Skip to main content

O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

A ser verdade que a Junta Militar da Renamo é a responsável pelos ataques na região centro do país, estamos perante um problema cuja solução não cabe de forma exclusiva ao Governo mas também a própria Renamo de onde tem origem, é a Renamo que conhece os labirintos por onde se anda naquelas matas, cabendo a si, localizar o desertor e entregá-lo ao Governo, recordando que, a Renamo ainda não desmilitarizou-se, não desarmou-se e nem reintegrou os seus antigos militares.

Quando escrevo esta reflexão, o último ataque de que há memória, terá acontecido, dia 12 de Novembro de 19, no troço Inchope e Gorongosa, de acordo com vários testemunhas, o ataque se deu de madrugada e visou uma viatura de passageiros com destino a Niassa, trata-se de um grupo de religiosos, depois de ferirem o Motorista, uma passageira terá tomado o comando do volante e levou os passageiros até a Vila de Gorongosa, num troço de aproximadamente 40 Quilómetros, do ataque resultou três feridos de entre eles dois graves que, foram evacuados para o Hospital Central da Beira.

Trata-se de quarto ataque protagonizado por homens da autoproclamada “Junta Militar da Renamo” sob comando do Tenente General Mariano Nhongo, que se rebelou das fileiras da Renamo, alegadamente, por Ossufo Momade ter-se deixado “comprar” pelo partido no poder a Frelimo, na opinião deste, Ossufo Momade deixou cair por terra os compromissos que o falecido Líder da Renamo tinha com o Governo do Presidente Filipe Nyusi. Depois da eleição de Ossufo Momade para a liderança da Renamo, iniciou com a “purga” de pessoas que eram próxima a Afonso Dhlakama, algumas das quais presas e distribuídas por unidades de menor relevância.

Mariano Nhongo, foi notável durante a campanha eleitoral, ao persuadir o eleitorado a não votar no Presidente do Partido e candidato da Renamo Ossufo Momade, em pleno dia de reflexão sobre as diferentes propostas eleitoralistas, Mariano Nhongo apareceu nos diferentes órgãos de comunicação social, contra a Lei, a apelar a população a não votar em Ossufo Momade, alegadamente porque, o “verdadeiro” Presidente da Renamo é ele, esta mensagem, criou alguma estranheza junto do público que domina as regras eleitorais e indignação aos partidos políticos, com especial destaque ao partido Renamo visado pela mensagem.

A primeira aparição pública do Presidente da Renamo, para comentar sobre os ataques na região centro do país, de acordo com alguns órgãos de comunicação social, somam 4 ataques com a registada na última madrugada de Terça-feira, Ossufo Momade distanciou-se dos mesmos e responsabilizou a “Junta Militar” na pessoa de Tenente-General Mariano Nhongo e, não deixou de criticar a “inação” do Governo que, na sua expressão, está a deixar o “jacaré” crescer no lugar de eliminá-lo quando ainda é ovo. Com este pronunciamento, Ossufo Momade e a Renamo distanciam-se de um homem que, de acordo com as fontes orais, foi de extrema importância na manobra militar da Renamo.

Dizem as mesmas fontes que, Mariano Nhongo, foi capturado e tornado Menino-Soldado aos 11 anos de idade e, de lá a esta parte, não sabe fazer mais nada se não matar ou ordenar as matanças, com o advento do AGP, assinado em Roma, capital da Itália, Nhongo não beneficiou da desmobilização, tendo ficado no quadro do mesmo acordo para a defesa de altos quadros da Renamo, dizem as mesmas fontes que, Mariano Nhongo teve um papel determinante no salvamento de Afonso Dhlakama depois do ataque de Zimpinga e depois, no resgate deste na cidade da Beira para as matas de Gorongosa.

Dando fé a esses e outros relatos sobre a vida de Mariano Nhongo, acredita-se que, move-se como “peixe na água” pelas densas matas de Sofala, sendo que, para se conseguir aproximação deste não há melhor grupo que não seja a própria Renamo, no entanto, as coisas complicam-se quando o Presidente do partido distancia-se dele e não mostra qualquer interesse em, no mínimo, colaborar para a sua neutralização pelas FADM, Ossufo Momade mostra-se algo chocado com o comportamento do Governo em relação a esta matéria bem assim do seu colega Mariano Nhongo, por ter feito uma contra campanha, ao apelar a não voto.

Muitas pessoas acreditam que, a campanha de Mariano Nhongo contra Ossufo Momade, sobretudo quando este ameaçou aqueles que fossem votar nele, como sendo uma “declaração de guerra” terá levado as pessoas apoiantes da Renamo a retraírem-se das urnas e deixado o partido e seus candidatos sem o apoio que necessitavam para lograrem sucesso nas eleições de 15 de Outubro, para eleger o Presidente da República, Deputados da Assembleia da República, membros das Assembleias Provinciais e por via disso, os Governadores Provinciais, é que, por incrível que pareça, a Renamo não elegeu se quer um Governador e, na Assembleia da República foi reduzido a 60 Deputados dos 250 possíveis.

Contudo, olhando para o histórico das eleições em Moçambique, não espanta a ninguém, o próprio Líder da Renamo, o saudoso Afonso Dhlakama, participou em 5 eleições e, em todas perdeu a favor dos candidatos da Frelimo, sendo a última perda com o actual Chefe do Estado Filipe Jacinto Nyusi, não seria o estreante Ossufo Momade que derrotaria Filipe Nyusi que concorria para o seu segundo mandato, ainda para mais, em uma campanha que não apresentou ideias, se não a crítica à governação da Frelimo, sobre assuntos que todos sabiam.

Nada justifica a actual escalada de violência na zona centro do país, a justificação que se dá sobre os resultados eleitorais, “fraude e enchimento” das urnas, não faz sentido, até porque, as pessoas que protagonizam o ataque estavam contra as eleições na sua total dimensão, a questão agora é saber com quem o Governo deve negociar para o cumprimento do DDR, evidente que, oficialmente é com Ossufo Momade, será isso suficiente, sabido que, não controla a totalidade dos homens dispersos nas matas de Gorongosa? Qual pode ser o papel da igreja! Da sociedade civil! Da Comunidade internacional, a começar pelo grupo de contato, todos somos poucos para trazermos a solução para este grande equívoco e, rogamos pela paciência de Filipe Nyusi, Presidente da República.

O desenvolvimento da indústria do petróleo e gás tem sido vital para as economias devido ao seu contributo no produto interno bruto, receita fiscal, processo de industrialização e geração de postos de trabalho. Em Moçambique, a indústria ganhou mais ânimo com as descobertas de reservas significativas de gás natural na Bacia do Rovuma. Segundo as estatísticas oficiais, é expectável que as Áreas 1 e 4 da Bacia do Rovuma possam gerar receitas para o Estado na ordem dos USD 49,4 mil milhões (cenário base) e mais de 300 mil postos de trabalho directos e indirectos.

Ora, a Decisão Final de Investimento (DFI) anunciada pelo consórcio que explora a Área 1 no valor de USD 23 mil milhões e a esperada DFI da Área 4 liderada pela Exxon Mobil e a ENI têm gerado grandes expectativas entre os moçambicanos que anteveem uma melhoria no seu padrão de vida. No entanto, é necessário ter alguma cautela em relação às expectativas criadas, pois o sucesso futuro vai depender das decisões que o país tomar em relação à utilização das receitas resultantes da indústria.

As más experiências observadas em países como Angola, Guiné Equatorial, República Democrática do Congo ou o Chade resultaram de problemas de gestão, instituições e dependência dos recursos petrolíferos. Essas experiências mal sucedidas impõem enormes desafios para Moçambique, sobretudo o de assegurar que as receitas do gás contribuam para a elevação do bem-estar de todos os cidadãos das gerações actual e vindouras. Assim, as questões centrais que carecerão de atenção são:  

  • Diversificação da economia

É de conhecimento comum que o gás é um recurso não renovável e que se esgota quando explorado. Outro factor é que as receitas do gás são altamente sensíveis a volatilidades de preços no mercado internacional, o que pode alterar significativamente as projecções feitas e afectar os planos de crescimento. Assim, para minimizar estes efeitos e a fuga de trabalhadores e do capital para o sector em expansão, o país deverá transferir parte das receitas do gás para potenciar outros sectores de crescimento, tais como a agricultura, manufactura e turismo, bem como estimular ligações económicas entre estes sectores. Entretanto, para que os sectores tradicionais da economia sustentem efectivamente o crescimento a longo prazo e contribuam para a substituição de importações por exportações, será necessário desenvolver e implementar reformas sérias em cada sector para evitar-se o desperdício de recursos.

É verdade que a entrada massiva de divisas no país resultantes da exportação do gás poderá pressionar para a apreciação do metical, situação que afectaria negativamente as exportações dos outros sectores. Uma alternativa para contornar este fenómeno seria guardar parte das receitas do gás em instituições financeiras estrangeiras e trazê-la de volta para Moçambique de forma gradual ou investir em activos com nível de risco reduzido no estrangeiro.

  • Transparência, corrupção e investimentos

Um dos grandes problemas nos países detentores de recursos petrolíferos, especialmente em África, é que a maioria dos cidadãos tende a permanecer pobre, mesmo depois da descoberta e comercialização dos seus activos (vide os casos da República do Congo ou de Chade). Alguns dos factores que contribuem para a maldição dos recursos nesses países vão desde a falta de transparência na gestão das receitas, elevados índices de corrupção até às opções de investimentos questionáveis.

Moçambique tem estado a piorar no Índice de Percepção de Corrupção, ocupando actualmente a posição 161, de um total de 183 países avaliados pela Transparência Internacional, além de manter investimentos em empresas públicas enfraquecidas. Este cenário é desencorajador para a nova fase que se aproxima, porém há uma discussão actual sobre o modelo de fundo soberano autónomo que o país deverá adoptar para garantir maior transparência na gestão e investimento das receitas do gás. Certamente que este fundo deverá, por um lado, ser inspirado pelas melhores práticas internacionais que se observam, por exemplo, na Noruega, Kuwait ou Botswana e, por outro, estar ajustado à realidade do país e aos objectivos que se pretendem alcançar.

Ora, estes modelos tendem a ser bem concebidos nos países com uma visão estratégica clara, mas o problema surge nos indivíduos seleccionados para gerir as receitas e pela excessiva intervenção política sobre como e em que áreas o dinheiro deve ser aplicado. O Chade é um exemplo de país que concebeu um bom modelo de gestão de receitas do petróleo, mas que colapsou. De Angola são recebidas notícias que dão conta do desvio de elevados montantes do fundo soberano (inspirado no fundo soberano Norueguês) para contas particulares offshore e realização de investimentos duvidosos.

Portanto, se Moçambique pretende financiar o crescimento económico e assegurar o bem-estar das gerações actual e futura com base nas receitas do gás, deve olhar com seriedade para as más experiências e definir medidas para que não se repliquem na economia. Os indivíduos que serão responsabilizados pela gestão de receitas do gás devem ser íntegros, comprometidos com a causa nacional, independentes, com preocupação institucional, reconhecido mérito e altamente respeitados pela sociedade moçambicana.

Os investimentos a serem realizados pelo fundo devem ser canalizados para as áreas prioritárias de desenvolvimento bem como na construção e modernização de infra-estruturas a todos níveis. O provimento de serviços de saúde e da educação de qualidade devem constituir prioridades para que as pessoas estejam preparadas para a nova realidade e beneficiem no máximo das oportunidades que estão por vir. As opções de capitalização feitas devem estar sujeitas a auditorias por entidades independentes de forma a garantir que não exista conflito de interesses e que o dinheiro esteja a ser aplicado nas melhores alternativas disponíveis.

  • Aproveitamento do conteúdo local

O Conselho Económico aprovou recentemente a proposta final da Lei do Conteúdo Local, que visa regular a participação das empresas moçambicanas nos projectos da indústria extractiva. Todavia, para fornecer bens e serviços às companhias petrolíferas é necessário preencher determinados requisitos. Por exemplo, a Anardarko (substituída pela francesa Total) anunciou que para aceder aos USD 2,5 mil milhões relativos á construção da fábrica de liquefação do gás natural em Cabo Delgado, as empresas moçambicanas devem estar devidamente registadas, organizadas e certificadas.

Ora, num contexto onde mais de 95% do tecido empresarial nacional é composto por micro, pequenas e médias empresas que enfrentam problemas de gestão, desenvolvimento de capacidade e certificação, então faz sentido questionar a sua participação efectiva nos projectos do gás. Uma alternativa para auxiliar as empresas a corrigirem alguns dos problemas técnicos e de gestão seria a implementação urgente de um Programa Nacional de Apoio ao Negócio.  No entanto, este programa deve ser bem articulado, ter uma visão de longo prazo para assegurar o desenvolvimento contínuo do sector privado e gerar ligações empresariais.

  • Desenvolvimento das comunidades residentes na zona de produção

Aos comunidades que residem nas zonas onde os recursos petrolíferos são descobertos tendem a queixar-se da falta de oportunidades para aceder aos fundos. Devido ao desemprego ou falta de pequenas fontes de renda, parte dos jovens residentes nas zonas de produção é aliciada para actos criminosos, tais como a sabotagem, roubo dos recursos petrolíferos, rapto dos trabalhadores das concessionárias, e em caso mais graves associam-se a grupos de insurgentes/desestabilização (vide casos da Nigéria ou Líbia).

Para minimizar este cenário, o governo deve assegurar que as receitas do gás tenham um impacto considerável na vida dos cidadãos (principalmente dos jovens) residentes na região de produção, através da criação de postos de trabalho directos e indirectos, fácil acesso à educação e saúde de qualidade. A construção da fábrica de liquefação do gás natural em Afungi representa uma oportunidade inicial para manter os jovens da região ocupados em actividades produtivas.

Certamente que o governo tem interesse que as receitas resultantes da produção e comercialização do gás tenham um contributo assinalável no crescimento económico e na melhoria do bem-estar social dos moçambicanos. Assim, é relevante ponderar sobre a forma com as receitas serão geridas tendo em conta parte dos desafios acima mencionados.

 

Digo e volto a dizer, e se necessário digo de novo: a cidade de Maputo, a capital deste deveras iliterário país, merece uma feira de livro! Pois, aquela a que se (des)organiza pelo Conselho Municipal, no Jardim Tunduro, não é, e não deve ser tratada como tal. Participo desta desordem desde que a mesma passou a ser realizada na praça da independência e posteriormente neste botânico jardim. Destas participações retive, como ilações, o festim de reclamações dos envolvidos, desde os escritores, ou autores, os expositores, até ao público, que a cada ano tende a não afluir naquela que deveria ser a principal festa do livro em Moçambique.

A desordem do município de Maputo, a falta de preparação do pessoal para lidar com a arte, a insensibilidade e o desrespeito destes desorganizadores para com os artistas, aliada a uma nítida aversão ao livro, fazem desta “feira” um verdadeiro festival de mediocridades.

Esta desorganização que o município organiza é cheia de peripécias adversas que se opõe aquilo que seria uma verdadeira feira de livro, literalmente falando. Vários são os aspectos que não fazem sentido nenhum. Para melhor ilustrar estas atrocidades vamos por pontos:

1) Para mim, e para qualquer um que viveu essa balbúrdia, não faz sentido que uma instituição, como o Município de Maputo, organize debates ou qualquer outro evento em que os protagonistas, no caso da feira os oradores e moderadores, não tenham informação nenhuma relativa a participação destes, o que é facto lamentável na feira de livro de Maputo.

2) Em relação ao convite de escritores ou autores de outros quadrantes do mundo, para que possam participar da feira, é óbvio que estes trazem mais-valia a este evento, porém, não faz sentido que o município convide-os e não consiga prestar-lhes qualquer apoio logístico, como a passagem, alojamento, transporte, alimentação, entre outros. Isto é ultrajante, sabe o Município que imagem passa de Moçambique para o mundo com essa atitude covarde e burlesca?   

3) Não faz sentido, que haja uma feira de livro em que o preço do livro continue o mesmo das livrarias e, nalguns casos, mais caro ainda que o habitual. A questão que faço é simples: Como o município de Maputo, com todos aqueles parceiros que se exibem nos materiais promocionais, não consegue encontrar meios de subsidiar, ou seja o que for, para que os expositores baixem os custos dos livros? Para mim o conceito de feira é promoção do livro. E promover algo é tornar mais acessível. Se não há acessibilidade do livro então não estamos perante uma feira, simples quanto isso.

4) Também não faz sentido que o Município celebre contractos com os envolvidos nas actividades da feira, como artistas e outro pessoal, e este mesmo Município não cumpra com aquilo que se predispôs a obedecer, como é o caso dos miseráveis cachês que levam séculos para que os artistas recebam. Não faz sentido!  Ou não assinem contractos com os artistas, ou então assinem e cumpram com a promessa, ora bolas!

5) Não faz sentido que o município de Maputo, com a estrutura e os meios logísticos que detém, não consiga divulgar o evento para que haja adesão massiva de visitantes, porque é extremamente penoso que um escritor ou estudioso de qualquer área de saber, se prepare, se dê trabalho de fazer uma pesquisa e, no final das contas, fale para uma plateia de cadeiras vazias, que é o cenário característico da “Feira de Livro de Maputo”. Tudo bem que os índices de literacia em Moçambique são baixos, mas o quê é que o município e os seus parceiros de cooperação para realização da feira têm feito para contornar esse fenómeno? Será que existem parceiras com o Ministério da Educação, com as Universidades, as Escolas? Se não é melhor que se pense nisso.    

Bom, eu posso esgotar todos os números e suas possíveis combinações, arrolando os aspectos que não fazem sentido na “Feira de Livro de Maputo”, porém tenho piedade dos meus dedos e teclados, a verdade é que esta feira, nos moldes em que se (des)organiza, não faz qualquer sentido, e essa atitude não só tira o mérito aos (des)organizadores, como também a todos nós citadinos desta urbe.
Se nós, os que moramos nesta cidade, realmente queremos uma feira de livro, no sentido literal da palavra, precisamos repensar esta desordem, todos nós que gostamos de ler e que estamos de alguma forma ligados ao livro, como os próprios escritores, leitores, artistas, livreiros, jornalista, associais culturais, fundações artísticas, todos devemos unir sinergias para que a próxima edição seja uma verdadeira “festa” do livro, só assim estaremos a dar um passo significativo para literacia do país. Só espero que haja abertura por parte do município, se não for por essa via, é minha opinião que se não continue com a (des)organização nestes moldes.

Já nos bastam as adversidades sociopolíticas que nos roubam o sono e nos destroem a esperança, precisámos que o livro seja esse tubo de escape para que possamos voltar a sonhar, e quiçá reconstruir novos horizontes, algo que este país tão sofrido quanto empobrecido precisa. E os novos horizontes, meus caros, abundam nos livros. Então, não nos livrem do livro!

A terra é a única coisa que fica quando tudo o resto acaba.

Isabel Allende

 

E de repente a terra fica completamente submersa. A vida quase desvanece. Nos ramos das árvores e nos tectos das casas prevalecem a esperança, a força que mantém inabalável a vontade de as personagens sobreviverem. De um lado está um comerciante (Adelino Branquinho), um pastor de gado (Flávio Mabota) e um administrador de cuecas (Jorge Vaz), afinal a água levou quase tudo. No tecto onde se encontram, antes das cheias, um dia funcionou uma mercearia. Agora é um porto de onde os vivos esperam partir com as suas angústias. Do outro lado do plano vêm-se duas mulheres: uma velha casmurra (Nélia Gilberto Nhambau) acompanhada pela neta (Joana Mbalango). Eis os dois mundos separados pela morte, um cenário de partida de uma peça acutilante e cheia de verdades taciturnas.

                                                  ****

Com a direcção de Jorge Vaz, o espectáculo teatral do Mutumbela Gogo representa a história de todo um povo anónimo que da noite para o dia teve de aprender a esquecer o sentido possessivo das palavras. Recuando alguns meses, Xicalamidadi vai recuperar no Centro e no Norte de Moçambique as circunstâncias que contribuíram para que vários moçambicanos das duas regiões ficassem isolados, primeiro, na sua dor, e, segundo, no seu próprio país. A peça do Mutumbela Gogo, essa companhia de teatro com 33 anos de existência, na verdade, é um exercício de colocar os que não viveram o Idai ou o Kenneth a sobrevoar os territórios tragicamente afectados pelos dois ciclones. A preto e branco. Logo, cada personagem, na história, retrata uma condição. Por exemplo, o carácter da velha casmurra é uma abordagem a todos aqueles que, mesmo diante do nada, escolheram ficar a ter de reaprender a viver num outro lugar de “favor”. No fundo está aí uma questão complexa, que, compreende-se, traz ao de cima a questão de determinadas pessoas sentirem-se relevantes devido à relação estabelecida com a terra, a tal única coisa que fica quando tudo o resto acaba, segundo Esteban Trueba, esse velho personagem de A casa dos espíritos, de Isabel Allende.

Na peça teatral Xicalamidade, a velha personagem cumpre bem esse papel de proteger um legado, válido aos herdeiros enquanto se mantiverem no lugar da tradição. Então a árvore na qual avó e neta buscam refúgio é mais do que um recurso natural, é cultural, daí a idosa sempre insistir em proteger o nada restante. Naturalmente, nisso apresenta-se um conflito entre as duas mulheres, pois se uma enxerga a esperança na permanência, a outra acredita na partida.

Num outro momento, Xicalamidadi é uma sátira ao instinto materialista dos homens. O comerciante que a certa altura bebe uma coca-cola escondido para não ter de partilhar com ninguém é um exemplo desse apego ao material; o pastor cuja vida perde importância por já não possuir os cabritos levados pelas cheias também. E o que dizer do senhor administrador? Para esse uma coca-cola é o maior argumento nesse jogo persuasivo de descortinar os mais misteriosos encantos femininos da personagem que não fosse a avó idónea, teria caído sedenta nos seus braços.

Portanto, além de ser uma história relevante para a compreensão do que se passou no Centro e no Norte, este ano, Xicalamidadi é, do ponto de vista criativo, um bom exemplo de que muitas vezes pode-se fazer teatro sem exagerados adereços no palco. E a decisão de se explorar o espaço vertical, colocando-se uma árvore virtual no cenário, rompeu com o habitual. A anacronia no preenchimento de vácuos narrativos também. O resto são os actores. De Branquinho a Vaz, Joana Mbalango e Nélia Gilberto Nhambau… Duas belas performances, num alto nível, que corresponderam ao rigor desse Gogo que é Mutumbela.

 

Título: Xicalamidadi

Autor: Mutumbela Gogo

Direcção: Jorge Vaz

Classificação: 15

 

Já nem me lembro o que estava a sonhar, o toque do alarme estragou-me a vida do lado de lá. Um Moçambique mais humano era um bom sonho! Eu e David, meu primeiro colega de quarto que se tornou meu irmão, partilhávamos o mesmo quarto numa residência universitária de Lisboa. A escuridão que se apossara do quarto durante a noite começava a se dissolver. O meu desejo era continuar a dormir, mas algo me dizia que se dormisse mais um minuto chegaria atrasado.

Contrariado, desci da cama e fui me preparar. Não tinha mais de um mês em Portugal, ainda ia a todas as aulas, até as que não existiam.
Quase quarenta e cinco minutos depois, David continuava na cama embevecido pelo sono e sonho que me foram roubados pelo toque do alarme. Ele ia à escola duas horas mais tarde que eu. O dude parecia um daqueles carros avariados quando se tratava de acordar, levava muito tempo para arrancar. Nos primeiros dias combinámos que eu seria o seu despertador, o acordaria quando estivesse para sair de casa e depois seguiriam os seus outros milhares de alarmes até acordar.

Como nos outros dias, o acordei e ele me lançou um «puto, ainda é muito cedo, dorme». Todos os dias dizia-me coisas sem sentido quando o acordasse. Ignorei aquelas palavras e me pus a andar.
Na rua o nevoeiro cobria o ar e o frio gelava-me o cérebro. Até ali nada parecia estranho…

Quanto barulho numa só noite! O mundo tem tantas coisas bonitas! Já viste o teu sorriso? E porquê sou obrigado a ver isto, meu Deus! As nuvens nebulosas a sufocarem a lua me causam um nó na garganta e um sentimento de impotência do tamanho da alma das águas do dilúvio que se vêem nos olhos de gente triste. Se eu levantar para fechar a cortina perderei o fio da narrativa, mas se eu ficar aqui a ver as lágrimas daquela luz fluorescente, será pior, morrerei nesta página.

Merdas, deixa-te de preguiças e fecha essa cortina enquanto for tempo!
Entretanto voltei! Sabes, amanhã o dia tem vinte e cinco horas! O que será o tempo senão duas pessoas apaixonadas a se beijarem até tudo arder de novo? Um beijo a mais, um a menos, cabe sempre mais um beijo, menos um, mais um… até tudo arder de novo.

Mas é verdade, amanhã passaremos para o horário de Inverno. Parece algo chique, mas é uma chatice! Passo a estar duas horas mais longe de Moçambique! O povo por aquelas terras dorme muito cedo e eu que durante o dia desligo-me do telemóvel para esfalfar-me nas coisas do mundo chego enquanto está quase tudo a dormir!  

Como tu consegues fazer tanta coisa ao mesmo tempo?

Não me põe a responder perguntas deprimentes senão ainda penso na lua. Vou te contar um segredo, mas tens de jurar que isto fica entre nós.

Quando me sinto cansado vou ao salão cortar cabelo! Nos últimos anos, depois de cortar cabelo me sinto meio assim, deprimido. Para além de me sentir menos chuchu, sinto que boa parte de mim cai e vai ao lixo com aquele cabelo. Não te rias, estou a te abrir o meu coração.

Cá para mim aquilo é um remorso que eu tenho por andar a prostituir minha cabeça. Até vir estudar para Lisboa, a minha cabeça não conhecia mãos brancas, sabes? Quando vou cortar lá para os lados de Odivelas ainda me sinto bem. Mas quando vou aonde fui antes de ontem, saio de lá com o espírito a rastejar. Cortam-me tão mal, cada parte da cabeça com o seu tamanho e ainda fico parecendo calvo, como diz meu puto!

Mas com que intimidade chegamos a este ponto? Faz favor, continuar a narrativa.

Desde o metro que eu sentia a sensação de algo estar fora do lugar. Infelizmente só percebi quando pus os pés na escola e vi tudo fechado.

O meu telemóvel tinha se conectado ao fuso horário de Verão durante a noite e me estragara o sono! Uma hora a mais! O que será o tempo senão o que nós quisermos!

Esse barulho não pára! Bem-bem, parece que estão a fazer coisas de adultos no piso acima do meu. Sei que sou louco! Vou lá ver o que se passa, volto já.

 

    Na obra a Saga d ??'Ouro, a voz do narrador omnisciente nos dá a conhecer a história do reinado de Gatsi rucere à decadência do império Mwenemutapa. Portando, do universo diegético apresentado, chamou-nos mais atenção a presença de realidades surpreendentes e estranhas, realidades legítimas para demonstrar elementos que concorrem para construção de fenómenos e/ ou comportamentos insólitos. Desse modo, esperamos estimular outros estudos na obra, bem como, contribuir na compreensão do insólito na obra em causa. No presente estudo, argumentamos que o absurdo, as consequências (efeito) da transgressão ao código de conduta do meio natural que os personagens estão inseridos, como punição ou indicação de um acontecimento, concorrem para a construção do insólito.

     Desta feita, o insólito ficcional é uma categoria comum a vários géneros literários. O conceito abarca uma série de modalidades representativas, como o maravilhoso, o fantástico, o estranho, o realismo mágico, o realismo maravilhoso, o realismo animista, o absurdo, sobrenatural e outros subgéneros híbridos em que a invulgaridade é marca distintiva. (Petrov: 2016).

     Se para Petrov (2016), o insólito é uma categoria comum a vários géneros literários, observamos em Matusse (1998), os traços que constroem as experiências insólitas, estas, que são fenómenos e comportamentos que se colocam no limiar do fantástico. Pois, os fenómenos ultrapassam limites do que é considerado normal mas não são sobrenaturais, contudo, desproporcionais e invulgares. Para este autor, o retrato da guerra nos seus aspectos absurdos; a atmosfera trágica, apocalíptica, em que impera a ideia da decadência e destruição, representada pela morte e loucura; a marcação de destinos trágicos, alguns fenómenos com cariz cómico; o uso da hipérbole para retratar realidades sórdidas e a procura do equilíbrio perdido concorrem para a construção do fenómeno e comportamentos insólitos.

      Os autores García 2011, Ferreira e Stoelehner S/d, Furtado 1980 citado por Carneiro e Ribeiro 2013 e Petrov 2013 sustentam que o insólito coloca o leitor a questionar o real diante do sucedido, uma vez que aparecem no meio quotidiano, manifestações meta-empíricas cuja razão da lógica vigente, não encontra explicação.

    Portanto, os fenómenos insólitos são invulgares e meta-empíricas, podendo estas, desafiar a compressão e aceitação no leitor implícito ou não, este, rejeita ou aceita os fenómenos tendo em conta a realidade que o envolve. A propósito da realidade que envolve o leitor, Matusse (1998:175) considera que o insólito deve ser lido dentro de um contexto histórico marcado por vivências em que se consolidam elementos culturais. No estudo em causa, é preciso entender as sociedades africanas na perspectiva do contexto colonial, as atitudes perante o facto de colonialismo, por este, desencadear fenómenos de assimilação, rejeição e de tentativa de conciliação de valores, conduzindo a desequilíbrios de diferentes sistemas de valores.

       O insólito é um assunto correlato ao fantástico, sobre este, Todorov (1980) explica o que metaforicamente designa de coração do fantástico, ou seja, a condição fundamental para a sua ocorrência.

Em um mundo que é o nosso, que conhecemos, sem diabos, sílfides, nem vampiros se produz um acontecimento impossível de explicar pelas leis desse mesmo mundo familiar. Que percebe o acontecimento deve optar por uma das duas soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto de imaginação, e as leis do mundo seguem sendo o que são, ou o acontecimento se produziu realmente, é parte integrante da realidade, e então esta realidade esta regida por leis que desconhecemos. […] a possibilidade de vacilar entre ambas cria o fantástico. (Todorov, 1980: 15-16)

     Aqui, a ideia de vacilar diante do fenómeno é a condição primeira para que ocorra o fantástico. O leitor implícito ou não, carece de explicação sobre o insólito, quando confronta o sucedido com as leis do mundo que lhe são familiar.

     Nessa perspectiva, concorda Matusse (1998) sobre a condição sine qua non para a sobrevivência da dúvida e do fantástico, acrescentando que este caracteriza-se nas obras de Mia Couto e Ungulani Ba Ka khosa, pela coexistência da ordem natural e sobrenatural; pela sobreposição do sentido literal e do sentido alegórico; pela tentativa da restauração da ordem e aparece também, o insólito, representado pelo fantástico, como punição de uma transgressão ao código de conduta e como sinal de um acontecimento. Em contrapartida, ilustra a inadequação da concepção de Todorov (1980), ao conceber o fantástico como género. Sendo preferível para Matusse (1998) a definição abrangente, o fantástico como toda ocorrência de fenómenos que invertem a lógica natural, tendo como base a concepção padrão dos homens.      

      Por sua vez García (2011), demonstra numa análise comparativa dos seguintes textos: «Elisa» de Murilo Rubiao, «Do Deus memória e notícia» de Mário de Carvalho e «O não desaparecimento de Maria sobrinha de Mia Couto» a subversão da personagem, como estratégia de construção narrativa do fantástico, visto que as acções desenvolvidas ou sofridas pela personagem, ligadas a sua condição física e psicológica é que determinam a fanstasticidade.

    Diferente da perspectiva de Garcia (2011), Carneiro e Ribeiro (2013), tende como corpos o conto o curioso caso de Benjamin Button de F. S, Fitzgerald, a adaptação para a narrativa gráfica e o filme: a transposição intersemiótica, ressalta o absurdo associado ao cómico como elementos que concorrem para causar no leitor e espectador a dúvida, portanto, o elemento desestabilizador do real.

     Portanto, ao lermos a Saga d ??'Ouro de Aurélio Furdela, compreendemos que o absurdo associado ao cómico, assim como não, a punição e sinal de um acontecimento relativamente a transgressão das normas de conduta dos personagens constroem o insólito.

O absurdo  

     De acordo com Teixeira (1987: 77) citado por Noa (1998), o absurdo caracteriza-se «ostentar leveza no tratamento de matéria grave, em inverter a ordem natural, histórica ou esperada das coisas. […], Põe tudo de cabeça virada».

     Pretendemos com a acepção acima, demonstrar que dadas personagens em a Saga d ??’Ouro tratam algumas situações graves com leveza, invertendo a ordem esperada no que diz respeito a sua reacção diante do grave. Trata-se de um humorismo em que «a morte se cruza com o risível» Noa (1998:99-100), tal como podemos ler o absurdo associado ao cómico, quando o soldado Francisco Barreto disposto a vingar a morte do padre Gonçalo da Silveira, embrenha-se no Mwenemutapa com 650 soldados contra os guerreiros de Negomo Mupunzaguto. Francisco Barreto esperava uma batalha encarniçada, ou seja, cruel e sanguinária. Contudo, após a dança de uma idosa por parte dos guerreiros de Mutapa, os soldados fizeram comentários, nos quais, embora assumam estar numa guerra, chamem-se de princesa; chamam os túmulos onde os cadáveres dos soldados foram inteirados de berços, o fato destes chamaram-se bebés em plena guerra, suscitou nos soldados gargalhadas até a morte. Veja-se o seguinte fragmento: «Os demais soldados, apesar de esfaimados e da dor que sentiam no corpo, acometidos de vómitos e diarreias, retomaram a marcha. A cada passo, haviam de rir-se às gargalhadas, até a morte» (Furdela, 2019: 87).

      Portanto, o absurdo concorre para construir o insólito, na medida em que a irrupção do real, é feita pelos comportamentos que os personagens não encontram explicação na lógica racional, do comportamento esquisito, Francisco Barreto reage da seguinte maneira, diz-nos a voz do narrador: «embora nada disposto a admitir o que as circunstâncias acusavam» (Furdela, 2019:83), para sustentar que lhe era difícil admitir a existência do meta-empírico, coexistindo assim, o natural e sobrenatural. Os nomes (princesa, bebés e berços) que os soldados se atribuem durante a suposta guerra, diante da morte, provam a leveza com que tratam a matéria grave.

      Nota-se ainda o absurdo concorrendo para construir o insólito em a Saga d ??'Ouro associado a uma atmosfera trágica, quando Gatsirucere ordenou a dezenas de ínfices para matar todo aquele que antes da sua entronização dormiu com sua primeira esposa. Para exemplificar podemos ler o seguinte fragmento textual:

Na noite das lanças longas, como ficou conhecida a madrugada em que Gatsirucere ordenou a dezenas de ínfices para se embrenharem nas trevas e verter sangue de todo aquele que, antes da sua entronização, tivesse dividido momentos de sexo e prazer com Dakarai, sua irmã, mulher escolhida pelos deuses para Mazarira, a primeira das três principais esposas do soberano de Mwenemutapa. (Furdela, 2019:30-31)

    Como podemos observar, o personagem principal ordenou aos guardas pessoais para matar quem tenha dormido com a primeira esposa antes da sua entronização, atitude, que pela sua invulgaridade, orientada pela loucura, nas consideradas normas de Mutapa, era inconcebível, aprovar pela «aparição de centenas de corpos estranhos a boiarem nas águas do Musengesi, rejeitados pela estirpe natural de crocodilos» (Furdela, 2019:38) domesticados para patrulhar e caçar animais como alimento para os espíritos Mpondoro, mostrando assim, que o meio não aceita a atitude de Gatsirucere. Sendo este comportamento meta-empírico concorre para justificar a construção do insólito a partir do absurdo, ao permitir que Gatsirucere trate com leveza a matéria de matar homens só porque no passado, antes de estar no trono, dividiram momentos de prazer e sexo com sua primeira esposa, Dakarai. 

O sinal de um acontecimento (transgressão ao código de conduta)

     Pretendemos aqui, demonstrar que o insólito aparece no universo da diegese para indicar e/ ou acusar dada personagem por transgredir o código de conduta vigente no meio em que se encontra inserido. Deste modo, veja-se o seguinte fragmento: «Os ritos para trazê-las de volta não produziram o efeito desejado, senão o revés com as águas a galgarem as margens do rio, para inundarem palhotas e machambas dos camponeses […] os líquidos vazantes eram lágrimas dos guerreiros varridos na Noite das lanças longas a desrespeitar as margens» (Furdela, 2019:46)

    De facto o «sobrenatural está quase sempre ligado a um acontecimento particular, que interfere no equilíbrio da vida da sociedade ou de um indivíduo» (Matusse: 1998:172). Compreende-se dada ideia, aquando da abolição da realização dos ritos de busca das esposas de Gatsirucere, cujo efeito fora inverso do desejado. Pois, ao invés se encontrar as esposas, as águas do Rio Musengesi, por causa da atitude de Gatsirucere de mandar matar todos que antes da sua entronização dividiram momentos de sexo e prazer com a Mazarira, galgaram inundando palhotas e machambas, interferindo no equilíbrio da vida da comunidade, acentuado ao facto de tais líquidos serem lágrimas dos guerreiros, que portanto, indicam e/ou acusam Gatsirucere como transgressor do código de conduta do meio, indicando, ocorre o insólito.

    Essa perspectiva, nota-se ainda quando Personagens Bengo e Mudzingaze entram na mata à busca de raízes para produzir dôro-re-simba a mando de Gatsirucere. Todavia envolvem-se numa luta, Mudzingazi viria a perder a vida e Bengo prosseguira com a viagem de modo a chegar ao reino de Mutapa, contudo já distante, admirou o seguinte: «pôde ver o fio de sangue de Mudzingaze a descrever curvas, passando por debaixo de folhas secas, ou a contornar escolhas de ramos secos, tombados sobre as areias da floresta» (Furdela, 2019:111)

   Depreende-se que o insólito aparece para indicar e/ ou acusar personagem Bengo por ter matado Mudzingaze, transgredindo o código de conduta do meio que o envolve.

Efeito de punição à transgressão do código de conduta

      Mostrar-se-á aqui, que personagens sofrem acções advindas do seu próprio comportamento de transgressão ao código de conduta, do meio natural onde se encontram inseridos, com efeito, os fenómenos em forma de punição, que recaem sobre estes, são insólitos. Recuperemos a atitude de Gatsirucere ao mandar matar homens só porque no passado, antes de estar no trono, dividiram momentos de prazer e sexo com sua primeira esposa, Dakarai, dado que no dia seguinte, além centenas de corpos estranhos a boiarem nas águas Rio Musengesi, os corvos vindos do nascente formaram gigantescas nuvens provocando escuridão que prolongou-se por meio-dia, «tempo suficiente para desaparição do Tichaona, pai de Mudzingaze» (Furdela, 2019:38). Portanto, além de acreditar-se que dada escuridão enturvaria o reinado de Gatsirucere, Rumbidzai insistiria que o «cheiro da podridão que infestava os ares do Mwenemutapa duraria até ao fio do reinado de Gatsirucere» (Furdela, 2019:39).

      Como que a confirmar-se os presságios por conta da transgressão de conduta por parte do Gatsirucere, ora na busca do equilibro ao reino, sucede consequentemente o seguinte: «Bengo começou a envelhecer, assim, a olhos vistos, enquanto se debatia como quem lutava com uma força oculta no vazio do espaço, de onde sobre o mutante corpo de Bengo havia uma serra que lembrava uma enorme cabeça de velho». (Furdela, 2019:113).

      O envelhecimento repentino de Bengo irrompe a ordem natural da lógica dos factos do meio em que o mesmo se encontra inserido, e associado ao facto deste envelhecimento impedir que Gatsirucere reequilibre o reino serve como forma de puni-lo com a decadência do mesmo. De facto, a proliferação de fenómenos meta-empíricos como efeito de punição, no meio natural constrói o insólito, interferindo na vida do indivíduo e da comunidade. Não é apenas esse fenómeno insólito que se notara após a transgressão de conduta de Gatsirucere, podemos ler «Para o espanto das anciãs que assistiam ao parto, do ventre de Manyara, centenas de crias de cabra saíram para povoar o monte cabeça de velho» (Furdela, 2019:114).

    Diante do fenómeno, as próprias anciãs ficam espantadas, perplexas. Pois, no mundo em que se encontram não há explicações para o nascimento de centenas de crias de cabra, da barriga de um pessoa, mas sim, de uma cabra, logo, o efeito da punição pela transgressão do código de conduta de Gatsirucere contribuindo também para a decadência do império, constrói o insólito.   

   Portanto, em a Saga d ??'Ouro de Aurélio Furdela o absurdo, o efeito da punição e o sinal de um acontecimento (de uma transgressão ao código de conduta) concorrem para construir o fenómeno insólito.

Bibliografia

 Activa

Furdela, Aurélio. (2019). Saga d ??'Ouro. Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda, S.A.

 Passiva

Carneiro, Raphael. M.O e Ribeiro, Ivan. (2013). Fantástico ou Realismo Magico? Um estudo sobre o insólito ficcional em o curioso caso de Benjamin Button. In Anais do Silel. Vol. 3, núm 1. Uberlandia: EDUFU;

García, Flavio.(2011). Fantástico: a manifestação do insólito ficcional entre modo discursivo e género literário – literaturas comparadas de língua portuguesa em diálogo com as tradições teóricas, crítica e ficcional. Brasil: XII Congresso Internacional da Abralic, Centros- ética, estética;

Matusse, Gilberto. (1998). «O Fantástico e as experiencias insólitas». In A construção da imagem de Moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa. Maputo: Livraria universitária, UEM. Pp 175-182;

Noa, Francisco. (1998). «O Absurdo em Machado de Assis e Mia Couto». in A escrita Infinita. Maputo: Livraria Universitária, UEM. Pp. 97-108;

Petrov, Peter. (2016). Representações do insólito na ficção literária: o fantástico, o realismo mágico e o realismo maravilhoso. In revista Nonada: Letras em Revista, vol. 2, núm. 27. Pp 95-106;

Todorov, tzvetan. (1980), Introdução à literatura Fantástica. (versão Brasileira à partir do espanhol: Digital Source).

 

*Leituras anteriores do mesmo autor, “A Dimensão Tragicómica em De Medo Morreu o Susto de Aurélio Furdela”, ensaio de culminação do Curso de Licenciatura em Literatura Moçambicana, pela Universidade Eduardo Mondlane.

  Segundo Furdela (2019:26), trata-se de espíritos ancestrais de elevado prestígio.

Já que estamos no ‘Black History Month’ aqui no Reino Unido, deixem-me contar-vos o que me sucedeu na semana passada.

Conforme sabem, sou consultora freelancer – trabalho em vários escritórios de advogados, um de cada vez. Convém-me muito que assim seja. Mas como devem imaginar, existem períodos em que não tenho projectos. Embora nunca seja motivo de grande preocupação, é natural que roa as unhas (durante estes períodos), ansiosa por um próximo projecto.
 
Como estou a fazer o meu Mestrado em Tradução (inglês-português-inglês), decidi que não queria ter períodos de roer unhas. Um contrato mais longo, preciso com um permanente, seria o ideal, embora recebesse menos.
 
Uma das agências com a qual trabalho, por telepatia propõe-me uma vaga num bom escritório de advogados (como sempre) e eu aceito o desafio, mas com pouca obsessão, por saber que, para tal posição, de certeza que iriam querer alguém que tenha estudado cá, Direito Inglês e tal.
 
“Foste seleccionada para uma entrevista e os sócios em questão são (…) e eles mesmos irão conduzir a entrevista contigo”
 
Vou a correr “checar” os perfis deles e os acho muito “cromos” e britânicos – rígidos – pelas fotos e brilhantes percursos acadêmicos e profissionais. Direito em linha recta!
 
Ligo à minha agência e explico a consultora que sou uma gaja de esquerda e que aqueles dois pareciam maningue conservadores, e por tal, estava receosa de perder o tempo de todas as partes envolvidas. Além do mais, não tinha, não podia demonstrar o entusiasmo que ela tanto exigia que eu demonstrasse.
 
“Mas qual entusiasmo? Não tenho nenhum, lamento imenso! Fretes faço por um curto período”.
 
A agente desesperadamente vende o seu peixe (não era bem o da firma de advogados em questão) e, entredentes manda-me ir à entrevista.
 
Leio a página do escritório de advogados, vejo ali um registro de esquerda. Gosto mas aqueles perfís dos sócios com quem teria de trabalhar directamente, não me convenceram, mas vou lá, resoluta em apontar os seus maravilhosos feitos.
 
Chego lá e constato que o sócio sénior, com mais de 30 anos de brilho, é deficiente. Uma deficiência que afectou a fala, as mãos e o andar. E ele é tido como dos advogados mais brilhantes na sua área de actuação e, numa firma de topo.

Houve momentos em que a sua sócia teve de me esclarecer o que ele dizia.
 
Emocionei-me ao rubro e pensei logo que, nele residiria o meu entusiasmo. Eu queria poder trabalhar para ele e perceber como ele fazia as coisas e alcançava tanto.
 
Os dois foram muito hospitaleiros. Quando eles me perguntaram do porquê de eu escolher a firma deles, eu disse-lhes que a maioria as suas áreas de actuação eram diferentes das que se repetiam noutras firmas e que pela primeira vez, via um grande escritório, a ocupar-se também, de questões relacionadas com o bem-estar da sociedade, em oposição à money, money, money.
 
“Mas nós aqui fazemos e gostamos de dinheiro também!” – disse o meu novo ídolo, risonho.
 
Fizeram-me poucas perguntas técnicas. Meu ídolo fez perguntas sobre amigos dele num escritório no qual trabalhei. Falamos sobre línguas e eles repetiam, olhando para o meu CV, que eu tinha experiência, em jeito de quem estivesse desarmado. Em tempos da Faculdade de Direito na Universidade de Lisboa, eu estaria certa de que esta rendição seria vantajosa para mim. Mas neste caso, podia ser que eles tivessem desanimado, por uma gafe insusceptível de recuperação.
 
Fui admitida e estou no sétimo céu, ansiosa por aprender, dando o melhor de mim, para não parecer estúpida, nem… deficiente?

Para além de ti
no perfil duplo da tua cabeça
quero que cante um pássaro até romper a manhã.
Fernando Leite Couto,
 in POEMAS JUNTO À FRONTEIRA, 1959

 

Ao
Mestre Calane da Silva!
Quando fui convidado para apresentar a mensagem de homenagem ao escritor, poeta, jornalista, declamador, professor universitário, Mestre e amigo Raul Alves Calane da Silva recebi a tarefa num misto inexplicável de emoções, mas sobretudo com sentido de elevação e responsabilidade acrescida. E espero dizer algo que te faça justiça, Mestre.

Vou começar por felicitar-te por celebrares neste ano 50 anos de uma carreira literária, marcada pelo visível empenho de um jornalista preocupado com as questões do seu tempo, um poeta e escritor marcado pela vida, um professor, um mentor de várias gerações de autores, de novos professores e leitores, mas sobretudo, de polivalência inexcedível em várias áreas do saber.

A obra de Calane da Silva não pode passar ao lado de nenhum de nós e urge a sua contínua divulgação por forma a alcançar muitos mais leitores desta varanda à beira do Índico. Tio Dinasse assim era chamado por muitas gerações de colegas o meu saudoso professor do secundário Pascoal Chaimite que provavelmente Calane não conheceu.

Quando a obra transcende o autor há uma verdadeira alegria que a fortuna literária pode proporcionar a quem a escreveu. O Professor Pascoal era um leitor voraz e admirava XICANDARINHA NA LENHA MUNDO de tal modo que, ao falar do texto, tremia de emoção como se fosse ele o legítimo autor daquela obra. Esta emoção que ele espalhava na aula, ensinando os seus alunos a gostar de ler. E eu faço parte dessa lista dos que aprenderam com o Professor Pascoal. Creio que houve no país outros professores como Pascoal Chaimite que ensinaram muitos outros alunos seus a gostar de ler, de norte a sul do país. Isto aconteceu porque fragmentos do livro XICANDARINHA… faziam parte do plano curricular do ensino secundário-geral. Nos últimos anos isso não acontece, infelizmente. E fazendo piada nas redes socias, alguém perguntava há meses sobre a obra do escritor Mia Couto. E a resposta dizia que se não sabia onde ele estava a construir.

Convoco o escritor russo Anton Tchekov que escreveu ao amigo Máximo Gorki sobre os professores do ensino primário e a meu ver, sobre todos os professores: «Quando me encontro diante de um professor primário, constrange-me vê-lo tão tímido, tão mal vestido, e tenho a impressão de me caber também a responsabilidade no seu infortúnio…»

Mestre Calane da Silva,
a cidade que te viu nascer há 74 anos decidiu por via do pelouro da cultura prestar-te uma tão merecida, quanto justa homenagem. O património da cidade são as pessoas que a habitam. E os artistas e escritores são os mensageiros, vertem a alma nas suas obras. Vou recordar um excerto de uma poema de Rui Knopfli que me parece oportuno:
Amo-te cidade da infância
com girassóis e casas de madeira e zinco
a dormir na neblina da memória.

Numa entrevista ao escritor Nelson Saúte, o escritor português Baptista Bastos, o cronista da CIDADE DIÁRIA dentre vários outros títulos, afirmou:
«A literatura não é importante, é indispensável. Não há desenvolvimento sem literatura, sem poesia, sem prosa, sem pintura, sem cinema, sem teatro, porque pobre dos povos – eu penso que não há nenhum- que não converse, a literatura é sempre uma conversa com o outro».

Devo dizer que dos convites que em tempos formulei, enquanto activista cultural, ao mestre Calane, para dar uma palestra em Boane, ou Matola, ou numa e outra escola da periferia de Maputo não me lembro de uma recusa, talvez, e foram poucas vezes, num e noutro caso tenha proposto uma mudança de calendário. É esta a forma de estar de Calane da Silva, uma pessoa sempre disponível para estar com os outros, para partilhar a sua sabedoria. E a geração de novos autores tem o seu dedo. Por exemplo os grupos literários dispersos pela cidade, tais como Kuphaluxa, Café com Livro, em sessões de formação, lançamentos e conversas no Instituto Camões e na Fundação Fernando Leite Couto, sem esquecer-me das primeiras edições da feira do livro, todos tiveram o seu apoio.

Noutro dia passei uma tarde a reler uma edição da revista Tempo dos anos 80, uma grande reportagem sobre a peça «Gota de Água» apresentada no Centro Cultural Tchova Xita Duma. Contam Calane e outros actores daquela peça que foram semanas e semanas de ensaios, fora de horas porque quase todos trabalhavam, e faziam teatro por paixão e prazer, algo que precisamos de transmitir aos mais novos.

Calane da Silva é membro fundador de diversas organizações, como: Associação dos Escritores Moçambicanos, Organização Nacional de Jornalistas, Associação Moçambicana de Língua Portuguesa,apoia o departamento de oncologia do Hospital Central de Maputo, foi presidente do Instituto de Língua Portuguesa e, nesta semana recebemos a boa nova, da comemoração do dia da Língua Portuguesa, a 5 de Maio pela UNESCO, foi o primeiro director moçambicano do Centro Cultural Brasil Moçambique, Presidente da Mesa da Associação Cultural Kulungwana, Membro do Comissão de Honra da Fundação Fernando Leite Couto e de outras instituições que aqui não irei mencionar.

A 20 de Outubro de 2005 Calane da Silva fez 60 anos. Um grupo de amigos e admiradores foi a casa do mestre para celebrar o seu aniversário. De entre várias peripécias recordo que ele disse «comi na palhota e no palácio». Fez a ponte entre estas duas realidades mas não perdeu os valores que aprendeu com a sua avó ronga, sua mãe em Mikhokwêni, na Malanga e com outras pessoas que cruzaram o seu caminho. Tudo para dizer que o Mestre Raul Alves Calane da Silva é uma pessoa verdadeira admirável, um autêntico agitador do sol.
 Poderia passar a tarde inteira a tentar justificar o injustificável, o que me parece óbvio e flagrante, a sua dedicação de activista da vida.
Vou usar a bengala do crítico literário brasileiro António Cândido que nos revela que «o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante».

No livro XINGONDO do meu amigo Daniel da Costa, numa das crónicas, um menino pergunta ao pai quem este senhor apontando para a estátua de Eduardo Mondlane na avenida do mesmo nome. Esta alusão ao texto do Daniel da Costa reenvia-me para a pergunta e para o vazio recorrente quando, em muitos casos alunos, são questionados sobre uma data ou personalidade nacionais. Cabem nessa lista de personalidades representativas e relevantes de Moçambique que, com o tempo podem perpetuar-se nesta cidade, nomeando lugares, o escritor, jornalista, professor universitário, poeta, declamador, actor Raul Alves Calane da Silva. E espero que muitos rapazes e raparigas saibam de futuro responder com conhecimento a uma questão semelhante.
Calane da Silva é por assim dizer a nossa Xicandarinha, essa chaleira de que muitas famílias moçambicanas e do mundo se servem para aquecer a alma.

Bem haja, Mestre Raul Alves Calane da Silva, votos de uma vida de luz, multiplicando-se por todos e por cada um.
Celso Muianga

Maputo, 26 de Outubro de 2019

*Mensagem lida no acto de homenagem ao escritor na Feira do Livro de Maputo.

 

 

O caminho é para Tete, para o planalto do Songo. O autocarro, com sinais de amolgamento na varanda das rodas esquerdas, tem preguiça de abandonar a planície da Beira. Demora-se mais de uma hora a recolher os seus ocupantes à porta das respectivas casas. A casa do último ocupante, imitando a vida de muitas pessoas daquele lugar, está num impasse. A rua não autoriza que os carros passem para o outro lado da rua, para a famosa rua 6 da Manga.

O motorista obedece e verga-se perante o impasse. Recolhe o último passageiro e inverte a marcha num chão riscado com valetas, as quais não só drenam águas pluviais. Drenam também o lixo que não cabe nas covas privadas dos moradores e que nunca foi recolhido pelos catadores.

O último passageiro traz uma pasta pequena. Minto. É grande, mas fica pequena em seu corpo, que é grande, avolumado, recheado de polpas. Traz, preso no ângulo do sovaco esquerdo, um livro para ler na viagem. Mas eu duvido que ele vá conseguir ler. Aliás, nós todos temos livros que queremos ler. Levamo-los com a certeza de que os conseguiremos ler. Cada um de nós está à espera da antipatia dos colegas para os conseguir ler. Mas o grupo é tão íntimo que dispensa a intimidade dos livros. Afinal o que está nos livros? São conversas de pessoas que solicitam a nossa afinidade e intimidade.

No novo pavimento da auto-estrada, o autocarro lembra-se que é automóvel, espreguiça-se e põe-se a mover com mais rapidez. Mas não pode muito. A multidão do bazar Filipe impõe-lhe cautela. A população corta a estrada com a imprevisibilidade e a vaidade dos bois. Detemo-nos a olhá-la e os nossos olhos desaguam no infinito dos postes magros e metálicos de iluminação, os quais suportam, nos seus pescoços, bandeiras de partidos políticos que se digladiam para mandar na população da nossa província.

Nos primeiros duzentos quilómetros, ninguém se dá conta de que o carro está em movimento. O pavimento de alcatrão ainda está jovem, sem cicatrizes. E só não tem o corpo recto porque as montanhas não autorizam. A estrada serpenteia por entre as pernas das montanhas como se estivesse a fugir de algum perigo. Talvez esteja mesmo a fugir do mar, que ameaça engolir a Beira.

Mas, nesta viagem, quem foge somos nós. Nós é que estamos a andar sem viajar. Entramos no caminho, mas não queremos ali ficar. Fingimos que queremos ir, mas o que gostamos mesmo é de chegar. A nós os verbos que nos animam é partir, chegar e regressar. O que nos anima não é o verbo viajar.  

Então, a estrada não tem pressa. As pessoas do interior, que nos vêem a passar, não têm pressa. Confirmamos isso na vila de Catandica. No restaurante em que entramos para recarregar o estômago, a garçonete não tem pressa, soneca com o rosto sobre o cimo da encosta da cadeira castanha. Mantém-se sentada enquanto regista os nossos pedidos no papel da memória. Todos pedimos galinha cafreal, o que nos faria arrepender. Demorou muito para sair, tanto que pensamos que as galinhas tivessem fugido da capoeira. Não são só os nossos pratos que demoram. As mesas vizinhas, o cenário, como se fosse história, se repete. Um vizinho, já cansado e dispensando intermediários, dirige-se para a cozinha. Ia reclamar, mas voltou a exclamar. “Não pode ser”, dizia vezes sem conta até lhe trazerem o prato. Quisemos seguir o exemplo, mas a garçonete nos disparou um sorriso, do qual nasceu palavra. “Vocês da cidade têm muita pressa”, disse.

Demorar é verbo que não encontra lugar naquele espaço. As pessoas estão ali numa eterna espera. Os agentes da polícia esperam, sentados e serenos, por um crime qualquer para se lembrarem que são agentes da lei e ordem. Em todos os lugares, a vida é assim. No “Botequim Artur Faz-se Comida”, a vida é assim”. No “Guest House Quartos de Dormir”, a vida é assim. Quem vive com pressa, chega cedo à morte: esta é a inconfessável sentença que paira no coração dos nativos.       

Partimos, depois da pausa prolongada. A partir dali, o tempo está quente e seco. O frio ficou para trás. Árvores que fazem fronteira com a estrada não nos podem saudar condignamente. Estão sem os dedos das mãos, as folhas sucumbiram por falta de chuva. As que se mantêm presas aos ramos enxutos o fazem por um amor quase religioso. Mesmo descaracterizadas, preferem tombar juntos com os ramos.

Quem parece não mesmo aceitar folhas é imbondeiro. Vemos isso quando o relevo se eleva. Sereno, o embondeiro não se importa que a seca lhe sacuda as folhas, o peso que carrega é demasiado pesado. Agora confirmo: o imbondeiro tem mais braços que dedos.

Em seus caules, divisam-se cicatrizes de feridas impostas pelo homem. Naquelas cicatrizes, o homem extraiu-lhes forças, em modo de casca. Daquelas cicatrizes, o homem transferiu forças para as estacas entrelaçadas das suas palhotas. Afinal, o que do imbondeiro sai dura para sempre.

Enquanto o homem carcome o imbondeiro, a natureza está esforça-se para emagrecer o leito da estrada, comendo-lhe as margens. Mas no centro do asfalto brilham uns buracos isolados.

Mais à frente, os buracos se multiplicam e vemos miúdos que parecem políticos em formação: atiram-nos areia aos olhos, como se estivessem a tapar buracos, e a seguir esfregam o dedo polegar e o médio em pedido, exigindo tributo pelo trabalho desfeito.

Os miúdos estão sem muitas alternativas. Não chove. O Zambeze está com pouca água, pelo que não pode partilhar com nenhum afluente. Mesmo aos influentes, o Zambeze não dá ouvidos. As hortaliças que as populações plantaram no leito das afluentes murcharam e só se alimentam de areia. É na areia que as mulheres se agacham, em serviço semelhante ao da reza. Ao seu lado, montes de roupa querem voltar a ser roupa. Na mesma areia, manadas de boi pastoreiam. Diz-se por falta de verbo. Os seus pastores tentam retirá-los do leito, mas os bovinos não arredam a pata. É ali que a água vivia. Com o focinho preso em inúmeros poços secos dos afluentes, os bois perguntam: quando é que começa a campanha chuvosa?  

Começo por dizer que “mbobobo”, numa explicação não muito rigorosa no ronga, aponta para: leilão, saldo, facilidades! Pois é o que está a acontecer com o mais importante para o desenvolvimento do futebol nacional: a privilegiação dos campos de futebol, para actividades não desportivas, desde que elas permitam, no imediato, receitas.

Exemplos: o Estádio do Zimpeto esteve impedido para o desporto por cerca de 20 dias, para a missa papal. Foi bonito, algo excepcional, os moçambicanos ficaram enriquecidos, os desportistas compreenderam e o país ficou a ganhar.

O problema é que esse mesmo estádio, é um local regular de cultos, ou outras cerimónias, com maior ou menor significado.
 
LOGO A SEGUIR…
Sempre que haja um “mega” espectáculo musical, adiam-se, transferem-se ou cancelam-se jogos e treinos, nos dias anteriores e posteriores ao evento, para a instalação de palcos. Aí, tanto poderão assistir-se a realizações culturais de qualidade, como movimentações de bundas, com artistas angolanos à cabeça e estrelas nacionais a servirem de “damas de honor”. Então, o Zimpeto abarrota, a relva sofre as consequências, as limpezas duram dois (ou mais) dias.

Mas se fosse só no Zimpeto e o futebol da capital ficasse só afectado pela monopolização do seu símbolo nacional…

A cidade de Maputo, com rigor, tem apenas quatro campos para o futebol. O do Ferroviário (dito das Mahotas), do Maxaquene, Costa do Sol e Mahafil. Escapam à mencionada “voracidade exterior” os recintos dos canarinhos e mahafilenses.

Nos outros dois campos, os futebolistas, que deveriam ser os “donos”, vão apanhando boleias, tanto para poderem treinar, como para jogar. Os espectáculos musicais sucedem-se de forma crescente, com a aquiescência dos dirigentes dos clubes, pois eles dizem que é daí que vem algum retorno…

Mas se sairmos da capital, para a Província do Maputo, o que temos? Estádio da Machava, Afrin e Liga. É para aí que se dirigem Ferroviário, Maxaquene, Desportivo, Liga de Maputo, para encontrarem espaço para as equipas principais treinarem, com alguma dignidade.
 
MEDIDAS ENÉRGICAS: PRECISAM-SE!
Se para os participantes no Moçambola o cenário é este, o que dizer para as representações na II Liga, juniores e infantis? E para os “duplicados” campeonatos femininos?

Em Cabo Verde, o Ministro dos Desportos decretou o fim da utilização dos principais estádios, para realizações extra-desportivas. Medida impensável entre nós. Porquê? Várias razões:

A primeira, muito simples: é que a maioria dos nossos compatriotas, considera perfeitamente normal pagar qualquer coisa como 500 ou muitos mais meticais, para assistir a um show musical medíocre, mas opta por ficar em casa em dia de derby Costa do Sol-União Desportiva do Songo, com o custo do bilhete a 50 meticais…

A segunda: é que será das receitas dos espectáculos musicais, que resultarão os meticais para acertar os salários em atraso com os atletas nas colectividades! Um ciclo vicioso e viciado!
Resumindo: equacione-se, um a um, o desaparecimento dos espaços, hoje ocupados pelo cimento que a todos asfixia, os “dumba-nengues” em tudo quanto é esquina, adicionando-se ao sumiço nas escolas, onde quando é preciso aumentar o número de salas de aula, o primeiro sacrificado é o espaço reservado à Educação Física e Desportos…

Concluindo: a componente principal para se fazer uma boa omoleta, são os ovos. Logo, para se ter bom desporto, são precisos espaços para a iniciação e competição. Aos vários níveis. Só que, perante a razia dos lugares onde antes se brincava, treinava e se jogava, não se pode sentir legitimidade para procurar outras explicações para o fraco desempenho do nosso futebol e para o desporto, em geral, quando nesta, que é basilar, se vive num autêntico… mbobobo!

 

Sobre eleições em Moçambique, creio que nenhum acto equiparável a um simples estalar de dedos fará com que sejam transparentes, livres e justas. Por mera questão de lotaria da vida, quando os moçambicanos foram chamados pela primeira vez às urnas, em 1994, estava eu em idade de votar, e por engajamento cívico listei-me como Membro de Mesa de Voto.

Transcorridos 25 anos, ainda equiparo o escrutínio a um jogo de futebol, com lugar em noite de chuva tempestuosa, jogando os intervenientes em terreno lamacento, escorregadio e com receio de serem atingidos por um raio na cabeça.  

Não é novidade para ninguém, Moçambique revive, de eleição em eleição, uma paz ameaçada pelo retorno à guerra, com registos intermitentes de hostilidades militares. Da memória mais recente, em 2014, com a divulgação dos resultados das eleições gerais, o maior partido da oposição em Moçambique, a Resistência Nacional Moçambicana, RENAMO, queixou-se outra vez de fraude eleitoral e, em protesto, boicotou a tomada de posse dos seus membros nas assembleias provinciais e dos 89 deputados no Parlamento, seguindo-se a isso toda uma peripécia belicista que não vem agora ao caso.

O facto de não termos olhado desde o início, 1994, para as eleições como um processo evolutivo, e assim valermo-nos de cada experiência eleitoral como capital de aprendizado para a sofisticação da nossa prática democrática, conduziu à asfixia de toda a possibilidade futura de um escrutínio insuspeito.

Quero aqui acreditar que a grande armadilha em que os partidos da oposição se meteram, foi a ideia de alcance imediato do poder, esquecendo-se de que as instituições ou melhor, as mentalidades outrora confiadas à condução dos destinos do País eram as mesmas que há pouco conduziam o Partido-Estado, em tempo de partido único, por alongamento geracional podem ser árbitros nas subsequentes disputas políticas. As hostilidades militares não permitem a transformação dessas mentalidades, pois ninguém acredita numa democracia assente no cano de uma AKM. Não seria um simples Acordo de Roma que estirparia o complexo problema de mentalidades, ou a aprovação de sucessivas leis.

Quero acreditar que o problema da democracia em Moçambique não advém de único partido, ou apenas dos partidos políticos, pois tudo deriva de onde viemos, um processo histórico de mentalidades absolutistas que iria cimentar-se até no seio dos partidos da oposição, das organizações da sociedade civil, das universidades, da instituições de arte e cultura, tudo em torno do umbigo próprio e nada pelo País. Se algum dia vier a provar-se efectivamente alguma fraude, e apontar-se o partido no poder como quem se agarra ao poder a qualquer custo, é de se perguntar: Quem no seio dos partidos da oposição não é vitalício, na sua esfera de exercício de poder? Chamaria atenção para a trajectoria de lideraça dos dois maiores partidos da oposição, e um extraparlamentar. Afonso Dhlakama, após a morte de Andre Matsangaíssa, em 1979, tornou-se Presidente da Renamo, cargo que conservou até a morte, quase quatro décadas depois, com que energia? Davis Simango é Presidente, desde a criação do MDM, 2009, e jamais presenciámos abertura para uma transparente, livre e justa eleição de um novo presidente. O PIMO de Yacub Sibinde, idem.

As organizações da sociedade civil, afinam no mesmo diapasão. Caso um desses estivesse no poder, com essa mentalidade, garantir-nos-iam eleições, justas e transparentes? Se fosse esse o interesse, à Renamo, por exemplo, não teria faltado uma visão atenta ao futuro, a médio e longos prazos. Ao gerar contestações em tom grave desde 1994, a RENAMO acaba por dar um tiro no próprio pé, a sangrar até a data.

A transição da mentalidade totalitarista da época monopartidária para uma pluripartidária, de plena democracia que almejamos, não será garantida pelo triunfo das tensões político-militares. O processo de democratização nacional clama, desde a realização das primeiras eleições gerais, por uma gradual transição, politicamente negociada entre as diferentes alas progressistas da classe política da RENAMO e do Partido no poder, entre outros. As tensões que sempre se impõem, a cada período pós eleitoral, minam o nosso crescimento em todos os sentidos, mesmo na academia, que se pretende um centro do saber por excelência, aponta-se muita massa intelectual amorfa, que em nada contribui para a produção do conhecimento. Aliás, um cientista social que não escreve, equipara-se a um alfabetizado que não lê. Não será com a ajuda de tais intelectuais da televisão em falácias “político-científicas” que atingiremos um pensamento pró-democrático.

E se a RENAMO reclama agora que a polícia favorece o partido no poder, não deve se esquecer de que também contribuiu para que esta condição prevaleça até a data. Naturalmente, a RENAMO, ao ameaçar guerra, conduziu para o reforço da ideia de que ela era inimiga da paz, espectro que possivelmente ter-se-ia dissipado gradualmente, através de uma luta política no quadro das instituições alcançadas a partir da assinatura dos Acordos Gerais de Paz. Por outro lado, se o partido no poder, FRELIMO, no quadro da tensão político-militar, faz o reforço das instituições à sua imagem, presta-se a ocupar o lugar de vilão, sempre suspeito. E, se por um lado alguém é acusado de falsificar editais, o outro é da falsificação de outro tipo de documentos, é um jogo em campo lamacento, escorregadio, onde quem perde pensa que o vencedor fez batota maior que a sua.

Outrossim, os membros da Comunidade Internacional deviam, por seu turno, procurar trazer à memória o facto de a democracia nos seus respectivos países, ter obedecido a um crescimento gradual. Aliás, a própria União Europeia, em 2004, viveu de Silvio Berlusconi a acusação a esquerda de fraude nas eleições europeias.

Sorte dos países que começaram a democratização a partir de eleição de órgãos de pequena monta, transitando essa experiência por anos a fio, até o alcance do funcionamento das eleições como acontece na actualidade. Nunca vi os partidos políticos a baterem-se nos bairros para a eleição do Chefe do Quarteirão ou Secretário do Bairro, facto que dinamizaria a cultura democrática junto do cidadão comum, e com esta atitude prestariam melhor acção na transformação das mentalidades.

A Comunidade internacional devia, provavelmente ter buscado a consciencialização dos partidos da oposição, para a necessidade de uma longa caminhada, desde 1994, e hoje não se falaria assim do uso do património do Estado a favor deste ou daquele partido. Por exemplo, no Brasil, consta que o poder local concentrava-se na figura do coronel, que lançava mão do seu poder económico para conquistar e manter seu prestígio político, coagindo apadrinhados a votar no candidato por ele indicado. O período foi marcado pela prática exercida pelas mesas eleitorais, que sabotava o apuramento dos votos, produzindo actas falsas, ressuscitando eleitores mortos, entre outros actos fraudulentos.

Apesar de contar com essa experiência e outras da sua longa idade democrática, a democracia no Brasil, ainda tem instituições judiciais capturadas a favor de alas políticas, pensemos aqui no caso Lula da Silva.

A concluir, Moçambique precisa de alcançar, por mais que seja em ritmo acelerado, a maturação da democracia, acreditando no crescimento através da superação política e não pela remoção de obstáculos pela via armada. A tentativa de remoção destes obstáculos pela via armada, possivelmente aproximou ainda mais, nos últimos anos, às instituições do Estado ao Partido no poder, Frelimo, fazendo, provavelmente, por outro lado, a RENAMO e os restantes partidos da oposição sentirem-se párias de um processo que se pretende único na transmissão legítima do poder, o resto, a julgar pelo imediatismo, seria por um indesejável  blitzkrieg. Assim, em Moçambique, face às actuais condições de pobreza intelectual, política e económica, não se pode falar simplesmente de eleições fraudulentas. A grande fraude é tentar induzir o povo a lutar por interesses particulares de um líder partidário, ou partido, quando nem os do País cabem nalguns manifestos eleitorais falaciosos que há pouco testemunhámos.

 

 

Hoje eu prometi para mim mesma que me ias ouvir. O tempo engoliu tantos dias e eu continuo presa ao mesmo instante. Envergonho-me de tudo isto, ainda não reaprendi a viver. Às vezes fico lúcida e abro os olhos. Este estado nunca deixou de me visitar. Sim, eu aceito e depois me arrependo. Não sei o que quero dizer, é muito lixo amontoado no mesmo chão. Talvez não tenha passado muito tempo, mas de certeza já te calaste o suficiente. Diz-me alguma coisa. A cada minuto fecho os olhos na esperança de que venhas me buscar. Estou acordada, mas deixei de viver desde aquele segundo.  

Quando vens me buscar?

Ontem ou hoje veio um médico ver-me. Acham que para além de viúva fiquei louca, mas só eu sei o que é isto. E tu continuas a esconder-te por detrás dessa cortina de silêncio. Nós que sempre brincámos que iriamos no mesmo dia. Não tinhas o direito, vês em que estado me deixaste? Não tinhas o direito. Quando me preparava para te dizer isto me prometi que não ia chorar, mas tens de entender que isto custa. Não consigo superar e começo a pensar que nunca quis. A vida deixou de fazer sentido desde que foste. Mudaram-me de quarto como se adiantasse alguma coisa. O que me faz lembrar de ti e daquela manhã nunca conseguirão mudar. Os meus olhos, as minhas mãos, a minha memória, o meu corpo. Tudo continua me empurrando para o mesmo precipício, faço aquele caminho tortuoso sempre que abro os olhos.
Bem sabes que não consigo suportar a ideia de andares por aí aos namoricos com as defuntas. Sim, prometemo-nos que até que a morte nos separasse. Mas tu não morreste, dormiste. Certo que não acordaste mais, mas não morreste.

Não te rias de mim, que isso me dói.

Tu vês a forma como me tratam? Sou a viúva! Vestem-me de preto e tratam-me como se eu também tivesse deixado de existir. A verdade é que morri contigo, apenas não chegou a hora de adormecer. Sempre olhei para viuvez como algo da velhice. Mas aqui estou, jovem e submersa neste poço escuro. A saudade me guilhotina a alma a cada segundo. Não me digas para calar que ainda não acabei. Não sei o que quero dizer, mas escuta-me que é tudo o que podes fazer. Não poder mais ter as nossas conversas, do verbo e da carne, dói-me mais que tudo o que te venho dizendo. Dormiste e de lá para cá não deixei de esperar que acordasses.

Quando vens me buscar?

Já tentaste te colocar no meu lugar? Isto não é algo que se ensaie, meu bem! Ainda lembro de tudo. Senti a luz do sol a invadir o nosso quarto e fingi que ainda era noite. Mas no mesmo instante decidi abrir os olhos. Era domingo, lembras? Beijei-te a bochecha e desejei-te bom dia enquanto saía da cama às pressas para a casa de banho. Ouviste aquela voz? Era eu a gritar para que te levantasses porque tínhamos pouco menos de duas horas para nos prepararmos antes de irmos à igreja.

Ainda consigo sentir a água quente a percorrer o meu corpo durante o banho. Preferia os teus braços a me enrolarem o corpo depois do banho que aquela toalha branca. Tu continuavas na nossa cama, deitado como um anjo. Ouviste aquela voz? Saiu da minha boca e disse para que te mexesses que havia coisas mais importantes que dormir.

Quando vens me buscar?

Não consigo superar isto. Vês essa mulher a chorar? Sou eu desesperada a te sacudir o corpo ao perceber que não acordas. Não morreste, dormiste e não acordaste mais. Desculpa, mas eu não sou forte como tu. Não depois da forma como aquilo aconteceu. Dormimos e não acordaste mais. Diz-me como eu explico isso para mim mesma sem enlouquecer. Diz-me como fechar os olhos e não esperar que venhas me buscar. Aquele dia amanheceu e o meu coração não aqueceu mais.

 

 

 

 

O senhor Namagulia Murara saiu quando a aurora era ainda uma utopia inimaginável. Nem a Paciência, sua esposa que se mantinha entre os lençóis encardidos, no velho colchão de molas, sentiu os passos lentos que o seu marido coreografava para não deixar quaisquer desconfianças naquele minúsculos e reles quarto, onde o seu doce, como tratava a mulher em momentos de fugazes alegrias, um hábito que nos últimos anos já se escasseava, repousava o corpo e a alma.

Pegou com certo carinho as chaves para evitar aquele tlintar que podia acordar a parceira, imprimiu nuns camaleónicos passos naquele esburacado soalho de argamassa e com as duas mãos, para que os gonzos não cantassem tão alto ao ponto de despertar a dona Paciência, abriu a porta e saiu! Em fracção de segundos perdeu-se na cacimba matinal.

Quando o ponteiro curto e grosso do relógio, preso a uma das paredes daquela velha casa de madeira e zinco, apontou para as cinco horas da manhã, dona Paciência ouviu um gogogogo incomum, ruido que a despertou do desconfortado sono. Abriu os olhos de mansinho, trouxe sua alma ao mundo e esticou as antenas do seu pavilhão auditivo para averiguar se era ou não devaneio e se realmente era sua a porta que bramia aquela hora da manhã, lamentavelmente a realidade se impôs ao ponto de pontapear a porta.

A primeira surpresa foi a ausência do seu marido, o que a motivou a se levantar e não precisou expor seu rosto ao velho espelho que espetado a uma das paredes reflectia a cama, como fazia em dias normais, apenas gritou bem forte com a intenção de abafar a algazarra que vinha de fora, enquanto procurava qualquer coisa para esconder as vaidades.  

“Qual é o problema, já?!!!!”

Mesmo que fizesse um esforço brutal, seu grito não era capaz de abafar aquele gogogogo da porta. Era um trenado barulho e os que o promovia continuavam motivados mesmo depois da intersecção da mulher. Dona Paciência nem mesmo precisou ajeitar a velha capulana que cobria apenas a parte frontal do corpo, assim que abriu a porta, com o tecido entre os dedos, viu três homens com rostos mergulhados de ira o que indiciava a disposição para qualquer selvajaria. Os estranhos invadiram-lhe o rosto murcho que trazia da noite, porém a mulher olho-os nos olhos com aquela coragem que as pessoas nessas situações não sabem de onde vem.

“Algum problema?”

“Todos do mundo!”

“O que aconteceu?”

“É isso mesmo que queremos saber…”

“Viram me marido?”

“É isso mesmo que queremos.”

Apenas um deles respondia a mulher, sendo que os restantes dois olhavam-na como famintos olham para qualquer coisa comestível, o que constrangia mais a dona Paciência a ponto de perder a paciência.

“Onde está o teu amarido!”

“Aconteceu alguma coisa?”

“Apenas diga onde, porra…”

“Eu, eu, eu… não sei onde ele está…”

A determinação dos homens foi-lhe arrancado a ousadia que trouxera da noite, começou a tremer e tremia bastante o que lhe fazia gaguejar. Os dois homens, os de sem palavras aprimoravam mais ainda aquele olhar de feras famintas. De olhos abertos e testas enrugadas pareciam rugir, tinham rostos experimentados a várias adversidades, características exaltadas pelo excesso de cicatrizes que exibiam. O trio vergava vestes pretas, não se sabia se era ou não coincidência, o facto é que aqueles trajes acompanhados daquele terror representado em seus rostos, naquela fatídica manhã, fizeram bater mais rápido o coração da dona Paciência. 

“Estás a ver alguma cara de palhaço?”

“A verdade é que eu não sei onde ele está!

“E tu és o quê?, o porta-voz dele?”

“A esposa!”

“Então onde ele está?

“Quem são vocês e o que querem com o meu marido?”

“Não queremos nada com ele, queremos é ele!”

O clima já estava tenso, dona Paciência que já estava impaciente olhou nos quatro cantos do seu vasto quintal e nada viu, apenas aquele ar sóbrio que soprava misturado na ramagem matutina. Naquela hora da manhã nenhum dos seus vizinhos havia acordado, aqueles homens desconhecidos que se não haviam apresentado, nem dito porquê procuravam o senhor Namagulia Murara, eram as únicas vivalmas ali, “Mas onde se meteu este senhor?” Pergunto a mulher si mesma sem soltar a voz e o mais agravante era que nem ela sabia o que o marido teria feito para merecer tal visita.

“Mas bem, bem, bem, podem-me dizer o quê que meu marido fez?”

 “Chega de blá, blá, blá… vamos levar ela connosco!” Determinou um daqueles que ainda não haviam tossido sequer.

“Como assim, levar ela?”

“É o que temos, djony.”

“Mas não ela quem queremos, ela é inocente.”

“Não há inocentes nessa cena. Vamos levá-la e pontos!”

Dona Paciência, depois de ouvir a sua sentença, de costas voltadas a porta, retornou para dentro da casa, fechou-a com todas as trancas e, toda a pressa e força que tinha. Ofegante, com os poros a libertarem-se, apesar de a manhã estar muito friorenta, já se via com o corpo ensopado. Correu para o quarto procurou por qualquer coisa, mas no meio daquela agitação não conseguia localizá-lo nem saber o que era, enquanto isso os três homens embarafustavam a porta com todas as forças do mundo.

Em menos de cinco minutos, com a porta já escancarada, introduziram-se no interior da casa, vasculhavam em todos compartimentos pela mulher. Dona Paciência estava num dos quartos desusados tentado quebrar a janela, e se não fosse tão dura a tabua que o marido usou para fechar aquela janela talvez ela tivesse chance de escapar antes mesmo que o homem de poucas palavras entrasse e a pegasse pelo pescoço. Assim que agarrou trouxe-a até a sala de estar, onde se encontravam os seus dois comparsas e disse:

“Quer morrer, quer viver?”

 “Onde está o trafulha do seu marido?” Berrou o primeiro interlocutor.

Vendo que não teria qualquer resposta que lograsse seus intentos, o homem deu-lhe uma bofetada de arrepiar a alma e atirou-a no soalho. A mulher desfeita chorava, chorava sem saber nenhum dos porquês de tudo aquilo. Chorava até quando os homens lhe meteram no guarda malas do runx vermelho que estava estacionado a duas léguas da sua casa.

Foi uma manhã trágica para aquela mulher, que ensanguentada não parava de chorar para o “cala-te” dos homens de preto. Quando Senhor Namagulia Murara voltou por volta das vinte e duas horas, não se surpreendeu tanto ao encontrar a casa como se fosse o epicentro de um vendaval tropical. Entrou de mansinho assim como saiu de madrugada, levou algumas peças de roupa e com uma pasta nas costas sumiu, pé ante pé e desapareceu na escuridão da noite.

Algumas horas mais tarde, numa barraca algures na cidade, quatro homens bebiam um copo enquanto estudavam o que fazer com a mulher, que respirava com imensas dificuldades no porta-malas do runex.

“Edjo, aquele gajo não virá resgatar a mulher, pá?”

“Então, vamos fazer o quê?”

“Vamos-lhe mostrar que não se brinca com a malta!”

“Como?”

“Vamos pensar bem, bradas.

“Pensar bem? Ora bolas… O gajo quando nos prometeu dinheiro, não estava a pensar bem?

“Ya, porra, a malta encheu as urnas e o gajo não quer nos encher os bolsos.”

“E dizem que ganharam…”

“Isso não me interessa, eu quero minha xibaba, djo.”

“Estás a ver, né? Esse gajo vai nos conhecer.”

“Ah vai… espera só.”

Moçambique vive um momento de grande disputa política e torna-se por essa via um campo fértil ao debate, com análises do processo eleitoral marcadas por olhares abertos de diversos ângulos. Dessas análises, atraiu a minha atenção à do investigador Joseph Hanlon. Fazendo fé ao que pude ler publicado na imprensa, sobre a sua visão do processo eleitoral em curso no País, saliento o facto de este renomado cientista social considerar que estas "foram as piores eleições de sempre de Moçambique". Julguei bastante interessante esta conclusão e assim fiquei impelido a tentar compreender o sustentáculo da sua constatação.  

Joseph Hanlon sustenta a ideia de que estas foram as piores eleições de sempre de Moçambique, realçando aspectos como: i) o facto de  em algumas mesas de voto ter havido observadores que foram obrigados a ficar de pé e, noutras, expulsos, porque, alegadamente, tinham o carimbo errado na credencial; ii) os agentes dos partidos políticos foram impedidos de entrar em assembleias de voto; iii) ocorrência de violência como elemento de pressão sobre os partidos da oposição, ainda impedidos de falar e, por último, iv) houve atraso no financiamento.

Ao ler essas considerações, um aspecto não passou despercebido em mim, o facto de o académico estar marcado por um olhar unidimensional, analisando somente por um ângulo, um processo que envolve diferentes actores e realidades.

Quero afirmar que faço qualquer análise política com a visão que tenho de uma reacção química, onde colocamos, por exemplo, no mesmo tubo de ensaio os reagentes necessários  para obter um ou vários produtos desejados, em perfeito equilíbrio de fases.  Portanto, a avaliação de Joseph Hanlon está ferida de privação desse equilíbrio, não sendo para mim nenhuma análise, mas um mero exercício de manipulação, pois não avalia todos os termos da “equação eleitoral.”

Das constatações de Hanlon, busco a afirmação de que “nalgumas mesas de voto ter havido observadores obrigados a ficar de pé e noutras expulsos, porque, alegadamente, tinham o carimbo errado na credencial.” Ora, pessoalmente, não encontro motivo para um observador não fazer a observação pelo simples facto de não estar sentado, além de que este, por vezes, se faz um elemento circulante. Honestamente, não deixei de rir-me ao pensar que, possivelmente, o académico tenha-se enganado, não querendo reclamar a falta de assentos, mas sim a não distribuição de óculos aos observadores, o que seria uma inovação no rol de recomendações dos observadores. Por outro lado, refere que noutras mesas de voto, “observadores” foram expulsos, porque, alegadamente, tinham o carimbo errado na credencial.” Aqui levanta um aspecto bastante sério, a expulsão. Todavia, essa expulsão é porque tinham na credencial o carimbo errado, ficando a ideia dúbia de que cada observador por si, carimbara a credencial ou alguém da CNE trocara a estampa do carimbo. Dizer “carimbo errado” sabe-me ainda a eufemismo, pelo qual Joseph Hanlon foge da possibilidade de admitir a ideia de um carimbo falso.  “Carimbo errado” purifica o portador dessa credencial, com que base?
Segundo, ao afirmar que “também os agentes dos partidos políticos foram impedidos de entrar em assembleias de voto”, isso é bastante grave, os agentes dos partidos políticos têm o direito de entrar e, aí, ao académico faço justiça. Mas,  não é exagero dizer que os agentes dos partidos políticos foram impedidos? Pois fica aqui, para quem lê, por exemplo, de fora do País, a ideia de que todos os agentes não entraram, visto que  “os agentes” abarca todo o universo de agentes. Será um lapso de articulação ou uma cuidadosa e intencionada hipérbole?

Ainda seguindo o olhar unidimensional do académico, ao dizer simplesmente que “houve atraso no financiamento” torna impolutos os partidos da oposição, nas consequências desse facto. No meu entendimento, quem recebe tarde os fundos para a campanha eleitoral procuraria rentabilizar o tempo que lhe sobrava, não viajaria para Europa, com direito a passeio aos campos de renomados clubes de futebol para sessões de fotografias. Custava ao académico dizer que houve atraso no financiamento, sim, mas, por outro lado, analisar a utilização imediata do valor concedido e daí chegar à conclusão de como esse elemento pesaria para estas serem as melhores ou piores eleições de sempre de Moçambique. Quanto a mim, essa afirmação é falaciosa, pois equiparo-a a dois quilos de batata aferidos numa balança de pratos sem um peso-padrão.

Ainda na sua abordagem, o renomado pensador,  Joseph Hanlon, avança que "tivemos três mil observadores da sociedade civil independentes que não conseguiram credenciais para observar as eleições” voltando a pecar pela leitura de olhar estreito, não olha o incremento do número de observadores credenciados para as eleições do dia 15. Dos dados avançados pela mídia, contra os dez mil do anterior escrutínio, quarenta mil observadores se fizeram ao terreno, e, trocando isto em percentagem, estamos a falar de um ascendente de 400 porcento. Pouco ou muito, depende do olhar e interesse particular de cada um.

Desses quarenta mil, Joseph Hanlon lembra que “tivemos milhares de observadores de grupos alinhados à FRELIMO, dos quais nunca ninguém tinha ouvido falar, e eles conseguiram credenciais". Penso aqui que o cientista social devia apontar alguns, ou trazer mínimos indicadores, sob risco de pensarmos, por exemplo, na União Europeia (UE), no Parlamento Europeu, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), no Instituto Eleitoral para a Democracia Sustentável em África, na Commonwealth e na Organização Internacional da Francofonia,  como alinhados da Frelimo ao considerarem “que as eleições decorreram de forma ordeira e pacífica”, um debate que por ora adio quaisquer comentários. Mas, algo me arrisco a afirmar, fundado nas declarações de Joseph Hanlon, ainda não há bases para afirmar-se que estas “foram as piores eleições de sempre de Moçambique.”

 

 

Só com uma pinça consegues destrinçar as vozes que te falam por cima de nuvens famintas. O mundo não é todo ele tristonho, mas esta é mais uma voz que me rouba a serenidade. São milhares que durante o dia me torturam de boca para dentro e ao anoitecer me tomam a língua, os olhos, os pés e vagueiam por estes papéis. Queria bailar à luz do luar, olhar-te nos olhos e juntos tocarmos lá como muitas vezes fomos capazes de o fazer. Estas palavras são o que vejo e não o que quero.
Minha história? Isto não é tristeza que te baste?

Matei um mosquito, vês? Continuam a viver às nossas custas, sugam-nos com tanta maldade como se a água já não o tivesse feito de forma mais que suficiente. Com a crise de alimentos que agora mora aqui no centro de reassentamento quero ver como é continuamos a produzir sangue para eles. As águas da chuva engoliram tudo o que puderam. Machambas, casas, corpos, galinhas, porcos. Com o passar do tempo, muitas pessoas que foram levadas pelas águas vão aparecendo.

Ninguém sabe onde estiveram durante estes seis meses. Não falam, não ouvem, não vêem. São só corpos voltando para ter sepultura junto dos seus.

A pobreza não chega ao fim tão já. Ciclone Idai somos nós aqui neste centro de reassentamento a viver isto que te estou a dizer. As catástrofes naturais são mais o depois que o momento em que a natureza se zanga. Eu não te quero complicar com narrações, basta-te apenas ver o que estamos a viver aqui.

Minha história? Na verdade, não gosto de me lembrar disso.
Aquela criança a chorar, vês? É órfã de pai e mãe. As águas levaram os dois para sei lá onde. De lá para cá é filha da vida. São muitas na mesma situação que a dela. Os chefes disseram que vão tomar providências. Falaram em adopção, coisas dessas. Por agora, alguns de nós é que cuidamos delas. É desumano, mas quase ninguém as quer acolher. Só dão uma caneca de farinha de milho, três tampinhas de óleo e, uma vez ou outra, uma caneca de feijão por família. Achas mesmo que alguém vai querer mais uma boca para alimentar com essa pouca coisa? As nossas famílias são numerosas, não medimos na hora de fazer filhos. Divertimento é bom, mas quando chegam coisas tristes como estas sofrimento pesa mais. São coisas da vida.

Minha história? Talvez ainda te conte. Mas não gosto de me lembrar disso, sabes?

Estamos todos a tentar refazer a vida. Disseram que vão construir casas para nós. Não te vou mentir, foi muito meu sonho nos meses passados. Para falar sério ainda é. Dormir na tenda no Inverno não é fácil, o frio viola nos sem medo. Agora com as chuvas e o calor é isto que estás a ver. Matei outro mosquito, estás a ver? Este sangue deve ser teu, cheira bem.

Queres um copo? Esta bebida chama-se Nipa. Alguém dali da outra tenda vende, é uma forma de conseguir sustento. Se tivesses chegado na sexta-feira não reconhecerias este centro de reassentamento.

Ficamos à volta da fogueira a partilhar sonhos. Não temos muita coisa por partilhar entre nós. O sofrimento que vivemos hoje e o inimigo que nos roubou tudo é o mesmo. Falando nisso, sabes que há aqueles que partilham maridos e mulheres aqui, nem? Eu não. Mas acontece de verdade. O que esperavas que sucedesse? Muitas famílias na mesma tenda, de vez em quando alguém toca o outro a pensar que é seu e acontece. Com as crianças ali mesmo…

Isto é uma ferida que ainda está aberta, por isso não gosto de lembrar. Aquilo começou com ventos fortes. Estávamos todos em casa. Ficou tudo escuro. Quando nos demos conta já estava a acontecer. Água a entrar na sala e lágrimas gordas a caírem dos olhos. Tudo ficou cheio. Fora não havia terra, nem nada. Tudo era água. Ninguém esperava que aquilo fosse assim. Mesmo agora ainda não entendo bem como aquilo aconteceu. Minha história eu nunca vou esquecer. Mas acho melhor pararmos por aqui. É noite e ainda estamos em desgraça.

 

 

A “mola” que empobrece o basquetebol 
O mesmo do mesmo, e é sempre o mesmo no basquetebol nacional. Reclamam, esperneiam, mas na hora da decisão, um aceno com as “samoras”, e escolhem o mesmo.

Gostaria de dizer que estou espantado, que estou estupefacto com as “trafulhices” que se vê no “backstage” do basquetebol, mas isso é “papo”, e nem é para Homens, é mesmo para boi dormir (se é que este animal aceita “ferrar”).

Aliás, até podíamos ferrar um ou (forçadamente) dois meses, mas “my god” 1 ano inteiro a preparar o “trono” do outro, foi uma jogada de mago, e é de se tirar o chapéu.

Mas o brilho desta jogada se viu neste processo de eleição, desde logo, salta a vista, citando fontes anónimas, que o processo “tinha de ser sigiloso, porque queriam desclassificar pela demora na entrega das candidaturas”, talvez por isso é que o tempo para se candidatar foi de meros sete dias.

Um dos candidatos quase foi pego nessa arapuca. Safou-se pela lei, mas como quem entra na chuva é para se molhar, também ele decidiu jogar com as mesmas “cartas especiais” molhando as mãos dos outros. 

Num áudio que agora circula por aí nos “whatsups”, um dos (quatro) candidatos terá acusado uma outra lista de estar a prometer “muito dinheiro” para arrumar a concorrência. Era tanto dinheiro que “ele” não conseguia ombrear de igual forma.

Eram 70 mil “paus” em jogo, ninguém (os presidentes das Associações que tem direito a votar para escolher o presidente da Federação Moçambicana de Basquetebol) queria perder a “bolada”.

Mas este bolo (70 mil meticais) era só uma parte do verdadeiro prémio pelo apoio. A outra parte iria/irá ser usufruída agora, depois da eleição, aliás, duas listas candidatas tinham nomes dos presidentes de associações provinciais como seus membros.

É como um indivíduo que é jogador de uma equipa e ao mesmo tempo é o árbitro do jogo. Isso é uma pouca-vergonha, um presidente de uma Associação Provincial de Basquetebol não pode pontapear todos princípios éticos e desportivos. 

Com vontade de corrigir este comportamento distorcido, ouviu-se um sussurro nos corredores jornalísticos, sobre uma fonte carregada (obviamente) de interesses, que queria denunciar este esquema do “ma paga bem”, mas parece ter perdido a voz. 

A voz desapareceu mas os “deals” estavam ao rubro nos bastidores, e as possibilidades eram grandes para qualquer um dos “players”, e lá no “backstage”, ficava cada vez mais claro que nesta maratona, quem sairia a perder era a peça mais importante, o basquetebol. 

No dia de eleições, os discursos eram muito bem elaborados, excepto de um dos candidatos, que convencido de que havia pago o suficiente, deu-se ao luxo de não elaborar um discurso, falando apenas durante meros cinco minutos, dos 10 que tinha, sem apresentar nada, nada, nada de interessante. 

O outro candidato até elaborou um discurso, mas deixou claro que queria fazer exactamente como o antecessor, ou melhor, queria continuar com o trabalho feito pelo antecessor. 

No fim, quem realmente queria mudanças no basquetebol foi arrasado, arrisco dizer que foi humilhado, e no máximo, teve um voto apenas, mas do que isso, só os “boladeiros” mais hábeis. 

O mais triste é que depois de todo fingimento deste processo, uma das listas decide reclamar da outra, o roto tentava denigrir o rasgado, num processo patético em que confirmava-se a ruína, o descalabro, a decadência do basquetebol. 

 
  

A Associação dos futebolistas moçambicanos assinou com o Instituto de Segurança Social, um Memorando de Entendimento que aponta para a resolução de um dos maiores câncros do nosso desporto, com enfoque particular no futebolista: a incerteza no pós-actividade.

Poderá ser uma emenda pior que o soneto, caso não se cuide de algumas questões centrais, de onde ressalta o facto de se tratar de uma actividade exigente e de curta duração. Há portanto que atender às especificidades e exigências, pois a carreira do jogador, em regra dura pouco mais de 10/15 anos, descontados os períodos de formação e afirmação.

Para os outros profissionais inscritos no INSS, a reforma só começa a ser considerada a partir dos 35/40 anos.

FIM DO PROFISSIONALISMO ENCAPOTADO?

A divulgação/publicitação do rendimento dos nossos futebolistas, passará a ser uma exigência? Ou isso representará o destapar de um tabu?

Na alta competição de hoje, se qualquer cidadão pretender aceder aos rendimentos de um jogador do Manchester United, Benfica ou Sporting, fá-lo com a maior das facilidades. São figuras públicas, pagam impostos e têm salários acima do cidadão comum. Os clubes vivem basicamente da compra e venda dos atletas, “merchandising” e quotas dos sócios. Por esta ordem.

As receitas e despesas correntes, salários dos futebolistas e funcionários – nalguns casos do próprio Presidente do clube – têm contas auditadas, sendo objecto de discussão pública.
Mas entre nós, não vai ser tranquilo. Porquê?

Maioritariamente, a origem dos rendimentos dos nossos clubes, vem das empresas públicas, logo do Estado e, consequentemente dos impostos dos cidadãos. Só uma ínfima parte delas provém dos sócios e simpatizantes.

E todos sabemos que as verbas envolvidas na contratação de um jogador acima da média – nalguns casos estrangeiros – não têm nada a ver com a de um trabalhador médio. E como este reagirá, ao saber que do seu suor, uma parte foi canalizada para a contratação de um craque, que actua num clube, que muitas vezes nem é o da sua preferência?
Contratação de estrangeiros, técnicos bem pagos, deslocações cómodas e atempadas, estágios com boa alimentação, departamentos clínicos à altura, têm custos, nem sempre brandos.

As empresas públicas, terão que gerar e gerir contas paralelas. O espaço entre o ser e o parecer, vai ser alargado. Declarar uma ínfima parte dos rendimentos e depois alocar o resto “por baixo da mesa”, poderá acontecer no imediato.

Mas as soluções definitivas, apontam para um “apanhar do comboio” da modernidade. Nós, porque lhe perdemos o passo, teremos que saltar para as últimas carruagens. A alta competição tem que passar a ser um negócio, em que o craque é o activo principal. Porém, para ele aparecer e impôr-se, no panorama nacional e internacional, o investimento tem que ser DE FACTO na formação, com planos efectivos e não subalternizados, de médio e longo prazos.

 

A realidade, muitas vezes, tende a converter-se em normalidade e pior ainda, a se nos apresentar como uma verdade inalterável. Por isso mesmo, Brecht nos recomenda a questioná-la sempre, a desconfiar do mais trivial, dito em palavras simples: a não confiar nas aparências. E é justamente esse o tema da parábola. A velhinha que mendiga compaixão na esquina, afinal é um lobo disfarçado, à caça de uma oportunidade para devorar a menina. E de repente o sapo ancorado no charco da rua, não é que é um príncipe amaldiçoado. Enfim, o nosso imaginário está repleto de exemplos do género. Entretanto falemos de A Noite das Hienas, uma parábola hiperbólica que resulta do cruzamento entre A noite dos Visitantes do dramaturgo alemão Peter Weiss e Babalaze das Hienas, do poeta moçambicano José Craveirinha.

Se de um lado estamos perante uma história de uma família camponesa – cujo único luxo é um laçarote cor-de-rosa – que numa noite se vê invadida por dois estranhos – cada um a seu tempo e com estratégias contraditórias, mas ambos decididos em pilhá-la e matar – doutro somos confrontados com poemas que põem a nu as mais bizarras tragédias decorrentes da guerra, a mãe das tragédias.      

Enquanto Weiss recorre ao verso e à rima para, digamos, fugir do enguiço da psicologia doméstica e agrava mais ainda a trama pelo lado da objectividade de imagens e falas, os poemas de Craveirinha encontram no exagero o tom mais apropriado para denunciar a barbárie. O que, obviamente, resulta numa “complicação” interpretativa, pelos múltiplos sentidos que esse diálogo sugere. E as opções da encenação, em termos de jogo dos actores, escolha da cenografia e demais ingredientes necessários para confeccionar o espectáculo, acabam sendo um trabalho de descomplicar complicando doutra maneira, simplificando aliás.

É a esse exercício matemático que nos temos dedicado há três semanas, e cujo resultado, não sendo definitivo, porque o teatro não o permite, nos propomos partilhar com o público da cidade de Maputo nos dias 18 e 19 de Outubro, pelas 18 horas no palco do Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane.

Com encenação de Fernando Mora Ramos, esse projecto teatral resulta da parceria entre o Teatro da Rainha, de Portugal e a Escola de Comunicação e Artes de Moçambique. Pela complexidade do trabalho e devido a escassez de tempo e recursos financeiros, assumimos essas apresentações como um exercício, uma primeira mostra, em bruto, do que almejamos, que queremos que, num futuro breve, se torne um espectáculo. Há neste processo, na apresentação da forma exercício antes do espectáculo, uma dimensão pedagógica sobre o fazer teatral que nos interessa partilhar, uma maneira de pôr à vista um work in progress.

Cruzar dois autores como Piter Weiss e José Craveirinha, assim como fazer interagir um encenador português com actores moçambicanos é, por si só, um grande pretexto para pensar o mundo e o teatro enquanto espaço de discussão sobre a arte e a vida.  

    

Ficha técnica

Encenação: Fernando Mora Ramos

Assistente de encenação: Venâncio Calisto

Interpretação: Castigo dos Santos, Fernando Macamo, Josefina Massango, Maria Clotilde, Samuel Nhamatate e Venâncio Calisto.

Apoio a cenografia e figurinos: Sara Machado

    

Juro que não sei, sinceramente, não sei. O que esperas que eu te diga depois do que vi ontem? Não me interessa quem assinou o quê, apenas me diz se se faz isso. Celebrar o quê? Quem? Eu? Não me pede para não chorar, apenas me diz se se faz isso. Eu vi com estes olhos. Achas que alguém parou para pensar nisso? O que sabem sobre ele? zero, não sabem nada. Paz de quê? Estou a chorar sim e não me tome por louco, sei bem do que estou a falar. Diz-me lá se se faz isso, diz-me lá, diz…

Os dois autocarros tacteavam a estrada com autoridade. E ela não pedia muito, apenas rogava que aqueles senhores que os comandavam fizessem o combinado. Ambos se tinham deixado aconchegar nos cuidados do outro. A estrada, no meio da savana, continuava aberta e os autocarros, separados por uma distância considerável, deslizavam tranquilamente. Aqueles motoristas já tinham feito vários pactos semelhantes àquele no passado, conheciam aquela estrada há muitos anos.

Uma luz tímida iluminava o amanhecer ao ritmo daqueles passos ténues que os primeiros raios solares gatinhavam. Eram quase cinco da manhã. Estávamos na mítica Gorongosa. A ponte sobre o rio Púnguè deitava os seus olhos sobre os autocarros que passavam Dongobe e cheia de si se estendia para sentir aquele deslize, que a estrada já vinha sentindo desde há muito tempo, e cumprir o seu honroso papel de permitir que eles fossem para o lado de lá sem serem engolidos pelo rio. De repente, o sono que nos tinha feito companhia, desde que a viagem tinha começado, foi espancado por um sentimento que nos arranhou a alma, acredita no que te digo, aquilo deixa sem ar e faz qualquer um pequeno. O medo quando nos visita deixamos de existir.

Eu estava lá, eu vi aquilo. Não fizemos nada de mal a ninguém, nenhum dos que estavam naquele autocarro merecia aquilo. Aquilo não se faz…
Continuo ouvindo aquele ruído de balas a atravessarem o autocarro, continuo ouvindo pessoas a gritarem descontroladamente, continuo sentindo o pânico a ferver-nos o sangue e a cozer-nos os corações. Aquela chuva de tiros pareceu durar o tempo suficiente de um dilúvio. Uma chuva de tiros, uma chuva de balas. Diz-me lá, faz-se isso? diz…
Eu não parava de me perguntar o que era aquilo, ainda não parei. Enquanto escondia a cabeça por baixo do assento, como todos os que viviam aquele inferno, o nosso herói pegava o volante com vigor e pisava fundo no acelerador do autocarro. O que era aquilo? O que tínhamos feito para merecer aquilo? Uma chuva de balas…

Minutos depois a chuva parou e rios de sangue corriam atabalhoadamente pelo autocarro em alta velocidade, talvez buscassem um mar onde desaguar a dor que marchava em sapatos de bico fino naqueles corpos. Muitas pessoas foram atingidas, dentre elas o motorista, mas ele acelerava, continuava firme com as mãos no volante. Aquele homem nos salvou, não a todos, mas nos salvou. Eu vi com estes olhos, que agora estariam cerrados para eternidade, um homem morrer. Sei que nunca sabemos qual é o nosso dia. Mas alguém sai de casa, entra num autocarro para viajar, é baleado e morto como se fosse um bandido. Disparar em pessoas indefesas daquela maneira! Diz-me lá, faz-se isso? Faz-se?

Desculpa, mas isto não é nenhum desprezo. Não me digas para que não chore. Eu estava lá. Não posso ignorar tudo depois daquele sangue ter-me tocado.

Hoje é um dia de festa para quem não esteve lá. São quatro da manhã e ainda não consegui adormecer. As pessoas vão acordar mais tarde que é feriado, vão fazer um frango assado na grelha, vão passear, vão depositar flores na praça da paz, vão fazer campanha eleitoral. Isto tudo não passa de uma hipocrisia nacional. Ninguém tem culpa. Não é da tua casa, não é alguém famoso. Mas eu estava lá e vi tudo. Há dias foi em Zimpinga. Ontem foi em Dongobe. Amanhã onde será? Hoje o que celebramos? Quando consigo cerrar as pálpebras só vejo aquele rio de sangue arrastando uma vida para morte. Sim, hoje é 4 de Outubro, o resto não sei, juro.

 

 

A terra guarda a raiz da gente. Mas a mulher é a raiz da terra.

Mia Couto

 

 

Caramba! 28 minutos atrasados. Mas chegamos, ansiosos e motivados, afinal no palco do Franco-Moçambicano estava, quinta à noite, uma bela mulher: Assa Matusse, essa raiz da terra que também é som, sonho e vibração.

À nossa chegada, “a menina do bairro” cantava a música “Estranho” para uma audiência que encheu a Sala Grande, ao estilo afro/jazz, grandiosa trajada de um vestido preto com uma racha à esquerda como protagonista. Assa estava na sua melhor noite, gira, álacre e cativante, divertindo-se no seu espectáculo até à exaustão. E ela não é egoísta, então para gozar aquele momento em que o + e o Eu misturam-se como que mecanicamente, convidou a amiga Duduzile Makhoba para juntas interpretarem “Estranho”. Então a sul-africana apresentou-se no palco entre aplausos expectantes. A intombazane não envergonhou no dueto e nem quando actuou sozinha. Entretanto o espectáculo era de Assa. Por isso, minutos depois de se ter recolhido para os bastidores, onde foi trocar aquele vestido matreiro, culpado por eventuais distrações masculinas, voltou ao palco e continuou a proporcionar ao auditório momentos de boa música.

– A Assa Matusse está muito madura! Aquiescemos, quando Leonel Matusse, um bom amigo, finalmente rompeu o seu silêncio para se render ao talento em forma de mulher. E, de facto, o jornalista do Notícias estava certo. Durante o concerto, Assa provou estar preparada para aquele tipo de eventos. Sempre afinada, desinibida e envolvente, a artista mostrou que quando tudo é bem feito pode não haver diferença entre um álbum e o show ao vivo. Fez sentido ter cantado “Fenomenal woman”, pois é isso o que está a tornar-se ao levar para a música a sua feminilidade acompanhada de um acentuado poder de observação. Está aqui uma explicação para a cantora ter recriado “Nitxitxile” e inserido no seu álbum de estreia. A interpretação dessa música foi feita com paixão, lembrando-nos do que a xenofobia tem feito dos moçambicanos na África do Sul. Ainda bem que a cantora sabe separar as coisas, daí ter chamado Duduzile.

“Menina do bairro”. Assa também cantou essa música, um exemplo de quem reivindica a origem, a infância, os sonhos puros dessa fase e essa disposição de ir à ribalta para dar atenção ao seu tão amado Mavalane. Acompanhada da sua banda, a cantora contou essa história sobre ser em função das circunstâncias.

Ao som de Assa, o tempo passou rápido no Franco. E foi supersónico quando Mingas deixou o assento de onde viu quase todo o concerto, ali bem perto dos holofotes, para cantar com a autora de + Eu. Com Mingas no palco, o espectáculo ganhou um contorno mais electrizante. Ambas cantaram “Xihono” e “Ndzumba”. E lá os telemóveis saíram dos bolsos para registarem em vídeo épocas diferentes personificadas na qualidade vocal de duas mulheres.

A propósito de mulheres, Assa homenageou todas aquelas que, sendo raízes da terra, fazem por merecer, ao cantar “Carinho de mãe”. Apenas um reparo, talvez os cantores, durante os espectáculos, devessem parar de falar ao fim de cada música que cantam. É desnecessário. Muitas vezes, Assa caiu nessa tendência aborrecida de explicar, justificar ou mesmo cumprimentar pessoas queridas. É dispensável.

Seja como for, a algumas horas do Dia da Paz, a “menina do bairro” conseguiu realizar um concerto equilibrado, à altura do seu primeiro disco, e, a partir daí, desejando ou não, refrescar-nos o espírito para o que aí vem a seguir.   

 

É claro que o império do Zimbabwe (1220-1450), que contemplava o vasto território que vai desde o Índico até ao país que hoje herdou este nome, foi um dos mais bem-sucedidos impérios endógenos da África, com imensos reinos vassalos, Estados-satélites, que desempenhavam a função de, como hoje em dia funcionam as províncias, entrepostos tributários que enriqueciam a capital: o Zimbabwe, o amuralhado de pedras onde ficava a corte e todas as artimanhas que o poder exige.

O que demonstra a existência de uma divisão social do trabalho fortemente desenvolvida, o que, como efeito, origina dois grupos de actores sociais: os que trabalham na produção directa dos meios de subsistência e os que se dedicam as tarefas de prestígio, sendo que estes últimos vivem do esforço dos primeiros.

Apesar deste sistema de reinos tributários, o império do Zimbabwe teve vários e longos ciclos de governação dirigidos por diferentes mambos, os mwenumutapas, soberanos dos Mutopas, cuja ascensão ao poder destes nunca era de forma pacífica, isto é, sempre houve disputas entre os estados-satélites para a ascensão ao poder de qualquer monarca, e só a força era necessário para manter e controlar este poder absoluto, como em qualquer governo da actualidade. Todavia, no império de Zimbabwe estas lutas, de e pelo poder, foram, como reza a história, a condição sine qua non para a decadência do império.

Bom, como devem imaginar, não será a história, no sentido académico, o interesse primário desta lavra, mas a história como lenha para a fogueira chamada ficção, o que origina os chamados romances-históricos, onde a memória estabelecida pelo homem através da escrita do seu próprio passado é usada como matéria-prima para novas narrativas. Este género alberga um campo teórico bastante discutido, e nisso várias são as ilações. Em sumula, a historiografia, enquanto campo científico que estuda os factos no tempo, ocupa um lugar subjectivo no presente, portanto é um género fechado e encerrado como o mundo que representou, enquanto o romance-histórico é objectivo, encontra-se em processo de construção e reconstrução permanente, sendo capaz de dar conta da multiplicidade e complexidade do presente, e sem perder os faróis do futuro. Daí que, a denominação romance-histórico não é determinada por qualquer traço interno, mas é um dado externo, peculiar e sem relevância para a realização estética, o que obriga mestria e sagacidade dos autores que neles se lançam para que não caiam no espaço comum, e isso pode-se dizer que a “Saga d’Ouro”, do escritor e dramaturgo moçambicano, Aurélio Furdela, é o exemplo, não foi por acaso que a sua distinção com o prémio INCM/Eugénio Lisboa, um galardão destinado a distinguir as mais destacadas obras escritas em língua portuguesa, no género de prosa, sendo que para a edição 2018 reconheceu a obra de Aurélio Furdela.

Vamos ao que interessa: Porque debater as vicissitudes do poder dos mwenemutapas hoje?, ou melhor, que importância tem este romance na vida actual dos moçambicanos e de Moçambique?, a resposta a essa questão é actual e futurista, e funciona como um acre-doce que se dissolve na língua, por um lado adocicando o nosso imaginário colectivo, enquanto leitores, e por outro lado azeda a nossa consciência colectiva, enquanto moçambicanos.

Nesta distinguida obra, Aurélio Furdela desmascara os egos que inflamam a nossa vida, desvendando a ganância pelo poder na África actual. Neste livro há viárias aspectos que me fascinam, todavia para esta humilde opinião de um leitor desprovido de qualquer instrumento de medição, seja literário, histórico ou mesmo político, irei destacar apenas três que são:

1) A técnica da narrativa, neste ponto fascina-me bastante a forma e a estilística, a maneira como Furdela traz-nos a história, é uma narrativa que nos embala, nos coloca nas asas das mais belas águias da imaginação e que elas nos transportam para o tempo, este tempo-histórico onde vivemos a história como se nós, os próprios leitores, contribuíssemos para reconstruí-la, ou melhor, é como se nós fossemos os personagens dessa mesma história. A partir deste livro, sentimos até o cheiro das pedras que compunham o Zimbabwe e o medo das supersticiosas assombrações de Rumbidzai, o grande feiticeiro, a quem teria sido convidado pelo soberano para conter os inimigos da corte, ou melhor, eternizar-se o mambo no poder.

Ao ler este livro ficamos com a verosímil impressão, mas nunca com a certeza de estar a ler um manual de história, pese embora o facto de aprendermos e apreendermos imensas configurações dessa historiografia que muito nos importa conhecer. Esta é uma narrativa complexamente envolvente e empolgante que nos lembra outro mestre do romance-histórico, Ungulani Ba Ka Khosa em Ualalapi.

Outro aspecto relativo a narrativa é a beleza e coerência dos diálogos, aqui arrisco-me mesmo a dizer que Aurélio Furdela é, ou pode vir a ser, o escritor que mais domina a mestria de construir diálogos na literatura moçambicana, talvez seja pela sua passagem, e também fixação, pelo teatro.

2) A ironia e o sarcasmo com que o autor caracteriza os personagens, sobretudo o protagonista, GatsiLucere, historicamente conhecido como o traidor, aquele que, pela ganância desmedida e covardia crassa, teria permitido a entrada e fixação de comerciantes portugueses no império e que estes, a partir desta brecha, exploram e saqueiam as minas de ouro, colocando todos, desde homens, mulheres e até crianças, na mineração, em detrimento da agricultura e pastorícia, actividades principais do império, o que gerou revoltas populares, sobretudo dos mwenemushas[1] de Quiteve e Manica, contra o mambo.  

Furdela neste livro consegue transpor para o papel a mais covarde imagem de um soberano, um monarca prepotente, como diz Ubiratã Sousa (in prefácio) “GatsiRucere é tão-somente um anti-chefe parasitário, que assume um poder sem poder e é incapaz de qualquer grande feito.” Esta imagem de prepotência, arrogância, de um líder desvinculado de sua própria liderança, capaz de prostituir-se, a si e ao reino a qualquer um ou seja lá quem for em troca de “mais-valias” ou mais dias no trono, é-nos bem fresca e actualizada enquanto moçambicanos e, muito semelhante a dos soberanos que pululam pelo mundo afora, com mais incidência nessa tão má desgovernada África. 

E é esta relação, da história do reino do Zimbabwe com actualidade moçambicana, onde reside a importância de os moçambicanos do séc. XXI conhecerem as sagas para as quais se chega ao trono, e é este (3) o último ponto, uma vez que ao se ler este livro ficamos com aquela dúbia sensação de estarmos a repetir a história, arrancando deste tão importante ramo do conhecimento humano, a sua nobre função de conhecer o passado para melhor perspectivar o futuro, tudo para que ela não se repita.

Este livro, por um lado, chama-nos a razão para essa incoerência histórica que cometemos, todos nós, porque todos temos algo a dizer para que não sejamos repetidores de nós mesmos, enquanto protagonistas do nosso destino. Por outro lado, a obra mostra-nos uma verdade que optamos em ignorar, que apenas as revoluções, as insurreições armadas são único caminho para mudar ou desmontar qualquer ditadura, e que o sangue que se verte em revoluções é sacrifício, fermento útil para as mudanças que se pretendem, sejam elas em reinos ou democracias pequenas ou grandes, consagradas ou não. Sem querer ser demasiado peremptório, todavia este livro mostra-nos que, volvidos todos estes séculos (do longínquo império do Zimbabwe a actual África), os nossos líderes não conseguiram e não conseguem se desfazer do poder de forma pacífica, e tudo indica que estes não conseguirão desenvolver uma consciência democrática, enquanto os vemos todos os dias empenhas na procura de um Rumbidzai, um feiticeiro, a qualquer preço, que exorcize opositores, e se possível toda a oposição dos seus regimes, e todos aqueles com ideais e ideias diferentes para que eles reinem eternamente. “Mas eternamente não, patrão”, como diria Craveirinha.

Mesmo a desejar uma boa leitura, terminaria citando Cleber Sadoll Costa, brasileiro afeiçoado pela literatura moçambicana que, comentando sobre esta “saga” adianta: Num livro que deixa espaço para ambiguidades e metamorfoses, o autor surrealiza com destreza, e enquadrá-lo em qualquer categoria confortável seria como impor limites ao já escrito e ao que há de ser lido – percebido. Em “Saga d’ Ouro”, a malícia é dosada, a ironia é apimentada. Um livro pronto para ser lido mais de uma vez…

 

 

 

[1] Pequenos chefes de aldeais

 

Ontem choveu em Lisboa. Tudo o que me vem aos olhos são as lágrimas que inundam o buraco no qual aquela criança se contorce. Amanhã é Outono. Eu sei que já te contei isto, mas deixa-me contar, custa-me, mas deixa-me contar-te que só assim enxugo aquelas lágrimas. Hoje estou de cama. A temperatura mudou e, como sempre, apanho com isto no corpo. Sinto a mudança bem aqui no fundo. Há anos que no meu corpo a mudança de temperatura é anunciada por meio de dores.

Estou febril, dói-me o corpo todo, mas deixa-me contar-te.

Muito mais que minutos de silêncio precisamos de acções. Não digo isto porque quero, mas porque a temperatura mudou e os alertas ressoam na minha carne. O meu corpo ardendo em febre e os gritos das dores da minha perna direita superam todas as sirenes do mundo. Isto sempre me faz retornar àquele dia. Nunca se esquece algo como aquilo. Desculpa-me, mas eu tenho de te contar.

A campainha ecoa na escola. Que se dissipem as dúvidas para quem ainda bailava nesse pêndulo, é mesmo hora do recreio. O pátio da escola ganha cor e vida com as centenas de alunos que saem das salas. Frequentam todos a sexta e a sétima classes, a média da idade deles é de doze anos. O sol já estava quase no lado de lá e depois daquele intervalo viria a última aula do dia. As centenas de vozes se aliavam aos sons da natureza e executavam a ópera típica do recreio de uma escola do ensino primário.

As crianças pulam, gritam, vão trocando chalaças e riem entre sim. Todas brincam. O intervalo vai quase ao fim e uma delas corre (não me pergunta o motivo). Traz no corpo calças azuis escuras, um camisa azul do céu e sapatos pretos. A corrida não vai até muito longe, é interrompida por um empurrão e o rapaz cai numa cova que se encontra ali pertinho. Nunca se soube quem o empurrou, nenhuma criança se denunciaria ao se dar conta da gravidade do problema gerado.  

A dor que senti naquela cova continua aqui comigo e as lágrimas que despontaram destes meus olhinhos desde o momento que não consegui mexer a perna direita até o dia seguinte ainda inundam aquele buraco.

Deixa-me contar-te, deixa.

Não tardou e aos poucos aquele lugar ficou cheio de crianças com aquele uniforme azul que nos obrigavam a usar. Os meus colegas foram comunicar aos meus professores o que tinha sucedido. Precisei de ajuda para sair daquela cova. Os meus professores apareceram no lugar onde tudo tinha acontecido. Todos não paravam de fazer perguntas como «onde dói, Miguel? Como te sentes, Miguel?». Aquelas lágrimas onduladas que jorravam dos meus olhos eram as únicas respostas que eu conseguia formular.

A minha escola, como a de quase todos os moçambicanos, não tinha uma enfermaria para primeiros socorros e nenhum dos meus professores tinha carro. Não havia como me levarem ao hospital. Acabou decidindo-se que era melhor me levarem para minha casa. Coube aos meus colegas mais velhos e com estatura um pouco mais robusta me carregarem até lá. As lágrimas em catadupa inundavam as ruas, nasciam rios suspensos na minha dor. Naquele dia não houve mais aula e uma multidão de colegas me acompanhou até a casa. 

Isto nunca passa. Estou febril, mas deixa-me contar-te.

A minha mãe não queria acreditar no que tinha acontecido. Ainda lembro do teu ar preocupado, mamã. Lembro de tudo. Felizmente naquele dia meu pai estava em casa e tinha trazido com ele o carro do serviço no qual me transportou até ao Hospital Central de Maputo, onde um hora depois eu estava deitado numa maca com a perna direita toda engessada.

Sempre que a temperatura muda, a minha perna dói e a memória despeja-me tudo de novo. Deram-me cabo da perna. Isto não se apaga. Deram-me cabo da perna e me pergunto, mas e o que lembrarão os violentados desta campanha eleitoral? Não me venham com merdas. Façam quantos minutos de silêncio quiserem. Isto nunca passa. Hoje estou de cama. Amanhã é Outono.  Choveu em Lisboa ontem.

 

 

– DE SUSTO MORREU A CRÍTICA

Ubiratã Souza

Peço que me perdoem. É preciso começar por reflexões de cunho teórico. Dizia o professor Ngoenha em certa ocasião que uma reflexão sem teoria é como uma casa a ser construída sem uma planta. Por isso é preciso iniciar dizendo que, por mais que tergiversem, debatam, se confrontem e discordem as teorias e os métodos, parece ser assente que há duas maneiras possíveis de que a literatura estabeleça relações com a história. Uma delas é atávica, a outra pode ser mais ou menos arbitrária. Consoante a cada possibilidade, modificam-se no detalhe os significados tanto da palavra “literatura” quanto da palavra “história”. Mas, vamos por partes.

A maneira atávica da literatura estabelecer relações com a história não depende exatamente da literatura, mas depende do olhar crítico que deve reconstituir essa relação através do ato interpretativo. Refiro-me exatamente à historicidade da literatura enquanto fenômeno social – essa relação já está dada por hereditariedade: assim a literatura nasce, fiel às características remotas de sua ascendência. Reconstituir essa relação entre literatura e história durante o ato crítico é só um objetivo.

Chamo esta primeira relação entre literatura e história de “atávica” justamente porque ela é inelutável, é a essência da própria existência da literatura na sociedade. Não é arbitrária. Ela prescinde de qualquer possibilidade de esforço por parte do autor. Qualquer discurso humano é impregnado de uma historicidade que lhe estimula, fomenta e limita organizações e articulações específicas, mesmo na dimensão da linguagem. Ainda que o escritor busque negar essa relação, ainda que o crítico a dispense durante seu ato analítico, ainda que os leitores não deem por isso, ainda que essa relação seja completamente irrelevante: ela está lá. E os mínimos detalhes de organização da língua (seja uma peculiaridade no posicionamento do aposto predicativo, por exemplo), poderão, algures, ser usados como índices que comprovarão a historicidade da literatura. Nesta acepção, a literatura assume uma significação social mais abrangente, que a inscreve como produto da relação entre seres sociais inscritos na história. A história, por sua vez, caminha em direção a significar mais que um campo de estudo, mas torna-se aquela História (que se grafa em maiúscula), precisamente o objeto de estudo da disciplina história (a “cadeira”, como se diz em Moçambique). Pronto.

Já a outra forma de relação entre a literatura e história, a que chamo de arbitrária, trata-se da forma mais comum, direta e óbvia de evidenciar essa relação. Esta, sim, depende totalmente da arbitrariedade do autor, e, quando está bem realizada na obra, o crítico não tem muito como nega-la. Trata-se, em suma, de como o autor pode se apropriar da história como elemento para a composição de sua obra. Neste sentido, a palavra “história” se refere somente à disciplina formalmente organizada (a cadeira) e suas infinidades de sequências narrativas. Seja como tema, seja como dados auxiliares e contextuais que servirão como pano de fundo a uma narrativa construída em primeiro plano, seja por referências esparsas ou por reprodução de discursos, a história, nesta relação arbitrária, pode aparecer em menor ou maior grau de intensidade dentro da obra – ou pode nem aparecer. É nesta acepção que passa a ser útil se referir a uma obra como “romance histórico”, por exemplo, pressupondo que existam outros romances que não sejam históricos: ou seja, existem romances que não se ocupam da apropriação da narrativa historiográfica como elemento de composição como aqueles ditos “romances históricos”.

Sim, isso mesmo: se foi possível acompanhar essa sistematização um pouco complicada que proponho aqui, aquele leitor arguto já deve ter emitido uma gargalhada porque ele, ledor assíduo de críticas de literatura, já percebeu que existem críticos que, quando se empenham em trabalhar sobre a relação entre literatura e história, nunca conseguem saber exatamente se estão a se referir à historicidade da literatura ou à história como elemento de composição. Então tropeçam nos próprios pés, abalroam-se todos com o texto literário, e regurgitam análises repletas de algaravias, que poderiam ser boas, até, não fosse a barafunda teórica (a ver, como o prof. Severino tinha razão?).

Chamo atenção disso tudo porque Saga d’Ouro é um romance que salta para cima da história como disciplina para se apropriar dela como elemento de composição. Insere-se na segunda possibilidade, portanto. É neste fito que a novíssima obra de Furdela se integra a uma antiga tradição no interior da literatura moçambicana. Essa tradição, ninguém há de negar, tem sua assomada no antológico Ualalapi (1987), de Ungulani Ba Ka Khosa. O próprio Khosa, inclusive, sumo pontífice do clero ao qual Furdela se integra, é o mais reconhecido escritor moçambicano a utilizar a disciplina história como elemento de composição em praticamente todas as obras (com exceção, talvez, dos contos do seu início, anteriores à sua atuação junto da Charrua).

Perfazendo a vol d’oiseau um arco que considere desde as primeiras manifestações literárias em Moçambique desde o final do século XIX, até o esfíngico e borbulhante presente da literatura moçambicana, não parecerá escusado dizer, sem pretensões sistemáticas, que a tomada da disciplina história como elemento de composição neste sistema literário costuma andar em círculos sobre dois grandes temas: o poder político nguni pós-Mfecane no sul (o Reino de Gaza), e o poder dos prazos no centro.

Em relação ao poder político do sul, a tradição literária é muitíssimo antiga, e tem como precursor alguém que, ao escrever sobre a guerra entre Portugal e Gaza, escrevia sobre o seu presente, e não sobre a história: está lá, no ano de 1891 o “Canto de Guerra Vatua (Assibinheia)” de Arthur Serrano em seus Sons Orientaes, enquanto Ngungunhane ainda imperava sobre marongas, machanganas e matsuas e demais súditos de toda a parte. O rol de obras que se integraram a esta tradição é imenso: no “Pós da História” (1934), de Rui de Noronha, o próprio Godido (1951), de João Dias, alguns poemas de Noémia de Sousa (1948-1951), o já citado Ualalapi (1987), A balada dos deuses (1991) e Os ossos de Ngungunhana (2004), de Marcelo Panguana, As andorinhas (2008), de Paulina Chiziane, só para citar alguns exemplos representativos. Recentemente, essa tradição foi reavivada com a trilogia As areias do imperador (2015-2016), de Mia Couto e o novíssimo As mulheres de Ngungunhane (2018), do mesmo Khosa. As formas como essas obras integram-se a esta tradição também são as mais variadas: desde obras cujo enredo concentra-se todo em construir personagens históricos ou até um simples “Bayete!” no verso de um poema de qualquer outro assunto.

Já o outro tema, poder dos prazos do centro, cito, por alto, três obras que me saltam sempre aos olhos: Choriro (2009), do mesmo Khosa, Dona Theodora e seus Mozungos (1998), de Maria Sorensen, e Os oito maridos de Dona Luíza Michaela da Cruz (2016), de Adelino Timóteo. Evidentemente, deve haver outras. Mas a assimetria regional em Moçambique reflete-se com peso nas dinâmicas editoriais, culturais e literárias – tanto é mais difícil para essas outras obras virem à estampa quanto é muitíssimo mais custoso que sejam conhecidas pela pesquisa desde o Brasil.

Pois  Saga d’ Ouro inova justamente neste ponto. Desvia-se da solução moçambicana comum de perambular por entre os dois focos históricos de poder de Moçambique, o centro e o sul, e se dirige a outro tempo e a outra forma de poder, o Mwenemutapa. Quando faz isso, reconstrói a personagem histórica de GatsiRucere como um anti-herói, ou, como é comum na literatura moçambicana, constrói a figura de um “anti-chefe”, por assim dizer. Digo desse modo porque GatsiRucere é o oposto de tudo aquilo que uma idealização pode conceber como um grande líder político: é temeroso, pusilânime, desprovido de altura e imponência, profundamente reativo, ridicularizado, desviril, ansioso, imprevisível e perigoso. Não faz lembrar, ao acaso, o decadente, gordo, autoritário e orgíaco Ngungunhane de 1987?

É na oposição com uma personagem muito coadjuvante, Fungai, no início da obra, que podemos ver exatamente um ideal de chefe, dotado de “rara inteligência” e “compleição física”, capaz de se igualar aos bens de luxo da nobreza por via de seus próprios esforços como caçador, pescador e agricultor. Quase como um ideal liberal de homem empreendedor, aqui gravita em oposição a um líder enfraquecido, desprestigiado e completamente parasitário.

É justamente no ínterim dessa desfavorável comparação entre o Mambo – o soberano do Mutapa – com um súdito qualquer que surgem inúmeras ressonâncias e averbações dos shonas como terríveis invasores, cujo poder nunca teria sido aceite ou sequer assimilado pelas populações locais, colocadas sempre na iminência da revolta e da necessidade de uma dominação mais ostensiva. Acaso isso não será outra semelhança com aquelas obras que tratavam dos ngunis também como invasores e de uma população subjugada igualmente na iminência de uma rebelião?

Gostava muito de ter ensejo para analisar com cuidado toda a estrutura narrativa de Saga d’ Ouro, mas isso é pouco conveniente para um prefácio, afinal, o arguto leitor ainda há de ler a obra a seguir, não cai bem lhe revelar detalhes do entrecho. Em breve farei isso por maneiras científicas nalgum artigo: prometo publicamente. Não posso deixar de chamar atenção para mais dois pontos acerca dessa narrativa, no entanto.

A crueldade e o vexame ao qual GatsiRucere está constantemente exposto deriva muito de sua consciência de ser ele próprio o causador da desgraça e do perigo que corre agora o Mwenemutapa: é um líder fraco e ameaçado. A forma como, desde o seu zimbabwe particular, assiste a uma procissão de feiticeiros, mensageiros, forasteiros, ínfices e subordinados a chegarem constantemente para comunicar-lhe novas de desgraça faz lembrar, no horizonte de expectativas, aquele Édipo, ainda rei de Tebas que, quanto mais avança no sentido de conhecer as causas da desgraça da polis, mais se aproxima da sua própria condenação, já que ele é a própria causa da ira dos deuses. Os corvos, que revoam por toda a narrativa, surgem então como o terrível presságio de uma desgraça iminente, assim como, para um Prometeu acorrentado, serviam de castigo e fustigação a comerem-lhe o fígado. Ao contrário de Prometeu, no entanto, GatsiRucere não levou fogo à humanidade e, ao contrário de Édipo, não livrou a polis da ameaça da esfinge. GatsiRucere é tão somente um anti-chefe parasitário, que assume um poder sem poder e é incapaz de qualquer grande feito.

Saltando para o século XXI, aqueles corvos são hoje companhias constantes de qualquer transeunte pelas ruas de acácias. Esses corvos, crocitando na narrativa, fazem constantemente com que o romance se desprenda daquele passado remoto e nos traga de volta para um Moçambique atual. Surgem questionamentos, então. Por que convém ainda falar de anti-chefes parasitários causadores da desgraça do reino? Por que faz sentido que, no presente, falemos de chefes tirânicos capazes de escravizar uma população inteira ao seu domínio para que continuem no poder?

É aqui que se fecha o arco da crítica. Existem duas formas de que a literatura se relacione com a história: uma forma é tomar a disciplina história como um tema para a narrativa e a outra é destacar, criticamente, a historicidade da literatura. O romance de Furdela toma a história como tema para sua narrativa: Mwenemutapa. Pronto, essa é a primeira forma. Agora, pensemos na historicidade do romance de Furdela: ao chamar a atenção para formas despóticas, parasitárias e autoritárias de se desempenhar o poder, Saga d’ Ouro acaba se filiando a uma tradição da literatura moçambicana que reflete, desde sempre, sobre as mesmas formas despóticas, parasitárias e autoritárias de se desempenhar o poder político – ora, aqui já não falamos mais do passado, falamos mesmo do presente, não falamos mais do Mwenemutapa, falamos mesmo da República de Moçambique, 2019.

Atenção: a segunda forma de relacionar a literatura à história não depende do autor, mas do ato crítico. Pena não poder contar como acaba essa história. O arguto leitor gargalharia mais uma vez.

Hi itatlela wonana, vamakhweru! Khanimambo nikensile!

 

São Paulo, 21 de abril de 2018.

 

Agradeço ao grandioso professor Elídio Nhamona o Serrano e a constante interlocução sobre este assunto. Nyi bongile, mwama!

 

*(Texto introdutório da conversa sobre autores brasileiros no Centro Cultural Brasil – Moçambique, 19/09/19)

 

Carlos Nejar é um dos poetas brasileiros que marcou de alguma maneira a minha vida de leitor, ou mais precisamente, de consumidor inveterado de poesia. Tenho em mim dois personagens literários: um leitor e um poeta. Eis-me aqui portanto na pele de um simples leitor.

 

O meu primeiro encontro com o poeta Carlos Nejar foi nos finais dos anos 80 do século XX, numa livraria algures, em Lisboa, por via de um livro que me caíra às mãos, assim ao acaso, retirado de uma das prateleiras dedicadas à literatura brasileira. Era uma antologia poética intitulada “Obra poética (1), 1980, Nova Fronteira  – que incluía alguns dos livros do autor até aí publicados -. Daí em diante fui descobrindo mais trabalhos deste autor incluindo ensaios e ficção.

 

Mas o que me marcou realmente neste poeta foi a forma como os seus versos vibravam em mim. Por exigência minha, não são muitos os poetas capazes de criar um efeito destes no leitor que sou. Eu tenho o hábito de, à primeira, ler um livro de poesia folheando-o de forma aleatória e, neste caso, à medida que o ia lendo, fragmentos de versos ficavam reverberando em mim como uma música ao sabor da brisa crepuscular daqueles dias semi-áridos. Por muito tempo esses versos ficaram-me, por assim dizer, encravados na memória pela sua doçura, simplicidade, profundidade e, em alguns casos, pela sua densidade e espontaneidade. Repare-se neste poema:

 

A IDADE

 

Falou e disse um pássaro

dois sóis, uma pequena estrela.

Falou para que calássemos

e disse disse disse

a idade da eternidade.

 

Nessa altura eu já conhecia a maioria dos poetas emblemáticos do espaço da língua portuguesa, verdadeiros monstros da arte do bordado das palavras; falo dos “outsiders” do mundo africano, designadamente, portugueses e brasileiros, entre os quais Sophia de Mello Andersen, António Osório, Eugénio de Andrade, Carlos Drumond de Andrade, Vinicius de Morais, entre outros. Portanto, a descoberta do poeta Carlos Nejar foi uma espécie de dádiva para mim, ao constatar que estava perante uma das vozes mais esclarecidas da poesia em língua portuguesa.

 

E quando é que um determinado texto marca um leitor? Eu próprio tenho dito, em jeito de resposta, que é quando o mesmo está incompleto nos seus contornos absolutos, mas paradoxalmente perfeito na sua arquitetura relativa. Sim, é quando induz o leitor à necessidade de sua continuidade, complementaridade, acabamento, de acordo com os preceitos e necessidades interiores do próprio leitor. É o mesmo que acontece comigo quando leio algo que me marca, como um bom poema, um bom conto, um bom romance, em suma, um bom texto literário.

 

CÂNTICO

 

Limarás tua esperança

até que a mó se desgaste;

mesmo sem mó, limarás

contra a sorte e o desespero.

 

Até que tudo te seja

mais doloroso e profundo.

Limarás sem mãos ou braços,

com o coração resoluto.

 

Conhecerás a esperança,

após a morte de tudo.

 

 

É gratificante quando na nossa caminhada pela vida cruzamos com poetas da estirpe de Carlos Nejar, por intermédio dos seus escritos poéticos, quanto a mim, emblemáticos, porque vibrantes na sua tessitura e no seu conteúdo. Nejar tem uma forma peculiar de estar na poesia que ultrapassa os limites da própria contenção da palavra, consubstanciada na escolha do vocábulo certo no momento e contextos próprios. É justamente nas escolhas que ele faz que se revela como testemunho fiel da sua vida, em todas as suas contingências e magnificências. Desde as metáforas ou imagens, passando pelos vocábulos, até mesmo na rigorosa cadenciação dos versos, acabam emprestando à sua poesia aquela configuração musical que lhe é característica. Na poesia o verso deve ser, em rigor, “… denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si” diria Sophia de Mello Andersen.

 

Os escritos poéticos de Carlos Nejar são grosso modo intemporais como, aliás, toda boa poesia, o que significa que a experiência da vida e do tempo vivido criou nele a consciência de si próprio ante as contradições e contrariedades existenciais que, por sinal, são universais. A poesia em geral contesta o axioma da reprodução afunilada ou do olhar passivo perante o mundo pois, na essência, ela é simultaneamente questionamento e explicação da realidade consentida. A missão do poeta é, em última análise, a de propor novos territórios igualmente possíveis de serem habitados pela humanidade. Assim, a poesia é também resultado das contradições internas tanto do sujeito poético quanto do mundo em que este está enclausurado.

 

Deixo aqui um outro poema intitulado “Inscrição”:

 

Aqui estou,

aberto o pórtico.

Serei breve no amor e no transporte.

O óbolo está pago, o dia resgatado

E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.

 

Aos deuses não ouso nada,

nem compro,

senão o intervalo

de meu próprio espanto.

 

Carregai-me, barca

E ainda canto.

 

A questão que me foi colocada como pretexto para este reencontro foi se, eventualmente, havia algum poeta brasileiro que me tivesse marcado de alguma maneira. Como poeta, e depois do que falei antes sobre a poesia de Carlos Nejar, a resposta a essa pergunta certamente que só pode estar com os meus leitores. Nisso eu não queria interferir pois, como fazedor de versos, a minha missão começa e termina na criação. Todo escritor, pelo menos daquilo que eu saiba, é sempre um mau leitor de si próprio. Contudo, penso eu que, qualquer que seja um texto literário, neste caso, da lavra dum poeta, inegavelmente haverá nele marcas da sua vivência literária e social.

 

“A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer actualizar o melhor de uma pessoa. Que livro melhor há que o livro da humanidade?”

Mahatma Gandhi

 

Do latim educatio*, a educação entende-se como transmissão e aprendizado de técnicas culturais para a formação e amadurecimento do homem. Era suposto que este fosse um fim imprescindível de qualquer escola – a busca do aperfeiçoamento das faculdades humanas. Ou seja, antes de a escola focar-se em formar os indivíduos para o trabalho com fim de desenvolver a economia do país, era míster que se focasse na formação dos indivíduos para o seu desenvolvimento intrapessoal e interpessoal. Não se trata de uma preferência subjectiva do autor, mas de uma necessidade de subordinação entre os dois objectivos. Isto porque a sustentabilidade do trabalho e da economia depende fundamentalmente de uma educação para valores humanos. E a relação entre os dois objectivos não deve ser recíproca, mas sim unilateral. A falta de uma educação para valores humanos configura-se como um buraco negro que ao longo do tempo vai consumindo todas as realizações vindas de uma educação para desenvolvimento económico.

Suponhamos uma sociedade formada só para o trabalho, mas desprovida de um conhecimento que a ajude a manter uma convivência intrapessoal e interpessoal sã e pacífica. Por quanto tempo se pode esperar que esta mesma sociedade se sustente, antes de cair em crises de relacionamento? Poder-se-ia dar o caso de uma nação ser rica em infraestruturas, tecnologia e recursos minerais, mas, ao mesmo tempo, miserável e fragmentada na sua forma de conviver e cooperar. É muito mais provável que esta nação seja infestada de desigualdade, corrupção, crime, exploração, ódio e conflitos, pois não há nenhuma sociedade que prevaleça sã e tranquila, quando os valores humanos são preteridos pelos ganhos materiais. Tarde ou cedo, a falta de uma educação para o bem-viver transforma-se num buraco negro que vai devorando todo o desenvolvimento económico proporcionado pela educação para o trabalho.

Ao contrário, o mesmo não se verifica. Ou seja, a ausência de uma educação para o trabalho não se traduz na degeneração dos frutos duma educação para vida. Se um adulto assimilou ao longo da vida o conhecimento que o permite discernir o bem e o mal, ainda que se veja desprovido de condições materiais, jamais o seu bom carácter vai aconselha-lo a cometer crime para suprir a necessidade. Se o fizer, não será por outra razão senão pela fraqueza do carácter, pois quando se é bem-educado, o mal não faz parte das nossas escolhas. A educação para valores humanos configura-se como um compromisso com o bem, independentemente das desfavoráveis circunstâncias em que o indivíduo se encontra. Se bem que é nas desfavoráveis circunstâncias que mais se destaca o brilho de um carácter inabalável. O dito popular “a ocasião faz ladrão” é deveras verosímil, pois o homem é que é o princípio das suas acções, sendo por isso responsabilizado por elas. Se ele se permite que a ocasião que lhe é algo externo transforme-o num outro ser diferente do que é, não é mais por outra coisa senão pela fraqueza do espírito ou falta do compromisso com o bem. Não basta aprender o que é o bem, é preciso assumir a virtude. Caso contrário, toda a aprendizagem mostrar-se-á vã.

Nesta ordem de ideias, o pensamento socrático de que a ignorância é a fonte do mal mostra-se um despacho exacerbado sobre a ética, por não dar explicitamente a entender que não basta conhecer o bem, é preciso assumi-lo. Há gente iluminada sobre o bem e o mal, mas decide praticar o mal sempre que lhe ocorre vantagem pessoal, simplesmente por não ter feito nenhum compromisso com o bem durante a aprendizagem.

Todavia, a conjugação dos dois tipos de educação favorece para um pleno desenvolvimento humano. Tanto o trabalho como os bons modos de viver são imprescindíveis para evolução do homem no mundo, ainda que em medidas desiguais. Entretanto, o maior problema da educação contemporânea que se verifica em vários países do mundo, incluindo Moçambique, é o facto de não estar focada nem para o trabalho nem para valores humanos, pelo menos no I e IIO ciclos de ensino.

Ora vejamos. De primeira à 12a classe, os alunos aprendem Matemática em seus diversos cálculos, porém, terminam o IIO ciclo sem habilidades que lhes permitam uma boa gestão das suas próprias finanças. Sabem contar e calcular, mas mesmo assim, lhes falta a educação financeira. Na Língua Portuguesa, é-lhes ensinada a gramática, leitura e escrita, porém, não adquirem o essencial da língua que é o poder de comunicação. A Biologia que é uma ciência sobre funcionamento do organismo dos seres vivos, da forma como é dada, pouco fala do que bom e do que é mal para conservação da própria vida. A Física e Química também se juntam ao conhecimento sem proveito urgente para a auto-ajuda diária. Afigura-se-me que não haja habilidades que se possam adquirir dessas disciplinas para resolução de coisas práticas do dia-a-dia. O conhecimento das leis dessas ciências só se torna mais valioso para os alunos que queiram ser investigadores.

Não vejo em que circunstâncias do seu dia-a-dia, o aluno comum pode aplicar o conhecimento da formação das células ou funcionamento da genética. De que modo, o aluno pode tornar práticos para sua vida quotidiana os cálculos de algébrica, dos limites, dos logaritmos e da trigonometria? Para que momento da sua vida, o aluno precisa saber das reacções químicas e acerto das equações, se tampouco quer ser um químico? Quando é que um adolescente precisou de usar a fórmula de resistência, gravidade e tensão para livrar-se de um problema diário? Longe de eu soar a um imediatista, procuro compreender a urgência e a imprescindibilidade do conhecimento que nos têm passado ao longo dos 12 anos de ensino. Se calhar fosse primordial que os professores indicasse o fim prático de cada tema das suas aulas, antes de discorrer em teorias fantasmagóricas.

O que se ensina nas nossas escolas primárias e secundárias não é uma educação para o trabalho, muito menos, uma educação para vida, mas sim uma educação (defeituosa) para ser um cientista. É uma educação defeituosa, na medida em que as aulas são expositivo-explicativas e há falta de instrumentos laboratoriais para que o conhecimento ensinado seja transformado num poder prático. Não se pode esperar que um aluno consiga acertar uma equação química na prática, quando só aprendeu a fazê-lo em papel.

A apologia que faço é que se deveria remover estas disciplinas desprovidas de urgência prática das salas de aulas para estantes da biblioteca. E aquele que lhe vier a curiosidade sobre reacções químicas, funcionamento da genética, ondas magnéticas, gráficos exponenciais ou classificação das palavras, ao menos, terá um espaço de esclarecimento na biblioteca. Findo o segundo ciclo de ensino, estas disciplinas podem ser resgatadas no ensino superior – nível em que se espera que os estudantes, para além de aprimorar competências da vida e do trabalho, adquiram competências de investigação e produção do conhecimento.

As disciplinas que se me afiguram urgentes e imprescindíveis para uma sociedade que se queira construir dia-pós-dia por meio do conhecimento – mas que permanecem ignoradas – são a educação financeira, a educação alimentar ou nutrição, a inteligência emocional, os primeiros socorros, a informática, a educação ambiental ou reciclagem, a retórica, a aritmética, a gramática e as artes (música, dança, teatro, poesia, literatura, pintura, desenho, escultura, etc). Nas artes, julgo que cada modalidade deveria ser ensinada em função da vocação de cada aprendiz. A estas disciplinas supracitadas, dever-se-iam juntar as já existentes como a Filosofia pela construção de uma consciência crítica; a Ginástica pelo bem-estar físico; as línguas por uma melhor interação com o mundo; a História em busca das lições do passado comum; a Geografia pela nossa própria localização no mundo e o Empreendedorismo que nos estimule a criar ideias e planos de negócio. Seria uma tarefa tautológica se quisesse explicar a importância de cada disciplina que sugiro a sua introdução para resolução de problemas do nosso dia-a-dia. São disciplinas educativas por excelência e que, quando bem aprendidas, geram riqueza espírito-material e preparam as pessoas para viver o presente de maneira segura e responsável.

Ao invés de despender-se o tempo em aprendizagem de fórmulas matemáticas, físicas, químicas ou estudo minucioso da formação dos léxicos, da composição dos seres vertebrados e invertebrados – conhecimento importante, mas não urgente para múltiplas exigências diárias dos alunos – dever-se-ia apostar, primeiro, em conhecimento para o bem-estar físico, psicológico e social bem como em habilidades para o trabalho. Dever-se-ia sempre dar primazia ao conhecimento que proporcione saúde biopsicossocial dos indivíduos, pois, repito, a sua falta configura-se um buraco negro que ameaça devorar tudo quanto foi conquistado pela obra de ensino-aprendizagem.

*ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 1ª ed. Martins Fontes. São Paulo, 1998.

E-mail: tsembah@gmail.com

As visitas do Dr. Valdez integra-se em um projeto literário que se apresenta, hoje, como um dos mais desafiadores dos contextos de língua portuguesa. Desde 2003, ano de sua estreia como ficcionista, com As duas sombras do rio, João Paulo Borges Coelho publicou sete romances, dois volumes de contos e três novelas. A este registro vertiginoso, que não dispensa o rigor e a experimentação estética, juntam-se três livros de histórias em quadrinhos, lançados em Maputo no início dos anos 80, e algumas narrativas curtas espalhadas em edições de natureza diversa. Embora também seja um reconhecido historiador, João Paulo Borges Coelho evita em seu trabalho artístico o caminho da restituição didática do passado. Apoiado em estratégias como a metonímia, a metáfora ou a alegoria, frequentemente mediadas pelos recursos do humor e da ironia, o jogo que propõe aponta antes para as trocas simbólicas entre o “pequeno” (cotidiano) e o “grande” (história). Virtuoso, o primeiro abre fendas no solo rígido do segundo.

Ambientado na Ilha do Ibo e na cidade da Beira, em um tempo complexo que se situa entre o já agônico colonialismo português e a eufórica independência moçambicana, As visitas do Dr. Valdez coloca em cena a experiência do interstício. A narrativa gira em torno do empregado doméstico Vicente e de suas patroas, as velhas mestiças Sá Amélia e Sá Caetana. Preocupada com os delírios da primeira, que reclamava das ausências do Dr. Valdez, entretanto já morto pelo excesso de manteiga ingerido em vida, Sá Caetana propõe um jogo a Vicente: resgatar o médico das cinzas. Assim, nos domingos de folga, Vicente disfarça-se de senhor doutor branco, em uma tripla transformação que visa devolver alguma alegria à Sá Amélia. Mas não só.

Com o disfarce do velho colono, elaborado na escuridão solitária e precária de seu quarto, o jovem empregado encontra uma criativa maneira de confrontar Sá Caetana e todo o imaginário por ela representado. Por trás da máscara, Vicente aciona um discurso estrategicamente ambíguo e passa a atuar em um dos campos que mais aflige os poderes autoritários: o da imaginação reivindicativa. A imitação que faz do Dr. Valdez, na cara e na casa da autoridade, desestabiliza a velha ordem colonial ancorada nas premissas da superioridade racial e científica e, como tal, no privilégio que decorre da primazia e da lei. O jovem procura libertar-se, portanto, de uma vida de submissão que lhe parecia destinada e acompanhar a mudança que, a um nível mais abrangente, se vai anunciando em Moçambique. Contudo, recorda com frequência as palavras de seu pai: o velho Cosme Paulino exigia-lhe que desse continuidade a uma história de servidão, cuidando das senhoras como se de sua própria família se tratasse. A vinculação quase umbilical a dois mundos opostos acentua a ambiguidade das relações entre as personagens, que são convidadas a ocupar distintas posições durante a narrativa.

Realizadas em três domingos e estruturadas em torno de outros tantos núcleos de significado (gesto, voz e olhar), as visitas do Dr. Valdez asseguram ao empregado alguma margem para expressar seu descontentamento. O discurso de Vicente, na primeira visita, adquire uma capa predominantemente visual. A maneira como se disfarça e os pensamentos que elaboram seus gestos constituem uma eficaz afirmação pública de sua rebelião privada. Executando de maneira sagaz e irônica os gestos doutorais de Valdez, avança por fronteiras até então intransponíveis: senta-se pela primeira vez no sofá, aceita o chá servido pela patroa, toma a iniciativa de observar da janela o quintal e espanta-se com o espaço miserável que é reservado aos criados… Enfim, graças ao novo lugar que lhe cabe no cenário, vê o mundo de um ângulo inédito. E se faz ouvir, mesmo quando silencia. Em contextos onde o estatuto impera, a autoridade não necessita de muitas palavras para se fazer valer. O discurso verbal da dupla Vicente/Valdez progride do comedimento, na primeira visita, para o confronto aberto, na segunda. Programada nos bastidores, depois de um inusitado encontro entre o criador Vicente e a criatura Dr. Valdez, a terceira visita sintetizará as duas anteriores, além de trazer o complemento fundamental da máscara-elmo, peça tradicional da arte maconde que se sobrepõe a do Dr. Valdez. Em dificuldade por ter que se dirigir a quem não vê totalmente, Sá Caetana perde um dos seus principais pontos de apoio: o desigual duelo de olhares.

Assim, após a performance física da primeira visita (que conforma ironicamente a imagem do colono) e da reivindicação retórica da segunda (que confirma a indignação do colonizado, mas o expõe a um risco), a terceira visita será marcada pelo impacto do olhar e de seus desdobramentos. Qualquer desses encontros terá contornos e resultados imprevisíveis, que não nos cabe aqui esmiuçar. Mas não resistimos a uma especulação: a representação de Vicente talvez nos queira dizer, entre outras coisas, que a arte é menos transformadora no momento em que explicita a raiva do que quando, sem renunciar ao compromisso político, faz a adequada mediação das estratégias que lhe são específicas (o gesto, a voz, o olhar e a necessidade de se colocar no lugar do outro). João Paulo Borges Coelho, por seu turno, parece querer complementar com uma pergunta: até quando serão necessárias as máscaras?

Cada uma dessas visitas, por outro lado, nasce de contextos específicos dentro dos quais a memória – imediata, remota, inventada – desempenha uma função relevante. Os jogos de espelhos internos à própria estrutura narrativa, que nos reenviam ao universo íntimo das personagens, complementam e orientam o sentido da teatralização. Compondo os bastidores – ou a pré-história – da encenação, o olhar retrospectivo do narrador e das personagens afigura-se como chave de leitura para as três visitas do Dr. Valdez. No que se refere a Vicente, as memórias remontam, por exemplo, ao tempo da infância, quando presenciou a humilhação pública de que foi alvo seu pai às mãos do patrão Araújo, em um dos episódios mais violentos já relatados na ficção moçambicana; indicam ainda o presente das saídas noturnas, tensão e excessos partilhados com seus amigos Jeremias e Sabonete, que também são empregados domésticos; finalmente, projetam o futuro enganador, metaforizado nas luzes de neón da Boite Primavera e na dança sinuosa de Maria Camba. As figuras do pugilista Ganda, herói nos ringues e engraxate fora deles, e do estranho dançarino que com sua arte recupera a complementaridade perdida do mundo, funcionam também como ativos lugares de memória para o empregado.

A compulsão memorial que atravessa a narrativa e a escrita de João Paulo Borges Coelho, conferindo-lhe unidade, está subordinada a uma resposta artística às formas de produção do esquecimento, especialmente aquelas que são elaboradas pelo discurso político. Este tipo de discurso possui uma natureza programática que choca com o espaço da intimidade (dos rumores e dos desejos, dos ódios e dos segredos, das ambivalências e das confluências) onde sua literatura se alimenta. Em suas obras, aliás, qualquer tipo de mergulho no passado é orientado por um presente repleto de complexidades. E vice-versa. Ao autor, por isso, interessa menos enquadrar a lembrança em um registro fixo de verdade do que ligá-la a um campo aberto de interrogações e interpelações.

Ao eleger caminhos que favorecem a sobreposição de tempos e memórias, a pluralização da geografia literária, a densidade existencial de heróis e personagens secundárias, a diversificação de posturas do narrador e a desestabilização de doxas por via de uma pesquisa estética sobre o paradoxo, João Paulo Borges Coelho consolida o romance moçambicano e constrói um novo lugar no campo literário.

Celebremos, pois, sua primeira visita ao leitor brasileiro.

Rio de Janeiro, 20 de Julho de 2019.
Actualizado pelo autor em 01 de Outubro de 2019.

_______________
Este texto foi escrito com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ (Programa Jovem Cientista do Nosso Estado, processo nº E-26/203.025/2018) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Nível 2, processo nº 307217/2018-3).

*Texto publicado pela Kapulana a propósito do lançamento de As visitas do Dr. Valdez, no Brasil. Aqui mantivemos a ortografia usada naquele país.

 

 

Contextualização

Ualalapi, título da obra e nome de uma personagem que recebe a missão de matar o rei hosi (rei, imperador, em língua tsonga) Mafename, a mando do seu próprio irmão Ngungunhane-Gungunhana que se torna, assim, o imperador de Gaza. Este imperador é famoso pela resistência que opôs aos portugueses nos finais do séc. XIX. Eleito um dos 100 melhores romances africanos do século XX, em Ualalapi Ungulani Ba Ka Khosa conta a história de Ngungunhane, da sua ascensão até a sua queda. (Kapulana)

Esta obra foi publicada pela primeira vez em 1987 e até hoje ecoa com uma profusão indescritível e imbatível no seio da rica literatura moçambicana. Ler Ualalapi é sempre um exercício de auto-deleite, de aprendizagem e de envolvência numa máquina do tempo que nos faz devorar página por página, espremendo as folhas movidos por um enlevo surreal. Actualmente é quase como um crime desconhecer Ualalapi, desconhecer a hipercorrecção e a forma como Ungulani torneia e esgota a descrição do espaço físico, social e psicológico, dando-nos uma imagem bem pincelada e sonora do que se trata na diegese.

 

O livro Apocalipse da Bíblia e Ualalapi à luz de “O Último Discurso de Ngungunhane”: Que intercessão?

Passados 32 anos, o que dizer de Ualalapi? Para uns uma obra literária e para outros didáctica, mas afinal de contas que obra literária não contém no seu ventre um pendor didáctico? Há sempre um didactismo por detrás de qualquer criação literária seja ficcional ou não. Refira-se que a análise feita tem em conta apenas “Ualalapi”, isto é, exclui-se “As Mulheres do Imperador”.

Associamos o livro Apocalipse da Bíblia à obra Ualalapi, mais particularmente a “O último discurso de Ngungunhane”. O nome do livro bíblico de Apocalipse vem de uma palavra grega que significa “Exposição” ou “Revelação”, como aparece em algumas traduções. O próprio nome já indica qual é o conteúdo do livro de Apocalipse: ele expõe assuntos que estavam ocultos e revela eventos que aconteceriam muito tempo depois de terem sido escritos. Lancemos, então, um especial olhar ao discurso que o imperador de Gaza fez na iminência do seu exílio no qual:

“(…)gritou como nunca, silenciando aves e o vento galerno, petrificando os homens e as mulheres com as palavras que saíam em catadupa e que percorreram, em outras bocas, gerações e gerações em noites de vigília e insónias (…)” (KHOSA, 2017:73)

Encontramos nesta asserção as primeiras impressões que ligam o Apocalipse, a Revelação e a premonição à obra em alusão. Há um sinal temporal que demonstra que o que estava prestes a acontecer inspirou habitantes futuros, ou seja, palavras que romperiam a barreira do tempo e ganhariam vida própria. De seguida, Ngungunhane iniciou o seu discurso, a nosso ver premunitivo, que foi dito com total disforia ao seu povo, em gesto de despedida:

“(…) Mas ficai sabendo, seus cães, que o vento trará das profundezas dos séculos o odor dos vossos crimes e viverão a vossa curta vida tentando afastar as imagens infaustas dos males dos vossos pais, avós, pais dos vossos avós e outra gente da vossa estirpe. Começareis a odiar os vossos vizinhos, increpando-os pelos males que padecerão nas palhotas sem idade (…)” (ibid:74)

O imperador dirige-se ao seu povo, agora metaforizado e vocativizado sem qualquer ensejo e chamando-o “cão”, vomitando aquele que é o seu apocalipse para o Império de Gaza, particularmente, e para Moçambique em geral.

“(…)Os nomes que vêm dos vossos antepassados esquecidos morrerão por todo o sempre, porque dar-vos-ão os nomes que bem lhes aprouver, chamando-vos m***a e vocês agradecendo(…)”(ibid:75)

Vaticina-se uma vivência bastante conturbada, a perda da autenticidade telúrica, do nacionalismo, ou seja, trata-se de uma premonição antiutópica ou se preferirmos, distópica. Não é segredo para ninguém que, por exemplo, haja actualmente maior preferência pela atribuição de nomes inspirados em modelos ocidentais e muito distantes do que é nativo-africano no seio das sociedades “globalizadas”.

“(…) E pela primeira vez na vossa vida vereis filhos rejeitando as mães que se atirarão às casas onde o corpo se venderá ao preço do pão, fornicando com as crias que desconhecem e apontando ao acaso os presumíveis pais da caterva de miúdos que nascem às dezenas(…)” (ibid:76)

Para terminar, Ngungunhane declara:

“Todos ou quase todos aceitarão o novo pastor, mas pela noite adentro muitos irão curandeiro e pedirão a raiz contra as balas do inimigo (…) seus cães, a maldição que abraçou estas terras perdurará por séculos e séculos (…) rebentarão as barrigas grávidas de mulheres inocentes, obrigando os pais a comer os nados-mortos sem uma lágrima nos olhos (…) Eis o que será a vossa desgraça de séculos, homens. (…)” (ibid: 79-80)

 

Conclusões

Consideramos que a escrita de “O último discurso de Ngungunhane” é apocalíptico, na medida em que este constitui um vaticínio, ou seja, uma revelação carregada de distopia. Se considerarmos, embora haja várias interpretações, que o Apocalipse faz revelações sobre o futuro do mundo, Ualalapi, particularmente no último capítulo, faz revelações do que aconteceria de 1987 em diante.

Podíamos ser um pouco mais atrevidos e constatar que esta escrita relacionada à Bíblia está ligada também  ao autor, Ungulani Ba Ka Khosa, veja-se: Apocalipse é o último livro da Bíblia assim como “O último discurso de Ngungunhane” o é em “Ualalapi”; De igual maneira, em “Orgia dos loucos”, do mesmo autor, o último conto tem um título que indica uma revelação/premonição: “Fábula do futuro”, por conseguinte a escrita de Khosa em Ualalapi está formal e ideologicamente, de alguma forma, relacionada ao livro “Apocalipse”, da Bíblia.

 

Bibliografia

Corpus

KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana. Lisboa, Porto Editora, 2017.

 

 

Não me recordo de um discurso em que algum político local tenha dado ênfase tão enquadrado ao nosso desporto, como factor motivador na sociedade, como aquele que ouvi do Papa Francisco. E os exemplos para insuficiências-chave apontadas como inibidoras de sucessos ao nosso alcance, serviram-nos como uma luva. A referência ao lado pouco valorizado dos sucessos de Maria Mutola – perseverança e não desfalecimento – deveriam passar a ser matéria de aprofundamento e estudo entre nós.
Afinal, parece que o Papa sabe de nós, mais do que nós próprios…
Passo a citá-lo:
– Maria Mutola aprendeu a perseverar, apesar de perder a medalha de ouro nos três primeiros Jogos Olímpicos que disputou. O tão sonhado título dourado veio à quarta tentativa, quando a atleta dos 800 metros venceu nas Olimpíadas de Sidney.

E eu recordo, para substanciar, uma citação de Mia Couto:
– Lurdes Mutola, nas suas actuações ao mais alto nível, nunca pediu às adversárias para partir um pouco à frente, por ser oriunda de um país do Terceiro Mundo!

 

FILÃO NA PERIFERIA

Ao Presidente Samora Machel, preocupava-lhe a necessidade da prática desportiva porque “onde entra o desporto, sai a doença”. Essa é uma componente basilar, que deveria obrigar a uma relação muito mais próxima entre os ministérios que superintendem o desporto e a saúde. Questiona-se: quanto dinheiro, e não só, se poderia poupar na saúde, se o “preventivo” desporto, sobretudo nas crianças, fosse utilizado de uma forma sistemática e controlada?

Porém, nos dias que correm, as diferenças entre os países que apostam no desporto e os que o mantêm na periferia, como é o nosso caso, reflectem-se de várias formas, que vão desde o prestígio, vantagens imediatas no turismo, até aos volumosos encaixes financeiros.

Permitam-me comparações:
Tivemos ciclones a assolar o país, nas zonas Centro e Norte. A título de empréstimo concessional, o Banco Mundial concedeu-nos 100 milhões de dólares, a serem pagos em DEZ anos, com uma taxa de juro bonificada. Entretanto de Portugal, chegava-nos a notícia de que o “passe' de um jovem futebolista do Benfica, João Félix, de 19 anos, custou, nada mais e nada menos do que 120 milhões de euros! E não estamos a falar de Ronaldo, Messi ou do nosso falecido compatriota Eusébio!

 

DESPORTO: PORQUE NÃO PRIORIDADE NACIONAL?

Os programas de aposta na agricultura e turismo, são e serão sempre válidos. Até porque temos terra arável, praias lindas e um povo hospitaleiro.

Mas… no desporto? Tivemos e temos talento (re)conhecido e vocacionado. Faltam programas sérios e modernos neste sector actualmente na periferia, apontados para um negócio altamente rentável, envolvendo clubes e empresários. O beneficiário último será o país.

Mas entre nós, reina muita descrença, com corrupção à mistura. Há falta de crer e querer, na maior parte da sociedade. E isso não pára à porta do desporto, que deveria ser uma lanterna a iluminar o caminho. Dói, ouvir as lideranças da actividade desportiva, a “darem de bandeja” a priorização a outros sectores como Educação e Saúde. Será que o desporto não é Educação e nem Saúde?  

Se temos como história real deste país, o “fabrico” de estrelas mundiais como Eusébio, Coluna e Matateu, (e estes são apenas os emblemáticos), porque não apostar forte e de forma enquadrada, para que não nos sintamos felizes e acomodados em lugares 160 e tal no ranking FIFA?

Perdoem-me, compatriotas, mas quando uma vitória sobre as Maurícias ou a Suazilândia, nos coloca num estado de alma que dá a impressão de que conquistámos o Campeonato Africano, fica clara a assunpção da nossa pequenez… Ao invés de ser um sector a render biliões ao Estado, o desporto tornou-se um encargo. Dá para entender?

Falta-nos, como disse o Papa Francisco, um maior sentido de perseverança e um querer que nos permita chegar a voos à altura da nossa história e das nossas já comprovadas capacidades!  

 

Já eram seis horas do dia 24 de agosto de 2019, e o Roberto já estava com os pés no chão e com sorrisos espalhados no seu rosto de tanta felicidade e ansiedade para viver e reviver o dia da verdade.

E quando já se encontra no seu quarto apreciando o seu fato de casamento no espelho, o seu tio bateu na porta e entrou para conversar.

— Roberto, tu tens a certeza de que não vais mesmo convidar o teu próprio pai para o teu casamento? Ainda tens tempo de o fazeres.
— Não! Aquele não é meu pai coisíssima nenhuma. É um grande feiticeiro. Não quero feiticeiros no meu casamento. Olha para a cara dele, é mesmo de um bruxo.

— Oh, meu sobrinho! Tu sabias que o teu pai anda triste e muito doente. Tu nunca vais lá visitar! E agora vais casar sem convidá-lo. Porque é tão duro este teu coração?

— Tio sabe muito bem que por culpa deste feiticeiro perdi vários empregos e as minhas relações conjugais nunca deram certo. A minha vida está muito bem longe dele. Deixe-me paz! Por favor!
Ao perceber que o seu sobrinho já estava ficando chateado com aquele assunto, Cardoso abriu a sua pasta e entregou-lhe um envelope.

— Toma! É um presente enviado por Deus. Se não leres esta carta antes do casamento, arrepender-te-ás para o resto da vida.

E quando o tio Cardoso saiu do quarto, Roberto sentou-se na cama, mesmo sem vontade de ler aquela carta, fez a questão de abri-la para matar a curiosidade e pôs-se a ler de imediato.

“Querido filho, sei que hoje é o dia mais importante da tua vida, o dia do seu casamento. Queria tanto poder estar do seu lado para lhe dar um abraço e dizer que te amo tanto, mas infelizmente não fui convidado para o teu casamento.

Filho, lembra-te das vezes que eu acordava de madrugada para ir à aquela casinha que desconfiavas de que era lá onde produzia as minhas bruxarias contra si? Era lá onde permanecia todas as madrugadas de joelhos e com fome pedindo a Deus para que nunca te faltasse nada na vida.

Betinho, das vezes sem conta que não eu comia e somente olhava para ti na mesa com os meus cheios de lágrimas, naqueles momentos de muita dor, queria apenas poupar a nossa comida para que nenhum dia faltasse alimentação em casa, e não tinha nenhum medicamento de azar tal como dizes às pessoas

Este rosto que dizes e julgas ser assustador e que tanto tens vergonha de olhar e tocar, ficou desfigurado quando tentava salvar-te num incêndio que tu mesmo provocaste na cozinha quando brincavas com fogo e próximo de uma botija de gás.

Saibas que o emprego que hoje tens e que ganhas muito dinheiro, não te chamaram por sorte ou porque um amigo ajudou-te com a vaga.

Acredites que fui implorar e chorar todos os dias para o dono daquela empresa para poder admitir-te, e jurei-lhes que eras um jovem competente, humilde e honesto e que só precisavas de uma oportunidade para mostrar a tua valência.

Meu filho, não cases com esta mulher, pois ela é filha da minha irmã, aquela é a tua prima que tanto procurávamos quando sumiu nas cheias de 2000, na província de Gaza quando ainda tinha cinco anos. Queria te dizer que achámos e que estava a namorar contigo, mas tu nunca atendeste as minhas chamadas e muito menos respondeste as minhas mensagens.

Para terminar, neste envelope tem um documento de autorização de uso e aproveitamento de terra, tem um terreno grande na cidade da Matola em teu nome e podes construir a tua própria casa.

Ham! Já me ia esquecendo, faz muito tempo que te procuro, meu filho, para entregar-te o teu cartão do banco para levantares o dinheiro que fui depositando em toda a minha vida para que levantasses depois dos teus dezoito anos.”

Abraços do seu pai! Amo-te, filho!
Com lágrimas nos olhos, Roberto tirou os seus sapatos, desmontou aquela roupa de casamento e correu para ver o seu pai e pedir desculpas por todo mal. E quando lá chegou, o seu pai já tinha partido deste mundo. Olhou para si e disse chorando:

— O verdadeiro feiticeiro da minha vida são os meus pensamentos e as minhas atitudes que julgaram a cara do meu pai antes de conhecer bem as profundezas do seu coração; o verdadeiro feiticeiro é a minha boca que tanto chama de feiticeiro alguém que me colocou no mundo e que muito fez por mim.

 

Todos, graças às palavras, elevam-se como se tivessem asas.

Aristófanes

 

Minutos depois da cerimónia de lançamento de Asas da água, Armando Artur admitiu que Nelson Lineu é uma grande promessa como poeta. Nós, os que ouvimos tal afirmação, não nos surpreendemos, até porque Gilberto Matusse, um dos melhores professores de literatura, no prefácio daquele livro ainda recente, realçou as qualidades literárias do nosso autor. Nesse exercício, Matusse fez referência ao título de estreia de Lineu para melhor integrar o leitor na oficina do poeta.

Ora, se começarmos a ler a poesia de Nelson Lineu a partir de Cada um em mim (2014), de facto, podemos assumir que Asas da água é uma continuidade criativa de um autor que muito investe no peso da palavra para aglutinar significados. Essa continuidade observa-se quer do ponto de vista da individualização poética quer no da mancha gráfica. Nos dois livros, Lineu desafia-se a resumir toda uma viagem pelas suas dimensões existenciais muitas vezes em uma curta estrofe. Julgamos que esta opção foi bem oportuna no caso do seu primeiro livro, pois os sujeitos de enunciação de Cada um em mim são tão refinados que chegam a dizer realmente tudo sem se alongarem. Por isso mexem connosco, despertam-nos sensações, emoções e desejos numa construção contagiante: “aprendi a indicar/ ao vento onde me deve levar/ quando me dei conta/ que as palavras/ se plantam umas as outras (p. 13).

À semelhança de Cada um em mim, na versificação de Asas da água há um recurso à infância, à beleza dos pássaros, à vitalidade da água (do rio e do mar) e à vegetação. Nesse sentido a continuidade poética, se quisermos, criativa, é certa, afinal determinados registos apontam para os eventuais elementos importantes ao poeta na oficina da escrita.

Com efeito, embora Asas da água seja uma continuidade do que Lineu inicia no primeiro livro, como bem observa Gilberto Matusse, na nossa opinião é também uma descontinuidade no sentido qualitativo. Ou seja, nesta obra lançada pela nova editora moçambicana, TPC, este poeta, também já assumimos publicamente ser uma promessa, decresce em termos da combinação dos sentidos das palavras nos seus versos. Logo, muito dificilmente os sujeitos poéticos conseguem nos despertar a necessidade de celebrarmos continuamente os textos ou as circunstâncias aí convocadas. Parece-nos que faltou, em muitos caos, o cuidado na harmonização rítmica das palavras, daí, por exemplo, ser pouco encantador ler o poema 1 (p. 19) ou 6 (p. 24) de forma inteligível e numa sequência apropriada. O que define o ritmo nos textos de Asas da água? A certa altura esta é a questão a que não conseguimos dar resposta.

Não obstante, facilmente lê-se Asas da água no mesmo estado de espírito. O título do livro foi muito bem conseguido, todavia a beleza nele contido não vai muito traduzida nos versos porque, se calhar ao trabalhar a técnica, o nosso poeta esqueceu-se do mais importante: a comoção.

A existirem livros de pausa, parece-nos que este é um deles. Sinceramente, não notamos grande evolução deste poeta que já mostrou saber trabalhar o lirismo. Talvez Lineu tenha-se acomodado numa zona de conforto ao produzir este livro ou então, eventualmente, foi pequenos demais para alcançar a sua qualidade.

Em todo o caso, Asas da água é um exercício além da fronteira do que os olhos captam ou do que os sentidos pressentem num claro jogo polissémico sobre a subjectividade. Nisso, a criação da imagem e do movimento (da água, das folhas, das aves) são das situações principais.

 

Título: Asas da água

Autor: Nelson Lineu

Editora: TPC

Classificação: 11

Passaram-se três dias após a visita apostólica do Papa Francisco a Moçambique. As bandeirolas nas ruas de Maputo, a azáfama causada por crentes e curiosos que se colocaram nas ruas por onde passara o Sumo Pontífice e o ambiente de festa e segurança esfumavam-se. Naquela manhã de segunda-feira, a cidade recuperava a sua normalidade, para alegria dos que tinham achado aquilo tudo uma palhaçada com milhares de palhaços. Infelizmente a intolerância religiosa sempre será uma causa de conflitos.

O acto de comunicar requer muita paciência. A distância que separa o ouvir uma coisa e escutá-la assemelha-se à mesma que se precisa percorrer numa viagem entre a terra e a lua. Muitas vezes o som que dribla os canais visíveis e invisíveis da comunicação abandona a tua boca com toda tenacidade e atravessa os meus ouvidos, mas não alcança a minha mente. A mensagem dispersa-se ao longo da viagem e nunca chega a produzir os efeitos desejados. Ninguém é imune a este imbróglio, até o Papa.

Enquanto estacionava o carro na garagem do edifício do ministério onde trabalhava, o Indivíduo X não conseguia parar de tremer. Tudo tinha que ver com a discussão que se passava na sua cabeça. Milhares de vozes o assombravam. A garagem ficava no subterrâneo do edifício. Embora houvesse muitos carros naquele espaço, a escassa luz dava-lhe um ar sombrio.

De repente, o Indivíduo X ouviu uma bofetada estrondosa. Pisou no travão e o carro parou. Bateste a parede, disse-lhe uma das vozes. Ele cobriu a cara com as mãos como quem se recusava a ver a borrada que fizera. A borrada está feita, disse-lhe outra voz. Deixem-me em paz, gritou ele enquanto batia no volante do carro. Como se as vozes lhe tivessem escutado, tudo ficou em silêncio. Ele recuperou o controlo dos acontecimentos e disse para si mesmo enquanto passava a mão na cabeça calva, estás a ficar maluco broh!

O estrondo que há instantes visitara os ouvidos do Indivíduo X tinha vida própria, era muito diferente daquelas vozes que lhe coçavam a consciência com garras afiadas. O epicentro dele era palpável, por isso qualquer pessoa que ali estivesse também seria assaltado pelo mesmo som. E assim foi. O segurança que tinha sido escalado para guarnecer a garagem ouviu o som e se dirigiu imediatamente ao lugar onde se tinha dado o impacto.

O segurança, magro e alto, identificou o Range Rover que tinha batido a parede da garagem numa marcha de retaguarda.  «Boisse, está tudo bem?», perguntou o segurança enquanto se aproximava do carro.

No interior da viatura, o Indivíduo X continuava a esconder a cara com as mãos trémulas. O homem estava mesmo a passar por um mau bocado. Na cabeça tudo girava, não conseguia ouvir mais nada senão aquelas vozes que nem existiam. «Precisa de ajuda, boisse?», voltou a perguntar o segurança enquanto socava o vidro do carro.

Quando ouviu o vidro a ser socado por um jovem negro que trazia um uniforme azul e uma arma, o indivíduo X deu-se conta que tinha chamado a atenção do segurança e disfarçou o mal-estar. Ajustou a gravata, fechou o botão do casaco, puxou a chave com força, sacudiu-a e a guardou, pegou a pasta de mão e desceu do carro.  O Indivíduo X saiu do local do crime e disse ao segurança, sem lhe olhar a cara, «Bati a parede, nada de mais. Está tudo bem…».

O escritório do Indivíduo X ficava no segundo piso, mas preferiu ouvir uma das vozes que o incomodavam e foi ao terceiro piso resolver os pendentes com o Indivíduo Z. «Excelência, aquela bolada com os libaneses não vai acontecer», disparou ele logo que entrou na sala do chefe. «Podes me dizer a propósito de quê?». «Excelência, nós estávamos lá quando o Papa disse aquilo… Não vale a pena, Moçambique não merece isso…».

Uma bofetada de novo. Desta vez o Indivíduo X não está de pé na sala do chefe, mas deitado a suar sangue numa cama pequena na cela 33. Uma voz lhe acordava daquele sonho sofrido e perguntava «E se a homilia do Papa tivesse sido antes da bolada?».

 

 

O que há de mais sublime numa Olimpíada, é o reencontro da Humanidade consigo própria, através da forte arma que pode unir os povos: o desporto. Durante os Jogos Olímpicos, esquece-se o belicismo, reinando o espírito de paz e de concórdia. 

E a pergunta é: porquê só de quatro em quatro anos? Porque não o “contágio”, em permanência com o mundo, dos ideais olímpicos cada vez mais arredios das mentes, tanto de governantes como de governados? 

Em tempo de olimpíada, os participantes tornam-se embaixadores de afectos, divulgadores dos hábitos e bons costumes, através da transmissão da cultura local, da culinária, etc. O desporto, nessa ocasião, ri-se na cara dos preconceitos rácicos, da diferenciação entre países pobres e desenvolvidos, regimes de direita, centro ou extrema-esquerda, que tanto dividem a Humanidade. Homens e mulheres, sem complexos, esquecem-se dos horrores de um mundo em convulsão, trocando afectos ao invés de tiros. 

DESFILE DA RAÇA HUMANA

Lindo, muito lindo, é o desfile da raça humana, através da nata do desporto. E porque as modalidades, ao mais alto nível competitivo moldam os corpos, torna-se fácil identificar através do aspecto físico a modalidade por cada um praticada. 

Vestes formais e informais, que vão das saias com que os habitantes de Papua Nova Guiné e Tonga desfilam, aos trajes asiáticos e africanos multicolores… tudo é cor e alegria. E o que dizer dos penteados, da forma de andar, das preferências gastronómicas, dos abraços e beijos que nalguns casos acabam selando relações para toda a vida?

A cada Olimpíada, os organizadores esmeram-se no ineditismo quanto à originalidade. As cerimónias da abertura e do encerramento, nunca são iguais a cada nova realização. A beleza e originalidade, são elevadas ao mais alto nível, de tal forma que dificilmente quem pela primeira vez assiste ao vivo aqueles momentos, consegue “segurar” as lágrimas rebeldes nos seus olhos…

E é assim que os basquetebolistas desfilam do alto dos seus dois metros e picos, os nadadores distinguem-se pelo comprimento dos braços em cintura estreita, os ginastas pela graciosidade dos movimentos, os pugilistas pela cana do nariz maltratada, os halterofilistas pela largura dos pescoços e musculatura anormal…As modalidades de luta, são um símbolo paradigmático: sobe-se aos ringue, bate-se forte, mas no final vêm os abraços e, bastas vezes, a troca de contactos para novas pelejas. Com alguma graça se diz que a véspera dos Jogos Olímpicos se pode comparar a um casamento: primeiro flâmulas, flores e troca de lembranças. Os pontapés e os murros vêm depois…

DIAS DE SONHO

Na Vila Olímpica, os almoços, lanches, refrescos e águas minerais, são “mahala” (de graça). E se é verdade que a ocasião serve para partilhar refeições sem ter em conta o bolso de cada um, também é visível que para os atletas de países mais desfavorecidos o momento serve para “tirar a barriga de misérias”.

O momento de forma impõe regras, pelo que cada “garfada” de uma estrela, obedece ao controlo apertado do nutricionista. É a alta competição na sua expressão máxima, não sendo estranho que um latagão com 150 quilos tenha que comer apenas uma pequena salada num pratinho, quando a seu lado a um “lingrinhas” tenha sido recomendado que coma uma pilha de pratos variados, de forma a subir o peso para atacar a medalha da divisão acima a sua.

São 20 dias de sonho para alguns, num ambiente de “neón” diferente, em todos os aspectos, por poderem partilhar o mesmo espaço das estrelas que por vezes só vêem pela televisão.

Todo o espírito olímpico é produto de um trabalho e de um pacto entre os governos e os cidadãos, com alguns anos de antecedência. É um mês de envolvência não só dos actores principais, mas de todo o citadino, do polícia, ao taxeiro, empregado do hotel ao vendedor de pipocas. Todos “beberam” o espírito olímpico que os tornou mais gentis e corteses para com o visitante.

As Olimpíadas, com todos os condimentos que caracterizam a competição considerada como a maior confraternização planetária, apresenta-se como um exemplo que poderia e deveria ser seguido, em permanência pelo Mundo. 

 

O sol está em frente à garagem, quase a estacionar. Em quase todas estações, os dias exigem-lhe o mesmo vigor no cumprimento do seu papel na orquestra. Uma vez e outra fraqueja, muitas vezes chameja e queima tudo. Hoje foi um desses dias em que cumpriu a sua missão com brio. A pérola do índico aqueceu tanto que só uma caixa de geladinhas ajudou a sossegar as gargantas mais religiosas.

Vivemos todos numa competição desenfreada. Tudo depende do que o nosso ego nos pede. O meu sofrimento é maior que o teu. A minha alegria é maior que a tua. A minha tristeza é maior que a tua. Sou mais ético que tu. Às pessoas interessa sempre trazer à tona a parte má da história. As fofocas que nestes dias vêm se tornando questões de interesse nacional não são nada mais que uma estratégia que encontramos para nos sentirmos melhores que os outros. Perdemos horas que poderiam ser despendidas para coisas mais úteis a vilipendiar os outros. Todos afundamos cegamente no mesmo mar, inclusive eu que te escrevo.  

A natureza, também, interiorizou o nosso espírito competitivo. A noite prepara-se para dar início ao seu concerto. Está decidida a superar o dia. Se aquele se serviu do sol para dar o show, ela quer trazer mais que a lua e as estrelas. "O segredo de tudo está na inovação", dizem os mais sabidos. Enquanto a hora não chega vai aproveitando os últimos minutos para fazer as afinações.

Anita não queria perder o show. Quando tudo aconteceu passava quase uma hora desde que recebera a chamada que a dera a esperança de viver aquela noite como deve ser.

? Oiiiii – a rapariga atendeu o telemóvel com uma voz sensual, tentando fazer que cada i compensasse o período de espera que o seu interlocutor suportara para ser atendido.

? Te ligo não me atendes, qual é a cena? ? Perguntou o interlocutor com um ar chateado.

? Desculpa, Brito! Estou a cozinhar, a velha não está… ? respondeu a miúda com um ar de quem pedia desculpas sem se humilhar.

? Qual é a ideia mais logo? ? o interlocutor lançou a isca.

? Ah Brito, estás a me perguntar qual é a ideia mesmo? Por que és assim?

? Claro que estou a perguntar qual é a ideia! Ainda não me respondeste por acaso…

? Mas Brito é para eu dizer o quê? Tu é que és homem. Eu já te disse que estou a cozinhar, a velha não está. Só daqui a uma hora terei acabado tudo!

? Não zanga então, estava a fazer papo! As dzoito passo te pegar.

? Aonde vamos?

? Surpresa! Relaxa, vai ser uma cena doce. Mas vê se me atendes logo.

? Mas Brito eu disse que estava a cozinhar, era para eu fazer o quê?

? Arranja-te, boneca! Se ligar e não me atenderes, bazo …

Os pés molhados roçavam as chinelas à cada passo e faziam nascer um som molito. É como se um dos dois expressasse um sentimento que apenas aquele ruído inconfundível que vem do alto da montanha é capaz de exteriorizar. A rapariga chegou ao quarto. A caminhada cessou. A capulana que trazia amarada à cintura enxugou religiosamente os riachos no corpo negro e formoso. Enquanto vestia, pensava na panela de arroz que deixara a cozer no fogão. Fazia tudo às pressas, mais alguns minutos e Brito ligava. Os olhos não saiam do telemóvel.

Está quase tudo pronto, pensava ela enquanto caminhava apressadamente para varanda onde estava o fogão. Como sempre foi desde que recebeu a chamada do Brito, o telemóvel estava com ela. O vestido vermelho, apertado, que deixava o corpo mais salientado não tinha bolsos. Pelo que o brinquedo teve de vir na mão esquerda. Quando chegou onde estava o fogão, manteve o corpo distante para evitar que o vestido ficasse em contacto directo com o calor que o carvão libertava. Com um pano roto que andava por ali, sem tirar o telemóvel da mão esquerda, esticou os braços, pegou a panela pelas orelhas e levantou-a. Estava pronta para caminhar quando de repente sentiu algo a vibrar. A mão a assar na chapa da panela despertou o grito que saiu da boca e molhou os olhos que viram o telemóvel no chão, o arroz espalhado na areia e a panela vazia.

 

O Governo moçambicano criou recentemente o Fundo de Pensões dos Funcionários do Estado (FPFE) com o objectivo de autonomizar e melhorar os procedimentos de administração da previdência social pública. Com a sua operacionalização, as contribuições arrecadadas passarão a ser aplicadas no mercado e acumuladas sob a forma de activos, o que vai contribuir para a sustentabilidade do sistema. A taxa contributiva deverá ser igual ou superior a 14%, sendo que os funcionários continuarão a contribuir em 7% dos seus salários e o Estado, como empregador, passará a contribuir uma taxa igual ou superior a 7%.

Até ao momento, o sistema funciona com base no orçamento onde as contribuições feitas pelos funcionários entram como uma receita estatal e as pensões são pagas, igualmente, através do orçamento, como se de uma despesa se tratasse. Não havendo investimentos, os cíclicos e crescentes défices financeiros do sistema têm sido da responsabilidade do Estado o que representa um elevado fardo para o orçamento. Para se ter uma ideia, em 2012 o défice foi de mais de 650 milhões de meticais (excluindo as pensões dos militares), quase 1 bilião de meticais em 2015, enquanto em 2017 o défice já espreitava os 1.2 biliões de meticais. Perante esta tendência, é compreensível a decisão tomada pelo governo, pois dificilmente o orçamento estaria disponível para satisfazer o pagamento de pensões e manter o equilíbrio do sistema.

No entanto, a transição de um sistema de repartição para um de capitalização requer um esforço financeiro considerável. Neste caso, o governo necessitará de 300 milhões de dólares (passivo actuarial) para autonomizar o plano público de pensões. Certamente que a preocupação que se levanta é como serão mobilizados recursos desta magnitude tendo em consideração as actuais condições da economia.

Ora, dado que a materialização desta reforma é urgente, o governo poderá optar em fazer uma transição gradual onde nos primeiros anos o gestor do FPFE (Instituto Nacional de Previdência Social – INPS) continuará a depender do orçamento do Estado, enquanto cria a sua robustez e sustentabilidade.

A nova fase impõe desafios ao INPS, nomeadamente a modernização do sistema de pensões e a sua gestão de forma adequada em função dos recursos a serem disponibilizados para evitar as más experiências do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS). Assim, as questões centrais de gestão e modernização que carecem de atenção são:
a)  Gestão da Carteira de Investimentos

A necessidade de conservar os valores acumulados para desembolsá-los no futuro, e tratando-se de montantes elevados, exige que os fundos de pensões observem uma política de investimentos que lhes garanta maior rendibilidade, sustentabilidade a longo prazo e conforto dos seus participantes. Isso requer que os gestores dos fundos tomem decisões ponderadas de capitalização.

Em Moçambique, os fundos de pensões existentes são pouco dinâmicos e tendem a investir na mesma classe de activos, nomeadamente depósitos a prazo e títulos do Estado, o que coloca em causa a diversificação do risco. Por exemplo, em 2016 os depósitos a prazo representavam pouco mais de 65% dos investimentos do INSS e Kuhanha. Este cenário contrasta com as tendências observadas internacionalmente onde os depósitos estão abaixo de 25% da carteira de activos dos fundos de pensões que têm investido mais em infra-estruturas, private equities, entre outros. Portanto, se o FPFE pretende ser no futuro uma referência à semelhança do Government Employees Pension Fund da África do Sul (USD 124 biliões em activos), Government Institutions Pension Fund da Namíbia (USD 7.66 biliões em activos) ou o Botswana Public Officers Pension Fund do Botswana (USD 4.9 biliões em activos), deverá acompanhar as tendências globais na gestão e alocação de recursos de pensões.

Diferentemente do INSS, o INPS pode confiar a gestão da carteira de activos a uma entidade autónoma, séria e competente, cujo gestor principal deve ser um indivíduo de reconhecido mérito e altamente respeitado na sociedade. Esta acção não constituiria novidade no sector de pensões e contribuiria para uma maior eficiência e transparência na capitalização de recursos e prestação de contas.

A independência do FPFE será crucial para o seu crescimento a médio e longo prazo. Se as autoridades governamentais tiverem um acesso exclusivo ao fundo e influenciarem fortemente no tipo de activos a adquirir (geralmente títulos do Estado e enfraquecidas empresas públicas) poderá limitar gravemente o seu funcionamento e colocar em causa a sua sustentabilidade. É importante lembrar que, se eventualmente, o FPFE tiver desequilíbrios financeiros, o orçamento do Estado será novamente chamado a intervir para restabelecer o equilíbrio no sistema.

b) Revisão dos benefícios de aposentadoria
Os benefícios de aposentadoria são calculados com base na fórmula . A leitura inicial que se pode fazer é que para um funcionário com um registo de 35 anos de trabalho na função pública, a sua pensão é exactamente igual ao vencimento que aufere. A questão que se coloca é qual dos vencimentos, uma vez que este é variável ao logo da sua vida activa devido às habilidades e experiência de trabalho acumuladas, nível académico, progressões, carreira, entre outros.

A lei diz que o salário médio auferido pelo funcionário nos últimos dois anos é que deve ser considerado para atribuição da pensão. O que isto significa? Por exemplo: o “Sr. João” ingressa na função pública e durante 33 anos de trabalho recebeu em média 20 mil meticais, e, portanto, contribui para o sistema com base nesse valor. Nos últimos dois anos, o “Sr. João” (já com o grau superior completo, experiência, etc) recebe uma promoção para um cargo de direcção e passa a auferir em média, por hipótese, 75 mil meticais, e lhe é taxado 7% deste valor.
Embora o “Sr. João” tenha contribuído com base no seu ordenado de 75 mil meticais apenas nos últimos dois anos da sua carreira, quando passar para a reforma terá direito a receber a pensão igual aos 75 mil meticais (mais bónus especial), não importando o facto de ao longo de 33 anos de actividade ter contribuído com salário de escalão inferior. Este sistema altamente generoso e apetecível tem contribuído para os sucessivos défices financeiros, o que sobrecarrega o orçamento do Estado. Nesta nova etapa, a fórmula de cálculo da pensão de reforma dos funcionários públicos deveria ser revista e considerar as suas contribuições durante a fase produtiva e respectiva capitalização.
c)  Criação de direcções provinciais e modernização do sistema de gestão de pensões

A inexistência de direcções provinciais de previdência social e sistemas modernos de gestão e controlo de pensões têm resultado em inflexibilidade e altos custos de transacção associados. Por exemplo, a gestão de pensões fora de Maputo é feita manualmente pelo pessoal adstrito à Direcção de Economia e Finanças de cada província que, na maioria dos casos, não possui as competências suficientes para a realização deste trabalho. Sendo que a aprovação dos processos é dependente da sede em Maputo, quando a documentação enviada contém informação incorrecta, o que se tem registado com relativa frequência, e como não há articulação através de sistemas informáticos eficientes, a sede devolve-a ao departamento de origem para correcção. Quando o processo é finalmente aprovado, os benefícios são pagos retroactivamente.

A criação de direcções provinciais e investimento em sistemas modernos de gestão de informação contribuirão para maior eficiência, coesão, segurança e harmonia na gestão quotidiana dos recursos. As bases de dados devem ser capazes de criar uma articulação global no sistema de pensões, permitindo mecanismos de consulta e partilha de informação diversa entre os diferentes intervenientes e na produção atempada de informação estatística.   

Certamente que o governo tem interesse que o FPFE/INPS seja viável, transparente e que garanta uma pensão tranquila aos seus funcionários aposentados. Assim, é relevante ponderar sobre o modelo e reformas a adoptar tendo em conta parte dos desafios acima mencionados.

 

Na cidade os homens não se conhecem, não se amam, não se compreendem.

 

Rodrigues Júnior

17h44 em Maputo. Ponteiros do relógio em contagem retrocedente. Faltam 16 minutos para a ante-estreia de Resgate, da Mahla Filmes. Laquino Fonseca (Tony), um dos vilões da história, transpira ansiedade. Mal consegue dar entrevista. Do realizador, Mickey Fonseca, nem sombra. A quatro metros de Laquino estão Gil Alexandre (Bruno) e Arlete Bombe (Mia). Gigliola Zacara vai tirando fotos, gingando para o público que não pára de chegar. Já são horas, e nada de sequestro. Logo, não há Resgate algum. As pessoas esperam, ah se esperam. À moda moçambicana 18 horas são 18 e tal. A essa altura, sim, todos são convidados a subirem as escadas para irem ver o resultado do que a Mahla esteve a fazer nos últimos nove anos.

Cadeiras preenchidas. Agora é uma questão de segundos. Um MC inventa como que improvisando um discurso ao estilo breaking news. Caramba! A espera afinal não terminou. Mais uns 11 minutos adicionados aos 18 e tal. 19 horas à espreita. O filme já vai começar. O pessoal desliga os telemóveis ou então finge. A expectativa é enorme, nota-se no mastigar das malditas pipocas que tanto barulho desnecessário provocam. O pano finalmente sobe. Já ninguém fala nem tosse. Resgate está na grande tela.

100 minutos depois

Terminou o filme. Os rostos dos expectadores parecem estupefactos de todo. Aí entramos nós para explicar o que se passou na grande tela da Lusomundo.

100 minutos antes

Logo que a longa-metragem da Mahla Filmes começa, vê-se um homem a regressar para o seu passado, no entanto, com algumas metamorfoses em relação ao que deixou para trás, quando foi preso. O sujeito em causa chama-se Bruno: altura média, cabeludo, mulato = o “ódio e o amor entre as raças” (Azagaia). Até a altura em que Bruno caminha rumo à reintegração social, o filme não esclarece o que se passou com ele. Deixa vestígios, úteis numa fase mais adiantada.

Bruno vai parar a cadeia por se ter tornado criminoso. Depois de cumprir a pena, sai disposto a reconstruir a vida de forma sensata, com a mulher e a filha. E nisso aprende a conviver com a dor, com a sensação de que poderia ter ajudado a mãe a livrar-se de um maldito cancro se não tivesse feito asneiras que lhe custaram a liberdade. É quando a vida do nosso herói começa a encaixar-se que aparece o anti-herói Tony predisposto a reintroduzi-lo na criminalidade. A essa altura a história ganha aquela acção ao estilo Hollywood, com linguagens fortes e momentos dramáticos, mesmo a condizer com um outro estilo, o dos gangsters.

Entre disparos, sequestros e tentativas de resgates, o filme ficciona a deterioração de uma história de amor sincero, movida pela ganância e presunção. Resgate é uma narrativa sobre os corredores do crime, que vai buscar no submundo de Maputo parte das peripécias responsáveis por tornar a cidade um campo de tiros, ou seja, um lugar onde os homens não se amam, não se compreendem e tão-pouco deixam-se compreender.

Resgate é um filme para ver com amigos. Boa alternativa cinematográfica para o tipo de longas realizadas em Moçambique. Ao contrário da tendência, a produção da Mahla trabalha o presente, dando-o uma razão de ser. Do ponto de vista de enredo, inquestionável. O casting dos actores só não é perfeita porque a perfeição é uma ilusão. As cenas, a ficção, o movimento, o drama, o suspense, o trabalho de pós-produção, logo se vê, preenchem inverosimilhanças que naturalmente o filme possui. Por exemplo, Bruno chega demasiado seco a casa de Mia num dia chuvoso e há exagero no tratamento do dólar em detrimento do metical. Agora, não aconselho que se levem crianças a ver este Resgate. Pode ser demasiado pesado para elas. Seja como for, lá está um barómetro ficcional que bem serve para as afamadas “autoridades competentes” usarem na eliminação das gangues que rebentam a bolsa, a paz e o futuro de Moçambique.

 

*Texto inicialmente publicado pela Xonguila, com o título Resgate.  

 

Título: Resgate

Autor: Mahla Filmes

Filme

Classificação: 16

 

 

 

Esta tarde, dei o meu passeio habitual por um bairro antigo, com casas pequenas –T1, do século XIX. Muito pitoresco e lindo de se contemplar. Os holandeses tornam a coisa ainda mais prazerosa porque eles raramente fecham as cortinas. Tive então a oportunidade de espreitar o interior de algumas delas.

Um homem baixinho, todo ele vestido de preto, óculos escuros, pedalava em minha direcção. Deu-me um sorriso enorme e disse “olá”. Respondi-lhe com um sorriso.

Escassos metros mais à frente, uma casa chamou-me a atenção pela arte e plantas espalhadas ao longo da janela. Dei uma olhada para o interior. Parecia hippie; até tinha uma cascata artesanal, pequena e bonita. Continuei a andar, e quando olhei para trás, lá estava o homem simpático, outra vez sorridente. Ele parou e disse:

Olá, chamo-me Johan. Vejo como te encanta o bairro… – disse ele em holandês, com um forte sotaque alemão.

É realmente interessante! – retorqui.

Eu moro aqui, e tenho o meu atelier aqui também. Tens de vir ver… se quiseres. Podíamos tomar um copo de vinho.

Aquilo fez-me lembrar a minha imaginária Lisboa (apenas a baixa), com toda aquela gente boa, iminentemente a convidar-te para tomar qualquer coisinha – talvez fosse apenas uma questão de tu mesmo sugerires – em suas casas.

Claro, podemos fazer isso! – E eu estava a ser sincera – deixa-me acabar a minha caminhada. Já volto!

Óptimo!

O corpo dele era daqueles que tremia. Ocorreu-me que pudesse ser um corpo abusado.

Voltei, à procura do seu atelier. Para a minha surpresa, a casa dele era aquela casa hippie que eu havia admirado anteriormente.

A porta estava aberta, pude ouvir um som sul-africano. Aquilo foi certamente para me impressionar – pensei.

Olaaaa – gritei.

Ele veio até à porta, convidou-me para entrar, todo feliz.

A casa estava de facto cheia de pequenas coisinhas. Tudo de pequeno que se possa imaginar, estava lá: pedaços de vidro, estatuelas religiosas e de anjos, velas, cachimbo, chaves, termómetro, latas de cerveja, garrafas, etc.

Finalmente havia um sofá. O sofá era ainda mais escuro que o seu verde escuro, devido a absorção de humidade e tudo o que estava sujeito a cair nele.

A minha primeira impressão foi a de que ninguém merecia aquele tratamento.

Queres beber alguma coisa? Tenho vinho…

Depois de ter dado uma vista d’olhos à sala toda, não me apetecia meter nada na boca que viesse daquela casa.

Ah não, obrigada…

Nada de álcool? Tenho água aromatizada, mesmo boa, com algumas ervas… feita por mim. Gosto de aromatizar tudo, até fruta! Deixa-me mostrar-te a água…

Água com ervas? Parecia bom, mas eu não conseguiria.

Ele dirigiu-se à cozinha e trouxe de lá uma jarra contendo a sua arte. A água era amarelada. Pois, era da fusão – pensei.

Eu continuava em pé, tentando equacionar como me sentar, onde colocar a minha carteira. Era uma sala cheia e suja. Não se conseguia ver a sujidade, a poeira, mas o ambiente em si era sujo. Era demasiado para o escuro.

Depois pensei que devesse ser um pouco mais flexível já que ali me encontrava e ele estava a ser simpático desde o início. Aquilo era o que ele era. Se eu ali me encontrava, tinha de aceitar tudo aquilo.

Oh, até tem um aspecto interessante mas acho que não me apetece beber mesmo nada…

Ok. Eu vou beber um vinhito, então…

A quantidade de vinho na garrafa dava apenas para um copo. Ele deitou o vinho no copo e depois levantou-o, em jeito de “saúde”.

A estas alturas já devíamos estar sentados. Coloquei a minha carteira no meu colo e sorri nervosa, sem querer dar a entender que estava pouco à vontade.

Questionava-me sobre o porquê dele me ter abordado. O que foi que ele viu em mim? Onde é que ele encontrou a ligação para uma amizade?

É verdade que precisámos de um leque vasto de amigos. No entanto, amizade implica troca de energia, conhecimento, cheiro, respiração, frustrações, felicidade, etc. Tudo de uma forma em que ambas as partes entendam.

Então, também moras aqui? Há quanto tempo?

Sim. É minha casa e atelier ao mesmo tempo e moro cá há 8 anos. Vim com a minha ex-namorada, que veio estudar arte. Acabámos, ela foi-se… e eu não me mudo da Holanda! – disse ele, muito convencido, com um sorriso trémulo, abrindo os seus olhos amplamente.

Percebo. E trabalhas aqui? O que é que fazes?

Sou artista, como podes ver. Faço de tudo. Infelizmente não faço escultura, mas pinto quase tudo, incluindo retratos. Vês ali? É trabalho meu! – apontou para um retrato pendurado na parede, com a foto original ao lado. Achei que fosse razoável, nada de extraordinário.

Também faço desenho a lápis… de vez em quando vou conseguindo umas encomendas. Deixa-me mostrar-te o meu trabalho. – ele foi buscar dois grandes álbuns cheios de trabalhos seus.

Vimos os álbuns de forma minuciosa pois ele não queria perder nenhum detalhe, explicando tudo. A maior parte dos desenhos eram da sua cidade. Prédios, montanhas, gente, a vida no geral. Eu gostei da forma como ele desenhava as pessoas próximas umas das outras. Não acho que deva ser tarefa fácil – desenhar gente junta, abraçada, multidões. Confesso que ele o fazia muito bem.

Em todos os desenhos, ele alegava estar neles retratado, simplesmente dizendo: “este sou eu”.

Os desenhos eram tão pequenos que eu não conseguia revê-lo no meio daquela gente toda. Perguntei-lhe por que estava tão certo de que era ele, ao que ele respondeu: “Porque eu estava lá quando fiz os desenhos. Por que razão me haveria de excluir deles?”

Muitos desenhos de pessoas nuas. Ele também se encontrava dentre elas…

Oh, podes ficar com estes! – ele deu-me 3 fotocópias de desenhos bem básicos e o seu primeiro poema em holandês.

Muito sinceramente, eu era capaz de viver sem aquilo. Eram tão pequenos quanto a minha mão, eu mal conseguia ver os detalhes neles, para além de que eram fotocópias.

Ele também desenhava muitos sinais cósmicos e salientava como tudo tinha dois lados: um lado escuro e outro claro; grande e pequeno… – tão simples quanto isso.

Vi muito daqueles álbuns, estava a ficar cansada, ansiosa para mudar de assunto. Fazia-lhe perguntas sobre como é que ele conseguia trabalhar, já que não o imaginava a poder sobreviver do seu trabalho, que era evidente ser escasso.

Ah, eu vendo a maior parte do meu trabalho na Alemanha, onde tenho uma clientela regular – disse.

Ele tinha um filho. Pouco sobre ele foi dito. Vive com a mãe.

Vês aquela máscara?

Sim, também a fizeste tu? Parece real…

Não… acho que vem da Etiópia, não achas?

Por que haveria de vir da Etiópia?

Não sei… os detalhes…

Os detalhes não indiciavam que fosse da Etiópia. Ele deveria ter ido pela técnica da coisa se quisesse ser convincente. Parecia mais da África Ocidental, pelo que me lembro dos documentários.

Acho que tenho de me ir embora…

Ok, foi mesmo um prazer conhecer-te. Espero mesmo poder ver-te outra vez. Para a próxima, mostro-te as fotos da minha família! – ele parecia tão feliz.

Passámos quase uma hora e meia juntos, e o Johan não perguntou nada sobre mim. Nada!

Dei conta de que não tivera sido eu que lhe chamara a atenção. Ele precisava mas é de alguém com quem falar, alguém que apreciasse o seu trabalho. Nem sequer estou certa de que ele tenha sentido que eu pudesse ser a pessoa certa para o fazer. Ele apenas fez do melhor para levar alguém para dentro da sua casa.

Já lá fora, quando nos despedíamos, mencionei vagamente estar a passar por um mau momento, como uma desculpa para não o contactar nas próximas semanas…

Ah stress, eu nunca estou stressado! Eu faço Yoga todos os dias de manhã e dá-me para me sentir bem-disposto o dia todo!

Ele continuou a gabar-se do que era capaz de alcançar em termos de paz interior. Parecia muito cansado, problemático… e trémulo. Nada que fosse puro.

Aliviada, parti. Oh, que dia! Detestei tanto este episódio. Não podia acreditar! Senti que ele tivera arruinado o meu dia.

Enquanto eu caminhava para casa, pensei que deveria arranjar uma forma de me desfazer da sua existência. Mesmo. Não levá-lo no pensamento, para a minha casa, para o meu santuário. Detestei! Não porque queria que a atenção recaísse sobre mim, sobre a minha vida conturbada, mas porque ele usou-me, teve-me à borla, do nada. É verdade que me tenha apercebido disso, que poderia ter saído mais cedo mas não vi nenhum inconveniente em fazer-lhe o favor de lhe ouvir e sentir-se bem. Não vejo nada de mau nisso, objectivamente. No entanto, tudo o que ele tinha para oferecer eram os seus líquidos sujos? Pensava ele que eu era barata, fácil de enganar? Donde é que ele obteve tais sinais?

Chegada à casa, fechei a porta com força e encostei-me à ela como se estivesse a bloquear a entrada a alguém. De repente soltei uma gargalhada. Fi-lo durante a noite inteira, sempre que me lembrasse nele. Ele era maluco, então?!! Não consigo ver outra explicação, a não ser solidão. Mas solidão só, não torna uma pessoa em narcisista. Aos 50, sendo ele espiritual, artista, ele tem de sentir, preocupar-se e estar genuinamente interessado noutras pessoas. Esta é a essência de toda a vida que ele tenta projectar.

Apesar deste episódio, continuarei a falar com estranhos. Muitas vezes fui uma estranha, fiz coisa semelhante a que ele fez – abordar gente apenas para fazer novas amizades. Isso dá-me um sentido de liberdade.

É terça- feira e ainda me riu quando penso nele. Simplesmente não havia necessidade de o conhecer. Ah, a última frase dele: “Por que achas que nos conhecemos? Tem mão de Deus nisto”.

Quando se pinta um sonho, a partir dum lugar agachado num mapa nas margens do Índico, com as cores tonificadas de dúvida e certeza, de esperança e desespero, o resultado é esta miscelânea de cores ombreando com o brilho do sol nascente. É com estes traços versus estas tranças coloridas do oriente que se revela o sentido de ser mulher, nesta empreitada de tentar transladar o futuro para o presente.

É desta forma como impacta em mim esta exposição da artista plástica Huwana, composta por uma dezena de quadros, com um temário geral: DICOTOMIAS FIGURATIVAS. Neste conjunto de obras ela traz-nos, por assim dizer, o seu olhar, a sua verdade, entrelaçando contrastes com as cores mais fluentes da vida, num mundo que, por vezes, parece esboroar-se na descrença do amanhã.

É uma pintura aberta ao mundo, como a própria artista que, na sua condição de mulher, tem o condão de trazer à luz esse mistério chamado vida. Estes quadros, que realmente são uma autêntica mescla de amor e sonhos, mito e memória, emprestam ao observador uma experiência de poder e liberdade, pois quem cria a vida é tão poderoso quanto quem cria o mundo. Ambos são arautos da criação, com a diferença de que a Huwana tem um duplo poder, o da criação da vida e o da recriação do universo, através do seu pincel.

Há quem diga que as artes plásticas oscilam entre duas vertentes: a imitação e a música. Elas são impregnadas de ilusionismo e abstracionismo. Quanto a mim, aquele que consegue estabelecer o equilíbrio entre estas dimensões pode se dar por satisfeito, na medida em que a arte só é plena quando alcança esse equilíbrio. É assim que estas telas de cores brilhantes que a Huwana nos propõe convocam a saudade e a memória de viver a vida ressuscitando a esperança. Nelas há um esforço ou seja uma intenção clara de a artista nos convidar a viajar com ela na sua busca pelo futuro. Mas, afinal, como se retrata então a empatia entre o nosso mundo interior e exterior? Como se transpõe, por exemplo, o sentimento de dó ou compaixão que borbulha em nós para uma tela? Estas e outras questões a artista tenta responder em cada tracejado, em cada gradação da luz, neste mar de cores ondulando nos seus quadros.

A narrativa da vida e do tempo é igualmente explicada nestes traços, nestes sombreados, nesta luz que até transborda para fora das próprias telas, porque, na verdade, a época em que vivemos é também caracterizada por um intrincamento de desgraças e tristezas. A Huwana tenta, por isso, não perder o fôlego e muito menos o foco daquilo que é o seu sonho anichado nestas linhas e formas, que acabam revelando as suas próprias crenças, principalmente aquelas sobre o poder da cor e da luz na procura da felicidade.

O acasalamento das cores e da luz nos quadros da Huwana simboliza o amor supremo que ela oferece a si própria e ao mundo. Todas as suas obras, incluindo as que corporizam esta exposição, são uma espécie de alegoria de si própria numa terra que lhe é simultaneamente hostil e bem-aventurada.

Gosto desta afirmação de Picasso: “A pintura não é feita para decorar os aposentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo.” É caso para perguntar se a Huwana não estará, porventura, a dar continuidade a uma guerra, herdada do seu ADN, visando reavivar nos homens e mulheres da nossa época a vontade e alegria de viver, a partir das contrariedades do quotidiano?

 

 

Magid Osman tem uma trajectória conhecida, como homem forte na área da "mola". Daí que, a muitos que o conhecem, não passe pela cabeça que este cidadão, óculos com graduação alta, falas mansas sempre viradas para os cifrões, tenha sido um grande atleta nos 110 metros barreiras e excelente executante no futebol de salão.

Diariamente, era vê-lo no então Sporting de Lourenço Marques, a treinar duro para melhorar as suas marcas, rivalizando com o seu colega de equipa Abdul Ismail. Estamos a falar de meados da década 60.

Ter sabido compensar a sua insuficiente massa muscular e o baixo peso (75kg) através de um aturado trabalho técnico, foram os seus principais argumentos. Ensaiava até ao pormenor o arranque, depois a passada certa e forma de passar as barreiras. Nada de improvisos.
Fez parte de algumas selecções nacionais. O seu melhor tempo andava pelos 15.3 segundos, muito próximo do recorde nacional que nunca chegou a bater. Corria os 100 metros  planos com o tempo a rondar os 11 segundos, que em pista de cinza era uma marca assinalável.

 

DEIXOU O FUTEBOL PARA NÃO SER… DAVIDS

Chegou a jogar o futebol nos juniores do Desportivo de Maputo, mas não continuou nesta modalidade pelo facto de não enxergar bem, pois usava óculos. E como não queria ser como Edgar Davids (um craque da selecção da Holanda que jogava com óculos), optou pelo atletismo, passando para o Sporting, sob orientação de Luís Revés, uma vez que o treinador "alvi-negro" António Matos, era muito exigente.

 

PERDEU-SE UM ATLETA GANHOU-SE UM ECONOMISTA

Após ter ido para Portugal seguir os estudos, o frio e a intensidade dos treinos no CDUL (Clube Desportivo Universitário de Lisboa), fizeram com que abandonasse as pistas. A sua veia para assuntos de economia, falou mais alto. Perdeu-se um bom barreirista, mas ganhou-se um dos nossos mais conceituados homens das finanças.

No seu estilo recatado, revelou-nos um dia que continua a acompanhar o desporto, mas que a sua vida desportiva, comparada com a de Eusébio, Mutola ou Coluna, não tem interesse para a sociedade.
Mas nós consideramos, sem favor, este madala de sucesso, um desportista dedicado e acima da média.

 

 

Há dias que acordamos com a alma acabada de voltar do lado de lá e não nos sobra nada senão uma lembrança e olhos na almofada. Tenho o corpo todo molhado, a dissolver-se, a cobrar-me amores.

Há dias que queremos que nos massageiem o coração, a memória, a alma, qualquer coisa, desde que toquem lá com jeitinho e seja tudo eterno. Tenho a alma a sair pelos olhos. Há dias que apenas desejamos que seja tudo profundo, real e eterno, só para nos confundirmos com o mundo que queima dentro de nós. Tenho isto sempre comigo. Em todos os dias há saudades…

Com esse palavreado desassossegado deves estar a pensar que enlouqueci de vez, nem? Dá-me só um tempo para me recompor e hoje prometo tentar-te contar tudo o que me tortura sem aquelas palhaçadas de sempre. Não te entusiasmes assim, então! Eu disse que prometia tentar, não asseguro que o faça. 

O perdão que dou ao outro é um subterfúgio para viver em paz. Mas há coisas que por mais que tentemos nos custam perdoar. Muitas vezes esse beneplácito só nos aparece já com a alma a se juntar ao universo e o corpo quase na tumba. Há feridas que sempre estarão ali, latentes, comendo-nos por dentro. A minha relação com o tempo é complexa. Constantemente cobro-lhe o que passou. Nunca vivi tanto a infância e o meu país que agora. Estes beijos voluptuosos ensinam-me a me contentar com o pouco que a memória fumega.
O sábado apresenta-se de céu límpido em Lisboa.

Já vamos em Agosto e o Verão ainda não conseguiu germinar como deve ser. Hoje é a excepção, a cidade se deixou tomar pelo calor. O almoço foi bem forte, ainda sinto o sabor da feijoada na minha boca! Uso como pretexto o facto de ter tido uma semana cansativa e deixo encarnar em mim uma das características daquele animal de sete vidas. A preguiça me toca com propriedade e eu não me faço de gostoso, deixo-me levar. Despreocupadamente me deito e deixo que aconteça o que é suposto acontecer. 

? Uyo pfumela, uyo pfumela, uyo pfumelaaa – António Marcos, o nosso maengane, embala-me e sonho-me em criança a correr atrás de uma bicicleta.

A minha infância persegue-me repetidamente ou eu a ela. Ela aconteceu num período de uma genuinidade sem igual. Vivíamos com pouco, mas éramos felizes. Brincávamos na rua até que se fizesse tarde. Ainda houve quem apanhou uma boa sova por apenas ter estado a brincar. Desculpem-me, brincar até tarde. Doía no momento, dia seguinte a história repetia-se. Lugar de criança não era no Youtube ou Facebook a fazer palermices para que tivesse seguidores. Os seguidores eram os próprios amigos. E se tivesses uma bola de futebol, ui se tivesses uma bicicleta! Enchiam-te a casa e nunca te sentias só. Quando o que tivesses se estragava te tornavas também seguidor de alguém. Hoje sou eu, amanhã és tu. Brincávamos todos juntos, até nos sujarmos. A amizade começava por interesse, mas com o tempo tornava-se sincera. 

Tive a minha primeira bicicleta com catorze anos, porque me foi dada na escola quando era activista. Devia usá-la como meio de transporte quando ia fazer palestras noutras escolas. Até aquela idade nem eu, nem meus irmãos sabíamos o que era ter uma bicicleta. Era algo caro e que os nossos pais não nos podiam dar. Quando vivi na casa da minha avó aprendi a andar de bicicleta. Meu tio Alfredo, irmão da minha mãe, arranjava bicicletas. Como os mecânicos das oficinas de Maputo que gingam por aí com carros de dono alegando estarem a verificar se os defeitos foram eliminados, eu e meus primos fazíamos o mesmo com as bicicletas. Geralmente o mais esperto ia sentado na bicicleta a pedalá-la e os outros corriam atrás. Confesso que muitas vezes fiz parte do grupo dos que corriam atrás da bicicleta, era matreco. Durante aqueles percursos, que muitas vezes eram longos, todos dizíamos esperançosos a mesma frase: 

? Na curva é para você me emprestar. 
Quero-te perdoar, tempo. Mas como o fazer se há dias li por aí essa frase e fui tomado por uma nostalgia que constantemente me tortura em pensamentos e sonhos? 

 

Cobarde, o mundo é cobarde! Ele viu, vê e verá. Mas nunca intervém.

Minha mãe, a senhora Fátima Mendes, morreu vítima duma destas doenças chiques e modernas. Não sei bem se é ABC, AVC ou ADC, mas é por aí que ouvi meu tio José Oliveira falar para a tia Sandra.

Em casa eu vivia com Tio José e meu pai, o senhor Alfredo Afonso. Na verdade eu tomava a ambos como meus pais, é assim que eu era tratada. A princesa da casa. Meus dois pais eram uns amores inimagináveis.

Meu pai era médico no Hospital Central de Maputo, escassos metros de casa. Meu tio José era gerente duma pastelaria também perto de casa e é lá onde eu almoçava sempre que a dona Anastâcia, a secretária, não viesse.

Acordar encontrar a casa cheia de solidão. Limpar-me e tomar o pequeno-almoço acompanhada pelo Mickey Mouse. Esta era a minha rotina, pois mesmo vindo, a secretária chegava às nove, depois do pequeno-almoço.

Uma menina de quatro anos como eu era e com um pai que não me queria misturada com outras na creche só podia ser abalizada no que respeita aos bonecos animados. E eu era de facto.

Com volume do televisor alto, super alto. Neste dia eu só queria ver videoclips na GloomChannel. Passava naquele momento o vídeo dum cantor moçambicano que canta em Changana e apesar de não entender eu gostava das suas músicas, tal de Bawito.

Então ouvi um barulho desusado nas músicas daquele ídolo. Mas pouco me importei. Além de ser criança para me preocupar, eram naturais as surpresas quando o assunto fosse música daquele senhor. Outra vez o som.

Como nunca tinha sentido em minha casa, eu estava em pânico e angustiada. Quem seria se eu tinha feito a ronda habitual para me assegurar que apenas a solidão e eu estávamos ali.

Um senhor branco, cabelo longo (parecido com Jesus), mal vestido e com dentes podres estava na minha frente. A janela estava arrombada. Meu medo estava estoirado. Orei Pai Nosso, Ave Maria e todas outras aves possíveis.

Sarcasticamente ele sorriu expondo a podridão dentária. Fiquei enjoada. Levantou a mão e fez um movimento alternado com os dedos como quem estava a saudar-me. Correspondi exactamente do mesmo jeito, como via meninas portuguesas a fazer na TV.

Com lágrimas no rosto, eu pedi àquele senhor que deixasse a casa senão eu gritava. Um pedido que ele anuiu sem pensar duas vezes… Quem imaginaria que ele seria tão compreensivo quanto à saída de casa? Mas de seguida formulou-me um convite, queria sair junto comigo.

Até achei “fixe” a ideia. Eu nunca saía e ele queria me levar para ver o sol. O problema é que eu queria ver Gomby na JimJam às nove. Ele garantiu-me que veria noutra ocasião. Mas recusei porque ele assustava. Aí ele fez o que lhe competia, carregou-me.  

Com pessoas passeando normalmente na rua. Soltando gargalhadas e carros aos roncos. Tudo estava em 360º para mim. Girava no colo mal cheiroso daquele tio. Eu gritava chorando. Pedia socorro. Todos ouviam e viam-me aos gemidos, mas olhavam e apenas continuavam a “exaltar a pátria”.

Houve até quem se aproximou, depois disse que pensou que estivesse sozinha, mas como eu estava com um adulto branco então estava tudo bem. Eu estava aos gemidos, aos gemidos! Por que mais uma criança gemeria senão de dor? Por que aquela senhora não se preocupou? E se fosse filha dela?

Já tinha ouvido que andavam uns senhores que raptavam crianças para retirar órgãos para fins tão ilógicos como tirar vida de alguém para salvar outra. Isso assustava muito.

O senhor que me carregava deixou-me num carro com vidros transparentes. Como se eu fosse sua filha. Eu chorava desesperadamente. Todos viam, mas ninguém dizia nada. Pedi ajuda como nunca. Num instante o senhor ficou mais chateado e eu fiquei mais apavorada. Pavor que crescia proporcionalmente aos gritos.

Agora éramos dois aos gritos. Ele gritava para que eu parasse de chorar porque queria ouvir música. Eu decidi que iria calar, mas o choro estava mais forte que a minha decisão. O senhor dos dentes podres decidiu ser generoso e ajudar-me a calar. Calou para sempre com uma chapada na cara. Tão dolorosa que não resisti e fui embora. Matou-me na rua. Todos viram, mas ninguém vai assumir. Cobardes!

Os filhos são sempre uma amarra forte, que não deixa os velhos afundarem-se quando a desgraça lhes bate à porta.

Rodrigues Júnior

 

In medias res (do latim, no meio dos acontecimentos), ou seja, início do discurso narrativo pelos eventos já adiantados em relação ao princípio da história. Assim começa o espectáculo teatral Incêndios, de Wajdi Mouawad, encenado por Victor de Oliveira, cuja estreia aconteceu sexta-feira passada, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo.

Logo no princípio da peça, com mais ou menos três horas de duração, dois irmãos, Simão Marwan (Bruno Huca) e Joana Marwan (Rita Couto), são confrontados com uma trágica e inevitável realidade: a morte da mãe, Nawal Marwan (Sufaida Moyane, Josefina Massango e Ana Magaia). Nesse momento, além dos dois irmãos, em cena está um hilariante Emílio Jubela (Alberto Magassela), encarregado por ler o testamento deixado pela mulher que foi sua amiga e confidente. A partir daí, logo se percebe que a história da peça não está no princípio e tão-pouco no fim. Por isso, na necessidade de se ir buscar ao passado a origem das coisas, num ímpeto, o espectador é confrontado com uma bateria de questões que o levam a questionar-se sobre as razões, por exemplo, de um filho chamar a recém-falecida mãe de cabra e puta, recusando-se a ceder às suas últimas vontades.

Esse mistério do passado que obscurece a maior parte da peça é revelado, como é característico em histórias que iniciam in medias res, com a instauração de várias analepses (externa, interna e mista). Aí encontra-se um dos fascínios técnicos de Incêndios, pois a história não vale apenas o enlace em si, antes disso, o encanto advém da maneira como o relato é apresentado por personagens pueris, românticas, airosas ou atrozes. Paralelamente, faz de Incêndios um espectáculo absolutamente fascinante a facilidade com que nos embala e faz-nos mergulhar no verdadeiro caos da guerra, esta coisa terrível e abominável, sem nenhum eufemismo. No fundo, e sem hipérboles de qualquer índole, a encenação de Victor de Oliveira (moçambicano residente em Paris há 20 anos, cuja família deixou Moçambique precisamente por causa da guerra dos 16 anos) é uma caracterização do que o homem tem de melhor e de pior. No primeiro caso, claro está, o amor é a beleza das coisas, dos actos, das aspirações, do sentido de partilha que deveria justificar a existência humana. No segundo, muito repugnante, está explícita a intolerância, a incapacidade de uns e outros donos da pátria coexistirem no mesmo espaço sem que se cuspam na cara.

Igualmente, contado a história de uma família como muitas em Moçambique, constituída por uma mãe e dois filhos, cujo pai ausente foi levado para bem longe pela força das circunstâncias evitáveis, Oliveira apresentou no Franco-Moçambicano a origem das grandes adversidades sociais. A mensagem do encenador parece ser muito clara: tornamo-nos selvagens a partir do momento que combatemos o amor. Então, no lugar de brotar a semente do afecto, da fraternidade ou do efeito cor-de-rosa responsável pelas mais nobres sensações da vida, no lugar de tudo isso germina num ápice um embondeiro de sentimentos desprezíveis. Augusto Conrado, esse notável poeta muitas vezes esquecido, quando nos referimos a toda uma geração de importantes autores moçambicanos dos anos 30/40 do século passado, terá sempre razão: “O coração que não ama não tem tom”. Como pode ter tom uma coisa vazia, seca, inútil?   

Certamente, Incêndios é uma história de amor e de rancores. Os dois irmãos que logo a seguir à morte da mãe ficam a saber da existência do pai e de um irmão na terra natal, personalizam, uma (Joana) a eterna esperança nas pessoas, na perspectiva de que ainda se pode reconstruir os fundamentos destruídos pelo ódio; outro (Simão) é o símbolo da descrença, dos conflitos individuais (sociais também, consequentemente). Sendo ambos gémeos, logo se vê, os irmãos Marwan aparecem como duas faces da mesma moeda, a lutarem pelo mesmo objectivo de forma diferente.        

Nunca vi (e aqui tenho mesmo de singularizar o discurso), um espectáculo teatral tão intenso, envolvente e emotivo como Incêndios, na encenação de Victor de Oliveira; ainda não vi um espectáculo teatral cuja história sangrenta de um povo, aquela que nunca deveria ter acontecido, estivesse tão bem contada como se fosse inspirada nesta terra. É o melhor espectáculo teatral que já vi. Concorre para o efeito a trágica e, paradoxalmente, linda história de Nawal e Wahab (Horácio Guiamba); concorre para o efeito a ousada produção justificada no cenário da peça, preparado para, em alguns momentos, o desenvolvimento de acções simultâneas, isoladas pelo tempo ou espaço; mais do que tudo isso, concorre para o efeito a qualidade dos actores, dos quais falaremos a seguir, pois conectaram-se e entregaram-se ao texto com excêntrica dedicação.

Portanto, contando uma história de amor e sobre os seus contornos trágicos, Incêndios devolve à realidade a podridão daí resultante. Esta é uma peça para ver, chorar e aprender a medir as consequências dos nossos actos antes de cometermos asneiras. É um texto para dizermos basta de armas, por isso não poderia ter sido estreada num momento tão oportuno quanto este. Se os políticos pudessem ver este Incêndios, provavelmente, apagariam definitivamente as chamas que incendeiam os seus corações e de todo um povo que apenas quer uma palhota tranquila para amar.

  

À parte – algumas notas sobre os actores/personagens

Alberto Magassela

Pronto. Vi Incêndios acompanhado pela minha mulher, que se encantou por Emílio Jubela (Alberto Magassela). Ainda bem que esse personagem não tem vida fora do palco, anteviam-se problemas lá em casa. Sempre que aquele gajo entrava em cena, vislumbra uma certa nuvem de ciúme no céu cinzento, pois o auditório punha-se a rir divertido mesmo sem ele dizer patavina. E o pior nem é isso. A minha mulher punha-se a repetir quase sussurrando: “este tipo é bom!”. A certa altura fartei-me da frase e disse-lhe: “baby, aqui todos são bons!”. E não estava a mentir. Alberto Magassela fez bem o seu papel (com gestos, caretas e olhares a condizer), tão bem que seguramente divertiu-se em palco. O carácter cómico do seu personagem preservou na peça pretextos para as pessoas descontraírem-se um pouco ao invés de verem a peça de forma sisuda do princípio ao fim. Com Magassela, Jubela foi cómico, mas não vulgar, presunçoso, às vezes, porém nunca ordinário. Então valeu mesmo a pena Victor de Oliveira tê-lo trazido de volta.

Ana Magaia

É a actriz moçambicana que melhor conheço, e, coincidentemente, a que mais aprecio. Também por ela decidi não perder a estreia do Incêndios. Na peça, Ana Magaia interpreta dois papéis. Primeiro, a de Nazira, avó de Nawal. Segundo, a de Nawal com 60 anos de idade. Nos dois casos, as personagens são idóneas, ponderadas e deveras consequentes. O derradeiro momento do espectáculo tem a actriz em palco, que no som das palavras cumpre a promessa de amar sempre, incondicionalmente. Como sábia, mesmo devido às vicissitudes pelas quais é obrigada a passar Nawal, Ana consegue ser o equilíbrio entre o amor e o ódio, entre o perdão e a sentença. Não explode como actriz, nem poderia naquele papel, no entanto, quando intervém, inquieta como se impõe com oscilações emotivas sintetizadas no último discurso de Nawal.  

Bruno Huca

Simão, o inconveniente. Jovem angustiado, essencialmente frágil na sua bravura. Pugilista. Intransigente. Rebelde. Teimoso. Vi o rancor de Simão Marwan nos olhos de Bruno Huca. Já disse uma vez, um actor incrível, artista versátil. Huca é daqueles que não precisa de muito tempo em palco para mostrar o seu valor. No papel exigente interpretado por ele, despiu-se de tudo para encarnar o espírito de um jovem já sem esperança na humanidade, que prefere julgar antes de compreender. Huca foi arrepiante ao manifestar o quão reles o rancor pode tornar as pessoas.

Elliot Alex

Coitado. Teve de morrer duas vezes no palco. A primeira, como miliciano, foi fuzilado por Sawda, a amiga de Nawal. A segunda vez, como fotógrafo, foi igualmente fuzilado, pelo sanguinário Nihad Ibrahim. Não teve papéis para se destacar, nem seria possível tal ventura para todos. Soube portar-se como personagem secundária (sobretudo como António) e morrer.

Horácio Guiamba

Muitas vezes conotado como um actor cómico, em Incêndios interpreta dois papéis: Wahab, o namorado de Nawal na juventude, e Nihad Ibrahim, um guerrilheiro desprezível. São dois papéis totalmente diferentes. No primeiro ama e contribui na reprodução de uma vida no meio da cólera. No segundo, fruto dessa cólera que se mescla com amor, é o causador da morte. Na pele de Nihad Ibrahim Guiamba exibe o seu potencial, personificando o horror dos homens contratados para matar e dos que matam pelo simples prazer de ouvir os outros darem o último suspiro. Nele viu-se, de facto, as guerras fazem os homens ser animais.

Josefina Massango

É das antigas e experientes actrizes moçambicanas. Teve a missão de ser mãe de Nawal e Nawal aos 40 anos de idade. Particularmente, gostei de a ver como mãe. Aí foi rude e dura com verosimilhança, como muitas, quando ficam a saber que a filha está grávida. Como Nawal senti falta de qualquer coisa, se calhar, a exteriorização dessa evolução emotiva de quem perde várias vidas à procura de futuro incerto.

Rita Couto

É sedutora a simplicidade e a devoção de Rita Couto na condição de Joana Marwan, a filha ponderada de Nawal. Como estudante universitária e professora de Matemática, fantástica. Como uma menina sofrida, carente e solitária, contagiante. As discussões que Joana tem com o irmão só não as consideramos reais, pois sabemos estarmos numa peça teatral. A Rita encaixou perfeitamente no papel de Joana que o carácter da personagem pareceu realidade e actriz o inverso. Inclusive, o seu papel teve umas variações interessantes. Na condição de professora, transmitiu uma imagem adulta e na da menina que busca o passado da mãe, mostrou-se mais ingénua. A Rita é uma excelente actriz!

Rogério Manjate

Teve uma meia dúzia de papéis, em geral muito idênticos. De alguns personagens de Manjate depende a pretensão dos irmãos Marwan descobrirem a verdade sobre o seu nascimento. Portanto, essencialmente, os papéis de Rogério Manjate não variam muito. Como Fahim, Malak ou Chamssedine o actor não decepciona a ninguém. Boa interpretação e presença no palco, fazendo apenas o recomendavel. Sem excessos.  

Sufaida Moyane

Sempre que a vejo a actuar lembro-me de Lucrécia Paco. No Incêndios não foi diferente. Pequena, voz juvenil, Sufaida é outro grande talento nesta nova vaga de actores moçambicanos. Na encenação de Victor de Oliveira representa Nawal, entre os 14 e 20 anos de idade. A sua missão é acreditar no amor e desistir do mesmo na primeira grande dificuldade que lhe aparece pela frente. A história trágica, na verdade, começa quando Nawal, ainda nova, é obrigada pela mãe a desistir do filho recém-nascido. Depois vêm o arrependimento e as tentativas de corrigir o erro do passado. Assim sendo, a actriz foi capaz de ser adolescente romântica e jovem amargurada.

Eunice Mandlate

Pulamos a ordem alfabética de propósito, de modo a deixá-la para o fim. Confesso, quando vi o nome na ficha técnica do Incêndios fiquei surpreendido. Não por ela ser má actriz, mas por ainda ter algumas fragilidades que me fizeram julgar que iriam interferir no seu desempenho na peça. Já a tenho acompanhado há uns três anos. A última vez que a vi em palco foi n’A história de um homem honesto, reposta pelo Mutumbela Gogo. Não me agradou. Entretanto, no Incêndios foi completamente diferente. Conheci uma outra Eunice Mandlate, que deixa até a última gota de sangue no palco. Insignificante como Amina, a parteira que fica com o filho de Nawal, é extraordinária representando Sawda. Um papel bem a altura das capacidades da actriz que conseguiu ser meio aparvalhada, transtornada e cheia de fel. Eunice encarnou profundamente a personagem e posicionou-se de forma verosímil no contexto de guerra que chorou no palco como eu nunca tinha visto antes. De repente, a Sawda, numa discussão brava com a amiga Nawal, emociona-se e exprime com as lágrimas o que as palavras já não são capazes. Silêncio total no auditório e no interior dos expectadores. Era a vez de Eunice Mandlate brilhar no meio de colossos e consagrar-se de algum modo. Quem se entregou ao espectáculo como ela, merece a confiança de estar no Incêndios e de ser levada a sério.

 

Título: Incêndios

Encenação: Victor de Oliveira

Teatro

Classificação: 19  

 

 

 

 

 

  

Nos tempos que correm a realidade confunde-se à imaginação e converte-se em algo sem precisão. É tudo duvidoso. Um discurso escorregadio embriaga-nos e tudo se transforma em ficção. A verdade deixou de interessar. O desejo de nos mantermos no poder nos faz ridicularizar a bússola que os génios usam para fugir de um despautério como o nosso.  Tontices e politiquices se aliam frequentemente contra a verdade.

As janelas fechadas e a luz fluorescente que era emitida por uma lâmpada colada a uma das paredes brancas do quarto neutralizavam o tempo. Naquele quarto, assim como em todos quartos daquele edifício, é sempre noite.

Os olhos de um homem deitado de costas numa cama abriram-se penosamente. O acamado olhou com muita atenção para única coisa chamativa que estava no seu campo visual. A máquina de reconhecimento que existe dentro de todos nós procurou por aquela imagem na base de dados. Já tinham sido armazenadas várias imagens semelhantes àquela, mas nenhuma delas correspondia à porta branca em questão. A mente do homem disse ao corpo que nunca tinham estado naquele lugar. Até ali os sentidos tinham funcionado desordenadamente, o homem que dirigisse a operação se quisesse respostas. Então ele virou a cabeça para o lado direito da cama e viu um monitor no qual ziguezagueavam algumas cobrinhas no sentido esquerda-direita e se destacava um número com uma cor vermelha. Os apitos que vinham da máquina despertaram a audição do homem.
– Pufffff! – bufou o homem.

À medida que se ia dando conta que aquilo era uma máquina que registava os seus batimentos cardíacos sentia no corpo os buraquinhos por onde entravam os tubos hospitalares aos quais o seu corpo estava ligado. Fez um esforço para se lembrar como tinha ido parar ao hospital. Mas o cheiro a éter que lhe beijava as narinas roubou-lhe a concentração. O despertar de cada sentido paria dores. Na cabeça tudo girava e se descontrolava como um país sem liderança. As tonturas o torturavam. O peito ainda se ressentia das fortes pancadas que o coração lhe dera.

A maçaneta da porta girou. Os olhos do homem voltaram-se ansiosos para a porta. Dois segundos depois um homem com um ar idoso que trazia vestida uma bata branca entrou no quarto.

– Olha quem está acordado… – disse o médico enquanto se aproximava da cama do doente.

O doente olhou para os lados como se procurasse o tal acordado e ao perceber que ele era o único que poderia ter estado a dormir cobriu a cara com a mão direita como quem quisesse esconder a vergonha.

– Olá doutor! Há quanto tempo estou aqui? Perdi a noção do tempo…

–  É normal que te sintas assim. Demos-te um sedativo, por causa das dores. Já passa…–disse o médico com um ar tranquilo enquanto tirava os óculos.

– Estou com umas tonturas… Durante quanto tempo dormi, que dia é hoje?

– Se tivesses dado entrada num hospital da província vizinha estarias a acordar em dois mil e quarenta… Não te preocupes, foram apenas algumas horas. – disse o médico com um tom jocoso.

– Dois mil e quê???? – perguntou o homem visivelmente aturdido. O médico não precisou de explicar aquele número, fez-se luz na cabeça do doente. O homem concluiu que o que o médico tinha dito só poderia ter algo a ver com a questão cabeluda do recenseamento eleitoral que tinha sido levantada há dias. – Awena! Ainda se anda nisso? A Propósito, alguma novidade?

– A mesma palhaçada de sempre! Quase que já nem se toca no assunto, anda tudo distraído com leões que comem milho e mandioca das machambas de Matutuine… – disse o médico com um tom irónico.
– Leões que comem o quê??? Desde quando os leões são vegetarianos? Começo a acreditar que acordei em dois mil e quarenta mesmo!

O médico riu-se. Levou as olivas auriculares do estetoscópio aos seus ouvidos e colou a outra parte do instrumento ao peito do doente para o examinar. Enquanto fazia o seu trabalho o sorriso denunciava a tranquilidade de um profissional, cuja verdade científica, por enquanto, não dependia do carimbo político para ser acreditada.
 

Me desculpe o grandessíssimo Mia Couto por roubar o seu título de um grande texto seu para fazê-lo meu de forma emprestada. Mia elaborou o texto no sentido de retratar a sociedade no geral, mas eu vou pedí-lo emprestado para retratar um caso específico; o desporto. Cheguei a ver o problema do futebol como um problema isolado, como se fosse problema do Selecionador, da FMF, mas vejo que é um problema que vai mais além; É o Desporto Nacional que está doente.

DIRIGISMO DESPORTIVO – O problema começa aqui. A maior parte dos dirigentes que gravitam no desporto vão lá para tirar dividendos financeiros e políticos. Tem dirigentes que enriquecem brutalmente, quando aquele que faz o espectáculo está mais pobre, essa pirâmide está invertida em Moçambique, devia ser o atleta a enriquecer ou pelo menos a conseguir viver dignamente. Onde estão as pessoas formadas nas universidades desportivas do país? Porque a maior parte não está na estrutura dos clubes?

PROFISSIONALISMO – O Moçambola é uma Liga Profissional? Sim, é! A Liga Nacional de Basquetebol é profissional? Sim, já foi (dei exemplo das principais ligas do país). Penso que o profissionalismo, não está no facto de treinar todos dias e viver daquela arte. É preciso assumir o profissionalismo, coisa que está a faltar. O que estamos a fazer é: uns fingem que pagam e outros fingem que jogam.

RESPONSABILIZAÇÃO – O desporto tem que deixar de ser um clube de amigos. Que legado deixa um dirigente de um clube, que a sua solução para os seus problemas é a de vender o património do seu clube? Esse fenômeno acontece um pouco por todo país. É preciso responsabilizar essas pessoas, mas também é preciso responsabilizar o atleta pela sua falta de entrega e profissionalismo, mas primeiro, para ele perceber que este é um assunto sério, ele tem que ver aqueles que defraudam as suas expectativas a serem responsabilizados pelas suas más decisões que na maioria das vezes lesam a colectividade.

MARKETING DESPORTIVO – Desporto é um produto e por consequência deve ser visto como um negócio. A selecção nacional de futebol usa lacactoni e o que mais vende nos dias de jogo é Puma, equipamento que a selecção usou há mais de 5 anos. Não condeno quem infesta o mercado com o equipamento Puma, pois viu uma oportunidade de negócio e avançou, talvez a outra marca esteja a dormir. Quantos clubes tem uma “lojinha” nas suas instalações de merchandising? Quantos clubes capitalizam a imagem dos seus atletas, priorizando a venda de equipamentos?

FORMALIDADE – Temos que sair de um desporto informal para o formal, só assim será uma INDÚSTRIA rentável e auto-sustentável. Quantos atletas fazem uma carreira de longos anos sem saber o que é pagar imposto sobre os seus Rendimentos ou descontar para o INSS? Isso permitirá ao atleta no fim da sua carreira receber aquilo que descontou e não andar de mão estendida. Os clubes tem que estar legais e organizados. Formou-se hoje e única coisa que sabe dizer é que quer ganhar, sem no entanto ter montado as bases para o efeito e nem sequer escalões de FORMAÇÃO tem, logo, mergulha em práticas nocivas como CORRUPÇÃO e CURANDEIRISMO e faz toda sua estrutura acreditar nisso, tornando estas, práticas e formas, de normais.

CORRUPÇÃO e CUMPLICIDADE – Desde a eleição para as FEDERAÇÕES e ASSOCIAÇÕES até a competição, é tudo um ciclo vicioso de corrupção onde há cumplicidade de todos actores (atletas, jornalistas, dirigentes). Quando os atores do desporto não pensarem primeiro no “o que eu vou GANHAR" ai teremos um melhor desporto. Os jornalistas falam ou se calam em função dos seus interesses umbilicais. Se eles assim o fazem, quem irá lutar pela VERDADE DESPORTIVA? Os clubes tem que deixar de ser um canal de saída de dinheiro. O Dinheiro não deve passar, deve ficar no desporto. Quando o Estado tira 3 milhões de dólares para a reabilitação de um pavilhão (Maxaquene) e o mesmo continua pior e ninguém é responsabilizado é porque a corrupção é endêmica.

Quando o Presidente Guebuza há 10 anos assumiu o desafio de se organizarem os Jogos Africanos em Moçambique, um dos desafios que deixou à organização, é que era uma oportunidade para se revitalizar as infraestruturas desportivas; construir novas infraestruturas e (ou) dar uma nova cara as já existentes. Sabe-se que para esta empreitada foram disponibilizados mais de 200 milhões de dólares, mas pelo contrário nem pavilhões novos e muito menos reabilitados, senão um banho de tinta e obras de pequeno vulto para o inglês ver.

Existe muita coisa que não faz sentido a nível do nosso desporto. Acho que Moçambique é um dos primeiros países a nível mundial onde jogadores de formação são consagrados os melhores do país. Formação é formação, alto rendimento é outra coisa e deve haver uma barreira a separar as duas coisas. Espanta-me em que quase todas galas de consagração dos melhores atletas, a maior parte dos vencedores sempre são atletas de palmo e meio, ainda em formação.

Olhando para formação é de louvar o esforço do governo em priorizar os Jogos Escolares, mas infelizmente ainda não está claro o que se pretende atingir com o desporto escolar. É muito dinheiro que é gasto para a realização dos mesmos sem que se tire proveito e em simultâneos os clubes também a gastarem dinheiro com os escalões de formação. Digo que não se tira proveito, porque a maior parte dos atletas que se fazem a estes jogos, já são atletas de clubes a bons anos, logo, não há nada a ser descoberto e muito menos a se pesquisar. Porque não se faz a união dos escalões de formação e o desporto escolar, onde as competições escolares culminariam com o festival e representariam os campeonatos nacionais, os clubes trabalhariam com escolas satélites e depois dos 16 anos o aluno-atleta ingressaria num CLUBE, os melhores claros. Ganharia a estrutura desportiva nos escalões de formação, teríamos um atleta um estudante e para praticar desporto primeiro teria que estar matriculado num estabelecimento de ensino, não teríamos 2 centros de formação onde 1 forma (clubes) e outro finge que descobre (escolas) e os clubes não gastariam o dinheiro que não tem, até porque qualquer atleta começa os seus primeiros passos na escola. Há que se dar um destino ou rumo à formação, em particular, e trazer de volta aos eixos o desporto nacional. 

Não é que éramos ou é para sermos campeões mundiais, mas exige-se o mínimo de organização a nível das modalidades. Desde o Moçambola e passando por outras modalidades, é tudo feito a retalho e no sufoco. Exige-se o mínimo de rigor, os processos não podem andar a reboque das pessoas, pelo contrário as pessoas é que tem que andar a reboque das instituições desportivas.

 

 

            O que actualmente vivemos é uma cultura do vazio, do efémero, do transitório, do descartável que leva, por um lado, à fragmentação das sociedades e seus valores intrínsecos e, por outro lado, a uma condição de cegueira intelectual que atirou o homem à incerteza do que ele próprio é e quer ser. A literatura, no contexto aqui descrito, passou a ocupar um lugar quase que de ausência, pois ainda se recusa a alimentar-se de efemeridades e mediocridades dissimuladas de arte e de grandeza daqueles que acreditam que, mesmo sem ler e sem se cultivar, podem escrever: ainda há, paradoxalmente, quem acredite que há-de ser [livre] sem ler e sem buscar conhecimento.

            Estas palavras parecem-nos ter alguma razão de ser, pois, se cada vez mais se tem uma juventude que renunciou à leitura, principalmente de literatura, culpando-a de não se deixar compreender, a poesia continua a ser o arquétipo de um género sem leitores [comuns] e que, salvo miopia nossa, é o menos publicado em comparação com a prosa. Poderemos, deste modo, afirmar que a poesia não é para qualquer leitor?

A resposta a esta pergunta talvez possa ser encontrada no livro Asas da Água, de Nelson Lineu. Divido em três partes, nomeadamente “Os sinais do rio”, “Poema folha” e “A ave no canto”, neste livro, explora o poeta elementos da natureza, flagrantes no título e nalguns poemas. São alguns desses elementos as aves, a água [do rio], a folha. Explora ainda a questão do ser e da natureza da liberdade que radica, em particular, na referência às aves, às asas e à leveza da folha e, finalmente, a questão da relação fenomenológica entre a consciência e os fenómenos, tal como se pode observar no seguinte poema:

 

“aproximar os ouvidos à terra

ouvir a folha

como criança

riscar o chão com a dúvida

é o que procuro no relógio” (Lineu, 2019: 52)

Neste poema, temos um sujeito poético que realiza a epoché segundo Edmund Husserl, ao reconhecer, na inocência e na dúvida, o esvaziamento da consciência para “ouvir a terra e a folha”.

Ora, enquanto a prosa é a continuidade da realidade, a poesia é a construção de uma realidade. A respeito, Sartre (2004: 13) afirma que a prosa é o império dos signos. Assim, se, de um modo geral, signo é algo que substitui ou representa algo, então, a posição de Sartre significa que, na linguagem prosaica, os signos remetem para realidades exteriores ao próprio signo. A linguagem constitui um meio ou instrumento voltado para as coisas do mundo, a serviço das acções do homem. Portanto, “a prosa é utilitária por essência; o prosador é um homem que se serve das palavras (…) Na prosa, as palavras não são, de início, objectos, mas designações de objectos” (SARTRE, ibid: 18).

A poesia, por sua vez, imbuída de um intuito de construir realidades que remetem a si próprias, tem um carácter mais abstracto e mais conceptual. Sartre (ibid: 13) defende que, na poesia, o poeta não se serve das palavras (como na prosa), mas serve as palavras. Disto percebemos que a “palavra poética” (no sentido de ser referente à poesia) não se situa no plano utilitário, ou seja, o poeta serve as palavras com referentes intratextuais.

Esta visão de Jean-Paul Sartre explica a razão de, na linguagem poética, os signos, não sendo instrumentos, estarem virados para si próprios, porquanto se manifestam como coisas. Assim, “o poeta afastou-se por completo da linguagem-instrumento; escolheu de uma vez por todas a atitude poética que considera as palavras como coisas e não signos” (SARTRE, idem).

Em Asas da Água, de Nelson Lineu, o que fundamenta a ideia de uma grande tendência para o abstracto nos poemas começa no título. Há, neste título, e inclusivamente nos poemas de todo o livro, metáforas que enformam um discurso referencial de segundo grau que, segundo Ricoeur (2000: 13), consiste na suspensão da realidade, transitando-se para um discurso centrado em si mesmo e para a construção de uma “dupla referencialidade”, e não “duplo sentido”. Assim, na estrutura “asas da água”, “asas”, entendidas como partes das aves, parecem remeter para uma básica ideia de passagem do domínio da necessidade para o domínio da liberdade, e o voo que, de um modo geral, tais asas permitem é que conduz à liberdade. “Água” (do rio, elemento que atravessa a quase totalidade dos poemas do livro) remete, por sua vez, à ideia de transformação, de mudança do mundo e dos fenómenos, ancorada no carácter de fluidez que caracteriza um rio. Então, que sentidos resultam de “águas da asa”? Não será este um exemplo de que as palavras, neste livro, são em si coisas ou referentes e não remetem a coisas ou realidades exteriores a si?

Vejamos alguns exemplos:

 

“as casas na cidade

são cópias das casas no rio

aprendemos a decorá-las

com os peixes” (Lineu, 2019: 21)

 

“abro as palavras

limpo o silêncio

acabo com a dor da água” (ibid: 25)

 

“a ave está certa

a sombra no chão

é a respiração da folha” (ibid: 44)

      

“o sal adorna as ondas

e anuncia à ave

a chegada da concha” (ibid: 63)

 

Encontramos, nestes e noutros exemplos, metáforas que transpõem o comum, o banal, o ordinário, o trivial.

Ainda no contexto do abstracto a que nos temos vindo a referir neste texto, em Asas da Água, o sentido dos poemas inscreve-se nos espaços em branco do papel, associados aos espaços em branco dos próprios poemas, vistos enquanto estrutura potencial a ser preenchida pelos leitores. Por meio desta estratégia, as palavras também se tornam signos de si próprios, ou seja, são “palavras-coisas” que instituem realidades próprias. Em cada uma das páginas deste livro, os poemas estão postos no centro, jogando com o imagético e o conteudístico; omitem-se as vírgulas, subverte-se a sintaxe, desarrumando-se, por vezes, a ordem dos constituintes frásicos. Estas características, como dizem Campos, Pignatari & Campos, 1975:34), ao analisarem a poesia concreta, põem os significados à margem ou em segundo plano.

Como ilustração, tomemos em consideração os seguintes poemas:

 

“intercepto a brisa

antes de afagar

as árvores de outra margem

acrescento uma palavra

em seu corpo

como quem escolhe

o sonho para a noite” (Lineu, 2019: 27)

 

            “a folha caiu no rio

conhecia a água

a conversa das aves” (ibid: 45)

 

“adormeço a voz

levo o verde à folha

o lenço branco a flor” (ibid: 48)

 

            A brevidade dos poemas, a subversão das regras sintácticas e a exploração dos espaços vazios da folha (em que os poemas mais se inscrevem do que se escrevem) tornam as palavras gestos, objectos e ideias ou uma espécie de linossigno ou ideograma, segundo Bosi (2007: 477). Por isso, as palavras ou signos mantêm-se abstractos até na sua forma externa, combinando sentidos, por vezes dissonantes – veja-se o título do livro, “asas da água” –, contrários, contraditórios, imprevisíveis e inimagináveis. Ademais, o mundo instituído por e nos poemas desta obra rompe com os fundamentos e com a lógica fenomenológica de um mundo apreendido por uma consciência e, por conseguinte, sugerem um mundo ou mundos em certa medida inalcançáveis, cuja configuração ontológica devolve à poesia a nobre condição de ser em si.

            Para terminar, queremos afirmar que uma poesia como esta (e como outras de cariz intimista e menos engajado) e de exploração de universos imateriais, em que as palavras são coisas e os signos têm em si mesmos os significados, constitui um constante desafio para uma sociedade – sobretudo para a juventude – vazia, oca, ociosa, que não percebe e não compreende o mundo hipermoderno onde se encontra e que espera, de forma absoluta, ver-se livre e salva pelas crenças emergentes que, no fundo, são consequência do neoliberalismo que governa o que Lipovetsky e Serroy (2011) chamam de cultura-mundo.

 

Bibliografia       

 

BOSI, Alfredo (2007) História Concisa da Literatura Brasileira. 44.ª ed. São Paulo: Editora Cultrix.

CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI, Décio & CAMPOS, Haroldo de (1975) Teoria da Poesia Concreta. Textos Críticos e Manifestos 1950-1960. 2ª ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades.

LINEU, Nelson. (2019). Asas da Água. Maputo: Tipografia Prelo Clássico.

LIPOVETSKY, Gilles & SERROY, Jean. (2011). A cultura-mundo: Resposta a uma sociedade desorientada. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras.

RICOEUR, Paul. (2000). A Metáfora Viva. Tradução de Dion David Macedo. São Paulo: Edições Loyola.

SARTRE, Jean-Paul. (2004). Que é a Literatura? 3.ª ed. Tradução de Carlos Filipe Moisés. São Paulo: Editora Ática.

Texto de apresentação do livro Asas da Água, de Nelson Lineu, no Centro Cultural Brasil-Moçambique.

Esta posição de Sartre é discutível se a considerarmos para uma poesia de pendor mais engajado que dominou um determinado período da Literatura moçambicana. Admitimos, porém, que esta ideia se aplique à poesia de Armando Artur e de outros poetas tendencialmente menos engajados, que cultivam a palavra em si.

Desta vez não foi no “fatídico” minuto 92, mas a meio da segunda parte, em seis minutos, que a Mamba, com a eliminatória “no papo” adormeceu e a onda malgaxe levou.

– Ao intervalo, o Presidente Simango da FMF, afirmou que o estarmos a vencer por 3-0, “reflectia a diferença de nível entre o Moçambola e o campeonato malgaxe”.
– No final do jogo, a Ministra da Juventude e Desportos, Nyelete Mondlane, referiu que é necessário repensar o nosso futebol, pesquisando talentos nas camadas jovens.

Estes posicionamentos, reflectem alguma falta de profundidade nas nossas análises e a dificuldade de passarmos das intenções à prática, aos vários níveis. O que a segunda parte do jogo trouxe à tona é a realidade: lugar 116 no ranking FIFA, “clientes assíduos” das pré-eliminatórias e, como se não bastasse, cada vez mais dificuldades para ultrapassar adversários que há poucos anos nos temiam.

Daí que, se tivéssemos mantido o 3-0 até ao final da partida, a esta altura estaríamos a colocar o nosso futebol nos píncaros.

UMA REVIRAVOLTA
“QUE JÁ NÃO SE USA”

O espaço para lamentações começa a fartar. Aquela reviravolta, já não se usa na alta competição. Orientações como investir na formação e buscar talentos, viraram “slogans” que nada alteram.  O que nos falta? Passar das palavras às acções – pensadas, programadas e cumpridas.

Efectivamente, teremos que dar razão ao ditado que diz que quando o camarão dorme, a onda leva. É o que está a acontecer. Acobertados pela ideia de que “abundam talentos e é só pesquisá-los”, acções pensadas e planificadas vão sendo subalternizadas.

A realidade está aí. O futebol de Madagáscar, Maurícias, Lesotho, Namíbia, Comores e por aí fora, que ao que tudo indica não parou no espaço e no tempo, vai-nos surpreendendo. Neste caso, basta repararmos na evolução da constituição física da Selecção malgaxe, comparada com a dos primeiros clubes e selecções daquele país que nos visitaram, para equacionarmos um dos pontos da evolução do vizinho.

ALGUNS DOS “NÓS”
DE ESTRANGULAMENTO

Só ao fim de muitos anos, nos convencemos que a medida tomada pelo Estado, de proibir a transferência de jogadores nacionais para o estrangeiro – dizia-se que não são uma mercadoria – estava errada. Acabámos, nessa vertente, por tentar “acertar o passo” com o que é normal lá fora.

Hoje, diferentemente do que aconteceu a Gil, Luís,  ngelo Jerónimo, Orlando Conde e muitos outros, as portas parecem escancaradas para “exportar” atletas, até para clubes de divisões secundárias, não sendo necessário “saltar o arame”.

Os nossos craques – particularmente os do futebol e basquetebol – já iniciam as suas carreiras com um horizonte amplo, pois o profissionalismo de alto nível, além dos rendimentos pecuniários, dá prestígio ao indivíduo e ao país.

PROFISSIONALISMO PELA METADE

Vivemos um profissionalismo pela metade. Os números existem, as contratações acontecem, mas os valores envolvidos, ao contrário do que acontece pelo mundo fora, permanecem no segredo dos deuses.

Vejamos: se um qualquer cidadão pretender aceder às contas do Manchester United, Benfica, Sporting ou qualquer outro clube de gabarito, fá-lo com relativa facilidade. As grandes transferências e os salários das estrelas são públicas e publicitadas. Mas nós continuamos a pautar pelo secretismo absoluto, apesar de o dinheiro que o desporto movimenta, ser maioritariamente desembolsado pelo Governo – directamente ou através das empresas públicas – e como tal produto dos impostos dos cidadãos.

Equacionemos este cenário: se a direcção de um clube integrado ou patrocinado, quiser destinar a maior parte da receita que lhe é alocada na formação, invertendo a actual pirâmide em que só “migalhas” é que vão para esse sector, seguramente que não conseguirá levar o seu propósito a bom porto.

Os “donos do dinheiro” dificilmente estarão de acordo com um plano – por mais bem elaborado que esteja – de investir numa movimentação séria e orientada para os jovens, pois só produzirá efeitos a médio e longo prazos.

A pressão virá de vários quadrantes, incluindo dos sócios. Daí que a solução mais cómoda seja contratar “craquezitos” de um país vizinho, para chegar a resultados rápidos.

E o assunto torna-se mais complexo se a colectividade fôr do norte ou centro do país. Aí, contrata-se um treinador de renome, juntam-se os rejeitados dos grandes clubes do sul e concretiza-se o desiderato de estar presente no Moçambola. É por isso que por lá já não brotam jogadores como Joaquim João, Tayobe, Nuro Americano, Paulito e outros, titulares da Selecção Nacional forjados e temperados nas suas zonas de origem, antes de virem para a capital. Actualmente, chegam e sobram os dedos de uma mão para indicar, em cada equipa nortenha os craques, formados localmente.

PARAR NÃO É SOLUÇÃO

Temos pela frente, um “edifício” complexo e que nem o Governo, nem a maioria dos cidadãos se predispõem a colocá-lo no lugar que merece: o desporto, como um assunto de Estado.

Sentimos – particularmente no futebol – que os moçambicanos vivem, com extrema paixão, o desporto-rei que se movimenta pelo mundo, reservando apenas pequenos espaços do seu dia-a-dia, para tecer críticas ao nosso “futebolzinho”.

Mas a ideia de “parar para repensar”, seguramente não é o melhor caminho. Estaríamos a “enterrar”, os modelos de que dispomos, reduzir para a juventude as razões para ela sentir como suas as estrelas locais.

A solução passa por trazer à luz do dia, o que cada entidade desportiva destina à formação e à competição, com regras claras de que, sem matar o presente, se investe no futuro.
Afinal, se desporto é saúde e educação, se incentiva o turismo e

dá prestígio ao país, porque é tão subalternizado, numa Pátria que quando era colonizada produzia estrelas de nível mundial?

Manuel Mutimucuio nasceu em Maputo, em 1985, mas teve os seus anos formativos na Beira. É doutorando em Governação e profissional de desenvolvimento. A sua apresentação ao panorama bibliográfico-literário deu-se através do «Visão» (2017) e avantajou-se com «Moçambique com Z de Zarolho» (2018).

A escrita deste autor enquadra-se no que o teórico moçambicano Mallinda (2001) chama questionamento do «status quo». A verdade é que a partir da degustação do duo literário de Mutimucuio, alcançamos um diferencial que parece espremer incisivamente os calos nos pés da pérola do índico. «Visão», embora livro de estreia disseca com brio sobre as amarras que estão, também, na base de muitos dos questionamentos que assolam a mente e o sedentarismo epistemológico dos moçambicanos. A obra apresenta-nos verdades obscuras e fala-nos sobre o lixo que está por baixo de diversas alcatifas sociais. Faz-se pertinente lançar um olhar especial à forma como este autor narra e satiriza problemas como a infidelidade, o lambibotismo, a ganância, o egoísmo exacerbado, entre outros.

Já com «Moçambique com Z de Zarolho», o autor inquieta-se mais com a situação da língua como elemento diferenciador de classes individuais e grupais, esta mesma língua é-nos ainda apresentada como condição suficiente de ascensão social e financeira. Apresenta-nos uma sociedade moçambicana moderna, um factor um tanto quanto ineditista, que a passos galopantes desvincula-se da herança linguística do colono e em que as diferenças sociais estão em GARRAFAIS. Como dissemos no início, é uma escrita profundamente acasalada com o questionamento do «status quo» moçambicano, repleto de elementos novos da modernidade que mesmo assim não se desvinculam das cosmogonias africanas e de símbolos e espaços característicos da nossa literatura, tais são os casos do «sonho», «monólogos dialogantes», «oralidade» e não diríamos racismo, em «Visão», mas uma perpetuação de uma colonização ideológica que faz sinonimizar a pele branca a benefícios e superioridade existencial. Por outro lado, preste-se atenção ao profuso recurso à descrição de que o autor se serve nas duas obras, fazendo recordar o célebre «Nós matámos o Cão-Tinhoso» (1964), de Luís Bernardo Honwana, no conto «Inventário de imóveis e jacentes». Por estas e outras razões que as nossas limitações epistemológicas não lograram alcançar, consideramos que a escrita de Mutimucuio é revestida de muitas verdades prementes e reveladora de tantos escombros que nos parece que se trata de um homem cuja mão não tapa o sol com a peneira.
 
Bibliografia
MALLINDA, Daniel Augusto. Cartografias da Nação Literária Moçambicana: Contos e Lendas, de Carneiro Gonçalves. Maputo, PROMédia, 2001.

Se os Mambas se tivessem qualificado – bastava um pouco mais de “manha” nos minutos finais de três jogos – estaria o país a falar de um Abel Xavier herói. Ainda por cima porque a qualificação transportaria a inédita façanha das duas primeiras vitórias, em competições oficiais, diante da toda (ex?) poderosa Zâmbia. Tal não aconteceu e o sentimento girou 180 graus. Para alguns foi um falhanço total, a partir de um currículo que denota inexperiência, passando pelas convocatórias e métodos errados.

Repare-se no que aconteceu com as claques: após a derrota diante da Namíbia, cercaram o autocarro dos Mambas, exigindo de imediato a cabeça do técnico. Depois, muitos deles integrados na “onda vermelha” em Bissau gritaram a plenos pulmões:
– “Queremos Abel Xavier! Queremos Abel Xavier, mesmo que os outros já não te queiram! Ele terminou o jogo abraçando e chorando junto dos jogadores. É assim a vida dos Seleccionadores e treinadores. Numa análise mais a frio, há que referir que não é justo aquilatar a acção do recém-demitido treinador dos Mambas, sem ter em conta os momentos difíceis e multifacetados que tem vivido o país e, por tabela, o desporto nacional. 

Uma clara desvantagem que se nos coloca nas competições continentais, é a da fragilidade naquilo a que se chama de jogo invisível. Ou seja, acção fora das quatro linhas. Quem acompanhou as nossas equipas pelo continente, sabe bem dos frequentes “imprevistos”, acção e pressão sobre árbitros e comissários da CAF, o que nos coloca em desvantagem em casa, como eternas “virgens imaculadas” que continuamos a ser. 

MUDARAM-SE OS TEMPOS
E TAMBÉM AS REALIDADES

A situação política e social no país, tem efeitos directos no desporto, bem como a acção das direcções das federações em exercício. Nesta altura, a “exportação” dos principais craques para vários países é, claramente, um factor positivo, na linha do que até fazem as grandes potências. 
Mas traz novos desafios, em especial a “gestão” da forma de cada atleta, bem como o aquilatar da competitividade de campeonatos de níveis muito desequilibrados.

Juntar os atletas apenas três ou quatro dias antes das partidas e decidir sobre o onze ideal, é tarefa extremamente complicada. Veja-se que uns actuam na França, Albânia, Portugal (no Amora) ou na Alemanha. E a decisão sobre quem, após viajar mais de 10 horas de avião, terá que ficar no banco? Estrelas como Reinildo, Mexer ou Zainadine, se ficarem a suplentes numa selecção tão mal colocada no ranking FIFA, poderá ser para eles factor desmotivador, porque objecto de “chacota” junto dos colegas. Nesse aspecto, a acção de Abel Xavier terá representado um “abanão” positivo na gestão das mentalidades, tanto as de dentro, como as de fora.

 

O PAPEL DO MOÇAMBOLA

O Moçambola deveria ser o principal suporte da Selecção Nacional. Mas não é. Com mais espaço para se discutirem modelos que se alteram anualmente e mais preocupação com as viagens do que com os treinos, a nossa competicão-mor vai funcionando ao estilo “tchova-xita-duma” (empurra que vai pegar).

Daí que o exíguo número de “seleccionáveis”, tenha como base duas razões: baixo nível na competitividade geral e presença marcante de estrangeiros nas equipas “top”, como principais desequilibradores. A partir daí, o seleccionador têm que se virar mais para os internacionais que actuam além-fronteiras – mesmo em turmas de valor secundário – para depois preencher os pontos fracos com os que actuam internamente.

MAMBAS NO RANKING FIFA

Quando Abel Xavier assumiu o comando, os “Mambas” ocupavam o 107º lugar. Moçambique conseguiu dar um pontapé na crise de maus resultados em Junho de 2017, quando em pleno estádio Levy Mwanawasa derrotou a Zâmbia, com um golo de Ratifo. A selecção ascendeu à posição 97. Porém, nos jogos que se seguiram, lapsos e desconcentrações em momentos decisivos deitaram tudo a perder. O empate amargo com a Guiné-Bissau, seguido pela surpreendente derrota diante dos namibianos, foram a “gota-de-água”.

Ao ser afastado do cargo para dar lugar a Vítor Matine, o treinador luso-moçambicano, deixou a selecção no lugar 116, isto é 9 postos abaixo da que encontrara. Refira-se que a nossa melhor classificação de sempre no ranking FIFA até hoje, foi o 68º posto, quando nos qualificámos para o CAN 96, sob o comando da dupla Bondarenko/Salvado. Em contraponto, a pior, em 2006, foi a posição 134, numa altura em que os Mambas eram orientados por Artur Semedo.

Um gráfico sobre o valor dos treinadores dos Mambas, tendo em conta as várias “nuances” porque tem passado a equipa de todos nós, e considerando, embora à distância, as oscilações no ranking dos adversários, colocaria Abel Xavier no pódio de um técnico que apesar da não qualificação ao CAN, iniciou um novo ciclo, que importa agora dar continuidade, com o registo que ele afirmou ter deixado na FMF.

 

Os destinos da humanidade estiveram sempre nas mãos dos adultos.

São eles que traçam um futuro que seguramente não será o seu,

mas sim um futuro em que nós jovens teremos de viver.

in Eduardo Paixão

 

 

Uma narrativa envolvente, daquelas que habitualmente não são inventadas na literatura moçambicana. De forma prévia, ocorre-nos dizer isto do novo livro de Agnaldo Bata, como se sabe, menção honrosa do Prémio INCM/ Eugénio Lisboa 2018.

Intitulado Sonhos manchados, sonhos vividos, o romance de Bata é uma história ao estilo O fiel jardineiro, de John le Carré (como se observa no britânico, também em Bata existe uma personagem entendida em matérias de saúde, que investiga diagnósticos clínicos, interesses por detrás disso, teimosa e muito arrojada. No caso, Gertrudes, estagiária do Instituto Nacional de Saúde). Por isso, temos nesta proposta literária um conjunto de personagens genuínas, as quais não hesitam em intrometer-se em esquemas complicadíssimos, a envolver altas autoridades.

Resumidamente, o romance gira à volta das relações de amizade entre jovens que têm sonhos comuns, entretanto muito difíceis de concretizar. Ao invés de se deixarem levar pelas dificuldades, Gertrudes (a protagonista) e os seus amigos encontram formas de viverem os sonhos sempre por acontecer. Deste ponto de vista, o livro de Bata é um romance com um peso motivacional muito forte, pois derruba os limites responsáveis por conter os desejos de as pessoas voarem para outras altitudes. Certamente, há-de ter sido esta a intenção do autor ao escrever esta história muito próxima às circunstâncias em desenvolvimento na actualidade moçambicana.

Sonhos manchados é, igualmente, uma narrativa sobre desafios, sobre os amores e desamores para com o ser humano. Macossa é o centro de tudo isso e de um sentido patriótico bem assente na juventude humilde, aquela que não tem nenhuma propriedade, afinal um roubo: “basta a miragem na propriedade para um homem decente se tornar prepotente, um tirano” (Pepetela, 1992: 74-75).

A propósito de juventude, Bata dá eco àquela velha ideia bem dita por Eduardo Paixão em Cacimbo, um dos fantásticos romances moçambicanos: “os destinos da humanidade estiveram sempre nas mãos dos adultos. São eles que traçam um futuro que seguramente não será o seu [brexit?], mas sim um futuro em que nós jovens teremos de viver”. Como que atentos à gravidade desta afirmação, os jovens de Sonhos manchados desafiam o poder político, o status quo, sem ficarem à espera das possibilidades para fazerem o certo. No meio de uma tempestade, tomam um avião entre disparos da polícia no aeroporto e voam para Macossa (Manica). Objectivo? Ir desmascarar autoridades da Saúde que inventam uma falsa febre-amarela num esquema de enriquecimento sujo, que coloca várias vidas em risco.

Sinceramente, Sonhos manchados, mesmo com este título horrível, a soar qualquer coisa de testemunho ou de biográfico (Bata poderia ter optado pelo título Macossa, simples e apropriado), só não venceu o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa 2018 porque o autor cometeu algumas falhas. Por exemplo, o exagero da coincidência. A história tem muitas personagens com mesmos sonhos, mesmas dificuldades, perspectivas de vida, afinidades, receios e etc. Aliado a isso, algumas passagens da história são pouco convincentes. É verdade que no chapa fala-se de tudo um pouco, mas parece forçada a passagem em que o cobrador Joaquim, amigo de Gertrudes, ouve no seu mini bus que técnicos da Saúde viajam numa missão secreta para Macossa. Dissemos, anteriormente, que um conjunto de jovens tomam ilegalmente um avião. Pois é, diante de uma tempestade severa, o cenário da aterragem numa pista terra batida, em Macossa, merecia melhor desenvolvimento. A impressão com que ficamos é a de que em alguns momentos a história poderia ter sido mais pausada. Atentamente, observa-se um salto de peripécias brusco do capítulo 35 para 36. Por fim, o equilíbrio do discurso narrativo destoa em alguns momentos. O júri deve ter estado atento a estas questões. Se Bata tivesse evitado estes pormenores, sem dúvida que seria o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa 2018, pois do ponto de vista de riqueza da história, imaginação e criatividade, Sonhos manchados, sonhos vividos é melhor que Saga d’ouro, de Aurélio Furdela. Mas também é verdade: parece que Furdela foi mais escritor do ponto de vista da consistência discursiva.   

 

Título: Sonhos manchados, sonhos vividos

Autor: Agnaldo Bata

Editora: Imprensa Nacional

Classificação: 13

 

 

 

Levei mais de um ano a juntar elementos que pudessem suportar a minha reflexão sobre os ataques armados em Cabo Delgado, Norte de Moçambique, até que esta semana a procuradora-geral-adjunta, Dra. Amabélia Chuquela, me deu os últimos subsídios para compor este artigo de opinião, cuja conclusão se baseia na constatação feita no terreno, das três vezes que estive no teatro das operações como jornalista, para além de conversa com várias fontes entendidas na matéria.

Como ponto de partida e para melhor entendimento, sem equívocos, gostava de trazer o excerto da entrevista que a magistrada do Ministério Público deu à STV, à margem do seminário que visa o fortalecimento da capacidade de prevenção e combate ao terrorismo, que termina hoje na cidade de Pemba, na qual disse:

“O que aconteceu nos casos dos indivíduos que foram absolvidos é que os elementos não foram suficientes. Portanto, não foram acareados elementos suficientes para levar à condenação das pessoas. Por isso mesmo que estamos a dizer que é preciso investir, e nós só podemos resolver a questão de Cabo Delgado se começarmos também a apostar e investir nos órgãos que estão aqui no terreno a fazer a investigação, a fazer a prossecução e a fazer o julgamento destes casos. É preciso que o Serviço Nacional de Investigação Criminal seja dotado de meios financeiros, económicos, equipamento que lhe permita detectar e fazer face a este fenómeno. Não se pode combater o fenómeno de ataques em Cabo Delgado de uma forma como nós temos vindo a fazer. É preciso sofisticar, dotar os agentes criminais, os procuradores, os juízes, de elementos que lhes permitam fazer face a esta situação. Estamos a ver um fenómeno que parece que está a surgir assim como que não é nada, mas se não conseguirmos controlar a tempo e não investimos exactamente na prevenção e repressão, este fenómeno poderá alastrar-se para outras províncias.”

Esta é para mim a primeira crítica directa que é feita ao Governa por uma entidade que por natureza defende o Estado – como é o caso da Procuradoria-Geral da República. E da entrevista da Dra. Amabélia, pode-se depreender o seguinte:

1.     Não há aposta no investimento para que os órgãos que estão no terreno façam uma investigação exaustiva daqueles crimes bárbaros perpetrados contra a população. Ou, se houver, pelo menos a crítica aponta para um investimento não à altura da seriedade do assunto. Se calhar seja por isso que há muitos detidos e muitos absolvidos, igualmente, por insuficiência de prova, o que, em linguagem técnica, equivale a dizer insuficiência de instrução do processo.

2.    Parece faltar meios financeiros e materiais para o Serviço Nacional de Investigação Criminal detectar os sinais operacionais dos criminosos para os descactivar antes de fazerem novas incursões. Estamos aqui no campo preventivo e não reactivo das autoridades.

3.    Há um alerta no sentido de que enquanto as coisas continuarem como estão, o fenómeno pode alastrar-se para outras províncias, visto que em Cabo Delgado esses grupos terroristas estão a incubar-se e a levarem a cabo acções terroristas, colocando em causa a autoridade das Forças de Defesa e Segurança do Estado.  

Posto isto, e estando num Estado de direito democrático, onde a liberdade de opinião e de imprensa é um dos princípios basilares, julgo importante discutirmos alguns aspectos de forma objectiva, sem, no entanto, pôr em causa a confidencialidade de assuntos de natureza militar que à luz da Lei de Imprensa configuram Segredos do Estado.

Primeiro, é pertinente salientar que o primeiro ataque a uma unidade policial não de deu em Cabo Delgado, mas sim na vila de Nametil, distrito de Mogovolas, província de Nampula, na madrugada do dia 27 de Agosto de 2017, quando dois indivíduos foram ao comando distrital fingindo querer participar uma denúncia contra um terceiro. Depois de se fazerem ao interior das instalações, tiraram armas de fogo do tipo pistola, mataram o oficial de permanência e feriram gravemente outro agente da polícia. Nesse ataque, roubaram armamento e munições.

Na madrugada do dia 5 de Outubro do mesmo ano, houve quatro ataques armados em Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado: um contra um posto policial em Auasse; o segundo contra uma unidade da Polícia de Protecção de Recursos Naturais (onde roubaram munições e armamento); o terceiro no comando distrital na vila da Mocímboa da Praia e o quarto contra um quartel militar, naquela vila, que na altura parecia meio abandonado.

Quase dois anos depois, a investigação a estes casos mostra-se pouco frutífera, a avaliar pelo facto de os ataques se alastrarem e nunca vimos os cabecilhas dessas incursões detidos, julgados e condenados, e o balanço oficial aponta para mais de 250 pessoas mortas, 130 condenados a penas de prisão maior e acima de 100 absolvidos por insuficiência de provas.

Estes últimos números provam claramente que muitos processos são mal instruídos, se calhar naqueles velhos moldes de prender para investigar, e quando faltam provas, o juiz nada pode fazer a não ser exarar um mandado de soltura ou emitir um despacho de pedido de produção de melhores provas.

Mas o que levaria uma instituição como o Serviço Nacional de Investigação Criminal mandar ao tribunal um processo sem provas? Falta de técnica de investigação ou de meios operativos para o efeito? Que condições o Estado oferece aos agentes desse Serviço para investigarem como mandam as regras?

Quando há poucos anos o Governo decidiu obrigar ao registo dos cartões de telefonia móvel, um dos objectivos era permitir que agentes de investigação legalmente autorizados pudessem ter mecanismos para localizar os criminosos a partir de simples comunicações telefónicas.

Ora, como se explica que em dois anos não se desmantele a rede de criminosos que opera em apenas sete distritos de uma província chamada Cabo Delgado? Colocado de outra forma: qual é a eficiência desse registo de números de telefones celulares? Ou melhor, sem registo do cartão é ou não possível usar esses números e descartá-los de seguida? E se isso acontece, qual é a explicação?  

Um bom piloto é considerado tal pelo número de acidentes que consegue evitar, porque, quando acontece, é, na maioria das vezes, fatal. Aliás, os médicos dizem que quando o organismo começa a ficar com as células CD4 fracas, é preciso começar o tratamento, porque esse organismo está vulnerável a qualquer doença, uma vez que as suas células defensoras foram atacadas.  

Como explicar à nação que militares sejam assassinados com a maior brutalidade? O que está a falhar no concreto? Se calhar seja a seriedade na forma de encarar este conflito.

No início deste mês, acompanhámos notícias de um ataque armado no distrito de Nangade, onde os terroristas assaltaram uma base militar e esquartejaram militares. Esta é uma afronta à autoridade do Estado e deixa desesperada a população que deposita confiança nessas autoridades.

Se no início o conflito se desenrolava em Mocímboa da Praia, Palma, Quissanga e Nangade, agora evoluiu para Muidumbe e Meluco. Como se explica que um conflito localizado, por mais complexo que seja, esteja a levar o tempo que está a levar?

Há muita presença militar no terreno? Claro! Mas será que essa é a melhor forma de combate? Hoje em dia, as guerras são tecnológicas e, se formos a ver, foram contraídas dívidas em nome da segurança do Estado, mas sucumbimos no primeiro teste de resistência. Então, de que segurança estamos a falar?

Olhando ao de Cabo Delgado, pode constatar-se que os distritos de Palma, Mocímboa da Praia, Macomia e Quissanga estão na parte costeira, o que dá uma pista bastante interessante de que provavelmente os insurgentes podem estar a movimentar-se por via marítima. Perante essa hipótese, o que é feito no concreto?

Por outro lado, se dos condenados até aqui existem estrangeiros, como tanzanianos e burundeses, aliado ao facto de o primeiro ataque ter sido em Nampula – a província que tem um grande centro de acolhimento de refugiados –, que trabalho de inteligência do Estado é feito para encontrar alguns pontos que sejam importantes neste conflito?

Enfim, o meu texto tem mais interrogações que afirmações, porque gostava um dia que alguém me desse respostas, tal como qualquer moçambicano interessado na paz quer.  

E mais do que isso, pretendo questionar o papel das instituições que nós próprios como Estado criamos.

Por fim, ao Comandante-chefe das Forças de Defesa e Segurança, gostava de questionar se conhece as reais condições de trabalho dos militares e polícias que estão na linha da frente do combate?

No futebol, quando uma equipa não ganha, o treinador é que é sacrificado. E perante o dilema de Cabo Delgado, quem se deve sacrificar?

 

A riqueza nem sempre vale o alto preço que por ela se paga.

João Salva-Rey

 

Estas coisas de nos encontrarmos com amigos inspiradores valem sempre. Há uma semana foi com o Celso. Apenas dois minutos de conversa resultaram num artigo sobre o premiado livro Saga d’ouro, de Aurélio Furdela. Desta vez, a conversa durou menos tempo – 30 segundos no máximo –, e foi com o meu colega Emídio, um tipo igualmente apreciável. A seguir, conto-vos como o episódio ocorreu.

***

A página do word 2013 que abri no hp permaneceu longos minutos em branco. Poucas vezes isso acontece-me. Geralmente, sento-me diante do computador já com uma ideia sólida sobre o que pretendo escrever. E aí a escrita acontece espontaneamente. Na última sexta-feira à tarde a coisa foi diferente. As palavras passearam distantes de mim. Então, estando ainda na Redacção na qual trabalho, decidi chamar um tipo lúcido para lhe fazer um pedido simples. Foi assim: – Emídio, sugere-me lá uma palavra para que eu inicie um artigo sobre a peça do Mutumbela Gogo em exibição no Teatro Avenida. Naturalmente, antes de se aventurar em qualquer tentativa de resposta, o meu colega fez-me a seguinte pergunta: – Sobre o que trata a peça? Respondi-lhe num ímpeto: – É A história de um homem honesto, um espectáculo sobre um personagem que não se deixa corromper e que… O Emídio não me deixou terminar. De maneira quase atroz, interrompeu-me às gargalhadas, dizendo: – Esquece-me lá, oh Remédios. Se é uma peça sobre um homem honesto eu não sou a pessoa certa para te ajudar. Fim da conversa… e da página em branco.

Mal o Emídio disse-me aquilo, ocorreram-me algumas questões: – Será que o meu colega não é um homem honesto? Ou a honestidade dele está mesmo na humildade de se julgar incapaz de mim ajudar no que lhe pedi? Daí não adveio nenhuma resposta. E nem era suposto. Então resolvi rever o espectáculo do Mutumbela Gogo de memória, o qual, essencialmente, narra a história de Zeferino Fanequisso (Jorge Vaz), que, farto da pobreza, se lança do campo para a cidade grande a fim de buscar melhores oportunidades. No espectáculo, Zeferino Faniquisso é o único homem honesto do universo, por isso um alvo a abater. A namorada/mulher, os colegas, o patrão e a polícia julgam-no um aparvalhado problemático, por não corromper e, sobretudo, por não se deixar corromper. Logo, as suas relações na cidade tornam-se complicadas. Aí entendi tudo. Talvez essa tenha sido a razão do Emídio não querer falar de honestidade, pois referir-se aos honestos, de algum modo, pode implicar citar os desonestos. Na verdade, este é o cenário da peça teatral do Mutumbela. Com os holofotes direccionados a Zeferino, enxergamos os comportamentos, escolhas e receios do personagem, bem como os oportunistas à sua volta no espaço urbano.

Sem rodeios, A história de um homem honesto, adaptada do texto original do autor sueco Henning Mankell, que viveu em Moçambique, é um espectáculo que sugere as razões de a decência estar a tornar-se numa praga no país. Ou seja, se antes as pessoas sensatas uniam-se para combater os corruptos, estes, actualmente, é que se unem para eliminar os decentes. Pelo menos esta é a abordagem da peça que também tem o gigantesco Filipe Branquinho em cena, um dos meus actores preferidos.

Ora, uma das personagens que mais me chamaram atenção na peça foi a mãe do homem honesto (Eunice Mandlate). E justifico. Quando Zeferino deixa a sua aldeia, a mãe, depois de tanto tentar impedir a viagem do filho para a cidade, sem sucesso, obriga-lhe a jurar manter-se íntegro. Conhecendo os vícios da cidade, a velha do campo inventa uma mentirinha de que, caso Zeferino se deixasse levar pela imoralidade, iria magoá-la com fortes dores de cabeça. Isto quer dizer que, embora separados pela distância, mãe e filho estariam conectados. Se Zeferino agisse bem, a mãe seria uma mulher feliz. Se agisse mal, sofreria. Este episódio faz diferença na história, pois mantém o protagonista num determinado percurso – de propósito não digo qual é, mas sempre sugiro. Diante das tentações citadinas, Zeferino ajuda, é aldrabado, humilhado e injustiçado, todavia não perde os seus valores. Continua focado, firme na ideia de sempre agir bem.

Fundamentalmente, há pelo menos duas questões em causa na peça do Mutumbela Gogo. Primeiro, A história de um homem honesto desconfigura a cidade enquanto espaço ético, de convivências autênticas. Partindo de experiências concretas, como as que envolvem os subornos na via pública ou os desvios de fundo do Estado, o espectáculo teatral revela como Moçambique vai-se desintegrando na qualidade de um projecto de desenvolvimento para o benefício dos moçambicanos. E mais, A história de um homem honesto descreve-nos a cidade como o centro dos conflitos, da discórdia, do ódio, da ganância, da hipocrisia e do vale tudo para enriquecer ilicitamente. Todos sujeitam-se a receber luvas em troca de uma ajudinha qualquer, menos Zeferino. O homem honesto é o único que veemente resiste ao enriquecimento abominável, afinal ninguém mais consegue compreender a velha frase bem dita no romance kufemba, de João Salva-Rey: “a riqueza nem sempre vale o alto preço que por ela se paga”. Desde o princípio, Zeferino resiste a pagar ou a receber o que não deve. Logo, recusa como quem combate o vírus por detrás de uma enfermidade que penhora o futuro de gerações de moçambicanos.

Em segundo lugar, num cenário asqueroso a envolver os donos da cidadania, como calha em Hinyambaan, de João Paulo Borges Coelho, Mutumbela Gogo conduz o seu público para onde resiste a esperança de Moçambique: o campo, por lá a palavra “moral” ainda fazer algum sentido. A mãe de Zeferino é a síntese disso. Daí, mesmo sem marido, educar o único filho para ser gente, muito acima da presunção.

Esta versão d’A história de um homem honesto não é dos grandes espectáculos do Mutumbela Gogo – entretanto ninguém perde alguma coisa por ver. Pelo contrário, ganha por se conectar com a realidade. Quase sem adereços em cena, a obra centra-se mais na mensagem a transmitir em “detrimento de tudo o resto”. Zeferino é o verdadeiro centro da peça, o que permite Jorge Vaz destacar-se como quiser. O mesmo não acontece com a personagem Júlia (Silvana Pombal), mulher de Zeferino, ou mãe de Zeferino (Eunice Mandlate), que, para mim, deixaram escapar algum brio na performance, mesmo sem terem actuado mal. Também achei a encenação algo pouco surpreendente, se quisermos, calculável. Como já vi várias peças do Mutumbela e li e ouvi muitas histórias sobre os movimentos campo-cidade, o deslumbre foi-se escasseando. Tal afirmação não faz de A história de um homem honesto um péssimo trabalho. Longe disso. É espectáculo razoável ou então necessário.

Seja como for, o exercício concebido como que a influenciar atitudes tem a virtude de ser uma chamada de atenção pontual, de modo a penetrarmos no âmago do país, de olhos abertos, e de nós próprios como condição para recuperarmos algo perdido lá atrás.

 

Título: A história de um homem honesto

Autor: Mutumbela Gogo

Teatro

Classificação: 13

+ LIDAS

Siga nos