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O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

Coube-me a tarefa de apresentar três estudos, cujo denominador comum entre os mesmos é a discussão em torno do cânone literário em Moçambique ou do cânone literário moçambicano. Confesso que me senti como alguém a quem pregaram uma partida, dada a responsabilidade que o exercício exige. Mas porque a apresentação de livros pressupõe um exercício de aprendizagem, decidi não perder a oportunidade de ficar a saber alguma coisa sobre um tema tão importante quanto controverso para o nosso sistema literário como é a questão do cânone. Não sei, por isso, se vou, de facto, apresentar os livros, ou se apresento as inquietações que estes despertaram em mim, ou ainda um pouco das duas coisas.

Devo começar, para fechar esta introdução, com a leitura de duas formulações trazidas em dois dos livros e que, quanto a mim, evocam outro debate, surgido, pelo menos, nos anos 40 do século passado e que viu registado na Imprensa da década de 80 o seu momento alto: falo do debate sobre a nacionalidade literária, no qual a Professora Ana Mafalda Leite foi uma das protagonistas. Mas então que formulações são essas, evocadoras desse não esquecido debate? Refiro-me ao facto de Vanessa Pinheiro, no título do seu livro, falar do […]Cânone Literário em Moçambique, e das três autoras, no livro que organizam, falarem do Cânone Literário Moçambicano.

Se, no caso do cânone literário em Moçambique podemos supor que não é exclusivamente do cânone gerado pelo sistema literário moçambicano que se pretende falar, mas sim, eventualmente, da manifestação de outros cânones com que o ambiente cultural moçambicano manteve contacto, como é o caso do cânone português, já no segundo caso, do cânone literário moçambicano, parece ficar claro que é acerca do cânone gerado pela literatura moçambicana como sistema que se pretende abordar, ou seja, um cânone gerado da relação autor-obra-leitor, como propõe o teórico brasileiro Antonio Candido, citado pelas autoras. Estas formulações constroem, como o fizeram outras do já referido debate (poetas de Moçambique, poesia moçambicana, literatura em Moçambique) um espaço de ambiguidades teóricas e práticas provavelmente insolúveis e que, por isso mesmo, exigem tomada de posições claras e fundamentadas de quem pretenda dar uma resposta à problemática do cânone. Ao ler estes livros, e sobretudo no que ao cânone diz respeito, fiquei com esta sensação, a sensação de estar perante um terreno movediço, mas, ao mesmo tempo, atraente.

 

Primeiro afloramento

Comecemos então com os Ensaios Teóricos e Estudos Sobre Literatura Moçambicana, de Ana Mafalda Leite. Ao lermos a nota que a autora coloca para abrir o livro, percebemos o iminente contacto, tal como defendem Wellek e Warren (1949), com um estudo sistemático e integrado da literatura moçambicana. De facto, ao lermos o livro, entendemos que a autora nos apresenta um estudo sobre a literatura moçambicana a partir dos três domínios recomendados por Wellek e Warren, a saber: o teórico, o crítico e o histórico. É verdade que, tal como estes dois autores avisam, estes domínios, não sendo necessariamente exclusivos entre si, podem e devem complementar-se, seja qual for a perspectiva de análise dominante, se teórica, crítica ou histórica. Destacamos, entretanto, o facto de na obra de Ana Mafalda Leite haver uma intenção declarada de os abordar de forma particular, facto que não deixará de atestar a longa experiência da Professora no estudo da literatura e da literatura moçambicana, como aliás já fizemos referência.

Ensaios Teóricos e Estudos Sobre Literatura Moçambicana é um livro dividido em duas partes. A primeira, teórica, faz uma espécie de dissertação sobre as teorias pós-coloniais. A autora aponta as controvérsias criadas pelas diferentes designações do termo «pós-colonial», muitas vezes colocadas entre os extremos epistemológico e cronológico. Ou seja, há uma confusão gerada pelo termo se pensado, na esteira de Leite (2013), como ideia que se refere aos efeitos culturais da colonização, independentemente de qualquer marco cronológico, e, em contrapartida, como termo que procura demarcar as literaturas surgidas de países recém-independentes, como é o caso da literatura moçambicana. Nesta parte do livro, coloca-se também a questão da relação entre o termo «pós-colonial» e o domínio de estudos literários designado estética da recepção, considerando o movimento da Globalização, que tende a rasurar o sentimento local. Esta parte do livro aborda, ainda, a relação entre a pós-colonialidade e os modelos críticos baseados em representações orais. A literatura oral é também aqui discutida como um factor importante para se (re)pensar a questão do cânone. A relação, os contactos entre a ficção, a História e a Memória são também abordados nesta parte do livro.

A segunda parte do livro de Ana Mafalda Leite trata da História da literatura moçambicana. É uma questão ainda não resolvida. A autora evoca Almiro Lobo e Francisco Noa, outros autores que se têm debruçado sobre a matéria. É neste diálogo entre o seu próprio trabalho investigativo e o de outros autores, que a autora sugere alguns tópicos para a escrita da história da literatura moçambicana, nomeadamente:

  1. O papel do missionário João Nogueira e a literatura de viagem.
  2. A introdução da tipografia, em 1854.
  3. A literatura surgida do contacto histórico com outros sistemas literários, como é o caso da literatura portuguesa.
  4. Os manuscritos sobre Moçambique, enquanto contributo da Literatura de Viagens.

Como dissemos, a obra de Ana Mafalda Leite é também analítica, debruça-se sobre autores já canonizados, como são os casos de Luís Bernardo Honwana, José Craveirinha, Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, Eduardo White e outros autores que, quanto a nós, poderão fazer parte do cânone se forem integradas na equação da canonização outras variáveis, conforme nos dizem os ensaios de Artur Minzo, Sara Jona, Aurélio Cuna, Vanessa Pinheiro e Giulia Spinuzza. São esses autores Rui Knopfli, Filimone Meigos e Adelino Timóteo. De qualquer forma, ao abordar estes autores, Ana Mafalda Leite realiza umas das variáveis evocadas para a canonização de um autor, os estudos de recepção. E, nessa variável, poetas como Rui Knopfli e Filimone Meigos não são avaros de um olhar especializado sobre a sua produção. Refiro-me, por exemplo, aos estudos do ensaísta Francisco Noa.

A segunda parte do livro de Leite trata ainda de novíssimos autores que este novo século deu a conhecer, reflexo do dinamismo editorial que se assinala, pese embora Vanessa Pinheiro considere essa dinâmica ainda fraca, e com razão, se quisermos comparar com outros sistemas literários. É nossa convicção que a atenção que Leite dedica a esta geração, com particular destaque para Hirondina Joshua e para a presença da voz feminina na poesia moçambicana, indicia um gesto que, decerto, se prolongará no futuro. De resto, não é novidade este interesse por parte da autora em relação às novas gerações de escritores moçambicanos: Chagas Levene e Celso Manguana são alguns dos autores já tratados pela autora noutras abordagens. Todavia, esta geração, à qual apelido de Geração XXI, permanece candidata ao cânone. Trata-se, naturalmente, de uma candidatura, pois a sua canonização não depende apenas das análises que sejam feitas, como veremos adiante. Adivinho, entretanto, que o trabalho teórico, analítico e de enquadramento histórico que Leite nos oferece é um contributo valioso para se (re)pensarem as lógicas e utopias do cânone literário moçambicano, na medida em que promove um aparelho teórico que, equacionando a relação que a nossa literatura escrita estabelece com outros sistemas literários e com o nosso universo da oralidade, procura construir uma ancoragem, uma concepção teórica, crítica e histórica ajustada à ficção moçambicana. É preciso dizer, entretanto, que a autora não prescreve nada; pelo contrário, há aqui um processo de reflexão contínuo em que os textos literários são vistos, na esteira de Ana Maria Martinho, como fenómenos culturais intensivos, isto é, como modeladores, eles próprios, no jogo da intersubjectividade, da sua própria natureza, sua teoria, sua história e sua crítica. De outra forma, diríamos que, ao lermos o pensamento de Ana Mafalda Leite, neste livro, ouvimos a voz reorientadora de Lévi-Strauss ao dizer que não são as pessoas que falam através dos objectos, mas estes que falam através das pessoas.

Segundo afloramento

Vanessa Pinheiro apresenta-nos o A Formação do Cânone Literário em Moçambique. Trata-se de um livro dividido em três partes. Na primeira parte, a autora representa o cânone como produto da História das sociedades e, por via disso, reflexo de valores e ideais – políticos, ideológicos – variáveis ao longo do tempo. Ou seja, cânone que se constrói e desconstrói política e ideologicamente, é determinado por “representações socioculturais que lhe são subjacentes do que no texto propriamente dito”, razão por que, no sistema literário moçambicano, como decerto acontece noutros sistemas, temos escritores esquecidos, por não se ajustarem a essas determinações históricas. Mesmo tratando-se da sua ausência (do cânone), esta deve ser entendida como uma construção sociocultural, isto é, sistémica. Ora, julgamos que isto equivale a dizer que o cânone existe à revelia da própria vontade política, é condição existencial de qualquer sistema literário consolidado ou em vias de consolidação, como é o moçambicano. O facto de Moçambique não ter ainda um Plano Nacional de Leitura não significa que o cânone não exista, obviamente, mas que esse cânone não é revisitado, questionado, reconstruído, penso que estamos todos de acordo. Sara Jona, por exemplo, mais adiante, ajuda-nos a perceber que o cânone estabelece uma relação umbilical com o projecto de Nação que se pretenda criar, com os níveis de desenvolvimento humano que se pretendam atingir, enfim, com o tipo de moçambicanos que pretendemos ser neste século de muita perplexidade. Percebe-se ainda, das abordagens de Vanessa Pinheiro, que o cânone acaba por corresponder a um processo natural de sucessão entre antigos e modernos, velhos e novos, imponham-se os entraves que se quiserem impor.

Depois de abordar, genericamente, as características do cânone, Vanessa Pinheiro volta o seu olhar para o cânone africano e obriga-nos a pensar num cânone que se funda a partir da representação das tradições. Trata-se aqui da valorização das identidades das nações novas. José Craveirinha, num texto em que acusa Rui Knopfli de constantemente deitar-lhe à cara o seu Mozart («Mozart e Fani Fumo», de 1970) diz-nos o seguinte: «E no entanto / eu compreendo ao longe Mozart / mas sinto mais o que me diz Fani Fumo / e o que Miriam Makeba canta. // E / Constantemente / entro em diálogo com a magia dos tambores. / E tu?»

Como o poema de Craveirinha pode sugerir, definir o cânone moçambicano passará, como já o tinha referido Ana Mafalda Leite, por lançar o olhar sobre o universo da nossa oralidade, lançar o olhar sobre as formas da literatura oral enxertadas na literatura escrita ou vice-versa. Este ideal de resgate, entretanto, tem estado a dinamizar uma incursão pelo exotismo vendável na Europa e noutras partes do mundo, quase mesmo beirando o «exotismo de fachada», como o próprio Rui Knopfli classificaria, em 1974, a incursão pela cor local destituída da alma e da vibração dos seres e lugares representados.

A nova geração de escritores moçambicanos tem estado a olhar para esta questão com alguma desconfiança, destacando que esse ideal identitário tradicional quase extremista acaba por comprometer o valor estético da obra literária, numa alusão insistente e valorativa em relação à forma de escrita e ao tratamento dos grandes temas da humanidade. É por essa via que esta geração se mostra mais preocupada com um cânone internacional onde ela se possa situar e ser aceite universalmente, e, para o efeito, vai-se credenciando pela referência a grandes nomes da literatura dita universal, quer nos textos, quer em entrevistas ou simples opiniões. Trata-se, enfim, de um velho debate que a construção do cânone deve acautelar, sobretudo se se considerar um sistema literário em renovação, como é, sem dúvidas, o caso do moçambicano.

Vanessa Pinheiro debruça-se também sobre a formação dos sistemas literários em Angola e Moçambique, sinalizando o livro Espontaneidades da Minha Alma, de Maria Ferreira, como marco, no século XIX, da formação do sistema literário angolano. Em Moçambique, já no século XX, a autora destaca o poeta Rui de Noronha. O papel da Imprensa como instrumento de canonização também é abordado pela autora, tal como o fazem, como veremos, Aurélio Cuna e Ubiratã Sousa. Vanessa Pinheiro cita autores como Noémia de Sousa, Marcelino dos Santos ou Kalungano, José Craveirinha, Rui Nogar, Orlando Mendes, cujos processos de canonização se iniciaram na Imprensa.

A questão da transnacionalidade também interessa a autora. Para tal, ela analisa as obras de Rui Knopfli, Mia Couto e Ana Mafalda Leite para afirmar, com Rita Chaves, que «no interior da engrenagem colonial [o escritor está condicionado] a enfrentar a fatalidade de viver entre dois mundos». Esta afirmação obriga-nos a reequacionar a questão do cânone, tendo em conta sobretudo o que Lúcia Liba Mucznic chama de «um certo sentimento íntimo». Adivinho que este sentimento seja um elemento integrador, independentemente do debate sobre a questão da nacionalidade literária ou de todas as questões extraliterárias que para esse debate concorrem, como a cor da pele, o lugar de nascimento, a filiação política, etc.

À segunda parte do livro, Vanessa intitula «A voz dos autores». Nela perpassam entrevistas com escritores já canonizados e outros que não ou ainda não. E as questões são várias e diversificadas, como por exemplo:

  • o sentimento de que Moçambique ainda vive um processo de descoberta, de autoconhecimento e de busca de um projecto como Nação;
  • o sentimento de que a internacionalização da obra/autor moçambicanos, no quadro da Globalização, se faz numa relação tensa com o projecto de imaginar, tradicionalmente, a Nação;
  • a acusação feita a Portugal e Brasil como países que irradiam todo o comércio externo ligado à literatura produzida pelas ex-colónias africanas falantes do Português e o desconhecimento dos autores da CPLP entre si – seus textos – assunto discutido no Festival de Literatura Resiliência 3, cujo lema era exactamente «mobilidade no espaço da CPLP»;
  • a questão da canonização: que critérios consagram um autor, visto que há escritores que pouco publicam e continuam canónicos: o cânone é dinâmico ou estático, como é que uma obra entra, se mantém ou sai do cânone?
  • o tom acusativo à falta de uma política do livro e um plano nacional de leitura: não se faz um cânone sem distribuição, divulgação e promoção do livro e da leitura;
  • o tom acusativo às editoras, pelas suas escolhas, quantas vezes questionáveis: em rigor, não existe um cânone de autor, mas de obras de autores: trata-se de reposicionar o que interessa quando se fala de literatura, as obras fundamentalmente e não os seus autores.

A terceira parte do livro intitula-se “O outro lado do cânone”. No nosso entender, o outro lado do cânone podem ser muitos lados, como por exemplo, o lado perverso de uma crítica demissionária em relação ao que a nova geração de escritores moçambicanos vem produzindo: uma geração a contar com mais de dez anos de publicação e a quem verbalmente se lhe reconhece o mérito, não só como depositária das gerações anteriores, mas também como garantia da manutenção da marca de qualidade que, de uma forma geral, se reconhece à literatura moçambicana. Este reconhecimento é feito inclusivamente internacionalmente.

Este lado de um silêncio perverso da crítica, entretanto, deve ser entendido também como a incapacidade sistémica de produzir mais e novos críticos: cada cânone produz os seus teóricos, os seus críticos, ou, dito de outra forma: tendencialmente, os críticos de determinado período histórico produzem o cânone respectivo. É desejável que o crítico literário adopte uma perspectiva mais diacrónica no seu amoroso exercício de falar sobre a nossa literatura, mas mais desejável ainda é que a nova geração de escritores produza também os seus teóricos. Lembremo-nos que o cânone é também uma questão estética, de gosto e estes não se discutem; mas podem ser ensinados.

Penso que é preciso, isso sim, questionar as instituições ligadas ao ensino do jornalismo, se estão de facto a formar jornalistas para as artes: a «Gazeta de Artes e Letras», da revista Tempo, é um exemplo de provas dadas de que é possível falar das artes moçambicanas, discuti-las. Estávamos então na década de 80, tempo em que se buscavam referências para a ideia da moçambicanidade e então produziu-se o cânone que temos hoje – para recordar, uma vez mais, o papel da Imprensa. Vanessa Pinheiro traz-nos, neste outro lado do cânone, Amosse Mucavel, Mbate Pedro, Andes Chivangue, Sangare Okapi e Hirondina Joshua. Será esta a antecâmara dos canonizáveis? Espero bem que sim.

Terceiro afloramento

O livro Seis Reflexões em Torno do Cânone Literário Moçambicano, organizado por Ana Mafalda Leite, Sara Jona e Vanessa Pinheiro discute a questão das variáveis a levarem-se em conta na formação do cânone. Efectivamente, o cânone literário moçambicano é visto como produto do ensino: aí, deverá promover a diversidade cultural moçambicana, o que, segundo Sara Jona, não acontece. Digamos que entraríamos aqui para a função pedagógica do próprio cânone. Entretanto, Artur Minzo entende que é possível construir o cânone virando a atenção para a sua função estética, considerando os diferentes períodos, épocas, gerações literárias, movimentos ou correntes ideológicas ou filosóficas. É interessante notar que Minzo admite a convivência, na escola, de textos canonizados com os não canonizados, uma relação difícil entre o velho e o novo, entre o tradicional e o moderno, facto que denota que o cânone se constrói a partir de um processo natural e lento de conhecimento e substituição pelas instâncias legitimadoras.

O cânone literário moçambicano também pode ser visto como produto da Imprensa: Aurélio Cuna justifica que a falência do processo de canonização radica na demissionária actividade jornalística. Este é também o enfoque de Ubiratã Souza. Hoje, escasseiam os suplementos culturais, as páginas e revistas literárias de qualidade, diga-se. O mundo da Internet em que vivemos acaba, ele também, por substituir as instâncias de legitimação por um hiperindividualismo que concebe, produz e difunde conteúdos que se pretendem esteticamente literários, mas falhos de um olhar esteticamente educado e experiente. Se calhar, com a Internet ou mundo virtual, entramos para um processo de pseudocanonização, mercê da visibilidade instantânea e da suposição do mérito.

Vanessa Pinheiro, entre outros aspectos, questiona de onde vem o discurso da canonização, se de dentro ou de fora. Isto é particularmente interessante porque pode significar que há autores canonizados entre-lugares e não em Moçambique, autores reconhecidos em outros quadrantes e não em Moçambique, basta nos lembrarmos que uma autora como Paulina Chiziane foi inicialmente ovacionada fora e só depois em Moçambique; aliás, já diz a sabedoria popular que “santo de casa não faz milagres”. Haverá algures, então, um cânone literário internacional respeitante à literatura moçambicana e à procura do lugar de poiso. Esta espécie de cânone diaspório resulta, para a autora, de outros factores internos de Moçambique que é preciso rever: a rede do mercado livreiro – temos livrarias a fecharem e não a abrirem –, a dinâmica editorial deficiente – fraca distribuição do livro e existência de poucas editoras, entre outros factores.

Giulia Spinuzza chama a atenção para o facto de o cânone da literatura moçambicana estar a ser construído como elemento da construção da Nação, ou seja, muito arreigado ao passado colonial em relação ao qual é necessário desmistificar ideológica e politicamente: é preciso exorcizar as mentes, afim de não permanecermos ou cairmos nas malhas de uma espécie de canonização maniqueísta.

Obrigado!

Xindau chegou, devagar, silencioso, como o ar antes de ser vento. Xissena, num gesto feminino, puxou a capulana de pouca cor e cobriu os joelhos. Estava sentada, entre o sol pardo e o chão resignado, sobre uma esteira de palha antiga, único bem que pôde resgatar da fúria recente do vento, das águas e dos espíritos, com os filhos ao colo, impotente às chapas paredes da sua casa a serem sentenciadas pela tempestade. 

O chão gretado estalou. Eram as lascas quebradiças de terra a cederem às pisadas de Xindau. Xissena percebeu a presença mas não olhou para trás. Deixou-se estar na esteira, o olhar no chão, no entrelaçado da palha antiga, na mosca sobre o prato metálico vazio, na sombra fria do homem. 

Os filhos cederam ao olhar da mãe e afastaram-se como as águas deveriam ter recuado, no dia em que, com as crias e a esteira ao colo, ela ancorou-se num galho a gritar rezas insultuosas aos deuses.
Levantou-se, deixou o cansaço no chão. “Uma mulher não se cansa, minha filha”, ecoou o conselho da mãe. O joelho estalou com o esforço guindaste de erguer o corpo, a coluna chiou quando se baixou para recolher a esteira. Deslizou para um espaço entre estacas firmes, que antes das cheias fora o interior da casa. Estendeu a esteira sobre as chapas para a reconstrução. Deitou-se, sem olhar para o homem, não na posição de se dar, mas na de se deixar levar.

Ouviu-se o som do desabotoar urgente, da fivela do cinto, dos atacadores e da ganga das calças a friccionarem as pernas até aos joelhos. Xindau deitou-se sobre Xissena. Ela não sentiu o peso do homem, sentiu arrepios quando sombra fria se aproximou, com a lentidão voluptuosa das nuvens escuras que, naquele dia, trouxeram o vento que trouxe a chuva que veio com as águas do mar que molharam tudo.  O coração saltou. Apetecia-lhe levar a esteira e as crianças ao colo e fugir. Xissena fechou os olhos e o rosto.

Aos poucos inundada de suor como as águas inesperadas que vieram com a tempestade. Os dedos sulcavam desesperadamente o chão da esteira. O corpo balançava. As chapas de zinco sob a esteira chiavam: txim!, txim! Sob a tempestade Xissena corria, nadava, gritava, engasgava o grito: socorro!, mas não chorava, não fossem as lágrimas aumentar as águas muitas da inundação.

Quando o vento, a chuva, o mar e o rio, amainaram a fúria, as chapas deram o último demorado gemido: txuiiiim! Xindau desfaleceu, ofegante, sobre o ombro travesseiro de Xissena. 

Xindau abotoou as roupas que se colavam ao corpo húmido. Vestiu o colete da instituição que cuida das vítimas. Empurrou com o pé, para perto do corpo deitado de Xissena, os sacos trazidos há pouco. Ela reconheceu o óleo, a farinha, o sabão, outras embalagens de coisas urgentes e a escrita: “Gestão de Calamidades”. Puxou a capulana, cobriu-se, ficou deitada a ver a sombra de Xindau, abotoando-se, a afastar-se como as águas e o vento pós estrago recolheram para o rio… para mar. 

Xissena cobriu-se com a capulana. Xindau foi-se embora, devagar, silencioso, como o ar depois de ser vento.    

 

Estreou-se em livro próprio em Espelho dos Dias. Volvidos 33 anos, conta já uma dezena de livros. Todos a marcarem o traço de um poeta que quer conjugar todas as possíveis funções da poesia, sendo profundamente influenciado pelo tempo que vive

Há uma ilustração, assinada por Gemuce, em Muery: elegia em Si maior (Cavalo do Mar, 2019) que pode ser vista como uma metáfora da carreira literária de Armando Artur. O risco começa ensombrado, como se fosse um vulto, ganha contornos de esboço, expressão melancólica, depois é tingido de outras cores, menos tristes, e há um feixe de luz, de sorriso. É no processo destas quatro páginas, que nos faz chegar à ilustração definitiva, que está a metáfora de um artista sempre a procura do traço certo, do melhor verso, tingir de vida ou de morte a pena para o melhor poema, melhor livro de sempre, como se fechasse os olhos para todos os outros, e quisesse, a cada novo livro, superar todos os outros livros próprios.

Espelho dos Dias (AEMO, 1986) foi lançado em um tempo que ainda se celebrava a literatura. O prelo ainda expelia 3000 exemplares por obra. Agora, as editoras tiram em média entre 200 e 500. Estes números parecem levantar a bandeira do fim de uma época de leitores e com eles também de escritores. Jurgen Habermas já havia avisado numa entrevista ao El pais que não pode haver intelectuais se não há leitores. Onde se lê intelectuais se lê também escritores, jornalistas ou qualquer artista que faz da palavra um exercício de pensamento, de reflexão, de contestação, de expiação, de exorcismo, de catarse.

 A poesia de Armando Artur é sobre isso, mas se o quisermos colocar em um tempo, não há-de ter poiso fixo, é um pêndulo sempre em movimento, a apontar ao passado, presente, futuro.

Moçambique ainda aprendia a caminhar pelos próprios pés, vivia a euforia da vida em nome próprio, quando eclodiu a guerra-civil. Outra vez, o desencanto, almas angustiadas, outra vez seria preciso viver de futuro. É este estado de alma que captamos no primeiro livro, mas também nos outros, com os contextos que se lhe seguiram e impuseram. Afinal, o artista não se faz fora do seu meio, do seu momento/tempo, do estado de alma de uma sociedade de que também faz parte. Por isso há em Armando Artur, quando olha para fora, e muitas vezes olha para fora, aquela poesia socialmente comprometida, que vale também por ser emocional, reflexiva, que se adensa no ritmo e nas imagens, a negar apenas a arte pela arte. Porque entre o dilema de arte pela arte ou uma poesia politica e socialmente engajada, Armando Artur coloca-se numa ménage à trois ou à quatre, o autor quer conjugar todas as possíveis funções da poesia, a estética, a social, a espiritual, colocando achas na fogueira que ajuda a ultrapassar o frio da noite, de Deus, e ajuda a chegar a um novo dia. “é urgente inventar/novos atalhos/acender novos archotes/ e descobrir novos horizontes”, (pág. 44). E o poeta, o artista, podemos ler nas entrelinhas, é o cicerone nesta romaria, como se anunciou em Zambezia, 2061, de Alain Kamal Martial, com Lucrécia Paco.

 O sujeito poético na obra arturiana, que talvez não pareça distante da pessoa, como se fossem faces da mesma moeda, o mesmo que se diz sobre Sophia de Mello Breyner, tantas vezes invocada por Armando Artur, sonha, incentiva a sonhar, ajuda a sonhar. “As manhãs sobem/ como um grito de esperança”.

A cada livro, sem intervalos constantes, porque – ele mesmo disse-o um dia – não escreve a pensar exactamente num livro, o poeta atesta que o homem é o barro do tempo, é moldado pelo contexto. Não se trata apenas de reflecti-lo como se fosse o poema uma sala de espelhos, mas de olhar o homem dentro destes contextos. O autor acompanhou os sonhos que animaram a luta, o desencanto de uma nova guerra, as mortes, muitas mortes, outra vez a esperança e foi neste tinteiro que colocou a pena, sempre com o homem – o antigo e o novo – em linha, interpelando-lhe a conduta, exemplo maior é Os Dias em Riste (AEMO, 2002). A poesia de Armando Artur, como notava Ana Mafalda Leite, parece também viver deste compromisso conciliatório sobre a conduta humana, de que a temporalidade se investe.

O “eu” em Armando Artur é uma confluência de muitos “eus”, que se tornam “nós”, a tentar buscar o real, o essencial do ser humano, algumas vezes raiando o filosófico, questionando o lugar do homem na sua dimensão singular na órbita da nação humana. “Quando digo eu/ Somos nós todos num só/Porém em mim próprio. /Pois sou mais ou menos igual/Ou diferente do próprio eu.” (Artur, 2007: 61).

E o tempo, enquanto manhã, tarde, noite ou enquanto presente, passado, futuro, quase sempre presente na poética arturiana, serve para dizer sempre mais do que isso, é sempre uma metáfora por escavar, o mesmo acontece-se-lhe com a natureza. “Amanheceu. Dia brilhante./Oferenda divina. Urgência de re-partir/Todavia chove dentro de mim.  (Copiosamente!)” (Artur, 2007:34).

Armando Artur sempre estabeleceu relação com outros artistas, do seu tempo ou os que há muito já haviam reformado da pena e da vida. Esta “interpelação”, ora era feita em epígrafes, ora em dedicatória, ora em títulos, mas algumas vezes deixando que o leitor as ausculte.

(…) A poesia está na vida, / nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos, /(…) A poesia está na luta dos homens,/está nos olhos abertos para amanhã.” São versos de Mário Dionísio, poeta português, que em muito dizem também da poesia de Armando Artur.

Entre o primeiro e o último livro de Armando Artur volveram-se 33 anos, 8 obras entre eles, entre eles também já se anunciava a ideia de poema-livro, Os dias em riste (AEMO, 2002) e no coração da noite (Texto Editores, 2007) são dois exemplos; a reinvenção da pedra (Cavalo do Mar, 2018) está ainda mais próximo desse registo. Mas Muery: elegia em Si menor, talvez também porque o género pede, esta ideia está ainda mais patente. É um livro que pode ter começado a ser escrito em As Falas do Poeta (Texto Editores, 2014), com o texto ‘Estes dias sem ti Milena’, que acaba, de qualquer das formas, sendo uma ante câmara desta elegia, um monumento a tragédia que é a vida em contra-mão de toda a esperança que apregoamos.

 

 

Salvar a história, seja onde for, impõe a liberdade
de escolher ser livre ou sujeitar-se ao sacrifício.
Adelino Timóteo

Há dias encontrei-me com um velho amigo, que me perguntou: “então, José, e a crítica a Saga d’ouro? O que achaste do livro?” Bem, o Celso, o velho amigo, já havia lido a obra distinguida com o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa 2018, no entanto, ainda assim, queria saber qual era a minha opinião sobre o novo romance de Aurélio Furdela. Bem, a primeira coisa que me ocorreu foi: “como este tipo sabe que li o livro?”. Na verdade, naquele mesmo dia, eu acaba de terminar a leitura, e, portanto, tinha o que lhe responder. Fi-lo de forma fragmentada, afinal sempre há conversas predestinadas a durar dois minutos do máximo. E se descontarmos o tempo da saudação, da pergunta – o Celso é sereno: fala muito vagarosamente –, devo ter respondido nuns 37 segundos. Ao fim desse período, cortei a conversa e o ensaísta foi exercer o jornalismo. Mas ficou a promessa, responder-lhe nesta coluna: “Outras margens”. Então, cá vamos nós.

Camarada Celso, conforme disse-lhe há dias, naquele encontro instantâneo, apreciei o livro do Furdela. Sinceramente, surpreendeu-me do ponto de vista do enredo e, principalmente, do discurso narrativo. Acho que estava à espera de outra coisa. Saga d’ouro está um livro bom de se ler, simultaneamente suave e complexo. Deve-se ler com muita concentração, sobretudo porque as personagens são relativamente parecidas e, como têm nomes particulares, esses diferentes de José ou Angélica, muitas vezes, até confundem.

Como bem sabes, camarada, afinal terminaste a leitura antes de mim, nestas 129 páginas Aurélio Furdela conduz-nos ao presente da história dos moçambicanos – cidadãos de África e do mundo –, por via do passado. Ao proceder assim, o autor vai buscar algures um mambo, soberano do Estado de Mwenemutapa, ressuscitando-lhe, dando-lhe uma nova oportunidade de ficar para história, quiçá, como referência de alguma coisa boa. Entretanto, GatsiRucere, o protagonista deste romance histórico, desobedece o seu criador, teimando em vestir a pele de vilão que tão bem assenta nos heróis do antigamente. Esses que pegaram em armas? Sem dúvidas.

Nota-se que foi um exercício muito árduo este de um ficcionista também armar-se em historiador e desbravar ambientes agrestes, nos quais, eventualmente, inicia muito do que hoje nos caracteriza, a nós, mais uma vez, os moçambicanos cidadãos de África e do mundo.
Ao reconduzir-nos lá para as bandas do Mwenemutapa, unindo pesquisa e criatividade, inclusive com emprego de um jogo anacrónico bem apropriado – veja-se, por exemplo, a passagem em que a tão disputada Manyara, preocupada pelo seu querido Mudzingaze, aproxima-se ao pai de criação dele, Folofanye –, Furdela reedifica os bastidores do poder, a partir dos quais lança vários questionamentos sobre o sentido de pertença a um propósito ou de lealdade a uma causa. Para o efeito, coloca três forças a disputarem as lancinantes minas de ouro: GatsiRucere, Matuzianhe e os ardilosos portugueses. Claro que aí não falta esse misto de feitiçaria e tradição que nos colocam numa lengalenga enquanto tentamos compreender a origem dessas forças anormais muito normalizadas. Importa mesmo, camarada Celso, que chegamos aonde o escritor pretende: às dimensões de um personagem narcisista.

A propósito de narcisismo – segundo a mitologia grega, que deriva de Narciso, jovem que se apaixonou pela sua própria imagem, tendo-se suicidado devido a impossibilidade desse amor poder realizar-se –, este é o termo que caracteriza GatsiRucere, pois bem sabes, por Freud, na Psicanálise, a palavra foi introduzida para se referir à fase inicial egocentrista do desenvolvimento da criança. Por analogia a estas duas vertentes, mitológica e psicanalítica, logo percebe-se, GatsiRucere é um narcisista à imagem de muitos chefes do presente, os quais muitas vezes julgam ser à medida de tudo, do conhecimento, da inteligência, daí a arrogância de se julgarem legítimos produtores de oportunidades e destinos.

GatsiRucere é uma boa proposta para repensarmos a importância da liberdade quando esse direito parece ser posta em causa pelos opressores, inclusive por aqueles que se escondem na democracia, como diria George Orwell, uma forma bonita de dizer ditadura.

Portanto, o narcisismo de GatsiRucere é um vício, uma praga que se vai alastrando um pouco por todo lado e sectores socias, de onde a prepotência e a presunção são mecanismos incapazes de abafar a incompetência de liderança.

No livro, camarada Celso, e isso é o que mais interessa, chamaram-me atenção as práticas de um protagonista que mata ou manda matar, semeia ódios ao invés de esperanças, desterra para não perdoar, e oprime ao invés de amar. Aliás, quando o afecto muito raramente manifesta-se, o próprio GatsiRucere tece algumas cogitações para o aniquilar, pois, para a sua mesquinhice, tudo à sua volta existe para o satisfazer.

GatsiRucere é o centro do universo. Como Narciso, a sua queda sempre iminente é antecedida de um amor próprio exacerbado, sem partilha. Então, para se manter no trono, o nosso anti-herói não hesita em usar a velha técnica dividir para reinar, colocando, no meio da divisão, Manyara a prémio. Mudzingaze e Bengo são os objectos dessa luta, por terem sido impingidos pelo mambo a uma missão fatal. Com isso – como é frequente em Adelino Timóteo –, o amor dissipa-se, nessa circunstância e noutra em que o feiticeiro Rumbindzai é atraiçoado por GatsiRucere, vendido aos portugueses que o arrancam da sua terra para lhe atirarem ao Brasil. Consequência: as esposas do polígamo ficam sem quem as satisfazer o desejo, criando-se aí qualquer coisa de hilariante, bem descrito, embora breve.

A descrição é uma técnica, neste Saga d’ouro, que introduzi o leitor num universo que lhe é distante. O autor tinha mesmo de manter o cuidado de o situar de múltiplas maneiras, conciliando o vocabular e os contextos que lembram a época de GatsiRucere com a necessidade de manter a história actual. Furdela conseguiu isso. Mas, tendo melhorado muito em relação ao último livro dele que li, As hienas também sorriem, “pecou” em três coisas – e tu já deves imaginar, ó Celso, que és muito atento a essas questões: primeiro, poderia ter explorado com maior profundidade o perfil das personagens, inclusive do protagonista. Segundo, o fim… Saga d’ouro inicia e evolui de maneira que prende o leitor. O enredo, a lembrar-nos muito Ualalapi e As mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa, mantém-nos muito expectantes em relação ao fim. Quando chega, pimba, parece que não é bem aquilo que estávamos à espera ou que deveria ser. Não te vou mentir, quase fiquei desiludido. Furdela poderia ter trabalhado melhor o fecho; terceiro, o trabalho sobre a emoção não foi muito sólido. Por exemplo, a passagem em que Mudzingaze é deixado para trás, depois de ter sido ferido por Bengo, poderia ter sido mais dolorosa. Sinceramente, devia e não consegui sentir a dor de Mudzingaze, de Folofanye e de Manyara, na sequência da crueldade de Bengo.

Seja como for, camarada Celso – noto que o relógio marca 1h02, e já é altura de ler Sonhos manchados, sonhos vividos para daqui a uma ou duas semanas voltarmos a esta coluna –, respondo-te com franqueza: valeu a pena ler a história desse narcisista, contada por Aurélia Furdela. Por isso, a todos que gostam de regressar à realidade a partir da ficção, mesmos os que já se fartaram do passado na ficção moçambicana, fica a nossa sugestão.
 
Título: Saga d’ouro
Autor: Aurélio Furdela
Editora: Imprensa Nacional
Classificação: 14

Ela segurou-me pelos olhos. Pelo fio do olhar, delicado, mas fatal como a seda teia de uma aranha. Entramos para a cela escura. Não, não estávamos detidos. Pagamos três notas aos policias da esquadra, para termos meia hora de privacidade naquele compartimento.

Deslizou um, dois, três passos felinos. Pousou a cidra no chão, depois de um gole. Na bolsa entreaberta, uma capulana em prontidão. Estendeu-a sobre uma pilha de tijolos que, sob uma placa de madeira e outras coisas, fazia uma cama estreita, no compartimento estreito, na tarde estreita, como a vida, estreita.

Sentou-se sobre a capulana. Não se despiu. Com a crise, elas não se despem antes do pagamento. Outro gole de cidra, sem me soltar do olhar. Soltou os lábios. O sorriso lampejou o lugar semi-escuro.

Contive a pressa, fechei a grade. Dei um coice na porta sem fechadura, com o calcanhar. A porta bateu, estremeceu docemente as lascas de que se cobria e voltou a entreabrir-se, como se percebeu no gemido penoso das dobradiças.

Sentei-me sobre a capulana, ao lado dela. O enchido que fazia de colchão suspirou com o peso. Ela acendeu outro sorriso, receptiva, e iluminou o quase quarto. Soltou-me do olhar e virou-se para a janelinha gradeada. Segui-lhe o olhar, enquanto o meu braço lhe percorria, pelas costas, o tecido leve da blusa e os volumes de carne que lhe esculpem a cintura. De esguelha viu-me mexer, com a outra mão, num pequeno baralho de notas pequenas, preparando o pagamento.

– Faço anos – atiçava-me a generosidade no pagamento, puro golpe de marketing, com a delicadeza duma timbila sedutora na voz nasalada.

Era junho. Estávamos a vinte cinco. Vinte cinco da independência. Eu disse-lhe que era privilegiada por ter nascido naquela data.

– E sou de 1975, tenho idade da independência.

Olhava para a janelinha gradeada como se procurasse alguma independência por ali. Não lhe entreguei ainda o dinheiro. Precisava da mão para segurar as dela, tremulas. Já não sorria. Sem o sorriso os músculos da fase cederam. Deu um gole na cidra, apercebeu-se da garrafa vazia, e disse, olhando para a garrafa:

– Sabes, o mundo é vazio.

Animei-a dizendo que junho era um mês bonito, de bons feriados. Dia da criança. De África. Da independência. Massacre em Mueda. Tinha conseguido a ignição de um sorriso, mas o motor foi-se abaixo quando lembrei do 16 de Junho, dia da moeda.
– O dinheiro… – suspirou –, o grande mal deste mundo.
– A guerra também – acrescentei.
– Vem tudo junto. Eu tenho a idade de um país que sofreu com guerras e está endividado. Sei disso porque pelo meu corpo também passaram por muitas guerras.
– Mas tu estás endividada?
Suspirou. Teria dado outro gole na cidra se a garrafa não estivesse vazia. Não olhou para mim:
– Eu sou puta.
Não lhe vi os olhos, mas percebi uma lágrima no tom da voz. Olhávamos para a janelinha da cela. Apertei, instintivamente, o abraço. Ela deixou cair os cabelos postiços sobre mim e a cabeça no meu ombro. Assim abraçados, e a olhar para as grades da janelinha da cela, comecei a sentir-me gradeado num sentimento indescritível. Lá fora, uma bandeira içada no pátio da esquadra, resignava os seus últimos fiapos, na tarde sem vento.

 

 

 

Semedo saíu daqui para jogar em Portugal. Por lá, fez o curso de treinadores. Regressou com estranhos galões que lhe outorgaram o direito de catalogar, a nós que “não saltámos o arame”, de cidadãos cujos cérebros definharam, de tal forma que os nossos raciocínios terão parado, no espaço e no tempo. De facto, a nossa passividade perante um semear de guerras contra tudo e todos, parece dar-lhe razão. Uma recolha dos posicionamentos deste treinador, conferem ao leitor a possibilidade de fazer o seu julgamento.

Uma citacão: Foram estes briosos jogadores, que fizeram de mim treinador – Bruno Lage, técnico do Benfica de Lisboa, equipa campeã de Portugal.

O antípoda, “made in Semedo”: Este plantel não vale nada. O treinador é que lhe dá dimensão e isso permite-lhes sonhar com o título.

OS RECADOS DO SEM… MEDO

O auto-elogio:
Como treinador, tenho o quarto nível. Esta qualificação dá-me a possibilidade de treinar qualquer equipa do espaço europeu. Ou seja, posso treinar o Real Madrid, o Barcelona ou o Bayern de Munique. Por cá, escolho os clubes que quero treinar e, por causa desta assumpção, tenho merecido da parte dos meus detractores muitas críticas. Na verdade, não faço escolhas marginais, pois com todo o capital e experiência que colhi ao longo da minha carreira, cheguei a uma encruzilhada tal que me permite, claramente, escolher os clubes em função das pessoas que o dirigem. Sendo assim, escolho as pessoas com quem quero trabalhar.

Sobre o nosso futebol

O futebol moçambicano é uma grande comédia, uma fraude. Os gestores são uns trapaceiros. Como é que posso estar zangado com um futebol medíocre? Não estou zangado, se estivesse tê-lo-ia abandonado há muito tempo. Não voltei para pedir favores de qualquer espécie, pelo contrário, vim dar muito da ajuda que este futebol precisa porque, na verdade, rege-se por lei e comportamentos ainda demasiados primários. Chamem-me arrogante ou o que quiserem, mas estou acima deste futebol. Não é ele que vai prescindir do meu trabalho. Não voltei para pedir favores de qualquer espécie, a ninguém.

Aos colegas de profissão:
O que sei é que alguns se proclamam grandes treinadores, apenas porque ganharam mais títulos do que os outros… Hoje, o primeiro critério é de um treinador submisso, que faz as vontades das direcções, que não questiona nem põe em causa a vida dos clubes, que oculta tudo o que põe em causa o seu trabalho. Por isso, estamos como estamos.

Aos árbitros:
Devo dizer que os árbitros são apenas instrumentos. Já apanhei uma suspensão de dois meses sem ter feito nada.

Aos dirigentes:
No nosso futebol há alguns personagens que surgem como os mais influenciadores do próprio sistema. Eles conseguem aglutinar, à volta de si mesmos, todos os conceitos de futebol, usando, algumas vezes, o seu poderio financeiro. Há pessoas que têm feito de tudo, para que eventualmente eu abandone o meu país, sentem a minha presença como um incómodo por defender as causas do futebol.

À Comunicação Social:
A imprensa nunca teve tempo nem espaço como agora para retratar coisas do nosso futebol, porque as críticas que tenho feito, ajudam os próprios jornalistas a exercitarem-se no sentido de contrariarem tudo o que vou dizendo e por vezes corroborarem. Portanto, penso que estou a ajudar muita gente, de facto”. Recentemente: “deixo o resto para os comentaristas da STV, embora não lhes reconheça idoneidade técnica para isso”.

Ao país:
Ser competente, é um problema neste país. Não querem que eu trabalhe neste “futebolzinho”. O mundo não é só Moçambique, por isso estou à vontade para trilhar os caminhos que sempre quis e quero. Não voltei ao meu país para ganhar dinheiro, se fosse para ganhar dinheiro não voltava.

OS MISTERIOSOS GALÕES

Decorria o ano de 2005, quando Artur Semedo me procurou, pedindo-me para o entrevistar de forma a ser conhecido no país. Na altura, aparentava ser “um soldado raso”, em busca de afirmação, no regresso de Portugal, onde protagonizou uma carreira com altos e baixos, que foram desde o Oliveira do Hospital (quem conhece este clube?) até ao Marítimo, onde brilhou.
Volvidos menos de cinco anos, já possuía “galões”que lhe permitiam chamar de “futebolzinho” e de “jornaleiros” aos que o receberam. Aos colegas de profissão, dizia que lhes faltava capacidade para chegarem ao nível de declarações que fazia.

E até pode deduzir-se que está por cá, como que por favor, pois considera-se melhor que Mourinho.
Recordemos:
“Nunca disse que eu era o Mourinho de cá. Acho que é uma declaração menor. Não me inspiro nele. Mas gostaria de dizer que se alguma semelhança se pudesse estabelecer, que fosse ao contrário, pois ele aparece depois de eu fazer certas constatações. Porque é que eu tenho que me comparar a Mourinho e não o contrário?

CERNE DA QUESTÃO:
O NOSSO DEIXA FALAR

Fica-se com a impressão de que Artur Semedo, pela lábia, ganhou um estatuto especial. É-lhe permitido o que não admitimos a outros cidadãos. Faz declarações inaceitáveis. Daí que, com o nosso encolher de ombros, na Comunicação Social e não só, sejamos todos cúmplices do “Semedismo”, pois ele até é… bom treinador!

Estamos a falar de quê?  
Orientar (mesmo com qualidade) treinos e jogos de uma equipa, não outorga por si só, o título de BOM treinador, que se atribui a Artur Semedo. Há muitas mais qualidades a exigir a um condutor de homens, no cada vez mais difícil caminho para se chegar aos triunfos no desporto-rei.

 

Exemplos, são muitos. No topo, o luso-moçambicano Carlos Queirós, homem afável, com currículo mundial, que evita confrontações idênticas às que estamos a reportar. Sobretudo com árbitros e jornalistas. Os porquês, são óbvios. Uns têm o apito e os outros, a caneta. Não se trata de submissão, mas de respeito e independência pela actividade de cada um.

No caso dos técnicos de alto nível, a função de correr ao lado dos jogadores, saber do seu estado psicológico ou de saúde, é cada vez menor, pois é desempenhada por outros profissionais que fazem parte da sua equipa técnica. Ao mister, compete coordenar, definir tácticas, projectar, estudar os adversários e, sobretudo, estabelecer pontes e relações com os outros actores da modalidade, de forma a que daí resultem vantagens para o seu clube.

CALADO, ÉS UM POETA…

Por melhores capacidades e “quartos níveis” que tenha, Semedo, um técnico em permanente busca de inimigos, vive o inverso de um velho ditado. Na verdade, ele “semeia ventos, para colher frutos”. É isso que explica o rodopio deste técnico, por vários clubes, com pouca glória e não menor isolamento. Cito, para terminar, um título recente, contido neste jornal: “Semedo, calado, tu és um poeta”!

 

 

"Vais morrer?" Perguntou Mujaxihi, meu único irmão, entre aquela multidão de jovens sonhadores. Eu, inspirado pela inspiração de todos disse: se tiver de ser que seja. Mas tu, meu irmão, tu não vais morrer.

Cabelo despenteado, pálido como o rosto, quase a criar uma mata. Calções pretos, com uma forte tonalidade de branco e dois furos à medida das nádegas. Camiseta? Essa só cobria o ombro. Pre-adolescente inocente. Esta é a imagem que ficaria do meu irmão, aliás tinha de ficar, pois só assim eu me esforçaria para, na volta, deixar meu irmão sempre com cabelo penteado.

Mafelatiku está aí? Uma voz feminina e muito suave perguntou, interropendo a conversa com meu irmão. Levantei a mão indicando a minha presença. Dei o último abraço nele. Entrei ao carro com outros como eu, todos querendo tornar-se Messias. Da janela veio outra voz feminina, roca. É a Rindzela que disse: cuida de ti por mim. No meio a gritos idénticos procurei um espaço e também gritei: cuidem um do outro enquanto Mafelatiku não está aí.

Longe de todos e tudo. Vinte e dois anos de idade. Num lugar onde tenho apenas três actividades diárias: orar, treinar e comer. E a única coisa que estava sempre disponível eram as armas e tudo o resto para treino. "Derramar suor em treino para poupar sangue em batalha." Assim falavam os instrutores para que nos entregássemos. E eu, todo empenhado, fazia tudo que me mandassem, acreditando que assim estaria brevemente perto de todos e tudo.

Forte fuzileiro. Dois anos depois. Jovem bem bonito e vaidoso. Soldado que se dá o máximo de respeito. Forte e muito temido entre os da mesma categoria. Ainda sem chance de regressar à casa. Grandes esperanças de novas patências. Um facto. Já com dia e local marcados para o patenteamento. Mas no meio dos preparativos, uma informação: há confrontos militares num dos campos próximos ao quartel. Quem vai à batalha? Fraco fuzileiro.

Uniformizados estamos. Todos com a fúria adquirida durante os treinos. Eu mais confiante que o resto. Primeira vez em guerra oficial. Nosso comandante fala de tal forma que nos enfuresséssemos ainda mais. Mas ele fica. Partímos nós para a batalha. Inimigos aparente e claramente mais experientes que nós. De repente… nem me recordo exactamente do som, mas sei que de seguida eu estava no chão, de onde vos falo e desuniformizados estávamos.  

Vou morrer? Sinto meu sangue misturado com areia. Minha voz misturada com ar denso. Minhas acções resumidas nas vontades. Pessoas desconhecidas juntam-se por mim. Rosto nenhum é-me familiar. Mas todos tornaram-se família. Lutam todos juntos pela minha vida, para que juntos lutemos pela nossa vida e a de todos. Eu não vou morrer.

"Vais morrer?" Recordei-me da pergunta de Mujaxihi, mas me confortava ter-lhes pedido para cuidar um do outro enquanto eu não estivesse lá, ele e a cunhada, minha namorada. E agora, mais do que nunca, eles precisavam honrar este meu pedido, pois, respondendo ao Mujaxihi: Não estava nos planos, mas sim, eu MORRI.

 

A minha loucura mais perene é a minha lucidez. A vida é um rio ornado por vazios estilhaçados. Quando chove, do rio desponta a vida e o vazio se afunda no lugar onde nunca existiu. Muitas vezes escrevo porque me sinto tacteando o silêncio, nas restantes namoro o proibido.

Até aqui muita «conversa para boi dormir», nem? Não perca paciência, tenho estas manias quando o que quero exteriorizar vem do fundo do coração. Já me endireito! Enquanto isso, despe-te e toma este banho. O meu coração chove gostoso.

A memória é a vida distribuída por outros tempos. Tudo o que os silêncios desta madrugada me fazem escutar são vozes doutras vidas. Talvez esta noite seja insuficiente para tanto sentimento. Contudo, todo meu sentimento despe-se e se deixa deitar nesta cama branca.

Hoje ocorre-me celebrar a vida. E a melhor forma que tenho para o fazer é lembrar e partilhar com os outros as minhas origens. É viver os meus pais. Com vocês, papá e mamã, aprendi muito mais que viver. Pouca coisa faz sentido neste texto incompleto. Mas uma é certa, chama-se saudade a ilha na qual me encontro exilado. Os mais literatos que me perdoem se isto fugir o domínio literário. Mas o que será a Literatura senão a vida em texto?

Ao longo desta minha caminhada por estas terras lusas é frequente me perguntarem o que os meus pais fazem. Há uma ideia de que quem cá vem estudar é filho de uma família abastada. Digo-lhes, sem vergonha, que sou filho de um motorista e de uma vendedeira informal. Com uma mistura de espanto e pena a lhes colonizar a face perguntam-me como fiz este percurso. A resposta é simples, o mérito é todo daquele casal pobre que me gerou. Na sua luta diária aprendi a amar, a ser temente a Deus, a respeitar o próximo e a correr atrás das coisas. Os meus pais são pobres em bens materiais, mas muito ricos em espírito. Deles me veio a lição mais importante desta vida, a nossa condição económica nunca deve ser barreira para sonhar.

Desde os meus primeiros anos de vida mesmo com os condicionalismos que sempre tiveram, os meus pais sempre se preocuparam em garantir que eu e os meus irmãos tivéssemos uma sorte diferente da que eles tiveram no que respeita à formação. O investimento na educação dos filhos sempre foi a prioridade deles. Dos seus filhos eu fui o único que ainda teve a sorte de frequentar um centro infantil. Para um motorista e uma vendedeira informal que para além de garantir que a renda da casa era paga e que não faltava comida na mesa, acrescentar aquela despesa era um fardo. Mas eles levaram a ideia à diante e permitiram que eu fosse uma criança privilegiada e a minha formação iniciasse mais cedo.

As vantagens de uma criança frequentar um centro infantil antes de ser introduzida no ensino primário são tantas. Pode não funcionar do mesmo modo para todas as crianças, porque cada ser é uma substância individual. Mas, temos de concordar que uma criança que frequente um centro infantil tem um desenvolvimento cognitivo diferente da que o seu processo de formação apenas inicia com seis anos no ensino primário. Enfim, dissertar sobre este assunto não cabe a este solilóquio.
Parece tacanho escrever um texto porque os meus pais me matricularam numa creche. Mas isso é só um exemplo. Expresso neste palavreado o meu agradecimento por no meio de tanta adversidade terem sempre investido na minha educação e me darem asas para sonhar. Naquele centro infantil, que poderia ser visto como uma banalidade, tive o primeiro contacto com o mundo das artes. Lá tive contacto com a poesia, com a música, até com a dança, esse bicho de sete cabeças para mim.

Todos os centros infantis têm uma cerimónia de fim do ano onde as crianças apresentam alguns números culturais. Numa dessas cerimónias declamei um dos meus primeiros poemas, do qual a memória apenas reteve um verso: «Guardo o papa no bolso e a mamã no coração». Digo-vos papá e mamã, quer seja no bolso, quer seja no coração, sempre vos tenho comigo.

 

Um romancista não terá, forçosamente, que depender do êxito ou fracasso dos seus livros, terá que continuar, sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir.

Eduardo Paixão

“Dazanana de Araújo Simplíssimo vivia uma estranha sensação de que estava morto. Durante muitos anos cultivava em demasia a crença de que a sua vida era a morte” (p. 5). Assim inicia a história de um personagem muito particular, obstinado e comprometido com as dimensões gigantescas do seu sonho: Dazanana, do rhonga, língua falada na capital moçambicana, idiota ou palerma. Pode ser que estes dois significados encaixem no perfil do protagonista de Cemitério dos pássaros, mas apenas se se considerar à sua entrega a um propósito claramente definido: o de construir um cemitério no qual os finados da sua família reencarnariam como pássaros, alcançando, por isso, outras dimensões da existência.

Colocando a narrativa neste prisma, Adelino Timóteo, logo no princípio da diegese, questiona sobre os limites da vida na mesma proporção que minimiza a morte, afinal, a acreditarmos como Dazanana defende, nunca deixamos de viver, quando morremos. O que ocorre é um trânsito para lugares quase inimagináveis, os quais, uma vez alcançados, conferem à alma uma espécie invulgar de transcendência. Então, diante do seu maior projecto de vida, o protagonista de Cemitério dos pássaros move-se num labirinto estranho, decidido a levantar o véu dum cenário jamais desmistificado: o além. No fundo, há nessa entrega uma continuidade, a de fazer do realismo mágico uma forma de escrita. Continuidade porque esta não é a primeira vez que Timóteo atribui à existência a capacidade de vencer a morte, revelando, nessa condição, as imprecisões características. 

Dazanana é o instrumento usado pelo escritor para representar a obsessão humana em prolongar a sobrevivência, não no além, que é incerto, mas neste mesmo mundo. Logo, o personagem funciona como cicerone de uma trajectória que termina em metamorfose. Não podendo permanecer eternamente no plano real, numa condição de partida, cheia de vigor juvenil, o herói timoteano, com uma fé religiosa, põe-se a sustentar a pretensão de transformar o seu cemitério num ninho, lugar predestinado para reinventar os conceitos de gestação. Na verdade, é mesmo de evolução que estamos a falar, como se a natureza fosse exageradamente generosa para permitir a humanidade permanecer num mundo que a destrói, de múltiplas maneiras.

Por via de Dazanana, o romance de Adelino Timóteo sustenta-se na susceptibilidade de mergulhar fundo nos aspectos folclóricos, se quisermos, tradicionais de uma cultura oral ainda bem enraizada no quotidiano dos moçambicanos, e, acreditamos, dos brasileiros também. Este livro inédito ora publicado pela editora Kapulana, fruto de uma imaginação absolutamente incrível, é um lugar de propagação de crenças, sem restringir-se a isso, mesclando uma ficção delicada com uma visão holística sobre o meio e as culturas. Quiçá, essa deve ser a razão de Cemitério dos pássaros ser um livro riquíssimo do ponto de vista temático. À semelhança dos títulos anteriores, por exemplo, Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz (romance) e Na aldeia dos crocodilos (infanto-juvenil considerado “Altamente recomendável” no Brasil, e, por isso, finalista do Prémio FNLIJ) este novo livro do poeta e romancista moçambicano, natural da Beira, cidade rebelde agora afamada devido aos danos do ciclone Idai, vai buscar ao Vale do Zambeze a fertilidade indispensável para uma boa narrativa, como quem reinventa as particularidades daquele espaço mitológico cheio de muitos encontros inaugurais entre povos de diversas culturas. Com o Zambeze resgata-se o passado (e a origem da miscigenação na Zambézia, província do Centro de Moçambique), eventualmente porque, como escreve Ungulani Ba Ka Khosa no seu Gungunhana, “esta terra [Moçambique] está sendo construída sem o passado. Tudo o que é passado é coisa morta”. Ou desvalorizada. Sendo que “morta” e “desvalorizada”, neste contexto, acabam sendo a mesma coisa.

A propósito, uma vez Adelino Timóteo prometeu-nos publicar três ou mais romances sobre o Zambeze. Pode ser que a promessa esteja já a ser cumprida, e, daí, um Moçambique diferente do actual esteja a ser apresentado ao mundo, na asa da escrita, onde cabe o imaginário, os hábitos e costumes no livro bem valorizados. Portanto, Cemitério dos pássaros é um romance filantrópico em que “Salvar a história, seja onde for, impõe a liberdade de escolher ser livre ou sujeitar-se ao sacrifício” (p. 46). Dazanana, tal como o seu criador, sempre escolhem a liberdade, mesmo quando o conforto está na covardia, mesmo quando a decisão de marchar em frente custa mais que suor. A liberdade de concretizar e assumir o risco disso está tão vincada em Dazanana que Maria de Lourdes Pintassilgo, a esposa, passa a ter um companheiro no lugar de um marido. Porque perseguindo o seu ideal, aquele protagonista reinventa-nos como leitores às vezes estáticos na ousadia de alcançarmos outros voos. Bem visto, esse tipo de relações amorosas que Maria de Lourdes deseja que sejam calorosas, cor-de-rosa, não têm proeminência em Adelino Timóteo. Os casais timoteanos, quase sempre desleixados às singularidades do afecto, deixam-se prender por outras obrigações. Em Cemitério dos pássaros acontece o mesmo, por exemplo, com Dona Ana, a lembrar-nos esse registo “ninfomaníaco” recorrente na narrativa do autor. Na verdade, Dona Ana é a continuidade do carácter que o romancista estampa numa outra personagem: Luíza Michaela, em Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz.

Quanto mais Adelino Timóteo vai escrevendo, traz propostas para a libertação das pessoas das amarras sociais, questionando preconceitos, tabus, e, em derradeira instância, os cânones civilizacionais, por exemplo, esses que oprimem a mulher em cada oportunidade cedida ao homem. Se Dazanana é um exemplo de coragem na luta pelo que acredita, Dona Ana pode ser entendida como esse pássaro decidido a aprender a voar na intimidade das suas sensações, desejos e fantasias. Com o sexo no centro de tudo.

À parte tudo isto, mais uma vez, a Kapulana publica – como nos lembra Eduardo Paixão no seu Tchova, tchova – um autor que não terá que depender do êxito ou fracasso dos seus romances, terá que continuar, e continua sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir. Da Beira, onde vive, Adelino Timóteo projecta-se sempre com a sua obra, predisposto a reinventar a história, inovando-a, e, por consequência, a tornar os seus leitores melhores pastores da vida.

Maputo, 11 de Maio de 2019

*Texto inicialmente publicado no Brasil, pela editora Kapulana.

 

 

 

 

Por aqueles lados, quando o assunto é cumprir a tradição, um pequeno detalhe pode custar um casamento. Duvidas? Não te atrapalhes, conto-te isto e verás.

Os frangos, deitados de costas naquela cama de ferro, desenhavam loucuras nas mentes de quem os olhava. Lembravam memórias barulhentas que não cabem numa só vida.  Por baixo da cama, cinco paus de pinheiro juntavam forças para produzir uma luz incandescente que beijava o metal e produziam o calor que oprimia aquelas aves. Os frangos ganhavam aos poucos uma cor torrada. Fumegavam sempre que o calor aumentasse ou quando algum suco de limão lhes pingasse. Assavam e espalhavam o seu cheiro picante. Os estômagos sonhavam e rezavam para que aquela tortura acabasse logo.

Os olhos das mulheres sofriam. A fumaça não os poupava, castigava-os. E eles expeliam aquele líquido branco que sabe a sal.  De vez em quando, parando de mexer as panelas ou de virar os frangos, as mulheres dobravam o corpo e iam até aos pés para levar a ponta da capulana que traziam amarrada em volta da cintura e limpar as lágrimas. 
O ambiente festivo sentia-se de longe. Liloca e "Tsova" denunciavam o esquema. A orquestra de aromas dos vários pratos que aquelas mulheres confeccionavam tocavam uma sinfonia inaudita. Cada elemento da orquestra exibia o seu charme. O show era em grupo, mas a estrela que morava no interior de cada um deles gritava pelo protagonismo. E lutavam entre eles pelo domínio absoluto do ar. As narinas que se arranjassem. A musa de todas as festas tornava-se mais atraente à medida que se banhava com os perfumes dos temperos. Uma coisa tenho de vos confessar, aquela feijoada reinaria os pratos quando chegasse a hora dos comes.

A tradição se cumpria. No interior da casa começava o mais importante para a família Macamo e Mondlane. A aliança entre as duas famílias se estabeleceria através daquela união matrimonial. 

Estavam todos trajados a rigor. Os homens usavam fatos e as mulheres traziam vestidas blusas de cores alegres e capulanas. Aqueles panos floridos que traziam amarrados à volta da cintura oprimiam as matsamelas e todas as carnes em volta das ruas do pecado. Naquela sala não havia nenhuma criança. Aquela primeira parte da cerimónia era coisa de adultos. 

Um dos tios do noivo, que trazia vestido um fato cor de vinho e uma gravata azul sufocando o pescoço, limpou o suor que lhe inundava a testa, tossiu e olhou para os outros. Perguntava-se por que aquilo demorava. Para ele a festa era lá fora, aquilo que se passava ali naquela sala era uma palhaçada do passado que devia ser abolida. Quando ouviu uma voz rouca a anunciar que a família do noivo podia apresentar os presentes exigidos pela família da noiva sobressaltou-se e soltou um «eishhh».  

Algumas mulheres, que tinham vindo na comitiva da família do noivo, abriram uma mala preta e retiraram o exigido. Tudo tinha de estar ali. Minutos depois viam-se, na capulana sobre a esteira que estava estendida no meio da sala, um fato, uma bengala, um frasco de rapé, um cachimbo, duas camisas, cinco capulanas, cinco lenços, dois garrafões de vinho e filas de notas avermelhadas, que traziam em cada uma delas o rosto de Samora Machel estampado. Aquelas notas somadas totalizavam cinco mil meticais, era o valor do lobolo. 

Assim que apresentaram os presentes, manifestaram o desejo de lobolar a rapariga. Parecia estar tudo reunido para que o lobolo acontecesse. As pessoas, o dinheiro e os bens pedidos pela família da noiva, os "comes e bebes". Mas aquele desejo recebeu uma resposta negativa pela família da noiva. Não haveria lobolo, não haveria casamento.

Aquela resposta negativa foi um balde de água fria para a família do noivo. O exigido para o lobolo estava ali. Sentiram as lágrimas do noivo a inundarem a cidade e começaram a murmurar. Quando lhes foi dito o motivo da recusa bufaram de alívio. Na tradição da família da noiva, qualquer dinheiro do mundo, sem o brilho de uma moeda a reluzir por cima das notas, não tinha valor.

 

Primeiro O Céu: espaço ilimitado em que se movem os astros, mas também, e destaco: parte desse espaço limitado pelo horizonte, ou seja, pelo olhar de quem o observa. Segundo Não Sabe Dançar, sendo que esta é uma qualidade mais humana, visto que os homens inventaram a música e decidiram dar saltos ou passos cadenciados conforme o ritmo (haverá quem considere a dança uma qualidade mais animal e os vídeos do YouTube, ao mesmo tempo que nos divertem com animais de estimação em alegóricas coreografias, parece quererem, exactamente, negar tratar-se de simples fábulas modernas). Terceiro Sozinho, O Céu Não Sabe Dançar Sozinho, ou seja, absolutamente só, desacompanhado, isolado. Socorrendo-me de Kant, na sua Crítica da Razão Pura, ao considerar que está-nos vedado o conhecimento dos objectos, coisas, conceitos, realidades em si, senão através da nossa sensibilidade, ou seja, dentro do nosso horizonte possível, resolvo a curiosidade do título do livro sugerindo que, em última instância, quem não sabe dançar sonzinho somos nós, homens e mulheres. E se a música é a arte e ciência de combinar sons, então a dança pode exigir uma arte e ciência de combinar os saltos ou passos. Uma combinação exige harmonia, diálogos e afectos; ou seja, felizmente, somos seres irremediavelmente condenados a viver e estar com um outro semelhante. Creio que esta ideia encontrará algum eco na epígrafe do livro: «em qualquer estação, / é perto que mais somos.» A epígrafe faz de nós sujeitos solitários em viagem permanente pelas estações da vida, pelas estações que fazem de nós o que somos. Ora, sugere a epígrafe, que seremos à medida que nos aproximarmos do outro.

O Céu Não Sabe Dançar Sozinho é um livro de contos que têm a particularidade de levar títulos de locais conhecidos e/ou imaginados pelo autor pelas estações, arrisco-me a dizer, da sua própria vida, incluindo aqui a vida de escritor. Vejam-se títulos como «Buenos Aires», «Budapeste», «Madrid». Não é, pois, por mero acaso que o narrador destas histórias as conte como as viveu, algumas vezes como protagonista, outras como testemunha. São histórias, portanto, que revelam paisagens de uma viagem pessoal. No entanto, não se trata aqui apenas de contar histórias de viagens. O tom pessoal destes relatos revela-nos um outro investimento que parece complicar a ideia simplista de serem experiências de viagens. É que Ondjaki elege o sonho como outro grande tema do seu livro, ao qual vão se subordinar micro-temas, como os da premonição, do medo, da morte, da obsessão, do insólito, da memória, da identidade, da alteridade. Ou seja, sonho e viagem andam de mãos dadas, os sonhos são uma espécie de viagem pelas estações do íntimo e as viagens começam por ser sonhos, que nos sobram depois como memórias. O sonho é também a metáfora da estrutura dos seus contos; isto significa que estes contos são imagens de sonhos: breves, densos mas poéticos, abertos, regra geral sem a consciência do espaço e do tempo em que efectivamente as personagens se movem, se constroem, se tornam ambíguas e volatilizam. Desta estrutura resulta que estes sonhos em viagens ou estas viagens sonhadas captem, pelas esquinas de «Macau», «Praga» ou «Moçâmedes», aspectos da vida que escapam às leis da regularidade e da harmonia, pois Ondjaki trabalha poeticamente o trivial, o corriqueiro. Tem de haver um significado profundo nas coisas aparentemente banais da vida. E assim fechamos o triângulo dos grandes temas sugeridos neste livro: o sonho, a viagem e o trivial.

As personagens de Ondjaki também obedecem à densidade e ambiguidade estruturantes dos próprios contos. Sem contornos definidos como acontece nos sonhos, elas valem sobretudo pelo que dizem e revelam-se entidades tensas e perturbadas, o que pode ver-se, com destaque, na primeira parte do livro, em que vemos um investimento por parte do autor nos diálogos, chegando mesmo a aproximar-se da forma dramática. A segunda parte do livro faz o inverso da primeira: vemos um investimento na narração e diminui o enfoque no diálogo, facto que não obsta que cheguemos de forma particularmente interessante ao conhecimento das personagens, pois, como dissemos, elas relatam as suas próprias experiências ou as de outras personagens, que elas testemunharam. Na terceira parte do livro, o autor abandona as estratégias das duas primeiras e traz-nos uma narrativa, digamos, mais descritiva, fotográfica, suportada pela pontuação que parece congelar o fluxo de consciência do narrador. É uma espécie de inventário do horizonte do narrador que observa o mundo fragmentado à sua volta.

Diálogo, narração e descrição revelem-se, por conseguinte, investimentos técnico-compositivos distintos na primeira, segunda e terceira parte do livro, respectivamente. Ou os sonhos são em si realidades fragmentadas ou estas correspondem às várias estações da viagem do primeiro e último narrador destas histórias, Ondjaki, no seu desejo de estabelecer diálogos, de contar e reter o mundo nestas páginas. A quarta parte do livro faz como que uma espécie de síntese das três primeiras, trazendo um pouco das três. Aqui, a memória está presente de forma assumida, como se fosse um despertar para o que nos sobra dos sonhos ou das viagens, e é quase uma memória institucional:

«Vêm buscá-la à hora do jantar. As crianças já to- maram banho. A mesa está posta. Tem tempo ape- nas de apagar o fogo do fogão e deixar os bifes arrefecerem na frigideira.

Quatro homens armados. Um bote de borracha.

As ordens que tinham.

Foi vestir-se melhor, buscar uns sapatos.

As crianças já tinham tomado banho. Já estavam à mesa, sentadas.

? A mamã não vai comer connosco?

? A mãe já vem. Tem que ir falar com uns cama- radas em Luanda.

Quatro homens armados levam a mulher para o bote de borracha. Os vizinhos olham. O pai disfarça, vai até à cozinha, traz a frigideira com os bifes. O arroz já está na mesa. Uma vizinha vem ajudar. Toca as crianças na cabeça, inventa uma conversa.

O mar está calmo. Quase escuro. A luz fluorescente da varanda não deixa ver o brilho da lua sobre o mar. O bote de borracha atravessa a escuridão em direção a Luanda. Uma das crianças diz que já não tem fome, mas que vai comer. O pai diz que ainda tem fome, mas não irá comer. A vizinha tem fome e vai comer.

? Como é, tudo nos conformes? – o vizinho distraído não sabia o que se tinha passado. – Tenho ali preparado o champagne para a meia-noite.

? Vamos ver… Vamos ver… – diz o pai, com voz triste.

O pai olha o mar. Apesar das luzes fluorescentes da varanda, o pai sabe que o mar está escuro. Pensa na mulher sozinha no barco de borracha, acompanhada pelos quatro homens armados. Olha o relógio. Irá olhar o relógio muitas vezes nessa noite.»

Obrigado!

Lucílio Manjate

 

 

 

 

 

 

 

 

Algo chamou-me atenção em Lisboa, algo que nunca foi importante observar nas ocasiões passadas, digo Lisboa  como casa da memória Colonial, um espaço de reencontros étnicos-raciais, pese ainda a (in) diferença social por debaixo da glória dos descobrimentos, narrativa sempre contada na primeira pessoa do singular.

Sempre olhei com desconfiança certos epítetos a que são anunciados uns (a minoria) pelos outros (a maioria), sempre duvidei o silenciamento institucional dos portugueses afrodescendentes (estes somente o desporto lhes dá asas para o seu reconhecimento e consequentemente exaltação como portugueses) ou dos africanos residentes em Portugal, em diversas áreas, seja na educação, ciência e cultura. Este cenário já em sim, revela alguma mancha histórica, que se ressignifica na balança do tempo, revisitado por discursos de exclusão pelo tom da pele.

Ademais, é importante lembrar que um país se reconstrói pela diversidade multicultural e é de facto, um dos muitos e dos mais importantes valores universais, hoje e agora fragmentado pelo traço inconsciente do questionamento "duvidoso" do outro pelas suas origens.

Será que Portugal tem medo dos seus filhos? Custa seguir um teste de escolha múltipla para o exame da sua sociedade?

Porventura com excepção dos escritores luso-descendentes divulgados em Portugal com todo o aparato institucional, um gesto de cunho memorialista/saudosista, alguém conhece alguns intelectuais/professores universitários/ escritores negros portugueses? Ou se existem levanta-se sempre a naturalidade dos seus progenitores (português de origem moçambicana, filho de pais guineenses, etc.).

A descrição da sociedade portuguesa, é um minúsculo inventário das cores, a primeira superior, dona das ideias e segunda a inferior sempre redimensionada pela "esquecida" linha de Sintra, é claro que, a linha de Sintra na voz dos primeiros literalmente significa lugar dos excluídos/ marginalizados. O que fica depois no exercício da liberdade de cada um tomar o seu espaço? É aí onde quero-me ater nas pequenas circunstâncias para delimitar o espaço a ocupar pelos tais "excluídos".

Para melhor atender o significado etimológico da linha de Sintra, fui lá visitar a Amadora epicentro da comunidade africana e Portuguesa afrodescendente e Couva da Moura, famoso "bairro problemático", ghetizado pelos seus residentes, alcandorados nas ilhas de auto-exclusão, Ilhéus que a prior não tem identidade muito menos nacionalidade, apenas naturalidade, cidadãos do mundo? Cidadãos portugueses? Cidadãos cabo verdeanos?

Esta autoghetização dos portugueses afrodescendentes não é só pela mão das políticas de exclusão é uma herança "descasada" com actualidade, significa, que a narrativa do espaço derrubado, sempre afirmada com convicção pelos seus antepassados, que de geração em geração, tem mostrado a dificuldade de criar novos caminhos da história e a emergência de saltar etapas históricas para fazer delas um renovado canto de aprendizagens. Neste sentido, podemos afirmar que a comunidade portuguesa afrodescendente,tenta a todo custo, crioulizar o discurso, como forma de resistência ao opressor, facto que concorre para o aprisionamento do espaço e do tempo, legitimando assim a divisão entre "eles", "outros" e "nós" traduzível no abandono que se quer tradição.

Ao considerar a coligação de vários factores sejam eles económicos ou sociais, chega-se a conclusão de que esta decadência de uma comunidade despovoada do seu próprio país, parece, em todo caso, uma luta no escuro, com todo o despreparo possível, que tanto os primeiros com todas as dificuldades, na sua maioria analfabetos quanto a quinta ou sexta geração nascida em Portugal ou portugueses com todo o "abandono" institucional para celebrar as liberdades escusadas aos seus antepassados, estes portugueses afrodescendentes simplesmente arriscam a sua participação, renovando o discurso da colonização. Consequentemente, a escolha fundamental do crioulo como língua oficial, renegando quase por completo a língua portuguesa, em total consonância com o abandono escolar repartem-se entre a delinquência, drogas e abandono escolar. Considerando que o mesmo não acontece com os africanos residentes em Portugal, estes com todas as dificuldades, na sua maioria conseguem fazer ecoar a sua voz, não é por acaso, que quando estes rompem as fronteiras da academia, a sua constante luta é em prol destes portugueses afrodescendentes desarmados num mundo de contraditórios.

 

No Estádio do Zimpeto, com pouco público, Desportivo e Costa do Sol disputaram uma partida do Moçambola, em ambiente frio e com pouco público, dando a impressão de que estavam apenas a cumprir o calendário.

Na mesma altura, no Pavilhão do Maxaquene, Ferroviário de Maputo e A Politécnica, em basquetebol, davam corpo a uma jornada plena festa em basquetebol, renhida e aplaudido por muito público. Era a ronda final do campeonato de Maputo. No final, jovens, alguns com os olhos marejados de lágrimas – uns de choro outros de alegria – trocavam abraços e beijos, num ambiente infelizmente cada vez mais raro no nosso país.

Que contraste!!!

POUCOS, MAS BONS

De um lado, a geração dos “enta”, com muitas caras que deram vida e projecção à bola-ao-cesto, fiéis à sua modalidade e seguros de que, com crise ou sem ela, há que encurtar a distância entre as intenções e a prática. O patrocinador, a Engen, rendido à entrega dos atletas, declarou-se feliz e com retorno, face à alegria patente nos olhos dos assistentes.

O que impede então, que aconteça o mesmo, na alta-roda do nosso futebol, sobretudo na Zona Sul? São várias as razões, mas salta à vista uma, que tem sido subalternizada: poucos, mas bons!

Para o Moçambola, muito se falou sobre a participação “só” dos clubes devidamente licenciados, situação dita e repetida pelo Presidente da FMF, a duas semanas do arranque da prova. Ficou tudo na mesma.

É verdade que o primeiro passo, que é o da redução das equipas nesta e na próxima temporada, já foi dado. Porém, mais rigor no cumprimento das regras é o que se recomenda.

Se tivermos que ter um Moçambola “à melhor de qualquer coisa” após as fases de qualificação, porque não? Os triunfos, quanto mais desafiadores e suados, melhor. Só assim ficará claro, “quem é que os tem no sítio”!

Numa altura em que se anunciam novas e prometedoras realizações financeiras no país, a força crescente do desporto-rei no mundo, não pode permanecer em plano secundário entre nós.
E que fique claro que patrocínio, não é caridade. O PR – como já aconteceu por duas vezes – não pode ser a tábua de salvação para o Moçambola chegar ao fim.

Se persistirmos nesta realidade de pouca exigência para tomar parte na maior prova futebolística do país, de descida em descida no “ranking” FIFA, só nos restará insistir e persistir na super-desgastada frase “levantar a cabeça e continuar a trabalhar”.

 

Eu vim/ para ser onda ao mesmo tempo que eu olho/ para o mar

Raquel Lanseros

 

A fotografia é a imortalidade do instante, se quisermos, a intercessão entre o efémero e a durabilidade das circunstâncias. Quem fotografa, na verdade, está a exercer o seu poder demiúrgico sobre as coisas e, sobretudo, sobre as emoções que os factos não elucidam. Então, a fotografia é a pós-revelação do que, tendo sucedido, não enxergamos na mesma proporção revelada pela imagem.

Do mesmo modo, o vigor do clique fotográfico é um veículo que nos transporta numa viagem ulterior em torno da essência… do que nos move e demove, afinal a fotografia tanto pode ser uma resposta quanto uma questão sem resposta nenhuma. Seja como for, é um lugar composto por universos (in)verosímeis, nos quais se entrelaçam histórias individuais e colectivas. Bem dito, este é o caso de Raízes de sal, quarta individual de fotografia de Mariano Silva, residente em Moçambique lá vão seis anos.

Nesta exposição constituída por 43 peças, com curadoria de Filipe Branquinho, Mariano Silva mostra-se sensível e atento às incríveis realidades a que os moçambicanos se sujeitam ao longo do litoral, concretamente, em Nacala-Porto, Ilha de Moçambique (Nampula) e Mocímboa da Praia (Cabo Delgado). De facto, aqui as fotografias cumprem a tarefa de registar o momento, e, paralelamente, vão tecendo os fios que o compõem.

Sempre alicerçado a um altruísmo explícito, eventualmente inconsciente, Mariano Silva reconstrói, nestas Raízes de sal, o quotidiano de gente abastada na sua humildade. Abastada e às vezes feliz, pois, paradoxalmente, da incerteza e dificuldade encontra no mar, esse espaço místico e poético, as respostas para a sobrevivência. Por isso, logo se vê, entre os semblantes captados pela câmara de Silva e o Índico, na invertida umbrela de tudo, está a cumplicidade de uma causa fácil de descobrir, a reciprocidade entre quem alimenta e é alimentado até ao limite das suas forças ou de geração em geração, já que aqui não morremos, transcendemos para outras vidas.

Ao mesmo tempo que o olhar de Mariano Silva se fixa nos homens, nas mulheres e nas crianças nessa tentativa de exprimir sereno o que sentiu no Norte de Moçambique, o nosso artista adiciona à realidade, que apenas ele captou, o efeito do belo que jamais alguém explicou. A beleza está na intenção ou na apresentação? Certamente, há-de estar no que cada um sente ao introduzir-se nos contextos sugeridos pelas 43 peças visualmente cheias de humanismo. Assim, como não sentir a dor dos pescadores debaixo de um sol que se adivinha abrasador? Como não sermos mais solidários com os que, à nossa imagem, se esmeram por fazer deste mundo um lugar melhor para os seus? Como não beijarmos a face dessa mulher que, de peito aberto, retira de si para o filho menor muito do pouco alimento que encontra no mar? “Há perguntas que não podem ser dirigidas às pessoas, mas à vida” (Mia Couto). A exposição Raízes de sal lembra-nos sempre disso e do valor da existência colectiva, quiçá daí apropriarmo-nos da dor que há muito tempo é esperança naqueles pescadores da sobrevivência.

Portanto, se o mar é o maior fornecedor da alegria intermitente dos homens, mulheres e crianças no litoral – olvidamos os velhos, coitados –, Raízes de sal assevera-se uma simbiose bem-intencionada entre o estético e o documental. A partir daí, as peças de Mariano Silva podem ser tudo o que quisermos: conhecimento, revisitação do lugar, choque, aproximação e catarse, o que é possível graças ao emprego de pormenores técnicos a mostrarem um Índico algo além do nosso conforto urbano.

 

*Texto de apresentação da exposição fotográfica Raízes de sal, de Mariano Silva, patente no Franco-Moçambicano até dia 2 de Julho.

É para mim um enorme prazer apresentar um livro de Clemente Bata, um autor, diga-se, já a contar com mais de 25 anos de publicação – quer em revistas e jornais, quer sob a forma de livros – e cuja actividade literária mereceu o reconhecimento nacional e internacional, como são os casos do Prémio Literário 10 de Novembro, Prémio Literário Instituto Camões e Prémio Literário da Francofonia. Clemente Bata faz parte de uma nova geração literária em Moçambique, a que começa a publicar livros a partir dos anos 2000. A sua forma de escrita é herdeira de obras consideradas, hoje, clássicos da literatura nacional, com destaque para o Nós Matámos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana. Aliás, é a partir desta herança que vemos o texto de Bata em diálogo com Os Molwenes, de Isaac Zita, ou com as obras de um Aldino Muianga ou Juvenal Bucuane. É com base também nestes testemunhos que Clemente Bata participa na construção da nossa literatura, consolidando a vertente realista como uma das suas características.

Porque falámos na corrente realista, um primeiro aspecto que gostaríamos de destacar em Outras Coisas tem a ver com o narrador das histórias, aquele a quem Clemente Bata delega a missão de relatar as «coisas». Clemente opta, na generalidade, por um narrador «ausente» da história que conta. Ou seja, não é um narrador pessoalizado a falar de si, não participa dos eventos narrados, as histórias existem simplesmente, tal como nós vivemos a realidade, sem que dela tenhamos algum controle. De qualquer forma, importa dizer que esta ausência é relativa apenas aos factos da história, porque, do ponto de vista do discurso, o narrador está sempre presente, ainda que o enuncie (o discurso) numa terceira pessoa: é ele que narra, isto é, seleciona o que e como narrar. Mas este é outro assunto. O que interessa aqui é que esta impessoalização do narrador faz com que a narrativa de Clemente Bata atinja uma dimensão realista que, no jogo da literatura, pretende-se inquestionável, exactamente porque é da aspiração do real que falamos.

Uma das características do realismo é a ambição de falar das coisas ao pormenor, ao detalhe quase fotográfico – e aqui é preciso lembrar que o primeiro livro de Bata é, sugestivamente, Retratos do Instante, facto que parece provar que Clemente tem uma espécie de obsessão pelo real. Ou seja, a ambição da corrente realista é a de falar das «coisas tal como elas realmente são». Nesse sentido, Outras Coisas é um conjunto de histórias captadas de situações das mais comuns de viver ou de se ouvir no dia-a-dia, mas sem nunca se transformarem em histórias banais, muito pelo contrário.

Se nos lembrarmos que o título deste livro é uma apropriação de uma expressão muito popular hoje («hum, outras coisas!»), que serve para expressar sentimentos variados, como os de indignação, espanto ou assombro, vamos perceber que o realismo de Clemente Bata pode revelar-nos um mundo em desequilíbrio, uma realidade desorientada. E para revelar esse desequilíbrio do mundo, Clemente elege a ironia como técnica de escrita, o que de resto já acontece no seu primeiro livro. De facto, o que vemos neste livro são retratos da vida sugestivamente irónicos, pois, afinal, não se trata de retratar as coisas apenas, mas de as revelar como sendo outras. Ou seja, o que se lê nestas histórias revela-nos outras dimensões da vida que não as que logo à partida percebemos, afinal, a própria vida já é irónica. Diríamos, então, lembrando Roland Barthes, para quem a literatura só pode ser absolutamente realista, que o realismo aqui patente revela-se a dois níveis, dos factos em si e dos seus significados também eles.

Um segundo aspecto a destacar em Outras Coisas é o facto de as histórias darem-se num espaço preferencialmente rural, mas também suburbano e, às vezes, entre o subúrbio e a cidade. Ou seja, as coisas de que nos fala Clemente são periféricas, não do centro urbano ou citadino, e há-de ser também por essa razão que são outras.

Aos espaços rural e suburbano junta-se um tempo que é este nosso tempo, o actualíssimo: «O embrulho», um dos contos do livro, é suficiente para ilustrar o que dizemos: uma empregada doméstica, afligida pela crise financeira, decide roubar do recheio da casa da patroa, peixe, bata e cebola, para alimentar a família que a espera. Entretanto, antes de abandonar o local de serviço, misteriosamente, o embrulho onde guardava o produto do roubo, desaparece. Afligida agora pelo desaparecimento misterioso do embrulho e com medo de que a patroa viesse a descobrir o acto, já no my love, a empregada conta o caso a um velho que, a seguir, a aconselha – conselho que aqui não vou revelar, pois cito este conto apenas para situar o tempo destas histórias como um tempo actualíssimo, para o que concorrem entidades como crise financeira e my love.

O terceiro aspecto a destacar é que ao escrever sobre a actualidade num cenário sobretudo rural e suburbano, Clemente Bata destaca temas como a morte, quer a biológica, quer a simbólica; o roubo – em Outras Coisas, rouba-se um pouco de tudo: rouba-se gado como roubam-se amores; a superstição; o insólito; o absurdo, o nepotismo; o amor; a fidelidade vs. infidelidade, a confiança vs. desconfiança. De uma forma geral, e em coesão com o espaço rural e suburbano, em Outras Coisas há também uma dimensão ancestral da vida, ou seja, os factos narrados assentam na crença na tradição e na veneração dos antepassados defuntos, um imaginário muito caro aos escritores moçambicanos, como é o caso de um Marcelo Panguana ou Ungulani Ba Ka Khosa. Perpassa, portanto, pela obra, a representação de uma sabedoria ou de uma particular visão do mundo, quer sobre a forma de máximas, quer sobre a forma de provérbios, quer ainda sobre a forma de práticas ritualísticas. Por conseguinte, essa sabedoria se faz guardiã do respeito que merecem os velhos ou a tradição representados na obra. Um exemplo pode ser encontrado em «Marozana», conto que abre o livro, quando a personagem Mpulani, para convencer Guedjo a aceitar o primeiro grande peixe que pescou na vida, diz: «– É preciso sim. É como o primeiro salário de um filho que se preze. Não se recusa…» (p. 23)

Mas, de todos os aspectos destacados, o que nos parece definitivamente interessante é o emprego da ironia. Como já o dissemos, a ironia é, de facto, a forma escolhida por Clemente para escrever as suas histórias. Ou seja, todas elas têm um quê de irónico a estruturar o destino das personagens. Quer de forma velada, quer de forma revelada, o pensamento de Clemente é, nesta obra, profundamente irónico. Por sua vez, a ironia é responsável, em alguns casos, por um humor subtil que atravessa obra. É o que se vê no já citado conto «O embrulho»: a empregada doméstica, antes de abandonar o posto de trabalho e afligida pelo medo de a patroa vir a descobrir o roubo, decide procurar na casa inteira pelo embrulho, o que a leva a fazer uma limpeza que fez admirar a filha da patroa, pois esta nunca vira a casa tão limpa como no dia do roubo. No conto «O outro lado do mar», Makhate, para se livrar da pobreza, convence a mulher, Rindza, a sentar num bar e a fazerem-se passar por irmãos que têm o pai muito doente, pelo que Rindza deveria conseguir que alguém a desse dinheiro para a saúde do pai; o resultado é que Rindza acaba casada com o primeiro homem que a conquistou, um pescador, e Makhate acaba morto, atirado ao mar. Ou seja, tanto Rindza como Makhate acabam «pescados», facto que pode alertar-nos para o absurdo dessa outra vida, ou destas Outras Coisas do universo rural ou suburbano, com as suas crenças, práticas e peripécias.

Obrigado!

 

Texto de apresentação do livro Outras Coisas, de Clemente Bata, no BCI, no dia 30 de Agosto de 2018.

Cf. Shaw, Harry, Dicionário de Termos Literários, Lisboa, Dom Quixote, 1982.

Poh!
O som seco estilhaçou a tarde, ribombou nos tímpanos, cutucou os instintos, atiçou o medo no salão de festas:

– Yuh!
Havia um “Yowê” profundo subentendido no rosto pânico das pessoas. As cabeças saltaram dos ombros. Os pescoços rodaram como periscópios assustados, na direcção do estrondo. As bocas abertas. As sombracelhas levantadas. As pupilas soltaram-se como se fossem os olhos explodir.

– Hii!
Mau jeito. A senhora pousou a mão no peito para segurar as palpitações e controlar a hipertensão. As pernas moles da cadeira de plástico não suportaram por muito tempo os gestos repentinos e o peso das matsamelas, cederam. A senhora aflita, sem entender nada, esperneia, esbraceja como se nadasse para se equilibrar na queda. Alguém gritou: “cuidado!” agitando ainda mais os presentes.

No desajeito a mesa estremeceu. Num copo cheio despejou-se algo muito valioso para o paladar. Não interessa se se partiu ou não, mas o sobressalto de salvar o copo, ou o conteúdo, atiçou a algazarra.

– Yôoo!
A aflição das mulheres é na língua materna. Com as patas traseiras da cadeira quebradas, a senhora caiu de costas. As pernas para o ar esvoaçaram uma flor com os panos da saia, da meia-saia, capulana e outros panos que lhes seguram as ádipes.
– Eish!
Estrondo, grito, agitação.
– Cuidado!

Correm tempos de medo. Muito medo. Estrondos estranhos assustam. Há muita gente a viver nas reticências. A caminhar pelas sombras. Com o coração e a consciência em delicados sobressaltos. Insônias. Há muita gente a fazer as contas, a apagar ficheiros, a limpar processos e tentar limpar o nome. Nos tempos que correm nunca se sabe quando é que uma intimação nos virá bater à porta. “Nem os chefes estão à vontade”, comenta-se.

Do outro lado da sala, um fulano redondo, com mais peso na consciência do que na barriga, saltou da cadeira como se, por engano, tivesse sentado por cima de um cacto. No salto, mais mesas sacudidas, mais garrafas e copos com líquidos preciosos em risco de desperdício.
– Cuidado!

Um homem de pouca idade manipulava tecnologia wifi e garantia música online. Nada ouvira por causa dos auscultadores. Percebeu a algazarra que já se tinha alastrado por todas as mesas do salão. Baixou o volume e afastou os auscultadores dos ouvidos como se espreitasse por uma cortina, para um lugar onde nunca tivesse estado.

As crianças, indiferentes à confusão, empinavam-se ao ritmo estonteante da música, em poses para maiores de dezoito anos. Nem mesmo o volume baixo lhes demoveu de continuar a vibrar as bundinhas.

Alguém fez de guindaste e levantou a senhora, em esforço, como se recuperasse do chão a economia nacional. Reforçou as cadeiras. Sentou-se sobre duas. Respirou fundo. Bebeu qualquer coisa que lhe refrescou a consciência. Disse “ishi!” de alívio, com a mão sobre os seios para segurar as palpitações e controlar a hipertensão. Havia um jornal sobre a mesa, ignorou a manchete com slogans anti-corrupção. Sacudiu o jornal, violentamente, com a urgência de um leque. Foi se acalmando com a energia formiga das crianças a celebrarem o primeiro dia de Junho.

Respirou, respirou, respirou. Só descansou quando percebeu que aquele estrondo fora só o rebentar desesperado de um balão com excesso de ar. E ar é nada.

Eis que fui a um colóquio… não, apresentação de um livro, disfarçado de colóquio. Na minha opinião, desnecessariamente porque é normal fazer menção à verdadeira intenção por detrás de um colóquio, até porque várias vezes, por coincidência, há livros a serem apresentados em colóquios. Bom! Então, depois do “colóquio” houve “petiscas e bebes” em redor da venda da obra.

– Ah, és de Moçambique… vocês tiveram uma história um tanto triste… e com um vizinho como a África do Sul ao lado, foi mesmo péssimo!
– Ah sim? De que fala?
– Falo do comunismo/socialismo…
– Mas fala da ideologia ou de Moçambique?
– …
– Não, é que imagino que a crítica que tenha a fazer seja geral, da ideologia, tal como lhe foi incutida na perspectiva ocidental. Deixe-me dizer-lhe isto: no caso de Moçambique, não foi tão mau assim…
– Mas e a ditadura?
– Qual ditadura? Ditadura é relativa…
– Ohohoho, nunca ouvi essa!
– Pois não, porque cresceu no tempo em que ou se era comunista ou se era democrata. Diferença equivalente ao diabo e o anjo, respectivamente… e hoje em dia, sabemos que assim não é nem nunca foi! Socialismo foi (comparativamente) o mal mais necessário para que tivéssemos a oportunidade de construir uma identidade nacional, depois da era colonial. Após o colonialismo, como é que se poderia ser pró-capitalismo? Afinal lutámos para construir uma nação ou para construir uma empresa? O capitalismo em si, nunca teve consideração para com valores de igualdade entre os Homens. Em nome do capitalismo sustentou-se a escravatura, o colonialismo, as invasões ao Vietname, Coreia, Cuba, Nicaragua (…) e o apoio aos movimentos beligerantes em África…
– Olha lá, quantos anos tens?
– Porquê?
– Vá lá, diz-me… eu tenho 50…
– E eu trinta e tal… continuando, o nosso ditador (em particular) era mais ditador para vocês e não para nós os moçambicanos. Era ditador porque não vos deixava entrar massivamente com os vossos produtos, marcas e estilo de vida virado para o consumismo sem limites! Era para vocês ditador porque escolheu o vosso inimigo como aliado! Estavam a perder zonas de influência para o inimigo, o que vos diminuiria a hegemonia mundial!
– Mas o teu querido ditador… não matou inocentes?
– Não tão aleatoriamente assim. E os vossos regimes democráticos, capitalistas, não matam inocentes? Ok. Portanto, nós precisávamos de espaço para aprender a ser donos da nossa terra; a amá-la e a criar mecanismos mentais e fisicos para defendê-la contra qualquer invasão desistabilizadora, incluindo a da globalização! Está a imaginar nós a gostarmos de Mcdonalds mais do que de um caril de amendoim?
– Isolamento, portanto. Tal como foi o caso de Cuba, que acabou moribunda e tal como é o caso da Coreia do Norte.
– Nada disso, nós tinhamos os nossos cooperantes. O que é certo é que precisávamos de tempo para incutir valores que nos identificassem como nação e o nosso ditador fê-lo de forma extremamente dedicada e marcante. Por isso é que ele é recordado em Moçambique com muito carinho, ao contrário do que deveria ser, caso tivesse sido o ditador que vocês o rotularam ser. O nosso ditador é hoje em dia fonte de princípios morais; é a nossa bíblia sagrada!
– Sabes, eu também sou socialista…
– Ahaha, em prol da diferença ou por uma questão de princípio? Sim porque anarquismo é “in” por estas bandas…
– Ouve lá, “in” com a minha idade?

Em jeito de sabotagem:

Socialismo – humanismo para com o próximo/Capitalismo ­– animalismo para com o próximo;
Socialismo – aplicação de penas de forma severa, explícita/Capitalismo – aplicação de penas severas, muitas vezes de forma oculta;
Socialismo – combate inimigos reais/Capitalismo – combate inimigos fictícios, inventados por si, para legitimar democraticamente (ou não) a sua invasão a países terceiros e ingerência em assuntos internos;
Socialismo – a maior parte de bens de primeira necessidade é grátis/Capitalismo – tudo vende-se. Se não tens dinheiro para pagar a tua estadia no hospital, a tua permanência será interrompida, sem qualquer preocupação com o teu potencial perecimento;
Socialismo – controle estatal severo, explícito/Capitalismo – câmaras por todo o lado; escutas telefónicas; hacking de computadores; todos os dados pessoais devem ser declarados em todas as instituições. Liberdade aparente, portanto…

 

Nem tudo o que agora te conto é totalmente fiel ao acontecimento. Aquilo foi mais um exemplo das tantas vergonhas que aconteceram desde o início da crise. Conto-te devido à elevada significância da instituição em causa. A realidade não enganava, o despautério andava solto.

A sessão de interpelações ao governo tinha acabado de iniciar. Os ministros já estavam habituados àquela tortura, mas prova oral que é prova oral sempre os deixava nervosos e ali estavam eles, mais uma vez, com as caras mijadas. Transpiravam. De vez em quando obrigavam os lencinhos de seda que bailavam nas mãos a beijarem as suas faces, a enxugar aquela adrenalina que se convertia em água e se exilava do corpo.

– […] O nível de roubalheira deste governo é demais. Comem tudo sozinhos. Não é assim… – disparava um homem de fato preto que falava a partir de um púlpito de madeira na sala das sessões plenárias do parlamento. As palavras saíam cansadas da boca, ziguezagueavam pela sala, carregavam nas costas o peso do sotaque changana.

– Digníssimo colega, acabou o seu tempo – interrompeu-o, com uma voz rastejante, uma senhora de cabeça rechonchuda, na qual um par de lentes permaneciam suspensas num aro metálico.

 – Sim, digníssima presidente. Já termino, só mais dois minutos! – respondeu o homem do fato preto.

– Eu disse que acabou o tempo colega. Não há nem mais um minuto! – rematou a senhora.

Havia fumo tóxico no ar. A tensão se apossava da sala. Mesmo assim há quem conseguisse adormecer naquele ambiente. Não era um, nem dois os deputados que se encontravam a tirar uma soneca enquanto a sessão decorria.

O homem do fato preto estava decidido a acabar o que restava do seu discurso. Como se aquela fosse a parte mais importante de sua intervenção, não se intimidou. Ajeitou o micro e disse:
– O que tenho por dizer não leva nem um segundo. – A senhora fez sinal que o ia interromper, mas o discurso do homem corria velozmente. Era um desses camiões que "voam parece vião". Acabou por se resignar e o deixou continuar a sua fala. – Estiveram o tempo todo a dizer que a dívida era do povo e pioraram as condições de vida de quem já não precisava de mais nenhum fardo, enquanto vocês sempre tomaram banho com água mineral e se untaram o corpo com caviar. Demitam-se, não servem ao povo vocês! – concluiu o discurso o homem do fato preto.

Enquanto abandonava o púlpito, uma forte salva de palmas que tinha irrompido do seu grupo parlamentar inundava a sala. Do outro grupo parlamentar, que apoiava o governo, gritos de reprovação ecoavam. A confusão se estabelecia. O deputado tinha metido o dedo na ferida.
– Digníssimos colegas, ordem na sala! – ordenou a senhora que tinha interrompido o homem do fato preto. Bateu a mesa com um martelo de madeira e continuou – ordem, ordem!

Depois de longos cinco minutos de desordem, a sala serenou e a presidente convidou a representante da outra bancada a gozar da palavra. A senhora levantou-se do seu assento e se dirigiu ao púlpito. Desfilava, exibia as três capulanas de cores muito luminosas que lhe cobriam o corpo.  Era a chefe da bancada parlamentar do partido do governo. Os seus partidários olhavam-na expectantes. A defesa da sua honra estava naquela mulher.

– Oprigada senhora bresidente! Senhora bresidente da Assembleia da República, excelência. Senhor brimeiro-ministro, senhores ministros e vice-ministros, digníssimos mandatários do bovo, meus bares, ilustres convitatos… excelências!  Coustaria de dizer que… – as palavras continuaram a sair da boca, mas ninguém mais ouviu.  

A luz e o som sumiram sem despedir. Fugiam rumo a um lugar onde houvesse gente com tomates para pagar as dívidas. O parlamento ficou às escuras. Alguém se esqueceu de pagar a conta de luz com recorrência. O fornecedor de energia eléctrica, cansado daquela pouca vergonha, tratou a digníssima "casa do povo" como se tratam os devedores. Cortou-lhe a energia eléctrica sem palhaçadas. Finalmente chegou à "casa do povo" o que há muito o povo vivia!

 

 

“O que tu fizeste daquilo que te fizeram?”

Jean-Paul Sartre

A história somente existe para servir-nos de lição e, quando nós nos recusamos a aprender dela, propositadamente ela se nos repete. Moçambique ruma pela sexta vez a eleições gerais e, mais uma vez, o povo é chamado a renovar as suas esperanças quinquenais de um futuro melhor. Mas quando as esperanças do povo são quase as mesmas dos tempos anteriores e continuam frustradas, urge perguntarmo-nos o que tem falhado. Terá o povo votado o errado? 

Julgo que a resposta para esta inquietação seja a condição sin qua non para um voto consciente. Assim como a pior forma de celebrar a vida é brindar aniversários sem conquistas, a pior forma de hipotecar o futuro de uma nação seria dar enésimas oportunidades de governar a um partido cuja reputação é sobejamente desqualificada. Nada é tão ilógico que um povo que confia o mandato de combate à corrupção a um grupo de pessoas que enferma do mesmo problema. A democracia requer cautela e prestação de contas. Se a maioria dos eleitores que tem dado legitimidade à mesma elite de sempre para governar o país, paradoxalmente, sente-se traída nos seus interesses, há que repensar os motivos da sua fiel escolha. 

Afigura-se-me que haja dois motivos capazes de mover um povo frustrado a eleger o mesmo governo de cinco a cinco anos.  Numa primeira hipótese, pode-se avançar que apesar de o velho partido no poder manifestar-se decadente, a oposição não demonstra maturidade suficiente para governar. Dai o povo não ver uma alternativa a que recorrer. A segunda hipótese seria que o povo continua a manter um vínculo de fidelidade com o partido no poder por questões de afinidade histórica relativas à luta de libertação. Dai haver o medo de mudança da parte do povo que se confunde com a prova de resiliência. Afigura-se-me que só dentro desses parâmetros se pode compreender o comportamento de um eleitorado frustrado, mas que continua a vergar-se perante o mesmo carrasco. 

Porém, se a maioria dos eleitores frustrados com falsas promessas, de cinco a cinco anos, tem votado contra o governo do dia, mas, incrivelmente, os resultados revelam-se contraproducentes, então a única hipótese a avançar é de que o velho partido só se mantem no poder por meio de fraudes eleitorais. Se este for o caso, a questão mais urgente a ser resolvida é que mecanismos podem ser acionados para impedir-se um processo eleitoral fraudulento?

Enquanto não se resolver a problemática das fraudes eleitorais, haverá sempre garantias suficientes de que o partido no poder perpetue-se à revelia da vontade popular. E assim as eleições não serão nada além de um meio irônico e burlesco de o partido no poder usurpar a legitimidade. Se a sociedade civil e especialmente a oposição mostram-se incapazes de impor a justiça eleitoral, então de modo algum se pode esperar a queda do partido no poder por meio das eleições. Sendo assim, para conquistar o poder, a oposição devia entregar-se à hibernação de trabalhos intensivos de justiça eleitoral, ou dedicar-se à revolução ou ao golpe do Estado – as duas últimas alternativas são menos recomendadas, excepto em Estados autoritários onde as eleições não expressam a vontade da maioria. 

Este espectro de um povo frustrado, mas que continua incapaz de afastar o partido corrupto do poder vislumbra-se em Moçambique. O descrédito da FRELIMO, o velho partido no poder, tornou-se exponencial, desde a revelação pública das dívidas ocultas em 2014, as quais mergulharam o país na pior crise económica da sua história. Do partido libertador e servidor público, a FRELIMO passou a ser vista popularmente como um grupo da máfia que vendeu a pátria por conta da ganância de alguns. E perante este golpe bilionário contra o Estado, todos os membros frelimistas deviam ser considerados no mínimo coniventes, pelo facto de eles nunca terem adoptado uma posição clara e firme sobre a necessidade de haver uma investigação transparente seguida de uma responsabilização exemplar sobre o caso de dívidas ocultas. Todos os camaradas activos e passivos tomam parte da culpa desta fraude financeira, excepto aqueles que desde início se mostraram publicamente indignados pela contratação destas dívidas ocultas que pouco depois foram tornadas soberanas – para este caso, Sérgio Vieira é digno de alusão como um frelimista contestatário. 

Entretanto, quanto mais se esperava que a FRELIMO somasse grandes derrotas nas eleições autárquicas de 2018 por conta dos seus escândalos de corrupção, o tiro voltou a sair pela culatra, dando-nos a desconfiar que o povo eleitor tenha memória curta sobre um passado tão presente no nosso dia-a-dia. Embora a oposição parlamentar se tenha mostrado desorganizada para gerir assuntos internos, tais como a sucessão do falecido líder da RENAMO, Afonso Dlhakama, e as deserções inesperadas das cabeças do MDM, num momento tão crucial para ela conquistar o eleitorado frustrado com o partido no poder, ainda assim se torna difícil justificar as vitórias municipais da FRELIMO sem causar estranheza, após a sua conexão com o fenômeno das dívidas ocultas que ameaça varrer quaisquer esperanças de um futuro próspero em Moçambique. 

Há três dados fundamentais que jogaram a favor da vitória do velho partido no poder. O primeiro tem a ver com o que parece ser o eterno agradecimento pela luta de libertação. Ou seja, uma parte do povo moçambicano ainda assume a mentalidade de que qualquer partido no poder que não seja a FRELIMO, o partido libertador, só pode ser uma traição à história de Moçambique. O lema de que a FRELIMO é que fez, a FRELIMO é que faz, para milhões de pessoas, ainda  constitui uma meta-justificação de que este governo do dia é o melhor, uma vez que nunca houve outro com o qual se possa comparar. 

O segundo aspecto é a própria oposição em Moçambique que ainda é fraca e intrinsecamente fragmentada. É inconcebível que passado cinco anos desde a revelação das dívidas ocultas associadas ao partido no poder, nenhum partido da oposição se tenha esforçado em criar uma agenda política e pragmática com objetivo de pressionar a justiça e lucrar popularmente com este escândalo monetário. Cinco anos depois, a oposição nem sequer moveu uma moção de censura contra o governo nem tampouco se dispôs a mobilizar as massas visivelmente frustradas para ao menos protestarem, exigindo o fim da impunidade neste país e a separação efectiva dos poderes. As dívidas ocultas foram e continuam a ser um campo suficientemente fértil para a oposição prosperar em detrimento do partido no poder. Mas incrivelmente pouco foi feito tanto pela RENAMO quanto pelo MDM que limitaram a sua acção em criticar e dar vaias à FRELIMO nas sessões plenárias. Esta oposição de Moçambique afigura-se-nos mais feliz com o seu papel de opor-se do que com o desejo de governar. Parece-nos que os seus membros preferem manter os seus cargos políticos com salários gordos a mobilizar as massas a uma marcha intensiva sobre problemas sérios que afligem a sociedade moçambicana já há décadas. 

Todavia, na política assim como no amor, há vezes em que os indivíduos optam por trair o seu parceiro, não porque o amante seja superior, mas devido as fraquezas ou maus tratos do amado. A declaração de que prefiro votar a oposição a votar a FRELIMO corrupta, teria sido uma das justificações séria daqueles eleitores que decidiram trocar o partido no poder pela oposição. É irrefutável que nas eleições de 2018, a FRELIMO tenha perdido um número considerável dos eleitores, mas isso não significa que a oposição tenha feito algo para conquista-los. Muitos eleitores que passaram para as fileiras da RENAMO, MDM ou outro partido da oposição não o fizeram pelo facto de eles verem os seus interesses contemplados pela oposição, mas simplesmente pelo facto de não mais simpatizar com o modus operandi da nova FRELIMO. Entretanto, se este partido continua a controlar o poder é devido à sua forte estrutura de unidade e as suas artimanhas em épocas eleitorais. O caso fraudulento das eleições na Matola em 2018 é um exemplo sobre o quão ardilosa pode a FRELIMO ser, quando se trata do poder. O seu ex-líder Armando Guebuza já dissera que o poder não se conquista, mas se arranca. Não há dúvidas que houve irregularidades tão sérias no escrutínio da Matola que exigiam pelo menos a repetição das eleições, mas porque os resultados problemáticos davam vitória ao partido no poder, a justiça foi amordaçada. Mas perante estes casos fraudulentos do escrutínio da Matola denunciados até pelo Votar Moçambique – plataforma de observação eleitoral formada por sete organizações da sociedade civil – até aonde a RENAMO que se diz injustiçada terá ido para repor a justiça? Logo que recebeu um “não” do Conselho Constitucional, a RENAMO prontamente se recolheu e voltou a sua rotina penosa de lamentação. Mas se este maior partido da oposição se mostra tão flácido para reclamar a justiça, mesmo dispondo de fortes evidências, como se pode esperar que a FRELIMO, dispondo de facilidades para cometer fraude, não o faça novamente para ganhar o poder?!

É por estas e outras razões que julgo que não vai ser em Outubro que a FRELIMO vai perder o poder, embora tenhamos de admitir que as actuais condições socioeconômicas estejam ao seu desfavor. Querendo, a FRELIMO pode manipular o processo eleitoral ao seu favor, que nada lhe acontecerá e facilmente a oposição se resignará como em outros âmbitos tem o feito. A meta-questão para eleições de Outubro não é “o que acontecerá ao país, se a oposição vencer?” – isso é provável, mas impossível de suceder. A meta-questão é “o que a oposição fará de novo perante casos de fraudes eleitorais?” De qualquer forma, as eleições de Outubro, em função do passado histórico de fraudes eleitorais não resolvidos, já estão fadadas a ser uma piada de mau gosto. E a nação devia rir até chorar ao antever que os 14.6 bilhões de meticais gastos num processo eleitoral condenado a não ser transparente poderiam ter sido investidos na educação e saúde das suas crianças. 

Hélder Augusto
O Inconvencional

 

A recente visita, do Presidente da Republica, Filipe Nyusi, a província de Tete, trouxe a público revelações pouco abonatórias em relação ao DDR, no quadro do diálogo entre o Governo e a Renamo. Os populares, no comício popular no posto administrativo de Zobue, terão informado ao Chefe do Estado sobre a circulação de homens armados nos distritos de Moatize e Barué, nas províncias de Tete e Manica respetivamente, impedindo a livre circulação das pessoas e respectivos bens.

O facto é que, o próprio Chefe do Estado reconheceu, ao afirmar que “abordou o assunto com o Presidente da Renamo em Chimoio” tendo, o Presidente da Renamo mostrado completo desconhecimento do caso, o que a ser verdade, pode revelar aquilo que muitos receavam, o fracionamento da ala militar da Renamo, com o desaparecimento físico do seu Líder, Afonso Dhlakama.

Todos sabemos que, desde a assinatura do Acordo Geral de Paz em Roma, Itália a 04 de Outubro de 1992, os homens armados da Renamo viriam a retomar disparos em 2013 com o reacender das hostilidades militares sob o comando do próprio Dhlakama que, depois das conversações, foi assinado o Acordo de Cessação de Hostilidades Militares a 05 de Setembro de 2014, permitindo a realização das eleições Gerais, que levaram Filipe Nyusi a Presidência da Republica.

Por falta do cumprimento da parte de desmobilização e, porque a Renamo e Afonso Dhlakama não aceitaram os resultados eleitorais, esse Acordo de Cessação das Hostilidades durou pouco tempo, pois, em Setembro de 2015, depois de duas tentativas de assassinato de Afonso Dhlakama e seguida de acto de retirada compulsiva de armas, as hostilidades seriam retomadas a partir de Gorongosa, notar que, o AGP foi assinado entre o Presidente da Republica de Moçambique, na altura Joaquim Alberto Chissano e a Cessação das Hostilidades com o Presidente Armando Emílio Guebuza, ambos com Afonso Dhlakama.

Ou seja, Afonso Dhlakama, sempre teve um domínio completo sobre os homens armados da Renamo, com Afonso Dhlakama, sempre demostraram disciplina apurada e cumprimento do comando centrado no seu líder Afonso Dhlakama, os relatos sobre a existência destes a perturbarem a ordem e tranquilidades publicas constitui novidade desde os Acordos de Roma, sobretudo, quando Ossufo Momade manifesta desconhecimento, alias, relatos das populações falavam inclusive de recrutamento de jovens para a Renamo na província de Manca que, oficialmente, nunca foi confirmado e nem desmentido.

Ossufo Momade é desafiado a mostrar que, efetivamente, é o presidente da Renamo e que, as conversações que tem tido com o Presidente da Republica Filipe Nyusi visam colocar o ponto final as atuais hostilidades militares e politicas no nosso pais, Ossufo Momade, caso não mostre essa sua via de comando, ira cair em um total e completo descredito na sociedade Moçambicana, o pais não pode lidar com dissidentes da Renamo e os insurgentes em Cabo Delgado em simultâneo, exige-se o comprometimento da Renamo nesta causa nacional, que é a Paz.

Para já, fica a sensação de algo mal esclarecido, não é aceitável que, homens que sempre mostraram um alto sentido de disciplina e respeito ao comando centralizado, apareçam hoje, como um grupo de “bandos” por conta e risco próprio, quer crer que, Ossufo Momade, o mais rapidamente possível, deve vir a publico esclarecer isto, a bem da Renamo, da sociedade e dele próprio, salvo se a escolha tenha sido um erro!
 

 

Na esteira de quem, à luz da Lei do Desporto, não pactua com presidentes de federações ou associações desportivas com mandatos expirados, o  Conselho Nacional do Desporto  (CND) deu um “prazo” de três meses para que o basquetebol, natação e ténis realizassem eleições.

Ok, tudo bonitinho porque fazia-se cumprir com o artigo 48 na sua alínea 2 da Lei de Desporto que  refere que os “titulares dos órgãos sociais das federações e associações desportivas provinciais e distritais só podem recandidatar-se uma vez”,  sendo que o mesmo  artigo na sua alínea 1 sublinha que a “duração dos mandatos deve ser de apenas 4 anos”, dando “Ko”  a todos aqueles que teimam em perpetuar os seus mandatos. Para fins inconfessáveis.

Não demorou muito para que a recomendação caísse em saco roto. Para que o CND assobiasse para cima. Pelo menos no basquetebol, até porque o ténis e natação escolhem os novos presidentes este mês de Junho.

Com falso argumento de que “estamos em período de competições internacionais e é preciso prepará-las com atenções redobradas”, as autoridades desportivas estenderam o tapete vermelho ao presidente da Federação Moçambicana de Basquetebol, Francisco Mabjaia, para que continue até Dezembro de 2019.  Qual quê?  Atropelamos a lei que criámos com falácias dispensáveis. E o resultado é a desgraça e falta de respeito para com os atletas que temos estado a assistir. Isto é  “tipo” a  série “Show me a Hero”, na qual  David Simon narra  a história  de  Nick Wasicsko, político de Nova Iorque considerado herói trágico.

Não podemos, e nem devemos por questões morais, ignorar a banalização da selecção nacional de basquetebol sub-19 que prepara a sua participação inédita no Campeonato do Mundo da categoria, em Bangekok, na Tailândia.

O frio das madrugadas arrasta, penosamente, as atletas para um campo aberto (Ferroviário de Maputo) onde estão expostas a doenças neste tempo de inverno.
Porque estudantes, e no artifício da defesa da pátria, treinam bem cedinho (5h00) para ganharem tempo para cumprir com os seus compromissos académicos.

Sem direito a um transporte providenciado pela Federação Moçambicana de Basquetebol, algumas  atletas têm que se desenrascar fintado o perigo iminente nos becos dos  bairros para chegarem ao local de treinos.

No lugar de pensar na estratégia para vencer os seus adversários, o seleccionador nacional, Leonel Manhique, faz de motorista. É isso mesmo: é forçado a transportar algumas atletas na sua viatura particular para o local de treinos. Vê se pode!

Esvaziadas de condições básicas, as atletas não tinham até quarta-feira passada lanches. Nem isso conseguimos dar a quem, muitas vezes, sai bem cedinho de casa e depois vai às aulas.

À beira do abismo. Numa modalidade em que a condição  física é determinante, as meninas não têm sequer acesso a ginásio. É preciso improvisar, na base de pneus de viaturas, um trabalho de força  para se manter e apurar forma física das atletas. E estamos a falar de uma selecção que irá representar Moçambique numa competição planetária. Não somos sérios.

A isto, junta-se a desorganização  que assistimos no processo de preparação e participação da selecção sénior masculina nas eliminatórias da zona VI para o AfroCan.

Dando largas ao improviso, a selecção nacional teve apenas uma semana para preparar esta competição. Os dois atletas do Ferroviário da Beira (Helton Ubisse e Ayad Marques) que constavam na convocatória final apenas se juntaram ao grupo de trabalho nas vésperas da viagem.

Era, claramente, dispensável que Ubisse e Marques se deslocassem a Maputo, uma vez que a selecção nacional seguiu  via-terreste ao Zimbabwe tendo passado pela  cidade da  Beira, onde os atletas podiam ser integrados e evitar-se desgaste maior.

Não faz sentido nenhum. A viagem foi desgastante, tendo naturalmente prejudicado os atletas no primeiro jogo em que Moçambique perdeu com o Zimbabwe fazendo “tremer” a qualificação. Já sabíamos destas eliminatórias há dois anos (2017), quando tivemos uma prestação mediana no “Afrobasket”  organizado conjuntamente pelo Senegal e Tunísia.

Os atletas fizeram a sua parte, qualificando o país para o AfroCan, mesmo em meio a mediocridade gigantesca que assaltou o desporto moçambicano.

Desde princípios de Maio estou como estagiário e assistente de encenação de Fernando Mora Ramos, na mais recente produção do Teatro da Rainha, na cidade das Caldas da Rainha em Portugal. O espectáculo é “A cidade dos Pássaros” de Beranard Chartreux, dramaturgo contemporâneo francês, que vai buscar em as “Aves” de Aristófanes, um dos grandes nomes do teatro grego, um bom pretexto para discutir a degradação da democracia dos nossos dias.

Evélpidos e Pistetero, dois Atenienses revoltados com a falência da democracia da sua cidade, que já não passava dum antro de corrupção, clientelismo e outras ilicitudes, atravessam o deserto à procura de Tereu Poupa, um rei transformado em pássaro pelos deuses como paga dos seus crimes conjugais. Há nesta peça permanente diálogo com personagens da mitologia grega. Chegados ao país dos pássaros livres, Pistetero ao se aperceber da inexistência de um governo (o que justificava a harmonia e liberdade vivida naquele lugar), serve-se da sua astúcia política para manipular o povo dos pássaros livres, que de ferozes inimigos dos homens passam a ser seus escravos fieis. Pistetero de imigrante passa a ser o pai da nação. Será disso que a Europa tem medo ao fechar as comportas do mediterrâneo?

A ditadura não tarda ganhar asas e envenenar o ar. Passado um bocado Homens e deuses curvam-se aos pés do imperador. O bloqueio dos fumos sacrificiais altera radicalmente a lógica do universo. Agora são os pássaros que mandam. Ou melhor é o seu imperador quem detém todo poder da terra, do ar e do céu. Homofóbico, xenófobo e bastante centrado no seu umbigo revela-se como fiel protótipo dos líderes mundiais. Facilmente nos remete a Trump ou Bolsonaro. O resto não é difícil de imaginar. O nosso quotidiano é deveras esclarecedor.

Trabalhar nesta peça para além de servir de extensão para o meu aprendizado teatral, aprofundar meus conhecimentos em relação à encenação, dramaturgia e produção de espectáculos. Tem sido um momento de grande reflexão sobre questões políticas e sociais com as quais o nosso país se debate actualmente, por me possibilitar um olhar exterior e consequentemente mais lúcido. Diz-se que o caos só pode ser percebido melhor à distância, pois quanto mais perto estivermos mais risco corremos de nos confundir com ele. Nunca compreendi tão bem Moçambique, quanto agora. Eis a vantagem dos estrangeiros.

Nos ensaios, os olhos de águia de Fernando Mora Ramos atiram-se contra a acena como uma picareta na caça das pedras preciosas. A cada dia uma nova descoberta. Vão ficando cada vez mais significativas as falas, os gestos e movimentações dos actores que projectam no espaço a narrativa dramática. Para melhor conduzir as acções dos actores, o encenador faz questão de nomear cada estado de espírito das personagens, assim como o sentido das situações. Por exemplo chama de vocação da vénia a atitude do Arauto, – uma personagem que rompe a cena cheia de salamaleques para entregar ao novo tirano do universo, Pistetero, uma coroa enviada pelos Homens, em reconhecimento do seu poder.

Apesar de, no decorrer da peça existirem muitas cenas que satirizam e põem a nu o teatro obsceno da política, principalmente no que diz respeito à manipulação e opressão das massas. Evoco aqui a cena do Arauto por ser uma boa demostração do lambe botismo, que assaltou o nosso país. Pela sua massificação e aprimoramento arisco-me a dizer que há quem nasça com tal vocação. Não é novidade para ninguém que há gente que ganha a vida engraxando com a língua as botas imundas dos chefes. Suas excelências estão sempre certas, mesmo quando há provas claras de que empurram o país para o precipício. Com a ficha do pensamento crítico desligada dizem sim, senhor, a tudo. Como pode haver democracia num país de seguidismo?

O mais grave é a juventude que quando não se deixa embriagar pela infinita promoção da cerveja, engravata-se, acerca o chefe e de joelhos esmera-se para que lhe seja reconhecida a vocação da vénia. Faz vista grossa aos escândalos de corrupção envolvendo figuras graúdas do nosso governo. Ignora a antiga doença dos transportes e das estradas. O salário mínimo nunca chega para encher o saco no dumbanengue, muito menos para pagar água e luz, mas não faz mal. O chefe tem dado o melhor de si, merece hurras e kulungwanas. Eis o que se chama vocação da vénia!

– Ah ah ah… – com a gargalhada, desclassificou as palavras  do amigo –, mentira! – esticou  o “i" quando disse “mentira", para acrescer quilates ao vocábulo. Sequer parou de trabalhar: deu gás ao pedal da máquina de coser que acelerou como uma locomotiva endiabrada.

– Juro! – insistiu o amigo, magoado pelo descrédito (percebia-se pela testa franzida), enquanto endireitava o caqui do colete com branding duma operadora de telefonia –, eu também  não  acreditei – acentuou o sotaque da terra de vastos palmares e muito coco para a economia.

– Ah ah ah… Você conta muita estória, muitos filmes – não parava de pedalar a máquina, o alfaiate de esquina, mas começou a ponderar porque, sabia, quando um machuabo põe sotaque na voz está  sério, o que, ainda assim, ainda não garantia que fosse verdade.
– Juro! Falaram na STV.

A máquina de coser freou. As bielas abrandaram como uma locomotiva surpreendida com uma estação repentina, quando o machuabo se referiu à tv popular, como um selo para sua verdade.

– Sim, STV – reforçou com malícia, percebendo que apunhalara o amigo com o argumento e ganhara espaço na discussão. Endireitou, vitorioso, o colete da cor da empresa de telefonia e deixou-se estar, sorridente, a acariciar as recargas de telefone, com o aquele tique batoteiro de antigos jogadores de cartas.
O alfaiate demorou a reorganizar ideias. Desviou o olhar da máquina e deixou-o no chão, de modo que, com a visão periférica,  pudesse ver o amigo e descodificar-lhe a linguagem gestual.

– É possível isso? É possível um morto regressar?
– Eu também me pergunto. Mas está aí – respondeu, organizando o baralho de recargas no bolso do colete.
– Será que deus abriu os portões e autorizou o morto a voltar?
– Quem disse que ele estava com Deus? Pode ter encontrado as portas do céu fechadas, não lhe abriram porque não lhe querem lá.
– Então por que lhe mandaram para aqui. É inferno aqui?
– Do jeito que isto anda difícil, as crises… o custo de vida… a corrupção… é possível.
– E o dinheiro? Será que o gajo trouxe de volta o dinheiro que gamou? Ou Deus reteve?

Ficaram ali os dois calados, o alfaiate a olhar para o chão, para o nada e o outro para cima, entre o céu e a linha tortuosa da copa das árvores que lhe trazia lembranças dos cílios irrequietos dos palmares a fazerem cocegas às nuvens.

Devagar, a locomotiva de coser voltava a si, ganhava vapor e dava golpes progressivos ao silêncio. O vendedor de recargas, embalado pela música de coser, o som delicado da agulha a espicaçar timbilas no tecido, meteu o dedo no nariz, enquanto selecionava pela espessura, a caca, que enrolava numa bolinha e depois fazia uma catapulta com os dedos, indicador tenso sob o polegar, e arremessava  para longe, fazendo pontaria ao nada.

– As tantas todos aqueles comparsas dele são mortos que voltaram para nos atazanar. A corrupção deve ser uma praga…
– E se aqui for inferno?
– Então nós estaríamos mortos
– E estamos vivos?

O alfaiate não teve resposta. Deu uma lambidela na linha. Afinou as pestanas para ajustar a visão. Enfiou a ponta da linha na agulha… armou a máquina acelerou coseduras violentas, remendando os panos com urgência de quem se imagina a remendar uma nação.

 

Reconstruo esta memória, sentado a comer amendoim torrado que me chegou de Maputo, num dos assentos do metro de Lisboa. O metro tem como destino a Baixa-Chiado, lá onde todos se juntam e tudo acontece.

Todas as vezes que embarco numa viagem no metro desta cidade, onde todos os mundos se encontram, lembro-me das vozes, dos cheiros e dos apertos dos chapas de Maputo. Este acto de retecer andanças e lembranças nunca me ocorreu tão forte quanto nesta viagem. Cada amendoim engolido é mais um quinino que atiça a memória a revisitar de modo profundo as viagens da rota Zona Verde-Baixa, que em tempos passados eu fizera nos chapas de Maputo. 

O silêncio é o som que mais se ouve nesta e em todas as viagens que faço neste comboio subterrâneo. De quando em vez o mesmo é interrompido por um abrir ou fechar de portas quando chegamos à estação seguinte ou pelos incontidos galanteios que as rodas fazem aos carris. Cada pessoa entra, senta, namora o silêncio e chegado seu destino levanta e se vai embora sem a quem dizer um singelo tchau.

Para quem já andou de chapa, à primeira vista, a realidade revela-se uma patranha deveras estranha.

Faço contínuo requerimento à memória para que ela me conceda o obséquio de visitar uma viagem em que o silêncio fez morada nos chapas de Maputo e em jeito de indeferimento tudo que ouço é "Baixooô, Baixa, Baixooô" que um jovem que se apoia na porta de uma viatura de marca Toyota Hiace grita como se de uma música se tratasse. Em seguida, como que seduzidos por tal cantar vejo gente em catadupa correndo para aquela viatura. Depois de uma forte luta vejo-a cheia de alguns dos que há instantes trocavam empurrões para nela garantir o seu assento. Estão sossegados e prontos para assistir o concerto clássico que terá lugar no seu interior. A lotação da viatura é de quinze lugares, contudo quando me esforço para contar vejo um pouco mais de vinte e cinco pessoas, umas sentadas e outras que nos próximos minutos, quiçá horas, permanecerão de pé. Não tarda para se acomodarem naquele desconforto e a viatura começar a ganhar movimento.

As imagens e os sons que a memória me faz revisitar tornam-se opacos quando paro para tirar a casca do pouco amendoim que me sobra.

Deglutido o amendoim tudo volta a ganhar luz. No fundo ouve-se "Massinguitane" de Mr. Bow e este é abafado por uma cacofonia de vozes, algumas discutem política, outras se queixam do preço da couve que subiu, outras narram com tanto orgulho as proezas conjugais que protagonizaram na noite passada. Contudo, o que mais me chama atenção é um jovem que se encontra no seu melhor, a paquerar uma rapariga. Diz ele à rapariga "U xonguile wene", que significa tu és bonita. A rapariga como um girassol galanteado por aquela luz incandescente que ilumina os dias de Maputo deixa o sorriso escapar-se-lhe pela boca.

Junto à porta do chapa protagonizam uma cena menos romântica duas senhoras que a falta de assento e o ardente desejo de seguir viagem as obrigou a embarcar naquela viatura onde tudo se mistura. 

– Senhora não me pisa! – grita uma delas.
– Não te pisei, te encostei mamã! – responde a outra com um tom jocoso.
– Me pisaste sim! Sabe o que é encostar alguém? – responde a ofendida num tom de voz que denota que o céu está nublado e nos próximos minutos terá lugar uma tempestade se as coisas continuarem no mesmo estado.

Segundo findo tudo fica escuro, Lisboa e Maputo partilham o mesmo espaço.  Num rodopiar sem legenda, noite e dia se confundem. Desta vez as lembranças não se tornam opacas, mas sim se esvanecem por completo. Dou-me conta que acabei o amendoim que minha querida mãe enviara, e o metro acabara de parar numa estação com o nome Baixa-Chiado. É o meu destino, penso.  Com as lembranças mais vivas que nunca, o meu semblante fica enrubescido e abandono este comboio subterrâneo sem alguém a quem dizer um simples adeus, tal como muitos que por aqui passam. 

 

Introdução

Sobre literatura

A literatura moçambicana teve e tem vários estudiosos e teóricos. Por questão de economia de tempo, apenas destacarei Fátima Mendonça, docente da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane.

No seu livro intitulado: Literatura moçambicana – a história e as escritas, publicado pela Faculdade de Letras e Núcleo Editorial da Universidade Eduardo Mondlane, em 1989, periodiza a Literatura Moçambicana, desde os primórdios até à proclamação da independência, emprestando-lhe marcos descritivo das diferentes épocas que ela foi atravessando ao longo do tempo, para sua melhor compreensão.

Sobre cultura

A cultura moçambicana não é mais nem menos que uma associação de diversas subculturas autóctones, cada uma no seu espaço geográfico, num território vasto, cuja superfície atinge cerca de 800 000 km². Outros aspectos sobre este assunto veremos num outro desenvolvimento, mais adiante.

Periodização da Literatura Moçambicana

Assim, a Literatura Moçambicana está dividida em três grandes períodos históricos:

O primeiro período vai de 1925 a 1945/47:

Este período marca o surgimento, em Moçambique, de uma literatura da língua portuguesa com carácter sistemático, determinado pela política de assimilação e pela política educacional do estado colonial. Corriam os anos 20. Este surgimento contrapunha-se àquilo que era a expressão popular veiculada por meio de fábulas, lendas, mitos, narrativas de carácter oral, que, por questões de sistematização académica se veio a denominar de oralidade, oratura ou, simplesmente literatura oral, portanto, sem qualquer registo escrito e cuja produção era local, étnica ou regional, transmitida de geração para geração, profícua, mas volitiva. Urgia que se passasse da oralidade à escrita.

O segundo período vai desde 1945 a 1964:

Avulta-se uma nova literatura em Moçambique, cujo marco importante, é 8 de Novembro de 1947, em que, um homem chamado Augusto dos Santos Abranches, dinamiza, numa acção individual que se veio a mostrar transitória, a eclosão de um dos mais dinâmicos momentos da história literária, antes da independência.

O terceiro período vai desde 1964 a 1975:

Verifica-se, já, uma produção literária que revela uma forte complexidade deste período. Quebra-se a relativa homogeneidade dos dois períodos anteriores. O surgimento e a acção do Movimento de Libertação Nacional, faz emergirem três grandes vectores ou linhas de força:

  • A literatura produzida nas zonas libertadas incluindo

a clandestinidade nas cidades.

  • A literatura produzida nas cidades por intelectuais

que, em geral, assumem posições ideológicas de distanciamento do poder colonial.

  • A literatura produzida para afirmar a ideologia

colonial na sua expressão luso-tropicalista.

Proclamada a independência de Moçambique, continua-se com as influências do 3º período, já com um leme distintivo a guiá-las – a Revolução Moçambicana, que levava a uma literatura de cariz marcadamente panfletário político.

Actualidade da Literatura Moçambicana

Pretensamente, arriscar-me-ia, por conta própria, a aventar um quarto período que vai de 1975 a esta parte, perpassando pela criação da AEMO, em 1982. Teve o seu auge entre 1984 e 1987, envolvendo jovens que, com a sua visão utópica tiveram a ousadia de enveredar pela reinvenção da literatura moçambicana e quebrar os paradigmas prevalecentes do tempo já derrubado. Um feito cujos reflexos, ainda perduram, à força da grande mudança operada, e da vontade da juventude se afirmar interventiva.

Em Moçambique, a literatura ganhou contornos inusitados, cerca de uma década depois da proclamação da independência, com o surgimento de um grupo de jovens, na Associação dos Escritores Moçambicanos, cujas práticas, romperam com as formas anteriores, baseadas na luta de resistência à ocupação colonial e na Luta de Libertação Nacional. A ocupação, o luso-tropicalismo e a guerra colonial já eram águas passadas, importava era renovar o tecido literário moçambicano, sair da opressão para a liberdade Intelectual. Sair da censura institucional, para a liberdade de expressão ou seja, os escritores e poetas passaram, eles próprios, a exercer uma autocensura dos seus textos, de acordo com a sua consciência perante os novos valores trazidos pela Revolução. Esse grupo fundou, em 1984, a Revista Literária e o Movimento Charrua, um marco importante na história contemporânea da Literatura Moçambicana.

Nos tempos que correm, assiste-se ao surgimento de muitos escritores e poetas jovens reunidos em grupos culturais multifacetados, numa acção multidisciplinar que, consciente ou inconscientemente se guindam sobre a plataforma criada por aquele movimento.

Estou, apenas a tentar dizer que, para se falar de literatura, seja qual for o seu domicílio ou quadrante originário, deve-se, em primeiro lugar, situar em quê é que ela se funda. A literatura moçambicana teve quem, inicialmente a abraçasse e desenvolvesse. Nós, seus continuadores, recebemos essa valiosa herança, e temos a missão de a preservar, aperfeiçoar, de acordo com a nossa realidade objectiva e expandir, cada vez mais, como uma das nossas marcas identitárias,

Hoje, a literatura em Moçambique, evolui, a olhos vistos, em moldes sem precedentes, os seus praticantes ou participantes, como se queira, são, maioritariamente jovens que não obscuram as velhas gerações, para se aconselharem. Paulatinamente, a Língua portuguesa, de L2 ou estrangeira, vai-se tornando L1 ou materna, para uma considerável franja da população moçambicana, sobretudo a urbana. Hoje, neste país, a literatura em língua portuguesa, é livre e dinâmica, e preocupada com a estética linguística, em conformidade com a realidade quotidiana da sociedade.

 

Enquadramento da língua portuguesa em Moçambique

 

A língua portuguesa é o principal vector de comunicação do povo moçambicano. Assim sendo, é o idioma literário em Moçambique, adoptado como língua oficial deste país, nascido da independência nacional, proclamada a 25 de Junho de 1975. Aliás, durante a Luta de Libertação Nacional, foi proclamada Língua de Unidade Nacional. De outra forma não poderia ser, uma vez que Moçambique é um mosaico de diversas línguas autóctones, ou locais, ou étnicas, que, pela sua limitada abrangência, não permitem que todo o povo moçambicano se comunique eficazmente. Por enquanto, não se vislumbra, tanto a curto quanto a médio prazos, a adopção, pelo menos, de um idioma, de origem moçambicana, que possa servir de veículo literário ou de comunicação global.

Foram selecionadas, a nível do ensino primário, algumas línguas para fins de ensino bilingue, em conexão com o Português, em escolas primárias rurais, para que evoluindo em moldes comparativos, as crianças, facilmente se possam apropriar da Língua Oficial.

No nosso país, está entranhado o pé gigante de Aquiles, precisamos de acertar a nossa flecha no seu calcanhar para podermos avançar. Em todos os períodos anteriormente mencionados, a leitura era um acto primordial para todas as idades, principalmente para os jovens, maioritariamente estudantes. A leitura era um dado adquirido, era incentivada das mais variadas formas. Até se lia, com sofreguidão, autores de países estrangeiros, traduzidos para português, alguns interditados pela administração colonial. Estes livros circulavam clandestinamente, de mão em mão. Depois de levantada a interdição, a leitura continuou a ser um costume salutar e prazeroso. O surgimento da Revista Literária Charrua e do Movimento do mesmo nome, ajudou a incrementar o gosto pela leitura. No entanto, contrariando este entusiasmo, notou-se uma fuga paulatina, ao contacto com o livro, pouco mais de dez anos depois da independência, justificada por diversos factores sociopolíticos, económicos e culturais que levaram à adopção de outras prioridades mais imediatas na vida das pessoas, e o fenómeno evoluiu até ao estado em que hoje nos encontramos. Pouca gente a ler, o que influi bastante na política editorial; poucas tiragens e, por isso, o livro muito caro e, daí, a afugentar-se os leitores, gente de baixa renda para enfrentar o alto custo de vida dos tempos actuais. Consequentemente, muitos estudantes secundários chegam à universidade, sem sequer, ter lido, ainda, um livro literário. Existem estudantes com tremendo deficit cognitivo, o que não ajuda em nada para o desenvolvimento do país.

Actualidade

Estamos, presentemente, envolvidos num esforço tendente a fomentar a política de Mobilidade e Circulação do Livro e dos Escritores, no contexto da criação artística, dentro da CPLP, aglutinando múltiplas sensibilidades, numa comunidade interpretativa, ou seja, os autores literários e artísticos, de um modo geral, e os leitores e apreciadores da arte, em volta da obra criada, num pleno exercício interpretativo denominado Estética da Recepção.

Há duas semanas, realizou-se em Maputo, sob a égide da Editora Cavalo do Mar, de 7 a 9 do mês corrente, o Festival Internacional de Literatura denominado: Resiliência 3, envolvendo escritores, académicos, editores e personalidades destacadas em outras actividades intelectuais afins, oriundos dos países integrantes da CPLP, cujo mote foi a situação actual das literaturas desses países. Naquele encontro discutiu-se a mobilidade dos autores desses países, a circulação das suas obras, no sentido de se reduzir distâncias culturais. Penso que esse tipo de realizações é salutar para o desenvolvimento que se deseja no seio desta comunidade. A literatura, sobretudo, é veículo muito importante para ajudar no alcance dos seus propósitos. É necessário que nos conheçamos profundamente, primeiro, dentro das nossas fronteiras nacionais, para depois podermos ter capacidade de fazer que os outros nos reconheçam! É caso para se dizer: Limpemos bem a nossa casa, para que as visitas nos admirem e nos acolham, sem reservas, e na igualdade, no seu próprio meio!

Em Moçambique temos, como tivemos no passado, talentosos escritores e poetas, mas uma comunidade leitora, quase inexistente; os escritores e poetas, são marinheiros prontos para grandes viagens, mas falta-lhes mar para lançarem os seus barcos. A ausência assustadora da leitura condiciona o nosso desenvolvimento! A Educação, desde tenra idade, envolvendo principalmente a intervenção dos núcleos familiares, deve ser o nosso primordial desafio, por enfrentar. 

Sobre a cultura moçambicana

A cultura moçambicana é um grande legado geracional que foi atravessando os tempos, espartilhado etnicamente, por via da dominação colonial, ou seja, os grupos étnicos, então denominados de grupos folclóricos, estavam acantonados nas suas regiões e se desenvolviam culturalmente, em moldes locais. Estes grupos serviam, no seio da administração colonial, como cartões de visitas para abrilhantar recepções de destacadas personalidades da administração colonial, nos aeroportos e noutros locais eleitos para a demonstração do poder colonial. Assim foi ao longo de muitas gerações. Até que os ventos da mudança começaram a soprar, vindos do Norte, onde um grupo de jovens decidiu juntar-se numa frente contra o sistema colonial. O grupo aglutinava gente ida de quase todas as regiões de Moçambique. Os que iam chegando, traziam consigo o frenesim da sua origem. E, a pouco-e-pouco, os microcosmos foram confluindo num imensurável movimento de libertação. Era o despertar de uma cultura rica de nuanças, em que cada grupo étnico constituinte se sentia integrado num povo – o povo moçambicano.

A nossa bandeira, a língua oficial que adoptamos e o nosso hino nacional, simbolizam a nossa unidade nacional. Vivemos uma impressionante miscigenação étnica, mas também rácica, em razão de gentes de origens diferentes no mundo, escolherem este país para a prossecução da sua vida.

Vários grupos de canto e dança despontam de tudo o que é canto em Moçambique, e enriquecem o património cultural, na sua materialidade e na sua intangibilidade; enaltecem a identidade moçambicana.

Bienalmente, sob a égide do Governo Moçambicano, representado pelo Ministério do pelouro cultural, são realizados festivais culturais provinciais de apuramento, envolvendo variadíssimas modalidades culturais moçambicanas. Nestas manifestações são apurados grupos que vão representar as suas províncias no Festival Nacional de Cultura, numa província cooptada no festival nacional anterior, o que mostra o carácter rotativo do evento.

Nesta manifestação, celebra-se, verdadeiramente, a diversidade cultural em que, adolescentes, jovens e adultos, de ambos os sexos e sem qualquer tipo de descriminação, juntam-se em festa, para a celebração maior da identidade moçambicana. Lembrando a lapidar inspiração de Samora Machel: "A cultura é um sol que nunca desce!"

É uma cultura vibrante, que enaltece, com as suas cores diversas, as cores do Arco-Íris, a existência de um povo que, orgulhosamente, é parte integrante do tecido das nações que fazem o mundo.

O Grupo Cultural de Canto e Dança, de Moçambique, que integra, no seu vasto reportório, números representativos de todas as regiões moçambicanas, é a expressão mais eloquente, sublime das manifestações culturais no nosso país. Neste grupo exprimem-se: o canto, os movimentos corporais ou coreográficos, a declamação poética, a dramaturgia e o traje marcadamente africano, em evocação da ancestralidade do nosso país.

A cultura, seja ela qual for, é uma expressão profunda da identidade de um povo. Este identifica-se através dos diferentes aspectos que exprimem os sentimentos das comunidades que serve. Por isso diz-se: "Não há povo sem cultura ou seja, um povo é o que é, porque moldado pela sua matriz cultural.

Conclusão

Concluo dizendo que o entrosamento da literatura escrita na cultura moçambicana, trata-se, como se vê, de uma engenharia de restruturação ambiental sobre a preexistência colonial que foi sofrendo uma profunda reinvenção, ao longo do curso do tempo, em relação ao que era negativo e ofensivo. Sobre a oralidade secular que torna efêmera a nossa história, nasce a escrita que perpetua as marcas da nossa existência como povo.                                                                                                                    

De toda a maneira, os moçambicanos continuarão a beber do melhor que o passado lhes legou, para alicerçarem o presente e perspectivarem o futuro.                                                                                                                                                                                                                     

Maputo/Lisboa, 28 de Maio de 2019

 

 

 

Ao Cremildo Nota e Romeu Artur, Tete também é nosso lugar.

 

Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar.

Bernardo Soares

 

“Como se a manhã do tempo despertasse”, “Poemas de Moatize”, “Outras fronteiras: fragmentos de narrativas” – igualmente título da obra – e “O Índico em Marrakesh”. Estas são as quatro partes que compõem o recente livro de Ana Mafalda Leite, lançado no Brasil, pela Kapulana, e em Moçambique, pela Cavalo do Mar.

Logo nos textos iniciais, a autora deste Outras fronteiras: fragmentos de narrativas apresenta um afã literário concretizado com muito afinco, daí o equilíbrio entre o saber, a vocação e o sentido sensorial sobre as coisas. A partir disso, é recorrente a entrega dos sujeitos textuais na enunciação do afecto pelos objectos e lugares (enquanto tradutores de uma atmosfera específica) com realce para as emoções consequentes. Nada disto é feito de forma linear ou absoluta. Pelo contrário, tudo sucede com recurso ao retrato fragmentado das circunstâncias e do que as mesmas significam, numa aposta quase obsessiva quanto à revisitação de contextos particulares.

Numa entrevista cedida ao jornal O País, este mês, Ana Mafalda Leite afirma que, com o seu livro, quis colocar Moatize no mapa literário. De facto, ao ler-se Outras fronteiras fica-se com esse entendimento, afinal aquele distrito de Tete aparece amiúde apresentado como a síntese do que realmente importa: a casa grande, sem número ou inumerável, o sítio de onde se parte e para onde se regressa.

Ocupando Moatize uma dimensão muito privilegiada na memória de Ana Mafalda Leite, na verdade, é apenas uma porção do que a província de Tete, com destaque para as zonas frias do norte (Macanga, Angónia, Marávia), representa para a autora que lá viveu o limiar da existência: “No princípio havia chauta (deus) e a terra parada/ um dia um relâmpago imenso desenhou nos céus/ a chuva/ que trouxe à terra o homem e todos os animais// pousaram nos planaltos da marávia e da angónia” (p. 33).

No excerto acima e noutras passagens do poema “A lenda da criação” está explícita a visão cosmogónica do sujeito poético, a quem cabe a reformulação da origem da humanidade, das suas circunstâncias, logo, da vida na terra.

Além disso, na fixação por Tete, Ana Mafalda Leite versifica elementos importantíssimos da oralidade nyungwe e nyanja, especificamente concernentes à cultura nyau (a qual implica a dança com o mesmo nome considerada Património Oral e Imaterial da Humanidade pela UNESCO), os ritos de passagem e as crenças atinentes à vida após a morte. Do mesmo modo, há aqui um trabalho sobre identidades que rompem fronteiras, espaços condicionantes da liberdade de ser e de existir. A visão da poetisa, nesse sentido, é holística ao estilo antropológico. Por isso Outras fronteiras mescla erudição vivencial com os domínios culturais, sociais, históricos e geográficos. Há-de esta a razão do livro ser rico do ponto de vista do movimento: de Moatize para Marávia, de Macanga para Angónia ou do Centro de Moçambique para o mundo.

Chegados aqui, ocorre-nos essa frase extraída de O livro do desassossego, de Bernardo Soares: “Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar”. É uma posição complexa esta de um dos heterónimos de Fernando Pessoa. Aqui é invocada porque em Outras fronteiras escapa a sensação de que os homens vivem conhecendo-se mal como povo e como espécie. Então o convite não poderia ser outro, senão o de pensarmos e repensarmo-nos a partir dos lugares a que pertencemos até um domínio mais amplo. Por essa via, Ana Mafalda Leite cumpre a importância de fazer da literatura um instrumento de compreensão de especificidades locais, de modo que o todo faça mais sentido.

Título: Outras fronteiras: fragmentos de narrativas

Autora: Ana Mafalda Leite

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 15

 

O homem abriu a porta. Uma esteira de ar fresco beijou aquele ambiente colonizado pelo álcool e cigarro. O casaco cinzento que oprimia a barriga do homem não a impediu de ser a primeira a atravessar a porta. O bar já estava às moscas, apenas os bêbados de todas as horas teimavam em ficar. As marandzas mamavam apaixonadamente os bolsos daqueles homens. Tinham ficado poucas, não enchiam nem duas mãos.

– Chefe Chande! Só agora? – gritou uma voz que vinha do balcão.

Enquanto caminhava em direcção ao lugar de onde vinha aquela voz, o homem esbarrou num massopene que andava por ali.

– Estás a me gunhar e nem dizes desculpa? – perguntou irritado o massopene, enquanto seguia o homem.

O homem continuou a caminhar sem dizer uma palavra. Era como se estivesse a ser teleguiado em direcção ao balcão. A memória cuspia-lhe os factos e a preocupação o beijava.

– Grande abuso! Não dizes nada mesmo? – gritou o massopene enquanto colocava o seu corpo esquelético em frente ao do homem. A marcha do homem cessou e ficaram os dois parados no meio do bar a se fitarem. O clima ficou tenso. Os restantes bêbados viraram os olhos para aquela cena que se desenrolava.

– Vai pedir desculpa por bem ou por mal? – perguntou o massopene.

Bar sem confusão é como política sem aldrabices. O massopene estava disposto a tornar aquilo num bar como deve ser, com confusão a rebentar pelas costuras.

– Amigo, sai da frente!

– Eh afinal fala – disse o massopene com gargalhadas onduladas pelo álcool a intercalarem as palavras.

Perante a recusa do massopene, o homem afastou-se para o lado. Mais uma vez ele estava lá.

– Mas você acha que pode me gunhar e passar assim sem dizer nada?

 – O que queres afinal? Deixa-me em paz, porra!

– Já estás a gritar para quem assim? – perguntou o massopene, enquanto tirava da mesa do lado uma garrafa.  

De repente os estilhaços da garrafa coloriram o chão. Os bêbados aproximaram-se e começaram a pedir aos gritos que se enfrentassem logo. A situação estava a ficar feia. O massopene apontou o homem com a metade da garrafa que reluzia nas suas mãos e exigiu as suas desculpas.

 – Vai continuar a se fazer de desentendido ou vai pedir desculpas?

– Amigo é melhor colocar essa garrafa bem longe daqui senão vais acabar ferido!

– Eh esse gajo tem abuso pá! – o massopene irritou-se e esticou a mão com a garrafa para o pescoço do homem.

Num golpe de mestre o homem esquivou e deu um soco forte no focinho do massopene. Caiu imediatamente. O servente apareceu no lugar onde acontecia a confusão e segurou o homem. Os restantes aumentaram os gritos, pediam que o servente largasse o homem e deixasse a luta continuar.

 – Chega de confusão aqui! Vão lutar nas vossas casas – gritou o servente.

O massopene levantou-se e fez intenção de querer continuar a luta.

– Eu disse que já chega! – gritou o servente – todos a voltarem para os seus lugares –continuou, enquanto batia as palmas como quem desejava chamar à atenção.

Os ânimos serenaram. Cada um voltou para o seu lugar e o servente caminhou com o homem até ao balcão. O massopene, com o nariz a sangrar, caminhou cambaleante para a saída e disse:

– Mas tu achas que podes me gunhar e não pedir desculpas? Ainda não acabou isto, vais pagar…

Já no balcão, o homem ajeitou-se e estacionou o seu traseiro num dos banquinhos que estava ali perto.

– Você também chefe Chande, se meteu com aquele massopene mesmo?

O homem não respondeu.

 – O que vai ser? – perguntou o servente.

– Um uísque duplo, faz favor…

– Sempre que vens aqui tens algum problema! De certeza hoje também deve haver algum… O que é desta vez?

– Ando stressado – o homem fez uma pausa e suspirou antes de continuar – encarregaram-me de comandar a extradição de um tubarão para o país!

– Ah chefe Chande! Você é da velha escola…

– Não para isso pá! Nada pode falhar, é a volta daquele ministro…

– Eh então a extradição é mesmo definitiva! Mas haverá condenação?

O homem recebeu o copo que o servente o entregou e se afundou no gole.

 

 “Kumangala inga kuteta, quer dizer, meter queixa primeiro, não é julgar”, provérbio chope.

Na traquinice infantil, quando nos apercebíamos que cometemos um erro, corríamos à mamã ou ao papá para anteciparmos a queixa sobre algo que sabíamos de antemão que seria nos desfavorável, quando a mamã ou o papá procedesse ao “julgamento” e concluísse que o queixoso era o culpado e o “condenava” este chorava copiosamente, alegadamente, porque foi o primeiro a queixar, por isso não via razão para que, a mamã ou o papá desse razão ao outro, desta manifesta insatisfação, os adultos diziam “há momento de queixar e há momento de julgar”, por isso, queixar não é julgar.

Este intróito, do provérbio chope, vem a propósito da longa-metragem que é o “caso Chang” detido em Johannesburg, na África do Sul, quando estava a caminho de férias em Dezembro último, realmente, a detenção do ex-Ministro das Finanças foi a pedido das autoridades da Justiça Americanas que, inclusive tinham o programa de julgamento traçado, com datas e horas, o que viria a ser frustrado pelo intrincado processo judicial que teve de correr nos tribunais da África do Sul e, a consequente entrada de Moçambique na disputa do seu cidadão.

Como se sabe e é público, a República de Moçambique acabou por “ganhar” esta fase do jogo, esperando que, havendo outras fases, como se acredita que haverão, continue “imbatível”. Nos tribunais sul-africanos, ao analisarem o mérito dos pedidos de extradição, concluíram que, o ex-Ministro das Finanças, tanto poderia ser extraditado para os EUA, como poderia ser extraditado para a República de Moçambique e passou a “bola” ao executivo que, na sua análise, através do Ministro de Justiça e Assuntos Correccionais, Michael Masutha, concluiu que, para melhor servir a justiça, Manuel Chang deve ser extraditado para a República de Moçambique.

Michael Masutha, na sua análise, pesaram os seguintes factores, o facto de Manuel Chang ser cidadão Moçambicano, que a vontade do próprio arguido ser de regressar e enfrentar a Justiça do país, o delito foi cometido enquanto Ministro do Governo de Moçambique, a dívida contraída onerou a Moçambique e os interesses de Moçambique, nos termos seguintes “notei que o pedido dos EUA foi apresentado algumas semanas antes do da República de Moçambique. No entanto, tendo considerado o assunto no seu contexto completo, tendo em conta os critérios contidos no tratado de extradição EUA-SA, por um lado, e o protocolo de extradição dos Países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), por outro, bem como os factos relevantes, estou convencido de que o interesse da Justiça será melhor servido pela adesão ao pedido da República de Moçambique” decidiu Michael Masutha.

Desta decisão, o Lobby nacional, a favor de extradição, para os Estados Unidos da América, reagiu de forma enérgica, considerando que, a decisão é mais política do que de Justiça, este Lobby “esqueceu-se” do roteiro processual e a quem cabia a última palavra deste intrincado processo, alguns analistas condenam a decisão por ser tomada numa altura em que, o Governo da África do Sul está em período de gestão, porque houve eleições e que o novo Presidente, que coincide ser o mesmo, Cyril Ramaphosa, ainda não tomou posse e consequentemente, não formou o novo Governo, outros ainda evocaram a fraterna irmandade entre a Frelimo no poder, de que Manuel Chang foi Ministro e o ANC na África do Sul, também no poder, chegando ao ridículo de considerar a decisão uma autêntica “aberração”, afinal, para que servem os acordos de comunidade? As relações de amizade e de fraternidade? Em algum momento terão de ser evocados!

A oposição do Lobby nacional e juristas a favor de extradição para os Estados Unidos da América, emergem vozes autorizadas como a de Peter Gastrow, assessor sénior da Iniciativa Global contra o crime organizado transnacional, uma organização internacional da sociedade civil, que considera de nula qualquer tentativa de recurso da decisão do Ministro Michael Masutha e justifica que “não há apelo possível para o Tribunal Constitucional porque a decisão é executiva e não judicial”, para este renomado jurista, até pode se tentar, no entanto, as hipóteses de sucesso são nulas. Por seu turno, André Thomashausen, reconhecido Professor de Direito Internacional diz que, é provável que, a extradição ocorra mesmo antes do recurso dos Americanos.

É preciso recordar que, o Professor André Thomashausen, conhecido nos meios políticos nacionais como assessor do falecido Líder da Renamo Afonso Dhlakama, em tempos defendeu a ideia de que o Protocolo da SADC não seria considerado porque não tinha sido ratificado e por conseguinte, não estava em, vigor, hoje, aparece a defender a ideia de que, a extradição poderá acontecer mesmo antes do recurso entrar e, evoca o Lobby político neste intrincado processo.

Os Americanos conseguiram o que queriam, fragilizar o Governo de Moçambique.

Por outro lado, existe a ideia de que, os Estados Unidos da América terão conseguido os seus objectivos neste processo, que era de fragilizar o Estado da República de Moçambique e imiscuir-se nos seus corredores para melhor tirar proveito da exploração de Gás na Bacia do Rovuma, se estamos recordados, são as empresas norte-americanas a actuarem na Bacia do Rovuma que “aguçaram” apetites da nomenclatura Moçambicana, quando, de forma insistente, diziam que, gastavam perto de 300 milhões de USD/dia, para a segurança do pessoal e equipamento no mar, dando origem as empresas Proindicus e MAM, ora, o principal Procurador de Nova Iorque sobre as dívidas ocultas foi contratado pela ExxonMobil, trata-se de Matthew Amatruda, sabido que, o antigo CEO da mesma companhia com interesses na Bacia do Rovuma é Secretário de Estado no governo de Trump.

A este propósito, a Zitamar escreve e o Semanário Savana o cita a dizer que “houve sempre ligações próximas entre o Governo dos EUA e a ExxonMobli como foi demonstrado, com a actual administração, quando o Presidente nomeou o CEO da Exxon, Rex Tillerson, para Secretário de Estado” mais adiante diz “não seria a primeira vez que os EUA eram acusados de flexionar o seu poder jurídico internacional de uma forma que beneficia negócios Americanos no estrangeiro”, esta notícia, na minha opinião, não deixando de condenar e responsabilizar as “dívidas ilegais” merece maior reflexão sobre o interesse nacional, neste processo todo, os Americanos saem a ganhar, porque fragilizaram o nosso Governo!

O homem Um abriu a braguilha. Soltou a arma do crime. Arregaçou o capuz do prepúcio. Descontraiu os músculos da bexiga, em permissão aos líquidos rebeldes, e deu aquele suspiro profundo, de alívio. Um veículo atravessou a rua de tráfego morto àquela hora. Fiapos de luz dos faróis indiscretos reluziram no arco da urina que regava a árvore. Percebeu os salpicos sobre os sapatos e sobre as calças. Ajustou o ângulo e a pressão do jacto. Sacudiu. Recolheu.

O homem Dois, encostado à minibus escura da cor da noite, sem tirar o palito da boca, deu um trago intenso no que restava do cigarro e atirou a beata para o chão. O palito rodou na boca, de um canto para outro, em sinal de nervosismo. Dentro da minibus, o Três, o Quatro, o Cinco, o Seis, o Sete, o Oito, o Nove e o Dez embaciavam os vidros com a respiração ansiosa.

O homem Um limpou nas calças os respingos de urina que tinha nos dedos. Afastou meio rosto da sombra e espreitou, ao jeito dos clássicos policiais, para o outro lado da rua, para a porta do edifício antigo, donde se deveria dar a aparição de Fátima e então, agirem. Olhou para o Dois, depois para o pulso sem relógio e de novo para o Dois. Estava na hora de se posicionarem.

O homem Dois dobrou os dedos e deu dois toques no vidro da minibus. A porta de correr abriu-se, o homem Três saiu, lento, sem convicção nos movimentos. Ouviu as instruções mas não se mexeu.

O homem Três estava de braços cruzados, tronco curvado, pose de reivindicação. Abanava a cabeça para os lados. Às vezes soltava os braços, atirava as mãos em gestos de protesto e acariciava o indicador no polegar em sinal de dinheiro. O Dois ergueu o indicador e apontou, ameaçador. O Três manteve-se cabisbaixo mas firme. Sacudia a cabeça para os lados.

O homem Quatro saiu do carro, em reforço. Especou-se atrás do Três, enrolou os braços sobre o peito, afastou as pernas como uma árvore de raízes largas que se recusa ao derrube, e torceu o focinho. O homem Cinco não saiu do carro. Pendurava a cabeça para fora do veículo, repisava os argumentos dos outros e voltava para a toca.

O homem Seis escancarou a porta de correr para que os de dentro do carro fossem também plateia e dessem mais voz ao protesto. O Dois, acuado, fingiu iniciar um discurso e calou-se. Deixou o discurso pendente. Tirou do bolso um maço de cigarros. Pendurou um na boca. Demorou com os fósforos, ganhava tempo. De cigarro aceso, encenou estar entretido com os tragos de fumo. Disse “calma", com a palma da mão, fechou os olhos quando sentiu a fuligem da nicotina queimar-lhe as vias. Falou algo que parecia um puzzle de frases remendadas. À distância, o Um percebeu-o pronunciar palavras como “crise”… “não há dinheiro… os bosses estão a ir presos, … já não podem movimentar muito taco…

Perdia-se tempo. O homem Um ia intervir, mas era tarde. Naquele instante ouviu vozes do outro lado da rua. Uma porta rangeu e a luz, vaporosa, inundou a noite. Uma senhora saía à rua. A luz batia-lhe as costas e fazia-lhe uma aura majestosa. Era Fátima! Enquanto discutiam dava-se a aparição de Fátima.

“Senhores!”, Gritou para os supostos pastorinhos. “O alvo, senhores, o alvo está ali”. Ninguém o ouviu, entretidos nas reivindicações.
O veículo de Fátima dobrou a esquina. O homem abriu todas as comportas do desprezo na garganta, soltou todo o escarro e cuspiu, enquanto murmurava, frustrado:

“Por isso este país não avança. Por isso o crime não desenvolve”.

 

 

 

O dia acordou cinzento e esquivo. Uma Chuva tímida cai sob o corpo de Lisboa, daquelas que não molha a ninguém de uma só vez, mas cai o dia todo. Há mais neblina que céu, menos chuva que nuvem. A cidade, brumosa, se mostra para poucos galanteios. O sol pujante dos dias de Primavera descansa submerso num sono profundo, preferiu comprimir-se na mais recôndita das bainhas do esquecimento que aturar as chatices de uma cidade menstruada!

Eu cá também tenho minhas memórias sobre chatices de pessoas menstruadas, conversa para outra ocasião! A memória hoje não está para isso, beija-me noutros becos, nos tempos em que um tipo era muito matreco! Ris-te porque achas que não deixei de ser, nem? Não me tires a coroa, já fui mais! Quem me conhece desde os tempos do Mapswancolo que dê o seu testemunho.

Todos guardamos figuras míticas, cujos serviços todos os pais recorrem para dispersar os nossos momentos de desobediência infantil. Um dia construímos nos nossos imaginários figuras como o " bichão papão", a "cuca" ou o "senhor de saco"!  Conheci todas essas figuras, mas se existe personagem que meus irmãos, meus primos e eu mais tememos na nossa infância é Mapswancolo! O homem não só viveu no nosso imaginário, assim como pisou muitas vezes o chão da minha casa! Tinha carnes e milhões de ossos! Era alto, de pele escura, corpo forte, no seu pescoço destacava-se uma estrada de queimaduras.

A infância é a embriaguez causada por circunstâncias naturais. O medo de sermos medrosos reconhece em nós solos inférteis, o sonho nos visita constantemente e a vergonha nem nos conhece!

Quando Mapswancolo aparecesse lá em casa era sempre fim de tarde. Era enfermeiro de um dos centros de saúde da cidade da Matola. Sua pasta cheia de seringas, tesouras e comprimidos bailava nas suas mãos rechonchudas. Sempre que víssemos aquele homem corríamos quilómetros, mas aquela voz aterradora que emergia das suas cordas vocais gastas pela aguardente procurava por nós onde quer que estivéssemos e nos acendia no peito aquela faísca que esvaziava tudo, o medo.

Enganaste se pensas que o nosso medo tinha algo a ver com a sua estatura física ou com a sua voz em concreto. Isso era o de menos. Estava tudo relacionado com o que o enfermeiro Mapswancolo nos podia fazer! Todos tiravam um certo prazer e vantagem daquele nosso medo. A cantiga era sempre a mesma, nós que nos portássemos senão já sabíamos o que aconteceria. Não tinha chegado a concretização da tão anunciada ameaça, contudo, ao abrir um dia a sua mala e nos mostrar a tesoura e a seringa chegámos a cogitar que era o nosso fim. A dor que nos despiu naquele momento habitou boa parte da nossa infância. Passava sempre um longo intervalo entre aquelas visitas aterradoras do enfermeiro à nossa casa. Aquelas lembranças nos torturavam mais nos primeiros dias após cada visita. Depois adormeciam. Sempre que o víssemos novamente vivíamos tudo de novo! Mas até ele desaparecer definitivamente, a tesoura dele nunca nos tocou, a circuncisão pelas mãos de Mapswancolo não a-con-te-ceu!

Há dias lembrei-me desta figura mítica da minha infância, porque participei de um debate, em sede de uma aula de Direito Penal, sobre a recente criminalização dos maus tratos a animais de companhia que ocorreu em Portugal e a crescente proteção que vem sendo conferida aos animais em muitos países. Como em todos debates de temas sensíveis os intervenientes expondo os motivos dos prós e contras digladiaram-se sem reservas.  

A maior vantagem de sairmos dos nossos países e convivermos com pessoas de vários lugares é ganhar condições para ter uma visão um pouco mais holística do mundo. Longe de mim ser a favor dos maus tratos contra animais de companhia. Contudo, lembrei-me que, para além de tudo, Mapswancolo era um grande apreciador de carne de gatos.

Um dia o homem apareceu carregando num saco um felino morto. Aquele sorriso matreiro que nos aparece quando tiramos a sorte grande brilhava nele. Não sei como eram confeccionados os pratos, mas tudo indicava que se tratava de grandes petiscos. Sempre que nos visitasse recomendava aos meus pais que lhe arranjassem os ditos felinos, dizia ele que podiam já estar mortos que não se importava.

O debate vai quente na sala. Dentre argumentos constitucionais, humanitários e até sociológicos cada parte tenta convencer a outra de que está do lado certo da lide. A dado momento tudo se descontrola, todos já falam aos gritos e um colega exaltado diz:

– A humanidade sempre amou os animais. Eu em especial considero os gatos como os nossos melhores amigos.

Os que estão contra contestam a última intervenção. A algazarra se descontrola. O resto do que agora consigo lembrar é ouvir uma voz que soa bem alto perguntar:

-E Mapswancolo que comia gato?

 

O amor não é a coisa: é a doação

Luandino Vieira

Muery, elegia em Si maior. É o segundo título de Armando Artur lançado pela Cavalo do Mar, essa editora moçambicana que em pouco tempo muito tem feito pela arte literária. O primeiro foi A reinvenção do ser e a dor da pedra, um dos livros vencedores da última edição do Prémio BCI de Literatura. Com a nova proposta, lançada meio ano depois da anterior, o poeta volta a apresentar-se aos leitores com uma escrita suave, mesmo quando sugere enunciados pesados, a relacionar a existência fundamentalmente captada pela visão e o prazer de exprimir realidades dos objectos “inspiradores”. Neste processo, é constante a activação da memória, sempre a memória, como se a poesia fosse dita num ímpeto, de cor, num acto de combate ao olvido. Com isso, consolida-se essa aparente sugestão dos sujeitos poéticos de nos fazer senti-los exprimir-se num exercício causado por imensas contemplações virtuais, alimentadas por propósitos provavelmente pré-definidos.

Muery é um termo echuwabo e quer dizer lua. O sentido esclarecido no texto menos conseguido deste livro (p. 33) é apropriado para estar no título, afinal a poesia de Armando Artur, desta vez, situa-se entre o encanto da luz e as sombras causadas pela iluminação, o que metaforicamente pode significar um misto de emoções, alegria e melancolia causada pela perda irreversível da Muery cantada nos poemas. Quanto à elegia, esse estilo derivado da poesia épica, aqui aparece para fazer jus aos seus conhecidos sentidos: gnómico (sugeridos pelos gregos), amoroso (introduzidos pelos romanos), lamurioso, taciturno e funéreo. É como nos diz Francisco Freire de Carvalho em Lições elementares de poética nacional (Moisés, 1974: 169), “o assunto próprio da elegia são os sentimentos, especialmente dolorosos, que podem dizer-se naturais e comuns a todos entes mortais, quais, por exemplo, os despertados pela ausência, por um amor mal correspondido, pela perda da pátria, ou de quaisquer outros enlaces do coração”.

De facto, a dor manifesta em Si maior – paradoxalmente ou não, essa escala musical que permite o artista fazer-se ouvir num tom álacre – atribui ao novo título de Armando Artur um tom lastimável, sem que isso torne a obra piegas. A obsessão pela transformação da dor (já agora, atinentes aos “enlaces do coração”) em algo utilitário do ponto de vista motivacional, num contacto sempre a perder-se entre os sujeitos poéticos e as Muery, logo se nota, musas com muitos rostos, torna o livro repleto do que o poeta acredita: a escrita como catarse, mas também como liberdade, esse acto de nos juntarmos às aves: “E tu sabes que ser livre é viver na matéria, dela fazendo parte integrante, mas também é ter o poder de levantar voo, quando o livre arbítrio assim o exige” (p. 37).

Os sujeitos poéticos de Armando Artur definem o ser em função do que lhes motiva exprimir-se e em função do resultado disso. Assim, a poesia apresenta-se como mecanismo de íntimas redescobertas, purificação e partilha de determinados estados emocionais.

Em Muery, uma elegia em Si maior, igualmente, paira uma constante divinização da subentendida destinatária da mensagem dos sujeitos de enunciação, como é característico em Adelino Timóteo, com essa aposta de se fazer da imagem um recurso ao serviço do poema ou o inverso. Seja como for, nos curtos textos do livro (alguns a terminarem bruscamente, por exemplo, p. 17 e 18; com mais períodos, melhor é o efeito) Armando Artur atravessa as particularidades da lírica para se reapropriar do que lhe é tão caro: o amor, a doação que justifica esta partilha.

Título: Muery, uma elegia em Si maior

Autor: Armando Artur

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 12

 

 

 

 

 

Resumo

Nesta comunicação procuro estabelecer nexos entre o conceito de ontologia e a a acção do juiz. Partindo do pressuposto de que o conceito de ontologia faz referência a coisas que nos fazem seres comuns, problematizo a acção do juiz, vis a vis a acção dos cidadãos que somos numa mesma República. Concluo que tanto o juiz quão qualquer outro cidadão temos uma mesma luta: enveredar, ou pelo menos advogar por uma atitude que preconiza ter em conta o poder da consciência através da consciência do poder que possuímos como cidadãos que somos, em princípio, probos.

 

Nota prévia

Ocorrem-me cinco axiomas introdutórios.

 O primeiro é que, tal como o clássico sociólogo francês (Durkheim), trato os facto sociais como coisas.

O segundo, e que vem na sequência do primeiro, problematizo tudo. Aqui o Elísio Macamo vai ficar muito contente, tipo tem seguidor acérrimo com todo efes e erres.

Terceiro, sou fã do Stuart Hall, um estudioso da teoria da cultura que diz que ser pós moderno significa virar a situação ao contrário, como se de um saco se tratasse, e  começar a ver um a um os objectivos que daí caiem.

Quarto, não me farto de dizer isto, vem de Cardinal Arns que diz mais ou menos o seguinte: Temos que ser subversivos. Ser subversivo significa virar a situação ao contrário e olhar para ela a partir do ponto de vista, da perspectiva daqueles que têm que morrer para que o sistema se mantenha intacto, isto é, continue.

Quinto e último. Já que vocês juízes e magistrados falam muito de positivismo, eu sou fã da teoria crítica: todo esse positivismo, no meu entender deve ser visto com algum relativismo. A razão cartesiana não responde a tudo, tal como o direito (common law ou o continental) não nos dão respostas cabais sobre a nossa situação concreta, daqui a pertinência de Montesquieu, no seu “O Espírito da Lei”. Há muita lei comportamento costumeiro (consuetudinário) que não cabe no direito positivo, tal como Descarte não explica muitas coisas nossas. Voilá!

Julgamento quase teórico

 Agradeço o convite, embora me sinta um intruso entre gente das leis e das barras de tribunais.

Sociólogo que sou é expectável da vossa parte que eu problematize o ponto que me proponho discutir, aliás, característica basilar do mister da sociologia. Por isso, farei uma tentativa de discorrer sobre este assunto que mexe com a nossa sociedade: A ontologia do ser juiz.

Para tal, tentei arranjar nexos entre o conceito de ontologia e as práticas dos juízes, vis a vis a noção de pertença a esta sociedade da qual fazemos parte todos nós. Parto do pressuposto de que temos a mesma valência, entanto que cidadãos moçambicanos, diferentes que sejam as nossas matizes, credos, extractos ou segmentos sociais, ou missões.

 Levanto algumas linhas de reflexão sem contudo fechar a questão, pois, isso é função de consultores, o que não é o meu caso aqui.

Comecemos do princípio.

No dicionário Aurélio, Ontologia é definida como (…) “o ser concebido como tendo uma natureza comum, inerente a todos e a cada um dos seres”.

Resulta óbvio que é uma definição que emana da metafísica. Portanto, feitas as contas, esta definição revela-nos que as pessoas, juízes ou não, têm pontos de intersecção, pontos em comum que, na falta de melhor formulação, chamemos-lhes de razoabilidade. Assim sendo, é esperado que na sua acção, juízes ou não, almejem o desejado equilíbrio que deve resultar da probidade, esta tida como integridade de carácter, honestidade, retidão, honradez, bondade, que tanto juízes como qualquer cidadão, “naturalmente” por eles lutaria, ou deveria lutar, ainda que tais virtudes apresentem-se em forma de utopias reminiscentes.

Quer dizer que estamos a falar da consciência no sentido de interioridade, faculdade de estabelecer julgamentos sobre os actos realizados, uma espécie de “prova dos nove” do nosso senso de responsabilidade para com a nossa acção quotidiana, probidade e consciência de si, portanto, auto consciência, tendo em conta o sentido do justo e da justiça que perseguimos.

 A justiça e o senso do justo não ocorrem sem apelarmos à cultura, aqueles aspectos da sociedade humana que são antes apreendidos do que herdados, quer dizer, socialmente construídos.

 Assim sendo, aludimos à noção de consciência colectiva, esse conjunto de representações, de sentimentos mais ou menos aceites que corroboram no sentido da harmonia e da coesão da nossa sociedade.

E tal como nos assevera Durkheim, em todas as sociedades a anomia (doença de que padecem as sociedades, disfuncionalidades, como por exemplo o crime ou a delinquência no seu todo), fazem parte das mesmas, ainda que sejam a revelação de um desvio patológico. Todavia, a pergunta que se nos interpõe soa bem mais alto: haverá uma utopia militada por um grupo de indivíduos que se constitui como reserva moral, capaz de lutar contra essa distopia, a imoralidade, o culto do dinheiro indevido e de outras coisas improbas que corporizam tal desvio patológico?

O dicionário Houaiss acrescenta à definição de ontologia uma dimensão da medicina, ao longo de cuja história defini-a como sendo a doutrina que estuda o ser da doença, como se a enfermidade existisse em conformidade a um tipo bem definido, a uma existência ontológica.

Teremos, deste modo, duas acepções que se engancham num mesmo pilar, isto é, a definição da ontologia entanto que ser das coisas.

 A primeira acepção, define a ontologia como aquilo que trata do ser ele próprio (as coisas que nos são comuns entanto que entes, pessoas, indivíduos, cidadãos).

E, a segunda que provém da medicina e faz referência ao ser das doenças, aponta para qualquer coisa que faz com que a doença se efective e se torne esse ser que reputamos maléfico, já que corporiza uma disfunção.

  1. Qual seria, então, a natureza comum entre os juízes e os não juízes, isto é, quais são (ou seriam) os denominadores comuns entre eles (vocês) e os outros (nós), tão cidadãos da República quanto todos e cada um de nós?
  2. E qual seria, já agora, a génese da doença que faz com que esta ocorra e se enraíze como patológica no corpo do nosso jurado, a ponto de estarmos perante uma crise quase generalizada?
  3. Como não faço ponto sem nó, aqui está: será que a sociedade ela própria padece, tipicamente, de uma disfuncionalidade, anomia patológica que atinge até os que têm por dever dividir o queijo, os juízes?

I-O poder do juiz: a consciência individual

Tenho bem presente a figura do João Ratão. Personagem dum texto inserido no meu livro de leitura creio que da minha segunda classe, João Ratão deveria dividir, em partes iguais, um queijo, que seria partilhado por dois contendores. Portanto, ele era apenas o juiz, o fiel da balança. Vai daí que, para acertar o peso, e abusando do facto de ter a faca e o queijo na mão, João Ratão foi comendo o queijo depositado nos dois pratos da balança, segundo ele, à procura do equilíbrio, tentando almejar a igual e justa medida. Moral da estória: À procura do “justo”, João Ratão acabou comendo o queijo dos dois lados da balança, deixando os legítimos donos sem o seu. Aqui o adágio “ o seu a seu dono”, “a Cristo o que é de Cristo, e a César o que é de César” “des-funcionou”. Quer dizer que, João Ratão enveredou por uma justiça injusta, imiscuindo-se ele próprio, negativamente, na questão.

 João Ratão exerceu o poder não para resolver o problema, como diria o governador do nosso Banco Central (Rogério Zandamela), mas, para se servir, aumentando por isso achas à fogueira e instigando, por isso, a contenda. Usou do poder para abusar da confiança dos que, clamando por justiça, nele fizeram fé.

Infelizmente, esta fábula é a alegoria e a imagem que me ocorre quando penso sobre os nossos juízes. Óbvio, salvas as devidas excepções, querendo com isso dizer que o sistema é bimodal: uns muitos bons, e, uns poucos maus que mancham todo o sistema, qual nódoa entornada no pano branco da justiça.

 Juízes há que, ao tentarem equilibrar, fazer justiça, ficam com o queijo em disputa, quando nem sequer faziam parte da querela, a não ser como simples administradores da justiça, meros fiéis da balança.

Somos postos perante um problema de consciência, uma vez que a doutrina reza que “o juiz decide conforme a sua consciência e em respeito estrito pela Lei.”

E se a consciência do juiz não for proba? E se a consciência do juiz for comprada?

E se o juiz manipular a lei, enrolando-a naquela linguagem latinizada e hermeticamente fechada, a dos habeas corpus e outros quejandos, puxando a brasa à sua sardinha, a das improbidades?

A conclusão é simples: faz-se uma justiça injusta, salvaguarda-se o bandido a troco de dinheiros, sabe lá o diabo porquê, e fica, provavelmente, detido, ou pelo menos prejudicado, o inocente. Ou, mesmo não sendo inocente, a justiça afigura-se-nos uma mão dura e implacável para os chamados pilha galinhas, deixando incólumes os tubarões, ladrões de grande calibre, particularmente os de colarinho branco. Impera, assim, a improbidade, isto é, a corrupção.

Samora falava do combate à corrupção em todas as frentes. Severino Ngoenha fala de “changuismos” como moda estruturante da sociedade actual.

Finalmente, numa espécie de golpe de misericórdia, Tomás Viera Mário assevera-nos que (…) “a corrupção deixa de ser conduta desviante, para se assumir como uma norma do próprio Estado”.

Será esta a sociedade que queremos legar aos nossos netos?

Será isto que queremos, uma sociedade cuja normalidade é uma enfermidade patológica, viral?

O que é que temos que fazer para reverter este statu quo?

II- Consciência colectiva como utopia e fórmula resolvente

Perseguindo aquilo que deve ser feito para a reversão do statu quo penso que a resposta deve ser holística. E já que estamos em ano Eduardo Mondlane, proponho que consideremos que a primeira resposta a este desiderato esteja no título do livro do fundador de Frente de Libertação de Moçambique: Lutar por Moçambique.

Lutar por Moçambique para os juízes significa em rigor a escolha minuciosa e acertada dos candidatos a magistrados. Significa, por outro lado, uma revolução cultural que procure enraizar no ethos dos juízes, e não só, a noção de coisa pública, do servir como missão. Significa, em última instância que ao se escolher a profissão de juiz estejamos bem claros sobre o que é virtude e o que é ser justo. Significa, portanto, que os candidatos a juízes têm que estar bem claros sobre a utopia que rege a Rés Pública, lutando para que a justiça e a probidade que devem caracterizar a nossa acção, em prol da nação, ganhem corpo. Quer dizer, temos que pensar, antes de tudo, na viabilização e normalização do funcionamento das nossas instituições, afinal índices que devem caracterizar o nosso lugar de referência, pertença e de destino, este nosso Moçambique.

Resumindo, ser juiz probo, ontologicamente enraizado, significa que aceitamos assumir essa luta titânica permanente, entre o justo e o injusto, entre o probo e o não probo, sendo que, o justo e o probo têm que vencer. Assim se materializa a noção de cidadania, e de missão, nem sempre fácil, pois, está à espreita um tiro disparado por um sequaz ao serviço do crime organizado, que quase tomou por completo o nosso Estado, e o estado das coisas na nossa Terra Gloriosa.

Juízes ou não, sabemos do poder da nossa consciência para mudarmos as atitudes que obstaculizam o normal funcionamento das nossas instituições, mormente os tribunais?

Temos nós, o sentido, a consciência do poder da nossa acção, no bom e no mau sentido do termo, no cumprimento da nossa missão?

 Estamos preparados para lutar por Moçambique?

Aqui socorro-me de um outro clássico da sociologia, Max Weber. No seu trabalho, “A ética Protestante e o Espirito do Capitalismo”, Weber cita Lutero na sua definição de “vocação”. Alude ao seu étimo alemão, Beruf, ou ao inglês, calling, que nos remetem ao conceito de missão, ainda que esta seja no sentido divinal do termo. Ainda assim, o que pode ser aproveitado é a noção ecuménica e de responsabilidade subjacentes a tal missão.

Para o nosso caso, vamos dizer que é o chamamento, que vai para além do religioso. Aliás, a este, acrescento o sentido samoriano do termo. Recordo para o efeito a exortação que foi dirigida à minha geração, aquando do célebre discurso do oito de Março (1977). Aceitando a missão, viramos soldados, pilotos, professores, diplomatas, agrónomos, mesmo que essa não fosse a nossa primeira opção. Samora disse e bem, contra muitas vontades e convicções: “ jovens, a pátria chama por vós!”

Cá está o chamamento. Mesmo não sendo a primeira opção, uma vez acedido o chamamento da Pátria, ele deve ser concebido de paredes meias com aquilo a que Weber chama de,

 “Valorização do cumprimento do dever no seio das profissões mundanas como o mais excelso conteúdo que a autorrealização moral é capaz de assumir”.

Essa autorrealização moral se torna a “vocação profissional”, uma espécie de chamamento para o cumprimento dos deveres intramundanos que nos são postos como desafios. É pois, o poder da consciência que se junta à noção de consciência sobre nós mesmos.

É isso que se passa entre os nossos juízes?

É isso que se passa entre nós que nos queremos cidadãos que agimos em prol do bem público?

Penso ter criado confusão suficiente para uma discussão franca, sem preconceitos, e, sobretudo, cheia de sentido de cidadania e patriotismo, pois, mais uma vez, a pátria chama por nós!

 

 

 

A luz do Sol, vinda de um céu azul límpido, reluzia. O frio, afoito, exercia o seu domínio sobre a cidade. Era manhã de um domingo de Janeiro. No penúltimo degrau que dava acesso à varanda da igreja, sentado, um homem de cabelo branco fazia anotações num maço de papéis. De vez em quando parava para pedir uma moedinha a quem ali passasse.

No interior da igreja, estão todos de pé. Um senhor rechonchudo, envergando um fato cinzento, de costas para o altar, esbraceja enquanto a boca se abre e fecha ciclicamente.  Encara as pessoas que estão sentadas nos bancos perfilados na nave e os convida a fazer aquele abrir e fechar de boca. O maestro canta, ao ritmo do piano, uma melodia alegre. De repente quatro homens de túnica branca aparecem no presbitério. Um, o mais velho deles, beija o altar e, em seguida, ajusta o micro. Faz o sinal da cruz enquanto fala.

   – A graça de nosso senhor Jesus Cristo, o amor do pai e a comunhão do espírito santo esteja convosco – continua a sua fala, sem perder a eloquência.

    O maestro reassume o protagonismo e canta com todo o seu corpo «Senhor, tende piedade de nós…». Todos continuam de pé. O homem, que há instantes pedinchava no exterior da igreja, entra e senta-se numa das entradas, fechada, que se encontra próxima ao presbitério. Traz óculos escuros a tamparem-lhe os olhos e uma mochila castanha a lhe pesar as costas. Os crentes olham-lhe por alguns instantes, sem deixar de cantar, e depois de alguns segundos se esquecem da sua presença.

    A cantoria acaba, o velho de túnica branca faz uma oração. Depois de dizerem em coro um «amém» todos se sentam. Um jovem dirige-se ao ambão e faz, com solenidade, uma leitura a qual todos respondem com um «graças a Deus» no fim.

    O maestro substituiu o jovem no ambão. Empurrou o micro para o lado, confiando na potência da sua voz. A cantoria começou de novo: «Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo! Filhos de Deus, tributai ao Senhor, tributai-lhe a glória e o poder…». A cantoria não agrada ao pedinte. Lembra-se que tem mais que fazer e levanta-se imediatamente. Vira as costas ao altar e sai da igreja.

    A missa vai já quase ao meio e nada do pedinte.  «Bendito o que vem, em nome do Senhor. Hossana…», canta bem afinado o nosso maestro. O velho de túnica branca abre os braços e faz alguma oração. Todos ficam de joelhos. A igreja fica mergulhada numa paz momentânea. Já sem os óculos, o pedinte entra e senta-se no mesmo lugar onde tinha-se sentado na primeira vez.

    Depois de muitas orações, todos fazem uma fila e o velho de túnica branca distribui a comunhão. O pedinte faz-se à fila. Tem um ar entristecido. «Corpo de cristo», anuncia o velho de túnica branca. O pedinte olha a partícula branca suspensa nas mãos do anunciante como se quisesse confirmar. Responde «amém». Recebe-a nas mãos. Mete-a na boca enquanto se retira da fila. O velho da túnica branca olha-o e meneia a cabeça.

    Estão todos de pé de novo, com excepção do pedinte. O velho de túnica branca anuncia o fim da missa e dá a bênção final:

   -Ide em paz que o Senhor vos acompanhe

   – Graças a Deus– respondem todos em uníssono.

   Minutos depois não se vê vivalma na igreja. As imagens dos apóstolos, as esculturas de Nossa Senhora e Jesus Cristo velam a igreja submersa no abandono.

   –O padre disse-me que viesse ter com o senhor para que me dê a esmola– anuncia o pedinte a um dos acólitos que está na porta da sacristia.

   -É sempre o mesmo. – responde o acólito com um ar sério – A missa rezada às metades, nem? Se continuar assim a esmola será também às metades.

   – Nem brinca, meu senhor! Neste mês as pessoas não dão quase nada, nem parece que receberam a dobrar em Dezembro – confessa o pedinte com um ar triste

   No fundo da sacristia outro acólito prepara os utensílios para a próxima missa. Enche as galhetas de vinho e água. Enquanto abre o saquinho de hóstias, ouve o pedinte a dizer, com risadas:

   – Dá-me duas dessas – referindo-se às hóstias.

– Então? Isto é a padaria? Espera-me lá fora que já te dou a esmola – diz o acólito responsável pela esmola com tom ríspido e semblante enrubescido.      

Entre luas & sonho: Melita Matsinhe e Sónia Sultuane

 

    Melita Matsinhe: o fogo lunar do poema

 

   Melita Matsinhe é natural de Inhambane, historiadora e musicóloga de formação, é pianista e cantora, além de gestora de programas de Artes e Cultura. Ignição dos Sonhos (Fundação Fernando Leite Couto, 2017) é o seu primeiro livro de poemas.

     Sabemos que ignição é um mecanismo de combustão interna que coloca um motor em movimento e a partir desta informação que o título nos veicula observamos a articulação entre a dimensão etérea dos sonhos com a propulsão de um motor, talvez da alma, ou da leveza da inspiração, com a força do corpo e da criatividade.

     Somos levados na leitura do livro neste duplo movimento, a força interna, a lava, a cor vermelha do sangue, e a leveza do ar, do vento, do silêncio, ou a cor branca da lua. Entre tonalidades mais ou menos persistentes de vermelho e branco, decantados em sopro imaterial, a escrita de Melita Matsinhe procura encontrar como que a “pureza” do instante. Vejamos o poema Rosas Brancas:

Sou um jardim de rosas brancas/ na luz prateada que não vês/ recito amizades à flor/ e segredos de amor sem fim.// Cultivo rosas brancas, sem saber/ com sangue ao redor, se amanhã chegará/ desvirtude dos tempos, e dias de dor/ sou um jardim à luz do luar.(75)

       São poemas breves, decantados, como improvisos, que tentam captar momentos e sensações, mas que se regem por movimento, liberdade. Estas duas vertentes o movimento e a liberdade (de sentir, de desejar, de possuir, de criar) fazem do poema momento de tensão, quase diria de suspensão, êxtase, “vértice de som”. É o que lemos no poema Notas básicas para nascimento do poema: “Fechar a porta,/ é indiferente ao mundo,/ com o mundo nos quartos/ incendiados do mundo.// O fogo do amanhecer/sobre a erva/ tijolo a tijolo/ da base ao vértice do som”(28).

    O apuramento da Oferenda da escrita “Beijo a beijo/ te venho buscar/ e te entrego/ às mãos/ nasce o sonho” (74), mostra a ligação terna do corpo, que beijando entrega às mãos  a dádiva da escrita, que é sonho nascente, ou o sonho que se evola das palavras que beijadas se transfiguram em poema: “Partilho palavras/que das mãos me nascem”(16).

   O movimento articula vários estados na escrita de Melita Matsinhe, da materialidade do corpo ao fogo da paixão, deste último à etérea dissolução em vento, sonho, estrela ou música, ou podemos recompor em vice-versa, ou em variações: “Como prender o vento/ o canto eléctrico, Walt?” (21). A química da mutação subtil dos estados é a arte alquímica da poeta. E encontramos também o mar, a onda, a água dos rios, a dança dos elementos que se transmutam, tal como o sentido das palavras em mutação, Coreografia dos Sonhos:

 

Rios verticais sulcando-me o peito/ sob as estrelas/ golpeiam o solo em doloroso destino/ e tu danças/ apagando sinas, decretos, contratos,/ por dentro da gravidade da terra! (20)

 

    O poema Cultivo o Amor diz: “Onde as palavras, em dança livre/ na pluma incurável dos sonhos/ pequeninos seres tornam-se,/ é a letra  um canto sem fim: aí cultivo o amor em cartas lunares.” (52).  Cartas lunares, canções, vértices de som, os poemas de Melita Matsinhe tricotam palavras de várias línguas, poliglotam sons do “coração oculto”. São poemas que sonham ser palavras, palavras que sonham ser sons,  em movimento harmonioso e ígneo. Sophia de Mello Breyner e a poesia de língua castelhana estão nos avessos destes ritmos, que tecidos de lua se encantam em fogo.

      Sónia Sultuane, uma escrita da emoção e do prazer

 

Sónia Sultuane, nasceu em Moçambique (Maputo), em 1971. Artista plástica, Sónia Sultuane tem colaborado noutras práticas artísticas como a instalação, a dança e a fotografia. Como poeta conta com quatro obras publicadas, Sonhos (AEMO; 2001), Imaginar o Poetizado (Ndgira, 2006) e No Colo da Lua (Ed Autora, 2009) e mais recentemente Roda das Encarnações (Fundação Fernando Leite Couto, 2016).

No primeiro livro de poemas de Sónia Sultuane, Sonhos a poeta percorre o espaço que vai de si própria para uma outra em que se procura e desafia, “como queria ser a outra dos meus sonhos” (47), feminino sujeito que se quer intenso e pleno no seu sensitivo imaginário: “Menina ainda tornei­?me mulher/ enfrentei o mundo, e a mim mesma” (15).

Um percurso que corporiza gradualmente os sentimentos e sensualmente os convoca em todas as suas contradições: desejo, ausência, saudade, ilusão, sonho, distância, alegria, dor. Imaginando através das palavras, as formas que têm os sentimentos, de tanto os sentir. Imaginando o amor, vivendo­?o nessas imagens que ele encontra nos muitos espelhos da alma: “Amar­?te é algo sem dimensão ou justificação/ é viver sempre na imaginação/…/estar sempre a sonhar” (28).

No seu mundo amoroso, imaginado pela escrita, a poeta tenta regressar à envolvência da infância “deixem­?me no meu mundo doce e infantil, mas meu” (p. 13), experimentando­?se ludicamente, ao brincar com o seu pensamento da emoção, refazendo­?o pela distância: “vou brincando com o meu pensamento,/ tentando encontrar­?me distante,/ mas presente,/ no que és presente, quando és ausente” (38).

Na sua segunda colectânea de poemas, a autora assume quase uma reivindicação da forma de sentir e do ser amoroso, ao escrever sobre a exaltação do prazer, a força erótica e a assumpção de um erotismo social e secularmente negado à mulher. Nessa perspectiva os poemas de Sónia Sultuane são insinuantemente inconformistas pela sua temática sensorial e seu desnudamento emocional.

O poema Africana amplifica o tema da identidade, uma vez que tende a territorializar o feminino. Além desta primeira identidade, e lembrando com alguma ironia o poema Se me quiseres Conhecer de Noémia de Sousa, a poeta assume a sua africanidade: “dizes que me querias sentir africana/ dizes e pensas que não o sou,/ só porque não uso capulana,/ porque não falo changana,/ porque não uso missiri nem missangas,/ deixa­?me rir…”

Quer este poema desenhar um percurso identitário de abertura às diferenças de género, de raça, de língua e de cultura, num continente e num país, que se caracteriza também pela coexistência harmónica de tal múltipla diversidade:

pelo sangue que me corre nas veias,/ negro, árabe, indiano,/ essa mistura exótica, que me faz filha de um continente em tantos/ onde todos se misturam,/ e que me trazem esta profundidade,/ mais forte que a indumentária, ou a fala,/ e sabes porquê?/ porque visto, falo, respiro, sinto e cheiro a África,/ afinal o que é que tu saberás?O que é que tu sabes? (15)

Interrogativa, reticente, dialogal, esta voz percorre os poemas como o sangue nas veias de um corpo amoroso, palavras que são o próprio sujeito em acto de constituição e de revelação: “As palavras que te dou/ são o que sou, /são o que sinto,/ e como me sinto, /essas são as minhas palavras EU.” (29).

No Colo da Lua, é o terceiro livro de poemas de Sónia Sultuane. Há nestes poemas a procura de harmonia de um corpo que quase voa, elegante na sua aspiração ao sonho e à verdade, à pureza das sensações, à celebração do desejo. O poema que dá título ao livro No colo da Lua, diz­?nos da apetência amorosa de expansão e abertura do sujeito ao mundo, da vontade da poeta falar às estrelas, se aninhar no colo da lua, o mágico planeta da noite que transfigura o sonho em realidade:

Quero olhar o céu/ e contemplar a sua sombra dançando / na cadência do meu coração,/ mergulhar no seu infinito,/ no reflexo do azul esver­deado profundo,/ sentir o cheiro do mundo percorrer­?me as entranhas,/ falar às estrelas prateadas, / sentar­?me no colo da lua amando a imensidão do universo,/ saboreando cachos de uvas pretas adocicadas,/ para poder entregar­?me a todos os sabores exóticos, / cantando e suspirando pela vida. (11)

A experiência sensorial torna­?se quase um acto de levitação graciosa em torno das coisas, qual borboleta, cujas asas ou pétalas acariciam o que tocam, e no que é tocado se sentem acariciadas. O corpo vive dessa dualidade de ser quase imaterial, é dança, música, sopro, flor, pétala, esvoaçante, como se pode ler em vários poemas, como por exemplo, Noiva: “Danço nas sombras do luar prateado,/ visto­?me de sari vermelho bordado com missangas douradas/ trazidas de Bombaim / nas árvores imaginárias de vida/ penduro os meus cabelos que esvoaçam na brisa/ trançados com folha de laranjeira e jasmim (…)” (12).

Há uma celebração assumida do prazer e do desejo físico, da comunhão dos corpos, que a escrita de Sónia Sultuane revela. Em Noites de Prazer, o sujeito poético confessional, escreve que não se arrepende de ter transformado um sentimento como o amor na grandeza do seu ser:

não me arrependo (…) De não ter seguido e queimado as etapas da vida, / mas de ter vivido a vida conforme as etapas/ e o fogo do meu coração,/ de não ter omitido as minhas palavras, / mas ter expressado a linguagem do amor,/ de não ter calado o meu coração, / mas tê­?lo ouvido bater descompassadamente,/ de não mentir à minha consciência, / mas de ter sido leal aos meus princípios (…) De não ter sucumbido à vontade carnal, /mas ter amado com a alquimia dos sentidos,/ de não ter deixado o meu coração / ser uma armadilha,/ mas ser a presa dos meus sentimentos (…) (4).

 

Os imensos espaços vazios em que se jogava à bola e se fazia atletismo a todo o momento, na Cidade de Maputo, foram ocupados por prédios e dumba-nengues. A prioridade era o afã dos negócios aos mais variados níveis, em associação de algumas das direcções dos clubes com as edilidades, nos “business”.

Se nos detivermos no desaparecimento ou mesmo sub-utilização dos recintos dos clubes federados, verificaremos que a razia foi gritante. Nalguns casos, a merecer uma investigacão da PGR!

SINAIS DO SUMIÇO

Recuemos à década 80. Os grandes clubes da cidade de Maputo possuíam pelo menos, 6 campos de futebol, a saber: Ferroviário da baixa e da Machava; Desportivo, Maxaquene, 1.o de Maio e Costa do Sol. Todos tinham iluminação e a sua utilização começava nas primeiras horas do dia, continuando em regra até às 11 horas da noite. Isso ao meio da semana. Sábados e domingos eram destinados aos jogos, abrangendo camadas jovens no período da manhã, seniores à tarde e, não raras vezes, à noite.

Além disso, todo o espaço ao agora reduzido Circuito António Repinga era utilizado por federados e populares, nos inúmeros campos entre os eucaliptos.

A “sangria” foi tremenda. Vejamos:
1. Campo Paulino Santos Gil, do Desportivo, por ter sido vendido num processo pouco claro, está agora cheio de capim. Da promessa de um substituto em Bobole, já não reza a história;
2. O vizinho do Maxaquene, com situação pouco clara, serve mais para espectáculos musicais do que para jogos e treinos. O espaço à frente, onde treinavam as camadas jovens foi ocupado pela sede da Mcel.
3. Recinto do Ferroviário da baixa, só tem iluminação, como que por milagre, em dias de “shows” musicais. É o que dá taco! Idem para a “catedral” da Machava, onde se desenrolaram os maiores feitos desportivos do país;
4. Do espaçoso recinto do Costa do Sol e “Matchiki-tchiki”, apenas sobrou uma ínfima parte, para “canarinho” ver. Nem com a EDM como patrocinador, se joga à noite.
5. Do campo do 1.o de Maio, em ruínas, vai ficar uma história, para um dia ser contada…
Em resumo e sem grande margem para erro, pode dizer-se que, para se treinar e jogar futebol, os tempos e espaços na capital do país terão sido reduzidos para menos de um terço.

DESPORTO AFINAL NÃO É SAÚDE?

Muitas empresas como Maquinag, Metal Box, Caju, Sonefe e outras, possuíam bons campos de futebol, corporizando-se lá, o Campeonato dos Trabalhadores, sem ser necessário recorrer aos recintos das equipas federadas. Estes espaços, tal como os recintos dos clubes suburbanos – Mahafil é uma excepção – não resistiram à voracidade da dita “rentabilizacão”. Prejuízos imensos para a saúde e confraternização da massa laboral que é, afinal, uma das principais razões da existência das empresas.
Havia ainda o futebol dos terrenos baldios – Mafalala e Xipamanine a serem verdadeiras “universidades do pontapé na bola – a que se juntava o campeonato militar.  

A “cereja” no topo do bolo, era a prática regular e constante dos currículos estudantis, da prática desportiva nas escolas.
Correr é saúde? Da prática resta apenas o “slogan”!

OLIMPÁFRICA: POR ONDE ANDAS?

Foi anunciado e inaugurado, com pompa e circunstância, o complexo Olimpáfrica em Boane, que contou com o apoio do Comité Olímpico Internacional. Poucos anos volvidos, ficou o matagal e a história das intenções. Se alguém se beneficiou da iniciativa não foi, seguramente, a juventude moçambicana, tão carente de espaços para correr, jogar e brincar.

Será que um dia ainda haverá um esclarecimento para este empreendimento, que longe de servir, terá manchado a imagem do país junto das entidades internacionais?

Ao se juntarem todas estas realidades, que foram sendo “foto-copiadas' um pouco pelo país, é fácil equacionar a razão principal, os quês e porquês, de Mexer e Zainadine Júnior serem excepções e não uma regra, no mapa de estrelas moçambicanas no futebol doutras latitudes!

Entretanto, de seminário em seminário vamos, paulatinamente, buscando razões que expliquem as descidas nos “rankings” e a distância cada vez maior do nosso desporto, relativamente a um passado glorioso.

 

 

Uma lágrima que desce pelo rosto torturado

 dum oprimido, brilha que mil sóis.

Eduardo Paixão

 

11 telas constituem a exposição Nua e crua, de Suzy Bila, patente no Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), na cidade de Maputo. Mais do que o número de obras, estampadas em telas “gigantes”, a individual da moçambicana residente em Portugal vale por outros factores. Por exemplo, a carga emocional que, por via das cores, está sempre bem preservada.

A pintura de Suzy Bila, nesta colecção com peças produzidas entre 2014 e 2018, é qualquer coisa revestida de efeitos taciturnos, os quais transportam a imaginação a horizontes inquietantes. Quiçá, com interesse de desligar os visitantes da individual dos vários ruídos quotidianos, mesmo quando a pretensão é provocar uma reflexão sobre esses mesmos ruídos, Nua e crua transfigura-se do simplório, afasta-se da previsibilidade real e criativa. Para o efeito, como os gregos na acrópole, a artista coloca-se nua num plano alto, encantado de desencantos estereotipados, expondo-se ao mundo dos homens como quem reza. Nesse vigor está o compromisso da criadora, afinal “discutir” o conhecimento das circunstâncias com a fé de subverter é algo que se incorpora à imagem de um grito espontâneo, proveniente de quem não se cala diante do silêncio voraz, responsável pelas lágrimas femininas e pela opressão nelas sintetizadas. Logo, não admira a mulher ser o centro desta exposição de artes plásticas.

Inserida numa situação recorrentemente metafórica, telas como “Gaiola dourada” (óleo s/ tela, 177 x 214 cm), “Tesouro” (acrílico s/ tela, 140 x 200 cm) e “O caminho é longo” (óleo s/ tela, 140 x 190 cm) fazem da mulher, em Nua e crua, um ser absolutamente consumido pela sua condição maternal, pelo afecto natural proporcionado a quem sai do seu ventre, e, simultaneamente, alvo da dor causada pelos machismos de uma atmosfera ingrata, insensível ou, claro está, obtusa. Diante da orientação temática a que se dedica, torna-se impossível Suzy Bila não expor os seus conflitos interiores, acima de tudo, de quem busca o equilíbrio numa superfície tão oblíqua para as mulheres.

É verdade que Nua e crua é um manifesto ou então transporta algum. Mas, igualmente, é uma combinação de sentidos agradáveis, com analogias simplificadas em telas como “Luz divina” (óleo s/ tela, 177 x 214 cm), “O canhoeiro” (acrílico s/ tela, 200 x 233 cm) e “Do teu ventre renasço eternamente” (óleo s/ tela, 177 x 215 cm). Nestas obras, Suzy cultiva a ousadia de registar o instante, na primeira; a opção de cantar a bênção da protecção perpetuada por gestos, na segunda; e o contraste da essência das coisas, sempre omitindo enunciados, na terceira. Com esta simbiose, telas a dialogarem num todo, a individual aberta ao público até 5 de Maio, apresenta essa particularidade de conduzir o visitante na escolha de um lugar para morar, virtualmente, com o “Poema para a minha mãe” (acrílico s/ tela, 140 x 190 cm), tela com muitos traços pueris.

Portanto, Nua e crua serve para despertar sensibilidades e reorientar caminhos. A virtude da “nudez” de Suzy Bila está mesmo aí, na susceptibilidade de preencher as artes plásticas com alma e humanidade. 

 

Título: Nua e crua

Autora: Suzy Bila

Artes plásticas

Classificação: 14

  

 

 

 

“Há quem tenha medo que o medo acabe”
Mia Couto

O que de substancial se pode aprender dos jovens sudaneses e argelinos que recentemente recorreram a manifestações para dizer basta aos regimes ditatoriais com mais de duas décadas no poder? Ou que as eleições são impotentes para mudar governos em democracias precárias como as de África ou que o grito contra opressão quando se impõe por via de tudo ou nada quase sempre triunfa. Faltavam algumas semanas para eleições de 18 de Abril, quando jovens argelinos decidiram se opor à candidatura de Abdelaziz Bouteflika, antigo general de 82 anos que estava no poder havia 20 anos. Bouteflika, além de já estar velho para acompanhar a vida política do seu país com minúcia, vivia uma saúde frágil que lhe roubou a fala, o movimento dos pés e o afastou da esfera pública nos últimos cinco anos. Ante um homem desta condição orgânica desfavorável para comandar a coisa pública – pois na política, o aparecer e o parecer são de uma importância vital para conquista do eleitorado – o que custava aos argelinos esperarem pelas eleições que já estavam à vista para chumbar definitivamente a tentativa do quinto mandato presidencial de Bouteflika, sem terem de perturbar a ordem? 

A mesma indagação se coloca sobre os eventos políticos no Sudão – onde Omar al-Bashir, para além de estar no poder há 30 anos num país que se diz democrático, enfrenta acusações do TPI sobre crimes de guerra e crimes contra humanidade bem como a grave crise económica cuja responsabilidade recai sobre si. Bashir, à semelhança de Bouteflika, também se apresentava a olho nu como um candidato desfavorável para vencer as presidenciais. Entretanto, os sudaneses não quiseram esperar pelas urnas de voto para formalmente vaiar o presidente. Preferiram a arriscada desordem para pôr fim à governação deste presidente de 75 anos. Mas por que preferiram protestos a eleições para derrubar os seus governos ditatoriais? Simplesmente porque, em Estados ditatoriais, as eleições raramente expressão a vontade popular. São amiúde impotentes, putativas e contraproducentes.  Se um governo consegue ludibriar o seu povo durante quatro, cinco ou seis anos do mandato presidencial, difícil não será defraudar um dia de eleições por meio de compra de votos, de suborno aos agentes eleitorais e, ou, de intimidações à oposição. 

Contudo, não significa que as eleições tenham de ser banidas, ao todo, em países em desenvolvimento com democracias precárias. O que se deve maximizar é a educação dos povos e a politização das esferas públicas.

Quanto mais se elevar a consciência cívica dos cidadãos, mais votos “conscientes” cairão na boca das urnas e mais democrática tornar-se-á uma nação. Enquanto estas condições não forem estabelecidas, a todo custo, somente os protestos podem servir de luz no fundo do túnel. Somente os protestos podem construir um trampolim entre uma minoria ciente da sua opressão e uma maioria vulnerável ao populismo. Às vezes, a maioria ganha consciência da opressão, mas não se consegue mobilizar. Falta-lhe a liderança. Dai que é preciso que uma minoria seja a fonte de emancipação das massas. Perante a impotência das eleições, por razões acima mencionadas, a vontade das massas só ganha expressão em protestos populares.  Desta forma, os protestos apresentam-se como uma alternativa da democracia representativa. Os protestos populares configuram-se como uma democracia directa, pois são os próprios representados a falar diretamente com o governo de maneira civilizada ou rústica sobre os seus anseios, após períodos de esquecimento ou opressão. Assim sendo, o direito ao ajuntamento e manifestação é um dos direitos mais sagrados da democracia. 

Se se quiser avaliar a saúde da democracia de uma nação, basta contabilizar-se o número de protestos ocorridos num determinado período em função das crises existentes. Se as crises quer econômicas, políticas ou sociais persistem, mas as marchas nas ruas da cidade, os confrontos com a polícia são quase inexistentes, então, se está ante uma sociedade cobarde ou apolítica – para não dizer idiota como diria Aristóteles. E nessa nação não se pode falar da democracia.

Benditos sejam os protestos nas democracias como meio de comunicação entre governo e o povo sobre situações sensíveis que não podem passar em branco. O silêncio popular dentro de nações que se arrogam democráticas é a manifestação, por excelência, de um povo envelhecido pela ditadura.

O dito popular de “quem cala, consente” aplica-se perfeitamente na área política. Mas ele tem de ser suplantado com a expressão “quem se importa, não dá costas”, enfrenta, envolve-se, indigna-se, grita… E o grito dos indignados, por última instância, só se torna barulhento, quando dado nas ruas em uníssono. O mesmo grito só se torna insuportável quando a dor que o pari parte do íntimo de cada protestante. Ou seja, os protestantes que queiram se mostrar firmes nas suas exigências têm a obrigação de pessoalizar – não individualizar – os problemas que apoquentam a comunidade, a sociedade, o país, o continente, o mundo no seu todo. Enquanto se protestar com a consciência de que esta injustiça em objecto diz respeito ao outro, o movimento estará fadado ao fracasso. O ânimo facilmente poderá se esvair em cada empecilho que se opuser à marcha. É, portanto, mister a pessoalização dos problemas para que o grito na rua soe natural e sério. Ademais, o problema de outro não passa de um problema nosso, quando partilhamos o mesmo espaço, tempo e espécie. E só nos podemos considerar humanos numa relação ético-moral entre eu e outro. Por essa razão, o direito a protesto em Estados democráticos não só catapulta a maioria, bem como as minorias. A ditadura da maioria sobre as minorias, como tem havido em Estados democráticos, só pode ser minimizada ou contida com a garantia de protestos para todos. 

O cúmulo da liberdade de expressão dentro de uma nação traduz-se em respeito e atenção dados aos protestos. Mas dar respeito e atenção aos protestantes não significa logo ceder às suas reivindicações ou objeções, mas em primeiro lugar, permitir a criação de um espaço de diálogo em busca de uma solução necessária – e não uma solução de contenção. Julgo solução necessária aquela que responde à causa do problema e uma solução de contenção uma resposta ao efeito. Os protestos devem ser vistos não como uma queixa, mas como uma negociação, sobretudo, lógico-racional em que as duas partes em confronto se propõem a chegar à solução final, livre de emoções, ainda que num clima inquietante. A abertura a negociações não pode implicar na interrumpção dos protestos. Eles devem continuar, como forma de tornar o acordo urgente. Ademais, quando se quer governar, é preciso aprender-se a pensar sob a pressão, como um marinheiro que se sente obrigado a controlar o barco no meio da tempestade marítima.

Na política, não devem ser permitidos ensaios. Ou sabe governar ou cede o poder ao outro. Na política, todo o erro só é humano quando passível de correção. E os protestos não são o perdão, mas uma pressão para uma correção, com todos os riscos de os manifestantes dividirem uma cela com marginais e vítimas do sistema, ou acabarem deficientes devido a repressões abomináveis das forças de segurança, ou ainda acabarem hospitalizados ou mortos. Mas, seja como for, essas fatalidades não deviam servir de intimidações àqueles que são contra opressão e injustiça, porque os acidentes acontecem e são inexoráveis. Se não nos ocorrem numa marcha contra uma injustiça, podem nos ocorrer numa esquina de cerveja, num quarto com amante, ou num trabalho desgastante ou mesmo estando em casa sem fazer nada.

Para dizer que os acidentes acontecem, mas são de pouca monta perante causas que nos levam às ruas e nos tornam mais humanos.  
 
Hélder Augusto
O inconvencional
tsembah@gmail.com

 

Tão, somente, estamos diante de um escritor/poeta que, pese embora, a sua juventude, demonstra, já, afã de, como um alpinista decidido das letras, alcançar os píncaros do monte literatura. Esta é a sua segunda fase de escalamento, cuja secção é: NA PUBERDADE DO POEMA que, sendo o título da obra, o poema que o inspira fecha o transe poético do autor, em vista outros e mais transes. Nesta escala, Bwana Yesu, vai ganhando, mais do que mera visibilidade de quem se expõe, vai ganhando admiração pelo reconhecimento, sem rodeios, de que, ainda está na fase púbere da sua poesia. Uma espécie de autoflagelação. Mas é exagerada modéstia, apresentar a sua poesia estacionada no, mesmo que passageiro estágio de puberdade. É debutante nesta arte, mas pela força que imprime ao seu trabalho, a ela inerente, desde a génese da sua frequência no parnaso, já lêramos, em 2015, REINVENTAR MOÇAMBIQUE, é alguém em quem se pode e deve-se esperar mais e mais ao mesmo tempo que se investe na lapidação efectiva deste poeta nascente.

Nesta obra depara-se-nos, na Parte I, uma lírica que vai, de emoção em emoção, expondo os seus mais íntimos sentimentos, sobretudo quando o pano de fundo é Maria que tanto pode ser sua mãe, sua amada ou outras mulheres, comungando a mesma graça, são, de forma tripartida, susceptíveis de serem alvos das setas do cupido que repousam na bolsa que ele traz a tiracolo junto ao seu arco. No poema «Vozes Histéricas», o sujeito poético expressa a desconstrução da fabulosa deificação do ser humano dizendo: “Emancipamos erectos/A loucura dos deuses que somos/Tu e eu/Quando nos punimos pecando” ou em «Inverno de Minha AlmaIII» quando, a sua ausência significa o sofrimento de Maria ou seja, a desfolhada outonal de espera de floração noutra estação: “Quando já é outono na tua tarde, Maria/A minha presença nega-se a aparecer/ e tu, amada, vais acumulando uns frios para sofrer”; ou, ainda, no poema «Conquistar-te» quando o sujeito poético se divide, pelas Marias que ama: “Assim,/Vou-me tornando poeta/para cobrar-te, Maria/Este beijo, abraço, carinho e amor”. Quando a Maria vive no corpo da sua mãe, por exemplo, no poema «Hino à minha Maria»: “Juro, Maria, minha mãe/Juro, minha mãe, minha amada/Que minhas mãos, que não te entendem,/Clamam por tocar-te, sublimando/Todas as horas que te fazes deusa do meu império/(…)/Maria, mãe amada/Que vives a mesma vida todo o dia/Vende-me tua velhice, tua pele caída/A preço de outras vidas do amor”.

A Parte I deste livro «Não Vou ao Poema sem ti», é uma multiplicidade de fórmulas que Bwana Yesu emprestou ao sujeito poético para expressar os contornos líricos da sua alma que se redobra numa dança imagética que pintalga o amor com as cores que lhe são intrínsecas, porventura, seriam as do arco-íris que transportam no seu perfil a afabilidade, o fim de todos os breus e anunciam o brilho do novo e brilhante dia, musicado por milhentas aves canoras do mundo!  

Na Parte II do livro (Sociamada), Bwana Yesu vai para além do amor platónico, aquele em que o cupido se esfalfa buscando guarida para os seus mais íntimos desejos de satisfação, para a sua Paixão ou, simplesmente, transcende esse sentimento para atingir o social que, pela sua natureza, não se nega a socializar o amor.

É impressionante a analogia que sugere o poema «A Cópula», em que o autor dá ao sujeito poético o ensejo de, ao fazer que o acto copulativo entre duas pessoas seja transladado da fricção corporal, para o acto da escrita, pois, há identidade dos momentos que depois produzem o clímax, o clímax como resultado da cópula entre dois amantes e o clímax como resultado da cópula da escrita.

Aos moçambicanos que sonham, no poema «Sociedade», diz que “A vida deve recomeçar” e depois questiona “E nós… Renascer?”, perante a visão geral dos “Dedos que se roçam vazios/Bocas famintas, sem beijos/A chuva que cai já não molha/O medo da morte foi-se/Já não escrevemos nem sonhamos/Os horizontes tristonhos desvanecem; ou em «Complexidade»: “Falta-nos luz/Vamos apalpando,/Apalpando… até tocarmos os objectos/Faltando verdade/Vamos mentindo/Mentindo… até perdermos os objectos”; ou em «Poema urbano», em que os “mendigos que fabricamos”, são painéis vivos, ambulantes que nos apresentam na sua exposição pública “Num beco da cidade”, poemas “Num rosto chorando,/Numa margem de nervos”, poema “Num estômago vazio/De dono a partir/Para um sonho em neblina”; ou “O poema, sim,/De versos desgraçados/Da vida moribunda que vive/Das horas tristes que merecemos”.

Sente-se, no vibrar da verve de Bwana Yesu, o canto lírico e subjectivo, intimista se se quiser, que envolve o quotidiano de um sentimento, mas, também, a extensão cósmica desse sentimento, abrangendo, dessa forma, tudo o que completa as vivências de uma sociedade imbuída de si mesma e de tudo o que constitui o seu meio existencial.

 

 

 

 

 

Depois do adiamento do início do recenseamento eleitoral a 01 de Abril de 2019 – para as eleições de 15 de Outubro do presente ano, que visam a eleição do Presidente da República, deputados da Assembleia da República, governador provincial e os deputados das assembleias provinciais – devido aos efeitos combinados do ciclone Idai, chuvas e inundações que fustigaram as províncias do centro do país, o processo arrancou a 15 de Abril e, de um modo geral, reporta-se fraca afluência aos postos de recenseamento e, diga-se, muita ociosidade por parte dos brigadistas.

Para além dos trabalhos de mobilização levados a cabo pelo Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE), muito pouco se tem feito, quer pelos partidos políticos, principais interessados no processo, porque participantes e disputam o poder, quer pela sociedade civil, que muitas vezes questiona a legitimidade dos eleitos, porque persiste a abstenção, pese embora esta última aconteça depois do processo de recenseamento. A aparente indiferença das forças vivas da sociedade pode sugerir um processo de pouco interesse, o que não é verdade.

Depois do processo de recenseamento, apura-se o número dos eleitores, o que determina o número de mandatos por círculo eleitoral e a partir daí começam os debates sobre prováveis “exclusões” de eleitores, porque se trata de base de apoio deste ou daquele outro partido. No entanto, na hora de chamar esses potenciais eleitores para cumprirem o dever cívico de se recensear, ninguém aparece a fazer o trabalho, resultando daqui fraca mobilização e falta de interesse pelos passos subsequentes, ou seja, os partidos políticos têm a oportunidade de mobilizar a sociedade para participar no recenseamento eleitoral e não o faz, fará acusações no futuro de algo em que não participou de forma voluntária.

É hora de mudarmos esta forma de ser e de estar nas organizações políticas. Não podemos viver à espera de criticar aquilo que não é feito, quando nós próprios temos a oportunidade soberana de participar e não o fazemos, incluindo as organizações da sociedade civil. Nos processos subsequentes, iremos organizar debates sobre o que não foi feito e lançar acusações a este ou aquele outro. No entanto, prevenir, para evitar que tais acusações tenham lugar, nada! Confesso que, como cidadão deste país, estou preocupado com o grau de participação dos eleitores nos postos de recenseamento. Algo deve ser feito para a reversão da situação, antes que seja tarde.

É certo que os deputados da Assembleia da República estão em actividade intensa, com a legislação que operacionaliza a descentralização, sendo que, grosso modo, o governo está ocupado com a problemática das cheias e inundações referidas acima, combinadas com o devastador ciclone Idai – é preciso dar resposta aos problemas causados por esta calamidade. Contudo, a vida deve acontecer de forma multidimensional, todos os sectores da sociedade devem reagir ao momento actual, sem excepção, sob pena de reagir fora do tempo, com os problemas que isso acarreta.

As atenções de personalidades como Sibindy estão viradas a convencer a Renamo a aceitar liderar a oposição e concorrer com um único candidato. Isso por si não é mau, no entanto, vira “piada” quando este debate ocorre nas redes sociais e não em sede das próprias organizações. O esforço que se despende nesses debates, se fosse na mobilização de eleitores para se registarem, teria outro e melhor impacto. Os restantes partidos de oposição não parlamentar não se sabe da sua agenda política, no entanto, quando as inscrições iniciarem para concorrerem, aparecerão como cogumelos em tempo de chuva. E porque ninguém lhes conhece a agenda, irão perder de forma copiosa e irão acusar o governo ou o partido no poder pela sua derrota.

Caros compatriotas, é hora de se trabalhar na mobilização dos potenciais eleitores com vista a participarem no processo, de forma a termos o maior número possível de eleitores inscritos; é hora de fazer um trabalho cívico nas bases para que, chegada a hora de pedir o voto, se faça na certeza de que aquelas pessoas que afluem aos comícios ou que acompanham caravanas de diferentes partidos ou organizações da sociedade são de facto eleitores. Não há, na minha perspectiva, o melhor momento de aparição pública que este, quando as coisas estão no início.

Por isso, exorto todos os cidadãos eleitores ou que completam 18 anos a 15 de Outubro de 2019 a registarem-se como eleitores, de forma a escolherem os seus dirigentes e representantes centrais e da província; exorto igualmente os partidos políticos, com assento parlamentar ou não, a que despendam esforço na mobilização de eleitores para se recensearem. O tempo é agora, é já!

 

Em 12 de abril de 2019, a Chevron anunciou ao mundo a aquisição da empresa de óleo e gás, Anadarko Petroleum, sediada em Houston, por incríveis 33 biliões de dólares.

Este acordo é considerado uma das maiores fusões no sector energético nos últimos anos e representa um marco importante na já necessária transformação de uns principais actores da indústria. Após a conclusão da transação, a Chevron tornar-se-á a segunda maior petrolífera internacional do mundo do ponto de vista produtivo.

O negócio, consumado em cash e ações, levou a Anadarko a valer US$65 por ação, um importante acréscimo de 37% em relação ao preço de fecho registado quinta-feira, no valor de US$46.80. O acordo garante à Chevron uma vantagem competitiva no mercado, e os seus activos recém-adquiridos tornarão a empresa uma concorrente de primeira linha frente às rivais como a Shell, a BP e especialmente a Exxon Mobil, que também possui activos importantes em Moçambique.

Para os que seguem esse mercado, particularmente no que diz respeito ao desenvolvimento dos activos da Anadarko em Moçambique, há já alguns anos que existem rumores sobre uma suposta compra, e a Exxon Mobil era unanimemente apontada como a potencial compradora. Contudo, a disputa foi travada entre a Chevron e a mini-major Occidental Petroleum.

Em dezembro de 2017, a Exxon adquiriu uma participação de 25% na Área 4 de Moçambique (ENI East Africa) e, desde esse momento, tem agitado o mercado com os seus esforços focados no desenvolvimento desse activo. A Exxon tem assumido uma postura agressiva a fim de garantir ainda mais concessões no país, tornando a sua presença cada vez mais notória.

O papel de Moçambique
Ainda que o grande foco por trás desta aquisição seja a corrida para dominar a Bacia do Permiano (a maior área de xisto na América, responsável pela explosão na produção petrolífera EUA), onde a Anadarko produz cerca de 4 biliões de BOE, Moçambique oferece à Chevron uma nova e bastante significativa expansão offshore e no setor dos GNL.

A Área 1 dos GNL de Moçambique, liderada pela Anadarko, deverá tornar-se uma das maiores exportadoras de GNL do mundo, tirando partido das enormes reservas de gás natural, localizadas nas jazidas offshore mais próximas.

A Chevron tem uma vasta experiência no que diz respeito ao desenvolvimento de operações de GNL. O seu historial inclui os enormes projetos Australianos Gorgon e Wheatstone, detendo também acções na Angola LNG (uma unidade de produção em Soyo, Angola com uma capacidade de produção de 5.2 milhões de toneladas por ano).

Os 33 biliões de dólares investidos na aquisição são um valor significativo, mas nem por isso se aproximam do impacto dos 130 biliões de receita que o projecto da Bacia do Rovuma da Anadarko gerará ao longo da sua vida útil, de acordo com Adriano Maleiane, Ministro das Finanças de Moçambique.

Apesar de a Anadarko ter feito um excelente trabalho no desenvolvimento do seu projecto moçambicano, trata-se ainda assim de um projecto de 20 biliões de dólares. O qual, de acordo com o Standard Bank Group, representará o maior investimento singular na história do continente africano. As dúvidas sobre a capacidade da Anadarko de levar o projeto avante sempre foram levantadas, o que justifica a especulação nos últimos anos em torno de uma eventual aquisição. Por outro lado, a Chevron possui o conhecimento, a experiência em GNL e a capacidade financeira para consumar o projecto. Além disso, não será a primeira vez que enfrentam questões como a situação de “rebel insurgency” que tem vindo a desenvolver-se no norte de Moçambique.

Sendo um dos maiores produtores da Nigéria, onde há várias décadas militantes têm praticado actos de sabotagem, sequestros e roubo de petróleo, não só a Chevron está preparada para enfrentar a questão, como também ajudará o país e o mercado a evoluírem em vários aspectos, entre eles a segurança.

Na minha opinião, trata-se de um negócio positivo para Moçambique, tendo em consideração que a Chevron é um importante actor petrolífero no contexto internacional, dotado de experiência e capital. Segundo os relatórios iniciais, está segura da sua intenção de fazer cumprir o calendário de desenvolvimentos propostos pela Anadarko. Com base nos recentes desenvolvimentos, acredito que as notícias sobre uma decisão final de investimento serão anunciadas brevemente.

O provérbio árabe que faz título deste artigo encaixa-se perfeitamente no que está a acontecer na Circular de Maputo. Em Setembro do ano passado escrevi um artigo a falar da impertinência de uma gigantesca obra de armazéns ao longo da Circular de Maputo, mas parece que os argumentos apresentados não convenceram quem de direito para impedir que a mesma continuasse.

Na recente visita de Estado ao Reino de Eswatini, o Presidente da República, Filipe Nyusi foi confrontado pela Confederação das Associações Económicas, CTA, da intenção de construir em associação com os empresários maswati um porto seco na mesma zona onde estão a ser construídos os mega armazéns.

Ficamos a saber que a pretensão da CTA foi inspirada mesmo nos armazéns da Agility que estão a ser construídos na Circular. Filipe Nyusi disse naltura que era a primeira vez que ouvia falar no tal projecto e de imediato questionou porquê daquele local, colocando as seguintes questões que passo a citar:

“Eu estou a ouvir pela primeira vez o vosso projecto e a vossa ideia. E podíamos discutir tecnicamente muitos aspectos, não sei se a localização é certa ou não, qual é o trâfego que nós ansiamos levar, para Chiango, vai para onde esse tráfego, vem donde, se é preciso fazer ramal e porquê Chiango e não Marracuene, Beluluane e não Bobole onde se pensa também fazer zona franca, etc, uma série de coisas”.

Quando ouvi estes questionamentos do Presidente fiquei com a sensação de que talvez tivesse lido o meu texto anterior, porque é o mesmo tipo de questionamento que antes colocara em relação ao projecto da Agility que não se difere muito de um Porto Seco.

A Circular em quase toda a sua extensão passa no meio de bairros, ou em áreas que deviam ser urbanizadas e torná-las zonas habitacionais, de turismo ou centro financeiros e colocar mesmo na sua zona nobre mega armazéns desvaloriza-se completamente a região.

Para além de que se coloca um movimento de camiões pesados no meio de bairros residenciais. Não sei por onde passarão os camiões que irão aos armazéns da Agility sem criar o mesmo caos e luto que criam os camiões que passam pela EN4 para o Porto de Maputo.

Não tenho dúvidas de que iremos questionar a decisão de se implantar mega armazéns naquele local no dia que os camiões começarem a criar acidentes ao longo daquela estrada. Tal como o Chefe de Estado questiono qual vai ser o tráfego que os camiões irão seguir? Vão seguir pela Grande Maputo passando pelos bairros Albazine, Mahlazine, Zimpeto, Cumbeza até EN1? Ou seguindo por Muhalazi, Matola Gare, Matlemele, etc? Ou seguirão a Circular entrando pela Marginal, depois 25 de Setembro até ao Porto de Maputo? Será que quem decidiu isso sabia que os bairros acima citados são dos mais habitados na periferia de Maputo?

Também partilho da ideia do Chefe de Estado de que Bobole, Bolaze, Matalane ao norte de Marracuene o projecto da Agility poderia estar muito bem localizado porque aqueles locais estão a se transformar em novo Parque Industrial da Província de Maputo e é para onde projectos daquela dimensão deviam ser encaminhados. Enquanto que no local onde está a ser erguido funcionariam projectos habitacionais, de escritórios, de turismo e lazer entre outros.

E mais, não sei se a Circular de Maputo foi concebida para receber tráfego de camiões de carga. Em toda a sua extensão não vejo báscula para pesar a carga transportada pelos camiões.

Senhor Presidente da República, o Porto Seco proposto pela CTA e que o questionou em Eswatini apenas seria o segundo projecto a ser erguido na mesma zona, porque o outro que é quase mesma coisa já está a ganhar forma na Circular de Maputo.

Será que alguém está disponível para pôr ordem na Circular de Maputo, por favor?

Que Deus abençoe Moçambique!

 

Se eu tivesse sido indigitado para fazer o comentário das partidas Moçambique-Malawi, em femininos, apenas escreveria: “Não há crónica dos jogos, porque não houve jogos”.
O que aconteceu, eu não poderia reportar como jogos de futebol, pois foram apenas – sobretudo do nosso lado – uns “chuta-chutas” sem nexo nem convicção. Tentar “impingir” aos leitores aquilo que se passou como sendo desporto-rei, não seria honesto da minha parte.

CONTRA-MÃO COM A EMANCIPAÇÃO
Em cima dos festejos da OMM, enquanto muitas moçambicanas se aperaltavam com lindas capulanas, o nosso futebol feminino brindava-nos com dois resultados negativos: 0-3 no Zimpeto, após um 0-11 no Malawi. Se as vitórias preparam-se e organizam-se, neste caso o que terá sido organizado?
E tudo dói mais pela diferença que apresenta em África, este mesmo país que, no voleibol de praia e basquetebol, por exemplo, conquista títulos que nada têm a ver com o “coitadismo” de que vimos falando!

É incompreensível, pois sabemos que há um esforço enorme da FIFA e da CAF em promover o futebol feminino pelo mundo. Moçambique recebe uma verba para a promoção da modalidade, cujo destino se limita a uma mini-movimentação anual que não ultrapassa os dois meses. De provinciais e distritais, não reza a história!
Em paralelo, com viagens à mistura, realiza-se uma prova que a Liga Desportiva Feminina leva a cabo e que não é reconhecida pela FMF. Esbanjam-se valores, zangam-se as comadres e…dá nisto!

De seguida, a inevitável pergunta: o que se segue? A resposta será a habitual:
“Há que levantar a cabeça e continuar (ou começar?) a trabalhar, até novas oportunidades, porque talento não nos falta”.

VERGONHA QUE NÃO DEVE MORRER SOLTEIRA
O que aconteceu nestas “brincadeirinhas”, foi a ridicularização de um jogo universal e do que se faz no nosso país. Temos dois campeonatos nacionais femininos, há sempre gente pronta a sentar-se nos camarotes ao lado das estruturas, na inauguração e encerramento, com pompa e circunstância.

Mas depois não nos explicam os “quês” e “porquês” de nos apresentarmos diante de um adversário que deveria estar ao nosso nível, com meninas claramente sem os fundamentos básicos para nos representarem. Se quando ganhamos, exalta-se o talento e o orgulho patriótico, exigindo-se prémios, ao suceder o contrário, com aberrações destas, não há espaço para responsabilização?

 

 

No Domingo vamos completar exactos 30 dias desde que o ciclone Idai passou pela Zona Centro do País, deixando um rasto de devastação de que Moçambique não tem memória. A tempestade viria a ser agravada com cheias que batem todos os recordes e agravaram ainda mais o nível de destruição e luto na província de Sofala.

À medida que o tempo passa e reduz o volume de notícias sobre as consequências destes fenómenos na vida de quase dois milhões de pessoas que foram afectadas, vai parecendo, no imaginário das sociedades que não foram afectadas, que a situação está controlada e que o momento crítico já passou. Essa ideia, que é natural, poderá nos levar a uma crise humanitária prolongada e com consequências nefastas para muitos dos nossos concidadãos.

No terreno, a situação continua a ser de emergência, ainda há muitas comunidades que estão isoladas, que nem de bicicleta ou motorizada é possível chegar até elas porque as vias de acesso estão intransitáveis. Ou porque ainda há água, ou porque caíram enormes árvores que bloquearam as vias ou estão demasiadamente danificadas que precisam de reparações. E porque as telecomunicações também ainda não estão restabelecidas, essas comunidades só podem ser identificadas através de contagens aéreas. Por isso, quase 30 dias depois ainda encontram-se comunidades que desde a tempestade não receberam qualquer tipo de ajuda ou assistência.

E por mais que tenham recebido qualquer tipo de apoio, as ajudas só podem chegar por via de helicópteros que não têm capacidade para levar muita quantidade de mantimentos, as povoações albergam muita gente e são numerosas e os meios aéreos para essas operações não são tantos assim.

Para evitar que a crise humanitária não se prolongue nas zonas rurais, o Governo precisa com carácter de urgência ter uma liderança política muito forte ao nível dos distritos severamente afectados para que possa acelerar o mapeamento de todas as povoações que precisam de ser assistidas, a quantidade de produtos necessários para as manter sem fome até elas puderem produzir nas suas machambas. Garantir a assistência médica, o acesso à água tratada e um dos aspectos mais importantes, distribuir sementes.

Há que ter em conta que as províncias de Sofala e Manica, que foram as que mais foram afectadas, têm índices de seroprevalência elevadas, o que significa que há portadores de HIV que estão há quase um mês sem fazer tratamento e a alimentarem-se inadequadamente, daí que mais do que duas brigadas médicas, que actualmente conseguem voar para povoados isolados, devia se aumentar o número.

Para evitar o prolongamento da crise humanitária, nas zonas rurais, é ainda crucial a distribuição de sementes de ciclo curto, porque assim as comunidades podem aproveitar a segunda época e produzirem a sua própria comida, o que equivale dizer que até Julho ou Agosto eles já podem fazer colheitas e passarem a ter o que comer. E a reposição das estradas poderá fazer com que em menos de um ano estas povoações voltem a ter rendimentos e refazem suas vidas.

Estas soluções funcionam para as zonas rurais, mas não são aplicáveis para a cidade da Beira. Aqui, para além das medidas de estímulos às empresas, para que se possam reconstruir vai ser preciso outro tipo de medidas, para reduzir o impacto da devastação na vida das pessoas que vivem na cidade.

É que para já todas as medidas que o Governo tomar e aplicar para reanimar a actividade das empresas, não vai, de forma alguma, evitar que as mesmas façam despedimentos massivos. O tempo que as empresas vão precisar para reconstruirem suas infra-estruturas, encomendar, importar e montar ou reparar a maquinaria danificada não pode manter trabalhadores ociosos. Até porque para se tornarem viáveis e recuperarem rapidamente precisam reduzir custos e pode passar por reduzir trabalhadores.

Pelo que, nos próximos meses, quem perdeu casa e maior parte dos seus bens, pode perder emprego e há que encontrar formas de minimizar o drama dessas pessoas que não serão poucas. Daí que, se calhar, uma das soluções podem ser encontradas no Instituto Nacional de Segurança Social. O Governo pode criar, de forma extraordinária, um subsídio de desemprego para aquelas pessoas que as empresas terão que despedir por conta da reestruturação para fazer face aos estragos causados pelo ciclone e cheias. Os beneficiários só devem ser pessoas despedidas, depois de 14 de Março, e que não tenha sido por motivos disciplinares e cessa no momento em que são readmitidas nas suas empresas ou outras.

A atribuição desse subsídio podia ser em estreita colaboração com as empresas e pode até ser 50% do que o trabalhador recebia antes do desastre. Entendo que sem este tipo de apoio aos trabalhadores a situação dos beirenses poderá ser dramática por muito mais tempo. E querer forçar as empresas a não diminuir pessoal por serem beneficiárias de incentivos pode vir a ser pior, porque não vão conseguir.

Portanto, de todas as formas, a sociedade moçambicana deve manter-se vigilante em relação à situação dos nossos concidadãos afectados pelo ciclone e pelas cheias porque vão precisar por mais tempo, do que podemos imaginar, da nossa ajuda e amparo.

Ao Governo Central, apelaria a não se dar por feliz com informações dadas pelos Governos locais porque muitas vezes escondem a realidade para dar a entender que estão a fazer um bom trabalho, cada informação tem de ser verificada no terreno porque a vaidade de um dirigente pode significar sofrimento de milhares de pessoas, quando até há condições de aliviar tal sofrimento, bastando o relato fiel do que está a acontecer no terreno. Este não é o momento de números bonitos, nem de vaidade de quem governa, é tempo de salvar pessoas e garantir que tenham dignidade e recuperem as suas vidas. É de pessoas que estamos a falar e não números.

Que Deus abençoe Moçambique!

 

De Marcos Matonse

Não raro sou confrontado com sortes agradáveis, ultimamente e confundo-me! Será pela idade que célere vai ganhando altura na escala do tempo? Será pelas experiências acumuladas ao longo do tempo em que exerço a actividade literária, nas suas mais variadas nuanças? Será pela facilidade com que disponho a minha amizade por aqueles que me rodeiam? Por todas estas razões, por uma delas ou por outras que hoje, agora e aqui não consigo expressar, há-de ser!

Sinto-me bastante lisonjeado por poder apresentar esta obra, a primeira de um autor que há bem pouco tempo tive o privilégio de conhecer pessoalmente. Comecei a ler as suas produções poéticas iniciáticas quando coordenava a página cultural “Ler e Escrever” do jornal Domingo, entre 1991 e 1993. Não mais tive notícias suas, nem acesso àquilo que escrevia. Eis que, volvidos 13 anos, entre 2006 e 2013, volto a lê-lo, desta feita em ensaios literários, no jornal O PAÍS. Num rasgo de sorte, sou convidado, em 2015, pela “XIPALAPALA”, Associação de Jovens Escritores do Bairro de Hulene, para testemunhar o lançamento, na Universidade A Politécnica, da antologia: “SONHOS, CAMINHOS E LUTAS”. Em que me reencontro com a escrita de Matos Matosse. Foi um reencontro feliz, pois desta feita incluía a obra e o autor. Dois anos depois, neste ano em que decide a sua primeira obra poética individual, “A SOMBRA DOS SONHOS”, convida-me para o apresentar, publicamente.

Pois, este livro de Matos Matosse é uma obra criteriosamente estruturada em nove espartilhos ou andamentos poéticos, produzidos entre 1986 e 2009. É editado pela Tipografia e Editora Prelo Clássico, na Colecção XIKALAVITU, do grupo cultural MULIJU, do Bairro do Hulene, onde se encontra sedeada a Associação XIPALAPALA. Abre-lhe à estampa um interessante pórtico da autoria de Alex Barga que, para além da sua intrincada génese, explica os seus conteúdos; o Prefácio do nosso confrade, o escritor, Bento Baloi, que nos situa sobre a obra em nossas mãos, atribuindo-lhe lugar e tempo do seu surgimento no universo literário contemporâneo, pois, segundo este prefaciador, «A obra remete-nos a tempos, lugares e emoções da década de 80 aos dias correntes; do Ferroviário; do poeta de intervenção social ao lirismo nostálgico.».

Eis os grandes grupos temáticos, através dos quais, Matos Matosse estruturou a sua obra: Lirhandzu (Amor) – 19 poemas; Sonhos e Esperanças – 16 poemas; Metafísica – 7 poemas; Mahlomulu (Dor ou Sofrimento) – 21 poemas; Duas Odes2 poemas; Transcendências – 15 poemas; Confissões – 3 poemas; Vários episódios – 13 poemas; Parábolas – 2 poemas.
Embora o livro possa parecer uma intrincada mistura de diferentes tipos de temas, separados, encaixam-se, como se peças de um quebra-cabeças, formando uma figura inteira. Estou a pretender deixar clara esta figura, na análise de A SOMBRA DOS SONHOS.

Tema 1 (Lirhandzu)

Em “Lirhandzu” aborda os contornos deste nobre sentimento que diríamos, o primeiro que se nos acomete, logo a partir da nossa existência, ainda na placenta materna, até à nossa existência, inseridos, na família, na comunidade, na nossa sociedade restrita e na sociedade humana de uma forma geral. Esta abordagem manifesta as mais variadas facetas do amor, por exemplo, o amor platónico que, em tempos da antiguidade clássica chegou a levar Platão a sugerir a expulsão dos poetas da Pólis, por exacerbarem paixões lascivas no seio da sociedade, o que era contrário à moral e aos princípios estabelecidos. Diz ele, segundo Wimsatt e Brooks, que:

“… a poesia não é uma técnica racional, não é uma arte que tenha uma natureza definida. Não é uma filosofia, não tem um domínio específico. O poeta não fala de nada em particular, fala do que existe nas outras artes que não domina. Platão é negativo àquilo que fala de poesia como realidade.”

Ora, a visão poética de Platão é extremamente negativa e nisso, ele contrasta com Aristóteles que concebe a poesia ou a literatura em geral, como o espelho do universal ou seja: o texto literário não conta o que aconteceu ou que exista, mas o que é possível acontecer, o verosímil. Parte do particular para falar do possível.
 Os poemas: “Cacilda” (p. 13); “A pureza do teu amor” (p. 18); “Carta de amor para Jinny, meu grande amor” (p. 20); “Saudades (p. 24); “Dor” (p. 27), são uma mostra eloquente desse desvario do amor, em que, às vezes deparamos com “Amador sem coisa amada”.

Tema 2 (Sonhos e Esperanças)

“Sonhos e Esperanças” remete-nos ao preceito “ O que você pode ser, está totalmente nas suas mãos!”. Encontramos uma das grandes virtudes do ser humano que é ter sonhos e a partir deles alcançar o que almeja. Diz um grande poeta português, António Gedeão (pseudónimo de Rómulo de Carvalho), quando no seu livro “Movimento Perfeito”, de 1956, publica o célebre poema “A Pedra Filosofal”, lançando os fundamentos em que reside a realização, a partir dos sonhos, ou seja, Sonhos e Esperanças, em que diz: «Eles não sabem que o sonho/ é uma constante da vida/ tão concreta e definida/ como outra coisa qualquer/ … Eles não sabem, nem sonham/ que o sonho comanda a vida,/ Que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança,/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança. São exemplos os poemas: “ A chuva” (p. 39); “Início” (p. 40); “Reza, Marta” (p. 44). No poema “A Sombra dos Sonhos”, que dá título a presente obra, temos, contudo, a falsa imagem de que o sujeito político procura esquivar-se do facto do sonho ser uma constante da vida que faz o mundo pular e avançar, quando, nas penúltima e última estrofes, se expressa com contida dúvida: “É a sombra dos sonhos/ Que me nevoa/ – na imersão de noites manchadas/ De fantasias?! (…) Talvez uma melopeia de coisas mortas!”

Tema 3 (Metafísica)

Em “Metafísica”, Matos Matosse leva-nos numa viagem para o mundo que nos embarca espiritualmente para os segredos da nossa criação como seres inferiores, em constante procura de um ser superior que obrou tudo quanto é a matéria que nos envolve. São exemplos disso os poemas: “Dialéctica I” (p. 59); “Dialéctica II” (p. 60); “Mistério” (p. 61); “A Vida” (p. 62); “Filosofia” (p. 63).

Tema 4 (Mahlomulu)

Em “Mahlomulu”, o nosso poeta escalpela, disseca a dor ou o sofrimento, mostrando que, constantemente, cruzam-nos os caminhos, situações horripilantes que nos cerceiam os passos que pretendemos dar em frente. Os poemas: “Sinfonia” (p. 67); “Soltura adiada” (p. 68); “Mahlomulu” (p. 69); “Desesperação” (p. 70); “Esperança manchada” (p. 74).

Tema 5 (Duas Odes)

Em “Duas Odes”, são dois poemas: “Ode a ti” (p. 91); “Ode ao amor perdido” (p. 92), que só por si, simbolizam uma construção modernista, contrastando com o que, de facto é, canonicamente, o conceito de ode (Poema lírico cujas estrofes são simétricas (os versos possuem a mesma medida). Mas, mesmo contrariando os cânones, estes poemas cantam a mulher.

Tema 6 (Transcendências)

Em “Transcendências”, portanto, tudo o que se coloca acima de nós, para além do que imaginamos ser, o acima de nós, o além de nós no sentido transcendental, o intangível, enfim, o sobrenatural. Simbolizam estes estágios, os poemas: “Testamento I” (p. 95); “Somente a ilusão dos meus sonhos” (p. 96) “Escuto-te” (p. 97); “A sepultura” (p. 99); “Nós” (p. 103); “Ausência II” (p. 108).

Tema 7 (Confissões)

Em “Confissões”, o sujeito poético abre o espírito para exteriorizar os seus sentimentos, priorizando a confissão, como o testemunham os poemas: “Primeira confissão” (p. 111); “Segunda confissão” (p. 112); “Terceira confissão” (p. 114), ele faz a confissão do seu amor, portanto, não no sentido de alguma culpa, mas em declarações enleadas.

Tema 8 (Vários Episódios)

Em “Vários episódios”, Matos Matosse, nos poemas: “Infância” (p. 117); “Refutação” (p. 119); “Voto” (p. 120); “Concupiscência” (p.…), chama-nos, com a dispersão ou o eclectismo autoral no tratamento de diferentes assuntos por que se faz a vida, que fogem, um pouco, de considerações estanques. Ele traz-nos, nos poemas deste tema, a diversidade que faz a unidade, traduzida na  “A Sombra dos Sonhos”.
Tema 9 (Parábolas).

Em “Parábolas”, dois poemas que encerram o livro, funcionam como chave-de-ouro, pois são, como que uma apoteose; eventos que podem vir a ser factos da vida quotidiana, na qual se ilustre uma verdade moral ou espiritualidade: Parábola I” (p. 135); “Parábola II” (p. 136), não tanto como a parábola do filho pródigo, mas com laivos de moralidade ou de espiritualidade, desviados para uma, porém, falsa trivialidade, tendo em conta, o conceito clássico da centralidade parabólica, mas sempre à procura da distinção de significados, à procura da prolixidade, ou seja, a lubrificação, a multiplicidade das possibilidades interpretativas do texto literário, à procura de significações mais abrangentes, mais colectivas.

É uma obra que comporta poemas que se distribuem ao longo de 138 páginas que nos descrevem, o que, muitas vezes, não nos apercebemos que, cada sonho que temos comporta a sua sombra que o acompanha, a questão é como vencer essa sombra para que os sonhos vinguem.

Ninguém é perfeito nas suas acções quotidianas, todos os comportamentos humanos estão inquinados de imprecisões, de erros que lhes são próprios, portanto, Matos Matosse não pode ser uma excepção, por isso, reconhecendo algumas imprecisões no seu caminhar como poeta, mostra que o que ele pode ser como vate, tem-no nas suas próprias mãos e no apoio que qualquer de nós lhe possa dar, ao longo do seu percurso.

Parabéns, Matos Matosse, por esta obra “A SOMBRA DOS SONHOS” e segue em frente, com coragem, não se esquecendo que «O sonho é uma constante da vida (…) O sonho comanda a vida/ que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança.

 

 

A maior realização de uma criança reside no quanto ela pode brincar, criar e aprender. Não reside necessariamente no comer (em circunstâncias normais), até porque muitas delas choram quando o fazem. Outras chegam a comer na condição de poderem brincar em simultâneo. Comer e ser amada são necessidades que ela tem mas que nada tem a ver com ela. As actividades que ela pode desempenhar, incluindo estudar, são o centro da sua atenção e distracçao.

Todos nós nos comovemos com a Zinha, aquela menina dentre os 5 a 7 anos de idade, de joelhos numa esteira, por cima da qual colocou os seus livros a secar, após estes se terem molhado na sequência do ciclone IDAI.

Um olhar frustrado, impotente e impaciente. Como se as horas nunca mais passassem.

Se para nós adultos nos dói sentar e olhar para um problema, rezando ou torcendo para que o tempo o cure, imaginem para uma criança, que por natureza não vê nem sente o tempo a passar? Uma criança que, quiçá pela primeira vez sente-se responsável pelo que não fez e sente a pressão de resolver tal problema porque as aulas devem efectivamente continuar.

Zinha murchou, tal como milhares de crianças que viram seus sonhos postos em causa, pelo ciclone IDAI.

A devastação foi aquela que vimos. Por alguma razão, Zinha foi para mim a incorporação de toda aquela devastação: frustração, impotência, não culpabilidade e, força de vontade para juntar os trapos e recomeçar, custe o que custar.

E porque: “se educares um homem, estás a educar um indivíduo, mas se educares uma mulher, estás a educar uma nação inteira”, Zinha representa o futuro da mulher moçambicana, que deve continuamente lutar pela sua emancipação plena.

Se as crianças são o grupo mais vulnerável, agudiza-se a situação da menina moçambicana que, por falta de condições económicas sujeita-se ao casamento prematuro, que para ela, tem um efeito mais devastador que o do ciclone – este não tem de imperiosamente destruir tudo e todos que por ele são afectados, enquanto que, em casamentos prematuros, não existe atenuante para sua força destrutiva.

Existe a nececidade de se priorizar a reconstrução e reabilitação de escolas; a construção de lares para acolher todas as crianças orfãs do IDAI. E tais infraestruturas devem ter uma especial atenção à condição da rapariga pois esta sim, é a verdadeira formadora do Homem novo.

Obrigada,

Cri

 

 

Uma obra é eterna, não por impor um sentido único a homens diferentes,

mas por sugerir sentidos diferentes a um só homem

René Wellek e Austin Warren

 

Na Antiguidade Clássica, autores como Aristóteles defendiam que, na produção do drama, não se devia misturar a tragédia e a comédia, pois, se o primeiro tipo de texto implicava a representação de seres superiores, como deuses, reis e etc., o segundo passava pela imitação de seres inferiores, se quisermos, comuns.

As marcas dramáticas que há mais de 2000 anos deveriam estar em textos separados, de há uns cinco séculos para cá, numa simbiose cheia de autenticidade, sem proibições canónicas, contribuem para o que os homens do teatro consideram tragicomédia, isto é, fragmentos da tragédia e da comédia num único texto. (Des)mascarados, de Venâncio Calisto, é um pouco dessa mistura de estilos, o centro em qualquer tentativa de se associar a peça a tão monótona polaridade Mutumbela vs. Gungu.

A obra teatral, exibida há uma semana no CCFM, é um espectáculo digno desse título. E, para o efeito, não precisou de várias atribuições ou de um elenco de artistas com nomes pesados. Ao encenador, também dramaturgo, bastaram-lhe a lucidez da loucura, uma câmara nos olhos e a subtileza de concretizar em palavras, no papel, toda essa atmosfera real, que de tanto fantástica, chegando a oscilar entre o estranho e o maravilhoso, chega a ser quase fictícia.

Propondo-se a trabalhar o quotidiano moçambicano Calisto arriscou-se a produzir um espectáculo com um tema já gasto. Retratado de mil e uma maneiras, por músicos, escritores e grupos teatrais. Aliás, também há uma semana, o grupo Mintsu apresentou uma peça de Emerson Mapanga com o mesmo teor que (Des)mascarados: a subalternização da mulher, a configuração do género feminino como elemento fundamentalmente procriador, a representação do amor em ambientes de cólera, a oposição fidelidade vs. adultério e o paradoxo entre o moderno e a convicção enraizada nas tradições. Mesmo tendo-se arriscado tanto no processamento da verosimilhança, aquilo poderia ter acabado num cliché enfadonho, Venâncio Calisto superou-se, quer em termos de dramaturgia quer em encenação. Daí ter conseguido montar uma peça intrigante, impondo-nos vários sentidos interpretativos na eternidade dos minutos que durou.

Não obstante, porque um espectáculo teatral não depende apenas de dramaturgia e encenação, enaltece (Des)mascarados o charme de Rita Couto, no papel de Arcanjo, quem nos faz olvidar a sua condição de mulher na delicada tarefa de fingir ser o oposto do que rigorosamente é. Já havíamos a visto como boa “neta de Ngungunyane”, há um ano, entretanto, em (Des)mascarados a actriz ultrapassa os limites do apenas interessante. Eleva-se tanto que consegue ter um falo entre as pernas e barba em toda a cara. Ao menos assim a vimos ao actuar com Sufaida Moyane, Amélia na peça, outra “neta de Ngungunyane” que nos lembra tanto Lucrécia Paco. Não poderíamos encontrar outra forma de dizer que se vaticina um futuro auspicioso para jovem actriz, de uma singularidade rara e bem cara.

O espectáculo de Calisto é, na verdade, uma história de amor, na qual Amélia tenta ser águia, de modo a tocar a plenitude. No entanto, há um boicote que é obrigada a ultrapassar: o grande liberal que tem em casa, o marido Arcanjo, quem, desejando bem à esposa, não é indiferente à necessidade de ser pai. Então assim instaura-se uma querela tácita e simultaneamente expressa. À volta disso gira o enredo, na dicotomia sonhos vs. desejo e sonhos vs. oportunidades. Nisso, a questão que se coloca é: quem vai livrar-se da máscara primeiro? Enquanto a resposta não surge, a peça vai desenrolando histórias paralelas, cruzando honestidade e falsidade, o ritmo e a dança hilariante. O som é bom e os passos oportunos, porém ficou estranha a presença dos dois músicos no palco (Carlos Ebu e Robath Estevão). Aquele local sagrado não lhes pertence, mas aos personagens. Então, estivessem a tocar nos bastidores, passariam discretos pelo espectáculo como se impunha, sem disputarem atenção com Arcanjo e Amélia.  

Seja como for, (Des)mascarados é um trabalho de recriação da vida, dos melodramas da mulher, num tempo e espaço sugestivos. Na peça, de facto, nos revimos e, com algum discernimento, questionamos a ordem naturalizada das coisas.

 

Título: (Des)mascarados

Autor/Encenação: Venâncio Calisto

Classificação: 15  

“Bíblia Lounge”, este livro de poemas que temos entre mãos, assemelha-se a um lugar amplo, de retiro espiritual, para dentro do qual somos convidados a uma reflexão. Sem se tratar de um retiro de cariz religioso, com cultos canonizados, mas com a religiosidade que a poesia reclama para ser lida, escutada, percebida, interpretada, interiorizada, e decifrados os seus labirintos, que escondem nas suas dobras, um desfile de enigmas que se entrelaçam no binómio Utopia Vs. Realidade.

Esta obra de Nkhululeko é uma vigorosa expressão de labor poético que, trilhando nos novos caminhos resultantes do desbravamento que leva o visco do modernismo, permite que nos compenetremos numa evolução poética interessante que teve o seu Alfa com o livro “Há Gritos no Silêncio”, de 2011, que deveria merecer uma visita retrospectiva que nos permitiria compreender melhor esta evolução.

O retiro que nos é aqui proposto, neste “Bíblia Lounge”, não corre como um vão! Não é dúctil, no sentido de ausência de rompimento, que só vai fechar com a exposição do último poema: “Ressurreição”, do destino e das rezões que fizeram desaparecer, na percepção do sujeito poético, o poema que embrulhava “As tangerinas de Inhambane” e “O menino magro” com os seus balõezinhos, suplicando pela ressurreição do Mestre com os seus antídotos! Trata-se de uma reflexão espartilhada em três estações que tonalizam as nossas emoções, como o fazem a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno, que nomeiam as manifestações meteorológicas que exercem sobre nós a descontinuada sensibilidade do estado do tempo que vai escorrendo! São, apenas, três estações, mas com o mesmo toque sensitivo daquelas!

São três estações reflexivas que nos embalarão na nossa viagem espiritual poética!

“Bíblia Lounge”: o frontispício do espaço que se abre diante de nós, para a nossa reflexão;

“Muthimba”: a dança sugerida às nossas mentes, na busca profunda no imo do sujeito poético. Indicia-a o poema “Encenação?” que nos obriga a um rodopio mental necessário para a percepção das dobras do retiro que nos apela;

“Dumba Nengue”: um final expressivo, longe do escapismo, se nos ativermos na etimologia da expressão linguística empregue. Não uma fuga, no sentido literal, mas um apelo a um retorno às nossas lindas e ricas tradições, mesmo que utópicas, mas sempre revigorantes.

A apresentação deste livro não foi tão simples quanto poderia parecer! Pois, trata-se, não de surgimento, mas de continuidade da actividade literária de um jovem que procura os caminhos da consagração ou da identidade nesta área. Não foi fácil achar o que dizer!

Quando tudo começou, Leco Nkhululeko era, apenas, um debutante, um anónimo na literatura. Conhecemo-nos em 2009, já lá vão 10 anos, quando ele acabava de ganhar, com o poema “Sangue de Darfur” uma menção honrosa num concurso mundial de poesia, promovido pela República Italiana, denominado PRÉMIO NÓSSIDE, na sua XXV edição. Naquele prémio, concorriam poetas de 42 países localizados em todos os continentes. Cada concorrente usou a principal língua comunicacional do seu país. O poema premiado foi seleccionado para a antologia poética NÓSSIDE 2009, idealizada para eternizar aquele evento. Nkhululeko, trabalhava, já, na compilação de poemas seus, para publicá-los no que seria o seu primeiro livro.

O elo que nos ligou, foi o seu amigo Cláudio, meu filho. A nossa aproximação foi benéfica, para ambos: Ele ganhou alguma experiência; eu conheci um jovem de vontade e garra, que me fez estender a minha visão analítica a tantos outros jovens que se vão revelando na nossa literatura.

Como se pode depreender, Leco Nkhululeko, antes de entrar para o cânone nacional de literatura, já era reconhecido internacionalmente como poeta. O tal nosso paradoxo de reconhecimento literário vir de fora e só assim, os olhos domésticos nos vêm.

Não resisti ao seu convite para o assessorar na sua promissora carreira. Li os poemas já compilados, sob o título: “Há gritos no silêncio”. Dada a minha opinião, humilde e incondicional, o nosso poeta, então emergente, pôs-me a prefaciar esse livro e a apresenta-lo publicamente. Devo dizer, sem rodeios e com orgulho, que esse livro valeu-lhe o reconhecimento de muitos leitores, sobretudo dos seus amigos mais próximos, não apenas pelo acto de lançamento que aconteceu, mas, e sobretudo, pela capacidade que ele demonstrou ao levar o livro ao palco de um recital, coordenado com um elenco meticulosamente preparado, exibindo uma desusada performance no nosso meio literário! Tem feito vários recitais declamatórios, baseados na sua produção poética, o que constituiu uma garantia para a continuação, e hoje estamos aqui a testemunhar o nascimento do seu segundo trabalho poético em livro, sob o título: “Bíblia Lounge”.

Li o livro ainda em preparação. Confesso que fiquei impressionado com a evolução técnica e estética do labor poético, sobretudo a sua concentração sobre vários aspectos sociais que lhe deram uma rede vasta, sobre a qual trabalhou. Aprendi, com este acto, porque cada exercício destes é um aprendizado. O apresentador do livro, elaborará com mais profundidade e precisão sobre os vários aspectos do mesmo.

Agora, nós, Leco Nkhululeko!

Endereço-te um veemente pedido, para que não embandeires em arco ainda, porque a procissão ainda vai no adro; ainda não é tempo de te julgares uma obra acabada no seio da classe literária! As tuas costas ainda vão ser dardejadas pelos raios fortes do sol literário; ainda vais lavrar muito, esse árido mas fértil solo, para que dele brotem as sementes que fores lançando. Deves ser humilde, leitor e estudioso, não só de livros, mas também dos sinais que a sociedade em que estás inserido te vai dando; deves-te apurar continuamente e, quando chegar o momento, ninguém te vai proclamar, tu sentirás dentro de ti, que já és poeta! Ninguém está autorizado a proclamar poetas e escritores, nem existe, para já, autoridade definida para o efeito, porque, a própria literatura ainda não está definida universalmente. A actividade literária é subjectiva, cada um se avisa a si próprio do movimento das marés! A verve e o verbo nascem, apuram-se e se erguem dentro de nós, depois de largo tempo de trabalho aturado. Os que nos galardoam, deve ser por rendição ante o nosso trabalho. Eles não o devem fazer de forma paternalista. E quando não nos galardoam, não nos devemos inferiorizar, não devemos ficar complexados, aliás, isso deve constituir motivo para trabalharmos com mais afinco, elevar o nosso ânimo. A humildade que aqui te sugiro, não é passividade, não é submissão, é respeito: primeiro, por ti próprio e no que fazes, e, depois, no que te rodeia: pessoas, fenómenos e coisas.

Não corras atrás de aplausos, de louros, de forma gananciosa. Tudo isso se ganha com suor. Trabalha, e cada vez mais; não te distraias com falsas adulações; não te guies pela bajulação. Sentirás, no teu íntimo, chegado o momento, que, afinal, és poeta! Não te autoproclames, mesmo assim! Trabalha.

Isto vale para todos os jovens que decidiram abraçar esta nobre arte de cantar a alma da sua sociedade, neste caso, da sociedade moçambicana!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nem a loucura do amor

Da maconha, do pó

Do tabaco e do álcool

Vale a loucura do actor

Quando se abre em flor

Sob as luzes no palco

 

Sirvo-me deste excerto da música de Caetano Veloso, intitulada “Merda”, essa palavra sagrada do teatro, para agradecer a Rita Couto, Sufaida Moyane e Lucrécia Paco, a grande inspiração e luz do teatro moçambicano, que infelizmente não pode actuar connosco hoje, mas sempre fará parte desta família, desta criação que tivemos a oportunidade de levar para todos vocês neste dia tão especial, Dia Mundial do Teatro. Agradeço, primeiro, às actrizes porque elas, assim como os actores em geral, têm a nobre e difícil missão de materializar as ilusões e utopias do encenador e do dramaturgo. Na verdade, eles é que são o próprio teatro. Por isso peço uma salva de palmas para todos actores de todos lugares e de todas as épocas.

O teatro não tem época. É contemporâneo de todos os homens. E sempre esteve lado a lado com a humanidade, sempre em prontidão, como um sol, que nos permite descortinar com mais profundidade e discernimento a vida. O teatro é o lugar que nos permite “viver instantes de pura verdade”, diz-nos Carlos Cidrón, dramaturgo e encenador cubano incumbido de escrever a mensagem oficial da UNESCO, para a celebração do Dia Mundial do Teatro, este ano. E cito-o não só por concordar com ele mas pela necessidade de acrescentar que o teatro é também o lugar da khatarsi, da purificação da alma, tal como Aristóteles argumenta na sua Poética escrita há milhares de anos.

A Khatarsi é um momento de deleite e ao mesmo tempo de terapia. A mais pura manifestação do belo e da dimensão de cura espiritual. Não é a toa que se diz que o teatro é uma religião, mas sem dogmas, pois os seus métodos, técnicas e estéticas estão em constante criação. Todos merecem ter um momento de Khatarsi. E no dia que todos compreenderem que o teatro, e a arte em geral, é o guardião desta mágica sensação, talvez aí os seus fazedores passarão a ter o tratamento político e social que tanto falta neste país. E, finalmente, o teatro assumirá a sua real dignidade, que é a de devolver dignidade à humanidade, cada vez mais fria e materialista.

Falo da khatarsi porque me causa angústia e indignação o problema do acesso a arte e, em particular, do teatro no nosso país. Quantos milhões de moçambicanos crescem desprovidos desta dádiva? Quanto terreno a escuridão vai ganhando? “A cultura é o sol que nunca desce”, disse o presidente Samora Machel e eu acrescento, é urgente levar a luz para a periferia, para as zonas rurais, é urgente iluminar o país de arte e cultura. Porque a arte humaniza, educa, diverte e faz pensar.

 A arte proporciona a Khatarsi, a purificação de emoções ou, se quisermos, na gíria popular, alivia o stress, que é o que não falta no nosso dia-a-dia. Quantas senhoras, nos nossos bairros, aldeias ou vilas, porque nunca tiveram acesso a khatarsi por via do contacto com a arte, libertam o seu stress em forma de violência, batendo nos seus filhos ou discutindo com a vizinhança? Quantos senhores e jovens, até mesmo adolescentes, pensam que só a bebida pode ser a alternativa para atingir a Khatarsi, esse nirvana que devia ser partilhado por todos nós?

Os números são infinitos e acredito que todos temos consciência disso. Por isso é essa consciência que apelo, que cada um de nós seja vínculo, a ponte que permita que mais moçambicanos e gentes de todo o mundo tenham a oportunidade de experienciar a Khatarsi, a nossa tâmara que nos alivia do peso desta vida, muitas vezes feita de desertos e mar de espinhos.

A minha ponte foram homens e mulheres do nosso teatro: Eldorado Dabula, Manuela Soeiro, Evaristo Abreu, Lucrécia Paco, Rogério Manjate, Dadivo José, Maria Atália, Belmiro Adamugy, Joaquim Matavel, Victor Gonçalves, António Cabrita, enfim, eis alguns exemplos dos pilares que me fazem nunca desistir deste sonho. Por isso quero agradecê-los pelos ensinamentos e apoio incondicional e prometer diante de vós partilhar com os outros tudo quanto me ensinaram.

Agradeço também ao meu elenco, a Sara Machado, pelos figurinos, cenários e pela humildade, esse gesto tão humano e humanizante, que não pára de me transmitir. Agradecer os músicos, Robath Cristóvão e Carlos Ebú, por essa evocação espiritual do Mapiko. Muito obrigado Adelium Castelo e Celso Magupela, por registarem, com vossas lentes mágicas, este momento tão especial para nós.

Os agradecimentos estendem-se para o CCFM, por receber o nosso projecto, esperamos estar aqui mais vezes. Ao CCBM, Teatro Avenida e à FFLC, pelo apoio nos ensaios e adereços usados no espectáculo…

Viva o Dia Mundial do Teatro, hoje e sempre!

 

*Mensagem lida depois da apresentação do espectáculo “(Des)mascarado”, de Venâncio Calisto, apresentado no dia 27 de Março no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.

   Deusa d’Africa, uma voz das entranhas

Deusa d’Africa nasceu em 1988 em Xai­?Xai e é co­?fundadora do grupo cultural Xitende (Núcleo Literário do Xai­?Xai). Organizou em colaboração uma colectânea poética de autores de Gaza e Niassa (2014), uma obra na área da ficção intitulada Equidade no Reino Celestial (Editora das Letras, S.A, 2014) e publicou os livros de poemas A Voz das Minhas Entranhas (com um prefácio de Paulina Chiziane, 2014) e Ao Encontro da Vida ou da Morte (Editora das Letras, S.A, 2014).

O segundo livro de poemas que vou analisar com mais pormenor, atrás referido, tem uma epígrafe da autora que porventura já orienta filosófica e tematicamente o leitor: “Os homens são o que são, e os leões apenas feras inocentes”. Ou seja, à partida a autora descredibiliza a condição humana, a sua prática predatória consciente.

A obra está organizada em quatro partes, designadas: Ao Encontro da Vida, A Cidade Adormecida, A Des­truição da Cidade, Ao Encontro da Morte e encontramos 25 longos poemas intitulados “Confissão”. Esta insistência no título remete de imediato para um conteúdo religioso e de encenação autobiográfica.

Na história literária temos pelo menos duas obras com este título, uma de Rousseau e outra de Santo Agostinho. A confissão aponta para uma dimensão pessoal e colectiva nos poemas de Deusa d’Africa, pseudónimo com que a autora se assume como sujeito, que enaltece de imediato a forma transcendente de uma presença feminina, tutelar africana. E que inclusive ganha estatuto de personagem dramática em alguns dos poemas.

Assistimos a vários auto-retratos nas confissões/poemas, que podem ser lidos como representação da figura feminina de África, ainda hoje neo­?colo­nizada, ou da cidade suburbana, ou ainda da mulher subalternizada e dependente; alegoricamente há uma voz que se apresenta como interpeladora e denunciante dos males que esta personagem colectiva de mulher enfrenta, em estrofes que redundante e oratoriamente apelam o leitor/ouvinte.

Os sete dias de um casamento, ao invés dos sete dias da criação, mostram a progressiva destruição das ilusões femininas, e a rede de obrigações em que a mulher, enquanto ser, fica presa, na dependência familiar e no quadro dos preconceitos que a prendem socialmente:

“(…) Sétimo dia pós casamento/ Céu nublado e com câmeras/ Fotografaram a precipitação das entranhas/ Dum e outro em casa no final­?de­?semana/ Raiva ao ver roupas rasgadas/ Para coser e lavar sujas, obrigação de uma dona de casa (…) Como se ele pudesse a devolver, só por não parir o filho almejado, / Finalmente consegue amá­?la até à última página e devolve à estante/ Preparando­?se para comentar com os amigos sobre novas garotas a conquistar.” (62)

Lemos de forma constante na poesia de Deusa d’África uma denúncia crítica sobre a situação feminina e sobre as relações de género.

Há por vezes na sua escrita um ritmo de abundância no verso que se excede sem margens limítrofes, como a subida inesperada de um rio, que leva consigo o que está à frente. Este vozear das entranhas da poesia, que por vezes se aparenta à palavra de pregação, ou de anunciação, mostrando uma relação intertextual com os textos de origem bíblica, trata de muitos assuntos, como por exemplo da História de Gaza, da dominação colonial, da religião, do amor, das relações homem mulher, do desejo de liberdade para as mulheres, da miséria e injustiça sociais, das iniquidades humanas. Os poemas pontuam, revelam, a perplexidade da interrogação e o testemunho moral de uma condenação/ confissão. A dramaticidade, a mistura de géneros, irrompe no texto de Deusa d’África, como uma complexa teia de discursos que se fazem ouvir, ou com entrada em cena de outras vozes:

“Ngungunhane: Minha menina Deusa d’Africa/ Que fizeste em África/ Teu povo continua com repugnância de si mesmo/ E ainda clama pela independência sendo escravo de si mesmo/ Quantos jovens vestiram sua nudez/ Exaltando a música americana/ Quantas vezes lembraram vossos ancestrais e pediram o Pangolim/ Quantas vezes te ocupaste na plantação de swithokozelos (…)” (64­?5)

Eminentemente purgatória e crítica a escrita de Deusa d’Africa apresenta-se como uma exploração ambivalente e desmesurada de uma voz que se espirala de múltiplas outras vozes, que deseja encontrar/reclamar elementos culturais e linguísticos próprios, nativos, mas que, simultaneamente, demanda a modernidade da poesia ocidental através de muitas das dedicatórias. Uma escrita em processo e polivalente nas escolhas de ritmos e temas.

 

Lica Sebastião, uma voz irónica e reflexiva

Lica Sebastião nasceu em Maputo em 1963. Publicou Poemas sem Véu (Alcance Editores, 2011) Ciclos da Minha Alma cidade, sol e vento a palavra é uma máscara (Chiado Editora, 2015), De Terra, vento e fogo (Kapulana Editora, 2015).

Estamos perante um voz aparentemente confessional, diria serena, que escreve poemas quase como anotações de uma página de diário, ora num verso prosaico, ora encenando um sujeito lírico, que vai reflectindo sobre as suas emoções e as dos outros, sobre a escrita, o quotidiano.

Observamos no primeiro livro Poemas sem Véu, que a voz de Lica Sebastião é finamente irónica e o seu olhar de espectador ora se aproxima ora se afasta daquilo que o verso descreve, como se pode ler no poema Saudade: “vou juntar todos os pedacinhos de ternura/ que me deixaste no corpo e na memória/ e com eles alimentar o meu coração./ Depois no sossego do meu ser,/ vou adormecer” (9). Há neste livro um conjunto de poemas que trata da ausência e dos sentidos que ela desperta, trata também da espera, e por assim dizer, do amor; a voz do sujeito vai dissecando a emoção que resulta de tudo isto.

Vejamos o poema Resquícios de ti: “Lavei­?me toda com fragâncias de alfazema;/ Todavia, o acre da tua essência,/ o acrílico das tuas telas/ não se desprenderam dos meus sentidos,/ Troquei o Sim Card.// Em vão” (19).

As (in)confidências de Lica Sebastião encenam a sinceridade, de uma maneira surpreendentemente tranquila, sem entusiasmos, quase à maneira de uma abnegada resignação pessoana:

Meu silêncio/ mais não é temor do atrevimento, da vaidade fútil.// Pouco emotiva não sou.// Encanto­?me com risos verdadeiros,/ aplaudo adeptos de sobrevivências,/ viajo sonhos de adolescência e de plenitude.// Desaponto­?me com a incompreensão de mim./ Vivo emoções.”(22).

 

Eu diria que Lica vive e, depois, desconstrói as suas emoções…. com sabedoria:

“Sabes lá dos sonhos que sonhei esta noite./ Posso mostrar­?te o atalho que percorri/ até desembocar na praia deserta /e quantas mãos toquei imaginando serem as tuas…// mal soletras as duas sílabas do meu nome.” (44).

A forma como a poeta pensa a língua é também finamente narrativizada com a ironia de quem observa: “O meu professor de português tinha um ritual;/leitura, interpretação e, depois, gramática.// Apaixonei­?me pelo adjectivo:/ qualificativo de cores, odores, paisagens, políticos,/ gente (56).

O segundo livro da autora Ciclos da Minha Alma cidade, sol e vento a palavra é uma máscara reúne um conjunto de breves poemas ora descritivos da cidade e dos elementos, ora das emoções, e anota no título a simulação da escrita, a consciência da teatralidade.

Poeira,/ sol,/ céu branco, sem luar,/ calca­?se o chão da cidade;/ passos indecisos. (p. 27). Dá­?me um mapa do teu palpitar// O que plantar nas tuas encostas?/ Papoilas?/ Cravos?/ Pés de maracujá?/ Tudo.// Vou colher cores, sabores, sem conta. (p. 65).

Fiz um poema para o meu amor./ Versos arejados, sem tom, sem rima./ Veio a resposta: “não gostei”.// Enviei­?os a dois amigos/ Ofereceram­?me um sorriso morno,/ e guardaram­?nos como segredo. (63).

No seu livro De Terra, vento e fogo (2015), que contém poemas em que a voz poética se adensa, Lica continua perseguindo a ironia apegada à emoção, a escrita como esgrima dos sentidos e edificação do amor: “Os versos que te escrevo,/ porque outro recurso não tenho de tos dizer,/ edificam uma moradia/ para as minhas emoções” (69).

A auto­?ironia e o jogo entre emoção e reflexão lê­?se também nesta espécie de auto­?retrato:

Sou tão forte e audaz./ A minha magreza é temperada de terra, vento e fogo./ Grito à chuva impropérios,/ descalço os pés sobre a lava,/ enfrento os demónios do tédio,/ troço das minhas próprias fraquezas,/ ofereço o silêncio perpétuo aos que mal me querem.// Perante ti desfaleço. (p. 49).

A escrita de Lica Sebastião é de uma serenidade inquieta, polida de ironia constante, um verso que nos sorri evasivo.

 

O desprezo aniquila os grandes sentimentos humanos

Eduardo Correia de Matos

 

Deveria ter durado 54 min., mas a peça do grupo Mintsu, apresentada no CCBM, atingiu o minuto 80. Ainda bem, afinal, na véspera do Dia Mundial do Teatro, sempre deu para reviver a realidade moçambicana retratada num universo em que, muitas vezes, colocámo-nos a rir das nossas desgraças, entre evasão e terapia.

O título da peça do Mintsu é O padecer das Rosas, obra constituída por sete personagens representados por seis actores em ascensão, com potencialidade em abundância. Por isso, o que é uma boa trama, no capítulo da dramaturgia, rapidamente transcende-se.

A história da peça é muito simples. Há um casal no enredo: Rosita e Albasine. Devotos ao amor recíproco, ambos provam o azedume do preconceito personificado numa tia, Mothasse, contra a ideia de uma mulher estéril para o sobrinho. Convicta de que os filhos não enchem o lar do casal pela incapacidade de Rosita (Ramadan Matusse), Mothasse (Armando Mazoio) envenena Albasine (Arsénio Chavango) de modo que este troca a mulher pelo esplendor do rand. Destarte, o nosso herói vai parar a África do Sul, onde obtém respostas incómodas ao mesmo tempo que conspira, sem que se dê conta, para felicidade de Rosita. É neste cenário doméstico, carregado de hostilidade feminina, que se dá uma peça incisiva. Mordaz. A haver uma pretensão, há-de ser essa de ridicularizar os preconceituosos. Por exemplo, a rabugenta Mothasse, personagem que ao invés de solidária com a mulher do sobrinho, despreza-a, quase aniquilando os seus sentimentos. A essa altura da peça, vislumbra-se onde Mapanga quer chegar: “as mulheres são as maiores conservadoras dos machismos dos homens”. Logo, Mothasse nem sequer tolera a possibilidade de aceitar uma estéril na família, porque, para ela, se não há filhos, a culpa é sempre da mulher.

Sendo esta uma história que expõe as parvoíces de um machismo excêntrico, paralelamente, é uma aventura na qual se chocam o moderno e a tradição. Do conflito não se adivinham consensos, mas ruturas irreversíveis. Na consequência disso, o amor é colocado à prova, cedendo e resistindo à inconveniência de acordo com as circunstâncias.

À parte o enredo, esta tragicomédia é sugestiva por se adequar às carências do nosso teatro. No lugar de uma cenográfica exigente, Mintsu é capaz de fazer bom uso de poucos adereços: uma mesa, duas cadeiras, algumas velas e um pouco de luz, com oportuno recurso aos bastidores, o que, na verdade, é uma ideia inteligente de ampliar o pequeno palco do CCBM. Outra coisa que chama atenção é o facto de a história possuir quatro personagens femininas, porém todas representadas por homens, sem que isso se torne algo aborrecido (na encarnação da mulher, distingue-se Rodrigues Jalane, no papel de mãe de Rosita, mesmo a lembrar-nos a representação de Rosita, até morrer, por aquela que consideramos melhor actriz moçambicana: Ana Magaia). Pode faltar verosimilhança, entretanto, o projecto não fica comprometido (a capacidade dos actores na manipulação do semblante favorece). O que nos faz muita confusão é a troca de papéis. De repetente, Arsénio Chavango deixa de ser Albasine e passa representar Faztudo; e Gerson Mbalango, que era Faztudo, assume o Albasine. Não vimos nenhuma justificação plausível para o efeito. Até porque essa troca retira de cena a grande performance de Mbalango, quem leva a peça ao auge na pele de Faztudo, um galanteador cheio de bons pretextos. Enfim, estas são as notas. O resto é o tempo que vai corrigir os exageros atribuídos aos curandeiros e, em alguns momentos, a escusada fixação do olhar dos actores no auditório. Em todo o caso, para um grupo amador, com escassos recursos, é obra.

 

Título: O padecer das Rosas

Autor: Grupo Mintsu

Encenador: Emerson Mapanga

Classificação: 14

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