O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

Não se conhece na íntegra, os termos dos contratos que as empresas Ematum, MAM e Proindicus estabeleceram com os bancos Credit Suisse e VTB em relação aos créditos contraídos. Todavia, sabe-se, em virtude de circulação de alguns extractos de tais contratos, de um facto curioso e preocupante referente a cláusula “cross default” que significa que em caso de as empresas acima indicadas falharem o pagamento da dívida ou caso o Estado moçambicano não pague na qualidade de avalista de acordo com o plano de amortização estabelecido, os referidos bancos terão o direito de acionar (executar) imediatamente as garantias.

O mesmo que dizer que podem executar o património do Estado moçambicano onde quer que esteja e a qualquer momento em face do incumprimento contratual. O ter sido aceite esta cláusula e que obedece ao regime britânico no âmbito dos contratos estabelecidos, coloca o Estado moçambicano numa situação critica e vulnerável, pois, tudo pode acontecer a qualquer momento e, se ainda não aconteceu, é porque ainda há confusão e muita semântica em volta dos contornos das dívidas contraídas.

A verdade é que a dívida está consolidada e o Estado moçambicano permanece como garante da mesma e os bancos estão a aguardar para receber de volta o dinheiro que mutuaram.

Do ponto de vista jurídico, os referidos contratos são válidos, havendo, no entanto que analisar a sua efectividade, tendo em conta os factos supervenientes e que colocam os referidos bancos também na rota de colisão jurídica em face do que se reporta quanto ao comportamento censurável dos seus funcionários e que estiveram envolvidos na tramitação dos processos que deram lugar aos desembolsos dos valores mutuados.

Neste processo, a Provinvest não pode escapar, por ser a empresa promotora e implementadora dos projectos e que se beneficiou em grande medida do calote. Ora, não se pretende aqui corrigir o contrato de mútuo já existente quanto a tal cláusula maldita, mas sim, chamar a atenção para os nossos dirigentes e aqueles que aconselham o Governo e o Estado e negoceiam em nome destes, que no futuro se devem lembrar antes de tudo que o Estado moçambicano é soberano e não pode aceitar que lhe cerceiem a sua soberania.

Não se negoceia a soberania de um Estado. Sabe-se agora, que afinal, através dos funcionários dos bancos mutuantes, foram usados vários esquemas diabólicos no sentido de se tirar ganhos ilícitos em detrimento das empresas mutuadas e do Estado moçambicano. Então, estavam consciente de que colocando a cláusula cross default apanhariam o Estado moçambicano em contrapé.

Não se pode aceitar que o financiador coloque tal cláusula e ao mesmo tempo crie, através dos seus funcionários (estes, seus comissários) esquemas de endividamento e falcatruas por forma a dificultar o cumprimento da obrigação por parte das empresas mutuadas e do Estado como avalista. Compulsada agora a abundante informação sobre o assunto das dívidas, está claro que existiam dúvidas quanto à capacidade de reembolso por parte das empresas mutuadas, o que significa que os funcionários de tais bancos sabiam disso à partida.

Por que razão, então, empolaram valores em projectos inviáveis? Impõe-se, por isso, a “boa fé” in contrahendo”, no sentido de que os bancos permitam que o Estado moçambicano respire e se agende um momento apropriado para a negociação da dívida. Além disso, e sem pretender-se aqui devagar sobre teorias jurídicas, pode-se invocar a alteração de circunstâncias e que se fundam na essencialidade e imprevisibilidade e que traduzem uma alteração anormal das condições contratadas.

Será que os que estão a analisar oficialmente este assunto podem explorar a possibilidade de se invocar a cláusula Rebus sic stantibus, segundo a qual deveria subentender-se nos contratos de mútuo que deram lugar as dívidas de que se fala, a implícita condição de somente valerem enquanto se mantiverem inalteradas as circunstâncias em que os mesmos foram estabelecidos?

Não se pretende com isso furtar-se da máxima pacta sunt servanda, fiel ao princípio de cumprimento contratual e que colocaria Moçambique na linha dos que honram os seus compromissos. Em caso de dificuldades financeiras para honrar os compromissos provocados pelas dívidas, certamente que Moçambique poderá recorrer aos seus parceiros de cooperação e instituições financeiras internacionais, a fim de obter apoio para suprir a dívida. Até porque teria, também, a oportunidade de estudar e decidir qual o destino a dar aos activos criados pelas dívidas criadas.

É um facto inegável que o País está amarrado à dívida pelas garantias emitidas, mas também precisa de aprofundar o conhecimento real sobre o que aconteceu e está a acontecer em relação às empresas Ematum MAM e Proindicus, pois, e, como se tem também difundido elas não estão a operar. Também, há que colocar na linha de batalha judicial caso se provem os factos ilícitos, os bancos que concederam os créditos, os seus funcionários e os cidadãos moçambicanos que engendraram o esquema que deu lugar às malditas dívidas. Enquanto isso, maldita cláusula cross default.         

 

 

Algumas vozes femininas na poesia moçambicana do século XXI (cont.)    
 
Tânia Tomé nasceu em Maputo em 1981 e publicou Agarra­?me O Sol por trás (2010, Índico Editores). Em 2008, realiza e produz o espetáculo “Poesia em Moçambique”, em tributo a José Craveirinha, onde todas as artes interagem para tornar vivo o poema. Introduz o conceito de Showesia (neologismo criado por ela), actuação com que faz espetáculo de poesia com uma banda de músicos, ao lado da qual Tânia canta e recita poemas, havendo dramatização da poesia, dança da poesia, entre outras componentes. Em 2009, lança o primeiro DVD de poesia em Moçambique, com base no espetáculo “Poesia em Moçambique”. Em seguida, lança oficialmente a página web www.showesia.com.

Talvez esta partilha entre escrita e oralidade/música/ encenação/actuação revele também um dos traços originais da escrita da poesia feminina moçambicana actual. Lembro outra recente voz ligada à música, de uma outra forma, Melita Matsinhe, de quem falarei noutra ocasião. Com efeito os poemas de Tânia Tomé oscilam entre a vontade do canto e a consciência da escrita numa desenvoltura criativa inesperada. O sentido da representação temática dilui­?se na força das imagens e na força de uma voz que se procura.
O seu primeiro livro surge com aparato gráfico inovador e os poemas terminam com o título no final em letras maiusculadas. Vejamos o início do poema de abertura:

Um murmúrio de vozes em uníssono no meio da noite desperta­?me,/os espíritos makwas kimoenes./E o sonho meio sonâmbulo desata­?se­?me: /escorro numa chuva de pálpebras, uma estrela azul e luminosa/ criva­?me/ o peito./Grilos, uma orquestra, trilo na sombra./ É Deus/ que fecha os olhos na cor do espanto/ para te ver? (11)

A força enunciativa desta voz feminina é plena de energia e os poemas, ora longos, com uma e duas páginas, ora mais curtos, parecem procurar esse lugar de origem em que a música se cruza com a palavra, e se desfaz e refaz nela: “Meu poema infinito/ Meu poema infinito/ tu escreves­?me tão bem:/esse amor todo nos teus dedos/ escrevive­?me exactamente/ como me sonhei // POEMIM” (41).

Simultaneidade na erotização do som/música e do corpo do sujeito lírico: “E tu comigo, cá dentro, lá fora/ amando­?me na medida do ritmo/ de um jazz cálido frenético./ Abraço do Índico, o piano/ atravessa as fronteiras que nos distam,/ recria o sopro do teu sax/ no meu corpo” (48).

No poema Poesia tu és o meu canto ou no poema Showesia –Poema vivo, notamos essa celebração do poema palavra que se desentranha do corpo, se mostra e canta, ganhando voz e quase autonomia:

(…) E dentro das palavras há melodia, dependurando­?se sobre as arestas do verso/e dançando os murmúrios constantes dos voos das aves//E o poema ganha rosto:/ uma árvores cheia de cabelos ao vento como teias de aranha/onde nos pés das raízes habitam os sarcófagos diversos no húmus da loucura/ E onde as mãos de asas são janelas/ por onde as pupilas escancaram o mundo entre os dedos// SHOWESIA –POEMA VIVO (17).

A sensualidade percorre a escrita/corpo e o som numa fusão quase total; somos surpreendidos por uma poesia que quer sair da página e ser som, e por um corpo que se quer transmutado em poema, enfim, uma procura da totalidade do som corporificada: “E como sou/onde me toca baixo/no nó que dá a carne/quando tem futuro/ no parto de um poema,/sob este rosto em mar vermelho/ onde redonda/diviso nas raízes as estrelas/ – ah, bendita a hora da posse! ARDO” (51).

A poesia de Tânia Tomé desvela uma dicção erótica e sinestésica, em que a reflexão sobre o fazer poético se revela sintonizada como desejo de entrega ao amor: “Não me salves, selva­?me” (17). Simultaneidade na erotização do som e do corpo do sujeito lírico: “E tu comigo, cá dentro, lá fora/ amando­?me na medida do ritmo/ de um jazz cálido frenético./ Abraço do Índico, o piano/ atravessa as fronteiras que nos distam,/ recria o sopro do teu sax/ no meu corpo” (48).

A poesia, oscilando entre palavra escrita e som musical, nasce do e com o entusiamo de um sujeito, que se descobre, também nascente, nela: “e não me perguntes/ quem é esta mulher/ que cresce comigo/ nas raízes profundas/ da flor do meu corpo” (30).

O segundo livro da autora, intitulado Conversas com a Sombra, (Showesia, 2011),  é um pouco diferente do primeiro. Junta a fotografia a uma escrita de registo dramático; o livro lê­?se entremeado de fotos de raízes de árvores antigas, é um cântico, unitário, em trinta e dois fragmentos, que começa por perguntar: “Quem serei do que fui? Olhava à volta. E o algodão/crescia­?me na carne, depressa como água/ na areia, como o sol esquenta na palhota/ da minha vida. Onde eu me exilei, eu/com mais meu futuro por vir.”

M’bique, abreviatura de Moçambique, é a figura (nação, mátria, mulher?) que motiva o longo poema que se estende, ora como exortação, ora num fluir reflexivo, que se alimenta do diálogo e da interpelação:
 
M’bique? Sim é a Moça da minha vida.
Sabor de cacana. Sabor amargo, mas que faz bem à alma,
cura­?me de mim, aquela dor de ser. (10)
(…)
Ah M’bique, falar dela é a emoção mais completa
que vibra no alto. No alto do grito.
No alto da estrela. Dentro.
Eu nasci com ela com todo meu acredito. (14)
 
       Escrito no feminino, em torno de uma biografia desejada e arquetípica, nascer, renascer, tornar o país mulher encanto, natureza gestante, recuperação do sonho, este longo poema mostra uma fusão entre a voz da lírica e narrativa, entre o singular e o plural do corpo social do país, em que o corpo feminino da nação e  da poeta  se sintonizam com os elementos naturais; os desejos de descoberta de sentimentos individuais e colectivos coincidem numa ligação e partilhas íntimas: “Quando eu conheci M’bique, eu nem apercebi. Vinha enredada em capulanas, até no rosto, as capulanas, como gaze. Nas suas mãos brilhavam inteiras as sementes. E éramos tantos, todos as desejávamos como fruta despida para comer. Desejando­?a em caroço para a ver”(42).

Um único poema-livro, organizado entre imagem e voz. Uma voz oral, dramatizada, que ganha presença e encenação. Um livro bastante diferente do primeiro. Que merece uma leitura mais demorada. Esta segunda obra é nitidamente mais discursiva do que Agarra­?me o Sol por Detrás, permeada de incursões narrativas, apresenta­?se com um fluxo mais dramático, interpelativo, mais reflexivo, numa palavra, um livro em que a lírica se recompõe em dramática escrita. Aguardamos outros livros….
Emmy Xyx, a desconstrução dos sentidos

Emmy Xyx, pseudónimo de Manuela Xavier, nasceu em Vila Coutinho, actual Ulóngwé na província de Tete em 1958. Publicou, entre outras, Espelho (prosa 2011), Contar Ser Gregos (2012), De Sol acções a Sol unções (2013) e Escritas na Mão do Mar à Ria (2015).

A poesia desta autora desafia o leitor pela sua aparente ausência de sentido. Fortemente moralizante e crítica, por vezes chegando ao descrédito de ser escrita, vive da desconstrução das palavras e dos significados. Mostra na sua herança literária alguns dos procedimentos retóricos que caracterizam a produção de Grabato Dias e de Filimone Meigos.

Alguns poemas mais longos, outros bem mais curtos, encenam proverbialidade e talvez até uma moral e, mesmo assim, também a desconstroem. A crítica é sobre os comportamentos femininos, sobre as emoções, sobre a corrupção social, económica e política. Erres de heróis: “Os erres dos heróis são apagados?/Os erres são livres de ficar?/Quantos erres tem o vento?/Quantos ventos tem o mar?” (32).

Manuela Xavier encena uma espécie de anti­?lirismo da sua escrita na procura de sentido numa sociedade e humanidade que não o têm. Assim os símbolos poéticos como a cotovia e a lua perdem­?se no novelo da serpente e na moeda de compra dos amores:

Cotovia: Fugida do inverno acústico/a cotovia/ acotovela a vizinha./ Serpentes em violoncelo/ esperneiam vozes/ que se espezinham. (17)
Frases da lua: Fazes da lua/tua amante/ cheia de novas faces/ as frases da lua endoidecem/ quem escuta/ num quarto/ crescem promessas/ noutro/ mínguam diamantes…(16)

Chama ardente: Acende esta ardente chama/ da união aquecida/ ao baptismo que clama/ a verdura pretendida.// Entre labaredas crescentes/ o laranja actua/ querendo livremente/ atingir a lua. (5)

O cepticismo da poeta implica a anulação de uma sintaxe racional, em que o sentido se ordena na frase, ou a mostra de um verso que produz “verdades”. Leia­?se nesta perspectiva o poema Degrau a Degrau:

Línguas coladas em reboco/ cimentam poisos articulados/ dívidas perdidas em cocos/ assumem dizeres em quaisquer lados.// E assim caminha a história/ de vontades, aspirações e crueldades/degrau a grau sobre a glória/ despida de consumos e de ver tardes. (27).

O que a poeta procura demonstrar nos seus livros é que a hipocrisia social e o lugar dos sonhos e das utopias é uma ficção sem sentido. Desta forma o desregramento das palavras, que se procuram numa irmandade rimática e aliterante, exibem a teatralidade da escrita, cujo sentido se esboroa, em cantantes sonoridades. Contar ser gregos:

Contar um dia ser gregos/ Contar segredos infinitos/ um por um, viver do rego/ em chuva de meteoritos// A gregória vem sem glória/ nesta quinta categoria/ contar ser gregos ou contar a história/ fica­?se nesta alegoria// Ser grego quem conta sem medo?/ Conta em que canto a saia curta?/ Consta que santo perdeu e cedo/ segrega ao poente a gula fruta.// Crer segredos /impôr degredos/ comungar de gregos/ desencontrar medos/ desapontar dedos/ segregar toledos/ contar cem gregos. (24).

Manuela Xavier usa a língua retirando­?lhe o poder organizacional, desmontando­?a e brincando ludicamente com ela como se fosse um puzzle, sem formas/ significados definidos, mas volvendo significante, som em formulação, em desconcerto. O leitor pergunta­?se, o que quer dizer esta escrita? Humor, distopia crítica, desarticulação dos sentidos, lúdica procura?
 
Entre Dedos: Entre dedos me passa o vento/ entre os lábios a frase se corta/ pela suavidade do convento/ a frase apareceu morta.// Se disse alegre pelo destino/ liberdade conquistada/ mata­?se a morte de um menino/ p’ra dar vida ao fim da estrada? (44)

Versos: Versos clonados/ esperam sua vez/ abominados pela sensatez (37).
Minha Estória: Minha estória entreguei/ ao mar ondulante/ o fato desarma o rei/ que conte a qualquer navegante! (42)
Milagre: Está o mundo a escancarar/ por instantes/ acorda o defunto/ do tubo de escape/ ventres se abrem/ por toques rasgantes/ dá­?se o milagre: mundos sonantes” (31)

Mas em um ou outro poema de Emmy Xyx espreitam a esperança e a harmonia do sentido, como neste  poema intitulado Chama Ardente, em que a cor do fogo parece reacender a pálida presença de uma lírica lua, desacreditada:  “Acende esta ardente chama/ da união aquecida/ ao baptismo que clama/ a verdura pretendida.// Entre labaredas crescentes/ o laranja actua/ querendo livremente/ atingir a lua.” (5).

A pátria foi vendida ou não?
“Um ambicioso é capaz de tudo;
Vender a pátria só por causa da
sua ambição e dos seus interesses individuais;
Não sei se um ambicioso muda;
A minha experiência prova que não;
Muda de táctica, mas não elimina a ambição;
Um ambicioso é criminoso ao mesmo tempo”
 – in Samora Machel

Francis Fukuyama, no seu livro “O fim da História e o Último Homem”, escreve numa das passagens que “Não existe democracia sem democratas, isto é, sem um Homem especificamente Democrático, que deseja e molda a democracia ao mesmo tempo que é moldado por ela”. O autor quis dizer em outras palavras que para defender algo é preciso que se identifique com esse algo e se deixe moldar pelos princípios do que se está a defender.

Esta introdução é a melhor ponte que encontrei para problematizar a distância entre o discurso e a prática durante os 10 anos do período de governação do Presidente Armando Guebuza. Penso que a memória colectiva ainda está fresca e qualquer um se lembra que uma das bandeiras nos seus dois mandatos foi a luta contra a corrupção e o combate ao “deixa andar”.

Acontece que a questão das dívidas ocultas, aliado ao manancial de informação que está a chegar ao grande público com as detenções de altas individualidades do seu governo, teve um efeito “boomerang” e destruiu por completo a mensagem que tentou nos passar durante o período em que foi Presidente da República.

Um ex-ministro das Finanças detido no estrangeiro por mandato do país mais poderoso do mundo, implicado em subornos na contratação das dívidas ilegais (e outros crimes que não me interessam nesta análise); ter altos dirigentes dos serviços secretos detidos acusados de terem burlado o Estado; ter uma secretária particular e o filho mais velho detidos no mesmo processo, ter um ministro dos Transportes e Comunicações a ser julgado por corrupção em negócios de empresas participadas pelo Estado, acho que isto é bastante para eu acreditar que o combate à corrupção era um discurso fabricado para intoxicar as massas, quando nas hostes privadas a realidade era outra. “Os cabritos continuavam a comer onde estavam amarrados”.

Em bom rigor do Direito, só o juiz pode em sede do Tribunal julgar e condenar alguém com os devidos fundamentos da sua decisão, mas a avaliar pela quantidade e qualidade dos arguidos no processo das dívidas ocultas, há matéria suficiente para, à esfera pública, fazermos questionamentos sem, no entanto, pôr em causa o direito constitucional de presunção de inocência de que gozam essas pessoas.

A ética pública não se compadece com interesses individuais. Para fundamentar isso não preciso recorrer a teorias defendidas por filósofos clássicos. Aqui em Moçambique, temos a nossa referência quando se fala de combate à corrupção: Samora Machel!

Durante a Luta Armada de Libertação Nacional, bem como na Primeira República por si dirigida por 10 anos colocou o povo como a causa do “lutar por Moçambique”. Dizia que os dirigentes são os primeiros no sacrifício e os últimos no benefício.

Opôs-se ao uso do Estado como estratégia para a acumulação privada de riqueza. Morreu há 33 anos e nunca ouvimos algo que contrariasse o seu discurso. Muito pelo contrário, diz-se por ai que Samora Machel morreu pobre. Os seus ministros, os que ainda estão vivos, andam à vontade, sem medo das suas sombras.

Em 2016, o Centro de Integridade Pública lançou um estudo intitulado “Os custos da Corrupção para a Economia de Moçambique”, tendo concluído que “O valor agregado dos custos de corrupção (representados na amostra), durante o período de 2002 a 2014, a preços correntes, é de USD 4.8 a 4.9 biliões, equivalentes a cerca de 30% do PIB de 2014. Esta percentagem encontra-se bem acima da média de todos os países africanos citados na secção 1. Isso significa que, em média, durante o período coberto pela amostra, o dano anual é de aproximadamente USD 500 milhões por ano.” Isto é avassalador para um regime que dizia lutar contra a corrupção.

Agora já sabemos que os 2,2 mil milhões de dólares das dívidas ilegais contratadas pelo governo do Presidente Guebuza foram retalhados por um grupinho para o pagamento de subornos a altas individualidades do seu governo, isso o relatório da Kroll deixou claro. Sem ignorar a sobrefacturação na compra de barcos da EMATUM e do armamento para o Exército.

Não me parece crível que o Presidente Guebuza não sabia que seus ministros e dirigentes dos Serviços de Informação e Segurança do Estado estavam envolvidos em esquemas de corrupção. O mais provável é que enquanto essas práticas brotavam e floresciam, por outro lado financiava-se os chamados G-40 para ganharem peito para embebedarem as massas com debates de defesa do sistema, exaltando a pátria do gangsterismo. Esses senhores também deviam ser julgados e condenados por terem usado meios electrónicos para enganar os moçambicanos.  

Mas o fruto quando está maduro cai por si, diz o ditado popular. E não há mal que dure para sempre. Por isso, associo-me a Jeremias Langa que no último Linha Aberta na Stv disse que, contrariamente ao sentimento generalizado, acredita na Justiça.

Até porque o nosso hino nacional nos conforta: “milhões de braços, uma só força, óh pátria amada vamos vencer”!

Verdade, porém, é que às vezes essa força escasseia-me quando leio que as receitas de um gás que ainda nem começou a ser explorado no Rovuma poderão ser usadas para o pagamento desse dinheiro, no lugar de financiar o desenvolvimento deste empobrecido Moçambique.

Olhando para a esperança de vida que não me dá mais de 56 anos, sinto pena das minhas filhas que terão um futuro penhorado por conta do pagamento de uma dívida da pátria que lhes pariu. O ministro da Economia e Finanças esclareceu há dias que o governo vai continuar a negociar com os credores as modalidades de pagamento. Isso deixa evidente que a pátria foi vendida, por…A(lguém).

 

Dentre vários pressupostos, a coragem é imprescindível para ser um ateu. A condição do ateu é mais do que a de um filho que ousa viver livre das rédeas do seu pai, pois pelo menos este filho aceita a existência do seu progenitor, mesmo buscando a sua independência.

Um ateu é um indivíduo que não só se rebela contra o controlo de um suposto pai como também não lhe reconhece a sua existência. Sendo assim, ele e mais ninguém assume a responsabilidade por todas as vicissitudes da vida. As dores e os prazeres do mundo são compartilhados e suportados entre indivíduos ateus sem mediação dos seres sobrenaturais. Nem Deus nem o diabo tomam responsabilidade pelas coisas que acontecem ao homem, quando o mundo é só dos ateus.

O desafio que se coloca perante estes homens está em eles serem seus próprios anjos e demónios, cientes de que a degeneração ou regeneração do mundo está em total dependência dos seus actos. Querendo, eles podem ser fabricadores do seu próprio paraíso, do seu próprio inferno ou do seu próprio apocalipse. Eles têm a chave que escapou entre os dedos de um deus inexistente. A escolha é, ao mesmo tempo, tão livre quanto pesada, pois toda a sua sustentabilidade obriga exclusivamente a força humana.

A reza de um ateu não é de quem pede que seja feita a Sua vontade, mas de quem deseja que o seu plano se concretize, tendo em conta que o seu sucesso e fracasso recaem sobre ele e sobre outros homens que coabitam o mesmo espaço. Quando se tem de pensar como um ateu, uma das questões sérias a considerar é “como seria o mundo, se os homens tivessem de viver entre eles sem nenhuma influência sobrenatural em suas vidas?” a resposta é dependente do tipo do compromisso que o homem ateu mantiver com o mundo. Se o compromisso for de instrumentalizar o mundo para satisfação do seu ego, então os homens estarão num mundo aos cuidados de um ateu nihilista.

E o que acontece com um ateu nihilista é que a sua responsabilidade para com o mundo é tudo menos moral. Um mundo sem princípios morais é um mundo que se projecta além do bem e do mal. Sendo assim, o que pode haver entre homens é um retrocesso ao estado natural onde a lei da força e o despotismo imperam as relações humanas. Mas, doutro lado, se houver um compromisso de reeducar o mundo na base dos princípios da razão, os homens estarão a construir uma era neo-iluminista cujos representantes são ateus humanistas – aqueles que entendem que a regeneração do homem não depende de uma causa sobrenatural, mas de um esforço humano em cooperação com outros seres humanos. Dai que a necessidade prioritária para um mundo cada vez mais benevolente seja um modelo de educação capaz de enaltecer valores que promovem a integração dos indivíduos na mesma esfera de convivência e a pacificação das relações interpessoais.

A ideia de que Deus não existe, para os ateus humanistas, constitui-se numa declaração de que no mundo não há outros anjos senão os próprios homens a quem cabe o inteiro dever de tomarem conta um dos outros.

Diferente de um mundo dos teístas onde a pratica do bem é a mando de um Deus que ora pune ora recompensa, o mundo dos ateus o bem é feito em nome do bem. Pelo menos, o ateu não espera que um ser sobrenatural lhe diga o que é certo e o que é errado, ele o faz por estar consciente do seu valor. O ateu tão pouco precisa de Deus para perceber que ajudar alguém a prosperar é melhor que o prejudicar e quanto mais sofrimento o homem passa, maior é a tendência de tornar-se desumano. Tudo quanto ele precisa para melhorar a condição humana é da razão e sensibilidade.

Em contrapartida, os religiosos tudo quanto precisam é da aprovação divina. Pouco tempo eles têm se dado a si mesmo para reflectir sobre as suas acções desde que estas cumpram com os mandamentos divinos. Os actos dos homens em quanto crentes nem podem ser qualificados de morais, como bem observou Kant, porquanto não têm como princípio a liberdade, mas a obediência a um ser divino que ameaça punir com o inferno ou recompensar com o paraíso. Então, que se diga que ser ateu é, de certa forma, uma predisposição para adorar a razão, pois na ausência da luz divina, não há outra melhor fonte de guia ao homem além da luz racional.

Ainda que soe a um chamamento ao iluminismo, afigura-se que se o mundo tivesse mais homens que olhassem para vida como um quebra-cabeça solúvel por meio da razão, este mundo tornava-se mais responsável. Ou seja, há mais preguiça ou indiferença para com o mundo da parte dos homens que creem num deus protecionista, omnipresente e omnisciente. Tal disposição espiritual desses homens justifica-se, quando antes um mundo caindo aos pedaços, alguém se pergunta por quê se preocupar em remediar, enquanto existe um deus todo-poderoso que querendo, num estalar de dedos, tudo volta a estar são e salvo.

Aquele que discordar de que crendo num Deus todo poderoso e protecionista não faz dos homens preguiçosos e, ou, indiferentes, ao menos será obrigado a admitir que se, de facto, existem anjos cuja missão é executar a vontade de Deus aqui na terra, então estes anjos são os próprios homens para que, após a vida, faça sentido serem conduzidos ao purgatório. É tão pouco convincente que Deus todo poderoso disponha de legiões para tomar conta do mundo, mas ao mesmo tempo exija que homens prestem contas sobre sua responsabilidade no cuidado do mundo. Ou Deus tem os homens a quem confia esta responsabilidade de cuidar o mundo ou Ele tem anjos que o devem fazer.

A pergunta metafísica mais substancial é o porquê das atrocidades em vidas inocentes quando existe um Deus todo-poderoso e justo capaz de dissipar o mal num estalar de dedos. Será que ele não se importa com a humanidade? Será a sua legião fraca? Ou será que nós, homens, ainda não conquistamos a consciência de que somos os únicos anjos que existem na face da terra e, por conseguinte, cabe a nós protegermos o mundo? Seja como for, o mais sensato que se pode esperar de um ateu é que ele seja responsável pelo mundo pela razão suficiente de ele não crer na existência dum ser sobrenatural capaz de proteger-lhe o mundo.

Se o ateu não crê num Deus que protege o mundo, então quem ele espera que tome conta do mundo, senão ele mesmo? Se ele se recusa a cuidar do mundo, que sentido da vida ele busca num mundo do qual ele não quer tomar parte?! Partindo da declaração de Nietzsche de que Deus está morto e foi o seu amor pelos homens que O matou, então, os homens deviam permitir-se uma morte nobre à semelhança de Deus: morrer pelo mundo – a sua genuína invenção.

Hélder Augusto
O Inconvencional

 

A minha colaboração, no formato e na qualidade de comentador residente da STV, nomeadamente em sede do programa “Pontos de Vista”, chegou, agora, ao fim. De 2011 a 2019, foram oito anos de uma experiência, a todos os títulos, gratificante e estimulante, quer do ponto de vista pessoal, quer do ponto de vista profissional. A convite do Jeremias Langa, inaugurei, com o Salomão Moyana, o programa “Pontos de Vista”, sob cuja alçada abordamos dos mais variados temas da vida política, económica, social e cultural de Moçambique. Sucessivamente, partilhei o programa com o Fernando Lima e, finalmente, com o Ericino de Salema.

Ao longo de todos estes anos, procurei exercer, plenamente, o meu direito à liberdade de expressão, guiando-me por um princípio fundamental: falar com franqueza, e dizer aquilo que acreditava, de forma honesta, que o público tinha o direito de saber. Mas deixando, ao mesmo tempo, espaço em que coubessem outras opiniões, diferentes da minha. 

Assuntos? Nessa área, Moçambique jamais ficou a dever a ninguém! Da guerra à paz. Da sempre triunfal corrupção à prosperidade na fome… houve que debater! Houve que debater Santungira; houve que debater Muxara; houve que debater a sucessão na liderança do partido da nossa independência; houve que debater Afonso Dhlakama; houve que debater a subida do mais alto magistrado da Nação à mítica Gorongosa; houve, enfim, que debater sobre as capoeiras aonde cacarejam os milhões de frangos da Credit Suisse…!

Mas houve, acima de tudo, que perguntar, vezes sem conta, como se faz democracia sem democratas! Porque tratava-se de um contrato social, assinado com os cidadãos, nos termos do qual estes compravam televisores, pagavam energia eléctrica e reservavam seu precioso tempo para nos ver e ouvir, e em troca nós devíamos partilhar com eles opinião fundamentada e, tanto quanto possível, isenta, assumíamos o dever de nos preparar adequadamente: a pesquisa, em torno dos potenciais temas a debater, no Domingo, começava na Quinta-feira, prolongando-se até Sábado!

Ao mesmo tempo que era aplaudido por muitos, o programa “Pontos de Vista” também atraia a ira dos sectores mais retrógrados e obscuros da nossa sociedade, que, tendo perdido a batalha das ideias, recorreram à barbárie, investindo o seu asco de intolerância, sobre José Jaime Macuane e Ericino de Salema!

Como qualquer um dos contribuintes do programa, incluindo o seu moderador, Jeremias Langa, vivi, também, momentos de impressionante impacto pessoal e profissional que, um dia, quererei partilhar com o grande público, em jeito de memórias e, quiçá, como despretensiosa matéria de referência para as gerações mais jovens de jornalistas. (Um dia, estou certo, o Jeremias Langa, no seu livro de memorias, vai contar como se gere um programa que originou brutais agressões físicas a dois comentadores, por si convidados!)

Querem saber? Oh, desde telefonemas de mukheristas, pedindo que falássemos de alegadas extorsões por agentes das Alfandegas, ao longo destas infinitas fronteiras de Moçambique, passando por gestores de topo da nossa vida pública, levando-nos, pessoalmente, ao escritório, dossiers sobre assuntos complexos e contenciosos, para manipular nossas mentes, até às inúmeras vezes em que, após a transmissão de um programa, o telemóvel ficava rouco, de receber tantas chamadas, noite adentro! Ou de convocatórias para inquisitórias reuniões oficiosas à porta fechada?

Ou daquela vez, em que um grupo de deputados do nosso Parlamento, me interceptou, em pleno almoço familiar, na Feira Popular, procurando persuadir-me, para evitar falar de um determinado assunto na noite daquele Domingo (já era tarde, pois o programa era gravado na manhã do dia anterior, Sábado!); ou naquele dia em que um PCA de uma mais que estratégicas empresas públicas, me “perseguiu”, até à Universidade, arrancando-me, literalmente, da sala de aulas, para me “orientar” sobre como deveria, no Domingo seguinte, abordar aquele badalado dossier sobre as suas imperiais mordomias …

Mas também fixei, com humildade, as inúmeras mensagens de encorajamento caídas, ao longo de anos, no meu telemóvel ou, talvez mais significativo ainda, aqueles simples olhares de cumplicidade que, de forma fugaz, muitos moçambicanos anónimos me dirigiam, na rua ou em mercados populares… E no seu silêncio, eu os ouvia dizendo: “tenha muita saúde!”. E, também em silêncio, eu retribuía, comovido.
Olho hoje para trás e fico honestamente convencido de que valeu a pena: penso, com efeito, que todos quantos colaboramos naquele programa, combatemos o bom combate; porém, diferente de Paulo, não terminamos a nossa carreira, e muito menos esperamos receber a coroa da justiça – que, aliás, jamais almejamos!

E, um pouco na senda destas falas à tela, lancei, em 2016, o livro: “25 Anos de Liberdade de Imprensa em Moçambique: História, Percurso e Percalços”. Entre as pessoas que convidei pessoalmente (porque houve as convidadas pela editora), inclui Jorge Rebelo, aquele que foi o fundador do Ministério da Informação de Moçambique independente. Rebelo teve a grande amabilidade de responder ao meu convite, escrevendo (ele que me perdoe pela inconfidência!) o seguinte:
“Caro Tomás. Obrigado pelo convite ao lançamento do seu livro. Infelizmente não poderei estar presente por razões de saúde. Pelo título percebo que falas da nossa comunicação social desde os primeiros anos da independência. Creio que, se tivéssemos dado espaço a uma imprensa livre desde o início, certamente não teríamos os níveis de corrupção que temos hoje”.

Fixei, com respeito, estas palavras: pela qualidade de quem as disse!
Obrigado à STV pela oportunidade!
 

 

Um dos mais graves males e problemas que enfrentamos no nosso país é a má gestão da coisa pública. Actualmente, são várias as situações reportadas nos órgãos de informação, além de comentários e conversas nas comunidades sobre escândalos de uso abusivo do erário público e algumas decisões que levam à delapidação do património público e dos poucos recursos de que o País dispõe. É sabido que qualquer país para viver necessita de recursos. Moçambique necessita de avultados recursos para enfrentar os desafios de desenvolvimento económico e social e, porque não os tem, o seu Orçamento ainda é deficitário, obrigando a recorrer ao financiamento externo e interno. Além dos recursos naturais cuja exploração exige avultados investimentos e a sua exploração também não acontece de repente, o Estado busca uma parte dos recursos junto dos particulares através da colecta de impostos. Significa dizer que o Estado realiza no âmbito das finanças públicas duas funções fundamentais: Arrecadar recursos (receita pública) que os afecta (despesa pública) na realização de várias infra-estruturas sócio-económicas e funcionamento da sua máquina administrativa, entre outras realizações, visando como fim último o bem-estar social. Aliás, esta função das finanças públicas é realizada na base de procedimentos legais, de austeridade e racionalidade fundadas em critérios de boa gestão, alicerçadas na máxima de que sendo os recursos escassos, a sua gestão deve ser feita de forma correta em benefício de todos. Tal exige respeito pela coisa pública. Gerir, na linguagem corrente, significa o acto de administrar; de tomada de decisão. Gerir a coisa pública, significa administrar algo que é de todos, na base de regras estabelecidas (leis), visando atender o interesse comum. Trata-se de um acto público que é feito no interesse público, geralmente confiado a uma pessoa singular ou a um Órgão para realizar. Os recursos que o País dispõe não são suficientes para fazer face às diversas necessidades colectivas, razão de se exigir a sua gestão responsável e criteriosa por quem quer que seja. Gerir não é’ tarefa fácil. Todos sabemos. Geralmente, e conforme dissemos a gestão é  feita por pessoa/s singular/es e esta/s por sua vez assume/m a responsabilidade de levar a cabo tal missão. Infelizmente, não é o que parece estar a acontecer no nosso País. Para quem conhece as dificuldades que o País atravessa, pode dizer que tudo quanto se fala sobre a falta de recursos que está na origem da pobreza e do custo de vida é mentira (quando verdade), tendo em conta os gastos públicos carentes de uma boa gestão. A questão que tem sido colocada muitas vezes é o de se saber como é que algumas pessoas ligadas ao Governo, mormente alguns dirigentes e funcionários têm acesso fácil ao erário público? Por outras palavras, como é que um certo dirigente ou um determinado funcionário pode dispor facilmente do erário público e gastar de forma aleatória sem que seja descoberto ou impedido de o fazer a tempo. Aliás, o desejável era que o mesmo nem sequer tivesse tido acesso ao erário público. Afinal quem é que guarda e controla o dinheiro e demais bens do Estado? Esta tem sido, amiúde, a questão colocada. Embora a resposta possa ser fácil de dar, considerando que a guarda do erário público cabe a todos os órgãos e agentes responsáveis por essa missão, verdade é que são reportados casos gritantes de dirigentes e funcionários que ao longo de muito tempo tem vindo a colocar a mão na massa e se beneficiado  indevidamente de valores monetários e  diverso património público e em nenhum momento foram impedidos a tempo por quem de direito  de o fazer. Informação sobre a responsabilização e recuperação de bens públicos subtraídos  escasseia salvo os que surge através dos órgãos de comunicação.  Alguns continuam a fazê-lo impunemente. A austeridade de que se fala em relação aos gastos públicos é muitas vezes referenciada pelo Governo, mas na prática acontece o contrário .  Por exemplo, quando alguém  é  nomeado para um determinado cargo na função pública,  as  exigências recaem geralmente  na atribuição de uma viatura e  de  casa que o Estado se obriga a comprar/construir ou disponibilizar, para não se falar de outras regalias, como se o cargo ocupado  constituísse a base sine quanon ou mesmo um prémio para enriquecimento do cidadão dirigente  à custa do Estado. De que ele é servidor do povo, esquece logo quando é nomeado.  Alguns nem sequer sabem  de que   o dinheiro que paga tais regalias vem dos imposto que são pagos pelo povo que sacrifica  uma parte do seu rendimento para o efeito. Se sabem, então, fingem que desconhecem o que é mau. Nalguns casos criam-se propositadamente cargos para beneficiar certas pessoas,  mesmo que a sua actividade não seja notória ou não justifique nomeação ou a  atribuição de  regalias ou benefícios. Na maioria dos casos, há mesmo disputa de cargos por  se saber que há  regalias e benefícios.  Entretanto, nunca  são conhecidas as  situações  em  que as pessoas reclamaram ou lutaram  por melhorar o seu trabalho e desempenho  na função pública. Alguns nomeados e que se beneficiam de  certas regalias chegam mesmo a permanecer em tais cargos indefinidamente e não produzem nada de concreto para justificar tais regalias ou benefícios e,  muito  menos são substituídos. Não é por acaso que muita gente anseia assumir cargos de Direcção e Chefia no aparelho do Estado. A luta é renhida. Diplomas  de licenciatura e Mestrado estão na moda à luta de uma promoção e busca de melhores regalias e benefícios mesmo que não se realize nada em prol do Estado e da sociedade no geral. Quem perde com isso é o Estado que tem que pagar despesas improdutivas. Pela forma como o erário público é gasto,  fica-se com a sensação de que o controle e a fiscalização não estão a acontecer.  Mesmo com  a implementação do SISTAFE, que visava um melhor controle das finanças do Estado, parece que alguns  especialistas têm furado o sistema e se beneficiado do erário público.  Além dos  desvios de fundos,  as compras de bens, pagamento de alguns serviços e nalguns casos  de valores  exorbitantes     em  reparações de imóveis do Estado,  que mais se parecem com construções de edifícios,  em detrimento, por exemplo de construção de escolas e hospitais,  são reportados em concursos públicos,   dando   conta  que o País está bem financeiramente. Virou moda o roubo de medicamentos, como forma de debilitar o erário público. Entretanto, é  estranho que o País, estando desde 2015 a funcionar sem o apoio externo não tenha “falido”  e que continua a funcionar normalmente. É gratificante saber  através do Governo que embora todas as vicissitudes, a economia está a recuperar, num processo de retoma com perspectiva de crescimento em 2019 na ordem de 4%,  facto que pretende significar que se não houvesse tais desvios de fundos e do património público e alguma má gestão de erário público, entre outros factores negativos, certamente que o nosso País poderia conhecer maior crescimento económico e poder  realizar muito investimento público social (escolas, hospitais) que tanta falta faz. Urge, pois, repensar a gestão da coisa pública. Para os que tem feito para evitar que o pior aconteça, resta congratular-lhes. A LUTA CONTINUA

O Presidente Samora Machel, quando recebeu Eusébio pela primeira vez após a declaração da nossa Independência, recordou – “Quando eu estava na guerrilha, o Presidente Kim Il Sung da Coreia do Norte, pediu-me: vence-lá depressa os colonialistas, de forma a tirares da Selecção de Portugal, o Eusébio, que desgraçou a minha selecção, no Mundial de 1966, em Londres. Perdemos por 5-3, com três golos do teu compatriota”.

Saudades do tempo colonial, em que as estrelas dos principais clubes moçambicanos eram cobiçados pelos “grandes” de Portugal, nalguns casos com presença obrigatória na Selecção da Quinas?

Em muitos aspectos, sim. Sobretudo porque nos dias que vivemos, não brilha em nenhum dos crónicos candidatos ao título português, qualquer dos nossos craques.

DAS INTENÇÕES À PRÁTICA… UM ABISMO!

Devido à vivência e envolvência no desporto ao longo da minha já não curta vida, sou confrontado, amiúde com uma pergunta que já se tornou sacramental:  “porquê esta situação”?

Um assunto que suscita várias respostas, de uma forma geral interligadas. Mas vou-me deter numa das explicações que me parece estar no topo da “queda-livre”!
Mudaram-se os tempos e as realidades. Mas, entre nós, nem sempre… as vontades!

E para onde apontam as novas realidades? Com a profusão das novas tecnologias, houve mudança de certos paradigmas, a nível mundial. Os jovens sentem-se mais atraídos pelos jogos que não fazem suar, do que por aqueles em que é necessário “dar ao litro”.

Daí que, quando apostam em puxar pelo físico, mesmo no culturismo, a melhoria da saúde ou a confraternização, não são as prioridades. Ou buscam alternativa de emprego, ou um físico atraente para impressionar na sociedade, muito particularmente, às “pitas”.

Portanto, a massificação tem que obedecer a bases diferentes das dos tempos idos, em que no futebol, por exemplo, bastava uma bola e um espaço livre, para a miudagem fazer, com paixão, a sua iniciação.

Hoje o desporto aparece para contrapor o chamamento das drogas, o vício das redes sociais e outros excessos.

Estamos, portanto, em presença de um quase total “esvaziamento” da sua essência. “Correr dá saúde? Então que corram os doentes…
Há que reconhecer que faltam campos, bolas e técnicos. Mas a carência principal tem a ver com factores motivadores, enquadrados nos novos tempos e ventos.

A formação do futebol em Portugal, por exemplo, ocupa um espaço de excelência, claramente definido, em que os talentos, até que se afirmem e provem que têm qualidade para serem integrado nas “universidades da bola”, jogam para serem vistos, muitas vezes comprando o seu equipamento e, nalguns casos, até pagando propinas. E só a partir da sua afirmação – com o “scouting” em acção – é que os papéis se invertem e as colectividades começam a propor salários. Os resultados estão à vista!

A massificação em adidas, nem que sejam das calamidades, é para onde apontam os novos ventos. Isto porque o jovem tem que mostrar no seu bairro, as vantagens da sua opção, para contrapor aos títulos de “matreco” com que volta e meia é apelidado.

E os clubes têm que fazer contas, cair na real. Os gastos em meia dúzia de estrangeiros – com ou sem BI falsificado – investidos para alegrar e motivar a criançada, não produzirão, em poucos anos, estrelas para constar na relação dos seus maiores activos”?

Pretendo, hoje, falar sobre uma pulga que teima em se me encavalitar a orelha. Para não entrar em delongas, trata-se da forma pejorativa como certas pessoas se refugiam na fragilidade ou porosidade da poesia para a solução dos problemas que se lhes apresentam como desafios que eles têm que enfrentar nas áreas em que se ocupam para contribuírem na construção de um país que, a olhos vistos se desmorona e o horizonte se fecha para não podermos ver a réstia de esperança que o quotidiano nos pode reservar.

Assim ofendem os obreiros da nação através da poesia, que não são menos do que eles, por obrarem uma área que eles pouco ou nada entendem. São incompetentes nas suas áreas e tudo o que se lhes aparece à frente para lhes exibir essa realidade, desviam as atenções para se socorrerem das artes poéticas que jamais foram recurso com que se devia contar.

Há meses, ouvi um estreante em literatura, amigo meu, numa passagem do seu discurso de lançamento da sua obra, qualquer coisa como: «Não se abre um jornal com poesia!”, como que a dizer que encapando um jornal com poesia é votá-lo ao fracasso comercial. É verdade, para um jornal destinado a gente sem qualquer cultura poética ou, genericamente, literária, nem conhece os benefícios sociais que proporciona esse domínio; «É um relatório muito próximo dos melhores momentos da poesia portuguesa.», dizia outro bem falante, moçambicano, da língua camoniana, para tentar demonstrar, ironicamente, que tal documento era de fraca qualidade, que ficou muito aquém das expectativas.[1]

O jornal O PAÍS que se refere à minimização da força poética, abre, na capa, não propriamente com poesia, mas com uma referência a ela, e suponho que convidou muitos leitores a comprá-lo, o que significa que, afinal, se pode abrir um jornal com uma referência a este género literário e merecer a atenção dos leitores.

«Granda lata!», diria, um docente universitário que eu cá conheço, com esta expressão que recorrentemente usa para dizer ao estudante para rever o seu posicionamento em relação às matérias em foco.

Muitas pessoas, sobretudo responsáveis de áreas de desenvolvimento de qualquer campo político-social, quando falham nas soluções dos seus problemas, correm para dizer que isto ou aquilo não se resolve com poesia ou seja, a poesia é o último reduto a que se recorre quando soluções válidas mostram-se distantes de encontrar. Por que é que não se rendem à evidência dos factos e não demandam outros engenho e arte, para se desenvencilharem da sua incapacidade para não dizer ignorância?

Faz-me lembrar, este triste episódio, a forma pejorativíssima como o sábio grego Platão reflectia sobre o assunto poético, primeiro sobre a NATUREZA DA POESIA. Citado por Wimsett e Brooks, diz:
 
 “… a poesia não é uma técnica racional, não é uma arte que tenha uma natureza definida. Não é uma filosofia, não tem um domínio específico. O poeta não fala de nada em particular, fala do que existe nas outras artes que não domina. Platão é negativo àquilo que fala de poesia como realidade.”
 
Há bastos exemplos que se podem levantar, para mostrar que a poesia entra na factorização dos elementos susceptíveis de se ter em conta na ponderação da construção de uma nação. Ela pode, até, ser o grau zero dos factores nacionalistas, no sentido aludido por Roland Barthes, quando considera o Grau Zero da escrita «“cuja função já não é apenas comunicar ou exprimir, mas impor um além da linguagem". Uma linguagem que caminha no sentido da história para com ela dialogar.»[2], mas, nunca pode ser tida como um imprestável exercício votado a tudo quanto fracassa. Ou seja, a poesia não pode ser considerada um bode expiatório de qualquer incompetência, perante uma realidade objectiva que exige soluções, também objectivas, mas um elemento que se deve ter ao lado das outras ferramentas que servem para construir uma nação ou concertar as suas mazelas.
Já Aristóteles, de acordo com os estudiosos atrás citados, tem uma visão contrária à do seu contemporâneo, quando diz que a poesia não deve ser vista com base naquilo que ela retracta, não deve ser vista em função das leis das outras artes, mas deve ser julgada em função das suas próprias leis (que a governam). O que deve ser julgado é o equilíbrio interno da própria poesia. Ela tem uma estrutura própria, é uma arte específica, é uma forma de conhecimento.

Quanto ao lugar da poesia na sociedade, para Platão, ela traz efeitos negativos para a sociedade. Ela «alimenta e dá de beber às paixões», criando divisão e insegurança no coração…

Para Aristóteles, a poesia cumpre uma função catártica (purificadora). Não alimenta as paixões, não exacerba as paixões, racionaliza-as, despersonaliza-as através da “Distância estética”. As paixões existem e devem ser despersonalizadas, não sejam nocivas porque controladas e racionalizadas através da ficção que nos leva a preparar-nos para sepulta-las ou evitá-las.

O poeta abre-nos os caminhos para outras realidades possíveis.
A poesia tinha uma inserção na sociedade e por isso Platão falava dela para corrigir aí aspectos errados.

Muito mais tarde, no curso das reflexões sobre a poesia, Jakobson (1935) afirmaria que:
 
“… a função poética é a função dominante num texto literário onde podem ocorrer outras funções da linguagem que se situam num segundo plano.
 
No que respeita à visão de Platão quanto à poesia, Aristóteles até concorda que a poesia é imitação, simplesmente diz que ela não imita a realidade que existe (o que acontece), mas a realidade que pode acontecer (que pode existir). Ele quer dizer que um texto literário não conta o que aconteceu ou que exista, mas o que é possivel acontecer. Assim acaba não imitando o que aconteceu. Parte do particular para falar do possível. O texto literário não é particular é universal. Isto diferencia a literatura da história que se cinge aos factos, àquilo que acontece ou aconteceu, existe ou existiu.

O ponto de vista de Aristóteles conduz-nos à conclusão de que quando se imita o que pode acontecer, pode-se aperfeiçoar a realidade.

Comparando os pensamentos dos dois sábios gregos veremos que a visão de Aristóteles é claramente positiva e a de Platão, claramente negativa.
Para Aristóteles a poesia é universal, para Platão é particular.

Os poetas têm sentimentos, emoções, paixões e vontade de, com o seu trabalho, ajudarem o país a se afirmar, a ombrear com outros países, deste planeta e se tornar o lugar onde o povo viva em segurança, e, comodidade e bem-estar, saindo de todas as amarras que o imobilizam e o estagnam e quem deve estar comprometido com esse desiderato é o próprio povo disseminado pelas diferentes áreas que fazem a coesão social. Não tem, ninguém, qualquer direito, que, a partir do seu ponto de labuta, apequenar outras áreas, como se elas não contassem nos factores de realização social e de construção de um país. Essa atitude só pode ser tida como um crasso subterfúgio para esconder as suas próprias ignorância e incapacidade de sair dos problemas que o apoquentam, sem apoucar os outros. Convenhamos, não acreditar nas potencialidades da poesia é uma coisa; não acreditar no relatório de inquérito às dívidas ocultas é outra coisa. No poema AUTOPSICOGRAFIA, de Fernando Pessoa, está o que os que não conhecem a essência poética precisam saber e interiorizar:
O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,/Na dor lida sentem bem,/Não as duas que ele teve,/Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas da roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama o coração
.”[3]

A poesia, definitivamente, é expressão espontânea do real; poesia é arte, é imaginação, a realidade é imaginada de forma a exprimir-se artisticamente, de forma a surgir como um objectivo poético (artístico), de forma a concretizar-se em arte; é uma forma de construir, de defender, de enaltecer os feitos de um povo, de uma nação; a poesia é a luta contra as injustiças, é a luta contra a fome, contra a pobreza; a poesia é a procura da paz e sossego; a poesia é canção, é música; é alegria de multidões; a poesia é, enfim, JUSTIÇA e LIBERDADE, não é bode expiatório de néscios! Não sabe, aprende!

Ao meu amigo debutante na literatura, acabado de lançar o seu primeiro livro, gostaria de confrontá-lo com o poema “Nitafa nawena murhandziwa”, Amor, vou morrer contigo, da autoria de Mr. Bow e propor que o publicasse na primeira página de qualquer jornal moçambicano, com a fotografia do autor e explicar o seu conteúdo nas páginas interiores, a ver se o órgão não esgotaria?! É que aquilo é poesia e move multidões e Mr. Bow – poeta, compositor e cantor, mexe com meio mundo onde ele aparece. Experimente-se organizar um comício chamando Mr. Bow para o abrilhantar, a ver se não víamos um mar de gente a acorrer! Ele é um verdadeiro cartaz amplo da cultura moçambicana na actualidade; ele demonstrou na última tournée da Super Bock Super Rock on tour em que, como cabeça de cartaz, correu oito províncias do nosso país, cantando a sua poesia e encantando multidões. Supera, em presença e em mensagem, alguns políticos da nossa praça. Isto quer dizer que aos políticos, exige-se respeito pela poesia!

Uma particularidade: tal como Barthes em o Grau zero da escrita leva a linguagem a emparceirar-se com a história para com ela dialogar[4], para mim, a poesia não pode ser considerada um elemento isolado, perante uma realidade objectiva que exige soluções conjuntas, também objectivas, pois ela é um elemento que se deve ter ao lado das outras ferramentas que servem para construir uma nação ou concertar as suas mazelas.

Não teriam, poetas como Luís Vaz de Camões, Homero e Virgílio, se empenhado tanto, com risco das suas vidas, na elaboração dos cantos maiores dos seus povos: «“Os Lusíadas”,- uma obra poética considerada a epopeia portuguesa por excelência; “Odisseia”- um dos dois principais poemas épicos da Grécia Antiga, … um poema fundamental no cânone ocidental. e “Eneida”,- um poema épico latino …. Conta a saga de Eneias, um troiano que é salvo dos gregos em Tróia, viaja errante pelo Mediterrâneo até chegar à península Itálica.»[5]

Poemas que construíram a dignidade, o respeito e a grandeza das suas nações e dos seus povos; poemas que sustentam desde há séculos, a existência de países que inspiraram o desenvolvimento mundial.

A Camões, por exemplo, o sonho da escrita de uma epopeia que glorificasse o povo português – Os Lusíadas, custou-lhe a perda de um olho em Ceuta e a pobreza extrema, na Índia, na China, em Moçambique e em Portugal, até à sua morte, tudo por intrigas palacianas, ódio, concorrências desleais entre os homens da pena, em que os menos dotados inculpavam Camões pelos seus fracassos, para que ele fosse desterrado a cumprir missões perigosas. Estou a falar do século XVI. Isto só mostra que a poesia atravessou os tempos pela força que tem, para não permitir desagregação por conta da inveja.

A libertação de Moçambique dos grilhões coloniais seculares, foi possível com a poesia induzida nos demais factores libertários do nosso país. Estou a querer dizer que a poesia, simplesmente, foi um dos soldados que libertaram a nação moçambicana do jugo colonial português.

Craveirinha, sim, o Tio Zé, o José Craveirinha, poeta-mor e herói nacional de Moçambique, com a sua poesia visionária, vaticinou infalivelmente, um país – Moçambique, através do seu poema: “Poema do futuro cidadão”.[6]
Peguemos a poesia pela mão e caminhemos com ela que nos ajudará a exorcizar os nossos fantasmas!
 
 
[1] Jornal O PAÍS de 13 de Dezembro de 2016
[2] BARTHES, Roland, “O Grau Zero da Escrita”, 1953
[3] Wikipedia, a enciclopédia livre – 13 de Dezembro de 2016
[4] BARTHES, Roland, “O Grau Zero da Escrita”, 1953
[5] Idem
[6] CRAVEIRINHA, José “Xigubo” (…)

Eram 8:30 da manhã, quando ela subtilmente tentava ofuscar os raios de sol – que persistiam em focar-lhe a cara – puxando o que julgava ser o lençol de seda, com que ela havia arrumado a cama, no dia anterior. Ao se aperceber que se tapara com uma capulana e que o colchão onde dormia não era o seu, Vanessa levantou-se bruscamente e avistou uma velha sentada a sua frente, como se esperasse pacientemente que ela acordasse.

Deu-se conta da sua nudez plena, ao que voltou a cobrir-se rapidamente. Tapou a cara, certa de que tivera sido sequestrada. Quando voltou a destapar-se, reconheceu a velhota como sendo avó de Fernando, seu namorado.

– Oh meu Deus, vovó! Onde está Fernando? O que se passa?
Vanessa deu uma olhada pelo quarto e reconheceu que se encontrava no quarto isolado do resto da casa, destinado aos membros da família que padecessem de doenças contagiosas. A avó de Fernando, uma senhora dos seus 75 anos, bem vividos, inclinou-se para o chão de cimento, pegou na única xícara de alumínio que lá se encontrava e serviu um líquido verde que Vanessa reconhecera logo como sendo água de cacana.

– Vovó, por favor, eu não estou doente! Onde está minha roupa e minha carteira? Que dia é hoje? 14 de Fevereiro? Ontem à noite eu estava em Maputo e hoje acordo em Chibuto, sem saber como vim parar aqui? – Vanessa fechou os olhos, deu um suspiro de epifânia quando a ficha finalmente lhe caíu.

Fernando levou-a a jantar ao “Manjar dos Deuses” no dia 13 de fevereiro porque no dia 14 tinha uma viagem marcada para JHB, onde devia estar, nas primeiras horas de quinta-feira, numa reunião com os seus sócios sul-africanos.

A última imagem de que se lembrava quando estavam no restaurante, era a de Fernando insistir que ela tinha de acabar o copo de vinho, quando ela não queria, pois havia preparado champagne em casa.

Seria uma noite memorável. Tirou folga para ir ao Spa. Por lá, fez de tudo para que o seu lençol novo, de seda, tivesse um efeito deslizante, em sua pele.
Espalhou pétalas de rosa pela casa toda. No corredor, foram pétalas brancas; na casa de banho, dentro e à volta da banheira espalhou pétalas vermelhas e no quarto, pelo chão e por cima do lençol de seda vermelho, espalhou pétalas brancas e rosas. Paz, paixão e amor, era o que desejava para o seu relacionamento conturbado.

É verdade que ela não aguentava com álcool. Quando estivesse bêbada, dava-lhe para dormir, por isso teve muito cuidado no restaurante, limitando-se a um copo. Nunca na vida havia perdido os sentidos até não perceber nem sentir que tivera sido transportada durante a noite, para Chibuto e sem dar conta, tivera sido despida. Ela estava certa de ter sido drogada. Perante esta realização, levantou-se rapidamente da cama e foi dar uma espreitadela à janela. Nada viu senão um galinheiro e alguns patos a andarem de uma lado para o outro.

– Vovó, deixa-me sair, por favor. Já estou bem!
– Eeh, minha filha, Fernando pediu para você tomar água de cacana primeiro. Não sai daqui sem…
– Fernando que vá à merda, vovó! Está onde ele? Vovó não vê que eu estou bem?!!
– Minha filha, não me traz problemas, eu…
– Vovó, eu não estou doente e estou aqui isolada e nua! Que doença tenho eu, de ontem para hoje?

Não é dia 14 hoje? Então?! Tenho a certeza que no dia 13 de Fevereiro, eu estava em Maputo e muito bem!! Agora dá licença, vovó. Dá-me a chave, quero sair! Vou lá dentro, tomar banho e ir embora! Minha carteira está lá dentro, né?

– Filha, não me traz problemas, toma esta água primeiro!
– Essa água é para quê? Para eu morrer de vez? Não, obrigada. Vou ao hospital! A chave, vovó! – ordenou Vanessa, extremamente impaciente, furiosa, a andar de um lado para o outro naquele quarto abafado, minúsculo, com bocados de areia a colarem-lhe os pés suados.

Rendida, a avó Margarida sorriu, levantou-se e deu uma coxeada até à porta. Olhou para Vanessa com um olhar submisso e voltou a sorrir, abanando a cabeça, como quem estivesse a contrariar ordens. Desamarrou sua capulana no extremo esquerdo, tirou do pequeno nó, a chave da porta do quarto e depois extraiu uma segunda chave do seu sutiã, que afirmara ser da casa lá fora.

Vanessa abriu a porta e saiu do isolamento descalça, embrulhada em capulana, em direcção à casa, numa velocidade de jato, tendo sido interrompida por um assobio que lhe era familiar. Quando olhou para o lado, viu Fernando, a sensivelmente 20m, sentado por baixo de uma árvore, numa mesa repleta do que parecia ser pequeno almoço, com pétalas vermelhas espalhadas pelo caminho que Vanessa teria de percorrer até ele e mais um detalhe: assim que Vanessa virou a cara em direcção de onde vinha o assobio, começou a tocar a música: “Isn’t she lovely” de Stevie Wonder. Fernando tinha consigo um pequeno gravador onde tencionava tocar todas as músicas preferidas de Vanessa.

Com as mãos na boca, dando risadinhas sem parar, Vanessa caminhava ao encontro de Fernando, semi-serrando os olhos, para ver o que havia na mesa. De certeza que não tivera sido a avó Margarida a preparar tudo aquilo. Estava com um aspecto de encomenda. Parecia um buffet de hotel.

Fernando fechou os olhos, levantou ligeiramente a cabeça e fez um biquinho com os lábios, em jeito de quem pedisse um beijo. Vanessa aproximou-se dele, deu-lhe um beijo e logo de seguida deu-lhe uma chapada carinhosa e disse:

– Desde quando é que drogar uma pessoa é romântico?
– Desde que o sorriso dessa pessoa seja tão radiante quanto aquele por qual me apaixonei!
– Credo, sou tão rabugenta assim?
– Praticamente…
– Hahaha! E que droga usaste para que me conseguisses violar sem eu me aperceber?
– Não te posso dizer, mas nada que te prejudique a saúde. E pus-te nua apenas para criar mais drama. E então, estou de parabéns?
– Parabéns?!! Que distorção, meu Deus! Tenho muita fome… esta comida não vai chegar. Vou te comer todo, hoje. E pode ser naquele quartinho contaminado, não faz mal. Hihihi.

 

Texto escrito em 2009
Interpretação da alínea b) do nª2 do artigo 178 da Constituição

A Assembleia da República, após o encerramento da sua última sessão ordinária, e em vésperas de início da campanha eleitoral, foi confrontada com um pedido de declaração de perda de mandato em relação a deputados que se inscreveram em partidos diferentes daqueles pelos quais haviam sido eleitos. O pedido teve como fundamento o estabelecido nas alíneas d) e e) do n?1 do artigo 8 da Lei n?3/2004, de 21 de Janeiro, Estatuto do Deputado, que estabelecem o seguinte:
«Perde o mandato o Deputado que durante a legislatura:
…………………………………………………………………..
d) se inscreva em partido diferente daquele pelo qual foi eleito;
e) assuma funções em partido diferente daquele pelo qual foi eleito;»

A Comissão dos Assuntos Jurídicos, Direitos Humanos e de Legalidade, em Parecer remetido ao Presidente da Assembleia da República, considerando que tal comportamento se enquadrava no previsto na alínea b) do n?2 do artigo 178 da Constituição, que determina a perda do mandato do Deputado que «se inscreva ou assuma função em partido ou coligação diferentes daquele pelo qual foi eleito», conjugado com a já referida alínea d) do n?1 do artigo 8 do Estatuto do Deputado, propôs que a Comissão Permanente da Assembleia da República deliberasse em conformidade com o pedido.

O Parecer da CAJDHL é escasso em fundamentação ou em argumentação, fazendo apenas referencia a um precedente que teri  a ocorrido na legislatura anterior com alguns deputados da bancada ora requerente.

O Parecer registou um voto de vencido no qual se expende, essencialmente, que “O elemento teleológico da norma contida na alínea b) do artigo 178 da CRM e na alínea d) e e) do artigo 8? da Lei nº 3/2004, de 21 de Janeiro, ainda em vigor, visa defender os interesses e posições políticas do Partido durante a vigência do Mandato e não para a legislatura seguinte.”. pelo que “…os deputados em causa… não perdem o seu actual mandato, ainda vigente.”

Assim, ainda que breve, é o voto de vencido que aborda e argumenta sobre a questão de fundo que a interpretação dos dispositivos constitucionais e legais pertinentes ao caso sub judice suscita.

Com efeito, as disposições invocadas, tanto pela bancada requerente como pelo Parecer da CAJDHL, são as realmente aplicáveis neste caso. Só que não se vislumbra nenhum esforço de interpretação, limitando-se unicamente ao seu sentido literal. Ora o sentido literal, neste caso, coloca essas disposições em linha de colisão com outras disposições ou princípios constitucionais igualmente relevantes, e que , em princípio, não se percebe por que razões deveriam ser sacrificados.

Desde logo a questão deve colocar-se no plano da interpretação dos dispositivos constitucionais pertinentes, porquanto sendo o Estatuto do Deputado lei ordinária, ao regular a mesma matéria, terá que se lhes subordinar.

Ao se isolar o sentido literal da alínea b) do n?2 do artigo 178 da Constituição, colide-se inevitavelmente com outros dispositivos constitucionais, tais como o n?3 do artigo 170, o n?2 do artigo 147, ou o artigo 53. Vejamos como:

O princípio estabelecido no n?3 do artigo 170 constitui a base da universalidade do sufrágio, estende-se a todo o cidadão como prerrogativa fundamental, isto é, tanto aos cidadãos que estão integrados em partidos como aos que não estão. Todos eles gozam da liberdade de concorrer, com um único condicionamento: devem estar integrados em listas partidárias. Porém, o que este dispositivo não estabelece é que os cidadãos filiados num partido apenas possam concorrer por esse mesmo partido. Estes são livres de concorrer pelo mesmo ou por diferente partido ou mesmo como independentes. E não se vislumbra nenhum fundamento para retirar aos deputados essa prerrogativa tão fundamental ao sufrágio para que este seja de facto livre e universal, introduzindo uma espécie de capitis deminutio à margem da Constituição.

O vínculo que liga o Deputado a uma bancada é de natureza político-partidária, organizatória e disciplinar, não se sobrepondo ao vínculo que o liga ao Estado e à Nação. Por isso é que ele pode romper esse vínculo sem que seja posta em causa a sua condição de Deputado da Nação.

A proibição que a Constituição estabelece, como limite à liberdade do Deputado, é apenas a da sua ”migração” para outras forças políticas, entenda-se, na vigência do mandato. Uma prática proibida entre nós mas permitida noutros parlamentos e que se designa de “floor crossing”.

Esta limitação tem por finalidade, por um lado, defender o partido perante o qual o Deputado assumiu compromisso ao aceitar a inclusão na respectiva lista, e, por outro, a permitir a organização e disciplina dos deputados necessária à estabilidade e ao normal funcionamento da instituição parlamentar.

Porém, e apesar da reconhecida relevância destes fundamentos, nenhum deles se sobrepõe ao vínculo que liga o deputado à Nação, nem ao princípio de liberdade de consciência que lhe é inerente. Por isso mesmo o deputado pode afastar-se do partido (e da bancada) pelo qual foi eleito mantendo-se como deputado independente, portanto sem perda do mandato. Sobre esta possibilidade não se suscita nenhuma dúvida.

Assim, com que fundamento se iria forçar este deputado independente a inscrever-se, para o mandato seguinte, em listas de um partido do qual já estaria desvinculado? Não faria sentido nenhum. Mutatis mutandi, se lhe é reconhecido o direito de se desvincular e afastar totalmente do partido pelo qual foi eleito deputado, em pleno exercício do mandato e sem perda do mesmo, com que fundamento se lhe iria recusar o direito de se inscrever por outro partido para o mandato seguinte? A considerar-se sancionável este último comportamento, por maioria de razão se deveria sancionar o primeiro porquanto, por esse prisma, é sem dúvida mais grave.

Esta liberdade de se inscrever em partido diferente não constitui uma prerrogativa apenas do deputado independente. Com efeito, estamos perante uma liberdade política fundamental consagrada na Constituição, de que todos os deputados e os demais cidadãos, gozam.

Esta liberdade é condicionada apenas em função do mandato. Mas esse condicionamento não vai para além do mandato em causa, ela não o extravasa. Assim, não se pode, em nome do mesmo, prejudicar o exercício de direitos que se refiram ao mandato seguinte, porque isso seria excessivo em relação aos fins visados por aquele condicionamento e, por conseguinte, já não faria sentido.
A lei ou a Constituição nunca poderiam consagrar um princípio segundo o qual, uma vez eleito deputado por um partido, terá que ser reeleito pelo mesmo partido, sempre. Mais do que partidocracia seria «escravização» dos deputados aos respectivos partidos!

Uma vez que a organização dos processos eleitorais é concebida de forma que não se verifique qualquer hiato entre uma legislatura e a seguinte, isso tem consequências sobre a questão em análise. Com efeito, as eleições tem lugar, mais ou menos, imediatamente antes do termo do mandato em vias de cessar, não havendo um período específico, entre uma legislatura e a seguinte, destinado aos cidadãos que são deputados para exercerem a fundamental liberdade de opção político-partidária entre inscreverem-se pelos partidos por que foram eleitos ou inscreverem-se por quaisquer outros.

A inexistência de um tal período específico para o exercício da liberdade de opção não pode significar a exclusão da liberdade de opção. Não pode significar que essa liberdade é, como tal, negada, e substituída por um princípio de vinculação ou de obrigatoriedade de renovação do mandato pelo mesmo partido.

Na verdade a solução para esta dificuldade, que a meu ver é apenas de interpretação do dispositivo constitucional pertinente, deve assentar numa lógica paralela ou semelhante àquela que orienta as soluções já adoptadas pela legislação eleitoral relativamente aos “magistrados judiciais, do Ministério Público e os diplomatas chefes de missão que…pretendam concorrer ás eleições presidenciais ou legislativas…”, os quais, nos termos do n?1 do artigo 14 da Lei n?7/2007, de 26 de Fevereiro, “devem solicitar a suspensão do exercício da função, a partir do momento da apresentação da candidatura.” Nestes casos não se coarcta nem prejudica nenhum direito, apenas se compatibiliza o respectivo exercício.

No caso em apreço, porque não se vislumbra nenhuma contradição entre a condição de deputado da Nação, independente ou não, num mandato, e o exercício da liberdade de opção político-partidária para o mandato seguinte, o que a legislação eleitoral tem que fazer é adoptar uma solução de compatibilização prática, sem prejuízo ou exclusão de nenhum princípio ou direito.

A alínea b) do n?2 do artigo 178 da Constituição nada mais é do que a consagração constitucional da norma que dantes constava apenas ao nível do Estatuto do Deputado (Artigo 8 da Lei n?2/95, de 8 de Maio e sucessivas revisões). Em 2004, o legislador constituinte, considerando que esta matéria, pela sua directa conexão com a conformação do órgão de soberania que é a Assembleia da República, não devia ficar ao critério do legislador ordinário, conferiu-lhe dignidade constitucional.

Tenhamos em atenção que o legislador ordinário inspirara-se no correspondente dispositivo da Constituição Portuguesa que, desde 1976, vem consagrando, na alínea c) do n°1 do artigo 160 (Perda e renúncia do mandato), a norma segundo a qual “1. Perdem o mandato os Deputados que: c) Se inscrevam em partido diverso daquele pelo qual foram apresentados a sufrágio.”. Jorge Miranda e António Medeiros, em anotação a esta alínea (no Tomo II da sua «Constituição Portuguesa Anotada»), defendem que “É uma salvaguarda da vontade popular e um imperativo ético cuja consagração jurídico constitucional se mostra necessária olhando à experiência de muitos países, incluindo o Portugal do tempo do liberalismo….Além disso, a despeito de a disposição constitucional não o explicitar, deve entender-se que perde também o mandato… o Deputado que se apresenta como candidato a novas eleições (sejam parlamentares ou não) por partido diverso. A ratio é a mesma.”

Se a nossa análise está em linha com a primeira parte da anotação, no que concerne às razões em que se justifica o dispositivo em causa, já a parte final da mesma, justamente naquilo em que o texto da Constituição Portuguesa não é explícito, não nos parece que se possa, de forma coerente, fundar nas mesmas razões, nomeadamente de “salvaguarda da vontade popular” e de “imperativo ético”.

É que a vontade popular que é mister salvaguardar é a que se refere estritamente à eleição para o mandato anterior, e o imperativo ético só se pode referir ao compromisso político subjacente à candidatura para esse mesmo mandato. A vontade popular manifestada não se estende ao mandato seguinte, assim como não se vislumbra que imperativo ético se pode invocar em relação a um compromisso (relativo ao mandato seguinte) que ainda não foi assumido. Contrariamente ao que os ilustres e respeitados constitucionalistas expendem, parece-nos que a ratio não pode ser a mesma. A existir alguma ratio parece-nos que teria de ser bem outra e não aquela.

Armando Artur é um poeta moçambicano que dispensa apresentações, porém, pessoalmente, julgo indispensável que se lhe apresente à comunidade interpretativa da literatura do nosso país, mesmo que isso se afigure uma redundância. É uma ênfase necessária. Acredito que exista uma considerável ala de apreciadores interessados da literatura moçambicana que ignore, sua obra poética, os seus pródromos, como um dos vates desta parcela oriental de África, que banha os seus pés no mar Índico.

Ele é já dono de uma vasta obra literária, entre textos poéticos dispersos e uma bibliografia de se lhe ter respeito. É produto do movimento Charrua, que teve como seu palco inicial a AEMO e, posteriormente, o território moçambicano, na década 80 do Século XX. A Charrua é, portanto e confessadamente, “o seu berço literário”, ombreando com Eduardo White, Hélder Muteia, Juvenal Bucuane, Ungulani Ba Ka Khosa, Tomás Vieira Mário, Marcelo Panguana e tantos outros arautos da jovem e pioneira revista nacional de literatura. Já lá vão cerca de 35 anos que ele participou intensamente no movimento da reinvenção da literatura moçambicana e da dor que tal intrepidez custou aos fundadores da Charrua, a primeira Revista Literária Moçambicana, pós-independência.

Nesta mais recente obra do poeta Armando Artur, depara-se, logo no seu poema inaugural, a necessidade reinventiva que este autor tem em ralação ao Ser, e foi na sequência da obra que outros elementos formativos do planeta terra se transfiguraram para exprimir a dor da reinvenção do ser: “Não sei o que havia antes do nada”. Linda confissão de reconhecimento de que algo existia, daí a proposição da reinvenção. Por tal certeza existencial de algo, Artur, apenas manifestando as suas limitações epistemológicas sobre o advento da terra, humildemente assevera que: “Só sei que tudo começou quando o nada se amotinou contra o seu próprio nada. Apareceu então uma nuvem de gás e poeira que, cansada da sua tristeza e solidão, decidiu recolher-se dentro se si mesma, no seu alvéolo de silêncio. Assim ficou sólida e fria, mas resoluta do seu propósito de querer ser. No entanto, por causa da urgência de ser, no seu interior ateou-se fogo e plasma. E foi quando expeliu ar e lume, lava e vapor de água que se transformaram em planeta terra.”

Este poema é a essência desta obra, pois, outros factores, afinal elementos não menos importantes na sua textura, vêm por acréscimo a tão basilar tese Arturiana da Reinvenção do Ser. Tais são os casos “Das suas águas profundas” que escondem “no eterno movimento das suas ondas, ante o olhar cúmplice e melancólico da lua.” O que a dialéctica universal fez que o poeta nos revela: “A bio tornou-se, desde então, categórica e inadiável, como a luz que vem das estrelas distantes.” E nos interstícios desta reflexão que o sujeito poético se expõe: “Cada quantum de luz que trespassa o meu ser leva sempre consigo uma fracção do meu passado. Aqui estou, como que no prelo da minha própria reedição. Qual postscriptum impresso do avesso!” O amor, sobretudo este nobre sentimento afectivo, e outras manifestações humanas que o sujeito poético esgrime, são, enfim, pendulares, vêm arrendilhar todas as bordas ou dobras, recantos estruturais do vizinho de outras formações planetárias, suplantadas “pela sua figura alpina e aquosa, azulada e acinzada, formosa e chistosa como uma joaninha ensaiando a passarela da próxima aragem.”, na grande transfiguração assente no conceito que explica “A reinvenção do ser e a dor da pedra”. Acresce-se, pois, a este profundo desiderato do autor, o advento de tudo o que vem habitar o Ser reinventado, que, ao mesmo tempo, vem tirar da pedra, a dor, para a inculcar no profundo sentir de cada novo ser consubstanciado na humanidade.

O filósofo José Castiano, encarregue de apresentar, publicamente a obra, não poderia escolher outro caminho para explicar aquela profunda obra que hipotetisa o concurso de diversos factores que estiveram na essência da formação do planeta terra e dos seus conteúdos, senão enveredar pelos conceitos filosóficos que atestam o seu surgimento. Acreditando ser, aquela, uma obra de difícil interpretação, Castiano não se poupou na busca de trocados vocabulares para ajudar na acessibilidade aos mistérios que envoltam esta obra literária de Armando Artur.
 

Justa homenagem, escolha acertada do Município de Maputo, ao distinguir e medalhar – juntamente com Pedro Pimentel e Caetano Ruben – o “mister” Martinho de Almeida, homem das 101 actividades, amigão de todos. É agricultor e suinicultor, foi mecânico de automóveis, deputado, treinador de futebol… etecétra.

Com real propriedade e devido às suas múltiplas actividades, sempre na mó de cima, um amigo comentou, referindo-se à sua popularidade:
– Quem não conhece o Martinho de Almeida, não é moçambicano!
A seu lado, e para vincar o carácter divertido do inventor do MARSIA, um outro acrescentou:
– E quem não o conhece profundamente, não morre feliz!

ESTÓRIAS “MARTINIANAS”…DE ENCANTAR

Por detrás do seu estilo brincalhão, sempre com uma pitada de humor na ponta da língua, esconde-se um homem sério, disciplinador, estudioso e rigoroso. Por si, no futebol, falam os títulos e jogadores (bem) formados ao longo de duas décadas. Porém, fora do palco da competição, é um regalo partilhar com o ‘mister’, estórias que o tempo não pode apagar. Este é o local e o momento para recordarmos algumas delas.

John Mortimor era o técnico do Benfica de Lisboa e o nosso Martinho, que para lá foi estagiar, de imediato lhe caiu nas graças. Assim sendo, pela manhã, passava pelo balneário dos jogadores, ao encontro do treinador inglês.
Ao passar pelas estrelas encarnadas, Martinho saudava-os, alto e bom som:
– Bom dia, meus senhores!
À excepção do Shéu, que retribuía o cumprimento, todos os outros o ignoravam. Isso repetiu-se três dias, até que o nosso compatriota beirense, disse:
– Mister, não vale a pena cumprimentar. Estes tipos têm a mania que são craques.
Martinho retorquiu:
– Eu quando cumprimento, não estou à espera de retribuição. É só para demonstrar que sou educado.
Todos engoliram em seco. No dia seguinte, o ´mister´ ao passar, disse: ´Bom dia, meus senhores´
– Os craques, em uníssono: ´Bom diaaaaa, mister´!

««««

Nos veteranos, a jogar pelos Eucaliptos, o Martinho após um choque com o Dzimba da equipa do Tira Babalaza, caíu em pleno campo, reagindo:
– Ó Dzimba, afinal nós viemos aqui para nos divertirmos ou para nos aleijarmos?
– Mas eu nem te toquei, Martinho – diz o Dzimba.
– Então caí sozinho no meio do campo? Quer dizer que estou grosso?

»»»

Numa certa ocasião, o ´mister´ revelou um desejo aos amigos:
– Vou estudar.
Depois, ao seu estilo, foi esclarecendo:
– Mas só quero Português e Matemática. E mais: os meus professores, terão uma grande vantagem sobre os outros docentes. Sabem porquê? É que eu é vou dizer-lhes o que me terão de ensinar, simplesmente porque… eu sei, tudo aquilo que não sei.!!!

»»»

No tempo das grandes carências, o chamado período do carapau, Martinho veio de um estágio em Lisboa, reuniu vários amigos em sua casa, para um jantar. E foi dizendo:
– Tenho leitão assado, cerveja, mas só um garrafão de vinho. Só um, perceberam? Por onde começamos?
– Pelo vinho – disseram os presentes, cheios de saudade!
Martinho foi para a sala ao lado, depois regressou e perguntou:
– Vocês querem tinto, ou preferem branco?
Todos se riram, mas o “mister”esclareceu:
– É que só há um garrafão para nós, o outro não é meu. Mas como fui eu que o trouxe, vocês ainda podem escolher!!!

 

O País precisa de comprometimento de todos os Moçambicanos, temos de aprender a confiar nas instituições e mesmo nas pessoas que as dirigem, caso contrário, dificilmente, construiremos uma nação próspera, segura para hoje e amanhã, o “marcar o passo” que assistimos, na implementação dos acordos rubricados entre o Presidente da República, Filipe Nyusi, e o na altura Líder interino da Renamo, Ossufo Momade, a 06 de Agosto é disso o exemplo da falta de confiança.

Esse acordo previa a desmilitarização, desmobilização e reintegração das forças residuais da Renamo, cujo processo, foi lançado pelo Presidente da República, em Outubro do ano transacto, contando com o apoio da comunidade internacional, através de peritos militares, é preciso recordar que, a 05 de Setembro de 2014, o antigo Presidente da República Armando Emílio Guebuza e o falecido Líder da Renamo, Afonso Dhlakama, assinaram um acordo de cessação de hostilidades que, entretanto, também ficou por implementar, o resto do que se passou, todos sabemos!

Se o acordo de cessação de hostilidades visava a viabilização das eleições gerais e das Assembleias Provinciais de 2014, o acordo rubricado pelo Presidente e Líder Interino da Renamo visa viabilizar a formação de um exército único e apartidários (embora os homens que a integram sejam do exército nacional e do Partido Renamo) e viabilizar a implementação do pacote de descentralização no quadro da revisão pontual da Constituição da República que prevê, as eleições dos Governadores Provinciais em 2019 e, eleição dos Governadores e Administradores Distritais em 2024.

Ora, este processo, na minha modesta opinião, não pode avançar sem a constituição do exército único da República, em outras palavras, não pode avançar sem a desmilitarização, desmobilização e reintegração das forças residuais da Renamo, um processo que precisa de muita calma e tempo para executar, sendo que, até hoje, 07 de Fevereiro de 2019, a liderança da Renamo não forneceu as listas dos seus homens a desmobilizar e a reintegrar na sociedade, este processo não pode ser realizado de forma apressada.

Deste modo, sugiro que, haja um pronunciamento peremptório sobre esta matéria, não se pode ficar na incógnita, se haverá ou não eleição dos Governadores no quadro da revisão pontual da constituição, é preciso que diga clara e abertamente que, as condições para a implementação dessa revisão pontual não estão criadas, sei que, da parte da Renamo, haverá o posicionamento de que quem atrasa é o Governo e do Governo haverá a informação de que a Renamo não indicou os homens a integrar e a desmobilizar, para mim, o importante é o que está a ser feito e não o dito e o desmentido.

O adiamento da implementação desta revisão pontual, vai mexer com os eleitores, na verdade, muitos eleitores querem ver as suas províncias a serem dirigidas por pessoas por si eleitas, pese embora não se tenha sagrado o voto directo, secreto, seja através de lista, para os eleitores é um mal menor, comparado com a nomeação do Governador pelo Presidente da República, no entanto, convenhamos, eleger Governadores Provinciais, no contexto de existência de forças armadas fora do exército do estado, constitui maior perigo que adiar essa eleição.

Li, no semanário Dossier & Factos de 04 de Fevereiro de 19, que “arranca, no próximo dia 28 de Fevereiro, a IX Sessão da VIII Legislatura da Assembleia da República, por sinal a penúltima do presente mandato, entretanto, até ao momento, as propostas para viabilizar a governação das províncias, no quadro da revisão pontual da Constituição da República, que introduz a eleição dos Governadores Provinciais, ainda não foram submetidos pelo Governo à magna casa. Esta situação, está a causar algum nervosismo aos Deputados, sobretudo da oposição, que acham estranha a demora na submissão daquela proposta, que deve ser aprovada pelo Conselho de Ministros”.

Estes mesmos Deputados da Assembleia da República, estranhamente, não acham estranho que, a caminho de um evento dessa magnitude, a eleição de Governadores, ainda se mantenham homens residuais da Renamo, armados, nas matas deste Moçambique, estes mesmos Deputados, que são os representantes do Povo, nossos representantes, não acham estranho que, apesar do acordo assinado a 06 de Agosto entre o PR e o líder da Renamo, a liderança da Renamo esteja a “marcar passo” em relação a matéria tão sensível quanto delicada, como a desmilitarização, desmobilização e reintegração, deixando crer que, esse não é um problema, outros dirão, “os homens residuais da Renamo não são nenhum perigo”, também acredito que não o são hoje, não sabemos o que poderá acontecer amanhã num outro contexto de governação!

Gostemos ou não, não podemos comparar o exército nacional ao grupo armado do partido Renamo, o exército e a PRM, são o garante da soberania e dá Ordens e Tranquilidade Públicas, as forças residuais da Renamo, no caso, são perturbadores da ordem pública, quando actuam, os militares e a PRM escoltam viaturas e pessoas para as proteger desses homens. Por mais defeitos que tenha a PRM, a ela compete garantir a nossa segurança e tranquilidade, por isso, independentemente da disciplina que possam ter, os homens residuais da Renamo, eles são uns foras da lei, é preciso enquadrá-los.

Dito isto, sou de opinião que, o Governo de Moçambique e a liderança da Renamo encontrem um calendário mais ajustado para realizarem a desmilitarização, desmobilização e reintegração dos homens residuais da Renamo, condição sem a qual, não podemos avançar para as eleições dos Governadores Provinciais no quadro da revisão pontual da Constituição da República, atrevo-me a dizer que, a eleição dos Governadores é, e deve ser, refém da desmilitarização, desmobilização e reintegração dos homens residuais da Renamo, minha opinião!

Nota prévia: para não entrar no mato e embalar num debate eivado de argumentos, fértil em ataques pessoais e objectivos obscuros, socorro-me de um instrumento legal que norteia o funcionamento das agremiações desportivas em Moçambique: a Lei do Desporto.

O artigo 48 na sua alínea 2 refere que os titulares dos órgãos sociais das federações e associações desportivas provinciais e distritais só se podem recandidatar uma vez.  O mesmo artigo, já na sua alínea 1, diz que a duração dos mandatos deve ser de apenas quatro anos.  

O artigo 43  da Lei de Desporto refere que as federações desportivas nacionais estão sujeitas a fiscalização pela entidade que superintende o desporto, neste caso o Ministério da Juventude e Desportos através da inspecção-geral.

Acontece, pasme-se, que tal tem sido pontapeado perante o olhar impávido do Ministério da Juventude e Desportos.  A título de exemplo:  o mandato do actual elenco da Federação Moçambicana de Basquetebol, encabeçado por Francisco Mabjaia, venceu em Junho de 2018, sendo que na altura devia ter sido convocada uma assembleia-geral para a eleição de novos corpos directivos.

Equivale, isso, dizer que a Federação Moçambicana de Basquetebol está fora do mandato há cerca de oito meses.

Quais criadores do tal e qual sem igual, as alinhadas associações provinciais de basquetebol, sem mandato para tal e numa clara violação da Lei do Desporto, decidiram que Francisco Mabjaia devia continuar como presidente da FMB até Dezembro de 2019!

O que, feitas as contas, colocaria Mabjaia num caso sem igual: presidir uma agremiação desportiva com cerca de um ano e meio fora do mandato. Não procede, não procede mesmo, o argumento de que havia necessidade de o actual elenco continuar com o trabalho que esteve a desenvolver porque há várias actividades este ano!

Quer dizer, quando houve a reeleição de Francisco Mabjaia não se sabia que este ano teremos os campeonatos africanos de basquetebol seniores masculinos e femininos, provas previamente calendarizadas pela FIBA-Africa? Não sabíamos que temos um ciclo olímpico?
Por uma questão de elegância, e se quisermos até de ética, Mabjaia não devia aceitar esta proposta das  enredas em choque com a lei  associações províncias de basquetebol.

Mabjaia, sejamos claros:  teve bons resultados durante o seu mandato. Qualificamo-nos, na sua era, para um Mundial de basquetebol em seniores femininos, em 2014, na Turquia, conquistámos a Taça dos Clubes Campeões Africanos de basquetebol em 2012 (extinta Liga Desportiva) e Ferroviário de Maputo (2018, em Maputo).

O mérito do elenco de Francisco Mabjaia  não se fica por aqui: foi no seu mandato que, pela primeira vez, Moçambique assegurou a presença no Campeonato Mundial de sub-19, entre outros ganhos.

Mas nem tudo foi um mar de rosas, diga-se! Não se fez formação de qualidade.
Pelos feitos e defeitos, sujeitos a escrutínio por parte dos fazedores da modalidade da bola ao cesto, Mabjaia merece sair bem  pelo trabalho que (não) fez e  ser colocado em cheque. Precisamos, em todas as esferas, de pessoas comprometidas com o trabalho. Precisamos de pessoas competentes que fazem bem o seu trabalho. Porca Madona, diria o poeta.

PS: o desfecho dos campeonatos nacionais de juniores masculinos e femininos, no pretérito fim-de-semana, não dignifica o basquetebol moçambicano. Não dignifica os fazedores da modalidade.

Apagão no pavilhão do Maxaquene no decurso da final de juniores femininos a sete minutos do fim, boicote  da equipa da casa a final de juniores masculinos e não realização dos quartos-de-final no dia marcado por falta de pagamento aos árbitros não valorizam esta modalidade. Vamos reflectir, deixar os egos de que somos mais que fulano A e B e lutar pelo desenvolvimento do basquetebol?

Introdução
Naturalmente, em qualquer país que desponta para o mundo, comemorar dez anos de pós-graduação simboliza conquista, busca incessante pelo conhecimento e, obviamente, desenvolvimento. Poderemos não ter a melhor pós-graduação do mundo, todavia  começamos a sua consolidação e, mais importante, será o nosso referencial de desenvolvimento nos próximos anos.

Depois do “boom” nos cursos de graduação, um pouco por todo o país, a Universidade Pedagógica assume-se como um farol e um marco no número de quadros produzido. Esgotaram-se os tempos dos certificados e diplomas de graduação.

Hoje, num mundo em competição e com o surgimento, por exemplo, das Nano Ciências e da Robótica, os desafios da pós-graduação fixam-se no aumento do investimento financeiro, em melhores condições logísticas, na formação de docentes e investigadores, sendo a internacionalização um factor de normalização e de regulação a ter em conta nas prioridades de desenvolvimento traçadas.

Defendo, então, a necessidade de uma pós-graduação emancipada – livre e independente –  que, em poucas palavras, se traduz numa pós-graduação epistemologicamente inclusiva e integradora dos saberes do Sul.

O mundo primitivo do Desconhecimento
Os primeiros seres humanos tiveram sempre uma relação de assombro com os fenómenos naturais e, principalmente, com o Universo. Eramos incapazes de compreender e interpretar, racionalmente, todos os fenómenos que ocorriam ao nosso redor. Por conseguinte, foram criados, ao longo de séculos, um vasto panteão de Deusas e Deuses que explicavam, ou serviam de base para explicar, todos os fenómenos naturais. Estas Deusas e Deuses serviram de argumento para a falta de racionalidade científica, mas era, sobretudo, o conforto e a protecção o que mais importava.

As Deusas e Deuses que ganharam diferentes denominações e designações justificavam, desde as mudanças sazonais com Perséfone, até as subidas e descidas dos mares que eram atribuídas a Poseidon, ou até, a infertilidade causada por Juno. Por conseguinte, estas inúmeras divindades não explicavam, apenas, os fenómenos da natureza, como serviam também para explicar as enfermidades e as doenças com que a humanidade se debatia.

Com o aumento do conhecimento científico as lacunas da compreensão humana foram, gradualmente, sendo preenchidas, na mesma proporção que as divindades foram desaparecendo. São poucas o que resistiram ao tempo e todos eles estão, hoje, associados ao fenómeno de fé.

Actualmente, com uma sociedade intelectualmente evoluída e com níveis tecnológicos excepcionais, não só deixamos de acreditar e depender das divindades, como podemos recriar esses fenómenos.

Persiste a relação científica baseada e produzida no hemisfério norte. Vivemos dependentes da ciência produzida e estruturada nas escolas e correntes de pensamento eurocêntricas. É, por outras palavras, uma relação colonial com a própria ciência. Não nos emancipamos cientificamente. Persiste a falta de cultura científica e encontramos justificação para os fenómenos que acontecem ao nosso redor em mitos e crenças.

As Epistemologias do Sul
Diferentes cientistas começam a questionar esta relação norte-sul e apelam para que se aposte num conhecimento intrínseco e que explique e redescubra os fenómenos locais. Maria Paula Meneses escreve, a propósito desta relação, “A constituição mútua do Norte e do Sul e a natureza hierárquica das relações Norte-Sul permanecem cativas da persistência das relações capitalistas e imperiais. No Norte global, os ‘outros’ saberes, para além da ciência e da técnica, têm sido produzidos como não existentes e, por isso, radicalmente excluídos da racionalidade moderna. A relação colonial de exploração e dominação persiste nos dias de hoje, sendo talvez o eixo da colonização epistémica o mais difícil de criticar abertamente. … Esta hierarquização de saberes, juntamente com a hierarquia de sistemas económicos e políticos, assim como com a predominância de culturas de raiz eurocêntrica, tem sido apelidada por vários investigadores de ‘colonialidade do poder´.”

As epistemologias do Sul seriam a minha proposta de argumentos para que este debate integrasse a agenda das  instituições de Ensino Superior em Moçambique. Precisaremos  de ter consciência e assumir a nossa dependência  em  relação ao poder  hegemónico e científico do Norte. Deste modo, reequilibrar os saberes e encontrar racionalidade para vários fenómenos sociais e culturais dos nossos países e povos, começa a ser uma tarefa urgente e obrigatória.

Como explicaremos, epistemologicamente, um crescente número de fenómenos que ainda grassam no campo e, por vezes, nas cidades e que ultrapassam, largamente, a normalidade?

Os Desafios de Pós-Graduação em Moçambique
Os desafios da pós-graduação passam por prestar mais atenção a autonomia epistemológica – produzir conhecimento comprometido com a realidade de Moçambique.

Produzir ciência e tecnologia com os olhos voltados para o Sul e, não somente, para o Norte. A inspiração para a pós-graduação não deveria ser apenas para os centros internacionais de conhecimento localizados em contextos distantes da própria realidade africana.

Com certeza, o intercâmbio internacional e a produção científica produzida no eixo Norte têm muito a contribuir e, ao vislumbrá-los, compreenderemos o tanto que, ainda, podemos avançar.

Mas o mundo é muito maior do que o Norte. Há beleza, conhecimento, tecnologia, sabedoria no Sul, onde se encontram, por exemplo, África, Ásia e América Latina. São conhecimentos ancestrais e cristalizados pelas guerras civis, conflitos e colonialismo ou agora pelo Neo-liberalismo.

Temos o dever de olhar para dentro, para as nossas comunidades, a nossas universidades devem fazer eclodir um diálogo epistemológico que valorize os conhecimentos que produzimos. Compreender o quanto nos falta de investimento interno para fazer desabrochá-los, bem como, reconhecer os sujeitos que os produzem e o potencial de ciência e tecnologia que temos em Moçambique. Isso poderá ajudar a repensar a formação de quadros, repensar as áreas que mais necessitam de investimento, os critérios para a internacionalização.

A internacionalização, a troca científica entre Moçambique e restantes países parceiros só atingirá um carácter emancipatório se não negarmos os conhecimentos produzidos pelo próprio país e potencializamos o nosso desenvolvimento científico e tecnológico interno.

Epistemologias do Sul como Conceito e Prática
Nas últimas décadas, diferentes cientistas apresentaram o conceito “etnos”. Ubiratan d’Ambrosio e até o Etnomatemático Paulus Gerdes sempre lutaram por uma ciência emancipar e de raiz culturalmente forte. Boaventura de Sousa Santos, igualmente, propôs o conceito de “Epistemologias do Sul”. Essas intervenções poderão ser um aporte importante para nos fazer avançar na compreensão da pós-graduação em Moçambique no contexto da ciência. Por meio das Epistemologias do Sul podemos compreender como a constituição conjunta do Norte e do Sul marcada, historicamente, por relações coloniais de poder e hierarquia continuam perdurando até hoje e são retroalimentadas pelas relações capitalistas.

O conceito ajuda a compreender como no Norte Global, os “outros” saberes, que não fazem partem do que, historicamente, foi construído como ciência e técnica tem sido produzidos, activamente, como inexistentes e, por isso, foram excluídos da racionalidade moderna. Há um processo histórico de dominação e exclusão que hierarquiza saberes, práticas e os sujeitos que os produzem.

Trata-se de um processo complexo que também envolve a economia, a política, a cultura. Ao olhar para Moçambique podemos perguntar:
1.Vivemos ainda sob a égide da colonização epistêmica na nossa pós-graduação?

2.Ou avançamos para práticas epistemológicas mais emancipatórias e que nos valorizem?

Mas há alternativas a construir. Entendendo que o eixo Sul do mundo é responsável por uma rica produção de conhecimento, transformada intencionalmente em ausência no contexto das relações de poder e dominação, porém, podemos nos desafiar a olhar com outros olhos para o lugar de Moçambique, no contexto africano, e internacional, da ciência e tecnologia e construir um novo lugar para a nossa pós-graduação. Um lugar que nos retire da periferia em relação a ciência e indague a relação centro- periferia, Norte/Sul, à luz das Epistemologias do Sul.

Ser periferia é, também, uma posição política atribuída de fora para dentro. Mais do que pensar, perifericamente, em relação a um determinado centro, é importante discutir por que ocupamos esse lugar no mundo, quem nos atribuiu esse lugar, por quê e o que perdemos e o que ganhamos com essa situação. E ainda como sair dela. Não nos orgulha ser a imagem e semelhança do Norte, prestigia sim construir e posicionar a nossa academia no eixo Sul, com o entendimento crítico que nos podemos conduzir as Epistemologias do Sul. As Epistemologias do Sul poderão ajudar a focar onde temos que nos posicionar no mundo para que nossos conhecimentos, riquezas minerais, forma de produzir alimentos, comunicação vertical e horizontal, ancestralidade e relação com África e diáspora sejam reconhecidos, valorizados, potencializados e fonte de mais investimento.

As Epistemologias do Sul mostram que existe uma constelação de saberes produzidos no Sul e que nem sempre são considerados, enquanto, tais pelo padrão hegemónico da ciência ocidental. Olhar a pós-graduação em Moçambique com essas lentes significa um olhar emancipatório sobre nós mesmos. Que reconheça nossas riquezas e esforços. Que saiba dos nossos limites e construa políticas e estratégias para superá-los. Mas que sempre nos valorize como país rico em cultura e conhecimento.

Temos o desafio de as nossas universidades e a pós-graduação construírem os seus currículos na perspectiva das Epistemologias do Sul. O facto de vivermos em Moçambique e em África nos coloca no Sul. Um Sul geográfico e político. Fazemos parte dos países do hemisfério Sul que, politicamente, lutam para se estabelecer como nação autónoma e democrática no contexto das recentes formas de dominação capitalista e neoliberal, as quais são reedições da actual dominação colonial.

Essa localização geopolítica não deveria ser vista como algo negativo.
Se soubermos lidar com a nossa História de forma positiva, valorizando o nosso processo de libertação colonial, de construção da paz e, os desafios de nos efectivar uma democracia mais consolidada, poderemos tirar vários exemplos que nos direccionem rumo à emancipação social, política, cultural, social e epistemológica necessária. E essa emancipação epistemológica poderá estar na compreensão de que Moçambique possui todas as condições para colocar em prática as Epistemologias do Sul no campo do conhecimento.

E esse é um papel da Universidade. Moçambique possui uma diversidade e riqueza cultural incríveis, diferentes línguas nacionais, tradições, costumes que são a base da nossa forma de viver, por mais que estejamos inseridos no mundo globalizado. Apesar da desigualdade socioeconómica e regional que lutamos para superar, temos técnicas agrícolas milenares ainda sendo desenvolvidas que, em diálogo com os referenciais modernos de plantio e de colheita poderiam dar espaço ao surgimento de algo novo.

Esse processo violento, muitas vezes, é internalizado pelas suas próprias vítimas e o cidadão e a cidadã comuns acabam por desvalorizar os ricos conhecimentos ancestrais dos quais são herdeiros e que orientam a sua vida, a relação com a natureza e com a cultura. Mesmo aqueles que ocupam lugares de destaque na sociedade, possuem melhor poder aquisitivo e as lideranças políticas, de forma global, no seu quotidiano familiar, na criação dos filhos, quando saem para o exterior em missão de trabalho ou, de a estudo e, até mesmo aqueles moçambicanos que residem em outros países, guardam em si saberes, práticas, visões de mundo, línguas locais que aprenderam na sua comunidade, possuem um pertencimento étnico que os vincula com Moçambique, o seu contexto local e a sua cultura.

Essa pluralidade de experiência, de jeito de ser na vida e na sociedade, congrega uma riqueza de produção de conhecimentos. Compreender esses conhecimentos e, inclusive, admitir que eles podem ajudar a indagar o próprio conhecimento científico, principalmente quando este se distancia do povo e da vida, seria um interessante caminho para a Universidade na perspectiva das Epistemologias do Sul. Conhecer a sabedoria dos anciãos, das pessoas comuns, das comunidades de onde vêm os nossos estudantes, entender que no interior há riquezas de práticas e de conhecimentos tanto quanto na capital poderá também nos aproximar dessa perspectiva.

Conclusão
O grande desafio é como transformar os currículos das nossas universidades. Entender que a Universidade vista como lócus do conhecimento científico deveria ser, também, uma habitação digna para as outras formas de conhecimentos com válidos, implica em primeiro lugar reconhecer, valorizar e compreender os sujeitos que os produzem.
Interagir e não as separar. Socializar e não guardar para si. Democratizar e não privatizar.

Reconhecer a pluralidade de saberes ao invés de primar por uma monocultura de saberes. São alguns princípios fortes que nos desafiam se queremos mudar os currículos e as práticas epistemológicas e políticas das universidades e da pós-graduação. Mas para isso, há que se realizar um processo complexo e necessário: descolonizar o conhecimento e o currículo. Só assim, teremos abertura para iniciar a transformação necessária que poderá nos levar rumo na Pós-Graduação emancipada.

Referências Bibliográficas
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3.CASTANHO, Sérgio (Org.). O que há de novo na educação superior: do projecto pedagógico à prática transformadora. Campinas: Papirus, 2000
4.FULLER, Alison; HEATH, Sue; JOHNSTON, Brenda (Eds.). Rethinking widening participation in higher education: the role of social networks. London: Routledge, 2011
5.LUCKESI, Cipriano [et al]. Fazer universidade: uma proposta metodológica – 17 ed. São Paulo: Cortez, 2012
6.OMAR, Maomede Naguib. O ensino superior em Moçambique: políticas, concepções e práticas dominantes. Maputo: Alcance Editores, 2017
7.Sousa Santos, Boaventura de. A Universidade no Século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade. São Paulo: Cortez, 2004
8.    Sousa Santos, Boaventura de; Menezes, Maria Paula (orgs.) Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009

Felizardo Vanica era o cabeça do grupo vencedor do concurso “Poetas distritais de Moçambique”, organizado pelo Centro Cultural Franco-Moçambicano.

Vanica era o Alberto Caeiro de Matsinhane, no distrito de Manjacaze, onde a pastagem e o cultivo da terra continuam a ser os meios de subsistência por excelência. O seu jeito manso, pacato e encantador, trouxe-lhe a alcunha de “Alberto Caeiro”, atribuida pelo ex-professor de português recém chegado do Ribatejo (em Lisboa), que se tornara no único padeiro de Matsinhane.

Felizardo Vanica não era porém averso a metafísica e entendia muito de política e de história política europeia, encorajado por uma biblioteca situada nas instalações da sua igreja, que por algum motivo, tinha uma vasta colecção da história francesa, de A à Z, desde a idade média baixa ao modernismo. Era à hora d’almoço que Vanica passava a "sesta" a ler no cemitério — o único local onde estava certo de que o silêncio era respeitado, mas também porque tinha prazer em ler para os mortos.

– Faltam 4 dias, Vaquinho! – gritou seu vizinho, acenando o “adeus” corriqueiro, pelas 6:30 da manhã, quando Vanica regressava do seu primeiro ofício – a pastagem. E as crianças (levadas pela onda) corriam atrás de Vaquinho, exclamando inocentemente: “faltam 10/4/3/2 dias, Vaquinho!” – em jeito de provocação, para que Vanica desviasse a sua atenção das vacas por alguns segundos e simulasse uma perseguição as crianças.

Finalmente chegou o dia em que aquele madrugar seria o início de uma data histórica para todo o distrito de Manjacaze e quiça da provincia de Gaza. “Alberto Caeiro” iria subir avião pela primeira vez, rumo às terras de Napoleão. Durante o percurso a Maputo, iriam parar em outras localidades para levar outros poetas, igualmente vencedores.

O CCFM achou por bem organizar a viagem para janeiro, para que os viajantes pudessem vivenciar um ambiente totalmente diferente.

Para o constrangimento de Vaquinho, uns tantos dos seus comparsas traziam mantas consigo e andavam pelas ruas de Paris embrulhados nelas. “Epah, parece que manta aqui é só para dormir!” – gozou Vaquinho, apontando para um negro sem abrigo, deitado num banco do Jardim de Luxemburgo.

– A tal de “Mana Elisa” nem bonita é! Afinal de contas, por que tem tantos likes? – desabafou Agostinho.
– Mona Lisa foi inovador no seu tempo. Na altura, a tendência era de pintar perfís e não bustos numa perspectiva frontal. Depois temos aquele sorriso misterioso, namoradeiro e comunicativo dela, que também não era comum ser retratado; a questão da paisagem tornar-se desfocada a medida em que a distância aumenta, é também um conceito inovador nos quadros da epoca … – ia explicando a madame Chateau.

– Aaah, enquadrado na actualidade, aquele quadro não é nada, madame! Desculpe a sinceridade! – continua Agostinho, na sua abordagem pouco contida.

– Pois é, mas nunca se deve esquecer o contexto no qual uma realidade se insere. “Il n'y a pas de hors-texte!” disse Jacques Derrida, hmm? – pergunta que se manteve retórica por conta de Vaquinho que beliscou Agostinho a tempo.

Vaquinho pediu que lhe levassem à Rue de la Ferronnerie, onde o seu herói francês foi assassinado. Aquele que, tal como o seu herói moçambicano (Eduardo Mondlane), por razões distintas, era tido como símbolo de unidade nacional.

A boa diferença entre os franceses e os bons costumes da ética e etiqueta moçambicanas é que, embora a cabeça de Eduardo Mondlane fosse também valiosa, em caso algum seria leiloada – literalmente – como foi o caso do Rei Henri IV, ainda que de “mero” crâneo se tratasse.
Fim

Os fundadores das organizações que deram origem à FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique, refiro-me ao Matias Mhole, Baptista Chagonga e delino Gwambe, merecem um lugar na história libertária de Moçambique, ao ousarem criar organizações para fazer frente ao colonialismo português.

Na época que o fizeram, mostram que não são cidadãos comuns, são homens que, cada um à sua maneira, queriam um Moçambique livre da colonização portuguesa.

A história de Moçambique não se pode cingir a tratar esses homens ousados como “desertores, traidores ou conspiradores”.

Temos de olhar para essa época fora da visão exclusivista da Frente de Libertação de Moçambique.

Aliás, até os combatentes da Renamo que desencadearam uma guerrilha de destruição maciça e sem precedentes, com milhões de mortos, são tratados como guerrilheiros de luta pela democracia. Por isso, julgo que é chegada a hora de rever a nossa história libertária.

Aqui e agora, não pretendo discutir se os guerrilheiros da Renamo merecem ou não esse tratamento, no entanto temos que ter a honestidade para assumir que seja feita a justiça aos homens e mulheres que no contexto da revolução foram tratados como “traidores”.

A história deve absolvê-los de forma digna e reconhecer o seu mérito.

Celebra-se, a 03 de Fevereiro de 2019, mais um aniversário dos Heróis Moçambicanos.

Trata-se de uma data congregadora, pois foi o dia em que Eduardo Chivambo Mondlane, presidente da Frente de Libertação de Moçambique, ao abrir uma encomenda que continha uma bomba, encontrou a morte, nos escritórios da Betty King, sua ex-secretária.

A história oficial atribui à PIDE (Polícia Secreta Portuguesa) a autoria da bomba, mas não existe uma confirmação oficial.

O que é importante saber como é que esta encomenda chegou ao presidente da FRELIMO e, sobretudo, porquê foi ele a abrir?

A encomenda bomba que vitimou o primeiro presidente da FRELIMO acontece seis meses depois do II Congresso que reelegeu Mondlane como presidente e Urias Simango como vice-presidente.

E foi numa altura em que se agudizavam as contradições internas da Frente de Libertação de Moçambique. Por exemplo, fala-se de Lázaro Kavandane, que era secretário provincial da FRELIMO, ter tentado forçar que o congresso da FRELIMO se realizasse em Tanzânia. Esta atitude pretendia impedir a prestação de contas, numa altura em que os lucros do trabalho de comercialização beneficiava a si e seus colaboradores.

Lázaro Kavandane abandonou a FRELIMO em 1961, depois da morte de Mondlane. Mas outros eventos importantes tiveram lugar em Março de 1968, designadamente um motim de estudantes seguido de abandono da maioria.

Depois das investigações, viria a atribuir-se a responsabilidade pela agitação ao padre católico Mateus Gwengere.

Em Maio de 1968, um grupo invadiu os escritórios da FRELIMO e assassinou Mateus Sansão Muthemba, como forma de exigir a libertação imediata de Cabo Delgado, o que nos leva a presumir que se trata do grupo de etnia Makonde.

Foi nesta sucessão dos acontecimentos que Eduardo Mondlane é assassinado. Mas estas clivagens internas não eram novas no seio da Frelimo. Na verdade, a união dos três movimentos parece que não foi pacífico.

Adelino Gwambe, um dos co-fundadores da FRELIMO, foi expulso do movimento, alegadamente por assumir “comportamentos pouco convenientes”. Seguidamente, criou o UDENAMO – MONOMOTAPA, mas as crispações internas levariam à criação do FUNIPAMO – Frente Unida Anti-Imperialista Africana de Moçambique.

Reza a história que o líder da UDENAMO organizou, em Novembro de 1964, em Lusaka, na Zâmbia, uma conferência que tinha por objectivo reagrupar os movimentos desavindo.

A direcção da FRELIMO não aderiu, mas o líder da UDENAMO voltou a tentar a reaproximação, em Maio de 1965, tendo tido, mais uma vez, a resposta negativa da FRELIMO.

Este facto viria a propiciar a emergência de uma organização nova, constituída pela nova UDENAMO, MANC (Mozambique African National Congress) e da nova MANU, que se juntam ao COREMO, tendo como sede Lusaka, na Zâmbia.

Mais uma vez, a união destes três movimentos ao COREMO volta a estar em causa. A eleição de Paulo Gumene para presidente e Amós Sumane para vice-presidente, na conferência de 1966, não conseguiu criar a serenidade necessária para se desenvolver o trabalho político-militar de forma tranquila.

Aliás, em 1968 verificaram-se deserções em massa, e alguns desertores foram aliar-se à FRELIMO. Em 1971, a união dos três mais a COREMO encontrava-se esvaziada política e militarmente.

Os factos que se sucederam à fundação da Frente de Libertação de Moçambique, a 25 de Junho de 1962, culminando com a morte do Dr. Eduardo Mondlane, deveriam levar o Estado a repensar sobre os seus Heróis Nacionais.

O facto de Matias Mhole ter fundado o MANU (União Maconde de Moçambique) em 1954, e de se ter reforçado em 1959 através da união das associações mutualistas; Baltazar Chagonga ter fundado em 1961 a UNAMI no Malawi; e Adelino Gwambe ter fundado a UDENAMO em Salisbúria, actual Harare, é suficiente para que estes políticos sejam chamados de Heróis Nacionais.

Adelino Buque

 

Ler & Escrever

 (Primeira parte, a continuar)
A maioria das vozes femininas que começa a publicar poesia em Moçambique praticamente no início do século XXI, não evidencia filiações estéticas, ou heranças intertextuais definidas; mostra uma proliferação de dicções muito diferentes: “um emaranhado de formas temáticas sem estilos ou referências definidas” (Heloisa Buarque de Holanda), mostrando que fazem parte de uma certa literatura contemporânea,  que encena a vontade de incorporar no seu seio também aquilo que não é consentaneamente considerado “literatura.” São escritas do sentir e do alheamento, de narcísica exposição do corpo e de seu ocultamento, de temáticas relacionadas com a mulher e a sociedade, entre outros temas. Embora já tudo tenha sido sentido e mostrado e ocultado nesta nossa época, a poesia moçambicana contemporânea das mulheres é uma variação de escolhas, sem ordenamento formal ou temático. Um mix ou combinatória com várias entradas possíveis. Vamos então, para iniciar um percurso, ensaiar ler duas dessas vozes.

Amélia Margarida Matavele, a Pré-Destinada: “A noite convida-nos a dançar xitshuketa”
Começo aleatoriamente com uma das mais jovens autoras, membro do movimento literário Kuphaluxa, com um único livro publicado, Xitshuketa, (nome de uma dança de improvisos e surpresas), Lisboa: CEMD Edições, 2015. Uma escrita debutante que ensaia o registo da música e da pintura, que oscila entre a autoria das imagens, dos ritmos e das cores. A evocação da pintura de Malangatana percorre alguns dos poemas, permitindo perceber a paixão criativa e a procura da arte e da inspiração que guiam a poeta. O sujeito destes poemas é simultaneamente cândido e explosivo nas suas emoções; assume o desejo, interpela o amor; questiona-se sobre ele, oferece-o, procura-o na arte. Uma singela vocalidade que apela os amigos, a escrita, os ritmos da música, que concilia a física dos desejos assumidos com o jogo (cabra-cega) da poesia:

No escuro/ Pisoteio o chão do teu corpo/estudo o teu relevo/ Descubro planícies, planaltos em ti/ E juntos fazemos montanhas.// O escuro da tua pele  incita-me a silenciar a tua boca/ e a aterrar em teu corpo/ Não sendo mais eu, mas uma espécie de corpo-suga/ a montar-te em cabra-cega/ suspirar em ar hipnótico ao teu ouvido,/ amor, hoje, há poesia. (29)

As sonoridades da dança do desejo, do envolvimento sensual explicitam-se nos ritmos do corpo, como se lê em alguns dos poemas como  Timbila: “Naquela noite/ O escuro convidava-nos a celebrar os desejos/desenhávamos nossos corpos.(…) A timbila dos meus olhos Rimou com a serenidade dos teus lábios,/ O roçar dos nossos  desprevenidos lábios/ autorizou-me o deliberar o grito dos bichos. “(33).                                                                                                                           

Também é um sujeito crítico que escreve relativamente à exploração feminina, aos vícios do álcool, ao abuso de menores (poema Catorzinha) e outros aspectos mais problemáticos da sua terra (poema pérola do Índico).  Entre as revelações do corpo e da arte e as lágrimas do amor, a confessional voz de Amélia Margarida é primavera, começo: “Nas primaveras, / Margaridas enamoram as orquídeas,/ A natureza seduz os vocábulos! (24).

Rinkel, temas sobre a mulher
Rinkel é o pseudónimo de Márcia dos Santos e publicou três livros de poesia, Almas Gémeas (AEMO, 1998), Revelações (AEMO, 2006), Emoções e Abstracções (AEMO, 2011). Nascida em 1977, e natural de Inhambane, Rinkel nos primeiros poemas do livro de estreia Almas Gémeas mostra uma escrita ainda um pouco confes­sional e revoltada, em que aborda vários temas, questionando as injustiças sociais, nomeadamente a questão racial, a infância triste dos meninos de rua, dos orfãos da guerra, dos meninos soldados, nascidos e crescidos no meio da violência da guerra civil. Leia­?se nesta perspectiva o poema Mártires da Democracia: “A ti criança/ parida quando tua mãe morreu/ nos teus braços.// A vós heróis antes de serem homens.//Tu que pegaste na arma/ que pegaste na catana/ Tu que mataste impiedosamente/ com a mente pura de uma criança/ adulterada” (14). Os poemas relativos à parte Cores da Vida, ou a Mas o que é isto? questionam as contradições de sentimentos não resolvidos, entre caminhos desencontrados e o confronto do sujeito com uma realidade social e política crua, incapaz de solucionar.” O amor a acabar/ a guerra a dominar o mundo/ É triste, mas é a realidade/ Eu vivo este presente (…) São as crianças que morrem/ As mães que soluçam/ São as dores de parto/ O pranto de perder um filho” (25).

Na sequência destas interrogações que os poemas colocam, os textos seguintes tratam do mundo urbano, em que a droga é fuga e procura de alheamento, um caminho para a morte, onde também o aborto, a sida, proliferam. Rinkel questiona usando o sinal gráfico da interrogação –?Livre? – e centraliza o tema da mulher, tratado sob vários ângulos, nomeadamente na sua condição subalterna, numa sociedade preconceituosa. “Mulher de ti/ Emancipada/ Num mundo cheio de preconceitos/ Reprimida/ Mas livre/ de pensar e de agir/?Livre?” (33)

O poema Eu aponta para o desenquadramento social do sujeito, num desejo de pacificação interior e de descoberta de si: “Não sei o que quero/ quando quero/onde quero” (31). Um outro poema “À procura de espaço” será um dos únicos textos da colectânea onde encontramos alguma empatia entre a vastidão do céu, enquanto procura de idêntica luz de sonho “Eu e as estrelas/ olhamo­?nos incessantemente/ à procura de algo/ Que não sei o que é/ porque elas não sabem o que são// Eu e as estrelas/ no firmamento/ no infinito/ no indefinido (30).

Neste primeiro livrinho de Rinkel verificamos que a enunciação feminina se centra nos temas da maternidade, no tópico da infância, da repressão social sobre a mulher, em suma, no tratamento das limitações dos seres mais frágeis da sociedade, as crianças e as mulheres, em confronto com a violência da guerra, limitados e dominados pela sua periferia social.

No seu segundo livro, Revelações (AEMO, 2006), encontramos uma voz mais amadurecida e sensualizada. Como o título indica há revelação do sujeito e da sua relação com o mundo. A dedicatória do livro insiste sobre a condição da mulher. Aí lemos: “Às sofredoras./ Às batalhadoras./ Às Amantes da vida./ Às grandes mulheres./ Às verdadeiras mulheres./ Às que carregam o mundo nos seus ventres.” Nota­?se ao longo do livro a aprendizagem da dor e do prazer de ser mulher e o fortalecimento do sujeito mediante este conhecimento.                                                                            
 
Uma parte do livro denuncia as histórias do quotidiano das mulheres, como, por exemplo, a ilusão amorosa. Leia­?se Ana Faria e a Lua: “Em delírios lunares/ de borboletas gritantes,/ ao som de patéticas/ confissões// E a lua!// Eu e ela,/ ambas sem sol./ Sós. (…) Em delírios lunares/ borboletas gritam/ patéticas palpitações,/ de patéticos /corações” (16), ou  leia-se o poema Maninha que conta a história do estrupo de uma menina de 11 anos, e nesta sequência  surge um outro tema  como o HIV (27).

A oscilação entre liberdade e cativeiro da mulher é tratada no poema com esse mesmo título: “Na procura da minha liberdade/ Encontrei a injustiça e o cativeiro/ quis mudar o mundo,/ Mas o mundo mudou­?me a mim” (12), bem como no poema Menina Cheia: “Menina das cheias/ Cheia de desgraça/ Cheia de nada” ( 13), mas é sobretudo o poema Oh Mulher! (24) e Lei da Família Moçambicana, em que a autora denuncia a condição de dependência feminina: “Barrigas grávidas/ De pais ausentes, infiéis, polígamos// Amantes/ Sem planos/ Sem promessas/ Sem esperanças/ Sem futuro// Apenas amantes” (23), que retoma o que na ficção o romance Niketche, de Paulina Chiziane, tão bem documentou.

Há um outro conjunto de poemas neste livro que trata do amor, o amor de ser mãe, e o de ser filha, que são a revelação de um amor maior e incondi­cional. Em Conforto lemos: “Ouço uma voz de conforto/ Imagem feminina que acalma os meus sentidos./ Como se estivesse ainda em seu ventre.// É noite e sinto­?me segura/ Na escuridão/ Deitada no colo da minha mãe.” (p. 29). Por outro lado o tema da maternidade ganha uma especial evidência, como observamos em especial no texto A Minha Mais linda Poesia (a essência da mulher: ser mãe); é uma pequena ode de gratificação pela dom de dar vida: “És a poesia mais linda da minha vida!/ Meu ventre gerou o mundo, gerou o teu ser/ Eu tornei­?me poeta da tua existência.// Sem ti minha poesia era apenas palavras” (33).

Outros poemas do final do livro como por exemplo Beijos, Adormecida, Teu Corpo Meu Corpo, Não Te Cales fazem uma outra revelação, a de uma sensualidade harmonizada. O interior do quarto ou a plenitude do mar e da maresia renovam o sujeito na sua merecida harmonia física e espiritual: “tropeço e continuo o caminho…// Ponho os pés na areia da praia/ Respiro profundamente/ E sinto­?me livre” (26), “as estrelas olham para eles os dois/ Como borboletas esvoaçantes/ Estrelas candentes, amor, amantes” (40).

Emoções e Abstracções (Edições Fundac, 2011) um terceiro livro publicado pela autora revela novo amadurecimento das emoções, nomeadamente dos sentidos físicos e mostra uma sensualidade mais assumida, como se pode ler no poema Tu és: “Teu corpo/ Minha perdição// Tua pele/ cheiro a flor// Tua boca/sabor a mel// Teu olhar/ verde e penetrante// Tu, minha casa/ Meu destino” (28), ou ainda no poema Mais Turbo e Acção, em que o sujeito se auto satisfaz numa plenitude solitária, através da imaginação: “Ela está sozinha/ No seu quarto escuro/ começando a sentir o sono/ a apoderar­?se de si e do seu corpo/ Solitário…/ Mas satisfeito…” (34). Os males de amor são desta forma torneados. Por outro lado, o poema Amar diz o seguinte: “Amar…/ duro teste!/ Se não correspondido! (27); há como que uma sabedoria de aprendizagem emocional, como se pode ver no poema Depois, em que observamos a aceitação dos contrários em pacificada harmonia: “Depois da paixão …a separação/ Depois do amor…o ódio/ Depois da vida…uma outra/ Um novo início…// Depois do dia…a noite/ Depois da luz…a treva/ Depois da terra…o mar/ Ondas rolando…” (30). Vários dos poemas da primeira parte do livro, em que se concentram os temas sobre as emoções, tratam o desespero, a guerra, a perdição, aliados a outras emoções que encenam a harmonia, como por exemplo o poema de abertura, Mundo Colorido: Pinto os meus quadros/ Com as cores da vida/ Verde esperança/ Amarelo de angústia, desespero// Pinto a minha vida/ Com as cores do amor/ Sangue vermelho/ Rosa romântica/ Laranja doce// Pinto as minhas emoções/ Com as cores da natureza/ Céu azul marinho/ Puras nuvens brancas/ África negra” (13).

Observamos um sujeito feminino que assume esteticamente os contrastes do amor como uma pintura, e mostra domínio da realização sensual, mantendo a relação com o amor de forma emocionadamente prazeirosa. Na segunda parte da colectânea, intitulada Abstracções, como observa justamente Lourenço do Rosário é retomada a faceta intervencionista da poeta e são tratados, entre outros temas, de novo o tema do HIV, da mulher e da maternidade. Leia­?se o poema intitulado Mulher (40) ou outro Flores de Mim (42), que tratam do esforço de conquista da mulher e dos seus sonhos num mundo de luta e de desigualdades. Neste livro, outros poemas fazem crítica social como Sem Sistema (50) ou Corrupta Democracia: “No lixo tem um bicho/ O bicho gosta do lixo/ O lixo alimenta o bicho/ E o bicho cresce a cada dia// O bicho, o lixo gosta/ Gosta do lixo, o bicho/ E faz do povo o seu luxo”. (51). Os sentidos da utopia e do sonho são todavia interrogados ainda com certa esperança, apesar de muito desencanto: “Patriotismo e integridade faltam/ Nesta geração julgada promissora/ Porém desprovida de ideais/ Reais?…/ Não. Apenas ilegais…// Os belos e radiosos dias/ Serão alguma vez contemplados? (54).

 

–          Temos de vender alguns a Fernando Po!
Dito e feito. Pressionados pela concorrência internacional, os líderes américo-liberianos decidiram vender seus escravos clandestinamente aos espanhóis da Guiné Equatorial, onde os escravos iam trabalhar em diversas plantações, em pleno século XX.

Quando cheguei à Libéria em 1880, tinha eu 15 anos. A nossa mudança de Virgínia para Libéria foi relâmpago. Lembro-me dos meus pais chegarem do emprego – como empregados domésticos do único médico da vila – muito atrapalhados. Minha mãe mandou-me arrumar as roupas dos meus 4 irmãos nos sacos de batata que reservávamos para viagens.

–          Temos de fugir outra vez, mamã? – perguntou o meu irmão mais novo, de 5 anos.
–          Sim! Desta vez vamos fugir para a Liberdade! – respondeu a minha mãe enquanto apertava-lhe os pequenos braços. De seguida abraçou-o, ao mesmo tempo que continuava a gritar no sentido de que nos devêssemos apressar.

A excitação dela era indecifrável. Ora gritava como se a casa estivesse a arder, ora como se tivesse realmente obtido a carta de alforria naquela mesma manhã.

Por fim decidiu revelar que o barco que nos levaria à Liberdade, partia dentro de duas horas.

Enquanto arrumávamos os bens possíveis de serem levados, meu pai ia partindo madeira num cantinno por baixo da cama deles, para de lá extrair o dinheiro depositado trimestralmente. Ele era carpinteiro, serralheiro, pedreiro, padeiro e tudo o que fosse preciso. Trabalhava duro e por vezes, eventualmente grátis, pois os seus clientes, que se comprometiam em pagar no final do mês, iam adiando os pagamentos. Houve uma certa vez em que um dos clientes, ao ver o meu pai no portão, soltou o seu pastor alemão que não poupou nada ao meu pai. Hoje ele é coxo graças a esse ataque.

Não se chamava Liberdade mas sim Libéria.

Fomos recebidos por uma comitiva da igreja. Encaminharam-nos logo para um prédio novo, que ainda se encontrava em construção. Nós nunca tínhamos entrado num prédio. O encanto dos meus irmãos era tanto, que muitas vezes brincavam nas escadas, subindo e descendo, escondendo-se pelos andares.

Os prédios tinham duas entradas: uma frontal e outra traseira. Esta última era por onde a população nativa entrava.

A primeira vez que tive a oportunidade de ver um nativo, foi logo no dia a seguir à nossa chegada. Ele encontrava-se amarrado a uma árvore no jardim localizado na parte traseira do nosso prédio. Estava a ser disciplinado pelo empreiteiro do edifício – um americo-liberiano – por ter roubado 1kg de cimento. Outros nativos testemunhavam o acto emitindo sons que pareciam de reza. Eles falavam outra língua ou então um inglês estranho.

Libéria rapidamente tornou-se na liberdade que nós podiamos ter. Passei a identificar-me como américo-liberiano. Uma classe distinta da dos negros que deixei em Virginia e da que encontrei na Libéria. Se em Virginia éramos negros, aqui éramos brancos.
Fim

 

                                                                       Fomos enganados?!
A evolução das sociedades demonstrou ao longo do tempo que nem todas elas dependem de si mesmas. Há momentos em que claramente se conclui que alguém (estranho) manda nalgumas sociedades e determina o que deve ser feito e como deve ser feito. Isto acontece em sociedades onde o poder político é fraco ou depende dos outros, ou quando está comprometido com outras agendas que o povo desconhece. São outros que, geralmente, determinam as regras de jogo político-económico e que acabam influenciando o ser e estar da sociedade no seu todo. Se a soberania de um Estado reside no seu povo, conforme se tem defendido nas ciências políticas e sociais, verdade é que esse mesmo povo nalgum momento deixa de ter o poder de exercer e decidir sobre matérias que lhe dizem respeito. Não se pode compreender um Estado que se deixa amordaçar por interesses alheios ao seu povo que é a razão da sua existência. Da mesma forma que não se pode deixar de criticar uma actuação passiva em relação a matérias de grande interesse e impacto social como é a das dívidas contraídas sem legitimidade e muito menos obedecer o que a Constituição da República preconiza.

O mais grave é o facto de todo o poder instituído parecer desconhecer (!) que era necessário que a Assembleia da República se pronunciasse e autorizasse previamente a realização de tais dívidas. Valeu a pressão popular para clarificar o mal cometido e exigir a responsabilização, que, infelizmente, ainda não aconteceu.

O arranjo político protagonizado pela Assembleia da República para que as dívidas ocultas fosses inscritas na Conta do Estado, peca por não ter aguardado pela clarificação de todo o processo relacionado com as mesmas, razão pela qual o questionamento popular. Não se pretende com isso dizer que não se podia votar a favor, o que se pretende dizer é que a votação deveria ter obedecido os princípios da prudência e certeza. Ora, se já está claro que as dívidas foram contraídas sem o consentimento da Assembleia da República e se elas estão a causar um mal-estar maior ao povo, então, no mínimo, o que o poder político deveria fazer é pedir desculpas e reconhecer o erro cometido, recuar na sua decisão e exigir que se clarifique a situação antes de se carimbar o voto de aceitação parlamentar. Para além disso, é necessário que se mostre ao povo que há vontade política de se responsabilizar os autores da referida dívida e não deixar que qualquer pessoa especule sobre matérias tão sensíveis de que não possui conhecimento. Tudo quanto se tem dito não mostra clareza absoluta sobre o que aconteceu ou está a acontecer, colocando ainda mais confusão na mente das pessoas.

Não se fala doutra coisa senão das dívidas ocultas. Vive-se um ambiente de especulação e desconfiança que não é benéfica para o País. Uma coisa é certa: Contraiu-se uma dívida que não se sabe ao certo quanto é como é que foi gasto o dinheiro. Ora, os últimos pronunciamentos e desenvolvimentos em face da detenção do ex-Ministro das Finanças, Manuel Chang, sugerem que fomos mesmo enganados. Aliás, considerando o que alguns membros do Governo tem dito, também não sabem ao certo o que aconteceu, senão de que há uma dívida por pagar, resultante de um empréstimo feito a favor das empresas Ematum, Proindicus e Mam. Então, se o Governo não sabia ao certo o que estava a acontecer com as referidas dívidas, porque é que remeteu à Assembleia da República para o seu reconhecimento? Quer parecer que a Assembleia da República ao votar a favor de inscrição das dívidas ocultas fê-lo na plena consciência de que o Executivo estava consciente de que as mesmas eram reais. Partindo do princípio de que os Bancos emprestaram o dinheiro àquelas empresas tuteladas pelo Estado e este avalizou tais empréstimos através das garantias que prestou, certamente que alguém do Governo esteve envolvido nesta operação. Além disso, e ao que se sabe, a empresa promotora da operação foi a Privinvest que montou todo o negócio juntamente com alguns dirigentes moçambicanos. Quanto é que cobrou pelo trabalho? A actual tese de que o Governo não tem conhecimento exaustivo do dossier não é aceitável, embora se compreenda que se trata de membros do novo Executivo, contudo, um dossier que vale 1 bilião de dólares não passa despercebido. Aliás, um dos grandes problemas que ainda não foi esclarecido é se todo o dinheiro foi usado ou ainda existe algum por usar?! Se porventura ainda existe, onde está depositado tal dinheiro e quem foi que depositou? Será que todos os equipamentos foram fornecidos? Se as empresas que beneficiaram de tal montante são do Estado, significa que pertencem ao povo, por isso, o mais certo seria que os seus responsáveis convocassem uma conferência de imprensa e informassem ao povo sobre o que aconteceu em relação aos projectos que ditaram a contracção das tais dívidas e o estágio das empresas em causa! Se o Governador do Banco de Moçambique apareceu em público (embora pressionado) para explicar sobre o apagão das ATM’s, os tais responsáveis deveriam, também, dar a cara. Da mesma forma que seria bom, senão mesmo imprescindível, que um representante da Privinvest viesse a público informar o que aconteceu, pois, quer parecer que em relação ao seu trabalho, se pode aferir um cumprimento defeituoso do contrato, que lhe sujeita a ressarcir o Estado moçambicano pelos danos causados. O mesmo em relação aos bancos que concederam o empréstimo sabendo de antemão que tais projectos não eram viáveis. Depois de o povo conhecer a história, o resto seria deixado a cargo da justiça. A propósito, o Governo moçambicano até poderia (e ainda vai a tempo) intentar uma acção judicial contra todos os que orquestraram as dívidas ocultas, ou seja a Privinvest, os bancos, membros do Executivo moçambicano, funcionários, beneficiários das comissões, etc. e vasculhar o envolvimento de tais empresas americanas que se diz terem sido lesadas e que levaram com que a justiça americana emitisse o mandato de captura internacional contra o ex-Ministro das Finanças moçambicano, os trabalhadores dos bancos mutantes e funcionários da Privinvest.  

A não ser isto feito, nada mais resta senão dizer que fomos de facto enganados, e de que maneira! A detenção do antigo Ministro das Finanças é um filme para desviar as nossas atenções, pois, não visa discutir o cerne da questão, mas sim, as comissões recebidas. Isto é assunto dos outros. O que interessa aos moçambicanos é saber dos meandros da dívida no seu todo. Já agora importa dizer que a nossa justiça brincou em serviço e propiciou um espectáculo barato ao não avançar com os processos na base dos factos em seu poder. Ela tinha tudo para iniciar um ou vários processos judiciais sobre a matéria e mostrar interesse em desvendar este caso. A questão de fundo não são as comissões, mas sim, o grosso do dinheiro que constitui a dívida que pelos vistos foi contraída com o apoio dos bancos que concederam o dinheiro e que os seus responsáveis deveriam ser chamados a esclarecer. Como se pode ver, ao invés de nos atermos ao caso do ex-Ministro das Finanças, devemos prestar maior atenção ao assunto principal que é de facto a dívida no seu todo e que afecta todo o povo moçambicano. Finalmente, o que pagar e como pagar, só é possível dizer depois de tudo estar devidamente esclarecido. Enquanto isso, está mais que claro que a dívida não deve ser paga.

Há DOIS (pasme-se!)
Moçambolas femininos!

Um manto de nebulosidade cobre o futebol feminino no país. A Federação, entidade que deveria reger toda a modalidade, pois até recebe uma verba da FIFA, realiza um nacional, enquanto uma Comissão, auto-enquadrada, busca patrocínios para corporizar a outra. Nesta, a maioria dos clubes de referência no país, não adere.

Resultado: no final de cada ano, entre viagens pelas vias esburacadas do país e no meio de dias sem refeições, vai-se cumprindo o improvisado calendário.

Mas, verdade seja dita: sem dinheiro nem organização, numa coisa os femininos levam vantagem: enquanto os masculinos debatem o modela para o figurino de UM Moçambola, os femininos realizam DOIS Moçambolas!

NÃO PRECISA SER
BASTA PARECER!

De mão estendida, usando “slogans” do empoderamento da mulher, a LDF dá corpo a uma prova para rivalizar com a da FMF. Clube de referência, só o Costa do Sol. Os outros, entre castigos por falta de comparência e improvisos, anualmente tirando da cartola designações várias, algumas das quais bizarras: Cocoricó(s) de Wampula e da Beira, Cosmos de Maputo, Nhunguè de Tete, Viveiros de Nampula, Cachela de Morrumbene, Muélè de Inhambane ou Fanta da Beira.

Por detrás da Cocoricó da Beira – garantem-nos – está o partido que tem o símbolo do galo, o MDM. Para rivalizar, a Frelimo criou o Fanta.
O calendário ajusta-se às circunstâncias, pois as verbas prometidas nem sempre são desembolsadas, até mesmo o apoio estatal. Campos, árbitros e outras condições, vão aparecendo graças à militância e à vontade de demonstrar que a mulher não é inferior ao homem!

Do outro lado, a prova federativa é realizada num piscar de olhos, sem brilho, misturada com os juniores masculinos, passando despercebida do grande público. Pouco se conhece quanto a estrelas e técnicos. Joga-se para cumprir calendário e um desiderato da FIFA. De provinciais e camadas de formação, quase não reza a história. Todos querem jogar “ao mais alto nível”, passear e pontapear. Participação em provas oficiais internacionais, ao que tudo indica, para as vermos teremos que aguardar… sentados!

PONTAPÉS-PARA-O-CHARUTO

E dentro do campo? Qualquer relação ou parecença entre aquele espectáculo e um jogo de futebol, é pura coincidência. Numa actividade em que ao longo do ano não há tempo nem espaço para treinos específicos, em que as bolas – que rareiam – não são a companheira de todos os dias, tentar praticar um desporto cada vez mais tecnicista, como o futebol a um nível alto, não passa de pura ilusão. Os desequilíbrios são gritantes.

Aos treinadores – vimos isso – pouco mais resta senão gritar, a plenos pulmões durante o jogo: “chuta essa mer…”. Impôr sistemas tácticos, a quem não consegue dar três toques seguidos numa bola, é pedir o impossível.

O espectáculo é pontapé para a frente, com choques a despropósito, sem nenhuma noção dos fundamentos que fazem do futebol o desporto-rei.

Esta análise poderá ser vista como derrotista ou escrita por um… ultrapassado.

Em consciência, acho que o que está na base desta anómala situação é algum oportunismo político. Pretende-se que em nome da igualdade do género, as mulheres façam “corta-matos”. Que de repente tenham DOIS campeonatos nacionais, quando a movimentação regular ao longo do ano é quase inexistente. Para lá da falta de tradição, que faz com que na mentalidade de grande parte dos pais e mães, tudo não passe de uma aberração.

O futebol feminino, não tem a tradição do basquetebol, que subiu a “escadaria do sucesso” ao longo de décadas, compreendido e aceite com naturalidade e sem oportunismos. Hoje, dá cartas no Continente e obtém resultados mensuráveis, porque produz um espectáculo continuado e que até faz inveja aos masculinos.

Se há vontade real de obter resultados numa modalidade que tem expressão noutras latitudes, importa dar uns passinhos atrás, para depois caminhar com segurança. Preterindo viagens e parangonas, em benefício da criação de um “edifício” com bases e em que a sua “alma-gémea” – a bola-ao-cesto – é um bom exemplo.

As palavras só nos podem ser úteis quando o diálogo é inteligível

Ascêncio de Freitas

 

No princípio de cada ano, é anunciado o vencedor do Prémio BCI de Literatura, o qual distingue com 200 mil meticais o melhor livro publicado em Moçambique. Na última cerimónia, o autor laureado foi João Paulo Borges Coelho, com a obra Ponta Gea, atribuição que valeu acesos debates no Facebook, pois muitos leitores discordaram da opinião do júri. Seja como for, a obra de Borges Coelho, um dos melhores escritores moçambicanos da actualidade, dos nossos favoritos, foi premiada, o que até surpreende-nos muito.

Lembramo-nos do Prémio BCI de Literatura há 10 dias porque recebemos o e-mail de um membro do júri a solicitar-nos a submissão de quatro exemplares de cada título ao concurso cujo vencedor será anunciado em breve. Aí perguntamo-nos quem seria o bem-aventurado para edição deste ano, que, na verdade, propõe-se a premiar o melhor livro publicado em 2018. Fizemos um exame de memória e surgiu-nos o título Matéria para um grito, da autoria de Álvaro Taruma, poeta muito amadurecido, que o publicou bem recentemente, a 12 de Dezembro de 2018, como se, confiante, caçasse a mola do BCI.

O título de Taruma não nos veio à cabeça por acaso. A enorme qualidade poética que o livro apresenta impôs-se num ápice. Por isso, a existir imparcialidade nesta corrida aos 200 paus, ah, sem dúvida, aquela obra há-de estar, no mínimo, como uma das favoritas ao grande prémio. Na nossa percepção, concorre para o efeito o facto de as palavras usadas na concepção de Matéria para um grito conseguirem manter um equilíbrio entre o estético e o inteligível, daí as inquietudes dos sujeitos de enunciação convocar-nos a um diálogo com períodos e versos, por ali existir, quiçá, requisitos que se adivinham essenciais para a libertação da imaginação.

Nesta proposta literária, na qual, como acontece pouco em Moçambique, Álvaro Taruma vai até ao limite das suas capacidades, esgotando-se porque se entrega por inteiro à poesia, o nosso autor poetiza a tristeza, a amizade e o amor, do tipo que vem e vai: “Eu perdi my love na paragem/ Perdi-a entre vozes e visões desconcertadas”. E mais adiante: “E eu perdi my love como quem não lhe sobra argumento/ Nesse jardim humano de ilusões e arrependimento.” (p. 37).

À primeira leitura, até pode parecer que é do nosso my love que se trata, o de quatro rodas. Mas não. O poema “Cordas para um suicídio e violinos”, dos mais bem conseguidos do livro, retrata com mestria a perda de um amor humano, mas sem as lamúrias ordinárias muitas vezes a sugerirem repetições cansativas. Taruma recria as trajectórias passionais a fim de revelar as circunstâncias em que as partidas amorosas acontecem. E não se fica por aí, obviamente, que este livro também é a síntese de uma versificação alicerçada às derrotas que conduzem os sujeitos textuais a um nível altíssimo de depressão/ frustração – Quando isso acontece, logo se vê, sublinha-se o melhor de um autor que, aos 31 anos de idade, parece ter bebido da fonte cinquentenária –: “Dizem que a depressão é uma coisa patológica/ considere-se Hipócrates (460 – 379 a. C.) ou Thimoty Bright no seu Treatise of Melancholy// um cão que se aloja por dentro da cabeça” (p. 86).

Ao incorporar no livro todo um quadro preenchido por perdas, estados de alma angustiantes, na verdade, Taruma atribui à sua escrita a energia que os seus sujeitos usam para vencer a morte, para qual apenas adiciona a desilusão.

Sem dúvidas, Matéria para um grito é um livro carregado de muita humanidade, daí tocar em questões universais. É um livro que celebra a vida, transformando emoções deprimentes em vitórias poéticas contagiantes. Mesmo assim, há quem jurou que o prémio, nesta edição, seria para A reinvenção do ser e a dor da pedra, de Armando Artur. É um bom livro, é verdade, mas não a altura destas 109 páginas de Álvaro Taruma, nas quais o poeta escreve sobre a condição humana, sobre os estados da alma, de um indivíduo e mesmo de uma colectividade, com leveza e originalidade. Por isso, esta é uma boa matéria para um BCI.

 

Título: Matéria para um grito

Autor: Álvaro Taruma

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 17

 

 

 

 

 

PGR escreveu anteontem, em comunicado, que tem 18 arguidos constituídos no âmbito do processo "Dívidas Ocultas". É a primeira vez que dá a informação da existência de arguidos no caso. A informação oficial, dada pela própria PGR, primeiro no Parlamento e depois em comunicado da mesma PGR, e sufragada no informe de Dezembro último pelo Chefe de Estado, era de que o caso estava entregue ao Tribunal Administrativo.

Bom, nada impede que corram, em paralelo, processos nas jurisdições administrativa e judicial. Mas nunca fora dito que estavam a correr. Só agora que as autoridades sul-africanas prenderam Chang e ameaçam extraditá-lo aos EUA.

Já agora, quem são os 18 arguidos constituídos pela PGR? Quando despoletou o caso Embraer, a PGR emitiu comunicado com nomes dos arguidos e dos tipos legais de crime que estavam na acusação contra os três, um dos quais de branqueamento de capitais. Isso foi a 6 de Dezembro de 2017. É perfeitamente verificável. E o valor da causa daquele processo eram 800 mil USD. E Zucula, Viegas e Zimba foram detidos e lhes arbitradas cauções no valor total de 14.5 milhões de meticais para aguardarem o curso do processo em liberdade, para além de outras medidas no âmbito do poder coactivo do Estado.

Nas dívidas ocultas, o valor da causa é de 2 biliões de USD. Há 18 arguidos, diz a PGR, mas nenhum deles está detido, que saibamos (por que não há comunicado igual ao que anunciou Zucula, Viegas e Zimba?). A nenhum foram arbitradas medidas especiais de coação, que se saiba publicamente – e o facto de Chang se movimentar à vontade até para o Dubai, epicentro de todo o escândalo das dívidas, parece ser disso evidência.

O comunicado da PGR foi tão tímido e defensivo ao ponto de não conseguir sequer confirmar se Chang era um dos seus 18 arguidos.

E nos crimes económicos, os riscos de dissipação do património, desarticulação das provas, comunicação entre os arguidos e até de fuga, são enormes.

Seguramente é esta falta consistência e coerência que não ajuda a angariar confiança dos cidadãos deste país e, já agora, das instituições dos outros países, na nossa Administração da Justiça.

O problema central neste caso näo é a falta de cooperação da América. Já é tempo de deixarmos de procurar no outro a razão do nosso insucesso. O problema é a ausência de coragem, perspicácia e arrojo das sucessivas lideranças do nosso Ministério Público, que se comportam como uma magistratura inerte, subserviente, burocratizada e burocratizante, que fogem ao confronto com as elites errantes deste país para garantirem uma reforma tranquila, quando abandonam os cargos.
 

O Partido Frelimo, herdeiro da Frente de Libertação de Moçambique, que proclamou a independência nacional, depois de dez anos de luta armada, está em fase de teste nacional, teste de capacidade de gestão de conflitos de interesse, entre o bem público e os seus membros, a prisão de Manuel Chang em Johannesburg e seu julgamento e provável extradição para os Estados Unidos da América, constitui um revés à narrativa sobre o interesse público e a segurança do Estado.

A cada dia que passa, parece tornar-se evidente que os altos dirigentes do Governo e seus funcionários colocaram sempre interesses pessoais no lugar do interesse nacional, levou, uma boa parte da sociedade a falar a sua língua, sobre o interesse nacional e defesa de soberania, quando, na verdade, estava em jogo, mais interesses pessoais do que os interesses do Estado e público, as prisões dos executivos da Credit Suisse e da PRINVIST, mostra a ramificação e o grau de associação para delapidar o bem público.

Os números apresentados pelos advogados, para efeitos de caução, são assustadores, no caso do executivo da PRINVIST em Nova Iorque, falava-se de 20 milhões USD, no caso do nosso concidadão Manuel Chang, caso fosse aceite a caução seria de nível 5, segundo alguma imprensa, devido ao risco associado, a tese de que os nossos Governantes trabalham para a satisfação das necessidades da população, cai por terra.

A onda de manifestação dos moçambicanos, sobretudo nas redes sociais, mostra o nível de desgaste da imagem do Governo do partido Frelimo, desengane-se quem pensa que aquilo é assunto de Manuel Chang. Nos primeiros dias, pensei que fosse algo que pudesse passar, mas, com o tempo, adensam-se as manifestações de raiva, sede de vingança por inoperância do sistema judicial e, para piorar as coisas, veio a PGR com um comunicado de imprensa vazio e inócuo!

Manuel Chang, entenda-se, é a ponta do iceberg da saturação da sociedade pela governação do nosso partido Frelimo, que sempre prometeu um futuro melhor, quando, na verdade, alguns dos moçambicanos viviam o presente melhor e, em nome de um povo empobrecido, de uma segurança nacional e do interesse superior do Estado, que até pode existir, no entanto, difícil de ser explicado face aos factos expostos.

A aparente indiferença do partido Frelimo, do Governo, da Assembleia da República, adensa a vontade de vingança popular, que pode manifestar-se de várias formas, desde a manifestação desordenada de rua, com consequências imprevisíveis, boicote aos próximos processos eleitorais, o que seria pior, até à caça ao homem, pouco provável, para já, se tivéssemos sindicatos focados no interesse e na defesa da população, este seria o líder desse processo, uma vez que os partidos políticos mostram-se desorganizados e sem norte.

A Frelimo precisa reinventar-se e dar a cara, não pode continuar a fazer de contas que nada está a acontecer, o Governo precisa de analisar, se calhar, ao nível mais alargado do Conselho de Ministros, com Governadores e outros quadros do Estado para analisar o fenómeno, porque de fenómeno se trata, a reacção nas redes sociais, mais, muitas outras plataformas de diálogo devem ser accionadas para que haja catalisação da presente ebulição social.

Quando cidadãos formados em diferentes especialidades, aparecem em público, através de Televisões e Rádios a exigir que Manuel Chang seja extraditado, não é a falta de consciência de cidadania, não é a falta de sentido patriótico, estas manifestações são contra a inoperância do sistema judicial, contra a impunidade de altos funcionários do Estado que vivem a grande e a francesa, como soi dizer-se, contra a pobreza absoluta da maioria da população, muitos desses funcionários, não têm histórico de acumulação alguma.

São pessoas que, depois de formação, deambulam pelas ruas das cidades e vilas a venderem credito e, cruzam-se com companheiros seus de escola, a viverem de forma ostensiva, com meios que dificilmente podem justificar a sua origem, baseado nos rendimentos que auferem, aliás, todos nós fazemos declaração de rendimento a cada final de ano, um instrumento de medição de acumulação pessoal, se calhar, não é devidamente usado.

Reitero que a prisão de Manuel Chang na África do Sul é a prisão de um Governo, de uma Assembleia e de um partido libertador que, paulatinamente, está a perder prestígio perante os seus congéneres partidos libertadores, o ANC tem-se reinventado de forma cíclica, o MPLA sabemos do que acontece, estejamos de acordo ou não, Zimbabwe colocou um basta ao nosso prestigiado Robert Mugabe, a Namíbia é o exemplo de uma Nação que luta pelo desenvolvimento. E nós?

A história serve para algo, mas não é ela que dita as regras do presente e do futuro. Devemos saber usar a nossa contribuição para a libertação desta zona de África e, não podemos fazê-lo, exigindo dos outros que sejam complacentes com a impunidade, quanto nos custou a libertação da África do Sul, do Zimbabwe, mas isso não tem relevância hoje, muitos críticos da Frelimo são filhos da própria Frelimo que não encontram espaço interno para contribuírem. Eu acredito na Frelimo, a Frelimo tem regras, tem estatutos e em nenhum lugar se pode ler que seja a favor de qualquer forma de corrupção, nepotismo, tráfego de influência, haja acção.

 

NB: Eu, Adelino Buque, tenho admiração por Manuel Chang e continuarei a admirá-lo, mas Manuel Chang é humano e, como humano, tem as suas virtudes e defeitos, seja feita a justiça e, preferencialmente, em território nacional. Sei que esta opinião não colhe consensos, é minha opinião.

Tudo tem limite. Até o medo. E quando o medo passa fica o homem inteiro.

Albino Magaia

 

A Poética de Carlos dos Santos gravita o espaço sideral, a problematização do futuro e um constante questionamento sobre o que move o presente. Quer nas histórias contadas nos seus romances quer nos infanto-juvenis aquela tríade é recorrente. Está lá, consciente ou inconscientemente. O mesmo acontece no novo livro do escritor, Na esteira das estrelas, recentemente publicado sob a chancela da Alcance Editores.

Ao novo título, Carlos dos Santos leva uma história que acrescenta à realidade muita imaginação. Na esteira das estrelas é uma ficção que aproxima ao Homem o que parece ser algo distante, essa plenitude das constelações, as quais parecem emitir sempre mensagens quase nunca compreendidas. Na verdade, e no sentido lato, o escritor continua no seu 16º livro com a ideia de buscar no firmamento o que parece complementar a sã existência humana na terra. Nisso, ficciona uma história cuja protagonista chama-se Nhiedzi, uma menina com ares agrestes, quem se propõe a uma odisseia com experiências mirabolantes. A narrativa começa com um passeio sereno da miúda por uma floresta, sozinha. De repente, o que era para ser um bom deleite esfuma-se, ficando a nossa personagem meio desesperada quando se sente perdida. Sem saber por onde ir para regressar a casa, Nhiedzi é possuída por medo e ansiedade. É a essas alturas do enredo que uma pedra falante enuncia: “Nós temos sempre medo daquilo que não conhecemos. É a nossa ignorância que nos faz ter medo (…) procura antes conhecer as coisas e aprendê-las. Vais ver que assim já não sentes medo” (p. 10).

O excerto acima é o prenúncio do que, nas páginas seguintes, torna-se história. Quer dizer, para a protagonista, personificação de inocência e ignorância sem que isso tenha que ver com idade, o medo limita, encarcera e inibe a busca de soluções. À medida que a Nhiedzi vai lidando e vai vencendo os seus receios, vai abrindo-se para escutar, raciocinar e somar os cálculos da vida como quem depende do resultado para regressar a casa. A sua situação não fica mais fácil por isso, mas fica menos difícil, pois, com a tranquilidade interior surge o discernimento preciso para a alteração de um quadro tétrico.

Ao colocar a Nhiedzi em cavaqueira com uma pedra, uma árvore e o vento, Carlos dos Santos leva-nos a um diálogo com a natureza, como quem nos convida a regressarmos a uma certa origem das coisas, na qual o Homem era ele e as suas circunstâncias. É numa floresta que Nhiedzi aprende a enfrentar os seus medos; nela, a menina aprende a ler o perigo, a antever bons horizontes, com recurso à sistematização do conhecimento. Por isso, estando perdida, a menina aprende a interpretar o recado do sol, da sombra, das estrelas e dos pontos cardeais decisivos para o desfecho da história.

Portanto, neste Na esteira das estrelas, escrito com pormenor e rigor vocabular, demasiado exigente para as crianças, fizemos o teste, o medo, de facto, existe, mas tem limite. E, como nos revela o célebre Albino Magaia no seu Yô Mabalane – obra cuja narrativa faz-se com tentativas de se vencer o medo e a dor –, é quando o medo passa que fica o homem inteiro, no caso, a menina engrandecida, resoluta, dona dos seus caminhos. Afinal, se por um aldo o medo prende, a coragem de saber liberta.

Sendo esta uma história infanto-juvenil, é, igualmente, um texto que purifica os covardes, dando-lhes a receita de como agir diante das mais variadas circunstâncias do quotidiano. Partindo de uma narrativa inocente, Carlos dos Santos conduz-nos numa dupla viagem: pela natureza das nossas emoções e pela das nossas necessidades. É nisso que se dá o conflito, o mesmo que ultrapassado nos transcende. Há-de ser esta a proposta de um Santo(s) armado escritor. 

 

Título: Na esteira das estrelas

Autor: Carlos dos Santos

Editora: Alcance

Classificação: 15

 

QUANDO É PREMENTE FALAR
A extroversão não é o meu ponto premente quando pretendo que se saiba, de mim, algo, porém, se o assunto é algo comum, destranco o meu repositório verbal e me expresso. Senão não seria escritor na verdadeira acepção do termo, uma vez que ser escritor é já uma forma de aderir à extroversão. Saramago, numa das suas inúmeras reflexões diz: "A missão do escritor, se existe alguma, é não se calar", pois, pretendo seguir esse eloquente pensamento daquele insigne escritor luso, mesmo estando certo de que, talvez os meus pontos de vista, se situem aquém do real valor dos escritores que pretendo abordar, ou seja, ciente das minhas limitações quanto ao traquejo dos instrumentos da crítica literária.
 
NÃO SOU NINGUÉM
DE: Anísio da Conceição
Começo pela obra: "Não sou ninguém, do poeta ainda em fase iniciática, Anísio da Conceição. O seu caminho, na perseguição da essência literária, particularmente poética, já vai longo, através da militância em incentivos, morais escolares, passando pela participação intensa e interessada em movimentos de carácter cultural, como o Movimento Literário Juvenil (MOLIJU) onde ele ainda milita, em que a literatura é um dos pratos que se servem para qualquer pessoa que escolha esta área para se deleitar, refletir sobre as essências das nossas origens culturais. Naturalmente que menos literatas, mas profundas no sentido onirico, uma vez que abarcam sonhos que a todos embarcam em busca permanente do ser, sempre encrustados na força dialógica, sustentada pela oralidade que nos é, ainda, intrínseca e quotidiana. O sonho foi sempre o factor mais importante de entre os vários que se nos apresentam para o cumprimento das nossa aspirações. António Gedeão, outro vate luso, no seu celebrado poema: "A pedra filosofal", a dado passo: "o sonho é uma constante da vida" e como que colocando uma cereja no topo do bolo, diz: "Quando um homem sonha o mundo avança", ou seja, dá um salto para a frente!

Pois, imbuído desse espírito onírico, ao longo do seu ainda debutante percurso literário, envereda pela sua identificação com quem se propõe dialogar: "Não sou ninguém"! Uma forma sofisticada, quanto a mim, de dizer que ele é alguém a quem se deve prestar atenção na sua proposição. Ele quis dizer: "Eu sou alguém", que se posta no pedestal poético para cantar a alma da sociedade em que se insere. É diversa a temática aflorada neste livro, porém, o ponto fulcral ou essencial da abordagem de Anísio da Conceição, a sua base inspiradora é a afirmação de 2009, no Bairro Chinonanquila, no distrito de Boane, num comício dirigido pelo antigo estadista moçambicano Joaquim Alberto Chissano. Ao acabar de declamar dois poemas. Joaquim Chissano perguntou-lhe sobre o que fazia, ao que ele respondeu que era estudante. O insigne interlocutor prosseguiu: "Vá em frente, tens futuro…". Pois, foi esta interpelação que o fez compenetrar-se mais anda, naquilo que ele próprio já concluíra, mas até que alguém lhe despertasse, até certo ponto, subestimasse, e está expresso no verso tonificador de todas as estrofes do poema de 2005, constante neste livro: "Mistérios da palavra" – "Importa saber que a palavra tem poder".

De facto, o poema referido, de forma recorrente, torna presente que a palavra é detentora do "poder de gerar guerra/Como também de salvar memórias"; de criar e destruir/De destruir tudo e até muralhas"; De ferir e curar/De curar tudo até restaurar escombros/Verdadeiramente espalhadas/Sobre a epiderme das flores"; "De gerar guerra/Como também de combater os bichos/Devolvidos pelas balas inimigas/E libertar os oprimidos/Eternamente"; "De fazer tudo acontecer/Operar milagres como o arquétipo Jesus/…"; "De resgatar almas perdidas/pelo misterioso epíteto da Palavra!"

Nesta obra de estreia, Anísio canta as crianças do seu país, baseando-se na célebre frase de Samora Moisés Machel, primeiro presidente de Moçambique, "As crianças são flores que nunca murcham". Não é, exactamente, através da visão samoriana, mas pelo tratamento a que a criança está sujeita, no desfilar de incongruências que a abalam, no nosso dia-a-dia, senão, vejamos: no poema "Criança desamparada", de 2010: "Danças à luz do dia/Enquanto fomentas desamparo/Em inocentes acácias/Nestas ruelas quase profusas e belas/Deste ultrapassado Xilunguine. Cresces quase sem razão/Aos pontapés perpetuados sucumbes/ pela madrasta que te empresta lágrimas/Na casa da malograda." É, aqui, notória a referência negativa da acção de algumas madrastas, no trato aos seus enteados, precisamente onde a criança já vivera alegrias, no colo mátrio que, por circunstâncias adversas da vida, tal colo fora para a outra dimensão existencial, deixando, um lugar vazio preenchido por uma impostora. Neste capítulo, Anísio esparrama a sua indignação nos poemas: "Não Sou Ninguém", "Criança da rua", "Comércio informal", "Meu pai", "Nascer". Porém, de forma altruísta, estende a sua reflexão holística, universal, ao se referir à criança, sem ser, apenas, a que sofre, como, também, a bem aventurada, no seu país e fora dele, como se pode constatar nos poemas: "Os bem-aventurados", "A um amigo", "Amigo meu".

No capítulo II, o poeta canta os sonhos, partindo de um dito assinado por "O Vendedor de Sonhos", cujo teor é: "O ser humano não morre quando o coração pára de bater, morre quando, de alguma forma, deixa de se sentir importante".

No capítulo III, canta, em memória às vítimas de SIDA. Nos capítulos seguintes, canta o que a sua jovem observância lhe tem dado como ensejo de aperceber e reflectir, no seio da sociedade em que, ele próprio é, também, actor. Aliás, no seu suculento prefácio, Bee Yoni, O Dragão, aflora todos os aspectos desta obra, abrindo um sem número de hipóteses para a sua interpretação. O próprio Anísio da Conceição, na sua Nota de Autor, que aparece nos fundos do livro que ora nos apresenta, num gesto raro no nosso panorama literário, de deixar, primeiro, ler a obra, e depois das ilações daí advenientes, cruza-las com as notas do autor. Este exercício, sugerido por Anísio, apela à comunidade interpretativa das obras literárias, em que o leitor é desafiado a participar com a sua visão de intérprete, e poder completar a obra literária, com a sua complementativa visão. Reside neste exercício, o conceito Estética da Recepção, arma fundamental da comunidade interpretativa.É pois, quanto à minha modesta opinião, sem, de forma alguma, pretensões de preterir quem, de justos atributos, traria mais abalizados argumentos a esgrimir sobre a obra poética inaugural "Não Sou Ninguém" de Anísio da Conceição.
 

Em 1965, foi considerado o poeta mais charmoso e sensível da televisão. Construiu o seu físico na Academia do Príncipe Real, bairro ao lado do seu. Com os seus exclusivos 1,85 metros de altura, esguio, moreno de olhos verdes, nada mais precisava para receber oficialmente o troféu de conquistador de mulheres. Quando saísse por volta das 7 da manhã, estava uma fileira de raparigas solteiras a acenarem-lhe com a mão, a partir das suas janelas, naquela rua tão estreita. Mesmo sendo casado, rumores corriam que, a ele lhe encantavam mulheres jovens e intelectuais. Casado há 20 anos com uma lavadeira, que ora tinha bigode ora não tinha, dificilmente podia enamorar-se no seu próprio bairro pois a sua sra passava os tempos livres à porrada com as suas supostas amantes.
 
Ninguém lhes percebia a relação. Os seus estudos, o gosto ávido pela leitura e pesquisa transformaram-no num fidalgo. Percebia-se a distância que existia entre ele e a sua sra lavadeira, embora tivessem ambos vindo de lares sem berço.
 
Se as suas amantes e verdadeiras musas eram legítimas fidalgas, o que precisava ele da lavadeira que lhe reduzia em público? Não tinham filhos. Por que é que ele não se perdia numa ida à tabacaria para comprar cigarros, por exemplo?
 
Uma coisa é certa: com as ditas musas, tinha relacionamentos fugazes. Era como que para alimentar o seu ego. E esse ego parecia prescíndivel de acordo com a sua disposição ou servia apenas para alguns compartimentos do seu cérebro já que em casa, quem partia, insultava e batia era ela. Qual era então o segredo do sucesso da lavadeira?
 
As putas gritavam: “Fode bem!”
 
As psicólogas elaboravam: “Há algum trauma que ele tenha sofrido na infância e que ela sabe gerir bem. Pode ser que o ambiente de abuso lhe seja mais familiar. Não se tendo libertado dele, só assim se sente verdadeiramente amado. Os abusos que sofre podem ser por ele interpretados como reflectindo o que é real. Viver o tradicionalmente belo e prazeroso lhe é desconfortável a longo prazo”.
 
As poetisas devaneavam: “O contacto constante com o que é triste e lúgubre faz dele o poeta que é. Um poeta deve por natureza ser cismático, mesmo que produza textos gáudios. A essência das coisas é melhor esmiuçada na angústia”
 
As advogadas disparavam: “Não faz sentido nenhum! Ele não deve ser o espertalhão que pretende transmitir. ‘o coração tem razões que a própria razão desconhece’ apenas serve para quem não chegou ao grau mais elevado da razão!”
 
As feiticeiras acertavam: “Ela enfeitiçou-o. Deu-lhe chá de calcinha, com especiarias vindas do oriente. Aquele amor é eterno, por mais que ele tente desfazer-se dele.”
 
Qual é a verdade? Como é que se processa o amor? É relativo?
 
Ouvi de gente que sabe decidir amar e deixar de amar. Outros acrescentam que amar é um processo, que, tal como todo ele, tem os seus procedimentos. Ou seja, nesta linha de pensamento, começa-se por se decidir amar e existem depois passos que se lhe seguem para se chegar ao resultado final. Adiante, haverá um outro processo para se nutrir o amor.
 
Uma outra doutrina defende que o amor começa a partir do momento que se encanta por alguém. Ao que, na vida, vai-se amando. O amor não é monogâmico. Monogamia é uma decisão contrária ao amor. Monogamia é baseada em decisão e não no amor.
 
Como era do conhecimento geral que Pedro Fonseca da Cunha Pantano era casado com uma encrenqueira, toda a sociedade portuguesa estava grudada à televisão para ver a entrevista mais pessoal que ele iria conceder sobre o seu casamento.
 
– É casado há 20 anos com Maria – a lavadeira. Alcunha que lhe foi atribuída devido a sua profissão.
– Sim, senhor!
– É feliz?
– Sou, sim senhor!
– Mas e os abusos de que sofre e se vêem reflectidos em alguns dos seus poemas?
– Sou feliz porque toda a merda que a minha Maria faz, cheira-me a perfume!
– … desculpe mas não está a relativizar o abuso doméstico?
– Não! Estou é a pôr em perspectiva a relatividade do amor.
– Está a defender que se pode admitir abuso doméstico?
– Não! Estou a dizer que o meu amor assim se manifesta.
– Mas não estará desta forma a desencorajar quem seja vítima de abuso doméstico a denunciar o crime?
– Não. Já lhe disse que toda a merda que ela faz, cheira-me a perfume! Quem sofre de abuso doméstico deverá com certeza denunciar o crime!
– Mas os crimes são definidos de forma objectiva, oh Pantano …
– Errado! Os crimes são definidos pela ocorrência de vítimas. Deverá haver uma relação de causalidade entre ambos!
– No seu caso, quando passara a ser vítima?
– Não me cabe a mim responder.
– A quem é que caberá?
– Ao universo!
– Enquanto o amor durar?
– Enquanto o cheiro a perfume durar.
Fim

 

A meio do pequeno périplo pelo Brasil, entre alegrias e tristezas que o mundo nos ensina, dou-me conta de uma realidade até então suspeita, mas nunca constatável: o jogo da invisibilidade. Este jogo, mais do que o racismo, fenómeno abominável e implícito na teoria da invisibilidade, deixou-me atordoado. A palavra é, até, redutora à mistura sentimentos que se me abateram no momento, pois vaguei, por instantes, no mundo da incredulidade – esse espaço de entrelaçamento entre a dúvida e a repugnância; entre o asco e a inumanidade.

Estava eu num debate, com direito a gravação e posterior divulgação nas redes sociais, em plena cidade de São Paulo, quando a minha confrade, uma conceituada escritora brasileira, à mesa de um simpósio sobre a língua portuguesa,  questionou-me, dizendo, num tom algo perturbado:

´Perguntei, há anos, a  um(s) escritor(es) moçambicano(s) branco(s) o porquê da não publicação e/ou divulgação, no Brasil, de escritores pretos? A resposta, do(s) dito(s) escritor(es) foi de que os pretos ainda raciocinam em línguas bantu. Eles não têm o domínio da língua portuguesa! Precisam de anos e anos de aprendizagem da  língua de Camões. Confirmas essa asserção

 No momento em que ela reproduziu tal torpe afirmação do(s) confrade(s), fiquei momentaneamente tonto. Nunca imaginei que abominável conceito pudesse vir de um(s)  moçambicano(s),  um(s) compatriota(s) meu(s), um(s) cidadão(s) que está(ão) sob a mesma bandeira e a constituição que nos assegura os mesmos direitos,  independentemente da cor da pele.

Antes de responder, veio-me, nesses intermináveis segundos de silêncio, à mente o nome do nosso Luís Bernardo Honwana, o insigne escritor moçambicano, pai da nossa modernidade, que em 1964, época em que esse(s) escritor(es) ainda  aprendia(m) o abecedário da língua portuguesa, publicava o ”Nós Matámos o Cão Tinhoso”, obra de referência na literatura moçambicana e universal. É um escritor preto. Antes ainda, e na linha do Brado Africano, jornal que sucedeu ao Africano, fundado pelos irmãos Albazines, e de edição bilingue – Português e Ronga-, estavam o Estácio Dias, pai do precocemente falecido escritor João Dias, o Aníbal Aleluia, e outros que dominando o português e uma das línguas bantu, escreviam e arengavam abundantemente na língua portuguesa pelos espaços que iam alargando no reduzido perímetro de intervenção que o colonialismo lhes permitia. Eram pretos e tinham, em definitivo, no quadro da lei da assimilação aos valores lusitanos, a língua portuguesa como instrumento de trabalho. A acrescer à lista, vieram-me à mente nomes dos jornalistas Albino Magaia, também escritor, Benjamim Faduco, Abel Faife, Arlindo Lopes, Elias Cossa, Bernardo Mavanga, e outros que  labutaram na imprensa antes e depois da independência, alguns deles contemporâneos desse(s) malfadado(s) escritor(es) branco(s). E todos pretos.

 Mais velhos que esse(s) distraído(s) ou estulto(s) escritor(es), emergem nomes de intelectuais como o pastor Penicela, o Mário Machungo, o Eneas  Comiche, o  Teodato Hunguana, o Mateus Khatupa, o Bento Sitói, para citar alguns pretos que tiveram um papel directo e indirecto na reivindicação dos valores da liberdade e independência. E tudo em português! E o que dizer dos nossos filósofos Brazão Mazula, Severino Nguenha,  José Castiano, para citar alguns, que têm a língua portuguesa como sua língua materna e outras línguas, como o alemão, francês, inglês, italiano, nyanja, Changana, ronga e sena, como línguas de trabalho? Todos esses ainda se situam  no paradigma do “Bon Sauvage’’ da linha  do Rousseau?

A resposta foi óbvia e bem militante, pois partiu de Eduardo Mondlane e Uria Simango, proeminentes individualidades da gesta nacionalista,  sem esquecer o protonacionalista Kamba Simango. Disse à minha confrade brasileira, e à selecta assembleia brasileira (maioritariamente branca), que o(s) meu(s) confrade(s) estava(m) equivocado(s) e sofria(m) do síndrome do racismo, próprio de um colonialismo que se quis assumir benfeitor dos pretos. E esse racismo leva, quando extremado, ao jogo da invisibilidade. Quer-se a todo custo negar a existência do outro, o preto. E, de certo modo, essa tese ganhou certo protagonismo na época samoriana (não vem ao caso analisar essa conturbada época da nossa História), quando, por decreto se tentou apagar tudo o que nos diferencia: a cor, a etnia, os valores diferenciados da nossa cultura. Não debatemos as nossas diferenças. Ocultámo-las. E o resultado, caro leitor, são afirmações desta natureza em latitudes que o(s) nosso(s) compatriota(s) branco(s) imagina(m) inacessíveis ao preto compatriota.  

Quando me perguntaram sobre escritores pretos que, em minha opinião,  estão ao nível dos badalados escritores de África anglo-saxónica e francófona, citei os meus contemporâneos Aldino Muianga, Juvenal Bucuane, Marcelo Panguana, Armando Artur, Filimone Meigos, Hélder Muteia, Suleimane Cassamo, Paulina Chiziane, Tomás Viera Mário, Carlos Paradona, Nelson Saúte, Bassany Adamogy, e outros. E não deixei de lado as gerações procedentes que se afirmam pelo seu talento, pese o jogo da invisibilidade que a todos nos toca: Daniel da Costa, Adelino Timóteo, Tokwene, Sangari Okapi, Álvaro Taruma, Hélder Faife, Isabel Ferrão, Mbate Pedro, Andes Chivangue, Lucílio Manjate, Rogério Manjate, Clemente Bata, Jorge Oliveira, Aurélio Furdela, Pereira Lopes, Alex Dau, Léo Cote, Chagas Levene, Amosse Mucavele,  Lica Sebastião, Rinkel, Emmy X, etecetera.

Como remeter ao limbo estes escritores? É possível  fazer passar, pelo exterior hegemónico, um país com cores e sabores diferenciados, como um território sem a luminosidade do arco-íris? Só indivíduos com transtorno dissociativo de identidade é que podem construir esses cenários. E caso não sofra(m) dessa patologia, só me leva a crer que para muitos (minoria, é claro) dos meus concidadãos, este país é só fonte (intelectual) de matéria prima para exposição universal.

Com repulsa!

 

Dezembro de 2018

 

P.S.: Omiti o(s) nome(s)

 

 

 

 

Vera Duarte A Reinvenção do Mar                                                                                                                Lisboa, Rosa de Porcelana, 2018

Uma voz feminina

   “Para lá da ilha /só existe a poesia….Vou tecer meu sonho na vertigem da minha própria poesia”.  A Reinvenção do Mar é uma antologia poética que comemora os 25 anos da publicação do primeiro livro de Vera Duarte (Vera Valentina Benrós de Melo Duarte Lobo de Pina), e reúne textos de cinco obras poéticas, a saber: Amanhã Amadrugada (1993) que foi a obra de estreia da poetisa, seguida de O Arquipélago da Paixão (2001), distinguida com o importante prémio “Tchicaya U Tam’si de Poésie Africaine”, a que se seguiu o livro Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança (2005), Exercícios Poéticos (2010) e  De Risos & Lágrimas (2018) consolidando um percurso de prática poética, iniciado na década de 90. Com outras vertentes de escrita, como o ensaio e a prosa, Vera Duarte publicou também A Candidata (2003), recebendo com este livro o Prémio Sonangol de Literatura. Publicou mais tarde A Palavra e os Dias: Crónicas (2013) e mais recentemente A Matriarca: uma estória de mestiçagem (2018).              

   Teve formação académica na Universidade Clássica de Lisboa, onde cursou Direito e  foi a primeira magistrada e desembargadora em Cabo Verde. Em 1995 foi distinguida com o prémio Norte-Sul de direitos humanos do Conselho de Europa, sendo também a primeira mulher a ser eleita para a comissão africana dos direitos do homem e dos povos (1993). A carreira da poetisa é ainda marcada por integrar organizações nacionais e internacionais ligadas ao Direito, aos Direitos Humanos e à emancipação feminina, que lhe valeram diversas premiações e distinções no quadro da cultura e direitos humanos. Podemos dizer que a escrita poética de Vera Duarte é também um exercício de experiência de vida, filtrando a poesia, de forma muito evidente, a sua prática na área da justiça, o conhecimento dos aspectos mais escabrosos e carenciados da sociedade, e fazendo dela uma lutadora por um mundo onde os direitos humanos, especialmente  de género, sejam mais equilibrados.

   Esta dimensão humana e humanitária de Vera Duarte convoca uma dimensão do amor e da paixão mais amplos, que ganha foro de utopia, no clamar de um mundo amorável, justo e sensível, um mundo revolucionado, em permanente revolução. Leia-se nesta perspectiva o poema Ortodoxias em Desagregação Poema Manifesto: “Em Outubro fizeram-se revoluções/ Outubro é uma revolução/ Sou uma mulher de outubros/ Num outubro que se perdeu/ E uma revolução que não acabou//Nas minhas veias corre um sangue missionário/ No meu sangue/ Corre uma revolução/ Que não perdeu sentido do ser”. Este poema estabelece um programa de escrita que, de forma directa ou indirecta, vai irradiar na escrita poética de Vera Duarte:”O fascínio vem-me/ dos momentos iniciáticos/ que incendiaram o coração dos homens”.

   A revolução engendra-se a partir de dualidades, sentidas pela poetisa como lágrimas/encantamento, sonho/realidade, desejo/desencanto, utopia/ distopia, tópicos que os poemas de Vera cantam, e procuram uma resposta: a Liberdade. A Liberdade (pessoal, amorosa, de género, social, literária) encena-se quase operaticamente na escrita poética de Vera Duarte entre dois eixos fundamentais, o riso e as lágrimas, à maneira da figuração de Janus, o deus de dois rostos. “Simplesmente sou! Busco um outro começo/ Construo um outro final/ Nem Maria a imaculada/ Nem Madalena a pecadora/ Simplesmente/ sou!// De corpos e abraços/ De amores e lutas/ De risos e lágrimas// Simplesmente/ sou!”. 

   Observamos que no seu primeiro livro Amanhã Amadrugada a escrita, muitas vezes em prosa poética se intitula, Discursos, Momentos, Exercícios poéticos, procurando a voz o lugar de enunciação, entre o registo filosófico, reflexivo. Nestes textos a voz enunciadora oscila entre a meditação, o registo diarístico, o sonho, a visão alucinada, surreal por vezes, a memória da infância. Exercícios sobre o mar e a morte, sobre a beleza e a morte, sobre o sortilégio: “Venham todos os homens/ de todas as florestas/acolher-se em meu leito//Contornem mil vezes/ as formas perfeitas/do meu corpo são (…) Beijem-me/ e que os vossos beijos puros/ arranquem de mim/ o sortilégio que me mata// Mas não me amem/ que eu só posso amar a um/ e a morte anda à espreita/ dos que se deram e não foram recebidos”(…); “Quis amar, amar perdidamente com angústia, sofrimento e solidão, mas constatei afinal que a intensidade fatiga e desprendimento atrai”.

   É um prazer ler os poemas de Vera Duarte em antologia, o estilo mantém-se desde o primeiro livro, assim como a ânsia de liberdade, a procura do amor e da paixão, uma palavra que Canta/Conta, e se procura, à maneira de uma ode de variações múltiplas. Esta oscilação cantar/contar encontra no uso do poema tipo “ode” a dimensão teatral, musical, que surge com múltiplas variantes na escrita da poetisa A ode como se sabe é um género poético que permanece actual desde a antiguidade clássica, e a exemplaridade da ode do poeta chileno Pablo Neruda gratificou a vitalidade desta prática. As odes originais eram cantadas com o acompanhamento de um instrumento musical como a lira. As odes podiam ser monódias (cantadas por uma única voz) ou corais (interpretadas por um grupo de pessoas). Apesar da sua variedade temática, a ode costuma expressar a admiração por algo ou alguém, um poema criado com o objectivo de homenagear ou exaltar. Vários poetas gregos dedicaram odes aos deuses, a atletas, guerreiros e heróis.

   No caso da odes de Vera reconhecemos a dimensão da exaltação vocal, canto/conto de alegria, tristeza e de homenagem em muitos dos seus poemas, em que aparecem dedicatórias aos escritores e homens da cultura de África e da sua terra, Cabo Verde, com poemas que os cantam, como Corsino Fortes, Jorge Alfama, Arnaldo França, Amílcar Cabral, Nelson Mandela, a Mãe. A dimensão elegíaca de alguns poemas combina a ode ao registo da dor em poemas com dedicatórias, que revelam uma importante função de resgate da memória pessoal e histórica; de resgate da cultura local em Cabo Verde, com os poemas para Ildo Lobo, Gabriel Mariano, Guilherme Rochteau; ou, por outro lado, de resgate de situações históricas como a travessia atlântica que rememora uma mesma história dos africanos, a do tráfico escravo, a da luta pela libertação colonial,  e a relação histórico-cultural com o Brasil.

   Cito aqui um fragmento de uma das suas odes, denominada Prece Primeira Rosa entre cadáveres: “  Em África nasce uma rosa/ Uma rosa entre cadáveres/ E dela brota um sol de sangue// Em África cresce uma rosa/ Rosa única de dor e de revolta/ e dela queda um sol de sangue// Não é rosa depois da neve/ Nem rosa flor d’amor/ Não é rosa multicolor/ Nem tem perfume embriagador// É rosa d’Eugénio/ Flor de doer/ Rosa de arder/ Metamorfose de cadáveres(…) Em África cresce uma rosa/ É a rosa mirabílica/ Flor da poesia/ Uma rosa entre Cadáveres”.

    Mas também o Amor é cantado em ode como no longo poema “A Canção do CorpoAmor”  um dos muitos textos que o exemplificam, aqui em  mais de cinco páginas: “Ter-te-ei alguma vez dito/ homem de cabelos fartos/ e lábios de incenso e mel/ como o ar se aquece/ quando a tua presença/ magicamente me envolve/ e teu hálito fresco/ de tambarinas maduras/ acremente me inebria (…)”.

   A geografia enunciadora e o fazer poético cantante/contante da poetisa mostra como ela se auto-renova enquanto corpo/território, como se transforma para re-construir seu próprio espaço, enquanto ser de escrita, que não se pode transferir para nenhum mapa do mundo conheci­do. No poema Acrobata da palavra Vera Duarte mostra como “a fome/ Do mundo que em mim habita” é alimentada pela “condição mutante” da acrobacia das palavras em poema:” No vértice vertiginoso da vida/ Violenta, violentada e violada/ Inscreve-se minha mutante condição/ De acrobata da palavra”.

   Enquanto voz crítica e de resistência à subalterna histórica condição de ser mulher evoca vários nomes paradigmáticos de mulheres como Antígona, Joana d’Arc, Mariama, Ginga, mostrando diferentes percursos femininos, nos quais a voz de Vera se enquadra, sintoniza e questiona, juntando-se ao exemplo daquelas figuras emblemáticas, quando procura resgatar o lugar da mulher na sociedade. Essa conquista de espaço geo-histórico-cultural da poetisa é também conquista de um espaço tipográfico, que os poemas encenam, e parece  inseparável de uma aber­tura ao espaço planetário, global: nela é evidente no trabalho de disposição na página das «palavras em liberdade», como em certos caligramas de Apollinaire.

    A poesia é uma voz, mas que voz? Croce diz que a poesia é uma voz interior à qual nenhuma voz humana se aparenta; no entanto a recitação, que a disposição tipográfica, dos poemas de Vera Duarte, na página suscita, bem como, por outro lado, o dispositivo retórico refrânico, as repetições, o aparato dialogal e narrativo dos poemas, faz com que esta voz ganhe presença no leitor, ou dele se apodere.  Ao mesmo tempo que lemos os poemas de Vera Duarte, eles se nos impõem como recitação, presença da voz, por isso também ouvimos os poemas.  São as vozes/cantos/contos/canções que na voz da poeta se entretecem, implicando a escuta de Jorge Barbosa ou Manuel Bandeira, de Eugénio Tavares e da poesia da morna de Cesária, dos ritmos de Ildo Lobo; fragmentariamente narrativa, biográfica enquanto sujeito próprio, sujeito feminino e sujeito histórico, as vozes da voz de Vera Duarte se reiventam em poesia.

    A reinvenção do Mar, que titula a antologia, encontra o na dicção de Vera Duarte a conjunção entre um mar interior, um mar ilhéu, um mar do mundo, uma palavra/ilha/canto de todas as ilhas/poemas: “juntei então todo a água do oceano / E cerquei o meu palácio / do mar mais profundo que algum dia existiu (…)” Mas, se é com a língua que o ser/poesia/sonho de Vera Duarte se constrói, é na fala que ela se encarna, quando a escrita, no “Tumulto” dos antagonismos e dualidades da criação, a pronuncia recitativamente até nós:” Vou tecer meu sonho/ na vertigem da minha própria poesia”.

Por: Pedro Pereira Lopes

Julio Cortázar explica, no seu distinto livro de análise literária, Valise de Cronópio, que “o que chamamos poesia implica a mais profunda penetração no ser de que é capaz o homem”, ou seja, a poesia, enquanto arte, só será fecunda em possível afirmação de sobrevivência. Poesia comprometida, verso decorativo, feição épica ou meditativa, etc., quase tudo se pode dizer da poesia, mas, em momentos como este, de esvaziar os olhos e montar novos sonhos debaixo do sol, a poesia é, acima de tudo, ESPERANÇA.

Pedi aos poetas Jaime Munguambe, Nelson Lineu, Hirondina Joshua, Mauro Brito, M. P. Bonde e Sérgio Raimundo (Poeta Militar) que escolhessem seis poemas e que justificassem suas escolhas. Regras quase que não existiam, tinham apenas de ser textos que os marcam. São, afinal, poemas que podem ser lidos hoje mas também amanhã. Vamos lá?

A ESCOLHA DE JAIME MUNGUAMBE

“Os seres”, de Antonin Autard

Não caiem

para o dia exterior

Só tem a força

de resplandecer

na noite subterrânea

onde se fazem

Mas desde eternidades

passam

o seu tempo

e o tempo

a fazer-se

e nem um só chegou

assim

a manifestar-se […]

Fazer o corpo humano sair

para a luz da natureza

mergulhá-lo vivo

no clarão da natureza

onde o sol acabara enfim

por desposá-lo.

A EXPLICAÇÃO DE JAIME MUMGUAMBE PARA A SUA ESCOLHA

Escolho este poema pelo facto de, talvez, facilmente penetrar-me corpo adentro e, por conseguinte, criar uma tempestade indescritível e aprazível à carne. Todos os edifícios textuais, poéticos, têm esse domínio, puxam-nos aos espaços (in) concretos, lugares abstractos ou exactos, onde resplandece o êxtase, o centro da efervescência total da liberdade espiritual: onde a palavra vive e seduz o silêncio murcho, o palco de uma reflexão irreflectida, onde respiramos abraçados pelas linhas do destino indecifrável, Antonin Autard fala dos seres, simplesmente dos nós que fazem a Humanidade, ou seja, de nós como sujeitos orgânicos com o lado interno e o externo.

A ESCOLHA DE NELSON LINEU

“Procura da Poesia”, de Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objecto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda húmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

A EXPLICAÇÃO DE NELSON LINEU PARA A SUA ESCOLHA

Por que escolhi este poema? Responder seria convocar a razão, e para quê o poema precisaria da razão? Se um texto que se quer poético precisa da razão, “ainda não é poesia”, como escreveu o poeta. Drummond brinca com o entendimento, sempre que me lembro do poema, três versos enchem-me a poesia: “A poesia (não tires poesia das coisas) ”; “Convive com teus poemas, antes de escrevê-los”; “Não forces o poema a desprender-se do limbo”. O último é como vejo um meu texto em cima da árvore, e não posso fazer nada, além de esperar que amadureça e caia, e só depois da autorização do chão que canto, escutá-lo.

A ESCOLHA DE HIRONDINA JOSHUA

“O Palácio da Ventura”, Antero de Quental

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

A EXPLICAÇÃO DE HIRONDINA JOSHUA PARA A SUA ESCOLHA

“Sonetos” de Antero de Quental, um dos primeiros livros que li na adolescência, e o favorito do meu pai: capa preta e uma flor vermelha no centro, um anúncio de desassossegos. O que esta escrita me trouxe de especial foi o facto de ela ser voltada à experiência do “para além do físico” – metafísica. Ouvi dizer que triste não é o texto, mas a mão que o lê, eu hoje devo concordar plenamente, quando o texto espelha-nos, espalha-nos para novas conquistas. É o que acontece com “O Palácio da Ventura”, diria até que textos como este despertam em nós o lado animal e espiritual que teimamos ignorar. Somos apressados por natureza, não temos tempo para olhar o que está ao redor enquanto mais dentro. As palavras têm o poder de segredar quando nos mente quem as vincula. Por mais belas e estruturadas que sejam. Um texto que trai esta lei não toca. E lirismo é não mentir. Com Antero percebi que as palavras têm energia, assim como as pessoas. E tal energia está em constante movimento. Como falam os brasileiros, tudo está “se construindo”. O que mais me impressiona na sua escrita é o acto de transformar a vida em arte – os instrumentos estão em nós e não fora. Antero sabia disso. O que mais é a poesia senão uma procura-interrogativa?

 

A ESCOLHA DE MAURO BRITO

“Poema do futuro cidadão”, de José Craveirinha

Vim de qualquer parte

de uma Nação que ainda não

existe.

Vim e estou aqui!

Não nasci apenas eu

nem tu nem outro…

mas irmão.

Mas

tenho amor para dar às mãos-

cheias.

Amor do que sou

e nada mais.

E

tenho no coração

gritos que não são meus

somente

porque venho dum país que

ainda não existe.

Ah! Tenho meu amor à rodos

para dar

do que sou.

Eu!

Homem qualquer

cidadão de uma nação que

ainda não existe.

A EXPLICAÇÃO DE MAURO BRITO PARA A SUA ESCOLHA

José Craveirinha não morreu, ao contrário do que se diz e pensa. E com ele não morreram os seus pensamentos e anseios como poeta e cidadão tão ligado a terra que o viu nascer. Muito antes de ter consciência da existência e o valor da poesia, tive o primeiro encontro  com a poesia do Craveirinha nas aulas de Português, em Fábula, quando então era um dedicado e comportado aluno. A partida um texto breve, simplista, e por outra sem conotação algum, mas tão acutilante e sério, algo que vim a descobrir mais tarde, com muito lamento pelo facto de nenhuma das minhas professoras o ter clarificado. A escolha deste texto não é de hoje, logo que o descobri entre as suas camadas o sentido metafórico. Encontrei nele o motivo da não conformação, da rebeldia, da vontade de ir além, de se reinventar; quem sabe continuar a encontrar outras formas de ser, de pensar, ou, dizendo de outro modo, sacudir a poeira. O poema chega a ser mais do que uma nota de um poeta-cidadão, mais do que um apelo. É um soprar de ouvidos na busca da imagem e da essência do novo homem que vai elevar a bandeira mais alto, que irá conquistar a coesão social  e sobretudo harmonia que falta no menu. Se calhar o sentido da palavra é mesmo esse: a continuidade, a abertura de caminhos e não um mote para chegar ao destino, por isso a metáfora está sempre ali. Neste caso muito subtilmente, algo que Zé muito bem dominava. E hoje, mais uma vez, há necessidade de dar amor a todos e de continuar a edificar uma nação inexistente.

A ESCOLHA DE M. P. BONDE

“IV”, de Álvaro Fausto Taruma

Aqui reina a palavra, o poema, o amanhecer de todos os fonemas sobre as casas, sobre a vida, sobre os cursos de água, sobre as padarias vigiando a fome, sobre o sol aludindo o fogo, a alquimia, sobre um rio correndo na mão em premonitória quiromancia. Mas fala-se também do puro instante da aparição, da vida regendo os sonhos, a língua, do manejo do verbo, da caligráfica ave, do oráculo da fala ou da poética gramática da escrita.

Diz-se ainda de uma janela contemplativa, do alfabeto entregue em oferenda e do alumbro mágico de quem cria.

Diz-se dessa palavra temperada: o sol, esse imenso latifúndio de luz, vindima da esperança. Diz-se da sua ramagem incendiária; a lavrada substância do fogo; favo do mel da claridade; o sol rasgando o hímen resoluto das manhãs. Por isso:

Por nada, por tudo

Por um instante de luz

Abro o cárcere de palavras, o mudo

Silêncio onde me pus.

Desato o poema, meu escudo

Contra a escuridão que me seduz

Mas a liberdade que aludo

Nenhuma poesia traduz.

A EXPLICAÇÃO DE M. P. BONDE PARA A SUA ESCOLHA

Escolhi este texto porque me identifico com o processo criativo: a metapoesia. Aqui o autor apresenta as suas ferramentas para compor os textos. A capacidade de reflexão demonstra que o autor está a fazer o seu caminho, procurando a sua voz interior. Há uma consciência, por parte do autor sobre o seu valor, apontando os signos, as imagens, as ferramentas para chegar ao âmago do texto. Eis então, o mundo do Taruma por se desvendar.

 

A ESCOLHA DE SÉRGIO RAIMUNDO (POETA MILITAR)

“O escritor”, de Gonçalo M. Tavares

É um escritor ou então a mulher partiu com outro,

e o corpo não recuperou a vontade

de se preocupar com a roupa.

Espontâneo, vê-se; tudo o que traz vestido

apareceu-lhe à frente como numa colisão.

No entanto é discreto.

Tem a idade em que já não se desejam os olhares dos outros.

Branco, o cabelo transmite paz e

uma pequena desistência.

Tem cachimbo, óculos,

na mesa revistas francesas sobre a alma e os laboratórios que a

estudam;

pega numa folha e começa a escrever.

Tem ar sóbrio, o corpo não dança,

vê-se que há muito venceu o medo de não ser igual aos outros.

Escreve; passa a mão sobre a orelha.

É um escritor, em definitivo.

A luta não é com a solidão, vê-se que sabe usa-la,

percebe a sua natureza.

A EXPLICAÇÃO DE SÉRGIO RAIMUNDO (POETA MILITAR) PARA A SUA ESCOLHA

Este poema faz parte do fantástico livro “1”, assinado pela mão do escritor que até Saramago prometeu-lhe bater de tanto escrever bem; Gonçalo M. Tavares. É um poema que, em parte, condensa a figura de um escritor que solda a sua escrita com a irresistente matéria da solidão. Gonçalo, com a sua técnica de busca de palavras com um sentido material, mostra-nos como o escritor manipula pelos garfos dos dedos o tédio e assim alimentar a sua escrita. Faz isso porque “vê-se que há muito venceu o medo de não ser igual aos outros”. Obras clássicas, de Gonçalo, nasceram, com certeza, desde constante choque com o tédio. Gonçalo é um escritor que percebe a natureza da solidão e do tédio. Basta ver Bloom em “Uma viagem à Índia”, Marius em Uma menina está perdida no seu século à procura do pai” e Mylia em Jerusalém. Este poema entra no interior do escritor e sai com as medidas certas das suas convulsões; entra como um tabuleiro que é empurrado para o forno e assim sair com o pão.

Há vícios que desde que comecei a viver nesta condição tratei de os evitar, porque me fazem mais vivo do que preciso. Um mendigo sempre vive às metades. Nesta noite, cedo a um desses vícios, escrevo, porque vejo este rio enviesado, que é a minha vida, desaguar num oceano que sempre me foi muito vizinho. Prometo não escrever muito.

Eu sempre soube, perdi-me naqueles acontecimentos.

Nasci João Carlos Esteves Cabral, "nome de médico reputadíssimo " dizia minha mãe com o espírito sobrelevado tentando convencer a si própria que um dia eu seria um médico de renome. O que sucedeu é que o menino que um dia sua mãe augurou médico reputadíssimo passou a vida carente de tratamento de outros senhores que se tornaram médicos de verdade.

Tudo começou com o assassinato de Maria Flor Esteves Cabral por seu marido naquele longínquo ano do início do século presente. O lar daquele casal de Bombarral que até ali se tinha destacado entre as demais casas pela bonomia e pacifismo ganhara com aquele homicídio uma mancha indelével na sua história. A mancha fez-se tempo infinito até que minha mendicidade fosse um dos seus reflexos.

Sempre me custou crer, mas a verdade não mudou ao longo destes anos. Meu pai assassinara a minha mãe depois de descobrir que aquela o traíra e não querendo se deixar colorir com a mancha daquele sangue suicidou-se em seguida.

Nunca me ocorreu reviver o que se passara, e agora me vejo no meio de tudo. Perdi-me naqueles acontecimentos. Tinha quinze anos quando tudo acontecera. E sem dúvida, perdi-me naqueles acontecimentos.

Nos tempos que se seguiram a tudo, fui visitado por uma depressão tão profunda que cabia toda a tristeza do mundo. Perdi o sentido da vida, fiquei parado naquele longínquo ano do início do século. Há realidades que parecem ter sido antes ensaiadas noutras vidas. O início do século marcava o chegar de sinuosidades que marcariam perpetuamente a geografia deste rio.  

Tentando-me curar daquele estado que dentro de mim clamava dia e noite vaguear por onde era desconhecido, reconhecer em mim uma estrela sem noite, um sol sem dia, um beijo sem boca, um ser ninguém, fugi de tudo à primeira oportunidade que me espreitou. Corri e aos intervalos ensaiei passos apressados que só cessaram quando me vi nas ruas desta cidade, onde o ser ninguém se casou a mim, e tudo o que um dia eu tinha sido se perdeu no vácuo que sempre temeu a solidão.

Quinze anos se passaram e tudo o que me lembro é viver este estado, que os mais cultos chamam mendicidade. Lisboa tornou-se minha casa. Nestes anos conheci cada canto da cidade, cada segredo, cada cheiro. Inúmeras vezes me confundo e ao olhá-la vejo meu corpo.

Dia e noite passam por este lugar, onde não querendo ser reconhecido me reconheci ninguém, muitas pessoas. Confesso, algumas delas fazem-me perguntar para além do asseio o que as distingue de mim. Ter lar, ter quem os dê carinho? Muitas delas não vivem, sinto. Algumas olham-me com desdém, outras com pena, outras reconhecem em mim tudo que são. A palavra comum pela qual todos me qualificam é mendigo, um ninguém que tem as ruas da cidade por casa.

Disse que não escrevia muito e já concluo, não se apoquentem. As dores que aos poucos me fazem perscrutar o lado de lá já não me permitem muito. As lágrimas que molham este papel confundem-se com a chuva que cai nesta noite fria. Temendo tudo isto, vivi evitando este vício. Escrever é para quem vive, e a única coisa que mendigo sabe fazer é ser ninguém.

Algo entra no meu corpo, desenhando movimentos rectilíneos, e sai, criando em mim fraquezas. Não sei se aguento mais isto, sinto tudo se esvair de mim. Esta cidade, o papelão onde as minhas lágrimas ganham eterno descanso, o meu corpo frágil, a minha barba branca e a minha história é tudo que consigo vos deixar em testamento. Dava mais se pudesse, mas que mais pode dar um mendigo senão a si mesmo?

“Querer ser livre é também querer livres os outros.”

Simone de Beauvoir

 

Afigura-se-me que o homem de bom senso seja aquele que não teme compreender as coisas, independentemente do fardo que resulte disso. Mais do que uma faculdade, a compreensão é uma disposição mental para aceitar o sentido menos subjectivo dos factos. E não é, deveras, fácil configurar essa disposição de compreender o sentido dos fenômenos numa circunstância em que somos arguidos, ou seja, é difícil estar disposto a compreender quando é a sua tese que está em debate. Quanto mais interesse manifestar sobre um determinado objeto, mais intolerante te tornas a novas alternativas. É como um amante que, uma vez enamorado por uma amada cruel, se arrisca a sofrer todo tipo de repúdio a ser dissuadido a livrar-se do encanto. Por isso, para compreender é mister perder interesses particulares sobre o objeto. Isto é, torna-se imperioso marcar um distanciamento emocional e livrar-se de quaisquer segundas intenções se quiseres uma compreensão menos subjectiva em que é o intelecto que se adequa às propriedades do objeto, e não objeto forçado a adaptar-se às condições do intelecto. 

 

A filósofa Hannah Arendt é um dos exemplos mais elucidativos sobre o fardo que o acto de compreender comporta, quando esta mulher judia que foi vítima de repreensões anti-semitas foi capaz de inferir que não há matéria jurídica para condenar-se os oficiais nazistas que empurraram milhões de judeus a câmaras de gás. Isto porque na Alemanha hitlerista não constituía crime exterminar judeus. Eles haviam criado o seu próprio o mundo e definido o que era crime e o que era justo, cabendo, deste modo, a todos alemães cumprir a lei. É assombroso ver as coisas desta maneira, sobretudo, quando dentro do enredo em análise ocupas a posição de vítima. Mas é a assim que o processo de compreender devia ser conduzido, livre de manipulações e sensacionalismo dos factos.

 

Deste modo, quando nos pomos a compreender, declaramos ao mesmo tempo guerra contra o preconceito. Ou seja, o acto de compreender em si já é uma desconstrução de todo o tipo de preconceito que havia ganhado um espaço na mente, atravancando-lhe a progressão a novos horizontes. Todo e qualquer preconceito é, de certo, o efeito de uma ferrugem na nossa mente. Uma mente que labora não abre espaço para a consolidação de um juízo concebido de modo acrítico. Pensar é, por conseguinte, desconstruir velhos hábitos mentais em busca de novos sentidos.

É tão prejudicial à mente quanto é perigoso para o mundo que a humanidade continue a guiar-se de ideias velhas com isenção a dúvidas. O perigo final de uma humanidade acrítica estaria em proferir sentenças antes do julgamento.

 

Urge sempre julgar antes de condenar, pensar antes de agir, escutar antes de falar. É mediante estas precauções que julgo ser importante compreender o ser gay no mundo. Em quase todos os cantos do mundo, indivíduos da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) sofrem perseguições e descriminações devido à sua estranha orientação sexual. Mas será que já pensamos com afinco a condição dos LGBT no mundo ao ponto de adoptarmos uma dada forma de tratamento para com eles? Os nossos juízos sobre os LGBT serão uma herança sócio-cultural com interesses implícitos de proteger o mundo contra a complexidade de que é feita a realidade? Se assim o for, então como humanos procedemos mal, pois não podemos fundamentar a nossa relação com gays a partir de um preconceito sócio-cultural ou histórico desprovido da crítica do nosso próprio pensamento. A forma justa de julgar a condição dos homossexuais no mundo não se deve basear em princípios sócio-culturais incluindo a religião, pois estes elementos variam de espaço a espaço geográficos. No mundo, há sociedades, culturas e religiões tanto mais homogêneas como mais heterogêneas. Sendo assim, se tivéssemos que julgar a causa dos gays, teríamos sentenças dispares em diferentes locais sócio-culturais. Seriamos forçados a compreender a comunidade LGBT em função de como nós fomos criados pela família, sociedade e religião. Julgando deste modo, seriamos de seguida forçados a condenar toda a humanidade homossexual em geral, por meio de instrumentos particulares que são a família, a sociedade, a cultura, a religião, o Estado, etc. Precisamos basear o nosso julgamento em um denominador universal. Algo comum a todos os homens que é a razão. Somente a partir do exercício da faculdade racional, somos capazes de julgar os gays em si, não como eles são sob o ponto de vista da nossa cultura, sociedade e religião que nos são elementos relativos.

 

Para objetivarmos o debate sobre o ser gay no mundo, proponho de seguida três questões que julgo ser justas para um livre raciocínio. Primeiro: uma pessoa é nascida gay ou se torna gay? Esta questão afigura-se difícil de responder, pois a ciência ainda não chegou ao nível de decifrar códigos genéticos ao ponto de nos informar sobre uma provável configuração de orientação sexual. Se nos desse esse conhecimento, estaríamos certo que pelo menos se nasce gay ou não. Entretanto, o facto de não podermos ainda averiguar a orientação sexual a partir da estrutura biológica não nos é razão suficiente para inferirmos que os homens não são nascidos gays, mas tornam-se gays com tempo. Tal conclusão careceria de evidências, visto que a refutação da hipótese X não é suficiente para validar-se a hipótese Y.  É certamente preciso que se traga provas existencialistas que demonstrem que homens são movidos a tornar-se gays pelo tipo de ambiente em que vivem. Mas já se ouviu algures que há homens que escolhem ser gays como forma de ganhar dinheiro ou sobreviver. Para este tipo de caso, é importante notarmos que este homem que se submete a actos de homossexualismo para conseguir dividendos não pode ser identificado como gay, pois a sua entrega ao mundo de homossexuais não é livre e voluntária, mas forçada pela falta de condições financeiras. Isto quer dizer que uma vez suprida a necessidade de dinheiro, o indivíduo poderia abandonar a vida de gay e retornar à condição primária de um heterossexual. Mas ser gay não pode compreender ser impostor. Indivíduos que praticam actos homossexuais não por livre vontade não passam de falsos gays. Não basta que um homem faça sexo com outro homem ou uma mulher com outra mulher para que possam ser considerados gays, é necessário que o acto sexual tenha resultado de um desejo erótico entre ambos os indivíduos. Caso contrário, então seria legítimo que um indivíduo que fosse estuprado por outros homens fosse considerado gay só porque fez sexo anal. O desejo erótico por um indivíduo do mesmo sexo é o pressuposto imprescindível para que alguém seja considerado um homossexual. Sem desejo erótico não há determinação de orientação sexual. E donde nasce o desejo erótico? Do inconsciente ou consciente? Ou seja, o leitor é capaz de dizer se, em alguma parte da sua vida, precisou escolher a sua orientação sexual ou isso sempre esteve a cargo do instinto. Eu julgo que os homens não tiveram nenhuma fase da vida em que tivesse de deliberar a sua orientação sexual, antes de ter o desejo erótico. Parece-me que a orientação sexual não é determinada pelo consciente ou reflexão, mas pelo instinto sexual, pelo acontecer. Um bastou olhar ou tocar para apaixonar-se. E não que “um bastou pensar na Bíblia que diz que o homem e mulher foram feitos um para outro” para, depois, ter desejo sexual por uma mulher. O desejo erótico acomete o homem independentemente do que a sociedade, o Estado, a religião diz sobre relações sexuais. O homem só refreia o desejo sexual quando se encontra num ambiente hostil em que a tolerância seja zero, mas nunca precisou consultar a razão ou a sociedade sobre que gênero ele devia sentir atração sexual – o desejo foi sempre espontâneo como o de um gato que não precisou esperar que a mãe lhe dissesse que era tempo de perseguir o rato. Viu, logo, correu atrás. Esta ordem de ideias nos leva a inferir que o homem já nasce com instinto sexual por um determinado gênero. Se não somos nós quem define a nossa própria orientação sexual, então não nos tornamos homossexuais ou heterossexuais, nascemos já definidos. Ficamos somente à espera de uma ocasião para despertar o desejo erótico, sem nos surpreender com isso, de tanto natural que nos é. O argumento de que o tipo de infância que vivemos quando pequenos pode configurar ou adulterar a nossa orientação sexual é dúbio, pois as experiências infantis não são lineares ou coerentes no sentido de que uma criança que tiver sido tratada desta maneira vai infalível ou provavelmente adquirir um comportamento sexual desta natureza. Isto é, há adultos que, não obstante tenham, durante a infância, sofrido algum tipo de abuso sexual ou brincado de coisas de meninas, são heterossexuais, bem como há adultos homossexuais, mas que, quando crianças, os pais tiveram todo o cuidado de educa-los como rapazes e não como raparigas, de tal forma que a família chega a surpreender-se quando descobre a inesperada orientação sexual do filho. Para alguns filhos, a orientação sexual como um dado nato, chega a transparecer durante a infância sem ter tido sofrido nenhuma influência dos pais. Às vezes, numa família de três meninos, um deles mostra-se mais entusiasmado em brincar com bonecas e não com futebol ou outros jogos mais apreciados pelos homens. Nestes casos, há razões suficientes para se dizer que é a natureza por excelência a expressar-se e concluir-se que o homem não se torna gay ou heterossexual, mas já é nascido assim.

 

A segunda questão: pode mudar-se a orientação sexual de um ser humano? Julgo imprescindível a resposta para esta questão antes de ditar-se a sentença de uma pessoa LGBT. Se admitirmos que há mecanismos pelos quais se pode transformar um homossexual em um homem heterossexual, então deve-se também aceitar que o caminho inverso é possível: um heterossexual tornar-se homossexual, pois em ambos os casos estamos a lidar com orientação sexual. Caso haja tais mecanismos capazes de mudar as vontades eróticas dos homens, torna-se, portanto, sensato converter-se os gays em heterossexuais e considerar-se o homossexualismo uma anomalia. Deste modo, pelo menos, ter-se-ia como base de argumentação a reprodução da espécie humana e a combinação perfeita dos órgãos genitais entre homem e mulher para justificar-se que todos os homens sejam heterossexuais. Entretanto, observando-se a história dos homens, ainda não se encontrou essa fórmula mágica de curar os indivíduos de homossexualismo. Do que se sabe são histórias de homens que passaram uma parte da vida ocultando a sua verdadeira orientação sexual, por temer a descriminação social e, ou, familiar. Em certos casos, estes homens camuflados chegaram a construir família com mulheres de quem não sentiam nenhuma atração libidinosa. Se chegaram a sentir tal desejo sexual por mulheres e, mesmo assim, posteriormente sentiram uma atração pelos homens, é mais provável que se trate de um caso bissexual. Porém, julgo inconcebível que um homem que tenha sido domado pela vontade de possuir uma mulher, perca de vez essa volúpia e seja domado pela vontade de possuir outro homem. Esta metamorfose do desejo sexual afigura-se-me improvável de acontecer, excepto na condição de um ser bissexual que deseja simultaneamente dois sexos. Normalmente, o homem ou mulher homossexuais experimentam, em algum momento da vida, uma confusão de orientação sexual, não porque sejam domados por uma vontade bissexual, mas devido ao meio fortemente sócio-heterossexual em que se encontram. Eles sentem-se obrigados a forçar o gosto pelo sexo oposto e reprimir o gosto pelo mesmo sexo. Mas porque a natureza é inalterável, porém camuflável, chega uma fase em que o indivíduo não mais consegue conter os seus instintos sexuais e decide desafiar o mundo, saindo do “armário”. Sobre este fenómeno, estaríamos enganados se pensássemos que o mesmo indivíduo teve duas fases da vida em que alternadamente sentiu desejo sexual tanto pelo homem como pela mulher. A mudança de orientação sexual é, por enquanto, impossível, salvo em condições futuras em que o conhecimento genético poderá estar avançado para adulterar os instintos sexuais.

 

Terceira questão: qual fim último do homem na vida? Ou seja, o que há de comum que os homens buscam em todas as suas actividades?  Uma reflexão profunda já feita por Aristóteles deu como resposta “a felicidade”. Embora plausível, esta resposta é ainda discutível, pois por mais exótico que seja nem todos os homens colocam a felicidade como uma prioridade na vida. Há gente que prefere ser um génio preocupado a ser um simplório feliz. São excepções raras, porém reais. Mas, em geral, os homens sentem-se mais cômodos em fazer coisas que lhes causa prazer e não dor. E, por conseguinte, se entende que a vida só faz sentido quando há cumprimento da vontade e não a sua constante repreensão. Desde modo, urge perguntarmo-nos se, de facto, vale a pena impedir os gays de viverem felizes devido à sua orientação sexual que fere com nosso padrão social? Seria o mundo um lugar pior se permitíssemos que os indivíduos buscassem a felicidade à sua maneira, desde momento que respeitassem a nossa? Todo o esforço que exerceremos no combate contra LGBT afigura-se-me vil e mesquinho perante a felicidade – um direito natural de todos os homens. Julgo um crime contra humanidade condenar indivíduos LGBT à soledade, quando com ou sem eles, a vida dos indivíduos heterossexuais continua normalmente. Julgo injusto o apelo à extinção dos LGBT, por meio de discursos de ódio, quando a vida é já tão complicada quanto breve. O mundo é feito de pessoas diferentes. Os LGBT não ameaçam a condição dos heterossexuais no mundo de modo algum. Tudo quanto pedem é o direito de amar em função da sua orientação sexual. É ainda por esta razão que os transexuais se submetem a cirurgias para conseguir adequar o seu corpo à sua orientação sexual. O que, deveras, se nos afigura monstruoso: uma mulher no corpo de um homem ou uma mulher num corpo feminizado? Nós somos pensamentos e sentimentos. Se temos desejos e imaginações de machos é porque somos essencialmente homens. E, se assim, preferirmos, devíamos mudar o nosso corpo em função dos nossos desejos e pensamentos. A alma facilmente experimenta a felicidade quanto mais cumprir com a vontade da sua natureza.

 

Conclusão: se o homem nasce já com orientação sexual predefinida, e não a pode alterar e, em geral, a coisa mais importante na vida é a felicidade, então as pessoas LGBT merecem viver livres. E mesmo que as pessoas LGBT pudessem escolher a sua orientação sexual, se isso lhes causa satisfação e de modo algum ameaça a condição dos heterossexuais no mundo, que sejam permitidos ser livres. O mundo é feito de pessoas diferentes.

 

Eu sou a pedra no meio do meu caminho.

gostaria de esquecer que vivo tropeçando em mim

Carlos Drummond de Andrade

 

29 poemas intrinsecamente ligados fazem o novo livro de Adelino Timóteo, o qual, conforme observa Carmen Lucia Tindó Secco, a pedra expressa uma metáfora carnal, sensível, material, e, dizemos nós, sempre a partir de uma associação ao eu feminino, observa-se, enquanto um ser ideal, platónico se quisermos. Na verdade, A volúpia da pedra é uma selecção de textos na qual o poeta concebe a mulher como um ser duro e cintilante, resistente e com peculiaridades inabaláveis, mesmo quando expostas ao tempo ou às metamorfoses da vida.

Numa poesia construída à base do bom gosto e obsessão, cruzando com algumas especificidades típicas do erotismo whiteano, Adelino Timóteo desencadeia, a partir da pedra, um processo de transporte de significados que diminuem a tão profanada fragilidade feminina. Ao mesmo tempo que o poeta pinta aquele entidade com as cores da sedução, artimanhas que a permite prender e vencer a pujança do mais astuto galanteador, enaltece a mulher, como lhe é particular, como musa, força motriz: “Amo na pedra a tangível loucura do amor, o perfume que não fosse por ela, por essa mulher, jamais vos escreveria esses alegres versos” (p. 11).

A pedra timotiana, chamemos-ma assim, convictos de que quem diz pedra aqui também invoca mulher no mesmo substantivo, é afável, explosiva, letal e vertiginosa, veículo no qual o desejo, a vaidade e as fantasias transportam-se na personificação masculina.

Neste sumptuoso percurso pelas ancestrais emoções, com A volúpia da pedra Timóteo cria fascínio e alucinação num universo sublime, talvez porque, como nos sugeriu Martins Mapera, na apresentação da obra, “na tradição, a pedra ocupa um lugar de eleição. Existe entre a alma e a pedra uma relação estreita. Segundo a lenda de Prometeu, procriador do género humano, as pedras conservam um odor humano”.

Seja como for, nem sempre a pedra aparece como personificação da mulher, como defendem Secco e Mapera. No poema 24 e 25, por exemplo, a pedra aparece e funciona como tudo aquilo que, sendo exterior ao sujeito de enunciação, surge-lhe na velocidade de um engenho acutilante para o magoar: “Por vezes a pedra dói, dói febril, não no impulso com que a arremessamos, mas no impacto que nos causa antes de a propulsarmos” (p. 35). E mais adiante, no mesmo texto: “Sorride vós génios da literatura. Pois se algum de vós detesta o brilho estelar dessa pedra, que me levita ardorosamente, atirem-ma (…). Às vezes a pedra não só fere o olhar como nos dói antes de se nos beliscarem o osso, a pele” (p. 35)

Nos poemas 24 e 25, até pelo tom carregado de resignação interior, percebe-se que a pedra, sendo objecto singular, liberta sentimentos múltiplos, já que pode ferir e encantar. Provavelmente, é um recurso para lembrar como a doçura e o azedum são essencialmente duas faces da mesma moeda; como a mulher pode ser realização e/ou perdição, a chave de cadeia dita pelos brasileiros. Ela é potência e energia. Por isso pode construir castelos e gerar ruinas.

Este livrinho de Adelino Timóteo merecia mais páginas – são apenas 27 –, mesmo porque o jogo sobre a transferência de significados entre os objectos é frutífero para enriquecer o tema tratado. Ainda assim, a profundidade dos enunciados dos textos tornam o livrinho considerável, apto para uma boa aventura pelos planetas de que a mulher é feita.

 

Título: A volúpia da pedra

Autor: Adelino Timóteo

Editora: Alcance Editores

Classificação: 15

 

 

A poesia transforma a pedra, a cor, a palavra e o som das imagens. E essa segunda característica, ser imagens, e o estranho poder, que elas têm de suscitar no ouvinte ou no espectador constelações de imagens, fazem todas as obras de arte poemas.

(PAZ, Octavio. O arco e a lira. São Paulo: Cosac Naify, 2012, pp. 30-31)

 

Para Octavio Paz, a criação artística transfigura as matérias da realidade em imagens, por intermédio de um labor estético com diferentes linguagens. O escultor, por exemplo, transforma a pedra em escultura. O pintor recria a pedra em cores e formas. O poeta faz da pedra a lousa de sua escrita, convertendo-a em palavra e metáfora.

Começo este prefácio com a epígrafe de Paz, pois, poeticamente, ela sintetiza o trabalho de Adelino Timóteo como poeta, em seu novo livro A volúpia da pedra. Neste, a pedra assume uma multiplicidade de significados e variadas formas: a superfície lisa e/ou circular; a superfície de poros, relevos, porosidades; a superfície escaldante pelo sol que lhe cai e a enche de calor e sensualidade. São, portanto, inúmeras as materialidades e afetividades presentes nessas imagens da pedra. Às páginas 2 e 3, o sujeito poético declara amar, na pedra, a mulher que pode sentir: a sua carnalidade, o seu fluir líquido, em meio ao suor, ao tato, ao olhar, a “todos os sentidos”.

Seguindo essa ideia de materialidade afetiva, a pedra é plasmada, no livro, como corpo fluido, arredondada matriz, cuja fina sensibilidade e o torpor febril se transformam em imaginação criadora. Ela é também descrita e caracterizada como um elixir da volúpia, como mistério, halo místico que adentra o coração da poesia, a geografia do corpo, a polissemia dos desejos, tornando-se tempo filosofal, templo, casa. A pedra, como casa, terra, estrutura habitável também do amor, converte-se em local de afeto e poeticidade para o eu lírico que, à p.11, confessa: “afundar-me-ia como uma arca encalhada  em terra,  ou  na  redonda  e  transbordante  pedra  do  teu ombro em delícia e êxtase”.

A relação com a mão que escreve e destila poesia energiza e circunda a figura da mulher amada. “Agarro a pedra, a substância com a qual navego e me sustém ao chão” (p. 15). A pedra seduz, explode em mil alucinações poéticas: “Entre um tacto meu e o da pedra, degrau a degrau, corpo a corpo, a poesia singra. Está  calada,  poesia.  Passa  por  ti  um sulco,  os  olhos  esbugalhados  quando  há  fome,  a  guerra  e  a miséria” (p.18). A feitura de um poema exige muitas maneiras de construção, sensibilidades, clarividências e maldições; volúpias, argúcias e percepções: “Precisaria aqui da claridade e da lucidez de Bukowski para me explicar como se faz um poema” (p.22).

Bukowski foi considerado um dos poetas malditos, cujas poesias trabalhavam os subterrâneos da vida. Adelino Timóteo, convocando-o, coloca-se, neste livro, sob sua linhagem e, nesse aspecto, segue a vertente aberta na poesia moçambicana por Rui Knopfli e Luis Carlos Patraquim, assumindo, também, forte hermetismo de linguagem e elaborado labor estético.

Em A volúpia da pedra, Adelino relaciona, de muitos modos, a poesia à mulher amada. A pedra expressa esta metáfora carnal, sensível, material, que percorre sua escrita. Poesia e pedra se articulam num mar de palavras. Por isso, às páginas 27 e 28, o sujeito poético sente “a garganta seca, as costas ardentes, o doce vulcão do fogo (…), a saliva esgotada depois dos versos (…), mar de palavras e vazio de palavras, (…) contradição (…), fogo, calor, água. A pedra ovula”.

Ovular quer dizer o que tem condições de nascer: semente de nova vida. “Olho a belíssima e fulminante pedra na sua arquitectura, na sua abstracta perfeição e repito: tu eras aquilo que eu iria sugerir aos editores que publicassem em forma de livro” (p.20). Pedra e poesia se irmanam. No final do livro de poemas imaginado e criado, o eu lírico faz sua própria hermenêutica poética: “Sou todo a natureza de um ser sem nenhuma ambição (…). Sinto muito por aqueles que se despenderam  em  elogios  públicos  ao  que  nunca  quis nem esperei (…). Aos que me elegeram poeta, abençoo-os, porque no fundo amaram-me em conformidade com  aquilo  que  acreditaram” (p.25). O poeta faz sua autocrítica, ou seja, efetua, metapoeticamente, em seu livro A volúpia da pedra, uma arquitetura poética da desconstrução.

A segunda metade do século XX trouxe à tona questionamentos interessantes sobre a representação nas artes e na arquitetura. A pedra é um material importante para a construção, mas também, para a desconstrução. Ela pode relacionar-se com a metáfora da construção e ser um elemento fundamental para uma representação literária. Uma rede de entrelaçamentos materiais e poéticos estão presentes neste último livro de Adelino Timóteo.

Pensar o outro, pensar a partir do outro é pensar o acolhimento das diferenças. Jacques Derrida foi um filósofo importante para a teoria da desconstrução. Desconstrução que, paradoxalmente, também constrói. O pensamento de Derrida desencadeou discursos sobre a representação e permitiu ir além das especificadas pela arquitetura tradicional. Ele fundou uma nova arquitetura, a do descentramento. Uma arquitetura da pedra, uma arquitetura descentrada da linguagem poética.

No livro A volúpia da pedra, de Adelino Timóteo, o poeta se exercita nesse tipo de arquitetura da desconstrução-construção do discurso literário. Vai além da simples representação convencional e faz “a pedra ovular”. “E, na sua presteza para gerar, uma cria singra dentro dela. Está quieta, poesia. Está quieta, língua” (p.28).

As mãos, então, arquitetam-se “a arranhar o céu da pedra, a boca sôfrega. Sufragam a respirar a brisa do ulmeiro, percorrem tão funda, como um rio de seixos. Em liberdade. Para sempre. O que é um acto sublime de amor. Agradecer-te e à pedra esses genes e fenos da poesia.” (p. 28).

Com certeza, a pedra, a poesia e o amor se encontram e irão voar em múltiplos sentidos, não só na poesia de Adelino, mas também na poesia moçambicana como um todo e na mundial.

Octavio Paz, em O arco e a lira, diz que os homens transmudam pedras, cores, palavras ou metais em objetos. Os artesãos constroem utensílios; os escultores, pintores e poetas convertem esses materiais em obras de arte. O destino da linguagem nas mãos de poetas e artistas nos leva a entender os significados dessa diferença. É o que ocorre, também, em relação à poesia de Adelino Timóteo, na qual a pedra triunfa na volúpia da linguagem, realizando o esplendor próprio da arte.

Corre o mundo a polémica pontuação de Luca Modrick como melhor futebolista do Mundo, deixando para trás os sonantes nomes de Messi e Ronaldo. Os métodos e bases usados foram muito questionados, aventando-se hipóteses de corrupção com compras a jornalistas de premeio.

O assunto da premiação, nem sempre é levado tão a sério como merece. É preciso equacionar com mais rigor os efeitos e o poder que os prémios podem exercer, muitas vezes contrários aos pretendidos.

E se lá fora existem fragilidades como a que referimos, imagine-se internamente.

Cada um dá o que pode mas…

Uma empresa ou um empresário em nome pessoal, decide oferecer um prémio à Liga de Futebol, destinado ao melhor jogador. Foi o que aconteceu no caso da viatura oferecida a Telinho, como estrela do ano do Moçambola. A partir daí, vem a azáfama para definir critérios de atribuição, nem sempre muito claros, neste caso com base nos votos dos jornalistas desportivos (quais?) e na votação popular em percentagens muito discutíveis.

A partir desses pressupostos, o espaço de manipulação é imenso. E quando se vai atribuir um automóvel apetecível ao líder, não se prevendo nem uma mota ou bicicleta para o segundo e terceiro posicionados, que efeitos globais se podem atingir?

O prémio “top” vale 4 milhões de meticais e os acompanhantes ficam a “chuchar no dedo”. Desta forma, está-se a tentar criar um factor motivador, que poderá ter efeitos contrários.

Indivíduo acima do colectivo?

O futebol é um desporto em que os grandes triunfos pertencem ao colectivo. No caso em apreço, pode-se estabelecer uma comparação que reforça a necessidade de uma ponderação mais global.

Como entender que numa mesma modalidade e temporada, um jogador ganhe um prémio individual de 4 milhões e uma turma – neste caso o Costa do Sol, vencedor da Taça – após eliminar vários adversários na segunda mais prestigiada competição, tenha recebido na final a módica quantia de 500 contos! Se é que os “canarinhos” decidiram dividir o valor, digamos por 16 jogadores, mais treinador e dirigentes, num total de 20 pessoas, o prémio ficou em… 25 mil meticais, cerca de 160 vezes menos!

Pesos e medidas totalmente diferentes e divergentes, sob a alçada, da mesma entidade: a Federação de Futebol.

A falar é que nos entendemos

Que fique claro que não defendemos a recusa, ou a extinção dos prémios, algo que até deve ser estimulado. Porém, o rigôr, a seriedade e a transparência, são de importância vital. Este não é um assunto que, a cada temporada, pode ou deve estar apenas à mercê do que vier, como se de um Totobola se tratasse. O que está em causa é o aumento da motivação dos artistas e o seu empenho. Falando, ponderando e equacionando com os patrocinadores que de boa vontade querem colaborar, facilmente se chegarão a pontos de equilíbrio, de forma a não alegrar uns, frustrado os outros.

Há, portanto, que reduzir a margem de erro ao máximo, de tal sorte que vencidos e vencedores se sintam felizes, de forma a partirem para novas batalhas com a motivação em alta.

 

Quando o chefe do quarteirão a notificou para um encontro a dois, Celeste desconfiou logo do Sr. Raimundo. Afinal, a notificação chegara em suas mãos, no dia após ela lhe ter “dado corrida”. Ela não lhe podia coser o zíper das calças encardidas, sem que ele as lavasse e lhe fosse entregar para que Celeste, a seu tempo, procedesse ao seu ofício, ao contrário do imposto por Sr. Raimundo:

– Mas dona Celeste, não tenho outras calças! O que lhe custa coser o zíper enquanto eu as tiver vestido?
– “Enquanto eu AS tiver vestido”? Sr. Raimundo, onde é que aprendeu a falar assim?! Heheeeee, é para eu me render? Já te disse que eu não coso roupa de ninguém, quando alguém vestir essa roupa! Você quer ser cosido? Não me arranja problemas, eu. Por que não amarra capulana da tua namorada?
– … me empresta você sua capulana, quando eu tirar minhas calças no teu quarto…

Dona Celeste era modista de roupa masculina, por essa razão é que apenas homens entravam em sua casa. Sr. Raimundo costumava contar os homens que entravam em casa de dona Celeste por dia e cronometrava o tempo de estadia. De lá, os homens não saiam em menos de uma hora e todos eles beijavam a mão de dona Celeste, em jeito de despedida.

Moçambicanos beijarem mão? Wha, isso só pode ser coisa da cabeça dela! – analisou Raimundo.

– Dona Celeste, dona Celeste, dona…
– O que foi Sr. Raimundo?!! – gritou dona Celeste, quando sentiu a mão de Sr. Raimundo no seu pulso. 
– Não sei se… — foi interrompido por dona Celeste, quando erguia sua mão em direcção à boca. 
– O que é isso, Sr. Raimundo! – repeliu-lhe a mão.
– Afinal não é assim que se cumprimenta a Sra?
– Por favor! – atirou o antebraço para trás, enquanto se distanciava do Sr. Raimundo, que ficou para trás, desfrutando daquele abanar de ancas, que na alternância, ajudavam a formar uma concavidade que fazia daquela loxodromia propensa a acidentes. Raimundo queria merecer beijar aquela mão.

Depois dos seus “biscates” habituais, Raimundo passou a frequentar aulas de português, na igreja presbiteriana do bairro. Queria fazer de tudo para cativar aquela à quem ele deveria ser amante… também.

O padre ofereceu-lhe roupas novas. Para que dona Celeste lhe visse nelas, passou a sentar-se no seu banquinho lá fora, a espera de ver dona Celeste à porta, a ser beijada a mão, pelos seus clientes. Raimundo passou a gritar “Dona Celeste”, acenando-lhe a mão, cada vez que um cliente saísse. Depois de um tempo, dona Celeste já não saía. Os clientes fechavam a porta sozinhos, olhavam em direcção ao Sr. Raimundo, como se já soubessem o motivo da sua quase inércia. Um dia, um deles ia caminhando em sua direcção. Sr. Raimundo levantou-se, como quem estivesse a recolher-se. Quando alcançava a fechadura da sua casa, o cliente de dona Celeste disse:

– Não fuja, sr. Raimundo!
– Diga?
– Não fuja, venho só dar-lhe um recado…
– Estou muito atrasado, não vai dar para ouvir recado de ninguém! – exaltou-se defensivamente. 
– … a dona Celeste quer vê-lo!
– O quê? Passa-se alguma coisa com ela? – puxou as calças à cintura enquanto arrastava os seus chinelos de borracha preta, de fabrico artesanal. 
– Não! Ela disse que está livre para lhe coser as calças … – disse o Sr., sorridente, como se soubesse que Raimundo há muito que esperava por tal serviço!
Envergonhado, Raimundo olha para o Sr. e sorri, acompanhando sua trajectória, sem que se mexesse. 
De seguida entra à correr para a sua palhota, veste a primeira camisa que encontra e vai à correr para a casa da vizinha. 
– Raimundo! – grita Celeste, numa voz altamente debilitada. 
Raimundo corre para o fundo do corredor da rica casa de cimento, de onde calculou ter ouvido a voz desgastada. Quando entra para o quarto, não acredita no que vê …

Dona Celeste estatelada no chão, nua, trémula, a sangrar da vagina.

– Mas o que é isto, caramba, pah? Só me chamas para isto?
– Por favor, Raimundo, chama a polícia! – chorava a dona Celeste. 
– Tens certeza que isso não é menstruação? – pergunta Raimundo, enquanto anda de um lado para o outro pelo quarto, cogitando sobre o que fazer. Segundos depois pega nos braços da senhora choramingona e grita:
– E se eu continuasse o serviço daquele alí, hein? Porque só me chamas para porcarias? Não sou elegante para ti? Não sou elegante, né? Já não tenho aquelas calças podres! Já não preciso ti para me coseres nada! O que vais fazer comigo se não te foder agora, hein?

Raimundo sai à correr, na promessa de ir chamar um táxi. Ninguém do bairro deveria saber do sucedido. Seria um segredo deles. 
Dois dias depois, dona Celeste teve alta. Pela janela, Raimundo a viu chegar. A Sra. olha para a palhota de Raimundo, hesitante se para lá se dirigia ou entrava primeiro em sua casa. Seguiu em frente, na segunda hipótese.

Decepcionado por notar que homens continuavam a entrar em casa da dona Celeste, Raimundo voltou a sua resguardada posição, dentro de casa, de joelhos no seu banquinho, a acompanhar dona Celeste por aquele tímido ângulo da sua cortina.

Raimundo tirou alguns dias de “folga” pois perdera ânimo. Já não se pendurava tanto no banquinho. Passava mais o tempo no seu colchão, a olhar para o tecto, escutando música de Roberto Carlos, com o volume muito alto. Ouviu a voz de dona Celeste chamar por si. Coisa da sua imaginação. Virou para o lado. Depois ouviu baterem à porta violentamente.

– Entra! – gritou. 
Raimundo levantou-se apressuradamente do colchão, quando viu dona Celeste a estender-lhe um prato de comida. Dirigiu-se à sala e desligou o aparelho.

– O que estás a fazer aqui? – perguntou ele, cabisbaixo, coçando a barriga. 
– Vim ver como está o meu amigo, dar-lhe um pouco de comida porque nunca mais lhe vi, nem na baixa, nem sentado la fora e… trouxe-te umas calças, feitas por mim!
– … afinal coses? – perguntou Raimundo admirado!
– Sou modista e não prostituta, Raimundo… vamos comer?
– E aqueles homens todos?
– Nunca dormi com clientes, eu… da minha livre e espontânea vontade!

Fim
 

A capacidade de raparigas e mulheres controlarem seus próprios corpos é fundamental para o seu empoderamento. Proteger e promover os direitos reprodutivos – incluindo o direito de decidir o número, o tempo e o espaçamento entre crianças – é essencial para garantir a liberdade das mulheres de participar plenamente da sociedade. No entanto, as raparigas e mulheres nos países em desenvolvimento continuam a enfrentar desvantagens sistémicas, muitas vezes enraizadas em normas sociais que promovem a desigualdade generalizada de género e a violência baseada no género em todas as suas formas.

Numa visita recente à província da Zambézia, conheci a Joaquina, de 16 anos, que foi obrigada por familiares a se casar com um homem mais velho porque “ela era a mais bonita”. Joaquina engravidou rapidamente e depois de um longo parto contraiu fístula obstétrica, uma das mais trágicas complicações do parto. Um buraco entre o canal do parto e a bexiga ou reto causado por trabalho de parto prolongado e obstruído sem cuidados médicos, deixa as meninas e as mulheres com vazamento descontrolada de urina, fezes ou ambos, e muitas vezes leva a problemas saúde crónicos, abandono da família, depressão, isolamento social e pobreza extrema.

Em todo o mundo, estima-se que 16 milhões de raparigas entre os 15 e os 19 anos de idade dão à luz todos os anos, com 90% destes nascimentos de adolescentes ocorrendo dentro do casamento (Girlhood, Not Motherhood, UNFPA 2015). O casamento prematuro é uma violação dos direitos humanos e uma forma de violência que nega às raparigas a sua infância e as coloca em risco de gravidez precoce. O parto em idade precoce está associado ao aumento dos riscos para a saúde materna.

Durante anos, Joaquina não sabia que sua condição tinha cura, nem seu marido, que acabou por deixá-la. Ela acabou por partilhar que, apesar de seu sofrimento, ela ainda participou no parlamento local onde, depois de contar a sua história, alguém a incentivou a procurar tratamento.
Agora, Joaquina sente-se novamente como mulher e luta para que as meninas da sua comunidade se protejam do casamento infantil e evitem engravidar precocemente. Joaquina, como mentora do programa de empoderamento, Rapariga Biz, está usando sua voz para influenciar a mudança. Seu sonho é tornar-se uma professora para continuar a influenciar a próxima geração de meninas a fazer escolhas saudáveis ??e informadas.

Como mãe de duas filhas que estão sendo criadas para exigir e expressar seus direitos humanos, sinto orgulho de Joaquina como se ela fosse uma das minhas. Ela está usando uma experiência pessoal terrível para informar os outros sobre os perigos da gravidez precoce. Tenho o prazer de ser uma líder no Fundo das Nações Unidas para a População, UNFPA, que trabalha incansavelmente para garantir a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos dos jovens em todo o mundo.

Rapariga Biz é um programa conjunto das Nações Unidas, financiado pelo Reino da Suécia e pelo Departamento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido, que visa capacitar 1 milhão de raparigas e mulheres jovens em 2 províncias moçambicanas, 70% desse grupo etário, até 2020. O programa reúne múltiplos parceiros, desde o Governo de Moçambique, sociedade civil, agências da ONU até aos meios de comunicação para garantir que as raparigas adolescentes tenham acesso a educação, informação e serviços de saúde, justiça e competências para a vida sobretudo através de mentoria de pares. Os resultados iniciais estão a demonstrar elevada diminuição no casamento precoce e gravidez entre os participantes.
A Rapariga Biz também beneficia do Programa Global das Nações Unidas para Acelerar a Ação para Acabar com o Casamento Prematuro, que tem como alvo jovens de 10 a 19 anos em risco de casamento prematuro ou já em união, em 12 países. O UNFPA em Moçambique apoia a implementação de outros projectos semelhantes como o programa, Minha Escolha, financiado pelo Reino dos Países Baixos numa terceira província, bem como a Iniciativa Spotlight, financiada pela União Europeia, para eliminar a violência contra mulheres e raparigas, que visa acelerar a prevenção e resposta a violência sexual baseada no género e o casamento prematuro em mais três províncias.

Com estes e outros programas, estamos influenciando positivamente vidas de jovens, no esforço para reduzir a gravidez precoce e indesejada. Ao trabalhar em conjunto na busca de soluções locais, assegurar proteção legal, desenvolver a capacidade do governo e da sociedade civil para prevenir e responder à violência contra mulheres e raparigas, Joaquina e seus pares estarão a contribuir significativamente no desenvolvimento de Moçambique.

Nasci num domingo. Sem descorar de todos os acontecimentos importantes que foram ganhando existência ao domingo, este foi sempre, para mim, o melhor dia da semana. Desde que me desloquei do ambiente familiar, a importância deste dia da semana avolumou-se. Tenho as tardes de domingo reservadas para tornar irrisória a distância que se alojou entre Maputo e Lisboa. Falo, mas nada digo, nem? Explico-me: Nas tardes de domingo, a minha família em Maputo se junta ao redor do telemóvel. A euforia lhes faz companhia. E conversando ridicularizamos a distância que nos separa.

O tempo é um fio suspenso no qual vidas acontecem e ao se negarem cadentes tecem memórias.

Neste domingo tive uma conversa muito alegre com a minha avó materna, a vovó Lina. Minha avó materna e eu sempre nos tratamos por nkata, que significa esposa ou esposo. Por isso, como uma mulher ciumenta que vive longe do esposo passou toda a chamada a me cobrar satisfações sobre as supostas raparigas brancas com as quais a traio. Foi uma conversa deveras alegre, ponho-me a rir só de lembrar. O tema da conversa tornou-nos demasiado ocupados para evocar o passado, cabendo a mim agora fazê-lo sozinho.

Quando comecei a frequentar o meu ensino primário fui viver para casa da minha avó, tinha ainda quatro anos de idade, quase cinco, e saía de uma casa onde morava com cinco pessoas para outra onde moraria com mais de oito pessoas. Viviam na casa da minha avó alguns dos meus tios e primos, o meu irmão mais velho, Feliz, e com tempo se juntaram a nós mais tios, primos e o meu irmão mais novo, Filmão. Era sem dúvida um ambiente de uma família alargada. No início tivera muita dificuldade para me enquadrar. Era tanta timidez num só menino. Todos me dedicavam atenção especial, sobretudo a minha avó. Tornei-me bebé de vovó naquele período e com imensa gratidão reconheço que os meus tios e a minha avó se tornaram naqueles anos muitos dos pais que esta vida me tem dado.

Quando a sexta-feira trazia o fim das aulas voltava à casa dos meus pais para junto deles passar o fim-de-semana. Passava tudo tão rápido e nas tardes de domingo fazia o caminho de volta para casa da minha avó, onde passava vibrantes semanas. Ao início da noite daqueles domingos, minha avó punha-se muito atenta a escutar um programa da Rádio Moçambique. Ao longo do tempo foi convidando aos seus netos e à sua filha mais nova, a tia Melita, a lhe fazerem companhia naquela escuta que mesclava lazer e aprendizagens.

O programa em causa era uma novela radiofónica que se chama "Mabulo hiku yakana". Em cada episódio uma estória em changana, inspirada em temas sociais do quotidiano, se desenrolava. Ficar ali sentado com a família a ouvir aquelas estórias causava-me cócegas à alma, eu ria tanto. Era um dos momentos mais alegres da semana, e agora lembrando, digo, tornaram-se da vida. Não me lembro de haver televisão na casa da minha avó naquele período, muito menos energia eléctrica, por isso o rádio que funcionava a pilhas e jogos como txotxotxo (esconde-esconde), neca, zoto, papa e mamã e tantas outras brincadeiras que nos punham sujos era tudo o que tínhamos para passar o tempo. Desprovidos dessas modernices da actualidade eramos mais felizes, mais disponíveis a viver uns para os outros.

Vovó Lina, uma mulher de pouca escola (como tantas da idade dela em Moçambique), mas muito sábia, humilde e grande guerreira, nunca foi de contar muitas estórias. Sentar-se com os seus netos para ouvir as estórias que nos chegavam pela rádio foi, talvez, o jeitinho que ela encontrou para colmatar aquela lacuna. Sem dúvida, uma solução salomónica.

Quando criança declamava poesia na escolinha e agora iluminado pela luz desse halo que gira em torno de uma memória, como se completasse um puzzle que há muito me vencia, reconheço um gosto pela arte de narrar e ser narrado que me nasceu naquelas noites de domingo.

"Mabulo hiku yakana", para além de ser um clássico das novelas radiofónicas Moçambicanas, é um dos mais expressivos exemplos de como a literatura e a tradição oral sempre andaram de mãos dadas. Inspirado no meu exemplo, num tempo em que se fala de dar livros aos mais novos como forma de incentivar o gosto pela leitura, concordo com quem defende que o incentivo à leitura passa também por contar estórias aos mais novos, e, mais importante ainda, ler com eles os livros que lhes damos.

No presente fica a família ao redor do telemóvel para ridicularizarmos a distância, outrora ficávamos todos ao redor do rádio para escutar a radionovela e construir esta memória da qual sobejam amor, carinho, saudade e tantos outros sentimentos nobres. Ao viver de forma pública esta memória, expresso, desprovido de qualquer pudor, o meu agradecimento e orgulho por te ter por avó, nkata.

Martins Mapera

Universidade Zambeze

Nesta longa viagem, agarra-te à pedra como uma ogiva até à vertigem, capta-lhe as ondas como uma sonda, a compulsão pelo vácuo, dá-lhe a salivática substância do amor pelos beijos, aprofunda-lhe a carícia a diapasão com que a seguras e a vida que aflui nela. Acaricia-lhe até à medula.  Não a abandones. Dispa-lhe ao vento livre. Entra-lhe a cavidade funda das coxas, espreita-lhe as vibrantes cores. Delicadamente.

(Timóteo, VP, p. 12)

Na tradição, a pedra ocupa um lugar de eleição. Existe entre a alma e a pedra uma relação estreita. Segundo a lenda de Prometeu1, procriador do género humano, as pedras conservam um odor humano. A pedra e o homem apresentam um duplo movimento de subida e de descida. O homem nasce de Deus e regressa a Deus. A pedra bruta desce do céu; transmutada, eleva-se em direcção a Ele. O templo tem de ser construído com pedra bruta, e não com pedra talhada: “porque tocando as pedras com o ferro profaná-las-ás” (Êxodo, 20, 25: Deuteronómio, 27, 5; I Reis, 6, 7). A pedra trabalhada não é senão obra humana; ela dessacraliza a obra de Deus, ela simboliza a acção humana substituindo a energia criadora. A pedra talhada era símbolo de servidão e de trevas.

Convoco os conceitos veterotestamentários a propósito do texto de Adelino Timóteo: A volúpia da pedra, que hoje vem a público, pelas mãos de Alcance Editores. Quando o Paulo Serra me convidou a apresentar o livro, antes de saber o título, fiquei hesitante, por duas razões: a primeira é que mal conhecia o Adelino Timóteo. Sabia que escrevia romances. Mas nunca o tinha lido. Conheci-o em 2017, através de Alex Dau, um amigo escritor moçambicano. A segunda, a principal, tem que ver com a minha agenda. Estou a escrever um ensaio inédito sobre Xiphefo, uma revista cultural produzida em Inhambane, por um grupo de jovens professores da escola secundária e da escola técnico-profissional, nos anos oitenta do século passado. Mas, ao me ser anunciado o título do livro, despi-me da sisudez que me é característica, traindo-a contra todos os riscos da depravação de não poder cumprir a meta e o prazo estabelecidos.

Para além de ser uma construção fecunda, o título do livro mexe com as sensibilidades; atiça o fogo2 das emoções e atrai o sexo erecto da mente do leitor. Pois, o substantivo “volúpia" significa sensualidade, erotismo, prazer, charme, luxúria, lascívia, lubricidade, libertinagem, ou, se quisermos, “sex appeal”. A feminidade do substantivo “volúpia” personifica a pedra, atribuindo-lhe um carácter humano e sobretudo um pulcro espirituoso de mulher fermosa e esbelta, masturbando, de forma belicosa, o olho masculino de gente incauta.

Adelino Timóteo é um escritor de civilização alta. Basta referenciar o facto de ter feito uma formação em Ensino de Língua Portuguesa e outra em Direito. As duas especializações formam, ainda, uma simbiose perfeita com a arte plástica, uma actividade consubstancial ao seu filão crítico. A sua obra poética e ficcional é bastante vasta para um menino de 48 anos, nascido num país com ausência grave de civilização canónica da escrita (Moçambique é essencialmente um país oral). E, na verdade, de acordo com os seus parâmetros estéticos e existenciais, não podia pensar e sentir a realidade de outro modo. A sua relação com a arte não tem que ver apenas com a sua formação intelectual, nem com a sua reguilice político-ideológica; tudo isso é espuma crítica obviamente perecível cujo fim chegará um dia. Mas a sua estrutura sentimental, o seu humanismo, as suas ambições puristas vão pulverizar a cultura, perpetuamente.

Sabe-se muito pouco de prémios atribuídos no campo político-ideológico: posso citar alguns: o “Nobel da Paz”, a “Boa governação” (criado pelo sudanês-britânico Mo Ibrahim), “prémio personalidade do ano”, e fica-se por aí. Isso vinga, enquanto político. Não cria história nem estrutura de uma personalidade atemporal. Mas há um contraponto claro no campo da literatura e das artes no geral, onde se cria um leque de seguidores e admiradores, como acontece em futebol, cinema, novela e teatro: arrasta-se multidões e fãs. Adelino Timóteo não está distante disso. O seu reconhecimento em prémios e galardões é indiscutivelmente testemunhal.

O livro que nos apresenta é a continuação de um projecto que começa oficialmente em 1999, com a publicação de Os segredos da arte de amar. E aqui, em Volúpia da pedra, está uma imagem perfeita de amor inscrito na matriz de dualismo platónico (corpo e alma); ou, matéria e memória, ensaiadas por Henri Bergson. Será esta obra a decifração do enigma criado em Corpo de Cleópatra (2016)?, porque, como se sabe, constitui um mito absolutamente enigmático o desaparecimento do corpo de uma mulher que governou Egipto em 305 a. C. e cuja descoberta configura um mistério para os historiadores, arqueólogos e para a humanidade.

Em A Volúpia da pedra está inscrita a imagem de Cleópatra, a última rainha da dinastia Ptolemeu, poderosa e sensual, pintada de jóias de ouro e pedras preciosas, diamantes, esmeraldas, safiras e rubis. Vejamos este trecho semanticamente significativo, extractado da obra de Adelino Timóteo: “Como posso amar uma pedra e senti-la assim vertiginosa, achá-la tão íntima ao que lhe corre interiormente, a sua feminilidade, quando lhe desço até a origem. Imaculadamente” (Timóteo, VP, p. 16). É difícil, incrível, indecifrável e misterioso. É-o, ainda mais, porque, apesar de tudo, o poeta dialoga com a pedra para encontrar as respostas adequadas: “Tão indubitável que de coração para coração a pedra fala-me, a pedra questiona-me, de tão incrível que me ama e o repete na sua constância, no fundo, porque me toca, a sinto um elixir de ouro. Um surto de maravilha pelos sentidos. A pedra doce. Com o teu rosto. A alma humana que a tripula, a língua no que parece indiferente quando me pode beijar, governar-me os sentidos. O rosto belo e filosofal” (ibid.).

Para o autor de Corpo de Cleópatra, a pedra é um objecto humano porque tem sangue que é bombeado por um coração de sentimentos, como nos sugere a passagem seguinte:

Na telúrica dimensão do canto, as pedras são essas flores carnívoras entre as coxas, unidas pelos fundilhos aos quais nos damos e juntos sonhamos, à devoção febril do amor, ao que se perscruta do fio a pavio a rebentação do fogo, a volúpia que as une e as distanciam no curto-circuito onde ele queima o tecido pélvico e o deixa a arder ao prepúcio descarnado e ao chapéu da glande (Timóteo, VP, p. 26).

Daqui se conclui que Adelino Timóteo é um enamorado alienado, mas jamais alheia os seus sentimentos, não alheia a razão nem a lógica de dualismo platónico, pois instiga perfeitamente o matrimónio entre a alma e o corpo. Mais do que isso, não é literatura, nem é cultura. É, sim, o mais negro-feitiço da arrogância!

Obrigado, Adelino Timótea, por nos sugerir esta cosmovisão erótica a sangue frio!

 

Beira, Centro Cultural do Instituto Camões,

10 de Dezembro de 2018

 

1- Na mitologia grega, é um titã da segunda geração. Segundo essa tradição, Prometeu é defensor da humanidade, conhecida pela sua astuta inteligência, responsável por roubar o fogo de Héstia (a deusa virgem grega do lar, lareira, arquitectura, vida doméstica, família e estado) e o dar aos mortais.

2- Luís de Camões define o amor nos termos seguintes: Amor é fogo que arde sem se ver / é ferida que dói, e não se sente / é um contentamento descontente, / é dor que desatina sem doer.

“As grandes qualidades do homem vêem-se quando está sozinho. Mas também os grandes perigos. O isolamento, no entanto, é essencial.”

Gonçalo M. Tavares

 

É hora de te escrever, meu amor. Dobro as mãos, sujas de solidão e alongadas de frieza, sobre o peito deste laptop esquartelado e ajeito palavras para te escrever. Os teclados parecem que escondem as letras aos meus dedos e os números são os únicos que saltitam e recordam-me que faz muito tempo que não estás aqui. Escrevo e paro para vasculhar uma letra que não vejo. Do nada o “a” escondeu-se. Parece que sumiu neste conjunto de letras solteiras e presas em pequenos quadrados pretos; levanto-me, estico a coluna, deslizo a cortina e todos objectos molham-se pelo sol que se adentra pela janela. Uma rede com teias de aranha, filtra a gordura do sol antes de entrar. É um sol tenso e preso num formato circular que só cabe no seu brilho. Volto ao teclado e o “a” continua fugitivo. Faço um corta-mato e escrevo “mor”. Sim, escrevo “mor” porque o “a” parece que se afundou no estômago desse computador.

Escrevo-te neste dia que a cidade acordou com o rosto amarotado de nuvens cinzentas e com cicatrizes de chuva nos pés. Escrevo-te com as mesmas mãos que conhecem a gramática vital do teu corpo; as mesmas mãos que te carregavam nas escadas, que te colavam o corpo de cócegas, as mesmas que trocavam a lâmpada enquanto tu enchias-te de medo do escuro nos lençóis, as mesmas que te trancavam os atacadores das sandálias quando tinhas receio de esgotar a beleza inclinando, as mesmas que se uniam, formando uma pá escavadora, e carregavam-te do sofá até ao quarto; e tu toda diluída no sono.

Escrevo-te apressado pelo desejo de querer escrever-te sem nenhuma pressa. Pressiono as letras, no teclado, e do nada elas surgem uma a uma ordenadas por um sentido que não percebo. As letras surgem neste pequeno ecrã com muita rapidez; parecem erva daninha em tempo de chuva. Mas, estas palavras, estas letras não cheiram o suor da chuva e nem a cor do sol que derrete todos objectos aqui na sala. Estas palavras cheiram as pegadas de distância que hoje nos separam. Escrevo como um atleta, porque controlo o tempo no canto do ecrã e vejo a energia que me ainda resta para escrever e pensar em ti.

Esta sala, sem ti, virou um espaço amontoado de vazio e com pilares de silêncio nos cantos. A única coisa que se ouve, neste momento, é o ruído que o teclado provoca e a respiração asmática do meu peito nu. Não há sinal de vida sem ti nesta sala que deixou de ser um local de estar. O calendário pendurado pelo pescoço dum ano qualquer no prego da parede conta os poucos dias que me restam. E porque tenho poucos dias escrevo-te, “mor”. Continuo escrevendo “mor” porque o “a” ainda se esconde dos meus dedos. Maldito “a” que me obriga a diminuir o nome completo da paixão amadurecida. A nossa fotografia colada nas costas da porta do nosso quarto parece que acompanha o ritmo do relógio sem pilha: parou. O relógio precisa de pilha para continuar a sua marcha circular e eu? Eu preciso, tal qual a nossa fotografia, de uma mínima presença tua para voltar a vida e habitar o meu lugar em mim.

O Atlas, o nosso gato de pelos brancos, decidiu desaparecer. Também já não aguentava viver com os pelos sujos de solidão nesta casa. Lavava-se os pelos com a língua, mas a solidão corria atrás dele e por isso decidiu, pela janela, tomar novos caminhos. Era a única companhia que fazia sentido nesta casa. Era a única criatura que cruzava o corredor comigo, que sabia vir acordar-me com mios sempre que passasse a hora de despertar. Agora que decidiu arrumar os mios na sua barba e desaparecer fiquei a sós. Pela manhã a única coisa que me desperta são os meus próprios roncos e vezes infinitas esqueci-me dormindo. Cruzo o corredor com a minha própria sombra colada a parede, vestida de um casaco preto e sem rosto fácil de identificar.

Escrevo-te porque ainda tenho a sensação de sentir o que penso e o puro engano de que ainda posso ordenar alguma coisa. Se nem a minha própria vida não consigo ordenar, como posso organizar os meus pensamentos? O azulejo da cozinha só tem as minhas pegadas, a torneira, que deixou de se fechar, fala-me gotas no escuro, pinga e compete com as minhas lágrimas. Eu também pingo lágrimas como a torneira da cozinha, porque já não sei fechar os olhos sem sentir o peso da sua imagem.

E amo-te como quem entorna palavras com sílabas de beijos numa outra boca. É isso que me faz escrever-te agora. Neste instante. Amo-te aqui neste poço de solidão onde me encontro; onde a única coisa que me tira, como água, é o vento que sopra da janela. Paro de escrever. Deito as mãos sobre o teclado e as letras murcham, desordenam-se e começam a correr na pista branca do ecrã. Vou continuar a escrever. Suo o corpo inteiro. Levanto-me e descasco o suor na pele com a toalha que ainda conserva gotas do teu cheiro. Recordo-me do último banho que aqui fizeste. O último banho que te limpou o corpo e ensaboou, a mim, de solidão. Saíste descalça da casa de banho, picando o chão com as pontas dos pés e dedilhando gotículas sobre o chão todo com os teus cabelos. Cantavas uma música misturada com a escova de dentes na boca. A toalha circulando a sua cabeça era turbante daqueles árabes comerciantes dos filmes da Hollywood. Saltitavas como um coelho e molhavas o frio que se tinha deitado ao chão. Eu, entulhado no sofá, metia os olhos no ecrã da televisão e tu vieste despertar-me a atenção tocando-me o pescoço com a mão dentro duma luva de água. Saltei do sofá. E os teus abraços abertos foram o meu lugar de sossego.

Amo-te neste pedaço de dizer alguma coisa que ainda tenho. Amo-te com toda a força que a tua presença roubou-me; amo-te na esperança de não poder mais te amar. “Mor” ainda não vejo o “a” no teclado e ainda não vejo local certo para tê-lo. Talvez tenha de pegar numa lâmina, recortar todos os “as” das revistas e colá-los em todas frases onde eles fazem falta.

Sou capaz de te escrever sete anos sem parar para poder ter-te de volta. Jacó conseguiu a Raquel trabalhando durante sete anos, mais sete para Labão. E eu sou capaz de te escrever sete anos sem parar. Vou terminar por aqui, minha querida. Devorei todas as palavras possíveis que ainda tinha. Fosse eu Davi armava-me de todas as pedras que tenho debaixo desta solidão e matava o Golias do tédio que me espreita a cada gesto. E nem sou Noé para arrumar todas as trouxas de vazio numa arca e partir com elas para onde valem ouro ou muito dinheiro.

Em criança sentava-me na cadeira mais grande de casa e gotejava os pés para tocar o chão. Hoje, sento-me na cadeira mais grande, encolho os pés na caixa do peito, e os enrolo com a camisa para não tocar a falta e solidão que vigiam o soalho.

Amo-te na tua presença disfarçada de falta; amo-te nesta carta que não te chegará porque não sei onde estás, mas sei que metade da tua carne apanha sol nesta missiva. E tu sabes que esta sala virou-me as costas desde que partiste. Vivo na sombra que as costas destas paredes fazem-me. Vou juntar as mãos e terminar este texto. Acorrentar os dedos, unir as unhas e colar as caras das mãos para ter a certeza que as mãos cuspiram todas as palavras que tinham. Vou sentar-me nas escadas farejando nos degraus a cor do último passo que deste quando saíste. E os objectos todos desta sala, molhados pelo sol, sangrando sombras no chão, ouvirão o concerto da solidão guiado.

(Em Resposta às dúvidas de um poeta)
 
É você que vai apresentar o livro do poeta Armando Artur? (sublinhe-se “do poeta”). Perguntou-me de repente um poeta da praça. Na verdade ele interrogava o facto de eu não ser um poeta. Donde teria eu retirado as energias para a ousadia de apresentar o livro numa área que não conheço?
 
Isto está ligado ao facto de muita gente associar os filósofos às pessoas frugais e em geral incapazes para desfrutar dos prazeres da vida, entre os quais da literatura. A propósito disso conta-se que, um dia, o Conde de Lambron deparou-se com Descartes, o mais famoso dos filósofos do século XVII, com gestos de satisfação a dar conta de uma requintada refeição[2]. Ao vê-lo, o Conde dirigiu-se a Descartes com as seguintes palavras: – Não sabia que os filósofos desfrutam de coisas tão materiais como esta! Contrariado com a impertinência e a intromissão deste Conde, Descartes respondeu-lhe de seguinte modo: – Pensáveis então que Deus fez estas delícias só para serem comidas pelos idiotas? Pois caros poetas presentes, os filósofos se deliciam muito, até mesmo nutrem uma grande admiração, por esta musa – a literatura moçambicana.
 
Armando Artur, com este livro, faz dois exercícios simultâneos: o primeiro, ele quer reinventar o Ser por via da linguagem; o segundo, ele quer propor uma forma e arte, talvez nova, de escrever à qual me atrevo a chamar por proesia, ou seja, uma junção da prosa com a poesia. Já deparei-me com alguns que a chamam por prosa poética.
 
No exercício de reinventar o ser neste livro, Armando Artur fá-lo a partir de três dimensões: o Ser enquanto o Mundo, o Ser enquanto Moçambique e moçambicanos e o Ser enquanto Homem ou Eu. E, neste exercício, ele aproxima-se ao Heidegger da Carta sobre o “Humanismo”, a partir do qual oriento este diálogo sobre as semelhanças e paralelos com a obra A Reinvenção do Ser e a Dor da Pedra de Armando Artur.
 
Vou iniciar com a última dimensão, isto é, a do Ser enquanto Homem, este Eu chamado Artur. A dado passo, lemos um Artur que escreve: Reinvento-me aqui neste papel branco, que pode ser o contrapeso da gravitação universal em mim singularizado (…). Quando, em preparação para a apresentação deste livro, perguntei-lhe como pensava reinventar-se, ele riu-se primeiro, para responder que seria através da linguagem, ou seja, da escrita. A linguagem, para o Armando Artur, é um meio de se reinventar a si mesmo como um ser humano. Quase que dizendo, cada vez que estivermos perante uma folha em branco, a escrita deve conduzir-nos para uma humanidade maior. Uma escrita é uma carta interminável à humanidade do Homem.
 
Na sua Carta sobre o “Humanismo”, Heidegger sustenta que a linguagem é a “casa do Ser” e o homem, que habita nesta casa, é o seu guardião, em particular aqueles que são pensadores e poetas. Portanto, segundo Heidegger, a linguagem é qualquer coisa como “advento” enviado para o (e na posse do) Homem a fim de, simultaneamente, iluminar e velar a totalidade e a singularidade do Ser. A linguagem é este meio revelador do Ser enquanto Ser. Podemos dizer, com Armando Artur, que é por via da linguagem que o homem genérico, incluindo o próprio Eu, se reinventa e vai-se revelando consoante as circunstâncias.
 
À medida que se penetra na leitura deste livro adentro, nota-se que o mês de Novembro foi dramático e, ao mesmo tempo, “do beijo inicial”. É o mês, portanto, da reinvenção do autor. Ele trabalha o momento trágico (morte da sua filha de cinco anos no hospital por malária) e celebra-o como o mês do amor com muita doçura o beijo inicial; tudo isto por via da linguagem. O autor sabe que, enquanto puder encontrar-se defronte de um papel em branco, está também perante a possibilidade de voltar a autodefinir-se e autocompreender-se, enquanto Eu e sobretudo enquanto ser humano.
 
Passemos para a segunda dimensão, a do Ser enquanto Moçambique e moçambicano: Armando Artur nasceu na Zambézia em 1962, num tempo em que a longa marcha armada pela libertação de Moçambique iniciou. Por isso, ele pertence a uma geração que viveu em guerras e conflitos armados, gozando apenas algumas “tréguas”. E esta Província foi particularmente o palco crucial das guerras. Esta condição faz do nosso poeta um sofredor por carregar consigo demasiadas angústias.
 
Sobre este assunto ele escreve: Foi quando surgiram as grandes e pequenas guerras. (…) E as aldeias inteiras ficaram inundadas de suor e lágrimas dos espíritos ancestrais da pátria magoada. Apesar disso, Armando Artur escreve, mais adiante que Estou grato por pertencer a esta pátria de homens e mulheres que renascem das suas próprias cinzas….
 
Aqui vemos o nosso proesista a não desperdiçar a linguagem com mentiras sobre o Ser Moçambique e moçambicano. Mais do que outro Ser qualquer, Moçambique e o moçambicano precisam de usar a linguagem para dizer e cantar verdades sobre o seu ser. Pois, as narrativas sobre a nossa história, e sobre nós mesmos, estão repletas de mentiras. As piores mentiras são sobre as guerras que este país teve que viver. Só nos vamos reconciliar, enquanto Moçambique e moçambicanos, dizendo-nos, face à face, as verdades sobre as guerras e conflitos pelos quais esta geração de Armando Artur perpassou. Doutro modo, os nossos e os outros espíritos moçambicanos continuarão a perturbar qualquer marcha para o futuro.
 
A propósito da verdade, Heidegger escreve na mesma obra que venho aludindo: A linguagem é um advento disponibilizado ao homem para que este diga a verdade sobre o Ser. Ou seja, ser humano é comprometer-se em dizer a verdade e nada mais do que isso. Não é reinventando-se por mentiras. Mas a verdade corroeu-se quando começou a ser usada no espaço público para atender aos conflitos humanos, nos casos de guerra por exemplo. Aqui o homem perde a essência da linguagem (dizer a verdade sobre o Ser) e esta mesma começa a ser ameaça para a existência e essência do próprio homem.
 
Os poetas devem ser os guardiãs da verdade sobre Moçambique e ser moçambicano, como Armando Artur nos quer reinventar.
 
Como se reinventa o Mundo? Armando Artur fá-lo apelando-nos para a criação, ou seja, a invenção, de novas metáforas sobre a origem deste mesmo Mundo – o Nada. Não sei – escreve ele – o que havia antes do nada. Só sei que tudo começou quando o nada se amontoou contra o seu próprio nada. E então surgiu o Homem como uma das possibilidades universais. O Homem é só um dos entes deste universo, trata de nos recordar Armando Artur.
 
Heidegger faz questão de dizer que o Homem nasceu na clareira do Ser. Ou seja, ele não está amarrado a um mesmo lugar ou habitat deste Mundo, como os outros seres – pedras, plantas, animais – de certa forma estão. Esta fixação na “clareira” do Mundo permite ao Homem poder ser o protector e guarda deste Mundo todo, um protector deste ser-aí. O que ameaça a existência do Mundo, do ser enquanto Ser, não é assim tanto a acção do homem, mas sim o (mau) uso que o homem faz da linguagem. Os poetas devem guardar este mundo comprometendo-se com a verdade sobre o Ser enquanto ser. Estes devem proteger a existência humana, e a do Ser em geral, por via do bom uso da linguagem.
 
Em conclusão, eu penso que é isto o que Armando Artur, com este livro, pretende rechamar às nossas consciências sonâmbulas nos tempos de hoje: que o acto do uso da linguagem, e o da escrita em particular, é própria reinvenção em acto.
 
Proesia é o termo que criei (com a ajuda do próprio autor, quando lhe pedi explicações na AEMO, nas vésperas do lançamento), para anunciar e celebrar a melhor forma de classificar a proposta de método de escrita que livro faz por via da junção entre a prosa e a poesia. Pareceu-me, na altura, que este termo fosse a melhor forma de expressar esta aventura ambígua que o autor faz com a linguagem. Penso tratar-se de uma proposta literária através da qual o espírito ambíguo que se apossa dos autores quando estão na contingência de buscar equilíbrios, próprio estágio de quem está permanentemente a ter que se reinventar. Enfim, este género de escrita manifesta um espírito que se confronta com ambiguidades sobre a verdade do Ser na sua totalidade (Mundo), de um ser martirizado chamado Moçambique e do ser enquanto o próprio autor, um poeta que busca os equilíbrios de reinvenção por via da linguagem.
 
A proesia dá-se formidavelmente, que nem uma luva, com um autor angustiado por saber a verdade sobre si mesmo, por amar o seu país Moçambique e por celebrar a vida de estar no Mundo por via do amor, apesar de se encontrar num Mundo-em-guerras. Ela expressa e quer dar conta desta permanente angústia de ser humano.
 
Para terminar, eu gosto muito de um filósofo grego chamado Diógenes. Este vivia num barril e satisfazia na praça pública todas as suas necessidades. Dizia ele que um verdadeiro homem é aquele que, sendo livre e em caso de necessidade, poderia levar consigo todos os seus haveres (aliás como ele próprio o fazia com a sua “casa”, o barril). Os outros estão presos aos seus haveres, portanto, não livres. Por exemplo, em caso de termos que fugir, nenhum de nós estará em condições de levar às costas todos os seus haveres. Sendo assim, não somos todos seres livres. Esse Diógenes!
 
Pois sobre ele contam-se muitas histórias interessantes. Uma delas é esta: A alguém que se lamentava por ter perdido as tabuinhas onde tinha anotado e escritas as suas memórias, Diógenes censurou: – Se as tivesses escrito como deverias, na alma, jamais as terias perdido. E eu digo: os poetas são dos poucos, senão os únicos, que se servem da alma para expressarem verdades sobre o Ser enquanto tal. Escrevam na e com alma!
 
E, para terminar, uma segunda anedota que envolve o mesmo filósofo: Um dia, Diógenes estava a lavar, com muito cuidado, umas ervas, antes de as comer. Aristipo, cujo hábito era vaguear pela corte do Rei Dionísio para poder comer ou pedir algo, disse-lhe: Aí, Diógenes, se aprendesses a ser um pouco mais submisso, não terias de lavar ervas para comer. Ao que Diógenes replicou: – Vê as coisas assim: se tu aprendesses a lavar as ervas, não terias que servir Dionísio! Moral desta história é que, reinventar-se a si mesmo é procurar sempre em busca de novas possibilidades de Ser Livre.
 
No fundo, este livro é sobre a possibilidade de nos reinventarmo-nos como seres moçambicanos livres, que devem usar a linguagem dizendo-se verdades, escrito e manifestando a ambiguidade deste in acto (reinvenção) por via duma prosa poética (proesia).

[1] Autor: José P. Castiano. Texto pronunciado por ocasião do lançamento do livro de Armando Artur, intitulado A Reinvenção do Ser e a Dor da Pedra (Cavalo do Mar. 2018).

[2] Esta e as duas histórias no final deste texto foram retiradas do livro A Filosofia com Humor da autoria de Pedro G. Calero (Lisboa, Planeta. 2009).

 

 

Só nos conseguimos ver completamente através do

reflexo de nós próprios nas pessoas que nos rodeiam

Guilherme de Melo

 

Quatro anos depois de publicar As falas do poeta, Armando Artur regressa aos lançamentos. Desta vez, o título do livro é A reinvenção do ser e a dor da pedra, uma proposta equilibrada, na qual a palavra vai carregada de uma visão ulterior sobre os aspectos sugeridos.

Muitas vezes, nas 72 páginas, Artur dá voz aos sujeitos de enunciação que se preocupam com a essência embrionária dos fenómenos, os quais dão azo à expressão decorrente da relação “eu” e a “atmosfera”. Nisso, o poeta vai buscar ao vazio a matéria-prima de que se revestem as pequenas-grandes coisas.  

Por apostar numa escrita sobre aspectos que dizem respeito à humanidade além das fronteiras nacionais, A reinvenção do ser é um ensaio a roçar o altruísmo, daí a atenção cuidada aos fragmentos que fazem o planeta terra enquanto espaço a habitar de outras formas. Há neste livro uma poesia sábia, fortificada pela sensibilidade que o autor tem no manejo do conhecimento, afinal através da delicadeza metafórica o poeta consegue recuar milénios e circunstâncias para escrever sobre um presente a evoluir à laia de uma espiral. No fundo, há nos textos um tempo quase onírico a preservar, pois: “nada seria mais doloroso e pungente do que não ter a memória do futuro” (p. 20).

Essa memória do futuro aludido apega-se a um passado distante, complexo e universal. Por isso mesmo, Armando Artur investe numa poesia de regresso ao encanto perdido no simbolismo das coisas tangíveis e intangíveis, lá onde mora o poder da levitação feita de singularidades plurais: “Seguiu-se a história colectiva, a dos filhos da terra e do mar, entretanto, difícil e penosa, com estórias e calendários pendurados na parede das contrariedades” (p. 31).

Essencialmente, constata-se em A reinvenção do ser e a dor da pedra uma abordagem entre o poético e o filosófico, determinando-se na presunção de os sujeitos de enunciação conduzir-nos à reinvenção do nosso ser, não obstante a dor latente nesse movimento.

O “Retorno então ao interior das coisas” (p. 33) sugere que o que move o poeta no trajecto de regresso é qualquer coisa sacramentada, legitimada pela beleza das flores, das borboletas, da água, enfim, do vigor da vida, ancorada, lá para o fim do livro, no amor. Todavia, trabalhando sobre aquele sentimento, Armando Artur deslumbra-se um bocado. Nos poemas entre as páginas 45 – 53, por exemplo, o nível de arrojo poético decresce combalido, isto é, o nosso poeta, em A reinvenção do ser e a dor da pedra, é bem melhor a escrever sobre a viagem feita pela sua e pela interioridade do Homem, com apego à inquietante história da vida/ da existência, do que a colorir as pétalas de um amor pouco contagiante. 

Ora, no romance As raízes do ódio, de Guilherme de Melo, escritor que a crítica moçambicana precisa reivindicar, uma entidade diz-nos a certa altura: “Só nos conseguimos ver completamente através do reflexo de nós próprios nas pessoas que nos rodeiam”. Estas belíssimas palavras são ditas numa narrativa colonial que tem João Tembe no centro da história, protagonista que desde tenra idade aprende a conviver com as diferenças impostas pelo racismo. Aquela frase de Melo dialoga com os textos de Armando Artur no seu novo livro, sobretudo nos primeiros, na medida em que o reflexo da nossa interioridade encontra-se ao redor das entidades que nos falam no momento da leitura.

Portanto, o que mais vale em a reinvenção do ser e a dor da pedra, de Armando Artur, e o que nos interessa sublinhar nestes 3977caracteres sobre o livro é a qualidade com que o poeta trabalha a subjectividade, a semântica e a polissemia da palavra, conduzindo-nos, como se segurando num fio de Ariadne, à origem do que a poesia merece ser, comparada à plenitude do universo.

 

Título: a reinvenção do ser e a dor da pedra

Autor: Armando Artur

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 15

 

Ao som das turbinas desta ave e suspenso na infinidade deste momento passageiro, ocorre-me colorir esta página ao mesmo tempo que eu e minhas memórias trocamos carícias. Não sei ao certo o que daí derivará. Confesso, sem pestanejar, isto me dá um certo regozijo.

Estou a bordo do voo TP284, de Maputo com destino à Lisboa. Uma altitude de quarenta mil pés me separa da superfície terrestre. No interior desta ave mecânica, longe de todos que me são queridos e na companhia de mais de uma centena de desconhecidos, revisito com incontida euforia e sem formalidades a visita às minhas origens.

Aquando do check-in pedi um lugar à janela e o meu pedido foi atendido. Ao espreitar por esta pequena janela vejo uma espuma branca que levita sob um fundo azul celeste. Não é a primeira vez que estas imagens me enchem a vista, contudo a sensação assemelha-se sempre à que tive na minha primeira viagem de avião. Um misto de estupefacção, realização e paz interior.

Não tarda e me sinto familiarizado a este habitat efémero, sou possuído por imagens dos últimos cinquenta e dois dias. Um misto de nostalgia e alegria é tudo que me enche a alma e a existência. Vejo minha mãe com um sorriso de fazer Deus se apaixonar e no mesmo momento o meu pai, os meus irmãos, toda família e amigos se juntam à fotografia. As imagens aparecem sem nenhuma organização, mas tudo me parece bastante familiar e harmónico. Minha mãe beija-me a face e de vez em quando faz intervalos para avaliar meu corpo. E enquanto meu pai conduz o carro, aos gritos com o meu irmão cantamos todos "Chegaste" de Roberto Carlos e Jennifer Lopez. Partilho refrigerantes e sonhos com um amigo, falo das raparigas e lembro acontecimentos cómicos com os outros. Todos fazem-me temer pelos meus ossos e meu coração, os abraços são fortes e profundos.

É incontível a minha alegria, beijo e abraço a todos. Piso a terra que me viu nascer com saudade e sinto nela uma carícia húmida e contínua como se há muito tempo me esperasse, como se nunca me quisesse deixar partir. Esforço-me para reencontrar a todos e reviver tudo que me é querido. Vejo-me nas ruas de Maputo, Ndlavela é a capital das emoções, o caos dos chapas me põe frenético, o calor da Matola acorda-me, danço em Mpumalanga e rezo a contínua oração da vida nas zonas altas de Namaacha. Sinto o meu Moçambique acontecer-me, sinto a brisa salgada do oceano Índico me sacudir as vestes europeias que trago e vivo África, cheguei à casa.

Nos encontros existe um eixo comum, poem-se todos a escutar a voz de quem esteve no lado de lá, querem todos saber como é Portugal, como é a Europa, como é o mundo fora. E eu não me faço de rogado, maravilho-lhes os ouvidos, a imaginação e juntos sonhamos nosso Moçambique próspero.

Encontro-me perdido num abraço negro, intenso e profundo, lavo-me e bebo duma boca que mistura temperaturas, afetos e paixões. De repente tudo é interrompido pela voz do comandante do TP284, anuncia que começamos a sobrevoar Lisboa e que devemos apertar os cintos para aterrarmos. Os assistentes de bordo agitam-se e fazem marchas pelos corredores, enquanto vão se assegurando que todos passageiros trazem consigo o cinto apertado.

As minhas memórias se esvaem sem pedir licença. Um "foda-se" entre dentes é tudo que consigo dizer. E pela mesma janelinha que vi minha visita às origens, vejo minha amada "Lisboa menina e moça" a se despir e canto em pensamentos a música do Carlos do Carmo:

 " Lisboa menina e moça menina/ Da luz que os meus olhos vêm tão pura/ Teus seios são as colinas varina/ Pregão que me traz à porta ternura/ Cidade a ponto-luz bordada/ Toalha à beira-mar estendida/ Lisboa menina e moça amada/ Cidade mulher da minha vida".

Felizmente o clube HCB reestruturou-se e passou a União Desportiva do Songo, passo importante para que a população daquela laboriosa vila e os habitantes de Tete se sintam representados. Com o bi-campeonato no seu palmarés, e uma carteira internacional positiva, importa agora criar uma mística, a condizer com o investimento.

Vitórias, atletas e dirigentes emblemáticos, serão a chave que produzirá adeptos ferrenhos e leais ao clube tetense. Algo que já se passa com o Chibuto, onde os “guerreiros” mobilizam e catalisam toda uma região, estimulando a felicidade de ser chibutense, gazense e, numa escala ascendente, o orgulho pela moçambicanidade. Por esta ordem.

Algo idêntico deverá acontecer com a ENH, empresa vocacionada para a exploração de hidrocarbonetos, cuja designação e objectivos deverão passar por representar uma região e não apenas uma empresa.

Há outros casos a repensar. A turma da Autoridade Tributária, que detém o estatuto de “papa-títulos” no voleibol ou a Petromoc, cuja equipa domina o futsal. Uma coisa é a recreação e a competição entre empresas e núcleos surgidos a partir de “carolas”, outra é pôr uma instituição ou empresa a representar distritos, províncias ou mesmo a nação, na alta competição.

Torna-se difícil e até ridículo, um moçambicano explicar que o seu  campeão, para além de se dedicar à colecta de impostos, também faz alta competição ao ponto de representar o seu país. Algo raro, senão inédito no planeta.
 
“CASAMENTO” COM VANTAGENS MÚTUAS
 Os CFM, desde longos anos vêm sendo patronos dos Ferroviários, com “balizas” que parecem bem claras. O clube criou espaço e mística através das suas cores, adeptos e tradição.

Mas no nosso país, vivemos um paradoxo difícil de entender.
Vejamos dois exemplos: clubes com tradição secular, como são o Desportivo e 1.o de Maio de Maputo, com património e história de resistência à colonização, encontram-se nas ruas da amargura. Há um estudo que indica que o salário de dois jogadores dos grandes do Moçambola, pagaria todas as despesas de sobrevivência de uma destas colectividades.

O que seria razoável e benéfico para o país?
Que as grandes empresas e empreendimentos, ao invés de criarem clubes desportivos que pouco têm a ver com a sua carteira de acção e vocação, se envolvessem e patrocinassem colectividades que já têm vida própria, mística e adeptos.

Aqui, claramente, o “dedo”do Estado deveria ser bem mais forte, uma vez que a maior parte das ditas empresas até vivem dos impostos dos cidadãos e como tal, o seu envolvimento seria para beneficiar um todo e não o ego de alguns.

Numa altura em que há “mega” projectos à vista, é uma boa oportunidade para se projectarem parcerias/compromissos sólidos e que não dependam das paixões dos PCA's, para alavancar clubes e competições. Com benefícios mútuos.

É isto que acontece um pouco pelo mundo e em que, para não sermos uma “ilha' nos devemos inspirar.
 

Em 1989 o escritor moçambicano Suleiman Cassamo publicou O Regresso do Morto, uma coletânea de dez Contos “em que apresenta o quadro das contradições sociais e culturais vividas pelos excluídos e explorados trabalhadores das minas, crianças, idosos e, em especial às mulheres moçambicanas. Cassamo presta uma homenagem comovente aos marginalizados sociais representados por personagens sofridas, porém resistentes”.

O Regresso do Morto correu o mundo, transformou-se numa das radionovelas mais célebres em Moçambique, confunde-se com adágios populares e apegou-se em vários discursos motivacionais, e já agora, no dia-a-dia, há muito morto que retorna à vida.

Regressamos, e qualquer lúcido seria capaz de jurar, que renascemos das cinzas.

Foi como: “ O regresso do Morto”.

Temos mais uma vida, como nos videogames e queremos honrá-la. Quer dizer, até aí depende, mas pelo menos disfrutemos da mesma.

Aquilo equivale aproximar coreanos do Sul aos do Norte, atravessar o Mar Vermelho andando por cima da água como fez Moisés, ultrapassar os limites da lógica humana, enfim, extraordinariamente esquisito. 

Cépticos e optimistas abanaram e abanam ao mesmo som. Agora somos nós e o Mundo. Não há Rei que tussa ao nosso lado. Grande final do ano!

No processo de compreensão do passado, interpretação do presente e perspectivação do futuro, o nosso futebol nunca enganou. É, de longe, antipático e se fosse o contrário talvez não haveria euforia.

Como um “chute” pode fazer a diferença e enterrar sofrimento que foi, durante muito tempo, a nossa melhor companhia?

Os mimados estão pasmos, os masoquistas reclamam a devolução do seu sofrimento e os narcisistas dizem que já sabiam. Sabe-se lá. Já era confortável viver da boa vontade alheia.

Foi assim em 2009 quando, diante da Tunísia no famoso “velhinho”, mas sortudo, Estádio da Machava, Dário Monteiro, com pé esquerdo, deu aval ao Kampango para que, no ano seguinte em Angola, mostrasse a sua outra face.

Vai daí as cambalhotas que deu! Pura felicidade do “Keeper” moçambicano, o melhor que havia na vitrina e o mais recomendado daquela época.

Já no CAN, até deu-se ao luxo de correr o mundo à velocidade do Jamaicano Usain Bolt, com a resistência e determinação do fundista britânico Moh Farah, valeu-lhe a internet que não tinha a velocidade dos dias que correm.

Aquelas cambalhotas davam-lhe outra dimensão.

Mas para nós, estar lá era o essencial, e lá estivemos. Não interessa o resto.

É como quem festeja por ter sido insultado por Cristiano Ronaldo. Não é sempre que tal acontece, ou festejas ou festejas. CR7 dirigiu-se a ti, é directo para o Guiness Book. Valha-me Deus!

Ainda que tenha sido o pior momento da sua vida, há que ver o lado positivo da coisa. Sim, muitos querem. Até porque, quem desdenha quer comprar!

Não precisa ser bruxo para adivinhar muita coisa cá do burgo. Não há mistério que permaneça indesvendável. Com todo o respeito e sem nenhum preconceito, é mais fácil ser cortês de casamento entre um gigante e uma anã do que assistir a uma vitória dos Mambas. 

Nos campos não é excepção

Os mais de 40 mil espectadores para o Moçambique x Guine Bissau sabiam que aquilo seria uma tortura, antes mesmo do apito inicial.

Até com a asneira do Guirrugo contra a Namíbia, muitos sonharam. Mas, afinal, ainda havia “espaço na mesa para um morto”.

Já viram a história de Michael Phelps? O norte-americano? Hoje, o nadador mais medalhado dos jogos olímpicos?

Pois então, a sua ascensão começa com a desistência das piscinas, do agora jogador da NBA Kris “Topher” Humphries. Jogador de pouco destaque na National Basktball Association.

Humphries foi carrasco de Phelps, ganhou-lhe em todas e foi considerado uma das grandes promessas da natação dos Estados Unidos da América.

Em 1995 venceu seis provas numa competição nacional, deixando para trás…Michael Phelps!

Aos 10 anos, Humphries era melhor nadador do que o, hoje, maior medalhista olímpico da história.

“Eu era tão bom quando criança que acabei-me ‘queimando’ um pouco. É difícil manter o foco num objectivo quando você tem sucesso ainda pequeno. Precisava de um verdadeiro desafio. Ninguém comparava-se a mim. Ninguém desafiava-me naquela altura”, disse em entrevista televisiva, o homem que até se deu ao luxo de casar e separar-se da Kim Kardashin.

Quanta sorte, muitos dariam sua masculinidade para estar na pele do fulano.

Desistiu Humphries mas “nasceu” um campeão. Quantos conhecem este Poste? O Kris Humphries?

Repare, passou pelos Jazz, Raptors, Mavericks, Nets, Celtics, Wizards ou mesmo Phoenix Suns e…enfim! História para outro Rosário!

…e o regresso do morto?

Pois então! Foi a 18 do mês passado…pouca fé, pouca confiança e pouco público. Não houve ladainha que convencesse. Para Abel Xavier, era matar ou morrer.

Até que se prove o contrário, por baixo das vestes, o luso-moçambicano cobriu-se de adesivo para interditar acções involuntárias de qualquer orifício de que dispõe, caso o rumo dos acontecimentos fosse comprometedor.

Era… amassar o pão par a o diabo comer ou o inverso

Era mais fácil prever um acto racional vindo dum réptil do que aquele chute atrapalhado de Reginaldo que ressuscitou-nos e colocou nos ali, ali pertinho. Em Março vai ser… matar ou morrer. Enquanto não chega 2019, vamos festejar o “Regresso do Morto”.

Momento mágico, aquele do Reginaldo! Meus manos, estamos em pé, em cima duma agulha e a dançar melhor que Zaida Chongo nos seus momentos mais inspirados. Deus a tenha!

Aos 63 minutos do jogo, os moçambicanos lembraram-se de tudo, dos irmãos que estão distante, dos tempos ilusoriamente áureos do nosso futebol, dos momentos menos bons, da visita do Mr. Bow aos Mambas, dos animais de estimação, da força desta Selecção e da Nação, de tudo o resto! Naquele momento, era justo cantar: Moçambique é nosso filho, do Dj Ardiles.

Ao pobre dá-lhe uma migalha para arrancar o seu sorriso. Xavier salvou-se e salvou-nos o ano!

Celebrou-se a segunda vitória diante da Zâmbia mas, mais do que isso, os sete pontos no grupo K, o gosto pela vida, a segunda chance que a vida nos deu. A África que pode ser “nossa”, o Mundo que pode nos conhecer… que se lixem os Camarões que permitiram que a CAF retirasse-lhes o CAN.

Seja onde for, queremos lá estar. Março que nos aguarde.

Dependemos de nós, exclusivamente de nós. Isto equivale ao REGRESSO DO MORTO. Equivale a um dos momentos mais altos do ano, no desporto nacional.

 

Ao olhar para fora da livraria, vejo um ex-amigo fixado na vitrine, diante do meu livro, que era o único em destaque, por ocasião da assinatura de autógrafos – havia várias cópias do mesmo, espalhadas ao longo da montra.

Reconheci um amigo de longa data e alegrou-me saber que, apesar da nossa discussão de há 5 anos atrás, ele decidiu aparecer.

Emocionada e risonha, corro para o convidar a entrar. Ele olha para mim surpreso, igualmente contente!

– Não acredito que vieste! – gargalhei.
– Vim? Como assim? – retorquiu, desligado da pergunta, concentrando-se mais no facto de estar a ver uma amiga que não via há bastante tempo.

Contei-lhe o propósito da minha presença ali.

– Aaaah, sabes, eu estava alí na vitrine a olhar para a tua capa e a tentar puxar pela cabeça, de onde conhecia esse nome – Cri Essencia. Sabia que me era familiar! O teu livro, pois ééé!

– … Rui, deixa-te de estórias! – desconfiei acusando, sorridente, feliz por ver aquele que era oficialmente ex-amigo, depois daquele bate-mail frenético que tivemos há 5 anos, onde ele até de nariguda me chamou.

Reza a lenda que eu punha mola (de secar roupa) no nariz, para que ele se tornasse tão fino quanto o da minha mãe – acreditei no conselho de um tio. Portanto, chamarem-me de nariguda continua subconscientemente ofensivo.

– Sério! Epah, deixa-me comprar já uma cópia!
– E vais comprar assim?
– O In Search of An Accepting Sea? Claro! Há muito que estava à espera dele! Ouvi muito falar e fui me orgulhando na calada, sabes? – e folheava o livro animadamente, acrescentando de seguida:
– Olha, até vou comprar três; dois para oferecer. Quero todos eles assinados, já agora!

Rui procedeu ao ditado dos nomes incomuns e quando chegou a vez de assinar a cópia dele, diz-me a coisa mais linda:
– Escreve: “Para o merda do meu amigo Rui!”

Soltei uma cachinada realizada.

Embora fosse boa ideia, fiz aquela cerimónia de uma aparente boa educação:

– Tens a certeza? Vou por isso! – ameacei, num mode sequestrador delicioso.
– Sim! Escreve isso e assim perdoas-me logo! Escreve com raiva! – suplicou.

E assim, foi feita a nossa vontade.

 

Marcelo Panguana
Conversas do Fim do Mundo
Alcance Editores, 2012
Os Peregrinos da Palavra
Alcance Editores, 2017

 

Ler não é necessariamente uma actividade que só nos liga ao presente. Quando leio posso recuar uns séculos, deslocar-me geograficamente, inventar novas temporalidades; enquanto exercício que irei desenvolver nesta página nem sempre as minhas escolhas serão as mais actuais. Poderei cruzar leituras de diferentes livros, optando por cismar em algum tema que me provoque ou na notação singular de obras (des)arrumadas na estante.

Há muitas maneiras de ler, aquela que nos faz meditar preguiçosamente, a que exige quase por compulsão o exercício da escrita, a que nos faz dormitar, ou aquela outra que nos envolve de sonhos, nos intriga em evasão, nos assusta ou perturba pela novidade. A experiência da leitura é similar à de um sonhador solitário, acto pouco mundano e cada vez mais raro no mundo apressado em que vivemos. Tem algo de monástico e simultaneamente de libertino, pela clandestina privacidade que exige, pelo silêncio a que obriga, pela intemporalidade que se cria nesse solilóquio interior.

É um exercício de atenção e de dádiva, de crescimento e de desprendimento, uma viagem parada, de percursos mais longos ou mais curtos. Todo o livro se converte em criatura criadora quando o abrimos, folheamos, lemos. E pode inclusive ganhar voz pela nossa voz, se a leitura ganhar som e vocalidade. Antigamente os pais liam livros para as crianças ou contavam-lhes histórias. Por vezes no espaço da aula, o professor, que eu também sou, revê-se nesse estatuto de teatralização do livro, para captar a sua audiência. A pedagogia implícita de qualquer livro reside na arte de desencadear curiosidade como processo de prazer e de desvendamento; desvendamento de intrigas narrativas, contemplação poética, vibração interior, viagem pelo desconhecido, conhecimento(s), um livro, uma biblioteca, como diria Marcelo Panguana, pode ser uma verdadeira agência de viagens.

A voz tem qualquer coisa de mágico e é um excelente meio de sedução para levar à leitura. O leitor desabituado que ensaie a voz e faça a prática da recitação, como se de um mantra religioso se tratasse. Que descubra as vozes que o livro lhe quer trazer, as conversas, os segredos, os caminhos.

Que seja um peregrino da palavra, como o Marcelo Panguana, escritor de múltiplas facetas, excelente contista e cronista, autor de romances, literatura infantil e simultaneamente aventuroso leitor de literatura, editor de páginas e de revistas literárias e culturais. Um escritor/leitor muito atento às práticas culturais do seu país. 

Marcelo é um ser quase literário, ousamos dizer, uma personagem muito singular no quadro literário moçambicano, muito discreto no seu alto e esguio vulto, com um olhar sorridente, alguém suficientemente humilde e grande para se espantar com os outros, a quem generosamente dedica a sua escrita. Escreve e pensa com os autores que lê e que leu, vai além de si, porque pensa criticamente e faz literatura, envolvendo-se com ela como se em um constante encontro amoroso, em leitura e em prática ficcional.

Lembro aqui um importante livro de Panguana, As Conversas do Fim do Mundo (2012), que exige a nossa especial atenção; é um livro que experimenta a escrita entre a leitura, a biografia, a crónica e a ficção, num exercício de criação crítica único, uma vez que reúne reflexões diversificadas sobre bibliotecas, obras, autores, conversas, episódios, fragmentos de narrativa, atravessando o autor a rua que separa a ficção da realidade num exercício quase de fantástico; somos presos nessa aventura do leitor culto, que Panguana é, ao personagem em que se transforma, e ao memorialista que resgata as novas obras literárias e as antigas, os espaços da memória. São geografias de cultura  que ele desenha pela memória fazendo travessias da época colonial para o presente, reactivando figuras tutelares da sua aprendizagem, da biblioteca que o compõe; entre leitor e autor Panguana escreve como quem se desdobra em testemunha crítico-ficcionada.

Há algo de borgiano na forma como é construído e como se pode ler As Conversas do Fim do Mundo; a literatura e seus autores ganham vida e invadem o palco da existência, numa prática quase coloquial;  repare-se em alguns dos títulos das crónicas críticas que ligam a vida à literatura: ”No dia em que se destruiu a Torre de Babel”,” A Cidade dos Escritores”, ”Agora Ninguém Escreve Cartas”, “O autógrafo”, “ A história de Um Escritor que nunca deixou de Existir”. Cada estória/crónica/ leitura é a forma como o autor lê e reflecte sobre as obras publicadas em Moçambique, desde autores mais velhos como Aníbal Aleluia, Albino Magaia a autores mais novos como Adelino Timóteo ou  Andes Chivangue, apenas para dar alguns exemplos, exercendo um importante contributo crítico no quadro histórico-literário do país.

O entrelaçamento entre a leitura e escrita, a forma como Panguana escreve, julgo que corresponde àquilo que podemos chamar de “ensaio”; ele ensaia uma escrita crítica, personalizada tanto nos seus afectos literários de leitor, quanto nas suas evocações de vida e de memória, convocando às obras as figurações de personalidades entretanto desaparecidas, como em “Mil e Tantas Palavras ao José Pastor”, “A Voz,“A Segunda Morte do Escritor”.

Marcelo Panguana nos diz que o país está presente em cada página do seu livro – “o amor povoa todas as palavras”- e que a cultura é sua preocupação permanente nessa vontade de pensar “a história, as interrogações, as dúvidas existenciais, as conquistas, as percas, a nossa utopia individual e colectiva, (que) são o substracto comum deste livro que se inspira, sobretudo no chão da nossa terra.”

A escrita crítica que Marcelo Panguana convoca com As Conversas do Fim do Mundo, estreia uma página nova no género “ensaio”, que combina a crónica com a leitura, intertextualizando-a. Um contributo indispensável para uma história literária moçambicana.

Este gosto pelo que os seus conterrâneos escrevem, pela história literária e cultural do país, é reinventada no livro Os Peregrinos da Palavra (2017), onde reúne quinze entrevistas a diversos escritores e uma cineasta. Começa com uma mulher emblemática, Paulina Chiziane, a quem questiona, entre muitos tópicos, a existência de uma escrita feminina; termina com outra figura das letras femininas moçambicanas, a “filha de Muhipiti”, Lília Momplé, e no meio surge uma longa e reveladora entrevista com Isabel de Noronha, figura incontornável do cinema moçambicano, realizadora do docuficção biográfico sobre Malangatana Valente, entre outras obras de relevo.

Marcelo Panguana foi recolhendo depoimentos, conversas, que têm cronologias diferentes, mas permitem trazer da sombra, testemunhos sobre Charrua, Diálogo, Xiphefo, sobre o nascimento do cinema moçambicano, entre vários outros significantes acontecimentos na vida literária, enquadrada nos acontecimentos da história do país. Entrevista jornalistas, professores, escritores, poetas, e assim falamos com Filimone Meigos, Suleimane Cassamo, Ungulani Ba Ka Khosa, Nataniel Ngomane, Juvenal Bucuane, Calane da Silva, Eduardo White, Aníbal Aleluia…. falamos/ ouvimos alguns que já desapareceram da cena literária, mas não dos livros, nem da memória, que é necessário ordenar, registar, reactualizando, como neste livro se faz. Os percursos biográficos de cada um destes autores, agora quase personagens também, ganham vida e levam-nos a uma relação de proximidade maior entre a escrita e a existência humana, entre a vida e a literatura.

Estas entrevistas organizam-se com uma introdução personalizada sobre cada autor e no final exibem um fragmento da sua obra; são conduzidas pela curiosidade do entrevistador, que entretece pela sabedoria da pergunta alguns dos trilhos das respostas.

Os títulos que encabeçam as entrevistas notificam uma vez mais a presença de Panguana como escritor. Umas entrevistas são mais curtas que outras, mas sempre nelas se nota a pertinência do testemunho concedido sobre a prática de escrita, a época histórica, alguns segredos trazidos da sombra. Entre as várias vozes que tive o prazer de ler em Os Peregrinos da Palavra, saliento a longa entrevista de Simeão Cachamba, narrador que “abre as páginas do tempo”, à maneira de um contador de histórias, como bem aponta Marcelo na sua apresentação. Ou a de Isabel de Noronha, ou a de Calane da Silva…

Mas não vou alongar-me, pois não quero tirar ao leitor a curiosidade da descoberta de cada uma destas personagens/autores, trazidas à cena, em roteiro de memórias, pela mão atenta de um destacado leitor da literatura e cultura moçambicanas: o escritor Marcelo Panguana, que comemora este ano os seus trinta anos de vida literária, mas certamente mais de uma eternidade de anos como leitor.

 

Ataques em Cabo Delgado que tiram vidas sem piedade e destroem casas; apagão das ATM's que lesam milhares de cidadãos e colocam bancos comerciais em rota de colisão com o regulador; acidentes de viação que ceifam vidas por incúria dos condutores; corrupção em muitos dos sectores nevrálgicos da nossa sociedade, a vários níveis; famílias dilaceradas por actos irracionais de violações de adultos a adolescentes…

Quantas mais notícias negativas nos chegam, dia-a-dia para “digerirmos”, sem o contrabalanço de algo que nos traga alegria, razões para festa patriótica genuína, com abraços de auto-estima verdadeira?
 
VITÓRIA DO ARROJO
 
Neste mês de Novembro, o desporto contribuíu para quebrar esse ciclo, colocando o país a dançar. Primeiro foi no Zimpeto, quando os Mambas venceram a Zâmbia, numa tarde que trouxe de volta a esperança de mais uma presença em fases finais do Campeonato Africano das Nações. Dançou-se numa festa adiada, após os desaires diante da Guiné-Bissau e Namíbia.

E agora, senhoras e senhores: a cereja no topo do bolo, proporcionada pelas meninas e senhoras do basquetebol do Ferroviário de Maputo, ao conquistarem a mais alta competição africana de clubes!

Foram noites de entrega e luta, afirmação real de um querer colectivo. Nas noites no Maxaquene, em crescendo, venceu-se a descrença nas nossas capacidades, cada vez mais subestimadas nesta Pérola do Índico! Derrotou-se o coitadismo!

E como não há grandes vitórias sem arrojo, sem crença e confiança na qualidade do trabalho que se realiza, o mérito deste triunfo recai, em primeiro lugar, na Direcção do Clube Ferroviário, apoiada pelos CFM. Em tempo de uma crise nos tolda acções e até os pensamentos, foi uma forte injecção de patriotismo, a aposta nesta competição. E como a sorte protege os audazes, aí está o resultado, idealizado por uns para ser “saboreado” pelo país inteiro.

As meninas/senhoras, que após uma temporada competindo internamente num nível morno, foram chamadas a demonstrar, em poucos dias, que não só os homens “os têm no sítio”. Crer e querer, elevados a níveis altíssimos, deixando de lado festas de casamento e “xiguianes”, ultrapassando toda uma rotina de lamúrias, foi algo que honra e dignifica o nosso desporto e a nossa mulher.

O público? De batalha em batalha, culminando com a difícil noite da consagração, fez jus ao termómetro que veio do campo, tendo sido sentido e correspondido nas bancadas.
 
MENINAS: POUPEM O MEU CORAÇÃO
 
Para este velho homem da pena, sofrendo no meio da multidão, de novo uma velha questão. Como se descreve o indescritível? Talvez só mesmo os meios áudio-visuais o consigam fazer na plenitude. Por palavras, não é fácil transmitir a forma como os corações acertaram a cadência e, de forma espontânea, os corpos se abraçaram, dançaram e rejubilaram, por vezes num “chilrear” que parecia ensaiado, durando largos minutos. O hino nacional foi entoado, em uníssono!

Em longas noites a cobrir jornadas desportivas, eu já tinha vivido e sentido muita adrenalina. Recordo-me da vitória da Selecção feminina no Africano de Alexandria; vêm-me à mente as emoções da conquista de um Campeonato Africano em Masculinos e os feitos que não se apagam de Lurdes Mutola.

Pensava eu, caros compatriotas, que já tinha visto e vivido tudo em matéria de alegria no desporto… Mas afinal havia ainda estas guerreiras “locomotivadas” a voltarem a testar o meu coração, humedecendo ao mesmo tempo os meus olhos, com lágrimas de felicidade!

«Penélope,

nascida e criada no Alto- Maé. (…)

enquanto esperas/teu primo Ulisses,

o noivo aflito,/lá do Chibuto,

para as lautas bodas/no Ateneu»

João Fonseca Amaral

                                     À

Ximbitane na Lenha

1.

As primas têm a atenção sequestrada pelo grande ecrã, um seriado suga-lhes os olhos. A secretária da casa sabe que não deve anunciar uma visita, matar mosquito ou perguntar seja o que for. Milú e Gita estão ocupadíssimas!
Uma hora depois, aliviada a tensão aproveitam o que sobrou da tarde.
–  Amor, veja lá o que esse daí quer. Eu já disse que estou em casa. Eish! (A Milú entregando o telemóvel à Gita)
–  Tá-te a cumprimentar, mana.
–  Yuh, mas só isso? 
– Hããã. É porque não trago óculos, sabe. Esta minha vista…Escreve-lá, com os teus dedos pitandos, assim do tipo quando te vejo?
–  Mas prima?
–  Okay.

Gita não foi em meias medidas. Escreveu «Quando te vejo? Estou morta de saudades. Um beijo». E doutro lado a resposta não tardou.
–  «Mais logo vou ao Cala-boca. É um Lounge fino. Posso te ver lá no sítio»?
–  «Sim, 19h». Gita decidiu pela prima.

E logo de seguida a conversa muda de rumo. Gita toma iniciativa: 
– Milú, lembras quando brincávamos na continuadores? Paralisavas aquilo tudo! Xissa, phá! E aqueles rapazes davam caramelos, arrufadas só a ti. E tu, Madre Teresa de Calcutá, sentindo pena de nós davas um a mim, à Panguita, à Lola e a prima Sara que bazou para a John…
– Xi. Ainda lembras de coisas do tempo colonial, filha?
–  Até do Kilson eu me lembro, o teu gringo.
–  Pára lá com isso, Gita! Vou-te bater…
– Aquele gajo te queria como pão para a boca, mana!
– E quem foi que te disse que lá isso de ele ser americano dá-lhe algum direito de preferência?
– Acho que nem sabes bem o que queres dizer, mana. O Kilson fez de tudo, foi à casa do tio Mário. Apresentou-se. Lobolou-te. Foi visitar as campas dos vovós Mundau e Salda. Só faltava o gajo dar banho aos cabritos…
–  Esqueça isso, filha. Eu estou masé louca por ir ao Cala-Boca. E tu és minha madrinha hoje. Deixa-te de falecidos, vamos aturrar aquele machangana do Pajó.
– Nem me fales, mana. Vou caprichar. Ainda descolo deste meu azar…
– Qual é o carro que vamos usar hoje, filha? – Atirou a Milú.
– Hoje quero conduzir o Black Mamba. Estou farta de simanguitos nas ruas. 
– Desculpa lá, mana. Vou trocar estas sandálias, calçar uns sapatos rasos. A noite promete.
–  Não demora, filha. 

2.

–  Gi, estava aqui a pensar com os meus botões. Qual é a diferença entre eu e essas ministras que andam por aí? A mulher é que está a dar, filha. Eu até me imagino a falar no parlamento. E tu ficas logo minha chefe de gabinete, diz-lá, o que achas? Seja sincera, querida! 
– Hehehe! Acorda, Amor. E quem vai vestir essas tuas roupas curtas. Aquelas tuas botas, bombar na night,etc? Se te metes naquela merda tens de mudar muita coisa. Posso ligar à prima Luísa. Vai ler para ti a cena dos protocolos, coisas corretinhas e etc e tal. Sei que és uma poderosa, mas veja lá onde metes a fuça, baby …
–  Ei, tens razão. É por isso que gosto muito de ti, meu anjo. Entendi bem e, veja que nem vou dar os meus biquinhos por aí. As selfies no elevador. Ei, sai satanás! Deus me livre! Nem quero saber como é que aquela malta aguenta? Achas mesmo que sou capaz de andar a controlar o instinto do meu beijo molhado?
– Estou a render contigo, mana. Enquanto falavas dei por mim a ler as cartas do Tony daquela banda de rock?
–  Aquele que mandava postais em inglês?
–  Não, mana. Escrevia em Português mesmo.
–  É tudo igual. E tu lias, com todos kapas, éffes e érres.
– E aquele sul-africano, nunca mais fomos ver o sivale?
–  Stop! O que te deu hoje, hein querida? Foste tirar o Boyson, da campa em Benoni? Pensando bem, aquele tipo me abriu os olhos. Comecei a usar a cabeça. Comprei casas na Suázi. 
– Lembras-te das nossas aventuras? E aquele primo do Mswáti a comer na tua mão… Eras uma princesa…
–  Aleluia! Estás a ver que não fui matreca.
–  Nem me fales, prima…
– Olha que ninguém notava que tinha dois dentes partidos.
– Como reparar nisso mana. Tu és uma gatona. Deus estava inspirado…
–  Pára com isso, Linda! Vou estacionar. 
–  Deixa-me abrir-te a porta, mana.

3.

Gita deu a volta à viatura, a Milú ajeitava a maquilhagem quando o telefone vibrou.
– Yuh, como é que o Pajó advinhou a nossa chegada. Fala lá com ele, amor. Estou a acertar o batom. – Milú entregando o celular à prima Gita.
– Não é Pajó, mana. É o ministro aquele teu fã da casa Mapiko.
–  Eish, o Gatafox?
–  Dá cá isso, amor. 
–  Olá, filho de dono. – Milú conjugando o verbo.
– Olá, meu feitiço. Tudo bem?
– Tudo. Sabes com é. Esteja à vontade. Não tenho salamalaques. E tu, gatão?
– Tive de me trancar no escritório para falarmos à vontade. Digamos que estou a terminar a minuta do acordo que vamos celebrar com a Coreia do Sul. Tenho uma viagem dentro de duas semanas.
–  Wow!Estou a gostar disso. Meta-me na mala.
– Isso é pouco, filha. Manda-me agora a cópia do teu passaporte preciso de mandar a minha secretária incluir-te nas passagens…
– Hei, como assim? Ei, veja bem, Gatucho. Não quero vender jornais…
– Isso é cá comigo. Vamos com uma equipe técnica. Já avisei lá em casa que vai uma comitiva ministerial executiva e alguns empresários.
–  Hum. Do tipo mata-e-esfola?
– Isso mesmo. É desta vez… Olha devo desligar. Estou a receber uma chamada das águas grandes.
– Está bem, filho. Mabeijo na orelha. Já te mando por whatsapp.

4

– Filha peço para veres se a minha bolsa tem o passaporte.
–  Qual das bolsas, Linda?
– Aquela que comprámos em Itália. Nem imaginas, estou para ir a Coreia do Sul …
–  Xi. Você não presta mesmo. Ainda por cima com um ministro…
– Estou em cima da casa, filha. Nem imaginas o que o Gatucho armou para a dona das coisas.
– Não me digas que nem falou da viagem à dona fulana…
– Falou. O gajo disse que vai numa coisa executiva, blá, blá. Só homens. O gajo já nem pensa, filha. – E a Milú voltando à carga.
– Olha envia-lhe as imagens do meu passaporte no whatsapp. Ele quer tratar do visto, já. Chuta daí, querida.
–  Vamu que vamu, mana.

5.

Entretanto,

O Pajó já tinha roído todas as unhas. A ansiedade asfixiava-o. Havia rebentado duas torres de cerveja.
– O que tens, filho, que bicho te mordeu?
– Bicho uma ova. 
– Calma, mor!
– Não quero saber. Será que vieste de navio. Ou pensas que sou um boneco?
– Relaxa, moço. Tu sabes que sou tua. E, olha que não digo isso a toda gente…

Foi tudo rápido! As caixas automáticas decidiram tomar um sonífero e dormir no meio de ruas como mendigos. Dormem em todos cantos do país e os guardas são os únicos que vigiam seu sono. Pararam de cuspir nossas notas e as pequenas facturas que nos mostram o pouco que temos em nossas contas. E já nem arrotam e nem rugem como leões, Simbas bravos perdidos no meio da cidade. É a primeira vez que as máquinas decidiram entrar num sono profundo. Estão num sono tão profundo que nem roncam! Como roncariam sem o famoso SIMO? Coitado das nossas caixas.

Escrevo este texto pensando no que sonham as nossas caixas automáticas. Será que sonham com o nosso dinheiro que lhes embalam o sono e serve de almofada? Ou sonham com uma botija de SIMO reactivando-lhes a vida, fornecendo-lhes energia nos músculos para poderem acordar desse sono, ou sonham dizendo-nos as notas que estão disponíveis ou segredando-nos para não esquecer os nossos cartões.

Ou talvez sentem saudades das suas bocas abrindo-se, como hipopótamos eléctricos, a todo momento, para entornar um recibo enrolado ou notas bem lisas e velhas. As bocas das nossas ATM quando se abrem recordam-me as dos crocodilos, do jardim, pescando moscas nas ondas do ar.

Talvez as nossas caixas sentem saudade do homem que chega cantando com a guitarra do assobio, que pressiona em seus botões com raiva e tira-lhes, sem mínimo de cuidado, uma nota de cem meticais; talvez sintam falta do velho que lhes toca os botões com delicadeza e pede ajuda para tirar as notas velhas como ele. Ou da moça de unhas pintadas que carrega nos botões com cuidado para não manchar as paredes pintadas das suas unhas. A mesma moça que tem a conta nutrida mensalmente por contas alheias.

É tanta coisa que me ocorre sobre o sono das nossas caixas. Ou sentem falta da senhora que deposita vinte meticais e sai correndo do banco para verificar o seu saldo. Ou daqueles malandros que desviam cartões e fazem macacadas para sorver, como esponjas, o dinheiro alheio.

Viraram órfãs as nossas caixas; falta-lhes uma fita de luto na roupa que vestem. Ninguém se aproxima deles para lhes dar um abraço e pedir as suas notas. Suas bocas secaram e nem têm um pingo de saliva para fazer deslizar uma nota. Não há filas armadas de cartões em frente às nossas caixas e nem há aqueles homens rudes que espreitam um buraco na fila e logo metem suas barrigas.

Talvez as nossas pobres ATM sintam falta de nossas filas longas ao sol, da nossa impaciência para retirar o cartão, dos nossos suspiros carregados de bolhas de saliva sobre suas caras, dos nossos dedos, indicadores, carregadas de unhas sujas, das nossas manias em fazer-lhes engolir os nossos cartões mesmo informando-nos que não estão bem-dispostas, da nossa rudez em retirar o nosso papelinho de saldo e rasga-lo na hora, nas suas caras movidas por imagens publicitárias.

Dormem as nossas caixas. Descansam o sono acumulado das sextas-feiras, dos feriados nacionais; repousam as transferências cansativas em todo país e o cansaço de ficar de pé, distribuindo notas, aos finais do mês. Não há SIMO e as nossas caixas descansaram os nossos cartões sujos, partidos nos cantos, com rugas em toda parte e tatuados de assinaturas mal escritas nas costas. Quantas vezes foram insultadas as nossas caixas quando a febre do sistema ataca o seu funcionamento normal? Quantos pontapés e pancadas oferecemos às pequenas telas das nossas caixas quando decidem acelerar a digestão engolindo os nossos cartões?

Quando a botija de ar, cheia de SIMO, chegar ao cimo das nossas ATM, elas acordarão e, assim, voltarão a sua rotina normal de nos distribuir dinheiro como mendigos estatelados ao pé de uma mesquita. Estamos no cimo do SIMO e percebemos que há muito limo. Coitado das nossas caixas e de nós. Foi tudo rápido. As nossas caixas automáticas decidiram tomar um sonífero e dormir no meio de ruas como mendigos. Dormem em todos cantos do país e os guardas são os únicos que vigiam seu sono.

“Bons sonhos, queridas caixas. Espero que despertem logo, porque muita gente não apanha sono em seus lares”.

O Intelectual Orgânico e a Verdade

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