coluna, Matateu Mário Wilson, Eusébio, Vicente, Armando Manhiça e outras vedetas. A família Muthambe saíu da Mafalala para viver na Matola no ano que a selecção holandesa, orientada por Rinus Michelis sagrou-se campeã mundial, com Cruyff à cabeça do carrossel da laranja mecânica, em 1974.

Voltando à peladinha, o médio ofensivo Baggio, depois de receber um passe do Bónswa, passou por Marito e Parmalat, fez um passe ao Tujó, que ao primeiro toque soltou a bola para o Nelson. Este desceu pelo flanco direito, já em queda cruzou para a área de rigor. Germano amorteceu a bola com o peito para Ravanelli que finalizou, em habilidade na baliza improvisada, perante o olhar desolado de Popescu. Era este encanto que me convocava reliogiosamente, ultrapassando a geografia dos meus desejos. O muro estava inudado de espectadores.

Uma das maiores virtudes do mister Baba era o ensino da atitude correcta ao jogador, com ou sem bola, o aperfeiçoamento das jogadas, o ensino da paixão pelo jogo. O míster Baba ensinava com primor, tanto ao sol, à chuva, ou ao vento, com a mesma paixão com que abraçava efusivamente aos seus pupilos na celebração do golo ou de jogadas bem-feitas. O Míster transfomou-se numa figura icónica da Matola. Para além do treino ampliou os quintais das famílias matolenses, unindo mais de quinhentos jogadores, entre crianças, jovens e adultos.

A paciência característica do Míster Baba contrastava com a cólera quando um jogador falhasse um lance, numa atitude desinteressada ele explodia:

-Onde dormiste ontem? Passaste a noite lá no Macopeni com a tua avó? Sai daí mesmo, cabrão!

E de onde estivesse o visado já sabia que devia dar três voltas ao campo antes de ocupar o lugar no banco de suplentes.

Podia ter dissertado uma tarde inteira sobre o míster Baba. E, tal como disse o Bónswa numa conversa recente, o míster era um professor da dimensão de um Carlos Queiroz. Pena que teve pouca sorte e o magnetismo que nos fazia inundar o campo da São Gabriel perdeu-se com a sua morte em 2001, aos 37 anos. Eis que resgato o Poeta Rui Knopfli neste «precário registo das palavras», que pretendem ser provas guardadas, de poder e sabedoria de um cidadão verdadeiramente admirável.

 

 

Nos últimos anos os moçambicanos têm estado a discutir de forma intensa sobre que tipo de país, que tipo de Estado e que tipo de Nação ou Pátria estamos a construir ou queremos construir. O objectivo principal de qualquer Estado é prover o bem-estar dos seus sócios, os cidadãos. E isso é feito por uma correcta gestão da coisa pública e da criação de condições para que cada cidadão desenvolva suas habilidades e contribua de forma decisiva para o crescimento e desenvolvimento do Estado.

Os melhores Estados não são na minha óptica aqueles que têm economias mais fortes, para mim são aqueles que são desenvolvidos. Aqueles que garantem que cada um dos seus cidadãos têm acesso a melhores cuidados de saúde, melhor educação e tem renda suficiente para garantir habitação, alimentação e outras condições condignas. Ou seja, qualidade de vida aceitável.

Pelo que os esforços de um Estado não pode ser apenas conseguir ter maior crescimento económico entre outros indicadores económicos, tem que ser sempre o quanto conseguiu garantir que menos pessoas vivem na miséria, menos pessoas estão no desemprego, menos pessoas morrem por causas evitáveis, isto incluindo crianças e mulheres grávidas.

Alguém pode dizer que isto é socialismo ou comunismo. Mas não é. Todos nós contribuímos através de impostos para o funcionamento do Estado para que este possa desenvolver um conjunto de acções que nos garantam um bem-estar comum. Por isso, quem dirige o Estado deve ter em primeiro lugar a consciência de que no final de cada dia do seu mandato tem de ter tomado decisões que vão ao encontro dos objectivos pelos quais o Estado que dirige foi criado. Melhorar a forma como os que o mandataram vivem.

10 de Novembro vamos inaugurar a Ponte Maputo-Katembe. Possivelmente é a maior infra-estrutura que construímos desde que estamos independentes. A pergunta que me coloco é se conseguimos com a construção daquela infra-estrutura fazer com que os moçambicanos aprendam a construir empreendimentos daquele tipo e dimensão? A ponto de passarem a faze-lo dentro do país ou contratados por outros países para fazê-lo? O dinheiro investido naquela obra, que é um empréstimo que vamos todos nós moçambicanos pagar, serviu para dinamizar a economia local, através de pagamento de salários aos trabalhadores, da aquisição de bens e serviços como por exemplo: pregos, arames, madeira, aço/alumínio, ferro de construção, equipamento de protecção, maquinarias e viaturas para construção, catering, entre outros utilitários. Ao que tudo indica não tivemos esses ganhos todos à excepção do cimento, pedra e areias que foram adquiridos localmente.

No meu entender são projectos âncoras como o Projecto da Ponte Maputo-Katembe, as Estradas de Ligação e a Estrada Circular que custaram mais de Um Bilião de dólares norte-americanos que impulsionam o desenvolvimento económico de um país, distribuem a renda porque fazem com que as Pequenas e Médias Empresas ganhem robustez e empreguem cada vez mais pessoas e adquirem conhecimento e tecnologia para continuarem a crescer, para além de pagar impostos.

Os ganhos de obras como aquelas não estão apenas a posterior da sua construção, o país deve tê-los já desde a sua concepção, desenvolvimento, implementação e depois na operacionalização.

A mesma pergunta acima faço em relação às chamadas dívidas ocultas. Que ganhos o país tirou delas? Não é mau um país contrair dívidas, mas elas devem realmente servir para o desenvolvimento dos países. Tivemos naqueles projectos da EMATUM, MAM e ProÍndicus uma soberana oportunidade para desenvolver no país a indústria de construção naval, para não falar da indústria de pesca e processamento do atum e de protecção costeira. E agora a dívida vai ser paga por esta e próximas gerações sem ter servido praticamente em nada o Estado Moçambicano.

E o dinheiro para pagar a dívida vamos buscar nas receitas do gás. Por acaso nem vejo mal nenhum porque devemos pagar de qualquer jeito e o dinheiro vai ter que sair de algum sítio. A minha grande preocupação é se nós estamos preparados para não mais cometer esses erros todos com os projectos de exploração do gás natural?

Por exemplo a Noruega descobriu petróleo nos finais da década 60 e iniciou a sua exploração nos inícios da década 70. A exploração era feita pelos americanos. Mas os noruegueses que não tinham capacidade nenhuma aliaram-se aos americanos e aprenderam durante o processo de pesquisa e exploração do petróleo e desenvolveram capacidades que hoje eles vendem serviços em quase toda a cadeia de pesquisa, exploração e processamento de hidrocarbonetos e isso gera rendas muito altas para o país.

Ou seja, por mais que o petróleo acabe na Noruega eles estão em condições de ir explorar noutros países, aliás o fazem aqui mesmo em Moçambique e podem prestar assistência aos outros países através do conhecimento que desenvolveram até para construir plataformas.

Se queremos desenvolver os moçambicanos é este tipo de apostas que o nosso Estado deve fazer. A nossa aposta não deve ser apenas em extrair os recursos ou construir infra-estruturas. A nossa aposta deve ser sobretudo desenvolvermos conhecimento e adquirirmos tecnologia que nos permita termos capacidade para nós próprios pesquisar, explorar e processar hidrocarbonetos ou outro tipo de produtos e vender essa capacidade para as outras nações.

O mesmo para o grafite que é praticamente o petróleo do futuro, já deviamos pensar no processamento interno e em fábricas de baterias e nos tornarmos líderes mundiais no fornecimento de baterias para viaturas eléctricas. Isso é que desenvolve um país e as pessoas.

O desenvolvimento deste tipo de capacidades vai implicar necessariamente investir seriamente nos moçambicanos porque essas capacidades são possíveis adquirir quando as pessoas têm boa saúde, são bem nutridas desde bebés, têm acesso a uma educação que estimula todas as suas capacidades cognitivas e no fim poderão sozinhas gerar renda para se sustentar.

Todos países que são hoje ricos e desenvolvidos um dia foram pobres e miseráveis. Mas chegou o dia em que perceberam que a pobreza não era seu destino e que depende deles mudarem o curso das coisas e desenvolverem seus países e povos. E essa decisão parte de quem dirige o Estado e conduz a sociedade para trabalhar pela prosperidade.

E no nosso caso devemos sempre nos envergonhar ser pobres porque Deus deu-nos tudo para sermos ricos, falta-nos é apenas conhecimento e vontade para transformar estas potencialidades em riqueza que beneficia a todos. Pois isso é possível só depende de nós. Senão Cuba não seria o único país tropical que não têm doenças tropicais como a malária, cóleras, diarreias, etc. Senão Coreia do Sul, Japão, todos Países Nórdicos seriam até hoje pobres.

 

Conquistas, derrotas e lutas. Esta é a trindade que define o carácter de Paula Chonguene, protagonista do primeiro livro de Cri Essencia. Na história que faz Em busca do mar certo, a autora moçambicana residente em Londres, capital inglesa, desenterra do seu âmago interior lições de vida, daquelas que se geram em pessoas destemidas, casmurras e determinadas.

É um livro de vivências intensas este que Essencia, e não Essência, publica como que para desabafar, purificar-se e, quiçá, o mais importante, motivar quem se encontra entre o desespero e a revolta, o ódio e o inconformismo. Estes aspectos todos, acumulados numa única personagem, oriunda de um país humilde a tentar ser gente na Europa, fazem de Paula um sujeito além do comum, dona das suas próprias metas quase intransponíveis. Esta condição confere à narrativa muitos sonhos ousados acompanhados de desfechos imprevisíveis, e, à medida que os eventos são revelados por uma narradora autodiegética, por integrar na história que narra como personagem principal, daí contar as peripécias na primeira pessoa do singular, há uma espécie de amargura a transcender o texto, podendo, por essa razão, ferir as sensibilidades do leitor. 

Em busca do mar certo é uma história que mistura muitas realidades: tradição, feitiços, subalternização da mulher, machismo, racismo, prepotência e choques culturais, mas sem virar as costas à amizade, ao amor, mas sem aquelas tonalidades cor-de-rosa. Todo este cenário e as suas variáveis vêm acompanhados de muita predisposição, sem lamúrias, sem fugas, afinal, como nos diz uma entidade do romance Terra conquistada – primeiro prémio de concurso de literatura colonial (1945), da autoria de Ed. Correia de Matos, oportunamente falaremos mais deste autor que o leitor moçambicano não deve esquecer – , um coração que foge não é um coração que triunfa. E triunfar é tudo o que Paula Chonguene almeja, desde que sai de Moçambique para viver em Portugal e, depois, na Holanda, fazendo desta história universal, por explorar espaços, circunstâncias e feitios atinentes a diversas nacionalidades.

Neste contexto, com efeito, o poder da escrita de Cri Essencia encontra-se no facto de a história de Paula afirmar-se como um exemplo de luta, de como os boicotes devem apenas existir para impulsionar o sucesso de quem não se conforma com o mundo que tem nos seus pés.

Sem ser uma história provida de uma escrita tecnicamente bem elaborada, Em busca do mar certo vale por ser uma narrativa altruísta, por questionar tudo o que consome a alma humana. É uma história que envolve o leitor, inserindo-lhe na intimidade da protagonista e revelando-lhe o quanto custa ser ave neste mundo apegado às fronteiras em detrimento do que a humanidade tem de comum. É um brado africano, repúdio, retrato da pequenez de alguns homens, uma ode a tanta mulher deserdada por um irmão nojento, absolutamente desprezível, do património deixado por uma mãe. É nisso que se encontra o poder da escrita de Cri Essencia, na destreza de nos emancipar durante o processo de leitura, purificando-nos interiormente e, simultaneamente, fazendo de nós pessoas mais solidárias.  

Título: Em busca do mar certo

Autor: Cri Essencia

Editora: Alcance Editores

Classificação: 13

 

Publicado pela primeira vez em 1987, Ualalapi permanece mobilizando corações e mentes à volta de debates que, entre outros aspectos, exprimem a dinâmica histórica de Moçambique, um país atravessado por muita instabilidade e uma grande capacidade de resistir. A longa noite colonial, a difícil luta pela independência, os sucessivos conflitos que vêm atravessando décadas e a intensa pobreza que quase inviabiliza a vida de seus habitantes têm como contraface uma notável pluralidade cultural e uma imensa vocação para se reinventar.  Ungulani Ba Ka Khosa, o autor dessa narrativa e muitos outros títulos, inscreve-se nesse contexto, procurando de diversas maneiras balançar qualquer cordão de isolamento erguido para separar as tintas e disciplinar as cores. Sua opção ao longo dos anos tem sido o caminho da insubmissão no exercício de uma escrita que se demarca de versões cristalizadas pelo discurso hegemônico.

Reeditado entre nós em muito boa hora pela Kapulana, Ualalapi é um bom exemplo desse desassossego que marca o itinerário do autor em sua circulação pelos gêneros literários e em seu compromisso com os modos de ler a História enfrentando  com energia os perigos de sua petrificação. Mesmo a afirmação que escolhe como epígrafe “A História é uma ficção controlada”, colhida à romancista portuguesa Agustina Bessa Luís, em sua narrativa convida à discussão. Em um momento pulsante da vida do recém-fundado país, Ungulani vai buscar uma figura histórica escolhida pelo novo poder para ser uma espécie de mito fundador da nacionalidade e investe no desvendamento das contradições dessa hipótese que o discurso político elegia. Nas páginas em que desfilam passagens decisivas da vida de Gungunhana, o sentido da resistência desse imperador que lutou bravamente contra a invasão colonial é emoldurado pelas cenas que nos trazem as invasões protagonizadas pelo próprio na expansão de seu império.

Uma espécie de convulsão percorre o tempo captado, levando-nos logo à desmitificação da ideia de harmonia que ainda frequenta o imaginário sobre o período pré-colonial e exporta uma equivocada ideia do continente. Contaminada pela violência dos fatos, a escrita se apoia em expressões fortes, reveladoras da dimensão dos conflitos que estavam no cotidiano daquele espaço. Se, por um lado, dilui-se o mito da paz harmônica entre os africanos antes da chegada dos invasores, por outro lado, as ações revelam o africano como sujeito ativo, desfazendo a noção de passividade que a literatura colonial desejou perpetuar. Aqui, não nos vemos diante de elementos do cenário  – como podemos encontrar até mesmo em textos paradigmáticos do cânone ocidental – mas de homens em confronto com adversários. E, ao perderem, pagam o alto preço da derrota. São de qualquer forma, homens inteiros, empenhados em suas lutas, agentes de sua própria história.

As notas da originalidade que tocam o enredo são amplificadas na estrutura da obra que se nutre de elementos variados, que vão da incorporação de passagens bíblicas ao aproveitamento de provérbios africanos, propondo um diálogo refratário à rigidez de limites entre os vários patrimônios culturais que constroem Moçambique no presente. A montagem dos fragmentos aponta para um desenho peculiar que barra, à partida, a rápida identificação de um gênero literário. Assim, em sua interdependência, as partes que compõem o todo, combinam-se em sua autonomia e nos fazem indagar se o que nos apresenta é  um romance ou um conjunto de contos, questão que não precisa ser respondida e aguça o interesse da obra, pois nos coloca de frente para a reinvenção de modelos estéticos, compromisso com que os escritores africanos têm lidado e do qual desdobram-se diferentes soluções. A presença de matrizes da oralidade é apenas uma das chaves para esse processo que resulta na mesclagem entre bens de raiz e valores trazidos com a colonização.

A desmitificação de um dos heróis sagrados pela História que a voz dominante da independência quer disseminar exprime-se na força de uma escrita hiperbólica, que, em certa medida, reforça a função conativa e espelha um desejo de convencimento. Desse modo, insinua-se a disputa de versões presentes na construção da narrativa histórica que dá corpo ao discurso da nacionalidade. A pluralidade etno-linguística, por um lado, a ocupação recente do território colonial e, consequentemente, a tardia definição do mapa moçambicano explicam a instabilidade do terreno, no plano físico e no domínio cultural, tudo  a projetar-se em uma linguagem carregada de energias. Na voz do narrador e nas falas das personagens se fazem notar sinais de uma inegável aspereza refletida na escrita por uma adjetivação empenhada em banir qualquer hipótese de estabilidade.

Ao trazer as pontas de uma história constituída sobre abalos, o escritor busca demonstrar os limites de medidas que não considerem a profundidade das fendas que os tempos impuseram ao espaço que hoje é Moçambique.  Em 1985, após uma longa negociação com instituições portuguesas, o Governo do país independente recupera o que seriam as cinzas de Gungunhana e, ao transportá-las solenemente de volta à terra da qual ele foi levado como símbolo da conquista colonial, pretende consagrá-lo entre os heróis da libertação. A reorganização da memória coletiva centrada na revisão de verdades plantadas pela dominação estrangeira integrava o programa da FRELIMO, a Frente de Libertação de Moçambique, em evidente coerência com o projeto de nacionalidade que a independência animava. Ao escrever Ualalapi, seu autor, sem dúvida, mostra-se atento a uma das funções da literatura: a de colocar em causa a horizontalidade das narrativas políticas e, assim, manter aceso o debate que atesta a vivacidade das questões éticas e a necessidade de projetos estéticos capazes de acusar a transitoriedade de pensamentos que se querem únicos e definitivos. Penetrando na linguagem, a noção de descontrole parece dominar a atmosfera para sugerir a iminência de novos ciclos, afinal, como evocaria outro escritor africano, o angolano Pepetela em A geração da utopia: “só os ciclos são eternos”. Se é verdade que a nação precisa de monumentos, e a história de todos os países não nos brinda com exemplos contrastantes, Ungulani Ba Ka Khosa nos recorda que a literatura só faz sentido como movimento, compromisso que ele tem abraçado ao longo de uma já extensa travessia.

*Texto cedido pela editora Kapulana do Brasil.

 

Estamos num país em que não há problemas! Há desafios! Isto é o que diariamente referem certos oradores que solicitam a palavra, apenas para serem vistos e ouvidos. E como apareceu na TV, ele sabe que passará a ser um pequeno herói no seu bairro, porque falou, embora com pouca substância.

Há profissionais da palavra. Alguns parece que fizeram o doutoramento na matéria e (de) têm o dom da frase feita, bem arrumada, as fórmulas de monopolizar o microfone.

Passemos em revista alguns dos “clichés” em voga:

O saldo é positivo, pois as metas previstas foram “cumpridas” (ou compridas?) em 70 por cento.

Nós, como Governo, de acordo com o plano quinquenal… é o verbo fácil, decorado e/ou decalcado, da maioria dos politólogos.

No âmbito das directivas superiores, emanadas num despacho ministerial recente, já teremos condições para implementar um projecto, que permitirá, a médio prazo (quando?), melhorar as condições habitacionais na maioria dos bairros suburbanos.

Aos alunos recém-formados: como há escassez de trabalho, a orientação que vos damos é que optem pelo auto-emprego (vender crédito?). Vocês já possuem as ferramentas essenciais (quais?) para criarem as vossas empresas.

No desporto: fomos derrotados, agora só importa levantar a cabeça e continuar a trabalhar…

No Parlamento: Sra Presidente da AR, Excelência; Sr Primeiro Ministro Excelência, Srs Ministros e Vice-Ministros, Excelências; Digníssimos Presidentes do Conselho Constitucional e do Tribunal Administrativo, Excelências; Digníssimos mandatários do povo, Excelências! Protocolo observado, não posso esquecer o meu círculo eleitoral. Excelências: pedi a palavra, em nome do meu partido, para saudar a plateia e concordar com as contribuições do orador que me antecedeu. Muito obrigado!

Nas TV's: em primeiro lugar, gostaria de cumprimentar os colegas do painel, saudar o apresentador, enviar agradecimentos aos telespectadores e agradecer a oportunidade que me concedem. Indo directamente à questão que me coloca, gostaria de concordar com as contribuições da maioria dos ouvintes e reforçar a opinião do colega do painel que me antecedeu. Muito obrigado!

FORMALISMO ELEVADO AO EXTREMO

– “Temos um país sentado” – dizia o saudoso Ricardo Rangel, quando caracterizava a distância entre as intenções e a prática, com que nos deparamos dia-a-dia.

Vivemos uma herança de salamaleques, que virou moda. Discursos sem conteúdo, frases feitas, sem substância, “é o que está a dar”. Com a psicose dos títulos de Doutor ou Engenheiro, de premeio. Ao contrário do tratamento que se dá a Bill Clinton ou a Barack Obama, por exemplo. Entre nós, perde-se mais tempo nas citações, do que no transmitir algo palpável para contribuir para a matéria em debate.

Diz-se que em televisão, o tempo é dinheiro. Porquê, então, esbanjar tanta “mola” em tempo de crise?

Pessoalmente, cada vez que vejo alguém numa TV ou rádio, a desfazer em “entretantos” mudo de canal pois o sentimento que me invade, é o de que o “cara” não tem nada de substancial para transmitir.

 

O ser humano não morre quando o seu coração deixa de bater.
O ser humano morre quando, de alguma forma, deixa de se sentir importante.

in O vendedor de sonhos, Jayme Monjardim

Há 31 anos, Ungulani Ba Ka Khosa estreou-se em livro, num período em que a literatura moçambicana passava, eventualmente, por um dos melhores momentos até aqui. Na década de 80, foi lançado o primeiro concurso literário do país, foi criada a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), e, enfim, foi lançada a primeira revista literária moçambicana pós-independência, a Charrua, de que o nosso escritor é co-fundador. Este foi um momento de ouro, que, inclusive, contribuiu para a afirmação de uma escrita comprometida com a estética, por nela existir, quiçá, os (des)equilíbrios cruciais à literatura.  É neste contexto de reinvenção de uma arte, num país recém-nascido, que Ba Ka Khosa ousa apresentar-se em obra, depois de muito publicar na imprensa. Nessa altura, tinha 30 anos de idade e havia vivido em todas as regiões de Moçambique.

E então, o livro escolhido para a primeira aparição foi Ualalapi, colectânea de contos, para uns, romance, para muitos, e novela, para os mais centristas. Neste livro, um dos dois que constitui Gungunhana, obra ora lançada pela editora Kapulana, Ungulani percorre os labirintos da história, e, fugaz, aldraba a morte, retirando nela um personagem controverso (ora herói, por ter travado toda uma luta contra o regime colonial português, ora vilão, por tanto ter liderado ofensivas contra os chopes, uma etnia do Sul de Moçambique): Gungunhana/ Ngungunhane. Ao ficcionar a vida do imperador de Gaza, homem extremamente violento, Khosa constrói um cenário maquiavélico, que ao tirano permite atingir o poder sem ameaças de o perder, delegando, por isso, a morte do seu irmão, Mafemane, a Ualalapi.

A partir dos conflitos, da ganância e dos jogos de interesse instituídos na narrativa, Ungulani introduz-nos no raciocínio de um ditador que, à imagem de tantos outros de terno e gravata, não medem consequências no longo percurso ao trono. Por isso, esta é uma história actual e com muitos anos de vida.

O segundo livro que compõe a obra Gungunhana é intitulado As mulheres do imperador, na qual temos um narrador didático como cicerone no prosseguimento dos caminhos trilhados pelas rainhas de Gaza, na desnecessária viagem que termina com um exílio delas na sua terra, mas longe da sua gente. Se Ualalapi, essencialmente, ergue e derroca um império nguni, essa etnia de Ngungunhane, As mulheres do imperador é mais uma história além das peripécias que ditaram o fim de um reinado. Esta história produz-se na viagem pelo Sul de Moçambique, por Portugal, São Tomé e, mais profundo, pelas crenças, dores, desassossegos e sentimentos dessas rainhas pretas, desabitadas de si mesmas por terem conquistado a preferência de Ngungunhane. Também por isso, dá-se nesta ficção a grave degradação da personagem. Mas comecemos pelo primeiro livro.

Em Ualalapi, temos pelo menos dois momentos em que a degradação da personagem acontece. No primeiro, é Damboia, tia do imperador, quem está no centro das atenções, quando morre ainda viva, vítima de uma menstruação de três meses. Devido ao cheiro nauseabundo aí causado, Damboia perde poder e influência, quando os seus movimentos ficam condicionados ao átrio domiciliar. A linguaruda, que chama cães aos súbditos, enferma, perde a capacidade de falar e é invadida por loucura: “Começou a andar de gatas e a trepar as paredes da casa como um réptil em desespero. Durante a noite uivava como os cães” (p. 48).

Num segundo momento, a degradação da personagem, em Ualalapi, acontece quando o imperador, já nas mãos dos portugueses, profere o seu último discurso ao seu povo. Sem poder nenhum, Ngungunhane transforma-se numa entidade banal, ridícula, deprimida e cheia de fel. Destarte, o outrora poderoso imperador vira um objecto falante, prémio de guerra, conduzido, na verdade, não para um exílio, mas para um museu em que ele é a síntese do passado.

Em As mulheres do imperador essa degradação continua, quer em Ngungunhane quer nas suas esposas. No caso do “leão de Gaza”, a situação é agravada porque, arrancado da sua terra com as sete das tantas mulheres que possui, em Portugal, não fica nem com uma sequer, um verdadeiro ultraje e castigo para quem tanto preza o calor feminino. Além disso, mesmo tendo-se recusado a converter-se à religião dos brancos, já dominado, o imperador é baptizado, passando a ter um nome português. Morre triste e humilhado.

Não obstante, separadas do homem, as rainhas de Gaza, igualmente, experimentam a derradeira condição do marido. Logo, com a excepção de Namatuco, tornam-se vulneráveis, passando a comer peixe e a desejarem ser amarfanhadas pelos braços dos homens. E o facto de Namatuco ser a mais sisuda, não a impede de se tornar uma personagem amarga, pois, desterrada de Moçambique, perde o contacto com os seus espíritos, daí a incapacidade de enxergar o futuro.

Portanto, este Gungunhana encerra nas suas linhas uma preocupação estética alicerçada a uma história que se vai diluindo. Esta é uma porta de entrada para quem se preocupa com o passado e com o presente de Moçambique. E faz sentido o livro ser publicado no Brasil, afinal em causa está o conhecimento sobre a humanidade, que não se esgota na fronteira dos nossos pés, que nos faz proprietários da nossa própria voz. A degradação da personagem manifesta em Gungunhana também é nossa, por aceitarmos ser parte de uma história cujos protagonistas são os narradores do esquecimento, esses que nos afastam da nossa terra e das nossas particularidades.

Maputo, 20 de outubro de 2018.

 

*Texto inicialmente publicado pela editora Kapulana do Brasil.

Nely Nyaka; “Eu nasci em KaTembe, a 2 de Novembro de 1920, um Domingo, às 11 horas da manhã. A minha mãe chamava-se Jinita Libombo e o meu pai Jeremia Dick Nyaka. Os meus pais conheceram-se em KaTembe, onde ambos cresceram e frequentavam a mesma Igreja. Foi lá que eles se casaram, e tiveram os primeiros dois filhos: o meu irmão Daniel e eu. Tiveram ao todo sete filhos, quatro rapazes e três meninas.”

Começa assim “Mahanyela – A Vida na Periferia da Grande Cidade”, de Nely Nyaka, a nossa Vovó Nely. A Vovó Nely faz, esta sexta-feira, 98 anos. Mais não houvesse a distinguir, nesta longa e prodigiosa vida, este facto bastaria por si como motivo para a celebrarmos. Acontece que há muito para dizer sobre ela e há, até, motivos inéditos e dignos de exultação, como este livro. A Vovó Nely decidiu, aos 97 anos, fazer o registo da sua memória. Sou editor desta obra – declaro-o desde já e não temo que seja parcimonioso por isso. Mas antes disso, sou neto dela.

Edito livros há mais de 15 anos e este é um daqueles soberbos documentos que me passaram pelas mãos e que eu tive o privilégio de o transformar no objecto livro. Quando em finais de Julho fui à casa da Vovó Nely para tomar um chá e receber essa incumbência senti, nos ombros, o peso de uma irrecusável responsabilidade. Depois fui para casa e pus-me a lê-lo de imediato enquanto tratava de articular os diversos aspectos que compõem o complexo e fascinante labirinto da edição, entre nós.

 A Vovó Nely fala, de forma competente e impecável, a língua portuguesa. Mas é proficiente no ronga e foi nesta que ela ditou estas fabulosas memórias. O livro não perde fluidez, está enriquecido pela oralidade e transporta vocábulos de duas línguas – ronga e português – que se iluminam. Texto escorreito, memória prodigiosa, pessoas e acontecimentos, lugares e topónimos, cartografia de uma vida, de uma cidade, de uma época, de um tempo. O livro, que teve o concurso da sua filha, Gita Honwana Welch, na fixação do texto, é uma verdadeira relíquia.

Gita Honwana Welch, no prefácio, cita o livro do pai, Raul Bernardo Honwana, “Memórias”, como leit motiv deste. Na verdade, as duas obras dialogam, pese embora esta não se invista tanto a interpretar, através da biografia, os acontecimentos e os factos históricos e políticos, o que encontramos na obra precedente. Este livro é, di-lo a prefaciadora e bem, uma “cartografia.” Quem quiser saber como se vivia nos arredores da grande cidade, que era onde viviam os aborígenes – ou autóctones, ou indígenas, pode e deve socorrer-se dele. Isso por um lado. Por outro, esta descrição, em filigrana, das famílias, sobretudo de Lourenço Marques – ou mesmo da Catembe, Ressano Garcia – é extraordinária. A desmemória ou o desinteresse estratégico pela memória costumam relegar para um espaço obscuro nomes e percursos que, são, por assim dizer, os protagonistas do proto-nacionalismo. Muitos dos nomes anotados e tratados pela memória activa e esplêndida da Vovó Nely fazem, indubitavelmente, parte desse universo. Aqui se fala das origens e da importância desses nomes e dessas famílias no nosso percurso histórico. O pai da autora foi um dos fundadores, em 1920, do Congresso Nacional Africano, em Lourenço Marques, que mantinha contactos com o Congresso Nacional Africano (ANC), da África do Sul. Mas há muito mais.

Gita Honwana Welch: “Penso que terá sido a publicação do livro “Memórias”, do meu pai, Raul Bernardo Honwana, há mais de 30 anos, o que alimentou nela a vontade de também deixar, por escrito, o seu “legado” às novas gerações. Os meus pais assumiram como dever a transmissão do saber e das histórias que receberam das gerações que os antecederam. A importância que sempre deram à escola e ao ensino formal não diminuía a necessidade que sentiam de equipar, pelo menos os filhos, com outras formas de conhecimento, especialmente aquelas que nos deram consciência de quem somos e de onde viemos. O meu pai inclui no seu livro “Memórias”, publicado em 1985, vários episódios do seu percurso pessoal que nós já lhe tínhamos ouvido, vezes sem conta, nos serões de família, desde que éramos pequenos. Contudo, em “Memórias”, esses episódios têm forte conotação com o quadro político prevalecente, o que revela o profundo sentido de história que caracterizava o meu pai. A minha mãe vem agora partilhar neste livro a sua experiência de vida, usando como compasso social e moral o conhecimento do lugar onde nasceu, cresceu e viveu, a forma de ser e de estar (mahanyela), das pessoas e famílias com quem conviveu e, de maneira geral, o mundo dos subúrbios da grande cidade.”

Anoto-vos, capítulo a capítulo, do que trata verdadeiramente este Mahanyela: o primeiro capítulo versa as origens: KaTembe, a mãe Jinita e o pai Jeremia. Lourenço Marques, nos anos 20, para onde se muda aos 5 anos, a cidade e a periferia ocupam o segundo e terceiro capítulos. “Mahanyela,” a forma de viver, enformam o quarto capítulo. O quinto – que se refere à organização e aos rituais da vida – parece-me um dos mais facundos. Ou o sexto, a descrição do seu casamento com Raul Bernardo Honwana, o sétimo que se atém à Moamba, ao dia-a-dia da vila, às famílias, às relações familiares e sociais. As vidas nas terras do Sabié ocupam o oitavo capítulo. Os filhos – os oito filhos que teve – fazem o nono capítulo. Os tempos tenebrosos da acção da PIDE e a prisão do marido, a hostilidade que irão sentir na Moamba, o anúncio dos tempos sombrios, perfazem o décimo capítulo. No décimo primeiro, o regresso a Lourenço Marques – a casa de Xipamamnine, a prisão do filho Luís, o cerco da PIDE, o assassinato de presos políticos (as mortes sórdidas de Zedequias Manganhela ou de Ebenizário Guambe), a Vila Algarve, o papel de Adrião Rodrigues, Santa Rita, Pereira Leite, Rui Baltazar, Almeida Santos que defenderam, com coragem, generosidade e galhardia, José Craveirinha, Malangatana, Luís Bernardo Honwana, Rui Nogar, Daniel Magaia, Armando Pedro Muiuane, Abner e Abiatar Muthemba, entre outros. A autora revela um plano de assassinato do filho na prisão numa descrição assombrosa. Acresce a este capítulo, igualmente facundo, a viagem a Portugal, a mudança para a Matola. Este é um capítulo essencial da nossa história política. Seguem-se-lhe, no décimo segundo capítulo, os alvores da liberdade: o 7 de Setembro, o Governo de Transição, a viagem à Tanzânia, a convite de Samora Machel, os preparativos para a Independência. A revolução, Samora Machel, a nacionalização das casas de madeira e zinco, a acção cívica, sobretudo como juíza eleita, a operação produção. Não se coíbe de lhe apontar os erros: “Testemunhar a Independência Nacional foi uma coisa extraordinária, uma coisa única”, escreve. “Mas, no meio da euforia da Independência Nacional, houve um episódio que marcou muita gente: as nacionalizações dos prédios de rendimento. Acho que este episódio serviu para nos acordar para o facto de que, no nosso processo de construção do país, nem tudo seria fácil, haveria muitas dificuldades, muitos altos e baixos.” “A minha amiga, a vovó Teresa, mãe do Marcelino dos Santos, com quem sempre falávamos dessas coisas, dizia até pouco antes de morrer que a Independência era a melhor coisa que lhe tinha acontecido na vida, mas que nunca havia de perdoar à FRELIMO o ter-lhe tirado a casa que ela e o seu marido tinham construído com tanto sacrifício.” Ouvi o mesmo da minha avó Angelina até ela morrer aos 89 anos. A autora também é severa quanto à operação produção. Mas não vou insistir nesses temas, pois não são o esteio desta narrativa. A morte do marido, em 1994, ditando o fim de 54 anos de casamento, está na origem da mudança de casa. Sai da Sommerschield, para onde fora viver em 1975 e vai para um pequeno apartamento das Torres Vermelhas. Aqui ela se reinventa. O décimo quarto capítulo trata dessa ressurreição: a Pfuna, com Beatriz Garrido e outras activistas. O capítulo seguinte – décimo quinto – indaga o presente da cidade, preocupações de natureza cultural, a questão das línguas nacionais, aliás, o livro irá encerrar com um anexo importante neste domínio. O décimo sexto capítulo é uma espécie de epílogo: a vida aos 97 anos: “Vivo, hoje, no meu apartamento não muito longe das Torres Vermelhas, onde passei 23 anos da minha vida. Depois de viver em n`Hlanguene, no Ximphamanine, na Moamba, no Ximphamanine (outra vez), na Matola, na Sommerschield e nas Torres Vermelhas, sinto que este é um sítio tranquilo para a minha velhice porque, agora, sim, considero-me, de facto, velha”, assim começa este capítulo final, no qual relata a vida rodeada de filhos, netos e bisnetos e trisnetos, as viagens que a enriqueceram. “Na minha casa, vivo rodeada de retratos nas paredes e sobre os móveis. A cada minuto do dia, estes retratos recordam-me aspectos importantes e felizes destes noventa e oito anos.”

Esta “cartografia”, estabelecida pela “candura da observação” do interior, de como funcionam as famílias e a sociedade, mostra como evoluiu KaMpfumu, a antiga Lourenço Marques. Um dos capítulos que mais me empolgou, o quinto, trata da “organização da casa e os rituais da vida.” Volto a ele: o namoro (“Naquele tempo, os pais não escolhiam noivo para as meninas, mas havia controle sobre o namoro. As meninas começavam a namorar aos 16 ou 17 anos. Não havia ritos de iniciação ligados à puberdade, como havia noutros pontos do país.”); o casamento (“O cerimonial de casamento evoluiu muito. Quando eu era muito miúda, ainda me lembro dos convidados todos bem vestidos, caminhando para o local da cerimónia religiosa em grupo. Na altura não se andava de carro e as distâncias a percorrer eram, normalmente, longas. As meninas sofriam muito pois tinham que usar sapatos, coisa a que não estavam acostumadas no dia-a-dia, bem como espartilhos e soutiens, os quais eram só usados em tais ocasiões. Por isso, as meninas e as senhoras de idade levavam consigo cadeiras para se sentarem e descansarem, quando estivessem cansadas, ao longo do caminho”); a gravidez e o parto (“Antigamente, só se sabia que a mulher estava grávida quando a barriga já era bem visível, ou quando a criança nascia. A gravidez não se anunciava fora do ciclo familiar íntimo, e isto era assim porque em tempos idos, a situação de se ter um nado morto era, infelizmente, frequente, e havia a crença de que o anúncio da gravidez poderia “atrair azar.”; o falecimento (“De facto, antigamente, só a família chegada que, por exemplo, tivesse vindo de longe para o funeral, ficava e participava nas cerimónias dos oito dias após o enterro. O mesmo se passava com a missa de um mês, caso ela fosse feita, ou com as cerimónias dos 40 dias, em famílias islâmicas. Quanto aos vizinhos, o costume era passarem de manhã para saudar a família enlutada. Nessa altura, eram portadores de algo para ajudar a família, como chá, açúcar, ovos, ou mesmo algum dinheiro. Não ficavam lá para o almoço. Se, por acaso, chegassem à hora da refeição, traziam a sua própria comida para comer com a família, em sinal de solidariedade. E isto era só feito nos primeiros dias após o enterro. Penso que esta prática era mais digna, e fazia mais sentido. Na nossa cultura, a preocupação era chorar a morte do ente querido, com dignidade. Eu sei que, em outras culturas, há o hábito de se fazerem grandes velórios, com muita comida e bebida, que se considera uma celebração da vida do defunto. Se calhar o que se passa agora é, também, influenciado por esses costumes importados. Cada um é livre de fazer como entender, mas sou de opinião de que só deveríamos imitar aquilo que faz sentido, em termos de capacidade económica das famílias, e que demonstra respeito e compaixão pela perda de entes queridos. Uma festa não pode ser manifestação de pesar.”). A mudança estrutural, profundíssima, que se operou na sociedade moçambicana, motivada por factores endógenos e exógenos, produziu um contexto e circunstâncias que tornarão, para muitos leitores, sobretudo os mais jovens, espantosa esta experiência e este contacto com o passado.

 

A memória foi sempre o escopo da minha actuação. A memória, a herança, o património. Numa só palavra: a cultura. Vejo-a transversal a tudo. Politicamente relegada, dou-lhe a primazia e a relevância de principal estame para a sociedade. A cultura como essência da nossa experiência individual e colectiva. Como passado, como presente e como futuro. A cultura como educação, como cidadania. Desde muito jovem, quando iniciei a minha vida de publicista, queria fazer o registo do passado e indagava os escritores que tinham fundado a nossa literatura sobre o passado e narrava-lhes o percurso. “Os Habitantes da Memória” investe-se dessa intenção. A intenção da memória, a intenção do património, a intenção da herança. Queria, sobretudo, perceber aquilo que a história oficial ocultava ou não enunciava. Este jubiloso livro – “Mahanyela – A Vida na Periferia da Grande Cidade”, de Nely Nyaka, socorre-me nessa demanda.

A Vovó Nely Nyaka tem uma soberba trajectória, fez um longo percurso cujo activismo social, iniciado na Igreja Metodista Wesleyana, prosseguido no Instituto Negrófilo, que seria depois Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique, e, mais recentemente, prosseguiu na associação Pfuna, dedicada a mitigar a pobreza e a miséria de crianças órfãs. Aqui ela faz o testemunho e o testamento das profundas transformações que se operaram ao longo destes quase 100 anos da sua existência. Fá-lo com lucidez espantosa, humor e um ineditismo que faz deste livro, indubitavelmente, um referencial da moçambicanidade, um acervo imprescindível para o conhecimento, investigação e estudos futuros.

Sinto uma enorme gratitude por ter lido este livro e, sobretudo, por ter contribuído, ainda que modestamente, para que ele tivesse luz. Estou penhorado por isso. Quando, em finais de Julho, fui tomar chá à casa da Vovó Nely, na Ponta Vermelha, de onde ela avista a Catembe, onde nasceu há quase um século, e de onde ela faz este instigante relato, que não é um epílogo de uma vida, mas é um vigoroso hino ao futuro, eu estava avisado de que levaria para casa o projecto de um belíssimo livro. A despeito, sempre que o li, coisa que pratiquei inúmeras vezes, por dever de ofício, não deixei de ficar verdadeiramente assombrado. Termino, citando, as suas últimas palavras:

Nely Nyaka: “Olhando pela janela, a partir da minha sala de visitas, vejo KaTembe, do outro lado da baía. O sítio onde nasci. O sítio onde tudo começou.” Assim termina este notável “Mahanyela – A Vida na Periferia da Grande Cidade”, de Nely Nyaka, testemunho e testamento majestoso, sumptuoso, soberbo.

Post Scriptum: Aqui, nestas páginas, ao longo de um ano, intentei a celebração da memória. Regozijo-me pelo facto de terminar este excurso com um livro e uma personagem que me permitem exaltar a nossa esplendorosa – muitas vezes enjeitada – memória individual e colectiva. Assim encerro a redacção destes textos e esta gratificante colaboração.

 

 

 

 

 

 

 

Como que evocando acontecimentos e memórias do meu pequeno percurso, digo com frequência e propriedade frases como "venho de muito longe eu". Para quem pouco me conhece, o peso dessa frase pode parecer simplório quando não cuidadosamente descortinados os factos que ela encobre.  Sem intenção de ser o sujeito principal deste humílimo escrito, mas tentando chamar à atenção para uma realidade que me é muito próxima, descortino-os.

O horário das notícias da noite sempre foi sagrado na casa dos meus pais, não só porque coincidia com o do jantar, mas também porque era a hora em que toda a minha família se reunia depois de um dia de desencontros. Como que procurando viver à minha maneira uma parte daquele momento sagrado, por estar deslocado do ambiente familiar, quando a escuridão visita Lisboa e a noite se confunde com  a madrugada, acesso o YouTube em busca da gravação do "Jornal da Noite" da STV e acompanho o quotidiano da "pátria amada".

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", disse Camões. Já não vejo todas as reportagens, confesso. Avançando ou recuando o vídeo, procuro as notícias que me parecem mais "quentes" e assisto os desenvolvimentos feitos pelas respectivas reportagens.

Nada de novo, até que algo me prende o olhar e me transporta no tempo.
Não posso crer! A apresentadora fala de algo relacionado à escola onde frequentei o ensino primário. Aumento o volume  e acompanho atentamente a reportagem. Ela finda, sinto um vazio e nada mais preenche o meu ser senão um turbilhão de lembranças.
Chama-se Escola Primária Completa de Ndlavela, ou simplesmente "Círculo Ndlavela" como é popularmente conhecida. Indepentendemente de como lhe chamem, foi lá, numa sala de madeira e zinco que me permitia um estágio no inferno quando fazia calor, sentado no poeirento chão, que com quase uma centena de crianças se iniciou o meu processo de formação. Coube à professora Laura, a minha primeira ensinadora, a missão de iluminar aquelas crianças. Nunca esqueci aquela professora, não só por ter sido a primeira, mas pela forma cativante e carinhosa como se preocupava em moldar naquelas crianças choronas pessoas com o máximo dos padrões de educação e competências que se pode exigir de um ser social. Nos três anos que juntos estivemos, ela me ensinou mais que escrever, ler ou contar, complementou o que eu recebia da minha família. Minha amiga Michela usa a expressão "um simples ser humano" quando se quer referir a  uma pessoa que não agrega valor à sociedade e só traz problemas. A professora Laura ensinou-me a não ser isso, "um simples ser humano".

Sempre que passávamos para o ano seguinte criava-se uma forte expectativa, sobretudo para os que tínhamos as aulas nas salas de madeira e zinco, em mudar de sala e continuar com o mesmo professor. O que me aconteceu na quarta classe foi o que ninguém desejava: mudei de sala e de professora. Ainda superei a mudança de professora, mas o difícil foi passsar a ter as aulas debaixo de uma árvore. Tinha as minhas aulas das seis e meia às dez da manhã. E, agora que escrevo, sou visitado pelo frio e pelo desconforto daquela experiência. Minha mãe dava-me uma capulana para estender no chão, por ser essa a nossa mesa e o nosso banco.  

A quinta classe ainda começámos debaixo da árvore, mas logo depois fomos premiados. Passámos para a sala dez, que era de alvenaria. Aquelas salas representavam o topo das melhores condicões, tinham sido intituladas ma predwene (os prédios). A sala continuava sem carteiras, mas já tínhamos umas chapas de zinco cobrindo a sala. Lembro-me de organizar um grupo de colegas de turma e chegarmos à escola por volta das seis da manhã para tirarmos as poucas carteiras que estavam noutras salas e pormos na nossa. Funcionávamos segundo a lei do mais forte, por isso, de quando em vez, ainda nos sentávamos no chão quando, nessa luta pelas carteiras, encontrássemos colegas mais fortes.

Sorte era algo muito bem-vindo naquela escola. Faltou-me alguma na classe e fui ter aulas numa sala de madeira e zinco que se encontrava ao lado do maltratado WC que nos expunha a todo tipo de doenças.

Precisava de um pouco de sorte, só um pouco para no último ano do ensino primário voltar a uma sala de alvenaria e concluir a minha passagem pelo Círculo com melhores condições. Fora tanto o desejo, que a sorte se fez presente e tive aulas na sala dois.

Apesar de tudo, aprendi e fui muito feliz naquela escola! Tive bons professores e fiz bons amigos! E, embora me tenham obrigado a aprender nessas condições, venci o determinismo e cheguei aonde cheguei.

Tempo, governos, directores, professores e alunos… Foram muitos os que por lá passaram e a escola não podia estar mais degradada… Ao ver esta reportagem, digo com um ar mais triste "venho de muito longe eu".  

Não podendo fazer nada, faço-me criança e entre choros e soluções peço que salvem a minha e outras escolas em condições semelhantes. Há que apostar muito mais no sector da educação, Moçambique!

 

Com um considerável atraso, Suleiman Cassamo desembarca no Brasil. O regresso do morto, que vem marcar a estreia do escritor entre nós, teve sua primeira edição em 1989, tempos conturbados em Moçambique. Passavam-se 14 anos da tardia independência e o país estava imerso nos sobressaltos de uma guerra que perduraria até 1992. Nesse período, a literatura, que tinha integrado o eufórico coro da utopia nos anos 70, já observava os desvios do sonho e as dificuldades do projeto nacional que a partir de 1964 mobilizara a luta armada.

Sem perder de vista a noção de originalidade que é condição da obra literária, Suleiman Cassamo nos traz, revitalizados, personagens que fizeram sua entrada na literatura produzida em Moçambique pelos poemas de José Craveirinha e Noémia de Sousa. Como nos poemas dos anos 50 e 60, os contos de O regresso do morto estão povoados pelos trabalhadores pobres da cidade, os deslocados do campo, os Magaíças a retornar do duro trabalho das minas sul-africanas, carregados de bugigangas, fantasia e a memória do desterro. Na narrativa que dá nome à coletânea, é um deles, o emigrado que vem da estranha terra do “Jone” a irromper na cena, trazendo uma das poucas imagens de alívio e alegria de toda a obra.

Optando pelo conto, modalidade literária bastante presente no contexto moçambicano, Suleiman Cassamo nos traz dez narrativas que compõem um instigante painel das diversas realidades abrigadas num conjunto espaciotemporal que se desenha para além das fronteiras que teoricamente dividiriam o colonial e o tempo da independência. São muitas e de muitas ordens as contradições que estão no centro das vidas que se movimentam nos diferentes cenários. A aproximar os personagens está a experiência da exclusão, que, em muitos casos, é temperada por actos violentos.

Física e simbólica, a violência constitui uma presença de relevo nas vidas que se representam em cada conto. De maneira intensa, ela toca a mulher, que está situada na ponta extrema da injustiça social e individual nessas sociedades em que a sobrevivência é uma luta diária, e tantas vezes fadada ao fracasso. Pelas narrativas de Cassamo, podemos observar como as personagens femininas condensam em si as duas pontas: a da dor e a da resistência. Os dois primeiros contos são exemplares desse lugar que tocado pela humilhação gera respostas insubmissas. Seus títulos – “Ngilina, tu vai morrer” e “Laurinda, tu vai mbunhar” – têm a mesma estrutura e traduzem uma espécie de ameaça que, ao se realizar, confere uma especial dignidade a inarredáveis destinos.

Sem se referir explicitamente ao colonialismo, o autor confronta-nos com a sua face mais cruel, trazendo-nos as gentes que ele explora e segrega e apontando-nos as suas mais profundas contradições. A brutalidade maior desse sistema talvez seja precisamente a sua capacidade de prolongar-se, arrastando-se para além do celebrado tempo das independências nacionais. E, assim, algumas das cenas não se identificam especificamente com os anos de vigência do sistema. A condição colonial ultrapassa os limites cronológicos e a tinta das iniquidades surge, por exemplo, na “caça” ao pão do já referido “Laurinda, tu vai mbunhar”. Intensamente marcadas, as imagens asseguram ao conto uma envolvente tensão, fazendo do contista, nas palavras de Júlio Cortázar, “um pescador de momentos singulares”.

Conhecedor dos riscos de uma avaliação superficial, Cassamo empenha-se em mergulhar em profundidade na rede armada pelo sistema e mostra como se amarram alguns de seus nós, dos quais não escapa o colonizado, dividido, ou melhor, emparedado entre os mundos em que cresceu. Em “Madalena, xiluva do meu coração”, na angústia de Fabião Neves, temos a machucada consciência de quem se vê perifericamente num mundo sem deixar de pertencer a um outro. A experiência da dualidade que se nota está longe do hibridismo suavizado por alguns discursos pós-coloniais. Sob a temática do dilaceramento amoroso, o enredo evoca, a célebre conferência intitulada “Cultura e colonização” de Aimé Césaire: “A colonização é esse fenômeno que inclui, entre outras consequências psicológicas a seguinte: fazer vacilar os conceitos sobre os quais os colonizados poderiam construir ou reconstruir o mundo.”

Erguendo-se das ruínas de uma sociedade, sobre as quais era preciso erguer outra, a voz de Suleiman Cassamo busca projetar na linguagem esse mundo feito de estilhaços, refratário às hipóteses de harmonia em que tantos africanos tentaram acreditar. Daí deriva uma escrita feita de pedaços, constituindo-se a partir de fortes imagens, apoiando-se numa sintaxe que contraria a norma da língua portuguesa. A expressão por ele cultivada elege como eixo um léxico que, mesclando ao português palavras e construções das línguas moçambicanas que fertilizam a língua herdada/imposta, faz da oralidade não um recurso, mas uma poderosa matriz. Na diversidade de tempos, de espaços, de enredos, o ritmo da oralidade assume a mediação e coloca-se como a face viva de um universo historicamente cindido. Isso explica o peso das lacunas na modulação da escrita. Montado com fragmentos, construído sobre e sob escombros, o mundo que emerge não pode prescindir da elipse como uma importante chave de estruturação.

Conferindo visibilidade a um conjunto de seres marginalizados, os “esquecidos” que desfilam pelas ruas de tantas cidades africanas, e não só, O regresso do morto supera os domínios da denúncia e apresenta-se como um fascinante trabalho literário. Vemo-nos diante de um exercício capaz de conduzir o leitor a um singular universo de sentidos, recordando-nos que a literatura nos permite ver aquilo que a vida, a um só tempo, mostra e esconde. Venha de onde vier.

*Texto extraído do prefácio de O regresso do morto, publicado pela editora Kapulana no Brasil.

 

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Álvaro de Campos 15-1-1928

Ao

Adérito Matsimbe – Spice

A casa assiste de porta aberta à correria da mãe do Xavito. Será que ela teve um desarranjo intestinal ou estará a fugir da polícia municipal? A Dona Maimuna exibe uma passada de fazer inveja aos jovens. Riscou a rua até ao seu quintal e, num ápice, entrou casa adentro para o espanto das laranjeiras. Segunda-feira, logo pela manhã era isto, este inesperado frenesim.

– Xavito. Xavitoôôôôhhhh.

– Mamããããããhh. – Respondeu do fundo do quintal, interrompendo o soprar do carvão que revelava teimosia.

– Telfone, papá! Querem falar contigo. – Dona Maimuna interrompe a marcha em suspiro longo.

Xavito põe-se a falar com a voz do outro lado da linha, a sua careta trazia movimentos alegres, ele meneava a cabeça, esboçando um sorriso contido. Parou em silêncio momentâneo e anunciou:

– Mamã fui chamado para uma entrevista na quarta-feira. Parece que é uma empresa nova.

– Hi! Hosi yanga! Deus te oiça, filho…

– Vamos ver, mãe. Se ligaram é porque gostaram do meu currícullum.

– Que assim seja, meu pai!

A Dona Maimuna voltou à banca montada doutro lado da rua Kapa Não Se Escreve. Fazia já dois anos que Xavier se tornara num estafeta de distribuição de CV`s de porta em porta. Nunca se quer recebera um sinal que fosse de recusa. Xavito ganhara, por direito, um lugar cativo nos escritórios do Jardim Tunduro. Ali se reunia e era tido em alta conta entre os seus companheiros. O bairro de Maxaquene ‘C’ conhecia-o como o explicador e professor para os exames de admissão.

Um novo dia chegou luminoso. Ao certificar-se da indumentária Xavier meteu-se a caminho da empresa de telefonia móvel, localizada para os lados da Rainha da Maxaquene. Teve o cuidado de ir à esquina engraxar os sapatos emprestados pelo primo Flávio e ajeitar a gravata alugada ao vizinho que estava de folga naquela manhã de quarta-feira. Olhou para as horas e notou que faltava ainda uma hora e meia para a entrevista. Xavier preferiu fazer uma caminhada. Assim pouparia meticais para o pão no regresso.

O jovem benzeu-se pela terceira vez, ao passar junto à Igreja Nossa Senhora da Vitória e, acelerou o passo já sobre o passeio da Colmeia. Sem dificuldades encontrava-se a metros da Pandora. A avenida Eduardo Mondlane ficava a minutos e, daí a um quarto de hora estaria no décimo andar da empresa.

A camisa a cheirar a ferro de engomar, passada mil vezes pelas mãos zelosas de Maimuna Zunguza da Silva. O lencinho dobrado e vincado no bolso esquerdo, era a viva ilustração do pilar da fé maternal Estava garantida a porta de entrada para o quintal dos assalariados. Xavier inebriava-se, cheio de sonhos: «Do primeiro salário, mais de metade será para a minha mãe montar um negócio decente. Depois, aos poucos reabilito a casa e descolo a Milú para o meu ninho». Descia rente ao muro da antiga maçonaria, a Escola Industrial. O Xavier finta para evitar a lixeirada transbordada do contentor à berma do passeio, e zás o azar oportunista faz o filho da Dona Maimuna tropeçar, caindo de borco sobre o passeio. O pé esquerdo estava preso a uma fossa aberta, a camisa tinha manchas de sangue. Estava irrenconhecível. Sangrava pela boca, tinha perdido dois dentes. As calças tinham um rasgão indecente, na parte frontal e de baixo, como um desses indigentes que pulverizam a capital.

Dois rapazes que por ali passavam aproximaram-se em ajuda ao sonhador de troféus. O senhor da rua que há pouco roncava, em sono de bebé, ocupando uma esteira, já estava acordado e disponível a acudí-lo. De olhos marejados Xavier chorava em desespero e fúria. Não se continha. Fervia, em soluço contínuo. Em gíria futebolística dir-se-ia que aquela, era uma grande penalidade em plena avenida Vladimir Lénine. Uma viatura encostou-se à berma. Será o carro do vídeo-árbitro da Salubridade e Meio-Ambiente ou uma alma caridosa, em socorro do filho da Dona Maimuna?

O homem é sempre tímido perante a mulher que se deseja

João Salva-Rey

Mar me quer é o título do espectáculo teatral do grupo Girassol, em exibição no Teatro Avenida até 28 deste mês. A peça é adaptada (e encenada) do texto dramatúrgico de Mia Couto, por Joaquim Matavel, igualmente mentor do Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI), que se realiza anualmente em Maputo.

Nesta versão do Girassol, essencialmente, fazem Mar me quer três personagens: Zeca Perpétuo (Horácio Mazuze), Luarmina (Albertina Guilaze) e avô Celestiano (Rafael Vilanculos), uma entidade que aparece em momentos específicos pronto para ajudar o neto a avassalar a sua amada casmurra, a esmerar-se em não ceder o coração ao miúdo que afinal ama, do seu jeito, contra todas as expectativas.

Aí nas tentativas de Zeca armar-se de argumentos, actos e jogos de sedução amiúde direccionados à vivida Luarmina, na verdade, instaura-se na trama uma espécie de relação Édipo e Jocasta, em que um filho apaixona-se por uma mulher que foi do pai, antes dele partir. No entanto, ao contrário de Rei Édipo, de Sófocles, Mar me quer, de Girassol, não é uma história trágica, sangrenta ou de vinganças, é uma história de amor infinito, aparentemente genuíno, pueril às vezes, na qual, como nos sugere o narrador de Ku femba, um dos melhores romances da literatura moçambicana publicado no período colonial, da autoria de João Salva-Rey – falaremos mais deste grande autor e do património que deixou para Moçambique oportunamente –, o homem, de facto, é um ser tímido perante a mulher que deseja.

Ao mesmo tempo que Mar me quer explora a obsessão amorosa do imberbe Zeca Perpétuo por uma Luarmina idónea, alicerça-se no poder que os mais velhos insistem em ter na vida dos jovens em contextos rurais. Com isso, avô Celestiano ganha no enredo um protagonismo que faz dele um conselheiro e invocador das façanhas dos antepassados. Celestiano é a ponte dos afectos entre Zeca e Luarmina, mas também entre o amor e a tradição, sua matriz identitária e do seu querido neto céptico em relação ao conhecimento ancestral. Assim, o rapaz vai inventando subterfúgios para contrariar os conselhos do velhote, quiçá por isso condenar-se ao masoquismo que se robustecesse à medida que as suas investidas rumo ao coração de Luarmina fracassa. Desse amor indeciso, a fugir do efeito de lês-a-lês, à beira mar, emana obrigatoriamente um discurso poético e filosófico entre o casal imperfeito. No caso de Zeca, para persuadir e dissuadir simultaneamente; no caso de Luarmina, para resistir e sustentar a vaidade de ter o seu amado por perto, paradoxalmente. É nesse particular, aliás, que fica explícito ser este espectáculo com bom cenário uma adaptação de um texto de Mia Couto. O nível de conversa entre os “pombinhos”, a construção frásica, a reinvenção semântica com recurso a neologismos, claro está, devolvem o espectador ao poder criativo daquele autor, todavia sem o desprender da encenação – a peça peca por ter um fim demasiado brusco.  

Portanto, este Mar me quer do Girassol é uma peça de mistérios, em que o amor está lá para revelar a importância do passado no presente das personagens e, em última instância, das pessoas. O espectáculo, de forma recorrente, mostra como o passado pode ser um factor decisivo no futuro dos sentimentalistas e das relações. De igual modo, ao invocar o passado de Zeca e Luarmina, Mar me quer questiona-nos, colocando-nos a pensar sobre o certo e o errado, medindo o peso do amor, a sua capacidade de resistir ao preconceito.

 

Título: Mar me quer

Autor: Grupo Girassol

Teatro

Classificação: 14

São Paulo é uma das minhas cidades electivas. Vivi dois anos, dos anos mais esplendorosos da minha vida, em Sampa, como é conhecida a desvairada cidade paulistana. É um lugar fulgurante, excitante, exuberante! Soberbo! É a mais populosa do Brasil e uma das mais populosas da América do Sul. É uma cidade imensa. Imensíssima. O trânsito pode ser a personificação do Inferno. Ou mesmo do diabo: o metro na hora de ponta. Foi um cantor, oriundo de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, que a cantou, melhor do que ninguém, numa belíssima música, intitulada precisamente “Sampa”: “Alguma coisa acontece no meu coração/ Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João.” Cheguei com pouco mais de 40 anos, disposto a fazer um interregno na minha vida, no ocaso de uma experiência esgotante, mas a cidade não significou um intervalo, foi antes um novo capítulo. Eu trazia na bagagem o meu amor pela Bossa Nova, pelo maestro soberano Tom Jobim, pelo Caetano Veloso, Chico Buarque, pela Marisa Monte, pela Luciana Souza ou pelos Paralamas do Sucesso. Trazia comigo a indeclinável paixão pela poesia do Carlos Drummond de Andrade ou a minha filiação imperecível dos cronistas brasileiros: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e o próprio Drummond. Foi com eles que debutei no ofício. A esta distância relevo como um período determinante aquele que ali permaneci. Rejuvenesci, por assim dizer, em São Paulo. Foi lá onde fiz o luto do cidadão engravatado e fui tolhido pela paixão da t-shirt preta, calças jeans e ténis. Também foi lá onde rapei o cabelo, desde então uso máquina zero. (Abro um parêntesis para dizer o seguinte: senti que São Paulo era minha cidade no dia em que fidelizei o lugar onde passaria a cortar cabelo.) Um novo e belo capítulo na minha vida: dois anos vibrantes, numa grande cidade, que faz a síntese entre as minhas origens e tudo o que o mundo afora permitiu acolher como património afectivo. Para mim, que sou um amante inveterado de cidades, de grandes cidades, esse estágio significou muito. Significou tudo.

Recordo aquela imensidão de pedra que me acolheu naquele dia 1 de Março de 2008. Era o final de uma tarde usual. Fiquei na primeira noite no hotel, e nesse mesmo dia – era um sábado – fui a uma festa, em casa de amigos, o que amenizou a solidão da chegada. No dia seguinte, mudei-me para a casa de uma amiga moçambicana, a minha queridíssima mana Mafalda Mussengue, que me acoitou durante dias e me mostrou os segredos da USP (Universidade de São Paulo) e ajudou-me a desvendar os labirintos da burocracia que assombra qualquer forasteiro. Tenho uma dívida de gratidão, uma dívida impagável, uma dívida de afecto e uma amizade sem fim com e pela Mafalda. Digo-lhe sempre isso. Depois, mudei-me para o apartamento de  outros dois bons amigos – da Rita e do Zé Luís -, perto das Clínicas, onde seria a minha casa de sempre naquela cidade. Tinha deixado um quotidiano estafante de fato e gravata em Maputo e adorava andar de jeans, ténis, t-shirt e sacola às costas, andar de ónibus (machimbombo) com auriculares, ouvindo música, o que diminuía as longas e impacientes distâncias. Não esqueço que eu ouvia obsessivamente “Carioca”, de Chico Buarque – um paulistano carioquíssimo -, sobretudo “Bye bye, Brasil”: “Com a bênção de Nosso Senhor/ O sol nunca mais vai se pôr.” Essa composição (de Chico Buarque e Roberto Menescal) foi feita para um filme homónimo de Cacá Diegues: uma comédia de artistas ambulantes. Ouvia, na mesma sequência, “Grande Hotel”, música que junta o soberbo talento do sambista Chico com a malandragem carioca e o bom humor do baterista e maestro Wilson das Neves. Outra personagem da música que eu ouvi em São Paulo foi Adoniran Barbosa. Ele compôs o “Trem  das Onze”: (“Não posso ficar nem mais um minuto com você/ Sinto muito amor, mas não pode ser/ Moro em Jaçanã / Se eu perder esse trem/ Que sai agora às onze horas/ Só amanhã de manhã/ Além disso, mulher/ Tem outra coisa/ Minha mãe não dorme/ Enquanto eu não chegar/ Sou filho único/ Tenho minha casa para olhar/ E eu não posso ficar”), que o celebrizou e provavelmente toda a gente conhece. Quase todos os dias eu apanhava o autocarro que ia para Jaçanã, no sentido contrário, que era o da Cidade Universitária, em Butantã. Mas eu adorava ouvir “Samba do Arnesto” ou, sobretudo, a “Saudosa Maloca.” Tem um verso inesquecível: “Deus dá o frio conforme o cobertor.” A Maria Rita tem uma versão insuperável da “Saudosa Maloca.” Adoniran foi um grande sambista paulistano.

Eu amei viver em São Paulo e tenho a impressão de que dormi muito pouco enquanto lá permaneci. Tinha o compromisso de fazer um mestrado em sociologia, na USP, o que levava grande parte do meu tempo, a ler, a ir aos seminários, a fazer os trabalhos. Para além disso, ia ao cinema com afinco e via muito bom cinema brasileiro. Ia ao teatro. Ia ver os shows de música. Passava as minhas tardes na livraria Cultura na Paulista. Adorava bater o pé na Paulista, de ponta a ponta. Ir a Casa das Rosas. Caminhava aos sábados para Higienópolis ou ia para Óscar Freire, uma espécie de Quinta Avenida. Gosto de focinhar pelas lojas, gosto de espreitar marcas, tenho um apelo irresistível pelo glamour. Que fazer? Por vezes, não muitas vezes, ia ao Bairro Liberdade.

Há muitas cidades dentro da cidade de São Paulo. O Centro fascinava-me. O edifício do Teatro Nacional, o prédio Itália, o Copan – projecto do Niemeyer em S, lembrando a inequívoca curva feminina, o maior condomínio da América do Sul -, o edifício antigo dos Correios e Telégrafos, a Estação da Luz – onde estava instalado o magnífico Museu da Língua Portuguesa, que ardeu, entretanto -, as belíssimas praças, como a República, o vale de Anhangabaú, entre o viaduto do Chá e a Santa Efigénia, os prédios, as fontes de água, as esculturas. Os Jardins, aquelas casas elegantes, amuralhadas muitas, com ruas ornamentadas, que cheiram a flores, o que espanta os incautos. O parque Ibirapuera.

Caetano Veloso: “Alguma coisa acontece no meu coração/ Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João/ É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi/ Da dura poesia concreta de tuas esquinas/ Da deselegância discreta das tuas meninas/ Ainda não havia para mim Rita Lee/ A tua mais completa tradução/ Alguma coisa acontece no meu coração/ Que só quando cruza  a Ipiranga e a Av. São João// Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto/ Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto/ É que Narciso acha feio o que não é espelho/ E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho/ Nada do que era antes quando não somos mutantes/ E foste um difícil começo/ Afasto o que não conheço/ E quem vem de outro sonho feliz de cidade/ Aprende depressa a chamar-te de realidade/ Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso// Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas/ Da força da grana que ergue e destrói coisas belas/ Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas/ Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços/ Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva/ Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba/ Mas possível novo quilombo de Zumbi/ E os Novos Baianos passeiam na tua garoa/ e novos baianos te podem curtir numa boa.”

Os encantos de São Paulo são infinitos. Caetano Veloso fala da feia fumaça que sobe dos prédios e apaga as estrelas ou da força da grana que ergue e destrói coisas belas e do difícil começo que se tem, de quem nada entende ou entendia. Mas o tempo – ah, a benesse do tempo! – faz-nos entender e amar Sampa: a dura poesia concreta das suas ruas. Digo aos meus amigos, que muitas vezes estranham este meu exorbitado amor pela cidade, que a diferença entre o Rio e São Paulo está na comparação (espero que não seja grosseira) entre duas mulheres: o Rio é uma mulher esplendorosa, com as suas esplêndidas e generosas curvas e declives, o seu mar soberbo e as suas enseadas que guardam segredos, a sua mata Atlântica, as suas montanhas, o Cristo de braços abertos e a sua redenção. Mas uma mulher com muito pouca roupa. O encanto desvanece em algum (pouco) tempo. São Paulo é o anverso disso: mulher elegante, hierática, bela, cujos encantos e mistérios se vão descobrindo com o tempo e cada vez mais surpreendentes. O encanto de Sampa reside aí, nessa surpreendente e constante descoberta.

São Paulo é uma cidade de cultura, com uma oferta cultural incrível. Desde shows a museus, cinema a teatro, livrarias e galerias, eu sei lá! Restaurantes: de comida italiana sumptuosa à comida árabe aromática e instigante. A comida em São Paulo é um caso libidinoso. Vive-se 24 horas em São Paulo, a cidade não dorme. E a qualquer hora, pense-se o que se pensar, imagine-se o que se quiser, em São Paulo encontra-se ou acontece. Há lugares, como a Vila Madalena, onde se reinventam ambientes de bairro. Ouve-se música, come-se feijoada ao sábado, e é muito gostoso calcorrear as suas ruas, algumas delas bastante íngremes. É frequentado por artistas, tem bares e botecos, onde se ouvem belos sambas e se bebem drinques de vária ordem. Há uma bela livraria, a Livraria da Vila, absolutamente imperdível.

Os mercados de domingo são comuns. O Mercadão é o mais-mais. Mas há em outras zonas: bebe-se água de coco, come-se uma sanduíche de mortadela, leva-se fruta para casa, ouve-se música e compram-se bijutarias. Eu sou um amante indefectível da cidade, esta é uma das minhas cidades. O meu amigo e mestre inesquecível Baptista-Bastos dizia-me há remotíssimos anos: “as coisas devem pertencer a quem as ama!” Eu amo São Paulo. São Paulo pertenceu-me indesmentivelmente. Foram dois anos em que o Brasil estava numa onda de optimismo. Nem a crise financeira, na sequência do colapso do Lehman Brothers, pareceria abalar a sua obstinada esperança. Permaneci dois anos em São Paulo e fui feliz. Estive lá no ano passado e notei um país cabisbaixo e deprimido. A própria cidade desvanecera. No entanto, permanece como uma das minhas cidades. A primeira (excluindo Maputo e o meu mítico e vetusto Bairro Indígena) foi uma cidade de poeira e amendoeiras, a Norte, chamada Nacala. Jorge Luis Borges, o genial escritor argentino, dizia da sua velha Buenos Aires: o meu passado, o meu presente e o meu futuro. Nacala para mim investe-se dessa mitologia. Vivi alguns (largos) meses em Chaves, no norte de Portugal, vivi quase cinco anos em Lisboa, tenho um sonho longamente porfiado por Barcelona, calcorreei outras tantas cidades e estabeleci-me na belíssima Cidade do Cabo. A despeito: a volúpia, o desvario, o encantamento, a quimera, ou a vertigem de Sampa insistem como uma das lembranças mais duradoiras, retumbantes e ingentes daqueles meus anos. Ou da minha utopia de cidade. Ainda hoje, quando lá retorno, sinto o apelo do Caetano Veloso: alguma coisa acontece no meu coração. Senti-o de novo há um ano. Mas eu sou incapaz de narrar esse meu estouvamento: o avesso do avesso do avesso do avesso.

 

Cá estamos novamente com os rostos cheirando lágrimas de derrotas e com pegadas de choros. O cheiro das nossas lágrimas é crescente e faz nuvens de tristeza em nossos rostos. Nós amamos a nossa selecção e isso nos faz sofrer. Aprendemos em tempos de versos, mal escritos em cadernos, que quem ama sofre. E nós não sofremos porque amamos. Sofremos porque amamos derrotas. O verdadeiro amor não ama derrotas, mas sim ama derrotar. Nós amamos os Mambas, amamos as derrotas. Amamos esses Mambas que nos levam ao Zimpeto para uma tarde de beijos de vergonha, declarações de fraqueza e abraços filtrados por goleadas. O Zimpeto devia ser o lugar das nossas histórias de amor, nossos episódios de namoriscos marcados de beijos mordidos de olhos fechados; mas virou um semi-cemitério do nosso amor.

Sentados nos bancos de Zimpeto sempre esperamos o melhor do nosso amor. Esperamos que o nosso amor nos faça vibrar, meta-nos na língua chocolates em formas de golos, dê-nos cantando um buquê com rosas bem avermelhas de alegria e bem enrolado por uma fita que ao meio sorri um nó brilhante; uma fita que deixa cair dois laços meigos como a língua de uma Mamba silvando na selva.

Saímos sempre do Zimpeto com as lágrimas entornando-se das torneiras mal fechadas dos nossos olhos. Caem-nos as lágrimas como gotas da torneira mal fechada de uma cozinha. Cada gota que cai cria um eco de amargura na loiça suja das nossas almas. Parece que vivemos de promessas e ilusões. Os Mambas são um amor que não nos sabe cuidar. Nós sabemos cuidar deles porque são nosso amor: enfeitamo-nos as caras com cores que eles mais gostam, vestimos as camisetes com os seus nomes, cantamos as canções que mais gostam para nos amarem mais e enchemos o Zimpeto. E eles como namorados não maduros atiram-nos à cara uma declaração de amor com uma enorme assinatura de derrotas.

Os Mambas são namorados infiéis. Traem-nos em nossa própria casa sem se esconderem. Fazem viagens com seus amantes em todos campos do continente, fazem compras em lojas onde a derrota é paga em cheques e dólares e depois voltam à casa nos consolar e nos encher as mãos dos ouvidos com palavras gordas, nas sílabas, de vitória. E o Abel? Firme tenta nos reconciliar, sempre, com os Mambas como um padrinho que não se cansa de nos entulhar em reuniões onde a sua voz é o único timbre que mexe as chapas de zinco da sala de estar.

Sofremos porque amamos derrotas dos nossos Mambas. Os Mambas não sabem que enquanto jogam nossos corações explodem de amor nas veias; eles jogam e nós como seus amores preparamos o jantar, acendemos as velas, espalhamos cartazes sobre a mesa com desenhos de corações, colocamos ao fundo uma música onde um piano bate nas notas e chora. Parece que este texto desliza como o nosso amor pelos Mambas, aliás, os Mambas apenas deslizam de derrota em derrota porque não têm pernas. Se tivessem pernas saberiam os passos necessários para chegar ao coração de quem ama.

E penso que os Mambas precisam de transfusão de veneno. Os Mambas já não têm veneno na língua. Têm derrotas em forma de sangue nas gengivas. Eles precisam de veneno para cuspir, quando rastejam, na relva do Zimpeto. Doze Mambas, juntos, de línguas em riste, e outros enrolados nos ramos dos bancos não conseguem unir os seus cuspos e obter uma gota de veneno? Distribuamos frascos, como se fazem nos hospitais, em todos cantos do país. E cuspamos neles até termos os frascos com mais veneno na saliva; e levemos esses frascos a Federação para introduzi-los, mete-los na corrente do sangue dos Mambas. Precisamos de Mambas que sabem que são amadas e que cuspam o veneno para tornar esse amor imortal.

E nós não sofremos porque amamos. Sofremos porque amamos derrotas. Talvez o nosso amor termine no dia que os Mambas nos trouxerem um vaso de flores com uma carta de amor em anexo. Assim talvez caiamos de emoção e assim termine a nossa história de amor.

 

O exercício de actividades profissionais por estrangeiros tem sido dos assuntos mais polémicos no país. Para quem acompanha estes assuntos, sabe que deste 2007 tem sido feito um enorme trabalho pelo Ministério do Trabalho, desde a introdução do regime de quotas, a flexibilização do regime de contratação de estrangeiros e um crescente abandono da discricionariedade das autoridades laborais na tramitação dos processos. Muito se fez, mas há muito ainda por fazer. Na advocacia, o regime continua o mesmo desde 1994, apesar das fratricidas discussões para mudar o sistema, sempre que a questão é colocada. Foi assim em 2007, tal como em 2015/2013. Sempre esteve muito claro que proibir o exercício da advocacia por estrangeiros não era uma boa solução, mas a abertura idêntica à da Lei do Trabalho também não me pareceu desejável. Foi por isso que defendi a solução tímida que está na Lei das Sociedades de Advogados, que admite o regime de parcerias que também é visto com alguma desconfiança. Muito por culpa da arbitragem, tenho desenvolvido uma carreira internacional, o que me tem ajudado a compreender melhor a advocacia e as suas dinâmicas ao redor do mundo. Tenho oportunidade de partilhar experiências com muitos advogados, o que me ajuda a compreender a advocacia que se faz noutras geografias e, mais do que isso, as crescentes necessidades dos clientes, estes cada vez mais globais. Ainda há dois meses, James Banda, o então Presidente da SADC Lawyers Association disse em Maputo que dos serviços jurídicos prestados em África só 30% dos honorários ficam no continente, ou seja, 70% vão para fora de África. Desde que, há dois anos, deixei a liderança da Ordem dos Advogados, tenho prestado atenção à evolução da advocacia internacional. Ela está a mudar, do mesmo modo que o mundo também muda. Hoje, com os meios de comunicação e informação disponíveis, não é necessária a presença física dos advogados para prestar serviços jurídicos em diversos países, pelo que se pode até questionar se este tipo de prestação de serviços configura ou não procuradoria ilícita. Há que ter em conta também que a abertura de muitos escritórios internacionais para receber advogados moçambicanos para formação ou mesmo em regime de destacamento, têm que ter alguma forma de reciprocidade, sem o que não terá os resultados desejados. E, tal como diz o Dr. José Manuel Caldeira, a chamada formação “on the job”, a possibilidade de trabalhar com diversas matérias, com a dimensão que no futuro serão cada vez mais frequentes no nosso País, são essenciais e para o que não bastam as acções pontuais de formação e participação em seminários. Os sinais são muitos e para um país como Moçambique que quer o investimento estrangeiro como o pão para a boca, não é difícil perceber isso. Tem sido normal os escritórios nacionais – pelo menos os médios e os maiores – serem contactados pelos grandes escritórios internacionais para apresentarem propostas de serviços jurídicos sobre o direito moçambicano, sem que se esteja na linha da frente do contacto com o cliente. A experiência em transacções internacionais só muito marginalmente passa para advogados moçambicanos. Muitas vezes, é o Governo ou entidades públicas que, em situações de legalidade duvidosa, contratam escritórios internacionais para a prestação de serviços jurídicos em Moçambique. Não pretendo defender que deveriam contratar sempre aqui, mesmo para discutir com grandes escritórios em temas de que tem pouco domínio. É necessário que as entidades nacionais promovam a participação de escritórios nacionais nessas transacções. Está em debate público uma Proposta de Revisão do Estatuto da Ordem dos Advogados. Sobre esta questão, nada se propôs. Imagino que, como é um assunto polémico, ninguém queira levá-lo a discussão, até para facilitar a aprovação das questões agora em debate. Mais do que o que os outros devem fazer, os advogados, uma profissão auto-regulada, devem estar na linha da frente deste combate. Creio que temos de ser mais ousados. Dez anos depois das últimas alterações, é importante tocar nesse ponto (sensível), até porque já houve oportunidade de reflectirmos sobre o tema por altura da elaboração da Lei das Sociedades de Advogados. Durante a 2.ª Conferência Nacional dos Advogados realizada na Beira em 2017, na sequência de uma abordagem feita pelo Dr. Leopoldo Amaral sobre a advocacia nos grandes projectos, muitos advogados partilharam a sua experiência e visão sobre o que pode e deve ser a advocacia moçambicana nos dias de hoje. É um debate que não pode ser posto de lado, não podemos evitá-lo. Por isso, vou propor uma alteração do Estatuto da Ordem dos Advogados no sentido de definir regras para que a prestação de serviços jurídicos por estrangeiros possa ser feita de forma aberta, transparente e benéfica para a advocacia e para o país, desde que em equipas onde participem advogados inscritos em Moçambique. Haverá mais impostos pagos em Moçambique; haverá transferência de know how para advogados moçambicanos; haverá uma melhor advocacia Moçambicana. Tal como tento demonstrar num artigo com o título Advocacia de Língua Portuguesa na SADC (no prelo), a advocacia que se faz na Africa do Sul está, cada vez mais, a expandir-se para Moçambique. Importa considerar que grande parte dos escritórios “originariamente” sul-africanos, foram integrados/aderiram às grandes redes internacionais de escritórios, alterando, inclusivamente em grande parte dos casos, a sua própria denominação, passando Joanesburgo a ser um “hub” das firmas internacionais para a sua prática não só na África do Sul, mas inclusivamente nos restantes países do nosso continente. A tendência, até por força de alguma diminuição de negócio na África do Sul, é que os escritórios de Joanesburgo intervenham cada vez mais em operações nos países da região. Até agora temos estado um pouco protegidos dessa abertura de escritórios em Moçambique, por um lado pela dimensão do nosso mercado – ainda que se e Inserir/Editar Âncorasteja a tornar cada vez mais apetecível para essas firmas globais -, mas acima de tudo por causa do nosso sistema jurídico e língua, bastante diferentes do anglo-saxónico, o que os leva a sentir-se menos confortáveis em operar localmente. Como diz o Dr. Paulo Pimenta, é uma questão de tempo. Muito pouco tempo, acrescento. É, pois, necessário iniciar um debate aberto, franco e informado sobre o assunto.

Com oito anos saí de casa para ir viver com os meus pais. Dito isto, assim, deste modo, poderá parecer, à primeira vista, algo paradoxal, mas não o é. Há aqui um facto verosímil que explica esta aparente contradição: a minha casa, de facto, sempre foi a casa da minha avó Angelina, onde vivi os meus primeiros oito anos e muitos dos anos (posteriores), que seriam indesmentíveis para a minha formação. Pouco depois de eu nascer, a minha mãe engravidou e a minha avó levou-me consigo. Quando o meu irmão, que me segue, nasceu, eu tinha treze meses. Vivi, entre 1967 e 1974, com a avó Angelina (Xinguavilana) no Bairro Indígena, vulgo Xitala Mati. Em finais de 1975, embarquei com os meus irmãos (Dulce, Flávio, Hélder – o Paulino nasceria depois), acompanhados da nossa mãe, ao encontro do pai, que fora transferido (foi a primeira vez que ouvi esse vocábulo na minha vida, que então me parecia luminoso) para o Porto de Nacala.

Deixei, compungido, a minha avó e os meus amigos, com quem jogava futebol – a bola era de trapo – à frente da loja do Muchina; ficaram os meus companheiros da Escola Primária do Bairro Indígena, onde comecei a estudar; deixei os amigos com quem ia ao mercado do Xipamanine, ou ia aos campos de Muhafil Issilamo ou arredores. Não mais iria espreitar o outro lado da Avenida de Angola, nem tentar alcançar a Circunvalação. Também dera costas à Igreja Wesleyana, cuja cor nunca me sairia da cabeça, e deixara de fazer parte do meu quotidiano. Deixei de brincar no prédio que sobrevive ainda hoje, pese embora decrépito, na Rua do Zambeze. Também não mais iria espreitar os seios que despontavam nas blusas protuberantes das meninas que vendiam badjias e matoritoris na varanda da loja do Muchina. Nem vislumbraria o fémur delas a espreitar das capulanas desobedientes ou dos irreverentes vestidos de chita que vestiam.

Redijo este texto confessional – uma espécie de um atlas confidencial – no dia em que a minha mãe faz 80 anos e a minha avó faria 99 anos. As duas nasceram a 16 de Outubro: uma em 1919, outra em 1938. Minha mãe nasceu ali no Khovo – que era então a maternidade para os africanos, sendo que na altura os portugueses pariam os seus pósteros na maternidade do Hospital Central Miguel Bombarda. Isso depois mudaria. A descendência autóctone ganhou estatuto e direito a sóbole numa maternidade menos inditosa. Ficou registada: Alice Cumbula. Era provinda de David Machapo Cumbula e de Angelina Sitoi. Os Cumbula eram oriundos do outro lado da baía, da Katembe. Meu avô David começara a vida profissional como ardina no vetusto Notícias, antes de ingressar nos Caminhos-de-ferro, onde permaneceu até se reformar. Os filhos seguiram-lhe as peugadas: o meu tio Alberto, nascido do mesmo útero, ou o tio Carlos, filho da minha avó Daína, com quem o meu avô David haveria de praticar as suas mais longas núpcias, ulteriores à minha avó Angelina.    

Foi em Ressano Garcia, onde Joe Mathada e Sofia Mpfumo fundaram a sua prole – na qual avultavam os meus avós Angelina, Manuesse (pai da minha tia Sofia, mãe dos meus irmãos Alice e Carmo, que são ao mesmo tempo meus primos – mas essa história não cabe aqui hoje), Felicidade, Xavier, Henrique, Maria, Laura, Hilário (mais conhecido por Fanyana, era o mais novo e morreu muito cedo), e basearam a família, onde meu avô David interpelou aquela belíssima donzela Angelina, filha mais velha do funcionário da Alfândega, que viera de Mambone e que ocultara o seu verdadeiro apelido. A minha avó tinha um génio dificílimo e fazia questão de afirmar as suas origens ndau. O meu imaginário está habitado dessa paisagem onírica e dos duendes que sempre me haveriam de assombrar. Todos os irmãos da minha avó ou viviam em Ressano Garcia ou do outro lado da fronteira. Eu ia miúdo para Ressano e tenho recordações impressivas dessas viagens de comboio. Quando ela morreu, pediu para ser enterrada ali: o meu neto quando for à África do Sul, vai passar e visitar a minha campa – sentenciou ela. Escusado será dizer que sempre que eu empreendo viagem e por ali passo vou ao cemitério saudá-la, deixar uma flor e pedir sorte e protecção.

No entanto, outro dia fomos, de propósito, a Ressano Garcia: pôr flores na campa da avó Angelina e visitar a avó Laura. Dos irmãos, é a única sobrevivente. Avó Laura é uma das mais novas irmãs da avó Angelina. Liga-nos o nome tradicional: ela é Tchone, nome da mulher de Marimbique. Eu sou Marimbique, que era o nome do avô de Joe, o pai delas. Nas libações, a avó Angelina pedia sempre protecção a Marimbique. Testemunhei tantas vezes as suas invocações aos antepassados onde o nome do meu xará Marimbique assumia um protagonismo incontestado. Mambone, Marimbique, Ressano Garcia, Joe Mathada, Sofia Mpfumo eram e são uma espécie da minha cartografia, os meus numes, as minhas divindades.

Ressano Garcia é, por conseguinte, um lugar mágico para mim. Ia com a minha avó, de comboio, visitar a mãe dela, minha bisavó Sofia. Num dos registos, reconheço o avô Carlos, marido da avó Maria, uma das irmãs da avó Angelina. Na fotografia julgo reconhecer a minha tia Hortência, que viveu comigo em casa da avó Angelina e que era uma estampa. Viveriam muitas outras sobrinhas dela, quando vinham estudar para a capital. A minha mãe contou-me, a seguir a esta romaria, que Hortência já não habita este reino e isso surpreendeu-me e entristeceu-me. Um destes dias eu assentara em versos as impressões que aquele lugar causara e causava em mim:

Ressano Garcia: O rio Incomati demora lesto nas margens / da minha infância sobre a paisagem de pedra/ inclinada nos dias de visita à casa da bisavó Sofia/ em Ressano Garcia onde avultavam  duendes, histórias de mortos-vivos/ e o mito dos crocodilos que devoravam os incautos.// Passados estes anos retorno a Ressano Garcia/ curvo-me diante da lápide/ com nome da minha avó Angelina/ sepultada na tumba do pai Joe Mathada/ no cemitério que margina a estrada/ e anuncia a fronteira, a alfândega, os viajantes, os vendedores de tudo -/os flibusteiros.// Nas fotografias em sépia que sobrevivem/ à corrosão do tempo/ os delidos rostos da minha família materna/ reunida no quintal da casa dos pais da minha avó/ onde me surpreendo de calções, peúgas altas e sapatos/ sentado entre adultos e alguns jovens de então/ a olhar fissurado para uma das minhas tias.”

Naquele dia, ali, naquela casa, a seguir ao cemitério, fitando a encosta inclinada, a areia vermelha, o chão empedrado, o calor impenitente, conversando, docemente, com a avó Laura, olhava para ela sem nunca disfarçar o meu espanto: a semelhança com a avó Angelina. A avó Angelina era uma mulher muito bonita e vaidosíssima. Tinha uma personalidade fortíssima e era inabalável. Tenho lembranças incólumes dela: deitava-se à porta de casa, pedindo-me para lhe fazer uma massagem. Essa é uma das lembranças mais ternas que tenho dela. À noite tirava os dentes postiços e colocava-os num copo de água. Cozinhava esplendorosamente. O seu arroz de cabidela era absolutamente indescritível. Era uma conversadora exemplar. Falava-me nas duas línguas: ronga e português.

Em Novembro de 1975 parti para Nacala. Para trás deixei a melancólica litania dos dias de chuva naquela minha casa de sempre. A chuva a embalar-me sobre o zinco e a memória remotíssima das cheias, dos barcos a resgatar as pessoas, das galochas nos pés de muito poucos, das brincadeiras à chuva, do drama que eu não entendia ainda e que estava na origem daquele milagre da minha infância: a chuva a bater no tecto de zinco. Parti alegre porque ia viajar, ia num avião, ia para o Norte. Lá onde estava o meu pai e lá para onde se dirigia a família: Nacala. E foi lá, primeiro em casa da tia Amélia e do tio Américo, que nos acoitaram, enquanto o apartamento do bairro Ferroviário ficava pronto, onde vivi, com a minha família nuclear, pela primeira vez, aos 8 anos. Eu era então o Nelsinho, o mano Chinho, o estrangeiro. Creio que sempre fui uma espécie de estrangeiro entre os meus irmãos. Não tinha vivido com eles no Infulene e não vivera na Liberdade. Ia à casa dos meus pais em visita, algumas das poucas lembranças que tenho, ou pelo menos as duas mais marcantes, são lancinantes: a do dia em que fui circuncisado e quando me foram buscar para o funeral da minha irmã Angelina, que tinha justamente o nome da nossa avó. Do Sérgio, outro irmão que morreu muito pequeno, não tenho lembrança firme. Da Angelina, lembro sobretudo os ciprestes, as lágrimas na face do meu pai, enquanto a procissão fúnebre vogava por um cemitério de Lhanguene que ainda guardava, entre aquelas campas, alguma dignidade.

Nacala deu-me o convívio com a minha mãe biológica e com os irmãos, que nunca tivera até então, sem eu, no entanto, enjeitar, de alguma forma, a minha avó Angelina, que na verdade foi a figura materna predominante na minha vida. Aliás, quando retornei de Nacala, quis e fui viver de novo com ela. Fomos para Xiquelene, um novo bairro, onde ela construíra a sua nova casa, desta feita de alvenaria. A minha avó era uma vendedora de mercado – lembro-me que ela foi pioneira no Mercado Janet, onde cheguei a ajudá-la, da fase do mercado da Baixa não tenho memória – que, com as suas poupanças, conseguiu construir duas casas de madeira e zinco, ali no Bairro Indígena. Uma delas haveria de perder quando das nacionalizações. Viveria toda a vida vituperando o regime que lha tinha espoliado.

Não ficámos muito tempo em casa dos tios Amélia e Américo e logo tivemos a nossa casa. Aqueles cinco anos passaram-se tão depressa que ainda hoje tenho nostalgia daquela pequena cidade portuária, com encostas lambidas pela erosão, com ruas de amendoeiras, o calor obsidiante e um impressivo mar azul. O mar de Nacala ainda povoa o meu imaginário. Aquele mar que invadiu as janelas da automotora na noite em que chegámos. O mar que eu haveria de descobrir na Maiaia, ou ao largo do porto, ou diante de um daqueles baldios onde íamos fisgar passarinhos, ou na casa do Director do Porto, onde subíamos à árvore para roubar jambalau. A minha mãe é sobretudo esse tempo de Nacala. E recordo-me, quando atingi os 10 anos, e fiz uma reivindicação: sou Nelson, não Nelsinho nem Chinho. Ali, na amurada do prédio, tentando perscrutar alguma nesga de mar, de peito cheio. Hoje, com mais de 50 anos, eu quereria ser outra vez Nelsinho, ou mano Chinho, como me chamavam.

Em 1980 desembarcámos em Maputo. Fomos ali para a Rua Simões da Silva. Ainda hoje se chama assim, defronte do Arcebispado. Era um apartamento da avó Angelina, que haveria de passar para os meus pais. Ali vivi uns anos, ali a nossa mãe revelou-se uma heroína para nós, sobretudo para mim, como todas aquelas mães, que tinham de inventar comida e futuro, num tempo e num contexto bastante adverso. Eram os tempos da escassez de tudo, eram os anos da crise, os anos de todas as carências, os anos da falta de tudo: luz, água, comida. Tudo. Absolutamente tudo. A minha mãe é sobretudo a heroína desses anos que tudo fez para que pudéssemos ir à escola e que víssemos ali a frincha por onde enxergar a esperança.

Íamos ao Tunduru acartar a água. Comíamos repolho com repolho. Por vezes, carapau de Angola. Não havia pão. Fazíamos bicha às 4 da manhã no talho na esperança desesperada de comprar a carne do Botswana. Íamos para o liceu, muitas vezes, com o estômago vazio. O queijo do tio Reagan e as maçãs do tio Botha, anos depois, fariam milagres no intervalo das 10 horas, da Josina Machel. Guardo desse tempo a admiração pelo papel intrémulo da minha mãe. Bem sei que muitas mães eram tão briosas, mas naqueles anos desalegres ela foi intrépida. A audácia, o arrojo, o denodo, o desassombro, a obstinação, ou a firmeza da minha avó são factos inequívocos.

Sairia, no entanto, de casa. Da casa da minha avó e da casa dos meus pais. Debutara, precoce, aos dezasseis anos, na profissão. Antes dos 20 um colega de meu pai deixar-me-ia a sua casa. Aos domingos, quando vou ao Infulene fazer a minha visita sacramental, muitas vezes, escolho o caminho que me faz passar ao largo da rua do Zambeze, pela avenida de Angola, onde a minha avó vivia – ela haveria de voltar, entretanto, ao antigo Bairro Indígena. Sobressalto-me com a memória vívida da avó Angelina. Passam muitos anos, mas ainda me revejo nela. Redijo este enternecido encómio diante de duas vetustas fotografias delas. Dou-me conta do olhar resoluto de ambas. Minha mãe não foi tão perseverante, no entanto. Chega combalida aos 80, mas chega e isso é uma bênção. A mãe dela era ainda uma fortaleza quando, pouco antes de morrer, se lhe revelou o óbice da idade. A Avó Angelina faria hoje 99 anos, abandonou este reino aos 89, meses antes de fazer 90 anos. A minha mãe Alice celebra hoje 80 anos. É um prodígio, é uma graça, e é uma dádiva, aos quais não me furto de celebrar, comovidamente, nestas páginas. 

 

Guarda o que não presta e encontrarás o que é preciso

José Saramago

Há quem diga que o Homem, na terra, é efémero e que um dia irá transcender para uma outra dimensão. E o que dizer dos objectos? Bem, se colocássemos a pergunta a João Roxo, a resposta seria, eventualmente, estão em trânsito. E logo se percebe, afinal “Objectos em trânsito” é o título da exposição do artista visual moçambicano, patente no Centro Cultural Português, em Maputo, até próximo mês. Nessa obra, feita de batik, instalação, som e vídeo, Roxo resume o que expõe ao conceito que persegue, o qual alicerça-se à promoção de uma reflexão sobre fenómenos que envolvem a humanidade e a sua presunção.

À partida, “Objectos em trânsito” parece algo difuso, vazio e de um suspense inquietante. Precisa-se estar conectado ao espírito do criador, tentando sê-lo, para que se enxergue a profundidade das coisas que são ditas, com e sem palavras. É uma exposição multidisciplinar, na qual o artista esgota-se na exploração dos espaços no lugar onde a obra está patente. Em alguns casos, há peças da obra penduradas; outras encontram-se nas paredes e ainda outras no chão. Isso provoca e desafia-nos à medida que naqueles artefactos procuramos ouvir o que o silêncio não diz, porque não quer ou porque não pode. Sei lá… a verdade, ou pelo menos o que parece ser, é que o vazio e o difuso desvanece num zás, e, num rompante, começa-se a visualizar trechos, atalhos e o horizonte para onde se move tudo aquilo.

A propósito de movimento, isto é o que a exposição de Roxo sugere nessa projecção por vezes fílmica em que determinadas partículas partem de um lado para o outro ou transportam algo de concreto ou intangível. Por exemplo, sob os “post fear” colocados à parede do Camões, papeis transportam informação, conhecimento como princípio de tudo cuja meta é uma partilha contínua. De igual modo, o som da rádio ou das telas apresentam nas suas ondas sugerem realidades, transferindo-as de um lugar para mente. São essas ondas repetitivas que quebram o silêncio, no entanto sem o anular. É como se o som e o silêncio fossem duas faces complementares de uma moeda ideal, cheia de mensagens: “como os objectos, estamos todos em trânsito”. A este nível, a outra questão é: para onde? Nem Roxo e tão-pouco a exposição devem ter a resposta. E se tiverem, nada explícito.

Na parede do Camões há ainda traçados a cor que nos devolvem ao raciocínio as imagens dos plásticos, esses como que veículos que transportam variados produtos. À frente dos plásticos, os fardos, também esses transportadores de roupas, calçados, etc. Portanto, de forma recorrente, os fragmentos que constituem a exposição de João Roxo revelam como o autor está preocupado com o movimento dos objectos, poluentes, “benevolentes” e informativos. Para onde isso vai? E depois, qual o problema a advir desse movimento?

Retratando os objectos, como efeito ou mesmo como causa, Roxo questiona o materialismo e dependência que isso cria em nós. Vendo a exposição nesta perspectiva, na essência, não é de artefactos que se trata a obra do artista visual. É mais ousada ao criar daí um paralelismo com que hoje define a condição humana, apegada às coisas palpáveis, se calhar, por resolverem problemas pontuais, todavia reféns a algum cronótopo. Se os objectos estão num trânsito banal e previsível, e então, o que dizer dos homens que se apegam aos mesmos? Enfim, Roxo conduz-nos a esse movimento espiral para fomentar uma introspecção em nós, quiçá para aprendermos a guardar o que não presta, de modo a encontrarmos o que é preciso.

 

Título: Objectos em trânsito

Autor: João Roxo

Exposição

Classificação: 13

 

(…)
E tu danças,
Apagando sinas, decretos, contratos,
Por dentro da gravidade da terra!
Melita Matsinhe, in IGNIÇÃO DOS SONHOS

À Virgília Ferrão
«17:50:21 Se não acreditas liga, irmão»
«17:25:05 Até exibia um ar de quem faz aquilo, há meses»

Paulo leu a mensagem enviada pelo primo Mateus sufocado por intensa luz do telemóvel, aturdindo-o no interior da viatura. Passava já das vinte e duas horas, a meta diária de trabalho, quando o turno de Paulo Ximboane terminou.

Paulo venceu a hesitação inicial, prosseguindo com a leitura da montanha de sms.
«16:49:44  Até agora não consigo acreditar, mano»
«15:29:12  Há quanto tempo ela faz isso?»
«15:09:03  Nem reconheci o rosto do tipo de fato preto»
«15:07:07  O casaco que a Cláudia trajava é aquele que ela vestiu na festa do meu aniversário»

Quem reparasse no Paulo podia ver para além do cansaço que lhe contraía o sorriso, a leveza sufocada, como se fosse um pássaro molhado por uma vaga de chuva tropical. O Paulo e os dezanove colegas tinham antes recolhido aos balneários. Depois passaram pelo refeitório para um tomar a pasta de frutas, ao que de seguida cada um rumou aos aposentos para o merecido descanço. Ele ainda lembrou-se de abrir o seu cacifo para dalí retirar os seus pertences, de entre eles o inseparável telemovél.

Rodou a chave preta na portinhola onde constam as iniciais do titular PX- 24. Depois de montar a pasta nas costas, retirou os auriculares e, de seguida o telemóvel.

Ligou o aparelho. Depois das sinaléticas da marca e cumpridas a ligações dos dados. A avalanche de quase de 30 mensagens veio logo a seguir para sufocar as emoções do moço, sem apelo, nem agravo, como fazem os ladrões a pessoas indefesas.

«14:47:00 É uma fia da mãe, porraaaahhh!»
«14:15:08 Ela anda a ferrar-te os cornos com um guarda- prisional»
«14:10:56 Pelo sorriso que eles trocaram notava-se que aquilo acontecia muitas vezes».
«14:09:07 Estava toda sorridente para aquele maricas… E até entregou um take away ao gajo».
«13:45:19 O que faz a tua mulher ali?»
«13:30:00 Mano nem queiras acreditar que vi a tua Cláudia na cadeia»
«13:15:40  A tua mulher  está na cadeia. A fazer o quê?»
«13:11:33 Tentei-me segurar mas não consigo. Tenho de abrir-me com alguém».
«13:10:02 Acho que temos abertura suficiente para conversar»

Paulo fervia furioso, sem saber o que fazer. Passava-se um filme horrível na cabeça do moço. Mesmo assim ele conservava os olhos em chamas fixos na avenida, conduzindo. Se fumasse já teria esgotado um volume de cigarros. E pelos vistos ele não tinha vontade de falar com mais ninguém. E, justo naquele instante, mais duas sms piscaram no telemóvel. Era a Cláudia:
«01:31:01Amo-te!»
«01:30:00 Ainda demoras, mor?»
De repente, os pneus do carro chiaram sobre o asfalto, numa tentativa de evitar um camião que abacava de cortar a prioridade à viatura do Paulo.

Por volta da uma e quarenta da manhã a Cláudia despertou ao som de uma chamada insistente e incômoda. Levantou-se com esforço, apoiando-se na cama, deslizando sobre os lençóis e atendeu ao telemóvel que estava sobre a cabeceira, ainda ensonada:
«Oi, amor?»
«Amor?»
«Não, senhora. Não é ele. Sou Papaíto. Apanhei o telefone no carro. Ele está muito mal, dona. A notícia que tenho para dar é muito triste. Socorremos o teu marido.

Ele acidentou, na esquila do mata-e-esfola junto ao quiosque da Rua do Doutor Pescoço. Ele não aguentou. Ainda nem chegamos ao hospital. Perdeu a vida».

Cláudia soltou um grito lancinante e desmaiou. Do outro lado da linha, quando a empregada doméstica foi ver o que se passava, ainda alguém dizia:
«Vivo na zona de Intaka. Trabalho nos Serviços Sociais do clube Desportivo». E de seguida a linha caíu.

Mais tarde os familiares do casal souberam por via do Papaíto daquela desgraça que se abatera sobre a família Ximboane. O jovem foi informando os familiares que estavam registados no telemóvel como «tios», «primos», «sobrinhos», etc. E quando alguns tios foram reconhecer o corpo lá estava Papaíto para testemunhar e entregar o telemóvel do Paulo aos familiares que acabavam de perder de uma vez um jovem casal que cumprira o matrimónio, há um ano e sete meses. A Cláudia não resistiu à carga de emoções. Ela estava já no sexto mês de gestação. Perdera a vida na flor da manhã do dia seguinte.

Depois da missa de 30 dias, a tia Joaquina, a mais próxima e amiga do casal Cláudia & Paulo, com ar severo reuniu com o Mateus para entre várias coisas perceber o teor dos sms´s que ela lera alertada, pelo Papaíto. O Mateus mordia-se de vergonha. Não conseguia dizer palavra alguma. Depois de vencer a mudez Mateus confessou-se à tia:

– Eu vi a Cláudia. Estava a conduzir. Abrandei a marcha e tentei perceber o que ela estava a fazer… Aconteceu-me um ciúme inexplicável, tia. Tentei alertar o primo, pensando que ele estivesse de folga.

A tia Joaquina, mesmo sem compreender a razão daquela atitude sentenciou:

«Mas tu não sabes que a Cláudia acabava de começar a trabalhar num escritório de advogados?»

 

A lendária paixão de Freddie Mercury pela voz e pelo belo canto de Montserrat Caballé está na origem de um dos mais fascinantes encontros no universo da música do século passado. Desde que a viu cantar Giuseppe Verdi, em 1981, na Royal Opera House, de Londres, que o cantor popularíssimo dos Queen alimentou o sonho obsessivo de cantar com a diva catalã. Ele fora ver Luciano Pavarotti, outra figura legendária, mas saíra dali obcecado pela cantora lírica. Anos depois, em 1987, para a convencer, depois de muitas investidas sem sucesso, através de emissários, instalou-se, com uma equipa de som e um piano, no Hotel Ritz de Barcelona, e cantou, quando ela assomou, “Exercises in Free Love”, fazendo os falsetes que haveriam de corresponder à prestação de Montserrat, caso ela assentisse. Nasceu assim a mais improvável das parelhas: ele diria, zombando dela, afectuosamente, que a tinha transformado numa espécie de “rock star”. Esta afirmação não deixa de ter algo de verdadeiro. Agora que Caballé viaja para o planeta onde está Mercury desde 1991, é, recorrentemente, lembrada por esta parceria. Não há nenhuma injustiça nisso. Ela já era a grande voz. Considerada por muitos a maior do século. Talvez, sim, com uma ressalva: Maria Callas seria a soprano de todos os tempos. José Carreras (na verdade Josep Carreras) diria que nunca havia visto ninguém cantar como Caballé. O facto de Freddie a considerar a mais bela voz do Mundo não era apenas uma estratégia de sedução. Isto num tempo anterior aos famosos duetos do próprio Pavarotti com outros tantos cantores.

Freddie Mercury e Mike Moran (e Tim Rice) compuseram as belíssimas músicas que constituem o disco “Barcelona”, que uniria para sempre a soprano catalã e o líder dos Queen. Esse encontro é um verdadeiro milagre. Acontece uma alquimia feliz e uma empatia irrepetível. A letra de “Barcelona” traduz esse sonho de Mercury. “I had this perfect dream/ This dream was me and you/ I want all the world to see/ A miracle sensation/ My guide and inspiration/ Now my dream is slowly coming true.” A faixa “Ensueño”, que corresponde ao originalíssimo “Exercises in Free Love”, é outra das epifanias. Ao ouvi-los a cantar esta música compreende-se o poder do sonho e a força persuasiva de Freddie, excessivo, exuberante e vibrante: “Tu voz penetra em mi/ Vibra en ti/ Vibra en mi”, cantam em castelhano, acompanhados de piano, como fizera o cantor inglês no Hotel Ritz de Barcelona, quando a arrebatou.

Eu tenho ouvido recorrentemente esta música e este belíssimo disco. Eu tenho uma paixão obstinada por Barcelona, pela cidade, por estes dois cantores. Antes de “Barcelona”, conhecia modestamente Montserrat Caballé, ouvira falar dela, via referências quando ia a Madrid, onde vivia a Ana Juliana. Eu ia amiúde a Madrid e os nomes de Montserrat Caballé, José Carreras e Plácido Domingo eram comuns. Ouvia-os com frequência, mas não tinha a mesma paixão, quase insana, que nutria por Freddie Mercury, que era e é o meu cantor de culto. (Na época também tinha um amor excludente pela Maria Callas. Ainda hoje a oiço. Sobretudo “Carmen”, de Georges Bizé – “Habanera”, como ficou conhecida a ária “L´amour est un oiseau rebelle”). A reunião dos dois sob o signo da cidade condal impõe-me, desde então, essa trilogia indisfarçável: Montserrat Caballé, Freddie Mercury e Barcelona. Quando o cantor inglês morreu, em Novembro de 1991, o primeiro pensamento que tive foi de que ele não cantaria mais com a Caballé nos Jogos Olímpicos de Barcelona, no ano seguinte. Inadvertidamente fizera o hino da cidade a partir do seu génio e da sua fixação pela voz e pelo canto de Montserrat. Ela já era um mito, mas esta parceria fê-la muito mais conhecida no Planeta.

Agora oiço-os de novo. Impossível falar deles sem falar da “cidade dos prodígios” e do meu amor literário, também obsessivo e implacável pela cidade. Levei muitos anos antes de ler o notável romance de Eduardo Mendoza – A Cidade dos Prodígios. É um dos livros que mais me enlevou na vida. Um belíssimo romance. Lera antes um livro que concitara leitores e que me parecera, também, de algum modo, prodigioso: A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón. Tenho os livros de Juan Marsé para ler. Tenho, no entanto, lido e relido o poeta Jaime Gil de Biedma, de quem sou um incondicional admirador.

O escritor irlandês Colm Tóibín escreveu um dos livros mais belos sobre a cidade – Homenagem a Barcelona. O título acena para um título mítico – Homenagem a Catalunha -, de George Orwell, que relata a experiência do escritor inglês sobre a guerra civil espanhola. Aliás, as páginas do próprio Tóibín sobre esse tempo sombrio da guerra são brilhantes. Para além disso, as páginas sobre o tempo da República ou as que falam do Bairro Gótico, de Picasso, de Miró, de Gaudí e ainda da geração de 1992, para resumir, são igualmente excitantes.

Cheguei a Barcelona de comboio, numa viagem remota.  Sonhara durante anos com a cidade na voz de Caballé e Mercury, que oiço esta noite, que oiço repetidamente, que oiço obsessivamente, num incessável arroubo. “Barcelona”, na voz deles, tem um efeito mobilizador para mim, dá-me ânimo, é uma espécie de tónico. Quando exulto, grito: “Barcelona!” ou procuro pelo vídeo desta música na Internet. Seja por que razão for. É o efeito catártico da voz poderosa do Freddie cantando com a imensa Montserrat. É como se o apelo que está contido na letra e na voz de Mercury me transportasse para outra galáxia.

A cidade de Antoni Gaudí colheu-me de espanto desde o primeiro momento. Tenho um poema algures, publicado primeiro no livro A Cidade Lúbrica, dado à estampa em Bolonha, em Itália, em 1998, nunca publicado aqui, onde falo da minha fuga perante o espanto daquela monumental obra. Retomei esse poema no livro A Viagem Profana, de 2003, que resgatou alguns poemas daquele livro anterior. O poema termina dizendo: “Saí da Catalunha a fugir/ não sei se de mim ou de Barcelona.”

A Sagrada Família é incontornável. Talvez seja o monumento de Barcelona, sendo que a cidade não está desprovida de monumentais obras. De Gaudí e não só. Aliás, esta igreja representa aquilo que a criação se permite a um espírito completamente desvairado. É a loucura genial de Gaudí. O arquitecto morreu atropelado em 1926 e a obra ainda hoje prossegue com desassombro. Já a visitei diversas vezes e sempre me empolgo ali. O génio humano e o toque divino encontram-se naquele projecto. Não o sei descrever. O meu vocabulário é, por certo, incompetente para o fazer.

Já que temos o Gaudí à mão: falemos de La Pedrera e Casa Batló, dois marcos arquitectónicos da cidade, em pleno Passeig de Gràcia. Eu gosto do Passeig de Gràcia. Gosto de ali estar. A beleza, a beleza, a beleza. O esplendor do Bairro L´Eixample. Há quem goste mais do Bairro Gótico. Aliás, Colm Tóibín, na sua Homenagem a Barcelona, traça páginas belíssimas sobre o Bairro Gótico. Gosto de passear pelo Gótigo, mas o Passeig de Gràcia é o Passeig de Gràcia e está tudo dito. É como estar na Quinta Avenida em Nova Iorque, no La Spiga em Milão, na calle Serrano, em Madrid.

O Bairro Gótico testemunha a cidade como um dos guardiões do gótico na Europa. Os modernistas, como Gaudí, revêem-se no gótico e nele se inspiraram para as suas arrojadas criações arquitectónicas. Este bairro é o repositório de uma época do florescimento da cidade. A Catedral ou mesmo o Palau de La Generalitat são imperdíveis.  Também gosto de andarilhar por La Ribera. Esta cidade tem mar e isso faz toda a diferença. O templo de Santa Maria del Mar ou o Mercat del Born. O Museu Picasso e o incrível Palácio da Música Catalã são igualmente imperdíveis.

Ainda não me referi a Rambla e isso parece indesculpável. La Rambla deriva do árabe “areia”. Esta ampla avenida era um ribeiro que se estendia até ao mar. Quando secava transformava-se num extenso areal. A Rambla tem cafés, tem artistas, tem vendedores ambulantes, tem charlatães, tem vendedores de todas as ilusões, tem encantadores da noite. É a movida catalã, de manhã, à tarde e à noite. A Praça da Catalunha, no alto da Rambla, e o monumento a Cristóvão Colombo no final da mesma.

A primeira vez que ali cheguei, saí da boca do metro e fui, literalmente, tolhido pelos sons apátridas de músicos oriundos da América Latina. Foi uma chegada exuberante a esta praça e ainda hoje aqueles sons reverberam em mim. O mercado de São José, conhecido por La Boqueria, é o mais antigo dos mercados de Barcelona e está na Rambla. Não se perdoa a quem não o visite. Porto Velho e Barceloneta. A zona do mar, do porto, o antigo bairro de pescadores, Barceloneta, conserva o charme e o encanto dos tempos. Um antigo armazém alberga o Museu de História da Catalunha. O ambiente popular da Barceloneta prossegue até à praia onde se pode admirar uma obra peculiar – a estrela ferida, de Rebecca Horn, a modelar a paisagem. Ainda na zona de mar, o Port Olimpic, El Poblenou e El Forun, fazem o fascínio da cidade.

Ver a cidade de Montjuic, “colina dos judeus”, a colina mágica, dizem muitos e o mito reitera-o, é uma experiência única. Vale também visitar a Fundação Joan Miró. Miró é um dos meus pintores electivos. Tóibín faz um retrato fabuloso de Miró e conta a história desta fundação. Vale ainda a pena desfrutar dos parques e jardins, olhar o Mediterrâneo dali, admirar as piscinas olímpicas, o anel olímpico, a torre de comunicação do Calatrava, outros ex-libris da cidade. Há uma escadaria que nos leva para a Praça de Espanha. Descê-la é uma experiência ímpar.

Quem é louco por futebol e, sobretudo, pela equipa do Barça, tem, no Camp Nou, o museu do clube para visitar e viver a magia de um grande clube. A fábula da equipa do argentino Lionel Messi. Mas eu prefiro atardar-me no Parc Guell. Em 1900, Eusebi Guell sonhou implantar uma “cidade jardim”, em 20 hectares debruçados sobre o mar. Desafiou a imaginação de Antoni Gaudí. Este, porém, desistiu do projecto inicial quatro anos depois, o que não impediu que as suas criações imaginosas estivessem na origem de um dos parques-emblema da cidade.

Barcelona é uma cidade que nos convida a caminhar, a andar de bicicleta ou a sentar num dos seus belos bancos, num café e admirar quem passa; cidade para quem gosta de ir às compras; para se comprazer com a excelente e diversa culinária; cidade de artistas, de pintores, de escritores, de músicos; de homens-estátuas, de quiosques; cidade dos chineses no bairro Raval; onde avultam prostitutas ou dos gays no L´Eixample; cidade de todos.

A cidade nos esquissos de Antoní Gaudí, nos livros de Eduardo Mendoza, Manuel Vásquez Montalban, Montserrat Roig, Juan Marsé, Carlos Ruiz Zafón, nos poemas de Jaime Gil de Biedma, nas pinturas de Pablo Picasso ou Joan Miró, a minha cidade literária, a cidade dos meus sonhos, onde sempre sonhei um dia viver, escrever e amar, a cidade das cidades, minha cidade também. Sonho postergado o meu: Barcelona está exaurida pelo extenuante turismo de massas. Hoje também é uma cidade atormentada. Por vezes, vejo as imagens lancinantes de Barcelona na televisão.

A Catalunha está na origem desta escrita. Foi um texto, que eu fazia circular entre amigos, no qual discernia sobre a velha e irresolúvel questão da República Catalã, que me empurrou para estas páginas. Nunca deixei de pensar Barcelona sem estas duas vozes: Montserrat Caballé e Freddie Mercury. “Barcelona! / It was the first time that we met/ Barcelona! / How can I Forget?/ The moment that you stepped in the room/ You took my breath away.” Sempre senti esta mesma pulsação de Freddie Mercuy. Comigo nasceu também um amor incessante e obsessivo, num momento de vibração e de celebração, numa empatia inesperada e, provavelmente, num dolorido e incompreendido amor, como o são os amores exultados e exultantes. Freddie canta para Caballé e é profético: a música e Barcelona os uniu para sempre: “And if God is willing/ We will meet again/ Someday”. Neste sábado, 6 de Outubro, cumpriu-se a profecia. Freddie Mercury (1946-1991) e Montserrat Caballé (1933-2018) encontraram-se de novo e cantaram, indubitavelmente, entre outras músicas, “Barcelona”.

 

O seu nome, Carlos Paradona Rufino Roque, mais lembra um pseudónimo pois não é comum na onomástica do Vale do Zambeze. Mais ainda, o facto de insistir naquilo que é supostamente o seu nome completo, tem o seu quê de original no mundo literário, onde os autores mesmo quando usam os seus nomes próprios e não recorrem a pseudónimos, é regra e estilo a utilização de dois, com ou sem determinantes, José Craveirinha, Mia Couto, Noémia de Sousa, Paulina Chiziane, Fernando Pessoa, Luís de Camões, Ungulani Ba Ka Khosa, Eduardo White, Viriato da Cruz. Quando muito, três Mário Pinto de Andrade, Francisco Sá de Miranda, e por aí em diante em quase todos os sistemas literários. Por isso, a primeira originalidade que nos aparece nas obras deste autor é o facto de ele fazer questão de usar o nome completo, Carlos Paradona Rufino Roque, tal como nos nossos documentos de identificação.

Pode não haver causa e efeito entre este pormenor e a sua escrita. Mas como prefaciador, isso não me passou ao lado.

O autor pediu-me para dizer algo em jeito de prefácio sobre a sua última obra, ??Carota N?tchakatcha, Feitiços e Mitos”. Mas como tinha em mão, as suas duas obras anteriores, nomeadamente e por ordem cronológica, ??Tchanaze, a Donzela de Sena″ e  ″N?Tsai Tchassassa a Virgem de Missangas”, procurei cotejar os três textos.

Na realidade, não sabia exactamente o que buscava, mais a leitura paralela dos três textos revelou-se de extrema utilidade para quem tinha a missão de escrever algo sobre um texto para motivar a sua leitura.

Reparei que o autor cultiva obsessivamente a sugestão erótica quando apresenta as suas protagonistas, todas elas virgens, donzelas, de rara beleza, mas também possuídas de mil mistérios e fatalidade várias, Tchanaze, N?Tsai ou Carota não são mais que simultaneamente, metáforas da beleza misteriosa da mulher do Vale do Zambeze e de maldição que essa beleza pode atrair para si, quando é chegada a hora da passagem para a fase adulta, nomeadamente, a sexualidade e o casamento. Por outro lado elas também são metonímias da mulher donzela deste mesmo Vale, de que se conta no seu vasto reportório literário oral com todas as vicissitudes atribuladas face ao conjunto de valores, crenças, obrigações e interdições que a cultura dos seus habitantes transformam em forma de conhecimento. Beleza, visibilidade erótica e fatalidade entrecruzam-se com os rituais e busca de compressão lógica das coisas.

 Mais reparei ainda que o autor procura registar com algum rigor a denominação do espaço antropológico e geográfico onde decorrem as acções. O nome das terras são aquelas, não tem nada de ficção, os ritos, as crenças e todo o sistema de valores também são aqueles, não ficciona, o que transforma a sua obra num ensaio antropológico com uma geografia bem determinada.

O autor tem uma preocupação de ser exaustivo quando narra ou quando descreve, mais fá-lo com a alguma mestria, o que torna os textos de leitura ligeira que permite o leitor percorrer as obras quase que de um fôlego.

Se o prefácio que me foi pedido destinava-se ao texto ?Carota N?tchakatcha, Feitiços e Mitos ? que me perdoe Carlos Paradona Rufino Roque, não pude resistir a cotejar os três romances. Neles encontro uma certa continuidade. As particularidades temáticas de cada um e em particular neste último são quanto a mim variações de uma grande narrativa, de que é peculiar o vasto património das narrativas de transmissão oral, do Vale do Zambeze, em particular e de Moçambique e porque não, africanas em geral.

Experimente o leitor ler as três obras em simultâneo, encontrará de uma forma adicionada todas as questões tratadas no dia-a-dia dos povos do Vale do Zambeze quer na vida familiar, privada, na vida pública, nas crenças de valores do mundo físico e metafísico, com os seus feiticeiros, mortos, espíritos dos antepassados, interacção entre o homem e aqueles animais que são considerados umbuidos de poderes mágicos.

Moçambique pode orgulhar-se de autores como Carlos Paradona Rufino Roque, que não precisam de ficcionar nem nomes, nem lugares, nem histórias, mas demonstram competência para actualizarem com arte o que nosso povo vem fazendo e contando no seu dia-a-dia. No fundo, Literatura é isto.

*prefácio do livro ?Carota N?tchakatcha, Feitiços e Mitos?, de Carlos Paradona. O título é nosso.

 

Viver é um verbo que reúne todas as palavras conhecidas e desconhecidas caracterizadoras da nossa existência. Envolto na beleza desta noite de Outubro, que se entrega voluptuosa ao Outono como uma virgem apaixonada, são muitas as palavras que me ocorrem. Contudo, neste momento, só uma me parece suficiente para dar vida aos viventes que habitam em mim: reconhecer.

Reconhecer o passado é vencer o futuro, assim reagiu um grande amigo à minha recente visita a Moçambique. Já passa mais de um mês que me enamorei vorazmente por essa frase simples e muito sábia. E como que me refugiando das indagações filosóficas que levantaria a sua interpretação, apenas olho para um passado muito recente e reconheço-o como pedaço da minha vida.

Há dois anos que chamo dez de Outubro dia de ano novo em referência ao início de um novo percurso que me obrigou a deixar familiares, amigos e minha terra e reinventar-me continuamente na esperança de construir um crescimento humano e académico sólido.

Há dois anos pisei pela primeira vez estas terras lusitanas que sonhei e vivi antes de ser real! Cheguei à Lisboa ao início de uma tarde em que o céu azul me parecia mais próximo da cabeça, o calor familiar e o ar picante. Era dez de Outubro de dois mil e dezasseis. No primeiro olhar, Lisboa cheirava-me a cigarro e café, mistura que criava um ar picante para os meus sentidos. Meus olhos torturados por essa mistura acérrima, escondidos debaixo de um par de lentes suspensas num aro de ferro, lacrimejavam continuamente. Por algum momento ainda me inclinei a associar aquelas lágrimas ao sentimento de mais um sonho realizado. Mentia-me descaradamente, aquilo era pura reacção à tortura que sem gritos sofriam. Disse Fernando Pessoa, primeiro estranha-se e depois entranha-se. E assim foi, passaram-se poucos dias e ganharam hábito.

Por razão das horas que cheguei e do cansaço causado por quase vinte e quatro horas de viagem, pouco fiz no primeiro dia para além de ir à sede do Instituto Camões, onde tinha uma reunião importante, e deitar-me na macia cama do Hotel VIP Executive Zurique que me tinha sido reservada. Era a primeira vez que passava a noite num hotel, em Lisboa, fora de Moçambique, e longe do que sou, contudo os sentimentos que caracterizariam o espírito de um rapaz de dezoito anos que se aventurava mundo fora pela primeira vez me passaram desapercebidos e foi tudo abafado por um cansaço que me consumia sem pena.

A estadia da primeira noite foi rápida. Com os pensamentos desorganizados acordei, na minha primeira manhã em Lisboa, num quarto que não era meu e cujas paredes brancas tinham velado sono de muitos viajantes e quiçá testemunhado acontecimentos frenéticos que afastam e chamam sonos.  Tudo me era estranho, desde as mordomias nas quais me via envolto até os meus pensamentos. E porque o tempo urgia e tinha muito por fazer naquele dia, guardei as reflexões e contemplações para outra altura e saí do hotel depois de um forte pequeno-almoço que levava croissant, café, salada de frutas e algumas iguarias da culinária portuguesa.

Com o estômago feliz saí para resolver burocracias de um recém-chegado a um país estrangeiro no qual faria a sua formação superior em Direito. Enquanto caminhava pelas ruas, sem não me deixar me apaixonar, ia conhecendo e reconhecendo a Lisboa que via pela televisão, uma cidade que nos seus edifícios e monumentos de betão, ferro, vidro e telha faz que vários estilos, épocas e gerações se cruzem e conversem em harmonia.

Ao fim da tarde, com uma parte das burocracias resolvidas, fui conhecer o lugar no qual moraria. Quando saí da estacão de metro, um bairro de luxo se deu a conhecer-me dentre prédios bonitos e de grande vulto. Chama-se Picoas. Logo naquele momento uma coisa pareceu-me clara, aquela zona era totalmente oposta ao bairro Ndlavela, de onde sou e cresci, que para além do parcelamento desordenado, alguns charcos de água e montanhas de lixo numa rua e noutra faltava-lhe também asfalto nas ruas. 

 

Suspenso num choro sem lágrimas, um turbilhão de pensamentos e sentimentos apossa-me o ser: êxtase, saudades, alegria, solidão, realização, sonhos. Esforço-me, mas sem sucesso não consigo mais narrar os acontecimentos daqueles primeiros dias, se adiam mais uma vez as reflexões e contemplações. E sob o luar deste bairro lisboeta que mutuamente, eu e ele, nos vivemos, reconheço silenciosamente um passado que sempre me será muito presente.   

 

 “O maior mentiroso é aquele que conhece a verdade”

Platão

 

Estou cada vez mais convencido que o mal facilmente impera o mundo graças à capacidade de o homem adaptar-se facilmente às circunstâncias da vida. Afigura-se-me que o instinto de sobrevivência ou o egoísmo são predisposições capazes de reduzir o homem a mais baixa condição inumana. Quando o homem pretere a sua dignidade e se sujeita à vontade doutro homem seja por que motivo, comete o pecado capital contra a humanidade. Concebendo-se o homem como um animal dotado de pensamento e vontade próprios, chega a ser uma negação à espécie humana quando o mesmo homem é obrigado a viver em função do pensamento e vontade alheios.

O homem aliena a sua humanidade de todas as vezes que se adapta a uma determinada circunstância contra a sua vontade e razão. A adaptação é somente bem-vinda quando visa engrandecer o que há de humano no homem. Ao contrário disso, ela constitui-se uma condição degenerativa da natureza humana. Deste modo, é mais sensato que os homens deliberem sobre as circunstâncias a que poderão se submeter. Deve-se sempre recomendar o tipo de adaptação que enleve a dignidade humana como, por exemplo, um homem que decide apostar em gostos intelectuais a fim de conservar a companhia dos amigos cultos. A má adaptação seria aquela em que um homem decide envolver-se em torpezas para granjear a simpatia dos amigos depravados.

A má adaptação também se aplica a todos aqueles que cometem determinada prevaricação na sua profissão com fim de satisfazer interesses pessoais. Um desses homens que se sujeita a esta ignóbil condição é o bio-epistemólogo, ou seja, aquele indivíduo que provido do conhecimento científico usa-o indevidamente para ganhar a vida. Referimo-nos, em outras palavras, ao sofista do estômago  – homem que põe à venda a sabedoria de desinformação para viver. Aquele homem que sabendo discernir entre o certo e errado escolhe propagar o errado só para ganhar o pão da vida. Em Moçambique, tal como no mundo afora, estes homens diplomados existem em demasia. São bio-epistemólogos. Tal como o bio-político do filósofo Severino Ngoenha que não vive para política, mas vive da política, o bio-epistemólogo é aquele que não vive para ciência, no sentido de manter um compromisso humano na produção e aplicação do conhecimento, mas vive da ciência, no sentido de instrumentalizar o conhecimento para satisfazer as suas necessidades em detrimento do bem-estar das outras pessoas.

Entende-se que a liberdade de expressão é um direito de todos os homens, mas quando os bio-epistemologos servem-se dele para propagar a desinformação, é uma toda nação que fica atrasada. A qualidade de informação constitui condição sin qua non para que o povo tome melhores decisões sobre o futuro da nação. Quando a informação é adulterada para satisfação de interesses particulares, é sempre uma minoria que sai a vencer em detrimento da confusa maioria. Era suposto que os bio-epistemólogos estivessem cientes do atravancamento que impõe no desenvolvimento humano de um povo, quando escurecem a opinião pública por meio de instrumentos da luz.  Usurpar o título de pensador livre e mentir deliberadamente para as massas deveria ser visto como um acto totalmente anti-patriótico, pois não há desenvolvimento humano possível de uma nação, quando ela se apresenta desinformada e acrítica. Quanto mais se mantêm os povos desinformados, seja por meio de ideologias ou retóricas falaciosas, mais aumentam a corrupção, pobreza e brutalidade no mundo. O fim de toda a mentira é de aprisionar os indivíduos em zonas de conforto, enquanto a verdade está para liberta-los e mostrar-lhes a realidade nua e crua com suas qualidades e imperfeições. E só se muda a realidade de uma coisa, quando se tem um conhecimento verdadeiro dela.

A maior condenação contra bio-epistemólogos resulta do facto de eles, tendo conhecimento da verdade, preferirem propagar mentiras venenosas seja a mando de elites políticas, económicas ou religiosas. É deveras penoso que um indivíduo entendido em leis da economia sirva-se dos meios de comunicação em massa para persuadir um pai ou mãe de três ou quatro filhos que é possível sustentar condignamente a sua família com um salário mínimo que mal sustem as despesas do transporte.

O homem que se disponibiliza a tecer argumentos especiosos desta natureza em troca de algum ganho pessoal não só faz mal à sociedade, como também faz mal à sua alma. Longe de eu ser um moralista sobre questões metafísicas, não se me afigura sadia uma alma que se entretém com mentiras fabricadas à luz da verdade, conduzido milhares de outras almas à desinformação e ilusão. O dito que diz “o povo não tem paciência para com a verdade” é uma terrível falácia capaz de consentir o cegamento de uma massa de gente ao ponto dela virar xenófoba, chauvinista e apolítica. A Alemanha hitlerista e a Rússia stalinista continuam os melhores exemplos de Estados cujos povos sob o controlo das ideologias foram capazes de apoiar os mais abomináveis crimes contra humanidade. O povo precisa da verdade para sua própria existência sã e manutenção da democracia – melhor forma do governo que garante a liberdade dos indivíduos.

O estado da alma de um bio-epistemólogo merece um estudo de censura, pois nos apresenta uma crise de identidade ao nível intrapessoal. Onde há união entre verdade e mentira, há violação do princípio de não contradição. O caso de um bio-epistemólogo apresenta-nos tal situação da crise lógica e moral, pelo facto de este indivíduo que, dispondo da verdade, escolhe proferir falsidades, entrando em contradição consigo mesmo. E permitir-se entrar em contradição consigo mesmo, você sendo uno e indivisível, se afigura mais ou menos um caso de psicopatia. Saber que A = A, mas quando questionado dizer A = B, ou A não é A, afigura-se uma psicopatia intencional que é deveras vergonhosa para aquilo que é o propósito da ciência.

A vida só se torna louvável, quando feita com dignidade, sem contradições nem adulações.

Todavia, pelo facto de coabitarmos num século de informação, todos nós somos menos inocentes, quando nos tornamos vítimas dos desinformadores. Os livros, a internet, os jornais tornaram-se cada vez mais acessíveis no séc. XXI graças aos avanços da tecnologia. Então, leiamos mais, investiguemos e, sobretudo, reflitamos para o bem do nosso crescimento como humanos. Ironicamente, os melhores bio-epistemólogos são estudiosos que andam por ai sem escrúpulo a desinformar as massas com a mesma desculpa que é “mentimos porque temos esposas e putos para sustentar”.

 

Exaltação pela Independência, carências que exigiam muita imaginação para serem supridas, produziram várias estórias, bonitas e impensáveis para os nossos dias, que importa recordar:

A solução dos “ex”

1. Vivia-se a euforia da recém-conquistada Independência Nacional, quando num comício, o Presidente Samora Machel orientou a Nação em geral e os desportistas em particular:

– “A partir de hoje, não há mais Sportings, Benficas ou Portos. Nomes tribalistas como Inhambanense ou Gazense, acabaram. Também deixam de existir designações de carácter religioso, como Mahafil Isslamo ou Atlético Maometano. Escolham nomes nacionais e que não criem divisionismo". A ordem vinha do Chefe de Estado e era para ser cumprida.

Mas porque havia que informar sobre o programa de jogos do dia seguinte, como designar aquelas colectividades, se já não se poderiam utilizar os recém-banidos nomes?

A Redacção desportiva do Notícias, recorreu ao então Director Nacional do Desporto, João Carlos e depois à Ministra da Educação, Graça Machel, que dirigia o pelouro desportivo. A resposta: arranjem uma solução, mas esses nomes não podem ser usados.

A saída veio do velho jornalista, o falecido Albuquerque Feire. Ele propôs a inclusão do “ex” antes dos times visados. E assim foi. A partir daí, passavam a jogar o ex-Sporting, contra o ex-Benfica, no campo de ex-Mahafil. Nas classificações, os ex- eram mais que muitos.

O bom humor do poeta Craveirinha

Ai que saudades, do imbondeiro da poesia, mas também do desporto, José Craveirinha, “descobridor” de Lurdes Mutola! Aí vai uma estória desse adepto ferrenho do Desportivo. Disse-me ele um dia:

”Ó amigo Caldeira. Sabe que em Tete, fundaram o Clube da Justiça”?
Sei sim. E o que isso tem de mal?-
Quer dizer que agora eu posso entrar em campo e… driblar, legalmente, um juiz?

Só a deslocação do ar…

Há uns anos tivemos um pugilista do Matchedje, poderoso mas um tanto medroso. No Pavilhão do Estrela, foi-lhe oposto o campeão da então União Soviética, um “bicho” daqueles que do queixo para baixo, é tudo músculos. Pois o nosso representante, após as primeiras trocas de socos, estatelou-se no chão.

No regresso ao balneário, o então Presidente da Federação de Boxe, questionou: “ó amigo, mas aquele murro, nem sequer te acertou!

A resposta do pugilista: “e era preciso? Só aquela deslocação de ar”…

Um árbitro “todo-o-terreno

À recém-nomeada primeira Comissão Nacional de Árbitros, chegou da CAF a primeira oportunidade para a designação de uma equipa de arbitragem moçambicana para uma prova continental. Grande euforia. O trio foi escolhido, enviaram-se os nomes para o Ministério da Educação que então tutelava o desporto, para a emissão das passagens.

A Secretária-Geral 'uma “unhas-de-fome” que reduzia sempre o número de candidatos às deslocações e porque não entendia nada de futebol, deu o seguinte despacho:

– Por questões orçamentais só poderá viajar uma pessoa. Foi difícil explicar que o designado, não poderia dirigir uma partida com o apito na boca e duas bandeirinhas, controlando penalties e foras-de-jogo ao mesmo tempo!

A moda do… obviamente

Há palavras que entram na moda e que até os locutores usam e abusam. É o que aconteceu com o… obviamente.

Vai daí que um dos nossos reputados homens do microfone, numa determinada fase do jogo, grita, emocionado, que o jogador “xis” fez uma boa jogada, passou por todos, rematou e… “obviamente, a bola foi para fora”…

 

Pedro Langa, oriundo de uma família de músicos, onde avultavam os nomes dos seus irmãos Hortêncio e Milagre, ambos mais velhos, apresentou-se, aos 20 anos, em 1979, no Cinema Scala, em Maputo, com duas canções originais, perante um público que queria ouvir versões de músicas estrangeiras, como era o apanágio do Hokolókwe, conjunto que então o acompanhava. O público não entendeu a originalidade do jovem músico e exigiu impetuosamente que ele abandonasse o palco. Mesmo perante a vaia monumental que recebeu, o obstinado Pedro Langa cantou até ao fim as suas duas composições. Não seria a primeira nem a última vez que ele seguiria o seu instinto e o seu génio a despeito da adversidade. Os verdadeiros criadores, muitas vezes, não são entendidos pelos seus contemporâneos. Estão à frente do seu tempo.

Entre este episódio e a fundação do grupo Ghorwane, quatro anos depois, registam-se outras contrariedades na vida de Pedro Langa. Colocado, desde 1978, na EFEP, Escola de Formação de Professores, é expulso da mesma, o que está na origem da sua ida compulsiva para a tropa. Cumprido o serviço militar obrigatório, torna-se assíduo do Chai, o Clube da Juventude, onde se apresenta com o conjunto Mbila. É uma espécie de tempo de espera e de amadurecimento.

O ano de 1983 será, no entanto, um ano de prodigiosos acontecimentos: funda o grupo Ndzuti (significa sombra) para se apresentar a um concurso promovido pela EME, produtora dirigida por Eddy Mondlane, influente na área, na década de 80. Pedro Langa alia-se, para este propósito, a Simão Mazuze e ambos formam o Xigutsa Vuma, que teve fulgurante e efémera existência, mas que deixou marcas indeléveis. Os dois são rebeldes e cantam sem ocultar o desacordo, a crítica e a contestação. Mazuze, aliás, terá uma dura experiência que constitui uma das suas mais inspiradas músicas: “Bilibiza.”

A Operação Produção foi algo sinistro e recordo-me de vivermos em pânico: nunca sabíamos se, à saída de um cinema, pelo facto de não estarmos na posse de documentos, não poderíamos ser presos e levados para o Niassa. Mas, para além disso, alimentou perversões e enormidades. Está por estudar e esclarecer essa política e essa fase da nossa história. Está por esclarecer esse período da nossa história. Eu vi empolgado o Simeão Mazuze a cantar sobre Bilibiza, um campo de reeducação. Mas isso é matéria para outra conversa. O facto é que Pedro Langa e Simeão Mazuze conquistam o prémio de melhor composição naquela competição. Não obstante, a aventura comum terminou ali. Nesse mesmo ano, Pedro Langa funda o Ghorwane.

Os músicos fundadores: o baterista Hilário, o guitarrista Tchika, o trompetista Júlio Baza, o saxofonista e vocalista Zeca Alage, o percussionista Dingo e o baixista Lot. Em Novembro desse ano começam a ensaiar. O mito regista que o fazem nos bancos do jardim Tunduru e com uma viola emprestada de David Macuácua, que cumpria o serviço militar no Norte e para onde não regressou, ao que parece de uma licença, quando se encontra com estes companheiros de aventura. Submetem músicas para gravação à Rádio Moçambique, mas estas são rejeitadas. Embora não houvesse uma censura institucionalizada, o critério do que era adequado, do que era permitido, do que se podia dizer ou cantar era difuso e poderia ser o critério obtuso e ilegítimo de quem nem sequer perceberia o que é a arte. Ouvidas a esta distância, as músicas do Pedro Langa ou mesmo do Zeca Alage não deixam de ser assombrosas e percebem-se os pruridos que provocavam a espíritos incautos. A sua crítica é de uma grande virulência. Mas eles cantavam a realidade, não a inventavam. Interpretavam o quotidiano daqueles que estavam cobertos pelo anátema da desgraça: a fome, a seca, a miséria, a guerra, as vidas perdidas.

No início de 1984, Roberto Chitsonzo procura uma banda para gravar as suas músicas. Ele vivia em Inhambane onde era professor de Educação Física. A doença da filha obriga-o a pedir transferência para Maputo. Eu ouvia o seu nome e a sua voz sobretudo num mítico programa da Rádio, “No coração da noite”, da Luísa Menezes e do Izidine Faquirá. Pessoalmente, sou grato a esse programa. Não só pela sua extraordinária qualidade, mas porque permitiu a revelação de muitos talentos. Antes de fazer 20 anos ganhei um concurso de poesia no programa e isso foi muito importante para mim. O poema não devia ser grande coisa. Recordo-me apenas do título – “Tiko”, que significava terra – e lembro-me de que era longo. Ouvi-lo na rádio e naquelas circunstâncias deu-me a ilusão de que, provavelmente, teria futuro na literatura. Estou grato a ambos: à Luísa e ao Izidine, meus amigos.

Uma das músicas que eu ouvia na época era “Xizambiza”, do Roberto Chitsonzo. Essa música é o prólogo de uma brilhante carreira. Nela se inscreve o sonho do tocador. Ele tem uma belíssima voz e canta sem a mesma exuberância dos seus futuros companheiros. Mas é absolutamente corrosivo e, provavelmente, o mais corrosivo e violento de todos. A grande crítica social do Ghorwane deve-se, em muito, à sua verve, à sua inventiva, ao seu génio criativo. O Roberto é um extraordinário compositor e um cantor inimitável. Um tocador.

Roberto Chitsonzo faz um acordo inédito com Pedro Langa. O Ghorwane acompanha-os e este permite, nessa permuta, a gravação dos temas rejeitados de Pedro Langa. Assim haveriam de ludibriar a Rádio. A gravação ocorre em Fevereiro. Entretanto, Lot abandona o grupo e entra para o seu lugar o baixista Carlos Gove. A verdade é que Roberto Chitsonzo entraria, deste modo, para o grupo. No dia 23 de Junho de 1984, Pedro Langa, Zeca Alage, Roberto Chitsonzo e os seus companheiros fazem o primeiro espectáculo no Cine África. Roberto tem 22 anos, está à beira de fazer 23 em Agosto; Pedro tem 24 anos; Zeca Alage a mesma idade. A partir daí começa a saga dos Ghorwane, o mais emblemático dos grupos moçambicanos.

A guerra, a miséria, a fome, a pobreza são os temas que estão na origem do seu sucesso. Transformam o sofrimento e a dor em alegria. Não lamentam apenas, como se ouve em muito do cancioneiro moçambicano. Interpelam a realidade, mas fazem uma profissão de fé. Uma das músicas de Pedro Langa (“Vhôry”) sobre a chuva comove-me por essa obstinada esperança que evoca, convoca e interpõe. A seca foi um drama terrível para nós. Essa saudação da chuva de Langa, nesta música e tudo o que a ela associa, constitui um momento emocionante. Comove-me a esperança nela contida. A guerra é tema incontornável. Eles cantam-na, mas querem a paz. É de paz que falam. Eles fazem crítica dos desvios sociais.

Na época, os prosélitos do regime ficam assustados. As suas apresentações contam com agentes de informação, disfarçados entre o público, para captar as mensagens desses jovens insurrectos e reportar. Pobre o país que se assusta com a música de uns miúdos de vinte e poucos anos. Samora Machel sentirá uma empatia por eles e lança-lhes o epíteto: “Bons rapazes.” A lenda, pelo menos, assim reza. Mas quem conhece os factos regista que antes o jornalista Augusto de Jesus foi quem se lhes referiu naqueles termos no jornal “Domingo.” Mas nada como a força que tal epíteto irá adquirir depois de pronunciado por Samora. Foi o bastante para se livrarem da perseguição velada que sofriam. Pedro Langa, entretanto, abandona o grupo. Prossegue uma carreira a solo. O Ghorwane faz o seu caminho.

Zeca Alage e Roberto Chitsonzo afirmam-se como os grandes compositores do grupo. Cantam o desencanto daqueles anos. Interpretam a dor dos moçambicanos. Vivem-se anos duríssimos: a extrema pobreza, o tempo das calamidades, a seca, a fome, a guerra. A guerra inexplicável e impenitente. Uma das músicas – “Massotcha”, de Zeca Alage –  é o retrato cabal da época. A esta distância, ter-se-ia sempre uma perspectiva enviesada do seu impacto. Esta crítica acerba e acutilante.

“Armas caras, mais caras que sacos de arroz”, canta Alage. Esta denúncia não poupava nenhum dos lados do conflito. A sordidez da guerra, o absurdo da guerra.
Este é um dos esteios do Ghorwane: Zeca Alage. Uma grande voz e um grande saxofonista. Um compositor genial. Oiçam-no em “Majurugenta” e depois falamos. É um dos mais belos temas da história da música moçambicana. O longo solo de saxofone de Zeca Alage, nesta música, é dolorosamente belo, impressivamente pungente, para não falar no balanço da música e na letra ou na interpretação. Quando este morre, brutalmente assassinado, em 1993, sem viver a paz que tanto ansiara, David Macuácua canta soberbamente em seu lugar. A revelação de Macuácua é um dos grandes momentos do grupo. Para além do seu papel esquivo de grande conciliador e pacificador do grupo, que tinha alguns espíritos assombrados. Os génios são assim: podem ser difíceis de conciliar. Ghorwane tinha na sua fundação três músicos geniais.

Majurugenta é o disco de estreia dos Ghorwane.  Zeca Alage assina: “Muthimba”  (dança do sul de Moçambique), “Majurugenta” (que dá o título ao álbum), “Xai-Xai” e “Mavabwyi”. Roberto Chitsonzo: “Matarlatanta”, “Buluku”, “Terehumba” e “Akuhanha”. O disco é de uma rara e intraduzível beleza. Gravam-no para a Real World, de Peter Gabriel, em Agosto de 1991. Iriam, assim, participar da explosão da World Music. Antes deles, os Eyuphuro tinham sido pioneiros nos palcos do mundo. O disco só seria lançado dois anos depois. Alage não participa desse momento. “Massotcha”, a música que o tornara incontornável, não está no alinhamento. Será cantada, ulteriormente, por Pedro Langa, no disco Kudumba, lançado pela Piranha em 1997.

Ironicamente, Pedro Langa, que fundou o grupo, não tem o seu nome no primeiro disco e, tragicamente, Zeca Alage, que divide, quase a meias, as composições deste disco de estreia, com Roberto Chitsonzo, não participa do seu lançamento, em 1993. Este disco traz, emblematicamente, como última faixa, a música “Akuhanha”, que é o paradigma daquilo que o Ghorwane haveria de ser e de fazer ao longo destes trinta e cinco anos: cantar a nossa forma de viver dos moçambicanos. Esta música acompanha-me há três décadas. O desencanto sem resignação, a crítica assertiva e obstinada, o pleno exercício de cidadania. Aquilo para o qual as condições de possibilidade hoje não só se tornaram precárias. É espantoso ver como foi possível fazer crítica social e política naquela época. A Pátria sempre divergiu dos críticos e lançou sobre eles diatribes e intolerância. Durante uma década, um título meu serviu, perante a minha estupefacção, para combater aqueles que tinham opinião diversa: os apóstolos da desgraça. Num país onde a autoria tem cidadania teria como reclamar direitos.  

O nome de um lago de Chibuto que nunca seca – Ghorwane – é uma boa metáfora para o sonho que estes músicos prosseguem. Um sonho de esperança, por conseguinte. Trinta e cinco anos depois, a despeito de todas as vicissitudes, parece que eles acertam: não secam. Conseguem reinventar-se. Foi assim quando foi brutalmente assassinado Zeca Alage aos 34 anos. Seria assim quando o mesmo infausto destino acompanhou Pedro Langa, aos 42 anos, em 2001. Ou quando, em 1999, mergulharam numa aguda crise que está na origem do afastamento de Carlitos Gove, do baterista Paíto, do teclista Jojó Moisés, e do percussionista, compositor e vocalista Jorge César. Saem depois Riquito Mafambane e Tchika Fernando. A despeito, o Ghorwane reinventa-se. Alguns deles, no entanto, retornam.

Pedro Langa regressara e participara no belíssimo álbum Kudumba: “U Yo Mussiya Kwini”, “Vhôry”, “Mamba Ya Malepfu”. Este soberbo ritmo do fundador do Ghorwane. A força portentosa desta personagem. Ele canta, no disco, “Massotcha”, de Zeca Alage. Este disco, aliás, tem a força dos fundadores: Pedro Langa, Zeca Alage, do Roberto Chtsondzo e do Jorge César. Ainda hoje oiço, com o mesmo espanto, “Salabudê”, “Pim-pam-pum” e “Progresso”, três músicas assinadas por Jorge César (assina a terceira com Carlos Gove), que era oriundo da Companhia Nacional de Canto e Dança, cuja entrada no Ghorwane é distintiva e inovadora. Pessoalmente, gosto muito do Jorge César, da sua voz, do seu canto, da sua criatividade, da sua percussão, do seu estilo no palco.  Chitsonzo assina “Txongola”, recupera “Xizambiza” e tem uma espécie de epifania com “Sathani”, uma das suas mais violentas criações. “Massotcha”, de Zeca Alage perfaz as 10 músicas deste notável álbum. Não me esqueço quando eles actuavam no Centro Social do Desportivo e cantavam estas músicas.

Vana Va Ndota (2005) é também um belíssimo álbum e traz 11 composições: nove das quais são do Roberto Chitzondzo, uma do Pedro Langa (“Ndzava”) e outra de Zeca Alage (“Livengo”). O disco é dedicado aos seus mitos fundadores – Langa e Alage – e inscreve-se no DNA do grupo: parodiam o quotidiano, não se furtam à crítica e professam a imperecível esperança. Este talvez seja o mais robertiano dos discos do Ghorwane. Tenho ouvido com regularidade estes três discos, pese embora gostar muito da música que dá o título ao último álbum – “Mussakaze”, com participação do DJ Ardiles. Mas, confesso, ainda não cheguei a um nível de empatia que tenho com Majurugenta, Kudumba ou Vana Va Ndota. Furto-me de referir aquele disco que fizeram para as eleições de 1994.

Creio não estar longe da verdade se eu aqui e agora asseverar que os três álbuns (Majurugenta, Kudumba ou Vana Va Ndota ) são uma impressiva e notável imagem do nosso tempo – aqui estão decantados o nosso quotidiano, as suas misérias, as suas desgraças, pessoais e colectivas, mas também aqui se encontra o apelo inequívoco aos valores, à dignidade, à honradez, à probidade. Eles atravessam estas nossas décadas – desde os anos 80 -, eles falam do quotidiano, das assintonias sociais, das contradições do quotidiano, eles são os intérpretes da sociedade, eles escalpelizam a sociedade, eles são críticos. De Vana-Va-Ndota gosto sobretudo de “Ubiwitolo”, “Tlhanga”, “Ndzava”, “Nudez”, de Roberto Chitsonzo. Sempre fiel à sua matriz. A poesia, o ritmo, o balanço. A crítica. Outro belíssimo disco.

Creio, finalmente, que o que faz este percurso notável de 35 anos, para além da extraordinária inventiva, que se vê nos sucessivos temas e sucessos que criam, tem muito a ver com o facto de estes extraordinários artistas, que têm uma lucidez implacável, em relação ao devir moçambicano, cantando-lhe as suas mais profundas contradições, nunca terem desistido de ter esperança – nem quando cantaram a guerra inexplicável, a fome e a miséria, a desgraça social, nunca cederam ao desespero. Eles são o testemunho e o testamento de um tempo indeclinável da nossa história. Mas também percutiram nas suas notáveis músicas o amor por este país. O maior acervo do Ghorwane é essa declaração de amor reiterada a Moçambique. Quando estou deprimido e procuro reconciliar-me com a Pátria, recorro a estes ritmos – inventados a partir de muthimba ou xitchukete ou outros. Oiço um destes três discos, canto estas músicas, danço estes temas, não importa se falam da guerra, do desvio social ou se são apenas uma declaração de amor, como “Beijinhos”, ou a evocação  recorrente da figura central da mamana.

Empolgo-me sempre com a música do Ghorwane. Espanto-me com o génio criativo de Pedro Langa, Zeca Alage, Roberto Chitsonzo ou mesmo Jorge César. Exulto ouvindo a voz de David Macuácua. Eles fazem uma surpreendente alquimia entre a corajosa crítica social e um som espantosamente belo e luminoso. Têm uma gramática, uma sintaxe e uma dicção únicas. Há quase 40 anos, quando Pedro Langa subiu ao palco para dar notícia do seu génio, foi incompreendido e vaiado. Mas ele, sempre obstinado, não resignou. Ainda bem que perseverou. Dessa profissão de fé na sua criatividade, e no futuro, nasceu, em Moçambique, este grupo que integrou e integra um movimento inovador das músicas do mundo.

 

Todas as cidades têm uma face escondida,

uma face que passa despercebida à maioria dos seus habitantes

Eduardo Paixão

 

Uma das maiores faces escondidas de Maputo é a Rua de Bagamoyo, para os mais velhos, Rua Araújo. E Eduardo Paixão é claro, quando, num dos seus belíssimos romances, Cacimbo, faz a descrição do que ali até hoje acontece. Contudo, as faces escondidas encontradas na exposição fotográfica Vagando Maputo, da francesa Aurore Vinot, são outras, feitas de gentes e de espaços por elas frequentados.

No total, são 20 fotografias que Vinot expõe no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, das quais em 15 também apresentam-se perfilados artistas como Manuela Soeiro, Mário Macilau, Gonçalo Mabunda ou Filipe Branquinho. A partir desses retratos, os apreciadores da exposição são convidados a tentar adivinhar as emoções das figuras ali existentes no momento em que o clique da máquina disparou. Não obstante, as fotografias foram concebidas de tal forma que, mais do que as faces dos homens fotografados, pudessem apresentar outras, atinentes aos lugares reais ou inventados por um determinado jogo de luz (natural ou artificial). Por isso, escapa sempre a sensação de se tentar adivinhar em que parte da cidade as pessoas deixaram-se fotografar.

Parece que Vinot, neste Vagando Maputo, deixou-se levar por pelo menos duas escolhas: deixar a imaginação fluir com imagens capturadas ao lusco-fusco e colocar na mente dos visitantes da exposição os nomes dos fazedores de arte. Deve ser esta a razão de ter privilegiado a ideia de narrar histórias sobre a capital do país através dos silêncios aparentemente enigmáticos de Mia Couto, The Mute Band ou Ana Raquel Machava, com os olhos fechados, a provocar muitas inquietudes, interrogações na paz interior em que se encontra quem a contempla, tão só quanto abundante. Acabamos ficando cativos àquela solidão feita de África. 

Cinco das fotografias que constituem Vagando Maputo reflectem a imagem de uma cidade decadente, sem esplendor, carente de intervenção humana para que os prédios voltem a fazer parte do belo que se esconde por detrás dos cenários desbotados. A fotografia “Vila Algarve” ou “Teoria do Groove” são dois exemplos das infra-estruturas esquecidas, condenadas aos impulsos da memória.

Esta exposição de Aurore Vinot é um fragmento muito pequenino do que Maputo é. Tirando as fotos feitas às pessoas, as imagens das construções capturadas na zona cimento aparentam terem sido feitas ocasionalmente, sem grande premeditação. Não se trata, portanto, de uma grande exposição fotográfica, susceptível de causar alguma impressão nos apreciadores. Muito longe disso. Esta é uma proposta que revela como a autora francesa viu Maputo quando cá esteve, sem fotografias encantadoras, aliás, algumas até têm resolução fraquinha para as dimensões em causa. Bem dito, Vagando Maputo poderia ter sido uma exposição mais profunda, por exemplo, seguindo o trajecto das infra-estruturas ou dos rostos. Assim sendo, é apenas mais uma obra exposta no Franco-Moçambicano. Ao menos as paredes ficam coloridas.

Título: Vagando Maputo

Autora: Aurore Vinot

Exposição fotográfica

Classificação: 10,5

 

 

 

DOUTRINÁRIAS LÂMINAS DOUTRINÁRIAS, surge na sequência do nosso anterior título de livro. Imprescindível Doutrina Contra, já apresentado também em Portugal no Grémio Literário de Lisboa, há justamente um ano, e posteriormente na  cidade da Póvoa de Varzim por ocasião das Correntes D’Escritas.
          
É o primeiro livro de uma trilogia poética cujos seguintes -já escritos- intitulam-se: Mortíferos de Doutrinária Sapiência   e Complexas Alucinações Doutrinárias.
          
No primeiro volume, o que nos inspirou foi o passado recente da nossa Angola social, económica, cultural e politicamente em transição. Já no segundo, é o presente que vivemos o motivo fundamental da versificação e no terceiro e último volume reside o sonho e a imaginação do país que todos nós positivamente auguramos.

O livro ora apresentado representa-me, enquanto proposta de reflexão poeticamente acusatória,  como que  procurando alguém cuja carapuça lhe poderá servir.
          
Como o anterior, este não é um livro político. É um livro poético, razão pela qual, proponho-me insistente, hiperbólico e, consequentemente,  delituoso.
         
Não estranharei portanto, se em razão de uma qualquer e descabida acusação, vir a ser indiciado por crime de excessivo hermetismo, ou mesmo, por uma tentativa frustrada de um tal de experimentalismo artístico, ou ainda… de um outro superficial mas provocador e, supostamente ultrapassado, concretismo poético.
         
 Na esteira do meu grande amigo -o poeta- José Alberto Marques, direi que sou devoto de uma linguagem para–excessiva (com alguma interpenetração idiomática) sem  controlo académico e com nenhuma preocupação erudita. 

Escrevendo, sonhamos ser cada vez mais HOMEM PLURAL. Espelho de reflexão e estudo. Sempre correndo o risco de ficar, futuramente, sem sistema ou sem rede.
          
Trabalhando a palavra poética, pensamos, lemos e escrevemos 25 sobre as 24  horas diárias, assumindo-se inexperiente profissional.  Estamos sempre predispostos a reescrever,  riscando e sempre   correndo o risco de arriscar mas, jamais descorando o legado do poeta Rui Duarte de Carvalho, em razão dos acentos nos tempos e, igualmente, em razão da urgência de sinais que comandam a emoção, abandonado que está, o timbre do momento e da paixão (de que falava Rilke) pois, antes de tudo: HUMILDADE é a regra primeira.
          
Ao fim de quase quatro décadas publicando poesia, pensamos ser, sobretudo, um aprendiz de poeta ou um escritor que se arrepende e se emenda quotidianamente.  Simplesmente, um leitor ou consumidor de poesia e de poéticas.  
          
Um leitor daqueles que anda consigo mesmo ao colo, sempre sem medo de famosos  fantasmas… em razão do literário colesterol que ainda, infelizmente, graça entre a raça dos que somos (…todos meros aprendizes de poetas, é claro! ).
       
Toda a artística escrita é uma longa, duradoira e misteriosa doença transmissível.
        
Sofremos com ela. Médicos de um lado e pacientes de outro. Sofremos todos. Escritores e leitores. Sofremos.
          
Sofrem as estantes, com ou sem livros, os escaparetes das livrarias que ratamos e os circunstantes   instantes divinos. Sofrem até os nossos ancestrais. As pessoas que nos rodeiam. Os nossos entes queridos e mesmo aqueles que detestamos. Sofrem também. Sofrem muito,  até os que nos apartam, tachando e achando-nos loucos.  
O que mais importa é o aumento da dose medicamentosa ou, se quisermos também, o aumento do tamanho dos pacotes, caixas ou frascos dos medicamentos que suportam, melhoram e elevam a nossa consciência artístico-literária.
         
O segredo reside, na esteira de Eugénio de Andrade, em deixar que a palavra amadureça…  se desprenda e caia, como um fruto maduro, assim que passa o vento que ela merece.
-Finalmente… tentamos ser cada vez mais originais porque , como dizia o poeta José Régio, ser original é simplesmente ser verdadeiro consigo mesmo.  
         
 É justamente isso que vimos tentando ser. Cada dia mais verdadeiro, fazendo de cada livro um outro livro. Com uma outra e nova proposta. Com uma nova e outra mensagem -querendo ser -na medida do possível- cada vez mais original, debulhando e reinventando o trigo, o milho, o massango e a massambala, utilizando a nossa língua portuguesa sem nunca descorar as  nossas línguas africanas !    
 

Cruzámo-nos no saguão do aeroporto de Joanesburgo, numa quarta-feira usual, era 29 de Junho, estávamos em 2016, pouco antes das 19 horas. Eu ia a sair a caminho da porta de embarque do meu voo para Londres e levava na mão a minha filha Mayisha. Ele ia no sentido contrário ao nosso. Quando o observei, com discreta admiração, ele acenou com a cabeça. Parei e recuei para o cumprimentar. Ele assentiria que a Mayisha tirasse uma fotografia do meu telemóvel e despedimo-nos de punho cerrado como velhos e bons amigos depois de me ter abraçado. Naquele instante fugaz, disse-lhe que era de Moçambique e que o admirava muito. Não houve ocasião para mais. A caminho do avião, expliquei à minha filha que acabávamos de ter estado com um dos vultos do jazz a nível mundial, indubitavelmente o mais proeminente e indeclinável em África. A bordo, rascunhei uns versos:

“Mr. Abdullah Ibrahim acena-me como se eu fosse/ um velho conhecido seu do District Six/ na Cidade do Cabo/ ou de algumas cidades que frequenta/ no seu longínquo exílio da África do Sul./ Digo à minha filha Mayisha que aquele homem/ é o maior pianista de jazz em toda a África/ e viro-me para ele: / – Mr. Ibrahim: sou moçambicano/ e um velho admirador seu. / Ele anui e trocamos um cumprimento de punho fechado / como se fôssemos velhos cúmplices. / Mayisha faz-nos uma fotografia com telemóvel. / Mr. Ibrahim abraça-me e eu faço-lhe depois uma vénia. / Levo pela mão a minha filha enquanto Mr. Ibrahim prossegue o seu destino. / Também a cumprimentara de punho cerrado. / Explico à Mayisha que aquele homem é um soberbo músico de jazz/ do District Six/ na Cidade do Cabo onde ela vive / e acodem-me à memória os sons de “Mannenberg”. / Era assim quando ele era Dollar Brand. / É assim agora que é Abdullah Ibrahim. / Partilho, no auricular, “Woza Mtwana”, “Tintinyana”, “The Wedding”, “African Sun”, “Mannenberg”, “District Six”. // Mais tarde, ao rememorar aquele encontro/ volto-me para a imagem das suas mãos/ o punho cerrado/ como nos saudamos/ e lembro-me delas magnificentes e enfeitiçadas. // Aquelas mãos do Mr. Abdullah Ibrahim/ meu vetusto Dollar Brand/ quando ele está sentado ao piano/ parecem-se demasiado/ com as mãos de Deus.”

Acho que o ouvi até adormecer na minha viagem a Londres. Vira-o pela primeira vez a tocar em Joanesburgo e ficara empolgado com a sua figura majestosa e os seus gestos soberanos. Abdullah Ibrahim ao piano é indescritível. Um Deus ao piano. Os sons que ele tira daquele instrumento são inexplicavelmente belos. Talvez seja o último dos grandes mitos planetários. Foi parceiro e admirador de outras grandes figras legendárias do jazz: Duke Ellington, Thelounious Monk,John Coltrane, eu sei l. Não deve haver hoje entre os vivos figura tão comensurável do jazz. Em África, pelo menos. Desde os 15 anos que comecei a ouvi-lo na Rádio Moçambique. A RM tocava reiteradamente, naqueles anos 80, “Mannenberg”, que se haveria de transformar num hino anti-apartheid. Manenberg (a capa do disco e a música estão grafados como “Mannenberg”, mas a zona é conhecida como Manenberg) é como se chama a township para onde foram levados os não-brancos residentes do District Six (mais de 60 mil), obrigados a abandonar a sua zona de origem por força de um ditame do apartheid, em 1966 (Group Areas Act, 11 de Fevereiro de 1966). A desumanidade do que ali aconteceu é uma das marcas distintivas da política de segregação racial. A geografia da separação e do confinamento. Construíram-se auto-estradas e linhas férreas para separar comunidades. Destruíram tudo à volta, apenas deixaram intactas algumas escolas e lugares de culto. District Six é lugar de origem de muitos nomes insignes da cultura sul-africana. Ibrahim é oriundo de lá, como o saxofonista Basil Coetzee, que com ele tocou este extraordinário libelo contra o apartheid que é “Mannenberg”, ou o escritor Alex La Guma, de que ninguém fala hoje em dia, mas que chegou a ser um dos nomes proeminentes da literatura sul-africana. Morreu no exílio, em Havana, em 1985.

Nascido Adolph Johannes Brand, a 9 de Outubro de 1934, no District Six, na Cidade do Cabo, Abdullah Ibrahim iniciou a sua carreira em 1955. Contudo sete anos depois estava exilado na Europa. Em 1965 casar-se-ia com Sathima Bea Benjamim, uma cantora de jazz, também da Cidade do Cabo. Foi ela quem haveria de convencer o mítico pianista Duke Ellington a ouvir, em Zurique, o “Dollar Brand Trio”, onde pontificava o seu futuro companheiro de uma vida. Sathima morreu em 2013 com 76 anos. Musa e companheira de Ibrahim. “Song for Sathima” é uma bela homenagem.

O encontro com Duke haveria de mudar a vida deste virtuoso pianista sul-africano e definir-lhe o rumo, que é hoje um dos mais consagrados nomes do jazz, não só ao nível do continente, mas no mundo.  “Ode to Duke Ellington”, de 1973, testemunha isso mesmo ou “In a sentimental mood”, de Ellington, também conhecida a extraordinária gravação do compositor e o saxofonista John Coltrane. O casal Brand seguiu para Nova Iorque onde emparceiraram com nomes luminosos do jazz, como Ornette Coleman, John Coltrane (que ele haveria de homenagear na músca “For Coltrane”), Archie Sheep, Max Roach, entre outros.

Nos anos 70 ensaiou um regresso à África do Sul. Entretanto, convertera-se ao islamismo em 1968, o que explicará a sua mudança de nome artístico de Dollar Brand para Abdullah Ibrahim, anos mais tarde. Foi nesse interregno do exílio, nos meados dos anos 70, que cria “Mannenberg”, em 1974. Participam nela: Dollar Brand (Abdulah Ibrahim) ao piano; Basil Coetzee, que toca saxofone tenor; Robbie Jansen, saxofone alto; Monty Weber na bateria e Morris Goldberg ao saxofone alto. Não sei quantas vezes ouvi este tema. É um grande momento na inventiva deste pianista genial. A música é gravada em Junho, ele está à beira de fazer 40 anos em Outubro desse ano.

Ali estão as influências todas que bebeu na infância, na juventude e na idade adulta: nos ritmos locais conhecidos como marabi, mbaqanga, ou kwela, que tem uma extraordinária influência no chamado jazz sul-africano. Não é desprezível a influência do jazz americano. Ali estava o jovem que tocara nos The Jazz Epistles, uma banda de bepop, onde pontificaram alguns dos mais insignes nomes do jazz sul-africano: Kippie Moeketsi (saxofone alto), Jonas Gwangwa (trombone), Hugh Masekela (trompete) Johnny Gertze (baixo) Makaya Nstholo (bateria). Esta experiência durou pouquíssimo. Iniciada em 1959 (a banda própria de Ibrahim é de 1958), a sua actividade seria coarctada após o massacre de Sharpeville, que está na origem de uma grande repressão cultural que atingiu estes músicos. Muitos deles emigram. Curiosamente, Basil Coetzee empurrado do District Six para Manenberg nunca irá emigrar.

Rui Knopfli: “Depois do turkish coffee meto-me/ até ao Cul de Sac e fico-me/ a ouvir o sax maravilhado / de Kippie Moeketse. O jazz, sim, é genuíno e tem um bite/ todo local.”

Dollar Brand, primeiro, Abdullah Ibrahim, depois, percorreu o mundo, tocou nos palcos mais importantes, compôs temas inesquecíveis e tornou-se um verdadeiro mito do jazz. Em 1982, Dollar Brand esteve em Moçambique. Em casa de Ricardo Rangel descobriu – já aqui contei – um disco seu que já não tinha. Há aliás uma fotografia desse encontro: Abdullah Ibrahim, Ricardo Rangel e Malangatana. Rangel, sabe-se, era um impenitente coleccionador de LP, o mais importante coleccionador moçambicano de jazz. Eu acompanhei essa visita pelos jornais e ouvi-o tocar na Rádio. Sempre quis ouvi-lo ao vivo. Desde aquela altura. Em Março de 1983, Mia Couto publica o seu livro de poesia de estreia, intitulado Raiz de Orvalho. Tem este poema com o título “Dollar Brand” escrito a 18 de Agosto de 1982.

Mia Couto: “Eu quero uma canção/ que se renda insubmissa/ mas não a peço/ porque sei que morre quem pede/ e eu sou fiel/ aos passageiros desconhecidos/ da minha fraternidade / Assim me chega/ o primeiro acorde/ a primeira lágrima sonora/ e os teus dedos vão esculpindo/ uma arca de fascínio/ do mundo dos sons/ tu retiras/ os sons do mundo/ e na sua suave febre/ da tua maneira/ ouvimos tudo/ de todos os lados/ porque em nós desagua/ a canção de todas as canções.”

“Mannenberg” atravessou a minha vida. É um dos temas que mais ouvi nas últimas quatro décadas. A história da África do Sul dizia-nos muito, dizia muito à minha geração, e nós, naquele tempo, empenhámo-nos no sonho de ver o país livre do apartheid. Provavelmente, hoje, isso não tenha significado ou expressão para os jovens deste tempo. Minha filha tem 18 anos e eu queria que ela tivesse um pouco desse legado. Queria, sobretudo, que ela entendesse um pouco daquilo que eu, na idade dela, vivia e sonhava numa cidade sitiada e acossada, sobretudo pelo facto de Moçambique ter apoiado aquela luta. O preço duríssimo que pagámos. A desmemória pode ser uma factura ainda mais elevada. Daí a minha obstinação pela memória. Comecei a falar-lhe dos anos 80 e fi-lo através da música dos Ghorwane: sobretudo “Akuhanha” e “Terehumba” de Roberto Chitsondzo. Ia a caminho de District Six, esta segunda-feira, e explicava à Mayisha estas duas músicas. Era o prelúdio para ela entender como era o nosso tempo, sendo que estas duas músicas não são datadas, antes pelo contrário. Permanecem actuais. Parece um paradoxo introduzir a conversa sobre a importância de Abdullah Ibrahim ouvindo antes os Ghorwane? Pode parecer, mas não o é. Foi naquela circunstância dos anos 80 que eu comecei a ouvi-lo e esse era o meu contexto. Queria transmitir-lhe isso.

Abdullah Ibrahim, “Water from an Ancient Well”, no The Fugard Theatre, no District Six, tem um significado incalculável. Já o vi tocar em Joanesburgo ou na Cidade do Cabo diversas vezes, e em nenhuma delas o vi tocar “Mannenberg”. Hoje sucedeu o mesmo. Por que razão Abdullah Ibrahim não toca “Mannenberg”? Ele esteve soberbamente durante hora e meia no palco solitário com o seu melancólico piano: “Woza Mtwana”, “Little Boy”, “Tintinyana”, “The Wedding”, “African Sun”, “District Six”, entre outras composições. Tinha uma pauta para o conduzir na intersecção das músicas e um rabisco onde estavam escritos os títulos das músicas. Eu estava na primeira fila e a dois metros do seu piano e consegui enxergar alguns dos títulos rascunhados no roteiro que começara com “Chisa”: vi redigido “Tintinyana”, “D-6”, entre outros títulos.

Acabo de regressar dessa missão exultante. Ali naquela sala encantadora, daquele teatro emblemático, do District Six, dei a conhecer Abdullah Ibrahim à minha filha Mayisha. Foi o mesmo que contar também a minha história dos últimos 35 anos. Nós somos aquilo que ouvimos, lemos ou admiramos. As obras magistrais de criadores como Ibrahim escrevem, de algum modo, a nossa biografia individual e até colectiva. O teatro chama-se Athol Fugard, um renomado dramaturgo sul-africano, de 86 anos, que escreveu peças que denunciavam o apartheid. Recordo-me de ouvir, na Rádio Moçambique, no “Cena Aberta”, uma peça dele, adaptada pelo Leite de Vasconcelos. Ao ver aquele nome ali estampado, também revi um pouco do meu percurso e sobressaltei.

Ao longo de hora e meia deixei-me empolgar, emocionar, arrepiar com o génio de Abdullah Ibrahim. Enquanto ouvia aquele piano devastador – a arte quando é tão bela e lancinante pode ser igualmente devastadora – eu olhava de vez em quando para a Mayisha e tentava transmitir-lhe, por caminhos ínvios, provavelmente, a emoção de estar ali e ver e ouvir aquele Deus africano ao piano: soberbo e generoso, genial e inultrapassável, hierático e sublime.  Não sei descrever mais o que senti naquela noite no District Six. A exultação de todos, com palmas intermináveis, que ele humildemente pediu para que cessassem, senão não poderia retirar-se, atestam o raro momento que ali vivemos e comungamos. Oiço-o agora, enquanto batuco esta prosa canhestra e volto a comover-me.

 

Nenhum inferno é maior que o da voz traída

e nenhum bem vale o da sua integridade.

Rui Knopfli – in CALIBAN 3/4

 

Ao FMT:

  Ferdinando Manuel Torres!

A poeira evoluía como tufão sobre o chão da avenida. Uma cortina de areia vibrava no ar cortejada por papéis, fiapos de plásticos num movimento descontrolado. O passeio montava a sua própria feira, um castelo oferecido por aquela brisa matinal de Agosto. O Sol andava envergonhado lá nas Alturas. 

Um rapaz de mochila às costas, as calças de ganga enormes flutuando entre as pernas, ao sabor da dança ou hesitação intermitentes? Ele movia-se, ora para frente, em gestos desconexos, os braços vagueando no ar com os dedos a apontarem para um lugar qualquer. Noutras vezes para trás e para cima e para as laterais. Será isto rap?

No passeio havia uma fila de senhoras sentadas junto de caixotes exibindo fruta de época, bolachas, doces, pastilhas, peneiras de amendoim torrado, pão e tigelas contendo badjias, ovos fritos e cozidos, palones, etc. Havia moços vendendo jornais, outros expondo um montão de sapatos, outros ainda em correria desenfreada ao mínimo assobio de quem precisasse de uma recarga para o telemóvel. Um senhor estava sentado num banco de madeira, costurando sapatos, sempre à espreita de um sinal para engraxar ou atender a um outro caso urgente relacionado com o calçado.

Vim a saber que o moço de calças de ganga chamava-se Mapulango quando duas raparigas saudaram-no. De seguida meteram-se num «chapa cem», com lugar reservado no assento da frente. Ele continuou ali a olhar para o boneco. Resolveu subtrair das suas economias uma nota para comprar uma recarga. Talvez assim encontrasse amparo no telemóvel.

O vento serenou. Dos semi-colectivos desciam dezenas e dezenas de passageiros. Alguns moviam-se logo pelo passeio, a pé em direcção aos locais de trabalho. Mapulango que também usava um gorro preto à cabeça, uma t-shirt vermelha de mangas compridas, permanecia no passeio da avenida 24 de Julho. Pelos vistos estava à espera de outro chapa para os lados do Museu da História Natural, no bairro da Polana.

Muitos chapas que fazem a trajectória até ao Museu andavam apinhados de passageiros, nem sequer paravam para carregar quem quer que fosse. «Sorte tiveram as minhas colegas» – Pensou Mapulango.

Do local onde ele estava voltou a ensaiar timidamente uma abordagem aos cobradores. Qualquer coisa fazia o moço hesitar. Ele gesticulava exibindo cinco dedos aos cobradores. Muitos ignoravam o gesto ou talvez desconhecessem a mensagem por detrás daquele código?

Mapulango voltou a remexer as suas calças em busca de uma solução para o chapa. O Sol já ia alto. Duas senhoras penduravam roupas no estendal da varanda prédio, alheias à preocupação do rapaz. Dali a pouco os colegas que já se encontravam nos bancos da escola haveriam de entrar para o segundo tempo da aula de Teoria de Comunicação. As moedas recolhidas nos bolsos das jeans azuis já coçadas pelos anos de uso suspeitavam seriamente das contas feitas mentalmente por Mapulango. As moedas não chegavam para pagar o transporte. E nestes momentos de aflição amigos para dar uma tchova, como se diz por aqui, escasseiam como a chuva em Mabote ou em Xicomo.

E vezes sem conta os cobradores que por ali passavam gritavam à porta dos seus mini-bus, animando o que sobrava daquela manhã de quarta-feira:

–        Bááixaa, báixou, bááixahhh, bááixa.

Como não era aquela a música que Mapulango queria ouvir mudou de canal e virou-se para o outro lado do passeio onde outros cobradores gritavam:

–       Liberdade, liberdadêê. Cine 700, Cine 700. Cidade da Matola: Casa Branca-João Mateus – Cidade da Matola. Matola halenoôô.

Mapulango estava já à beira de um ataque de nervos. O moço ergueu os dedos no ar, com insistência para três chapas do Museu que se aproximavam do passeio. Havia sinais claros de que alguns passageiros pretendiam descer. Ele foi acenando, com os cinco dedos alertando aos cobradores do valor que ele tinha para pagar. Houve um golpe de misericórdia e um cobrador aceitou, abanando a cabeça num sinal claríssimo «azgo!».

Depois de tantas negações Mapulango estava ainda incrédulo. Certificou-se com um olhar insistente sobre a aprovação do cobrador. Dirigiu-se ao chapa num passo, imitando a solenidade monárquica de um desses príncipes rumo ao trono. E passados dois minutos encontrava-se à porta do chapa com a inscrição lateral Fomento-Museu. O moço tirou o auricular da orelha esquerda e fez um aceno a quem passava doutro lado da rua. Retirou o outro auricular da orelha em falta e de olhos fixos no cobrador perguntou:

–       Tem música?

 

O desgosto dado por uma mulher só se cura com o amor de outra mulher

Albino Magaia

Chakil Aboobacar é autor de um livro que, com mais cuidado, seria um romance muito apreciável. Pétalas d’água é o título do livro em causa, no qual perpassa um carácter narrativo de quem sabe traduzir em história o que se revela num universo interior. Ao construir o seu enredo, logo se nota, Aboobacar esmera-se em aventurar o leitor pela beleza das palavras, quase sempre constituídas por esses plurais valores semânticos que fazem do texto literário um produto em permanente redescoberta.

No que tange ao trato da língua/linguagem temos na obra de Chakil Aboobacar um exercício sugestivo. Em contrapartida, há tantos outros recursos indispensáveis à trama olvidados ou deixados à margem, daí certas fragilidades imporem-se no livro. Comecemos pelas descrições. A este respeito, há pobreza generalizada. Por exemplo, na primeira parte do livro, “Compromissos adiados”, o narrador não explora os espaços onde as acções ocorrem, desvaloriza o retrato dos cenários, o carácter das personagens e o discurso é vazio, frágil e breve. Duas personagens são introduzidas nesse segmento: André e Marisol. Mesmo assim, não se sabe, por exemplo, a altura de cada uma, e quem diz altura pode referir-se à idade, ao peso, ao comportamento, à virtude, à vaidade, às convicções e incertezas, quer dizer, a tudo o que é relevante na personificação da personagem, seja nuclear ou secundária. Do André, o protagonista, escapa muito pouco: é artista plástico, jovem e ama uma mulher chamada Marisol, a quem se dá uma atenção mínima a partir da segunda parte, “Pensamentos, desejo e silêncio”. Aboobacar poderia ter traçado um retrato prolongado daquela personagem, pegando bem no nome (Mar + Sol), explicar, por exemplo, por que os pais a deram esse nome, relacioná-la com essas duas condições da natureza e explicar o que na vida dela a tornou materialista, sujeitando-se até ao kutchinga, quando poderia optar pelo amor que tanto ela como André sentiam. Esse retrato pormenorizado da personagem ficaria agridoce, bonito, pois o leitor reuniria informação que o permitiria amar e detestar Marisol. Nunca ficar indiferente. Recorrendo a uma analepse, então, o narrador heterodiegético, que não participa ma história por si contada como personagem, saciaria a sede do narratário, essa entidade intangível que está para o narrador, digamos, na mesma relação que o leitor está para o autor. 

Diante de uma história sobre o amor, numa vertente actual e necessária, Chakil Aboobacar deixa passar ao lado muito detalhe, é demasiado linear. Com isso, fica difícil a história surpreender.

Tzevetan Todorov considera, no livro As estruturas narrativas, o seguinte: “para que as personagens possam viver, devem contar”. Honestamente, o narrador deste livro é tão apressado que nem essa recomendação é capaz de seguir. Os diálogos das personagens são ocos, sem nenhuma comoção. 

Este livro é exageradamente pequeno, justamente por se ter deixado à margem as ramificações de que se tece uma boa narrativa. Dessa desvalorização, aparentemente, emergiu o esforço de se fazer com que o livro ficasse com as 71 páginas, resultantes de um espaçamento muito acentuado entre as linhas.

Na terceira secção, “Destino”, o narrador diz, ao referir-se ao marido de Marisol: “Mas de momento não se é de falar de Matavele e suas tradições, sua inépcia pelo trabalho, pois, o propósito do relato é mesmo Marisol” (p. 43). Essa afirmação seria apropriada se o narrador tivesse investido três, quatro ou cinco mil caracteres de focalização em Matavele. Não dando azo a esse evento, como calha noutras personagens, a ficção desagua numa tremenda superficialidade. Para além de que o narrador contradiz-se logo depois de afirmar que, naquele momento, não importa falar de Matavele, falando.

Na nossa percepção, são estas as fragilidades desta história em que as personagens desencontram-se e decepcionam-se, quando tentam amar.

Título: Pétalas d’água

Autor: Chakil Aboobacar

Editora: AEMO

Classificação: 10,5

Era um dos jovens escritores mais promissores. Era também jornalista, trabalhava no Jornal Notícias, diário onde haviam pontificado alguns dos grandes nomes do nosso jornalismo e outros tantos da nossa literatura. Estávamos em Dezembro de 1986, mais precisamente a 15 de Dezembro, uma segunda-feira, quando fui ao seu encontro, a meio da manhã. Conhecia e admirava o seu trabalho literário. Dos jovens de então, ele se destacava. Marquei o encontro ao telefone, naquela época havia apenas o telefone fixo, ou PBX, e terá sido por essa via que combinei ir ter com ele ao jornal. Conversámos sobre o que andávamos a escrever, não publicava e não escrevia desde que caíra doente. Eu estava a organizar uma colectânea de poesia para fazê-la editar na “Gazeta”, onde colaborava. Creio que esse projecto não passou de uma simples ideia. Mais tarde, com a Fátima Mendonça, haveríamos de o coligir, numa antologia que ambos organizámos, a Antologia da Nova Poesia Moçambicana. Ele concordou em colaborar e ficou combinado que em Janeiro, a seguir às festas, eu haveria de o contactar. No entanto, antes de abandonar a redacção, pedi que ele me levasse ao arquivo do jornal, o que o fez sempre prestimoso. “Fica aqui a entreter-te”, disse-me, e lá me deixou. Eu, entretanto, prometera: “Depois falo contigo”. Mergulhei nos jornais. À hora do almoço, fui-me embora. A 6 de Janeiro de 1987 passei pelo Notícias. Ele não estava. Na manhã seguinte liguei ao jornal. Ele também não estava. No dia 8 de Janeiro, disco novamente o número do Notícias:

– Bom dia, pedia para falar com o Senhor Baltazar Maninguane.

– O Baltazar faleceu…

Fiquei atónito.

– Faleceu?!

Do outro lado, ainda me lembro, o homem estava impaciente:

– Sim. O Senhor não leu o jornal?!

Ler o Notícias, logo cedo, era uma tarefa obrigatória naqueles inesquecíveis, emblemáticos, sofridos e exaltantes anos 80. Não o fizera ainda. Fiquei estarrecido, devo ter balbuciado algumas palavras sem sentido e não me recordo de como desliguei o telefone.

Quando, em 2004, organizei, a pedido do Nelson de Matos, então meu editor na D. Quixote, a antologia Nunca Mais é Sábado, resgatei do livro que fizera com a Fátima Mendonça três poemas do Brian Tio Ninguas, o seu nome literário. Num texto breve e comovido que redigiria para a “Gazeta”, em Janeiro de 1987, chamava-lhe camarada (de letras, entenda-se) e dizia: “Os poetas não morrem nem emudecem”. Tinha ele 26 anos, fora publicado, para além da imprensa local, na revista África, promovida por Manuel Ferreira, em Portugal.

Brian Tio Ninguas: “Sinto a respiração do aroma das palavras/ que viajam nos teus olhos// Sinto a pulsação da vontade desfraldada/ que no teu corpo acolhe a vida// Enrolo um cordel de esperanças nesses seios/ que alimentarão sóis que chamar-te-ão Mamã.”

Lembrei-me, a partir daquele episódio dilacerante, de alguns escritores que subscreveram, ao longo dos anos, uma espécie de anátema da nossa história cultural: a fatalidade na literatura moçambicana. A notícia de escritores mortos muito jovens é extensa. Para além do Brian Tio Ninguas (1961-1978), vou aqui tributar a favor de Castigo Zita (1961-1988), Celestino Jorge (1956-1998), Gulamo Khan (1952-1986) e Orlando Muhlanga (1963-1996). Poderia fazê-lo, se o espaço mo consentisse, a Carlos Cardoso, Hilário Matusse, Bahassany Adamogy, Júlio Bicá ou Amin Nordine, debruçando-me apenas sobre os que conheci ou com quem convivi, ou que me são próximos em termos geracionais. Fá-lo-ei, espero, um dia. Do Eduardo White e do José Pastor lavrei aqui longos e comovidos preitos.

O Castigo Zita visitava-me amiúde na redacção da revista Tempo, da qual era colaborador, onde assinava uma coluna intitulada “Trópico”. Sentávamo-nos lá no fundo e falávamos de literatura. Para além de escrever contos, era um activo membro da Associação dos Escritores (AEMO), onde coordenava, com António Firmino e Edgar Cossa, a Brigada João Dias. Editavam a revista Forja, que nasceu do sentimento de marginalização que alguns jovens sentiam da Charrua. Também era investigador. Chegou a compilar, a pedido do Albino Magaia, director da revista Tempo na época, os textos de João Albasini, o primeiro jornalista moçambicano de renome e um dos precursores da literatura moçambicana. Abasini fundou e dirigiu importantes jornais como O Africano e O Brado Africano. Dedicado e paciente, o Castigo recolheu textos, copiou-os dos jornais O Africano, O Brado Africano, tanto das colecções em papel do Arquivo Histórico como dos micro-filmes que encontrara no Centro Cultural Português em Maputo. Este trabalho árduo e minucioso iria emperrar na fase composição do livro projectado – na época a composição de textos era feita a chumbo na Tempográfica – e não chegou a ser editado na colecção “Cadernos Tempo”, como Albino Magaia almejava.

Quando a morte o surpreendeu, por congestão, numa piscina em Harare, enquanto passava férias a seguir ao dia de Natal de 1988, ele tinha 27 anos e preparava-se para fazer o mesmo trabalho em relação a outra grande figura do nosso jornalismo – Estácio Dias. Estácio Dias é um dos nomes míticos do nosso jornalismo e era pai do escritor João Dias, falecido prematuramente aos 23 anos em Lisboa, para onde se transferira, depois de ter frequentado 3 anos de Direito em Coimbra. A Brigada que Castigo animava homenageava João Dias, um dos primeiros nomes da ficção moçambicana. João Dias dedicou-se à crítica cinematográfica, ao jornalismo e à literatura e deixou uma obra que seria publicada postumamente – Godido e outros contos. Castigo era de uma grande generosidade e humildade. Um homem bom, excelente conversador. Um entusiasta e dinamizador de múltiplas iniciativas, das que ele febrilmente intentava. Zita nascera no Guijá, em 1961. Não deixou livro publicado. Neste país de amnésia e descaso, sem referências, nem interesses culturais, ninguém pegou no seu trabalho e o publicou. Ficou emperrado nas linotypes da vetusta Tempográfica.

Castigo Zita: “Na sua cabeça as coisas transformavam-se e ficava apenas a lembrança do túmulo diante da palhota, para que a mulher não esquecesse dele de cada vez que entrasse nela. E caso trouxesse um homem para dormir com ela, esse homem que o vinha cornear, visse e reconhecesse o verdadeiro dono das roupas, dos seus bens que para sempre continuariam a seu cuidado. Apesar de viver agora na cidade, levava consigo na memória o respeito pelo morto: estaria enterrado diante de qualquer casa onde quer que ela fosse viver para não ser esconjurado pelos deuses e para que os seus filhos não sofressem no futuro o castigo de não parir por causa disso.”

Colega de redacção, o Celestino Jorge era, para além de jornalista, poeta. Tinha sido professor. Publicara alguns poemas nas páginas literárias da época, figurara em algumas antologias, não publicou em livro. Durante anos trabalhámos lado a lado. Também era nosso colega o Fernando Manuel, que era o repórter mais destacado do nosso tempo. Ele próprio poeta e ficcionista, para além de ser um cronista brilhante. Tenho saudades das conversas amenas que tinha com o Celestino, da sua extrema elegância e perspicácia, da sua humildade extraordinária. Saí da Tempo, em finais de 1990, quando fui estudar em Portugal e perdi contacto com ele. Retornei a Moçambique em 1995 e recordo-me de nos termos visto fortuitamente algures na cidade. Quando eu estava a preparar a antologia Nunca Mais é Sábado, em 2003, descobri, ao procurá-lo, que ele morrera, cinco anos antes. A recorrente tragédia da nossa literatura e do nosso país.

Celestino Jorge: “Como sumo de mafwilo açucarado/ flui e reflui no lábio/ teu anunciado beijo// E uma mancha de ansiedade/ sobre mim suave desce/ com a cor arco-íris do crepúsculo/ Na solidão/ um feixe de ansiedade/ derrama-se em jorro/ do teu olhar impostor/ Ansiedade…”

Quando entrei para a Rádio Moçambique, no início da década de 80, ainda me cruzei com o Gulamo Khan nos seus vetustos corredores. Conhecia-o também, ou sobretudo, do mundo literário. Para além de poeta, o Gulamo era um extraordinário declamador. Tenho na memória alguns dos poemas do José Craveirinha que ele dizia de forma superlativa. Ele celebrizou as “Saborosas Tanjarinas d’Inhambane”, que as surripiou afectuosamente e as difundiu. Craveirinha haveria de redigir, na dedicatória, quando deu letra de imprensa ao poema: “Homenagem póstuma ao muito Amigo Gulamo que as descobriu e divulgou”. A AEMO também era um dos lugares de encontro. A última imagem que tenho dele: estava sentado num dos bancos do Tunduru – antes de um “Msaho”, que ocorria no coreto do jardim, onde nos últimos sábados de cada mês íamos dizer poesia -, combalido com jat leg de uma viagem ao Japão. Falámos brevemente. Nascido em 1952, em Maputo, morreu no acidente de aviação de Mbuzini, com Samora Machel, de quem era adido de imprensa. Moçambicanto, obra editada postumamente, em 1990, é a súmula da sua produção poética.

Gulamo Khan: “céleres as águas/ zambezeiam pela memória/ das almadias do silêncio// nem o zumbido da cigarra/ me entontece// nem o troar do tambor/ me ensurdece// as vozes que são/ sulcos das nossas esperanças// Oh pátria/ moçambiquero-te/ neste alumbramento/ e amar-te/ devo-o à carne e ao nervo/ deglutidos em revolta.”

Por fim, quero lembrar-me do Orlando Muhlanga. Não fui amigo dele, embora o conhecesse e tivéssemos falado ocasionalmente. Tive pena de não o ter entrevistado. Quando, na década anterior, eu interrogava os escritores, na minha resoluta busca da memória, havia uma questão sacramental: o lugar da guerra no imaginário moçambicano. Ali estava o livro que na década anterior intuíra vir a ser escrito – Diário de Sangue. Li-o logo que ele o publicou. Foi das primeiras obras que li quando regressei, em meados de 1995, a Moçambique. Creio que esta obra fez do Orlando a mais importante revelação, nos anos 90, da nossa ficção narrativa. O livro foi escrito no interior da guerra e sobre a guerra. É de uma perturbadora imagística, de uma efabulação esquizofrénica, de uma linguagem que retratava, com crueza, uma realidade cruel e violenta, demente e inexplicável daquela guerra, daqueles ataques a inocentes, dos massacres às populações, que a amnésia hoje cultua e parece não se importar com a sua reincidência. Valeria a pena (re)lermos este soberbo libelo contra a guerra do Muhlanga. Talvez assim se desse conteúdo ao vocábulo Paz. Orlando Muhlanga foi professor de História e de Português, integrou o exército entre 1984 e 1988, foi jornalista, publicou ainda alguns contos. Morreu com 33 anos num inexplicável acidente de viação, no dia 7 de Abril de 1996.

Orlando Muhlanga: “Não faziam barulho, andavam como hienas e batiam às portas devagarinho, mandavam os donos das casas entregarem tudo o que tinham na sua imaginação. Os que eram desconfiados de serem ‘secretários’ eram amarrados numa corda grossa e escoltados sob máxima vigilância. Dos bandidos quem sentisse vontade de matar, faziam-no a baionetas suáveis e mortais para a vítima não gritar.”

Brian Tio Ninguas, Castigo Zita, Celestino Jorge, Gulamo Khan e Orlando Muhlanga, tal como outros que eu gostava de os celebrar aqui, não merecem o descaso da pátria e a nossa complacente e persistente deslembrança. Faço quezília de os trazer à memória, afectuosamente, hoje e sempre.

 

Há tanto tempo que uma dor o arrasava e o varria impetuosamente no peito. Uma sensação intransigente atravessava-o constantemente como um veneno. Seu infortúnio de achar uma mulher para satisfazer sua apetência sexual absorvia-o os pensamentos; torturava-lhe o sexo. Vivia momentos insuportáveis!

     Por vezes corriam-lhe ideias de estuprar a qualquer mulher que lhe viesse pela frente. De mais aborrecido que estava consigo mesmo, num certo dia, ao pôr-do-sol, a noite estendia-se sobre os tugúrios, montanhas, e as estrelas cintilavam paulatinamente uma a uma, decidiu depender alguns meticais que os tinha em posse para pagar uma dessas mulheres que leiloam sexo de noite.

     – Ah, seu idiota, viva como quiser viver! – Persuadiu-se.

     Despendurava a jaqueta de capuz que pendia num prego com o feixe de ar que se adentrava, no seu minúsculo compartimento, por uma janela escancarada. O jovem saiu perambulando pelas traseiras da noite em direcção à avenida da marginal

     Avizinhou-se duma dessas mulheres vilezas que superlotam as cercanias da marginal no bosque escuro da noite. Por sinal a com beleza celestial. Tinha peito alto e parado. Trajava uma saia-colante de pouco tecido que deixava suas cochas alaranjadas descobertas, e revelava os contornos de toda a sua figura.

     O jovem adoecera de tanta beleza na besta. Mas não doença de doença. Seu órgão se flagrava hirto de furar as calças.

     – Quanto vales? – Pôs-se a indagar sem delongas.

     – 120 (cento e vinte) – disse a mulher.

     Num tremeluzir do olhar, dissolveram-se seus espectros pela boca escura do tugúrio.

     Um murmúrio quase surdo ressoou no interior do tugúrio evadindo-se pelos porros da ventilação: – Paga! Ressoou a voz da mulher cheirando a hálito de canábis. Num instante efémero, ouviu-se, seguidamente, farfalhos repentinos e indistintos conferindo os meticais. Uns minutos depois, a mulher ergueu o saiote e prostrou-se sobre uma capulana esticada no soalho, deixando suas intimidades alienáveis, enquanto, o jovem baixava as calças aos joelhos deixando seu cajado involucrar-se pelo preservativo.

     Um apagão dos sentidos fundiu-se. Num ímpeto de hesitações efémeras, espargia fluido branco e espesso directamente no orifício, pois a estourara o preservativo. Nem com isso, nenhum perigo o corria pela cabeça. Sorridente, suspirava de alívio; seus olhos brilhavam uma nova esperança; seu sangue corria como o chumbo derretido, dentro das veias. Sem dizer palavra, apressou-se a levantar as calças e saiu aos passos galopantes, sem se despedir. No mesmo instante, mais outro par fazia das suas num canto ao lado. Enquanto, mais um outro par percorria vão escuro do porão adentro.

     De tanto vicio, havia dias que binava, mas com mulheres diferentes; a maior das vezes quase sem protecção, pois sempre se rompiam os preservativos. 

     Doze meses depois, uma febre alternada com calafrios apoderava-se dele, e por momentos repentinamente o coração começava a bater-lhe com tanta força que se via obrigado a se apoiar em alguma parede. O diagnóstico da sua situação medicamentosa sai próxima semana, entre quarta-feira, quinta, ou sexta-feira, porque é um final de semana prolongada, e o departamento das análises e testes não trabalha aos finais de semanas nem feriados e tolerâncias.

     – Seja lá o que for, infernizem-se essas bestas! – Murmurava com os lábios inflamados estrebuchando. – Paguei a morte! – Continuou crucificando-se pelos seus erros.

     Pelo resto do corpo todo floriam feridas à flor da pele. Dois dias antes do resultado do diagnóstico, encontrara-se óbito.

 

Entre a surpresa de ter em mãos um romance à satisfação de lê-lo num ápice, o resultado foi o contentamento de folhear com agrado a memória do passado colonial de Moçambique, traduzido em obra literária que não deixa margens de dúvidas, sobre o facto de estarmos ou não perante um livro de ficção inserindo todos os artefactos que lhe possam valer como tal. O arrebatamento com que o livro nos toma e transporta para o universo do imaginário, alicerça a sensação com que fiquei, como leitor, ao receber RECADOS DA ALMA. Quanto a mim este livro veio para enriquecer o nosso património literário, e como diria Suleiman Cassamo, está acima da linha da água, surpreendendo sobremaneira, pela sua arquitectura e densidade do enredo.

Lido o livro, e por um sentimento de alma, como o próprio autor nos sugere no título do livro, fica realmente um sentimento de estima e gratidão para quem sabe amar e sonhar sem fronteiras e sem preconceitos. Aliás, uma alma nunca tem limites, ela própria é como o divino, no seu absolutismo. 

À medida que eu ia lendo o livro, iam-se sucedendo em mim múltiplas emoções, remetendo-me sempre à condição humana, ressumada na dor e também na vontade e alegria de viver. O livro espelha com efeito o universo que são as contrariedades da vida, a acessibilidade e inacessibilidade da felicidade.

“Custa a uma mãe branca, por muito progressista que seja, entregar a sua única filha aos ditames da vida do subúrbio de Mbongolwene. Mas ela tem que optar entre atirar a própria filha a um palco em que dias antes se testemunhou a matança indiscriminada de brancos ou então enfrentar mais um tiroteio em casa. Com um coração totalmente despedaçado, encharcada de lágrimas de uma incerteza quanto ao futuro, decide deixar que a filha se vá juntar ao homem que ela escolheu para a vida. Se é esse o destino que Deus traçou assim terá que ser. Quem pode lutar contra o destino?" (P103).  

A história do livro é como a própria vida, que é uma teia de enredos, permeando toda a conjugação do verbo Ser. Mais interessante ainda é a fusão que o autor faz do real e do imaginário quanto a algumas pessoas e lugares, numa mescla de passado, presente e futuro. O livro está muito bem estruturado, e escrito numa linguagem simples, suave e doce, mas ao mesmo tempo numa linguagem revestida de sabedoria e cultura, conhecimento profundo da terra e dos homens que propõe levar-nos a desvendar.

RECADOS DA ALMA não sendo um livro de poesia é certamente um poema que nos convoca à vocação da busca da reivindicação do SER em oposição ao TER. 

“Mais do que estas dificuldades materiais ela enfrenta o estereótipo de como os vizinhos a encaram…

Ela ganhou coragem e jurou determinação em querer provar que acima do ser branco ou preto e acima do ser rico ou pobre há um valor sublime que deve ser respeitado: o valor do ser humano" (P112).

Sublima a necessidade do aperfeiçoamento da pessoa humana independentemente dos seus conflitos interiores e exteriores. Em RECADOS DA ALMA, o autor convida-nos a perseguir a Alma, ou seja, a essência humana contra todo o tipo de alienação; ele exprime a necessidade do cultivo permanente dos valores mais profundos do ser humano, tais como os da honestidade, bondade, solidariedade e sinceridade.

O livro leva-nos ainda a outras paragens, como por exemplo, ao encontro da Afrodite, aquela da mitologia grega, representada na capa do livro em forma de estatueta, e outros pro-personagens que perfilham e fazem deste romance, um conjunto de saberes universais, fazendo um acasalamento entre a mitologia africana e a europeia, numa comunhão de espíritos sem fronteiras.   

Para não cair na tentação, aliás o que seria impossível, de transcorrer aqui todos os lugares e recantos do livro RECADOS DA ALMA, pararia por aqui renovando o convite à leitura deste lindíssimo livro que permite conhecer personagens de características singulares como são os casos dos eternos apaixonados Eugénio e Mafalda. Do multifacetado Zé Mundoni. Da boa e sensata Cristina. Do gingão e engatatão que leva o nome de Original. Do racista e fascista Lopes. Do Simões, o funcionário municipal que as circunstâncias transformaram-no num jornalista, entre outros. 

Depois de lido o livro, como que a digerir o que acabardes de consumir, fica uma pulga na orelha em forma de pergunta que só o leitor, destinatário dos Recados da Alma, saberá talvez responder: afinal quem é o Castro? Será uma sombra dum mensageiro escondido algures ou no próprio autor?  

 

Jogam-se os provinciais, ascende-se à Divisão de Honra, mas o sonho é chegar ao Moçambola. Ascensão legítima, mas…
Há gato escondido com o rabo de fora. É que, se até aos citados níveis é necessário aos clubes encontrarem verbas para viabilizarem a participação, o cenário na prova-maior muda radicalmente. Estadias, viagens e até as respectivas marcações, ocorrem inteiramente por conta da Liga Moçambicana de Futebol, que por sua vez vive de patrocínios.
Daí um dos sonhos em chegar à competição máxima, para lá do prestígio que a prova-maior confere. Sai-se do panorama provincial, vem a mediatização nacional e a redução drástica das despesas. Esta é uma das motivações da ascensão ao MoçamBORLA!

Um passo atrás para dois à frente
É uma herança que tem barbas e que não poderá ser resolvida de um dia para o outro, pois está enraizada na “cadeia de valores” da nossa alta competição. Participar, assistir e dirigir o futebol intra-muros – salvo honrosas excepções – depende de patrocínios, maioritariamente das empresas públicas. No fundo, é o Estado-Papá que se encontra por detrás, até porque se diz tratar da festa de unidade nacional, algo que nos “refresca”, num quadro no país em que temos mais razões para tristezas do que alegrias.
Daí que…
Recorrer a medidas radicais, mesmo que nos pareçam realistas, não deverá ser o caminho certo. Na apresentação de propostas de figurinos para o futuro Moçambola por parte da Liga de Futebol, pela primeira vez foram exibidos publicamente números. Um passo na direcção certa a ser seguido pela FMF, que deverá acabar com os secretismos em redor dos custos das operações dos Mambas, salários dos treinadores, despesas de deslocação, etc.

Reverter hábitos sem quebrar entusiasmo
A crise não pára à porta do desporto. Por isso, há que pensar realisticamente em dar dois passos atrás na contenção das despesas, revertendo hábitos, mas sem quebrar entusiasmos. A partir daí, com prudência, começar a pensar no futebol como uma indústria cujo investimento terá, necessariamente, que ir sendo auto-sustentável, até produzir lucros.
No centro, o principal activo: o atleta. Depois, a imaginação na publicidade, que estimule patrocínios com retorno. A partir daí, a apetência dos adeptos por vitoriar as suas equipas, sabendo que a participação no clube obriga a pagar quotas e a assistência aos jogos, o pagamento do bilhete de entrada, para manter a máquina organizativa em acção.
Há que acertar o passo com o continente e com o mundo, na certeza de que temos – com provas dadas – talento em bruto ansiando lapidação.
As provas do que em vários países o desporto beneficia os cidadãos na saúde, finanças e na projecção em geral, são mais do que suficientes e encorajam a introdução de mudanças pensadas, com o objectivo de virmos a ficar mais fortes, no desporto-rei.
Isso exige a participação de todos, de forma a que o actual MoçamBORLA se torne sustentável e a cada ano menos dependente, até atingir a plena auto-suficiência.

 

 

Há dias, o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH) anunciou que 3.000 meninas abandonaram a escola em 2017 devido a gravidez (O Pais, 4 de Setembro 2018).

O pior é que o governo confirmou que esta tendência tem aumentado, juntamente com o número de adolescentes fora da escola, que, segundo a UNESCO, aumentou em mais de 100.000, de 360.000 para mais de 480.000, entre 2008 e 2015.

Nada que um plano de ação devidamente financiado, com responsabilização atribuída, não poderia sanar, protegendo e mantendo assim as meninas na escola.

A boa notícia é que o sucesso nesta matéria – ao alcance – reduziria a pobreza em Moçambique mais do que qualquer outro investimento público.

O que sabemos sobre o estado das meninas nas escolas é alarmante. Se bem que datado, 75% das raparigas entrevistadas pelo MINEDH em 2008 relataram que as escolas não são seguras, com o abuso sexual a acontecer e com poucas repercussões para os perpetradores, seja professor ou estudante. Infelizmente, há poucas razões para pensar que as coisas melhoraram nos dez anos desde que a pesquisa foi realizada.

De facto, se mais meninas abandonam a escola por estarem grávidas, as coisas podem até ter piorado.

Será que existe motivo para optimismo nos próximos dez anos? No nível da política nacional oficial, o Despacho 39/GM/2003 faz pouco mais do que culpar as vítimas, relegando as meninas grávidas a frequentarem o curso noturno, o que muitas vezes leva ao abandono escolar.

Revoga-lo mandaria um sinal inequívoco aos moçambicanos de que todos nós devemos ser responsabilizados pelo destino dessas meninas. No nível da estratégia nacional, o MINEDH irá efectuar uma revisão intermédia da sua estratégia de gênero que, por várias razões, tem sido amplamente não financiada e não implementada. Efetuar a revisão é um passo corajoso e esperamos que resulte em ações concretas.

O artigo publicado no jornal O País de 4 de setembro de 2018 e que temos estado a citar, sob o título “Perto de 3 mil raparigas abandonaram estudos por causa de gravidez precoce em 2017”, observa que o MINEDH indicará uma menina por sessão escolar para trabalhar com pontos focais escolares (adultos). Isso pode ajudar a fazer a diferença, mas é insuficiente em comparação com o que é necessário para mudar a situação.

 

Que políticas e ações deverão ser introduzidas? Para começar, precisamos enviar um sinal de tolerância-zero para com os professores e alunos que cometem actos de abuso sexual nas escolas. Esses actos deverão traduzir-se em processos e condenações pelo sistema judicial. Assistimos a alguns casos, mas não o suficiente.

Em segundo lugar, precisamos de um sistema de transporte seguro para levar as meninas para a escola. Isto não é fácil de organizar nem financiar, mas é um investimento que poderá render muitas vezes mais para o país, como foi visto em outros países.

Terceiro, precisamos de outro tipo de apoios para as meninas e suas famílias de forma a melhor incentivar a permanência escolar da rapariga. Apoios esses que podem ser através de transferências em dinheiro, cupons, bolsas de estudo ou outros programas semelhantes.

Na verdade, estas intervenções já provaram não só aumentar a permanência escolar em Moçambique, mas até mesmo a aprendizagem. Acreditamos que mais meninas precisam ter acesso a essas oportunidades.

A falta de acção suficientemente robusta nesta matéria é ainda mais preocupante, uma vez que sabemos que manter a rapariga na escola e assegurar que elas realmente aprendem é provavelmente o maior investimento que Moçambique pode fazer para reduzir a pobreza.

As escolas devem ser e podem ser um lugar tão seguro quanto qualquer outro lugar para as meninas. As ações que fazem a diferença são bem conhecidas.

Com o desenho da nova estratégia da educação para Moçambique haverá sem dúvida mais financiamento disponível. Independentemente disso, algumas dessas ações (como informações aos pais) custam muito pouco e produzem óptimos resultados.

Com uma liderança mais forte dos moçambicanos, seja do governo, da sociedade civil ou das comunidades, toda uma geração de raparigas pode ver o seu destino transformado. E o ganho é nada mais, nada menos que as perspectivas futuras de todo um país.

 

“Nossa casa é onde as pessoas pensam em nós”

Naruto

 “Como vamos vencer esta guerra, se somos todos refugiados?”

Valete in (Refugiados)

 

Dizem que nunca é longe o caminho de volta para casa. E, de facto, não o é, quando a gente considera casa não um conjunto ordenado de tijolos com um tecto, mas uma família, um lar, uma terra natal onde jaz o nosso mais incontestável sentimento de pertença. Quando se trata de um lugar aonde a gente pertence nunca é deveras longo o caminho de volta. Cada passo dado é uma penumbra para alma. A sensação que nos invade é aquela de quem, finalmente, está prestes a encontrar o seu lugar no mundo.

E por quê nos apartarmos da nossa casa, quando esta é o único lugar no universo que encerra as nossas origens? Compreende-se que os fenómenos como guerra, pobreza e deportações sejam factores dominantes para saída das pessoas dos seus locais de origem para o mundo afora, mas é injusto que os exilados tenham de escapar à responsabilização pelo estado em que a sua casa se encontra, pois todo o habitante tem o dever natural de defender o seu habitat, sob o risco de tornar-se um eterno pária.

Deste modo, a todos os africanos migrantes, que arriscam as suas vidas no mediterrâneo em direcção à Europa, são convidados a uma reflexão: quem vos salvará a casa, enquanto estiverdes na diáspora? Que paz buscais nas terras do estrangeiro, quando vossos irmãos são martirizados dia pós dia aqui, em África? Estas inquietações estendem-se também aos cérebros africanos que buscam prosperidade material fora do continente e não mais regressam para melhorar as condições da casa.

Longe de eu defender o banimento do direito ao asilo, julgo que devia haver uma responsabilidade moral dos homens perante a pátria quando esta se encontra numa situação crítica, e fugir não é a solução. O dever dos homens enquanto seres residentes é de defender o seu local de origem, quando este se encontra em risco de ser conquistado, ainda que isso implique que os homens se abeirem da morte.

A história política como narrativa de conflitos civis e internacionais nos revela este espírito de pertença geopolítica por meio de lutas de resistência entre os nativos e os invasores. Desde os primórdios do estado natural que os homens se sentem no direito de defender a integridade da sua propriedade habitacional contra as forças da conquista. A defesa do território permeia a história da humanidade de tal forma que deve ter sido preponderante para o advento do contrato social. O direito à habitação é tão natural que foi determinante para existência das civilizações, e os homens sempre colocaram em risco as suas vidas para defender ou reivindicar o seu habitat. Uma prova disso foi a expansão mundial que desencadeou o colonialismo que, de todas as formas, teve de ser um processo violento, porquanto toda a conquista territorial constitui uma violação a um direito natural que é o direito à casa. Todos os povos colonizados sentiram esta invasão imperialista como um assalto à casa ao ponto de eles se posicionarem para morrer a lutar.

O colonialismo é o mais rico exemplo histórico de que o sentimento de pertença é inolvidável. Longos séculos de subjugação colonial não foram capazes de fazer que os africanos e outros povos colonizados se esquecessem de quem era casa. A luta pela descolonização denuncia a imortalidade do sentimento de pertença. Seria preciso apagar-se definitivamente a memória de uma geração sobre as suas origens para que não mais houvesse sentimentos de rebeldia relativos à reivindicação territorial.

Enquanto não houver um mecanismo que permita que os povos se sintam integrados e, sobretudo, mais autónomos no seu espaço territorial, jamais cessarão as reivindicações de independência do povo da Cabinda em Angola, da Ambazónia nos Camarões, da Catalunha na Espanha, dos curdos no Médio oriente e dos Ucranianos perante a Rússia. Mesmo nas Américas, ainda continuam a se ouvir resmungões dos índios sobre a terra que há séculos lhes foi usurpada com massacres europeus e hipnoses da igreja católica. 

Mas se o terror e a ideologia foram incapazes de lhes arrancar da alma o sentimento de pertença, isto significa que a casa é um assunto sério da condição humana. Sem ela, a humanidade fica ontologicamente amputada como se houvesse perdido as raízes. As três perguntas onto-existenciais (Quem sou eu? Donde eu vim? Para onde eu vou?) tornam-se descabidas, na medida em que a segunda pergunta permanece sem a resposta, quando já não se tem um lugar que se chama casa. Defender a casa é, portanto, um nobre acto de proteger uma identidade. E apartar-se desse dever significa, no entanto, afastar-se da responsabilidade moral que tem para consigo como um ser social. Ante tais responsabilidades, a luta pela casa torna-se um desafio irrecusável para um homem que se julgue patriota.

O direito a refúgio deveria caber a mulheres e crianças pela sua natureza menos audaz para enfrentar batalhas sanguinárias. Os homens que preterirem a defesa da casa e juntarem-se a fila dos refugiados incorrem no risco de serem chamados cobardes. O refúgio só se torna justificável quando nos servir de um lugar de reabastecimento das forças para continuarmos a luta. Mas se fizermos do refúgio uma nova casa, então, temos de aceitar ser um novo ser, sem mais nada a reclamar da nossa antiga casa que encerra as nossas raízes. Mas isso se afigura impossível quando não podemos esquecer definitivamente a casa donde viemos, pois o passado ganhou um espaço na memória do mundo.  Enquanto o passado continuar a caçar-nos, seremos incapazes de ser um novo ser, senão um ser camuflado.

O melhor lugar do mundo será sempre a casa. Estaremos convictos disso, todas as vezes que enfrentarmos resistência para integrarmo-nos numa casa alheia, pois não há nada mais incómodo que estarmos num lugar onde não somos bem-vindos. Como bem observou Hannah Arendt, chega a ser preferível viver perseguido a forçar a sua presença num meio de aversão. Este apelo vai para todos aqueles que se encontram na diáspora, especialmente, os africanos: não vos esqueçais da vossa casa. Ela ainda precisa de vós, portanto, retornai assim que possível. Lutando pela melhoria da vossa casa, vós lutais pela melhoria do mundo. Enquanto a casa não estiver em paz e arrumada para se morar, vós no exílio estais proibidos de esquecê-la. E lembrai-vos. A casa alheia onde vós vos refugiastes teve, em tempos, que ser cuidada a sangue e suor para que ficasse limpa e cômoda como a vedes. Lutando pela melhoria da vossa casa, vós lutais pela melhoria do mundo.

 

A Nicole Kidman estava devastadoramente bela! São incontáveis os meus idílios com actrizes. Nessa tarde, nem as minhas mais ingentes fantasias seriam capazes de estar à altura daquela vertiginosa imagem da musa australiana. Eu acabara de a ver nua em De olhos bem fechados, do mítico Stanley Kubrick, e estava ainda atordoado com o sublime enlevo daquela hierática silhueta. Estávamos no final do Verão de 1999 e fora a Braga participar numa feira do livro. Antes de começar a actividade literária que me levara àquela cidade, fora ao cinema. Essa película tinha sido a última obra do realizador de Spartacus e Laranja Mecânica. Kubrick morrera em Março desse ano, mal acabara de montar o filme. Nesse mesmo dia, conheci o escritor português José Manuel Mendes. Um texto dele (“Até amanhã”) havia empolgado a minha juventude. Era de uma beleza lancinante. Lera-o aos 17 anos, em 1984. Lembro-me ainda hoje de como começa: “Lembras-te, Cristina? Na Gandarela tudo foi verde.” Por alguma razão, durante anos, quando o recitava, em vez de “verde” dizia “azul”. Porque será? Não imagino. Deve estar no desígnio dos deuses.

Ontem, demorando-me entre os meus livros, A Semente nas Palavras, uma vetusta antologia que recolhia aquele texto, surgiu-me, de chofre, ressuscitando o jovem de 17 anos que a lera com fervor. Para além do José Manuel Mendes, havia ali textos e autores importantes: Alves Redol, Fernando Namora, José Cardoso Pires, José Gomes Ferreira, José Saramago, Maria Judite de Carvalho, Maria Ondina Braga, Santos Simões (que não conhecia e de quem nunca mais ouvi falar) e Urbano Tavares Rodrigues.

Eu lera pouquíssimo Alves Redol, conhecia sobretudo os livros de Fernando Namora. Havia lá em casa dos meus pais alguns dos seus livros: Retalhos da Vida de um Médico era um deles. Na época, José Saramago não escrevera nem publicara os seus mais importantes romances: Memorial de Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis ou História do Cerco de Lisboa, para referir aqueles que mais me arrebataram. Cardoso Pires já tinha publicado alguns livros importantes, como O Hóspede de Job ou O Delfim. Escusado será citar Os Caminheiros e outros contos, de estreia, de onde saíra o belo conto que consta na referida antologia: “Uma simples flor nos teus cabelos claros”. Mais tarde, veio a Balada na Praia dos Cães ou a Alexandra Alpha.

Conheci o Cardoso Pires e fui amigo dele. Vezes sem conta fui almoçar a sua casa em Alvalade e era fascinante ouvi-lo. Também conheci o Saramago. Não posso dizer que fui amigo do Nobel português, mas ele foi de uma grande e impagável generosidade para comigo. Outro escritor que estava na antologia e que eu lera e que cheguei a conhecer foi o Urbano Tavares Rodrigues, que já tinha uma obra significativa. Eu lera, naqueles anos de juventude, A Noite Roxa, e ficara com uma admiração sem tréguas pelo escritor. Emprestei este livro a uma das minhas irmãs e nunca mais o vi de volta. Ao emprestar livros corre-se sempre esse risco. Conheço gente que não empresta livros por isso. Eu já tive de comprar novas edições para repor livros desaparecidos. Mas não é a mesma coisa. Temos por vezes não só pelo conteúdo mas pelo objecto uma certa predilecção. O significado dessa alquimia é por vezes intransferível. É aquela edição e não a outra que tem determinado significado. Ainda hoje penso naquela edição de A Noite Roxa que se extraviou. Do José Gomes Ferreira lera a sua poesia, sobretudo.

Mas retornemos ao belíssimo texto de José Manuel Mendes, “Até amanhã”, um texto marcadamente político, uma escrita incondicionalmente engajada. Tanto o autor, como alguns outros, caso de José Saramago, eram membros do Partido Comunista Português. A minha edição data de 1977, tinha havido uma anterior, de 1973. O que me fascinou naquela escrita foi o cruzamento entre a luta e o amor, foi a poesia na textura da prosa, não obstante o seu tom algo panfletário, o que não me incomodava. Em 1984 vivíamos nós os anos da revolução, antes do refluxo ou do ocaso que acontecerá no final dessa década única da nossa história. Hoje trata-se de uma realidade e um contexto dissolutos. O texto, este texto do José Manuel Mendes, era construído a duas vozes, a do Paulo e a da Cristina, vou citá-los aqui, identificando-os, como personagens e suas falas.

Paulo: “Lembras-te, Cristina? Na Gandarela tudo foi verde. As árvores, copas resfolegando de vento, e os olhos dos amigos. A própria noite, Cristina, a pálida epiderme das luzes, as palavras do Octávio Pato, rijas e enternecidas, entre o cansaço e a coragem.”

Cristina: “Que feliz me sinto por voltar a ver-te. Deixa perder, de novo, um pouco, os meus olhos nos teus. A noite é de festa. E como desagua, Paulo, em delta, no meu peito.”

Paulo: “Nessa noite, Cristina, as estevas da memória rompem nas palavras, nessa noite decidimos viver juntos. Continuaremos o combate lado a lado, a tempestade solidária na cachoeira da ternura colectiva.  (Uma frase retórica – penso agora). Fixaste, por segundos, o relógio no meu pulso. Como quem pára a jangada do tempo. Relanceei, através do vidro, o borrão azul da madrugada. E a tua voz, amo a vida, Paulo. Tanto, despontava pequenas árvores brancas no anis da volúpia. Soube, então, que o teu corpo era um mapa e em tuas rotas me perdi.”

Isto é muito bonito: “o teu corpo era um mapa e em tuas rotas me perdi”. Ainda me lembro, muitos anos depois, do que esta frase, densamente poética, significou para as minhas aspirações literárias. Mas há mais. Como aquela dita pela Cristina algures no meio do texto: “O pássaro da tristeza trepando-te aos olhos.”

Paulo: “O teu rosto, Cristina. Um perfil de praias e solidão. As pestanas negras sobre os olhos inquietos. O teu rosto-cais, espumas e ventos, onde atraca a ternura de preencher-me de ti.”

Cristina: “Este poema, Paulo. Escreveste-o por uma daquelas madrugadas frescas, odorosas de orvalho, o marfim do sol dentro do quarto. Porque releio os teus papéis, uma ponte desde os momentos idos, atravessando-a lentamente, lá ao fundo as águas dos dias partilhados, porque te revejo de novo a meu lado? Sem o nó da saudade e em amor? 

Gosto do poema, Paulo. Não me canso de ler o que escreves.

os teus seios noite vegetal/ longas bagas de suor// os cabelos revoltos/ algas na areia quase líquida/ das mãos// apelo o concreto do teu sexo/ um mar desagua nos teus gritos/ tépidos// freme o ventre/ nos olhos mais límpidos/ que as manhãs// beijo repousado as salinas/ dos teus lábios.

Cristina: “Noite, areia, mãos, manhãs, salinas. Os pontos cardeais, as imagens predilectas. Mesmo na tua poesia de combate.”

Foi isto justamente o que me fascinou neste texto, o amor, o erotismo dissimulado – a poesia é a arte da dissimulação, ensinou-me o meu Mestre de sempre -, as imagens, as belas imagens poéticas, entrelaçadas, por entre mensagens e imagens de uma poesia de combate e de intervenção. Também me encantou a cadência do texto, a sua poesia, a voz do autor, que se ouvia, como se dissesse o texto, como se o declamasse. A tessitura dessa voz.

Passam 34 anos desde o ano em que li isto. Releio o texto esta tarde e sinto um arrepio. Sentado, na sala anoitecida, na companhia sucessiva de vozes esplêndidas: Ella Fitzegerald (“I love Paris”), Helen Merril (“All of you”), Louis Armstrong (“Let´s do it”), Tony Bennet (“Ça, C´est L´amour”), Frank Sinatra (“Anything goes”), Sarah Vaughan (“Ev´ry time we say goobye”), Abbey Licoln (“You do something to me”), Anita O´Day (“My heart belongs to dady”), Shirley Horn (“Love for sale”), Lena Horne (“What is this thing called love?”), Shirley Bassey (“I get a kick out of you”), Johnny Hartman (“I concentrate on you”), Peggy Lee (“Do I love you?”), Julie London (“I love you”), Nat King Cole (“Just one of those things”) Billy Eckstine (“In the still of the night”), Oscar Peterson (“From this moment one”), Rosemary Clooney e Frank Sinatra (“Cherry pies ought to be you”), Carmen McRae (“Easy to love”), Fran Sinatra (“Night and day”), Louis Armstrong (“Just one of this things”), Abbey Lincoln (“I concentrate on you”), Fred Astaire (“I´ve got my eyes on you”), Anita O´Day (“You´re  the top”) e Sarah Vaughan (“Easy to love”).

Oiço estas vozes que cantam, todas elas, Cole Porter. Gosto maningue do Cole Porter. Ele compôs muitos dos clássicos do jazz.  Oiço-o nas vozes que citei acima enquanto retorno aos meus 17 anos, aqui sentado, neste dia que finda absorto, imerso, melancólico, profundo, de domingo, como muitas vezes são os meus domingos nesta cidade, que parece desabitada da sua azáfama dos meios de semana, quando finalmente é possível transitar pelas ruas em paz, com a soberana tranquilidade que não se comercia em outros dias.

Curioso este meu retorno ao passado, no dia em que percorri algumas lúgubres ruas da cidade – depois da minha ronda pela casa dos pais no Infulene -, onde inclusive divisei a casa de madeira e zinco, na Malanga, que o Luís Bernardo Honwana fotografou e fez a capa do seu belo e instigante livro A Velha Casa de Madeira e Zinco. Isto, enquanto passeava entre a Malanga e o Alto-Maé, em busca de um ângulo, que me permitisse divisar o futuro: a hierática ponte entre Maputo e Catembe. Vi e fiquei instantaneamente enfeitiçado com aquela obra imponente e ocorreu-me pensar nesta contradição em que nos encontramos: termos diante de nós um prodígio que nos projecta para o outro século, mas em tudo permanecermos arreigados ao passado, sem imaginação, largueza de vista, inteligência, cultura e arrojo, ou incapazes de nos libertarmos desta paralisante realidade em que estamos verdadeiramente atolados.

Então, depois daquele passeio algo paradoxal, no qual me empolguei por alguns instantes com o incauto futuro, tendo-me precipitado de imediato para o fosso da dura realidade, que é este nosso inepto quotidiano, vim-me embora para casa, acendi as luzes – a minha sala é escura, mesmo à tarde precisa de luz -, e pus-me a reler este venturoso e antiquíssimo texto do José Manuel Mendes, que tem, aliás, um título que agora parece ser inquietante: “Até amanhã.” E lembrei-me de ter encontrado o autor, em Braga, naquele dia em que vi a Nicole Kidman arrebatadoramente nua, na tela do Stanley Kubrick, e não tive o atrevimento de confessar ao escritor português o entusiasmo do rapaz de 17 anos, que agora, com as mãos nos meus ombros, enquanto releio aquele belíssimo, debruça-se sobre mim e sobre os meus demónios. 

 

 

“Mais importante que saber escrever é saber ler. Não persiga os sonhos! Constrói-os”. Leitor, pensei nisto agora, parece-te bem? As frases feitas estão cheias de más intenções ou de traduções mal-intencionadas, sabes que é mais fácil reter os “chavões” e nunca se permitir a uma experiência com o livro. Não é fácil ler, obriga-nos a explorar outros planetas mentais ou físicos e não estou certo de que o nosso veículo esteja disposto a levar-nos para lá, leia sobre tudo e sobre todos, porque o importante é nunca ter opinião sobre coisa algumas, são os limites da função, o ponto de descontinuidade.

O mundo é uma representação, os livros não fazem mais do que dar uma opinião sobre o mundo e não se preocupe leitor, não é vinculativo. Pegas aqui, pegas acolá e fazes um vestido, arte da costureira. Os filhos da Eva têm a particularidade de puder acrescentar ao mundo, chamam eles isso de imaginação, a liberdade de dizer que o mundo não chega, é insuficiente, insuficiente na medida que não entende muito bem cada angústia representada na luz acesa no edifício ao lado. Que estará fazendo acordado a essa hora? O vizinho, claro.

A serpente merecia um julgamento mais digno, pobre coitada, não pude defender-se. Resignou, deve ser por astucia, a insustentável condição da leveza do ser. Não nos acusa à espera que reconhecêssemos a nossa falta, a arbitrariedade daquele julgamento. Não entende nada da natureza humana, pobre serpente, a acusação é sempre de um único sentido, é de nós para eles, desculpa, não há cá dupla transmissão, os filhos da Eva acusam-se e acusam-se, falam e falam, mas eles escutam-se pouco, serpente. Eles trabalham muito, resta pouco tempo para essas coisas.

É para isso que lemos, para essas histórias de serpentes, deus, Eva e outras asneiras. Os movimentos caóticos são interessantes para a ciência; a teoria de incerteza de Heisenberg, match no tinder, trajectória do fumo do cigarrete, tudo que é caótico é interessante, guarda um mistério, é dissimulado, é uma dança delicada cujos movimentos dizem o inverso do estado da alma. Ler é aceitar o caos, ir até a boca do vulcão, aceitar as neuroses, olhar para o homem que cruzo as pernas e segura o jornal, e pensar, que personagem eu daria-lhe? O que ele tem para me contar? O que ele comeu ontem à noite? Me parece que o senhor é um corretor da bolsa, não, deve ser um corporativo, temos muitos deles hoje. Os rapazes lá sentado são os alunos estrangeiros que chegaram a universidade, eles sempre fazem aqueles jogos para facilitar a integração, é divertido, dão mais vida a este lugar e claro, mais opções no tinder.

Vi um artigo no jornal há dias atrás que dizia: esgotaram os recursos do planeta, que tragédia leitor! Agora vivemos de excedentes. Os nossos recursos esgotaram quando não conseguimos diferenciar a macro da má economia, o liberalismo nunca mais encontrou a riquezas das nações e o proteccionismo já não sabia o que era produto nacional, explodiu o racismo, a xenofobia e a culturofobia. A pouca leitura levou-me a ver estrangeiros em tudo na rua, o único estrangeiro era a falta de emprego, a falta de pão, a minha fome e do estrangeiro é a mesma, é a mesma.

A propósito não existe prémio para leitor? Não tenho muito apreço pelos prémios, nunca tive capacidade para ganhá-los, sou tímido, não consigo ver pessoas a olharem para mim. Fujo, escondo-me e escrevo estas asneiras porta adentro das sanitas, deixo as merdas que trazia no estômago e as que trazia na cabeça, tudo cheirando a mesma merda. Não se tente imortalizar, o rio leva tudo e o mar joga fora, quando morrer, morra. Eles também têm direito a suas asneiras, o nome da rua com o teu nome, a tua face na t-shirt não dizem nada, apenas angústia de algumas pessoas deprimidas que acham que viveste a vida que eles gostariam de ter vivido, tolice. Claro que depois da tua morte a tua vida parece um perfeito roteiro, talhado para a telona, não és mais que isso; um repositório de vidas que nunca existiram, dores reais e imaginarias. Não viveste para sempre, aquela rua não tem nada a ver contigo e os teus prémios não tinham nada a acrescentar, estátuas.

Quando fechaste o livro em que pensaste? No universo, na estupidez, na menina do café, no ruído provocado pelo frigorífico, em que pensaste? Esta doença que é disputar afectos, o vazio de uma vida muito cool, a insignificância de ser a presença mais agradável da sala. Achas que devia ter sido aquele o final? Não é uma questão de saber terminar leitor, o livro é que quis assim, não havia nada a fazer, a história seguiu o seu rumo assim como a sua vida, desculpa.

 

Nervosismo. Rangeu os dentes. Olhou, em quase desespero, para o papel com contas. Aritmética simples, simples, mas os cálculos estavam antipáticos. Torceu a boca. Suspirou.

Percebeu que estava nervosa quando a esferográfica estalou, com a força da mordida involuntária. A mando do pulso a caneta rasurou o papel com gestos largos e irritados. Emendou os rabiscos. Inspirou fundo, buscando novo alento para os difíceis cálculos fáceis e voltou a suspirar, agora com mais calma, técnica milenar para o auto-controlo

Fez, instintivamente, aquele gesto feminino de afastar os fios de cabelo postiço que costumam estorvar a visão. Percebeu que não tinha cabelo postiço: os cabeleireiros andam caros. Ia roer as unhas que já pediam uma demão. Não roeu, não fosse comprometer o que restava da manicure possível. Amarrotou o papel como se este fosse o culpado de toda a crise. O papel, na subserviência que se conhece, deixou-se amarrotar, calado, com estoicismo de um funcionário antigo em véspera de reforma. Recuperou, no papel amarfanhado, os dados dos cálculos e rectificou-os num papel novo, com teimosia de quem regateia o custo de vida. Atirou-se aos cálculos, agora com mais respeito pelos algarismos.

Estava deitada, posição de réptil, sobre a cama. Assim de capulana, era uma lagartixa em trajes caseiros. Os gestos ansiosos denunciavam a urgência das contas. Ergueu a cabeça. Os braços eram dois pilares aguentando o tronco. Os cotovelos afundaram no colchão. As tangerinas do peito esmagavam, na superfície do lençol, os papéis rabiscados. A cabeça afundada sobre os ombros. As omoplatas espreitava denunciando toda engenharia do esqueleto. As costas em arco desenhavam, numa hipérbole dramática, o gráfico da cadente economia nacional.

De nervosismo balançava os calcanhares de tornozelos entrecruzados e emprestava delicados abanões ao conteúdo da capulana. Riscou, escreveu, esquematizou, calculou, somou, somou, somou. Depois subtraiu…  Mas quando multiplicasse pelos dias do mês, ou dividisse pelas despesas fixas, não batia!! Suspirou. Chamou a calculadora do telemóvel para ajudar. Foi quando viu a mensagem “oi”, à qual respondeu, com expectativa de uma isca num anzol, outro “oi”. E foi trocando “ois” simpáticos, sabendo que a solução para a crise sempre foi fortalecer parcerias e amanteigar o relacionamento com os doadores.

Mais tarde:

– Amiga!

Bateu com a palma na mão da outra, ouviu-se um pah! de cumplicidade e ficaram de mãos dadas, as digitais coladas, confundindo o álcool dos vernizes das unhas e trocando, entre uma fofoca e outra, os códigos  da comunicação feminina.

— Tens de me ajudar.

— O que foi? –arregalou os olhos.

— Vou sair com o “cabeça-de-pão”

— E depois? Paga bem, esse.

— É que também tenho encontro com o “cabeça-de-coco”.

— Marca para mais tarde.

— O problema é o “cabeça pequenina”, quer vir hoje.

— Cancela esse… — atirou os dedos em jeito de desprezo –, manda passear.

— Não posso, ele é o meu cabeça-de-lista.

— Cabeça-de-lista? — Ajustou o nó da capulana —  Yuh! Já elegeste?

— É que — colou a mão ao peito e olhou para cima, para o nada — gosto dele.

— Não é altura para gostar — franziu a testa — Agora é tempo de democracia — friccionou a ponta do polegar sobre o indicador.

— Mas eu o amo. O amor é melhor que a democracia.

A amiga revirou os olhos, resignada a cegueira que o amor causa — mas podes adiar. Diz-lhe que uma comissão familiar ainda estava avaliar as condições da candidatura…

Riram-se e no meio das gargalhadas ouviu-se o som da cumplicidade:

a mão duma a bater na doutra, pah!, enquanto o toque do telefone celular avisava outra mensagem: “oi”.

Outros países cobiçam

Nós subestimamos!

Uma oportunidade de ouro foi dada ao nosso país: a possibilidade de participar com quatro equipas na nova temporada futebolística africana, fruto do reconhecimento das prestações do Ferroviário da Beira, Songo e da própria Selecção nacional no Continente.

A Federação submeteu o assunto aos clubes, para “referendar” quem é que teria unhas – leia-se capacidades – para, em nome de todos nós, não deixar fugir uma oportunidade de ouro para a fuga às pré-eliminatórias, ascensão nos “rankings” e colocação das nossas estrelas em montras mediáticas. Apenas a UD do Songo se apresentou com musculatura financeira e desportiva para avançar. Outros, pescados ou repescados, vão-se ficando pelo “nim”.

Recuperar

De erros cometidos

Há riscos, e não são poucos. Enquanto que na Europa os departamentos dos grandes clubes sonham com a qualificação às competições continentais, que garantem à partida encaixes financeiros consideráveis para toda a época, entre nós, a margem de risco é bem grande pois torna-se imperioso investir e triunfar na primeira fase. Só a partir daí se pode pensar em mais-valias, que, diga-se, agora são “de encher o olho”.

É um facto que a derrapagem que o futebol moçambicano deu nas últimas décadas – basta ver as bancadas vazias mesmo nos jogos grandes – impõe um repensar e uma actuação profunda, devidamente enquadrada na realidade que o desporto-rei hoje vive no mundo.

No topo, está a falta de qualidade das nossas competições, com o Moçambola à cabeça. Seguem-se erros históricos que vão levar alguns anos a corrigir e que têm a ver com as integrações às correrias dos principais clubes em empresas e ainda o fecho de fronteiras que impediu a continuidade de vermos as nossas estrelas a brilharem no estrangeiro.  

Os sinais que

Poderemos estar a dar

Precisamos de “acordar” do ritual a que nos habituamos – quebrado pelo Ferroviário da Beira e pela UD Songo – de entrarmos nas provas africanas, apenas para fazer número.

Os clubes, face à realidade que vivem, sozinhos não poderão avançar e disputar, com tostões, onde os outros se apresentam com milhões.

E se eles não avançarem, quem perde? O país! E estamos a falar de uma oportunidade que poderá não se repetir em breve.

Neste caso, a solução “mais à mão”, teria que vir do “Estado-papá”, para libertar novas verbas, depois das que foram disponibilizadas para levar o Moçambola até ao fim. Será a melhor ou a única saída, tendo em conta que existem muitos talentos mas o cenário de crise?

A questão central é, com realismo, avaliarmos o custo-benefício e… os riscos! Até porque é um assunto nacional que pode ditar o futuro. Temos ou não condições transformar o nosso futebol de desporto a indústria de massas?

O exemplo da Croácia no recém-terminado Campeonato do Mundo é ilustrativo. Ganham, o turismo; os atletas que passam a activos valiosos; a auto-estima e a produtividade dos cidadãos. As empresas terão retorno de prestígio ao publicitarem um produto nacional e em última instância a juventude que, com alegria e sem grande pressão, passará a beneficiar de mais saúde e menos vícios.

É preciso que fique claro que a possibilidade que a CAF nos oferece, é cobiçada e seria agarrada com as duas mãos por outros países, alguns até com menos expressão política, desportiva ou financeira no Continente.

Além do mais, em caso de recusa a este presente raro, estaríamos a dar a África e ao Mundo, um sinal de miserabolismo que nos poderá condenar a largos anos nas pré-eliminatórias!

 

O rastilho foi o Michael Jackson. Via, com alguma displicência, um canal de televisão quando se refiram ao Michael, que naquele dia faria 60 anos. Eu estava em Berlim, quando, a 25 de Junho de 2009, no pátio em que nos encontrávamos, numa embaixada cultural, a actriz Graça Silva veio derrubar-nos com aquela incauta notícia: a morte do Michael Jackson. Corri para o quarto para me ligar a um televisor diante da incredulidade que tomara conta do mundo. O Michael Jackson teve uma importância danada na minha vida e de muitos. Creio que nunca contei isto à Graça e ela já não está cá para ler este texto. Deu-me agora para ouvir todo o Thriller de novo: “Wanna be startin´somethin´”, “Baby be mine”, “The girl is mine” (com Paul McCartney), “Thriller”, “Beat it”, “Billie Jean”, “Human nature”, P.Y. T. (“Pretty young thing”), “The Lady in my life”. Tinha 15 anos quando este disco foi lançado e vivia numa cidade sitiada. Lembro-me de ver, na Karl Marx, a capa do vinil. Era o famoso Thriller que eu ouvia na rádio ou via na televisão – era então um telespectador errático. A Rádio Moçambique tinha um programa dos meus amigos Abel Chambal e Anísio Matangala de disco, soul music e funk. Foram pioneiros. Não frequentei o Clube da Juventude, mas sei que era o point. A vetusta TVE passava uns vídeo-clips, sobretudo como interlúdios musicais, onde avultavam composições instrumentais do saudoso Fernando Azevedo, com imagens de Moçambique. Foi nessa altura que passava o “Maputo”, de Marcus Miller. Na TVE, Dino Chiche e Quim Barbosa (ambos já não habitam este mundo) são outros dos pioneiros na divulgação do deste tipo de música; depois veio o Miguel de Brito. Foi onde vi surgir o Rogério Dinis, que mais tarde se distinguiria naquela dança a imitar o inimitável Michael Jackson, agora como MC Roger.  

Há uns dez anos que não ouvia assim devotadamente o Michael. A última vez que isto me aconteceu foi há mais de 10 anos, vivia então em S. Paulo e ouvia obsessivamente o Michael Jackson. Recordo-me de estar em Higienópolis e de entrar uma chamada do Eduardo Coelho, que era meu editor, na Língua Geral, todo satisfeito porque o Rio dos Bons Sinais fora escolhido para uma pré-lista do prémio PT. Eu estava absorto a ouvir o Thriller, que então comemorava 25 anos. Sobressaltei mais pelo facto de o Eduardo interromper aquela minha epifania do que propriamente pela notícia que me nobilitava sem dúvida, mas não trazia mais do que isso. Ouvia este disco e o Bad, sobretudo por causa de “Liberian girl”, “Smooth criminal”, “Man in the mirror”, eu sei lá. Há, sobretudo, um vídeo do “Billie Jean”, na festa dos 25 anos da Motown, em 1983, absolutamente espantoso. Michael tem então 25 anos, usa a luva mítica, as meias brancas e a sua indumentária inesquecível. Procuro-o agora na Internet. Durante anos punha este vídeo para o meu filho Irati. Hoje ele explica cada detalhe da actuação brilhante do Michael. Quem nunca viu este momento não conhece a verdadeira revelação chamada Michael Jackson. Ali está não só o cantor, mas também, ou sobretudo, o dançarino. A actuação é fabulosa. Naquele tempo, para além deste vídeo, víamos com espanto o “Thriller”. O disco saiu no ano em que eu fui estudar para a Josina Machel e lá me encontrei com o Manuel Maurício. O Luís Loforte era meu condiscípulo da Maxaquene (da mítica 6ªB) e ele reencontrou o velho amigo Manuel quando fomos para a Josina. O Abdul Ussene, que nos morreu aqui há anos, entra também aí na nossa história comum. Um pouco mais tarde o Ismael Gulli. O Orlando Mavie – que iria herdar na Rádio a divulgação deste tipo de música, muitos anos depois -, é outro dos meus companheiros, encontrámo-lo, anos mais tarde, na Francisco Manyanga. Era comum, nas tardes, irmos à casa do Manuel para ver os Betamax que ele tinha e que traziam estes vídeos. O Manuel era um incondicional do Prince e do “Purple Rain” e a nossa discussão girava à volta da expectativa de este ultrapassar o Michael. O Manuel acreditava nisso. Nenhum de nós punha semelhante hipótese.

Ao rever o Michael na festa da Motown, a gravadora criada, em Janeiro de 1959, por Berry Gordy, em Detroit, no Michigan, que esteve na origem e no lançamento de importantes talentos do rhythm and blues, soul, pop, hip pop ou mesmo rock, lembrei-me das The Supremes, dos finais dos anos 50, onde avultava o nome de Diana Ross. Mas há mais: Marvin Gaye, The Commodores, Lionel Richie, Stevie Wonder, Jackie Wilson e os Jackson Five. Os The Temptations (“Lady soul”). Desta associação de nomes da Motown nasceu o desejo de revisitar Diana Ross a cantar “Missing You”. A música da Diana é uma pungente evocação de Marvin Gaye. No mesmo ano de Thriller, Marvin lançou Midnight Love, que trazia “Sexual healing”. Quando anunciaram a morte de Marvin Gaye, no início de Abril de 1984, assassinado a tiro pelo próprio pai, na véspera dos seus 45 anos, eu estava no pátio da Josina Machel, distraído a ver um jogo qualquer. Busco Marvin depois da Diana: “Oh, baby now let´s get down tonight”. Inesquecível. Acabo de rever o Marvin Gaye e vem-me à memória a música dos The Commodores. Ainda hesito no título, mas não muito tempo depois surge-me: “Nightshift”. Belíssima e tocante elegia. O Lionel Richie não pertencia mais ao grupo quando eles lançaram, em 1985, esta composição, que é um sentido tributo a Marvin Gaye e a Jackie Wilson, que tinham morrido no ano anterior. Jackie foi um cantor e performer muito importante na sua época, tendo tido influência sobre o próprio Michael Jackson e Elvis Presley. Aliás, Presley visitava-o quando estava hospitalizado – teve um ataque cardíaco num show em 1975 e ficou em coma durante 9 anos. Elvis morreria antes, em 1977, também de coração, ao que se sabe. Mas foi ao ouvir esta lindíssima música que os anos 80 fizeram sentido para mim e vou tentar esclarecer isso agora.

Foram dois versos da música que me fizeram chegar aos anos 80 com uma nitidez quase cortante: “Gonna be some sweet sounds/ coming down on the nightshift”. Era isso que nós procurávamos naqueles anos 80. Já descrevi aqueles anos atrozes algures: foram demasiadamente brutais, a guerra alastrava, os ataques na Estrada Nacional número 1, os massacres – Homoíne é um deles -, de uma virulência indescritível, vivíamos num cerco, numa circunstância obsidiante, sem perspectiva de futuro e num pavoroso quotidiano. Hoje, a persistente desmemória faz tábua rasa a isso tudo. Quem ouve alguns dos prosélitos é capaz de chegar à conclusão de que nada disto existiu e que foi apenas um pequeno equívoco. Para nós, para mim, era um quotidiano ensombrado e assombroso. No entanto, encontrámos alguns pontos de fuga. A música era uma delas e estas vozes com estas “sweet sounds” fizeram uma diferença extraordinária entre nós. Nós que não sabíamos nunca o que iria acontecer no dia seguinte, quando nos fechávamos em casa do Manuel, esquecíamos o mundo lá fora e buscávamos uma espécie de catarse dos fantasmas que nos perseguiam. Michael Jackson, Lionel Richie, Diane Ross – “Endeless love” -, Jackson Five, New Edition (grupo assim chamado porque intentavam ser os novos Jackson Five, que integrava Bobby Brown, que mais tarde se casaria com a Whitney Houston.) A Gloria Estefan tinha uma música que ouvíamos sempre: “Dr. Beat”. Havia o breakdance, vibrávamos com James Brown, ou o moonwalk do Michael, eu sei, a lista dos nossos espantos não caberia aqui.

Outros refúgios eram as bangas de sábado. Era difícil arranjar cerveja, ou mesmo Coca-Cola, improvisávamos uma feijoada, o Abdul tinha disponível uma casa na Salvador Allende, convidávamos algumas das miúdas mais giras e dançávamos slow ou funks que então “estavam a bater”, como diz hoje a geração da minha filha Mayisha. “All night long” – tinha razão o Lionel Richie. Lembro-me tanto de “Shake you down” de Gregory Abbott. Que emoção puxa! Escrevo isto e fecho os olhos. Até me comovo. Ou “Live to tell” da Madonna. Sonhei com todos os amores improváveis a dançar esta música. É do disco True Blue, de 1986. Também tinha “La Isla bonita”, “Papa don´t preach”, “Jimmy Jimmy” (Madonna é também agora sexagenária, vejam lá!). Não sei descrever a emoção do “Live to Tell”. Os anos 80 têm isto de contraditório na minha vida: se, por um lado, representam uma vivência terrível, um quotidiano cruel, um tempo de todas as carências – de bichas, de fome, de madrugadas a pôr pedras nas bichas de carne do Botswana, do carapau de Angola – hoje não como carapau -, do repolho da ementa diária, ou nas padarias onde não havia pão, do medo e da guerra, da desesperança e do infuturo, da incerteza; por outro lado, estes anos 80 ligam-me a um conjunto de músicas que ainda hoje me emocionam, sobretudo pela sua doçura como queriam os The Commodores naquela pungente homenagem a Marvin e a Jackie.

Numa remotíssima viagem a Lisboa, ainda naqueles anos 80, tive a bordo a companhia de um escol inesquecível: Terence Trent D´Arby (“Sign your name”); Black com “Wonderfull life”; Glen Medeiros (“Nothing´s gonna change my love for you”, que gravou aos 17 anos, conhecida antes pela voz de George Benson); Modern Talking – “You´re my heart, you´re my soul”; “Let´s Groove”, dos Earth, Winds & Fire; Rick Astley (“Never gonna give you up”); Thompson Twins (“Hold me now”); Alphaville (“Big in Japan”), Billy Ocean (“Caribbean Queen” ou “Suddenly”). Eu não queria que aquela viagem terminasse. Provavelmente nunca terminou. Estava possuído por aquela trilha sonora. Nunca mais me esqueci daquela viagem, sobretudo por causa destas músicas. Como não me esqueço da Dionne Warwick, na companhia de Stevie Wonder, Gladys Knight e Elton John a cantarem “That´s what friends are for”. A harmónica de Stevie Wonder ainda ressoa na minha memória. Naqueles anos cantávamos “I just called to say I love you”, do Steve Wonder. Ou vibrávamos com “Ebony and Ivory” do Paul McCartney e Stevie Wonder. Era o tempo dos Cool & Gang: “Celebration”, “Fresh”, “Get down on it”, “Ladies night”, “Cherish”, eu sei lá. Era o tempo da Donna Summer. Morreu outro dia. Parece inacreditável! Acabara de a ver num dueto com Seal num espectáculo de David Foster. Não sabia dela havia décadas.

Oiço os Milli Vanilli (Fabrice “Fab” Morvan e Rob Pilatus – este morreu também): “Girl you know it´s true.” Reggae e dance music. Um balanço único. Animaram as nossas bangas. Volto a ouvir e faço uma descoberta: a influência do soul makossa, do grande Manu Dibango. O Michael também incorporara o soul makossa na música inaugural do seu álbum Thriller. Prossigo a viagem pelos anos 80 e defronto-me com a voz da Jennifer Rush: “The power of love”. Nunca mais a ouvi. Outro slow. “Never too much” cantava então Luther Vandross. Ouvíamos Aretha Franklin, “Who´s zoomin´ who?” Luther morreu primeiro, Aretha parte agora. “A house is not a home”, de homenagem a Luhter, na voz da Aretha, é uma interpretação de outra galáxia – arrepiante. Era este ritmo e eram estas músicas, estas súplicas de amor, estas declarações. Como o dos Foreigner: “I want to know what love is.” Acho que era isso que nós procurávamos, tínhamos menos de vinte anos. Naquele tempo íamos ao Búzio dançar Phil Collins, “Another day in Paradise”. Quem ficava incólume? Lembro-me de Chris de Burgh – “The lady in red”. Ou de Tina Turner: “What´s love got to do with it”. As pernas da Tina ainda hoje enlevam-me. Foi até parodiada numa telenovela brasileira pela Regina Casé, que fazia de Tina Pepper em Cambalacho. Muitos dos nossos jovens ídolos, alguns apenas uns anos mais velhos do que nós, morreram cedo. Black (Colin Vearncombe), morreu em 2016 num acidente de carro, em Janeiro. Em Dezembro do mesmo ano morreu George Michael. “Careless Whisper.” O Orlando Mavie cantava como nenhum de nós o George Michael. Devo confessar que eu sentia a mesma insegurança do George quando pedia uma menina para dançar: “I feel so unsure/ As I take your hand lead you to the dance floor.” Tremiam-me as pernas e suava-me a palma das mãos. Mas por razões bem diferentes das do George. Nunca me esquecerei: um dia dos meus anos a dançar Tracy Chapman com a mais bela musa da Francisco Manyanga. Cedo demais ela seria chamada pelos deuses. Lá onde ela agora está, emigrada no Paraíso, dança ainda comigo “Baby can I hold you” e “She´s got her ticket”. Foi nessa época que nasceu a minha insana paixão pelo Freddy Mercury. Outra divindade morta. Oiço “África”, dos Toto, um idílio sobre o nosso continente. Por associação, entronco em “We are the world”. Ali estavam quase todas as grandes vozes americanas: Michael Jackson, Lionel Richie, Stevie Wonder, Paul Simon, Kenny Rogers, James Ingram, Tina Turner, Billy Joel, Diana Ross, Dionne Warwick, Willie Nelson, Al Jareau, Bruce Springsteen, Cyndi Lauper, Bob Dylan ou Ray Charles. A iniciativa, que partiu do empresário de Lionel Richie e Kenny Rogers, fora antes pensada por Harry Belafonte. África sofria uma seca impenitente e a fome produzia algumas das imagens mais lancinantes do continente: Etiópia, entre outros países africanos, concitaram a empatia e a generosidade de muitos. Antes da filantropia se transformar na indústria da ajuda que Dambisa Moyo critica ferozmente em Dead Aid. Lionel Richie e Stevie Wonder tinham ficado de escrever a música. Entretanto, Richie convidou Michael, que então lançara o álbum Thriller, que era o grande sucesso da época. Jackson disse que participava e que queria também participar na composição. Ficaram os três com a tarefa: Stevie, Lionel e Michael. Wonder, por alguma razão, ficou indisponível e só entraria a cantar – o seu contraponto com Springsteen é marcante. Michael e Lionel fizeram a música. Quincy Jones faz a regência do grupo e produz o disco. Não sei se eles sabem, mas acabaram por fazer das nossas infâncias e juventude menos amargas e menos infelizes, apenas por cantarmos esta música emocionante. Vi duas vezes o Lionel Richie: em Lisboa e na Cidade do Cabo. Em ambos os momentos ele terminou a cantar esta música e a convocar à lembrança o amigo Michael.

Agora, tenho eu de terminar esta longa, arrastada e evocativa prosa e verifico que há coisas estranhas. Tudo começou com um rastilho – Michael Jackson – que me levou a rememorar uma década de formação para mim. Ouvi obsessivamente uma música que magnificava esse sentimento contraditório que tenho destes anos: “Nightshift” dos The Commodores. Foi por causa das “sweet sounds” de que eles falam que me lembrei das músicas que encantaram a minha adolescência. Ora, os Commodores eram o conjunto de Lionel Richie e eis que termino a minha doce noite de memória a ouvir “We are the world”, que junta Michael Jackson a Lionel Richie e a tantos outros mitos que eu ouvia naqueles ingentes anos. De permeio, os nomes da Motown e aquela prestação incrível do Michael a cantar e dançar a misteriosa “Billie Jean”. Não tinha pensado em nada disto quando iniciei esta prosa. Queria escrever ou falar daqueles anos incoerentemente belos e fabulosos. Tinha alguns acordes na memória, lembrava-me de algumas músicas, mas nada fazia prever esta quase incessante e comovida associação. Era apenas um sentimento contraditório, uma mistura de exultação e nostalgia pelos anos 80, que aquele ritmo e aquela música do Michael Jackson haviam provocado em mim.

 

Hoje caiu-me uma surpresa que pouco esperava. O Miguel Luís José, aquele que anda em todo lado com a sua Operação “RRR”, veio cruzar o meu singelo caminho. Miguel é estudante de Direito em Portugal e, como eu, carrega um par de óculos, que se sustenta nos círculos das orelhas e no trapézio do nariz. Está de férias e em breve voltará a Lisboa. Sentei-me com Miguel em frente ao pequeno jardim que se situa em frente ao Museu da Moeda. Parecíamos velhinhos. A todo momento ajeitávamos os óculos que não paravam de gotejar sobre a liquidez das nossas gargalhadas. E soube que a operação “RRR” quer dizer: Reencontrar, Reviver e Recarregar. E de facto fizemos tudo isso naquele jardim. Reencontramos os ares da nossa cidade pelas narinas da Europa, revivemos o pouco que as nossas idades minúsculas permitiram-nos e recarregamos os nossos sonhos com botijas de esperanças e soros de certeza.

Miguel encontrou-me enquanto estava terminando um texto para essa coluna; ligou-me. Saí correndo para o receber. Abandonei a crónica e fui ver o jovem estudante de Direito. Miguel é um jovem de uma humildade de atrapalhar até a sua sombra. Fala com o corpo todo; não que se agitasse quando falasse, mas sim, sentia-se o corpo todo presente em cada palavra. Em cada palavra Miguel pouco falava; expulsava a sua alma coberta de humildade e agitava o silêncio que nos rodeava. Falamos de Portugal, dos livros clássicos que sonho em ter, que em Portugal se compram a preço bem barato. Havia uma espécie de ligação mútua em nossas conversas. Falávamos dos mesmos lugares, das mesmas pessoas, das mesmas peripécias da nossa cidade de oportunidades predestinadas e do crescimento material da nossa cidade.

Dentro de mim me recordei que Miguel já esteve no Estádio de Frankfurt; bem na entrada. Sangrei lembranças amargas no mesmo momento. Veio-me à memória o dia em que perdi a minha mala no Aeroporto de Frankfurt e para abençoar a desgraça perdi o voo que me deixaria na cidade de Hannover. Só com a operação “RRR” para me recordar disso. Só com o Miguel para essa imagem me aparecer a preto e branco na memória.

Miguel em breve voltará a Portugal para terminar o curso de Direito. Regressa para novamente cruzar as ruas de Lisboa com uma mochila de livros carregados de leis e normas. Ele regressará e eu ficarei aqui na cidade procurando uma acácia qualquer para urinar o refrigerante que não tomarei com ele. E ele regressa a Lisboa; sairá de Ndlavela para Lisboa. E escrevo esta crónica porque sei que ninguém mais será capaz de me interromper daqui a alguns dias. A cidade é o fardo que terei nas costas quando Miguel regressar a Lisboa. Se aprendesse de Miguel a ciência das leis será que denunciaria nas mais altas instâncias a pobreza que me persegue em todas esquinas? Tenho uma pobreza que em todas esquinas me faz parar e aponta-me um canivete de fome.

Parecíamos dois velhos sentados nas cadeiras brancas do jardim. Tínhamos vergonha de olharmo-nos sem intermediários, por isso cada um espreitava dos óculos. Miguel conhece Áustria e vários países da Europa; ele vive e estuda na Europa. E eu recordo-me que já beijei uma moça da Áustria. Uma moça que não conhecia vários países da Europa; vivia e estuda em qualquer país fora da Europa.

O Miguel fez o ensino secundário onde eu, também, fiz. Tivemos os mesmos professores, circulamos nas mesmas salas, entoamos o hino nacional no mesmo pátio e equilibramos os nossos corpos gordos de magreza nos mesmos corredores. A operação “RRR” meteu-me no comboio do tempo. E esse comboio era muito rápido; parecia um daqueles comboios eléctricos da Europa. A operação “RRR” teve um pequeno momento de contramão. Miguel disse que queria fazer filosofia e que um dia sentar-se-ia para mergulhar nela. Rimo-nos porque eu disse a ele que meu sonho era ser um grande advogado. E prometi que ainda faria. Terminou a operação de Miguel e termino assim a crónica. Termino agora senão ainda vem o Miguel com seus óculos interromper-me.

É uma sociedade de loucura aquela que pretende

sobreviver no regime do ódio e da represália

João Salva-Rey

Mais de 20 textos compõem O barrigudo e outros contos, de Hélder Muteia. Neste livro, o escritor revela que contempla na literatura um veículo que deve transportar em si as vicissitudes de uma sociedade. Por essa razão, é comum encontrar ao longo da obra uma tendência moralista típica das histórias contadas à volta da fogueira ou de geração em geração por povos que ainda encontram na oralidade um lugar privilegiado para transmissão de saberes e de conhecimento. Este Barrigudo constrói-se a partir das sensibilidades, emoções e dos incómodos que o autor foi colhendo ao longo do seu percurso literário e, principalmente, de vida. Desde o conto inaugural até ao último texto, Muteia sedimenta que a arte de pensar é concomitante a de (re)criar universos acutilantes, nos quais, de facto, as derrotas das personagens são reflexos de um mundo a reinventar.

Dá a entender que este O barrigudo e outros contos – que não é uma colectânea de histórias burlescas, como inicialmente julgamos, embora o burlesco manifeste-se com êxito em determinados momentos, veja, por exemplo, o texto “A capoeira” ou “O julgamento do pato” – é lançado para provocar nos leitores incómodos que os leve a questionar os contextos em seu redor e, com isso, quiçá, tornarem-se pessoas apreciáveis. Nesse sentido, Hélder Muteia apresenta muito enunciados susceptíveis de causar resignação, enfado e revolta. Por exemplo, o primeiro conto do livro, em memória das vítimas dos bombardeamentos na Matola, em 1983, pelo regime do Apartheid, foi escrito para devolver à realidade dos povos o que nela deve ser extinta: a intolerância social e, logo se vê, a morte gratuita. Para dar carga à gravidade daí consequente, Muteia coloca no centro da história um menino que, como “Mabata-bata”, deixa-se explodir por uma bomba. Esta história trágica, claramente, é contemplada no livro para mostrar até onde vai a crueldade dos homens. O mesmo acontece com um outro texto, “O homem feio”, feito de discriminação e dessa disposição em retirar dos homens ou das personagens antropomórficas as qualidades urgentes em detrimento das leviandades.

Ao pretender pôr os leitores a raciocinar com critério sobre Moçambique e no que cá acontece nas ruas, Muteia dramatiza o cenário em que crianças, ao invés de estudar, colocam-se na condição de vendedeiras para conseguirem sustento. Esse é o caso de “A menina das pedras”. E esse carácter áspero da realidade também reflecte-se em “O homem dos sonhos gigantescos” – no qual, na verdade, o grande sonho é ter-se um prato de comida à mesa – ou em “Se os homens fossem bons” – no qual um personagem é condenado por roubar dinheiro que lhe garante o pão para matar a fome.

Como se pode notar, este é um livro altruísta, comprometido com a sensatez e em contribuir para uma boa cidadania, sem ódio e sem represália. Ainda assim, estamos convencidos de que este é essencialmente um livro de crónicas do que contos. O conto aqui manifesta-se de forma acidental e em raras circunstâncias. A crónica, sim, está lá e cumpre o seu papel, de forma concisa, oscilando, como se exige, entre o jornalístico e o literário. Este O barrigudo é mais isso que outra coisa. Aliás, se assumirmos que o Barrigudo é uma colectânea de crónicas, até é uma proposta literária apreciável. A ser colectânea de contos, há muito por que questionar.

Título: O barrigudo e outros contos

Autor: Hélder Muteia

Editora: Alcance

Classificação: 12

 

Toda a memória procura retirar ao esquecimento, ao óbvio, momentos, emoções, descobertas, ideias, é uma necessidade do ser humano que se manifesta de diversas formas, no fundo trata-se sempre de lutar contra a morte.

Eugénio Lisboa

Na literatura moçambicana, concretamente na prosa, existem quatro gerações operando no mesmo plano histórico (a memória e a utopia), a mais recente destas se tornou visível na década 2000, com aparição de escritores como Aurélio Furdela, Rogério Manjate, Lucílio Manjate e Clemente Bata. Esta geração mais recente a que pertence o Chakil Aboobakar cujo livro de estreia Uma Vida Qualquer, 2010, foi bem recebido pela crítica e considerado como uma das mais promissoras vozes no esteio da literatura moçambicana.

Em Uma Vida Qualquer, Chakil Aboobacar opera um milagre iminentemente estético de tornar o quotidiano num espaço de eleição dos conflitos sociais, circunscrevendo a acção dos contos entre a tradição e a modernidade, que por essas circunstâncias se perspectiva a reconstrução da fronteira cidade/subúrbio. Como seria de esperar, e com um afecto profundo que, enuncia a angústia da realidade que o rodeia. Tal como em Marcel Proust, em Chakil Aboobacar a linguagem não cria nenhuma angústia entre o que está escrito e o que é conhecido, domina o seu mundo, a sua linguagem esta acima do que é necessário conhecer.

Chakil sempre virtuoso no retrato narrativo dos dias que correm, com efeito, não se trata de um past copy da realidade moçambicana, fluindo nos 15 contos que compõem a obra, mas da magia sempre imprevisível da nossa condição humana ou da captação da alma das personagens oprimidas, de cenários sociais violentamente injustos, partindo da força do amor até tensões inter geracionais.

O universo em que se movem as personagens se parece muito com o das grandes cidade do nosso país, além disso, Uma Vida Qualquer, preenche as necessidades humanas sobre as quais se pode ignorar ou hipotecar. Porém, na página 13, assistimos sempre indiferentes a cada esquina gente da nossa cidade, que precisa do nosso afecto:

E o individuo que ali minguava esforçava-se em vão por pedir ajuda, mas a sua voz desaparecia com o tempo. A gesticulação, já flácida, tornava-se inexistente e o sol amaldiçoava ainda mais aquele momento.

E o puto quase inconsciente, lembrava-se apenas de dizer com a sua pouca voz:

– vou morrer

De conto em conto, assiste-se uma súmula perfeita da interpretação da vida, constata-se a inexistência de valores numa sociedade egoísta, retrata-se a decadência crua de uma nação sub desenvolvida, contaminada por querelas de ordem estomacal, tal como nos assevera o narrador do conto Extracto Duma Vida;

Uns alegavam que foi assalto a mão armada e outros, enfatizando, afirmavam que conheciam o corpo armado que assaltara a instável palhota do velho Moisés, mas ninguém apontou nomes ou características. O caso ficou pelo não dito e morreu na boca do povo. E dispersamo-nos cambaleantemente para os nossos refúgios. pag 50.

Neste sentido, se por um lado, Chakil traz-nos estas peripécias quotidianas, com um linguajar coloquial que só gente de/com Uma Vida Qualquer, podem nos propiciar esta dupla representação, personagens pobres (vozes predominantes nestes contos) e o espaço urbano (que pressupõe adaptações e conflitos), por consequência, incentivadora da efectivação da dignidade humana.

Uma Vida Qualquer é um livro de memórias, de escrita simples e envolvente, é um hino à nossa terra mas é também um formulário para preencher algumas lacunas que assolam o nosso dia-a-dia.

 

Desarmou da axila, o jornal. Inspirou o cheiro do papel recém impresso. Desabrochou as folhas e as páginas floriram. As notícias cheiravam a fresco. Deliciou-as.
– Sô Sansão, está a ler agora que o jogo vai começar?

Jogava Portugal. Passou a mão pela pera grisalha e fez aquele semblante de crítico de bar. Estalou os dedos para o servente, sem olhar. O servente, lento mas solícito, trouxe o copo a espumar. Os craques entraram em campo perfilados, como formigas adestradas. Sansão lembrou-se do tempo das bichas. não gostou:

– Aquilo é oprimir os jogadores. Deviam estar livres. Parece no tempo da repressão, em que tínhamos que nos sujeitar às bichas. Este futebol não é nada democrático.

Aproximou a boca e beijou o copo cheio, equilibrando a espuma. Sorveu com o lábio inferior o resto de espuma filtrado pelo bigode esparso. Os craques preparavam-se para o hino. Ajeitou o corpo magro na cadeira. Segurou o copo de cerveja com estilo de quem hasteia uma taça de vinho das castas mais cobiçadas, e acompanhou o “Heróis do mar” com ar nostálgico, antes de começar a referir-se à Eduardo Mondlane, a avenida, como Pinheiro Chagas, a chamar a Josina Machel, a Escola Secundária, de Liceu Salazar, e outras lembranças do tempo em que éramos portugueses.

O apito do árbitro salivou quando soprou com a força de toda a autoridade proclamando, determinando, consagrando, aclamando, decretando o início da partida.

– O futebol não é nada democrático.

O árbitro corria, de apito na boca, policiando se os jogadores não magoavam a bola, os fiscais de linha impunham as suas bandeirolas e o quarto árbitro parecia um agente secreto.

– Estes árbitros, parecem polícias do tempo repressão. Se os jogadores conhecessem a força da democracia, marchavam pelo campo…

Os jogadores atiravam as pernas com ginga de minhocas ansiosas. A bola bailava como as mulheres do bar entre homens, fingindo gostar de ser chutada. Sansão resmungava, crítico. De repente, um dos craques desenrolou o novelo das pernas numa finta inimitável. Soltou-se do emaranhado de jogadores. A bola foi com ele. Ultrapassou o vento e  todos e, quando sentiu que a bola corria mais do que ele, que já não a alcançava, entornou-se para o chão e dramatizou todas as dores do mundo.

– É falta, kenharam!

– Não foi nada. Está a fingir.

O árbitro hesitou, disse “calma” com gestos e foi consultar o vídeo-árbitro.

Mahupeiro! – gritou o Sansão.

As pessoas viraram-se para o Sansão com o sobrolho franzido e um ponto de interrogação pendurado no centro geométrico da testa. Foi como se naquele repente alguém baixasse o volume dos ruídos do bar e, como um controlo remoto, fizesse rodar a pesada maquinaria dos pescoços embriagados, descolando os olhares do écran e pousando-os onde parecia ter saído a voz.

Zé, um magwerre, virou-se para o Sansão:

– O que é um Mahupeiro?

– É um gajo sem vergonha, parasita – Sansão fez fussa de desdém–, que não recua para defender e fica a espera que lhe passem as bolas.

O barman suspendeu o gesto sobre a torneira e deixou os braços suspensos, com meio copo de espuma encostado à torneira.

Mahupeiro por quê, se ele defende e ataca?

– Nao estou a falar disso – apontou para o futebol – estou a falar disto – apontou para o jornal. Os olhos voltaram-se, fez-se um comício à volta do jornal – digam lá se não é mahupe isto. Era notícia sobre os debandados de um partido para outro.

– Andaram o tempo todo num partido, participaram na má gestão do partido, e agora, véspera das eleições, em vez de recuarem para defender, ficam a espera do primeiro partido que lhes passa a bola… não é mahupe político, isto? Não são mahupeiros políticos, estes?

Depois do vídeo-árbitro, o árbitro apontou para penálti. Todo o mundo virou-se para a TV, esfregando ansiedade nas mãos. Quando o craque posicionou-se, em estilo, para marcar, uma frase cortou o silêncio:

– E se na política houvesse vídeo-árbitro?

Sansão estalou os dedos e chamou mais um copo.

O episódio ocorreu no início do mês de Agosto do longínquo ano de 1987. Eu estava na esquina entre as avenidas Amílcar Cabral e Eduardo Mondlane, a engraxar, distraidamente, os meus sapatos, quando, oriundo do nada, o meu bom amigo Manuel Maurício, lançando a sua mão esquerda sobre o meu ombro, proferiu de chofre:

– Morreu a filha do teu amigo!

Aquilo foi um golpe. Filha do meu amigo? Fiquei sobressaltado, aturdido. Estávamos todos na casa dos vinte anos – o Manuel é de Janeiro, eu sou de Fevereiro e o Luís Loforte fizera anos em Junho. Todos somos de 1967. Creio que o Abdul Ussene era mais velho. Foi o primeiro a emigrar para o Paraíso. O Ismael Gulli certamente o mais novo. A que amigo se referia o Manuel? Eu já tinha o pé fora do alcance do engraxador, que me olhava estupefacto. Então, o meu velho companheiro resolveu ser mais claro:

– A filha do Carlos Drummond de Andrade!

E eu exclamei:

– A Maria Julieta!

Eu acompanhara a doença da filha e o sofrimento do poeta. O próprio Drummond já não estava bem de saúde, tinha o coração frágil. Ligava-lhe à vida aquele amor soberano por Maria Julieta. Era filha única. Ela vivera uns anos na Argentina e recordava-me de que isso estivera na origem da viagem que o poeta fizera ao estrangeiro, das pouquíssimas viagens que acedera fazer, pois ele abominava andar de avião. Nem à Bahia fora – havia aquele aforismo famoso: “É preciso escrever um poema sobre a Bahia…/ Mas eu nunca fui lá.” Lembram-se?

Sabia, por conseguinte, que o poeta não resistiria àquela morte. Ao sobressalto da notícia, que era de algum modo esperada, imaginei que o meu amigo não suportaria a insuportável inversão da ordem natural das coisas: sepultar a filha, a sua única filha. É preciso dizer que, à época, não avultavam estes avatares tecnológicos que nos permitem hoje a instantaneidade das notícias. Mas, mesmo assim, eu acompanhava suficientemente aquele drama, à distância, de dias ou mesmo semanas, a despeito não soubera, até àquele choque anunciado pelo Manuel Maurício, do infortúnio de Drummond.

Maria Julieta morreu a 5 de Agosto; o pai, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, não resistiria para além de 12 dias. A 17 de Agosto (passaram 31 anos este mês), o seu coração deixava de bater e com ele o sentimento do mundo: mundo, mundo, vasto mundo.

Nunca me esqueci deste episódio. O Manuel a consolar-me como se tivesse morrido alguém da minha família: na verdade, aquele poeta era uma espécie de um parente muito próximo. Não me recordo de mais nada desse episódio. Leio esta noite o texto precário que redigi, na época, para a “Gazeta” da revista Tempo e fico estarrecido. Para além da prosa juvenil, que é desculpável, ali estava, de forme impressiva, uma paixão incomensurável pelo poeta: eu sabia quase tudo sobre ele. Ganhara, até, alcunha dos amigos: “Drummond”. O epíteto era honroso.

Nascido em Itabira do Mato Dentro a 31 de Outubro de 1902, seria em Minas onde o poeta passaria o importante tempo da infância. Aliás, a casa da infância, o ambiente à volta, não só constituem importantes lembranças, como estão na origem dos poemas que compõem os primeiros livros. O livro de estreia, Alguma Poesia, de 1930, é disso apanágio. Não só com o poema inaugural – “Poema das Sete Faces” – como também com o seguinte: “Infância”.

Carlos Drummond de Andrade: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. // As casas espiam os homens/ que correm atrás de mulheres. / A tarde talvez fosse azul, / não houvesse tantos desejos. // O bonde passa cheio de pernas: / pernas brancas pretas amarelas. / Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. / Porém meus olhos/ não perguntam nada. // O homem atrás do bigode/ é sério, simples e forte. / Quase não conversa. / Tem poucos, raros amigos/ o homem atrás dos óculos e do bigode. // Meu Deus, por que me abandonaste/ se sabias que eu não era Deus/ se sabias que eu era fraco. // Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é meu coração. // Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido com o diabo.”

Citei na íntegra o “Poema das Sete Faces” que tem justamente sete estrofes, um número cabalístico, a forma pela qual inicia a vasta, vastíssima, multifacetada e riquíssima obra de Carlos Drummond de Andrade. Este livro inicial “traduz”, no dizer do poeta, “uma grande inexperiência do sofrimento e da deleitação ingénua com o próprio indivíduo”. No entanto, no seguinte, Brejo das Almas, editado quatro anos depois, então “alguma coisa se compôs, se organizou”, segundo Drummond. Aqui o poeta é tímido, ainda. Inteligente, sem dúvida, extremamente sensível. A tomada de consciência política virá com o livro de 1940, Sentimento do Mundo.

Carlos Drummond de Andrade: “Tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do mundo, / mas estou cheio de escravos, / minhas lembranças escorrem/ e o corpo transige/ na confluência do amor.”

Pertence a Sentimento do Mundo o belíssimo e citadíssimo poema “Mãos dadas.” Apetecia-me citar o poema todo. Mas cito a segunda e última estrofes: “Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, / não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, / não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, / não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. / O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente.”

O livro seguinte, José, de 1942, traz aquele famosíssimo poema: “E agora José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? / e agora, você? / você que é sem nome, / que zomba dos outros, / você que faz versos, / que ama, protesta? / e agora, José?”. Li, li, li este poema. Citei-o. Declamei-o. “E agora, José?”

Outro livro empolgado, talvez o mais empolgante de todos nesta fase, sairia em 1945: A Rosa do Povo. O poeta está perto das pessoas, a linguagem é mais objectiva. Drummond interessa-se não só pela política ou pelas questões sociais. Aqui está um poeta que fala de acontecimentos corriqueiros, coisas banais, ele pratica neste livro, com essas pequenas coisas, a transfiguração poética do quotidiano. Pertence a este livro o poema “Procura da Poesia” que todo o candidato a poeta devia ler. Há neste poema versos luminosos, lapidares: “Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos.” Isto é absolutamente extraordinário. Mas vale a pena citar os versos iniciais do poema. Este poema deve ser lido e estudado. Este e muitos outros. Do mesmo livro, estes versos lapidares do poema “O medo”: “Somos apenas uns homens/ e a natureza traiu-nos.” Retorno, no entanto, a “Procura da poesia”:

Carlos Drummond de Andrade: “Não faças versos sobre acontecimentos. / Não há criação nem morte perante a poesia. / Diante dela, a vida é um sol estático, / não aquece nem ilumina. / As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. / Não faças poesia com o corpo, / esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. (…) Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra/ e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: / Trouxeste a chave?”

Era isto que eu lia, ainda adolescente, exultava ao ler esta poesia e este poeta, de que fazia tanto alarde, junto dos meus amigos. São muitos os poemas que eu conhecia, versos que citava de cor, sabia os dados da sua biografia, a sua vida em Itabira, o colégio Arnaldo, o incidente no Colégio Anchieta de Friburgo que o levou à expulsão, as amizades do colégio Arnaldo com Gustavo Capanema e Afonso Arinos – importantes mais tarde -, o curso de farmácia que nunca exerceria, a vida de professor de português, o cronista Diário de Minas, o casamento com a D. Dolores, o nascimento de Maria Julieta em 1928, o Rio de Janeiro, a chefia do gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, ou a ida para a Directoria do Património Histórico e Artístico Nacional, onde ficará até 1962, quando se aposenta.

Sabia da história daquele poema publicado na “Revista de Antropofagia”, em 1928: “No meio do caminho”. Em “Autobiografia”, no seu livro Confissão de Minas, Drummond deixou dito: “Sou autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928, vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais.” O poema está no livro Alguma Poesia, de 1930.

Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meu do caminho tinha uma pedra. // Nunca me esquecerei desse acontecimento/ na vida de minhas retinas tão fatigadas. / Nunca me esquecerei que no meio do caminho/ tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ no meio do caminho tinha uma pedra.

A lista dos livros de poesia é extensíssima e não caberia aqui onde quero ainda referir-me ao prosador. Tinha lido e amava o cronista e o contista. Começara com Fala, Amendoeira, que reunia crónicas que publicava no Diário de Minas na coluna “Imagens”, que durou 15 anos. O livro saiu em 1957. O poeta tem outros títulos que reúnem crónicas, ensaios, artigos. Anotei então em 1987: “Carlos Drummond de Andrade desenvolveu também a actividade de ensaísta, desdobramento do poeta como acontece nos seus poemas metalinguísticos. Os seus ensaios foram publicados em conjunto com as crónicas em vários livros da sua vasta bibliografia. A crítica considerava-o já nessa altura como sendo um dos poetas mais importantes do Modernismo ao lado de Manuel Bandeira e Mário de Andrade”.

Na Escola de Jornalismo, cruzei-me com um professor brasileiro, que, ao descobrir a minha paixão impenitente pelo poeta itabirano, me deu a conhecer os livros mais recentes, que na altura eu desconhecia de todo: Corpo, de 1984; Amar se Aprende Amando, de 1985. Era um “novo” Drummond para mim. O corpo, o amor corporal, o impudor do corpo, a revelação do corpo. Redijo então na minha prosa juvenil:

“O amor é tema sempre presente nos seus livros. Porquê? Drummond justifica numa entrevista ao jornal brasileiro Leia: “Antes eu tinha uma espécie de medo, era encabulado, provinciano, coisa de pessoa muito tímida, muito secreta. Hoje, ao contrário, a salvação da vida é o amor. Se a gente não levar uma mensagem de amor, alertando para a necessidade de as pessoas cultivarem o sentimento amoroso, não só na escala individual, mas para a humanidade, eu acho realmente que o mundo vai piorar muito, vai acabar se destruindo.”

A “Gazeta”, no seu número 170 da edição de 6 de Setembro de 1987, abria, na sua página de rosto, com um desenho de Sérgio Tique, que representava o poeta. O editor, Gilberto Matusse, acolhera para título uma citação drummondiana: “A salvação da vida é o amor.” Esta noite, ao reler aquele antiquíssimo artigo, com o júbilo de quem não se envergonha nada dos seus vibrantes e ingénuos 20 anos, a esta distância, 30 anos depois, teria, seguramente, dado outro título, igualmente drummondiano: “A salvação do mundo é o amor.”

Quando em Junho de 1988 fui almoçar, pela primeira vez, com a Noémia de Sousa, ganhei de presente 60 Anos de Poesia, antologia organizada por Arnaldo Saraiva, que nos falara do poeta num convívio na AEMO, dois anos antes. Guardo, ciosamente, esse exemplar: “Ao Nelson Saúte. Recordação de uma feijoada de amigos jovens e “mais velhos” em Algés. Da tia Noémia de Sousa. 26/6/88.” Em Setembro de 1996, Conceição Osório, que fora minha professora na UEM, na minha rápida passagem pelo curso de História, nos anos 80, trouxe-me, anos depois, de uma viagem do Brasil, Farewell, do Drummond: “Para o Nelson poeta, a inspiração de Carlos Drummond de Andrade.” Isto é de uma grande generosidade. Comovo-me com a generosidade dos amigos. No caso, neste caso, das minhas amigas. Mais recentemente, ganhei, de Rita Chaves, a edição crítica Poesia 1930-62, com mais de 1000 páginas, e Os 25 Poemas da Triste Alegria, duas belíssimas edições da Cosacnaify, editora que, entretanto desapareceu. Para além disso, tenho em minhas estantes antologias e títulos repetidos. Provavelmente, é o poeta que mais bibliografia detenho.

Para além do longo artigo da Tempo, fui convidado, pela vetusta TVE (predecessora da TVM), a dissertar, naquela circunstância, sobre o poeta que desaparecia. Onde eu arranjava semelhante desenvoltura, aos 20 anos, para tal empreitada? Não sei. A esta distância, estou inclinado a pensar que os meus amigos deviam achar-me um chato com as minhas obsessões literárias, entre as quais figurava o nome ínclito de Carlos Drummond de Andrade.

Com os anos ou deixámo-nos de nos ver com frequência ou eu tornei menos explícita a minha impunida paixão pelo poeta brasileiro. Redijo hoje este texto de evocação – ao poeta itabirano, mas sobretudo à nossa juventude presidida pelo inarredável amor aos livros –  para dizer ao Manuel Maurício e a todos os meus companheiros de sempre, que continuo a ler, com espanto e júbilo, o meu velho, indefectível e dilecto amigo Carlos Drummond de Andrade. 

(Parte I)

                                        

O sorriso dói a tanta gente… vento e água não têm o mesmo peso.

Lica Sebastião, in O AVESSO DAS PALAVRAS

Ao DINO FOI,

O Agitador de Ideias!

Querido Dino Foi!

Assim que não consigo falar contigo decidi escrever. Não vou perder o meu rico tempo a dizer «bom dia», «boa tarde» ou talvez «boa noite» porque o meu desejo é saudar-te com um beijinho, à nossa maneira, de comadre para compadre. Bem sei que andas por aí pelo mundo. Nunca se sabe se estás em Moçambique ou se estás fora do país. Até as minhas fontes suspeitam que andas por aí, a fugir de mim. Pouco importa se onde estás faz frio ou calor. Se é madrugada ou se estás agora mesmo a curtir a sombra da uma tarde qualquer.

És uma pessoa muito tímida para enfrentares o espanto que sou, sei bem disso. E como não atendes aos meus bipes, arrisquei e aqui me tens neste papel. Quase ias tendo sorte. Por ironia do destino as minhas contas decidiram piscar o alerta vermelho e recorri a uma amiga que me safou com megas. Sou uma sobrevivente de um barco encalhado. Bebi a poeira do destino e mastiguei as ondas do mar. Sou uma mulher de armas, até o medo tem medo de mim, tal como a escuridão detesta o Sol. Ando a caçar-te no facebook, mas como andas armado em bom não me ligas nenhuma. Hoje encontrei uma saída. Esta carta vai resolver todos os meus problemas. Primeiro quero dizer-te que ando a ler tudo que escreves no teu mural sobre a única filha da minha mãe. Acompanho o que essa tua fila de gajas diz sobre mim. E até pensam que são as sortudas do teu quintal. Umas afivelam com «likes» e aqueles bonecos, dançando, fazendo caretas, rindo dos meus dentes e outras coisas que não é correcto aqui falar. Se eu dissesse tudo que penso delas poderia estragar a minha caligrafia e o meu latim soletrado.

Compadre Dino,

A minha preocupação não sou eu. O Viriato é que me faz escrever-te. Não sei se ainda te lembras dele. Viriato é aos olhos de muitos um maluco, um indigente avulso numa rua esquecida do mundo. Mas para mim é um irmão, um homem de Deus que foi traído pela sorte. Esta vida anda de um jeito que a gente já não sabe se está a acertar quando pratica o bem, ou se estamos a alugar uma desgraça paga com retroactivos. Maigode!

Encontrei o Viriato na rua dos segredos, onde ele construíu uma casa de pano e papel. Viriato estava bem-disposto, cantando «Drop The Pilot» de Joan Armatrading usando um pau no lugar da guitarra e abanando a cabeça ao sabor da música. Pano e papel eram os materiais que usávamos para construir as casas com que sonhávamos na infância. E o Viriato queria ser Piloto. E eu sempre sonhei ser professora. Mas a vida é uma tábua de xadrez como diz o músico Chico António.

 O comandante Viriato Xicomo disse-me que te conheceu no Zimbábwe nos teus tempos de estudante. Viriato estava numa formação militar. Ele falou-me das vossas noitadas em Harare. Fica tranquilo, compadre não vou revelar a ninguém a parte boa das vossas aventuras, assim de qualquer maneira. Mesmo que me prometam montões de dinheiro. Ainda sou amiga dos meus fãs. E tu és dos mais dedicados, Dino. É só te lembrares que não passas uma semana sem tocares no meu nome. No próximo post trata-me por Jô. Quero sentir-me nas nuvens, como a campeã dos 100 e 200 metros dos jogos Olímpicos de Seul 88.

Voltando ao mais importante, o Viriato vive na rua há cinco anos, desde que foi abandonado pela mulher e os filhos. Como diria o doutor Pescoço, o Viriato confiou nas pedras do caminho e no campim à volta que as esconde. Longe de pensar que o Trigo amigo e colega estava feito com a mulher do Viriato. Flagrou-lhes tarde, mas a tempo de pegar no casaco e meter-se na rua. Ainda bem que ele não pegou na arma. Imagino o que ele teria feito. Mas o filho evitou males maiores à família Xicomo. Como disse antes, o Viriato montou a sua casa na rua e junto da parede onde ele montou a casa de pano e papel escreveu a preto É PROIBIDO MIJAR AQUI. MULTA MIL METICAIS.

Naquela tarde aproveitei o bom humor do nosso amigo e levei-o ao cala a boca, num ambiente descontraído para ele ter espaço para revelar-me coisas da sua vida. O Viriato ainda alimenta o sonho de regressar aos bancos da escola para concluir o nível médio e depois candidatar-se ao curso de Direito. É uma promessa que ele fez à mãe que está em Mapai. Naquela tarde o Viriato estava tão animado, até os serventes do restaurante olharam para ele de queixo-caído. Eles não estavam a reconhecer o mendigo que desdenharam horas antes ao passar pela esburacada rua dos segredos.

Sei que és um homem de bem, Dino. E saberás ajudar a reabilitar o sonho de um amigo. É só ligares para mim.

                                                      Um beijinho, compadre!

Joaquina

Magoanine, 10 de Julho de 2018

 

Raffael Inguane ou simplesmente Piripiri Sakana lançou em Setembro do ano passado, um verdadeiro hino carnal de celebração a Afrodite. Trata-se dum hino que quando condensado e lido sem nenhuma respiração vira um livro; o hino em forma de livro, Raffa, chamou-o de “Sexo & Grafia”.

“Sexo & Grafia” constitui um refinamento a nível estético, sexual e de prazer de um poeta que se estreou em 2013 com “Cartas Para Uma Cabocla”. Depois de se ler o livro de Raffa pode-se ficar com a impressão de que ele tem um olhar prazerosamente sexual e esteticamente movido por uma tendência erótica elevada ao infinito. Ter-se essa impressão depois de se ler esse livro é um puro engano dos sentidos ou sentimentos. O erro de interpretação é mais insensato quando ocorre nos sentimentos. Aliás, os sentimentos nunca precisaram de interpretações; senti-los é tudo.

“Sexo & Grafia” é um inventário onde não há espaço para impressões e tendências. É um livro nu que caminha nas ruas das suas próprias páginas sem esconder a mínima parte íntima da escrita. É um livro que conjuga o prazer, o sexo, a poeticidade bem medida, o erotismo que incha de desejos cada página e tudo isso é consumado por um instinto profundo de amor que o autor possui pelas mulheres.

“A loucura é um empréstimo de liberdade” diz ele numa das estrofes desse hino. Talvez essa devia ser a citação de abertura do livro; a fechadura, da primeira página, onde o leitor meteria a chave do seu dedo indicador, bem molhado de saliva, e abrir o livro. A loucura. Voltemos a Erasmo de Rotterdam e recordemo-nos do que ele nos disse em “Moriae Encomium” (Elogio da Loucura); para Erasmo a loucura é um bem da sociedade. A sociedade vive em constantes enganos recíprocos porque pouco troca o calmante mel da loucura. E Raffa assim pensa, por isso vê a loucura como um empréstimo. E sendo um empréstimo prefere geri-lo através da economia do verso e cambiando-o constantemente pela moeda do prazer carnal e nocturno. Os loucos são os animais mais felizes.

Recordo-me que aquando do lançamento do livro fui convidado para apresentá-lo ao público, todavia tive uma loucura insuficiente para participar por conta de alguns desprazeres sociais e pessoais. Mas, confesso, neste instante, que a cada dia que leio o livro dá-me a impressão de estar a apresentá-lo a um público muito extenso: eu e eu.

“Sexo & Grafia” é um verdadeiro hino carnal de celebração a Afrodite. Afrodite! Aquela deusa que os romanos roubaram dos gregos e chamaram-na de Vénus. Afrodite era a deusa do amor, do sexo e uma das mais poderosas divindades do Olimpo. A deusa que amenizava os corações dos homens e, também, enlouquecia-os sempre. Versos como “hoje eu quero aumentar lenha no teu fogo” ou “adubar-te com beijos e amassar-te toda” mostram-nos que Raffa tece em cada página do seu livro um hino carnal e conciso a Afrodite. Raffa na primeira parte do livro (Sexo) mostra-nos que não é amigo da sensatez sexual e na segunda (Grafia) não esconde que é padroeiro dos amantes. Eis um outro traço que nos mostra que Raffa se inspirou, como aqueles poetas, pintores e escultores antigos, na Afrodite. Afrodite era conhecida por ser amiga dos amantes, mas inimiga da sensatez.

As pinturas que acompanham o hino servem de bandeiras gemidos. São pinturas que se içam e levantam em cada poema. “Sexo & Grafia” é um hino a Afrodite porque procura em cada página mergulhar na doçura dos apaixonados, destapar a languidez dos desejos e despir o idílio da entrega dos copros. Para entoar esse hino, a Afrodite, é preciso estar com a alma possuída por “moria”, a loucura extrema dos gregos antigos porque esse cântico constitui um com comércio triangular dos “S”: sexo – sociedade – simplicidade.

 

Em condições normais, a inauguração do segundo maior estádio desportivo do país, pós-Independência, mesmo que num distrito, deveria merecer a presença do Chefe de Estado. Porém, compreender-se-ia que caso a sua agenda não o permitisse, o Primeiro-Ministro faria as honras da casa. Mas tal não aconteceu. A representação passou para o Governador da Província.

Como é que os desportistas deverão ler a mensagem? Será por ser de fora da capital e da iniciativa de um município que não o do Partido no poder?

Mas as coisas não só ficaram por aqui. É que o Ministério da Juventude e Desportos, de tão atarefado(?), também não se fez representar, nem pela Ministra, Vice-Ministra ou mesmo Director-Nacional.

A estrutura central do Desporto, delegou a presença através do Director Provincial.

A pergunta pertinente é: “a dôr de cotovelo” que resultou num cartão vermelho, do partidão vermelho, terá pesado mais do que a maravilhosa iniciativa do Município da Beira?

ATÉ PORQUE…

“Consta do Plano Quinquenal do Governo, orgulha os desportistas beirenses e de todo o país” – referiu Alberto Mondlane, o governador da Província de Sofala, na inauguração.

Em que ficamos então, pois estamos a falar de um Estádio, concebido sob todas as normas e exigências internacionais, transportando consigo a virtude de estar inserido numa zona que garante a utilização pelos citadinos, mas também de jogos internacionais?

O novo “caldeirão do Chiveve”, aparece como um esforço para servir TODOS os desportistas do país, tentando ressarci-los do desaparecimento de inúmeros campos, sucessivamente “bisnados” a favor de bolsos sabe-se-lá de quem. A iniciativa do CMCB é uma obra que deve servir de exemplo para outros municípios.

Mas a mensagem que ficou da cerimónia em referência é a de que estamos em presença de um chivevezito de Daviz Simango, para satisfazer o seu ego e angariar votos. Aliás, o cartão amarelo já havia sido dado pela bancada da Frelimo na Beira, que referiu que se dependesse dela, nunca o país se iria beneficiar daquela obra!

 

Sonhei com o Dia do Perdão Nacional

Sonhei…  Sonhei que, no meio do impasse político, os líderes do país decidiram declarar um Dia Nacional de Oração e Perdão. Não era feriado. Era

A viagem da alma

Sinto que a minha alma está a sair de mim. Mas eu estarei sempre aqui, mesmo sabendo que carrego a escassez de emoções e pensamentos

+ LIDAS

Siga nos