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ARTIGOS DE OPINIÃO

Sobre eleições em Moçambique, creio que nenhum acto equiparável a um simples estalar de dedos fará com que sejam transparentes, livres e justas. Por mera questão de lotaria da vida, quando os moçambicanos foram chamados pela primeira vez às urnas, em 1994, estava eu em idade de votar, e por engajamento cívico listei-me como Membro de Mesa de Voto.

Transcorridos 25 anos, ainda equiparo o escrutínio a um jogo de futebol, com lugar em noite de chuva tempestuosa, jogando os intervenientes em terreno lamacento, escorregadio e com receio de serem atingidos por um raio na cabeça.  

Não é novidade para ninguém, Moçambique revive, de eleição em eleição, uma paz ameaçada pelo retorno à guerra, com registos intermitentes de hostilidades militares. Da memória mais recente, em 2014, com a divulgação dos resultados das eleições gerais, o maior partido da oposição em Moçambique, a Resistência Nacional Moçambicana, RENAMO, queixou-se outra vez de fraude eleitoral e, em protesto, boicotou a tomada de posse dos seus membros nas assembleias provinciais e dos 89 deputados no Parlamento, seguindo-se a isso toda uma peripécia belicista que não vem agora ao caso.

O facto de não termos olhado desde o início, 1994, para as eleições como um processo evolutivo, e assim valermo-nos de cada experiência eleitoral como capital de aprendizado para a sofisticação da nossa prática democrática, conduziu à asfixia de toda a possibilidade futura de um escrutínio insuspeito.

Quero aqui acreditar que a grande armadilha em que os partidos da oposição se meteram, foi a ideia de alcance imediato do poder, esquecendo-se de que as instituições ou melhor, as mentalidades outrora confiadas à condução dos destinos do País eram as mesmas que há pouco conduziam o Partido-Estado, em tempo de partido único, por alongamento geracional podem ser árbitros nas subsequentes disputas políticas. As hostilidades militares não permitem a transformação dessas mentalidades, pois ninguém acredita numa democracia assente no cano de uma AKM. Não seria um simples Acordo de Roma que estirparia o complexo problema de mentalidades, ou a aprovação de sucessivas leis.

Quero acreditar que o problema da democracia em Moçambique não advém de único partido, ou apenas dos partidos políticos, pois tudo deriva de onde viemos, um processo histórico de mentalidades absolutistas que iria cimentar-se até no seio dos partidos da oposição, das organizações da sociedade civil, das universidades, da instituições de arte e cultura, tudo em torno do umbigo próprio e nada pelo País. Se algum dia vier a provar-se efectivamente alguma fraude, e apontar-se o partido no poder como quem se agarra ao poder a qualquer custo, é de se perguntar: Quem no seio dos partidos da oposição não é vitalício, na sua esfera de exercício de poder? Chamaria atenção para a trajectoria de lideraça dos dois maiores partidos da oposição, e um extraparlamentar. Afonso Dhlakama, após a morte de Andre Matsangaíssa, em 1979, tornou-se Presidente da Renamo, cargo que conservou até a morte, quase quatro décadas depois, com que energia? Davis Simango é Presidente, desde a criação do MDM, 2009, e jamais presenciámos abertura para uma transparente, livre e justa eleição de um novo presidente. O PIMO de Yacub Sibinde, idem.

As organizações da sociedade civil, afinam no mesmo diapasão. Caso um desses estivesse no poder, com essa mentalidade, garantir-nos-iam eleições, justas e transparentes? Se fosse esse o interesse, à Renamo, por exemplo, não teria faltado uma visão atenta ao futuro, a médio e longos prazos. Ao gerar contestações em tom grave desde 1994, a RENAMO acaba por dar um tiro no próprio pé, a sangrar até a data.

A transição da mentalidade totalitarista da época monopartidária para uma pluripartidária, de plena democracia que almejamos, não será garantida pelo triunfo das tensões político-militares. O processo de democratização nacional clama, desde a realização das primeiras eleições gerais, por uma gradual transição, politicamente negociada entre as diferentes alas progressistas da classe política da RENAMO e do Partido no poder, entre outros. As tensões que sempre se impõem, a cada período pós eleitoral, minam o nosso crescimento em todos os sentidos, mesmo na academia, que se pretende um centro do saber por excelência, aponta-se muita massa intelectual amorfa, que em nada contribui para a produção do conhecimento. Aliás, um cientista social que não escreve, equipara-se a um alfabetizado que não lê. Não será com a ajuda de tais intelectuais da televisão em falácias “político-científicas” que atingiremos um pensamento pró-democrático.

E se a RENAMO reclama agora que a polícia favorece o partido no poder, não deve se esquecer de que também contribuiu para que esta condição prevaleça até a data. Naturalmente, a RENAMO, ao ameaçar guerra, conduziu para o reforço da ideia de que ela era inimiga da paz, espectro que possivelmente ter-se-ia dissipado gradualmente, através de uma luta política no quadro das instituições alcançadas a partir da assinatura dos Acordos Gerais de Paz. Por outro lado, se o partido no poder, FRELIMO, no quadro da tensão político-militar, faz o reforço das instituições à sua imagem, presta-se a ocupar o lugar de vilão, sempre suspeito. E, se por um lado alguém é acusado de falsificar editais, o outro é da falsificação de outro tipo de documentos, é um jogo em campo lamacento, escorregadio, onde quem perde pensa que o vencedor fez batota maior que a sua.

Outrossim, os membros da Comunidade Internacional deviam, por seu turno, procurar trazer à memória o facto de a democracia nos seus respectivos países, ter obedecido a um crescimento gradual. Aliás, a própria União Europeia, em 2004, viveu de Silvio Berlusconi a acusação a esquerda de fraude nas eleições europeias.

Sorte dos países que começaram a democratização a partir de eleição de órgãos de pequena monta, transitando essa experiência por anos a fio, até o alcance do funcionamento das eleições como acontece na actualidade. Nunca vi os partidos políticos a baterem-se nos bairros para a eleição do Chefe do Quarteirão ou Secretário do Bairro, facto que dinamizaria a cultura democrática junto do cidadão comum, e com esta atitude prestariam melhor acção na transformação das mentalidades.

A Comunidade internacional devia, provavelmente ter buscado a consciencialização dos partidos da oposição, para a necessidade de uma longa caminhada, desde 1994, e hoje não se falaria assim do uso do património do Estado a favor deste ou daquele partido. Por exemplo, no Brasil, consta que o poder local concentrava-se na figura do coronel, que lançava mão do seu poder económico para conquistar e manter seu prestígio político, coagindo apadrinhados a votar no candidato por ele indicado. O período foi marcado pela prática exercida pelas mesas eleitorais, que sabotava o apuramento dos votos, produzindo actas falsas, ressuscitando eleitores mortos, entre outros actos fraudulentos.

Apesar de contar com essa experiência e outras da sua longa idade democrática, a democracia no Brasil, ainda tem instituições judiciais capturadas a favor de alas políticas, pensemos aqui no caso Lula da Silva.

A concluir, Moçambique precisa de alcançar, por mais que seja em ritmo acelerado, a maturação da democracia, acreditando no crescimento através da superação política e não pela remoção de obstáculos pela via armada. A tentativa de remoção destes obstáculos pela via armada, possivelmente aproximou ainda mais, nos últimos anos, às instituições do Estado ao Partido no poder, Frelimo, fazendo, provavelmente, por outro lado, a RENAMO e os restantes partidos da oposição sentirem-se párias de um processo que se pretende único na transmissão legítima do poder, o resto, a julgar pelo imediatismo, seria por um indesejável  blitzkrieg. Assim, em Moçambique, face às actuais condições de pobreza intelectual, política e económica, não se pode falar simplesmente de eleições fraudulentas. A grande fraude é tentar induzir o povo a lutar por interesses particulares de um líder partidário, ou partido, quando nem os do País cabem nalguns manifestos eleitorais falaciosos que há pouco testemunhámos.

 

 

Hoje eu prometi para mim mesma que me ias ouvir. O tempo engoliu tantos dias e eu continuo presa ao mesmo instante. Envergonho-me de tudo isto, ainda não reaprendi a viver. Às vezes fico lúcida e abro os olhos. Este estado nunca deixou de me visitar. Sim, eu aceito e depois me arrependo. Não sei o que quero dizer, é muito lixo amontoado no mesmo chão. Talvez não tenha passado muito tempo, mas de certeza já te calaste o suficiente. Diz-me alguma coisa. A cada minuto fecho os olhos na esperança de que venhas me buscar. Estou acordada, mas deixei de viver desde aquele segundo.  

Quando vens me buscar?

Ontem ou hoje veio um médico ver-me. Acham que para além de viúva fiquei louca, mas só eu sei o que é isto. E tu continuas a esconder-te por detrás dessa cortina de silêncio. Nós que sempre brincámos que iriamos no mesmo dia. Não tinhas o direito, vês em que estado me deixaste? Não tinhas o direito. Quando me preparava para te dizer isto me prometi que não ia chorar, mas tens de entender que isto custa. Não consigo superar e começo a pensar que nunca quis. A vida deixou de fazer sentido desde que foste. Mudaram-me de quarto como se adiantasse alguma coisa. O que me faz lembrar de ti e daquela manhã nunca conseguirão mudar. Os meus olhos, as minhas mãos, a minha memória, o meu corpo. Tudo continua me empurrando para o mesmo precipício, faço aquele caminho tortuoso sempre que abro os olhos.
Bem sabes que não consigo suportar a ideia de andares por aí aos namoricos com as defuntas. Sim, prometemo-nos que até que a morte nos separasse. Mas tu não morreste, dormiste. Certo que não acordaste mais, mas não morreste.

Não te rias de mim, que isso me dói.

Tu vês a forma como me tratam? Sou a viúva! Vestem-me de preto e tratam-me como se eu também tivesse deixado de existir. A verdade é que morri contigo, apenas não chegou a hora de adormecer. Sempre olhei para viuvez como algo da velhice. Mas aqui estou, jovem e submersa neste poço escuro. A saudade me guilhotina a alma a cada segundo. Não me digas para calar que ainda não acabei. Não sei o que quero dizer, mas escuta-me que é tudo o que podes fazer. Não poder mais ter as nossas conversas, do verbo e da carne, dói-me mais que tudo o que te venho dizendo. Dormiste e de lá para cá não deixei de esperar que acordasses.

Quando vens me buscar?

Já tentaste te colocar no meu lugar? Isto não é algo que se ensaie, meu bem! Ainda lembro de tudo. Senti a luz do sol a invadir o nosso quarto e fingi que ainda era noite. Mas no mesmo instante decidi abrir os olhos. Era domingo, lembras? Beijei-te a bochecha e desejei-te bom dia enquanto saía da cama às pressas para a casa de banho. Ouviste aquela voz? Era eu a gritar para que te levantasses porque tínhamos pouco menos de duas horas para nos prepararmos antes de irmos à igreja.

Ainda consigo sentir a água quente a percorrer o meu corpo durante o banho. Preferia os teus braços a me enrolarem o corpo depois do banho que aquela toalha branca. Tu continuavas na nossa cama, deitado como um anjo. Ouviste aquela voz? Saiu da minha boca e disse para que te mexesses que havia coisas mais importantes que dormir.

Quando vens me buscar?

Não consigo superar isto. Vês essa mulher a chorar? Sou eu desesperada a te sacudir o corpo ao perceber que não acordas. Não morreste, dormiste e não acordaste mais. Desculpa, mas eu não sou forte como tu. Não depois da forma como aquilo aconteceu. Dormimos e não acordaste mais. Diz-me como eu explico isso para mim mesma sem enlouquecer. Diz-me como fechar os olhos e não esperar que venhas me buscar. Aquele dia amanheceu e o meu coração não aqueceu mais.

 

 

 

 

O senhor Namagulia Murara saiu quando a aurora era ainda uma utopia inimaginável. Nem a Paciência, sua esposa que se mantinha entre os lençóis encardidos, no velho colchão de molas, sentiu os passos lentos que o seu marido coreografava para não deixar quaisquer desconfianças naquele minúsculos e reles quarto, onde o seu doce, como tratava a mulher em momentos de fugazes alegrias, um hábito que nos últimos anos já se escasseava, repousava o corpo e a alma.

Pegou com certo carinho as chaves para evitar aquele tlintar que podia acordar a parceira, imprimiu nuns camaleónicos passos naquele esburacado soalho de argamassa e com as duas mãos, para que os gonzos não cantassem tão alto ao ponto de despertar a dona Paciência, abriu a porta e saiu! Em fracção de segundos perdeu-se na cacimba matinal.

Quando o ponteiro curto e grosso do relógio, preso a uma das paredes daquela velha casa de madeira e zinco, apontou para as cinco horas da manhã, dona Paciência ouviu um gogogogo incomum, ruido que a despertou do desconfortado sono. Abriu os olhos de mansinho, trouxe sua alma ao mundo e esticou as antenas do seu pavilhão auditivo para averiguar se era ou não devaneio e se realmente era sua a porta que bramia aquela hora da manhã, lamentavelmente a realidade se impôs ao ponto de pontapear a porta.

A primeira surpresa foi a ausência do seu marido, o que a motivou a se levantar e não precisou expor seu rosto ao velho espelho que espetado a uma das paredes reflectia a cama, como fazia em dias normais, apenas gritou bem forte com a intenção de abafar a algazarra que vinha de fora, enquanto procurava qualquer coisa para esconder as vaidades.  

“Qual é o problema, já?!!!!”

Mesmo que fizesse um esforço brutal, seu grito não era capaz de abafar aquele gogogogo da porta. Era um trenado barulho e os que o promovia continuavam motivados mesmo depois da intersecção da mulher. Dona Paciência nem mesmo precisou ajeitar a velha capulana que cobria apenas a parte frontal do corpo, assim que abriu a porta, com o tecido entre os dedos, viu três homens com rostos mergulhados de ira o que indiciava a disposição para qualquer selvajaria. Os estranhos invadiram-lhe o rosto murcho que trazia da noite, porém a mulher olho-os nos olhos com aquela coragem que as pessoas nessas situações não sabem de onde vem.

“Algum problema?”

“Todos do mundo!”

“O que aconteceu?”

“É isso mesmo que queremos saber…”

“Viram me marido?”

“É isso mesmo que queremos.”

Apenas um deles respondia a mulher, sendo que os restantes dois olhavam-na como famintos olham para qualquer coisa comestível, o que constrangia mais a dona Paciência a ponto de perder a paciência.

“Onde está o teu amarido!”

“Aconteceu alguma coisa?”

“Apenas diga onde, porra…”

“Eu, eu, eu… não sei onde ele está…”

A determinação dos homens foi-lhe arrancado a ousadia que trouxera da noite, começou a tremer e tremia bastante o que lhe fazia gaguejar. Os dois homens, os de sem palavras aprimoravam mais ainda aquele olhar de feras famintas. De olhos abertos e testas enrugadas pareciam rugir, tinham rostos experimentados a várias adversidades, características exaltadas pelo excesso de cicatrizes que exibiam. O trio vergava vestes pretas, não se sabia se era ou não coincidência, o facto é que aqueles trajes acompanhados daquele terror representado em seus rostos, naquela fatídica manhã, fizeram bater mais rápido o coração da dona Paciência. 

“Estás a ver alguma cara de palhaço?”

“A verdade é que eu não sei onde ele está!

“E tu és o quê?, o porta-voz dele?”

“A esposa!”

“Então onde ele está?

“Quem são vocês e o que querem com o meu marido?”

“Não queremos nada com ele, queremos é ele!”

O clima já estava tenso, dona Paciência que já estava impaciente olhou nos quatro cantos do seu vasto quintal e nada viu, apenas aquele ar sóbrio que soprava misturado na ramagem matutina. Naquela hora da manhã nenhum dos seus vizinhos havia acordado, aqueles homens desconhecidos que se não haviam apresentado, nem dito porquê procuravam o senhor Namagulia Murara, eram as únicas vivalmas ali, “Mas onde se meteu este senhor?” Pergunto a mulher si mesma sem soltar a voz e o mais agravante era que nem ela sabia o que o marido teria feito para merecer tal visita.

“Mas bem, bem, bem, podem-me dizer o quê que meu marido fez?”

 “Chega de blá, blá, blá… vamos levar ela connosco!” Determinou um daqueles que ainda não haviam tossido sequer.

“Como assim, levar ela?”

“É o que temos, djony.”

“Mas não ela quem queremos, ela é inocente.”

“Não há inocentes nessa cena. Vamos levá-la e pontos!”

Dona Paciência, depois de ouvir a sua sentença, de costas voltadas a porta, retornou para dentro da casa, fechou-a com todas as trancas e, toda a pressa e força que tinha. Ofegante, com os poros a libertarem-se, apesar de a manhã estar muito friorenta, já se via com o corpo ensopado. Correu para o quarto procurou por qualquer coisa, mas no meio daquela agitação não conseguia localizá-lo nem saber o que era, enquanto isso os três homens embarafustavam a porta com todas as forças do mundo.

Em menos de cinco minutos, com a porta já escancarada, introduziram-se no interior da casa, vasculhavam em todos compartimentos pela mulher. Dona Paciência estava num dos quartos desusados tentado quebrar a janela, e se não fosse tão dura a tabua que o marido usou para fechar aquela janela talvez ela tivesse chance de escapar antes mesmo que o homem de poucas palavras entrasse e a pegasse pelo pescoço. Assim que agarrou trouxe-a até a sala de estar, onde se encontravam os seus dois comparsas e disse:

“Quer morrer, quer viver?”

 “Onde está o trafulha do seu marido?” Berrou o primeiro interlocutor.

Vendo que não teria qualquer resposta que lograsse seus intentos, o homem deu-lhe uma bofetada de arrepiar a alma e atirou-a no soalho. A mulher desfeita chorava, chorava sem saber nenhum dos porquês de tudo aquilo. Chorava até quando os homens lhe meteram no guarda malas do runx vermelho que estava estacionado a duas léguas da sua casa.

Foi uma manhã trágica para aquela mulher, que ensanguentada não parava de chorar para o “cala-te” dos homens de preto. Quando Senhor Namagulia Murara voltou por volta das vinte e duas horas, não se surpreendeu tanto ao encontrar a casa como se fosse o epicentro de um vendaval tropical. Entrou de mansinho assim como saiu de madrugada, levou algumas peças de roupa e com uma pasta nas costas sumiu, pé ante pé e desapareceu na escuridão da noite.

Algumas horas mais tarde, numa barraca algures na cidade, quatro homens bebiam um copo enquanto estudavam o que fazer com a mulher, que respirava com imensas dificuldades no porta-malas do runex.

“Edjo, aquele gajo não virá resgatar a mulher, pá?”

“Então, vamos fazer o quê?”

“Vamos-lhe mostrar que não se brinca com a malta!”

“Como?”

“Vamos pensar bem, bradas.

“Pensar bem? Ora bolas… O gajo quando nos prometeu dinheiro, não estava a pensar bem?

“Ya, porra, a malta encheu as urnas e o gajo não quer nos encher os bolsos.”

“E dizem que ganharam…”

“Isso não me interessa, eu quero minha xibaba, djo.”

“Estás a ver, né? Esse gajo vai nos conhecer.”

“Ah vai… espera só.”

Moçambique vive um momento de grande disputa política e torna-se por essa via um campo fértil ao debate, com análises do processo eleitoral marcadas por olhares abertos de diversos ângulos. Dessas análises, atraiu a minha atenção à do investigador Joseph Hanlon. Fazendo fé ao que pude ler publicado na imprensa, sobre a sua visão do processo eleitoral em curso no País, saliento o facto de este renomado cientista social considerar que estas "foram as piores eleições de sempre de Moçambique". Julguei bastante interessante esta conclusão e assim fiquei impelido a tentar compreender o sustentáculo da sua constatação.  

Joseph Hanlon sustenta a ideia de que estas foram as piores eleições de sempre de Moçambique, realçando aspectos como: i) o facto de  em algumas mesas de voto ter havido observadores que foram obrigados a ficar de pé e, noutras, expulsos, porque, alegadamente, tinham o carimbo errado na credencial; ii) os agentes dos partidos políticos foram impedidos de entrar em assembleias de voto; iii) ocorrência de violência como elemento de pressão sobre os partidos da oposição, ainda impedidos de falar e, por último, iv) houve atraso no financiamento.

Ao ler essas considerações, um aspecto não passou despercebido em mim, o facto de o académico estar marcado por um olhar unidimensional, analisando somente por um ângulo, um processo que envolve diferentes actores e realidades.

Quero afirmar que faço qualquer análise política com a visão que tenho de uma reacção química, onde colocamos, por exemplo, no mesmo tubo de ensaio os reagentes necessários  para obter um ou vários produtos desejados, em perfeito equilíbrio de fases.  Portanto, a avaliação de Joseph Hanlon está ferida de privação desse equilíbrio, não sendo para mim nenhuma análise, mas um mero exercício de manipulação, pois não avalia todos os termos da “equação eleitoral.”

Das constatações de Hanlon, busco a afirmação de que “nalgumas mesas de voto ter havido observadores obrigados a ficar de pé e noutras expulsos, porque, alegadamente, tinham o carimbo errado na credencial.” Ora, pessoalmente, não encontro motivo para um observador não fazer a observação pelo simples facto de não estar sentado, além de que este, por vezes, se faz um elemento circulante. Honestamente, não deixei de rir-me ao pensar que, possivelmente, o académico tenha-se enganado, não querendo reclamar a falta de assentos, mas sim a não distribuição de óculos aos observadores, o que seria uma inovação no rol de recomendações dos observadores. Por outro lado, refere que noutras mesas de voto, “observadores” foram expulsos, porque, alegadamente, tinham o carimbo errado na credencial.” Aqui levanta um aspecto bastante sério, a expulsão. Todavia, essa expulsão é porque tinham na credencial o carimbo errado, ficando a ideia dúbia de que cada observador por si, carimbara a credencial ou alguém da CNE trocara a estampa do carimbo. Dizer “carimbo errado” sabe-me ainda a eufemismo, pelo qual Joseph Hanlon foge da possibilidade de admitir a ideia de um carimbo falso.  “Carimbo errado” purifica o portador dessa credencial, com que base?
Segundo, ao afirmar que “também os agentes dos partidos políticos foram impedidos de entrar em assembleias de voto”, isso é bastante grave, os agentes dos partidos políticos têm o direito de entrar e, aí, ao académico faço justiça. Mas,  não é exagero dizer que os agentes dos partidos políticos foram impedidos? Pois fica aqui, para quem lê, por exemplo, de fora do País, a ideia de que todos os agentes não entraram, visto que  “os agentes” abarca todo o universo de agentes. Será um lapso de articulação ou uma cuidadosa e intencionada hipérbole?

Ainda seguindo o olhar unidimensional do académico, ao dizer simplesmente que “houve atraso no financiamento” torna impolutos os partidos da oposição, nas consequências desse facto. No meu entendimento, quem recebe tarde os fundos para a campanha eleitoral procuraria rentabilizar o tempo que lhe sobrava, não viajaria para Europa, com direito a passeio aos campos de renomados clubes de futebol para sessões de fotografias. Custava ao académico dizer que houve atraso no financiamento, sim, mas, por outro lado, analisar a utilização imediata do valor concedido e daí chegar à conclusão de como esse elemento pesaria para estas serem as melhores ou piores eleições de sempre de Moçambique. Quanto a mim, essa afirmação é falaciosa, pois equiparo-a a dois quilos de batata aferidos numa balança de pratos sem um peso-padrão.

Ainda na sua abordagem, o renomado pensador,  Joseph Hanlon, avança que "tivemos três mil observadores da sociedade civil independentes que não conseguiram credenciais para observar as eleições” voltando a pecar pela leitura de olhar estreito, não olha o incremento do número de observadores credenciados para as eleições do dia 15. Dos dados avançados pela mídia, contra os dez mil do anterior escrutínio, quarenta mil observadores se fizeram ao terreno, e, trocando isto em percentagem, estamos a falar de um ascendente de 400 porcento. Pouco ou muito, depende do olhar e interesse particular de cada um.

Desses quarenta mil, Joseph Hanlon lembra que “tivemos milhares de observadores de grupos alinhados à FRELIMO, dos quais nunca ninguém tinha ouvido falar, e eles conseguiram credenciais". Penso aqui que o cientista social devia apontar alguns, ou trazer mínimos indicadores, sob risco de pensarmos, por exemplo, na União Europeia (UE), no Parlamento Europeu, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), no Instituto Eleitoral para a Democracia Sustentável em África, na Commonwealth e na Organização Internacional da Francofonia,  como alinhados da Frelimo ao considerarem “que as eleições decorreram de forma ordeira e pacífica”, um debate que por ora adio quaisquer comentários. Mas, algo me arrisco a afirmar, fundado nas declarações de Joseph Hanlon, ainda não há bases para afirmar-se que estas “foram as piores eleições de sempre de Moçambique.”

 

 

Só com uma pinça consegues destrinçar as vozes que te falam por cima de nuvens famintas. O mundo não é todo ele tristonho, mas esta é mais uma voz que me rouba a serenidade. São milhares que durante o dia me torturam de boca para dentro e ao anoitecer me tomam a língua, os olhos, os pés e vagueiam por estes papéis. Queria bailar à luz do luar, olhar-te nos olhos e juntos tocarmos lá como muitas vezes fomos capazes de o fazer. Estas palavras são o que vejo e não o que quero.
Minha história? Isto não é tristeza que te baste?

Matei um mosquito, vês? Continuam a viver às nossas custas, sugam-nos com tanta maldade como se a água já não o tivesse feito de forma mais que suficiente. Com a crise de alimentos que agora mora aqui no centro de reassentamento quero ver como é continuamos a produzir sangue para eles. As águas da chuva engoliram tudo o que puderam. Machambas, casas, corpos, galinhas, porcos. Com o passar do tempo, muitas pessoas que foram levadas pelas águas vão aparecendo.

Ninguém sabe onde estiveram durante estes seis meses. Não falam, não ouvem, não vêem. São só corpos voltando para ter sepultura junto dos seus.

A pobreza não chega ao fim tão já. Ciclone Idai somos nós aqui neste centro de reassentamento a viver isto que te estou a dizer. As catástrofes naturais são mais o depois que o momento em que a natureza se zanga. Eu não te quero complicar com narrações, basta-te apenas ver o que estamos a viver aqui.

Minha história? Na verdade, não gosto de me lembrar disso.
Aquela criança a chorar, vês? É órfã de pai e mãe. As águas levaram os dois para sei lá onde. De lá para cá é filha da vida. São muitas na mesma situação que a dela. Os chefes disseram que vão tomar providências. Falaram em adopção, coisas dessas. Por agora, alguns de nós é que cuidamos delas. É desumano, mas quase ninguém as quer acolher. Só dão uma caneca de farinha de milho, três tampinhas de óleo e, uma vez ou outra, uma caneca de feijão por família. Achas mesmo que alguém vai querer mais uma boca para alimentar com essa pouca coisa? As nossas famílias são numerosas, não medimos na hora de fazer filhos. Divertimento é bom, mas quando chegam coisas tristes como estas sofrimento pesa mais. São coisas da vida.

Minha história? Talvez ainda te conte. Mas não gosto de me lembrar disso, sabes?

Estamos todos a tentar refazer a vida. Disseram que vão construir casas para nós. Não te vou mentir, foi muito meu sonho nos meses passados. Para falar sério ainda é. Dormir na tenda no Inverno não é fácil, o frio viola nos sem medo. Agora com as chuvas e o calor é isto que estás a ver. Matei outro mosquito, estás a ver? Este sangue deve ser teu, cheira bem.

Queres um copo? Esta bebida chama-se Nipa. Alguém dali da outra tenda vende, é uma forma de conseguir sustento. Se tivesses chegado na sexta-feira não reconhecerias este centro de reassentamento.

Ficamos à volta da fogueira a partilhar sonhos. Não temos muita coisa por partilhar entre nós. O sofrimento que vivemos hoje e o inimigo que nos roubou tudo é o mesmo. Falando nisso, sabes que há aqueles que partilham maridos e mulheres aqui, nem? Eu não. Mas acontece de verdade. O que esperavas que sucedesse? Muitas famílias na mesma tenda, de vez em quando alguém toca o outro a pensar que é seu e acontece. Com as crianças ali mesmo…

Isto é uma ferida que ainda está aberta, por isso não gosto de lembrar. Aquilo começou com ventos fortes. Estávamos todos em casa. Ficou tudo escuro. Quando nos demos conta já estava a acontecer. Água a entrar na sala e lágrimas gordas a caírem dos olhos. Tudo ficou cheio. Fora não havia terra, nem nada. Tudo era água. Ninguém esperava que aquilo fosse assim. Mesmo agora ainda não entendo bem como aquilo aconteceu. Minha história eu nunca vou esquecer. Mas acho melhor pararmos por aqui. É noite e ainda estamos em desgraça.

 

 

A “mola” que empobrece o basquetebol 
O mesmo do mesmo, e é sempre o mesmo no basquetebol nacional. Reclamam, esperneiam, mas na hora da decisão, um aceno com as “samoras”, e escolhem o mesmo.

Gostaria de dizer que estou espantado, que estou estupefacto com as “trafulhices” que se vê no “backstage” do basquetebol, mas isso é “papo”, e nem é para Homens, é mesmo para boi dormir (se é que este animal aceita “ferrar”).

Aliás, até podíamos ferrar um ou (forçadamente) dois meses, mas “my god” 1 ano inteiro a preparar o “trono” do outro, foi uma jogada de mago, e é de se tirar o chapéu.

Mas o brilho desta jogada se viu neste processo de eleição, desde logo, salta a vista, citando fontes anónimas, que o processo “tinha de ser sigiloso, porque queriam desclassificar pela demora na entrega das candidaturas”, talvez por isso é que o tempo para se candidatar foi de meros sete dias.

Um dos candidatos quase foi pego nessa arapuca. Safou-se pela lei, mas como quem entra na chuva é para se molhar, também ele decidiu jogar com as mesmas “cartas especiais” molhando as mãos dos outros. 

Num áudio que agora circula por aí nos “whatsups”, um dos (quatro) candidatos terá acusado uma outra lista de estar a prometer “muito dinheiro” para arrumar a concorrência. Era tanto dinheiro que “ele” não conseguia ombrear de igual forma.

Eram 70 mil “paus” em jogo, ninguém (os presidentes das Associações que tem direito a votar para escolher o presidente da Federação Moçambicana de Basquetebol) queria perder a “bolada”.

Mas este bolo (70 mil meticais) era só uma parte do verdadeiro prémio pelo apoio. A outra parte iria/irá ser usufruída agora, depois da eleição, aliás, duas listas candidatas tinham nomes dos presidentes de associações provinciais como seus membros.

É como um indivíduo que é jogador de uma equipa e ao mesmo tempo é o árbitro do jogo. Isso é uma pouca-vergonha, um presidente de uma Associação Provincial de Basquetebol não pode pontapear todos princípios éticos e desportivos. 

Com vontade de corrigir este comportamento distorcido, ouviu-se um sussurro nos corredores jornalísticos, sobre uma fonte carregada (obviamente) de interesses, que queria denunciar este esquema do “ma paga bem”, mas parece ter perdido a voz. 

A voz desapareceu mas os “deals” estavam ao rubro nos bastidores, e as possibilidades eram grandes para qualquer um dos “players”, e lá no “backstage”, ficava cada vez mais claro que nesta maratona, quem sairia a perder era a peça mais importante, o basquetebol. 

No dia de eleições, os discursos eram muito bem elaborados, excepto de um dos candidatos, que convencido de que havia pago o suficiente, deu-se ao luxo de não elaborar um discurso, falando apenas durante meros cinco minutos, dos 10 que tinha, sem apresentar nada, nada, nada de interessante. 

O outro candidato até elaborou um discurso, mas deixou claro que queria fazer exactamente como o antecessor, ou melhor, queria continuar com o trabalho feito pelo antecessor. 

No fim, quem realmente queria mudanças no basquetebol foi arrasado, arrisco dizer que foi humilhado, e no máximo, teve um voto apenas, mas do que isso, só os “boladeiros” mais hábeis. 

O mais triste é que depois de todo fingimento deste processo, uma das listas decide reclamar da outra, o roto tentava denigrir o rasgado, num processo patético em que confirmava-se a ruína, o descalabro, a decadência do basquetebol. 

 
  

A Associação dos futebolistas moçambicanos assinou com o Instituto de Segurança Social, um Memorando de Entendimento que aponta para a resolução de um dos maiores câncros do nosso desporto, com enfoque particular no futebolista: a incerteza no pós-actividade.

Poderá ser uma emenda pior que o soneto, caso não se cuide de algumas questões centrais, de onde ressalta o facto de se tratar de uma actividade exigente e de curta duração. Há portanto que atender às especificidades e exigências, pois a carreira do jogador, em regra dura pouco mais de 10/15 anos, descontados os períodos de formação e afirmação.

Para os outros profissionais inscritos no INSS, a reforma só começa a ser considerada a partir dos 35/40 anos.

FIM DO PROFISSIONALISMO ENCAPOTADO?

A divulgação/publicitação do rendimento dos nossos futebolistas, passará a ser uma exigência? Ou isso representará o destapar de um tabu?

Na alta competição de hoje, se qualquer cidadão pretender aceder aos rendimentos de um jogador do Manchester United, Benfica ou Sporting, fá-lo com a maior das facilidades. São figuras públicas, pagam impostos e têm salários acima do cidadão comum. Os clubes vivem basicamente da compra e venda dos atletas, “merchandising” e quotas dos sócios. Por esta ordem.

As receitas e despesas correntes, salários dos futebolistas e funcionários – nalguns casos do próprio Presidente do clube – têm contas auditadas, sendo objecto de discussão pública.
Mas entre nós, não vai ser tranquilo. Porquê?

Maioritariamente, a origem dos rendimentos dos nossos clubes, vem das empresas públicas, logo do Estado e, consequentemente dos impostos dos cidadãos. Só uma ínfima parte delas provém dos sócios e simpatizantes.

E todos sabemos que as verbas envolvidas na contratação de um jogador acima da média – nalguns casos estrangeiros – não têm nada a ver com a de um trabalhador médio. E como este reagirá, ao saber que do seu suor, uma parte foi canalizada para a contratação de um craque, que actua num clube, que muitas vezes nem é o da sua preferência?
Contratação de estrangeiros, técnicos bem pagos, deslocações cómodas e atempadas, estágios com boa alimentação, departamentos clínicos à altura, têm custos, nem sempre brandos.

As empresas públicas, terão que gerar e gerir contas paralelas. O espaço entre o ser e o parecer, vai ser alargado. Declarar uma ínfima parte dos rendimentos e depois alocar o resto “por baixo da mesa”, poderá acontecer no imediato.

Mas as soluções definitivas, apontam para um “apanhar do comboio” da modernidade. Nós, porque lhe perdemos o passo, teremos que saltar para as últimas carruagens. A alta competição tem que passar a ser um negócio, em que o craque é o activo principal. Porém, para ele aparecer e impôr-se, no panorama nacional e internacional, o investimento tem que ser DE FACTO na formação, com planos efectivos e não subalternizados, de médio e longo prazos.

 

A realidade, muitas vezes, tende a converter-se em normalidade e pior ainda, a se nos apresentar como uma verdade inalterável. Por isso mesmo, Brecht nos recomenda a questioná-la sempre, a desconfiar do mais trivial, dito em palavras simples: a não confiar nas aparências. E é justamente esse o tema da parábola. A velhinha que mendiga compaixão na esquina, afinal é um lobo disfarçado, à caça de uma oportunidade para devorar a menina. E de repente o sapo ancorado no charco da rua, não é que é um príncipe amaldiçoado. Enfim, o nosso imaginário está repleto de exemplos do género. Entretanto falemos de A Noite das Hienas, uma parábola hiperbólica que resulta do cruzamento entre A noite dos Visitantes do dramaturgo alemão Peter Weiss e Babalaze das Hienas, do poeta moçambicano José Craveirinha.

Se de um lado estamos perante uma história de uma família camponesa – cujo único luxo é um laçarote cor-de-rosa – que numa noite se vê invadida por dois estranhos – cada um a seu tempo e com estratégias contraditórias, mas ambos decididos em pilhá-la e matar – doutro somos confrontados com poemas que põem a nu as mais bizarras tragédias decorrentes da guerra, a mãe das tragédias.      

Enquanto Weiss recorre ao verso e à rima para, digamos, fugir do enguiço da psicologia doméstica e agrava mais ainda a trama pelo lado da objectividade de imagens e falas, os poemas de Craveirinha encontram no exagero o tom mais apropriado para denunciar a barbárie. O que, obviamente, resulta numa “complicação” interpretativa, pelos múltiplos sentidos que esse diálogo sugere. E as opções da encenação, em termos de jogo dos actores, escolha da cenografia e demais ingredientes necessários para confeccionar o espectáculo, acabam sendo um trabalho de descomplicar complicando doutra maneira, simplificando aliás.

É a esse exercício matemático que nos temos dedicado há três semanas, e cujo resultado, não sendo definitivo, porque o teatro não o permite, nos propomos partilhar com o público da cidade de Maputo nos dias 18 e 19 de Outubro, pelas 18 horas no palco do Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane.

Com encenação de Fernando Mora Ramos, esse projecto teatral resulta da parceria entre o Teatro da Rainha, de Portugal e a Escola de Comunicação e Artes de Moçambique. Pela complexidade do trabalho e devido a escassez de tempo e recursos financeiros, assumimos essas apresentações como um exercício, uma primeira mostra, em bruto, do que almejamos, que queremos que, num futuro breve, se torne um espectáculo. Há neste processo, na apresentação da forma exercício antes do espectáculo, uma dimensão pedagógica sobre o fazer teatral que nos interessa partilhar, uma maneira de pôr à vista um work in progress.

Cruzar dois autores como Piter Weiss e José Craveirinha, assim como fazer interagir um encenador português com actores moçambicanos é, por si só, um grande pretexto para pensar o mundo e o teatro enquanto espaço de discussão sobre a arte e a vida.  

    

Ficha técnica

Encenação: Fernando Mora Ramos

Assistente de encenação: Venâncio Calisto

Interpretação: Castigo dos Santos, Fernando Macamo, Josefina Massango, Maria Clotilde, Samuel Nhamatate e Venâncio Calisto.

Apoio a cenografia e figurinos: Sara Machado

    

Juro que não sei, sinceramente, não sei. O que esperas que eu te diga depois do que vi ontem? Não me interessa quem assinou o quê, apenas me diz se se faz isso. Celebrar o quê? Quem? Eu? Não me pede para não chorar, apenas me diz se se faz isso. Eu vi com estes olhos. Achas que alguém parou para pensar nisso? O que sabem sobre ele? zero, não sabem nada. Paz de quê? Estou a chorar sim e não me tome por louco, sei bem do que estou a falar. Diz-me lá se se faz isso, diz-me lá, diz…

Os dois autocarros tacteavam a estrada com autoridade. E ela não pedia muito, apenas rogava que aqueles senhores que os comandavam fizessem o combinado. Ambos se tinham deixado aconchegar nos cuidados do outro. A estrada, no meio da savana, continuava aberta e os autocarros, separados por uma distância considerável, deslizavam tranquilamente. Aqueles motoristas já tinham feito vários pactos semelhantes àquele no passado, conheciam aquela estrada há muitos anos.

Uma luz tímida iluminava o amanhecer ao ritmo daqueles passos ténues que os primeiros raios solares gatinhavam. Eram quase cinco da manhã. Estávamos na mítica Gorongosa. A ponte sobre o rio Púnguè deitava os seus olhos sobre os autocarros que passavam Dongobe e cheia de si se estendia para sentir aquele deslize, que a estrada já vinha sentindo desde há muito tempo, e cumprir o seu honroso papel de permitir que eles fossem para o lado de lá sem serem engolidos pelo rio. De repente, o sono que nos tinha feito companhia, desde que a viagem tinha começado, foi espancado por um sentimento que nos arranhou a alma, acredita no que te digo, aquilo deixa sem ar e faz qualquer um pequeno. O medo quando nos visita deixamos de existir.

Eu estava lá, eu vi aquilo. Não fizemos nada de mal a ninguém, nenhum dos que estavam naquele autocarro merecia aquilo. Aquilo não se faz…
Continuo ouvindo aquele ruído de balas a atravessarem o autocarro, continuo ouvindo pessoas a gritarem descontroladamente, continuo sentindo o pânico a ferver-nos o sangue e a cozer-nos os corações. Aquela chuva de tiros pareceu durar o tempo suficiente de um dilúvio. Uma chuva de tiros, uma chuva de balas. Diz-me lá, faz-se isso? diz…
Eu não parava de me perguntar o que era aquilo, ainda não parei. Enquanto escondia a cabeça por baixo do assento, como todos os que viviam aquele inferno, o nosso herói pegava o volante com vigor e pisava fundo no acelerador do autocarro. O que era aquilo? O que tínhamos feito para merecer aquilo? Uma chuva de balas…

Minutos depois a chuva parou e rios de sangue corriam atabalhoadamente pelo autocarro em alta velocidade, talvez buscassem um mar onde desaguar a dor que marchava em sapatos de bico fino naqueles corpos. Muitas pessoas foram atingidas, dentre elas o motorista, mas ele acelerava, continuava firme com as mãos no volante. Aquele homem nos salvou, não a todos, mas nos salvou. Eu vi com estes olhos, que agora estariam cerrados para eternidade, um homem morrer. Sei que nunca sabemos qual é o nosso dia. Mas alguém sai de casa, entra num autocarro para viajar, é baleado e morto como se fosse um bandido. Disparar em pessoas indefesas daquela maneira! Diz-me lá, faz-se isso? Faz-se?

Desculpa, mas isto não é nenhum desprezo. Não me digas para que não chore. Eu estava lá. Não posso ignorar tudo depois daquele sangue ter-me tocado.

Hoje é um dia de festa para quem não esteve lá. São quatro da manhã e ainda não consegui adormecer. As pessoas vão acordar mais tarde que é feriado, vão fazer um frango assado na grelha, vão passear, vão depositar flores na praça da paz, vão fazer campanha eleitoral. Isto tudo não passa de uma hipocrisia nacional. Ninguém tem culpa. Não é da tua casa, não é alguém famoso. Mas eu estava lá e vi tudo. Há dias foi em Zimpinga. Ontem foi em Dongobe. Amanhã onde será? Hoje o que celebramos? Quando consigo cerrar as pálpebras só vejo aquele rio de sangue arrastando uma vida para morte. Sim, hoje é 4 de Outubro, o resto não sei, juro.

 

 

A terra guarda a raiz da gente. Mas a mulher é a raiz da terra.

Mia Couto

 

 

Caramba! 28 minutos atrasados. Mas chegamos, ansiosos e motivados, afinal no palco do Franco-Moçambicano estava, quinta à noite, uma bela mulher: Assa Matusse, essa raiz da terra que também é som, sonho e vibração.

À nossa chegada, “a menina do bairro” cantava a música “Estranho” para uma audiência que encheu a Sala Grande, ao estilo afro/jazz, grandiosa trajada de um vestido preto com uma racha à esquerda como protagonista. Assa estava na sua melhor noite, gira, álacre e cativante, divertindo-se no seu espectáculo até à exaustão. E ela não é egoísta, então para gozar aquele momento em que o + e o Eu misturam-se como que mecanicamente, convidou a amiga Duduzile Makhoba para juntas interpretarem “Estranho”. Então a sul-africana apresentou-se no palco entre aplausos expectantes. A intombazane não envergonhou no dueto e nem quando actuou sozinha. Entretanto o espectáculo era de Assa. Por isso, minutos depois de se ter recolhido para os bastidores, onde foi trocar aquele vestido matreiro, culpado por eventuais distrações masculinas, voltou ao palco e continuou a proporcionar ao auditório momentos de boa música.

– A Assa Matusse está muito madura! Aquiescemos, quando Leonel Matusse, um bom amigo, finalmente rompeu o seu silêncio para se render ao talento em forma de mulher. E, de facto, o jornalista do Notícias estava certo. Durante o concerto, Assa provou estar preparada para aquele tipo de eventos. Sempre afinada, desinibida e envolvente, a artista mostrou que quando tudo é bem feito pode não haver diferença entre um álbum e o show ao vivo. Fez sentido ter cantado “Fenomenal woman”, pois é isso o que está a tornar-se ao levar para a música a sua feminilidade acompanhada de um acentuado poder de observação. Está aqui uma explicação para a cantora ter recriado “Nitxitxile” e inserido no seu álbum de estreia. A interpretação dessa música foi feita com paixão, lembrando-nos do que a xenofobia tem feito dos moçambicanos na África do Sul. Ainda bem que a cantora sabe separar as coisas, daí ter chamado Duduzile.

“Menina do bairro”. Assa também cantou essa música, um exemplo de quem reivindica a origem, a infância, os sonhos puros dessa fase e essa disposição de ir à ribalta para dar atenção ao seu tão amado Mavalane. Acompanhada da sua banda, a cantora contou essa história sobre ser em função das circunstâncias.

Ao som de Assa, o tempo passou rápido no Franco. E foi supersónico quando Mingas deixou o assento de onde viu quase todo o concerto, ali bem perto dos holofotes, para cantar com a autora de + Eu. Com Mingas no palco, o espectáculo ganhou um contorno mais electrizante. Ambas cantaram “Xihono” e “Ndzumba”. E lá os telemóveis saíram dos bolsos para registarem em vídeo épocas diferentes personificadas na qualidade vocal de duas mulheres.

A propósito de mulheres, Assa homenageou todas aquelas que, sendo raízes da terra, fazem por merecer, ao cantar “Carinho de mãe”. Apenas um reparo, talvez os cantores, durante os espectáculos, devessem parar de falar ao fim de cada música que cantam. É desnecessário. Muitas vezes, Assa caiu nessa tendência aborrecida de explicar, justificar ou mesmo cumprimentar pessoas queridas. É dispensável.

Seja como for, a algumas horas do Dia da Paz, a “menina do bairro” conseguiu realizar um concerto equilibrado, à altura do seu primeiro disco, e, a partir daí, desejando ou não, refrescar-nos o espírito para o que aí vem a seguir.   

 

É claro que o império do Zimbabwe (1220-1450), que contemplava o vasto território que vai desde o Índico até ao país que hoje herdou este nome, foi um dos mais bem-sucedidos impérios endógenos da África, com imensos reinos vassalos, Estados-satélites, que desempenhavam a função de, como hoje em dia funcionam as províncias, entrepostos tributários que enriqueciam a capital: o Zimbabwe, o amuralhado de pedras onde ficava a corte e todas as artimanhas que o poder exige.

O que demonstra a existência de uma divisão social do trabalho fortemente desenvolvida, o que, como efeito, origina dois grupos de actores sociais: os que trabalham na produção directa dos meios de subsistência e os que se dedicam as tarefas de prestígio, sendo que estes últimos vivem do esforço dos primeiros.

Apesar deste sistema de reinos tributários, o império do Zimbabwe teve vários e longos ciclos de governação dirigidos por diferentes mambos, os mwenumutapas, soberanos dos Mutopas, cuja ascensão ao poder destes nunca era de forma pacífica, isto é, sempre houve disputas entre os estados-satélites para a ascensão ao poder de qualquer monarca, e só a força era necessário para manter e controlar este poder absoluto, como em qualquer governo da actualidade. Todavia, no império de Zimbabwe estas lutas, de e pelo poder, foram, como reza a história, a condição sine qua non para a decadência do império.

Bom, como devem imaginar, não será a história, no sentido académico, o interesse primário desta lavra, mas a história como lenha para a fogueira chamada ficção, o que origina os chamados romances-históricos, onde a memória estabelecida pelo homem através da escrita do seu próprio passado é usada como matéria-prima para novas narrativas. Este género alberga um campo teórico bastante discutido, e nisso várias são as ilações. Em sumula, a historiografia, enquanto campo científico que estuda os factos no tempo, ocupa um lugar subjectivo no presente, portanto é um género fechado e encerrado como o mundo que representou, enquanto o romance-histórico é objectivo, encontra-se em processo de construção e reconstrução permanente, sendo capaz de dar conta da multiplicidade e complexidade do presente, e sem perder os faróis do futuro. Daí que, a denominação romance-histórico não é determinada por qualquer traço interno, mas é um dado externo, peculiar e sem relevância para a realização estética, o que obriga mestria e sagacidade dos autores que neles se lançam para que não caiam no espaço comum, e isso pode-se dizer que a “Saga d’Ouro”, do escritor e dramaturgo moçambicano, Aurélio Furdela, é o exemplo, não foi por acaso que a sua distinção com o prémio INCM/Eugénio Lisboa, um galardão destinado a distinguir as mais destacadas obras escritas em língua portuguesa, no género de prosa, sendo que para a edição 2018 reconheceu a obra de Aurélio Furdela.

Vamos ao que interessa: Porque debater as vicissitudes do poder dos mwenemutapas hoje?, ou melhor, que importância tem este romance na vida actual dos moçambicanos e de Moçambique?, a resposta a essa questão é actual e futurista, e funciona como um acre-doce que se dissolve na língua, por um lado adocicando o nosso imaginário colectivo, enquanto leitores, e por outro lado azeda a nossa consciência colectiva, enquanto moçambicanos.

Nesta distinguida obra, Aurélio Furdela desmascara os egos que inflamam a nossa vida, desvendando a ganância pelo poder na África actual. Neste livro há viárias aspectos que me fascinam, todavia para esta humilde opinião de um leitor desprovido de qualquer instrumento de medição, seja literário, histórico ou mesmo político, irei destacar apenas três que são:

1) A técnica da narrativa, neste ponto fascina-me bastante a forma e a estilística, a maneira como Furdela traz-nos a história, é uma narrativa que nos embala, nos coloca nas asas das mais belas águias da imaginação e que elas nos transportam para o tempo, este tempo-histórico onde vivemos a história como se nós, os próprios leitores, contribuíssemos para reconstruí-la, ou melhor, é como se nós fossemos os personagens dessa mesma história. A partir deste livro, sentimos até o cheiro das pedras que compunham o Zimbabwe e o medo das supersticiosas assombrações de Rumbidzai, o grande feiticeiro, a quem teria sido convidado pelo soberano para conter os inimigos da corte, ou melhor, eternizar-se o mambo no poder.

Ao ler este livro ficamos com a verosímil impressão, mas nunca com a certeza de estar a ler um manual de história, pese embora o facto de aprendermos e apreendermos imensas configurações dessa historiografia que muito nos importa conhecer. Esta é uma narrativa complexamente envolvente e empolgante que nos lembra outro mestre do romance-histórico, Ungulani Ba Ka Khosa em Ualalapi.

Outro aspecto relativo a narrativa é a beleza e coerência dos diálogos, aqui arrisco-me mesmo a dizer que Aurélio Furdela é, ou pode vir a ser, o escritor que mais domina a mestria de construir diálogos na literatura moçambicana, talvez seja pela sua passagem, e também fixação, pelo teatro.

2) A ironia e o sarcasmo com que o autor caracteriza os personagens, sobretudo o protagonista, GatsiLucere, historicamente conhecido como o traidor, aquele que, pela ganância desmedida e covardia crassa, teria permitido a entrada e fixação de comerciantes portugueses no império e que estes, a partir desta brecha, exploram e saqueiam as minas de ouro, colocando todos, desde homens, mulheres e até crianças, na mineração, em detrimento da agricultura e pastorícia, actividades principais do império, o que gerou revoltas populares, sobretudo dos mwenemushas[1] de Quiteve e Manica, contra o mambo.  

Furdela neste livro consegue transpor para o papel a mais covarde imagem de um soberano, um monarca prepotente, como diz Ubiratã Sousa (in prefácio) “GatsiRucere é tão-somente um anti-chefe parasitário, que assume um poder sem poder e é incapaz de qualquer grande feito.” Esta imagem de prepotência, arrogância, de um líder desvinculado de sua própria liderança, capaz de prostituir-se, a si e ao reino a qualquer um ou seja lá quem for em troca de “mais-valias” ou mais dias no trono, é-nos bem fresca e actualizada enquanto moçambicanos e, muito semelhante a dos soberanos que pululam pelo mundo afora, com mais incidência nessa tão má desgovernada África. 

E é esta relação, da história do reino do Zimbabwe com actualidade moçambicana, onde reside a importância de os moçambicanos do séc. XXI conhecerem as sagas para as quais se chega ao trono, e é este (3) o último ponto, uma vez que ao se ler este livro ficamos com aquela dúbia sensação de estarmos a repetir a história, arrancando deste tão importante ramo do conhecimento humano, a sua nobre função de conhecer o passado para melhor perspectivar o futuro, tudo para que ela não se repita.

Este livro, por um lado, chama-nos a razão para essa incoerência histórica que cometemos, todos nós, porque todos temos algo a dizer para que não sejamos repetidores de nós mesmos, enquanto protagonistas do nosso destino. Por outro lado, a obra mostra-nos uma verdade que optamos em ignorar, que apenas as revoluções, as insurreições armadas são único caminho para mudar ou desmontar qualquer ditadura, e que o sangue que se verte em revoluções é sacrifício, fermento útil para as mudanças que se pretendem, sejam elas em reinos ou democracias pequenas ou grandes, consagradas ou não. Sem querer ser demasiado peremptório, todavia este livro mostra-nos que, volvidos todos estes séculos (do longínquo império do Zimbabwe a actual África), os nossos líderes não conseguiram e não conseguem se desfazer do poder de forma pacífica, e tudo indica que estes não conseguirão desenvolver uma consciência democrática, enquanto os vemos todos os dias empenhas na procura de um Rumbidzai, um feiticeiro, a qualquer preço, que exorcize opositores, e se possível toda a oposição dos seus regimes, e todos aqueles com ideais e ideias diferentes para que eles reinem eternamente. “Mas eternamente não, patrão”, como diria Craveirinha.

Mesmo a desejar uma boa leitura, terminaria citando Cleber Sadoll Costa, brasileiro afeiçoado pela literatura moçambicana que, comentando sobre esta “saga” adianta: Num livro que deixa espaço para ambiguidades e metamorfoses, o autor surrealiza com destreza, e enquadrá-lo em qualquer categoria confortável seria como impor limites ao já escrito e ao que há de ser lido – percebido. Em “Saga d’ Ouro”, a malícia é dosada, a ironia é apimentada. Um livro pronto para ser lido mais de uma vez…

 

 

 

[1] Pequenos chefes de aldeais

 

Ontem choveu em Lisboa. Tudo o que me vem aos olhos são as lágrimas que inundam o buraco no qual aquela criança se contorce. Amanhã é Outono. Eu sei que já te contei isto, mas deixa-me contar, custa-me, mas deixa-me contar-te que só assim enxugo aquelas lágrimas. Hoje estou de cama. A temperatura mudou e, como sempre, apanho com isto no corpo. Sinto a mudança bem aqui no fundo. Há anos que no meu corpo a mudança de temperatura é anunciada por meio de dores.

Estou febril, dói-me o corpo todo, mas deixa-me contar-te.

Muito mais que minutos de silêncio precisamos de acções. Não digo isto porque quero, mas porque a temperatura mudou e os alertas ressoam na minha carne. O meu corpo ardendo em febre e os gritos das dores da minha perna direita superam todas as sirenes do mundo. Isto sempre me faz retornar àquele dia. Nunca se esquece algo como aquilo. Desculpa-me, mas eu tenho de te contar.

A campainha ecoa na escola. Que se dissipem as dúvidas para quem ainda bailava nesse pêndulo, é mesmo hora do recreio. O pátio da escola ganha cor e vida com as centenas de alunos que saem das salas. Frequentam todos a sexta e a sétima classes, a média da idade deles é de doze anos. O sol já estava quase no lado de lá e depois daquele intervalo viria a última aula do dia. As centenas de vozes se aliavam aos sons da natureza e executavam a ópera típica do recreio de uma escola do ensino primário.

As crianças pulam, gritam, vão trocando chalaças e riem entre sim. Todas brincam. O intervalo vai quase ao fim e uma delas corre (não me pergunta o motivo). Traz no corpo calças azuis escuras, um camisa azul do céu e sapatos pretos. A corrida não vai até muito longe, é interrompida por um empurrão e o rapaz cai numa cova que se encontra ali pertinho. Nunca se soube quem o empurrou, nenhuma criança se denunciaria ao se dar conta da gravidade do problema gerado.  

A dor que senti naquela cova continua aqui comigo e as lágrimas que despontaram destes meus olhinhos desde o momento que não consegui mexer a perna direita até o dia seguinte ainda inundam aquele buraco.

Deixa-me contar-te, deixa.

Não tardou e aos poucos aquele lugar ficou cheio de crianças com aquele uniforme azul que nos obrigavam a usar. Os meus colegas foram comunicar aos meus professores o que tinha sucedido. Precisei de ajuda para sair daquela cova. Os meus professores apareceram no lugar onde tudo tinha acontecido. Todos não paravam de fazer perguntas como «onde dói, Miguel? Como te sentes, Miguel?». Aquelas lágrimas onduladas que jorravam dos meus olhos eram as únicas respostas que eu conseguia formular.

A minha escola, como a de quase todos os moçambicanos, não tinha uma enfermaria para primeiros socorros e nenhum dos meus professores tinha carro. Não havia como me levarem ao hospital. Acabou decidindo-se que era melhor me levarem para minha casa. Coube aos meus colegas mais velhos e com estatura um pouco mais robusta me carregarem até lá. As lágrimas em catadupa inundavam as ruas, nasciam rios suspensos na minha dor. Naquele dia não houve mais aula e uma multidão de colegas me acompanhou até a casa. 

Isto nunca passa. Estou febril, mas deixa-me contar-te.

A minha mãe não queria acreditar no que tinha acontecido. Ainda lembro do teu ar preocupado, mamã. Lembro de tudo. Felizmente naquele dia meu pai estava em casa e tinha trazido com ele o carro do serviço no qual me transportou até ao Hospital Central de Maputo, onde um hora depois eu estava deitado numa maca com a perna direita toda engessada.

Sempre que a temperatura muda, a minha perna dói e a memória despeja-me tudo de novo. Deram-me cabo da perna. Isto não se apaga. Deram-me cabo da perna e me pergunto, mas e o que lembrarão os violentados desta campanha eleitoral? Não me venham com merdas. Façam quantos minutos de silêncio quiserem. Isto nunca passa. Hoje estou de cama. Amanhã é Outono.  Choveu em Lisboa ontem.

 

 

– DE SUSTO MORREU A CRÍTICA

Ubiratã Souza

Peço que me perdoem. É preciso começar por reflexões de cunho teórico. Dizia o professor Ngoenha em certa ocasião que uma reflexão sem teoria é como uma casa a ser construída sem uma planta. Por isso é preciso iniciar dizendo que, por mais que tergiversem, debatam, se confrontem e discordem as teorias e os métodos, parece ser assente que há duas maneiras possíveis de que a literatura estabeleça relações com a história. Uma delas é atávica, a outra pode ser mais ou menos arbitrária. Consoante a cada possibilidade, modificam-se no detalhe os significados tanto da palavra “literatura” quanto da palavra “história”. Mas, vamos por partes.

A maneira atávica da literatura estabelecer relações com a história não depende exatamente da literatura, mas depende do olhar crítico que deve reconstituir essa relação através do ato interpretativo. Refiro-me exatamente à historicidade da literatura enquanto fenômeno social – essa relação já está dada por hereditariedade: assim a literatura nasce, fiel às características remotas de sua ascendência. Reconstituir essa relação entre literatura e história durante o ato crítico é só um objetivo.

Chamo esta primeira relação entre literatura e história de “atávica” justamente porque ela é inelutável, é a essência da própria existência da literatura na sociedade. Não é arbitrária. Ela prescinde de qualquer possibilidade de esforço por parte do autor. Qualquer discurso humano é impregnado de uma historicidade que lhe estimula, fomenta e limita organizações e articulações específicas, mesmo na dimensão da linguagem. Ainda que o escritor busque negar essa relação, ainda que o crítico a dispense durante seu ato analítico, ainda que os leitores não deem por isso, ainda que essa relação seja completamente irrelevante: ela está lá. E os mínimos detalhes de organização da língua (seja uma peculiaridade no posicionamento do aposto predicativo, por exemplo), poderão, algures, ser usados como índices que comprovarão a historicidade da literatura. Nesta acepção, a literatura assume uma significação social mais abrangente, que a inscreve como produto da relação entre seres sociais inscritos na história. A história, por sua vez, caminha em direção a significar mais que um campo de estudo, mas torna-se aquela História (que se grafa em maiúscula), precisamente o objeto de estudo da disciplina história (a “cadeira”, como se diz em Moçambique). Pronto.

Já a outra forma de relação entre a literatura e história, a que chamo de arbitrária, trata-se da forma mais comum, direta e óbvia de evidenciar essa relação. Esta, sim, depende totalmente da arbitrariedade do autor, e, quando está bem realizada na obra, o crítico não tem muito como nega-la. Trata-se, em suma, de como o autor pode se apropriar da história como elemento para a composição de sua obra. Neste sentido, a palavra “história” se refere somente à disciplina formalmente organizada (a cadeira) e suas infinidades de sequências narrativas. Seja como tema, seja como dados auxiliares e contextuais que servirão como pano de fundo a uma narrativa construída em primeiro plano, seja por referências esparsas ou por reprodução de discursos, a história, nesta relação arbitrária, pode aparecer em menor ou maior grau de intensidade dentro da obra – ou pode nem aparecer. É nesta acepção que passa a ser útil se referir a uma obra como “romance histórico”, por exemplo, pressupondo que existam outros romances que não sejam históricos: ou seja, existem romances que não se ocupam da apropriação da narrativa historiográfica como elemento de composição como aqueles ditos “romances históricos”.

Sim, isso mesmo: se foi possível acompanhar essa sistematização um pouco complicada que proponho aqui, aquele leitor arguto já deve ter emitido uma gargalhada porque ele, ledor assíduo de críticas de literatura, já percebeu que existem críticos que, quando se empenham em trabalhar sobre a relação entre literatura e história, nunca conseguem saber exatamente se estão a se referir à historicidade da literatura ou à história como elemento de composição. Então tropeçam nos próprios pés, abalroam-se todos com o texto literário, e regurgitam análises repletas de algaravias, que poderiam ser boas, até, não fosse a barafunda teórica (a ver, como o prof. Severino tinha razão?).

Chamo atenção disso tudo porque Saga d’Ouro é um romance que salta para cima da história como disciplina para se apropriar dela como elemento de composição. Insere-se na segunda possibilidade, portanto. É neste fito que a novíssima obra de Furdela se integra a uma antiga tradição no interior da literatura moçambicana. Essa tradição, ninguém há de negar, tem sua assomada no antológico Ualalapi (1987), de Ungulani Ba Ka Khosa. O próprio Khosa, inclusive, sumo pontífice do clero ao qual Furdela se integra, é o mais reconhecido escritor moçambicano a utilizar a disciplina história como elemento de composição em praticamente todas as obras (com exceção, talvez, dos contos do seu início, anteriores à sua atuação junto da Charrua).

Perfazendo a vol d’oiseau um arco que considere desde as primeiras manifestações literárias em Moçambique desde o final do século XIX, até o esfíngico e borbulhante presente da literatura moçambicana, não parecerá escusado dizer, sem pretensões sistemáticas, que a tomada da disciplina história como elemento de composição neste sistema literário costuma andar em círculos sobre dois grandes temas: o poder político nguni pós-Mfecane no sul (o Reino de Gaza), e o poder dos prazos no centro.

Em relação ao poder político do sul, a tradição literária é muitíssimo antiga, e tem como precursor alguém que, ao escrever sobre a guerra entre Portugal e Gaza, escrevia sobre o seu presente, e não sobre a história: está lá, no ano de 1891 o “Canto de Guerra Vatua (Assibinheia)” de Arthur Serrano em seus Sons Orientaes, enquanto Ngungunhane ainda imperava sobre marongas, machanganas e matsuas e demais súditos de toda a parte. O rol de obras que se integraram a esta tradição é imenso: no “Pós da História” (1934), de Rui de Noronha, o próprio Godido (1951), de João Dias, alguns poemas de Noémia de Sousa (1948-1951), o já citado Ualalapi (1987), A balada dos deuses (1991) e Os ossos de Ngungunhana (2004), de Marcelo Panguana, As andorinhas (2008), de Paulina Chiziane, só para citar alguns exemplos representativos. Recentemente, essa tradição foi reavivada com a trilogia As areias do imperador (2015-2016), de Mia Couto e o novíssimo As mulheres de Ngungunhane (2018), do mesmo Khosa. As formas como essas obras integram-se a esta tradição também são as mais variadas: desde obras cujo enredo concentra-se todo em construir personagens históricos ou até um simples “Bayete!” no verso de um poema de qualquer outro assunto.

Já o outro tema, poder dos prazos do centro, cito, por alto, três obras que me saltam sempre aos olhos: Choriro (2009), do mesmo Khosa, Dona Theodora e seus Mozungos (1998), de Maria Sorensen, e Os oito maridos de Dona Luíza Michaela da Cruz (2016), de Adelino Timóteo. Evidentemente, deve haver outras. Mas a assimetria regional em Moçambique reflete-se com peso nas dinâmicas editoriais, culturais e literárias – tanto é mais difícil para essas outras obras virem à estampa quanto é muitíssimo mais custoso que sejam conhecidas pela pesquisa desde o Brasil.

Pois  Saga d’ Ouro inova justamente neste ponto. Desvia-se da solução moçambicana comum de perambular por entre os dois focos históricos de poder de Moçambique, o centro e o sul, e se dirige a outro tempo e a outra forma de poder, o Mwenemutapa. Quando faz isso, reconstrói a personagem histórica de GatsiRucere como um anti-herói, ou, como é comum na literatura moçambicana, constrói a figura de um “anti-chefe”, por assim dizer. Digo desse modo porque GatsiRucere é o oposto de tudo aquilo que uma idealização pode conceber como um grande líder político: é temeroso, pusilânime, desprovido de altura e imponência, profundamente reativo, ridicularizado, desviril, ansioso, imprevisível e perigoso. Não faz lembrar, ao acaso, o decadente, gordo, autoritário e orgíaco Ngungunhane de 1987?

É na oposição com uma personagem muito coadjuvante, Fungai, no início da obra, que podemos ver exatamente um ideal de chefe, dotado de “rara inteligência” e “compleição física”, capaz de se igualar aos bens de luxo da nobreza por via de seus próprios esforços como caçador, pescador e agricultor. Quase como um ideal liberal de homem empreendedor, aqui gravita em oposição a um líder enfraquecido, desprestigiado e completamente parasitário.

É justamente no ínterim dessa desfavorável comparação entre o Mambo – o soberano do Mutapa – com um súdito qualquer que surgem inúmeras ressonâncias e averbações dos shonas como terríveis invasores, cujo poder nunca teria sido aceite ou sequer assimilado pelas populações locais, colocadas sempre na iminência da revolta e da necessidade de uma dominação mais ostensiva. Acaso isso não será outra semelhança com aquelas obras que tratavam dos ngunis também como invasores e de uma população subjugada igualmente na iminência de uma rebelião?

Gostava muito de ter ensejo para analisar com cuidado toda a estrutura narrativa de Saga d’ Ouro, mas isso é pouco conveniente para um prefácio, afinal, o arguto leitor ainda há de ler a obra a seguir, não cai bem lhe revelar detalhes do entrecho. Em breve farei isso por maneiras científicas nalgum artigo: prometo publicamente. Não posso deixar de chamar atenção para mais dois pontos acerca dessa narrativa, no entanto.

A crueldade e o vexame ao qual GatsiRucere está constantemente exposto deriva muito de sua consciência de ser ele próprio o causador da desgraça e do perigo que corre agora o Mwenemutapa: é um líder fraco e ameaçado. A forma como, desde o seu zimbabwe particular, assiste a uma procissão de feiticeiros, mensageiros, forasteiros, ínfices e subordinados a chegarem constantemente para comunicar-lhe novas de desgraça faz lembrar, no horizonte de expectativas, aquele Édipo, ainda rei de Tebas que, quanto mais avança no sentido de conhecer as causas da desgraça da polis, mais se aproxima da sua própria condenação, já que ele é a própria causa da ira dos deuses. Os corvos, que revoam por toda a narrativa, surgem então como o terrível presságio de uma desgraça iminente, assim como, para um Prometeu acorrentado, serviam de castigo e fustigação a comerem-lhe o fígado. Ao contrário de Prometeu, no entanto, GatsiRucere não levou fogo à humanidade e, ao contrário de Édipo, não livrou a polis da ameaça da esfinge. GatsiRucere é tão somente um anti-chefe parasitário, que assume um poder sem poder e é incapaz de qualquer grande feito.

Saltando para o século XXI, aqueles corvos são hoje companhias constantes de qualquer transeunte pelas ruas de acácias. Esses corvos, crocitando na narrativa, fazem constantemente com que o romance se desprenda daquele passado remoto e nos traga de volta para um Moçambique atual. Surgem questionamentos, então. Por que convém ainda falar de anti-chefes parasitários causadores da desgraça do reino? Por que faz sentido que, no presente, falemos de chefes tirânicos capazes de escravizar uma população inteira ao seu domínio para que continuem no poder?

É aqui que se fecha o arco da crítica. Existem duas formas de que a literatura se relacione com a história: uma forma é tomar a disciplina história como um tema para a narrativa e a outra é destacar, criticamente, a historicidade da literatura. O romance de Furdela toma a história como tema para sua narrativa: Mwenemutapa. Pronto, essa é a primeira forma. Agora, pensemos na historicidade do romance de Furdela: ao chamar a atenção para formas despóticas, parasitárias e autoritárias de se desempenhar o poder, Saga d’ Ouro acaba se filiando a uma tradição da literatura moçambicana que reflete, desde sempre, sobre as mesmas formas despóticas, parasitárias e autoritárias de se desempenhar o poder político – ora, aqui já não falamos mais do passado, falamos mesmo do presente, não falamos mais do Mwenemutapa, falamos mesmo da República de Moçambique, 2019.

Atenção: a segunda forma de relacionar a literatura à história não depende do autor, mas do ato crítico. Pena não poder contar como acaba essa história. O arguto leitor gargalharia mais uma vez.

Hi itatlela wonana, vamakhweru! Khanimambo nikensile!

 

São Paulo, 21 de abril de 2018.

 

Agradeço ao grandioso professor Elídio Nhamona o Serrano e a constante interlocução sobre este assunto. Nyi bongile, mwama!

 

*(Texto introdutório da conversa sobre autores brasileiros no Centro Cultural Brasil – Moçambique, 19/09/19)

 

Carlos Nejar é um dos poetas brasileiros que marcou de alguma maneira a minha vida de leitor, ou mais precisamente, de consumidor inveterado de poesia. Tenho em mim dois personagens literários: um leitor e um poeta. Eis-me aqui portanto na pele de um simples leitor.

 

O meu primeiro encontro com o poeta Carlos Nejar foi nos finais dos anos 80 do século XX, numa livraria algures, em Lisboa, por via de um livro que me caíra às mãos, assim ao acaso, retirado de uma das prateleiras dedicadas à literatura brasileira. Era uma antologia poética intitulada “Obra poética (1), 1980, Nova Fronteira  – que incluía alguns dos livros do autor até aí publicados -. Daí em diante fui descobrindo mais trabalhos deste autor incluindo ensaios e ficção.

 

Mas o que me marcou realmente neste poeta foi a forma como os seus versos vibravam em mim. Por exigência minha, não são muitos os poetas capazes de criar um efeito destes no leitor que sou. Eu tenho o hábito de, à primeira, ler um livro de poesia folheando-o de forma aleatória e, neste caso, à medida que o ia lendo, fragmentos de versos ficavam reverberando em mim como uma música ao sabor da brisa crepuscular daqueles dias semi-áridos. Por muito tempo esses versos ficaram-me, por assim dizer, encravados na memória pela sua doçura, simplicidade, profundidade e, em alguns casos, pela sua densidade e espontaneidade. Repare-se neste poema:

 

A IDADE

 

Falou e disse um pássaro

dois sóis, uma pequena estrela.

Falou para que calássemos

e disse disse disse

a idade da eternidade.

 

Nessa altura eu já conhecia a maioria dos poetas emblemáticos do espaço da língua portuguesa, verdadeiros monstros da arte do bordado das palavras; falo dos “outsiders” do mundo africano, designadamente, portugueses e brasileiros, entre os quais Sophia de Mello Andersen, António Osório, Eugénio de Andrade, Carlos Drumond de Andrade, Vinicius de Morais, entre outros. Portanto, a descoberta do poeta Carlos Nejar foi uma espécie de dádiva para mim, ao constatar que estava perante uma das vozes mais esclarecidas da poesia em língua portuguesa.

 

E quando é que um determinado texto marca um leitor? Eu próprio tenho dito, em jeito de resposta, que é quando o mesmo está incompleto nos seus contornos absolutos, mas paradoxalmente perfeito na sua arquitetura relativa. Sim, é quando induz o leitor à necessidade de sua continuidade, complementaridade, acabamento, de acordo com os preceitos e necessidades interiores do próprio leitor. É o mesmo que acontece comigo quando leio algo que me marca, como um bom poema, um bom conto, um bom romance, em suma, um bom texto literário.

 

CÂNTICO

 

Limarás tua esperança

até que a mó se desgaste;

mesmo sem mó, limarás

contra a sorte e o desespero.

 

Até que tudo te seja

mais doloroso e profundo.

Limarás sem mãos ou braços,

com o coração resoluto.

 

Conhecerás a esperança,

após a morte de tudo.

 

 

É gratificante quando na nossa caminhada pela vida cruzamos com poetas da estirpe de Carlos Nejar, por intermédio dos seus escritos poéticos, quanto a mim, emblemáticos, porque vibrantes na sua tessitura e no seu conteúdo. Nejar tem uma forma peculiar de estar na poesia que ultrapassa os limites da própria contenção da palavra, consubstanciada na escolha do vocábulo certo no momento e contextos próprios. É justamente nas escolhas que ele faz que se revela como testemunho fiel da sua vida, em todas as suas contingências e magnificências. Desde as metáforas ou imagens, passando pelos vocábulos, até mesmo na rigorosa cadenciação dos versos, acabam emprestando à sua poesia aquela configuração musical que lhe é característica. Na poesia o verso deve ser, em rigor, “… denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si” diria Sophia de Mello Andersen.

 

Os escritos poéticos de Carlos Nejar são grosso modo intemporais como, aliás, toda boa poesia, o que significa que a experiência da vida e do tempo vivido criou nele a consciência de si próprio ante as contradições e contrariedades existenciais que, por sinal, são universais. A poesia em geral contesta o axioma da reprodução afunilada ou do olhar passivo perante o mundo pois, na essência, ela é simultaneamente questionamento e explicação da realidade consentida. A missão do poeta é, em última análise, a de propor novos territórios igualmente possíveis de serem habitados pela humanidade. Assim, a poesia é também resultado das contradições internas tanto do sujeito poético quanto do mundo em que este está enclausurado.

 

Deixo aqui um outro poema intitulado “Inscrição”:

 

Aqui estou,

aberto o pórtico.

Serei breve no amor e no transporte.

O óbolo está pago, o dia resgatado

E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.

 

Aos deuses não ouso nada,

nem compro,

senão o intervalo

de meu próprio espanto.

 

Carregai-me, barca

E ainda canto.

 

A questão que me foi colocada como pretexto para este reencontro foi se, eventualmente, havia algum poeta brasileiro que me tivesse marcado de alguma maneira. Como poeta, e depois do que falei antes sobre a poesia de Carlos Nejar, a resposta a essa pergunta certamente que só pode estar com os meus leitores. Nisso eu não queria interferir pois, como fazedor de versos, a minha missão começa e termina na criação. Todo escritor, pelo menos daquilo que eu saiba, é sempre um mau leitor de si próprio. Contudo, penso eu que, qualquer que seja um texto literário, neste caso, da lavra dum poeta, inegavelmente haverá nele marcas da sua vivência literária e social.

 

“A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer actualizar o melhor de uma pessoa. Que livro melhor há que o livro da humanidade?”

Mahatma Gandhi

 

Do latim educatio*, a educação entende-se como transmissão e aprendizado de técnicas culturais para a formação e amadurecimento do homem. Era suposto que este fosse um fim imprescindível de qualquer escola – a busca do aperfeiçoamento das faculdades humanas. Ou seja, antes de a escola focar-se em formar os indivíduos para o trabalho com fim de desenvolver a economia do país, era míster que se focasse na formação dos indivíduos para o seu desenvolvimento intrapessoal e interpessoal. Não se trata de uma preferência subjectiva do autor, mas de uma necessidade de subordinação entre os dois objectivos. Isto porque a sustentabilidade do trabalho e da economia depende fundamentalmente de uma educação para valores humanos. E a relação entre os dois objectivos não deve ser recíproca, mas sim unilateral. A falta de uma educação para valores humanos configura-se como um buraco negro que ao longo do tempo vai consumindo todas as realizações vindas de uma educação para desenvolvimento económico.

Suponhamos uma sociedade formada só para o trabalho, mas desprovida de um conhecimento que a ajude a manter uma convivência intrapessoal e interpessoal sã e pacífica. Por quanto tempo se pode esperar que esta mesma sociedade se sustente, antes de cair em crises de relacionamento? Poder-se-ia dar o caso de uma nação ser rica em infraestruturas, tecnologia e recursos minerais, mas, ao mesmo tempo, miserável e fragmentada na sua forma de conviver e cooperar. É muito mais provável que esta nação seja infestada de desigualdade, corrupção, crime, exploração, ódio e conflitos, pois não há nenhuma sociedade que prevaleça sã e tranquila, quando os valores humanos são preteridos pelos ganhos materiais. Tarde ou cedo, a falta de uma educação para o bem-viver transforma-se num buraco negro que vai devorando todo o desenvolvimento económico proporcionado pela educação para o trabalho.

Ao contrário, o mesmo não se verifica. Ou seja, a ausência de uma educação para o trabalho não se traduz na degeneração dos frutos duma educação para vida. Se um adulto assimilou ao longo da vida o conhecimento que o permite discernir o bem e o mal, ainda que se veja desprovido de condições materiais, jamais o seu bom carácter vai aconselha-lo a cometer crime para suprir a necessidade. Se o fizer, não será por outra razão senão pela fraqueza do carácter, pois quando se é bem-educado, o mal não faz parte das nossas escolhas. A educação para valores humanos configura-se como um compromisso com o bem, independentemente das desfavoráveis circunstâncias em que o indivíduo se encontra. Se bem que é nas desfavoráveis circunstâncias que mais se destaca o brilho de um carácter inabalável. O dito popular “a ocasião faz ladrão” é deveras verosímil, pois o homem é que é o princípio das suas acções, sendo por isso responsabilizado por elas. Se ele se permite que a ocasião que lhe é algo externo transforme-o num outro ser diferente do que é, não é mais por outra coisa senão pela fraqueza do espírito ou falta do compromisso com o bem. Não basta aprender o que é o bem, é preciso assumir a virtude. Caso contrário, toda a aprendizagem mostrar-se-á vã.

Nesta ordem de ideias, o pensamento socrático de que a ignorância é a fonte do mal mostra-se um despacho exacerbado sobre a ética, por não dar explicitamente a entender que não basta conhecer o bem, é preciso assumi-lo. Há gente iluminada sobre o bem e o mal, mas decide praticar o mal sempre que lhe ocorre vantagem pessoal, simplesmente por não ter feito nenhum compromisso com o bem durante a aprendizagem.

Todavia, a conjugação dos dois tipos de educação favorece para um pleno desenvolvimento humano. Tanto o trabalho como os bons modos de viver são imprescindíveis para evolução do homem no mundo, ainda que em medidas desiguais. Entretanto, o maior problema da educação contemporânea que se verifica em vários países do mundo, incluindo Moçambique, é o facto de não estar focada nem para o trabalho nem para valores humanos, pelo menos no I e IIO ciclos de ensino.

Ora vejamos. De primeira à 12a classe, os alunos aprendem Matemática em seus diversos cálculos, porém, terminam o IIO ciclo sem habilidades que lhes permitam uma boa gestão das suas próprias finanças. Sabem contar e calcular, mas mesmo assim, lhes falta a educação financeira. Na Língua Portuguesa, é-lhes ensinada a gramática, leitura e escrita, porém, não adquirem o essencial da língua que é o poder de comunicação. A Biologia que é uma ciência sobre funcionamento do organismo dos seres vivos, da forma como é dada, pouco fala do que bom e do que é mal para conservação da própria vida. A Física e Química também se juntam ao conhecimento sem proveito urgente para a auto-ajuda diária. Afigura-se-me que não haja habilidades que se possam adquirir dessas disciplinas para resolução de coisas práticas do dia-a-dia. O conhecimento das leis dessas ciências só se torna mais valioso para os alunos que queiram ser investigadores.

Não vejo em que circunstâncias do seu dia-a-dia, o aluno comum pode aplicar o conhecimento da formação das células ou funcionamento da genética. De que modo, o aluno pode tornar práticos para sua vida quotidiana os cálculos de algébrica, dos limites, dos logaritmos e da trigonometria? Para que momento da sua vida, o aluno precisa saber das reacções químicas e acerto das equações, se tampouco quer ser um químico? Quando é que um adolescente precisou de usar a fórmula de resistência, gravidade e tensão para livrar-se de um problema diário? Longe de eu soar a um imediatista, procuro compreender a urgência e a imprescindibilidade do conhecimento que nos têm passado ao longo dos 12 anos de ensino. Se calhar fosse primordial que os professores indicasse o fim prático de cada tema das suas aulas, antes de discorrer em teorias fantasmagóricas.

O que se ensina nas nossas escolas primárias e secundárias não é uma educação para o trabalho, muito menos, uma educação para vida, mas sim uma educação (defeituosa) para ser um cientista. É uma educação defeituosa, na medida em que as aulas são expositivo-explicativas e há falta de instrumentos laboratoriais para que o conhecimento ensinado seja transformado num poder prático. Não se pode esperar que um aluno consiga acertar uma equação química na prática, quando só aprendeu a fazê-lo em papel.

A apologia que faço é que se deveria remover estas disciplinas desprovidas de urgência prática das salas de aulas para estantes da biblioteca. E aquele que lhe vier a curiosidade sobre reacções químicas, funcionamento da genética, ondas magnéticas, gráficos exponenciais ou classificação das palavras, ao menos, terá um espaço de esclarecimento na biblioteca. Findo o segundo ciclo de ensino, estas disciplinas podem ser resgatadas no ensino superior – nível em que se espera que os estudantes, para além de aprimorar competências da vida e do trabalho, adquiram competências de investigação e produção do conhecimento.

As disciplinas que se me afiguram urgentes e imprescindíveis para uma sociedade que se queira construir dia-pós-dia por meio do conhecimento – mas que permanecem ignoradas – são a educação financeira, a educação alimentar ou nutrição, a inteligência emocional, os primeiros socorros, a informática, a educação ambiental ou reciclagem, a retórica, a aritmética, a gramática e as artes (música, dança, teatro, poesia, literatura, pintura, desenho, escultura, etc). Nas artes, julgo que cada modalidade deveria ser ensinada em função da vocação de cada aprendiz. A estas disciplinas supracitadas, dever-se-iam juntar as já existentes como a Filosofia pela construção de uma consciência crítica; a Ginástica pelo bem-estar físico; as línguas por uma melhor interação com o mundo; a História em busca das lições do passado comum; a Geografia pela nossa própria localização no mundo e o Empreendedorismo que nos estimule a criar ideias e planos de negócio. Seria uma tarefa tautológica se quisesse explicar a importância de cada disciplina que sugiro a sua introdução para resolução de problemas do nosso dia-a-dia. São disciplinas educativas por excelência e que, quando bem aprendidas, geram riqueza espírito-material e preparam as pessoas para viver o presente de maneira segura e responsável.

Ao invés de despender-se o tempo em aprendizagem de fórmulas matemáticas, físicas, químicas ou estudo minucioso da formação dos léxicos, da composição dos seres vertebrados e invertebrados – conhecimento importante, mas não urgente para múltiplas exigências diárias dos alunos – dever-se-ia apostar, primeiro, em conhecimento para o bem-estar físico, psicológico e social bem como em habilidades para o trabalho. Dever-se-ia sempre dar primazia ao conhecimento que proporcione saúde biopsicossocial dos indivíduos, pois, repito, a sua falta configura-se um buraco negro que ameaça devorar tudo quanto foi conquistado pela obra de ensino-aprendizagem.

*ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 1ª ed. Martins Fontes. São Paulo, 1998.

E-mail: tsembah@gmail.com

As visitas do Dr. Valdez integra-se em um projeto literário que se apresenta, hoje, como um dos mais desafiadores dos contextos de língua portuguesa. Desde 2003, ano de sua estreia como ficcionista, com As duas sombras do rio, João Paulo Borges Coelho publicou sete romances, dois volumes de contos e três novelas. A este registro vertiginoso, que não dispensa o rigor e a experimentação estética, juntam-se três livros de histórias em quadrinhos, lançados em Maputo no início dos anos 80, e algumas narrativas curtas espalhadas em edições de natureza diversa. Embora também seja um reconhecido historiador, João Paulo Borges Coelho evita em seu trabalho artístico o caminho da restituição didática do passado. Apoiado em estratégias como a metonímia, a metáfora ou a alegoria, frequentemente mediadas pelos recursos do humor e da ironia, o jogo que propõe aponta antes para as trocas simbólicas entre o “pequeno” (cotidiano) e o “grande” (história). Virtuoso, o primeiro abre fendas no solo rígido do segundo.

Ambientado na Ilha do Ibo e na cidade da Beira, em um tempo complexo que se situa entre o já agônico colonialismo português e a eufórica independência moçambicana, As visitas do Dr. Valdez coloca em cena a experiência do interstício. A narrativa gira em torno do empregado doméstico Vicente e de suas patroas, as velhas mestiças Sá Amélia e Sá Caetana. Preocupada com os delírios da primeira, que reclamava das ausências do Dr. Valdez, entretanto já morto pelo excesso de manteiga ingerido em vida, Sá Caetana propõe um jogo a Vicente: resgatar o médico das cinzas. Assim, nos domingos de folga, Vicente disfarça-se de senhor doutor branco, em uma tripla transformação que visa devolver alguma alegria à Sá Amélia. Mas não só.

Com o disfarce do velho colono, elaborado na escuridão solitária e precária de seu quarto, o jovem empregado encontra uma criativa maneira de confrontar Sá Caetana e todo o imaginário por ela representado. Por trás da máscara, Vicente aciona um discurso estrategicamente ambíguo e passa a atuar em um dos campos que mais aflige os poderes autoritários: o da imaginação reivindicativa. A imitação que faz do Dr. Valdez, na cara e na casa da autoridade, desestabiliza a velha ordem colonial ancorada nas premissas da superioridade racial e científica e, como tal, no privilégio que decorre da primazia e da lei. O jovem procura libertar-se, portanto, de uma vida de submissão que lhe parecia destinada e acompanhar a mudança que, a um nível mais abrangente, se vai anunciando em Moçambique. Contudo, recorda com frequência as palavras de seu pai: o velho Cosme Paulino exigia-lhe que desse continuidade a uma história de servidão, cuidando das senhoras como se de sua própria família se tratasse. A vinculação quase umbilical a dois mundos opostos acentua a ambiguidade das relações entre as personagens, que são convidadas a ocupar distintas posições durante a narrativa.

Realizadas em três domingos e estruturadas em torno de outros tantos núcleos de significado (gesto, voz e olhar), as visitas do Dr. Valdez asseguram ao empregado alguma margem para expressar seu descontentamento. O discurso de Vicente, na primeira visita, adquire uma capa predominantemente visual. A maneira como se disfarça e os pensamentos que elaboram seus gestos constituem uma eficaz afirmação pública de sua rebelião privada. Executando de maneira sagaz e irônica os gestos doutorais de Valdez, avança por fronteiras até então intransponíveis: senta-se pela primeira vez no sofá, aceita o chá servido pela patroa, toma a iniciativa de observar da janela o quintal e espanta-se com o espaço miserável que é reservado aos criados… Enfim, graças ao novo lugar que lhe cabe no cenário, vê o mundo de um ângulo inédito. E se faz ouvir, mesmo quando silencia. Em contextos onde o estatuto impera, a autoridade não necessita de muitas palavras para se fazer valer. O discurso verbal da dupla Vicente/Valdez progride do comedimento, na primeira visita, para o confronto aberto, na segunda. Programada nos bastidores, depois de um inusitado encontro entre o criador Vicente e a criatura Dr. Valdez, a terceira visita sintetizará as duas anteriores, além de trazer o complemento fundamental da máscara-elmo, peça tradicional da arte maconde que se sobrepõe a do Dr. Valdez. Em dificuldade por ter que se dirigir a quem não vê totalmente, Sá Caetana perde um dos seus principais pontos de apoio: o desigual duelo de olhares.

Assim, após a performance física da primeira visita (que conforma ironicamente a imagem do colono) e da reivindicação retórica da segunda (que confirma a indignação do colonizado, mas o expõe a um risco), a terceira visita será marcada pelo impacto do olhar e de seus desdobramentos. Qualquer desses encontros terá contornos e resultados imprevisíveis, que não nos cabe aqui esmiuçar. Mas não resistimos a uma especulação: a representação de Vicente talvez nos queira dizer, entre outras coisas, que a arte é menos transformadora no momento em que explicita a raiva do que quando, sem renunciar ao compromisso político, faz a adequada mediação das estratégias que lhe são específicas (o gesto, a voz, o olhar e a necessidade de se colocar no lugar do outro). João Paulo Borges Coelho, por seu turno, parece querer complementar com uma pergunta: até quando serão necessárias as máscaras?

Cada uma dessas visitas, por outro lado, nasce de contextos específicos dentro dos quais a memória – imediata, remota, inventada – desempenha uma função relevante. Os jogos de espelhos internos à própria estrutura narrativa, que nos reenviam ao universo íntimo das personagens, complementam e orientam o sentido da teatralização. Compondo os bastidores – ou a pré-história – da encenação, o olhar retrospectivo do narrador e das personagens afigura-se como chave de leitura para as três visitas do Dr. Valdez. No que se refere a Vicente, as memórias remontam, por exemplo, ao tempo da infância, quando presenciou a humilhação pública de que foi alvo seu pai às mãos do patrão Araújo, em um dos episódios mais violentos já relatados na ficção moçambicana; indicam ainda o presente das saídas noturnas, tensão e excessos partilhados com seus amigos Jeremias e Sabonete, que também são empregados domésticos; finalmente, projetam o futuro enganador, metaforizado nas luzes de neón da Boite Primavera e na dança sinuosa de Maria Camba. As figuras do pugilista Ganda, herói nos ringues e engraxate fora deles, e do estranho dançarino que com sua arte recupera a complementaridade perdida do mundo, funcionam também como ativos lugares de memória para o empregado.

A compulsão memorial que atravessa a narrativa e a escrita de João Paulo Borges Coelho, conferindo-lhe unidade, está subordinada a uma resposta artística às formas de produção do esquecimento, especialmente aquelas que são elaboradas pelo discurso político. Este tipo de discurso possui uma natureza programática que choca com o espaço da intimidade (dos rumores e dos desejos, dos ódios e dos segredos, das ambivalências e das confluências) onde sua literatura se alimenta. Em suas obras, aliás, qualquer tipo de mergulho no passado é orientado por um presente repleto de complexidades. E vice-versa. Ao autor, por isso, interessa menos enquadrar a lembrança em um registro fixo de verdade do que ligá-la a um campo aberto de interrogações e interpelações.

Ao eleger caminhos que favorecem a sobreposição de tempos e memórias, a pluralização da geografia literária, a densidade existencial de heróis e personagens secundárias, a diversificação de posturas do narrador e a desestabilização de doxas por via de uma pesquisa estética sobre o paradoxo, João Paulo Borges Coelho consolida o romance moçambicano e constrói um novo lugar no campo literário.

Celebremos, pois, sua primeira visita ao leitor brasileiro.

Rio de Janeiro, 20 de Julho de 2019.
Actualizado pelo autor em 01 de Outubro de 2019.

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Este texto foi escrito com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ (Programa Jovem Cientista do Nosso Estado, processo nº E-26/203.025/2018) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Nível 2, processo nº 307217/2018-3).

*Texto publicado pela Kapulana a propósito do lançamento de As visitas do Dr. Valdez, no Brasil. Aqui mantivemos a ortografia usada naquele país.

 

 

Contextualização

Ualalapi, título da obra e nome de uma personagem que recebe a missão de matar o rei hosi (rei, imperador, em língua tsonga) Mafename, a mando do seu próprio irmão Ngungunhane-Gungunhana que se torna, assim, o imperador de Gaza. Este imperador é famoso pela resistência que opôs aos portugueses nos finais do séc. XIX. Eleito um dos 100 melhores romances africanos do século XX, em Ualalapi Ungulani Ba Ka Khosa conta a história de Ngungunhane, da sua ascensão até a sua queda. (Kapulana)

Esta obra foi publicada pela primeira vez em 1987 e até hoje ecoa com uma profusão indescritível e imbatível no seio da rica literatura moçambicana. Ler Ualalapi é sempre um exercício de auto-deleite, de aprendizagem e de envolvência numa máquina do tempo que nos faz devorar página por página, espremendo as folhas movidos por um enlevo surreal. Actualmente é quase como um crime desconhecer Ualalapi, desconhecer a hipercorrecção e a forma como Ungulani torneia e esgota a descrição do espaço físico, social e psicológico, dando-nos uma imagem bem pincelada e sonora do que se trata na diegese.

 

O livro Apocalipse da Bíblia e Ualalapi à luz de “O Último Discurso de Ngungunhane”: Que intercessão?

Passados 32 anos, o que dizer de Ualalapi? Para uns uma obra literária e para outros didáctica, mas afinal de contas que obra literária não contém no seu ventre um pendor didáctico? Há sempre um didactismo por detrás de qualquer criação literária seja ficcional ou não. Refira-se que a análise feita tem em conta apenas “Ualalapi”, isto é, exclui-se “As Mulheres do Imperador”.

Associamos o livro Apocalipse da Bíblia à obra Ualalapi, mais particularmente a “O último discurso de Ngungunhane”. O nome do livro bíblico de Apocalipse vem de uma palavra grega que significa “Exposição” ou “Revelação”, como aparece em algumas traduções. O próprio nome já indica qual é o conteúdo do livro de Apocalipse: ele expõe assuntos que estavam ocultos e revela eventos que aconteceriam muito tempo depois de terem sido escritos. Lancemos, então, um especial olhar ao discurso que o imperador de Gaza fez na iminência do seu exílio no qual:

“(…)gritou como nunca, silenciando aves e o vento galerno, petrificando os homens e as mulheres com as palavras que saíam em catadupa e que percorreram, em outras bocas, gerações e gerações em noites de vigília e insónias (…)” (KHOSA, 2017:73)

Encontramos nesta asserção as primeiras impressões que ligam o Apocalipse, a Revelação e a premonição à obra em alusão. Há um sinal temporal que demonstra que o que estava prestes a acontecer inspirou habitantes futuros, ou seja, palavras que romperiam a barreira do tempo e ganhariam vida própria. De seguida, Ngungunhane iniciou o seu discurso, a nosso ver premunitivo, que foi dito com total disforia ao seu povo, em gesto de despedida:

“(…) Mas ficai sabendo, seus cães, que o vento trará das profundezas dos séculos o odor dos vossos crimes e viverão a vossa curta vida tentando afastar as imagens infaustas dos males dos vossos pais, avós, pais dos vossos avós e outra gente da vossa estirpe. Começareis a odiar os vossos vizinhos, increpando-os pelos males que padecerão nas palhotas sem idade (…)” (ibid:74)

O imperador dirige-se ao seu povo, agora metaforizado e vocativizado sem qualquer ensejo e chamando-o “cão”, vomitando aquele que é o seu apocalipse para o Império de Gaza, particularmente, e para Moçambique em geral.

“(…)Os nomes que vêm dos vossos antepassados esquecidos morrerão por todo o sempre, porque dar-vos-ão os nomes que bem lhes aprouver, chamando-vos m***a e vocês agradecendo(…)”(ibid:75)

Vaticina-se uma vivência bastante conturbada, a perda da autenticidade telúrica, do nacionalismo, ou seja, trata-se de uma premonição antiutópica ou se preferirmos, distópica. Não é segredo para ninguém que, por exemplo, haja actualmente maior preferência pela atribuição de nomes inspirados em modelos ocidentais e muito distantes do que é nativo-africano no seio das sociedades “globalizadas”.

“(…) E pela primeira vez na vossa vida vereis filhos rejeitando as mães que se atirarão às casas onde o corpo se venderá ao preço do pão, fornicando com as crias que desconhecem e apontando ao acaso os presumíveis pais da caterva de miúdos que nascem às dezenas(…)” (ibid:76)

Para terminar, Ngungunhane declara:

“Todos ou quase todos aceitarão o novo pastor, mas pela noite adentro muitos irão curandeiro e pedirão a raiz contra as balas do inimigo (…) seus cães, a maldição que abraçou estas terras perdurará por séculos e séculos (…) rebentarão as barrigas grávidas de mulheres inocentes, obrigando os pais a comer os nados-mortos sem uma lágrima nos olhos (…) Eis o que será a vossa desgraça de séculos, homens. (…)” (ibid: 79-80)

 

Conclusões

Consideramos que a escrita de “O último discurso de Ngungunhane” é apocalíptico, na medida em que este constitui um vaticínio, ou seja, uma revelação carregada de distopia. Se considerarmos, embora haja várias interpretações, que o Apocalipse faz revelações sobre o futuro do mundo, Ualalapi, particularmente no último capítulo, faz revelações do que aconteceria de 1987 em diante.

Podíamos ser um pouco mais atrevidos e constatar que esta escrita relacionada à Bíblia está ligada também  ao autor, Ungulani Ba Ka Khosa, veja-se: Apocalipse é o último livro da Bíblia assim como “O último discurso de Ngungunhane” o é em “Ualalapi”; De igual maneira, em “Orgia dos loucos”, do mesmo autor, o último conto tem um título que indica uma revelação/premonição: “Fábula do futuro”, por conseguinte a escrita de Khosa em Ualalapi está formal e ideologicamente, de alguma forma, relacionada ao livro “Apocalipse”, da Bíblia.

 

Bibliografia

Corpus

KHOSA, Ungulani Ba Ka. Gungunhana. Lisboa, Porto Editora, 2017.

 

 

Não me recordo de um discurso em que algum político local tenha dado ênfase tão enquadrado ao nosso desporto, como factor motivador na sociedade, como aquele que ouvi do Papa Francisco. E os exemplos para insuficiências-chave apontadas como inibidoras de sucessos ao nosso alcance, serviram-nos como uma luva. A referência ao lado pouco valorizado dos sucessos de Maria Mutola – perseverança e não desfalecimento – deveriam passar a ser matéria de aprofundamento e estudo entre nós.
Afinal, parece que o Papa sabe de nós, mais do que nós próprios…
Passo a citá-lo:
– Maria Mutola aprendeu a perseverar, apesar de perder a medalha de ouro nos três primeiros Jogos Olímpicos que disputou. O tão sonhado título dourado veio à quarta tentativa, quando a atleta dos 800 metros venceu nas Olimpíadas de Sidney.

E eu recordo, para substanciar, uma citação de Mia Couto:
– Lurdes Mutola, nas suas actuações ao mais alto nível, nunca pediu às adversárias para partir um pouco à frente, por ser oriunda de um país do Terceiro Mundo!

 

FILÃO NA PERIFERIA

Ao Presidente Samora Machel, preocupava-lhe a necessidade da prática desportiva porque “onde entra o desporto, sai a doença”. Essa é uma componente basilar, que deveria obrigar a uma relação muito mais próxima entre os ministérios que superintendem o desporto e a saúde. Questiona-se: quanto dinheiro, e não só, se poderia poupar na saúde, se o “preventivo” desporto, sobretudo nas crianças, fosse utilizado de uma forma sistemática e controlada?

Porém, nos dias que correm, as diferenças entre os países que apostam no desporto e os que o mantêm na periferia, como é o nosso caso, reflectem-se de várias formas, que vão desde o prestígio, vantagens imediatas no turismo, até aos volumosos encaixes financeiros.

Permitam-me comparações:
Tivemos ciclones a assolar o país, nas zonas Centro e Norte. A título de empréstimo concessional, o Banco Mundial concedeu-nos 100 milhões de dólares, a serem pagos em DEZ anos, com uma taxa de juro bonificada. Entretanto de Portugal, chegava-nos a notícia de que o “passe' de um jovem futebolista do Benfica, João Félix, de 19 anos, custou, nada mais e nada menos do que 120 milhões de euros! E não estamos a falar de Ronaldo, Messi ou do nosso falecido compatriota Eusébio!

 

DESPORTO: PORQUE NÃO PRIORIDADE NACIONAL?

Os programas de aposta na agricultura e turismo, são e serão sempre válidos. Até porque temos terra arável, praias lindas e um povo hospitaleiro.

Mas… no desporto? Tivemos e temos talento (re)conhecido e vocacionado. Faltam programas sérios e modernos neste sector actualmente na periferia, apontados para um negócio altamente rentável, envolvendo clubes e empresários. O beneficiário último será o país.

Mas entre nós, reina muita descrença, com corrupção à mistura. Há falta de crer e querer, na maior parte da sociedade. E isso não pára à porta do desporto, que deveria ser uma lanterna a iluminar o caminho. Dói, ouvir as lideranças da actividade desportiva, a “darem de bandeja” a priorização a outros sectores como Educação e Saúde. Será que o desporto não é Educação e nem Saúde?  

Se temos como história real deste país, o “fabrico” de estrelas mundiais como Eusébio, Coluna e Matateu, (e estes são apenas os emblemáticos), porque não apostar forte e de forma enquadrada, para que não nos sintamos felizes e acomodados em lugares 160 e tal no ranking FIFA?

Perdoem-me, compatriotas, mas quando uma vitória sobre as Maurícias ou a Suazilândia, nos coloca num estado de alma que dá a impressão de que conquistámos o Campeonato Africano, fica clara a assunpção da nossa pequenez… Ao invés de ser um sector a render biliões ao Estado, o desporto tornou-se um encargo. Dá para entender?

Falta-nos, como disse o Papa Francisco, um maior sentido de perseverança e um querer que nos permita chegar a voos à altura da nossa história e das nossas já comprovadas capacidades!  

 

Já eram seis horas do dia 24 de agosto de 2019, e o Roberto já estava com os pés no chão e com sorrisos espalhados no seu rosto de tanta felicidade e ansiedade para viver e reviver o dia da verdade.

E quando já se encontra no seu quarto apreciando o seu fato de casamento no espelho, o seu tio bateu na porta e entrou para conversar.

— Roberto, tu tens a certeza de que não vais mesmo convidar o teu próprio pai para o teu casamento? Ainda tens tempo de o fazeres.
— Não! Aquele não é meu pai coisíssima nenhuma. É um grande feiticeiro. Não quero feiticeiros no meu casamento. Olha para a cara dele, é mesmo de um bruxo.

— Oh, meu sobrinho! Tu sabias que o teu pai anda triste e muito doente. Tu nunca vais lá visitar! E agora vais casar sem convidá-lo. Porque é tão duro este teu coração?

— Tio sabe muito bem que por culpa deste feiticeiro perdi vários empregos e as minhas relações conjugais nunca deram certo. A minha vida está muito bem longe dele. Deixe-me paz! Por favor!
Ao perceber que o seu sobrinho já estava ficando chateado com aquele assunto, Cardoso abriu a sua pasta e entregou-lhe um envelope.

— Toma! É um presente enviado por Deus. Se não leres esta carta antes do casamento, arrepender-te-ás para o resto da vida.

E quando o tio Cardoso saiu do quarto, Roberto sentou-se na cama, mesmo sem vontade de ler aquela carta, fez a questão de abri-la para matar a curiosidade e pôs-se a ler de imediato.

“Querido filho, sei que hoje é o dia mais importante da tua vida, o dia do seu casamento. Queria tanto poder estar do seu lado para lhe dar um abraço e dizer que te amo tanto, mas infelizmente não fui convidado para o teu casamento.

Filho, lembra-te das vezes que eu acordava de madrugada para ir à aquela casinha que desconfiavas de que era lá onde produzia as minhas bruxarias contra si? Era lá onde permanecia todas as madrugadas de joelhos e com fome pedindo a Deus para que nunca te faltasse nada na vida.

Betinho, das vezes sem conta que não eu comia e somente olhava para ti na mesa com os meus cheios de lágrimas, naqueles momentos de muita dor, queria apenas poupar a nossa comida para que nenhum dia faltasse alimentação em casa, e não tinha nenhum medicamento de azar tal como dizes às pessoas

Este rosto que dizes e julgas ser assustador e que tanto tens vergonha de olhar e tocar, ficou desfigurado quando tentava salvar-te num incêndio que tu mesmo provocaste na cozinha quando brincavas com fogo e próximo de uma botija de gás.

Saibas que o emprego que hoje tens e que ganhas muito dinheiro, não te chamaram por sorte ou porque um amigo ajudou-te com a vaga.

Acredites que fui implorar e chorar todos os dias para o dono daquela empresa para poder admitir-te, e jurei-lhes que eras um jovem competente, humilde e honesto e que só precisavas de uma oportunidade para mostrar a tua valência.

Meu filho, não cases com esta mulher, pois ela é filha da minha irmã, aquela é a tua prima que tanto procurávamos quando sumiu nas cheias de 2000, na província de Gaza quando ainda tinha cinco anos. Queria te dizer que achámos e que estava a namorar contigo, mas tu nunca atendeste as minhas chamadas e muito menos respondeste as minhas mensagens.

Para terminar, neste envelope tem um documento de autorização de uso e aproveitamento de terra, tem um terreno grande na cidade da Matola em teu nome e podes construir a tua própria casa.

Ham! Já me ia esquecendo, faz muito tempo que te procuro, meu filho, para entregar-te o teu cartão do banco para levantares o dinheiro que fui depositando em toda a minha vida para que levantasses depois dos teus dezoito anos.”

Abraços do seu pai! Amo-te, filho!
Com lágrimas nos olhos, Roberto tirou os seus sapatos, desmontou aquela roupa de casamento e correu para ver o seu pai e pedir desculpas por todo mal. E quando lá chegou, o seu pai já tinha partido deste mundo. Olhou para si e disse chorando:

— O verdadeiro feiticeiro da minha vida são os meus pensamentos e as minhas atitudes que julgaram a cara do meu pai antes de conhecer bem as profundezas do seu coração; o verdadeiro feiticeiro é a minha boca que tanto chama de feiticeiro alguém que me colocou no mundo e que muito fez por mim.

 

Todos, graças às palavras, elevam-se como se tivessem asas.

Aristófanes

 

Minutos depois da cerimónia de lançamento de Asas da água, Armando Artur admitiu que Nelson Lineu é uma grande promessa como poeta. Nós, os que ouvimos tal afirmação, não nos surpreendemos, até porque Gilberto Matusse, um dos melhores professores de literatura, no prefácio daquele livro ainda recente, realçou as qualidades literárias do nosso autor. Nesse exercício, Matusse fez referência ao título de estreia de Lineu para melhor integrar o leitor na oficina do poeta.

Ora, se começarmos a ler a poesia de Nelson Lineu a partir de Cada um em mim (2014), de facto, podemos assumir que Asas da água é uma continuidade criativa de um autor que muito investe no peso da palavra para aglutinar significados. Essa continuidade observa-se quer do ponto de vista da individualização poética quer no da mancha gráfica. Nos dois livros, Lineu desafia-se a resumir toda uma viagem pelas suas dimensões existenciais muitas vezes em uma curta estrofe. Julgamos que esta opção foi bem oportuna no caso do seu primeiro livro, pois os sujeitos de enunciação de Cada um em mim são tão refinados que chegam a dizer realmente tudo sem se alongarem. Por isso mexem connosco, despertam-nos sensações, emoções e desejos numa construção contagiante: “aprendi a indicar/ ao vento onde me deve levar/ quando me dei conta/ que as palavras/ se plantam umas as outras (p. 13).

À semelhança de Cada um em mim, na versificação de Asas da água há um recurso à infância, à beleza dos pássaros, à vitalidade da água (do rio e do mar) e à vegetação. Nesse sentido a continuidade poética, se quisermos, criativa, é certa, afinal determinados registos apontam para os eventuais elementos importantes ao poeta na oficina da escrita.

Com efeito, embora Asas da água seja uma continuidade do que Lineu inicia no primeiro livro, como bem observa Gilberto Matusse, na nossa opinião é também uma descontinuidade no sentido qualitativo. Ou seja, nesta obra lançada pela nova editora moçambicana, TPC, este poeta, também já assumimos publicamente ser uma promessa, decresce em termos da combinação dos sentidos das palavras nos seus versos. Logo, muito dificilmente os sujeitos poéticos conseguem nos despertar a necessidade de celebrarmos continuamente os textos ou as circunstâncias aí convocadas. Parece-nos que faltou, em muitos caos, o cuidado na harmonização rítmica das palavras, daí, por exemplo, ser pouco encantador ler o poema 1 (p. 19) ou 6 (p. 24) de forma inteligível e numa sequência apropriada. O que define o ritmo nos textos de Asas da água? A certa altura esta é a questão a que não conseguimos dar resposta.

Não obstante, facilmente lê-se Asas da água no mesmo estado de espírito. O título do livro foi muito bem conseguido, todavia a beleza nele contido não vai muito traduzida nos versos porque, se calhar ao trabalhar a técnica, o nosso poeta esqueceu-se do mais importante: a comoção.

A existirem livros de pausa, parece-nos que este é um deles. Sinceramente, não notamos grande evolução deste poeta que já mostrou saber trabalhar o lirismo. Talvez Lineu tenha-se acomodado numa zona de conforto ao produzir este livro ou então, eventualmente, foi pequenos demais para alcançar a sua qualidade.

Em todo o caso, Asas da água é um exercício além da fronteira do que os olhos captam ou do que os sentidos pressentem num claro jogo polissémico sobre a subjectividade. Nisso, a criação da imagem e do movimento (da água, das folhas, das aves) são das situações principais.

 

Título: Asas da água

Autor: Nelson Lineu

Editora: TPC

Classificação: 11

Passaram-se três dias após a visita apostólica do Papa Francisco a Moçambique. As bandeirolas nas ruas de Maputo, a azáfama causada por crentes e curiosos que se colocaram nas ruas por onde passara o Sumo Pontífice e o ambiente de festa e segurança esfumavam-se. Naquela manhã de segunda-feira, a cidade recuperava a sua normalidade, para alegria dos que tinham achado aquilo tudo uma palhaçada com milhares de palhaços. Infelizmente a intolerância religiosa sempre será uma causa de conflitos.

O acto de comunicar requer muita paciência. A distância que separa o ouvir uma coisa e escutá-la assemelha-se à mesma que se precisa percorrer numa viagem entre a terra e a lua. Muitas vezes o som que dribla os canais visíveis e invisíveis da comunicação abandona a tua boca com toda tenacidade e atravessa os meus ouvidos, mas não alcança a minha mente. A mensagem dispersa-se ao longo da viagem e nunca chega a produzir os efeitos desejados. Ninguém é imune a este imbróglio, até o Papa.

Enquanto estacionava o carro na garagem do edifício do ministério onde trabalhava, o Indivíduo X não conseguia parar de tremer. Tudo tinha que ver com a discussão que se passava na sua cabeça. Milhares de vozes o assombravam. A garagem ficava no subterrâneo do edifício. Embora houvesse muitos carros naquele espaço, a escassa luz dava-lhe um ar sombrio.

De repente, o Indivíduo X ouviu uma bofetada estrondosa. Pisou no travão e o carro parou. Bateste a parede, disse-lhe uma das vozes. Ele cobriu a cara com as mãos como quem se recusava a ver a borrada que fizera. A borrada está feita, disse-lhe outra voz. Deixem-me em paz, gritou ele enquanto batia no volante do carro. Como se as vozes lhe tivessem escutado, tudo ficou em silêncio. Ele recuperou o controlo dos acontecimentos e disse para si mesmo enquanto passava a mão na cabeça calva, estás a ficar maluco broh!

O estrondo que há instantes visitara os ouvidos do Indivíduo X tinha vida própria, era muito diferente daquelas vozes que lhe coçavam a consciência com garras afiadas. O epicentro dele era palpável, por isso qualquer pessoa que ali estivesse também seria assaltado pelo mesmo som. E assim foi. O segurança que tinha sido escalado para guarnecer a garagem ouviu o som e se dirigiu imediatamente ao lugar onde se tinha dado o impacto.

O segurança, magro e alto, identificou o Range Rover que tinha batido a parede da garagem numa marcha de retaguarda.  «Boisse, está tudo bem?», perguntou o segurança enquanto se aproximava do carro.

No interior da viatura, o Indivíduo X continuava a esconder a cara com as mãos trémulas. O homem estava mesmo a passar por um mau bocado. Na cabeça tudo girava, não conseguia ouvir mais nada senão aquelas vozes que nem existiam. «Precisa de ajuda, boisse?», voltou a perguntar o segurança enquanto socava o vidro do carro.

Quando ouviu o vidro a ser socado por um jovem negro que trazia um uniforme azul e uma arma, o indivíduo X deu-se conta que tinha chamado a atenção do segurança e disfarçou o mal-estar. Ajustou a gravata, fechou o botão do casaco, puxou a chave com força, sacudiu-a e a guardou, pegou a pasta de mão e desceu do carro.  O Indivíduo X saiu do local do crime e disse ao segurança, sem lhe olhar a cara, «Bati a parede, nada de mais. Está tudo bem…».

O escritório do Indivíduo X ficava no segundo piso, mas preferiu ouvir uma das vozes que o incomodavam e foi ao terceiro piso resolver os pendentes com o Indivíduo Z. «Excelência, aquela bolada com os libaneses não vai acontecer», disparou ele logo que entrou na sala do chefe. «Podes me dizer a propósito de quê?». «Excelência, nós estávamos lá quando o Papa disse aquilo… Não vale a pena, Moçambique não merece isso…».

Uma bofetada de novo. Desta vez o Indivíduo X não está de pé na sala do chefe, mas deitado a suar sangue numa cama pequena na cela 33. Uma voz lhe acordava daquele sonho sofrido e perguntava «E se a homilia do Papa tivesse sido antes da bolada?».

 

 

O que há de mais sublime numa Olimpíada, é o reencontro da Humanidade consigo própria, através da forte arma que pode unir os povos: o desporto. Durante os Jogos Olímpicos, esquece-se o belicismo, reinando o espírito de paz e de concórdia. 

E a pergunta é: porquê só de quatro em quatro anos? Porque não o “contágio”, em permanência com o mundo, dos ideais olímpicos cada vez mais arredios das mentes, tanto de governantes como de governados? 

Em tempo de olimpíada, os participantes tornam-se embaixadores de afectos, divulgadores dos hábitos e bons costumes, através da transmissão da cultura local, da culinária, etc. O desporto, nessa ocasião, ri-se na cara dos preconceitos rácicos, da diferenciação entre países pobres e desenvolvidos, regimes de direita, centro ou extrema-esquerda, que tanto dividem a Humanidade. Homens e mulheres, sem complexos, esquecem-se dos horrores de um mundo em convulsão, trocando afectos ao invés de tiros. 

DESFILE DA RAÇA HUMANA

Lindo, muito lindo, é o desfile da raça humana, através da nata do desporto. E porque as modalidades, ao mais alto nível competitivo moldam os corpos, torna-se fácil identificar através do aspecto físico a modalidade por cada um praticada. 

Vestes formais e informais, que vão das saias com que os habitantes de Papua Nova Guiné e Tonga desfilam, aos trajes asiáticos e africanos multicolores… tudo é cor e alegria. E o que dizer dos penteados, da forma de andar, das preferências gastronómicas, dos abraços e beijos que nalguns casos acabam selando relações para toda a vida?

A cada Olimpíada, os organizadores esmeram-se no ineditismo quanto à originalidade. As cerimónias da abertura e do encerramento, nunca são iguais a cada nova realização. A beleza e originalidade, são elevadas ao mais alto nível, de tal forma que dificilmente quem pela primeira vez assiste ao vivo aqueles momentos, consegue “segurar” as lágrimas rebeldes nos seus olhos…

E é assim que os basquetebolistas desfilam do alto dos seus dois metros e picos, os nadadores distinguem-se pelo comprimento dos braços em cintura estreita, os ginastas pela graciosidade dos movimentos, os pugilistas pela cana do nariz maltratada, os halterofilistas pela largura dos pescoços e musculatura anormal…As modalidades de luta, são um símbolo paradigmático: sobe-se aos ringue, bate-se forte, mas no final vêm os abraços e, bastas vezes, a troca de contactos para novas pelejas. Com alguma graça se diz que a véspera dos Jogos Olímpicos se pode comparar a um casamento: primeiro flâmulas, flores e troca de lembranças. Os pontapés e os murros vêm depois…

DIAS DE SONHO

Na Vila Olímpica, os almoços, lanches, refrescos e águas minerais, são “mahala” (de graça). E se é verdade que a ocasião serve para partilhar refeições sem ter em conta o bolso de cada um, também é visível que para os atletas de países mais desfavorecidos o momento serve para “tirar a barriga de misérias”.

O momento de forma impõe regras, pelo que cada “garfada” de uma estrela, obedece ao controlo apertado do nutricionista. É a alta competição na sua expressão máxima, não sendo estranho que um latagão com 150 quilos tenha que comer apenas uma pequena salada num pratinho, quando a seu lado a um “lingrinhas” tenha sido recomendado que coma uma pilha de pratos variados, de forma a subir o peso para atacar a medalha da divisão acima a sua.

São 20 dias de sonho para alguns, num ambiente de “neón” diferente, em todos os aspectos, por poderem partilhar o mesmo espaço das estrelas que por vezes só vêem pela televisão.

Todo o espírito olímpico é produto de um trabalho e de um pacto entre os governos e os cidadãos, com alguns anos de antecedência. É um mês de envolvência não só dos actores principais, mas de todo o citadino, do polícia, ao taxeiro, empregado do hotel ao vendedor de pipocas. Todos “beberam” o espírito olímpico que os tornou mais gentis e corteses para com o visitante.

As Olimpíadas, com todos os condimentos que caracterizam a competição considerada como a maior confraternização planetária, apresenta-se como um exemplo que poderia e deveria ser seguido, em permanência pelo Mundo. 

 

O sol está em frente à garagem, quase a estacionar. Em quase todas estações, os dias exigem-lhe o mesmo vigor no cumprimento do seu papel na orquestra. Uma vez e outra fraqueja, muitas vezes chameja e queima tudo. Hoje foi um desses dias em que cumpriu a sua missão com brio. A pérola do índico aqueceu tanto que só uma caixa de geladinhas ajudou a sossegar as gargantas mais religiosas.

Vivemos todos numa competição desenfreada. Tudo depende do que o nosso ego nos pede. O meu sofrimento é maior que o teu. A minha alegria é maior que a tua. A minha tristeza é maior que a tua. Sou mais ético que tu. Às pessoas interessa sempre trazer à tona a parte má da história. As fofocas que nestes dias vêm se tornando questões de interesse nacional não são nada mais que uma estratégia que encontramos para nos sentirmos melhores que os outros. Perdemos horas que poderiam ser despendidas para coisas mais úteis a vilipendiar os outros. Todos afundamos cegamente no mesmo mar, inclusive eu que te escrevo.  

A natureza, também, interiorizou o nosso espírito competitivo. A noite prepara-se para dar início ao seu concerto. Está decidida a superar o dia. Se aquele se serviu do sol para dar o show, ela quer trazer mais que a lua e as estrelas. "O segredo de tudo está na inovação", dizem os mais sabidos. Enquanto a hora não chega vai aproveitando os últimos minutos para fazer as afinações.

Anita não queria perder o show. Quando tudo aconteceu passava quase uma hora desde que recebera a chamada que a dera a esperança de viver aquela noite como deve ser.

? Oiiiii – a rapariga atendeu o telemóvel com uma voz sensual, tentando fazer que cada i compensasse o período de espera que o seu interlocutor suportara para ser atendido.

? Te ligo não me atendes, qual é a cena? ? Perguntou o interlocutor com um ar chateado.

? Desculpa, Brito! Estou a cozinhar, a velha não está… ? respondeu a miúda com um ar de quem pedia desculpas sem se humilhar.

? Qual é a ideia mais logo? ? o interlocutor lançou a isca.

? Ah Brito, estás a me perguntar qual é a ideia mesmo? Por que és assim?

? Claro que estou a perguntar qual é a ideia! Ainda não me respondeste por acaso…

? Mas Brito é para eu dizer o quê? Tu é que és homem. Eu já te disse que estou a cozinhar, a velha não está. Só daqui a uma hora terei acabado tudo!

? Não zanga então, estava a fazer papo! As dzoito passo te pegar.

? Aonde vamos?

? Surpresa! Relaxa, vai ser uma cena doce. Mas vê se me atendes logo.

? Mas Brito eu disse que estava a cozinhar, era para eu fazer o quê?

? Arranja-te, boneca! Se ligar e não me atenderes, bazo …

Os pés molhados roçavam as chinelas à cada passo e faziam nascer um som molito. É como se um dos dois expressasse um sentimento que apenas aquele ruído inconfundível que vem do alto da montanha é capaz de exteriorizar. A rapariga chegou ao quarto. A caminhada cessou. A capulana que trazia amarada à cintura enxugou religiosamente os riachos no corpo negro e formoso. Enquanto vestia, pensava na panela de arroz que deixara a cozer no fogão. Fazia tudo às pressas, mais alguns minutos e Brito ligava. Os olhos não saiam do telemóvel.

Está quase tudo pronto, pensava ela enquanto caminhava apressadamente para varanda onde estava o fogão. Como sempre foi desde que recebeu a chamada do Brito, o telemóvel estava com ela. O vestido vermelho, apertado, que deixava o corpo mais salientado não tinha bolsos. Pelo que o brinquedo teve de vir na mão esquerda. Quando chegou onde estava o fogão, manteve o corpo distante para evitar que o vestido ficasse em contacto directo com o calor que o carvão libertava. Com um pano roto que andava por ali, sem tirar o telemóvel da mão esquerda, esticou os braços, pegou a panela pelas orelhas e levantou-a. Estava pronta para caminhar quando de repente sentiu algo a vibrar. A mão a assar na chapa da panela despertou o grito que saiu da boca e molhou os olhos que viram o telemóvel no chão, o arroz espalhado na areia e a panela vazia.

 

O Governo moçambicano criou recentemente o Fundo de Pensões dos Funcionários do Estado (FPFE) com o objectivo de autonomizar e melhorar os procedimentos de administração da previdência social pública. Com a sua operacionalização, as contribuições arrecadadas passarão a ser aplicadas no mercado e acumuladas sob a forma de activos, o que vai contribuir para a sustentabilidade do sistema. A taxa contributiva deverá ser igual ou superior a 14%, sendo que os funcionários continuarão a contribuir em 7% dos seus salários e o Estado, como empregador, passará a contribuir uma taxa igual ou superior a 7%.

Até ao momento, o sistema funciona com base no orçamento onde as contribuições feitas pelos funcionários entram como uma receita estatal e as pensões são pagas, igualmente, através do orçamento, como se de uma despesa se tratasse. Não havendo investimentos, os cíclicos e crescentes défices financeiros do sistema têm sido da responsabilidade do Estado o que representa um elevado fardo para o orçamento. Para se ter uma ideia, em 2012 o défice foi de mais de 650 milhões de meticais (excluindo as pensões dos militares), quase 1 bilião de meticais em 2015, enquanto em 2017 o défice já espreitava os 1.2 biliões de meticais. Perante esta tendência, é compreensível a decisão tomada pelo governo, pois dificilmente o orçamento estaria disponível para satisfazer o pagamento de pensões e manter o equilíbrio do sistema.

No entanto, a transição de um sistema de repartição para um de capitalização requer um esforço financeiro considerável. Neste caso, o governo necessitará de 300 milhões de dólares (passivo actuarial) para autonomizar o plano público de pensões. Certamente que a preocupação que se levanta é como serão mobilizados recursos desta magnitude tendo em consideração as actuais condições da economia.

Ora, dado que a materialização desta reforma é urgente, o governo poderá optar em fazer uma transição gradual onde nos primeiros anos o gestor do FPFE (Instituto Nacional de Previdência Social – INPS) continuará a depender do orçamento do Estado, enquanto cria a sua robustez e sustentabilidade.

A nova fase impõe desafios ao INPS, nomeadamente a modernização do sistema de pensões e a sua gestão de forma adequada em função dos recursos a serem disponibilizados para evitar as más experiências do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS). Assim, as questões centrais de gestão e modernização que carecem de atenção são:
a)  Gestão da Carteira de Investimentos

A necessidade de conservar os valores acumulados para desembolsá-los no futuro, e tratando-se de montantes elevados, exige que os fundos de pensões observem uma política de investimentos que lhes garanta maior rendibilidade, sustentabilidade a longo prazo e conforto dos seus participantes. Isso requer que os gestores dos fundos tomem decisões ponderadas de capitalização.

Em Moçambique, os fundos de pensões existentes são pouco dinâmicos e tendem a investir na mesma classe de activos, nomeadamente depósitos a prazo e títulos do Estado, o que coloca em causa a diversificação do risco. Por exemplo, em 2016 os depósitos a prazo representavam pouco mais de 65% dos investimentos do INSS e Kuhanha. Este cenário contrasta com as tendências observadas internacionalmente onde os depósitos estão abaixo de 25% da carteira de activos dos fundos de pensões que têm investido mais em infra-estruturas, private equities, entre outros. Portanto, se o FPFE pretende ser no futuro uma referência à semelhança do Government Employees Pension Fund da África do Sul (USD 124 biliões em activos), Government Institutions Pension Fund da Namíbia (USD 7.66 biliões em activos) ou o Botswana Public Officers Pension Fund do Botswana (USD 4.9 biliões em activos), deverá acompanhar as tendências globais na gestão e alocação de recursos de pensões.

Diferentemente do INSS, o INPS pode confiar a gestão da carteira de activos a uma entidade autónoma, séria e competente, cujo gestor principal deve ser um indivíduo de reconhecido mérito e altamente respeitado na sociedade. Esta acção não constituiria novidade no sector de pensões e contribuiria para uma maior eficiência e transparência na capitalização de recursos e prestação de contas.

A independência do FPFE será crucial para o seu crescimento a médio e longo prazo. Se as autoridades governamentais tiverem um acesso exclusivo ao fundo e influenciarem fortemente no tipo de activos a adquirir (geralmente títulos do Estado e enfraquecidas empresas públicas) poderá limitar gravemente o seu funcionamento e colocar em causa a sua sustentabilidade. É importante lembrar que, se eventualmente, o FPFE tiver desequilíbrios financeiros, o orçamento do Estado será novamente chamado a intervir para restabelecer o equilíbrio no sistema.

b) Revisão dos benefícios de aposentadoria
Os benefícios de aposentadoria são calculados com base na fórmula . A leitura inicial que se pode fazer é que para um funcionário com um registo de 35 anos de trabalho na função pública, a sua pensão é exactamente igual ao vencimento que aufere. A questão que se coloca é qual dos vencimentos, uma vez que este é variável ao logo da sua vida activa devido às habilidades e experiência de trabalho acumuladas, nível académico, progressões, carreira, entre outros.

A lei diz que o salário médio auferido pelo funcionário nos últimos dois anos é que deve ser considerado para atribuição da pensão. O que isto significa? Por exemplo: o “Sr. João” ingressa na função pública e durante 33 anos de trabalho recebeu em média 20 mil meticais, e, portanto, contribui para o sistema com base nesse valor. Nos últimos dois anos, o “Sr. João” (já com o grau superior completo, experiência, etc) recebe uma promoção para um cargo de direcção e passa a auferir em média, por hipótese, 75 mil meticais, e lhe é taxado 7% deste valor.
Embora o “Sr. João” tenha contribuído com base no seu ordenado de 75 mil meticais apenas nos últimos dois anos da sua carreira, quando passar para a reforma terá direito a receber a pensão igual aos 75 mil meticais (mais bónus especial), não importando o facto de ao longo de 33 anos de actividade ter contribuído com salário de escalão inferior. Este sistema altamente generoso e apetecível tem contribuído para os sucessivos défices financeiros, o que sobrecarrega o orçamento do Estado. Nesta nova etapa, a fórmula de cálculo da pensão de reforma dos funcionários públicos deveria ser revista e considerar as suas contribuições durante a fase produtiva e respectiva capitalização.
c)  Criação de direcções provinciais e modernização do sistema de gestão de pensões

A inexistência de direcções provinciais de previdência social e sistemas modernos de gestão e controlo de pensões têm resultado em inflexibilidade e altos custos de transacção associados. Por exemplo, a gestão de pensões fora de Maputo é feita manualmente pelo pessoal adstrito à Direcção de Economia e Finanças de cada província que, na maioria dos casos, não possui as competências suficientes para a realização deste trabalho. Sendo que a aprovação dos processos é dependente da sede em Maputo, quando a documentação enviada contém informação incorrecta, o que se tem registado com relativa frequência, e como não há articulação através de sistemas informáticos eficientes, a sede devolve-a ao departamento de origem para correcção. Quando o processo é finalmente aprovado, os benefícios são pagos retroactivamente.

A criação de direcções provinciais e investimento em sistemas modernos de gestão de informação contribuirão para maior eficiência, coesão, segurança e harmonia na gestão quotidiana dos recursos. As bases de dados devem ser capazes de criar uma articulação global no sistema de pensões, permitindo mecanismos de consulta e partilha de informação diversa entre os diferentes intervenientes e na produção atempada de informação estatística.   

Certamente que o governo tem interesse que o FPFE/INPS seja viável, transparente e que garanta uma pensão tranquila aos seus funcionários aposentados. Assim, é relevante ponderar sobre o modelo e reformas a adoptar tendo em conta parte dos desafios acima mencionados.

 

Na cidade os homens não se conhecem, não se amam, não se compreendem.

 

Rodrigues Júnior

17h44 em Maputo. Ponteiros do relógio em contagem retrocedente. Faltam 16 minutos para a ante-estreia de Resgate, da Mahla Filmes. Laquino Fonseca (Tony), um dos vilões da história, transpira ansiedade. Mal consegue dar entrevista. Do realizador, Mickey Fonseca, nem sombra. A quatro metros de Laquino estão Gil Alexandre (Bruno) e Arlete Bombe (Mia). Gigliola Zacara vai tirando fotos, gingando para o público que não pára de chegar. Já são horas, e nada de sequestro. Logo, não há Resgate algum. As pessoas esperam, ah se esperam. À moda moçambicana 18 horas são 18 e tal. A essa altura, sim, todos são convidados a subirem as escadas para irem ver o resultado do que a Mahla esteve a fazer nos últimos nove anos.

Cadeiras preenchidas. Agora é uma questão de segundos. Um MC inventa como que improvisando um discurso ao estilo breaking news. Caramba! A espera afinal não terminou. Mais uns 11 minutos adicionados aos 18 e tal. 19 horas à espreita. O filme já vai começar. O pessoal desliga os telemóveis ou então finge. A expectativa é enorme, nota-se no mastigar das malditas pipocas que tanto barulho desnecessário provocam. O pano finalmente sobe. Já ninguém fala nem tosse. Resgate está na grande tela.

100 minutos depois

Terminou o filme. Os rostos dos expectadores parecem estupefactos de todo. Aí entramos nós para explicar o que se passou na grande tela da Lusomundo.

100 minutos antes

Logo que a longa-metragem da Mahla Filmes começa, vê-se um homem a regressar para o seu passado, no entanto, com algumas metamorfoses em relação ao que deixou para trás, quando foi preso. O sujeito em causa chama-se Bruno: altura média, cabeludo, mulato = o “ódio e o amor entre as raças” (Azagaia). Até a altura em que Bruno caminha rumo à reintegração social, o filme não esclarece o que se passou com ele. Deixa vestígios, úteis numa fase mais adiantada.

Bruno vai parar a cadeia por se ter tornado criminoso. Depois de cumprir a pena, sai disposto a reconstruir a vida de forma sensata, com a mulher e a filha. E nisso aprende a conviver com a dor, com a sensação de que poderia ter ajudado a mãe a livrar-se de um maldito cancro se não tivesse feito asneiras que lhe custaram a liberdade. É quando a vida do nosso herói começa a encaixar-se que aparece o anti-herói Tony predisposto a reintroduzi-lo na criminalidade. A essa altura a história ganha aquela acção ao estilo Hollywood, com linguagens fortes e momentos dramáticos, mesmo a condizer com um outro estilo, o dos gangsters.

Entre disparos, sequestros e tentativas de resgates, o filme ficciona a deterioração de uma história de amor sincero, movida pela ganância e presunção. Resgate é uma narrativa sobre os corredores do crime, que vai buscar no submundo de Maputo parte das peripécias responsáveis por tornar a cidade um campo de tiros, ou seja, um lugar onde os homens não se amam, não se compreendem e tão-pouco deixam-se compreender.

Resgate é um filme para ver com amigos. Boa alternativa cinematográfica para o tipo de longas realizadas em Moçambique. Ao contrário da tendência, a produção da Mahla trabalha o presente, dando-o uma razão de ser. Do ponto de vista de enredo, inquestionável. O casting dos actores só não é perfeita porque a perfeição é uma ilusão. As cenas, a ficção, o movimento, o drama, o suspense, o trabalho de pós-produção, logo se vê, preenchem inverosimilhanças que naturalmente o filme possui. Por exemplo, Bruno chega demasiado seco a casa de Mia num dia chuvoso e há exagero no tratamento do dólar em detrimento do metical. Agora, não aconselho que se levem crianças a ver este Resgate. Pode ser demasiado pesado para elas. Seja como for, lá está um barómetro ficcional que bem serve para as afamadas “autoridades competentes” usarem na eliminação das gangues que rebentam a bolsa, a paz e o futuro de Moçambique.

 

*Texto inicialmente publicado pela Xonguila, com o título Resgate.  

 

Título: Resgate

Autor: Mahla Filmes

Filme

Classificação: 16

 

 

 

Esta tarde, dei o meu passeio habitual por um bairro antigo, com casas pequenas –T1, do século XIX. Muito pitoresco e lindo de se contemplar. Os holandeses tornam a coisa ainda mais prazerosa porque eles raramente fecham as cortinas. Tive então a oportunidade de espreitar o interior de algumas delas.

Um homem baixinho, todo ele vestido de preto, óculos escuros, pedalava em minha direcção. Deu-me um sorriso enorme e disse “olá”. Respondi-lhe com um sorriso.

Escassos metros mais à frente, uma casa chamou-me a atenção pela arte e plantas espalhadas ao longo da janela. Dei uma olhada para o interior. Parecia hippie; até tinha uma cascata artesanal, pequena e bonita. Continuei a andar, e quando olhei para trás, lá estava o homem simpático, outra vez sorridente. Ele parou e disse:

Olá, chamo-me Johan. Vejo como te encanta o bairro… – disse ele em holandês, com um forte sotaque alemão.

É realmente interessante! – retorqui.

Eu moro aqui, e tenho o meu atelier aqui também. Tens de vir ver… se quiseres. Podíamos tomar um copo de vinho.

Aquilo fez-me lembrar a minha imaginária Lisboa (apenas a baixa), com toda aquela gente boa, iminentemente a convidar-te para tomar qualquer coisinha – talvez fosse apenas uma questão de tu mesmo sugerires – em suas casas.

Claro, podemos fazer isso! – E eu estava a ser sincera – deixa-me acabar a minha caminhada. Já volto!

Óptimo!

O corpo dele era daqueles que tremia. Ocorreu-me que pudesse ser um corpo abusado.

Voltei, à procura do seu atelier. Para a minha surpresa, a casa dele era aquela casa hippie que eu havia admirado anteriormente.

A porta estava aberta, pude ouvir um som sul-africano. Aquilo foi certamente para me impressionar – pensei.

Olaaaa – gritei.

Ele veio até à porta, convidou-me para entrar, todo feliz.

A casa estava de facto cheia de pequenas coisinhas. Tudo de pequeno que se possa imaginar, estava lá: pedaços de vidro, estatuelas religiosas e de anjos, velas, cachimbo, chaves, termómetro, latas de cerveja, garrafas, etc.

Finalmente havia um sofá. O sofá era ainda mais escuro que o seu verde escuro, devido a absorção de humidade e tudo o que estava sujeito a cair nele.

A minha primeira impressão foi a de que ninguém merecia aquele tratamento.

Queres beber alguma coisa? Tenho vinho…

Depois de ter dado uma vista d’olhos à sala toda, não me apetecia meter nada na boca que viesse daquela casa.

Ah não, obrigada…

Nada de álcool? Tenho água aromatizada, mesmo boa, com algumas ervas… feita por mim. Gosto de aromatizar tudo, até fruta! Deixa-me mostrar-te a água…

Água com ervas? Parecia bom, mas eu não conseguiria.

Ele dirigiu-se à cozinha e trouxe de lá uma jarra contendo a sua arte. A água era amarelada. Pois, era da fusão – pensei.

Eu continuava em pé, tentando equacionar como me sentar, onde colocar a minha carteira. Era uma sala cheia e suja. Não se conseguia ver a sujidade, a poeira, mas o ambiente em si era sujo. Era demasiado para o escuro.

Depois pensei que devesse ser um pouco mais flexível já que ali me encontrava e ele estava a ser simpático desde o início. Aquilo era o que ele era. Se eu ali me encontrava, tinha de aceitar tudo aquilo.

Oh, até tem um aspecto interessante mas acho que não me apetece beber mesmo nada…

Ok. Eu vou beber um vinhito, então…

A quantidade de vinho na garrafa dava apenas para um copo. Ele deitou o vinho no copo e depois levantou-o, em jeito de “saúde”.

A estas alturas já devíamos estar sentados. Coloquei a minha carteira no meu colo e sorri nervosa, sem querer dar a entender que estava pouco à vontade.

Questionava-me sobre o porquê dele me ter abordado. O que foi que ele viu em mim? Onde é que ele encontrou a ligação para uma amizade?

É verdade que precisámos de um leque vasto de amigos. No entanto, amizade implica troca de energia, conhecimento, cheiro, respiração, frustrações, felicidade, etc. Tudo de uma forma em que ambas as partes entendam.

Então, também moras aqui? Há quanto tempo?

Sim. É minha casa e atelier ao mesmo tempo e moro cá há 8 anos. Vim com a minha ex-namorada, que veio estudar arte. Acabámos, ela foi-se… e eu não me mudo da Holanda! – disse ele, muito convencido, com um sorriso trémulo, abrindo os seus olhos amplamente.

Percebo. E trabalhas aqui? O que é que fazes?

Sou artista, como podes ver. Faço de tudo. Infelizmente não faço escultura, mas pinto quase tudo, incluindo retratos. Vês ali? É trabalho meu! – apontou para um retrato pendurado na parede, com a foto original ao lado. Achei que fosse razoável, nada de extraordinário.

Também faço desenho a lápis… de vez em quando vou conseguindo umas encomendas. Deixa-me mostrar-te o meu trabalho. – ele foi buscar dois grandes álbuns cheios de trabalhos seus.

Vimos os álbuns de forma minuciosa pois ele não queria perder nenhum detalhe, explicando tudo. A maior parte dos desenhos eram da sua cidade. Prédios, montanhas, gente, a vida no geral. Eu gostei da forma como ele desenhava as pessoas próximas umas das outras. Não acho que deva ser tarefa fácil – desenhar gente junta, abraçada, multidões. Confesso que ele o fazia muito bem.

Em todos os desenhos, ele alegava estar neles retratado, simplesmente dizendo: “este sou eu”.

Os desenhos eram tão pequenos que eu não conseguia revê-lo no meio daquela gente toda. Perguntei-lhe por que estava tão certo de que era ele, ao que ele respondeu: “Porque eu estava lá quando fiz os desenhos. Por que razão me haveria de excluir deles?”

Muitos desenhos de pessoas nuas. Ele também se encontrava dentre elas…

Oh, podes ficar com estes! – ele deu-me 3 fotocópias de desenhos bem básicos e o seu primeiro poema em holandês.

Muito sinceramente, eu era capaz de viver sem aquilo. Eram tão pequenos quanto a minha mão, eu mal conseguia ver os detalhes neles, para além de que eram fotocópias.

Ele também desenhava muitos sinais cósmicos e salientava como tudo tinha dois lados: um lado escuro e outro claro; grande e pequeno… – tão simples quanto isso.

Vi muito daqueles álbuns, estava a ficar cansada, ansiosa para mudar de assunto. Fazia-lhe perguntas sobre como é que ele conseguia trabalhar, já que não o imaginava a poder sobreviver do seu trabalho, que era evidente ser escasso.

Ah, eu vendo a maior parte do meu trabalho na Alemanha, onde tenho uma clientela regular – disse.

Ele tinha um filho. Pouco sobre ele foi dito. Vive com a mãe.

Vês aquela máscara?

Sim, também a fizeste tu? Parece real…

Não… acho que vem da Etiópia, não achas?

Por que haveria de vir da Etiópia?

Não sei… os detalhes…

Os detalhes não indiciavam que fosse da Etiópia. Ele deveria ter ido pela técnica da coisa se quisesse ser convincente. Parecia mais da África Ocidental, pelo que me lembro dos documentários.

Acho que tenho de me ir embora…

Ok, foi mesmo um prazer conhecer-te. Espero mesmo poder ver-te outra vez. Para a próxima, mostro-te as fotos da minha família! – ele parecia tão feliz.

Passámos quase uma hora e meia juntos, e o Johan não perguntou nada sobre mim. Nada!

Dei conta de que não tivera sido eu que lhe chamara a atenção. Ele precisava mas é de alguém com quem falar, alguém que apreciasse o seu trabalho. Nem sequer estou certa de que ele tenha sentido que eu pudesse ser a pessoa certa para o fazer. Ele apenas fez do melhor para levar alguém para dentro da sua casa.

Já lá fora, quando nos despedíamos, mencionei vagamente estar a passar por um mau momento, como uma desculpa para não o contactar nas próximas semanas…

Ah stress, eu nunca estou stressado! Eu faço Yoga todos os dias de manhã e dá-me para me sentir bem-disposto o dia todo!

Ele continuou a gabar-se do que era capaz de alcançar em termos de paz interior. Parecia muito cansado, problemático… e trémulo. Nada que fosse puro.

Aliviada, parti. Oh, que dia! Detestei tanto este episódio. Não podia acreditar! Senti que ele tivera arruinado o meu dia.

Enquanto eu caminhava para casa, pensei que deveria arranjar uma forma de me desfazer da sua existência. Mesmo. Não levá-lo no pensamento, para a minha casa, para o meu santuário. Detestei! Não porque queria que a atenção recaísse sobre mim, sobre a minha vida conturbada, mas porque ele usou-me, teve-me à borla, do nada. É verdade que me tenha apercebido disso, que poderia ter saído mais cedo mas não vi nenhum inconveniente em fazer-lhe o favor de lhe ouvir e sentir-se bem. Não vejo nada de mau nisso, objectivamente. No entanto, tudo o que ele tinha para oferecer eram os seus líquidos sujos? Pensava ele que eu era barata, fácil de enganar? Donde é que ele obteve tais sinais?

Chegada à casa, fechei a porta com força e encostei-me à ela como se estivesse a bloquear a entrada a alguém. De repente soltei uma gargalhada. Fi-lo durante a noite inteira, sempre que me lembrasse nele. Ele era maluco, então?!! Não consigo ver outra explicação, a não ser solidão. Mas solidão só, não torna uma pessoa em narcisista. Aos 50, sendo ele espiritual, artista, ele tem de sentir, preocupar-se e estar genuinamente interessado noutras pessoas. Esta é a essência de toda a vida que ele tenta projectar.

Apesar deste episódio, continuarei a falar com estranhos. Muitas vezes fui uma estranha, fiz coisa semelhante a que ele fez – abordar gente apenas para fazer novas amizades. Isso dá-me um sentido de liberdade.

É terça- feira e ainda me riu quando penso nele. Simplesmente não havia necessidade de o conhecer. Ah, a última frase dele: “Por que achas que nos conhecemos? Tem mão de Deus nisto”.

Quando se pinta um sonho, a partir dum lugar agachado num mapa nas margens do Índico, com as cores tonificadas de dúvida e certeza, de esperança e desespero, o resultado é esta miscelânea de cores ombreando com o brilho do sol nascente. É com estes traços versus estas tranças coloridas do oriente que se revela o sentido de ser mulher, nesta empreitada de tentar transladar o futuro para o presente.

É desta forma como impacta em mim esta exposição da artista plástica Huwana, composta por uma dezena de quadros, com um temário geral: DICOTOMIAS FIGURATIVAS. Neste conjunto de obras ela traz-nos, por assim dizer, o seu olhar, a sua verdade, entrelaçando contrastes com as cores mais fluentes da vida, num mundo que, por vezes, parece esboroar-se na descrença do amanhã.

É uma pintura aberta ao mundo, como a própria artista que, na sua condição de mulher, tem o condão de trazer à luz esse mistério chamado vida. Estes quadros, que realmente são uma autêntica mescla de amor e sonhos, mito e memória, emprestam ao observador uma experiência de poder e liberdade, pois quem cria a vida é tão poderoso quanto quem cria o mundo. Ambos são arautos da criação, com a diferença de que a Huwana tem um duplo poder, o da criação da vida e o da recriação do universo, através do seu pincel.

Há quem diga que as artes plásticas oscilam entre duas vertentes: a imitação e a música. Elas são impregnadas de ilusionismo e abstracionismo. Quanto a mim, aquele que consegue estabelecer o equilíbrio entre estas dimensões pode se dar por satisfeito, na medida em que a arte só é plena quando alcança esse equilíbrio. É assim que estas telas de cores brilhantes que a Huwana nos propõe convocam a saudade e a memória de viver a vida ressuscitando a esperança. Nelas há um esforço ou seja uma intenção clara de a artista nos convidar a viajar com ela na sua busca pelo futuro. Mas, afinal, como se retrata então a empatia entre o nosso mundo interior e exterior? Como se transpõe, por exemplo, o sentimento de dó ou compaixão que borbulha em nós para uma tela? Estas e outras questões a artista tenta responder em cada tracejado, em cada gradação da luz, neste mar de cores ondulando nos seus quadros.

A narrativa da vida e do tempo é igualmente explicada nestes traços, nestes sombreados, nesta luz que até transborda para fora das próprias telas, porque, na verdade, a época em que vivemos é também caracterizada por um intrincamento de desgraças e tristezas. A Huwana tenta, por isso, não perder o fôlego e muito menos o foco daquilo que é o seu sonho anichado nestas linhas e formas, que acabam revelando as suas próprias crenças, principalmente aquelas sobre o poder da cor e da luz na procura da felicidade.

O acasalamento das cores e da luz nos quadros da Huwana simboliza o amor supremo que ela oferece a si própria e ao mundo. Todas as suas obras, incluindo as que corporizam esta exposição, são uma espécie de alegoria de si própria numa terra que lhe é simultaneamente hostil e bem-aventurada.

Gosto desta afirmação de Picasso: “A pintura não é feita para decorar os aposentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo.” É caso para perguntar se a Huwana não estará, porventura, a dar continuidade a uma guerra, herdada do seu ADN, visando reavivar nos homens e mulheres da nossa época a vontade e alegria de viver, a partir das contrariedades do quotidiano?

 

 

Magid Osman tem uma trajectória conhecida, como homem forte na área da "mola". Daí que, a muitos que o conhecem, não passe pela cabeça que este cidadão, óculos com graduação alta, falas mansas sempre viradas para os cifrões, tenha sido um grande atleta nos 110 metros barreiras e excelente executante no futebol de salão.

Diariamente, era vê-lo no então Sporting de Lourenço Marques, a treinar duro para melhorar as suas marcas, rivalizando com o seu colega de equipa Abdul Ismail. Estamos a falar de meados da década 60.

Ter sabido compensar a sua insuficiente massa muscular e o baixo peso (75kg) através de um aturado trabalho técnico, foram os seus principais argumentos. Ensaiava até ao pormenor o arranque, depois a passada certa e forma de passar as barreiras. Nada de improvisos.
Fez parte de algumas selecções nacionais. O seu melhor tempo andava pelos 15.3 segundos, muito próximo do recorde nacional que nunca chegou a bater. Corria os 100 metros  planos com o tempo a rondar os 11 segundos, que em pista de cinza era uma marca assinalável.

 

DEIXOU O FUTEBOL PARA NÃO SER… DAVIDS

Chegou a jogar o futebol nos juniores do Desportivo de Maputo, mas não continuou nesta modalidade pelo facto de não enxergar bem, pois usava óculos. E como não queria ser como Edgar Davids (um craque da selecção da Holanda que jogava com óculos), optou pelo atletismo, passando para o Sporting, sob orientação de Luís Revés, uma vez que o treinador "alvi-negro" António Matos, era muito exigente.

 

PERDEU-SE UM ATLETA GANHOU-SE UM ECONOMISTA

Após ter ido para Portugal seguir os estudos, o frio e a intensidade dos treinos no CDUL (Clube Desportivo Universitário de Lisboa), fizeram com que abandonasse as pistas. A sua veia para assuntos de economia, falou mais alto. Perdeu-se um bom barreirista, mas ganhou-se um dos nossos mais conceituados homens das finanças.

No seu estilo recatado, revelou-nos um dia que continua a acompanhar o desporto, mas que a sua vida desportiva, comparada com a de Eusébio, Mutola ou Coluna, não tem interesse para a sociedade.
Mas nós consideramos, sem favor, este madala de sucesso, um desportista dedicado e acima da média.

 

 

Há dias que acordamos com a alma acabada de voltar do lado de lá e não nos sobra nada senão uma lembrança e olhos na almofada. Tenho o corpo todo molhado, a dissolver-se, a cobrar-me amores.

Há dias que queremos que nos massageiem o coração, a memória, a alma, qualquer coisa, desde que toquem lá com jeitinho e seja tudo eterno. Tenho a alma a sair pelos olhos. Há dias que apenas desejamos que seja tudo profundo, real e eterno, só para nos confundirmos com o mundo que queima dentro de nós. Tenho isto sempre comigo. Em todos os dias há saudades…

Com esse palavreado desassossegado deves estar a pensar que enlouqueci de vez, nem? Dá-me só um tempo para me recompor e hoje prometo tentar-te contar tudo o que me tortura sem aquelas palhaçadas de sempre. Não te entusiasmes assim, então! Eu disse que prometia tentar, não asseguro que o faça. 

O perdão que dou ao outro é um subterfúgio para viver em paz. Mas há coisas que por mais que tentemos nos custam perdoar. Muitas vezes esse beneplácito só nos aparece já com a alma a se juntar ao universo e o corpo quase na tumba. Há feridas que sempre estarão ali, latentes, comendo-nos por dentro. A minha relação com o tempo é complexa. Constantemente cobro-lhe o que passou. Nunca vivi tanto a infância e o meu país que agora. Estes beijos voluptuosos ensinam-me a me contentar com o pouco que a memória fumega.
O sábado apresenta-se de céu límpido em Lisboa.

Já vamos em Agosto e o Verão ainda não conseguiu germinar como deve ser. Hoje é a excepção, a cidade se deixou tomar pelo calor. O almoço foi bem forte, ainda sinto o sabor da feijoada na minha boca! Uso como pretexto o facto de ter tido uma semana cansativa e deixo encarnar em mim uma das características daquele animal de sete vidas. A preguiça me toca com propriedade e eu não me faço de gostoso, deixo-me levar. Despreocupadamente me deito e deixo que aconteça o que é suposto acontecer. 

? Uyo pfumela, uyo pfumela, uyo pfumelaaa – António Marcos, o nosso maengane, embala-me e sonho-me em criança a correr atrás de uma bicicleta.

A minha infância persegue-me repetidamente ou eu a ela. Ela aconteceu num período de uma genuinidade sem igual. Vivíamos com pouco, mas éramos felizes. Brincávamos na rua até que se fizesse tarde. Ainda houve quem apanhou uma boa sova por apenas ter estado a brincar. Desculpem-me, brincar até tarde. Doía no momento, dia seguinte a história repetia-se. Lugar de criança não era no Youtube ou Facebook a fazer palermices para que tivesse seguidores. Os seguidores eram os próprios amigos. E se tivesses uma bola de futebol, ui se tivesses uma bicicleta! Enchiam-te a casa e nunca te sentias só. Quando o que tivesses se estragava te tornavas também seguidor de alguém. Hoje sou eu, amanhã és tu. Brincávamos todos juntos, até nos sujarmos. A amizade começava por interesse, mas com o tempo tornava-se sincera. 

Tive a minha primeira bicicleta com catorze anos, porque me foi dada na escola quando era activista. Devia usá-la como meio de transporte quando ia fazer palestras noutras escolas. Até aquela idade nem eu, nem meus irmãos sabíamos o que era ter uma bicicleta. Era algo caro e que os nossos pais não nos podiam dar. Quando vivi na casa da minha avó aprendi a andar de bicicleta. Meu tio Alfredo, irmão da minha mãe, arranjava bicicletas. Como os mecânicos das oficinas de Maputo que gingam por aí com carros de dono alegando estarem a verificar se os defeitos foram eliminados, eu e meus primos fazíamos o mesmo com as bicicletas. Geralmente o mais esperto ia sentado na bicicleta a pedalá-la e os outros corriam atrás. Confesso que muitas vezes fiz parte do grupo dos que corriam atrás da bicicleta, era matreco. Durante aqueles percursos, que muitas vezes eram longos, todos dizíamos esperançosos a mesma frase: 

? Na curva é para você me emprestar. 
Quero-te perdoar, tempo. Mas como o fazer se há dias li por aí essa frase e fui tomado por uma nostalgia que constantemente me tortura em pensamentos e sonhos? 

 

Cobarde, o mundo é cobarde! Ele viu, vê e verá. Mas nunca intervém.

Minha mãe, a senhora Fátima Mendes, morreu vítima duma destas doenças chiques e modernas. Não sei bem se é ABC, AVC ou ADC, mas é por aí que ouvi meu tio José Oliveira falar para a tia Sandra.

Em casa eu vivia com Tio José e meu pai, o senhor Alfredo Afonso. Na verdade eu tomava a ambos como meus pais, é assim que eu era tratada. A princesa da casa. Meus dois pais eram uns amores inimagináveis.

Meu pai era médico no Hospital Central de Maputo, escassos metros de casa. Meu tio José era gerente duma pastelaria também perto de casa e é lá onde eu almoçava sempre que a dona Anastâcia, a secretária, não viesse.

Acordar encontrar a casa cheia de solidão. Limpar-me e tomar o pequeno-almoço acompanhada pelo Mickey Mouse. Esta era a minha rotina, pois mesmo vindo, a secretária chegava às nove, depois do pequeno-almoço.

Uma menina de quatro anos como eu era e com um pai que não me queria misturada com outras na creche só podia ser abalizada no que respeita aos bonecos animados. E eu era de facto.

Com volume do televisor alto, super alto. Neste dia eu só queria ver videoclips na GloomChannel. Passava naquele momento o vídeo dum cantor moçambicano que canta em Changana e apesar de não entender eu gostava das suas músicas, tal de Bawito.

Então ouvi um barulho desusado nas músicas daquele ídolo. Mas pouco me importei. Além de ser criança para me preocupar, eram naturais as surpresas quando o assunto fosse música daquele senhor. Outra vez o som.

Como nunca tinha sentido em minha casa, eu estava em pânico e angustiada. Quem seria se eu tinha feito a ronda habitual para me assegurar que apenas a solidão e eu estávamos ali.

Um senhor branco, cabelo longo (parecido com Jesus), mal vestido e com dentes podres estava na minha frente. A janela estava arrombada. Meu medo estava estoirado. Orei Pai Nosso, Ave Maria e todas outras aves possíveis.

Sarcasticamente ele sorriu expondo a podridão dentária. Fiquei enjoada. Levantou a mão e fez um movimento alternado com os dedos como quem estava a saudar-me. Correspondi exactamente do mesmo jeito, como via meninas portuguesas a fazer na TV.

Com lágrimas no rosto, eu pedi àquele senhor que deixasse a casa senão eu gritava. Um pedido que ele anuiu sem pensar duas vezes… Quem imaginaria que ele seria tão compreensivo quanto à saída de casa? Mas de seguida formulou-me um convite, queria sair junto comigo.

Até achei “fixe” a ideia. Eu nunca saía e ele queria me levar para ver o sol. O problema é que eu queria ver Gomby na JimJam às nove. Ele garantiu-me que veria noutra ocasião. Mas recusei porque ele assustava. Aí ele fez o que lhe competia, carregou-me.  

Com pessoas passeando normalmente na rua. Soltando gargalhadas e carros aos roncos. Tudo estava em 360º para mim. Girava no colo mal cheiroso daquele tio. Eu gritava chorando. Pedia socorro. Todos ouviam e viam-me aos gemidos, mas olhavam e apenas continuavam a “exaltar a pátria”.

Houve até quem se aproximou, depois disse que pensou que estivesse sozinha, mas como eu estava com um adulto branco então estava tudo bem. Eu estava aos gemidos, aos gemidos! Por que mais uma criança gemeria senão de dor? Por que aquela senhora não se preocupou? E se fosse filha dela?

Já tinha ouvido que andavam uns senhores que raptavam crianças para retirar órgãos para fins tão ilógicos como tirar vida de alguém para salvar outra. Isso assustava muito.

O senhor que me carregava deixou-me num carro com vidros transparentes. Como se eu fosse sua filha. Eu chorava desesperadamente. Todos viam, mas ninguém dizia nada. Pedi ajuda como nunca. Num instante o senhor ficou mais chateado e eu fiquei mais apavorada. Pavor que crescia proporcionalmente aos gritos.

Agora éramos dois aos gritos. Ele gritava para que eu parasse de chorar porque queria ouvir música. Eu decidi que iria calar, mas o choro estava mais forte que a minha decisão. O senhor dos dentes podres decidiu ser generoso e ajudar-me a calar. Calou para sempre com uma chapada na cara. Tão dolorosa que não resisti e fui embora. Matou-me na rua. Todos viram, mas ninguém vai assumir. Cobardes!

Os filhos são sempre uma amarra forte, que não deixa os velhos afundarem-se quando a desgraça lhes bate à porta.

Rodrigues Júnior

 

In medias res (do latim, no meio dos acontecimentos), ou seja, início do discurso narrativo pelos eventos já adiantados em relação ao princípio da história. Assim começa o espectáculo teatral Incêndios, de Wajdi Mouawad, encenado por Victor de Oliveira, cuja estreia aconteceu sexta-feira passada, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo.

Logo no princípio da peça, com mais ou menos três horas de duração, dois irmãos, Simão Marwan (Bruno Huca) e Joana Marwan (Rita Couto), são confrontados com uma trágica e inevitável realidade: a morte da mãe, Nawal Marwan (Sufaida Moyane, Josefina Massango e Ana Magaia). Nesse momento, além dos dois irmãos, em cena está um hilariante Emílio Jubela (Alberto Magassela), encarregado por ler o testamento deixado pela mulher que foi sua amiga e confidente. A partir daí, logo se percebe que a história da peça não está no princípio e tão-pouco no fim. Por isso, na necessidade de se ir buscar ao passado a origem das coisas, num ímpeto, o espectador é confrontado com uma bateria de questões que o levam a questionar-se sobre as razões, por exemplo, de um filho chamar a recém-falecida mãe de cabra e puta, recusando-se a ceder às suas últimas vontades.

Esse mistério do passado que obscurece a maior parte da peça é revelado, como é característico em histórias que iniciam in medias res, com a instauração de várias analepses (externa, interna e mista). Aí encontra-se um dos fascínios técnicos de Incêndios, pois a história não vale apenas o enlace em si, antes disso, o encanto advém da maneira como o relato é apresentado por personagens pueris, românticas, airosas ou atrozes. Paralelamente, faz de Incêndios um espectáculo absolutamente fascinante a facilidade com que nos embala e faz-nos mergulhar no verdadeiro caos da guerra, esta coisa terrível e abominável, sem nenhum eufemismo. No fundo, e sem hipérboles de qualquer índole, a encenação de Victor de Oliveira (moçambicano residente em Paris há 20 anos, cuja família deixou Moçambique precisamente por causa da guerra dos 16 anos) é uma caracterização do que o homem tem de melhor e de pior. No primeiro caso, claro está, o amor é a beleza das coisas, dos actos, das aspirações, do sentido de partilha que deveria justificar a existência humana. No segundo, muito repugnante, está explícita a intolerância, a incapacidade de uns e outros donos da pátria coexistirem no mesmo espaço sem que se cuspam na cara.

Igualmente, contado a história de uma família como muitas em Moçambique, constituída por uma mãe e dois filhos, cujo pai ausente foi levado para bem longe pela força das circunstâncias evitáveis, Oliveira apresentou no Franco-Moçambicano a origem das grandes adversidades sociais. A mensagem do encenador parece ser muito clara: tornamo-nos selvagens a partir do momento que combatemos o amor. Então, no lugar de brotar a semente do afecto, da fraternidade ou do efeito cor-de-rosa responsável pelas mais nobres sensações da vida, no lugar de tudo isso germina num ápice um embondeiro de sentimentos desprezíveis. Augusto Conrado, esse notável poeta muitas vezes esquecido, quando nos referimos a toda uma geração de importantes autores moçambicanos dos anos 30/40 do século passado, terá sempre razão: “O coração que não ama não tem tom”. Como pode ter tom uma coisa vazia, seca, inútil?   

Certamente, Incêndios é uma história de amor e de rancores. Os dois irmãos que logo a seguir à morte da mãe ficam a saber da existência do pai e de um irmão na terra natal, personalizam, uma (Joana) a eterna esperança nas pessoas, na perspectiva de que ainda se pode reconstruir os fundamentos destruídos pelo ódio; outro (Simão) é o símbolo da descrença, dos conflitos individuais (sociais também, consequentemente). Sendo ambos gémeos, logo se vê, os irmãos Marwan aparecem como duas faces da mesma moeda, a lutarem pelo mesmo objectivo de forma diferente.        

Nunca vi (e aqui tenho mesmo de singularizar o discurso), um espectáculo teatral tão intenso, envolvente e emotivo como Incêndios, na encenação de Victor de Oliveira; ainda não vi um espectáculo teatral cuja história sangrenta de um povo, aquela que nunca deveria ter acontecido, estivesse tão bem contada como se fosse inspirada nesta terra. É o melhor espectáculo teatral que já vi. Concorre para o efeito a trágica e, paradoxalmente, linda história de Nawal e Wahab (Horácio Guiamba); concorre para o efeito a ousada produção justificada no cenário da peça, preparado para, em alguns momentos, o desenvolvimento de acções simultâneas, isoladas pelo tempo ou espaço; mais do que tudo isso, concorre para o efeito a qualidade dos actores, dos quais falaremos a seguir, pois conectaram-se e entregaram-se ao texto com excêntrica dedicação.

Portanto, contando uma história de amor e sobre os seus contornos trágicos, Incêndios devolve à realidade a podridão daí resultante. Esta é uma peça para ver, chorar e aprender a medir as consequências dos nossos actos antes de cometermos asneiras. É um texto para dizermos basta de armas, por isso não poderia ter sido estreada num momento tão oportuno quanto este. Se os políticos pudessem ver este Incêndios, provavelmente, apagariam definitivamente as chamas que incendeiam os seus corações e de todo um povo que apenas quer uma palhota tranquila para amar.

  

À parte – algumas notas sobre os actores/personagens

Alberto Magassela

Pronto. Vi Incêndios acompanhado pela minha mulher, que se encantou por Emílio Jubela (Alberto Magassela). Ainda bem que esse personagem não tem vida fora do palco, anteviam-se problemas lá em casa. Sempre que aquele gajo entrava em cena, vislumbra uma certa nuvem de ciúme no céu cinzento, pois o auditório punha-se a rir divertido mesmo sem ele dizer patavina. E o pior nem é isso. A minha mulher punha-se a repetir quase sussurrando: “este tipo é bom!”. A certa altura fartei-me da frase e disse-lhe: “baby, aqui todos são bons!”. E não estava a mentir. Alberto Magassela fez bem o seu papel (com gestos, caretas e olhares a condizer), tão bem que seguramente divertiu-se em palco. O carácter cómico do seu personagem preservou na peça pretextos para as pessoas descontraírem-se um pouco ao invés de verem a peça de forma sisuda do princípio ao fim. Com Magassela, Jubela foi cómico, mas não vulgar, presunçoso, às vezes, porém nunca ordinário. Então valeu mesmo a pena Victor de Oliveira tê-lo trazido de volta.

Ana Magaia

É a actriz moçambicana que melhor conheço, e, coincidentemente, a que mais aprecio. Também por ela decidi não perder a estreia do Incêndios. Na peça, Ana Magaia interpreta dois papéis. Primeiro, a de Nazira, avó de Nawal. Segundo, a de Nawal com 60 anos de idade. Nos dois casos, as personagens são idóneas, ponderadas e deveras consequentes. O derradeiro momento do espectáculo tem a actriz em palco, que no som das palavras cumpre a promessa de amar sempre, incondicionalmente. Como sábia, mesmo devido às vicissitudes pelas quais é obrigada a passar Nawal, Ana consegue ser o equilíbrio entre o amor e o ódio, entre o perdão e a sentença. Não explode como actriz, nem poderia naquele papel, no entanto, quando intervém, inquieta como se impõe com oscilações emotivas sintetizadas no último discurso de Nawal.  

Bruno Huca

Simão, o inconveniente. Jovem angustiado, essencialmente frágil na sua bravura. Pugilista. Intransigente. Rebelde. Teimoso. Vi o rancor de Simão Marwan nos olhos de Bruno Huca. Já disse uma vez, um actor incrível, artista versátil. Huca é daqueles que não precisa de muito tempo em palco para mostrar o seu valor. No papel exigente interpretado por ele, despiu-se de tudo para encarnar o espírito de um jovem já sem esperança na humanidade, que prefere julgar antes de compreender. Huca foi arrepiante ao manifestar o quão reles o rancor pode tornar as pessoas.

Elliot Alex

Coitado. Teve de morrer duas vezes no palco. A primeira, como miliciano, foi fuzilado por Sawda, a amiga de Nawal. A segunda vez, como fotógrafo, foi igualmente fuzilado, pelo sanguinário Nihad Ibrahim. Não teve papéis para se destacar, nem seria possível tal ventura para todos. Soube portar-se como personagem secundária (sobretudo como António) e morrer.

Horácio Guiamba

Muitas vezes conotado como um actor cómico, em Incêndios interpreta dois papéis: Wahab, o namorado de Nawal na juventude, e Nihad Ibrahim, um guerrilheiro desprezível. São dois papéis totalmente diferentes. No primeiro ama e contribui na reprodução de uma vida no meio da cólera. No segundo, fruto dessa cólera que se mescla com amor, é o causador da morte. Na pele de Nihad Ibrahim Guiamba exibe o seu potencial, personificando o horror dos homens contratados para matar e dos que matam pelo simples prazer de ouvir os outros darem o último suspiro. Nele viu-se, de facto, as guerras fazem os homens ser animais.

Josefina Massango

É das antigas e experientes actrizes moçambicanas. Teve a missão de ser mãe de Nawal e Nawal aos 40 anos de idade. Particularmente, gostei de a ver como mãe. Aí foi rude e dura com verosimilhança, como muitas, quando ficam a saber que a filha está grávida. Como Nawal senti falta de qualquer coisa, se calhar, a exteriorização dessa evolução emotiva de quem perde várias vidas à procura de futuro incerto.

Rita Couto

É sedutora a simplicidade e a devoção de Rita Couto na condição de Joana Marwan, a filha ponderada de Nawal. Como estudante universitária e professora de Matemática, fantástica. Como uma menina sofrida, carente e solitária, contagiante. As discussões que Joana tem com o irmão só não as consideramos reais, pois sabemos estarmos numa peça teatral. A Rita encaixou perfeitamente no papel de Joana que o carácter da personagem pareceu realidade e actriz o inverso. Inclusive, o seu papel teve umas variações interessantes. Na condição de professora, transmitiu uma imagem adulta e na da menina que busca o passado da mãe, mostrou-se mais ingénua. A Rita é uma excelente actriz!

Rogério Manjate

Teve uma meia dúzia de papéis, em geral muito idênticos. De alguns personagens de Manjate depende a pretensão dos irmãos Marwan descobrirem a verdade sobre o seu nascimento. Portanto, essencialmente, os papéis de Rogério Manjate não variam muito. Como Fahim, Malak ou Chamssedine o actor não decepciona a ninguém. Boa interpretação e presença no palco, fazendo apenas o recomendavel. Sem excessos.  

Sufaida Moyane

Sempre que a vejo a actuar lembro-me de Lucrécia Paco. No Incêndios não foi diferente. Pequena, voz juvenil, Sufaida é outro grande talento nesta nova vaga de actores moçambicanos. Na encenação de Victor de Oliveira representa Nawal, entre os 14 e 20 anos de idade. A sua missão é acreditar no amor e desistir do mesmo na primeira grande dificuldade que lhe aparece pela frente. A história trágica, na verdade, começa quando Nawal, ainda nova, é obrigada pela mãe a desistir do filho recém-nascido. Depois vêm o arrependimento e as tentativas de corrigir o erro do passado. Assim sendo, a actriz foi capaz de ser adolescente romântica e jovem amargurada.

Eunice Mandlate

Pulamos a ordem alfabética de propósito, de modo a deixá-la para o fim. Confesso, quando vi o nome na ficha técnica do Incêndios fiquei surpreendido. Não por ela ser má actriz, mas por ainda ter algumas fragilidades que me fizeram julgar que iriam interferir no seu desempenho na peça. Já a tenho acompanhado há uns três anos. A última vez que a vi em palco foi n’A história de um homem honesto, reposta pelo Mutumbela Gogo. Não me agradou. Entretanto, no Incêndios foi completamente diferente. Conheci uma outra Eunice Mandlate, que deixa até a última gota de sangue no palco. Insignificante como Amina, a parteira que fica com o filho de Nawal, é extraordinária representando Sawda. Um papel bem a altura das capacidades da actriz que conseguiu ser meio aparvalhada, transtornada e cheia de fel. Eunice encarnou profundamente a personagem e posicionou-se de forma verosímil no contexto de guerra que chorou no palco como eu nunca tinha visto antes. De repente, a Sawda, numa discussão brava com a amiga Nawal, emociona-se e exprime com as lágrimas o que as palavras já não são capazes. Silêncio total no auditório e no interior dos expectadores. Era a vez de Eunice Mandlate brilhar no meio de colossos e consagrar-se de algum modo. Quem se entregou ao espectáculo como ela, merece a confiança de estar no Incêndios e de ser levada a sério.

 

Título: Incêndios

Encenação: Victor de Oliveira

Teatro

Classificação: 19  

 

 

 

 

 

  

Nos tempos que correm a realidade confunde-se à imaginação e converte-se em algo sem precisão. É tudo duvidoso. Um discurso escorregadio embriaga-nos e tudo se transforma em ficção. A verdade deixou de interessar. O desejo de nos mantermos no poder nos faz ridicularizar a bússola que os génios usam para fugir de um despautério como o nosso.  Tontices e politiquices se aliam frequentemente contra a verdade.

As janelas fechadas e a luz fluorescente que era emitida por uma lâmpada colada a uma das paredes brancas do quarto neutralizavam o tempo. Naquele quarto, assim como em todos quartos daquele edifício, é sempre noite.

Os olhos de um homem deitado de costas numa cama abriram-se penosamente. O acamado olhou com muita atenção para única coisa chamativa que estava no seu campo visual. A máquina de reconhecimento que existe dentro de todos nós procurou por aquela imagem na base de dados. Já tinham sido armazenadas várias imagens semelhantes àquela, mas nenhuma delas correspondia à porta branca em questão. A mente do homem disse ao corpo que nunca tinham estado naquele lugar. Até ali os sentidos tinham funcionado desordenadamente, o homem que dirigisse a operação se quisesse respostas. Então ele virou a cabeça para o lado direito da cama e viu um monitor no qual ziguezagueavam algumas cobrinhas no sentido esquerda-direita e se destacava um número com uma cor vermelha. Os apitos que vinham da máquina despertaram a audição do homem.
– Pufffff! – bufou o homem.

À medida que se ia dando conta que aquilo era uma máquina que registava os seus batimentos cardíacos sentia no corpo os buraquinhos por onde entravam os tubos hospitalares aos quais o seu corpo estava ligado. Fez um esforço para se lembrar como tinha ido parar ao hospital. Mas o cheiro a éter que lhe beijava as narinas roubou-lhe a concentração. O despertar de cada sentido paria dores. Na cabeça tudo girava e se descontrolava como um país sem liderança. As tonturas o torturavam. O peito ainda se ressentia das fortes pancadas que o coração lhe dera.

A maçaneta da porta girou. Os olhos do homem voltaram-se ansiosos para a porta. Dois segundos depois um homem com um ar idoso que trazia vestida uma bata branca entrou no quarto.

– Olha quem está acordado… – disse o médico enquanto se aproximava da cama do doente.

O doente olhou para os lados como se procurasse o tal acordado e ao perceber que ele era o único que poderia ter estado a dormir cobriu a cara com a mão direita como quem quisesse esconder a vergonha.

– Olá doutor! Há quanto tempo estou aqui? Perdi a noção do tempo…

–  É normal que te sintas assim. Demos-te um sedativo, por causa das dores. Já passa…–disse o médico com um ar tranquilo enquanto tirava os óculos.

– Estou com umas tonturas… Durante quanto tempo dormi, que dia é hoje?

– Se tivesses dado entrada num hospital da província vizinha estarias a acordar em dois mil e quarenta… Não te preocupes, foram apenas algumas horas. – disse o médico com um tom jocoso.

– Dois mil e quê???? – perguntou o homem visivelmente aturdido. O médico não precisou de explicar aquele número, fez-se luz na cabeça do doente. O homem concluiu que o que o médico tinha dito só poderia ter algo a ver com a questão cabeluda do recenseamento eleitoral que tinha sido levantada há dias. – Awena! Ainda se anda nisso? A Propósito, alguma novidade?

– A mesma palhaçada de sempre! Quase que já nem se toca no assunto, anda tudo distraído com leões que comem milho e mandioca das machambas de Matutuine… – disse o médico com um tom irónico.
– Leões que comem o quê??? Desde quando os leões são vegetarianos? Começo a acreditar que acordei em dois mil e quarenta mesmo!

O médico riu-se. Levou as olivas auriculares do estetoscópio aos seus ouvidos e colou a outra parte do instrumento ao peito do doente para o examinar. Enquanto fazia o seu trabalho o sorriso denunciava a tranquilidade de um profissional, cuja verdade científica, por enquanto, não dependia do carimbo político para ser acreditada.
 

Me desculpe o grandessíssimo Mia Couto por roubar o seu título de um grande texto seu para fazê-lo meu de forma emprestada. Mia elaborou o texto no sentido de retratar a sociedade no geral, mas eu vou pedí-lo emprestado para retratar um caso específico; o desporto. Cheguei a ver o problema do futebol como um problema isolado, como se fosse problema do Selecionador, da FMF, mas vejo que é um problema que vai mais além; É o Desporto Nacional que está doente.

DIRIGISMO DESPORTIVO – O problema começa aqui. A maior parte dos dirigentes que gravitam no desporto vão lá para tirar dividendos financeiros e políticos. Tem dirigentes que enriquecem brutalmente, quando aquele que faz o espectáculo está mais pobre, essa pirâmide está invertida em Moçambique, devia ser o atleta a enriquecer ou pelo menos a conseguir viver dignamente. Onde estão as pessoas formadas nas universidades desportivas do país? Porque a maior parte não está na estrutura dos clubes?

PROFISSIONALISMO – O Moçambola é uma Liga Profissional? Sim, é! A Liga Nacional de Basquetebol é profissional? Sim, já foi (dei exemplo das principais ligas do país). Penso que o profissionalismo, não está no facto de treinar todos dias e viver daquela arte. É preciso assumir o profissionalismo, coisa que está a faltar. O que estamos a fazer é: uns fingem que pagam e outros fingem que jogam.

RESPONSABILIZAÇÃO – O desporto tem que deixar de ser um clube de amigos. Que legado deixa um dirigente de um clube, que a sua solução para os seus problemas é a de vender o património do seu clube? Esse fenômeno acontece um pouco por todo país. É preciso responsabilizar essas pessoas, mas também é preciso responsabilizar o atleta pela sua falta de entrega e profissionalismo, mas primeiro, para ele perceber que este é um assunto sério, ele tem que ver aqueles que defraudam as suas expectativas a serem responsabilizados pelas suas más decisões que na maioria das vezes lesam a colectividade.

MARKETING DESPORTIVO – Desporto é um produto e por consequência deve ser visto como um negócio. A selecção nacional de futebol usa lacactoni e o que mais vende nos dias de jogo é Puma, equipamento que a selecção usou há mais de 5 anos. Não condeno quem infesta o mercado com o equipamento Puma, pois viu uma oportunidade de negócio e avançou, talvez a outra marca esteja a dormir. Quantos clubes tem uma “lojinha” nas suas instalações de merchandising? Quantos clubes capitalizam a imagem dos seus atletas, priorizando a venda de equipamentos?

FORMALIDADE – Temos que sair de um desporto informal para o formal, só assim será uma INDÚSTRIA rentável e auto-sustentável. Quantos atletas fazem uma carreira de longos anos sem saber o que é pagar imposto sobre os seus Rendimentos ou descontar para o INSS? Isso permitirá ao atleta no fim da sua carreira receber aquilo que descontou e não andar de mão estendida. Os clubes tem que estar legais e organizados. Formou-se hoje e única coisa que sabe dizer é que quer ganhar, sem no entanto ter montado as bases para o efeito e nem sequer escalões de FORMAÇÃO tem, logo, mergulha em práticas nocivas como CORRUPÇÃO e CURANDEIRISMO e faz toda sua estrutura acreditar nisso, tornando estas, práticas e formas, de normais.

CORRUPÇÃO e CUMPLICIDADE – Desde a eleição para as FEDERAÇÕES e ASSOCIAÇÕES até a competição, é tudo um ciclo vicioso de corrupção onde há cumplicidade de todos actores (atletas, jornalistas, dirigentes). Quando os atores do desporto não pensarem primeiro no “o que eu vou GANHAR" ai teremos um melhor desporto. Os jornalistas falam ou se calam em função dos seus interesses umbilicais. Se eles assim o fazem, quem irá lutar pela VERDADE DESPORTIVA? Os clubes tem que deixar de ser um canal de saída de dinheiro. O Dinheiro não deve passar, deve ficar no desporto. Quando o Estado tira 3 milhões de dólares para a reabilitação de um pavilhão (Maxaquene) e o mesmo continua pior e ninguém é responsabilizado é porque a corrupção é endêmica.

Quando o Presidente Guebuza há 10 anos assumiu o desafio de se organizarem os Jogos Africanos em Moçambique, um dos desafios que deixou à organização, é que era uma oportunidade para se revitalizar as infraestruturas desportivas; construir novas infraestruturas e (ou) dar uma nova cara as já existentes. Sabe-se que para esta empreitada foram disponibilizados mais de 200 milhões de dólares, mas pelo contrário nem pavilhões novos e muito menos reabilitados, senão um banho de tinta e obras de pequeno vulto para o inglês ver.

Existe muita coisa que não faz sentido a nível do nosso desporto. Acho que Moçambique é um dos primeiros países a nível mundial onde jogadores de formação são consagrados os melhores do país. Formação é formação, alto rendimento é outra coisa e deve haver uma barreira a separar as duas coisas. Espanta-me em que quase todas galas de consagração dos melhores atletas, a maior parte dos vencedores sempre são atletas de palmo e meio, ainda em formação.

Olhando para formação é de louvar o esforço do governo em priorizar os Jogos Escolares, mas infelizmente ainda não está claro o que se pretende atingir com o desporto escolar. É muito dinheiro que é gasto para a realização dos mesmos sem que se tire proveito e em simultâneos os clubes também a gastarem dinheiro com os escalões de formação. Digo que não se tira proveito, porque a maior parte dos atletas que se fazem a estes jogos, já são atletas de clubes a bons anos, logo, não há nada a ser descoberto e muito menos a se pesquisar. Porque não se faz a união dos escalões de formação e o desporto escolar, onde as competições escolares culminariam com o festival e representariam os campeonatos nacionais, os clubes trabalhariam com escolas satélites e depois dos 16 anos o aluno-atleta ingressaria num CLUBE, os melhores claros. Ganharia a estrutura desportiva nos escalões de formação, teríamos um atleta um estudante e para praticar desporto primeiro teria que estar matriculado num estabelecimento de ensino, não teríamos 2 centros de formação onde 1 forma (clubes) e outro finge que descobre (escolas) e os clubes não gastariam o dinheiro que não tem, até porque qualquer atleta começa os seus primeiros passos na escola. Há que se dar um destino ou rumo à formação, em particular, e trazer de volta aos eixos o desporto nacional. 

Não é que éramos ou é para sermos campeões mundiais, mas exige-se o mínimo de organização a nível das modalidades. Desde o Moçambola e passando por outras modalidades, é tudo feito a retalho e no sufoco. Exige-se o mínimo de rigor, os processos não podem andar a reboque das pessoas, pelo contrário as pessoas é que tem que andar a reboque das instituições desportivas.

 

 

            O que actualmente vivemos é uma cultura do vazio, do efémero, do transitório, do descartável que leva, por um lado, à fragmentação das sociedades e seus valores intrínsecos e, por outro lado, a uma condição de cegueira intelectual que atirou o homem à incerteza do que ele próprio é e quer ser. A literatura, no contexto aqui descrito, passou a ocupar um lugar quase que de ausência, pois ainda se recusa a alimentar-se de efemeridades e mediocridades dissimuladas de arte e de grandeza daqueles que acreditam que, mesmo sem ler e sem se cultivar, podem escrever: ainda há, paradoxalmente, quem acredite que há-de ser [livre] sem ler e sem buscar conhecimento.

            Estas palavras parecem-nos ter alguma razão de ser, pois, se cada vez mais se tem uma juventude que renunciou à leitura, principalmente de literatura, culpando-a de não se deixar compreender, a poesia continua a ser o arquétipo de um género sem leitores [comuns] e que, salvo miopia nossa, é o menos publicado em comparação com a prosa. Poderemos, deste modo, afirmar que a poesia não é para qualquer leitor?

A resposta a esta pergunta talvez possa ser encontrada no livro Asas da Água, de Nelson Lineu. Divido em três partes, nomeadamente “Os sinais do rio”, “Poema folha” e “A ave no canto”, neste livro, explora o poeta elementos da natureza, flagrantes no título e nalguns poemas. São alguns desses elementos as aves, a água [do rio], a folha. Explora ainda a questão do ser e da natureza da liberdade que radica, em particular, na referência às aves, às asas e à leveza da folha e, finalmente, a questão da relação fenomenológica entre a consciência e os fenómenos, tal como se pode observar no seguinte poema:

 

“aproximar os ouvidos à terra

ouvir a folha

como criança

riscar o chão com a dúvida

é o que procuro no relógio” (Lineu, 2019: 52)

Neste poema, temos um sujeito poético que realiza a epoché segundo Edmund Husserl, ao reconhecer, na inocência e na dúvida, o esvaziamento da consciência para “ouvir a terra e a folha”.

Ora, enquanto a prosa é a continuidade da realidade, a poesia é a construção de uma realidade. A respeito, Sartre (2004: 13) afirma que a prosa é o império dos signos. Assim, se, de um modo geral, signo é algo que substitui ou representa algo, então, a posição de Sartre significa que, na linguagem prosaica, os signos remetem para realidades exteriores ao próprio signo. A linguagem constitui um meio ou instrumento voltado para as coisas do mundo, a serviço das acções do homem. Portanto, “a prosa é utilitária por essência; o prosador é um homem que se serve das palavras (…) Na prosa, as palavras não são, de início, objectos, mas designações de objectos” (SARTRE, ibid: 18).

A poesia, por sua vez, imbuída de um intuito de construir realidades que remetem a si próprias, tem um carácter mais abstracto e mais conceptual. Sartre (ibid: 13) defende que, na poesia, o poeta não se serve das palavras (como na prosa), mas serve as palavras. Disto percebemos que a “palavra poética” (no sentido de ser referente à poesia) não se situa no plano utilitário, ou seja, o poeta serve as palavras com referentes intratextuais.

Esta visão de Jean-Paul Sartre explica a razão de, na linguagem poética, os signos, não sendo instrumentos, estarem virados para si próprios, porquanto se manifestam como coisas. Assim, “o poeta afastou-se por completo da linguagem-instrumento; escolheu de uma vez por todas a atitude poética que considera as palavras como coisas e não signos” (SARTRE, idem).

Em Asas da Água, de Nelson Lineu, o que fundamenta a ideia de uma grande tendência para o abstracto nos poemas começa no título. Há, neste título, e inclusivamente nos poemas de todo o livro, metáforas que enformam um discurso referencial de segundo grau que, segundo Ricoeur (2000: 13), consiste na suspensão da realidade, transitando-se para um discurso centrado em si mesmo e para a construção de uma “dupla referencialidade”, e não “duplo sentido”. Assim, na estrutura “asas da água”, “asas”, entendidas como partes das aves, parecem remeter para uma básica ideia de passagem do domínio da necessidade para o domínio da liberdade, e o voo que, de um modo geral, tais asas permitem é que conduz à liberdade. “Água” (do rio, elemento que atravessa a quase totalidade dos poemas do livro) remete, por sua vez, à ideia de transformação, de mudança do mundo e dos fenómenos, ancorada no carácter de fluidez que caracteriza um rio. Então, que sentidos resultam de “águas da asa”? Não será este um exemplo de que as palavras, neste livro, são em si coisas ou referentes e não remetem a coisas ou realidades exteriores a si?

Vejamos alguns exemplos:

 

“as casas na cidade

são cópias das casas no rio

aprendemos a decorá-las

com os peixes” (Lineu, 2019: 21)

 

“abro as palavras

limpo o silêncio

acabo com a dor da água” (ibid: 25)

 

“a ave está certa

a sombra no chão

é a respiração da folha” (ibid: 44)

      

“o sal adorna as ondas

e anuncia à ave

a chegada da concha” (ibid: 63)

 

Encontramos, nestes e noutros exemplos, metáforas que transpõem o comum, o banal, o ordinário, o trivial.

Ainda no contexto do abstracto a que nos temos vindo a referir neste texto, em Asas da Água, o sentido dos poemas inscreve-se nos espaços em branco do papel, associados aos espaços em branco dos próprios poemas, vistos enquanto estrutura potencial a ser preenchida pelos leitores. Por meio desta estratégia, as palavras também se tornam signos de si próprios, ou seja, são “palavras-coisas” que instituem realidades próprias. Em cada uma das páginas deste livro, os poemas estão postos no centro, jogando com o imagético e o conteudístico; omitem-se as vírgulas, subverte-se a sintaxe, desarrumando-se, por vezes, a ordem dos constituintes frásicos. Estas características, como dizem Campos, Pignatari & Campos, 1975:34), ao analisarem a poesia concreta, põem os significados à margem ou em segundo plano.

Como ilustração, tomemos em consideração os seguintes poemas:

 

“intercepto a brisa

antes de afagar

as árvores de outra margem

acrescento uma palavra

em seu corpo

como quem escolhe

o sonho para a noite” (Lineu, 2019: 27)

 

            “a folha caiu no rio

conhecia a água

a conversa das aves” (ibid: 45)

 

“adormeço a voz

levo o verde à folha

o lenço branco a flor” (ibid: 48)

 

            A brevidade dos poemas, a subversão das regras sintácticas e a exploração dos espaços vazios da folha (em que os poemas mais se inscrevem do que se escrevem) tornam as palavras gestos, objectos e ideias ou uma espécie de linossigno ou ideograma, segundo Bosi (2007: 477). Por isso, as palavras ou signos mantêm-se abstractos até na sua forma externa, combinando sentidos, por vezes dissonantes – veja-se o título do livro, “asas da água” –, contrários, contraditórios, imprevisíveis e inimagináveis. Ademais, o mundo instituído por e nos poemas desta obra rompe com os fundamentos e com a lógica fenomenológica de um mundo apreendido por uma consciência e, por conseguinte, sugerem um mundo ou mundos em certa medida inalcançáveis, cuja configuração ontológica devolve à poesia a nobre condição de ser em si.

            Para terminar, queremos afirmar que uma poesia como esta (e como outras de cariz intimista e menos engajado) e de exploração de universos imateriais, em que as palavras são coisas e os signos têm em si mesmos os significados, constitui um constante desafio para uma sociedade – sobretudo para a juventude – vazia, oca, ociosa, que não percebe e não compreende o mundo hipermoderno onde se encontra e que espera, de forma absoluta, ver-se livre e salva pelas crenças emergentes que, no fundo, são consequência do neoliberalismo que governa o que Lipovetsky e Serroy (2011) chamam de cultura-mundo.

 

Bibliografia       

 

BOSI, Alfredo (2007) História Concisa da Literatura Brasileira. 44.ª ed. São Paulo: Editora Cultrix.

CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI, Décio & CAMPOS, Haroldo de (1975) Teoria da Poesia Concreta. Textos Críticos e Manifestos 1950-1960. 2ª ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades.

LINEU, Nelson. (2019). Asas da Água. Maputo: Tipografia Prelo Clássico.

LIPOVETSKY, Gilles & SERROY, Jean. (2011). A cultura-mundo: Resposta a uma sociedade desorientada. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras.

RICOEUR, Paul. (2000). A Metáfora Viva. Tradução de Dion David Macedo. São Paulo: Edições Loyola.

SARTRE, Jean-Paul. (2004). Que é a Literatura? 3.ª ed. Tradução de Carlos Filipe Moisés. São Paulo: Editora Ática.

Texto de apresentação do livro Asas da Água, de Nelson Lineu, no Centro Cultural Brasil-Moçambique.

Esta posição de Sartre é discutível se a considerarmos para uma poesia de pendor mais engajado que dominou um determinado período da Literatura moçambicana. Admitimos, porém, que esta ideia se aplique à poesia de Armando Artur e de outros poetas tendencialmente menos engajados, que cultivam a palavra em si.

Desta vez não foi no “fatídico” minuto 92, mas a meio da segunda parte, em seis minutos, que a Mamba, com a eliminatória “no papo” adormeceu e a onda malgaxe levou.

– Ao intervalo, o Presidente Simango da FMF, afirmou que o estarmos a vencer por 3-0, “reflectia a diferença de nível entre o Moçambola e o campeonato malgaxe”.
– No final do jogo, a Ministra da Juventude e Desportos, Nyelete Mondlane, referiu que é necessário repensar o nosso futebol, pesquisando talentos nas camadas jovens.

Estes posicionamentos, reflectem alguma falta de profundidade nas nossas análises e a dificuldade de passarmos das intenções à prática, aos vários níveis. O que a segunda parte do jogo trouxe à tona é a realidade: lugar 116 no ranking FIFA, “clientes assíduos” das pré-eliminatórias e, como se não bastasse, cada vez mais dificuldades para ultrapassar adversários que há poucos anos nos temiam.

Daí que, se tivéssemos mantido o 3-0 até ao final da partida, a esta altura estaríamos a colocar o nosso futebol nos píncaros.

UMA REVIRAVOLTA
“QUE JÁ NÃO SE USA”

O espaço para lamentações começa a fartar. Aquela reviravolta, já não se usa na alta competição. Orientações como investir na formação e buscar talentos, viraram “slogans” que nada alteram.  O que nos falta? Passar das palavras às acções – pensadas, programadas e cumpridas.

Efectivamente, teremos que dar razão ao ditado que diz que quando o camarão dorme, a onda leva. É o que está a acontecer. Acobertados pela ideia de que “abundam talentos e é só pesquisá-los”, acções pensadas e planificadas vão sendo subalternizadas.

A realidade está aí. O futebol de Madagáscar, Maurícias, Lesotho, Namíbia, Comores e por aí fora, que ao que tudo indica não parou no espaço e no tempo, vai-nos surpreendendo. Neste caso, basta repararmos na evolução da constituição física da Selecção malgaxe, comparada com a dos primeiros clubes e selecções daquele país que nos visitaram, para equacionarmos um dos pontos da evolução do vizinho.

ALGUNS DOS “NÓS”
DE ESTRANGULAMENTO

Só ao fim de muitos anos, nos convencemos que a medida tomada pelo Estado, de proibir a transferência de jogadores nacionais para o estrangeiro – dizia-se que não são uma mercadoria – estava errada. Acabámos, nessa vertente, por tentar “acertar o passo” com o que é normal lá fora.

Hoje, diferentemente do que aconteceu a Gil, Luís,  ngelo Jerónimo, Orlando Conde e muitos outros, as portas parecem escancaradas para “exportar” atletas, até para clubes de divisões secundárias, não sendo necessário “saltar o arame”.

Os nossos craques – particularmente os do futebol e basquetebol – já iniciam as suas carreiras com um horizonte amplo, pois o profissionalismo de alto nível, além dos rendimentos pecuniários, dá prestígio ao indivíduo e ao país.

PROFISSIONALISMO PELA METADE

Vivemos um profissionalismo pela metade. Os números existem, as contratações acontecem, mas os valores envolvidos, ao contrário do que acontece pelo mundo fora, permanecem no segredo dos deuses.

Vejamos: se um qualquer cidadão pretender aceder às contas do Manchester United, Benfica, Sporting ou qualquer outro clube de gabarito, fá-lo com relativa facilidade. As grandes transferências e os salários das estrelas são públicas e publicitadas. Mas nós continuamos a pautar pelo secretismo absoluto, apesar de o dinheiro que o desporto movimenta, ser maioritariamente desembolsado pelo Governo – directamente ou através das empresas públicas – e como tal produto dos impostos dos cidadãos.

Equacionemos este cenário: se a direcção de um clube integrado ou patrocinado, quiser destinar a maior parte da receita que lhe é alocada na formação, invertendo a actual pirâmide em que só “migalhas” é que vão para esse sector, seguramente que não conseguirá levar o seu propósito a bom porto.

Os “donos do dinheiro” dificilmente estarão de acordo com um plano – por mais bem elaborado que esteja – de investir numa movimentação séria e orientada para os jovens, pois só produzirá efeitos a médio e longo prazos.

A pressão virá de vários quadrantes, incluindo dos sócios. Daí que a solução mais cómoda seja contratar “craquezitos” de um país vizinho, para chegar a resultados rápidos.

E o assunto torna-se mais complexo se a colectividade fôr do norte ou centro do país. Aí, contrata-se um treinador de renome, juntam-se os rejeitados dos grandes clubes do sul e concretiza-se o desiderato de estar presente no Moçambola. É por isso que por lá já não brotam jogadores como Joaquim João, Tayobe, Nuro Americano, Paulito e outros, titulares da Selecção Nacional forjados e temperados nas suas zonas de origem, antes de virem para a capital. Actualmente, chegam e sobram os dedos de uma mão para indicar, em cada equipa nortenha os craques, formados localmente.

PARAR NÃO É SOLUÇÃO

Temos pela frente, um “edifício” complexo e que nem o Governo, nem a maioria dos cidadãos se predispõem a colocá-lo no lugar que merece: o desporto, como um assunto de Estado.

Sentimos – particularmente no futebol – que os moçambicanos vivem, com extrema paixão, o desporto-rei que se movimenta pelo mundo, reservando apenas pequenos espaços do seu dia-a-dia, para tecer críticas ao nosso “futebolzinho”.

Mas a ideia de “parar para repensar”, seguramente não é o melhor caminho. Estaríamos a “enterrar”, os modelos de que dispomos, reduzir para a juventude as razões para ela sentir como suas as estrelas locais.

A solução passa por trazer à luz do dia, o que cada entidade desportiva destina à formação e à competição, com regras claras de que, sem matar o presente, se investe no futuro.
Afinal, se desporto é saúde e educação, se incentiva o turismo e

dá prestígio ao país, porque é tão subalternizado, numa Pátria que quando era colonizada produzia estrelas de nível mundial?

Manuel Mutimucuio nasceu em Maputo, em 1985, mas teve os seus anos formativos na Beira. É doutorando em Governação e profissional de desenvolvimento. A sua apresentação ao panorama bibliográfico-literário deu-se através do «Visão» (2017) e avantajou-se com «Moçambique com Z de Zarolho» (2018).

A escrita deste autor enquadra-se no que o teórico moçambicano Mallinda (2001) chama questionamento do «status quo». A verdade é que a partir da degustação do duo literário de Mutimucuio, alcançamos um diferencial que parece espremer incisivamente os calos nos pés da pérola do índico. «Visão», embora livro de estreia disseca com brio sobre as amarras que estão, também, na base de muitos dos questionamentos que assolam a mente e o sedentarismo epistemológico dos moçambicanos. A obra apresenta-nos verdades obscuras e fala-nos sobre o lixo que está por baixo de diversas alcatifas sociais. Faz-se pertinente lançar um olhar especial à forma como este autor narra e satiriza problemas como a infidelidade, o lambibotismo, a ganância, o egoísmo exacerbado, entre outros.

Já com «Moçambique com Z de Zarolho», o autor inquieta-se mais com a situação da língua como elemento diferenciador de classes individuais e grupais, esta mesma língua é-nos ainda apresentada como condição suficiente de ascensão social e financeira. Apresenta-nos uma sociedade moçambicana moderna, um factor um tanto quanto ineditista, que a passos galopantes desvincula-se da herança linguística do colono e em que as diferenças sociais estão em GARRAFAIS. Como dissemos no início, é uma escrita profundamente acasalada com o questionamento do «status quo» moçambicano, repleto de elementos novos da modernidade que mesmo assim não se desvinculam das cosmogonias africanas e de símbolos e espaços característicos da nossa literatura, tais são os casos do «sonho», «monólogos dialogantes», «oralidade» e não diríamos racismo, em «Visão», mas uma perpetuação de uma colonização ideológica que faz sinonimizar a pele branca a benefícios e superioridade existencial. Por outro lado, preste-se atenção ao profuso recurso à descrição de que o autor se serve nas duas obras, fazendo recordar o célebre «Nós matámos o Cão-Tinhoso» (1964), de Luís Bernardo Honwana, no conto «Inventário de imóveis e jacentes». Por estas e outras razões que as nossas limitações epistemológicas não lograram alcançar, consideramos que a escrita de Mutimucuio é revestida de muitas verdades prementes e reveladora de tantos escombros que nos parece que se trata de um homem cuja mão não tapa o sol com a peneira.
 
Bibliografia
MALLINDA, Daniel Augusto. Cartografias da Nação Literária Moçambicana: Contos e Lendas, de Carneiro Gonçalves. Maputo, PROMédia, 2001.

Se os Mambas se tivessem qualificado – bastava um pouco mais de “manha” nos minutos finais de três jogos – estaria o país a falar de um Abel Xavier herói. Ainda por cima porque a qualificação transportaria a inédita façanha das duas primeiras vitórias, em competições oficiais, diante da toda (ex?) poderosa Zâmbia. Tal não aconteceu e o sentimento girou 180 graus. Para alguns foi um falhanço total, a partir de um currículo que denota inexperiência, passando pelas convocatórias e métodos errados.

Repare-se no que aconteceu com as claques: após a derrota diante da Namíbia, cercaram o autocarro dos Mambas, exigindo de imediato a cabeça do técnico. Depois, muitos deles integrados na “onda vermelha” em Bissau gritaram a plenos pulmões:
– “Queremos Abel Xavier! Queremos Abel Xavier, mesmo que os outros já não te queiram! Ele terminou o jogo abraçando e chorando junto dos jogadores. É assim a vida dos Seleccionadores e treinadores. Numa análise mais a frio, há que referir que não é justo aquilatar a acção do recém-demitido treinador dos Mambas, sem ter em conta os momentos difíceis e multifacetados que tem vivido o país e, por tabela, o desporto nacional. 

Uma clara desvantagem que se nos coloca nas competições continentais, é a da fragilidade naquilo a que se chama de jogo invisível. Ou seja, acção fora das quatro linhas. Quem acompanhou as nossas equipas pelo continente, sabe bem dos frequentes “imprevistos”, acção e pressão sobre árbitros e comissários da CAF, o que nos coloca em desvantagem em casa, como eternas “virgens imaculadas” que continuamos a ser. 

MUDARAM-SE OS TEMPOS
E TAMBÉM AS REALIDADES

A situação política e social no país, tem efeitos directos no desporto, bem como a acção das direcções das federações em exercício. Nesta altura, a “exportação” dos principais craques para vários países é, claramente, um factor positivo, na linha do que até fazem as grandes potências. 
Mas traz novos desafios, em especial a “gestão” da forma de cada atleta, bem como o aquilatar da competitividade de campeonatos de níveis muito desequilibrados.

Juntar os atletas apenas três ou quatro dias antes das partidas e decidir sobre o onze ideal, é tarefa extremamente complicada. Veja-se que uns actuam na França, Albânia, Portugal (no Amora) ou na Alemanha. E a decisão sobre quem, após viajar mais de 10 horas de avião, terá que ficar no banco? Estrelas como Reinildo, Mexer ou Zainadine, se ficarem a suplentes numa selecção tão mal colocada no ranking FIFA, poderá ser para eles factor desmotivador, porque objecto de “chacota” junto dos colegas. Nesse aspecto, a acção de Abel Xavier terá representado um “abanão” positivo na gestão das mentalidades, tanto as de dentro, como as de fora.

 

O PAPEL DO MOÇAMBOLA

O Moçambola deveria ser o principal suporte da Selecção Nacional. Mas não é. Com mais espaço para se discutirem modelos que se alteram anualmente e mais preocupação com as viagens do que com os treinos, a nossa competicão-mor vai funcionando ao estilo “tchova-xita-duma” (empurra que vai pegar).

Daí que o exíguo número de “seleccionáveis”, tenha como base duas razões: baixo nível na competitividade geral e presença marcante de estrangeiros nas equipas “top”, como principais desequilibradores. A partir daí, o seleccionador têm que se virar mais para os internacionais que actuam além-fronteiras – mesmo em turmas de valor secundário – para depois preencher os pontos fracos com os que actuam internamente.

MAMBAS NO RANKING FIFA

Quando Abel Xavier assumiu o comando, os “Mambas” ocupavam o 107º lugar. Moçambique conseguiu dar um pontapé na crise de maus resultados em Junho de 2017, quando em pleno estádio Levy Mwanawasa derrotou a Zâmbia, com um golo de Ratifo. A selecção ascendeu à posição 97. Porém, nos jogos que se seguiram, lapsos e desconcentrações em momentos decisivos deitaram tudo a perder. O empate amargo com a Guiné-Bissau, seguido pela surpreendente derrota diante dos namibianos, foram a “gota-de-água”.

Ao ser afastado do cargo para dar lugar a Vítor Matine, o treinador luso-moçambicano, deixou a selecção no lugar 116, isto é 9 postos abaixo da que encontrara. Refira-se que a nossa melhor classificação de sempre no ranking FIFA até hoje, foi o 68º posto, quando nos qualificámos para o CAN 96, sob o comando da dupla Bondarenko/Salvado. Em contraponto, a pior, em 2006, foi a posição 134, numa altura em que os Mambas eram orientados por Artur Semedo.

Um gráfico sobre o valor dos treinadores dos Mambas, tendo em conta as várias “nuances” porque tem passado a equipa de todos nós, e considerando, embora à distância, as oscilações no ranking dos adversários, colocaria Abel Xavier no pódio de um técnico que apesar da não qualificação ao CAN, iniciou um novo ciclo, que importa agora dar continuidade, com o registo que ele afirmou ter deixado na FMF.

 

Os destinos da humanidade estiveram sempre nas mãos dos adultos.

São eles que traçam um futuro que seguramente não será o seu,

mas sim um futuro em que nós jovens teremos de viver.

in Eduardo Paixão

 

 

Uma narrativa envolvente, daquelas que habitualmente não são inventadas na literatura moçambicana. De forma prévia, ocorre-nos dizer isto do novo livro de Agnaldo Bata, como se sabe, menção honrosa do Prémio INCM/ Eugénio Lisboa 2018.

Intitulado Sonhos manchados, sonhos vividos, o romance de Bata é uma história ao estilo O fiel jardineiro, de John le Carré (como se observa no britânico, também em Bata existe uma personagem entendida em matérias de saúde, que investiga diagnósticos clínicos, interesses por detrás disso, teimosa e muito arrojada. No caso, Gertrudes, estagiária do Instituto Nacional de Saúde). Por isso, temos nesta proposta literária um conjunto de personagens genuínas, as quais não hesitam em intrometer-se em esquemas complicadíssimos, a envolver altas autoridades.

Resumidamente, o romance gira à volta das relações de amizade entre jovens que têm sonhos comuns, entretanto muito difíceis de concretizar. Ao invés de se deixarem levar pelas dificuldades, Gertrudes (a protagonista) e os seus amigos encontram formas de viverem os sonhos sempre por acontecer. Deste ponto de vista, o livro de Bata é um romance com um peso motivacional muito forte, pois derruba os limites responsáveis por conter os desejos de as pessoas voarem para outras altitudes. Certamente, há-de ter sido esta a intenção do autor ao escrever esta história muito próxima às circunstâncias em desenvolvimento na actualidade moçambicana.

Sonhos manchados é, igualmente, uma narrativa sobre desafios, sobre os amores e desamores para com o ser humano. Macossa é o centro de tudo isso e de um sentido patriótico bem assente na juventude humilde, aquela que não tem nenhuma propriedade, afinal um roubo: “basta a miragem na propriedade para um homem decente se tornar prepotente, um tirano” (Pepetela, 1992: 74-75).

A propósito de juventude, Bata dá eco àquela velha ideia bem dita por Eduardo Paixão em Cacimbo, um dos fantásticos romances moçambicanos: “os destinos da humanidade estiveram sempre nas mãos dos adultos. São eles que traçam um futuro que seguramente não será o seu [brexit?], mas sim um futuro em que nós jovens teremos de viver”. Como que atentos à gravidade desta afirmação, os jovens de Sonhos manchados desafiam o poder político, o status quo, sem ficarem à espera das possibilidades para fazerem o certo. No meio de uma tempestade, tomam um avião entre disparos da polícia no aeroporto e voam para Macossa (Manica). Objectivo? Ir desmascarar autoridades da Saúde que inventam uma falsa febre-amarela num esquema de enriquecimento sujo, que coloca várias vidas em risco.

Sinceramente, Sonhos manchados, mesmo com este título horrível, a soar qualquer coisa de testemunho ou de biográfico (Bata poderia ter optado pelo título Macossa, simples e apropriado), só não venceu o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa 2018 porque o autor cometeu algumas falhas. Por exemplo, o exagero da coincidência. A história tem muitas personagens com mesmos sonhos, mesmas dificuldades, perspectivas de vida, afinidades, receios e etc. Aliado a isso, algumas passagens da história são pouco convincentes. É verdade que no chapa fala-se de tudo um pouco, mas parece forçada a passagem em que o cobrador Joaquim, amigo de Gertrudes, ouve no seu mini bus que técnicos da Saúde viajam numa missão secreta para Macossa. Dissemos, anteriormente, que um conjunto de jovens tomam ilegalmente um avião. Pois é, diante de uma tempestade severa, o cenário da aterragem numa pista terra batida, em Macossa, merecia melhor desenvolvimento. A impressão com que ficamos é a de que em alguns momentos a história poderia ter sido mais pausada. Atentamente, observa-se um salto de peripécias brusco do capítulo 35 para 36. Por fim, o equilíbrio do discurso narrativo destoa em alguns momentos. O júri deve ter estado atento a estas questões. Se Bata tivesse evitado estes pormenores, sem dúvida que seria o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa 2018, pois do ponto de vista de riqueza da história, imaginação e criatividade, Sonhos manchados, sonhos vividos é melhor que Saga d’ouro, de Aurélio Furdela. Mas também é verdade: parece que Furdela foi mais escritor do ponto de vista da consistência discursiva.   

 

Título: Sonhos manchados, sonhos vividos

Autor: Agnaldo Bata

Editora: Imprensa Nacional

Classificação: 13

 

 

 

Levei mais de um ano a juntar elementos que pudessem suportar a minha reflexão sobre os ataques armados em Cabo Delgado, Norte de Moçambique, até que esta semana a procuradora-geral-adjunta, Dra. Amabélia Chuquela, me deu os últimos subsídios para compor este artigo de opinião, cuja conclusão se baseia na constatação feita no terreno, das três vezes que estive no teatro das operações como jornalista, para além de conversa com várias fontes entendidas na matéria.

Como ponto de partida e para melhor entendimento, sem equívocos, gostava de trazer o excerto da entrevista que a magistrada do Ministério Público deu à STV, à margem do seminário que visa o fortalecimento da capacidade de prevenção e combate ao terrorismo, que termina hoje na cidade de Pemba, na qual disse:

“O que aconteceu nos casos dos indivíduos que foram absolvidos é que os elementos não foram suficientes. Portanto, não foram acareados elementos suficientes para levar à condenação das pessoas. Por isso mesmo que estamos a dizer que é preciso investir, e nós só podemos resolver a questão de Cabo Delgado se começarmos também a apostar e investir nos órgãos que estão aqui no terreno a fazer a investigação, a fazer a prossecução e a fazer o julgamento destes casos. É preciso que o Serviço Nacional de Investigação Criminal seja dotado de meios financeiros, económicos, equipamento que lhe permita detectar e fazer face a este fenómeno. Não se pode combater o fenómeno de ataques em Cabo Delgado de uma forma como nós temos vindo a fazer. É preciso sofisticar, dotar os agentes criminais, os procuradores, os juízes, de elementos que lhes permitam fazer face a esta situação. Estamos a ver um fenómeno que parece que está a surgir assim como que não é nada, mas se não conseguirmos controlar a tempo e não investimos exactamente na prevenção e repressão, este fenómeno poderá alastrar-se para outras províncias.”

Esta é para mim a primeira crítica directa que é feita ao Governa por uma entidade que por natureza defende o Estado – como é o caso da Procuradoria-Geral da República. E da entrevista da Dra. Amabélia, pode-se depreender o seguinte:

1.     Não há aposta no investimento para que os órgãos que estão no terreno façam uma investigação exaustiva daqueles crimes bárbaros perpetrados contra a população. Ou, se houver, pelo menos a crítica aponta para um investimento não à altura da seriedade do assunto. Se calhar seja por isso que há muitos detidos e muitos absolvidos, igualmente, por insuficiência de prova, o que, em linguagem técnica, equivale a dizer insuficiência de instrução do processo.

2.    Parece faltar meios financeiros e materiais para o Serviço Nacional de Investigação Criminal detectar os sinais operacionais dos criminosos para os descactivar antes de fazerem novas incursões. Estamos aqui no campo preventivo e não reactivo das autoridades.

3.    Há um alerta no sentido de que enquanto as coisas continuarem como estão, o fenómeno pode alastrar-se para outras províncias, visto que em Cabo Delgado esses grupos terroristas estão a incubar-se e a levarem a cabo acções terroristas, colocando em causa a autoridade das Forças de Defesa e Segurança do Estado.  

Posto isto, e estando num Estado de direito democrático, onde a liberdade de opinião e de imprensa é um dos princípios basilares, julgo importante discutirmos alguns aspectos de forma objectiva, sem, no entanto, pôr em causa a confidencialidade de assuntos de natureza militar que à luz da Lei de Imprensa configuram Segredos do Estado.

Primeiro, é pertinente salientar que o primeiro ataque a uma unidade policial não de deu em Cabo Delgado, mas sim na vila de Nametil, distrito de Mogovolas, província de Nampula, na madrugada do dia 27 de Agosto de 2017, quando dois indivíduos foram ao comando distrital fingindo querer participar uma denúncia contra um terceiro. Depois de se fazerem ao interior das instalações, tiraram armas de fogo do tipo pistola, mataram o oficial de permanência e feriram gravemente outro agente da polícia. Nesse ataque, roubaram armamento e munições.

Na madrugada do dia 5 de Outubro do mesmo ano, houve quatro ataques armados em Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado: um contra um posto policial em Auasse; o segundo contra uma unidade da Polícia de Protecção de Recursos Naturais (onde roubaram munições e armamento); o terceiro no comando distrital na vila da Mocímboa da Praia e o quarto contra um quartel militar, naquela vila, que na altura parecia meio abandonado.

Quase dois anos depois, a investigação a estes casos mostra-se pouco frutífera, a avaliar pelo facto de os ataques se alastrarem e nunca vimos os cabecilhas dessas incursões detidos, julgados e condenados, e o balanço oficial aponta para mais de 250 pessoas mortas, 130 condenados a penas de prisão maior e acima de 100 absolvidos por insuficiência de provas.

Estes últimos números provam claramente que muitos processos são mal instruídos, se calhar naqueles velhos moldes de prender para investigar, e quando faltam provas, o juiz nada pode fazer a não ser exarar um mandado de soltura ou emitir um despacho de pedido de produção de melhores provas.

Mas o que levaria uma instituição como o Serviço Nacional de Investigação Criminal mandar ao tribunal um processo sem provas? Falta de técnica de investigação ou de meios operativos para o efeito? Que condições o Estado oferece aos agentes desse Serviço para investigarem como mandam as regras?

Quando há poucos anos o Governo decidiu obrigar ao registo dos cartões de telefonia móvel, um dos objectivos era permitir que agentes de investigação legalmente autorizados pudessem ter mecanismos para localizar os criminosos a partir de simples comunicações telefónicas.

Ora, como se explica que em dois anos não se desmantele a rede de criminosos que opera em apenas sete distritos de uma província chamada Cabo Delgado? Colocado de outra forma: qual é a eficiência desse registo de números de telefones celulares? Ou melhor, sem registo do cartão é ou não possível usar esses números e descartá-los de seguida? E se isso acontece, qual é a explicação?  

Um bom piloto é considerado tal pelo número de acidentes que consegue evitar, porque, quando acontece, é, na maioria das vezes, fatal. Aliás, os médicos dizem que quando o organismo começa a ficar com as células CD4 fracas, é preciso começar o tratamento, porque esse organismo está vulnerável a qualquer doença, uma vez que as suas células defensoras foram atacadas.  

Como explicar à nação que militares sejam assassinados com a maior brutalidade? O que está a falhar no concreto? Se calhar seja a seriedade na forma de encarar este conflito.

No início deste mês, acompanhámos notícias de um ataque armado no distrito de Nangade, onde os terroristas assaltaram uma base militar e esquartejaram militares. Esta é uma afronta à autoridade do Estado e deixa desesperada a população que deposita confiança nessas autoridades.

Se no início o conflito se desenrolava em Mocímboa da Praia, Palma, Quissanga e Nangade, agora evoluiu para Muidumbe e Meluco. Como se explica que um conflito localizado, por mais complexo que seja, esteja a levar o tempo que está a levar?

Há muita presença militar no terreno? Claro! Mas será que essa é a melhor forma de combate? Hoje em dia, as guerras são tecnológicas e, se formos a ver, foram contraídas dívidas em nome da segurança do Estado, mas sucumbimos no primeiro teste de resistência. Então, de que segurança estamos a falar?

Olhando ao de Cabo Delgado, pode constatar-se que os distritos de Palma, Mocímboa da Praia, Macomia e Quissanga estão na parte costeira, o que dá uma pista bastante interessante de que provavelmente os insurgentes podem estar a movimentar-se por via marítima. Perante essa hipótese, o que é feito no concreto?

Por outro lado, se dos condenados até aqui existem estrangeiros, como tanzanianos e burundeses, aliado ao facto de o primeiro ataque ter sido em Nampula – a província que tem um grande centro de acolhimento de refugiados –, que trabalho de inteligência do Estado é feito para encontrar alguns pontos que sejam importantes neste conflito?

Enfim, o meu texto tem mais interrogações que afirmações, porque gostava um dia que alguém me desse respostas, tal como qualquer moçambicano interessado na paz quer.  

E mais do que isso, pretendo questionar o papel das instituições que nós próprios como Estado criamos.

Por fim, ao Comandante-chefe das Forças de Defesa e Segurança, gostava de questionar se conhece as reais condições de trabalho dos militares e polícias que estão na linha da frente do combate?

No futebol, quando uma equipa não ganha, o treinador é que é sacrificado. E perante o dilema de Cabo Delgado, quem se deve sacrificar?

 

A riqueza nem sempre vale o alto preço que por ela se paga.

João Salva-Rey

 

Estas coisas de nos encontrarmos com amigos inspiradores valem sempre. Há uma semana foi com o Celso. Apenas dois minutos de conversa resultaram num artigo sobre o premiado livro Saga d’ouro, de Aurélio Furdela. Desta vez, a conversa durou menos tempo – 30 segundos no máximo –, e foi com o meu colega Emídio, um tipo igualmente apreciável. A seguir, conto-vos como o episódio ocorreu.

***

A página do word 2013 que abri no hp permaneceu longos minutos em branco. Poucas vezes isso acontece-me. Geralmente, sento-me diante do computador já com uma ideia sólida sobre o que pretendo escrever. E aí a escrita acontece espontaneamente. Na última sexta-feira à tarde a coisa foi diferente. As palavras passearam distantes de mim. Então, estando ainda na Redacção na qual trabalho, decidi chamar um tipo lúcido para lhe fazer um pedido simples. Foi assim: – Emídio, sugere-me lá uma palavra para que eu inicie um artigo sobre a peça do Mutumbela Gogo em exibição no Teatro Avenida. Naturalmente, antes de se aventurar em qualquer tentativa de resposta, o meu colega fez-me a seguinte pergunta: – Sobre o que trata a peça? Respondi-lhe num ímpeto: – É A história de um homem honesto, um espectáculo sobre um personagem que não se deixa corromper e que… O Emídio não me deixou terminar. De maneira quase atroz, interrompeu-me às gargalhadas, dizendo: – Esquece-me lá, oh Remédios. Se é uma peça sobre um homem honesto eu não sou a pessoa certa para te ajudar. Fim da conversa… e da página em branco.

Mal o Emídio disse-me aquilo, ocorreram-me algumas questões: – Será que o meu colega não é um homem honesto? Ou a honestidade dele está mesmo na humildade de se julgar incapaz de mim ajudar no que lhe pedi? Daí não adveio nenhuma resposta. E nem era suposto. Então resolvi rever o espectáculo do Mutumbela Gogo de memória, o qual, essencialmente, narra a história de Zeferino Fanequisso (Jorge Vaz), que, farto da pobreza, se lança do campo para a cidade grande a fim de buscar melhores oportunidades. No espectáculo, Zeferino Faniquisso é o único homem honesto do universo, por isso um alvo a abater. A namorada/mulher, os colegas, o patrão e a polícia julgam-no um aparvalhado problemático, por não corromper e, sobretudo, por não se deixar corromper. Logo, as suas relações na cidade tornam-se complicadas. Aí entendi tudo. Talvez essa tenha sido a razão do Emídio não querer falar de honestidade, pois referir-se aos honestos, de algum modo, pode implicar citar os desonestos. Na verdade, este é o cenário da peça teatral do Mutumbela. Com os holofotes direccionados a Zeferino, enxergamos os comportamentos, escolhas e receios do personagem, bem como os oportunistas à sua volta no espaço urbano.

Sem rodeios, A história de um homem honesto, adaptada do texto original do autor sueco Henning Mankell, que viveu em Moçambique, é um espectáculo que sugere as razões de a decência estar a tornar-se numa praga no país. Ou seja, se antes as pessoas sensatas uniam-se para combater os corruptos, estes, actualmente, é que se unem para eliminar os decentes. Pelo menos esta é a abordagem da peça que também tem o gigantesco Filipe Branquinho em cena, um dos meus actores preferidos.

Ora, uma das personagens que mais me chamaram atenção na peça foi a mãe do homem honesto (Eunice Mandlate). E justifico. Quando Zeferino deixa a sua aldeia, a mãe, depois de tanto tentar impedir a viagem do filho para a cidade, sem sucesso, obriga-lhe a jurar manter-se íntegro. Conhecendo os vícios da cidade, a velha do campo inventa uma mentirinha de que, caso Zeferino se deixasse levar pela imoralidade, iria magoá-la com fortes dores de cabeça. Isto quer dizer que, embora separados pela distância, mãe e filho estariam conectados. Se Zeferino agisse bem, a mãe seria uma mulher feliz. Se agisse mal, sofreria. Este episódio faz diferença na história, pois mantém o protagonista num determinado percurso – de propósito não digo qual é, mas sempre sugiro. Diante das tentações citadinas, Zeferino ajuda, é aldrabado, humilhado e injustiçado, todavia não perde os seus valores. Continua focado, firme na ideia de sempre agir bem.

Fundamentalmente, há pelo menos duas questões em causa na peça do Mutumbela Gogo. Primeiro, A história de um homem honesto desconfigura a cidade enquanto espaço ético, de convivências autênticas. Partindo de experiências concretas, como as que envolvem os subornos na via pública ou os desvios de fundo do Estado, o espectáculo teatral revela como Moçambique vai-se desintegrando na qualidade de um projecto de desenvolvimento para o benefício dos moçambicanos. E mais, A história de um homem honesto descreve-nos a cidade como o centro dos conflitos, da discórdia, do ódio, da ganância, da hipocrisia e do vale tudo para enriquecer ilicitamente. Todos sujeitam-se a receber luvas em troca de uma ajudinha qualquer, menos Zeferino. O homem honesto é o único que veemente resiste ao enriquecimento abominável, afinal ninguém mais consegue compreender a velha frase bem dita no romance kufemba, de João Salva-Rey: “a riqueza nem sempre vale o alto preço que por ela se paga”. Desde o princípio, Zeferino resiste a pagar ou a receber o que não deve. Logo, recusa como quem combate o vírus por detrás de uma enfermidade que penhora o futuro de gerações de moçambicanos.

Em segundo lugar, num cenário asqueroso a envolver os donos da cidadania, como calha em Hinyambaan, de João Paulo Borges Coelho, Mutumbela Gogo conduz o seu público para onde resiste a esperança de Moçambique: o campo, por lá a palavra “moral” ainda fazer algum sentido. A mãe de Zeferino é a síntese disso. Daí, mesmo sem marido, educar o único filho para ser gente, muito acima da presunção.

Esta versão d’A história de um homem honesto não é dos grandes espectáculos do Mutumbela Gogo – entretanto ninguém perde alguma coisa por ver. Pelo contrário, ganha por se conectar com a realidade. Quase sem adereços em cena, a obra centra-se mais na mensagem a transmitir em “detrimento de tudo o resto”. Zeferino é o verdadeiro centro da peça, o que permite Jorge Vaz destacar-se como quiser. O mesmo não acontece com a personagem Júlia (Silvana Pombal), mulher de Zeferino, ou mãe de Zeferino (Eunice Mandlate), que, para mim, deixaram escapar algum brio na performance, mesmo sem terem actuado mal. Também achei a encenação algo pouco surpreendente, se quisermos, calculável. Como já vi várias peças do Mutumbela e li e ouvi muitas histórias sobre os movimentos campo-cidade, o deslumbre foi-se escasseando. Tal afirmação não faz de A história de um homem honesto um péssimo trabalho. Longe disso. É espectáculo razoável ou então necessário.

Seja como for, o exercício concebido como que a influenciar atitudes tem a virtude de ser uma chamada de atenção pontual, de modo a penetrarmos no âmago do país, de olhos abertos, e de nós próprios como condição para recuperarmos algo perdido lá atrás.

 

Título: A história de um homem honesto

Autor: Mutumbela Gogo

Teatro

Classificação: 13

Coube-me a tarefa de apresentar três estudos, cujo denominador comum entre os mesmos é a discussão em torno do cânone literário em Moçambique ou do cânone literário moçambicano. Confesso que me senti como alguém a quem pregaram uma partida, dada a responsabilidade que o exercício exige. Mas porque a apresentação de livros pressupõe um exercício de aprendizagem, decidi não perder a oportunidade de ficar a saber alguma coisa sobre um tema tão importante quanto controverso para o nosso sistema literário como é a questão do cânone. Não sei, por isso, se vou, de facto, apresentar os livros, ou se apresento as inquietações que estes despertaram em mim, ou ainda um pouco das duas coisas.

Devo começar, para fechar esta introdução, com a leitura de duas formulações trazidas em dois dos livros e que, quanto a mim, evocam outro debate, surgido, pelo menos, nos anos 40 do século passado e que viu registado na Imprensa da década de 80 o seu momento alto: falo do debate sobre a nacionalidade literária, no qual a Professora Ana Mafalda Leite foi uma das protagonistas. Mas então que formulações são essas, evocadoras desse não esquecido debate? Refiro-me ao facto de Vanessa Pinheiro, no título do seu livro, falar do […]Cânone Literário em Moçambique, e das três autoras, no livro que organizam, falarem do Cânone Literário Moçambicano.

Se, no caso do cânone literário em Moçambique podemos supor que não é exclusivamente do cânone gerado pelo sistema literário moçambicano que se pretende falar, mas sim, eventualmente, da manifestação de outros cânones com que o ambiente cultural moçambicano manteve contacto, como é o caso do cânone português, já no segundo caso, do cânone literário moçambicano, parece ficar claro que é acerca do cânone gerado pela literatura moçambicana como sistema que se pretende abordar, ou seja, um cânone gerado da relação autor-obra-leitor, como propõe o teórico brasileiro Antonio Candido, citado pelas autoras. Estas formulações constroem, como o fizeram outras do já referido debate (poetas de Moçambique, poesia moçambicana, literatura em Moçambique) um espaço de ambiguidades teóricas e práticas provavelmente insolúveis e que, por isso mesmo, exigem tomada de posições claras e fundamentadas de quem pretenda dar uma resposta à problemática do cânone. Ao ler estes livros, e sobretudo no que ao cânone diz respeito, fiquei com esta sensação, a sensação de estar perante um terreno movediço, mas, ao mesmo tempo, atraente.

 

Primeiro afloramento

Comecemos então com os Ensaios Teóricos e Estudos Sobre Literatura Moçambicana, de Ana Mafalda Leite. Ao lermos a nota que a autora coloca para abrir o livro, percebemos o iminente contacto, tal como defendem Wellek e Warren (1949), com um estudo sistemático e integrado da literatura moçambicana. De facto, ao lermos o livro, entendemos que a autora nos apresenta um estudo sobre a literatura moçambicana a partir dos três domínios recomendados por Wellek e Warren, a saber: o teórico, o crítico e o histórico. É verdade que, tal como estes dois autores avisam, estes domínios, não sendo necessariamente exclusivos entre si, podem e devem complementar-se, seja qual for a perspectiva de análise dominante, se teórica, crítica ou histórica. Destacamos, entretanto, o facto de na obra de Ana Mafalda Leite haver uma intenção declarada de os abordar de forma particular, facto que não deixará de atestar a longa experiência da Professora no estudo da literatura e da literatura moçambicana, como aliás já fizemos referência.

Ensaios Teóricos e Estudos Sobre Literatura Moçambicana é um livro dividido em duas partes. A primeira, teórica, faz uma espécie de dissertação sobre as teorias pós-coloniais. A autora aponta as controvérsias criadas pelas diferentes designações do termo «pós-colonial», muitas vezes colocadas entre os extremos epistemológico e cronológico. Ou seja, há uma confusão gerada pelo termo se pensado, na esteira de Leite (2013), como ideia que se refere aos efeitos culturais da colonização, independentemente de qualquer marco cronológico, e, em contrapartida, como termo que procura demarcar as literaturas surgidas de países recém-independentes, como é o caso da literatura moçambicana. Nesta parte do livro, coloca-se também a questão da relação entre o termo «pós-colonial» e o domínio de estudos literários designado estética da recepção, considerando o movimento da Globalização, que tende a rasurar o sentimento local. Esta parte do livro aborda, ainda, a relação entre a pós-colonialidade e os modelos críticos baseados em representações orais. A literatura oral é também aqui discutida como um factor importante para se (re)pensar a questão do cânone. A relação, os contactos entre a ficção, a História e a Memória são também abordados nesta parte do livro.

A segunda parte do livro de Ana Mafalda Leite trata da História da literatura moçambicana. É uma questão ainda não resolvida. A autora evoca Almiro Lobo e Francisco Noa, outros autores que se têm debruçado sobre a matéria. É neste diálogo entre o seu próprio trabalho investigativo e o de outros autores, que a autora sugere alguns tópicos para a escrita da história da literatura moçambicana, nomeadamente:

  1. O papel do missionário João Nogueira e a literatura de viagem.
  2. A introdução da tipografia, em 1854.
  3. A literatura surgida do contacto histórico com outros sistemas literários, como é o caso da literatura portuguesa.
  4. Os manuscritos sobre Moçambique, enquanto contributo da Literatura de Viagens.

Como dissemos, a obra de Ana Mafalda Leite é também analítica, debruça-se sobre autores já canonizados, como são os casos de Luís Bernardo Honwana, José Craveirinha, Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, Eduardo White e outros autores que, quanto a nós, poderão fazer parte do cânone se forem integradas na equação da canonização outras variáveis, conforme nos dizem os ensaios de Artur Minzo, Sara Jona, Aurélio Cuna, Vanessa Pinheiro e Giulia Spinuzza. São esses autores Rui Knopfli, Filimone Meigos e Adelino Timóteo. De qualquer forma, ao abordar estes autores, Ana Mafalda Leite realiza umas das variáveis evocadas para a canonização de um autor, os estudos de recepção. E, nessa variável, poetas como Rui Knopfli e Filimone Meigos não são avaros de um olhar especializado sobre a sua produção. Refiro-me, por exemplo, aos estudos do ensaísta Francisco Noa.

A segunda parte do livro de Leite trata ainda de novíssimos autores que este novo século deu a conhecer, reflexo do dinamismo editorial que se assinala, pese embora Vanessa Pinheiro considere essa dinâmica ainda fraca, e com razão, se quisermos comparar com outros sistemas literários. É nossa convicção que a atenção que Leite dedica a esta geração, com particular destaque para Hirondina Joshua e para a presença da voz feminina na poesia moçambicana, indicia um gesto que, decerto, se prolongará no futuro. De resto, não é novidade este interesse por parte da autora em relação às novas gerações de escritores moçambicanos: Chagas Levene e Celso Manguana são alguns dos autores já tratados pela autora noutras abordagens. Todavia, esta geração, à qual apelido de Geração XXI, permanece candidata ao cânone. Trata-se, naturalmente, de uma candidatura, pois a sua canonização não depende apenas das análises que sejam feitas, como veremos adiante. Adivinho, entretanto, que o trabalho teórico, analítico e de enquadramento histórico que Leite nos oferece é um contributo valioso para se (re)pensarem as lógicas e utopias do cânone literário moçambicano, na medida em que promove um aparelho teórico que, equacionando a relação que a nossa literatura escrita estabelece com outros sistemas literários e com o nosso universo da oralidade, procura construir uma ancoragem, uma concepção teórica, crítica e histórica ajustada à ficção moçambicana. É preciso dizer, entretanto, que a autora não prescreve nada; pelo contrário, há aqui um processo de reflexão contínuo em que os textos literários são vistos, na esteira de Ana Maria Martinho, como fenómenos culturais intensivos, isto é, como modeladores, eles próprios, no jogo da intersubjectividade, da sua própria natureza, sua teoria, sua história e sua crítica. De outra forma, diríamos que, ao lermos o pensamento de Ana Mafalda Leite, neste livro, ouvimos a voz reorientadora de Lévi-Strauss ao dizer que não são as pessoas que falam através dos objectos, mas estes que falam através das pessoas.

Segundo afloramento

Vanessa Pinheiro apresenta-nos o A Formação do Cânone Literário em Moçambique. Trata-se de um livro dividido em três partes. Na primeira parte, a autora representa o cânone como produto da História das sociedades e, por via disso, reflexo de valores e ideais – políticos, ideológicos – variáveis ao longo do tempo. Ou seja, cânone que se constrói e desconstrói política e ideologicamente, é determinado por “representações socioculturais que lhe são subjacentes do que no texto propriamente dito”, razão por que, no sistema literário moçambicano, como decerto acontece noutros sistemas, temos escritores esquecidos, por não se ajustarem a essas determinações históricas. Mesmo tratando-se da sua ausência (do cânone), esta deve ser entendida como uma construção sociocultural, isto é, sistémica. Ora, julgamos que isto equivale a dizer que o cânone existe à revelia da própria vontade política, é condição existencial de qualquer sistema literário consolidado ou em vias de consolidação, como é o moçambicano. O facto de Moçambique não ter ainda um Plano Nacional de Leitura não significa que o cânone não exista, obviamente, mas que esse cânone não é revisitado, questionado, reconstruído, penso que estamos todos de acordo. Sara Jona, por exemplo, mais adiante, ajuda-nos a perceber que o cânone estabelece uma relação umbilical com o projecto de Nação que se pretenda criar, com os níveis de desenvolvimento humano que se pretendam atingir, enfim, com o tipo de moçambicanos que pretendemos ser neste século de muita perplexidade. Percebe-se ainda, das abordagens de Vanessa Pinheiro, que o cânone acaba por corresponder a um processo natural de sucessão entre antigos e modernos, velhos e novos, imponham-se os entraves que se quiserem impor.

Depois de abordar, genericamente, as características do cânone, Vanessa Pinheiro volta o seu olhar para o cânone africano e obriga-nos a pensar num cânone que se funda a partir da representação das tradições. Trata-se aqui da valorização das identidades das nações novas. José Craveirinha, num texto em que acusa Rui Knopfli de constantemente deitar-lhe à cara o seu Mozart («Mozart e Fani Fumo», de 1970) diz-nos o seguinte: «E no entanto / eu compreendo ao longe Mozart / mas sinto mais o que me diz Fani Fumo / e o que Miriam Makeba canta. // E / Constantemente / entro em diálogo com a magia dos tambores. / E tu?»

Como o poema de Craveirinha pode sugerir, definir o cânone moçambicano passará, como já o tinha referido Ana Mafalda Leite, por lançar o olhar sobre o universo da nossa oralidade, lançar o olhar sobre as formas da literatura oral enxertadas na literatura escrita ou vice-versa. Este ideal de resgate, entretanto, tem estado a dinamizar uma incursão pelo exotismo vendável na Europa e noutras partes do mundo, quase mesmo beirando o «exotismo de fachada», como o próprio Rui Knopfli classificaria, em 1974, a incursão pela cor local destituída da alma e da vibração dos seres e lugares representados.

A nova geração de escritores moçambicanos tem estado a olhar para esta questão com alguma desconfiança, destacando que esse ideal identitário tradicional quase extremista acaba por comprometer o valor estético da obra literária, numa alusão insistente e valorativa em relação à forma de escrita e ao tratamento dos grandes temas da humanidade. É por essa via que esta geração se mostra mais preocupada com um cânone internacional onde ela se possa situar e ser aceite universalmente, e, para o efeito, vai-se credenciando pela referência a grandes nomes da literatura dita universal, quer nos textos, quer em entrevistas ou simples opiniões. Trata-se, enfim, de um velho debate que a construção do cânone deve acautelar, sobretudo se se considerar um sistema literário em renovação, como é, sem dúvidas, o caso do moçambicano.

Vanessa Pinheiro debruça-se também sobre a formação dos sistemas literários em Angola e Moçambique, sinalizando o livro Espontaneidades da Minha Alma, de Maria Ferreira, como marco, no século XIX, da formação do sistema literário angolano. Em Moçambique, já no século XX, a autora destaca o poeta Rui de Noronha. O papel da Imprensa como instrumento de canonização também é abordado pela autora, tal como o fazem, como veremos, Aurélio Cuna e Ubiratã Sousa. Vanessa Pinheiro cita autores como Noémia de Sousa, Marcelino dos Santos ou Kalungano, José Craveirinha, Rui Nogar, Orlando Mendes, cujos processos de canonização se iniciaram na Imprensa.

A questão da transnacionalidade também interessa a autora. Para tal, ela analisa as obras de Rui Knopfli, Mia Couto e Ana Mafalda Leite para afirmar, com Rita Chaves, que «no interior da engrenagem colonial [o escritor está condicionado] a enfrentar a fatalidade de viver entre dois mundos». Esta afirmação obriga-nos a reequacionar a questão do cânone, tendo em conta sobretudo o que Lúcia Liba Mucznic chama de «um certo sentimento íntimo». Adivinho que este sentimento seja um elemento integrador, independentemente do debate sobre a questão da nacionalidade literária ou de todas as questões extraliterárias que para esse debate concorrem, como a cor da pele, o lugar de nascimento, a filiação política, etc.

À segunda parte do livro, Vanessa intitula «A voz dos autores». Nela perpassam entrevistas com escritores já canonizados e outros que não ou ainda não. E as questões são várias e diversificadas, como por exemplo:

  • o sentimento de que Moçambique ainda vive um processo de descoberta, de autoconhecimento e de busca de um projecto como Nação;
  • o sentimento de que a internacionalização da obra/autor moçambicanos, no quadro da Globalização, se faz numa relação tensa com o projecto de imaginar, tradicionalmente, a Nação;
  • a acusação feita a Portugal e Brasil como países que irradiam todo o comércio externo ligado à literatura produzida pelas ex-colónias africanas falantes do Português e o desconhecimento dos autores da CPLP entre si – seus textos – assunto discutido no Festival de Literatura Resiliência 3, cujo lema era exactamente «mobilidade no espaço da CPLP»;
  • a questão da canonização: que critérios consagram um autor, visto que há escritores que pouco publicam e continuam canónicos: o cânone é dinâmico ou estático, como é que uma obra entra, se mantém ou sai do cânone?
  • o tom acusativo à falta de uma política do livro e um plano nacional de leitura: não se faz um cânone sem distribuição, divulgação e promoção do livro e da leitura;
  • o tom acusativo às editoras, pelas suas escolhas, quantas vezes questionáveis: em rigor, não existe um cânone de autor, mas de obras de autores: trata-se de reposicionar o que interessa quando se fala de literatura, as obras fundamentalmente e não os seus autores.

A terceira parte do livro intitula-se “O outro lado do cânone”. No nosso entender, o outro lado do cânone podem ser muitos lados, como por exemplo, o lado perverso de uma crítica demissionária em relação ao que a nova geração de escritores moçambicanos vem produzindo: uma geração a contar com mais de dez anos de publicação e a quem verbalmente se lhe reconhece o mérito, não só como depositária das gerações anteriores, mas também como garantia da manutenção da marca de qualidade que, de uma forma geral, se reconhece à literatura moçambicana. Este reconhecimento é feito inclusivamente internacionalmente.

Este lado de um silêncio perverso da crítica, entretanto, deve ser entendido também como a incapacidade sistémica de produzir mais e novos críticos: cada cânone produz os seus teóricos, os seus críticos, ou, dito de outra forma: tendencialmente, os críticos de determinado período histórico produzem o cânone respectivo. É desejável que o crítico literário adopte uma perspectiva mais diacrónica no seu amoroso exercício de falar sobre a nossa literatura, mas mais desejável ainda é que a nova geração de escritores produza também os seus teóricos. Lembremo-nos que o cânone é também uma questão estética, de gosto e estes não se discutem; mas podem ser ensinados.

Penso que é preciso, isso sim, questionar as instituições ligadas ao ensino do jornalismo, se estão de facto a formar jornalistas para as artes: a «Gazeta de Artes e Letras», da revista Tempo, é um exemplo de provas dadas de que é possível falar das artes moçambicanas, discuti-las. Estávamos então na década de 80, tempo em que se buscavam referências para a ideia da moçambicanidade e então produziu-se o cânone que temos hoje – para recordar, uma vez mais, o papel da Imprensa. Vanessa Pinheiro traz-nos, neste outro lado do cânone, Amosse Mucavel, Mbate Pedro, Andes Chivangue, Sangare Okapi e Hirondina Joshua. Será esta a antecâmara dos canonizáveis? Espero bem que sim.

Terceiro afloramento

O livro Seis Reflexões em Torno do Cânone Literário Moçambicano, organizado por Ana Mafalda Leite, Sara Jona e Vanessa Pinheiro discute a questão das variáveis a levarem-se em conta na formação do cânone. Efectivamente, o cânone literário moçambicano é visto como produto do ensino: aí, deverá promover a diversidade cultural moçambicana, o que, segundo Sara Jona, não acontece. Digamos que entraríamos aqui para a função pedagógica do próprio cânone. Entretanto, Artur Minzo entende que é possível construir o cânone virando a atenção para a sua função estética, considerando os diferentes períodos, épocas, gerações literárias, movimentos ou correntes ideológicas ou filosóficas. É interessante notar que Minzo admite a convivência, na escola, de textos canonizados com os não canonizados, uma relação difícil entre o velho e o novo, entre o tradicional e o moderno, facto que denota que o cânone se constrói a partir de um processo natural e lento de conhecimento e substituição pelas instâncias legitimadoras.

O cânone literário moçambicano também pode ser visto como produto da Imprensa: Aurélio Cuna justifica que a falência do processo de canonização radica na demissionária actividade jornalística. Este é também o enfoque de Ubiratã Souza. Hoje, escasseiam os suplementos culturais, as páginas e revistas literárias de qualidade, diga-se. O mundo da Internet em que vivemos acaba, ele também, por substituir as instâncias de legitimação por um hiperindividualismo que concebe, produz e difunde conteúdos que se pretendem esteticamente literários, mas falhos de um olhar esteticamente educado e experiente. Se calhar, com a Internet ou mundo virtual, entramos para um processo de pseudocanonização, mercê da visibilidade instantânea e da suposição do mérito.

Vanessa Pinheiro, entre outros aspectos, questiona de onde vem o discurso da canonização, se de dentro ou de fora. Isto é particularmente interessante porque pode significar que há autores canonizados entre-lugares e não em Moçambique, autores reconhecidos em outros quadrantes e não em Moçambique, basta nos lembrarmos que uma autora como Paulina Chiziane foi inicialmente ovacionada fora e só depois em Moçambique; aliás, já diz a sabedoria popular que “santo de casa não faz milagres”. Haverá algures, então, um cânone literário internacional respeitante à literatura moçambicana e à procura do lugar de poiso. Esta espécie de cânone diaspório resulta, para a autora, de outros factores internos de Moçambique que é preciso rever: a rede do mercado livreiro – temos livrarias a fecharem e não a abrirem –, a dinâmica editorial deficiente – fraca distribuição do livro e existência de poucas editoras, entre outros factores.

Giulia Spinuzza chama a atenção para o facto de o cânone da literatura moçambicana estar a ser construído como elemento da construção da Nação, ou seja, muito arreigado ao passado colonial em relação ao qual é necessário desmistificar ideológica e politicamente: é preciso exorcizar as mentes, afim de não permanecermos ou cairmos nas malhas de uma espécie de canonização maniqueísta.

Obrigado!

Xindau chegou, devagar, silencioso, como o ar antes de ser vento. Xissena, num gesto feminino, puxou a capulana de pouca cor e cobriu os joelhos. Estava sentada, entre o sol pardo e o chão resignado, sobre uma esteira de palha antiga, único bem que pôde resgatar da fúria recente do vento, das águas e dos espíritos, com os filhos ao colo, impotente às chapas paredes da sua casa a serem sentenciadas pela tempestade. 

O chão gretado estalou. Eram as lascas quebradiças de terra a cederem às pisadas de Xindau. Xissena percebeu a presença mas não olhou para trás. Deixou-se estar na esteira, o olhar no chão, no entrelaçado da palha antiga, na mosca sobre o prato metálico vazio, na sombra fria do homem. 

Os filhos cederam ao olhar da mãe e afastaram-se como as águas deveriam ter recuado, no dia em que, com as crias e a esteira ao colo, ela ancorou-se num galho a gritar rezas insultuosas aos deuses.
Levantou-se, deixou o cansaço no chão. “Uma mulher não se cansa, minha filha”, ecoou o conselho da mãe. O joelho estalou com o esforço guindaste de erguer o corpo, a coluna chiou quando se baixou para recolher a esteira. Deslizou para um espaço entre estacas firmes, que antes das cheias fora o interior da casa. Estendeu a esteira sobre as chapas para a reconstrução. Deitou-se, sem olhar para o homem, não na posição de se dar, mas na de se deixar levar.

Ouviu-se o som do desabotoar urgente, da fivela do cinto, dos atacadores e da ganga das calças a friccionarem as pernas até aos joelhos. Xindau deitou-se sobre Xissena. Ela não sentiu o peso do homem, sentiu arrepios quando sombra fria se aproximou, com a lentidão voluptuosa das nuvens escuras que, naquele dia, trouxeram o vento que trouxe a chuva que veio com as águas do mar que molharam tudo.  O coração saltou. Apetecia-lhe levar a esteira e as crianças ao colo e fugir. Xissena fechou os olhos e o rosto.

Aos poucos inundada de suor como as águas inesperadas que vieram com a tempestade. Os dedos sulcavam desesperadamente o chão da esteira. O corpo balançava. As chapas de zinco sob a esteira chiavam: txim!, txim! Sob a tempestade Xissena corria, nadava, gritava, engasgava o grito: socorro!, mas não chorava, não fossem as lágrimas aumentar as águas muitas da inundação.

Quando o vento, a chuva, o mar e o rio, amainaram a fúria, as chapas deram o último demorado gemido: txuiiiim! Xindau desfaleceu, ofegante, sobre o ombro travesseiro de Xissena. 

Xindau abotoou as roupas que se colavam ao corpo húmido. Vestiu o colete da instituição que cuida das vítimas. Empurrou com o pé, para perto do corpo deitado de Xissena, os sacos trazidos há pouco. Ela reconheceu o óleo, a farinha, o sabão, outras embalagens de coisas urgentes e a escrita: “Gestão de Calamidades”. Puxou a capulana, cobriu-se, ficou deitada a ver a sombra de Xindau, abotoando-se, a afastar-se como as águas e o vento pós estrago recolheram para o rio… para mar. 

Xissena cobriu-se com a capulana. Xindau foi-se embora, devagar, silencioso, como o ar depois de ser vento.    

 

Estreou-se em livro próprio em Espelho dos Dias. Volvidos 33 anos, conta já uma dezena de livros. Todos a marcarem o traço de um poeta que quer conjugar todas as possíveis funções da poesia, sendo profundamente influenciado pelo tempo que vive

Há uma ilustração, assinada por Gemuce, em Muery: elegia em Si maior (Cavalo do Mar, 2019) que pode ser vista como uma metáfora da carreira literária de Armando Artur. O risco começa ensombrado, como se fosse um vulto, ganha contornos de esboço, expressão melancólica, depois é tingido de outras cores, menos tristes, e há um feixe de luz, de sorriso. É no processo destas quatro páginas, que nos faz chegar à ilustração definitiva, que está a metáfora de um artista sempre a procura do traço certo, do melhor verso, tingir de vida ou de morte a pena para o melhor poema, melhor livro de sempre, como se fechasse os olhos para todos os outros, e quisesse, a cada novo livro, superar todos os outros livros próprios.

Espelho dos Dias (AEMO, 1986) foi lançado em um tempo que ainda se celebrava a literatura. O prelo ainda expelia 3000 exemplares por obra. Agora, as editoras tiram em média entre 200 e 500. Estes números parecem levantar a bandeira do fim de uma época de leitores e com eles também de escritores. Jurgen Habermas já havia avisado numa entrevista ao El pais que não pode haver intelectuais se não há leitores. Onde se lê intelectuais se lê também escritores, jornalistas ou qualquer artista que faz da palavra um exercício de pensamento, de reflexão, de contestação, de expiação, de exorcismo, de catarse.

 A poesia de Armando Artur é sobre isso, mas se o quisermos colocar em um tempo, não há-de ter poiso fixo, é um pêndulo sempre em movimento, a apontar ao passado, presente, futuro.

Moçambique ainda aprendia a caminhar pelos próprios pés, vivia a euforia da vida em nome próprio, quando eclodiu a guerra-civil. Outra vez, o desencanto, almas angustiadas, outra vez seria preciso viver de futuro. É este estado de alma que captamos no primeiro livro, mas também nos outros, com os contextos que se lhe seguiram e impuseram. Afinal, o artista não se faz fora do seu meio, do seu momento/tempo, do estado de alma de uma sociedade de que também faz parte. Por isso há em Armando Artur, quando olha para fora, e muitas vezes olha para fora, aquela poesia socialmente comprometida, que vale também por ser emocional, reflexiva, que se adensa no ritmo e nas imagens, a negar apenas a arte pela arte. Porque entre o dilema de arte pela arte ou uma poesia politica e socialmente engajada, Armando Artur coloca-se numa ménage à trois ou à quatre, o autor quer conjugar todas as possíveis funções da poesia, a estética, a social, a espiritual, colocando achas na fogueira que ajuda a ultrapassar o frio da noite, de Deus, e ajuda a chegar a um novo dia. “é urgente inventar/novos atalhos/acender novos archotes/ e descobrir novos horizontes”, (pág. 44). E o poeta, o artista, podemos ler nas entrelinhas, é o cicerone nesta romaria, como se anunciou em Zambezia, 2061, de Alain Kamal Martial, com Lucrécia Paco.

 O sujeito poético na obra arturiana, que talvez não pareça distante da pessoa, como se fossem faces da mesma moeda, o mesmo que se diz sobre Sophia de Mello Breyner, tantas vezes invocada por Armando Artur, sonha, incentiva a sonhar, ajuda a sonhar. “As manhãs sobem/ como um grito de esperança”.

A cada livro, sem intervalos constantes, porque – ele mesmo disse-o um dia – não escreve a pensar exactamente num livro, o poeta atesta que o homem é o barro do tempo, é moldado pelo contexto. Não se trata apenas de reflecti-lo como se fosse o poema uma sala de espelhos, mas de olhar o homem dentro destes contextos. O autor acompanhou os sonhos que animaram a luta, o desencanto de uma nova guerra, as mortes, muitas mortes, outra vez a esperança e foi neste tinteiro que colocou a pena, sempre com o homem – o antigo e o novo – em linha, interpelando-lhe a conduta, exemplo maior é Os Dias em Riste (AEMO, 2002). A poesia de Armando Artur, como notava Ana Mafalda Leite, parece também viver deste compromisso conciliatório sobre a conduta humana, de que a temporalidade se investe.

O “eu” em Armando Artur é uma confluência de muitos “eus”, que se tornam “nós”, a tentar buscar o real, o essencial do ser humano, algumas vezes raiando o filosófico, questionando o lugar do homem na sua dimensão singular na órbita da nação humana. “Quando digo eu/ Somos nós todos num só/Porém em mim próprio. /Pois sou mais ou menos igual/Ou diferente do próprio eu.” (Artur, 2007: 61).

E o tempo, enquanto manhã, tarde, noite ou enquanto presente, passado, futuro, quase sempre presente na poética arturiana, serve para dizer sempre mais do que isso, é sempre uma metáfora por escavar, o mesmo acontece-se-lhe com a natureza. “Amanheceu. Dia brilhante./Oferenda divina. Urgência de re-partir/Todavia chove dentro de mim.  (Copiosamente!)” (Artur, 2007:34).

Armando Artur sempre estabeleceu relação com outros artistas, do seu tempo ou os que há muito já haviam reformado da pena e da vida. Esta “interpelação”, ora era feita em epígrafes, ora em dedicatória, ora em títulos, mas algumas vezes deixando que o leitor as ausculte.

(…) A poesia está na vida, / nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos, /(…) A poesia está na luta dos homens,/está nos olhos abertos para amanhã.” São versos de Mário Dionísio, poeta português, que em muito dizem também da poesia de Armando Artur.

Entre o primeiro e o último livro de Armando Artur volveram-se 33 anos, 8 obras entre eles, entre eles também já se anunciava a ideia de poema-livro, Os dias em riste (AEMO, 2002) e no coração da noite (Texto Editores, 2007) são dois exemplos; a reinvenção da pedra (Cavalo do Mar, 2018) está ainda mais próximo desse registo. Mas Muery: elegia em Si menor, talvez também porque o género pede, esta ideia está ainda mais patente. É um livro que pode ter começado a ser escrito em As Falas do Poeta (Texto Editores, 2014), com o texto ‘Estes dias sem ti Milena’, que acaba, de qualquer das formas, sendo uma ante câmara desta elegia, um monumento a tragédia que é a vida em contra-mão de toda a esperança que apregoamos.

 

 

Salvar a história, seja onde for, impõe a liberdade
de escolher ser livre ou sujeitar-se ao sacrifício.
Adelino Timóteo

Há dias encontrei-me com um velho amigo, que me perguntou: “então, José, e a crítica a Saga d’ouro? O que achaste do livro?” Bem, o Celso, o velho amigo, já havia lido a obra distinguida com o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa 2018, no entanto, ainda assim, queria saber qual era a minha opinião sobre o novo romance de Aurélio Furdela. Bem, a primeira coisa que me ocorreu foi: “como este tipo sabe que li o livro?”. Na verdade, naquele mesmo dia, eu acaba de terminar a leitura, e, portanto, tinha o que lhe responder. Fi-lo de forma fragmentada, afinal sempre há conversas predestinadas a durar dois minutos do máximo. E se descontarmos o tempo da saudação, da pergunta – o Celso é sereno: fala muito vagarosamente –, devo ter respondido nuns 37 segundos. Ao fim desse período, cortei a conversa e o ensaísta foi exercer o jornalismo. Mas ficou a promessa, responder-lhe nesta coluna: “Outras margens”. Então, cá vamos nós.

Camarada Celso, conforme disse-lhe há dias, naquele encontro instantâneo, apreciei o livro do Furdela. Sinceramente, surpreendeu-me do ponto de vista do enredo e, principalmente, do discurso narrativo. Acho que estava à espera de outra coisa. Saga d’ouro está um livro bom de se ler, simultaneamente suave e complexo. Deve-se ler com muita concentração, sobretudo porque as personagens são relativamente parecidas e, como têm nomes particulares, esses diferentes de José ou Angélica, muitas vezes, até confundem.

Como bem sabes, camarada, afinal terminaste a leitura antes de mim, nestas 129 páginas Aurélio Furdela conduz-nos ao presente da história dos moçambicanos – cidadãos de África e do mundo –, por via do passado. Ao proceder assim, o autor vai buscar algures um mambo, soberano do Estado de Mwenemutapa, ressuscitando-lhe, dando-lhe uma nova oportunidade de ficar para história, quiçá, como referência de alguma coisa boa. Entretanto, GatsiRucere, o protagonista deste romance histórico, desobedece o seu criador, teimando em vestir a pele de vilão que tão bem assenta nos heróis do antigamente. Esses que pegaram em armas? Sem dúvidas.

Nota-se que foi um exercício muito árduo este de um ficcionista também armar-se em historiador e desbravar ambientes agrestes, nos quais, eventualmente, inicia muito do que hoje nos caracteriza, a nós, mais uma vez, os moçambicanos cidadãos de África e do mundo.
Ao reconduzir-nos lá para as bandas do Mwenemutapa, unindo pesquisa e criatividade, inclusive com emprego de um jogo anacrónico bem apropriado – veja-se, por exemplo, a passagem em que a tão disputada Manyara, preocupada pelo seu querido Mudzingaze, aproxima-se ao pai de criação dele, Folofanye –, Furdela reedifica os bastidores do poder, a partir dos quais lança vários questionamentos sobre o sentido de pertença a um propósito ou de lealdade a uma causa. Para o efeito, coloca três forças a disputarem as lancinantes minas de ouro: GatsiRucere, Matuzianhe e os ardilosos portugueses. Claro que aí não falta esse misto de feitiçaria e tradição que nos colocam numa lengalenga enquanto tentamos compreender a origem dessas forças anormais muito normalizadas. Importa mesmo, camarada Celso, que chegamos aonde o escritor pretende: às dimensões de um personagem narcisista.

A propósito de narcisismo – segundo a mitologia grega, que deriva de Narciso, jovem que se apaixonou pela sua própria imagem, tendo-se suicidado devido a impossibilidade desse amor poder realizar-se –, este é o termo que caracteriza GatsiRucere, pois bem sabes, por Freud, na Psicanálise, a palavra foi introduzida para se referir à fase inicial egocentrista do desenvolvimento da criança. Por analogia a estas duas vertentes, mitológica e psicanalítica, logo percebe-se, GatsiRucere é um narcisista à imagem de muitos chefes do presente, os quais muitas vezes julgam ser à medida de tudo, do conhecimento, da inteligência, daí a arrogância de se julgarem legítimos produtores de oportunidades e destinos.

GatsiRucere é uma boa proposta para repensarmos a importância da liberdade quando esse direito parece ser posta em causa pelos opressores, inclusive por aqueles que se escondem na democracia, como diria George Orwell, uma forma bonita de dizer ditadura.

Portanto, o narcisismo de GatsiRucere é um vício, uma praga que se vai alastrando um pouco por todo lado e sectores socias, de onde a prepotência e a presunção são mecanismos incapazes de abafar a incompetência de liderança.

No livro, camarada Celso, e isso é o que mais interessa, chamaram-me atenção as práticas de um protagonista que mata ou manda matar, semeia ódios ao invés de esperanças, desterra para não perdoar, e oprime ao invés de amar. Aliás, quando o afecto muito raramente manifesta-se, o próprio GatsiRucere tece algumas cogitações para o aniquilar, pois, para a sua mesquinhice, tudo à sua volta existe para o satisfazer.

GatsiRucere é o centro do universo. Como Narciso, a sua queda sempre iminente é antecedida de um amor próprio exacerbado, sem partilha. Então, para se manter no trono, o nosso anti-herói não hesita em usar a velha técnica dividir para reinar, colocando, no meio da divisão, Manyara a prémio. Mudzingaze e Bengo são os objectos dessa luta, por terem sido impingidos pelo mambo a uma missão fatal. Com isso – como é frequente em Adelino Timóteo –, o amor dissipa-se, nessa circunstância e noutra em que o feiticeiro Rumbindzai é atraiçoado por GatsiRucere, vendido aos portugueses que o arrancam da sua terra para lhe atirarem ao Brasil. Consequência: as esposas do polígamo ficam sem quem as satisfazer o desejo, criando-se aí qualquer coisa de hilariante, bem descrito, embora breve.

A descrição é uma técnica, neste Saga d’ouro, que introduzi o leitor num universo que lhe é distante. O autor tinha mesmo de manter o cuidado de o situar de múltiplas maneiras, conciliando o vocabular e os contextos que lembram a época de GatsiRucere com a necessidade de manter a história actual. Furdela conseguiu isso. Mas, tendo melhorado muito em relação ao último livro dele que li, As hienas também sorriem, “pecou” em três coisas – e tu já deves imaginar, ó Celso, que és muito atento a essas questões: primeiro, poderia ter explorado com maior profundidade o perfil das personagens, inclusive do protagonista. Segundo, o fim… Saga d’ouro inicia e evolui de maneira que prende o leitor. O enredo, a lembrar-nos muito Ualalapi e As mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa, mantém-nos muito expectantes em relação ao fim. Quando chega, pimba, parece que não é bem aquilo que estávamos à espera ou que deveria ser. Não te vou mentir, quase fiquei desiludido. Furdela poderia ter trabalhado melhor o fecho; terceiro, o trabalho sobre a emoção não foi muito sólido. Por exemplo, a passagem em que Mudzingaze é deixado para trás, depois de ter sido ferido por Bengo, poderia ter sido mais dolorosa. Sinceramente, devia e não consegui sentir a dor de Mudzingaze, de Folofanye e de Manyara, na sequência da crueldade de Bengo.

Seja como for, camarada Celso – noto que o relógio marca 1h02, e já é altura de ler Sonhos manchados, sonhos vividos para daqui a uma ou duas semanas voltarmos a esta coluna –, respondo-te com franqueza: valeu a pena ler a história desse narcisista, contada por Aurélia Furdela. Por isso, a todos que gostam de regressar à realidade a partir da ficção, mesmos os que já se fartaram do passado na ficção moçambicana, fica a nossa sugestão.
 
Título: Saga d’ouro
Autor: Aurélio Furdela
Editora: Imprensa Nacional
Classificação: 14

Ela segurou-me pelos olhos. Pelo fio do olhar, delicado, mas fatal como a seda teia de uma aranha. Entramos para a cela escura. Não, não estávamos detidos. Pagamos três notas aos policias da esquadra, para termos meia hora de privacidade naquele compartimento.

Deslizou um, dois, três passos felinos. Pousou a cidra no chão, depois de um gole. Na bolsa entreaberta, uma capulana em prontidão. Estendeu-a sobre uma pilha de tijolos que, sob uma placa de madeira e outras coisas, fazia uma cama estreita, no compartimento estreito, na tarde estreita, como a vida, estreita.

Sentou-se sobre a capulana. Não se despiu. Com a crise, elas não se despem antes do pagamento. Outro gole de cidra, sem me soltar do olhar. Soltou os lábios. O sorriso lampejou o lugar semi-escuro.

Contive a pressa, fechei a grade. Dei um coice na porta sem fechadura, com o calcanhar. A porta bateu, estremeceu docemente as lascas de que se cobria e voltou a entreabrir-se, como se percebeu no gemido penoso das dobradiças.

Sentei-me sobre a capulana, ao lado dela. O enchido que fazia de colchão suspirou com o peso. Ela acendeu outro sorriso, receptiva, e iluminou o quase quarto. Soltou-me do olhar e virou-se para a janelinha gradeada. Segui-lhe o olhar, enquanto o meu braço lhe percorria, pelas costas, o tecido leve da blusa e os volumes de carne que lhe esculpem a cintura. De esguelha viu-me mexer, com a outra mão, num pequeno baralho de notas pequenas, preparando o pagamento.

– Faço anos – atiçava-me a generosidade no pagamento, puro golpe de marketing, com a delicadeza duma timbila sedutora na voz nasalada.

Era junho. Estávamos a vinte cinco. Vinte cinco da independência. Eu disse-lhe que era privilegiada por ter nascido naquela data.

– E sou de 1975, tenho idade da independência.

Olhava para a janelinha gradeada como se procurasse alguma independência por ali. Não lhe entreguei ainda o dinheiro. Precisava da mão para segurar as dela, tremulas. Já não sorria. Sem o sorriso os músculos da fase cederam. Deu um gole na cidra, apercebeu-se da garrafa vazia, e disse, olhando para a garrafa:

– Sabes, o mundo é vazio.

Animei-a dizendo que junho era um mês bonito, de bons feriados. Dia da criança. De África. Da independência. Massacre em Mueda. Tinha conseguido a ignição de um sorriso, mas o motor foi-se abaixo quando lembrei do 16 de Junho, dia da moeda.
– O dinheiro… – suspirou –, o grande mal deste mundo.
– A guerra também – acrescentei.
– Vem tudo junto. Eu tenho a idade de um país que sofreu com guerras e está endividado. Sei disso porque pelo meu corpo também passaram por muitas guerras.
– Mas tu estás endividada?
Suspirou. Teria dado outro gole na cidra se a garrafa não estivesse vazia. Não olhou para mim:
– Eu sou puta.
Não lhe vi os olhos, mas percebi uma lágrima no tom da voz. Olhávamos para a janelinha da cela. Apertei, instintivamente, o abraço. Ela deixou cair os cabelos postiços sobre mim e a cabeça no meu ombro. Assim abraçados, e a olhar para as grades da janelinha da cela, comecei a sentir-me gradeado num sentimento indescritível. Lá fora, uma bandeira içada no pátio da esquadra, resignava os seus últimos fiapos, na tarde sem vento.

 

 

 

Semedo saíu daqui para jogar em Portugal. Por lá, fez o curso de treinadores. Regressou com estranhos galões que lhe outorgaram o direito de catalogar, a nós que “não saltámos o arame”, de cidadãos cujos cérebros definharam, de tal forma que os nossos raciocínios terão parado, no espaço e no tempo. De facto, a nossa passividade perante um semear de guerras contra tudo e todos, parece dar-lhe razão. Uma recolha dos posicionamentos deste treinador, conferem ao leitor a possibilidade de fazer o seu julgamento.

Uma citacão: Foram estes briosos jogadores, que fizeram de mim treinador – Bruno Lage, técnico do Benfica de Lisboa, equipa campeã de Portugal.

O antípoda, “made in Semedo”: Este plantel não vale nada. O treinador é que lhe dá dimensão e isso permite-lhes sonhar com o título.

OS RECADOS DO SEM… MEDO

O auto-elogio:
Como treinador, tenho o quarto nível. Esta qualificação dá-me a possibilidade de treinar qualquer equipa do espaço europeu. Ou seja, posso treinar o Real Madrid, o Barcelona ou o Bayern de Munique. Por cá, escolho os clubes que quero treinar e, por causa desta assumpção, tenho merecido da parte dos meus detractores muitas críticas. Na verdade, não faço escolhas marginais, pois com todo o capital e experiência que colhi ao longo da minha carreira, cheguei a uma encruzilhada tal que me permite, claramente, escolher os clubes em função das pessoas que o dirigem. Sendo assim, escolho as pessoas com quem quero trabalhar.

Sobre o nosso futebol

O futebol moçambicano é uma grande comédia, uma fraude. Os gestores são uns trapaceiros. Como é que posso estar zangado com um futebol medíocre? Não estou zangado, se estivesse tê-lo-ia abandonado há muito tempo. Não voltei para pedir favores de qualquer espécie, pelo contrário, vim dar muito da ajuda que este futebol precisa porque, na verdade, rege-se por lei e comportamentos ainda demasiados primários. Chamem-me arrogante ou o que quiserem, mas estou acima deste futebol. Não é ele que vai prescindir do meu trabalho. Não voltei para pedir favores de qualquer espécie, a ninguém.

Aos colegas de profissão:
O que sei é que alguns se proclamam grandes treinadores, apenas porque ganharam mais títulos do que os outros… Hoje, o primeiro critério é de um treinador submisso, que faz as vontades das direcções, que não questiona nem põe em causa a vida dos clubes, que oculta tudo o que põe em causa o seu trabalho. Por isso, estamos como estamos.

Aos árbitros:
Devo dizer que os árbitros são apenas instrumentos. Já apanhei uma suspensão de dois meses sem ter feito nada.

Aos dirigentes:
No nosso futebol há alguns personagens que surgem como os mais influenciadores do próprio sistema. Eles conseguem aglutinar, à volta de si mesmos, todos os conceitos de futebol, usando, algumas vezes, o seu poderio financeiro. Há pessoas que têm feito de tudo, para que eventualmente eu abandone o meu país, sentem a minha presença como um incómodo por defender as causas do futebol.

À Comunicação Social:
A imprensa nunca teve tempo nem espaço como agora para retratar coisas do nosso futebol, porque as críticas que tenho feito, ajudam os próprios jornalistas a exercitarem-se no sentido de contrariarem tudo o que vou dizendo e por vezes corroborarem. Portanto, penso que estou a ajudar muita gente, de facto”. Recentemente: “deixo o resto para os comentaristas da STV, embora não lhes reconheça idoneidade técnica para isso”.

Ao país:
Ser competente, é um problema neste país. Não querem que eu trabalhe neste “futebolzinho”. O mundo não é só Moçambique, por isso estou à vontade para trilhar os caminhos que sempre quis e quero. Não voltei ao meu país para ganhar dinheiro, se fosse para ganhar dinheiro não voltava.

OS MISTERIOSOS GALÕES

Decorria o ano de 2005, quando Artur Semedo me procurou, pedindo-me para o entrevistar de forma a ser conhecido no país. Na altura, aparentava ser “um soldado raso”, em busca de afirmação, no regresso de Portugal, onde protagonizou uma carreira com altos e baixos, que foram desde o Oliveira do Hospital (quem conhece este clube?) até ao Marítimo, onde brilhou.
Volvidos menos de cinco anos, já possuía “galões”que lhe permitiam chamar de “futebolzinho” e de “jornaleiros” aos que o receberam. Aos colegas de profissão, dizia que lhes faltava capacidade para chegarem ao nível de declarações que fazia.

E até pode deduzir-se que está por cá, como que por favor, pois considera-se melhor que Mourinho.
Recordemos:
“Nunca disse que eu era o Mourinho de cá. Acho que é uma declaração menor. Não me inspiro nele. Mas gostaria de dizer que se alguma semelhança se pudesse estabelecer, que fosse ao contrário, pois ele aparece depois de eu fazer certas constatações. Porque é que eu tenho que me comparar a Mourinho e não o contrário?

CERNE DA QUESTÃO:
O NOSSO DEIXA FALAR

Fica-se com a impressão de que Artur Semedo, pela lábia, ganhou um estatuto especial. É-lhe permitido o que não admitimos a outros cidadãos. Faz declarações inaceitáveis. Daí que, com o nosso encolher de ombros, na Comunicação Social e não só, sejamos todos cúmplices do “Semedismo”, pois ele até é… bom treinador!

Estamos a falar de quê?  
Orientar (mesmo com qualidade) treinos e jogos de uma equipa, não outorga por si só, o título de BOM treinador, que se atribui a Artur Semedo. Há muitas mais qualidades a exigir a um condutor de homens, no cada vez mais difícil caminho para se chegar aos triunfos no desporto-rei.

 

Exemplos, são muitos. No topo, o luso-moçambicano Carlos Queirós, homem afável, com currículo mundial, que evita confrontações idênticas às que estamos a reportar. Sobretudo com árbitros e jornalistas. Os porquês, são óbvios. Uns têm o apito e os outros, a caneta. Não se trata de submissão, mas de respeito e independência pela actividade de cada um.

No caso dos técnicos de alto nível, a função de correr ao lado dos jogadores, saber do seu estado psicológico ou de saúde, é cada vez menor, pois é desempenhada por outros profissionais que fazem parte da sua equipa técnica. Ao mister, compete coordenar, definir tácticas, projectar, estudar os adversários e, sobretudo, estabelecer pontes e relações com os outros actores da modalidade, de forma a que daí resultem vantagens para o seu clube.

CALADO, ÉS UM POETA…

Por melhores capacidades e “quartos níveis” que tenha, Semedo, um técnico em permanente busca de inimigos, vive o inverso de um velho ditado. Na verdade, ele “semeia ventos, para colher frutos”. É isso que explica o rodopio deste técnico, por vários clubes, com pouca glória e não menor isolamento. Cito, para terminar, um título recente, contido neste jornal: “Semedo, calado, tu és um poeta”!

 

 

"Vais morrer?" Perguntou Mujaxihi, meu único irmão, entre aquela multidão de jovens sonhadores. Eu, inspirado pela inspiração de todos disse: se tiver de ser que seja. Mas tu, meu irmão, tu não vais morrer.

Cabelo despenteado, pálido como o rosto, quase a criar uma mata. Calções pretos, com uma forte tonalidade de branco e dois furos à medida das nádegas. Camiseta? Essa só cobria o ombro. Pre-adolescente inocente. Esta é a imagem que ficaria do meu irmão, aliás tinha de ficar, pois só assim eu me esforçaria para, na volta, deixar meu irmão sempre com cabelo penteado.

Mafelatiku está aí? Uma voz feminina e muito suave perguntou, interropendo a conversa com meu irmão. Levantei a mão indicando a minha presença. Dei o último abraço nele. Entrei ao carro com outros como eu, todos querendo tornar-se Messias. Da janela veio outra voz feminina, roca. É a Rindzela que disse: cuida de ti por mim. No meio a gritos idénticos procurei um espaço e também gritei: cuidem um do outro enquanto Mafelatiku não está aí.

Longe de todos e tudo. Vinte e dois anos de idade. Num lugar onde tenho apenas três actividades diárias: orar, treinar e comer. E a única coisa que estava sempre disponível eram as armas e tudo o resto para treino. "Derramar suor em treino para poupar sangue em batalha." Assim falavam os instrutores para que nos entregássemos. E eu, todo empenhado, fazia tudo que me mandassem, acreditando que assim estaria brevemente perto de todos e tudo.

Forte fuzileiro. Dois anos depois. Jovem bem bonito e vaidoso. Soldado que se dá o máximo de respeito. Forte e muito temido entre os da mesma categoria. Ainda sem chance de regressar à casa. Grandes esperanças de novas patências. Um facto. Já com dia e local marcados para o patenteamento. Mas no meio dos preparativos, uma informação: há confrontos militares num dos campos próximos ao quartel. Quem vai à batalha? Fraco fuzileiro.

Uniformizados estamos. Todos com a fúria adquirida durante os treinos. Eu mais confiante que o resto. Primeira vez em guerra oficial. Nosso comandante fala de tal forma que nos enfuresséssemos ainda mais. Mas ele fica. Partímos nós para a batalha. Inimigos aparente e claramente mais experientes que nós. De repente… nem me recordo exactamente do som, mas sei que de seguida eu estava no chão, de onde vos falo e desuniformizados estávamos.  

Vou morrer? Sinto meu sangue misturado com areia. Minha voz misturada com ar denso. Minhas acções resumidas nas vontades. Pessoas desconhecidas juntam-se por mim. Rosto nenhum é-me familiar. Mas todos tornaram-se família. Lutam todos juntos pela minha vida, para que juntos lutemos pela nossa vida e a de todos. Eu não vou morrer.

"Vais morrer?" Recordei-me da pergunta de Mujaxihi, mas me confortava ter-lhes pedido para cuidar um do outro enquanto eu não estivesse lá, ele e a cunhada, minha namorada. E agora, mais do que nunca, eles precisavam honrar este meu pedido, pois, respondendo ao Mujaxihi: Não estava nos planos, mas sim, eu MORRI.

 

A minha loucura mais perene é a minha lucidez. A vida é um rio ornado por vazios estilhaçados. Quando chove, do rio desponta a vida e o vazio se afunda no lugar onde nunca existiu. Muitas vezes escrevo porque me sinto tacteando o silêncio, nas restantes namoro o proibido.

Até aqui muita «conversa para boi dormir», nem? Não perca paciência, tenho estas manias quando o que quero exteriorizar vem do fundo do coração. Já me endireito! Enquanto isso, despe-te e toma este banho. O meu coração chove gostoso.

A memória é a vida distribuída por outros tempos. Tudo o que os silêncios desta madrugada me fazem escutar são vozes doutras vidas. Talvez esta noite seja insuficiente para tanto sentimento. Contudo, todo meu sentimento despe-se e se deixa deitar nesta cama branca.

Hoje ocorre-me celebrar a vida. E a melhor forma que tenho para o fazer é lembrar e partilhar com os outros as minhas origens. É viver os meus pais. Com vocês, papá e mamã, aprendi muito mais que viver. Pouca coisa faz sentido neste texto incompleto. Mas uma é certa, chama-se saudade a ilha na qual me encontro exilado. Os mais literatos que me perdoem se isto fugir o domínio literário. Mas o que será a Literatura senão a vida em texto?

Ao longo desta minha caminhada por estas terras lusas é frequente me perguntarem o que os meus pais fazem. Há uma ideia de que quem cá vem estudar é filho de uma família abastada. Digo-lhes, sem vergonha, que sou filho de um motorista e de uma vendedeira informal. Com uma mistura de espanto e pena a lhes colonizar a face perguntam-me como fiz este percurso. A resposta é simples, o mérito é todo daquele casal pobre que me gerou. Na sua luta diária aprendi a amar, a ser temente a Deus, a respeitar o próximo e a correr atrás das coisas. Os meus pais são pobres em bens materiais, mas muito ricos em espírito. Deles me veio a lição mais importante desta vida, a nossa condição económica nunca deve ser barreira para sonhar.

Desde os meus primeiros anos de vida mesmo com os condicionalismos que sempre tiveram, os meus pais sempre se preocuparam em garantir que eu e os meus irmãos tivéssemos uma sorte diferente da que eles tiveram no que respeita à formação. O investimento na educação dos filhos sempre foi a prioridade deles. Dos seus filhos eu fui o único que ainda teve a sorte de frequentar um centro infantil. Para um motorista e uma vendedeira informal que para além de garantir que a renda da casa era paga e que não faltava comida na mesa, acrescentar aquela despesa era um fardo. Mas eles levaram a ideia à diante e permitiram que eu fosse uma criança privilegiada e a minha formação iniciasse mais cedo.

As vantagens de uma criança frequentar um centro infantil antes de ser introduzida no ensino primário são tantas. Pode não funcionar do mesmo modo para todas as crianças, porque cada ser é uma substância individual. Mas, temos de concordar que uma criança que frequente um centro infantil tem um desenvolvimento cognitivo diferente da que o seu processo de formação apenas inicia com seis anos no ensino primário. Enfim, dissertar sobre este assunto não cabe a este solilóquio.
Parece tacanho escrever um texto porque os meus pais me matricularam numa creche. Mas isso é só um exemplo. Expresso neste palavreado o meu agradecimento por no meio de tanta adversidade terem sempre investido na minha educação e me darem asas para sonhar. Naquele centro infantil, que poderia ser visto como uma banalidade, tive o primeiro contacto com o mundo das artes. Lá tive contacto com a poesia, com a música, até com a dança, esse bicho de sete cabeças para mim.

Todos os centros infantis têm uma cerimónia de fim do ano onde as crianças apresentam alguns números culturais. Numa dessas cerimónias declamei um dos meus primeiros poemas, do qual a memória apenas reteve um verso: «Guardo o papa no bolso e a mamã no coração». Digo-vos papá e mamã, quer seja no bolso, quer seja no coração, sempre vos tenho comigo.

 

Um romancista não terá, forçosamente, que depender do êxito ou fracasso dos seus livros, terá que continuar, sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir.

Eduardo Paixão

“Dazanana de Araújo Simplíssimo vivia uma estranha sensação de que estava morto. Durante muitos anos cultivava em demasia a crença de que a sua vida era a morte” (p. 5). Assim inicia a história de um personagem muito particular, obstinado e comprometido com as dimensões gigantescas do seu sonho: Dazanana, do rhonga, língua falada na capital moçambicana, idiota ou palerma. Pode ser que estes dois significados encaixem no perfil do protagonista de Cemitério dos pássaros, mas apenas se se considerar à sua entrega a um propósito claramente definido: o de construir um cemitério no qual os finados da sua família reencarnariam como pássaros, alcançando, por isso, outras dimensões da existência.

Colocando a narrativa neste prisma, Adelino Timóteo, logo no princípio da diegese, questiona sobre os limites da vida na mesma proporção que minimiza a morte, afinal, a acreditarmos como Dazanana defende, nunca deixamos de viver, quando morremos. O que ocorre é um trânsito para lugares quase inimagináveis, os quais, uma vez alcançados, conferem à alma uma espécie invulgar de transcendência. Então, diante do seu maior projecto de vida, o protagonista de Cemitério dos pássaros move-se num labirinto estranho, decidido a levantar o véu dum cenário jamais desmistificado: o além. No fundo, há nessa entrega uma continuidade, a de fazer do realismo mágico uma forma de escrita. Continuidade porque esta não é a primeira vez que Timóteo atribui à existência a capacidade de vencer a morte, revelando, nessa condição, as imprecisões características. 

Dazanana é o instrumento usado pelo escritor para representar a obsessão humana em prolongar a sobrevivência, não no além, que é incerto, mas neste mesmo mundo. Logo, o personagem funciona como cicerone de uma trajectória que termina em metamorfose. Não podendo permanecer eternamente no plano real, numa condição de partida, cheia de vigor juvenil, o herói timoteano, com uma fé religiosa, põe-se a sustentar a pretensão de transformar o seu cemitério num ninho, lugar predestinado para reinventar os conceitos de gestação. Na verdade, é mesmo de evolução que estamos a falar, como se a natureza fosse exageradamente generosa para permitir a humanidade permanecer num mundo que a destrói, de múltiplas maneiras.

Por via de Dazanana, o romance de Adelino Timóteo sustenta-se na susceptibilidade de mergulhar fundo nos aspectos folclóricos, se quisermos, tradicionais de uma cultura oral ainda bem enraizada no quotidiano dos moçambicanos, e, acreditamos, dos brasileiros também. Este livro inédito ora publicado pela editora Kapulana, fruto de uma imaginação absolutamente incrível, é um lugar de propagação de crenças, sem restringir-se a isso, mesclando uma ficção delicada com uma visão holística sobre o meio e as culturas. Quiçá, essa deve ser a razão de Cemitério dos pássaros ser um livro riquíssimo do ponto de vista temático. À semelhança dos títulos anteriores, por exemplo, Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz (romance) e Na aldeia dos crocodilos (infanto-juvenil considerado “Altamente recomendável” no Brasil, e, por isso, finalista do Prémio FNLIJ) este novo livro do poeta e romancista moçambicano, natural da Beira, cidade rebelde agora afamada devido aos danos do ciclone Idai, vai buscar ao Vale do Zambeze a fertilidade indispensável para uma boa narrativa, como quem reinventa as particularidades daquele espaço mitológico cheio de muitos encontros inaugurais entre povos de diversas culturas. Com o Zambeze resgata-se o passado (e a origem da miscigenação na Zambézia, província do Centro de Moçambique), eventualmente porque, como escreve Ungulani Ba Ka Khosa no seu Gungunhana, “esta terra [Moçambique] está sendo construída sem o passado. Tudo o que é passado é coisa morta”. Ou desvalorizada. Sendo que “morta” e “desvalorizada”, neste contexto, acabam sendo a mesma coisa.

A propósito, uma vez Adelino Timóteo prometeu-nos publicar três ou mais romances sobre o Zambeze. Pode ser que a promessa esteja já a ser cumprida, e, daí, um Moçambique diferente do actual esteja a ser apresentado ao mundo, na asa da escrita, onde cabe o imaginário, os hábitos e costumes no livro bem valorizados. Portanto, Cemitério dos pássaros é um romance filantrópico em que “Salvar a história, seja onde for, impõe a liberdade de escolher ser livre ou sujeitar-se ao sacrifício” (p. 46). Dazanana, tal como o seu criador, sempre escolhem a liberdade, mesmo quando o conforto está na covardia, mesmo quando a decisão de marchar em frente custa mais que suor. A liberdade de concretizar e assumir o risco disso está tão vincada em Dazanana que Maria de Lourdes Pintassilgo, a esposa, passa a ter um companheiro no lugar de um marido. Porque perseguindo o seu ideal, aquele protagonista reinventa-nos como leitores às vezes estáticos na ousadia de alcançarmos outros voos. Bem visto, esse tipo de relações amorosas que Maria de Lourdes deseja que sejam calorosas, cor-de-rosa, não têm proeminência em Adelino Timóteo. Os casais timoteanos, quase sempre desleixados às singularidades do afecto, deixam-se prender por outras obrigações. Em Cemitério dos pássaros acontece o mesmo, por exemplo, com Dona Ana, a lembrar-nos esse registo “ninfomaníaco” recorrente na narrativa do autor. Na verdade, Dona Ana é a continuidade do carácter que o romancista estampa numa outra personagem: Luíza Michaela, em Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz.

Quanto mais Adelino Timóteo vai escrevendo, traz propostas para a libertação das pessoas das amarras sociais, questionando preconceitos, tabus, e, em derradeira instância, os cânones civilizacionais, por exemplo, esses que oprimem a mulher em cada oportunidade cedida ao homem. Se Dazanana é um exemplo de coragem na luta pelo que acredita, Dona Ana pode ser entendida como esse pássaro decidido a aprender a voar na intimidade das suas sensações, desejos e fantasias. Com o sexo no centro de tudo.

À parte tudo isto, mais uma vez, a Kapulana publica – como nos lembra Eduardo Paixão no seu Tchova, tchova – um autor que não terá que depender do êxito ou fracasso dos seus romances, terá que continuar, e continua sem desfalecimentos, no caminho que se propôs seguir. Da Beira, onde vive, Adelino Timóteo projecta-se sempre com a sua obra, predisposto a reinventar a história, inovando-a, e, por consequência, a tornar os seus leitores melhores pastores da vida.

Maputo, 11 de Maio de 2019

*Texto inicialmente publicado no Brasil, pela editora Kapulana.

 

 

 

 

Por aqueles lados, quando o assunto é cumprir a tradição, um pequeno detalhe pode custar um casamento. Duvidas? Não te atrapalhes, conto-te isto e verás.

Os frangos, deitados de costas naquela cama de ferro, desenhavam loucuras nas mentes de quem os olhava. Lembravam memórias barulhentas que não cabem numa só vida.  Por baixo da cama, cinco paus de pinheiro juntavam forças para produzir uma luz incandescente que beijava o metal e produziam o calor que oprimia aquelas aves. Os frangos ganhavam aos poucos uma cor torrada. Fumegavam sempre que o calor aumentasse ou quando algum suco de limão lhes pingasse. Assavam e espalhavam o seu cheiro picante. Os estômagos sonhavam e rezavam para que aquela tortura acabasse logo.

Os olhos das mulheres sofriam. A fumaça não os poupava, castigava-os. E eles expeliam aquele líquido branco que sabe a sal.  De vez em quando, parando de mexer as panelas ou de virar os frangos, as mulheres dobravam o corpo e iam até aos pés para levar a ponta da capulana que traziam amarrada em volta da cintura e limpar as lágrimas. 
O ambiente festivo sentia-se de longe. Liloca e "Tsova" denunciavam o esquema. A orquestra de aromas dos vários pratos que aquelas mulheres confeccionavam tocavam uma sinfonia inaudita. Cada elemento da orquestra exibia o seu charme. O show era em grupo, mas a estrela que morava no interior de cada um deles gritava pelo protagonismo. E lutavam entre eles pelo domínio absoluto do ar. As narinas que se arranjassem. A musa de todas as festas tornava-se mais atraente à medida que se banhava com os perfumes dos temperos. Uma coisa tenho de vos confessar, aquela feijoada reinaria os pratos quando chegasse a hora dos comes.

A tradição se cumpria. No interior da casa começava o mais importante para a família Macamo e Mondlane. A aliança entre as duas famílias se estabeleceria através daquela união matrimonial. 

Estavam todos trajados a rigor. Os homens usavam fatos e as mulheres traziam vestidas blusas de cores alegres e capulanas. Aqueles panos floridos que traziam amarrados à volta da cintura oprimiam as matsamelas e todas as carnes em volta das ruas do pecado. Naquela sala não havia nenhuma criança. Aquela primeira parte da cerimónia era coisa de adultos. 

Um dos tios do noivo, que trazia vestido um fato cor de vinho e uma gravata azul sufocando o pescoço, limpou o suor que lhe inundava a testa, tossiu e olhou para os outros. Perguntava-se por que aquilo demorava. Para ele a festa era lá fora, aquilo que se passava ali naquela sala era uma palhaçada do passado que devia ser abolida. Quando ouviu uma voz rouca a anunciar que a família do noivo podia apresentar os presentes exigidos pela família da noiva sobressaltou-se e soltou um «eishhh».  

Algumas mulheres, que tinham vindo na comitiva da família do noivo, abriram uma mala preta e retiraram o exigido. Tudo tinha de estar ali. Minutos depois viam-se, na capulana sobre a esteira que estava estendida no meio da sala, um fato, uma bengala, um frasco de rapé, um cachimbo, duas camisas, cinco capulanas, cinco lenços, dois garrafões de vinho e filas de notas avermelhadas, que traziam em cada uma delas o rosto de Samora Machel estampado. Aquelas notas somadas totalizavam cinco mil meticais, era o valor do lobolo. 

Assim que apresentaram os presentes, manifestaram o desejo de lobolar a rapariga. Parecia estar tudo reunido para que o lobolo acontecesse. As pessoas, o dinheiro e os bens pedidos pela família da noiva, os "comes e bebes". Mas aquele desejo recebeu uma resposta negativa pela família da noiva. Não haveria lobolo, não haveria casamento.

Aquela resposta negativa foi um balde de água fria para a família do noivo. O exigido para o lobolo estava ali. Sentiram as lágrimas do noivo a inundarem a cidade e começaram a murmurar. Quando lhes foi dito o motivo da recusa bufaram de alívio. Na tradição da família da noiva, qualquer dinheiro do mundo, sem o brilho de uma moeda a reluzir por cima das notas, não tinha valor.

 

O absurso em “Mamana”, de Mingas

 “Viver é essa revolta. Fazer o que pode ser feito dentro dos limites, viver mesmo que pareça não haver razão para viver.” (Carlos Eduardo Bernardo)

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