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ARTIGOS DE OPINIÃO

Ainda que de forma tímida o continente africano está a conhecer algumas mudanças positivas ao nível político. As eleições que têm estado a ocorrer de forma frequente um pouco por todo o continente salvo alguns países, está a trazer à consciência dos políticos que precisam governar os seus países tendo em conta os interesses das nações e dos povos e não apenas dos que circundam o poder político económico.

As mudanças de paradigmas na governação dos países africanos devem ser encorajados e promovidos para que cheguem a mais países porque só assim será possível melhorar as condições de vida de milhares de africanos e combater a pobreza, a miséria e a exploração desenfreada e insustentável dos recursos abundantes no continente.

Os novos presidentes da Tanzania, Namíbia, Angola, Libéria, para além de Maurícias, Cabo Verde, Botswana e alguns da chamada África Branca, têm-se esforçado em mostrar que boa governação não é uma característica de alguns países ocidentais e orientais mas sim é algo atingível pela maioria dos países africanos.

Apesar de ainda haver um longo caminho para se alcançar a democracia plena, eleições livres e credíveis, pluralismo, liberdade de expressão e pensamento e combate cerrado a corrupção os governos precisam entender que são eleitos para dirigir os povos e não se beneficiarem dos recursos do Estado.

Nenhum governante africano deve ficar satisfeito, apanhar sono e lambuzar-se dos benefícios que o cargo oferece quando milhares de crianças do seu país morrem por doenças que podem ser evitadas e tratadas, morrem por falta de alimentos quando em muitos casos vivem num país com condições agro-ecológicas para produzir todo tipo de produtos alimentares.

Nenhum Chefe de Estado deve se achar como tal quando milhares de crianças e adultos morrem por consumir água imprópria quando o país é rico é águas quer à superfície como no subsolo simplesmente porque quem dirige o país prefere gastar milhares de dólares a comprar viaturas luxuosas, aeronaves para seu transporte pessoal e outras regalias a investir no tratamento de água e abrir furos que forneçam água potável às comunidades.

Nenhum Presidente da República deve se sentir quando crianças do seu país concluíam o ensino primário sem saber ler nem escrever. É como se o país tivesse deitado dinheiro fora. A educação é uma das melhores coisas que o governo pode oferecer ao seu povo, mas tem de ser de qualidade. Nenhum país é capaz de desenvolver com educação medíocre. Não é por acaso que a maior comunidade de estudantes estrangeiros nas melhores universidades do mundo é de chineses e a maior parte dos melhores professores aposentados das melhores universidades do mundo estão a dar aulas na China. Não é por acaso que os Estados Unidos de América recruta talentos em qualquer parte do mundo. Os países asiáticos que revolucionaram suas economias foi graças a aposta na educação de qualidade. Onde pretendem afinal chegar a maior parte dos países africanos com a educação que têm?

Os recursos naturais devem servir os povos e não às multinacionais e às elites políticas. Mas em África é ao contrário. Matar para permanecer no poder como faz Joseph Khabila, Jean Pierre Mbemba assim como recorrer a mudanças constitucionais, a fraude eleitoral e manipulação como muitos governantes fazem só atrasa o nosso continente. É um crime contra os povos africanos subjugados antes pelo colonialismo e agora pelos políticos gananciosos e que só olham para seus próprios interesses e deixam o povo a minguar à fome, por doenças evitáveis e pela ignorância apregoada pelos sistemas de ensino que no lugar de emancipar deturpam as mentes brilhantes dos seus jovens só para se perpetuar no poder.

 

Com a bacia cheia de laranjas desce à cidade, Zulmira. O umbigo que espreita debaixo da blusa curta anuncia uma vida que rola no ventre. As tetas desenham dois pontos de leite na blusa; devia amamentar àquela hora. Quando o sinal vermelho amarra a marcha dos carros, Zulmira levanta-se da esteira do passeio e procura abater a montanha de laranjas que tem no solo da sua bacia. No cume da montanha tem uma faca.

Quando regressa à casa, faz lume com lenha para encher o seu bule de ferro. O fumo faz-lhe nuvens nos olhos e lágrimas caem. Aproveita para chorar da sua pobreza na cozinha em paz. A dor é a sua escolta em todos movimentos. Ajeita o filho nas costas e improvisa-lhe o seio enquanto dá banho ao outro que vai à escola. Olha as horas e lembra-se que deve marcar bicha na padaria de pão. Corre para a padaria. Marca a bicha. Pelo caminho compra tomates para fazer uma salada mesmo sabendo que não tem óleo em casa.

Zulmira é médica de si própria. Cura-se da tristeza com as suas seringas de lágrimas. Limpa a fotografia do marido falecido que ainda encosta a parede de caniço da sala. Assusta um rato que lambe o arroz de ontem; arroz que será ressuscitado no milagre do fogo para ser jantar de hoje e amanhã. Senta-se na sala cimentada de areia, cose memórias amargas e mastiga a fome que lhe cresce na boca. Seus três filhos, com as luvas de sujidade nas mãos, comem no mesmo prato um arroz que tem no topo uma rodela de tomate.

Prepara chá para tomar, mas o açucareiro está de luto. Devolve a chávena, sem pega, com água quente para a cabeça do aparador. Pega sua bacia e descasca as laranjas para vender amanhã. Os miúdos guiados pelo ponto cardeal da fome chegam ao sono. Apenas um copo de água serviu-lhes como farol. Queima papel-higiénico para afastar os mosquitos e escuta os vizinhos jantando.

Os vizinhos com garfo e faca fazem uma banda sonora na fome de Zulmira. Sabe que os restos daquele jantar pela manhã será para o cão e para ela.

Num célebre, penetrante, inquietante e, indubitavelmente, polémico texto, que tanto estimulou (apesar de ligeiras discordâncias) a minha juventude literária, Eugénio Lisboa socorre-se de uma ingente definição de poesia, estabelecida pelo poeta mexicano Octavio Paz, num ensaio luminoso intitulado “Poesia e poema” que introduz o seu notável e incandescente livro O Arco e a Lira, para proceder ao inventário da poesia moçambicana. Tenho o livro do celebérrimo poeta mexicano sobre o tampo da mesa e os dois volumes da viperina Crónica dos Anos da Peste, publicadas em 1973 e 1975 por Lisboa. Lembrei-me destas referências bibliográficas quando relia a poesia de José Craveirinha e pensava no maniqueísmo patriótico ao qual ele foi exilado. Craveirinha tem poemas belíssimos e versos definitivos, muitos dos quais estão longe dos textos que são normalmente referidos quando citamos o seu jubiloso nome. Creio, inclusive, que o melhor Craveirinha reside aí, na sua poesia menos conhecida, com autênticos achados, privilégio dos eleitos. Mas queria chamar à liça o ensaio balizador do poeta mexicano. Começo por reler este texto, que é uma soberba lição de poesia. Creio que todos os aspirantes a poetas – e mesmo os poetas estabelecidos e/ou consagrados – deviam lê-lo e cogitar longa e detidamente sobre ele. Esta definição pungente de poesia permite-me explicitar o meu raciocínio sobre a poderosa obra poética de José Craveirinha.

Octavio Paz: “A poesia é conhecimento, salvação, abandono: Operação capaz de mudar o mundo, a actividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Oração ao vazio, diálogo com a ausência: alimentam-na o tédio, a angústia e o desespero. (…) Arte de falar por forma superior; linguagem primitiva. Obediência a regras; criação de outras. (…) Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo (…) Analogia: a poesia é um caracol onde ressoa a música do mundo. (…) Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos eleitos, palavra do solitário.”

Por circunstâncias que relevam da História, ao poeta José Craveirinha colou-se-lhe o epíteto de “voz do povo”. O que em si não constitui um dislate. Mas quem insiste na espécie de exercício taxinómico deixa obnubilado o seu verdadeiro génio. Quem o lê saberá que, sim, a sua voz se confunde com os anseios e as aspirações mais lídimas do povo moçambicano e que ele as soube interpretar e dar expressão. Mais do que isso, ele lutou por esses ideais, tendo sido preso por causa disso. O que pretendo hoje aqui afirmar é que Craveirinha, sobretudo, cabe também no segundo escol – “língua dos eleitos” -, e que, provavelmente, neste território, onde ele está por descobrir, reside a sua mais assombrosa inventiva poética.

Craveirinha é um grande poeta – toda a gente o diz. É a mais alta manifestação da poesia moçambicana. Creio não ser esse o pomo da discórdia. Adiro, sem reserva, a tal proclamação. As minhas reticências estão nos argumentos usados. A grande arte de Craveirinha está por descobrir. Os mais belos poemas de Craveirinha são aqueles que são menos lidos ou quase desconhecidos. Craveirinha é um poeta soberbo, sim, porque a sua arte fala de forma superior, como queria o poeta mexicano. Porque ele revela o mundo e cria um outro. A definição que acima citei é um amuleto importante para entrar no universo da poesia de José Craveirinha. Estou convencido de que um texto com citações de seus poemas menos exaltados daria um ensaio surpreendente. Vou ao longo desta breve homenagem socorrer-me de versos e de poemas menos marcados para iluminar esta minha conjectura. Começo com versos do poema “Primavera” do livro Karingana Ua Karingana.

José Craveirinha: “Estamos sentados. / E nefelibatas bebemos coca-cola/ nas públicas cadeiras da praça. // E/ sobre as envenenadas acácias/ andorinhas geometrizam o azul do céu/ e despercebidos passarinhos africanos/ contam nos verdes braços vegetais/ de um parque de cidade moçambicana/ onde jovens discutem as pernas de Brigitte Bardot/ e abúlicas mãos tamborilam/ no tampo da mesa fúteis dedos. // Mas um grupo de estivadores/ vem do cais vestindo/ serapilheiras/ e passa a três metros e meio/ das cómodas cadeiras da praça/ enquanto/ cocacolizados/ odes cantam nos ramos os bilo-bilana/ e na surdina das tímidas meias-palavras/ e subentendidos silêncios/ ansiosos todos esperamos/ indolentes as flores/ da nossa comum Primavera!”

Sublinho: “Estamos sentados. / E nefelibatas bebemos coca-cola/ nas públicas cadeiras da praça.” Aqui está a voz de um eleito, quem escreve e diz isto é um poeta sublime, é a voz da transcendência. Prossigo, em estratégia de citação de alguns versos, para dar boa nota do meu espanto. Poema “A minha geleira”: “Amarrada/ a tiras de trapos/ minha geleira a prestações/ é uma branca figura de retórica/ no centro da cozinha.” Isto é absolutamente extraordinário. Texto “Os privilegiados”: “Como único privilégio/ os poetas usufruem a própria morte/ para viverem ainda mais a sua pátria”. “Não sei se existe Deus. / Mas se Deus existe/ Ele está com toda a certeza/ a comer comigo esta farinha/ no mesmo prato”. Ou o “Poema do alfinete mágico”: “Com um inofensivo alfinete mágico/ nós os miseráveis sonhadores moçambicanos/ de cerrados maxilares invocamos os desejos/ e suspendemos os corações nas janelas/ donde a lua e o sol quando entram/ entram gradeados.” Notável este poema escrito com alfinete num papel higiénico. “O meu preço”: “Mas se é para me vender/ vendo-me mas vendo-me muito caro.// Ao preço incondicional/ de quanto me pode custar este poema.” “Lustro”: “Velha quizumba/ de olhos raiados de sangue/ serve-me os rins da angústia/ e a dentes de nojo/ carnívora rói-me a medula infracturável do sonho” (…) “E a vida/ a injúrias engolidas em seco/ tem o paladar da baba das hienas uivando/ enquanto no dia lúgubre de sol/ os jacarandás ao menos ainda choram flores/ mas de joelhos o medo/ puxa lustro à cidade”.  Só um grande poeta escreve isto. Estes excertos são de poemas do livro Cela 1. Acrescento-lhes este poema, intitulado “Metamorfose”.

José Craveirinha: “Nas noites/ minha mão escultural/ é um pensamento despido. // Em dois anos/ meus dedos metamorfoses/ de Sofia Loren e Cláudia Cardinale/ voluptuosamente só traíram/ a minha ex-querida Ava Gardner/ outro nome que não digo/ e minha esposa Maria.”

Reitero o sublinhado: “Nas noites/ minha mão escultural/ é um pensamento despido.” Notável. Esta imagem, e a poesia é o reino das imagens, é surpreendentemente bela. Atente-se, ainda na obra Cela 1, ao poema “Reflexões no dia dos meus anos”: “Não expirado o prazo da minha ausência/ no meu bairro da Munhuana/ no preciso dia do meu aniversário/ lá com certeza o dia amanheceu/ todo assoado de nuvens.” Craveirinha é uma voz assombrosamente solitária e solidária. Um poeta lírico, sobretudo. Um poeta indignado. Um poeta revoltado. Os seus poemas são de ausência e de solidão, poemas de um lutador “inclandestino”, poemas de um “prestidigitador emérito”. Do livro Xigubo são reconhecidos os textos recitados nos saraus como “Grito Negro”, “Poema do futuro cidadão”, “Hino à minha terra”, “Manifesto”. Talvez seja o livro onde mais se aproxima à definição de “voz do povo”. Este é um livro de afirmação. Tem poemas longuíssimos, que não caberiam aqui, mas não resisto ao belíssimo “Mulata Margarida”.

José Craveirinha: “Eu tenho uma lírica poesia/ nos cinquenta escudos do meu ordenado/ que me dão quinze minutos de sinceridade/ na cama da mulata que abortou/ e pagou à parteira/ com o relógio suíço do marinheiro inglês.// Mulata Margarida/ da carreira do machimbombo treze/ de cabelo desfrisado com ferro e brilhantina/ fio de ouro com medalha de um misericordioso/ Deus Nosso Senhor do patrão/ e tu Joaquim chofer do táxi castanho/ sabem que eu sou bom freguês/ três dias apenas depois do fim do mês. / E corpo moreno de mulata Margarida/ é vestido de náilon que senhor da cantina pagou/ é quinhenta de chá/ arroz e molho de amendoim/ de Zeca Macubana que herdou olhos azuis/ das românticas noites/ de jazz/ nos bares da Rua Araújo/ enquanto a cinta elástica suspende/ o ovário descaído. // E eu sei poesia/ quando levo comigo a pureza/ da mulata Margarida/ na sua décima quinta blenorragia.”

Rui Knopfli contava-me que, nos tempos em que ambos faziam a “ronda crepuscular do cio”, pela baixa da antiga Lourenço Marques, quando o “aligeirar das roupas nas raparigas” acordava neles o “mesmo latejar das virilhas” nos “arrastados e emolientes fins da tarde”, ele (Knopfli) terminava a jornada em casa a trabalhar nos poemas e nos livros que haveria de publicar, enquanto (supunha, ele) o Craveirinha se demorava ainda no “olhar sorna de crocodilo agachado no canavial”. Isto para explicitar a arava obra publicada então por Craveirinha. Vale a pena ler o poema “Disparates seus no Índico”, do Rui Knopfli, nas Mangas Verdes com Sal. A propósito, Craveirinha tem estes versos notabilíssimos: “Minha mais amada por mim do que as frívolas/ raparigas de provocantes fémures desnudos”, escreve no poema “Maria. Salmo inteiro” (livro Maria).

Poeta arrebatado e arrebatador, dos largos e enlevados versos. Aliás, o poeta ficaria célebre por este tipo de poemas, muito afeitos à declamação, com refrões que faziam parte do nosso imaginário. Poesia socialmente empenhada, como queria o Rui Nogar, radicada na “dolorosa experiência quotidiana”. Poesia de indignação, disse-o, poesia de protesto, sempre, poesia que nos interpela. “Hino à minha terra”, “Quando o José pensa na América”, “Manifesto”, “Ao meu belo Pai ex-emigrante”, “Sia-Vuma” ou “Maria. Salmo inteiro” fazem parte dessa poesia descrita naquela frase iluminada de Nogar. Para além disso, alguns dos seus versos ficaram no imaginário popular, principalmente aqueles que subsumiam de poemas declaradamente instrumentais da causa libertária. Creio estar perto da verdade se asseverar que José Craveirinha foi mais citado do que lido. “Eu sou carvão” do poema “Grito Negro”, “Vim de qualquer parte/ de uma Nação que ainda não existe” do “Poema do futuro cidadão” ou “Quero ser tambor” são exemplos paradigmáticos de versos, estrofes e mesmo poemas ditos, por muita gente que não leu e não conhece verdadeiramente o poeta. Urge que o leiam e que descubram o assombroso poeta que ele é.

Não gosto apenas dos aforismos. Há poemas de grande fôlego e que são igualmente notabilíssimos. Cito pouquíssimos exemplos: “Desde que o meu amigo Nelson Mandela foi morar em Robben Island”, dito muitas vezes e bem pelo Tomás Vieira Mário, nos Msahos do Jardim Tunduro, nos melancólicos anos 80, ou as celebérrimas “Saborosas Tanjarinas d´Inhambane”, que o Gulamo Khan exprimia com uma inclemente autenticidade: “Serão palmas induvidosas todas as palmas/ que palmeiam os discursos dos chefes?/ Não são aleivosos certos panegíricos excessivos de vivas?/ Auscultemos atentos os gritos vociferados nos comícios./ E nas repletas “bichas”? São ou não são bizarros/ os sigilosos sussurros?”

Ou “Mundial de Futebol no México (em directo)”: “Será boato meus beiços a babarem os verdejantes relvados mexicanos/ enquanto o povo gasta os dentes em subjectivas bolas de farinha?/ Ou no México são reais as roliças nádegas de um Diego Maradona/ o presunto mais caro do mais recente futebolismo internacional?” (…) “Mas porquê esta fortuita indigestão de futebol de dólares/ saboreados nos olhos via satélite e nas enfermarias/ o drama das ampolas de penicilina que não temos?// Quem autorizou o hirsuto “stopper” da semântica em riste/ a agredir impunemente o triste indefeso Luís de Camões?”

Veja-se-lhe a mordacidade de ambos. A audácia da língua. A zombaria. Craveirinha foi o mestre da ironia. Sem complacência. Críptico, muitas vezes. Hermético, algumas. Soberano, sempre. Craveirinha foi um prodigioso criador de imagens. Em 1997, o poeta incumbiu-me da grata e irrecusável tarefa de lhe apresentar aquando do lançamento de Babalaze das Hienas. Livro de denúncia, livro de indignação, outro livro com versos estelares, livro contra a guerra: “Eméritos felídeos à solta/ cometem sumárias obstetrícias/ variando cesarianas/ à facada.” Este livro é de uma tremenda virulência, como foi violenta a guerra que serve como seu libelo. “Uma voz virilmente indignada”, chamou-a Eugénio Lisboa.

Eugénio Lisboa: “Há em Craveirinha – é mesmo esta uma sua característica nuclear – este gosto, este gozo sensual, esta posse, direi mesmo: esta alucinação, da palavra. Craveirinha morde a polpa das palavras, tacteia-as amorosamente, fá-las vibrar no poema, encoleriza-as… Craveirinha – por isso é poeta – faz amor com as palavras. “

José Craveirinha, leiam-no atentamente, é um grande cultor da língua, soberbo na arte poética, dono de um pungente discurso social, inclemente contra a dolorosa miséria do quotidiano, escritor do passado histórico ignóbil, revela a realidade duríssima dos espoliados do seu destino, o lusco-fusco da Rua Araújo, denuncia as metralhadoras de Sharpeville, ou as tâmaras azedas de Beirute, fala nostálgico da Vila Borghesi, ou cultiva uma longa, interminável e fissurante elegia à Maria.

Por último, queria dizer: vejo exacerbada, nas notas biográficas ou nas apresentações que se fazem, depois de 6 de Fevereiro de 2003 – o pretexto próximo desta minha canhestra evocação, agora que passam 15 anos sobre a sua morte -, sobretudo, a sua condição de herói mais do que a sua condição de poeta. Nunca percebi esta estratégia de afirmação. Na placa da sua rua, não se fala do poeta, alude-se o herói. Nas notas de contracapa das edições recentes, enuncia-se: “Os seus restos mortais repousam na cripta da Praça dos Heróis, em Maputo, Capital de Moçambique”. Para além do mau gosto desta formulação funéria, esta forma de o apresentar contribui para o anátema e para o desconhecimento.

Por mais de 15 anos, convivi de perto com José Craveirinha. Frequentei a sua casa da Mafalala. Ouvi muitos episódios da sua longa e inspiradora vida. Li poemas inéditos, falou-me de personagens históricas, falou-me das pessoas do seu quotidiano, muitas delas que lhe batiam à porta para contar os seus infortúnios, histórias que se transformaram em poemas muitas delas, viajei com ele, fomos a Lisboa, estivemos juntos em Lisboa quando eu lá vivia, fomos, com o Rui Nogar e o Rui Knopfli, a Sevilha, estivemos em Londres com a Noémia de Sousa, fui companheiro e fui, de certo modo, legatário da sua geração. Deixou-me conhecer os seus mitos privados, as suas assombrações, as suas idiossincrasias. A sua solidão habitada. Dele aprendi o exemplo, a probidade. Revejo-me, aliás, nesta geração e não tenho pejo em afirmá-lo.

Sou leitor e cultor de José Craveirinha – creio que todo o poeta que se preze em Moçambique deveria sê-lo -, contudo não estou convencido de que a sua obra, a sua grande obra, embora seja reeditada e seja revelada a inédita, tenha merecido suficiente atenção e o trânsito devidos pela sua qualidade, importância e relevância. Muitos são os que dizem enfaticamente da sua importância, mas sabem pouco ou nada dela, não a leram, não a estudaram. Por estes dias, ao relê-lo pensava nesta espécie de ironia que cobre como um manto espesso a sua obra: ser-se imensamente conhecido e, provavelmente, reconhecido, pela pátria, mas ser injustamente ignorado. Porque o vejo proclamado, mas pouco ou nada lido. Dir-me-ão: a pátria não lê ninguém. Pobre pátria, não lê nem os seus próprios heróis!

Muito haveria a dizer sobre José Craveirinha, muito por evocar, invocar, convocar ou mesmo celebrar. O José Craveirinha cumpriu nobilissimamente o seu destino de vate. Cumpre-nos agora a nós fazer o nosso papel de leitores e, sobretudo, de o colocar no devido lugar de co-fundador e o seu papel na formação e afirmação da literatura e cultura moçambicanas, ultrapassando esta bizarria de o deixar prisioneiro à condição de herói. Não seria caso único no mundo de poetas a merecerem a honra de panteão. Mas lá onde estes outros alcançam essa condição são lidos e as suas obras circulam entre os seus concidadãos. Ora, não ler um poeta, mesmo que colocado numa cripta, parece mais defenestrá-lo do que celebrá-lo. No poema “A Minha Complacência”, diz o poeta: “Podeis homicidar-me com vossos vitupérios. / Meu inato orgulho vai quase à timidez insociável./ O que mais amo não me obceca./ Sou um cobarde do servilismo”. Este poema extraordinário termina com um verso ainda mais notável. “Traição é saber escrever e não escrever nada.” Estavam avisados os obnóxios, as quizumbas que o rondavam. Termino, plagiando-o: traição é sabermos ler e não lemos José Craveirinha.

Todos dizemos que talento para o desporto-rei é o que não falta em Moçambique. Porém, em contra-ponto com o que se passa noutras partes do mundo, onde o Estado recolhe impostos chorudos às estrelas – Ronaldo e Messi que o digam – o nosso futebol é praticamente dependente de uma “teta”, chamada Estado-Papá, que drena através das Empresas públicas – LAM, CFM, HCB, ENH, entre outras – dinheiro para manter o Moçambola, anualmente com novos soluços, porque sem meios próprios.

Quer isto dizer que o nosso futebol está longe de ser um negócio rentável, razão pela qual a funcionalidade das SAD's não vai acontecer nos próximos tempos.

Autoestrada com um sentido

Imagino um empresário que necessita de dar visibilidade à sua marca, apontando o desporto-rei como área para publicitar os seus produtos. Que retornos?

Fala-se na Lei do Mecenato, mas uma vez activada, está envolvida numa teia burocrática que longe de estimular, desencoraja.

Em seguida, há a opção pela inserção de publicidade em recintos, que raramente enchem e em camisolas com pouca visibilidade pois os adeptos raramente as adquirem.

Publicidade em revistas, descontos em livrarias ou supermercados, não constam no “cardápio” de contrapartidas dos clubes, associações ou mesmo Federação e Liga.

O “desfrutar” do convívio nas instalações dos clubes, não é encorajador, pelo menos para quem busca um lugar de convívio tranquilo com amigos e familiares, assistindo e encorajando os mais novos à prática desportiva.

Daí que…

Colocar os cada vez mais raros dinheiros que uma empresa disponha, em projectos com remotas possibilidades de retorno, acaba tornando-se um acto de caridade e não uma acção de “marketing”. A auto-estrada está aberta num sentido, paga-se a portagem, mas não se vislumbra qualquer retorno.

Assim sendo, a cada dia que passa, o nosso principal “activo”, que deveria ser o atleta, vai ficando mais longe dos radares dos grandes clubes. Por outro lado, na opinião interna tida como abalizada, “o que está a dar”, é mesmo o Camp Nou, Dortmund ou Alvalade. E assim nos vamos distraindo, com a “manta” que resulta dos impostos dos cidadãos e que por ser curta, quando tapa a cabeça destapa os pés.

Realismo, para dar passos firmes no curto prazo, mas perspectivando o médio e o longo, é o caminho. Resolver, por exemplo, o Moçambola 2018 e depois…logo se verá, vai-nos manter no sufoco, protelando questões de fundo.

Recentemente, uma Comissão Multisectorial foi criada num encontro presidido pela nova ministra dos Desportos, Nhyelete Mondlane, para “propostar” saídas para o complicado problema que aflige todo o país nos dias que correm: a falta de dinheiro!

O que se pode esperar? Uma aspirina para as dores de cabeça desta época, mas que estará longe de curar, ou mesmo encurtar as distâncias, das intenções à prática, relativamente ao tão propalado “slogan” da massificação.

 

 

 

 

Um ensaio sobre as representações identitárias de Hugh Masekela1
A decade or two from now, African society will be the first in human history to have abandoned its native tongues in preference to those manipulated by colonial rule if we do not soon reinstitute our own languages back into our homes, schools and social interaction with each other”.
                                   Hugh Masekela
Introdução

As ideologias da negritude e da renascença africana que se construíram sob a memória da escravidão, do colonialismo e do apartheid, resultaram  na construção de um discurso nativista de uma África singular que imprimiu nos africanos uma representação de si mesmos como um povo uno, coeso e com tradições muito particulares. Embora se tenham enfraquecido com o surgimento e a consolidação de Estados nacionais, essas ideologias, como faz notar Mbembe (2001), parecem estar a ressurgir sob o impacto da globalização, recombinando-se, ganhando novos ímpetos e reinvocando a tradição e a ideia de uma africanidade essencial.

Se algumas categorias identitárias, como raça e ancestralidade comum, que outrora foram altamente produtivas, já não são eficazes para a fixação da pretendida africanidade, outras categorias ganham expressão e têm sido evocadas e utilizadas. As línguas, concebidas como depositárias do que é tipicamente africano, aparecem como recursos simbólicos privilegiados de identificação. É interessante notar que, associado à ideia de que existe a necessidade de maior valorização e preservação das línguas africanas, alegadamente em desaparecimento por força do “imperialismo” das línguas ocidentais, coloca-se o argumento de que se deve fazê-lo para preservar as identidades africanas sob a ameaça de erosão. Dois aspectos se confundem nesses discursos, nomeadamente a necessidade e a razão da valorização das línguas, e a necessidade de preservar identidades, vistas neste sentido como fixas, imutáveis e das quais a língua é apenas simples depositária e reflexo.  

Se a legitimidade do primeiro aspecto é reconhecível e defensável, a do segundo é bastante problemática e passível de discussão. Neste ensaio, baseando-me em Hall (1992) e Bucholtz e Hall (2002), reflicto em torno do projecto de resgate e preservação da identidade africana proposto pelo célebre músico e activista político africano Hugh Masekela. Interessa-me  discutir a razoabilidade e as possibilidades de tal projecto no tempo em que vivemos, caracterizado por mudanças, fracturas e deslocamentos (HALL, 1992), em que a fixidez cede à fluidez (BAUMAN, 2007). Defendo a tese de que a valorização e a preservação das línguas africanas deve justificar-se na medida em que elas constituem parte do riquíssimo repertório semiótico da humanidade e não quanto simples repositórios de identidades tradicionais que se supõem autênticas, imutáveis e a-históricas.
O texto de Stuart Hall “A identidade cultural na pós-modernidade”, cuja ideia central é a de que as identidades, que uma vez foram centradas, coerentes e inteiras, estão agora a ser deslocadas, fragmentadas, permite-me localizar e pensar as razões do ressurgimento de reivindicações identitárias na pós-modernidade e na efervescência da globalização. O texto de Bucholtz e Hall “Language and Identity, que aborda sobre as tácticas de intersubjectividade, isto é, os mecanismos de construção de identidades com recurso a variados recursos simbólicos, ajuda-me a compreender como é que língua é utilizada como recurso de identificação.

Hugh Masekela e o resgate da identidade africana
Hugh Rampolo Masekela, aclamado compositor, trompetista, cantor e activista político sul-africano, engajou-se nos últimos tempos em projectos de sensibilização pelo que chamava “o resgate da identidade primária” dos africanos, que, para si, “reside nas línguas africanas” que estão a desaparecer. Masekela entendia que os africanos, principalmente os jovens residentes nos centros urbanos, estão progressivamente a deixar de usar as suas línguas nativas a favor das “línguas coloniais”, de origem ocidental, e, assim, as culturas africanas vão igualmente desaparecendo.

Bra Hugh, como era carinhosamente tratado, é um veterano da música africana, que iniciou a sua carreira nos anos 60 do século passado e tornou-se famoso por escrever e interpretar as canções “Soweto Blues” e “Bring him back home”, dois hinos africanos contra o apartheid na África do Sul, aquela denunciando a atrocidade do regime no bairro de lata de Soweto reservado aos negros e a última um grito, qual exigência, para a soltura de Nelson Mandela, o emblemático presidiário 46664 da Roben Island. O artista tornou-se numa das figuras africanas mais influentes também pelo seu activismo social, através da Hugh Masekela Heritage Foundation, que se dedica a iniciativas de luta contra a fome e a preservação da memória africana.

A alegação do artista era de que as “as nossas línguas não são faladas pelos jovens”, muito influenciados pela cultura ocidental, resultando disso a perda da identidade e da cultura tipicamente africana.

“Africans, we are the only society in the world that imitate other cultures at the expense of our own. If we don’t stop, we are going to disappear; we are going to be extinct. In fact there are children and adults today that are unable to construct a mere sentence in their mother tongue. It is very important to revive the knowledge of all those things,”2
Contra esse movimento, sugeria o “resgate da cultura africana”, que deve ser objecto de ensino nas escolas, tema de performances artísticas e promoção mediática.
“Our history and heritage is the richest in the world and humanity and civilization started with us, so it’s so embarrassing for me to find us where we are today. So I am now obsessed with imparting it, it’s my duty. What I’m trying to do is restore pride in the heritage, in the ethnic identity, in the language.”3

Esse movimento fez eco na imprensa e tem merecido a atenção de diversos activistas culturais africanos que, reconhecendo legitimidade no projecto, se mobilizam de variadas formas em prol da valorização e preservação, entre outros aspectos, das línguas africanas.

A questão das identidades na pós-modernidade
A questão das identidades na pós-modernidade foi muito bem tratada por Stuart Hall no seu livro “A identidade cultural na pós-modernidade”. Para este teórico cultural e sociólogo jamaicano, as identidades modernas estão a entrar em colapso como consequência de um conjunto de mudanças de ordem estrutural que estão a transformar as sociedades. Para Hall, as tradições do pensamento marxista, a descoberta do inconsciente por Freud, o trabalho da linguística estrutural de Saussure, Foucault e a genealogia do sujeito moderno e o impacto do feminismo, afectaram as concepções de sujeito e de identidade. Com efeito, concepções essencialistas ou fixas de identidade foram ficando para trás, dando lugar a identidades abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas, formadas e transformadas continuamente.
“O sujeito assume identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente. Dentro de nós, há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direcções, de tal modo que as nossas identificações estão continuamente deslocadas.” (HALL, 1992, p. 13).

Esta forma de pensar sublinha o carácter histórico da identidade, ou seja, que ela não “está impressa nos nossos genes” e “não são coisas com as quais nascemos”, mas são formadas e transformadas no interior das representações. Hall (1992) mostra que, na actualidade, à medida em que as culturas – sistemas de representação identitária – se tornam mais expostas a influências externas, sob o impacto da globalização, é difícil conservar as identidades culturais intactas ou impedir que elas se tornem enfraquecidas através do bombardeamento e da infiltração cultural. O mundo encolheu. As fronteiras diluíram-se. Os contactos intensificaram-se. Estamos interligados uns aos outros, através dos sistemas de comunicação, as viagens tornaram-se mais fáceis e rápidas, partilhamos imagens, etc. Vivemos na já anunciada aldeia global de McLuhan. O efeito de tudo isto, para o autor, é a desvinculação das identidades de tempos, lugares, histórias e tradições específicos.

Está colocação de Hall é particularmente interessante para o caso que abordamos aqui. É que a África, sobretudo o espaço urbano das grandes cidades como, por exemplo, Johannesburg, Abuja, Maputo, não está à margem destes processos, desconectada do resto do mundo. Hoje, o jovem de Johannesburg ou de Maputo e o de Nova York, em continentes diferentes e separados por um imenso oceano, estão mais conectados e partilham gostos musicais, estilos de vida, ideias e referências mais do que faz o mesmo jovem sul-africano ou moçambicano com o seu compatriota da província do Limpopo ou de Niassa, no mesmo continente ou país.

Portanto, a ideia de que a “identidade africana” deve ser preservada de ameaças de erosão parece-nos ignorar essa nova ordem e continua a fundar-se numa perspectiva essencialista e estática de identidade. Baseia-se na ideia de que as pessoas que constituem um grupo identitário são fundamentalmente similares umas às outras e fundamentalmente diferentes de membros de outros grupos e o que as constitui é inevitável, natural e fixo (Bucholtz e Hall, 2004). Supõe que a identidade pré-existe aos indivíduos, os quais apenas têm de se conformar a ela, não a trair e cuidar que não seja corrompida, conforme sugere um discurso como este:
“I’ve got to where am in life not because of something I brought to the world but through something I found – the wealth of African culture4”.

É difícil reconhecer a legitimidade de discursos semelhantes e a sua produção só se pode entender como algumas das reacções contraditórias ao impacto da globalização, como aquilo que Hall (1992, p.77) designa “o grito dos angustiados daqueles que estão convencidos/as de que a globaização ameaça solapar as identidades”. E não faltam gritos como estes nos discursos de Hugh Masekela:
“They [parents] will say: Once upon a time we were Africans.”5

“In 20 years from now, when people ask my grandchildren who they are, they’ll say: it is rumoured that we used to be Africans – long ago”6.

Entender as identidades como representações flexíveis, contextuais, como dispositivos discursivos (HALL, 1992, p. 62),  ao contrário de categorias fixas e imutáveis, é cada vez mais importante na actualidade,  em que, cada vez mais, se assiste à ampliação e intensificação da exposição e influências de culturas. Pensamos que quaisquer iniciativas ou lutas contra as tendências homogeneizadoras da globalização e contra as desigualdades geradas por essa nova ordem só podem ter capital mobilizador se tomarem em consideração que as identidades, como dizem Bucholtz e Hall (2004, p. 376), não são atributos individuais, mas situacionais, são produtos de acções sociais situadas, e, como tal, mudam, recombinam-se para corresponder a novas circunstâncias. Portanto, os indivíduos não são simples espectadores da acção da cultura sobre eles, mas agentes que reconfiguram estrategicamente as suas representações.

Língua como categoria identitária
Bucholtz e Hall (2004, p. 369), referem que, entre muitos recursos simbólicos disponíveis para a produção cultural da identidade, a língua é o mais flexível e penetrante.

Língua e identidade associam-se de forma muito estreita. Como diz Kramsch (1998, p. 3), a língua, por um lado, expressa uma realidade cultural, na medida em que as palavras que usamos referem-se a uma experiência comum; expressam factos, ideias ou eventos que são comunicáveis porque reportam a um estoque de conhecimentos sobre o mundo partilhado. Por outro lado, através da língua, membros de uma comunidade ou grupo social criam experiências e lhes atribuem significados.

No entanto, a compreensão das identidades como sendo social e historicamente situadas e, portanto, flexíveis, mutáveis, permite compreender que a língua não constitui uma “prisão” para o processo de identificação dos indivíduos. Língua e identidade são mutuamente constitutivas (Norton e Toohey, 2011) e os indivíduos têm o poder de agência. Eles podem engajar-se estrategicamente com uma ou outra língua que projecte a identidade que lhes é circunstancialmente conveniente. Isto vai contra a tendência de se pensar que entre a língua e a identidade se estabelece uma conexão natural e o indivíduo necessariamente pertence a um grupo porque usa a língua desse grupo.

A língua, como diz Kramsch (1998), é uma arena onde alianças e fidelidades políticas e culturais são disputadas. Os indivíduos podem, desejando uma determinada identificação, engajar-se com uma determinada língua e não com outras. Esses desejos não são dissociáveis da forma como a sociedade está estruturada e dos valores atribuídos a uma ou outra identidade e à língua associada. Como sublinham Norton e Toohey (2011, p. 3), questões identitárias estão imbricadas com relações de poder na sociedade.

Pensamos que, quando se pensa sobre questões de língua e identidade no contexto dos países africanos, multiculturais, multiétnicos e multilíngues, não se pode ignorar a questão das relações de poder envolvidas nos processos de construção identitária dos indivíduos. Esta questão é muito mais relevante quando se tem em conta que, nessas sociedades, as línguas oficiais, por conseguinte de maior prestígio, são as ditas ocidentais, sem vinculação com as tradições. É nestas línguas que os indivíduos são escolarizados; são estas línguas que permitem maior mobilidade social e estão vinculadas à nova ordem global. Com efeito, é compreensível que, tendencialmente, os indivíduos se engajem com a aprendizagem dessas línguas vistas comos recursos simbólicos que conferem capital social distinto e projectam as identidades desejadas. Portanto, a relação entre língua e identidade não é natural, mas construída, social e historicamente justificada.

A legítima causa de Masekela ou “essencialismo estratégico”?!
Os fortes e cada vez mais intensos e frequentes contactos provocados pela globalização e dos quais decorrem os deslocamentos e fragmentações referidos em Hall (1992) têm efeitos à escala global. O desenvolvimento das comunicações promovido pelas novas tecnologias, a facilidade de transportes e viagens, bem como a acessibilidade  de cadeias de televisão internacionais têm possibilitado uma maior circulação de pessoas, ideias, e expostos culturas umas às outras. A África não é uma excepção e é compreensível que surjam reacções aos efeitos desses contactos e das mudanças que originam. O apelo às identidades “tradicionais” surge, como referem Bucholtz e Hall (2004, p. 371), geralmente sob condições de contactos e de desestruturação, em que membros de grupos sentem que a sua representação de identidade cultural está ameaçada. Com efeito, tendem a rectificar distinções e a atribuir uma importância particular à manutenção ou reabilitação de algumas categorias, como as suas línguas (KRAMSCH, 1998).

“What I’m trying to do is restore pride in their heritage, in their ethnic identity, in their language and in their artists”7.
Pensamos que o projecto de Hugh Masekela constitui uma dessas reacções aos efeitos da nova situação global.

Essas reacções são contraditórias em si, uma vez que, ao mesmo tempo que se celebra e reivindica a integração nessa nova ordem, cria-se, contra os seus efeitos, resistências e “proteccionismos” variados. O que fazemos notar neste texto é a incoerência de discursos que procuram essencializar as identidades africanas, num tempo em que, por força sobretudo da globalização, os indivíduos estão expostos a variadas referências.

“Today, that’s all disappeared. People in the townships – particularly the youth – have completely lost that element. And with it, they’ve lost a huge part of both who they were and who they are. Kids have no idea of their history, of what their mothers and fathers and neighbours went through, or the role music played in binding communities together and helping people survive the years of oppression. They’re listening to other music, by other artists in genres that aren’t part of township culture, and sung in English.”8

O sentimento de perda experimentado por Masekela é efeito dessa nova situação global que expõe pessoas e culturas umas às outras. Mas é, também, reflexo de que as diferentes culturas não estão dispostas simetricamente nesta nova ordem. Há relações de poder em jogo. O espaço urbano referido pelo artista é uma grande arena onde essas relações de força se exercem, onde, como diz Kramsch (1998), alianças e fielidades políticas e culturais são disputados. As línguas e outros símbolos e categorias identificação cultural participam desse jogo, e os indivíduos, com a sua capacidade de agência, agem estrategicamente engajando-se com aqueles recursos e símbolos que lhes possibilitam as identidades a que aspiram. O discurso de restauração e preservação de línguas e identidades é redutor se pretender que os indivíduos se engajem com determinadas línguas e outros recursos simbólicos por alegada conexão natural com as suas identidades, estas mesmas concebidas como fixas, coesas, unitárias e estáveis. No caso das línguas, mais do que encerrar ou reflectir identidades, elas participam da sua construção, num processo contínuo e historicamente situado. Uma leitura correcta do momento histórico parece-nos mais produtiva que quaisquer essencialismos, mesmo que momentaneamente sejam apelativos.

 

É inevitável começar este tributo com uma alusão à minha infância e ao tempo em que, na remota cidade portuária de Nacala, eu ouvia compenetrado “Soweto Blues”, vezes sem conta, na bela voz de Miriam Makeba, por vezes melancólica, como naquele caso, sem imaginar, no entanto, que quem tinha escrito aquela letra e quem tinha composto aquela música, que tanto me arrebatava, era Hugh Masekela. Nesse tempo nem sequer ouvira falar de Masekela. De Makeba, sim, ouvira falar, e cultivava-a, sobretudo por causa de “Pata Pata” ou  “Malaika”. O mais famoso artista sul-africano na época, curiosamente, era Steve Kekana. Só muito mais tarde, é que soube que “Soweto Blues”, esta música de protesto, este libelo acusatório contra o regime segregacionista do Apartheid, que proibira Xhosa, Sotho e Zulu nas escolas, impondo o Afrikaans como meio de instrução, era do trompetista, compositor e cantor que eu viria a ouvir, obsessivamente, vinte anos depois. Foi através do disco Hope que eu me tornei um incurável admirador de Hugh Masekela. Vivíamos o tempo da esperança e Nelson Mandela tornava-se Presidente da África do Sul, o sonho da liberdade era partilhado, a luta dos sul-africanos era nossa luta, os heróis e os seus mártires eram nossos mártires. Masekela foi talvez, de todos os músicos sul-africanos, o mais solidário. Falou de Moçambique e dos moçambicanos em todos os espectáculos que fez e em que cantou “Stimela”, provavelmente a sua música mais emblemática, aquela que melhor lhe consigna a condição de activista, militante, lutador, a par de “Bring Him Back Home” (Nelson Mandela). Outros músicos vinham a Moçambique e eram solidários: Dollar Brand, aliás Abdullah Ibrahim, tocara em Maputo “Mannenberg”, Miriam Makeba cantara para Samora Machel “A Luta Continua”, Letha Mbulu e Caiphus Semenya tocavam abundantemente na rádio. Não me esqueço de “Angelina”, de Semenya. Para os mais velhos, havia a reminiscência da voz e do canto de Dorothy Masuka. Mais tarde, viriam Brenda Fassie e a sua exuberância, PJ Powers haveria de cantar na Machava, Johnny Clegg haveria de arrebatar plateias, ou Sipho Mabuse com o seu “Jive Soweto”. Vi pessoalmente Masekela em Maputo, naqueles exultantes anos 90, ali na Associação Txova Xita Duma, numa jam session inesquecível. Ele cantara e tocara com vigor e de forma tão arrebatada.

Na vetusta TVE, predecessora da TVM, recordo-me de ver um espectáculo, hoje mítico, realizado em Harare, a 14 de Fevereiro de 1987, de apresentação de Graceland, de Paul Simon. Simon gravara, nos estertores do Apartheid, um belíssimo álbum com músicos sul-africanos. Miriam Makeba cantou “Soweto Blues”, a música que Masekela fizera para ela. Hugh Masekela cantou “Bring Him Back Home” (Nelson Mandela) e “Stimela” com aquela sua força telúrica. Ray Phiri, que morreu o ano passado, estava na viola solo. Masekela impressionou-me ali. O seu punho cerrado, uma imagem que me lembrava uma fotografia famosa de Peter Magubane, um outro sul-africano icónico, a sua voz poderosa e o seu trompete singularíssimo. Ainda usava cabelo grande e tinha, como sempre teve, aqueles olhos impressivos, esbugalhados. Tinha 48 anos, com quase 30 anos de exílio, de combate nos palcos do mundo. Vê-lo a cantar “Stimela”, com aquela força da natureza, com aquela energia, fez dele um dos músicos sul-africanos que eu haveria de cultuar. Eu nunca vira algo assim. Era extraordinário, era libertador. Aquele espectáculo de Paul Simon foi um marco na minha vida. Aquele disco de Paul Simon foi um acontecimento para mim. Decerto, prenunciava um novo tempo e estava inscrito nele a esperança. Nós vivíamos na ânsia de ver Nelson Mandela liberto e Graceland, e a incursão de Simon pela música sul-africana e com os músicos sul-africanos parecia um sinal inequívoco de que algo iria acontecer. Isso só viria a suceder em 1990.

Hugh Masekela: “There is a train comes from Namibia and Malawi/ there is a train that comes from Zambia and Zimbabwe. / There is a train that comes from Angola and Mozambique. / From Lesotho, from Botswana, from Swaziland. / From all the hinterland of Southern and Central Africa. / This train carries young and old, African men/ Who are conscripted to come and work on contract/ in the golden mineral mines of Johannesburg/ And its surrounding metropolis, sixteen hours or more a day / For almost no pay. / Deep, deep, deep down in the belly of the earth”.

A letra e a música têm uma força e a interpretação de Hugh Masekela é inesquecível. Ele cantou esta música não sei quantas vezes e sempre com uma energia inesgotável. Cantou-a até ao fim. Era a música da sua causa maior: a injustiça. Para além de a cantar, era seu hábito fazer um discurso sobre os explorados, sobre os espoliados, sobre os oprimidos, sobre a liberdade, o valor da liberdade, sobre os mártires, sobre os que tinham morrido nas minas ou na luta. Para além daquele dia ali  no Txova, vi-o cantar e tocar outras tantas vezes, na Cidade do Cabo ou em Joanesburgo. Há cinco anos, no Kippies – que assim se chama em homenagem a Kippie Moeketsi -, com a sala completamente cheia a cantar e a dançar, Masekela fez uma extraordinária homenagem a Miriam Makeba, sua companheira de vida e de luta. Os sul-africanos amavam-no. Pretos, brancos, indianos, mulatos, eu sei lá, ali, naquele momento, acreditei na Nação arco-íris que Mandela inventara. Isto foi em Março de 2012. Em Abril de 2015, estava eu a almoçar com o meu saudoso amigo António Pinto de Abreu, em Joanesburgo, e vimos o Masekela a atravessar o pátio e tivemos o impulso de o ir cumprimentar. Masekela era um homem que recusava a condição de vedeta. Fácil no contacto. Fraterno.

Esta manhã, de 23 de Janeiro, chega a notícia do seu passamento. “Stimela” e a sua força, para além de outras músicas, que são uma fusão de vários ritmos, sobretudo da música dominante das townships da África do Sul, como mbhaqanga, marabi, jit e kwela, numa alquimia com o jazz, voltam à minha memória. Os obituários são unânimes: morreu o pai o jazz sul-africano. A afirmação quadra-se muito à ocasião e facilita na redação dos títulos. Não sendo um dislate, encerra uma imprecisão. Aquilo que se chama jazz sul-africano aqui, que é mais fusão de ritmos sul-africanos, sobretudo o kwela e o mbhaqanga, pode reclamar outras paternidades. Sobretudo de um músico que influenciou o próprio Hugh Masekela na juventude e que tocou com ele: Kippie Moeketsi (1925-1983). Para além deste saxofonista que era visto como o Charlie Parker sul-africano, cabem como pais do jazz sul-africano outros companheiros de Masekela: Abdullah Ibrahim (1934), Basil Coetzee (1944-1998), Jonas Gwangwa (1937), entre outros. No poema “À Paris”, de Rui Knopfli, do livro Mangas Verdes com Sal, de 1969, onde ele começa dizendo “O meu Paris é Johannesburg”, o Rui, que era um conhecedor e cultor de jazz, escreve a páginas tantas: “Depois do turkish coffee meto-me/ até ao Cul de Sac e fico-me/ a ouvir o sax maravilhado/ de Kippie Moeketsi. O jazz, sim, / é genuíno e tem um bite/ todo local.”

Os músicos sul-africanos ouviam com denodo os nomes legendários do jazz americano e tentavam imitá-los ou glosá-los. Na sequência do massacre de Sharpeville, que haveria de inviabilizar a digressão dos Jazz Epistles, onde tocava Masekela, de que fazia parte Dollar Brand (mais tarde Abdullah Ibrahim), tendo-se tornado impraticável fazer espectáculos, dado que o regime, temendo levantamentos populares, proibira ajuntamentos, o trompetista decidiu ir justamente para a América. Lá encontraria os seus demónios tutelares. José Craveirinha escreve “Cântico do Pássaro Azul em Sharpeville”, um notável poema publicado em Karingana ua Karingana: “Os homens magros como eu/ não pedem para nascer/ nem para cantar. / Mas nascem e cantam/ que a nossa voz é a voz incorruptível/ dos momentos de angústia sem voz”. “Mas homens somos / e com mesmíssimo encanto magnífico/ aqui estamos/ na vontade viril de viver o canto que sabemos”. Esta “vontade viril de viver o canto”, como diria Craveirinha, leva o jovem Hugh Masekela, aos 21 anos, aos Estados Unidos ao encontro de Dizzy Gillespie ou Duke Ellington. Seriam Dizzy e Armstrong (Louis), os deuses do trompete, instrumento que ele começara a tocar aos 14 anos, com quem conviveu nos circuitos do jazz americano, que o incentivariam a buscar o seu estilo com base nas influências africanas. Também se cruzou com outro deus do trompete: Miles Davis. Aquilo que ele inventou e de forma prodigiosa foi um som próprio, inconfundível, capaz de captar, nas várias fases da vida do seu país e povo, o que lhe era distintivo. Chamam-no jazz à pressa. Tem influência de jazz, sim, mas é outra coisa. Tem ali fusão de ritmos, desde o afrobeat ao kwela. O que influenciou alguns outros músicos africanos, como o nigeriano Fela Kuti. No livro autobiográfico, Still Grazing, Hugh Masekela explica a origem da influência do jazz. Bandas locais como Jazz Maniacs, Harlem Swingters, Merry Makers ou Merry Blackbirds tocavam músicas famosas americanas. Eles ouviam Louis Armstrong, Count Basie, Duke Ellington, Cab Calloway, entre outros. A sua avó Johanna, zelosa e temente a Deus, achava uma blasfémia pôr a tocar tal música em casa, pelo que o neto, cuja relutante paixão pela música se havia tornado numa obsessão, ouvia o que tocavam os gramofones dos tios e dos vizinhos. Ramapolo Hugh Masekela nasceu em Witbank, a 4 de Abril de 1939. Conviveu muito cedo com o drama dos mineiros que vinham de Moçambique e Angola, com promessas de uma vida maravilhosa, e que se viam defraudados, trabalhavam duramente por salários de miséria (almost no pay). Muitos morriam com problemas pulmonares, de tuberculose, ou de acidentes. As bebidas alcoólicas e a violência que se vivia no contexto em que cresciam marcaram-no para sempre. Ele falou durante toda vida destes mineiros explorados e espoliados, destes trabalhadores com contratos miseráveis, das mulheres que andavam com cargas à cabeça à berma dos comboios de carvão, falou desses explorados, lutou por eles, clamou por eles, lembrou-se toda a vida deles, onde quer que fosse. As causas que foram sempre suas e os ritmos que ouviu na infância, cruzados com a sua paixão irredimível pelo jazz, estão na origem de um som que ele inventou, transfigurando-se ele próprio, como deus do trompete, como tinham sido os seus mestres como Dizzy Gillespie.

“Uptownship”, “Grazing in the Grass”, “Lady”, “Languta”, “Marketplace”, “Ha Le Se Li Khanna”, “Mama”, para além dos citados “Soweto Blues”, “Bring Him Back Home” (Nelson Mandela), ou “Stimela”, são registos insofismáveis do seu talento e do seu génio, da sua exuberância no palco, da sua poderosíssima voz. Para além de uma forte presença, o que avulta desta vida de 78 anos é a sua obstinada luta anti-apartheid, no seu fulgor arrebatado, no seu sopro inconfundível, na sua voz audível, nos ritmos que se mesclavam, entre jazz, afrobeat, as vozes e os cânticos da África do Sul, ou nos sonhos e na ânsia dos povos da África Austral, cuja voz ele emprestou no seu inconformismo até ao fim. Cantou a luta anti-apartheid, mas não deixou de intervir após o fim do regime. Foi homem de todas as causas. Denunciou a xenofobia quando os sinais ainda eram ténues. Foi um africano universal. Sempre combativo. É, sim, indubitavelmente, um dos fundadores do que se convencionou chamar jazz sul-africano, com Moeketsi, Ibrahim, Coetzee, Gwangwa, lugar onde avultam hoje nomes como Sibongile Khumalo, Lira, Simphiwe Dana, McCoy Mrubata, ou onde avultavam nomes como Sipho Gumede (1952-2004), Zim Ngqawana (1959-2011) ou Moses Molelekwa, que morreu em 2001, aos 27 anos. Dos grandes vultos tutelares, sobrevivem-lhe Jonas Gwangwa e Abdullah Ibrahim, sendo Gwangwa mais ao ritmo kwela e Ibrahim o mais purista de todos. Este ano, em Novembro, passam, curiosamente, 10 anos sobre a morte de Miriam Makeba, com quem Masekela esteve casado, entre 1964 e 66, e para quem ele escreveu e compôs “Soweto Blues” – facto curioso: Masekela nunca cantava “Soweto Blues” -, que eu ouvia, com indisfarçável arroubo, na minha remotíssima cidade de Nacala, nos finais dos anos 70, sem imaginar que se tratava de umas músicas exemplares e emblemáticas de Hugh Masekela.

 

“Choriro” como bem o diz Ungulani Ba Ka Khosa é “um retrato de um espaço identitário, de uma utopia que se fez verbo”. O enredo dessa narração que envolve a história e a imaginação num só campo ficcional é o Vale de Zambeze no período mercantil marcado pelo tráfico e exploração de marfim e de escravos.

Luís António Gregório, de origem portuguesa, conhecido como Nhabezi, doutor ou curandeiro em língua local, é o protagonista desse entrecho que parte de acontecimentos históricos para a consecução fantástica desse “Choriro”; é, também um recinto onde um tecido humano de culturas, raças, crenças, etnias e línguas fortalece-se, harmonicamente, sob a protecção intrêmula dos achincudas. Aliás, “Choriro” é o choro pela ausência de ordem. São os três dias de luto em que os súbditos instalavam a anarquia e tudo faziam sem nenhuma sujeição posterior a um julgamento. Este “Choriro” dura mais de três dias, porque começa, mesmo quando o curandeiro branco instala-se no Vale, adoece, morre, é enterrado e aguarda-se a sua transmutação anunciada por Nyazimbire (curandeiro do reino real).

Nhabezi instala-se no vale de Zambeze e africaniza-se progressivamente nele. Adopta práticas plurigámicas típicas da região e adopta em geral regras locais que não eram típicas para um homem branco como ele. A sua entrega às seitas e práticas locais diferem-no do seu amigo, padre e cronista, António Gonzaga. Nhabezi, que era um exímio caçador de elefantes, introduz o consumo de arroz no interior do alto Zambeze, uma das proezas que lhe marca após a sua morte, por todos, principalmente por Kamwa.

Nhabezi morre e não se sabe se ele vai conseguir a imortalidade, ou seja, transformar-se em mpondoro, um espírito protector das suas terras. Ou por ser branco seria negado por espíritos nativos e por essa via, transformar-se-ia em um negozi, um espírito revoltado, rejeitado e sofredor que vagueia as noites criando maldição. A tradição antiquíssima do Vale de Zambeze é recuperada e tratada, impecavelmente, por Ungulani. Da doença de Nhabezi até ao seu enterro que se realiza na dúvida permanente da sua transmutação, sua existência além da morte física.

Ungulani entra na história do Vale de Zambeze e faz uma desconstrução imaginária dos seus elementos dentro do seu tempo e encarrega-se de uma tarefa não fácil; a que torna ele um prosador exímio: a reconstrução ficcional. Esse exercício duplo pode ser encontrado quando enarra David Livingstone nas terras de Nhabezi e quando um dos acompanhantes do explorador inglês, Maluka apaixona-se por Luíza, a preciosa filha de Gregódio.

O que Ungulani faz em “Choriro” não é uma visita ao Vale de Zambeze (sec. XIX) para escrever um texto ficcional, mas ele traça através da imaginação um caminho que nos leva ao Vale e ao âmago que recria um Vale com costumes próprios: “os macacos adestrados para desvirginar mulheres” ou “o lançamento dos insubmissos aos crocodilos”. A história é um catálogo com grafias de acontecimentos presos por agulhas de datas no quadro da memória. E Ungulani o sabe muito bem, por isso a sua imaginação transcorre sobre acontecimentos diversos que se seguram em datas.

O estilo com que Ungulani tece a narrativa de Nhabezi não se veste de monotonia, pois em cada momento procura reinventá-lo. Essa reinvenção de estilo oscila entre um relato poético, como quando minucia Nzinga, uma das esposas de Nhebazi: “…era uma moca de mediana altura e traços alongados como uma gazela. De uma cintura delgada e ancas de fraca protuberância […], os olhos apresentavam o brilho fugidio das águas ao amanhecer”. Ora uma tendência de enumerar que condensa o muito em pouco [economia da frase]: “as folhas, adormecidas. As sombras, paradas. O sol, sorrindo. O rio, acenando. As águas, correndo. As margens, bocejando”.

“Choriro” faz um encadeamento de episódios históricos com um “know-how” intrínseco à prosadores que sabem ungir a realidade de imaginação e a história de ficção. A fragmentação das crónicas épicas do padre António Gonzaga e o enredo final sobre a incerteza do futuro na aringa de Nhabezi recordam o “último discurso de Ngungunhana”. A beleza dessa prosa não se prende em pequenas partes históricas como fazem outros romances históricos, mas sim possui uma beleza que transcorre em todas páginas como quando a tinta despeja-se sobre um livro.

 

O poder do dinheiro “assentou arraiais” no futebol, mandando em tudo e todos. Desde os “crónicos” campeões na Europa e no resto do Mundo, fruto dos seus activos comprados a peso de ouro, passando pela inovação vídeo-árbitro, que pretende trazer justiça desportiva aumentando porém os espaços da polémica, para venda de mais jornais e espaços radiofónicos e televisivos.
Este intróito vem a propósito da “proposta” (alguém tem dúvida de que vai ser aprovada?) da mudança das épocas futebolísticas no Continente Africano para ajustar interesses, que poderão estar desfasados dos nossos, tendo em conta hábitos clima e tradições.

Um mal que vem por bem?

O que é vai acontecer em Moçambique? A CAF impõe-nos novos “calções”, mais estreitos e diferentes da nossa realidade a que nos teremos que adaptar.
Concretamente:
Esta época terá que ser bem mais curta, para depois iniciarmos a temporada de transição, em que, pela primeira vez e contra os hábitos instalados, vai haver futebol “a doer” no Natal e Passagem de Ano.
O que muda?
Muita coisa, se tivermos em conta que os nossos clubes não são auto-suficientes, dependendo na sua maioria dos orçamentos das empresas que os suportam, cujos balancetes, desembolsos e fechos de contas acontecem a partir de Janeiro.
Poderá ser um mal a vir por bem se, atempadamente, a sociedade entender a necessidade de reajustes. O “calcanhar de aquiles” é que o país, da base ao topo, “fecha as portas” no período festivo, finais de Dezembro e a quase totalidade de Janeiro, mantendo-se em acção apenas os serviços mínimos.
Estaremos em presença da necessidade de um acertar do passo com outros futebóis. Caso isso aconteça, seguramente que será como que um mal a vir por bem, podendo os nossos representantes sonhar com voos mais altos.
De contrário…

 

Joaquina Siquice – lembram-se deste nome ínclito da Companhia Nacional de Canto e Dança?  A amnésia ou a displicência são, entre nós, práticas indissimuláveis. Para não falar da memória, que é um prontuário intransitável. Está sempre ao serviço do interesse estabelecido – ou do que se infere estar estabelecido – e não do interesse comum. É usual dizer-se, não raro, que não temos referências. Como não? Não as temos ou não queremos saber delas? Temos nomes e obras decisivas e importantes para aludir. Não as praticamos. Falo do campo da cultura, onde sou propenso a quezílias. Não me refiro a outros domínios, nos quais sou inábil e incompetente e dos quais não sei discernir. Concedo, no entanto, que a chamada agenda setting (uma teoria no âmbito da comunicação que estuda a configuração da agenda noticiosa) é hoje dominada pelo diferendo político e pela espectacularização da sociedade. A cultura foi elidida do espaço público mediático. 

No campo da dança há muitos nomes que são aludíveis, mas Joaquina Siquice permanece, indubitavelmente, como o mais estimulante e espantoso de todos quantos inscreveram, nos arautos desta disciplina singular, os seus nomes. Joaquina combinava uma sedutora simplicidade a uma exímia capacidade de ser verdadeira no palco. Martha Grahan, um mito indubitável da dança, disse uma vez: “Movement never lies” (O movimento nunca mente). Era isto Joaquina Siquice no palco. O esplendor da verdade. Ela tinha uma empatia extraordinária com a plateia e dançava como quem levita no palco, com uma estética apurada e com uma modéstia absolutamente irresistível. 

Foi vasto o repertório de danças originárias de Moçambique que Joaquina praticou: Nonge, Makwaela, Wadjaba, Spe, Sope, Tufo, Xigubo, entre outras tantas, na vastidão e diversidade da nossa cultura e nacionalidade. Tenho a lembrança de um bailado marcante: As Mãos. Concitou públicos entusiasmados, aqui no país e lá fora. No Brasil, alvoroçou plateias, que se levantavam das cadeiras e dançavam com os bailarinos moçambicanos. Depois, encenaram Ntsay. A dança do amor. Quando Joaquina dançava semba – como se dança na Beira, onde ela viveu aliás -, a dança do amor, com sua beleza e sensualidade, era verdadeiramente indescritível. Para além da dança, Joaquina praticou outra arte maior: o teatro. Subiu ao palco para fazer a peça Hlomulo no mítico grupo dos CFM e Karingana ua Karingana no célebre Txova Xita Duma: “A dança”, asseverava, “tem muito de teatro. Nós só utilizamos o corpo. No teatro há a expressão corporal e a voz. Essa é a diferença. Mas gostei de fazer teatro. Foi uma boa experiência”. Por falar de voz, acrescente-se-lhe o canto. Ela cantava. 

Fui repórter – não sei se ainda se usa este belo vocábulo – e coube-me um dia ir entrevistá-la. Intentávamos naquele tempo fazer jornalismo cultural. Recordo-me daquele dia, em que fui visitá-la a casa, com uma estranha nitidez. Não tenho uma memória prodigiosa, mas o choque que experimentei ao conhecer as condições inaceitáveis em que vivia a mais importante bailarina moçambicana de então – para mim a mais importante bailarina moçambicana de sempre – foi muito grande. Joaquina vivia numa dependência. Sinto pudor em redigir esta palavra. Como era possível? Eu estava indignado. Lembro-me da elegância e da nobreza – nobre era ela e não o espaço – com que, não obstante a tristeza, vivia ali. 

Redigi então esta prosa juvenil e apaixonada: ‘’À entrada, divisava-se uma ampla vivenda, o portão abria-se para um imenso quintal. Um cão vigiava-me enquanto ela me conduzia com aquele belo e melancólico sorriso. Ela não vivia na imensa e hierática casa, mas sim na sua dependência. Estivera naquele dia a fazer crochet e arrumou os seus artefactos. Em redor do espaço precário e minúsculo, jornais, revistas, fotografias, cartazes, sofás adornados, um fogão aceso. Tudo isto num compartimento onde a sala e a cozinha conviviam num espaço minúsculo, mas harmonioso. Um lugar, não obstante, tratado com esmero e beleza. Aquela bela bailarina vivia, apesar da sua condição social, com estética. Com ética. Com dignidade. Observei-a antes de iniciarmos a conversa, enquanto ela se movia naquele espaço exíguo. Ela, uma mulher bela e encantadora, com o olhar triste e profundo, sorria. Lá fora, as crianças brincavam alvoroçadas no final daquele dia.”  

Falámos mansamente naquele dia. Iniciámos a conversa pela infância. Eu queria cartografar o fascínio da dança na vida de Joaquina. Quando perguntei se a infância teria sido determinante para o futuro como bailarina, ela escudou-se naquela sua proverbial modéstia: “Não sei”, começou por dizer-me, sorrindo, com um belo sorriso desprendendo-se dos seus lábios. Mas assentiu de certo modo: “Sempre gostei de dançar, porém, nunca pensei que mais tarde seria a minha profissão”. Falámos dos pais. Da mãe tinha desde sempre o incondicional apoio. O pai tergiversara no início. Acabou como incondicional. Tinham orgulho da filha. Falámos do breve casamento e da passagem pela Beira, onde fundara um grupo de dança. Não falámos de Inhambane, de onde era oriunda, e de onde viera em 1978 para estudar com o intuito de lá regressar, o que não haveria de suceder. 

“Joaquina, como é que a sociedade olha para si?” –  quis saber. Não escondeu o desapontamento pelo facto de a cultura não ocupar o lugar e o prestígio devidos na nossa sociedade e vituperou, por assim dizer, e sem estardalhaço, os ignorantes e incultos que desprezavam o seu trabalho e ela própria. Mas sublinhou que havia aqueles que sabiam o valor da dança e que a respeitavam como tal. E a condição social do artista? “É muito delicado.” Com as mãos fez um gesto irrefutável: “É só ver as condições em que estou e não esquecer que sou a primeira bailarina de Moçambique. Mas ainda eu tenho sorte, tenho colegas que…” A frase cortou-se no gume do silêncio. Os olhos marejados. Um sorriso disfarçando o embaraço. E eu que não saberia o que replicar, sorri também, aquiescendo. “Compreendo que há sectores que precisam de mais apoio do que a cultura. Mas é preciso valorizar o nosso trabalho!” – afirmou. 

Passado um ano daquele encontro, em Agosto de 1990, fui entrevistar o Ministro da Cultura, o escritor Luís Bernardo Honwana, para um projecto intitulado Os Habitantes da Memória. Uma das questões que eu tinha para lhe pôr: a questão da situação social dos fazedores da cultura: “Falemos da situação social dos que fazem cultura. Fany Mpfumo, o símbolo da nossa música, teve o destino trágico de uma morte miserável; a primeira bailarina deste país – Joaquina Siquice – vive numa barraca; não se reconhecem os valores que nós temos, por exemplo, o poeta José Craveirinha. Como é que explica esta situação o Ministro da Cultura? Por que é que não são valorizados os artistas moçambicanos?”

Luís Bernardo Honwana deu-me uma longa, inteligente e prudente resposta. Estávamos no meio de uma conversa politicamente sensível. Um território movediço. Cito a última parte da sua resposta: “Mas, insisto, o valor social destes artistas não pode ser unicamente decretado pelas benesses que a sociedade cria, pelo seu conforto ou desafogo material. Talvez tenhamos de chamar aqui outras bitolas e, efectivamente, Moçambique valoriza os seus artistas, aí eu tenho a certeza e penso que alguma coisa se há-de ter feito para que, efectivamente, seja assim.”

A esta distância, penso que, sim, de facto, estamos muito longe de uma sociedade que se reveja nos seus artistas. Isso, por um lado. Por outro lado, não há escala nem estrutura industrial capaz de produzir retorno que crie sustentabilidade aos artistas. Aliado a isso, uma incapacidade de pensar e estruturar políticas públicas na área da cultura que possam mitigar este estágio e permitir o real desenvolvimento do campo cultural. A cultura não faz parte do pensamento estruturante do país – admitindo que este existe. Estou de acordo com os que dizem que não compete ao Estado distribuir benesses aos artistas. Não é isso que está em causa quando se fala da valorização da cultura e dos criadores. Compete, sim, ao Estado criar condições de possibilidade para que os criadores tenham uma existência que não seja a repetição sistemática ou a reprodução de uma condição social precária e desprestigiante, indigna e ignóbil. O Estado tem um papel do qual não se pode eximir. Parte do qual está na educação. Só um país educado pode querer amar os seus artistas, adquirindo as suas obras, fruindo da sua arte, reconhecendo-se na sua singularidade e projectando-se na sua inventiva. Ao Estado também se impõe um papel na defesa e promoção do património cultural, entre outras funções que lhe são indeclináveis. A sociedade civil também tem um papel importante a cumprir. Tal como o jornalismo tem as suas obrigações. Um jornalismo esclarecido – o jornalismo cultural, o jornalismo não capturado pelo imediatismo e a espectacularidade da política e da sociedade – são indispensáveis para a criação de uma massa crítica consumidora da cultura e da arte, essencial à sua existência e prosperidade. O campo da recensão e da crítica, o domínio de reflexão académica ou de outra natureza, essenciais para a contextualização e formação de um público educado, exigente e comprometido. 

Retorno à Joaquina. Falámos, depois, da indignidade a que estavam votados muitos dos reputados artistas moçambicanos. Indignados com o infortúnio de muitos deles, de quase todos. Depois, ambos, ficámos em silêncio. Observei-a naquele instante e divisei nos seus olhos, vermelhos, profundamente melancólicos, a beleza incrível da mulher que me recebia naquela tarde, uma exímia e alegre bailarina no palco, que se transfigurava verdadeiramente, mas ali, parecia acanhada, entristecida, abalada. A conversa estava praticamente vencida pelo desânimo. Disse-lhe eu então: “Os artistas, Joaquina, em todo o mundo, continuam a comer na cozinha do Rei”. Uma metáfora, evidentemente. E ela: “É isso!” E rimo-nos, penso eu, à distância destes larguíssimos anos, para não chorarmos no ombro um do outro. Repetiu-me ela: “É muito delicado falar sobre este assunto”. 

Um ano depois daquele encontro parti para estudar fora, esgotado com a falta de futuro – não obstante a esperança que Roma representava e que iria desaguar em 92 no acordo de paz – e expectante em viver outras experiências e aventuras intelectuais. Não soube mais dela. Anos mais tarde, teria notícias de que emigrara para a Alemanha, onde prosseguiu a arte de cantar. Tem um CD Karingana e há notícias que se encontram facilmente no Google sobre ela. Não a vejo seguramente há mais de duas décadas, mas recordo a sua elegância, a sua destreza, o seu hieratismo, a sua invulgar competência e a inventiva no palco. Recordo-me dela sempre bela e tímida no contacto pessoal, mas exuberante e fascinante quando representava e se transfigurava verdadeiramente nas personagens que interpretava. Disse-o e aqui repito: ela é a mais importante bailarina que este país alguma vez conheceu. Um nome esquecido, ignorado, tergiversado. Como tantos outros. Recordo-a aqui com emoção e faço-lhe este modesto reconhecimento. Nunca deixei de amar aquela exímia, esplendorosa e espantosa bailarina, que me encantou sem remissão possível ao longo de muitos dos anos em que a vi dançar – Joaquina Siquice. 

 

Nos dias em que vivemos e sobretudo nas modalidades olímpicas, ocupamos lugares medíocres e, nalguns casos, abaixo disso. Tal como na componente financeira, dificilmente nos livramos da classificação “lixo”.

Razões de fundo existem para este estado de coisas, sabendo que em tempos tivemos um manancial rico, em que estrelas brotavam e se impunham como que por geração espontânea. Nem sequer tínhamos, então, necessidade dos milhares de doutores em matéria de Educação Física e Desportos que o país formou, para hoje se perfilarem por detrás das secretárias, ou abraçarem outras actividades.

Madalas com saudade…

Choram os seus ídolos, recordando nomes que permanecem no seu imaginário, tais como Matateu, Eusébio e Coluna, no futebol; Arsénio Esculudes, no hóquei em patins; Belmiro Simango, no basquetebol; José Magalhães e Cândido Coelho, no atletismo; Mapepa, no pugilismo…

Um “naipe” a que se juntaram mais recentemente Lurdes Mutola, que não deveria ser excepção, mas a regra no atletismo, João Chirindza, Esperança Sambo, Gil Guiamba, Calton e muitos outros, que proporcionaram tardes de glória na Machava e no Pavilhão do Maxaquene.

Juventude atarantada

Os novos culpam os antecessores de viverem do passado e pouco fazerem pelo presente. Eles não vão aos recintos, fecham-se em casa cuidando dos netinhos, sob o pretexto de que já fizeram a sua parte.

E a pergunta, recorrente, é: o que está a falhar, ao ponto de só conseguirmos estar próximos das lideranças nos “rankings” mundiais, se eles nos forem apresentados de pernas para o ar?

Em tempo de grande convulsão, com secas e cheias de premeio e valores muitas vezes invertidos, as gerações têm que dar as mãos, não para viver do passado, mas utilizando os ídolos, em benefício do tempo presente, até porque a época do “amor à camisola”, já lá vai.

Se cada vez mais o desporto é uma ciência, em que tudo é mensurável, os números que as tabelas internacionais divulgam, não são para serem lidas apenas se nos forem favoráveis. A linguagem do realismo e a prevalecente no mundo actual, é a que se deve impor. Sem oportunismos.

A continuarmos assim, só a olharmos para o nosso umbigo, produzindo relatórios internos com balanços claramente em contra-mão com o lugar que vamos ocupando no Mundo, estamos apenas a enganar-nos uns aos outros.

 

O ardina puxava as calças jeans que gotejavam do caimento da cintura, como cera duma vela, pela mão direita. Na mão esquerda segurava uma pilha de jornais enrolados; segurava os jornais na posição que se aprende nas maternidades: a de amamentar. Depois de repor as calças colou no estendal da mão direita o jornal com uma capa quente; um jornal inundado por um rosto gordo de corrupção e com letras bem nutridas de tinta preta: MINISTRO CORRUPTO.

Avançou o ardina pela rua num passo que seguia os saltos do chinelo arrebentado. Não caminhava, fazia malabarismo pedestre. Não tinha chinelos, tinha borrachas gastas que lhe permitiam pisar o alcatrão pela metade dos pés. O sol que queimava, descontroladamente, as ruas e avenidas e o ardina desviava-o com um boné, sujo, com matrícula duma empresa de detergentes. Enquanto avança o homem dos jornais espreitava os carros que eram hipnotizados pelo vermelho do semáforo. Espreitava e de seguida exibia o jornal com o destaque quente.

Aquela criatura parecia uma montra ambulante de jornais, um manequim vestido de reportagens em movimento. Era um missionário suburbano em expedição. Caminhava no permeio da estrada e desenhava curvas e passos diagonais nas estradas que escasseavam carros. Enquanto caminhava jornais anexados na axila esquerda absorviam, como esponjas de letras, o suor que os pêlos do corpo expulsavam em gotas contínuas. Os bocejos que nasciam em forma de losango na boca do ardina segredavam o sono interrompido para chegar cedo no armazém dos jornais e ter os primeiros jornais.

A coluna do homem dobrava-se e o pescoço cuspia a cabeça a todas viaturas que que passavam com a velocidade segurada. Em outras viaturas, o vidro não se deixava baixar e só via o reflexo da sua cara gorda de sono e cansaço. Via a cicatriz, em forma de linha férrea da esteira onde dorme, serpenteando numa das suas bochechas. Via a sua barba, em extinção, procurando terreno fértil no seu rosto para povoar e reproduzir-se.

“Hoje a cena está manigue off” – tatuou essas palavras no silêncio que crescia, como uma trepadeira, dentro de si. Enquanto pensava, quero dizer, enquanto roía alguns restos de palavras com os dentes de preocupação um Toyota, embriagado de velocidade, carregou o corpo do ardina para o tecido do alcatrão. O ardina estatelou-se no alcatrão com a tampa da boca quebrada. O sangue pintou os dentes como se fossem unhas caiadas de verniz vermelho.

Os jornais voaram na estrada. Os destaques sofreram ataques dos rapazes que vivem na rua. As páginas de necrologia espreitaram dos molhos de jornais. Moedas míseras de dez meticais rolaram e as de um metical coxearam equilibrando seus corpos avantajados nas pontas. Os carros afilaram-se. Meteram-se num engarrafamento de buzinas.

O motorista do Toyota puxou o ardina pelos pés para dentro do seu carro. Enquanto puxava-o, as moedas gotejavam dos bolsos do ardina e o sangue desenhava uma linha fina na estrada. O semáforo não parava de piscar a luz vermelha. Era como se sangrasse pelo atropelamento do ardina.

 

Diz-se repetidamente que Moçambique não é, e nem quer ser uma ilha, num mundo em mutação e adaptação a novos paradigmas. Mas das intenções à prática, a distância é visível e até mensurável. É que, ao contrário da realidade e tendência crescente em todo o planeta, entre nós, o desporto e a cultura, nas intenções e no pulsar da vida do país, ocupam quase sempre os últimos parágrafos.

A prova disso está nos informes do PR, nos discursos ministeriais e até nos noticiários em que estes sectores só entram nos últimos parágrafos e, vezes sem conta, sem aprofundamento nem substância!

Dizia com grande dose de razão, o escritor Luís Bernardo Honwana, que antes dos grandes eventos políticos, tudo se inicia com a exibição da Cultura, e depois… entram em cena os assuntos sérios! O desporto vive paredes-meias com esta realidade de subalternização.

Dançar e correr…só de barriga cheia?

Diz-se que estas actividades só são exequíveis na plenitude, quando as pessoas estão de barriga cheia, com educação e gozando de saúde. Daí que, de forma simplista se apontem como prioridade absoluta, a alimentação, a saúde e a educação.

Porém, analisar o assunto apenas a partir destes parâmetros, é muito redutor, sobretudo devido à interdependência cada vez maior e mais actuante, nas sociedades modernas.

Importa aprofundar conceitos e olhar para exemplos como os de Cuba, com os mais altos padrões desportivos e culturais, em “competição” mas sem conflitos, com os outros sectores tidos como nevrálgicos. “Uma mão lava a outra, e as duas lavam a cara”!

No nosso caso, vejamos: como estaria a situação da saúde, se uma parte da verba destinada a medicamentos fosse para a prática regular do desporto nas escolas, forma segura, barata e eficaz de prevenir doenças, com enfoque para a obesidade e diabetes? E o aproveitamento escolar – está provado – seguramente que atingiria outros patamares, se os intervalos das aulas fossem alegremente preenchidos por movimentos que o desporto e a cultura proporcionam. Isso sem falar no “chega-pra-lá” às drogas e outros males. Muito desporto gera saúde, amizade e aumenta os níveis de produção.

Quanto aos benefícios financeiros directos para matar a fome, que o digam os países que regularmente organizam eventos de grande dimensão, quanto à entrada de divisas, através do turismo e transferência de talentos!

Não deixa de causar inveja a quem tanto sentiu, sente e pugna por um desporto internamente em claro retrocesso face aos “rankings” internacionais, em quantidade e qualidade, quando dos países desenvolvidos nos “bombardeiam” com estas duas áreas monopolizando atenções, prova de que são, verdadeiramente, “assuntos de Estado”!

 

Desci o degrau do asfalto para a areia, na fronteira entre o cimento e a madeira e zinco. Dali para adiante a luz era fraca. Só luar. Os postes de iluminação terminam onde o chão é asfaltado.

O fermento do álcool oscilava o chão como ondas do mar e eu cambaleava. Segurei o leme do corpo como um marinheiro experiente. Ancorei num muro próximo para me aliviar. Meus líquidos azedos e quentes escorreram pelas dobras do zinco reluzindo os feixes tímidos do luar. Parte do vinagre afogou uma colónia inteira de formigas, escorreu a fumegar a temperatura do corpo, juntou-se a um rio de águas domésticas e desapareceu na areia esponjosa.

De longe, com a mesma timidez do luar, chegavam os sons da animação nocturna. De súbito um vulto. Percebi primeiro a sombra. Era negro e enigmático como todos os vultos. Movia-se para o meio da ruela, por onde eu teria de passar. Um frio esquisito trepidou-me a espinha, as vísceras, a alma…

Era mulher. Percebi pela leveza da passada. A leveza que deus deu só as mulheres e aos felinos. Uma mulher?! Antes que me refizesse do espanto ela sorriu. Percebi, àquela distância, um arco da cor de marfim a acender no lugar onde supus ser o rosto do vulto. Desconfiei: será xipoco? É xipoco sorri?

Não fazia vento, como em qualquer noite suburbana que se preze, mas o silêncio remexia a areia em remoinhos. Eu ofegava. Parecia que o vento entrava e saía desordenadamente da minha respiração. Uma orquestra muito barulhenta batia tambores no meu peito. Rebusquei, com o desespero do susto, os bolsos. Procurava o meu par de óculos. Era urgente uma prótese para ver melhor o vulto. Percebi que já usava os óculos quando caíram para o areal onde despejara os líquidos. Recuperei-os. Limpei-os atabalhoadamente com a ponta da camisa. Encaixei-os, com as mãos trémulas por cima do nariz suado e olhei com força de querer ver melhor.

— Explique-se! — ordenei.

Sorriu. A alvura do Marfim incendiou de novo o escuro. Parada, de salto alto e pernas desafiadoramente afastadas, lembrava os lendários cowboys dos filmes da minha infância, prontos a para um duelo. Mas duelo comigo? Que tipo de duelo teria eu com um xipoco?

Com as mãos, e lentamente, afastou do corpo o pano negro (tudo à luz do escuro é negro) com que se cobria, como se ajeitasse uma gabardina à farwest. Para o meu espanto, e os feixes de luar não mentiam, a xipoco exibia agora todos os segredos dos deuses. Os planaltos e as planícies dos filmes de cowboy expostos ao luar e as sombras a descreverem os vales e desfiladeiros que não se viam mas adivinhava-se. Meu Deus, e eu que ainda não tivera tempo para recolher o material para dentro da braguilha. Mas agora não precisava, se era duelo que ela queria…

Fui subitamente tomado pelo feitiço que irracionaliza os homens diante da nudez feminina. O medo a atiçar vontades. Eh, eh, eh, ri-me. Com o membro bélico solto, cambaleei cowboyadamente para o meio da rua, posição de duelo. Em conivência com o luar ela luziu mais a dentadura, gingou a anca deixando o luz afagar. Eh eh eh, riso de bêbado é  tolo.

Dei um passo adiante. Depois outro e outro. Ela parada. Endireitei os óculos instintivamente. Arregalei as pálpebras. Não podia ser xipoco assim bonita. Xipoco não teria este cheiro à  produtos de cabeleireiro que todas as mulheres exalam. E não são assim físicos: toquei-lhe o seio. Sobressaltou-se, naquela timidez fingida com que seduzem os homens, e cobriu o corpo com a gabardine que de perto percebo ser uma capulana. Eh eh eh, riso de bêbado. Segurei-a. Escapou-se como um peixe escorregadio. Correu. Apanhei-a. Escapava. Andamos nisto, no meio da rua, como borboletas nocturnas aos saltos e risos. Eh eh eh… Hi hi hi…

Caímos. Ocorreu-me Drummond: "O chão é cama para o amor urgente". Ela cheirava à mulher. Cheiro de mulher misturado ao cheiro de terra. Terra molhada com águas domésticas e urina de há pouco. O luar afagava-lhe o rosto e acendia dois xipefos no olhar. Olhei-a nos olhos. Não sorriu. Desviou o olhar para uma sombra atrás de mim. Não fui a tempo de me virar. Senti uma pancada violenta. Vi uma luz intensa e escura. Senti mãos vasculhando-me os bolsos e a arrastarem-me para a berma da rua, perto do lixo, para desimpedir a via.

Do resto só me lembro dos focinhos frios dos cães me virem farejar, dos telemóveis curiosos a fotografarem, da televisão popular, da perícia policial e das moscas a perturbarem-me o descanso eterno.

 

Depois de ler “A descrição das sombras” de M.P. Bonde confirmei a frase do escritor espanhol Camilo José Cela: “a literatura não é uma charada: é uma atitude”. A poesia é mais que fazer da palavra um instrumento de leituras de sentimentos ingénuos.

A poesia de Bonde é um produto (in)finito dum poeta que sabe que um verso não condensa o sentido e que ser poeta é uma transformação constante e não um estado permanente. O que Bonde busca em cada verso não é a realização dum poeta, mas sim a de um verso no poeta.

Se o poeta russo Konstantino Balmont em seus hinos e versos catolizava o culto supremo ao sol; Bonde encrava uma liturgia à palavra perfeita. Escala o monte da palavra com suspensórios de insatisfação. Sabe que a palavra é o monte Psilorítis e a poesia é o Zeus.

“A descrição das sombras” é um testamento poético de um poeta intimista fantástico. O intimismo desse livro não é simples; como aquele que se encontra em poetas ligeiros que extrapolam a linguagem na sinfonia do “eu”. A radicalidade do intimismo desse poeta transpõe a linguagem [poética] e dispersa-se harmonicamente em cada página onde o “eu” mostra-se resultado de uma multiplicidade poética e estética.

Em prosa a forma de contar tem mais importância do que o que se conta. Essas “sombras” sugerem-nos que menear a palavra no sentido e no sentimento conta na poesia entrelaçada com a prosa [prosoema ou prosema no dizer de Patraquim].

Théophile Gautier, escritor francês, disse que a música era o mais custoso dos ruídos; e cá penso que a poesia talvez seja o mais afanoso esforço de deter o movimento da palavra. Bonde consegue, muito bem, realizar esse labor. “A descrição das sombras” é, também, um diário íntimo[tal como o de Henri-Frédéric Amiel] de um poeta que lê e escreve silêncios [Rimbaud], que sente as sombras que a sua presença cria nele mesmo: “Não posso roubar as sombras que se refastelam dentro de mim”.

“O poeta não é poeta se não volta ao espanto e à frescura fantástica de menino” [Papini]; Bonde vai à infância e cria sua vista de vê-la: descreve com o espanto de poeta o espanto de menino que sempre foi poeta: “Hoje na roda-viva dos balões coloridos construimos um sonho, uma jangada para os dias”.

Bonde pela sua liturgia e siderurgia na palavra sabe que: “Ah! A poesia. Nasce abrupta entre os milhares de palavras”. A palavra é o seio por onde goteja o leite da poesia. O gotejar harmonioso desse leite depende de como a carne da palavra é posicionada no berço do papel: “Uma pétala sangra o pólen, uma palavra cai na boca, restrinjo os silêncios no chuvisco”. A palavra que se trabalha transcende qualquer estultície poética e estética.

O escritor é cúmplice do tempo, uma besta de sofrimentos insuspeitáveis, um animal de resistência sem fim, disse Camilo Cela [Nobel de Literatura 1989] na sua obra-prima “A Colmeia”. M.P. Bonde é cúmplice do seu tempo e cada verso seu, cada proema seu constitui um ponteiro do grande relógio que é o seu hermetismo.

Em termoquímica [Henri Gess] diz-se que a quantidade de calor libertado durante uma reacção química depende apenas do estado inicial e do estado final. A poesia que é liberta por Bonde subordina-se ao estado inicial bruto da palavra e ao estado final da palavra quando é siderurgicamente trabalhada.

Ao Wamin

Axinene arivava

Os músicos cabo-verdianos, de funaná à morna ou de tabanca à quizomba, encontram sempre motivos para cantar o seu país com uma apetência rala em África e no mundo. Chega a parecer que os filhos daquela “terra-mar” são ensinados, logo na meninice, a louvar o seu espaço líquido e físico como se disso dependesse, primeiro, a felicidade individual, e, depois, social. Atentos ao fenómeno, poderíamos dizer que o facto de Cabo Verde ter tantos filhos no estrangeiro contribui para a emergência de uma saudade que, sendo tantas vezes manifesta musicalmente, parece contribuir para minimizar a dor causada pela distância. Mas isto não é de todo linear, afinal, cabo-verdianos a viver no arquipélago, igualmente, lembram-se de musicar, com afecto, o sentimento que nutrem pelo seu lugar identitário. Além de que ter muitos emigrantes não constitui única razão para um país ser tão celebrado. Ainda assim, é uma condição preciosa, tanto que nos poucos músicos que nós temos para lá do Índico a saudade, tão dominante nas letras dos nossos irmãos crioulos, aparece com algum destaque. Vejamos, por exemplo, os casos de Deodato Siquir, Cremildo Caifaz, Samito, Albino Mbié e Ivan Mazuze.

Seguindo a ordem dos artistas apresentados acima, no álbum Balanço, Deodato Siquir tem uma música intitulada “A kaya”, o mesmo que em casa, traduzido do rhonga para português. Nesse tema, temos uma voz de enunciação que pede a alguém implícito, que até pode ser quem escuta, para mandar cumprimentos às pessoas do seu lar (pais, filhos, irmãos, avôs e etc). É um lar enorme, que se enleva para ideia de país quando, a certa altura, temos na voz musical a extensão dos cumprimentos para vizinhos e para o povo inteiro. Portanto, estando-se fora, a saudade é motivo suficiente para ser cantada numa composição típica de quem espera sempre voltar aos seus lugares, que, deduzimos nós, mesmo humildes, batem dez a zero aquela Suécia na qual o músico mora, do ponto de vista simbólico. 

À imagem do Balanço, em Ciconia ciconia, de Cremildo Caifaz, guitarrista que respira ares alemães, Moçambique é cantado. Não diríamos no sentido de uma lembrança taciturna causada pela saudade, como acontece bem com Siquir, aqui, essa celebração do país é mesmo em termos da representatividade, manifesta num orgulho ao país a que se pertence. Por isso, entre o inglês e o rhonga, Caifaz diz aos quatro ventos que é filho de Moçambique, espaço territorial e cultural de que é adepto. A pretensão não poderia ser outra, no álbum Ciconia ciconia o guitarrista almeja colocar a sua terra de origem na boca do mundo, relacionando o seu talento à pátria amada que o gerou, numa espécie de causa e efeito, como se tudo o que se é fosse consequência dessa mesma relação.

No norte da América, há também um filho do país: Samito, um talento absoluto a viver no Canadá. No single “Tiku la yina”, o sujeito de enunciação configurado pelo músico, falando da sua terra, sublinha que espera um dia voltar. Logo se entende que a mensagem vem do estrangeiro e resulta, igualmente, da saudade de casa, por aí ter o que não se encontra em nenhum outro lugar. “Tiku la yina” significa nosso país e, se calhar, não teria como a composição existir se essa experiência no estrangeiro fosse algo por acontecer.

Ainda nas Américas, ali ao lado de Canadá, temos Albino Mbié, no país do Tio Sam. O autor do álbum Mozambican dance vive nos Estados Unidos lá vão bons anos. Deve ser por isso que se escreve na lista dos que, sentido saudade do seu país, canta-o como sabe, numa suavidade só dele. Assim, Mbié reservou “Mbilo & Kaya”. Nesse som, o músico é claro: “Meu coração sente saudade de casa”.

Se, por um lado, os músicos a viverem fora de Moçambique são dominados pela nostalgia, vontade de regressar sem terem que partir, por outro, esse sentimento dúbio concorre e bem para os artistas derramarem as suas lágrimas nas músicas, como forma de se autoconsolar, suavizar o coração, estar perto da sua gente – ainda que forma fictícia –, e, o mais importante, transformar a saudade em arte. Este também é o cenário que caracteriza Ivan Mazuze, a viver na Noruega, no álbum “Ndzuti”, no qual encontramos a música “Mosambik”. Sem palavras necessárias, o saxofone e outros instrumentos parecem configurar imagens infantis, feitas de brincadeiras ao estilo “hamatue tué”. Percepções apenas. A verdade é que estes cinco músicos juntos contribuem para não enxergarmos apenas problemas no nosso país. Bem dito, fazem de Moçambique um lar bom de se estar. Talvez, para se atingir esse nível de entendimento é mesmo preciso estar-se fora, alheio a tudo o que pode corromper a imaginação e o sonho. Os músicos são guardiões desse sonho.   

 

 

 

 

 

Voltei a ouvir o disco Atravessando Rios de José Mucavele. Sinto o mesmo sobressalto e o mesmo espanto do miúdo de 18 anos quando, em 1985, surgiu este belíssimo disco e tocava na Rádio Moçambique. Tenho 50 anos e o mesmo assombro daquele miúdo que fui e que continuo a ser, por certo. Estes acordes, esta melodia, por vezes pungente, estes solos de saxofone, estas congas, estes timbales, estas guitarras, estas letras exultadas e exultantes, enganosamente datadas, esta belíssima voz, poderosa e talvez melancólica, arrebatadora, levam-me implacavelmente àqueles anos – os anos 80. José Mucavele é um dos meus cantores e compositores imprescritíveis. Há sete anos que não ouvia, assim, este disco. Com diligência. Recordo ainda hoje o dia em que entrei, em Lisboa, numa vetusta loja da Valentim de Carvalho, hoje desaparecida, e comprei este CD. Foi um dia jubiloso, um dos meus dias felizes, naquele tempo em que eu expendia os meus anos na capital portuguesa e tinha pouco dinheiro para aceder a livros ou discos. Este é, por conseguinte, um dos meus discos electivos. Guardo-o ciosamente. Não só pelo significado afectivo que tem, mas sobretudo pela densidade ontológica que transporta. Estas músicas fazem parte da banda sonora não só da minha vida. Como moçambicano, posso afirmá-lo: este disco ilustra o meu orgulho de pertencer a esta Pátria. Não sei explicar isto, mas é ouvindo este e outros cantores, que dizem aquilo que me pareceria inexprimível, que cantam a dor infinita deste povo, que traduzem na magia das suas letras e canções o ser moçambicano, que eu melhor realizo o ser moçambicano. Aqui há tempos cheguei a afirmar que, mais do que a escrita, era no canto e noutras artes performativas que era possível capturar aquilo que se pretende que seja ser-se moçambicano. Tenho ouvido os nossos cantores dos anos 80 e 90 e creio não estar longe da verdade.

Os anos 80 têm para mim o que há de mais trágico e dramático nas nossas vidas e o que há de mais belo e puro e surpreendente. Falo de mim. Estou dividido entre estes dois sentimentos aparentemente contraditórios. Naqueles brutais anos, a Independência era o nosso orgulho supremo. Vivêmo-la com emoção incontida. Mucavele interpretou, como poucos o fizeram, esse sentimento na sua música “Nkhululeko”, composta justamente em 1975, o ano em que nos tornámos livres. Esse sentimento de um homem livre. Esse júbilo pelo qual eu havia de içar, à porta de casa, ali no Bairro Indígena, uma bandeira que desenhara nas folhas centrais do meu caderno, e pregar num caniço. Esse sentimento que vejo por vezes postergado, derruído, nestes dias, por estes dias de desespero, estes dias obsidiantes, esse sentimento era para nós um sentimento irrevogável e inegociável. Cresci, por conseguinte, adepto da bandeira e do sentimento de liberdade. Cresci com esse sentimento único de ser um homem livre. Por isso, mais do que tudo, eu amo a liberdade. Tenho dificuldade em aceitar tudo o que seja contrário à liberdade. Sou um implacável amante da liberdade.

Oiço este Atravessando Rios e viajo pelas estradas livres do meu país. “Xibomba xa Romos”. A Romos era a metáfora da possibilidade deste país. A Romos era o sonho possível e o sonho improvável. A derrota da Romos foi também a derrota desse sonho. Da possibilidade de o alcançar. O machibombo da Romos de Mucavele ia para Manhiça, ia para Xai-Xai, ia para Quissico, ia para Inhambane. Ia por este país afora. Outras extensões da companhia, no centro e norte do país, atravessavam Moçambique. Quando a estrada se transfigurou num cenário do apocalipse e os autocarros da Romos começaram a arder, também ardeu esse espantoso sonho que tínhamos de percorrer esse país. José Mucavele cartografa esse sonho em 1979, quando o nosso sonho não tinha sido ainda dilacerado. Seria, na década ulterior, que iríamos viver ou defrontar as impossibilidades de percorrer este país, que iríamos defrontar a aporia desse sonho. Também, ali, naquela metáfora, soçobra, por assim dizer, o devir moçambicano. Oiço-o com melancolia por esse país que teríamos sido, por esse sonho que sonhávamos – passe a redundância. Oiço-o e não me contenho. Explico o significado destas músicas à minha filha. Falo-lhe daquele tempo onde o júbilo e a depressão se cruzam. Parece um paradoxo. Mas quem atentar ao melhor da nossa música, naquela época, é isso que encontra.

 “Atravessando Rios” (1978), título homónimo deste disco, é um dos seus temas mais belos. É pungente. Eu diria que este tema dialoga com “Xihomboloki” (1975). Falam da mesma ausência – da mãe. Traduzem essa dor e essa busca. “Xihomboloki” significa melancólico. O saxofone e os acordes de viola transmitem isso. Essa ideia disfórica da realidade. O que está nos antípodas do tema que se segue a este – “Nkulululeko”. A expressão da euforia. Do júbilo. O hino da nossa alegria. O rio, as estrelas, a noite, a harmonia, o amor em “Nyelete” (1983), em oposição à fome, à guerra, ao infuturo (termo pretensiosamente meu), em “Ndlala” (fome), de 1984, constituem um bom contraste e um bom diagnóstico daquela década de 80. Belíssimos e trágicos anos 80 – disse-o eu algures. Ano em que permanecíamos firmes na praça para ouvir o Presidente; anos em que madrugávamos para nos revezarmos com pedras nas bichas do pão e da carne do Botswana, do carapau de Angola; anos do repolho, cozido e recozido; anos indescritíveis. Anos de fome. O tema da fome percorre a nossa música. Para nós, no secundário, anos do queijo do Tio Reagan, cujas sandes, disputadíssimas, comíamos ao intervalo das aulas, ou da maçã do vizinho Botha, depois do Acordo de Nkomati. Anos únicos. Quando falo daqueles anos aos meus filhos, eles desconfiam de que seja o prodígio da minha criação literária.

Acontece que estes acordes, acontece que estes sons, acontece que estas letras, acontece que esta voz, poderosamente melancólica, que se atém àqueles anos, fala de um tempo que foi nosso. Um tempo único e exemplar. Porque, no meio da exiguidade, no meio da fome e do grito de fome, como ele o faz, no meio da mais abjecta miséria material, ainda havia algum humanismo, ainda éramos capazes de partilhar o que tínhamos e não tínhamos tanto como isso – fosse sal, fosse açúcar, ou uma côdea de pão duro. Os vizinhos conheciam-se e falavam-se. Eram solidários. Não tínhamos chegado a este egoísmo, a este grau exacerbado onde os que têm tudo flanam pelas ruas ou nas redes sociais os seus pertencentes, muitas vezes ilegítimos, tantas vezes gongóricos, outras tantas infelizes. Tempos em que criámos uma elite mais preocupada consigo do que com o bem comum. Onde os que não têm nada estão destinados ou condenados ao infortúnio e à infâmia. Naquele tempo todos nós ainda tínhamos esperança de haver um futuro, de vivermos um futuro que a Independência nos havia prometido, havia entre nós um desígnio, parece que tudo isso foi vencido. Espero, no entanto, que não tenha sido uma derrota.

Este disco é de um tempo anterior a este sentimento de perda e a esta angústia do desespero e, provavelmente, de resignação. Este disco é anterior a este momento deprimente. Há aqui uma felicidade e um júbilo. Retorno a este sentimento enquanto oiço, outra vez, como se fosse a primeira vez, “Nkhululeko”. Este regozijo. Este disco, todo ele, é belo. Belíssimo, quero eu dizer. Todo este disco é a expressão de um momento criativo espantoso. Quis o destino e quis a fortuna que José Mucavele não se ativesse a este momento auspicioso da sua criação. E que compusesse muito mais obras. Eu sou admirador indefectível de uma canção belíssima e também melancólica, posterior a este disco, creio eu, que se chama “Balada para as minhas filhas”. É uma obra-prima. Quando oiço esta balada, empolgo-me até às lágrimas. Tal é a sua beleza. Outro dia, traduzi-a para a minha filha, se é que é possível traduzir o que há de mais belo na invenção e na arte. Se eu fosse compositor gostava de ter feito “Balada para as minhas filhas”. É a quinta-essência da sua invenção e um dos momentos altos da música moçambicana. Voz e violão. Nesta música vê-se o grande poeta José Mucavele, vê-se o grande esteta, o grande cultor da sua língua e magistral inventor de  metáforas. O que Atravessando Rios denunciara, ou aquelas composições que lhe são anteriores, também, haviam prenunciado – anunciado. Aqui está o poeta do amor, do futuro, da bondade, da liberdade. Creio serem estes os grandes valores da música de José Mucavele, o homem que canta o amor e a liberdade, o homem que sonha a bondade – sublinho a bondade, tão deserdada de nós hoje – , entre os outros, entre todos. O futuro. É um hino ao futuro esta balada, apelo aos valores, aos grandes valores – muitos deles defenestrados no presente -, ao conhecimento como forma de liberdade, à bondade entre os homens, à esperança. Esta canção carrega dentro de si metáforas fortes de uma dimensão social, ética e estética profundíssimas e engrandecedoras, uma bela canção de amor às filhas, finalmente. Eu queria saber cantar isto para a Mayisha Imara. Oiço de novo José Mucavele, esta noite. Oiço-o – como o ouvia aos 18 anos – com veemência sublinhada, com encanto desarmado e com uma candura desprevenida.

Neste momento trabalha-se no sentido de materializar a oferta pública de acções estando-se em contacto com a HCB no sentido de se ter um plano de comunicação eficaz, que permita que todos os moçambicanos sejam avisados com tempo sobre a informação relevante do processo.

É o prestigiado Notícias que, da Terra da Boa Gente, traz aquela caixa de informação privilegiada de uma personalidade de prestígio, o Dr. Salimo Valá, Presidente da Bolsa de Valores de Moçambique.

O mesmo Notícias que no dia 6 de Dezembro de 2017, boas semanas antes, na primeira página, anunciava: “Iniciado processo para Venda de acções da HCB”.

Pelos vistos, para além do anúncio da privatização de 7.5% de acções da HCB pouco mais se sabe porque o que deve ser sabido depende de um plano de comunicação eficaz, ainda em cogitação, que permita que todos os moçambicanos sejam avisados com tempo sobre a informação relevante do processo e que, apesar de tudo, estão entre os muitos interessados em adquirir acções de HCB.

O  plano  de  “comunicação  eficaz”  tem   que  existir;  é  uma  voz autorizada que o diz.

O plano de “comunicação eficaz” deve informar o valor da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, SA que não pode ser, por razões óbvias, o da compra ao Estado Português, nem o exibido pela sua Contabilidade.

O plano de “comunicação eficaz” tem que apresentar o estudo feito por uma empresa reputada, de idoneidade e competência técnica interna e internacionalmente reconhecidas.

Talvez não a Kroll pela sua lentidão!

O plano de “comunicação eficaz” tem de apresentar o valor actual e o valor previsível em cada década do próximo meio século.

O plano de “comunicação eficaz” tem que demonstrar porquê os novos accionistas têm vantagens de comprar as acções.

O plano de comunicação eficaz” tem que demonstrar porquê o Estado precisa de fazer esta oferta pública de

acções.

Do que se sabe, ou se pode inferir, é que o Estado precisa de investir com urgência na HCB fornecedora de energia a várias distribuidoras nacionais, incluindo à pública endividada e pátria Electricidade de Moçambique, EP.

Também irrefutavelmente se sabe que o Estado ou o Governo só sabe que quer vender 7.5% de acções da HCB.

Porque ainda não existe um plano de “comunicação eficaz” que permita saber quanto vale a HCB, hoje e nos amanhãs próximos e longínquos, ninguém sabe ainda de que 7.5% de quanto se está a falar, muito menos quanto se vai arrecadar e porquê, apesar de parecer saber-se o para quê.

Talvez  se  vá  descobrir  que  os 7.5%  venham  a  ser  considerados insuficientes para o montante que se pretende arrecadar; para isso basta uma qualquer engenharia que avalie a HCB como uma Hidroeléctrica de Rovuè, em Chicamba (Manica) e haveria necessidade de abertura de mais 7.5%.

Porque  ainda não existe um plano de “comunicação eficaz” há muitas respostas que devem ser dadas a perguntas que não podem ser consideradas inexpressivas, como são as que faço!

Como se  sabe  que há  muito interesse  em  adquirir  acções  de  HCB quando tudo indica que não haver ainda um plano de comunicação eficaz, que permita que todos os moçambicanos sejam avisados com tempo sobre a informação relevante do processo?

A oferta pública de acções é apenas para os moçambicanos?

Sendo uma operação bolsista de oferta de acções como garantir a vivaz nacionalidade moçambicana do accionista? Não teremos accionistas portadores de bilhete e passaporte adquiridos ad hoc?

Estas novas juntam-se   às anteriores de igual má qualidade que, em insistência, repito:

(a) em que Assembleia Geral foi essa decisão tomada? Quais os fundamentos? Porquê esta solução e não outras? Como foi preparada a operação bolsista antes de plano de “comunicação eficaz”? Como se garante que os que detentores de informação privilegiada não sejam admitidos?

Não teria sido mais interessante para o Povo Moçambicano, os moçambicanos (não uns moçambicanos, que não são todo o Povo, quiçá o Clero ou uma nova Nobreza) que o Estado tivesse procurado  dinheiro, através de crédito ou de dividendos da HCB para comprar as acções ainda privadas, ao invés da sua destatalização ou, em direitas contas, como não gradualmente nacionalizar as poucas acções nas mãos de privados, sejam elas de Moçambicanos ou de estrangeiros?

Não  são  dúvidas  académicas  porque  a  estas  tenho  obrigação  de procurar e ter respostas convincentes.

São dúvidas de medo do futuro dos nossos futuros porque os Libertadores da Pátria preservaram este valioso bem, da sua artilharia e minas reforçadas, para poder oferecê-la ao Povo Moçambicano, unido do Rovuma ao Maputo e do Zumbo ao Índico.

Do que se trata é da venda de um dos principais activos financeiros e históricos de Moçambique, de tirar-se completamente do ar uma das peças basilares da soberania, da unidade nacional e do equilíbrio do jogo político regional.

Capitalizar com dinheiro novo a HCB por meio da abertura de capital é uma possibilidade.

Acontece que a HCB, precisando de dinheiro novo tem todo o investidor sério a correr para fazê-lo, com poucos condicionalismos e sem exigir o Aval do Estado, embora o contrário, neste momento, só possa parecer estranho.

Para tornar a HCB mais saudável no longo prazo, para continuar grande, não é precisa uma faxina profunda, bastando estar protegido por um pacto de regime das cobiças, quer internas quer estrangeiras.

Se esta é uma recomendação das missionários de Bretton Woods, por favor, que haja decência para dizer a eles, repetindo S. Bento, vade retro satana.

Este balão de ensaio da pluriprivatização serve apenas para lembrar que há dois lados opostos dentro de Moçambique, com desejos muito diferentes sobre o que o nosso Moçambique se deve tornar.

Quando  se  anunciava  o  muito  interesse  em  adquirir  acções  da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, prometia-se que a venda não iria afectar a produção da empresa.

Tomara! Trata-se de uma verdade de La Palice!

Não deixará, porém, de afectar Moçambique e os moçambicanos e o que eles bem presam…

A política do capitalismo popular, do jeito que é conduzida, é uma mistura de populismo e política, com alguns agrados e a criação da sensação de que se quer redistribuir a riqueza pelo Povo.

Se não se aceita que seja uma falácia, por favor, que sejam apresentadas provas de que não há saídas mais baratas, inteligentes, menos susceptíveis a desvios, menos penalizantes…

Esta é a questão que se põe para o futuro de todos os moçambicanos e não apenas de um minúsculo grupo que, para o mal dos nossos pecados, se alcandora com legitimidade para ter direito a esta redistribuição da riqueza, sem obedecer a qualquer são princípio de justiça social.

Considero que as chamadas dívidas ocultas (que não me caia o Carmo e Trindade ou a Sé e os Paços!) que correspondeu a um processo de o País adquirir artes de pesca e equipamento militar e de segurança para as nossas riquezas naturais, apesar do secretismo envolvido, ocorreu em termos menos conspirativos do que este anúncio de venda pública e aparentemente democrático.

Antes do próximo lustro veremos as razões.

Não estou ao serviço dos outros, nem de ninguém em particular, apenas servir-me da minha consciência cidadã, para servir o único Patrão do meu Presidente – o Povo.

Tenho esperança que vale a pena servi-lo, mais não seja porque as nossas almas não são pequenas e não querem ser derrotadas.

A HCB devia ser tendencialmente 100% estatal, mantendo-se como SA, por uma lógica de uma adequação às melhores práticas de governança do mercado.

Pensar-se em recriar uma HCB empresa propriedade da HCB, 100% estatal e nacional e uma outra HCB gestora da HCB, eventualmente disponível ao vampirismo?

Porquê  os  investidores  privados  moçambicanos  tendo enxergado  a capacidade de investimentos, rentabilidade e viabilidade do sector eléctrico no País preferem HCB e não a Mphanda Nkuwa, Massingir, Mapai, Pequenos Libombos  ou Moamba-Major, disponíveis em ppp’s?

O Estado, o maior interessado no fornecimento de energia mais barata e para todos, para atingir os OdM, estará já fulminado?

Não veria com maus olhos uma estação de televisão, uma transportadora aérea nacional, um distribuidora de electricidade não totalmente do Estado, especialmente quando nos dizem, ano após ano, que teremos que os financiar com os nossos impostos.

Não  defendo  que  se  nacionalize  por  nacionalizar  a  HCB,  advogo, apenas, que não se tenha medo de discutir essa alternativa ao lado de todas as outras, muito menos representar um tabu questionar a meteórica e inexplicada partilha de acções, num tempo célebre por acabar com as vacas sagradas.

Últimas perguntas, hoje:     

(1) Quantos mais 7.5% serão vendidos,

(2) com que periodicidade,

(3) até que limite de capital, e

(4) quem decide (a HCB, o Governo ou o Estado)?

Se nada de ilegal há, algo de ilegítimo e antiético passeia-se…

Ka Tembe, Janeiro de 2018

 

 

 

No telemóvel ainda choviam cordialidades pela passagem do ano. A cabeça pesava-me como se estivesse cheia de babalaza de todos os destilados. Por isso não me levantei logo da cama. Mas não ia demorar ali deitado porque não gosto de estar sozinho, sem vozes de pessoas ou outros ruídos a entreterem-me os ouvidos. Sozinho, há espaço para o silêncio. Fujo do silêncio para, no meio de outros barulhos, poder fingir que não ouço a incontornável voz da minha consciência. 

A minha consciência fala baixo. Com voz serena e vibrante. Como se discursasse sem microfone do meio de um átrio sagrado. E fala pouco, mas assertiva, como um padre experiente, capaz de resumir uma missa inteira em duas ou três palavras.

Ainda de olhos fechados, no lento processo do despertar, já ouvia a respiração intensa da minha consciência. Abri os olhos por instinto, mesmo sabendo que não a veria. Nunca ninguém viu a própria consciência, apesar de ouvirmo-la sempre. 

Olhei para o tecto. O tecto olhava para mim. A cabeça pesava. Pesava muito. Ia voltar a fechar os olhos para aproveitar o resto de sono, por alguns minutos. Mas um ruído interrompeu-me. Era o som seco de uma tosse. Era a minha consciência a tossir, chamando-me atenção. Antes que ela começasse a dizer coisas,  levantei-me da cama.

Eu estava mole, com o cansaço do ano inteiro que recai sobre nós por estas alturas, e com este peso enorme na cabeça. Quando me levantei parecia que os meus miolos se tinham transformado, durante a noite, em chumbo. Sentei-me na borda da cama. Não bocejei. Não espreguicei. Estava sem forças até para a higiene matinal. Sem forças para o café da manhã, para os jornais que me acompanham os cafés. Malditos jornais, pensei. Não os quero ler. Nem um! Nem um pôs a minha foto na capa como figura do ano. Mesmo depois dos lobbies que fiz. Se eu fosse figura do ano num desses jornais, não me escapavam uma dessas nomeações sazonais. Juro. Não me escapavam.

Olhei para o espelho. Eu estava com mau aspecto. O espelho devolvia-me a imagem como se a rejeitasse. Como se não quisesse responsabilidades sobre as iniquidades do mundo. Levei a mão à  testa,  instintivamente, avaliando a temperaruta do corpo. Não estava febril. Mas a cabeça pesava como chumbo e doía.

— Precisas ir ao médico — falei em tom amigo, ao outro eu do outro lado do reflexo. 

— Médico? Mas não estás doente… — intrometeu-se a voz da minha consciência. Percebi que estava ali muito próximo, embora não a visse no espelho.

— Mas pesa-me cabeça, e dói-me muito. Nem é ressaca porque não bebi. Deve ser malária — respondi-lhe a olhar para o meu reflexo, como se olhasse para quem me falava, habituado a diálogos com contacto visual.

— Olha bem para ti .

Olhei para o espelho

— Não para o espelho. Para dentro de ti.

Eu não sabia como é que alguém podia olhar para dentro de si. Mas fiquei calado a olhar para o espelho. 

— Vês? — perguntou-me.

Eu não via nada para além da minha imagem refletida no espelho.

— Se queres ser político…

— Mas eu sou político.

— Não. Ser político é mais do que isso. Olha bem para ti.

Silêncio. No reflexo a minha barriga aparecia gorda de comissões. E estava suja. As minhas mãos também apareciam sujas, muito sujas.

— É o sujo da corrupção — disse a voz.

Apercebi-me que o espelho estava rachado. A rachadura percorria o espelho de tal modo que parecia barra de uma grade. E o meu reflexo estava atrás  das grades. Assustei-me.

— Vês? — a voz falou como se pousasse a mão no meu ombro — esse peso na tua cabeça não é  malária. Não é  babalaza. É peso de consciência.

No canto do espelho, a rachadura terminava em muitas outras, e fragmentava a minha imagem. Eu que tudo fizera para ser a figura deste ano nos jornais e conseguir uma nomeação, estava a sentir-me desfigurado pelo espelho e pela consciência. Estava a sentir-me a Desfigura do Ano.

 

Desde miúdo que guardo a sensação de que cada ano, mesmo no seu término, nos trata como se tivéssemos a irrelevância de uma mascote pronta a ser esquecida. Não vejo o que haja a comemorar. Além disso, nem todas as cicatrizes são tão espectaculares que mereçam o relato do que as produziu. 

Ganhei na última década o hábito de vir passar os derradeiros dias do ano numa lagoa, sem televisão, um lugar quase sem rede telefónica, com uma net gotejante, que exaspera quem dela necessite, e onde os fogos-de-artifício têm a fulgurância dos fósforos molhados no bolso de um esquimó. Chamo a este lugar, em homenagem à minha mulher, Santa Teresita.

Bem me tentam os amigos para que com eles festeje em lugares de estardalhaço e dissipação; acabo sempre por desviar-me para esta modorra. Eles não sabem porquê, mas vou-vos contar.

Meia-noite e dez sob o alpendre. As miúdas festejam cada “fulminante” que se recorta nos céus. Eu, nas costas delas, sentado à mesa, beberico a Ermelinda e espero uma visita. Todos os anos tenho uma visita.

Tossem nas minhas costas, diligentemente encho de vinho a caneca que mantinha vazia ao meu lado e só depois olho por sobre o ombro.

É Napoleão. Diz-me, Espero que não te importes, estava entediado em Santa Helena. Não, estás à vontade, esperava por ti. Convido-o a sentar-se

Lembra-me como celebrámos o fim de ano em Moscovo. Na véspera caçámos o veado que agora nos era servido, e eu ao seu lado, com um martelo de ouro partia nozes, enquanto a pequena orquestra atacava uma polca. Um conde russo, que apostou no cavalo errado e espera futuras prebendas do imperador francês, introduzia-nos nas delícias da vodka artesanal e trouxe-nos duas irresistíveis gémeas ucranianas, com rasgados olhos fulvos, que partilharemos. São onze e trinta, faltam trinta minutos para o réveillon e Napoleão insiste em oferecer-me o comando da cidade de S. Petersburgo. Agradeci-lhe mas intuo que me quer desviar do meu béguin por Josefina (esperto como um alho, ele já entendeu) e rejeitei-lhe a oferta, contrapondo: “Tão a norte até o meu sangue tropeça no seu passo, se me queres ocupar preferia que me oferecesses Amsterdam, até porque estou comprometido com uma neta de Rembrandt”. Ele não me diz que não, replica apenas, enchendo-me o copo com mais uma dose de rum, “Deixa que o duende da bebida seja bom conselheiro!”. Passámos a noite em transe a recordar algumas noitadas em Viena de Áustria ou a discorrer sobre a cosmologia nas tatuagens dos quioquos.

É disto que os meus amigos se foram esquecendo, aturdidos pela festa, urbana e desmemoriada. Na passagem, entre os anos, podemos ter uma visita. Nem vos conto os meus réveillons com Baudelaire, Stravinsky, Pasolini e em Cuba, com Lezama Lima. Com Lezama, vi à mesa (provei-o) o menu do banquete do Satíricon, que vos descrevo, deliciado: ovos de pavão, um papa-figos muito gordo untado de gema com pimenta, vinho com mel, grão-de-bico cornudo, uma vulva de porca estéril, empadas de javali, tâmaras frescas e secas, uvas, salsichas e chouriços, um bezerro cozido, uma franga gorda, à guisa de tordo, e ovos de pata encapuchados; um porco coroado de morcela e, em redor, sangue coalhado e miúdos de ave muito bem preparados; acelga e pão integral; lombo de urso; queixo fresco preparado com vinho abafado; um caracol por pessoa; empadas de tordo recheadas de passas e nozes; marmelos eriçados de espinhos. Não foi nada mau. À vulva de porca estéril tive de desfrutá-la às escondidas para que a minha mulher não notasse.

Há três anos conversei com Picasso, que nessa noite me levou a Paris. Os sinos acetinavam o ribombar dos fogos. Já tínhamos aviado três garrafas de Bordéus, e ele mete na mesa uma bagaceira caseira. Todos os outros convivas estavam na varanda. Só nós dois quedávamos à mesa, e ele comentava, a voz já levemente pastosa, “… muita gente julga que não vendi de imediato as Demoiselles d’Avignon por apego à arte, tolos, eu sabia que os meus quadros iriam valer ouro nos leilões de arte, escuta o que te digo, daqui a setenta anos, só os quadros do Da Vinci se equipararão no valor que será alcançado pelos meus quadros nos leilões…”. “E isso, para ti, é importante?”, pergunto-lhe intrigado. “Bom, prefiro a água de uma fonte na montanha à que sai das torneiras de ouro, em Versailles, mas só o dinheiro nos pode dar a ilusão de que o nosso tempo não se gasta…E vais ver que um dia os árabes, com os petrodólares hão-de fazer museus onde quererão pôr a Renascença e as Vénus nuas a sair das águas, eles que sempre proibiram a representação do rosto e do corpo humano… Acho que o mundo enlouquecerá sem dignidade…”.

Tomei aquela por uma conversa de ébrio, até que hoje, dia 1 de Janeiro de 2018, li no Público de 31 que o quadro de Da Vinci, Salvator Mundi, um dos símbolos da arte cristã, foi rematado num leilão por trezentos e oitenta e dois milhões de dólares, tendo sido a quantia expedida pelo Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi, a capital dos Emiratos Árabes Unidos, onde abrilhantará as paredes da sucursal do Louvre.

E leio que, ao lado, os demais países árabes descobriram os museus e assaltam como gafanhotos de patas de amianto e cabeça em aricalco o mercado da arte. Não sei como a arte ocidental, a preferida por tais compradores – pelos vistos -, se compadecerá com os dogmas religiosos muçulmanos, mas é uma curiosidade a seguir com atenção. Esperemos que, como aventava Picasso, isto não seja mais um sinal do mundo estar literalmente chanfrado mas antes um indício de abertura.

Temo agora que as conversas com os meus visitantes não sejam inocentes mas proféticas e ter quebrado alguma corrente mágica quando não aceitei governar S. Petersburgo. Embora toda a noite Napoleão, afinal o criador do Louvre, tenha revelado uma grande capacidade de perdão. 

 

 

 

 

 

 

Antes de entrar nos meus entas era uma obsessão recolher pedacinhos de tudo quanto visse quando fosse algures pelo mundo.

Já tive miniaturas da Torre de Piza, Basílica de S. Pedro, Coliseu de Roma, Estátua da Liberdade, Cristo Redentor do Rio, Ponte 25 de Abril, Basílica de Yamoussoukro, Santuários de Nossa Senhora de Fátima e de Lourdes, Petra, Taj Mahal, etc.

Os meus filhos foram se divertindo com essas minhas recordações e muitos são destroços irreconhecíveis de um grande maremoto; hoje deleito- me com porcelanas da Vista Alegre com Pinturas da Sé Catedral de Nossa Senhora da Conceição, da emblemática Estação dos Caminhos de Ferro e dos vetustos Paços do Município de Maputo.

São os meus pedacinhos de recordações de sítios jamais  sonhados pelos meus pais e que são património impenhorável e imprescritível dessas Nações.

O Governo da República de Moçambique,  recentemente, anunciou a decisão de delimitar algumas regalias próprias dos tempos faustos.

O Estado, entre milhentas de outras formas, podia ter optado em financiar-se junto da banca nacional, emitir Obrigações de Tesouro, Títulos do Tesouro, ou emitir um empréstimo forçado.

Não enveredou por essa via e optou por uma das mais elementares regras de gestão das contas públicas, em particular da despesa, a mais cara e emblemática na Escola do sistema Bretton Woods: combater o despesismo.

Trata-se de uma medida pertinente que só pode demonstrar sentido de Estado e perfil grandíloquo de quem a tomou e de quem bem controlará a sua aplicação.

Felizmente, não optou por vender alguns edifícios públicos, algumas estradas (bem precisando de investimento), o Roll Royce, os museus que só ostentam antiguidades históricas, cujos pedacitos muitos bem gostariam ter entre os seus pertences.

Imagine-se só quão estupefacta estaria, lá no fundo, a minha avó se assistisse que a estrada que abriu no Xibalo, a propósito de financiar mais investimentos para alargá-la (afinal tinha sido concebida senão para o “randrova” do Administrador da Circunscrição do Concelho do Ximbutso), estava a ser privatizada e vendida aos bocaditos…

De  certeza,  a  velha  da  minha  querida  avó  iria  esquecer-se  de  ser desdentada e, no uso da democracia etérea, pediria uma reunião com Mondlane, Samora e outros ilustres para mandar o aviso de que se deve saber que privatizar o que custou o sacrifício do seu sangue consubstancia uma inconcebível privatização.Para erigir um Panteão Nacional, bem necessário para honrar esses nossos mártires e heróis  tínhamos de vender alguns pedacinhos de quê?

Quem  detém  os  pedaços  de  HCB,  através  de  acções,  é  dono  ou doninho (se isso serve de consolação) da HCB e é isso que se diz ser ignóbil.

Mesmo  partindo  da  hipótese,  absurdamente  académica,  de  que  a Hidroeléctrica de Cahora Bassa é apenas a empresa gestora e não a proprietária da Barragem, não seria desejável que as accõeszinhas (os tais pedaços de HCB) fossem vendáveis.

O Governo colonial Português, melhor, o Governo fascista e salazarista da metrópole, nos anos sessenta do século passado, capitalizou o Plano de Desenvolvimento do Vale do Zambeze, através de Obrigações e para financiar a  construção  da  barragem  o Consórcio  ZAMCO  –  Zambeze  Consórcio Hidroeléctrico, Lda, acredito, que não abriu o capital para novos quotistas.

Na verdade, o que pensava é que a Albufeira de Cahora Bassa e a própria Barragem de Cahora Bassa que a forma não deviam ser privatizadas.

Se em algum momento da trajectória da nossa história político- financeira foi necessário abrir mãos ao capital privado (diga-se com muita clarividência),  é  tempo  de  nacionalizar  (no  sentido  mais  erudito  e  jus-

económico do termo) esse capital com a justa indemnização, que se impõem, nos termos da Constituição, provado ter sido por causa de (i) necessidade, (ii) utilidade ou (iii) interesse públicos.

Alias, é essa Constituição, a que eu apenas devo respeito e não a sua defesa, que impõe ao Estado o dever de promover o conhecimento, a inventariação e a valorização dos recursos naturais e determinar as condições do seu uso e aproveitamento, com salvaguarda dos interesses nacionais.

Os interesses nacionais sublinhados  não se resumem aos interesses de grupo ou grupo de interesses, mesmo que eles sejam muitos e colectivos.

Os interesses nacionais cuja salvaguarda é pela Constituição exigida ao Estado é mais do que qualquer interesse de moçambicanos, devendo ser os da NAÇÃO, esse ente passado, presente e futuro que nos deve animar, acima das nossas vontades.

A Hidroeléctrica de Cahora Bassa, como um bem público que não acata o princípio de exclusão, é de consumo passivo e, como tal, é indivisível, inexcluível e irrival1.Para o pagamento da compra da HCB ao Estado Português, na primeira década deste século, recorreu-se a um empréstimo comercial.

Nesse empréstimo, Moçambique nunca foi inadimplente, tendo reembolsado o crédito nos prazos.

No investimento que se pretende, o Tesouro podia, desta vez bem, ser avalista da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, se qualquer Banco entendesse ser mais real esta garantia do que o valor do próprio empreendimento que a HCB representa ou mesmo o penhor da receita que ela gera.

Se o que se pretende é promover os moçambicanos, todos teríamos imenso prazer em participar num empréstimo público obrigacionista, organizado pela Bolsa de Valores de Moçambique.

Em  Bolsa,  será  muito  difícil  fazer  a  desconsideração  das  pessoas colectivas e, por via disso, pode-se vir a ter novos donos, bem piores do que o Estado Português, agora mais nosso amigo e que jamais ninguém aceitará que seja fascista.

Estas acções de privatizar e de tornar a HCB menos do Povo Moçambicano e de apenas de muitos moçambicanos, até prova em contrário, não pode ser a mais acertada, como não pode ser qualquer tentativa de privatizar a riqueza nacional.

Acertado é o uso da Bolsa de Valores para o financiamento destas iniciativas pois oferece-se aos moçambicanos outra alternativa de uso da poupança diversa da dos depósitos bancários.

Doutra forma, é um mecanismo de ter valores no bolso dos poucos que serão sempre menos do que os 30 milhões que seremos em breve.

Das anteriores perguntas, das várias possíveis, ainda sobram estas: em que Assembleia Geral foi essa decisão tomada? Quais os fundamentos? Porquê esta solução e não outras? Como se garante que os detentores da informação privilegiada não sejam admitidos na Bolsa?

Nas  perguntas  respondidas  mantém-se  a  convicção  de  que esta operação bolsista não é boa nem para o promissor futuro da HCB, tampouco para o Povo Moçambicano que não quer ver a sua independência a ser vendida a retalho.

 

1 WATY, Teodoro Andrade, Direito Financeiro e Finanças Públicas, WEditora, 2011, pp 16-21.

 

Malangatana:

– Tens gin em casa?

Eu disse-lhe que sim.

– Então vou aí!

Não passou muito tempo, o velho Mercedes do Mestre estacionava no baldio que tínhamos à frente do prédio. O dia dessa visita está anotadíssimo: 22 de Março de 2003. O Irati acabara de fazer sete anos e a Mayisha, que nascera enquanto vivíamos naquele apartamento da Coop, tinha dois anos. Já passava das 19 horas quando ele chegou, presumo que a Mayisha dormia já. O Irati foi um dos entusiasmados anfitriões.

Fui buscá-lo lá abaixo e subimos aqueles dois andares ao seu ritmo. Não sei como explicar o júbilo de o receber em casa, de partilhar com ele aquele momento incrivelmente único, de me atardar na conversa com o Mestre. Servimo-nos do gin e água tónica. Fui, a meio da conversa, à estante apanhar o exemplar do álbum Malangatana, edição da Ndjira, para ele o autografar.

O Mestre pegou no livro e, com o Irati no colo e, diante do meu deslumbrado espanto, em vez de mo assinar, começou a desenhar na página direita do livro. Depois, acto contínuo, escreveu um poema (“Contradição”), que encimara com um “Para ti Nelson”. Entre os versos, outros desenhos na página esquerda do livro. Escusado será dizer que ele andava sempre com os seus materiais. Fiquei chocado. Eu esperava uma dedicatória e ganhei uma obra de arte. Inédita. Uma grande láurea. Isso é impagável. O Mestre praticava, amiúde, essa generosidade com os amigos.

A primeira vez que fui visitá-lo à casa do aeroporto era noite, passava das 10 da noite e tínhamos saído de um jantar e lá fomos, como se estivéssemos em procissão, à casa do Mestre. Visitar aquele mundo mágico, num momento em que o bairro adormecera, num silêncio que ampliava a sensação daqueles duendes, daquelas figuras, daqueles demónios, daqueles sathanas, daqueles xipócuès, não me parece que seja possível dizê-lo em palavras. É uma magia indescritível, mesmo para quem passa a vida a discretear palavras. O mundo prodigioso do grande pintor moçambicano, do grande pintor africano, do grande pintor universal. Outras tantas vezes fui com ele ou fui vê-lo a Matalana. Outro lugar mágico.

Estive com ele inúmeras vezes. Recordo-me da vez em que viajámos juntos para os Estados Unidos e da voz do Mestre, em Rhode Island, numa cerimónia da Brown University, que comoveu a reitora, uma afro-americana, que desabou em lágrimas, e a todos os que lá estavam. Recordo-me dele em Lisboa em diversas ocasiões. Recordo-me dele em exposições e vernissages, aqui em Maputo. Recordo-me, sobretudo, quando um grupo de dez amigos, à volta dele, fundou a Kulungwana, no seu 70º aniversário. A galeria está na estação dos Caminhos de Ferro e a Henny Matos, que a dirige, tem feito um trabalho extraordinário. Com ela partilho, muitas vezes, as histórias do gin tónico, o pretexto que Malangatana arranjava, ao fim do dia, para visitar os amigos. Todos os dias espreito a sala da galeria quando me dirijo para o meu posto de trabalho no fundo da estação. O nome foi ele quem o sugeriu e o desenho que o identifica é dele.

Malangatana, nascido a 6 de Junho de 1936, em Matalana, Marracuene, morreu em Matosinhos, a 5 de Janeiro de 2011, aos 74 anos, faz esta semana 7 anos. Em 2005, o José Luís Cabaço marcou um café no Piri-Piri comigo. Estivera em Lisboa e soubera que havia uma iniciativa dos portugueses para celebrar os 70 anos do Mestre no ano seguinte. Sugeriu-me que eu juntasse CEO e administradores de empresas moçambicanas e constituíssemos um fundo e avançássemos com uma iniciativa em Moçambique. Ele estava em São Paulo e não teria como participar activamente. Queria que eu fosse uma espécie de director executivo da iniciativa. Nomeou-me ali mesmo, como quem diz: se não o fizeres, ninguém mais o fará. E será uma vergonha os portugueses celebrarem Malangatana e nós não! Eu assumi a incumbência e avançámos com a iniciativa, que agregou não só empresários, mas actores da vida cultural e intelectual moçambicana.

Rui Fonseca, dos CFM, anuiu que a empresa hospedasse a organização e os encontros. Magid Osman, Arnaldo Lopes Pereira, Rui Fernandes, Joaquim de Carvalho, Lourenço do Rosário, entre outros, foram os mais entusiasmados e participaram activamente no estabelecimento da homenagem. Pensámos, para além de uma exposição, realizada na Mediateca do BCI, num conjunto de iniciativas. Para que a gestão de fundos fosse credível, elegemos a FDC e pedimos que ela acolhesse e gerisse o fundo e teríamos uma empresa de auditoria que iria auditar as contas. Partimos para acção. Muitos meses depois da homenagem, o Narciso Matos, que era director executivo da FDC, ligou-me a dizer que tínhamos ainda dinheiro que sobrara das comemorações. Articulei com o Lourenço do Rosário e falei com o Mestre. Ele sugeriu aquele valor fosse para jovens artistas. Atribuímos a dois deles para um estágio no estrangeiro. Tocou-me este exemplo. Esta generosidade.

O Mestre deveria merecer do Estado a mais alta condecoração a um civil. Lourenço do Rosário, que presidia à comissão na companhia de Lindo Lhongo – que desapareceu do reino dos vivos em 2017 -, amigo de sempre do Mestre, e eu próprio, fomos falar com o Presidente. No dia 6 de Junho de 2006, Matalana estava em júbilo com a festa de um dos seus filhos ilustres, senão mesmo o seu mais ilustre filho. A festa que os familiares e amigos tinham preparado transfigurou-se com o furacão da delegação e da visita presidencial. O Mestre recebeu a medalha que queríamos que ele tivesse. 

Mas queríamos e deveríamos fazer outras coisas como sociedade civil. Outras competiriam ao Estado fazer.  Iríamos constituir um fundo que permitisse que o Mestre e a família não precisassem de vender ou malbaratar a obra para sobreviver, íamos dinamizar a construção de uma galeria ou um museu Malangatana, queríamos que o Estado adquirisse a obra para fundeá-lo. Para tal, seria necessário que o Estado declarasse a sua obra de utilidade pública. Também queríamos que o governo lhe concedesse uma pensão. O Magid Osman fez um jantar em sua casa, com a presença do Primeiro-ministro. Objetivo: conseguir do governo um compromisso com aquela iniciativa e os seus objectivos. Nós iríamos mobilizar os recursos, no país e no estrangeiro. Tínhamos amigos lá fora que iriam aderir, estavam disponíveis. O ministro da cultura não compareceu ao jantar, fez-se representar pela directora do museu de arte.

Encontrei no dia seguinte o Ministro da Cultura e falei-lhe dessa intenção, do jantar a que ele gazetara, e da esperança que tínhamos de que ele levasse ao Conselho de Ministros aquela iniciativa, como tinha sugerido o Primeiro-ministro. A resposta do Ministro revela tudo o que somos e que não somos e, sobretudo, o quão somos ingratos em relação aos nossos génios: a iniciativa era bem-vinda, mas deveria ser para todos os artistas. Disse-mo. Malangatana não merecia um estatuto de excepção – palavras minhas.  Como assim? – não quis acreditar. O princípio de que o Estado deve criar um ambiente de defesa e promoção de todos os artistas de igual modo, é um princípio correcto. Mas não se perceber que um génio merece uma excepção e um tratamento excepcional parece-me uma perfeita inadimplência.  Escusado será dizer que a ideia morreu ali. Todos os artistas têm o génio do Malangatana? – perguntei-me. O ministro à época, que é poeta, pelos vistos acreditava que sim. Mais: como se verificaria, não fez nada nem por Malangatana nem por nenhum outro de todos os outros artistas.

Moçambique tem um escol extraordinário de artistas plásticos: Bertina Lopes, Mankew, Chissano, Shikhani, Noel Langa, Samate, Chichorro, Reinata, Victor Sousa, Ídasse, Naguib, Bata, Tomo, Gemuce,  Sitoe, Ndlozy, Simões, Pekiwa, Pinto Zulu, entre outros. Poderia citá-los continuadamente. Muitos deles de grande e indubitável talento. Cada um deles representando um universo criativo singular. Mas Malangatana pertence a outra galáxia. Malangatana habitava e habita outro universo. Tinha e tem outra dimensão. Malangatana foi, provavelmente, o maior artista plástico do século XX africano. É certo de que esta afirmação ufana, flagrantemente ufana, é peremptória – eu sei. E assumo. Nós, na nossa pequenez, por vezes, não temos noção daquilo que é grande em nós. Malangatana é um artista, provavelmente o único entre nós, com a projecção, a importância, a relevância e a percussão universal, que obteve em vida e que mantém.

Malangatana: “Os meus temas principais são: ódio, feitiço, crime, angústia, paixão pela vida e amor. Estes temas não estão só na pintura mas também na poesia. Tudo isto sinto no coração e quando faço qualquer trabalho sem sentir, nunca sou eu o autor desse trabalho, o que me leva então a estar a fazer outra coisa quando o sentimento me falta (…)”

O universo pictórico dele é brutal, fantasmagórico, assombroso, medonho, dilacerante. As suas esculturas e os seus murais são uma presença singular na paisagem. Trazem a mesma carga metafórica dos seus desenhos e pinturas. As canções que canta são profundas. O seu corpo caudaloso transporta o universo do seu povo. Matalana é o seu mundo e com ele rasga fronteiras. A sensibilidade, a composição, a explosão das cores, a sua exuberância. O bestiário de Malangatana é único, os seus duendes, os seus espíritos, as suas vozes, o seu imaginário inesgotável e fascinante. Os seus monstros. Ninguém sai incólume desse universo. Ninguém sai o mesmo depois de mergulhar naquele mundo encantado de Malangatana. Malangatana é um fabuloso contador de histórias. É um encantador encantado. Um ser humano impressionante. Um gigante. Um homem soberbo. A sua arte revela isso mesmo. O seu génio incrível. Incomparável.

Não conheço outro caso, no que se refere a Moçambique, de um talento tão brutal e ingente como o de Malangatana, convergindo para uma panóplia de expressões e encantamentos. Pintor, escultor, poeta, cantor, dançarino. Antes foi tudo: pastor de gado, aprendiz de nyamussoro, criado, apanhador de bolas. Desde os anos 60, a sua arte irrompe para além do seu universo particular. Com José Craveirinha, Rui Nogar e Luís Bernardo Honwana é preso político. No pós-independência cumprirá o opróbrio da expiação revolucionária, em Nampula, com o Rui Nogar. É preciso não deslembrar os excessos que se cometeram. A amnésia por vezes assalta-nos, principalmente nos dias de hoje em que vivemos nos antípodas daquele tempo de todas as exabundâncias.

Nunca o vi ressabiado, nunca o vi amargurado, nunca o vi alvitrando em desfavor de ninguém. Lembro a sua imensa generosidade. Lembro a sua bondade. Lembro a sua alegria de viver e, sobretudo, a sua disponibilidade. Lembro-o inquieto com tantos projectos. Os sonhos gigantescos que tinha. Como a sua casa de Matalana, que lembra o sonho de Antoní Gaudí – a Sagrada Família, em Barcelona. Obra impossível de ser concluída pelo autor. Obra para o futuro de todas as incumbências. Falava-me, sempre que me encontrava, do que estava a fazer. Partilhava o seu mundo. Era um ser único. Na sua companhia sentíamo-nos iguais a ele e, só depois, apartados daquela presença exuberante e colossal, poderíamos realizar que estivéramos perante um verdadeiro gigante. Precisávamos de distância para perceber isso.

Creio que o que perdura daquele ano de 2006, no qual celebrámos, jubilosamente o Mestre em vida, é a associação Kulungwana, que ele tanto acarinhou. Ali, muitas vezes, na estação, à porta da galeria, revendo aquelas imagens do tempo, dos últimos dez anos, reencontro aquela figura possante, aquele homem extraordinário, aquele artista generoso, com a saudade de um grande amigo, provavelmente esquecido e sem merecer o cuidado e o carinho que deveriam merecer os nossos maiores – os intérpretes da moçambicanidade. A Pátria tem disto. Já não me queixo. Assinalo apenas. A Pátria pratica a disjuntiva quando se trata dos seus melhores, é displicente, quando não disfarça o incómodo, pratica o dissenso em relação a eles. A Pátria apela à mediania. Revê-se nela. Com um júbilo escancarado. Gosta de disjungir quando se trata dos seus génios. Como se o facto de os possuir fosse uma dádiva de que dispuséssemos sempre.

Os portugueses, entre outras coisas, baptizaram um avião com o nome de Malangatana. Quando vejo a aeronave que rasga os céus com o nome do nosso mais importante pintor, assalta-me um misto de alegria e tristeza. Alegria por o ver reconhecido, tristeza por sê-lo longe da Pátria. Mas não me resigno perante os dislates. É preciso cauterizá-los. Sem proselitismos, nem maniqueísmos. Acho que, sete anos depois da sua morte, lembrá-lo aqui é importante. Lembro-o não só como o amigo com quem tive o privilégio de conviver, de falar e de ouvir, de admirar a sua soberba arte, mas sobretudo como o maior pintor moçambicano – quiçá o maior pintor africano – do século XX.

Aquele dia 22 de Março de 2003 em que ele desenhou duas amplas páginas do meu álbum Malangatana, com o meu filho vigilante e maravilhado, no seu colo, sorvendo, ele e eu, vagarosamente, aquele inesquecível gin tónico, terminou tardíssimo. Já passava das 22 horas quando fui escoltá-lo até à sua casa. Já era tarde demais para deixar o Mestre Malangatana Valente Ngwenya, depois de um belo gin tónico, andar, sozinho pela estrada fora, ainda que no seu belo e velho Mercedes Benz.

 

“Onde entra o desporto, sai a doença” – esta é uma frase de Samora Machel quando se referia à necessidade de todos os cidadãos se preocuparem com a prática desportiva.

Com a sua voz “metálica”, o carismático líder lançou a primeira edição dos Jogos Desportivos Escolares, marcou presença em partidas internacionais no Estádio da Machava e recebeu na Ponta Vermelha vários desportistas após sucessos desportivos. Num gesto de reconhecimento por um talento da terra que fez furor em Portugal, o Presidente recebeu Eusébio da Silva Ferreira, conferindo-lhe um passaporte diplomático.
Foi também sob sua Direcção que se lançaram bases para a internacionalização do nosso desporto, com o surgimento do Comité Olímpico e as Federações Nacionais. Além disso, foi o mentor do programa “Correr é Saúde”, que motivou talentos, distribuindo rádios “xirico” e viciando muita gente para a prática da actividade física.

Assunto de Estado
Apesar das imensas preocupações com os multifacetados problemas da Nação recém-independente, Samora Machel considerava para si próprio obrigatória a prática regular de exercícios físicos, estendendo como “orientação”, essa sua paixão aos quadros dirigentes do País.

E muita gente se envolvia. Em período de grande exaltação política, os jogos-grandes na Machava e as inesquecíveis noites de basquetebol no Maxaquene, funcionavam como um tónico revigorador para as jornadas laborais e, ao mesmo tempo, instrumentos de verdadeira moçambicanidade.

A força e o interesse dos então dirigentes do país pelos grandes jogos da Selecção Nacional, lotavam os camarotes. Samora dizia que várias vezes tinha vontade de ir aos grandes-jogos, mas só não o fazia por causa da movimentação protocolar que a sua deslocação obrigaria. Chegou, certa vez, a abreviar um discurso de encerramento na então Assembleia Popular, porque se apercebeu que os deputados estavam todos de corpo presente, mas com o pensamento no Moçambique-Zaire que se realizaria poucas horas depois.

Ai que saudades! O desporto era mesmo um assunto de Estado. Mexia com todos. A união dos moçambicanos em redor dos objectivos desportivos nacionais, a verdadeira auto-estima, eram uma realidade, diferentemente do que hoje vemos, em que o pensamento reside mais no Marquês de Pombal ou em Camp Nou do que no Zimpeto.

Porquê esta tão grande subalternização ao que é nosso? E se a alta competição não tem qualidade, como se propala, como explicar a tão gritante falta de acompanhamento de pais e tutores nos dias em que as nossas crianças “correm para a saúde”?
Termino com o extracto de um dos maiores pensadores e líderes que o mundo conheceu, relativamente ao desporto. Disse, Nelson Mandela: “no desporto, só perde quem o não pratica”!

 

A Barragem de Cahora Bassa sobre o Rio Zambeze, na província de Tete, a maior barragem em volume de betão construída em África e o maior empreendimento português, forma a quarta maior albufeira africana1 com 2700 km² e uma profundidade média de 26 metros2  1969 é o ano de início de construção, protegida pelos Batalhões de Caçadores Pára-quedistas portugueses 31 e 32 e o seu enchimento inicia em Dezembro de 1974.

A  Hidroeléctrica  de  Cahora  Bassa  é  a  sociedade  que  administra  a Barragem,   uma   sociedade   anónima   inicialmente   detida   em   82%   pelo Estado português em 18% pelo Estado Moçambicano.

A Barragem de Cahora Bassa foi um dos assuntos presentes nos Acordos de Lusaka e ficou albergado no Contencioso Colonial.

Em 1986, o Presidente Samora Machel, , em visita a Songo, deixou   a seguinte inscrição comemorativa:

“Esta maravilhosa obra humana do género humano constitui um verdadeiro hino à inteligência, um promotor do progresso, um orgulho para os empreiteiros, construtores e trabalhadores desta fantástica realização. Cahora Bassa é a matriz do desenvolvimento do Moçambique independente. Os trabalhadores moçambicanos e portugueses, fraternalmente, juntando o suor do  seu trabalho e dedicação, garantem que este empreendimento sirva os interesses mais altos do desenvolvimento e prosperidade da R.P.M. Moçambicanos e Portugueses consolidam aqui a unidade, a amizade  e solidariedade cimentadas pelo aço e betão armado que produziu Cahora Bassa. Que Cahora Bassa seja o símbolo do progresso, do entendimento entre os povos e da paz no mundo”.

A 31 de Outubro de 2006 o Estado português vendeu 3 parte da sua participação passando a deter apenas 15% do capital, sendo os restantes 85% passando a caber ao Estado moçambicano.

A cerimónia de reversão do empreendimento para Moçambique foi realizada na vila do Songo, a 28 de Novembro de 2007. Tive a grata felicidade de estar em lugar destacado nesta cerimónia.

A 9 de Abril de 2012, Portugal vendeu os restantes 15% da participação que detinha, por 74 milhões de euros.

Em palavras tão cantantes quanto as da proclamação da insurreição geral armada, feita pelo Presidente Mondlane, em Setembro de 1964 ou as pronunciadas pelo Presidente Samora Moisés Machel na Proclamação da Independência, a 25 de Junho de 1975, o Presidente Armando Emílio Guebuza disse:

“É  com  muito  júbilo  que  nos  dirigimos  ao  Povo Moçambicano, do Rovuma ao Maputo e do Índico ao Zumbo, depois deste acto histórico marcado pela assinatura, com  o  Governo  Português, do  Protocolo  de  Reversão  e Transferência do controle da Hidroeléctrica de Cahora Bassa para o Estado Moçambicano. Este acto remove do nosso solo pátrio o último reduto, marco da dominação estrangeira de quinhentos anos.

Este protocolo simboliza, assim, o rompimento com o passado e o alvorar de uma nova era nas relações entre os nossos dois países, impregnadas de esperança e expectativas. Em razão deste simbolismo político, a Hidroeléctrica de  Cahora Bassa  foi sempre, como todo o processo que conduziu à nossa libertação, um assunto nacional, um assunto de todos e de cada um dos moçambicanos. Foi neste contexto que em toda a nossa Pátria Amada se vinha celebrando a reversão deste empreendimento, desde a assinatura do Memorando de Entendimento, em Novembro de 2005, como a nossa segunda Independência Nacional.

Este sentimento explica, assim, a impaciência pública para com a demora na conclusão do processo negocial que produziu o presente protocolo. Essa impaciência era articulada por cidadãos, profissionais da comunicação social, dirigentes e membros de partidos políticos e de organizações da sociedade civil bem como por amigos de Moçambique e do seu Povo. Estávamos conscientes que para se chegar a este acordo teríamos que passar por um processo negocial longo, complexo e nem sempre fácil. Porém, sempre acreditamos que esse acordo não era apenas necessário para o reforço das relações entre os nossos dois países. Acreditamos, sobretudo, que esse acordo era possível e, a sua conclusão, irreversível. Esta esperança e convicção, bem como a nossa crença na boa-fé do Estado Português informaram a nossa persistência e a manutenção da necessária flexibilidade para a exploração das opções e das modalidades para a conclusão do texto final.

Gostaríamos neste momento solene, de saudar, muito vivamente, a todos os trabalhadores e gestores da Hidroeléctrica de Cahora Bassa que, desde a primeira hora, asseguraram, com afinco, dedicação e profissionalismo, a operação e manutenção deste empreendimento, em circunstâncias, nalguns casos, adversas. Saudamos, igualmente, as equipas técnicas e ministeriais que, na mesa das negociações, souberam usar do seu saber, experiência e tacto diplomático para que o protocolo fosse concluído, satisfazendo Moçambique e Portugal.

Queremos,  em  particular,  reconhecer  o  empenho pessoal e consequente de Sua Excelência o Senhor Primeiro- Ministro, o Engenheiro José Sócrates, neste processo negocial. Ele assumiu, com muita coragem e sentido de Estado, o desafio que o dossier HCB representava para Moçambique e Portugal e agiu com a necessária serenidade para que, hoje, juntos aqui estivéssemos para abrir uma nova página nas nossas relações de amizade e cooperação. A reversão deste estratégico património para o Estado moçambicano marca o início de uma nova fase para o nosso belo Moçambique, tendo em conta o seu reenquadramento na matriz da nossa Agenda Nacional de Luta contra a Pobreza. O controlo deste empreendimento, por parte do nosso Estado, vai impulsionar o projecto de electrificação rural em curso, criando assim condições para a melhoria da qualidade de vida de muitas mais comunidades moçambicanas. Ao mesmo tempo, este protocolo potencia a implementação, no nosso Moçambique, de diversos projectos de consumo intensivo de energia eléctrica, capazes de criar riqueza, gerar postos de trabalho e impulsionar o surgimento de outros empreendimentos de igual ou menor dimensão.

Ainda  no  contexto  da  luta  que  travamos  contra  a pobreza, nesta rica Pérola do Índico, o protocolo ora assinado, cria condições para que no futuro que se avizinha, Moçambique tenha uma maior disponibilidade de energia para as suas necessidades e para acorrer às necessidades da Região. A passagem do controlo da HCB para o  Estado Moçambicano abre grandes perspectivas para o desenvolvimento do sector energético nacional, conhecidas que são as nossas potencialidades energéticas, particularmente no Vale do Zambeze. Assim, com a HCB, sob o nosso controle, podemos, igualmente, não só assegurar a consecução dos compromissos com os nossos parceiros mas também alargar o espaço das relações comerciais e de cooperação que com eles estabelecemos. O presente protocolo que cria uma nova estrutura accionária da HCB, consubstancia a  amizade  e cooperação que têm caracterizado as relações entre Moçambique e Portugal. Neste momento histórico da vida deste empreendimento, queremos exortar, uma vez mais, a todos os trabalhadores para que saibam valorizar as conquistas alcançadas.

Devem, por isso, continuar a assumir uma postura de maior responsabilidade, disciplina e respeito pelas normas laborais. Temos plena certeza que neste ambiente de trabalho será possível optimizar este empreendimento para alcançar cada vez mais altos níveis de produção e de produtividade no sector. O período de transição que agora se inicia e que vai terminar depois do pagamento, por parte do nosso Estado, de todos os valores devidos e plasmados no Protocolo, representa um grande desafio para todos os gestores e trabalhadores da empresa. A eles cabe a tarefa de assegurar que  todas as acções decorram num quadro de normalidade de funcionamento, dentro de um ambiente de tranquilidade, transparência, serenidade e de respeito mútuo. Exortamos a empresa a continuar a observar os compromissos assumidos com os seus parceiros internos e externos.

Do mesmo modo que temos estado empenhados na valorização da nossa Independência Nacional, o controle da Hidroeléctrica de Cahora Bassa não é um fim em si, mas, isso sim, um meio para acelerarmos o nosso passo rumo ao almejado bem-estar dos moçambicanos.

O desafio que temos pela frente é de continuar a conceber e a realizar programas de desenvolvimento dos recursos humanos, pois é no homem e na sua capacidade de compreender e assumir os novos desafios da Nação, em que devemos apostar. Temos igualmente que potenciar a HCB para se juntar aos outros viveiros nacionais de quadros de empreendimentos futuros, tendo em conta que grande parte dos nossos recursos energéticos ainda estão por ser explorados, em pleno.

Moçambicanas, Moçambicanos Cahora Bassa já é nossa!”

“Cahora Bassa ja é nossa” tem sido um tema bastante caro que tem sido colocado quando estudamos o Património Público e a Intervenção do Estado, no âmbito do Direito Financeiro e Finanças Públicas e do Direito Económico, respectivamente.

Recorrendo  à   Constituição  da  República  de  Moçambique, particularmente no seu Artigo 98, tem-se entendido que constitui Propriedade do Estado “os recursos naturais situados no solo e no subsolo, nas águas interiores, no mar territorial, na plataforma continental e na zona económica exclusiva (…)” e que, nos termos do mesmo artigo, “constituem domínio público do Estado: (…) as zonas de protecção da natureza, o potencial hidráulico, o potencial energético (…)” cujo regime jurídico deve ser regulado por lei com respeito pelos princípios da imprescritibilidade 4 e impenhorabilidade5”.

O património do domínio público ou apenas domínio público, em sentido amplo, caracteriza-se pelo o poder de dominação ou de regulamentação que o Estado exerce sobre os bens do seu património (bens públicos), ou sobre os bens do património privado (bens  particulares de interesse público).

O regime jurídico o património dominial caracteriza-se pela inalienabilidade, imprescritibilidade e que, como tal, é impenhorável  e não hipotecável6 e inapropriável individualmente, mas de fruição geral da colectividade7.

A ideia de que a reversão da Hidroelétrica de Cabora Bassa consubstancia uma segunda independência foi feliz e bem elegantemente justificada.

A  reversão  da  Hidroelétrica  de  Cabora  Bassa  e  a  declaração  da plenitude da independência, momento em que se passou a ser detentor da soberania total sobre o território, parecia indicar que ela seria um bem público e que a meta era caminhar-se, à medida das condições financeiras da Nação, para, finalmente, vir a terreiro proclamar: “Moçambicanas, Moçambicanos, Cahora Bassa já é 100% nossa!”

Isso, quando já totalmente livre das mãos privadas.

O anúncio de mais uma abertura de capital da Hidroelétrica de Cabora Bassa a mais mãos privadas não pode senão espantar porque não estava contemplada no Orçamento do Estado de 2017, no Plano Económico e Social de 2017, nem em qualquer programa mais plurianual que se usa neste solo pátrio.

Mais do que o Estado moçambicano (infelizmente), a Hidroelétrica de Cabora Bassa tem todas as capacidades de tomar de empréstimo qualquer valor que precisa para as operações de reinvestimento para produzir mais energia e receita.

A Hidroelétrica de Cabora Bassa podia ter optado, entre outras, pela mais fácil e imediata medida: emitir obrigações, em vez de abrir o seu capital a privados.

No Notícias de hoje, dia 6 de Dezembro de 2017, na primeira página, anuncia-se: “Iniciado processo para Venda de acções da HCB”.

Perguntas, das várias possíveis só estas: em que Assembleia Geral foi essa decisão tomada? Quais os fundamentos? Porquê esta solução e não outras? Quem pode ter acesso a tais acções e porquê? Porquê o anúncio tão em cima da data da operação? Não teria sido mais interessante que os moçambicanos tivessem tempo para se organizarem? Como foi preparada a operação bolsista antes de se fazer o anúncio? Como se garante que os que detentores de informação privilegiada não sejam admitidos?

Há mais dúvidas do que as perguntas que devo, hoje, ocultar, com uma  certeza: Esta  operação  é  tão prejudicial  para  as  gerações  vindouras quanto qualquer jamais feita na nossa Pérola do Índico.

Afinal, a nossa segunda independência está em qualquer praça, a ser vendida a retalho.

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1  Depois de Assuão, Volta e Kariba.

2  Com uma extensão máxima de 250 km em comprimento e 38 km de afastamento entre margens.

3     Por 760 milhões de euros tendo sido a última tranche paga a 27 de Novembro de 2007.

4    Os bens de propriedade do Estado, bem como os bens que, embora pertencentes a particulares, estejam sujeitos a limitações administrativas, constituem o chamado domínio público. O conceito de domínio patrimonial corresponde ao direito de propriedade do Estado sobre os bens públicos, os quais estão sujeitos a um regime administrativo especial. Tal regime especial impõe que tais bens são inalienáveis, imprescritíveis, impenhoráveis e não oneráveis. Ressalte-se que a característica da imprescritibilidade dos bens públicos, é aquela segundo a qual estes são insusceptíveis de prescrição aquisitiva, ou seja, de aquisição por usucapião.

5    A impenhorabilidade é a característica de defesa, prevista em lei ou pela jurisprudência, contra a penhora de bem imprescindível à pessoa executada por dívida apesar de se aceitar que a mesma não seja absoluta, sendo oponível em qualquer processo de execução civil, fiscal, laboral ou de outra natureza, com algumas excepções.

6    WATY, Teodoro Andrade, Direito Financeiro e Finanças Públicas, WEditora, 2011, pp 237-245.   7 MEIRELLES, Hely Lopes,   Direito Administrativo Brasileiro. 35 ed. São Paulo: Malheiros, 2009, pp. 522.
 

Na sua mensagem à Nação no tocante ao desporto, Filipe Nyusi, numa passagem meteórica e pouco aprofundada, referiu que ao longo do ano, o país participou em competições internacionais e arrecadou, no total, 62 medalhas das quais 13 de ouro, 20 de prata e 29 de bronze. Foram assinados 64 contratos-programa, a nível central e provincial, cujo financiamento contribuiu para a formação de 1.069 agentes desportivos, a nível central e provincial. Os Jogos Escolares, que contaram com a participação de 1.386 alunos, foi outro ponto mencionado.

E mais não disse!

Tal como noutros sectores da vida nacional, é natural que as gentes e os agentes do desporto estivessem na expectativa quanto “à fatia” que lhes tocava directamente. Neste caso, soube a pouco. Foi uma explanação vazia e pouco desafiante.

Números… Sem enquadramento!

Investimento, contratos-programa, medalhas. O que isso pode representar, comparativamente aos anos passados e que planos e passos se prevêem para o futuro? Numa altura em que no Mundo, o desporto mexe com tudo, mobiliza e motiva a mais trabalho e unidade nacional, o informe do PR o que trouxe de novo?

Entre os 25 milhões de cidadãos que nós somos, quantos se aperceberam, retiveram ou se vangloriaram das vitórias resultantes dessas 62 medalhas de ouro? Que “peso-específico” elas representam no contexto africano ou mundial?

Se o mundo aposta cada vez mais no futebol e Moçambique quer visibilidade não pode ser diferente. Vencer à Zâmbia em Lusaka, seguramente, provocou muito mais festa no país, do que a mão cheia de medalhas que o Presidente mencionou como rescaldo de todo um ano de competição.

De uma vez por todas, importa esclarecerem-nos se a estratégia governamental para o desporto, é a de sermos fortes no meio dos fracos, priorizando competições e modalidades em que o Mundo não aposta.

Ano após ano, nas provas “a doer”, os “rankings” vão colocando o nosso país em lugares cada vez mais subalternos. Depois de Mutola, a visibilidade de Moçambique em Jogos Olímpicos passou a ser uma miragem. Vão-nos valendo as meninas do basquetebol e a “resiliência” no hóquei em patins.

Nos dias que correm, os sucessos e insucessos no desporto são mensuráveis. Mas nós vamos convivendo com as repetidas menções a “balanços positivos”, sempre na ponta da língua de quem dirige e corporiza o nosso desporto, sem leituras realistas, comparativas e com rigor ao lugar que as nossas modalidades ocupam em África e no Mundo.

Até quando iremos satisfazer o nosso ego, fechados num casulo, como se estivéssemos a competir sozinhos com a nossa mediocridade?

Oiço com um misto de júbilo e nostalgia Zena Bacar. Júbilo por celebrar esta voz única da música moçambicana e, indubitavelmente, grande voz da música africana; e nostalgia porque ela desaparece hoje do reino dos vivos, embora seja compelido pelo cliché a afirmar que a magnificência da sua arte está para lá desta circunstância acidental da vida. Oiço estes ritmos, que são ritmos da minha infância macua, uns mais dolentes do que outros, outros tantos mais ritmados, todos eles com uma marca distintiva: a bela, profunda, triste, majestosa e incomparável voz de Zena Bacar. Oiço-a cantar e vejo aquela paisagem onírica, quente e exuberante, de mulheres belas com capulanas garridas, naquela sincronia mágica do tufo, algumas saltando à corda, sempre fascinantes. Oiço Zena Bacar e os Eyuphuro: tufo, namahandja, masepua, djarimane, morro e chakacha. Zena é uma inspiradíssima voz moçambicana que arrebatou o mundo. Levou consigo esta singularidade e transformou-a em algo de uma beleza rara e transcendente. Ela e os Eyuphuro foram dos pioneiros no universo da chamada World Music. Os palcos do mundo não ficaram incólumes ao seu feitiço, ao seu incrível fascínio, à sua arte e à sua expressão única. Ela é, seguramente, a mais universal das cantoras moçambicanas.

Lembro-me, remotamente, de “A muara ya N`rake”, que tocava na rádio, quando a rádio era Rádio Moçambique (RM), nos primórdios dos anos 80. A esposa do senhor N´rake, que põe m’siro e anda a cirandar pela cidade, vestida ao seu jeito, consciente da sua beleza, vaidosa e exibida. A vaidade da mulher macua foi um dos traços essenciais na música de Zena Bacar. Muitas vezes para a celebrar, outras tantas para criticar quando ela significava desvio social. Por isso, ela cantava “Orera kurrera” (alerta para a insensatez que a vaidade provoca). Há muito de lunar, não só na voz de Zena, como nos ritmos e nas letras: “Kihiyeni” (a beleza não significa prostituição, canta ela, eu não minto, repete ela, pôr m’siro na cara não é prostituição, diz a cantora, zangada com esse olhar preconceituoso e a maledicência alheia) ou “Nuno Malani” (mulher abandonada que adverte à filha para as armadilhas da vida ou dos homens; quando a própria filha se vê também abandonada e com uma criança nos braços, ouve a voz da consciência que lhe lembra que, quando a mãe lhe chamava à atenção, ela dizia ninguém me manda, estou-me nas tintas) são paradigmas dessa tristeza, desse lancinante lamento social, dessa mulher vítima da sua beleza e da sua presunção, desse estigma que a beleza macua impõe. “Nuno Malani” tem um balanço e um ritmo e uma beleza e essa exuberância macua. “Kihiyeni” é profundamente melancólica. Profundamente dolente. É de uma beleza dilacerante e dilacerada.

Vivi, entre 1975 e 1980, em Nacala. Aqueles ritmos, muitas vezes dolentes, nostálgicos, profundos e tristes, lembravam-me a minha infância passada naquela cidade com encostas lambidas pela erosão, as ruas de poeira e amendoeiras, o calor obsidiante, o mar incrivelmente verde-azul e as mulheres sempre carregadas, mas caminhando com uma elegância inabalável. A beleza das mulheres que tantas vezes concitaram este meu lado lírico que advém dessa passagem imprescritível por Nacala. A língua macua, os vocábulos muitas vezes ininteligíveis para mim, a entoação, lembrava-me a língua que eu ouvia, naqueles anos em que lá vivi. Quando, nos anos 90, vivia e estudava no estrangeiro, numa viagem a Bruxelas, descobri, na Fnac, o disco Mama Mosambiki dos Eyuphuro. Ouvi-os e exultava com a sua música. Os seus solos de guitarra, aquela acústica, a percussão, as vozes, a pungente e lancinante voz de Zena Bacar. Aquele disco era simultaneamente melancólico e jubiloso. Aquela tristeza era bela e profunda. Aquela voz e o seu lamento social, aquela voz que alertava as mulheres para as contradições do mundo. Eu ouvia obsessivamente os Eyuphuro e orgulhava-me por ouvi-los e saber deles nos palcos do mundo. Oiço-os de novo. Oiço-a de novo. Oiço a Zena Bacar. A belíssima voz da Zena Bacar. A mamã Ana Titos, uma macua de Zavala, bela e hierática, nos seus invejáveis 75 anos, dos quais expendeu 50 em Nampula, traduz-me a beleza intraduzível destas músicas, cujo ritmo sempre me encantou.

Os Eyuphuro, num tempo em que Moçambique era conhecido como o país mais pobre do mundo, quando estava atolado na lama de uma guerra sem solução militar, com moçambicanos refugiados, país assolado pela seca e pela fome, davam uma outra notícia sobre nós ao Mundo, falavam de uma sociedade onde também era possível cantar a beleza, os sonhos, a despeito das insofismáveis contrariedades do quotidiano, mas longe do anátema da violência e da guerra que se nos colava à pele. Os anos 80 têm também, por isso, algo de extraordinário. São anos trágicos e belos, em toda a extensão da contradição que esta adversativa exige. Se, por um lado, foram os anos de extrema violência, de extrema indigência moral e material, onde a guerra atinge os seus insuportáveis limites, onde a provação dos moçambicanos conheceu o estado do inusitado, se por um lado significaram isso, aquela década também foi profícua e proficiente em termos criativos. Não só na literatura, que é o domínio que eu melhor conheço e acompanhei e estudei, mas em outros tantos domínios da criação. Os melhores talentos pós-independência ou emergem ou se afirmam nos anos 80. Foi naquela década que proclamámos os nossos sonhos e foi na mesma década em que os vimos derruídos. A esta distância recordo-me da explosão dos ritmos e canções, das letras e melodias, das experimentações ou caminhos que se fizeram. São muitos os conjuntos que irrompem, as vozes que passam a povoar o nosso imaginário, as propostas, a inovação. A verdadeira explosão da moçambicanidade. De Norte a Sul, de Este a Oeste. Eyuphuro, em Nampula; 1º de Maio (Armindo Salato compôs “Jaqueline”, que foi usado como indicativo pela BBC, num dos programas emitidos em português), de Quelimane; Madala, Romualdo ou David Mazembe, da Beira; e tantos outros que viviam e criavam em Maputo. A Rádio Moçambique desempenhava um papel incontornável. Era a editora moçambicana, por excelência. Os músicos gravavam e registavam lá as suas composições. Mas a RM também criou o seu grupo e albergou algumas das figuras lendárias do cancioneiro moçambicano. A EME, do Eddy Mondlane, e a Movimento,  do Aurélio Le Bon, também têm créditos insofismáveis na afirmação dos nossos músicas naquela década exemplar.

 Era comum ouvir os Hokolókwe, Os Galtons, os Soyus, a Orquestra Marrabenta Star Moçambique, os Alambique, Xigutsa-Vuma (experiência efémera de Simeão Mazuze  – que cantou “Bilibiza”, uma crítica dos campos de reeducação – e Pedro Langa), Ghorwane (fundado por Pedro Langa, em 1983; Roberto Chitsondzo junta-se-lhe em 1984), José Mucavele (belíssimo “Atravessando Rios”), Trio Arão Litsure, Hortêncio Langa e João Cabaço, João Cabaço e a sua comovente “Mamana”, Chico da Conceição (o seu pungente “Ussiwana”), Mingas ou Dulce, Guê-Guê ou Eva Mendonça, os manos Willy e Aníbal, Joaquim Macuacuá (oh, Dadinha!), Fernando Luís (para mim “Maninha” ou a evocação de Bill Cuca, mas do que “Zavala Toté”), Elvira Viegas, Resiana Jaime, ou Elsa Mangue, Filipe Nhassavele, Avelino Mondlane, Chico António, José Guimarães, tantos, tantos. Alguns ganham o concurso Descobertas da Radio France International. Wazimbo, que fora companheiro de Sox, Milagre Langa, Zeca Tcheco ou Alexandre Langa, na banda da RM, emigra, nos anos 80, para o conjunto Orquestra Marrabenta Star de Moçambique. Gravam dois discos na etiqueta alemã Piranha. Yana, que lançara, em 1982 “Que Venham” – eu estava no comício, da Praça da Independência,  quando Samora desafiou o apartheid depois do ataque à Matola: “que venham, que venham, mas que venham depressa!  – , com todo aquele fulgor patriótico, faz uma Orquestra Infantil memorável. Né Afonso, o Tio Turutão, gravaria “Bons Sonhos”. Pedro Bem vai para Portugal, Costa Neto também irá, Childo, outro emigrante, João Paulo, Jimmy Dludlu ou Rosália MBoa para África do Sul, onde vão tantos outros, como Gito Balói (assassinado aos 40 anos à saída de um espectáculo em Joanesburgo), que funda o Tananas e tem grande sucesso nos anos ulteriores, como terá Jimmy Dludlu, nome marcante do jazz africano. Stewart debuta cantando Dany Silva. Ouvia-se Feola ou Magid Mussá. A RM promovia o Ngoma Moçambique, depois da Parada de Sucessos. Fany Mpfumo morre nessa década. Ernesto Ndzevo toca bandolim. Alexandre Langa denuncia a candonga. Fernando Azevedo é uma presença discreta mas decisiva. Xidiminguana canta, viera de outras décadas. A guerra recrudesce. A paz é o sonho de todos. Ana Juliana escreve e canta “Poema para a Paz”.

Quando, no início de 90, oiço os ritmos jubilosos de “Nuno Malani”, composição de Zena Bacar, incluída no disco Mama Mosambiki, lançado pela editora de Peter Gabriel,  Real World, eu exultei. Começara a saga da World Music: os sons maravilhados de África, da Ásia e da América Latina. Os sons do Mundo. Os sons do outro Mundo. Peter Gabriel tinha e tem um registo de activista muito importante e sobretudo combatera o apartheid através da música e do seu activismo. Mama Mosambiki foi dos primeiros discos – o décimo da colecção – dessa onda avassaladora que seria conhecida como a World Music. Antes dos Eyuphuro tinham apenas gravado, na editora de Gabriel, o congolês Tabu Ley Rochereau, então famosíssimo, marido da M´bilia Bel, outra cantora famosa, ou o tanzaniano Remmy Ongala, para falar de cantores africanos. O ugandês Geoffrey Oryema, o congolês Papa Wemba, entre outros, viriam depois, no belo catálogo de Gabriel. Os Ghorwane, com Majurugenta, seriam o disco 29 da mesma colecção. Parece despiciendo, mas quando Peter Gabriel lançou a etiqueta, em 1989, a chamada música tradicional tinha acesso limitado aos mercados internacionais. Na década seguinte, iríamos assistir a uma verdadeira explosão. Buena Vista Social Club, resgatados por Ry Cooder, só seriam possíveis anos mais tarde. Cesária Évora pisa descalça os palcos da consagração mundial.

Peter Gabriel fora o vocalista e líder dos Genesis antes de se lançar numa carreira a solo incrível. Phil Collins iria saltar das baquetas e assumir a liderança após a sua saída. Foi através do disco So, que incluía as músicas “Big Time” ou “In Your Eyes”, que Gabriel se tornaria uma lenda. Aliás, a sua longa parceria com o senegalês Youssou N´dour, com quem canta esta e outros tantos sucessos, é célebre. “Biko” e a campanha pro-Mandela são icónicas na vida e na trajectória de Peter Gabriel. Gimo Remane haveria de compor, curiosamente, uma música intitulada “Mandela”, que não está no disco publicado pelo Peter Gabriel e pela Real World. Não é das melhores músicas de Remane, o autor de “Samukhela”, talvez a sua mais conseguida composição. Curiosamente, Zena Bacar é autora de algumas das mais belas músicas do grupo: “Kihiene” ou “Nuno Malani”, acima descritas, ou as famosas “Yellela” e “Ophentana”.

A biografia de Zena era e continuaria parca. Dela eu sabia o básico, que viera da Ilha de Moçambique, onde nascera em 1949, crescera no Lumbo, tivera uma infância pobre e começara cedo a trabalhar para sobreviver. Estudou pouco e cedo se tornou pescadora. Teve um filho, que morreu, o que foi uma dor até ao fim. Começou a cantar muito nova e foi em Nampula onde se encontrou com Omar Issá, Gimo Abdul Remane, Salvador Maurício, entre outros músicos que viriam a fundar o Eyuphuro em 1981. Isto precisamente nessa década prodigiosa de 80. Em 1984 lançam um primeiro conjunto de composições com título homónimo: Eyuphuro. É desse tempo “Orera Kurrera”. Começam a viajar pelo mundo: Suécia, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Portugal, Alemanha, EUA, Reino Unido. Viajam por África. Zimbabwe, na altura um ponto de encontro importante, entre outros países. Eyuphuro e Zena eram a imagem de Moçambique. O título do disco da Real World é, por conseguinte, de grande alcance: Mama Mosambiki. Zena é isso mesmo: Mama Mosambiki. Não creio que tenha havido uma cantora com a dimensão internacional que ela teve. Se Cabo Verde soube alçar-se na projecção de Cesária e fez da cultura um instrumento de afirmação como país e como nação, como identidade e personalidade, nós fomos incapazes de fazer o caminho aberto por Zena e seu grupo. Nós desperdiçámos Zena Bacar. Não soubemos ser grandes nas pequenas coisas. Procuramos a nossa grandeza onde ela, provavelmente, não existe. Queremos ser grandes onde somos pequenos. Somos pequenos onde deveríamos ser grandes. Muitas vezes somos ufanos naquilo em que somos insignificantes e distraímo-nos perante a nossa magnificência. Zena Bacar cantou genuinamente o seu quotidiano, a sua condição, a condição das mulheres da sua terra e atingiu com isso uma imensa estatura no mundo. Zena cantou Moçambique, simplesmente. Foi uma intérprete da moçambicanidade, uma genial intérprete do ser moçambicano. Foi-o nas pequenas coisas. Aqui está a grandeza das pequenas coisas. É por isso que ela é importante. Essa importância advém-lhe dessa capacidade de ter transformado o seu pequeno mundo num imenso planeta criado pela sua belíssima voz.

Depois de Mama Mosambiki gravam Yellela e um disco comemorativo 25 Anos. Gimo Remane emigra. Entretanto, o grupo dissolveu-se e Zena Bacar passou pelo drama do alcoolismo. Passou pela IURD. A dor insuperável pela morte do único filho não cessa. A doença. Foi uma verdadeira descida ao Inferno. Ainda recuperou. Há muito que eu não tinha notícia dela. Vi-a cantar algures, aqui há tempos, mas era uma sombra daquela mulher que brilhara nos palcos do mundo. Ela redigia, no fundo, com o seu percurso e a sua tragédia, o roteiro pré-existente que conduz a acidentada carreira dos músicos moçambicanos.  Recordo-a aqui, com um misto de tristeza e de júbilo. Tristeza por vê-la partir, aos 68 anos, júbilo por ouvir estas extraordinárias músicas que ela compôs e cantou, por celebrar esta voz profundamente melancólica, muitas vezes dilacerada, exuberantemente bela, majestática, macua, universal e livre, do meu país.

O sono esmoreceu, mas não despertei de imediato. Acordar parecia um caminho longo. Deixei-me estar a meio da viagem, sem compromisso, nem com o sono nem com a vigília. (Como um mineiro antigo, com xidjumbas de anos às costas, que regressa da djoni

para as festas e aguenta, paciente, o demorado percurso até à terra natal).

Fui reconciliando com a vigília. A pálpebra amoleceu. Os olhos já não se fechavam mas também não se abriram. Pareciam duas amêijoas preguiçosas. A luz trespassava a cortina desfiada das pestanas e fui percebendo, meio a sonhar meio a olhar, uma coisa de imponência triangular, a querer distrair-me a visão.

Parecia-me uma palhota. De colmo macio. Enfeitada com cores. Tinha muitas cores, tantas que lembrava uma pirâmide de Gizé exótica, travestida de pirâmide de Maslow.

O sono abstraía tudo. Os enfeites  que coloriam a palhota pareciam pessoas. Muitas pessoinhas. Umas por cima das outras. As da base, magras, músculos tensos e costelas à mostra, suportavam todo o peso. As do topo, rechonchudas, pareciam mais refasteladas. 

Eram camadas de gente. As de baixo lembravam pessoas que andam resignadamente a pé. Por cima destas estava uma camada das que pareciam andar empoleiradas nos chapas. Mais acima, e em menos número, as que suportam o preço do combustível e têm viatura própria. Acima, as que se sentam nos bancos de trás das suas viaturas e são conduzidos. Os mais acima, em número cada vez menor, tinham até barcos e helicópteros. Por cima destes e de todos, com imponência enganadora de uma cereja no topo, o mais gordinho, que pareciam andar de naves espaciais, em poses autoritárias. 

Um mosquito passou-me pelo pavilhão do ouvido com um zumbido irritante. Fez uma gincana de três voltas e meia, descreveu uma espiral desengonçada, entretido com o cheiro azedo da cera dos meus ouvidos. Espanquei-o com uma palmada contra a minha face. O zumbido calou-se. Devo tê-lo acertado em cheio… e eu já estava naquele humor de quem se sente frustrado pelo sono interrompido. Maldito pernilongo. Perturbador de sono alheio. Chupador de sangue dos outros. Parasita…

As pálpebras subiram até meio olho. Ainda pesavam mas agora, sem sono, era difícil mantê-las fechadas. Só fechava para pestanejar tentando, em vão, afastar o resto de sono que ainda me embaciava a visão.

Olhando com a quase lucidez da vigília, percebia que adormecera na cadeira de trabalho. Aquela palhota no meu campo de visão era uma imitação de árvore. Uma árvore de Natal numa montra. As pessoinhas eram os enfeites da árvore. Tinha as luzinhas desligadas em óbvia economia de energia eléctrica.

Estranhamente, no resto do prédio, no resto da rua, no resto da cidade, não se via luzes de Natal, reforçando a ideia de que este fora um ano financeiramente atípico. "Ah, esta crise!" suspirei em pensamento enquanto me ocorria a pergunta que não se quer calar: Será  que vai haver décimo terceiro?

Espanquei outro mosquito que me vinha dar uma picada de bofesta. Ajeitei-me na cadeira de guarda nocturno. Senti as  molas de um bocejo a escancararem-me a boca. Embora fosse noite de Natal, não havia muito por fazer acordado. As pálpebras cederam. Devagarinho. Parti para a longa viagem de regresso ao sono. A imagem da árvore de Natal sem brilho, apagou-se. Adormeci.

 

A meio do terceiro episódio do folhetim, este é interrompido e a voz de um locutor esclarece que o mesmo foi censurado e os seus autores presos, por subversivos. O resto do que seria o tempo do folhetim é substituído pela emissão radiofónica de uma das Conversas em Família, de Marcelo Caetano.

Sá Caetana acha muito bem e aproveita para ler à parte — embora de vez em quando vigie a irmã, para ver se ela continua alheada — a carta em que Basílio Alberto conta a morte de Cosme Paulino.

Ao mesmo tempo vemos que, nu e empurrado pelos amigos, Vicente, se prepara para ser iniciado sexualmente por Camba. Aí recortam-se nos pés os coturnos que sempre usou desde o início e nunca tira e que simbolizam como é um homem “entre”, um homem que nunca pisa inteiramente o chão do presente.

Camba leva-o para off. Só ouvimos os seus assobios de prazer, enquanto os amigos riem.

Dr. Valdez visita Vicente no seu quarto. Este, depois de ter estado sob influência, submetido à provação, resolve sacudir a “possessão” e envergar a sua máscara do Mapiko, que tinha debaixo do catre.

Última cena com o Dr. Valdez. Amélia acaba por se finar, logo depois de ter felicitado a irmã por ter servido uma cerveja ao rapaz.

O chilumi continua a invadir o ciclo-rama.

De modo coral, os criados dão conta das últimas notícias e palram entusiasmados com o espírito do homem novo conquistas do homem novo. Após, o que repartem entre si novos papéis sociais, só Vicente permanece abstraído.

O chilumi “tapou” todo a superfície do ciclo-rama.

Caetana, despedindo-se de Vicente, oferece-lhe num gesto magnânimo o que já não tem: as suas propriedades no Ibo.

Com a mala de viagem e vestida para sair, Caetana relê a carta da sobrinha.

Vicente, bucólico, no seu quarto, mete uns novos coturnos para ficar mais alto e depois senta-se a olhar as imagens do mar que passam no ciclo-rama e que ressoam forte.

Está no seu purgatório, submerso nos seus irreais.

Os criados que julgavam viver no inferno, mudam-se para a casa das manas, julgando que doravante viverão no paraíso. Acendem a telefonia e ouvem um discurso contra os Xiconhocas (1).

Fecham-se as luzes.

E neste momento também eu me calo.

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Cantinho, Maria João, O anjo melancólico, Ensaio sobre o Conceito de Alegoria na obra de Walter Benjamin, Angelus Novus, Coimbra, 2002.

    Xiconhoca, no imaginário popular de Moçambique é a má rés, o aproveitador, o vigas que faz ronha e que subverte os processos em seu proveito. Durante uns anos foi símbolo dos sabotadores da Revolução.

É um fenómeno que se sente em grande escala na capital do país: o esvaziamento da cidade, com citadinos a dirigirem-se para a periferia, onde uns residem e outros mantêm um espaço, só para “curtição”. Tudo começa à sexta-feira. A cidade vai ficando aos poucos deserta, com a movimentação de automóveis a fluir praticamente em sentido único. Disso se ressentem as mercearias, restaurantes, casas de espectáculos, museus e até a venda de jornais e revistas.

Novas rotinas

Dificilmente o maputense quebra esta sua nova rotina, perante um qualquer chamamento, mais ou menos importante. E a sociedade vai-se habituando, pelo que toda e qualquer cerimónia que solicite a presença dos madalas, tem que ser apontada para segunda/terça ou quarta, pois o fim-de-semana tem outras prioridades…

O desporto ressente-se, e muito, desse novo fenómeno. Ao contrário do que acontece pelo mundo fora, em que há cidadãos que fazem excursões, partindo de lugares longínquos com dois ou mais dias de antecedência para apoiarem e vitoriarem o seu clube e as suas estrelas, por cá os adeptos, mesmo a caminho do estádio, podem ser com relativa facilidade “desviados”para uma sessão de “três-cem” ou algo parecido. Daí que nem os Barcelona Legends ou a final da Taça o motivem a abandonar “a sua quinta”.

O Moçambola põe a nu essa grande diferença entre Maputo e o resto do país. E que não se pense que isso só acontece com o futebol. Recentemente, um Torneio Internacional de Basquetebol, englobando equipas angolas que são a nata de África, foi jogado com as bancadas às moscas. O mesmo se passou no excelente Nacional de boxe, com participantes de todo o país, música e entretenimento.

Idem no disputado Nacional de futebol de salão. E com se não bastasse, era tudo com entradas… mahala!

Que explicação? As respostas mais comuns remetem-nos para a fraca qualidade do espectáculo.

Será só isso?

E se os mais velhos ainda se podem escudar no facto de terem vivido outro nível de emoções, o que dizer dos novos, que preferem senti-las virtualmente, quando o mais sensato seria eles próprios descerem ao terreno e serem protagonistas da melhoria do nível geral do nosso desporto, ao invés de críticos da qualidade da sua geração e aduladores do que lhes é projectado através dos pequenos ecrans?

A auto-estima, de que tanto se fala, só terá “pernas para andar”, quando soubermos e pudermos recuperar valores que já tivemos e que em pouco mais de três décadas tendem a desaparecer.

Sabor longínquo, sabor acre

da infância a canivete repartida

no largo semicírculo da amizade.

Rui Knopfli

 

Quando o descobri, fortuitamente, na minha adolescência, o seu nome não era referido nem a sua obra aludida. Vivíamos um tempo de equívocos que advinham de excessos de zelo e de exabundantes acções purgativas. Quatro décadas depois, estamos nos antípodas – na contracosta. A despeito, nunca duvidei de que estava perante um poeta moçambicano, um soberbo poeta moçambicano, aliás. A sua obra poética atestava-o. O seu excurso jornalístico e a ensaística também. Fora dos primeiros a haurir aquilo que viria a ser a poesia moçambicana. Cartografara o que considerara os primeiros “tentames da poesia de raiz marcadamente moçambicana”. Se também era português? – que problema havia nisso? T.S. Eliot, para citar apenas um poeta que lhe era próximo, era simultaneamente grande poeta americano, onde nascera, e grande poeta inglês. Há muitos casos de escritores ou poetas bi-pátridas. Eu, intuitivamente, reivindicava-o. Rui Knopfli era, indubitavelmente, poeta moçambicano. Proclamei-o nas páginas literárias da época onde me afoitava. E fazia quezília nisso. Passadas estas décadas, parece tudo pacífico. Naqueles tempos exacerbados, não o foi. Quando o li, com espanto e revelação, um manto de silêncio cobria-lhe o nome. Aqui e lá. Autor de uma obra complexa e provocatória, ninguém sabia onde ela cabia. Para mim, sempre coubera e sempre caberia na estante da literatura moçambicana.

Sou, por conseguinte, knopfliliano, como uma data de poetas moçambicanos o são. Muitos o leram, citaram-no ou glosaram-no. Outros tantos explicitamente dedicaram-lhe versos, poemas, livros. No livro O Ritmo de Presságio, o poema “Como os outros”, de Sebastião Alba, é dedicado a Rui Knopfli. De Heliodoro Baptista, “À volta das origens”, do livro A Filha de Thandi, poema dedicado a Rui Knopfli e Eugénio Lisboa, estabelece com o poeta de O Escriba Acocorado, um diálogo explícito. Leite de Vasconcelos, no poema “Receita para uma infracção”, do livro Resumos, Insumos e Dores Emergentes começa dizendo: “Toma nas mãos uma manga/ dessas que verdes o Knopfli sente”. Jorge Viegas, em O Núcleo Tenaz, dedica o poema “Circulo de Sombra”, um dos seus mais belos poemas, a Rui Knopfli. Luís Carlos Patraquim é absolutamente knopfliliano. Não só no poema “Muhípiti”, do livro Vinte e Tal Novas Formulações e Uma Elegia Carnívora, mas em toda a sua obra, onde se estabelece um diálogo intertextual subtil com o poeta da Ilha de Próspero. O título País de Mim, de Eduardo White, de 1989, é uma alusão ao País dos Outros, de 1959, de Rui Knopfli. Ou o imaginário da ilha e da viagem. Guita Jr., um dos nomes cimeiros do projecto “Xiphefo”, em Inhambane, é também declaradamente knopfliliano. “Vilankulo by night” dialoga com um poema epigramático de Mangas Verdes com Sal.

Foi através de Reino Submarino (1962) que eu cheguei à poesia de Rui Knopfli. Aquele livro iria marcar o meu destino poético. Foi ele que respondeu ou deu expressão às minhas inquietações literárias. Vivi um tumulto, difícil de descrever, que se desencadeou em mim perante aquela poesia eclética, discursiva, provocadora. Sem esta poesia, à qual devo muito, à qual devo tudo, eu não seria o pouco que sou hoje. Foram os poemas elegíacos, foram aqueles que mais me impressionaram desde logo: “A Menina do Retrato”, “Encontro”, “Monólogo”, sobretudo “A Uma Criança Longe”: “Escrevo-te estas palavras/ sabendo que as não lerás” ou ainda: “A morte é isso, é acabar/ simplesmente, não acontecer mais.” Este é um dos poemas que mais remotamente recordo aquando da minha iniciação poética de Rui Knopfli, um poema dolorosamente biográfico, dedicado à filha.

Rui Knopfli: “Nada me auxiliam as lágrimas/ que me salgam a face/ e o muito que tenho blasfemado/ de borco, rente ao teu silêncio gelado. / Esta a lógica prosaica dos factos: / Continuamos a viver, dolorida/ a consciência/ da tua cada vez maior ausência. / E teu pequeno corpo moreno, / que nem todo o meu amor aquece, / é um palmo de ternura/ que apodrece.”

Este livro dedicado à memória da filha é atravessado por esse tom pungente de versos elegíacos. O poema “Pequena Elegia” termina com estes versos que nunca me esqueci: “Inteira, a tua morte/ viaja dentro de mim.”. O livro tem outras elegias, como aquela dedicada ao poeta Reinaldo Ferreira, que morreu em 1959: “O que na vida repartiu seu poema/ por alados guardanapos de papel, / o criador de sonhos logo perdidos/ na berma dos caminhos, / o mago que pressentia o segredo/ da beleza perene”. Deste livro destaco ainda o poema “Adeus Xico”, uma dolorida memória da juventude, poema que eu declamei inúmeras vezes. O poema é uma longa homenagem a um companheiro de juventude morto aos trinta anos. Ainda hoje quando recordo este texto, oiço os acordes da Patética, a famosa sinfonia de Tchaikovsky que o poeta cita profusamente no texto. Seria, porém, “Winds of change” e “Velho Colono”, dois dos mais reveladores poemas deste livro, que me acompanhariam, mais frequentemente, ao longo destas décadas de convívio apertado e quase quotidiano com a poesia de Rui Knopfli.

Rui Knopfli: “Sentado no banco cinzento/ entre as alamedas sombreadas do parque. / Ali sentado só, àquela hora da tardinha, / ele e o tempo. O passado certamente, / que o futuro causa arrepios de inquietação. / Pois se tem o ar de ser e o passado, / os dois ali sentados no banco de cimento. // Há pássaros chilreando no arvoredo, / certamente. E, nas sombras mais densas/ e frescas, namorados que se beijam/ e se acariciam febrilmente. E crianças/ rolando na relva e rindo tontamente. // Em redor há todo o mundo e a vida. / Ali, está ele, ele e o passado, / sentados os dois no banco de frio cimento. / Ele, a sombra e a névoa do olhar. / Ele, a bronquite e o latejar cansado/ das artérias. Em volta os beijos húmidos, / as frescas gargalhadas, tintas de outono/ próximo na folhagem e o tempo. // O tempo que cada qual, a seu modo, / vai aproveitando.”

Citei o poema na íntegra. Aqui está já o grande poeta que se iria revelar, na plenitude, no livro Mangas Verdes com Sal (1969), antes de Máquina de Areia (1964) e, muito antes,  do iniciativo e provocatório País dos Outros (1959). Apetecia-me citar na íntegra também o “Winds of change”. “Passam. Passam/ e tornam a passar. / Ninguém se apercebe de nada.” Li-o até à exaustão. Poema actualíssimo. Mas há outros poemas extraordinários neste livro. Como “Fim de tarde no café”. Como tantos outros.

A segunda obra de Rui Knopfli que eu li foi esse inigualável Mangas Verdes com Sal, o livro da plenitude, provavelmente o seu mais belo livro. Recordo-me de poemas e versos que me ficaram para sempre na memória. Do poema “Não obstante”: “nunca escrevi versos que não fossem de amor”. Ou “o meu Paris é Joanesburgo”, do poema “À Paris”. Ou o poema aforístico “Progresso”: “Estamos nus como os gregos na Acrópole/ e o sol que nos mira também os fitou. / Mas fazemos amor de relógio no pulso.”

Durante anos impressionou-me o poema “Aparição”, li e reli “Hackensack”, que cito no frontispício do Maputo Blues e, como o título revela, é uma referência a Thelonious Monk, um dos mitos do jazz. Seria, aliás, Rui Knopfli quem haveria de me iniciar nos segredos e nos prodígios do jazz, em Londres, numa ocasião inesquecível, onde fomos ouvir uma banda que tocava Duke Ellington, nas margens do Rio Tamisa. Citei  afanosamente o poema “Velasquez”, diante de “Las Meninas”, no Prado”, lembrei-me dos versos: “Só de perto te apercebemos: é de baixo/ que os gigantes te miram”. Li e reli “A Descoberta da Rosa”, declamei “Mangas Verdes com Sal”, glosei “Lembranças do futuro”: “só os poetas têm lembranças do futuro”, comovi-me com “Praça Sete de Março”, exultei com “Disparates seus no Índico”, pilhei versos como em “Contrição” ou consignei ao futuro a minha escolha da melhor poesia moçambicana do século XX o título “Nunca Mais é Sábado”.

O mito da ilha como tema central da poesia moçambicana devemo-lo a Rui Knopfli e ao seu roteiro belíssimo sobre a A Ilha de Próspero, uma edição inicial de 1972, que li emprestada, só obtendo, mais tarde, a partir de uma ulterior edição, esta obra que também tem influência, não só no meu labor poético como no entendimento de um eixo imprescindível da lírica moçambicana, a que dedicaria o livro A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas, incumbência de Luís Bernardo Honwana, que eu e o António Sopa concretizámos no âmbito da nossa participação na Expo de Sevilha, em 1992, onde aliás eu iria estar com Rui Knopfli, Rui Nogar e José Craveirinha.

Rui Knopfli: “Ilha, velha ilha, metal remanchado, / minha paixão adolescente, / que doloridas lembranças do tempo/ em que, do alto do minarete, / Alá – o grande saca! – sorria/ aos tímidos versos bem comportados/ que eu te fazia”. Este livro é notável, uma alquimia perfeita entre texto e imagem, com fotografias belíssimas do poeta. Eu diria que o livro tem uma origem remota, no poema “Ilha Dourada”, que vem no seu livro de estreia O País dos Outros:  “A fortaleza mergulha no mar/ os cansados flancos/ e sonha com impossíveis/ naves moiras. /Tudo mais são ruas prisioneiras/ e casas velhas a mirar o tédio. / As gentes calam na / voz/ uma vontade antiga de lágrimas/ e um riquexó de sono/ desce a Travessa da Amizade. / Em pleno dia claro/ vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos/ de sal e esquecimento”.

Rui Knopfli: “Servidor incorruptível da verdade e da memória, / escrevo sentado e obscuro palavras terríveis/ de ignomínia e acusação” – começa assim o poema “Proposição”, que termina: “A História que há-de ler-se é por mim escrita. / Anonimato igual nos cobrirá. A estas palavras não.” O poema seguinte chama-se “Pátria” e foi glosado por outros tantos poetas, entre os quais Heliodoro Baptista ou Luís Carlos Patraquim. “As árvores chamavam-se casuarina, / eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também/ tinham nomes por que era costume designá-los”. O poema que mais me impressionou neste livro O Escriba Acocorado foi “As Imagens Quebradas”. “Uma última vez percorro a cidade no dia/ em que começa a minha morte. Reconheço/ estes lugares apesar da mudança e a sua / esquiva familiaridade roça-me as tolhidas/ asas da memória. Aqui escrevi. Naquela // sombra imaginei. Entre uma e outra coisa, / vivi. (…) // Caminho// pelos lugares queridos, sem tristeza, nem mágoa, / altas, condoídas árvores, lagos serenos escorrendo/ de meus olhos, hálito azul da tarde que, por cair, / de sombras vai tranquilizando o horizonte. Só, / meu coração, bate contra a pedra e o silêncio.” Duas décadas depois, no derradeiro O Monhé das Cobras, de 1997, ao ler o poema “Aeroporto” recordar-me-ia das “imagens quebradas” que se tinha impregnada em mim de uma forma indelével. Publicara antes, em 1984, o livro O Corpo de Atena (1984) no qual recupera um belíssimo poema – “Notas para a regulamentação do discurso próprio”, inicialmente dado a conhecer nos cadernos Caliban, que promoveu com o poeta João Pedro Grabato Dias. Caliban, que reeditei com a sua anuência e o entusiasmo do saudoso José Capela, que assegurou a empreitada, foi uma revista eclética e reveladora.

Ultrapassado o engano dos anos do silêncio, lemo-lo, cultivamo-lo e amamo-lo. Citamo-lo e glosamos a sua obra. Há hoje teses universitárias, há livros evocativos, os poemas circularam, na medida do possível. Tive o privilégio da sua amizade. Visitei-o em Londres e em Lisboa, acompanhei-o em Maputo. Tenho dele lembranças inesquecíveis e, sobretudo, cultivo a sua poesia com desvelo desde a adolescência. No seu derradeiro e belíssimo Monhé das Cobras, Rui Knopfli haveria de prever o fim num texto derradeiro e premonitório. “O Cair do Pano”: “É Dezembro/ a encurtar o tempo, o pouco tempo que nos sobra”. Nascido em Inhambane, a 10 de Agosto de 1932, morreria em Lisboa a 25 de Dezembro 1997, aos 65 anos, passam agora 20 anos.

 

Eu (…) ouço o que você não diz

Eefje de Visser

Na verdade, o excerto retirado da música “Afdwaalt”, do álbum De koek, de Eefje de Visser, diz-nos, a certa altura: “Eu só ouço o que você não diz”. Retiramos o “só” na frase da cantora holandesa porque, além de ouvirmos o que não é dito, igualmente, conseguimos perceber o que nos é colocado à escuta, no caso, em dois álbuns de grandes autores da música moçambicana: Caminhos, do saxofonista Otis, e In the Groove, do guitarrista Jimmy Dludlu. Quer num quer noutro, predominantemente preenchidos pela componente instrumental, temos a prova indelével dessa necessidade de se recriar a tradição, enquanto um conjunto de valores e de traços identitários que fazem de um património algo comum.

Sem deixarem de ser artistas além-fronteiras, capazes de se exporem ao mais alto nível, Otis e Jimmy Dludlu, em cada última aparição discográfica, sublinham que há uma matriz cultural, no caso, mais do Sul do país, sobre a qual se alicerça o sentimento e a imaginação do músico. E, quando agem desta maneira, assumem o poder da representatividade de cada um que reencontra um momento de si nos ritmos tocados. Por exemplo, no álbum Caminhos, constituído por 12 títulos, Otis devolve-nos as emoções de “Elisa wê”, que nos lembram outros autores esquecidos nesta amnésia colectiva. Mais do que recriar esse clássico da música moçambicana, o saxofone ressuscita contextos sociais, desafiando a capacidade de a memória lembrar como “Elisa wê” torna-se um hino popular a sobreviver tanto às vicissitudes do tempo.

No mesmo diapasão, na música “Kensani”, do In the Groove, Jimmy Dludlu vai recuperar os sentidos da felicidade e da bênção para celebrar o que de melhor a vida/ Deus tem a oferecer. À imagem de Otis, em Jimmy o verbo também é escasso. Ainda bem, pois, logo se vê, fica salvaguarda a beleza causada pela combinação dos instrumentos, ao mesmo tempo que se ouve e percebe-se porque Isabel Novella é das vozes mais autoritárias do país.

Ainda em In the Groove, o carácter alegre de Jimmy Dludlu vem ao de cima a partir de “Masseve”, uma música feito pêndulo a oscilar entre o reconhecimento de se ter beneficiado de coisas boas e o eterno agradecimento. Esta é um som de palco, cheio de imagens coloridas, dessas mulheres nossas que dançam tanto quanto abanam o traseiro, sem receios, como quem vibra em euforia.

Em “Pom”, do disco Caminhos, acto contínuo. Com uma sonoridade a motivar uma dança feita de satisfação, ali ouve-se o que não é dito, mas sugerido de outro modo, afinal, a falta da palavra nada tem a ver com silêncio opaco. Longe disso, a instrumental faz-nos procurar o verbo, os predicados e um provável autor da música original. Encontrando ou não, ficamo-nos na certeza de a música ser de todos, como se, individualmente, tivéssemos contribuído para a sua existência. Tal como nesta primeira música, na última do disco, “Nkosi sikelel’ Africa”, Otis faz com que mergulhemos no que há muito está inserido num cancioneiro popular, dos moçambicanos, por um lado, e do continente inteiro. Este é um som mais pausado, introspectivo e cheio de muita carga emocional. Tudo propositado, que nestas coisas de lidar com a tradição a catarse também é algo importante. Quiçá, desta maneira, o saxofonista quis nos conduzir a uma descoberta de nós próprios como parte de um continente que cada vez mais precisa ser cantado.

Enquanto Otis deixa de ser festivo na sua recriação, quando introduz “Nkosi sikelel’ Africa”, no Caminhos, por tocar um tema sério, num tom grave, Jimmy Dludlu continua festivo em “Ha deva”, mesmo retratando um assunto austero. Sem dúvidas, Jimmy vai buscar essa música para contar que, à imagem do passado, muitos de nós nos esquecemos de que a vida é efémera para todos e que ninguém vai partir com os bens adquiridos na terra.

Portanto, Otis e Jimmy Dludlu, ao recriarem parte da tradição musical moçambicana, adicionam à nossa música a dimensão universal que muitas vezes nos falta. Além disso, cada um dos artistas faz do seu respectivo álbum um conservador de memória colectiva, revitalizando sempre a nossa arte popular. Quem me dera, depois disto, pudesse ver estes dois tipos no mesmo festival de jazz, em Maputo.

 

 

 

Foi na semana das exonerações. Antes do comunicado das novas nomeações. Havia um brilho diferente no sorriso das pessoas. Tudo parecia merecer polimento especial e muita graxa.

Abri os olhos. Os lençóis espalhavam-se como um mar de ondulação rebelde. Laurinda, deitada de bruços, abraçada ao travesseiro, também abriu os olhos. Afastou os longos fios de cabelo postiço esparsos pela cama, que lhe estorvavam a visão. Olhou para mim como se dissesse "bom dia" com o olhar. Um forte cheiro a cabeleireiros misturou-se ao aroma doce e azedo daquelas axilas suadas. Sorriu. Deixou cair e levantou devagarinho, as pálpebras, quando fez com os lábios uma careta de beijinho. Respondi-lhe com um piscar de olho e um sorriso contido. Ela riu-se, três gargalhadas floreadas, daquele riso sem sentido de amantes, projectando da boca há muito fechada, uma lufa seca e o doce vinagre do hálito.

Olhei para o telefone. Nenhuma chamada que desse indícios da notícia de promoção. A luz da janela dispersava-se na cortina quieta e reduzia nos sapatos que a Laurinda me descalçara, com carinho, há pouco. A graxa daqueles sapatos lembrava o projecto que eu tinha em manga, para quando fosse nomeado: elevar a engraxa à modalidade desportiva prioritária, dada a proliferação de talentos. Poderia também prosperar como modalidade  artística e um dia, quem sabe, ser  reconhecida como património  cultural. Assim, passaria a haver workshops e exposições de engraxar sapatos, ao mesmo tempo que se realizariam jogos escolares, campeonatos províncias ou até nacionais, de engraxar.

— Assim como o samba no Brasil, engraxar vai passar a ser o nosso carnaval… — acrescentava Laurinda, a principal das minhas sucursais conjugais, demonstrando perspicácia e maturidade política.

— É, é — concordei, acariciando demoradamente a longa pêra grisalha que me confere estilo, muito importante para a projecção da minha imagem.

— Este país  é  de muitos recursos. Temos de saber aproveitar — Concluí, espreitando o telemóvel sempre à  mão. Nenhuma chamada.

—  Temos de explorar as nossas vocações naturais, cimentar a nossa identidade e progredir como nação — apimentou Laurinda, aproximando-se, ajeitando a cabeça no meu ombro e encaixando-se no meu abraço. Eu gostava de ouvi-la enquanto sentia as unhas postiças acariciarem-me os tufos crespos do peito.

— … e  institucionalizar-se a engraxa. Mais do que arte ou desporto, será a nossa maneira de estar — senti o meu tom de voz a crescer, com confiança de quem já discursa num conselho de ministros. Laurinda abraçou-me, certamente encantada com o discurso.

— Vai se engraxar mais do que sapatos. Vai se engraxar pessoas. Ficaremos todos engraxados, bonitos… e implementaremos a engraxa ao nível dos  municípios… as casas ganharão brilho… as cidades… e o país todo. E, num futuro próximo, exportar esses valores… e sermos uma referência desportiva mundial: campeões olímpicos da engraxa. 

— E como é  que a engraxa resolveria o problema das calamidades naturais? — Laurinda achegou-se mais. Agora passava as unhas pela minha barbicha. Agravei a voz, espreitei o telemóvel, e respondi:

— Engraxando os doadores para que doem cada vez mais. As calamidades são uma fonte de receita. Com mais  doações resolveríamos até a crise.

— E os turistas viriam cá só para se deixar engraxar… Eh eh eh.

— Engraxado… quero dizer, engraçado, por sermos um país  se engraxadores, até poderemos engraxar as nossas dores.. 

— … e esse pode ser o teu slogan, quando te candidatares: o candidato que engraxa dores.

— Eh eh eh… gosto do teu faro. Por isso se diz por trás de um grande homem há uma grande mulher. 

— Mas eu não estou atrás, estou por cima de ti, amor — virou-se para mim. Primeiro com o olhar, a cabeça, depois o corpo todo fazia peso sobre mim.

— eh eh eh… 

— hi  hi hi…

— Agora vem cá. Há quanto tempo não engraxas?

— Hmmmm!!!

— Hi hi hi…

— Meu engraxador…

— Minha engraxatriz…

No telemóvel, nenhuma chamada…

 

 

Francesc  Macià – na sequência das eleições municipais ganhas pelos republicanos e perante o facto de o rei se ter exilado (refira-se que o ditador Primo de Rivera, que governara  a Espanha entre 1923 a 1930, demitira-se um ano antes e se exilara em Paris) -,  declarou, a 14 de abril de 1931, a República Catalã,  que teve uma existência efémera. Seria presidente da Generalitat, num governo provisório desde 28 de abril do mesmo ano e depois eleito pelo Parlamento da Catalunha desde 14 de dezembro até à sua morte a 25 de dezembro de 1933, quando foi sucedido por Lluís Companys, que também pertencia à esquerda republicana radical. Recordo-me dos anos desta república, tão bem cartografados pelo escritor irlandês Colm Tóibín, na sua “Homenagem a Barcelona”, no dia em que foi proclamada, uma vez mais, a República da Catalunha. Não é, por conseguinte, a primeira vez que se declara a República Catalana. Em 1641 fora Pau Claris a fazê-lo; em 1873, Baldomer Lostau; em 1934, haveria de ser Lluis Compays, companheiro de Macià, a proclamar o mesmo. Se Lostau declarou um “Estado Catalão”, Macià içara a bandeira de uma república dentro de uma Federação ibérica e Companys um Estado Catalão dentro da República Federal Espanhola.

Os breves anos da República Catalã, dos anos 30 do século passado, são vistos como verdadeiros anos de ouro para a Catalunha e, sobretudo, para Barcelona. Pau Casals, que chegou a ser considerado o maior violoncelista do mundo, chamou-lhe “um verdadeiro Renascimento cultural”. O governo de Macià tornou oficial a língua catalã, abriu os cordões à bolsa e aumentou as despesas na saúde e educação, e planeou fazer a expansão da emblemática cidade de Barcelona. Para tal, Francesc Macià convida o lendário Le Corbusier. O arquiteto francês, de origem suíça, haveria de pronunciar sobre Barcelona uma frase igualmente lendária: “Por fim”, disse ele, “num ponto vivo do planeta, os tempos modernos encontraram um refúgio.”

Miró, o grande Joan de Miró, regressou de França. Havia uma nova atmosfera na cidade. Também lhe atraía o novo regime. Quando foi organizada, em princípios de 36, uma mostra da obra nova e vanguardista de Pablo Picasso, exposição que acolheu mais de 8 mil visitantes, Miró falou, como aliás o fez Salvador Dali. Esta inauguração foi transmitida ao vivo pela rádio. Picasso vivera em Barcelona na juventude.

A língua catalã que, como língua literária havia sido soterrada durante mais de trezentos anos, readquire nacionalidade. Um engenheiro que se tornara filólogo dedica-se a estabelecer as suas normas ortográficas. Em 1932 publica um dicionário com o apoio do Estado. A educação em catalão é, a partir dos anos 30, influente. Surgem manuais e coletâneas de textos na língua que se consagra. Uma nova geração de poetas catalães, influenciados pela poesia francesa e inglesa, evitando, quase sempre a influência castelhana, irrompe e se afirma.

Pau Casals, que nascera em Vendrell, na província de Tarragona, terra natal de Antoni Gaudí (o grande arquiteto de Barcelona, que projetou a Sagrada Famíla, entre outros marcos da cidade) e Miró, seria, naqueles anos, provavelmente, a figura cultural mais influente da Catalunha. Os seus concertos, sobretudo para as camadas sociais desfavorecidas, são a expressão maior da legenda daqueles anos fulgurantes da República Catalã. A sua carreira e o seu destino iriam ser destruídos, no entanto, pela Guerra Civil, que eclode em 1936.

O poeta andaluz Federico Garcia Lorca, que também viu o seu destino ser traçado, de forma trágica, pela Guerra Civil, teve o seu nome, no Bairro Gótico, dado a uma rua nos anos da guerra. Lorca chegou a Barcelona, pela primeira vez, em 1925, pela mão de Salvador Dali, que conhecera em Madrid. A década seguinte seria de uma paixão fulminante pela cidade catalã e pelas suas gentes.

Federico Garcia Lorca: “Barcelona é diferente, não é? Aí temos o Mediterrâneo, o espírito, a aventura, o grande sonho do perfeito amor. Há palmeiras, pessoas de todos os países, anúncios extraordinários, torres góticas e uma maré urbana intensa. (…) Que prazer foi para mim conhecer essa atmosfera e essa paixão. Não estou surpreendido por a cidade se harmonizar comigo, porque me entendi maravilhosamente com tudo aí e a minha poesia foi recebida de uma maneira que, na realidade, eu não merecia (…) E não apenas isso, mas eu, que sou um catalanista ferrenho, simpatizo muito com o que este povo fez, e estou cansadíssimo de Castela.”

Repare-se: “E estou cansadíssimo de Castela.” Margarita Xirgu, grande atriz catalã, irá representar peças do dramaturgo andaluz. “Mariana Pineda” terá cenários idealizados por Dali. Lorca expõe os seus desenhos na mesma galeria que expusera a obra de Miró e Dali. Isto nos finais dos anos 20. Em 1932, depois de publicar Um Poeta em Nova Iorque, regressa à cidade. É um poeta consagrado. Fala, recita poemas, os seus poemas são cantados, os poetas catalães recitam em catalão.

Quando, em 34, estreia a peça Yerma, em Madrid, vivem-se tempos conturbados. Lluis Company, que substituíra Francesc Marcià, falecido em dezembro de 1933, está em confronto com Madrid e declara a Catalunha como República independente: “Liberal, democrática e republicana”. Nesse mesmo ano emerge a figura de Francisco Franco, que reprimira a sublevação nas Astúrias a 6 de outubro de 1934. É visto como o salvador da pátria em relação ao comunismo. Margarita Xirgu (que acolhera em casa Manuel Azanã, ex-primeiro ministro, ao sair da prisão, acusado de apoiar sublevações em Espanha, é posta debaixo de fogo). A imprensa da direita ataca a peça de Lorca. No ano seguinte, Xirgu leva à cena Yerma, em Barcelona, enquanto a esquerda se prepara para as eleições no ano seguinte. As filas para as bilheteiras são enormes. São formadas desde muito cedo. Federico García Lorca falará no fim do espetáculo, numa sala completamente apinhada de gente. Elogia a cidade, elogia Margarita Xirgu e o seu trabalho. Xirgu sobe ao palco e diz: “El meu cor és amb vosaltres. Visca Catalunya!” (O meu coração está convosco. Viva a Catalunha). É o delírio.

A peça andaluza de Lorca percorre as aldeias catalãs e serve o fervor nacionalista. O poeta é famoso em Barcelona. Bodas de Sangue é a peça seguinte. Lorca está apaixonado pela cidade. Convive em Montjuic com os ciganos, gosta de ir comer na zona do porto, gosta de ouvir canções e danças andaluzas nos bares do Barri Xinès. Bodas de Sangue é um sucesso. Em dezembro de 35, Margarita Xirgu leva à cena outra peça de Garcia Lorca, Doña Rosita la Soltera.

Em fevereiro de 1936 chegam as eleições. Manuel Azaña, que fora acolhido por Margarita Xirgu, regressa ao poder. Exonera Francisco Franco do Ministério da Guerra e envia-o para as Canárias, em março do mesmo ano. Lluis Company, que fora derrotado na sua peleja com Madrid e exilado de Espanha, retorna, no mesmo mês de março de 36, a Barcelona. É recebido em apoteose. Consegue aprovar a sua reforma agrária. Pede a Pau Casals que toque a “Nona Sinfonia”, de Beethoven, nas escadarias do Palau Nacional de Montijuic, como este fizera, para Francesc Marcià, em 1931.

 

Casals não completará mais do que os três primeiros movimentos da sinfonia. A 17 de julho de 1936 começara a sublevação militar no Protetorado espanhol de Marrocos. A 18, Franco avançava a caminho de Marrocos. Começaria, assim, em termos cronológicos, a Guerra Civil Espanhola. A 19 de agosto de 1936, o poeta Federico Garcia Lorca é assassinado em Granada. Nos meses que se seguiriam, Barcelona seria destruída. Terminavam, de modo trágico, os breves e intensos anos de ouro da República Catalã. 

 

As crianças e jovens que nasceram neste tempo em que a maioria dos pais ou mesmo os professores pouco se sentem motivados em dispensar uma parte das suas rotinas para se fazerem presentes na real formação/educação dos continuadores, está pagar uma factura da qual não tem culpa.

Está provado e comprovado que na componente desportiva, é a partir de um investimento sério apontado para a quantidade, que se pode chegar a uma elite, isto é, à qualidade. É assim em todo o mundo e era assim por cá, com provas e resultados mensuráveis, constantes dos arquivos.

Uma simples e atenta leitura comparativa aos “rankings” trazem-nos essa realidade.

Algumas práticas no esquecimento

É verdade que não adianta muito chorar “após o leite derramado”. Importa, isso sim, equacionar os reais motivos pelos quais na alta roda do desporto, no pós-Mutola, o Mundo deixou de se lembrar da nossa existência.

À geração actual, porque se perderam algumas boas práticas, com as quais nem chegaram a conviver, recai a menor dose de culpabilização. O “boom” de tudo se conseguir com “boladas” e “corta-matos”, acontece em praticamente todo o mundo. Porém, a nós, vitimou-nos de forma particular uma razão muito objectiva: abrimos a porta ao veneno, subestimando o contra-veneno!

Tudo começou com a venda dos recintos desportivos que abundavam, negociados sob a capa dos mais multifacetados motivos, ao mesmo tempo que outros espaços eram “dumbanenguizados”. Nas escolas, os campos foram “rentabilizados” para dar lugar a mais salas de aula.

Que maior machadada à tão propalada massificação desportiva, poderia acontecer? Os hábitos salutares de movimentação dos meninos e meninas nas escolas, nos bairros e nos clubes, entraram em desuso. O passo que se seguiu foi o da priorização de outras coisas, a maior parte delas nocivas à saúde e bem-estar.

Pirâmide invertida

O “edifício desportivo”, antes apoiado numa pirâmide de base ampla e com competições regulares, foi sofrendo uma inversão, até ao que hoje se assiste: movimentação infantil e juvenil faz-de-conta, porque sem regularidade. Os Jogos Escolares são o melhor exemplo: joga-se dois meses, de dois em dois anos. O resto…

Como agora inverter, ou dar passos nesse sentido, num cenário tão difícil?

1. Adaptando-nos às novas realidades, há que “salvar” os espaços ainda disponíveis, mobilizando a criançada com incentivos adequados aos novos tempos.

2. Os pais e encarregados de educação têm que ganhar consciência de que o desporto, para lá dos craques que pode gerar, é um preventivo para doenças como a obesidade e as diabetes, antes exclusivas nos idosos, mas que hoje atacam a juventude devido à pouca mobilidade.

3. Se bolas e campos são indispensáveis, há que haver interesse para os utilizar. O que hoje se assiste é os meninos irem às movimentações massivas em busca das camisetes, numa altura em que os papás estão mais preocupados com as visitas às barracas, praias ou centros comerciais, claramente as prioridades que povoam as suas cabeças. Esquecem-se que no “tempo da outra senhora”, há pouco menos de meio século, vivia-se por cá uma real massificação. Os resultados então obtidos, quando comparados com os de hoje, envergonham-nos a todos!

Apesar de tudo…

Graças a alguns resistentes – os ditos carolas – vamos esporadicamente obtendo pálidos triunfos na arena africana. Poucos, mas bons, dirão alguns. Mas se a prática desportiva, nas nossas vidas, se transformasse num assunto verdadeiramente de Estado, como noutras paragens, quanto benefício obteríamos?

Desporto dá saúde e prazer. Citando Nelson Mandela: “no desporto, só perde quem o não pratica”!

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado//
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,//
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram

Mário Quintana

 

Não chamamos sermão às ladainhas dadas habitualmente pelos padres nas missas. Embora sem excluir a relevância daquele palavreado, sobretudo para os mais devotos, aqui, ampliamos o conceito para toda uma tentativa de se fazer da palavra cantada um bálsamo, que alivia e cede a receita capaz de prevenir a dor, no caso, sensação que inicia de um ser e, quando se perde o controlo, esbanja-se na colectividade. Esse bálsamo suave, misturado com sermões didáticos/ pedagógicos, tem um substantivo próprio: Kwiri, título do álbum de estreia de Roberto Chitsondzo, lançado com um livro à laia de uma biografia e outras coisas.

Em Kwiri, disco constituído por 14 músicas, umas muito conhecidas, outras nem por isso, ao estilo “bom rapaz”, Chitsondzo brinca de ser um modelo de vida, ora dando lições ora investindo em sermões, sem falar em Deus e nem no Pecado, mas citando poetas no sentido mais vasto desse significado. Assim, temos um músico a dar voz à escrita, imortalizando autores como Leite de Vasconcelos e Ungulani Ba Ka Khosa, ao apropriar-se de textos como “Custa dizer amor” e “A solidão do senhor Matias”. No primeiro caso, mantendo o título original do poema, canta versos como quem reza, criticando o facto de a doença do ódio existir tão vigorosamente. É uma música que nos conduz, igualmente, ao “Progresso”, de Rui Knopfli, na mesma proporção que nos desperta para repensarmos a forma como lidamos com o amor (no segundo caso, “Waxukuvala”, até é interessante discutir os sentidos de apropriação cultural do europeu em relação às tradições bantu, bem retratados em Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa).

Bem visto, o amor é um tema recorrente neste CD. Veja-se, por exemplo, o caso de “Kwiri”, música que cede o título à obra, na qual temos, com recurso constante às transferências de significado que geram metáfora, um carinho de filho para mãe. A este nível, mais uma vez de forma delicada, o músico faz do sermão uma arma ao serviço social. Afinal, num contexto em que a mulher continua a ser violentada a nível doméstico, cultural e social, em vários cantos do mundo, uma ode é sempre pouca. O amor é umbrella do segundo tema do CD, “Lirandzo”, e ainda o encontramos em “Timpondho”, com azedume, porque, de vez em quando, é necessário ser-se carrancudo, maltratar o cenho e dar um Stop nas acções. Quem disse que o dinheiro pode comprar uma mulher? Até pode pagar a fruta na Araújo, Bagamoyo para os mais novos, mas não compra uma mulher. A quinta música de Kwiri explora este campo, lembrando-nos que a mulher compra-se, como quem diz, com amor.

Na verdade, como se espera dos sermões, nesta atmosfera não religiosa¸ os de Roberto Chitsondzo, neste CD, longe de serem longos, repetitivos ou exaustivos, são, à medida certa, moralizantes; despertam consciências e orientam um percurso, no qual as pessoas podem caminhar de mãos dadas, com a convicção de que o amor, a paz e a liberdade são a tríade indispensável para o bem-estar, o que se constrói com uma memória comum. Deve ser por isso que o músico inclui “Freedom” e “Samora” nesta aparição, enaltecendo heróis e seus martírios, mostrando-se anti-violência, seja de que ordem for: assaltos, assassínios (“Hafa”) ou guerras (“Golfo”).

Com efeito, Kwiri é um álbum diversificado em termos de conteúdo. Se, por um lado, temos sermões que nos motivam a dar um beijo na velha cujo maior feitiço foi o de nos ter gerado e criado, enaltecendo o amor, desvalorizando o materialismo, virando as costas à violência, por outro, Roberto Maximiano Chitsondzo aconselha-nos a fazermos da escola um jardim e de cada criança uma flor. Na verdade, o artista está a dizer-nos para não crescermos, porque, sendo imberbes, estaremos sempre dispostos a aprender e a fazer do mundo um lugar hospitaleiro. Este é o teor de “Dondza”, de uma alma que se esgota a exprimir o melhor de um coração feito de sonhos e esperanças.

 

Título: Kwiri

Autor: Roberto Chitsondzo

Editora: Khuzula

Classificação: 16

(Para Miguel Buendia, meu amigo, meu irmão)

 

O dia 16 de Dezembro de 1972 calhou num sábado, como acontece este ano. O massacre de Wiriamu poderia, naquele dia ignóbil, ter sido apenas mais uma página negra esquecida ou ignorada para sempre, como outras tantas que permanecem no sepulcro do desconhecimento e da ignomínia. A coragem dos Padres de Burgos que o denunciaram trouxe-o para a ribalta internacional, quando um jornal britânico concedeu capa e deu destaque a esta história, no mesmo momento em que Marcelo Caetano, que chefiava então o regime português, estava de visita a Grã-Bretanha. Escusado será dizer que Portugal negou e tentou desmentir aquele facto irrefutável, tendo inclusive promovido uma campanha para desacreditar Adrian Hastings, antigo missionário em África, que relatou o massacre, na edição de 10 de Julho de 1973 do The London Times. Peter Pringle, enviado a Moçambique pelo Sunday Times para investigar o massacre, produziu um corajoso e decisivo testemunho. Mustafah Dhada, historiador nascido no Buzi, em Moçambique, e professor universitário na Califórnia, publicou um estudo intitulado O Massacre Português de Wiriamu, no qual faz a anatomia deste acontecimento trágico. Pringle assina o prefácio da edição inglesa, que foi incluído na sua tradução em língua portuguesa.

 

Peter Pringle: “Na manhã de 16 de Dezembro de 1972, tropas coloniais portuguesas reuniram os habitantes de Wiriamu, incluindo mulheres e crianças, no largo principal da povoação, e ordenaram-lhes que batessem palmas, que cantassem para se despedirem da vida. Em seguida, os soldados abriram fogo. Os que escaparam às balas foram mortos por granadas. Incitados pelo brado “Matem-nos a todos”, os militares levaram o morticínio a quatro povoações vizinhas ao longo do Rio Zambeze, onde o território de Moçambique se estende para o Zimbabwe (Rodésia, à data dos acontecimentos), a Zâmbia e o Malawi – uma região designada pelos missionários católicos como “a terra esquecida por Deus”. No final do dia, perto de 400 aldeãos tinham sido mortos, e os seus corpos eram lentamente consumidos pelas chamas em piras funerárias ateadas pelos soldados com o capim que cobria as palhotas.”

 

Usaram os mais hediondos argumentos: conspiração internacional, Wiriamu não existia, invenção dos padres, ficção. Marcelo Caetano estava de visita a Londres para a comemoração dos 600 anos da aliança Luso-Britânica. Para além dos jornais e das notícias sobre a brutalidade do regime que representava, tinha manifestações nas ruas de Londres. Os padres não esmoreceram. Hastings foi até às Nações Unidas. Quando fez o seu testemunho e a sua denúncia, tinha Marcelino dos Santos na assistência. Vicente Berenguer e Júlio Moure apresentam-se, em Londres, nas instalações do London Times, a 6 de Agosto de 1973, e afirmam que conhecem a localização exacta de Wiriamu. A história era verdadeira. Eles não só conheciam o terreno, como as vítimas. Berenguer tinha cruzado com os fugitivos e sobreviventes perto de Wiriamu. Mais do que isso, ele e os seus colegas tinham participado no estabelecimento do relatório que tinha fornecido os elementos à denúncia promovida por Hastings. Há meses, numa entrevista de despedida, 50 anos depois de Moçambique, Vicente Berenguer falou também de Wiriamu.

 

Vicente Berenguer: “Após o massacre, eu, juntamente com o padre Ferrão e o padre Sangalo, fizemos um relatório que foi publicado pelo padre Hastings em Inglaterra. Isto criou uma polémica, mas Marcelo Caetano, mesmo assim, desmentiu os factos. (…) Viajámos para vários países europeus para expor as atrocidades cometidas pelo regime colonial contra o povo moçambicano”.

 

Conheci Vicente Berenguer através de Miguel Buendia, outro protagonista desta história destemida. Há mais de vinte anos, perguntei ao meu amigo Miguel algo sobre esta história e ele foi lacónico e sóbrio, sublinhando o papel de Adrian Hastings. Próprio de um homem admirável, de um homem probo, de um protagonista que não procura a ribalta. No entanto, foi Miguel Buendia, vim a saber mais tarde, que, correndo o risco de ser preso – estavam presos uma data de missionários – levou os documentos clandestinamente de Moçambique para Espanha, quando recebeu, ele e o padre Moure, ordens de expulsão, em Fevereiro de 1973, do território moçambicano. O padre José Camba, que fizera 200 km de Chimoio, a pretexto de se despedir dele, ao entregar-lhe  o subscrito disse-lhe: “Miguel, leva isto para Espanha. É sobre Wiriamu.”

 

A acção dos Padres Brancos e dos Padres de Burgos era incómoda para as autoridades coloniais. Eles estavam do lado da justiça, da liberdade, da dignidade dos moçambicanos. Não o afirmavam, mas apoiavam e tinham linhas de contacto com a FRELIMO. Eram a defesa da população que sofria as atrocidades do regime colonial. Estes padres tinham chegado a Tete, que até 1962 pertencia à diocese da Beira, por via de um convite do Bispo D. Soares de Resende. A Igreja iria tornar-se num agente transformador da sociedade, sobretudo através da acção das ordens dos Padres de Burgos, na diocese de Tete. A actividade deles, sobretudo a sua formação de cidadãos, é crucial. Veja-se o testemunho deixado no jornal Notícias pelo Padre Vicente Berenguer, em Julho. Muitos deles foram presos, outros tantos interrogados e expulsos. Domingos Ferrão, o primeiro padre negro da diocese de Tete, chegou a ser preso.

 

Mustafah Dhada: “O papel da Igreja no massacre de Wiriamu não é singular, nem simples. Uma das razões que o explicam prende-se com o surgimento de uma liderança senciente disposta a deixar-se moldar pelo ardor da experiência vivida. Soares de Resende, o novo bispo, mudou o rumo da igreja de Tete. Felizmente, a escassez de sacerdotes em Portugal permitiu-lhe seleccionar padres que considerava adequados às necessidades de Tete sob o seu episcopado. Daqui resultou um grupo de sacerdotes “importados” extremamente diversificado e ecléctico, que assumiu as responsabilidades inerentes à sua missão com grande seriedade e acolheu uma vida de isolamento nos lugares mais recônditos de Tete como um trunfo para a construção de uma comunidade de crentes socialmente activa. Os Padres Brancos e os Padres de Burgos notabilizaram-se neste tipo de trabalho: os primeiros, graças à sua experiência sacerdotal em África, e os segundos, devido à sua formação e experiência com paróquias assoladas pela pobreza em Espanha franquista e pelas suas personalidades individuais.”

 

O massacre ocorreu a 16 de Dezembro de 1972. O primeiro artigo a denunciá-lo surgiu no The London Times a 10 de Julho de 1973. Segue-se-lhe um verdadeiro terramoto  sobre o regime português, incapaz de ganhar na frente de guerra – em Moçambique havia perdido na famosa campanha Nó Górdio, apesar de afirmar o contrário -, mas estava em perda em outros importantes teatros de guerra. Esta denúncia abriu uma frente diplomática importante para a causa da libertação. A 25 de Abril de 1974, menos de 1 ano após aquela denúncia de Adrian Hastings, com base no relatório e na acção dos Padres de Burgos, o regime cai em Portugal. Perdera na frente de batalha, com a luta de libertação em direcção a Manica e Sofala – foi, aliás, com base na acusação de que os wiriamu davam cobertura aos combatentes no seu avanço para Sul que perpetraram este e outros massacres – e perdera na frente diplomática, que ganhou outro impulso com esta revelação e permitiu desacreditar Caetano e Portugal.

 

Domingos Kansande, antigo aluno de Vicente Berenguer e protegido de Domingos Ferrão, o primeiro padre negro da diocese de Tete, cruzou-se com o horror quando naquele sábado ia de visita a Wiriamu onde iria reencontrar a sua amada. Kansande elaborou a primeira lista das vítimas. O relatório teria, por assim dizer, vários autores. Foi inicialmente redigido pelo padre Ferrão com ajuda de duas freiras. Os Padres de Burgos protegeram-no, dado que ele tinha sido preso e levaram adiante a missão de denúncia. Os dados mais importantes do acontecimento são conhecidos desde 1972: o número de mortos, o local, as causas – o facto de ser um corredor dos combatentes na sua marcha para a frente Manica Sofala – e aqueles que o perpetraram.

 

 

Mustafah Dhada: “O padre Catellá serviu-se engenhosamente dos dois protagonistas do conflito para servir a sua Igreja. Enrique Fernando recorreu à sua escrita para registar situações de violência em massa e, ao mesmo tempo, defender os direitos dos mais pobres. Alfonso Valverde de León não descansou enquanto não expôs o que considerava ser a verdade nua e crua. Miguel Buendia tinha a habilidade de convencer os colegas mais indecisos a tomarem uma posição apresentando os argumentos adequados com ardor e paixão. Dividido entre o medo e a fé, o padre Ferrão registou o número de mortos na sua lista de vítimas, enfrentando o risco de prisão. Entre eles estava também o padre Berenguer. Os seus truques de magia conquistaram a lealdade dos rapazes mais novos da sua paróquia. A sua calma aristocrática permitiu preservar a consistência da história apesar das tentativas dos detractores para ferir a sua veracidade. O mais excêntrico de todos talvez fosse o padre Sangalo, filho de um toureiro e um ás ao volante de uma Suzuki. O seu dom para travar amizade com representantes da autoridade em pleno território inimigo salvou a sua vida e a de uma testemunha, o que acabou por inverter o rumo da contranarrativa promovida por Portugal.”

 

Mustafah Dhada recorre em O Massacre Português de Wiriamu, Moçambique 1972 (originalmente The Portuguese Massacre of Wiriyamu in Colonial Mozambique, 1964-2013) a uma aturada investigação, consulta diversas fontes, consegue relatos das vítimas e dá voz aos sobreviventes, manuseia uma profusa documentação escrita. Para além de ser uma obra importantíssima para a demanda da história deste massacre e uma denúncia documentadíssima do mesmo, este livro é um pungente hino aos que nele (no massacre) pereceram, uma denúncia exemplar do regime português, que nunca se retractou, e um hino comovente ao futuro.

 

Dos protagonistas desta história soberba conheço e sou amigo de Miguel Buendia. Através dele conheci Vicente Berenguer. Quando o vi partir, em Julho, senti que todos nós devíamos uma homenagem nacional não só a ele – Vicente Berenguer -, mas a todos os que denunciaram corajosamente o massacre de Wiriamu. A história e os relatos da saga dos moçambicanos são ainda registos lacunares. Talvez por isso se cometa, muitas vezes, a injustiça da omissão. Aqui está uma página exemplar e luminosa da nossa história recente escrita pelos Padres Brancos, pelos Padres de Burgos e pelo padre Adrian Hastings –  pelo Bispo D. Soares de Resende muito antes – e tantos outros, como os jornalistas que a imprimiram e lhe deram um destino global. O país deve-lhes um tributo. Eu quis lembrar-me de Wiriamu, lembrando-me deles. Do muito que lhes devemos.

 

 

Agarrou a cabeça. A culpa pesava. A primeira reclusão de um culpado é a consciência. Por isso levou a mão à  cabeça que é onde estava, supostamente, a consciência.

Ainda ouvia o eco da voz desesperada do comparsa a cochichar, do outro lado da linha: "Estamos tramados! O caldo entornou. E agora? O que faremos? Alô… alô…"

Não respondeu, precavendo-se de possíveis escutas. Ficou sem reacção enquanto digeria, amargamente, a nova. O telemóvel, na mão, encostado ao ouvido, escorregou. Escapou da Palma. Bateu no ombro, na cintura, num móvel próximo e fez "pah!" dramático quando se esparramou pelo chão. 

Tal como a consciência, tudo começou a pesar. O ar tornou-se espesso, a dificultar-lhe a respiração. O corpo também pesava, como se lhe tivessem pendurado nos ombros uma mochila com todo o dinheiro das dívidas ocultas, em moedas! Cedeu, sentou-se na cama. Apoiou os cotovelos nas coxas. A cabeça, com o peso da culpa, precisava de um guindaste. Afundou entre os ombros e apoiou-se nas palmas das mãos. Os dedos furavam a carne flácida das bochechas. Sentiu, entre os cílios das barbas, o suor do rosto a inundar as mãos já húmidas. Suspirou, exorcizando a consciência. Deitou-se como se, pelo descanso do corpo, pudesse repousar a culpa. Voltou a suspirar, levantou-se. Não havia posição que desse. Levou as mãos à cabeça. Desarrumou o cabelo para reorganizar os cacos das ideias. O suor molhava as roupas de dormir e inundava os lençóis. Pensou em Deus. Quis rezar. Desistiu quando se lembrou que Deus só é bom para os bons.

Fechou os olhos para procurar uma luz no pensamento. Via tudo escuro. Abriu. Continuava escuro. Pensou em telefonar aos amigos influentes. Procurou ressuscitar o telefone espalhado pelo chão: bateria para um lado, telefone para ali, a tampa para lá… o tremor da mão dificultava. O telefone voltou a cair. Irritou-se.

É quando um homem enfraquece que se percebe a força duma mulher. Estava deitada. Via, pelo nervosismo, a gravidade da situação. Recolheu o telefone caído e arrumou o puzzle das peças soltas na queda. Deixou-se estar sentada ao seu lado, em prontidão feminina. Interveio, sem perguntar nada, à distância de não interferir nos assuntos do marido, como fora sabiamente aconselhada. Juntou as mãos e fez uma concha, segurando a do homem ao jeito de uma reza. Apertou-a para conter a tremedeira. Manteve-se calada. O homem percebeu a pergunta muda.

Passou os dedos indicador e polegar pelos olhos, como se limpasse uma lágrima invisível. Foi aproximando os dois dedos até se encontrarem, na parte superior do nariz e permaneceu assim, como se aquele gesto o  aliviasse alguma dor.

— Está tudo lixado. Tudo.

— Tudo o que? — ousou a mulher, quando percebeu que o homem queria falar.

— Vou ser detido. Descobriram tudo.

— Tudo o quê? Os negócios? Qual deles?

Rodou bruscamente a cabeça. Olhou para a mulher com o sobrolho franzido, apercebendo-se que tinham sido muitos "negócios", o que agravou a sensação de culpa.

Baixou a cabeça. Uma gota de suor deslizou pelo rosto. Foi parar à ponta do nariz. Suspensa. A gota inchou, inchou, inchou como as suas contas bancárias. E soltou-se. Caiu. Ocorreu-lhe que as contas bancárias inchadas poderiam cair, à qualquer momento como aquela gota de suor.

— Vou ser detido. Acusam-me de estupro.

— Estupro?

— Dizem que estuprei a pátria. 

— Mas estupraste ou não?

Silêncio.

— …mas não fui o único. A pátria é estuprada todos os dias. E agora que está grávida e doente… Mas juro. Não fui eu quem a engravidou.

A mulher calou-se. O silêncio de uma mulher pode dizer muita coisa. Entre o medo de escutas e os problemas da telefonia,  não conseguiam ligar para os amigos influentes. A cabeça pesava. Pesava  cada vez mais. O ar estava mais espesso. Cheirava à podridão e ferrugem. Fossem talvez os portões enormes, metálicos, das celas da consciência, a trancarem-se.

 

Realizou-se em Lisboa, na Universidade Clássica o congresso “Cartógrafo de Memórias: a poética de João Paulo Borges Coelho”. Aí apresentei uma proposta para converter em peça de teatro o seu romance As Visitas do dr. Valdez. É o texto que se segue:

Está a literatura prenhe de intersecções e contágios. Quando Shakespeare pega em enredos italianos para escrever Romeu e Julieta ou Júlio César age como um fixador de mitos ou de situações dramáticas que lhe pré-existem; no caso de Romeu e Julieta a dos amores contrariados.

É comum aos temas atravessarem séculos à procura de quem os cristalize, o que não raro subentende uma transversalidade por géneros e suportes.

Por exemplo, o que catapultou Blade Runner para um sucesso transgeracional foi ser o feliz cruzamento do mito do Dr. Fausto com a problemática do Romeu e Julieta—Ridley Scott soube traduzir para a sua época essas ressonâncias anteriores. E o filme, mercê igualmente de uma sábia dosagem gráfica entre cenários futuristas e ambientes retro, foi um sucesso apesar de carregar às costas mitos perenes, ou as suas sombras.

Um dia antes de embarcar para Lisboa estive em Maputo com o fotógrafo moçambicano José Cabral e o crítico de arte Alexandre Pomar. E assistimos ao seguinte diálogo. Um neófito abordou o José Cabral e perguntou-lhe, Quando queremos tirar uma fotografia qual é a coisa mais importante que devemos ter em atenção? Respondeu prestamente o José Cabral, o principal, para fazer uma boa fotografia é ler adequadamente as sombras no enquadramento.

É neste mesmo sentido que antevejo a única possibilidade de realismo: é necessário ler as sombras, as sombras da época, as sombras dos mitos que tecem no presente e no quotidiano as linhas de visibilidade e lhe conformam os protocolos, as sombras das expectativas e dos desejos que emergem, paulatinamente. Só depois das leituras destes indícios ficam as nossas lentes aptas para discernir e separar sobreposições de aparências e para fazer coincidir o real com as suas imagens.

Já bons exemplos de contágios encontramo-los no modo como aquela faca que vai autonomamente ao encontro da mão ainda temerosa de Macbeth se tornará fulcro irradiante e nuclear em Faca só Lâmina de João Cabral de Melo Neto, ou na flagrante e exasperante coincidência entre o que se lê no fragmento 36 de Prosas Apátridas, do peruano Júlio Ramón Ribeyro, que foram publicadas em Paris na época em que Paul Auster por lá andou, e a fábula central do seu livro Invenção da solidão, a história de um filho que encontra o cadáver intacto do seu pai desaparecido havia décadas congelado nos Alpes e que está face a ele, paradoxalmente, com a metade da idade que é então a dele, filho.

É indisfarçável que a literatura participa também do hipertexto global e todos, de um modo transversal a uma época, perseguimos os mesmos temas, procurando ser os fixadores de um mito, de uma relevância ou situação dramática; sendo então inescapável o encontro e a sobreposição de fantasmagorias afins.

A mesma linha de contágio e diálogo se estabelece entre o Conto de Natal de Auggie Wren, de Auster, e As visitas do Dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho, mesmo que inconsciente. Em ambas as narrativas se exploram os mecanismos que Marivaux consagrou, usando a máscara e a mentira que rapidamente, por preciososmo, acabam por montar a auto-ilusão. Mas não nos adiantemos.

O conto de Auster resume-se em poucas linhas. Auggie vê do balcão da sua tabacaria um jovem larápio a enfiar revistas e paperbacks nos bolsos de dentro do blusão e grita-lhe. Enceta-se ali uma perseguição inútil porque o ladrãozito é mais ágil. Mas este, na correria, sob pressão, deixa cair algo, a carteira. Pelo estado dos inúmeros cartões de identificação que aí se apresentam e pelas fotografias que a carteira carrega, Augie percebe que o meliante é um pobre diabo e dilui-se o seu ímpeto justiceiro. Meses depois, no dia de Natal, estando sozinho e entediado sobrevém a Auggie o desejo de praticar uma boa acção e resolve entregar a carteira no endereço que se assinala num dos cartões.

Recebe-o uma anciã cega que o toma pelo neto, o jovem ladrão, e que o felicita por se ter lembrado de a visitar no dia de Natal. E Auggie, sem saber porquê, embarca no jogo, simula ser o neto, passa a consoada com a velha e retribui-lhe as carícias e abraços e mente-lhe doirando a pilula sobre a sua vida, i.é a do neto, e aquela manifesta-se orgulhosa e sente-se recompensada naquele jogo de fingimentos mútuos. Até que adormece de saciedade. Auggie, antes de sair, vai aos lavabos onde descobre uma série de caixas com máquinas fotográficas roubadas pelo neto e num impulso leva uma consigo. Quando, atacado pelo remorso, algum tempo depois volta a bater à porta da velha percebe que provavelmente esta morreu e que ele passara com ela o seu último natal. E (tentando sublimar a culpa?) auggie entrega-se à fotografia, que passa a ser o seu hobby.

Percebe-se pelo relato da anedota as afinidades com As Visitas do Dr. Valdez: a irmã Sá Caetana, afim de devolver à esmorecida Sá Amélia alguma motivação para a vida, monta com o seu jovem criado Vicente uma farsa, pela qual, este disfarçado, passará por um remoto dr. Valdez (aliás já morto), uma visita que alegrava no Ibo as viuvezes ensimesmadas das duas manas. A ilusão parece funcionar em pleno, até que no auge do jogo damos conta que as cegueiras são mútuas.

Contudo, até pela extensão diversa das duas narrativas, não chega a verificar-se no conto de Auster?—?o que acontecerá depois no roteiro que desenvolverá em Smoke?—?o que o argentino Ricardo Piglia, a meu ver acertadamente, traduz num axioma: um conto conta sempre duas histórias. Um relato visível esconde um relato secreto, narrado de um modo elíptico e fragmentário.

No romance de Borges Coelho, apesar de não ser um conto, isso é claro, ou antes, subjaz.

O primeiro indício que nos faz suspeitar que se possa ler esta história muito para além do plano da narração da vidinha estreme e irrisória das manas Sá, na sua serôdia deriva de Ibo, a ilha natal, para a cidade da Beira, aonde se sentirão como peixes fora-de-água, prende-se com o baptismo dos seus nomes. A um segundo nível de leitura, em sombra chinesa, começa a entrever-se um drama cósmico, aquele que configura a mutação semiótica que antecipa as ruínas de um inteiro sistema de vida.

Lembremos o nome das personagens, Sá Caetana e Sá Amélia. Em conhecendo-se a História portuguesa não é desprovido intuir que o nome da mais velha ecoa o da última rainha portuguesa, D. Amélia, e coetânea do reforço administrativo do colonialismo português que se sucedeu ao sobressalto do Mapa Cor de Rosa, e que o da mais nova, Sá Caetana, pode derivar do último responsável pela herança de salazar, Marcelo Caetano. Entre ambos os nomes vai suspender-se o arco da automoribundia que, como diria Eduardo Lourenço, de irreais em irreais, crismou o colonialismo português.

Vicente por seu turno encarna o espírito da mestiçagem que o Estado português, ainda que tímida e ambiguamente espartilhado por laivos de racismo, acobertava. Não haja dúvidas de que Vicente seja negro mas ao participar do jogo de encarnar o dr. Valdez Vicente coloca-se nessa zona híbrida de dilemática alienação que o Franz Fanon cristalizou numa fórmula: pele negra, máscara branca.

Na novela, nas cenas do presente, há dois triângulos com diferenciado cunho social na novela, o A, constituído pelas manas e o seu criado Vicente, e o B, formado por este último e os outros dois criados vizinhos, Sabonete e Jeremias.

Entre estes dois triângulos posiciona-se como uma cunha o Dr. Valdez, uma personagem que catalisa em si a soma de todos os irreais, quer os vividos pelas duas velhas senhoras que procuram recapturar um passado que lhes escapou, quer a de Vicente, na sua condição de uma criatura que vive “entre”.

Outra coisa separa estes dois triângulos: elas vivem a fadiga de uma larga experiência, congeladas nas suas “interpretações”, são já simplesmente seres perceptivos, atidos ao presente, no caso de Caetana, e mais recessivamente atenuada pela bolha do passado no caso de Amélia, e por isso ambas mais não têm que uma vida reactiva, confirmada pela decisão de Caetana de que viveriam na Beira “como se vivessem numa ilha”, i.é, como mónadas.

Para o outro triângulo a possibilidade da ilusão está ainda a par do carácter emergente da realidade e das suas modulações históricas e por isso eles têm projecções, expectativas, futurizam e propõem-se a uma vida electiva. Um já se vê como coronel e o outro como juiz e até a prostituta Camba (uma personagem que todos partilham) sonha com uma promoção, continuar no ramo, mas mudar de esteiras para camas com dossel.

Só Vicente, apesar de estar cada vez mais fora de casa a procurar apropriar-se duma leitura das nuances do presente, não se decide, ele está “com os mundos misturados” e provavelmente aprendeu com as patroinhas que o muito imaginar pode trazer dano.

Outro aspecto que reforça a leitura do pequeno drama das duas velhas senhoras como uma alegoria que transcende a piquena economia de um drama de costumes prefigura-se com a introdução da máscara de Mapiko e a reinvenção paródica do Dr. Valdez.

É aliás nesta brilhante variação que Borges Coelho descola do simples efeito de marivaudage que havia em Paul Auster para obter uma significação que lhe é extrínseca e enriquece o jogo dramático.

É à quarta e última visita do Dr. Valdez que Vicente, provocatoriamente, enverga o elmo-máscara do Mapiko, subvertendo totalmente as regras da verosimilhança até aí concertada e o escalonamento hierárquico das acções na cena.

Antes, o papel do dr. Valdez fora-lhe atribuído pela patroa Sá Caetana, quem ordenava as marcações de cena, o permitido e o interdito. Na terceira “aparição de Valdez”, Vicente está sozinho no seu quarto e os seus dilemas passam a ser já discutidos com a presença fantasmática de Valdez, como se esta personagem já lhe fosse um alter ego ou dele se quisesse tornar autónoma. Atravessado este cabo das tormentas, num gesto de fuga para a frente, na “quarta visita” é Vicente quem estabelece o comando da cena, ao decidir fazer aparecer o Valdez sem ter sido convocado e envergando a máscara de Mapiko. Aí começa a assumir a sua condição de perversor das regras para depois, no decorrer da acção, ter o gesto inopinado de se desmascarar, gesto desconstrutor que reiteraria o seu papel de portador de autonomia, virando o sentido de quem estabelece as regras do jogo.

Não esqueçamos que a máscara do Mapiko tem um sentido tectónico, aliando-se à terra e a todos os mortos que a nutrem.

Tem então lugar na cena um volte-face surpreendente, que introduz a ironia. Para a compreendermos devemo-nos lembrar que, como dizia Walter Benjamin, «Na alegoria cada personagem, cada objecto, cada combinação pode significar outra coisa. Esta potencialidade emite sobre o mundo profano um juízo severo mas justo: ela define-o como um mundo onde o detalhe não tem importância» (citado em Cantinho: 2012:70).

Ora, com a introdução da máscara, Vicente, desincarnara o papel que lhe havia sido atribuído para apor-lhe uma alteridade que rompia a lógica do mundo duplicado. Mas quando Vicente tenta desmontar toda a farsa e dar um fim àquela encenação, desmascarando-se, dando azo a uma unidade que fosse só sua e constituísse uma afirmação identitária, num assomo até de alguma crueldade face às patroas, aí, para surpresa de todos Sá Amélia nem reconhece a mudança nele nem o furor do seu gesto pela razão mais inesperada: está cega (e desde quando afinal estava cega é o que fica por saber).

Vicente tirara a máscara mas afinal o detalhe de a tirar não logrou qualquer relevância pi rebentação climática, ficando o seu gesto a patinar no vazio. Ou seja, ele continua prisioneiro do mundo das representações que lhe mobilava a mente. O que o impedirá de afirmar junto dos seus amigos a mais minguada expectativa quanto ao futuro e ao suposto homem novo.

A ironia é reforçada pelo que se passa depois da saída de cena de Vicente. Sá Amélia, num último sopro de vida, denota que sempre soubera a verdade e que se implicara na ilusão como um jogo até ao ponto deste desembocar numa mudança relacional de âmbito estrutural, dado que, contra as regras antigas?—?e daí que felicite a irmã por ter deixado de arvorar ares de patroa e ter enfim servido a cerveja ao rapaz, leia-se ao Vicente, ele mesmo, e não a um famigerado doutor Valdez?—?e nesta inesperada revelação a cega assume-se como primeira testemunha lúcida da mudança de regimes sociais e interpessoais que os novos tempos impunham.

Mas a introdução da alegoria remete-nos para uma terceira perspectiva. Para a alegoria, recorde-se, não existe um rosto, o indivíduo e o singular perdem o seu estatuto, sendo que nela «um homem é sempre sinal de outra coisa diferente, isto é, ele não vale por si mesmo, pois toda a possibilidade de o encarar na sua individualidade esbarra nessa remissão infinita e dialéctica para um conceito que lhe é extrínseco». (Cantinho: 70:2002).

Para abreviar, pois só pretendemos explicitar a razão de ser dos critérios dramatúrgicos para o que a seguir apresentarei, temos então que

à ruína colonial se sucede a nova abstracção política do homem novo (aquele rosto a nu que a cegueira de Amélia impede de reconhecer), funcionando o romance como o gráfico dessa passagem de testemunho de uma irredenção colonial para a nova alegria infernal de mútuas cegueiras voluntárias e que satanicamente inscreverão o disfórico na ordem do dia.

Muito tchekovianamente, tudo isto é tratado como se nada se passasse. A acção de As Visitas do Dr. Valdez explora sobretudo o infra-domínio das baixas tensões de natureza interpessoal em vez de nos propor grandes enredos, conflitos com a aparatosa prestidigitação da aventura ou das causas nobres. Aparentemente fala-se de bagatelas. Porém basta escavar um pouco.

Voltaire teve uma sentença cruel sobre Marivaux (um bom percursor de Tchekov na arte de retratar o mecanismo da ilusão e da auto-ilusão) quando escreveu que o seu teatro não seria outra coisa que a arte de “pesar ovos de mosca em balanças de teias de aranha”. Não percebeu nada o pomposo Voltaire cujas peças já não se encenam enquanto as de Marivaux são das mais vistas no mundo. Com o livro de João Paulo é a mesma coisa: parece contar coisas de pouca monta mas é na hábil urdidura destas, ou nas suas sombras, que conseguimos ler o estado social das coisas.

E o que interessa agora é perceber como poderíamos operacionalizar o romance convertendo-o numa peça de teatro. Eis a minha proposta de uma sequência dramática, delineada num modo esquemático, e precedida de uma explicação cénica:

– Um ciclorama ao fundo enquadra dois estrados praticáveis, um mais alto e outro mais baixo.

Temos assim três níveis para o jogo cénico: no praticável mais alto dispõe-se a sala das manas, com três cadeirões e uma mesa com uma telefonia antiga, grande;

no praticável mais baixo tem lugar o quarto de Vicente, mobilado por um catre e uma cómoda velha, com um enferrujado retrovisor a servir de espelho. No banco que lhe serve de mesa de cabeceira vê-se o rádio transístor.

No terceiro plano, o do piso do palco, evoluirão as cenas com o triângulo B, Vicente, Sabonete e Jeremias, com presenças esporádicas da prostituta Camba, vendo-se a um canto uma mesa atamancada de esplanada de barraca, mais umas cadeiras desdobráveis de lona e madeira, a lona rota, e um suposto meio-bilhar, construído por eles.

No ciclorama são pontualmente projectadas imagens de arquivo e de época graficamente tratadas em negativo, ou acções encenadas e previamente gravadas em sombra chinesa, como o combate de Ganda e o monstro rodesiano John Dale, a cena da boneca de porcelana quebrada ou incursões de guerrilheiros pelo mato.

– Quando a peça começa ouve-se o assobio de Vicente e as manas discutem se o mesmo é uma impertinência ou não. Falam também da pacatez da vida no Ibo, da mansidão do pai de Vicente, Cosme, do labirinto da cidade grande e dos amores perdidos; bem como da beleza da mãe de ambas, Ana Bessoa, estiolada naquela infinita observação do mar. Ou fala sobretudo Caetana, Amélia é muito lacónica e só responde se insistirem com ela. Procura entusiasmar a irmã com o folhetim futurista que irá dar na rádio, mas esta pouco reage. Caetana sente-a muito lenta e perigosamente apagada e resolve fazer algo que salve a irmã.

Segue-se uma cena no quarto de Vicente, que Caetana invade. Mete o rádio na cama para se sentar no banco e urde com Vicente o plano das visitas do dr. Valdez.

A partir daí as acções em que Vicente, em silêncio se veste e maquilha de dr. Valdez e ensaia poses ou fragmentadas frases de brilho para as falas do médico, serão o fundo para as cenas dos outros criados, que comentam as mudanças do mundo, o futebol, o racismo e as mulheres, enquanto se entronizam no espírito da guerrilha e aludem à pronta queda do colonialismo.

Entretanto, estruturam-se em sequências alternadas as acções com as duas manas:

às diferentes visitas do dr. Valdez sucedem-se cenas em que as manas?—?Caetana, bordando, circunspecta e aflita com o que ouve, e Amélia meia alheia?—?ouvem na telefonia o folhetim. Este é uma breve montagem dramatúrgica de cenas da novela de JPBC Cidade dos Espelhos, que desde o primeiro momento, com o atentado terrorista com as bolas de sabão, as perturba, principalmente a Caetana, que acha tudo aquilo muito subversivo… Esta rádio-dramatização deve ser enfática e procurar obter sobre o seu ouvinte o mesmo efeito de choque que teve na sua época a Guerra dois Mundos, lida por Orson Welles…

Ao mesmo tempo em que vemos o susto das manas, noutro canto do palco, os criados, que têm igualmente um transístor, excitam-se com o folhetim, e Jeremias, exulta por o líder dos guerrilheiros no folhetim ter o mesmo nome que ele. Nestas cenas Vicente junta-se-lhes, embora mais comedido e irresoluto nas manifestações.

No ciclorama, vemos imagens do chilumi, o mato selvagem, a invadir as liana, os coqueiros, as propriedades delas do Ibo, e a alastrar, devagar.

A meio do terceiro episódio do folhetim, este é interrompido e a voz de um locutor esclarece que o mesmo foi censurado e os seus autores presos, por subversivos. O resto do que seria o tempo do folhetim é substituído pela emissão radiofónica de uma das Conversas em Família, de Marcelo Caetano.

Sá Caetana acha muito bem e aproveita para ler à parte?—?embora de vez em quando vigie a irmã, para ver se ela continua alheada?—?a carta em que Basílio Aliberto conta a morte de Cosme Paulino.

Ao mesmo tempo vemos que, nu e empurrado pelos amigos, Vicente, se prepara para ser iniciado sexualmente por Camba. Aí recortam-se nos pés os coturnos que sempre usou desde o início e nunca tira e que simbolizam como é um homem “entre”, um homem que nunca pisa inteiramente o chão do presente.

Camba leva-o para off. Só ouvimos os seus assobios de prazer, enquanto os amigos riem.

Dr. Valdez visita Vicente no seu quarto. Este, depois de ter estado sob influência, submetido à provação, resolve sacudir a “possessão” e envergar a sua máscara do Mapiko, que tinha debaixo do catre.

Última cena com o dr. Valdez. Amélia acaba por finar-se, logo depois de ter felicitado a irmã por ter servido uma cerveja ao rapaz.

O chilumi continua a invadir o ciclorama.

De modo coral, os criados dão conta das últimas notícias e palram entusiasmados com o espírito do homem novo conquistas do homem novo. Após, o que repartem entre si novos papéis sociais, só Vicente permanece abstraído.

O chilumi “tapou” todo a superfície do ciclorama.

Caetana, despedindo-se de Vicente, oferece-lhe num gesto magnânime o que já não tem: as suas propriedades no Ibo.

Com a mala de viagem e vestida para sair, Caetana relê a carta da sobrinha.

Vicente, bucólico, no seu quarto, mete uns novos coturnos para ficar mais alto e depois senta-se a olhar as imagens do mar que passam no ciclorama e que ressoam forte.

Está no seu purgatório, submerso nos seus irreais.

Os criados que julgavam viver no inferno, mudam-se para a casa das manas, julgando que doravante viverão no paraíso. Acendem a telefonia e ouvem um discurso contra os Xiconhocas (1).

Fecham-se as luzes.

E neste momento também eu me calo.

————–

Cantinho, Maria João, O anjo melancólico, Ensaio sobre o Conceito de Alegoria na obra de Walter Benjamin, Angelus Novus, Coimbra, 2002.

(1) Xiconhoca, no imaginário popular de Moçambique é a má rés, o aproveitador, o vigas que faz ronha e que subverte os processos em seu proveito. Durante uns anos foi símbolo dos sabotadores da Revolução

 

Minhas palavras são a metade de um diálogo obscuro

Cecília Meireles

 

Captada palavra a palavra, a poesia apresentada por M. P. Bonde no seu novo livro é muito acessível, afinal, sente-se que o poeta escreveu este A descrição das sombras de forma mais espontânea possível, respeitando a simplicidade que lhe caracteriza, em termos de imaginação e, sobretudo, da tradução desse exercício. Por isso, temos nesta proposta literária do autor, mais uma vez, uma escrita não apenas sedutora, mas igualmente inquietante por bem conseguir nos retirar do nosso ambiente de conforto. Assim, as vozes dos sujeitos de enunciação, agradáveis de ouvir em surdina, levam-nos a caminhar sem barreira em direcção a um encontro com o infinito, que nós sabemos que não vai acontecer, no entanto, entregamo-nos a essa odisseia como se partir na boleia da palavra constituísse um recomeço de alguma coisa diluída entre o complexo e o inexplicável.

De facto, com 41 poemas divididos em quatro partes, A descrição das sombras consegue fazer o que é obrigatório numa obra bem concebida: desligar-nos do que eventualmente julgamos ser bom no plano real para, em compensação, mergulharmos numa outra atmosfera bem desenvolvida do ponto de vista sensorial. Porque é isso o que acontece. Nesta obra de Bonde há muito resultado da percepção, quer dizer, da percepção conectada com a sensação. E tudo isto conflui numa série de diálogos, às vezes sem respostas – é o caso dos dois primeiros poemas “Amor futuro” e “Guilhotina” –, que tanto funcionam como tentativas de chamar um interlocutor distante à razão ou para lembrar que “não há atalhos para a dor” (“Sabor do álcool”).

Usando a cavaqueira com as entidades que lhe habitam, muitas vezes M. P. Bonde coloca-nos numa condição feita de subtileza, na qual somos convidados a mantermo-nos focados em determinados aspectos que, diariamente, vão deixando de merecer importância. Aí torna-se comum encontrar na apreciação que as entidades textuais fazem aos frutos, às flores, às plantas, à água ou ao corpo feminino – com poemas a insinuar um erotismo distante, por exemplo, “Desejo” e “Suspiro” – mil pretextos para dar vigor às palavras, o que acontece graças à capacidade do poeta, por via dos seus sujeitos, ouvir-se a si próprio. No poema “Mafurreira” temos um exemplo desta abertura ao universo interior: “Abro os meus ouvidos aos sons da alma, as pulsações do corpo tricotam a melodia ardente da flauta enquanto o sopro das folhas desterra a pauta do tripé” (p. 36).

Dando azo para os sujeitos exprimirem desejos sensuais, igualmente, Bonde valoriza a manifestação de outros de dimensão onírica. Por exemplo, no poema “Alma” – o que antecede a pior parte do livro (3ª parte), breve, efémera e pouco envolvente. Naquele poema, pode se escutar: “Queria ser uma onda, beijar a terra seca, vaguear pelas profundezas dos oceanos e expulsar as emoções que obstruem a razão” (p. 37).

Além de que escrever um livro a ser partilhado com os seus leitores, pode ser que M. P. Bonde, neste A descrição das sombras, lançado alguns meses depois do seu livro de estreia “Ensaios poéticos”, estivesse a iluminar as feições dos seus sujeitos mais desconhecidos, inclusive por si, assumindo o que nós consideramos diálogo como um motor de busca do que cada ser seu tem a dizer. Afinal, como poderia dizer Cecília Meireles, as palavras de M. P. Bonde, nesta obra, são a metade de um diálogo obscuro, que vão continuar, quem sabe?, em cada livro ainda por publicar, com a ressonância do que o poeta capta, sente e pretende exprimir ao mundo.

 

Título: A descrição das sombras

Autor: M. P. Bonde

Editora: Fundação Fernando Leite Couto

Classificação: 13

A prosa é fatalmente juvenil, talvez mesmo pueril, indisfarçavelmente canhestra, mas genuinamente arrebatada. É o meu relato do meu encontro com Noémia de Sousa, quando a visitei na sua casa, de Algés, Lisboa, em Junho de 1988. Ao regressar à pátria debitei este texto para a “Gazeta”, que então editava, na revista Tempo: “Noémia foi quem abriu a porta e sorriu para mim largamente. Beijei-lhe o rosto tropical. Ela estendeu uma das mãos e convidou-me a entrar na sua casa de Algés. Camila, sua irmã, estava sentada num dos sofás da sala. O meu olhar dispersa-se pela pequena sala pintada de azul. Uma estante grande cheia de livros. Um pequeno televisor ligado. Num dos cantos da sala uma mesa circular. Os cestos com jornais. A casa está virada para a rua onde passa o eléctrico. Nesta casa vive uma mulher que me recebe com os olhos molhados de luz: de vida. Noémia de Sousa senta-se à minha frente.”

Eu tinha 21 anos e era o autor de uma carta na qual a saudava dois anos antes. Esse dia, 20 de Setembro de 1986, o dia dos seus 60 anos, foi para mim jubiloso. A minha missiva, redigida então aos 19 anos, fora lida no programa “Cultura Viva”, pelo Emílio Manhique – de grata memória. Noémia leria o meu texto no ano seguinte, quando foi publicado na “Gazeta”: “Escrevo-te em Setembro deste país de Junho. Sei que um dia disseste que o sol que te viu nascer na casa à beira do Índico voltaria a inundar a vida. É verdade, Noémia. Hoje esse sol entorna a sua luz sobre os olhos dos meninos brincando nas areias.”

Noémia de Sousa: “Quando eu nasci na grande casa à beira-mar, / era meio-dia e o sol brilhava sobre o Índico. / Gaivotas pairavam, brancas, doidas de azul.”

Ali, naquela tarde, tarde longa e longínqua, nasceu a nossa amizade. Retornei a Maputo comovido com aquele encontro. Escrevi o aludido texto e mantive com ela contacto. No ano seguinte fomos a Lisboa para o Congresso de Escritores. Ela haveria de apresentar-me o Rui Knopfli, de quem eu falava com abundância indesmentível e entusiasmo irrepreensível. Nessa mesma ocasião o Rui apresentou-a ao Eugénio Lisboa. Lembrei-me na ocasião de um texto avinagrado do Lisboa. Dizia “que a Noémia de Sousa é um mito que não vale a pena manter de pé, por mais simpatia que possam merecer as boas intenções dos seus poemas tão prolixos como balbuciantes.” Eu lera isto que o Eugénio redigira para o prefácio às Mangas Verdes com Sal do Rui Knopfli e ficara escandalizado.

Noémia de Sousa: “Se me quiseres conhecer, / estuda com os olhos bem de ver/ esse pedaço de pau preto/ que um desconhecido irmão maconde/ de mãos inspiradas/ talhou e trabalhou/ em terras distantes lá do Norte.”

Tinha sido, no entanto, através do poema “Moças das Docas” que eu havia conhecido o nome de Noémia de Sousa. Isto numa antologia organizada pelo Orlando Mendes. Esta obra poética, prodigiosamente escrita entre 1949 e 1951, entre os 23 e os 25 anos, é indubitavelmente fundadora da poesia de raiz verdadeiramente moçambicana.

Noémia de Sousa: “Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço. / Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines, / viemos do outro lado da cidade/ com nossos olhos espantosos, / nossos corpos submissos e escancarados.”

Foi Cassiano Caldas, a quem ele dedica o livro, tal como o dedica a João Mendes, que lhe daria a conhecer a revista Vértice onde ela leu, pela primeira vez, Nicolás Guillén. Uma importante referência. Leu depois muito sobre a vida dos negros americanos em traduções que vinham do Brasil. O sul dos Estados Unidos vivia uma circunstância que lhe parecia similar à que Moçambique estava submetido. Distante ainda da Negritude, que viria a conhecer nos anos 50 em Lisboa e em Paris, no convívio com as ideias e obras de Leopold Senghor ou Aimé Cesaire, de quem aliás irá traduzir o famoso “Discurso sobre o colonialismo”.

Noémia de Sousa: “E enquanto me vierem de Harlém/ vozes de lamentação/ e meus vultos familiares me visitarem/ em longas noites de insónia, / não poderei deixar-me embalar pela música fútil/ das valsas de Strauss. / Escreverei, escreverei, / com Robeson e Mariam gritando comigo:/ Let my people go/ OH DEIXA PASSAR O MEU POVO!”

Escreve em O Brado Africano. Para além do convívio com Cassiano Caldas, que ela me levou a conhecer em Lisboa, convive também com Henrique Dahan, Miguel da Mata, Victor Santos (irmão de Marcelino), Amália Ringler ou Dolores Lopes. Ainda conheceu Rui de Noronha, que ela via passar diante da sua casa. Não conviveu com João Dias. O autor de “Godido” fora estudar para Portugal, onde morreria em 1949. Noémia dedica-lhe um poema. Como o faz a Rui de Noronha.

Eduardo Mondlane, então estudante na África do Sul, vê recusado, pelo governo de Daniel François Malan, do Partido Nacional, o seu visto de residência temporária, o que impediria que ele continuasse os seus estudos na Universidade de Witwatersrand. Noémia redige uma nota n’O Brado Africano com manifestações de solidariedade para com o estudante moçambicano. A PIDE persegue-a. Os poemas indignados, esse grito de revolta, esse apelo à emancipação, as actividades ligadas ao MUD-Juvenil, os artigos cortados pela censura e o cerco que concitam tornam impossível a sua permanência em Moçambique e impõem-lhe o exílio. Mário Pinto de Andrade escreve-lhe a encorajar que parta. Convívio marcado com a Geração Cabral. Primeiro a casa da Tia Andreza, tia da santomense Alda do Espírito Santo, na rua Actor Vale 37; depois a Casa dos Estudantes do Império, o esteio da “geração da utopia” (Pepetela dixit).

Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos, Lúcio Lara, Agostinho Neto ou Francisco José Tenreiro são companheiros de jornada. Em Portugal, o cerco volta a apertar-se. Noémia está casada com o poeta Gualter Soares, tem uma filha pequena, Virgínia, salta a fronteira, com ela às costas, atravessa os Pirenéus, alcança Paris. Marcelino dos Santos consegue-lhe um emprego no Consulado de Marrocos. Só retornará em 1973, com um emprego na Reuters, em plena primavera marcelista e à porta da revolução de Abril.

Só regressaria a Moçambique em meados dos anos 80. Foi nessa década que a tomámos literalmente de assalto. Reivindicámo-la. Começámos a escrever sobre ela, a ler os seus poemas, a declamá-los nos Msahos do Jardim Tunduru, a recitá-los um pouco por todo lado. Não havia livro publicado. Os poemas circulavam, havia as antologias, as revistas. O Brado Africano, Itinerário, Msaho, Mensagem (em Luanda), Notícia de Bloqueio (Porto), Moçambique 58, Vértice, entre outras publicações em Moçambique e no estrangeiro. Tínhamos o registo desse nome soberbo da nossa literatura.

Poemas da Noémia tinham sido publicados no Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, de 1953, de Mário de Andrade e Francisco José Tenreiro, depois na edição de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, que Mário Pinto de Andrade fez publicar, em 1958, em Paris, quando estava na Presence Africaine. A separata da Mensagem, intitulada “Poesia em Moçambique” também consagrava a sua poesia. A Casa dos Estudantes do Império editará em 1960 e 62 duas antologias – Poesia de Moçambique – ambas prefaciadas por Alfredo Margarido, que motivaram a furiosa reacção de Eugénio Lisboa que citei acima. Mário Pinto de Andrade volta a incluí-la na Antologia Temática da Poesia Africana – Na noite grávida de punhais, de 1975. Manuel Ferreira, em 1985, publica seus poemas em No Reino de Caliban III, volume dedicado a Moçambique. Orlando Mendes, em Sobre Literatura Moçambicana, em 1982 e Fátima Mendonça e eu próprio, na Antologia da Nova Poesia Moçambicana, em 1993, coligimos a sua obra. Quando editei Nunca Mais é Sábado, na D. Quixote, em Lisboa, em 2004, publiquei os seus emblemáticos poemas.

O professor Manuel Ferreira, grande entusiasta das literaturas africanas em Portugal, o francês Michel Laban, outro imenso estudioso das mesmas em França e no mundo, ambos desaparecidos deste reino, quiseram publicar o seu livro. Noémia, naquela sua proverbial humildade, encolheu os ombros. Rui Nogar e Calane da Silva, Leite de Vasconcelos, Fátima Mendonça e Júlio Navarro tentaram-no em Moçambique. Em 2001, no ano em que faria 75 anos, ela confiou-me essa grata tarefa de editar o seu Sangue Negro. Fátima Mendonça e Francisco Noa fizeram ensaios como posfácios do livro, eu redigi o prefácio. António Sopa cuidou do design gráfico. Lançámos o livro no dia 20 de Setembro, com a chancela da AEMO. Liguei-lhe a dar-lhe conta do nosso entusiasmo. A voz já muito fraca.

 “Para lá daquela curva/ os espíritos ancestrais me esperam” – escreve ela no seu poema “A Mulher que Ri à Vida e à Morte”. Ela tem 65 anos quando escreve isto. Vê-se que não perdeu a verve. A veia poética está lá. Tem uma força brutal, uma força telúrica. de Sousa. Este belíssimo poema foi inspirado na senhora Eva, de S. Tomé e Príncipe, que ficou eternizada na retina sagaz do Carlos Pinto Coelho para o livro A Meu Ver.

Noémia de Sousa: “Breve, muito breve/ tomarei o meu lugar entre os antepassados// À terra deixarei os despojos do meu corpo inútil/ as unhas córneas de todos os labores/ este invólucro sulcado pela aranha dos dias. // Enquanto não falo com a voz do nyanga/ cada aurora é uma vitória/ saúdo-a com o riso irreverente do meu secreto triunfo// Oyo, oyo, vida!”

Esse dia infausto chegou a 4 de Dezembro de 2002, passam agora 15 anos. Tenho um ilimitado afecto pela Noémia de Sousa. Ainda hoje tenho a sua mão na minha passeando ao largo do Tejo, ou então conversando infatigavelmente.  Foram muitos anos. Era viva a irmã Camila, o irmão Rui, o sobrinho Guilherme Ismael, que trabalhava na BBC, em Londres. Entre almoços partilhados lá em casa, ou na Nortenha ali à frente, ou num restaurante da Fonte Nova, no Benfica, perto da Lusa, ou ainda os cafés, no bar do prédio da Lusa, ou as chamadas frequentes, as notícias urgentes, as viagens que haveríamos de fazer, entre tudo isso, fica uma grata e cúmplice amizade e uma memória emotiva desta mulher raríssima, que eu evoco sempre à beira das lágrimas, e que não cabe nestas breves e precárias palavras de circunstância. 

 

 

 

 

 

 

Temos uma nova direcção no Ministério da Juventude e Desportos. No seu alto critério de escolha, o Presidente da República substituíu Alberto Nkutumula, pela senhora Nyelete Mondlane, o que não deixou de causar grande surpresa nos desportistas.

Isto porque se antes se alvitrasse entre os agentes do desporto hipóteses de nomes para novo titular do MJD, seguramente que o da nova ministra não entraria na lista, pois não se lhe (re)conhece um passado de acções nesta área.
Afinal, contínua actual e actuante, o ditado “desporto, é paixão”.

Consonância com o passado…

Desde a Independência Nacional, sempre estranhei o apenas “espírito de missão” que, à excepção de Joel Libombo e Carlos de Sousa, guiou a fugaz presença dos anteriores ministros dos desportos.

Vamos ao concreto: Mateus Kathupa, Fernando Sumbana, ou Pedrito Caetano, no que toca ao desporto, foram “meteoros” que marcaram presença nos campos, palestras, viagens e outras acções, nalguns casos porque a sua ausência seria notada. Muito próximo de um “frete”.
Após a missão ministerial cumprida (ou comprida?), nunca mais se lhes viu o rasto nos acontecimentos e actividades desportivas.

Não é propósito deste artigo, contestar as nomeações, mas parece legítimo questionar a falta de paixão, e nalguns casos vocação da maioria dos titulares indicados para este pelouro. A menos que nos convençam que não há pessoas da área, com competência para a dirigirem.

Comparativamente, direi que seria impensável vermos um ministro das Finanças sem passado de Economista, da Justiça sem ser uma pessoa do Direito ou da Saúde sem passado nesta área.

Daí que o critério de nomeação de ministros sem passado para o desporto, talvez encontre explicação num “slogan” que parece actual e que cataloga o MJD como o… Ministério das Brincadeiras!

 

Nunca o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) reuniu a sua cúpula, perante tamanhos e complexos desafios como os que têm de resolver hoje, para que se mantenha como um importante actor na esfera política em Moçambique.

O II Congresso do MDM é um momento decisivo, se colocarmos em consideração as guerras internas de poder, amplificadas agora em Nampula, a gestão centralizada a partir da Beira, a falta de combatividade própria da oposição, as próximas eleições, e, principalmente, o facto do partido ainda não ter atingido aquilo a que se propôs: ser uma alternativa à Frelimo e à Renamo.

Nas eleições presidenciais de 2014, o presidente do MDM, Daviz Simango, teve um resultado abaixo do pleito anterior. Em 2009, Daviz Simango obteve 8.59% dos votos totais, contra 6.36% de 2014, representando uma erosão de mais ou menos 30 mil eleitores. Cresceu, nessa altura, a ideia de que o avanço do MDM é explicado pelos momentos mortos da Renamo.

O recuo do líder da terceira maior força política também pode encontrar explicação na hipótese de que o seu discurso e a linha programática do MDM não sejam suficientemente diferenciadores, não tenham marca própria, não galvanizem nem mobilizem os eleitores a optarem por tal escolha.

A demissão, em 2011, de uma ala académica e ideológica do partido, em particular o seu secretário-geral, Ismael Mussá, e o chefe de departamento de Planificação e Estratégias, João Colaço, associada as acusações de ditadura, nepotismo e ilegalidades, afectaram a percepção de que o MDM é um movimento aglutinador do pensamento divergente e de pessoas provenientes dos diferentes sectores da sociedade.

O afastamento de Mahumudo Amurane, seguido do seu recente assassinato, bem como as telenovelas gratuitas dos edis interinos, mais do que um problema circunscrito a representação do MDM em Nampula, passou a afectar o partido no seu todo, mostrando a falta de métodos para gestão de crise e vaidades pessoais.

Um partido que quer ser governo não pode desobedecer duas vezes consecutivas, qual curto espaço de tempo, instituições estabelecidas, como o fizeram os edis interinos do MDM em relação à decisão do Tribunal Administrativo de que não deveriam exonerar vereadores.

Os estilhaços da tensão na capital do norte podem, assim, influenciar nos resultados nacionais do MDM – eleições gerais –, na medida em que levantam questões sobre os critérios de selecção dos membros, qualidade dos quadros escolhidos para funções importantes, democracia interna e papel dos órgãos de disciplina.

O primeiro grande teste serão as eleições intercalares de 24 de Janeiro, onde o MDM avança fragilizado, num quadro em que a Frelimo e a Renamo vão jogar o tudo ou nada para conquistar o poder.

Um partido novo, que emerge em democracia e que pretende ser alternativa de oposição e governação, tem de fazer um caminho menos sinuoso e, acima de tudo, servir de referência e exemplo, tentando ser melhor que os seus rivais.

Os partidos políticos, pela sua natureza, têm dinâmicas próprias de luta e acesso às funções de poder, mas devem geri-las com métodos subtis sem passar, cá para fora, a imagem de que a ambição de grupos é mais importante que a visão colectiva.

O II Congresso do MDM é uma oportunidade de instrospecção, de questionamento, de discussão da vida interna, que pode reforçar a coesão e recuperar o eleitorado desiludido, sem perder de vista os ciclos eleitorais à porta.

 

 

Numa altura em que o país é largamente conhecido pelo mundo fora como o que contrai irresponsavelmente dívidas que depois não consegue pagar e muito menos usar o dinheiro emprestado para os objectivos que ditaram a sua contratação (caso da EMATUM, MAM e ProÍndicus) ou mal aplicado (caso do Aeroporto de Nacala), acrescenta-se a isto a má gestão de quase todas as empresas públicas que, apesar de poderem ser lucrativas, são deficitárias, eis que se nos apresenta uma excepção.

A Hidroeléctrica de Cahora Bassa sobressai como esse exemplo que vale a pena mostrá-lo ao mundo e dizer que afinal podemos fazer as coisas de forma diferente, a gestão nas empresas públicas pode ser responsável, eficiente e lucrativa. E esse mérito vai para o seu primeiro PCA moçambicano Dr. Paulo Muxanga e o seu Conselho de Administração que congregava quadros excepcionais como Gildo Sibumbe, Max Tonela entre outros.

O Estado moçambicano foi buscar quase 800 milhões de dólares para pagar ao Estado Português pelos 92,5% das acções da empresa e a administração da HCB pagou todo esse valor com 18 meses de adiantamento. E ainda fez investimentos consideráveis para garantir fiabilidade nos processos produtivos que incluiu a reabilitação da barragem, da central eléctrica, da subestação de Songo, das linhas de transporte de energia e do capital humano. De 2007 a esta parte, a empresa que era gerida quase na sua totalidade por portugueses, agora é gerida na tua totalidade por moçambicanos, a maior parte dos quais formados dentro do país e na Universidade Eduardo Mondlane. Tudo isso feito em 10 anos.

Acções de responsabilidade social são tantas, mas há que destacar a segunda faixa da Av. Joaquim Chissano, o Hospital Distrital de Zumbo que permitiu que nossos compatriotas deixassem de ir a Zâmbia receber cuidados médicos, o Hospital de Songo, a reconstrução da Vila de Songo e Chitima e a distribuição de energia eléctrica para a população de Songo que durante mais de 30 anos, mesmo vivendo ao lado da hidroeléctrica, não tinha acesso à energia eléctrica. E tudo isto tenho dúvidas que empresas como Vale, ENI e Anadarko venham a fazer um dia, tal como ainda não fizeram a Mozal e a Sasol. Apenas para mostrar a diferença que faz ao nível social um grande projecto orgulhosamente moçambicano.

Gestão responsável e rigorosa como a que tem sido feita na HCB teriam sorte diferente, empresas públicas como LAM, Mcel, TDM, CFM, EDM e para já EMATUM, MAM, ProÍndicus, isto só para citar algumas. Por isso, por favor não deixem que o bom exemplo daquilo que deve ser a liderança e gestão das empresas públicas nacionais se perca na HCB. Aliás, é o exemplo que mostra que afinal nós moçambicanos, como uma nação, não somos maus gestores, sabemos pagar as dívidas e podemos pôr em pé um grande e exigente projecto. E mais, a HCB mostrou que nenhum grande projecto precisa de isenção de impostos, porque ela paga impostos como qualquer outra empresa de direito privado a operar em Moçambique. Por estas e outras razões, defendo que a HCB é património de todos os moçambicanos e por isso não devia ser alienada.

Parafraseando Rui de Noronha digo… “Moçambique SURGE AT AMBULA”.

Dezembro. Dia um.

A noite caíu. Com a escuridão húmida veio o burburinho inconfundível das noites sem vento nos bairros de lata: o silêncio do luar, a música distante das barracas, o grito inconformado dos grilos, o ronco dos carros lá na estrada… tudo abafado na poeira que aura o bairro.

Ruelas estreitas. Um muro de alvenaria inacabado. Dois corpos. Um encostado ao outro. Os dois encostados ao muro. Ela gazeteara as aulas no curso nocturno e ele, o turno de vendedor ambulante. Por entre a folhagem das árvores o luar espreita com feixes prateados. O calor húmido não dava tréguas mas os corpos relutavam em manter-se aquecidos um no outro para que nem o menor dos mosquitos  tivesse espaço entre eles. Abraçavam-se e beijavam-se, demarcando o espaço físico do seu Jardim de Eden, protegendo a soberania dos seus corações. 

No beijo os beiços selavam-se e os corpos fundiam-se. Eram cada vez mais o mesmo corpo, a mesma carne. Alimentavam-se de saliva como os pássaros que alimentam suas crias pelo bico.

E o amor cresceu na braguilha e tornou a mão mais atrevida. Ela assustou-se, púdica. Censurou a mão ousada, empurrando. Ele cedeu ao gesto.  Sabia que era um "nao" simbólico. Um "nao" no tom amolecido de um "sim". Beijaram-se.

Ela sentiu o vento a arrepiar-lhe até  as unhas, enfraquecer-lhe as pálpebras e derreter-lhe a voz, quando ele sussurrou em tom melado e falso de amantes:

— Quero te lobolar.

Os olhos acenderam-se-lhe como duas luas e sorriu o marfim amarelado da dentadura. Até poderia ter-se socorrido dos conselhos infalíveis da mãe: "não aceita promessas dos homens, eles só querem a fruta", mas um frio quente com formigueiro à mistura trepou-lhe pelas pernas tornando-as bambas, suando-lhe as mãos, engasgando-lhe as palavras, esgazeando-lhe os olhos. Ele destrancou a capulana. 

Não conversaram para além dos sons da fricção dos lábios e dos corpos. Morderam lascivamente, na boca um do outro, a fruta que apetece por ser proibida. O tempo não existiu até um ronco no abdómen lhes despertar para o mundo:

— Namorar dá fome né, mor?

— Hmmm!

O ronco, não se soube de que barriga veio, mas foi suficiente para arrefecer as hormonas, descalçar os desejos, recomporem-se nas vestes e aprceberem-se da hora.

— Já é  tarde. Tenho de ir.

— Fica mais um pouco.

— Hiii! Meu pai…

Ele acompanhou-a, abraçados, até ao canto discreto mais próximo de casa e a lua testemunhou a declaração de amor:

— Tê manhã, mor.

— Tê  manhã…

No beijo de despedida os olhos fecharam-se para que não houvesse interferências indiscretas. Os corpos viajaram para dentro um do outro. Pela boca trocaram de almas como quem troca fotografias e experimenta um jogo de identidades: toma, guarda-me dentro de ti e dá-me a tua.

Da sombra da enorme mafurreira ele viu a amante manipular, com gestos delicados, o portão de chapas. Dizer tá-tá com um sorriso. Beijar a palma da mão, assoprar um beijo e desaparecer quintal adentro.

Trocaram sentimentos, saliva, corpo, Almas e deixaram pedaços de um no outro. Seguiram cada um para o seu lado. Semana depois, o afeto desprotegido com que se amaram gerou um inesperado feto e a afeição foi tanta que resultou em infecção.

Era Dezembro. Dia um…

 

A única certeza que tenho neste momento é de que o dinheiro está caríssimo. Dentre tantas explicações para esta realidade, nenhuma convenceu. Continuamos ignorantes e escravos da imposição das taxas de juro dos bancos, ou melhor, dos “big four” do sistema financeiro nacional. Há alguns anos, as explicações resvalavam para o risco do mercado, para as taxas directoras pouco atractivas ou mesmo para as grandes empresas – os maiores detentores de liquidez – que determinam as taxas de juro a serem remuneradas nos seus depósitos. Hoje, ninguém perde tempo em explicações. É um toma e vira-te que está a desgraçar empresas e particulares, que viram as suas prestações subirem sufocantemente no agudizar da crise que elevou para a casa dos 30% as taxas de juro.

A taxa de esforço que se observa no início do contrato é ignorada no meio do percurso. E entre cobranças e desculpas, num diálogo de surdos, o resultado pesa na estatística do crédito malparado, que cresceu 50% de 2015 para 2016. Os créditos de longo prazo, com riscos maiores para os bancos e para os mutuários, ameaçam fazer emergir estatísticas de suicídio. Isto para não falar de stress ou depressão, doenças que já abundam na nossa sociedade, reduzindo o espaço da felicidade.

O ministro da economia e Finanças e antigo governador do Banco de Moçambique, Adriano Maleiane, desafiou os bancos a serem mais transparentes na fixação das taxas de juro, quando intervinha no evento que apresentava a pesquisa sobre o sector bancário. Maleiane, num desabafo tardio, mas ainda pertinente, disse: “Parece que temos que trabalhar muito para a transparência na fixação da taxa de juro.

Aparentemente, quem olha para as nossas taxas de juro, parece que não têm nenhuma ligação entre o custo de funding, a inflação e o risco. Parece que as coisas estão de certa maneira dissociadas. Portanto, eu quero desafiar o sistema financeiro para me trazer um indexante a prazo: para 90 dias, 180, 360 dias, um indexante que o sector pode esclarecer.”

Esta frontalidade que outrora vinha de agentes económicos e académicos, hoje, vem de um governante que já regulou e supervisionou as instituições financeiras durante 15 anos, assim como orientou e controlou políticas monetárias de um país que só conhece momentos menos maus quando se fala de taxas de juro, quando afinal almeja uma satisfação possível.

Que o desafio do ministro Maleiane ao sector financeiro se traduza em imposição legal, para que ninguém tenha dúvida sobre o preço que paga pelo dinheiro e haja clareza dos limites dos bancos comerciais nesta matéria. Que as suas palavras não caiam em letra morta, como uma simples declaração de intenção. Já é sabido que as fontes de liquidez no mercado são reduzidas e que os bancos vêem nas taxas de remuneração dos depósitos uma saída; que a Facilidade Permanente de Cedência tem um impacto pouco significativo na redução do custo de financiamento, porque a liquidez da banca comercial não provém do funding via Banco Central, mas ainda não é informação suficiente para explicar o custo do dinheiro.

Os bancos geram lucros fabulosos até em momentos de crise. Uma lucratividade atípica, atendendo ao contexto macroeconómico, caracterizado por um desaceleramento do crescimento económico em quase 100% e inflação de dois dígitos. O sector financeiro foi o que mais cresceu e mais sólido se apresentou, em plena crise que o país vive. Portanto, tem uma pujança que infelizmente reforça a fraqueza da economia. é um mal necessário que deve dosear o aperto, para melhor contribuir para o crescimento da economia.

O poeta olha o passarinho/ por dentro do seu canto

Rogério Manjate

Já nos referimos ao facto de muitos poetas – no sentido mais vasto da criação – encontrarem na dor um motivo para fabricar sorrisos, como se o sofrimento servisse para inspirar alegria. Assa Matusse faz parte desse conjunto de artistas que, recorrendo às suas próprias intempéries, faz da música um produto além do efeito estético. Uma prova é o seu álbum de estreia, + Eu, no qual a cantora efectua uma trajectória que, partindo de experiências intimistas, tão ligadas a si e aos seus, desagua na superação.

Na verdade, + Eu é um disco de apresentação de uma cantora que almeja ser um exemplo de luta, vencendo o medo, a solidão e o pessimismo mesmo por acreditar nas suas potencialidades. A primeira música, a que empresta o título ao CD, é peremptória a esse respeito, quando apresenta momentos de uma história sintetizada na força interior como garantia do sucesso. A letra é simples e a música não passa de três minutos e meio. Ainda assim, consegue transportar uma mensagem que em princípio deveria nortear quem persegue o horizonte e as suas incertezas. Com efeito, faz todo o sentido que “+ Eu” seja a primeira música do álbum, por conter uma caracterização dissimulada de quem a canta e a linha temática do que se pretende com esta aparição.

Explorando até à exaustão os ADN dos seus sujeitos poéticos, Assa não evita a sua origem. Pelo contrário, em “Menina do bairro”, canta seus labirintos, a meninice, sua e de todos que da miséria dos subúrbios concretizam sonhos sem olvidar de que lama foram feitos. “Menina do bairro” também exprime essa capacidade de superação, imposta mesmo em momentos desfavoráveis.

Enquanto canta, Assa conta quem é e, no caso do tema “Xihono”, questiona tudo o que a angústia justifica a todos que buscam respostas. Dizendo quem é, com toda elegância que se pode exigir, encarna a vida de moçambicanos que venceram a humilhação ao lutar pela sobrevivência na África do Sul. Além de ser a melhor música do álbum, nossa apreciação, “Nitxitxile” é a melhor representação de Assa Matusse. Ali temos uma estória narrada de outro modo. Ao contrário de um Regresso do morto, de Suleiman Cassamo, em que o protagonista volta a casa destruído, em Assa Matusse há uma mudança que no final faz do humilhado um vencedor em potência, não permitindo mais ser vulgarizado. No fundo, o valor semântico é idêntico a “Grito Negro”, de Craveirinha, mas aqui, obviamente, sem alusão colonialista.

Avaliando a temática das músicas e a forma como as mesmas são concretizadas, percebe-se que + Eu é um CD a revelar uma maturidade precoce, incomum numa estreia. Assa sabe conter-se na palavra. Evitando a vaidade de querer dizer tudo, acaba dizendo muito com tão pouco – como bem calha, por exemplo, no Balanço ou Mutema, de Deodato Siquir – e sem ser desnecessariamente explícita. Concorre para que as músicas sejam sedutoras o facto de Assa as cantar com emoção, como se sentisse tudo o que diz na sua plenitude.

Este + Eu funciona como uma espécie de antídoto para os que ainda trilham o difícil percurso rumo à superação dos seus problemas. É um disco tendencialmente moralístico, alicerçando-se na melancolia como factor primário para se ultrapassar perdas difíceis de aceitar – oiça-se “Carinho de mãe” – ao mesmo tempo que orienta a direcção da prosperidade. Aqui, “Pfukane” também revela-se com uma sonoridade de pasmar. 

Se “Carinho de mãe” e “Pfukane” dirigem-se mais para as mulheres, ao mesmo nível criativo encontra-se “Nsinyeni”, história de quem não sabe o significado da ajuda, do calor dos pais, que bem nos conduz ao drama dos “meninos de ninguém”.

Enfim, + Eu é um álbum para fortalecer o espírito. E a expressão dos sujeitos de enunciação assume-se como um mecanismo que induz persistência, pois sem isso a vida tem tudo para ser uma mierda.

 

Título: + Eu

Autor: Assa Matusse

Classificação: 16

 

Todas as manhãs tudo se repete.

O poeta Eduardo White se despede de mim

à porta de casa, 

agradece-me o esforço que é mantê-lo

alimentado, vestido e bebido

(ele sem mover palha)

me lembra o pão que devo trazer,

os rebuçados para prendar o Sandro,

o sorriso luzidio e feliz para a Olga,

e alguma disposição da que me reste

para os amigos que, mais logo,

possam eventualmente aparecer.

(…)

O poeta, visto-o depois

e é com ele que amo

escrevo versos

e faço filhos.

 

Eduardo White

 

1.

 

Leio esta noite, de 21 de Novembro, Eduardo White. Ele é, indubitavelmente, o maior poeta da minha geração, e um dos mais intensos e belos e luminosos poetas moçambicanos de sempre. Escreveu sempre sobre o amor. O corpo da mulher, a nave da sua permanente viagem. Cito-o de novo: “Felizes os homens/ que cantam o amor./A eles a vontade do inexplicável/ e a forma dúbia dos oceanos.” Estes quatro versos definem muito, ou mesmo tudo, da poesia de Eduardo White, um homem que amava a felicidade de ser poeta, amava o ofício, assumia sem pudor o amor à mulher, à poesia, às palavras. À felicidade de amar o corpo da mulher: “Teu corpo é uma casa feliz”. Creio que este tema, recorrente na poesia do Eduardo, mas também na de outros poetas seus contemporâneos, tem muito que ver com a necessidade incontornável de fugir de um quotidiano opressivo, obsidiante, violento, de guerra, de desencanto e desespero. Era, por assim dizer, uma forma de resistência. O amor em vez do desespero. Lembram-se dos anos 80? Como se verá mais tarde, ao longo do seu excurso de trinta anos, a poesia do Eduardo White irá denunciar um crescente desencanto. A Pátria doía-lhe e condoía-lhe. Ele abominava a mediocridade, não se cansava de a cauterizar. Inconformado e incompreendido, não deixava de ser o poeta do amor, sempre exaltado, mesmo quando perpassava pelos seus versos uma certa ternura magoada. Foi assim que a sua poesia nasceu, que fez de Eduardo White um tradutor de inquietações, um poeta audaz, na contra-mão do sistema, nos antípodas do establishment. Um rebelde por excelência. Poeta de um apelo extraordinário, de um poder encantatório, de um soberbo imaginário, de um esplendor na língua, que amou e cultuou como poucos entre nós, sempre com os seus temas eletivos: o amor, a mulher, o mar, o Índico, a Ilha de Moçambique, o Oriente. A língua portuguesa. Este foi o seu programa poético, por assim dizer, a sua viagem esplêndida e vasta. Assim foi Eduardo White no seu profundo ecletismo, na sua solidão e na solidariedade, na sua iconoclastia e inconformismo, fiel à sua forma de estar e de ser, na sua exuberância, por vezes irracional, ou provocatoriamente irracional, levando até às últimas consequências o seu ideário poético, sempre transgressor e disruptor daquilo que para muitos seria a ordem. Poeta culto, premonitório, exigente e, sobretudo, um grande esteta, soberbo na sua linguagem caudalosa, que soube sempre ser um magnífico intérprete da complexa moçambicanidade sempre com a sua extraordinária paixão e minuciosa exegese.

 

2.

 

Aqui cito alguns versos, livro a livro, para que o próprio ilumine, com a sua poesia, o que tentei dizer acima:

 

Amar sobre o Índico (1984):

 

“Tu/ doce acre/ linfo possuído que a terra grita./ Amo-te assim/ neste lado do barco”

 

 “Filho que fosse/ a metade justa/ da oferenda”

 

“Deixa que me vista/ com a cor nua da tua fenda”

 

Homoine (1989):

 

“é o pássaro lento do esquecimento”

 

“com a morte explodindo como um tiro”

 

O País de Mim (1989):

 

“Eu já amava e escrevia versos/ nas paredes do útero de minha mãe.”

 

“Assume o amor como um ofício/ onde tens que te esmerar”

 

“Não gosto do pudor de certas palavras.”

 

“Quando morrer/ quero fazê-lo sem rumor algum, / sem ninguém que me chore/ ou a quem doa.”

 

“Diário é também/ o ofício da morte neste país”

 

“Não há enigma maior/ e que nos aflija tanto/ como o da morte.”

 

“Eu prefiro o respeito/ que não é medo nem coragem/ e que é parte de tudo aquilo/ que nós ganhámos/ depois de mortos.”

 

Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (1992):

 

“Voar é uma dádiva da poesia”

 

“Eu gosto do modo como desarrumam os meus assombros, os meus desesperos ante tanta podridão e também como me alarmam quando quero não admitir cercas coisas. Estou contente, mãe, deste-me a poesia por eternidade embora me doa tanto criá-la, aqui, na pátria da lassidão.”

 

Os Materiais do Amor seguido de O Desafio à Tristeza (1996):

 

“onde igualmente possa chorar a minha trágica fatalidade de poeta”

 

“porque cedo me deram a poesia, essa voz cândida, funda, pela qual empobreço escrevendo versos”

 

“Não há pão para a fome que o amor fabrica, não há perdão.”

 

“Todos os dias enlouqueço de uma loucura qualquer, de qualquer sentido doente que sobre o meu sangue se curva. Todos os dias tenho perguntas para tudo e não tenho respostas nenhumas e a minha mente, que é carnal de medo e memória sem propósito, não descansa”

 

“A vida que é um suposto mal-entendido como, aliás, eu próprio.”

 

“Estou cansado de trazer este peso comigo, este abismo para onde me atiro.”

 

“Por isso é que deixei que os versos me desvanecessem a juventude até onde podiam.”

 

“Por isso é que não há tranquilidade para quem se põe a escrever. E por isso também é que pergunto porque escrevo e que sentido é que terá a escrita dessa maneira que ninguém a lê.”

 

Janela para Oriente (1999):

 

“Escrever é uma razão forte, é uma audácia profunda.”

 

“Para que precisa um poeta de glória quando não pode escrever?”

 

“Não quero outra coisa senão este mistério em que me invento.”

 

“A janela do quarto de onde escrevo é de um esplendor que dá vontade de saltar por ela.”

 

Dormir com Deus e um Navio na Língua (2001):

 

“Vivo intensamente todos os dias esse milagre de não parecer estranho o que se parece estranho em mim, porque posso perguntá-lo, tentar conhecê-lo porque posso traduzi-lo traduzindo-me.”

 

“Doer-me-ia se tivesse que viver exilado dela, morreria se a ela fosse impossível voltar. Tem uma origem divina esta língua quando a pronuncio e me embevece, um bálsamo para o que choro. Preciso dela, pois é tudo o que tenho como ferramenta e como trabalho, como propósito e intuição. Escrevo para que se entenda.”

 

O Manual das Mãos (2004):

 

“Sim, é verdade, e dou-lhes razão porque não é justo que um homem desista de sonhar com o melhor da vida tão-somente pelo facto de que pôs na cabeça que deveria escrever livros e poemas e fosse viver disso.”

 

“Aqui ninguém liga peva à poesia. Nem à poesia e nem a outra coisa nenhuma que cheire a cultura.”

 

“Amor. Um poeta que anda descalço, sobre a língua, tem muitos sonhos na cabeça e não tem cabeça nenhuma.”

 

“Um poeta não é para se perceber, é para sentir-se.”

 

“Alguém perceberá porque usará um poeta, óculos escuros à noite?”

 

“Nos poetas cada palavra tem o seu milagre.”

 

O Homem A Sombra e a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004):

 

“Todos os dias me deito mestiço e pardo e acordo mestiço e pardo, feliz porque me sinto bem a sonhar e a viver com isso, sem estigma que me incomode ou revolte, porque jamais me concebi de outra maneira que não fosse esta e nem de outra forma vi o Mundo.”

 

“Deste meu passado orgulhoso de que me levanto e deste algum do meu presente em que sonha e cresce o meu pardo mestiço Eduardo White, moçambicano sem o favor de ninguém, a ser na vida a grande palhota dos palácios das suas cores.”

 

Até Amanhã Coração (2005):

 

“Adeus, coração, adeus. Nunca fui tão grande em todo o significado da minha existência e nobre, como deveria, ao senti-la.”

 

3.

Recordo esta noite um poeta inspirado. Um poeta genial. Um poeta assombrado pela vida e pelo destino do amor. Talvez o único, entre nós – falo dos poetas da minha geração! -, que encarnou a figura do poeta “maldito” e que a assumiu até às últimas consequências. Amou implacavelmente a vida. A morte desde sempre rondou os seus versos. A morte, esse pássaro lento do esquecimento, como ele a designava. Esse ofício. O ofício da morte que nos deixou sem um dos seus mais brilhantes oficiantes. Um prodigioso esteta. Morreu a 24 de Agosto de 2014, em Maputo. Tinha nascido em Quelimane, a 21 de Novembro de 1963. Leio-o esta noite, com júbilo, como sempre. Leio-o no dia dos seus anos. Para que ele não seja deslembrado – essa tarefa inclemente dos prosélitos da pátria e do esquecimento primoroso a que votam os que divergem ou os que simplesmente não levam trela no pensamento ou na criação. Porque a invenção literária é o território da liberdade. É preciso amar-se a liberdade para se ser um poeta. Leio-o como se o acenasse para esse país para onde ele terá emigrado, esse moçambicano sem favor de ninguém, livre e rebelde, genial e exuberante, que foi em vida um absoluto iconoclasta e se chamava Eduardo White.

 

 

 

Não é preciso fazer muito esforço, para constatar que são raras e honrosas as excepções dos que, abraçando ao mais alto nível a carreira de futebolistas no nosso país, acabaram-nas sem outra profissão e condições para manterem um padrão de vida à altura do nome que granjearam.

Não importa citar nomes. Uma pequena inventariação desta realidade no pós-Independência, traz-nos o cenário de que o profissionalismo – ou pseudo? – do nosso futebol, é como se fosse algo descartável, ao estilo “usa e deita fora”. Com actualizações e “nuances” para cada época, mas sem nunca ter alterado a génese: o atleta preteriu a escola para brilhar nos campos até onde pôde e depois… desenrasque-se!

Mudam-se os tempos alteram-se os riscos
No chamado tempo do carapau, a assinatura dos contratos, em muitos casos contemplava a entrega de uma casa, que os clubes conseguiam adquirir. Uma vez arrumadas as botas, o imóvel passava a ser o único capital para a ex-estrela, que o alugava, ou simplesmente vendia para sobreviver.

O ex-jogador, numa primeira fase, era enquadrado nas estruturas do clube, trabalhando, porque sem formação, na “deformação” das camadas jovens.

Depois mudaram-se os tempos e as realidades, excepto uma: é que tudo continua a ser feito “debaixo da mesa”, sem divulgação dos valores, logo sem tributação de impostos e como tal, sem acesso à Segurança Social.

Há um ditado português que cabe neste caso como uma luva: “enquanto dura, vida e doçura, em se acabando, gemendo e chorando”…

Nos dias que vivemos, aumentaram as incertezas e os riscos. O Moçambola, de Norte a Sul, com mais tempo no ar que em terra, impossibilita a compatibilização com qualquer tipo de formação que garanta um pós-futebol tranquilo. Daí que o atleta tente ganhar o máximo, enquanto ainda tem quilómetros nas pernas.

Mas tudo é imprevisível, começando nas viagens muitas vezes sem seguro de vida, com campos de pisos irregulares e como tal propiciadores de lesões, a que se juntam improvisados departamentos médicos, atrasos salariais e outras suficientes “insuficiências”.

É, seguramente por isso que, ao contrário do que se passa no basquetebol, em que a escola está presente na maioria dos jogadores e jogadoras, determinadas classes sociais da nossa praça não encorajem os seus filhos a optarem pelo desporto-rei, ao contrário do que esta modalidade experimenta no mundo desenvolvido, em que é um assunto de Estado. Ter na família um futebolista de eleição, é motivo de orgulho e por isso muitos jovens abandonam promissoras carreiras de Economia ou Direito, para “fazerem o gosto ao pé”.

E a pergunta é: “para onde vai o nosso futebol”? Será candidato, cada vez mais, a ser uma actividade marginal, para produzir marginalizados?

Esta semana, num café, um gestor de topo de uma empresa controlada pelo Estado contou-me, em segredo, que, em pleno período de pagamento de salários, não tem condições de honrar o compromisso, a tempo e horas, com os mais de 500 trabalhadores sob sua responsabilidade.

No meio da conversa, ele ia explicando que 30% da massa laboral é dispensável, não por ser preguiçosa ou maus trabalhadores, mas porque tornou-se ociosa, sem função, face à falta de adaptação da empresa ao mercado dos nossos dias.

Vi nestas palavras a fotografia actual do estado de saúde do sector empresarial público: acostumadas com as injecções do Estado, muitas destas empresas ficaram pelo caminho, operam no vermelho, estão contabilisticamente falidas, paralisadas, à espera do socorro de um governo também sem meios, e que por isso pressiona o crédito interno, indo buscar financiamento à banca nacional em concorrência desleal com o sector privado.

A recente crise económico-financeira, que esvaziou os cofres do governo, é uma tempestade para maior parte destas empresas e convoca-nos a uma reflexão sobre as oportunidades perdidas, ao longo dos anos, para reformular o papel do Estado no sector empresarial.

Lembra-nos que sempre se ensaiou – sem nenhum avanço determinante – a revisão da Lei das Empresas Públicas para ajustá-la à realidade; lembra-nos a timidez em o Estado alienar participações em empresas saudáveis, cuja vocação de gestão é privada; lembra-nos os pareceres do Tribunal Administrativo sobre os rios de dinheiro desembolsados, sem critério, às empresas subsidiadas pelo Estado; lembra-nos a posição do Tribunal Administrativo de que o IGEPE é incapaz de controlar e gerir os investimentos do Estado no capital social de 113 empresas; lembra-nos os alertas do Fundo Monetário Internacional sobre a falta de controlo das finanças públicas, principalmente dos valores destinados às empresas onde o Estado é dono; lembra-nos a voz de especialistas de que, numa economia de mercado, o Estado é árbitro, controlando apenas as empresas de ramos sociais e sem lógica de viabilidade.

Na recente visita aos ministérios, o Presidente da República confirmou que boa parte das empresas controladas pelo Estado estão depauperadas, com modelos de gestão retrógrados e sem rumo perante a falta de recursos que possam sustentar um plano de reestruturação. Ficou evidente que estas empresas sobreviveram às custas do Estado e que hoje estão num beco sem saída, pois quem as mantinha em pé caiu em recessão.

Esta crise tem os seus efeitos negativos na vida do país, mas nos ensina, à força, a repensar nas nossas contas e a valorizar cada metical dos cofres do Estado. Agora já não é uma questão de vontade, de estratégia, de discutir na especialidade ou na generalidade. É uma obrigação mudar. Afinal, o Estado-pai acabou, faliu.

Em contraciclo com muitas destas empresas, há pequenos sinais de mudança, reveladores de que não é preciso ficar refém do governo nem de leis para fazer novos caminhos. A Electricidade de Moçambique tem sido um exemplo [mal compreendido] de reformas, que passam pela diminuição de chefias, transparência no sistema de procurement, nomeação de cargos de direcção por concurso público, publicação de relatório e contas dentro dos prazos recomendáveis, aumento da tarifa de energia e “limpeza” de 300 trabalhadores fantasmas.

Se desta crise saírem empresas sustentáveis, disciplinadas, ajustadas às regras de mercado, ela terá sido uma oportunidade, como se tornou costume dizer.

 

Senti que não cabia nas calças. Sinal óbvio de ter minguando. Ou será que as calças alargaram?, perguntei-me, procurando disfarçar a frustração de sequer preencher as próprias calças, o que é grave para a reputação de um homem.

O cinto, nem ao último furo conseguia resolver o problema. Com um gesto irritado, desengatei a fivela e puxei-o como que a despromove-lo da função. Com a folga das calças, deslizou pelo cos, sem esforço. Enrolou-se na minha mão, como uma serpente envergonhada.

As calças, irrequietas, recusavam-se a manter-se no lugar. Sem o cinto soltaram-se. Escorregaram pelas pernas como moluscos embriagados. Percebi que me queriam dizer, na língua têxtil dos vestuários, que o cinto não é apenas um adorno para a cintura. Tem a missão insubstituível de segurar a dignidade de um homem: as calças! Mas o meu nem ao último furo mostrava-se competente.

Desanimado, arrastei os pés até a esquina do sapateiro, para me inventar no cinto, um buraco, que me permitisse ajustá-lo a minha medida. Era uma missão deprimente, mandar fazer aqueles buracos tão próximos da fivela. Um homem tem de acrescentar buracos é na parte exterior do cinto, longe da fivela, sinal de cintura alargada, barriga próspera.

O sapateiro estava sentado num jardim de sapatos velhos. O corpo sacudia-se ao ritmo com que engraxava o sapato de um fulano sentado à sua frente. Olhou, de soslaio, para a minha sombra, quando me sentiu aproximar. Esperou, sem parar de engraxar, até ver os meus pés surgirem no seu campo de visão. Arrastou a voz e atirou-me um “bom dia”, sem levantar a cabeça, reforçando-me a convicção de que o sapateiro reconhece as pessoas pelos sapatos.

– Não usaste cinto? – eu trazia o cinto enrolado na mão e segurava as calças, fazendo de suspensórios as próprias mãos.

– Como sabes que não usei cinto se nem olhaste para mim?

– Vê-se pela forma como a bainha toca os sapatos. Está toda a gente assim –  voltou a olhar para os meus sapatos quando disse "assim" – São os dias de hoje. Até essa forma de pisar sem entusiasmo, arrastar os pés como se o sapato fosse um casco inútil… são preocupações isso.

Deu, com a escova de engraxar, dois toques no sapato engraxado, sinal para que o fulano trocasse de pé. 

– Percebe-se a pessoa pela forma como pisa. Repara de que lado sofre a sola. O teu sofre na popa. O sapato fica inclinado, até parece barco da Ematum.

Riu-se. Os solavancos da gargalhada interromperam-lhe a engraxa. Contagiou o riso ao fulano engraxado. Dei por mim também a rir-me, algo que não me lembrava de fazer, nos últimos tempos.

O fulano rebuscou moedas no fundo do bolso. Vieram a custo ainda assim não chegava. Encabulou-se. Fizeram contas imperceptíveis e somaram com saldo de outros dias. Foi-se embora.

– É  assim mesmo – disse o sapateiro, encolhendo os ombros – em tempos difíceis temos de ser compreensivos. Não há dinheiro. E os que têm não engraxam sapatos. Compram novos.

Estendeu o braço. Entreguei-lhe o cinto. Apreciou a fivela. Acariciou o material. Contou os buracos. Abanou um "não" com a cabeça. 

– É o quê?

– Não dá.

– Não dá o quê? 

– Para acrescentar furos. Bom cinto mas já não dá. 

Devolveu-me o cinto. Fiquei especado, a olhar para o sapateiro,  para o cinto, para o nada. Pegou num sapato com a sola a descolar-se. Pôs-se a estudá-lo com muita ciência. Vendo-me assim, respondeu à minha pergunta silenciosa:

– Repara quantos buracos são. Não são doze?

Contei. Eram. 

– Pois, o primeiro é Janeiro. O segundo é Fevereiro. Março, Abril, Maio… até Dezembro. Depois de Dezembro não há nada. Não pode haver mais furos. Não há décimo terceiro mês. Pior este ano que, dizem, nem vai haver décimo terceiro salário.

– Agora vou andar assim com as calças a caírem?

– Toda a gente está assim – Levantou a cabeça, olhou para mim nos olhos, pela primeira – Não és o único. 

Recolhi o meu cinto inútil. Segurei as calças para não caírem. As mãos tinha de aprender a ser suspensórios. Despedi-me sem entusiamo. Senti um aperto indescritível. Fui-me embora com as calças na mão

 

 

John Dalberg-Acton, mais conhecido como Lord Acton, historiador, jornalista e político britânico, numa missiva que se tornaria lendária, dirigida ao bispo Mandell Creighton – chegou a ser Bispo de Londres -, disse a sua proverbial frase em 1887: “Power tends to corrupt, and absolut power corrupts absolutely in such manner that great men are almost always bad man” (“O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de tal modo que os grandes homens são quase sempre homens maus.”) Isto foi dito em 1887, há 130 anos, e permanece actualíssimo! Dir-se-ia: é um pensamento daquele, deste e de todos os tempos.

O escritor colombiano Gabriel García Márquez lembrou-se do Lord Acton e da sua lendária frase quando escreveu a sua obra seminal sobre o poder absoluto – sobre os ditadores: O Outono do Patriarca. Mas antes vira, na madrugada de 23 de Janeiro de 1958, em Caracas, o avião que levava Pérez Jiménez, a sua mulher, as suas filhas, os seus ministros e alguns amigos em fuga da Venezuela. O ditador, que tinha a cara inflamada por uma neuralgia – conta-se – estava furioso com o seu ajudante: na precipitação da fuga, este esquecera, no chão da pista do aeródromo, uma maleta com onze milhões de dólares. A queda de Jiménez, a primeira queda de um ditador naquela geografia mítica, levou o escritor colombiano a escrever aquele livro. Contou-o mais tarde a Plinio Apuleyo de Mendoza, seu amigo igualmente indefectível, numa conversa que está no livro de ambos – O Cheiro da Goaiba.   

Plínio Apuleyo de Mendoza: “Disseste-me que todos os teus livros têm como ponto de partida uma imagem visual. Qual foi a imagem de O Outono do Patriarca?

Gabriel García Márquez: “É a imagem de um ditador muito velho, inconcebivelmente velho, que fica só num palácio cheio de vacas.”
O tema do ditador e do caudilho é um tema importante na literatura latino-americana. Aliás, num texto exemplar sobre o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, que morreu no exílio em Londres, em 2005, o escritor peruano Mario Vargas Llosa considera a América Latina o “continente dos ditadores”. À época em que García Márquez publicou o seu famoso romance – que ele dizia ser o seu melhor livro, mesmo tendo escrito antes o soberbo Cem Anos de Solidão, o cubano Alejo Carpintier publicara O Recurso do Método, o paraguaio Augusto Roa Bastos, Yo, El Supremo, e o venezuelano Arturo Uslar Pietri, Oficio de Difuntos, entre outros. O poder, o poder absoluto, é um tema fascinante para o escritor colombiano. Por que tanto se interessava pelo tema?  
Gabriel García Márquez: “Porque sempre acreditei que o poder absoluto é a realização mais alta e mais complexa do ser humano, e que por isso resume, ao mesmo tempo, toda a sua grandeza e toda a sua miséria”. Aliás, Márquez não deixou de lembrar o aforismo certeiro de Lord Acton – “O poder absoluto tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. “É um tema inevitavelmente fascinante para um escritor”, sentenciou o colombiano.

Mario Vargas Llosa também escreveu um romance notável sobre o tema – A Festa do Chibo -, baseado na figura do ditador dominicano Rafael Leónidas Trujilo. Para mim, tanto O Outono do Patriarca (1975) do colombiano, como A Festa do Chibo (2000) do peruano, são as duas obras magistrais sobre o tema na literatura latino-americana. Tenho-me recordado tanto destas obras nestes dias!

África também tem ou teve muitas figuras literárias deste escopo. Recordo-me de ver o escritor nigeriano, Wole Soyinka, a falar no dia da morte de Sani Abacha, a 8 de Junho de 1988, e eu a pensar que seria inevitavelmente um tema literário aquele homem que acabara, inesperadamente, naquele dia. Soyinka estava então exilado, como muitos escritores africanos acossados, ou porque optaram pela sedição ou porque foram forçados a fugir perante regimes autoritários dos seus países, e não foram poucos. A literatura é o domínio da liberdade. As ditaduras ou os poderes despóticos ou monolíticos querem a desinência dos escritores – dos intelectuais. Não o contrário.

Nos anos 80 líamos com fascínio os escritores latino-americanos e exultávamos com as suas obras. Muitas vezes me interroguei por que razão não éramos capazes de escrever livros mais arrojados. Ou de ter posições públicas mais livres. Parece-me evidente que há constrangimentos: a proximidade do poder, por vezes a relação concupiscente com o mesmo, a auto-censura, a noção do preço da dissensão, a complacência, a resignação mesmo diante de um evidente opróbrio. O silêncio como forma de não pôr em causa o fim último. Tenho para mim que discordar não faz de quem diverge necessariamente anti-patriota. Antes pelo contrário, revela-se interesse e não descaso. Mas isso não serve perante os prosélitos do regime.

Tenho pensado muito, nestas semanas, em dois belíssimos escritores zimbabweanos. Dambuzo Marechera, que morreu prematuramente, em 1987, aos 35 anos, e Chenjerai Hove, que morreu no exílio, na Noroega, em 2015, aos 59 anos. Marechera era um iconoclasta absoluto – poeta e contista notável. Morreu cedo injustamente, vítima de SIDA.

Zimbabwe perdeu ali a sua esperança mais potente em termos literários nos anos 80. Ficou um marco – o livro de contos The House of Hunger.
Conheci, em Harare, em 1989, Chenjerai Hove. Colaborei, pela mão do Mia Couto, na Agência Internacional de Notícias – IPS, alternativa, sediada regionalmente no Zimbabwe, que tinha Chenjerai como coordenador. Hove era um homem probo, optou pela sedição e pela denúncia do que era e é absolutamente inaceitável. Acabaria por ser o mais importante escritor do país do pós-independência, não só pelo livro Bones, mas por uma imensa obra, que incluía poesia e ensaio, para além da ficção. A sua dissensão valeu-lhe o exílio. O vetusto Patriarca não se permite a tolerar liberdades, muito menos críticas.

Gostava imenso de ler o que eles escreveriam ou como eles descreveriam estes tempos que marcam, inelutavelmente, o fim do velho e alucinado Patriarca no seu país. O Outono deste Patriarca. O Inverno deste Patriarca. Felizmente, a notável escritora NoViolet Bulawayo não só escreve, como é lúcida e ferozmente crítica. Numa entrevista ao The Guardian, de Londres, há quatro anos, disse sobre o velho Patriarca: “There was a time when he was good for the country but I feel like that time is gone”. Não poderia haver melhor tradução para aquilo que intuía Lord Acton: “Houve um tempo em que ele foi bom para o país, mas eu sinto que esse tempo se esgotou…” (tradução livre).

É esta percepção que me parece ineludível. O seu tempo está esgotado. O Patriarca está fora do seu tempo e vive alucinado com e pelo poder. Poderia ser, evidentemente, um tema literário. Mas é muito mais do que isso. Porque aquelas imagens patéticas e cómicas encerram, indubitavelmente, uma grande tragédia. Não só por aquilo que foi, provavelmente, a grandeza deste homem – e sou capaz de reconhecê-lo -, mas a sua miséria, agora escancarada. Ou, sobretudo, a miséria humana e material a que condenou aqueles que agora o querem ver apartado do poder e gritam-no livremente nas ruas.
Como teria advertido Lord Acton, na célebre epístola ao futuro Bispo de Londres, quando falava do poder absoluto e dos seus efeitos devastadores, um grande homem que se tornou inevitavelmente num homem mau.

PS – O Patriarca haveria entretanto de resignar, depois de redigido este texto. O júbilo dos zimbabweanos comoveu-me até às lágrimas. Há muito que eu não vivia algo tão exaltante. Eu sou um implacável sonhador da liberdade. A ignomínia com que se cobriu no fim este homem releva da estupidez que o poder absoluto e a corrupção são pródigas em impor.

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