O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

A pele branca de Lucky Luke estava corada. Cozida. Parecia um  mutlhutlhu, uma “água e sal” de sol e suor. A cor clara e os fiapos lisos do cabelo, não desmentiam: era estrangeiro àquele bairro em que o sol, severo, escurecia as peles para tons da ferrugem das chapas de zinco com que as casas são contruídas.

Luke atracou ali, na casa de Dube, como as naus da história, que vieram à procura de especiarias para trocas comercias. Queria comprar a especiaria “da boa” que Dube vendia: tabaco do arbustro que “basta crescer um pouco e roçar o tornozelo, já se pode colher as folhas” para deixar secar e enrolar numa mortalha.

Uma mulher atravessou o quintal. Desviou a atenção de Lucky Luke. Era Guidinha. Irmã de Lucky Dube. Passou por eles como um cometa de cauda leve, ao ritmo esvoaçante da capulana. O corpo vergava ao peso da bacia de roupa lavada. Parou. O quadril alargou-se quando inclinou para pousar a bacia. Levantou-se com uma peça de roupa na mão. A roupa gotejava. Estirou os braços com delicadeza feminina para alcancar o fio do estendal. As gotas molhavam-lhe a capulana. Misturavam-se-lhe ao suor. Voltou a dobrar-se para apanhar outra peça de roupa. O quadril alargou-se…

Luke elogiou os recursos naturais da Guidinha. Dube, visionário, convidou-o a entrar. Poderiam assim conferenciar a volta do assunto e desenvolver parcerias.

Por baixo duma mafurreira estéril sentaram-se sobre tijolos. Colocou um pequeno embrulho na coxa. Abriu e preparou as ervas e acendeu o cigarro. Fumaram.

A roupa no estendal pingava. Molhava a capulana, na fachada frontal da Guidinha. O sol incidia nas gotas com o mesmo resplendor que no suor dela. Inclinou para a bacia, para apanhar a última peça de roupa. O quadril alargou. Luke voltou a elogiar-lhe recursos naturais.

Ao primeiro trago do cigarro começaram a conferenciar. Estreitaram os laços, consolidaram a parceria de tal forma que Lucky Luke passou a desembolsar fundos e financiar os projectos de Dube. Em troca o rasta concessionou a Luke o direito de uso e aproveitamento pleno da irmã.

Dube prosperou e buscou mais parceiros. A uns concessionava, para exploração, as riquezas do sul,  outros as do centro, outros as do Norte da Guidinha.

Um dia Lucky Luke surpreendeu Guidinha, no quintal, a estender roupa. Estava com um fulano de pele amarela e olhos puxados. Um muchina. Quando ela inclinasse e o quadril alargasse, ele acocorava-se. Ela apanhava a roupa e ele as molas. Ela estendia e ele prendia. Depois olhavam um para o outro, entre as peças de roupa molhada e sorriam. Luke não gostou. Chamou a Guidinha para uma auditoria e instaurou Inquérito: às perguntas de Luke, Guidinha encolhia o ombro, negava, depois atirava um olhar furtivo para o muchina e continuava a estender a roupa, com gestos nervosos.  

Zangado, Luke cancelou a ajuda financeira. Dube prevendo uma crise, acendeu um cigarro daqueles. Luke rejeitou qualquer cachimbo de paz.

Entre as frestas da roupa estendida a irmã via os dois. Primeiro em gestos diplomáticos. Depois intensos.

Percebia-se  que os argumentos esquentavam. Um levantou o dedo, apontou. Outro também. Calaram, com os peitos um contra o outro,  desafiadoramente. Empurrões. Palavrões. De repente uma pistola, da  algibeira cowboy de Lucky Luke.

Guidinha fechou os olhos, abraçou o chinês. Ouviu um estrondo. Imaginou as árvores a estremecerem. Os pássaros a debandarem.

O tiro sacudiu o homem. As dreads pareciam folhagem duma palmeira enlouquecido. Dube cambaleou, três passos para trás, como se pisasse a percussão duma bateria reggae. Levou a mão ao ferimento. Olhou para a mão, confirmou o sangue. Olhou para o branco. Disse "why?" sem falar. A voz vertia pela ferida. Voltou a segurar a ferida para que não lhe vertesse a vida. Lentamente cedeu à gravidade. Caiu.

Guidinha abriu os olhos. Viu o irmão prostrado. O sangue no areal a misturar-se às gotas da roupa do estendal. As pernas fraquejaram. Cedeu. Caiu de joelhos. O choro era um grito soluçado que o vento alongou: 

— why?!

 

Numa altura em que muito se fala em academias para que os talentos encontrem espaço para explanarem as suas qualidades, veio-me à mente a experiência que considero inédita há pouco mais de uma década, do Pembinha, onde se forjaram alguns dos melhores futebolistas dos últimos anos, com Riquito como figura de proa.

A ideia surgiu porque os então astutos dirigentes do Costa do Sol, verificando que a equipa principal possuía estrelas de primeira grandeza como Gil, Nito, Caldeira, Semedo, Luís, Ramos e outros, deveriam criar condições para preparar, sem pressões, a “fornada” seguinte, a partir dos jovens que despontavam nos juniores.

O Pemba, então integrado nas EDM e na qualidade de filial do Costa do Sol, foi um “laboratório de experiências” que produziu resultados que servem de modelo, em toda a linha.
Como mentor e executor, um nome de referência e dedicação, tanto nos clubes como na Selecção Nacional: Arnaldo Salvado, que subiu na difícil função de treinador, não de elevador, mas através das escadas que a profissão exige. Foi adjunto de Rui Caçador e Bondarenko e o seu currículo fala por si, sendo o mais titulado do país.

Desencanto
Há uns anos, desencantado, decidiu afastar-se do futebol. O Ferroviário de Nampula conseguiu convencê-lo a abraçar um projecto no Moçambola que não teve o sucesso esperado. Aguentou, enfrentando algum racismo e anti-machanganismo de premeio, resistindo até onde pôde, até que, recentemente, anunciou que iria, em definitivo, deitar a “toalha ao chão”.

É pelo Salvado, raridade como cidadão e como homem do futebol e pelos outros que vão passando ao esquecimento, que devem os dirigentes (re)pensar. Onde param Miguel dos Santos, Euroflin, Geneto, Calton, Zainadine e tantos outros? Temos um Moçambola cada vez mais estrangeirado, dentro das quatro linhas e agora também no banco técnico. E se é bom que possamos ter desportistas de fora que representem mais-valias, a subalternização dos nossos não nos levará a lado algum.

No caso particular do “mister” Salvado, a FMF, poderia utilizar a sua vasta experiência e sensibilidade, para liderar um projecto ligado a uma Academia, como a Mário Coluna da Namaacha, para algo inovador que, estou seguro, produziria resultados e em poucos anos atingiria a auto-suficiência.

É desolador acompanharmos as frequentes descidas do nosso país no “ranking” FIFA e augurarmos avanços somente a partir dos Mambas. Os clubes, em regra, apostam no imediatismo, gastando mais dinheiro em meia dúzia de reforços para os seniores do que em toda a área de formação. O exemplo de uma acção no sentido inverso, vindo de cima, poderia “contagiar” as bases pela positiva, ressurgindo novos “Pembinhas”.

Porém, de uma coisa eu estou certo: o nosso futebol não pode dispensar, de ânimo leve, pessoas com provas dadas, em áreas em que estamos tão carenciados. Daí o apelo: salvemos, com projectos sérios, os Salvados que por várias razões se encontram desmotivados!

 

 

Há duas semanas, o Governador do Banco de Moçambique veio a público dizer, com todas as letras, que se o Governo não chegar a entendimento com o FMI, aproximam-se novos tempos difíceis; 2018 voltará a ser igual a 2016, ou seja, a inflação vai disparar para números históricos e agravar-se-á a incapacidade da nossa economia de gerar divisas para fazer face a despesas chave.

Aparentemente, ninguém ligou importância a Rogério Zandamela, pelo menos aquela que mereceria da parte de quem tem a responsabilidade de gestão do país e de evitar que o país caia em nova hecatombe. Do Parlamento ao Governo, todos assobiaram para o lado.

Chegar a entendimento com o FMI significa, e todos o sabemos, a nossa Justiça avançar de forma decisiva com o dossier das dívidas ocultas e responsabilizar os culpados. É isto que eles pedem. É isto que nós recusamos a dar.

É esta, de resto, como deixou claro o Governador Rogério Zandamela, a distância que separa os moçambicanos do sofrimento ou do bem-estar nos próximos tempos.

O tom muito afirmativo da declaração do Governador do Banco de Moçambique de que sem o FMI vamos cair a pique, sugere que Rogério Zandamela já percebeu as hesitações do poder executivo e está a fazer soar o alarme para chamar à consciência “quem é de direito”.

Rogério Zandamela foi nomeado para restabelecer a ordem na Política Monetária e Cambial do país e facilitar a ponte com o FMI face ao dificílimo contexto de 2016 nas nossas relações com aquela instituição.

Quando, há cinco meses, veio anunciar, publicamente, que o Banco de Moçambique já não estava a gerir a crise, Zandamela estava também a dizer que ele fez a sua parte, na parte monetária e cambial, e que a bola estava agora do lado do executivo, na parte fiscal.

Na altura, o destinatário desta mensagem fez ouvidos de mercador. Agora, o Governador do Banco de Moçambique repetiu-a com toda a dose de dramatismo: o ni?vel de endividamento pu?blico interno continua a aumentar, de forma assustadora, o que traduz a prevalência de um risco fiscal elevado. Com todo o esforc?o que a Autoridade Tributa?ria fac?a, na?o ha? como, no curto prazo, compensar esses cortes substanciais da ajuda externa.

Contudo, o Governador do BM voltou a ter como resposta o mesmo silêncio de há cinco meses. Porquê, interrogam-se, certas pessoas.

Porque, aparentemente, a Frelimo ainda não consensualizou o caminho que quer seguir. Se entrega à Justiça o grupo que manifestamente atirou o país para a lama, ou preserva os mais de 25 milhões de cidadãos que, incautos, assistem e sofrem com tudo isto. É uma decisão difícil, fracturante mesmo, dada a qualidade dos sujeitos envolvidos e a complexa teia que se tece em torno do assunto.

O Presidente Nyusi disse, no discurso de encerramento da reunião do Comité Central que antecedeu o XI Congresso, que havia indícios de crime na forma como foram contraídas as dívidas ocultas.

O Presidente da República tem um excepcional privilégio no acesso à informação. Quando diz algo, fá-ló porque já tem elementos suficientes para o fazer. E se disse que há indícios de crime no processo de contratação das dívidas ocultas, é porque os há. Ponto final. Mal seria de nós se tivéssemos um Presidente cujos discursos são meras especulações.

Ora, o Estado tem o dever de investigar todos os indícios de crime e, havendo, de facto, matéria, responsabilizar os seus autores. Mas as vozes que, amiúde, temos ouvido de alguns membros proeminentes da Frelimo sugerem que o país não precisa de negociar e sujeitar-se aos ditames do FMI, que pode sobreviver “sem eles”.

A última investida da Autoridade Tributária junto das empresas com uma campanha para “aumentar a receita” é prova viva de que há quem acredita que é possível compensar os cortes substanciais da ajuda externa, sugando mais o sector produtivo.

Num contexto normal, essas palavras seriam uma elogiosa afirmação da nossa soberania. Mas no actual contexto querem dizer muito mais coisas, nomeadamente que não devemos ceder ao FMI.

Ao que tudo indica, esta corrente de que o FMI e a ajuda dos parceiros não nos fazem falta tem adeptos significativos dentro das correntes do poder e são estes adeptos que têm estado a inibir a PGR de ir para a frente com este processo.

Todo o esforço e compromisso do Presidente em combater a corrupção perde consistência se o caso das dívidas ocultas não for alvo de uma investigação, mas uma investigação séria, transparente e honesta, e não uma caça às bruxas. Até para salvaguardar a honra de pessoas já consideradas culpadas pelo nem sempre justo tribunal popular.

Direccionar o combate à corrupção como estão a fazê-lo, ultimamente, as instituições da Justiça já é um bom passo, é certo, mas insuficiente. As dívidas ocultas poderiam ter o condão de recredibilizar as nossas instituições (e como tanto precisam elas disso) e a confiança dos cidadãos. Este caso seria para nós o que são a “Operação Marquês” e a “Lava jacto” para os portugueses e brasileiros, respectivamente.

Mas para isso, é preciso que os políticos se definam de uma vez, libertem a Dra. Beatriz Buchili e sua equipa das amarras políticas e lhes dêem luz verde para fazer o que eles já provaram ter competência para fazer…

PS1: faz hoje uma semana que não temos Governador em Cabo Delgado. Uma província tão estratégica para a economia nacional, não pode ficar tanto tempo com um vazio de liderança…

PS 2: as opções de investimento dos fundos do Estado continuam a ser questionáveis. Mal digerimos a gestão criminosa de Setina Titosse no FDA, já estamos com outro investimento duvidoso, agora do Fundo de Desenvolvimento de Transportes. O ministro Mesquita (oh, sô ministro, por que está sempre no centro da polémica?) muito se embrulhou na (tentativa de) explicação, mas pouco convenceu. O Governo convida-nos à contenção, mas investe balúrdios de recursos públicos em negócios de retorno duvidoso, atabalhoadamente explicados, quando milhares de moçambicanos penam em carrinhas abertas e sem segurança, todos os dias?
Onde está o estudo de viabilidade que sustentou esta opção de investimento, que nos convença de que não estamos em presença de mais uma operação ruinosa para as finanças públicas? E o segmento executivo é, nesta altura, a prioridade para uma companhia aérea pública, que se queixa de falta de aviões e deixa sistematicamente passageiros em terra?

Estou indignado e envergonhado: no Centro de Estudos Africanos, em plena Universidade Eduardo Mondlane, um painel de Malangatana Valente Ngwenya foi ultrajado, vituperado. Parece surreal: um tubo de canalização atravessa o mural do grande Mestre. Como é possível praticar-se semelhante crime? Ninguém viu nada? Num lugar frequentado por professores e estudantes universitários, ninguém se apercebeu de tamanha barbárie? Viram e ficaram todos calados? Provavelmente, o canalizador, ou quem teve a inditosa ideia, não sabe quem é Malangatana, nem tem a mínima ideia da sua relevância. Provavelmente, quem o fez é vítima da falta que a cultura faz no nosso ensino, da falta e ausência de verdadeira cidadania, num país onde, quando se fala de cultura, se confunde com o folclore e a sua desinência política. Dou de barato. Mas e todos os outros frequentadores daquele espaço não se aperceberam daquela alarvidade? Isto é preocupante. O silêncio e a passividade com que se assistiu e com que assistimos a actos tão inconcebíveis como este são inconcebíveis e indiscerníveis.

Aprendi com o tempo a ser menos irascível e mais desapaixonado nas opiniões. Ou simplesmente a não emiti-las. Mas silêncio perante isto é cumplicidade. Por isso, manifesto aqui a minha sedição. Não é impossível qualquer fleuma e não consigo conter a minha cólera: que país é este? Onde é que nós estamos? Seremos assim tão ignobilmente desavisados, impreparados, incultos? Como é possível algo assim acontecer numa universidade? Isto é demais! Isto é bastante grave! Isto é bastante feio! Isto é absolutamente indigno!

Malangatana Valente Ngwenya (1936-2011) é um nome que não discute. O seu génio, a sua importância, a sua relevância. Poeta, cantor, pintor, escultor. Um dos grandes intérpretes da moçambicanidade. Um dia ele disse: pinto ódio, feitiço, crime, angústia, paixão pela vida e pela poesia. Foi e é um nome audaz, um nome vigoroso, um nome soberbo. Aqui, lá fora. Homem de estatura universal. Onde devia ser valorizado, onde a sua obra devia ser estudada e protegida, é onde se vitupera o seu nome e a sua obra.

Este não é o único painel que Malangatana nos legatou. O painel do Centro de Desenvolvimento Sanitário, no Benfica, é um bom marco para fazer um roteiro pela cidade dos murais de Malangatana. Foi executado em 1985. Não é o mais antigo. Na vetusta sede do Banco de Moçambique há um painel de 1964. O mural não foi pintado directamente sobre a parede, mas em painéis de unitex e depois fixado. Foi para o então BNU. Num outro banco, o Barclays, no extremo da 24 de Julho, há um trabalho com 50 anos. Na Avenida do Trabalho, na Igreja Anglicana, na LAM, no bairro do Aeroporto, encontramos trabalhos do género do Mestre.

A Polana, a Ponta Vermelha e a Sommerschield não estão incólumes ao génio de Malangatana. A Presidência tem um mural, o Museu de História Natural tem também um mural, iniciado em 1977 e terminado em 1979. Em 1978 o pintor permaneceu em Nampula e isso explica o interregno. A Casa Velha, na Avenida Patrice Lumumba, também foi eternizada nas suas paredes com a arte de Malangatana.

À entrada da Faculdade de Medicina encontramos um mural importante de Malangatana: seringas, pessoas com ligaduras, corações – alusão indeclinável ao domínio da medicina. Mais adiante, o Palácio dos Casamentos, um painel que Eduardo White, outro criador indubitavelmente genial, chama-lhe “um milagre”: “Um sopro táctil para o amor. Uma rosa abrindo-se”, escreve a propósito o poeta de Amar sobre o Índico.

No edifício do Centro de Formação das TDM, ou onde está sediada a UNICEF, na Avenida do Zimbabwe, encontramo-nos perante a espantosa arte do Mestre. Este vilipendiado painel do Centro de Estudos Africanos, executado entre 1998 e 1999, seria para assinalar os 30 anos do assassinato de Eduardo Mondlane, o patrono da universidade. Ali foi assassinada Ruth First, em 1982, importante activista anti-apartheid, companheira de Joe Slovo, outro nome jubiloso da mesma luta.

Perante esta ultrajante imagem, perante este vitupério, perante este insulto ao Mestre, sou incapaz de redigir estas palavras de forma desapaixonada. Isto revela algo de grave. Muito mais grave do que a irresponsabilidade de um incauto canalizador. Vivemos um tempo em que o sucesso material tem concitado o entusiasmo de quem ignora a cultura. Por outro lado, não se fala nem se ensina sobre os nossos artistas. Lá fora, os miúdos vão aos museus ver as obras que estudaram na escola. Aqui existe um real desprezo pela cultura. A cultura – ou melhor, o folclore – serve para abrir comícios. Para muitos, cultura é apenas quando se levanta poeira. Dançar e cantar. Não existem outras manifestações culturais.

Perante isto e para além das cólicas e náuseas que isto me provoca, ouso dizer duas coisas: a universidade que se retrate e que promova, o mais breve possível, o restauro e valorização daquela obra. E que promova o conhecimento não só deste mural como de tantos outros. Citei alguns do Mestre para advertir os néscios.

O silêncio perante esta rudeza, perante esta incultura, perante esta boçalidade, é um silêncio cúmplice – disse-o. Pior do que isso, será permanecer-se perante a incúria, a indignidade, a indiscernibilidade, a ignorância, a indigência, a miséria, a sordidez, eu sei lá!… que aquele acto ignominioso representa. Não só para o Malangatana, mas para um país que não se pode reconhecer naquele tubo de canalização estuprando assim o património comum. Nós não merecemos semelhante opróbrio.

 

 

 

 

 

Começa a tornar-se muito moçambicano este hábito de correr para fazer políticas, planos, leis ou rever o que já existe, com objectivo – em linguagem dos proponentes – de harmonizar, uniformizar, adequar à realidade, como se esses documentos, por si só, tivessem iniciativa própria e fossem capazes de substituir a atitude necessária para melhorar a vida em sociedade.

A resposta para parte das grandes preocupações do país têm sido dada com propostas de nova legislação, políticas sectoriais e planos estratégicos, ignorando-se o facto de que, muitas vezes, não se está a introduzir nada de novo e que no lugar de mais papéis falta precisão na acção.

Na nossa esfera pública, não faltam sinais desta tendência e há actualmente dois exemplos que chamam atenção a esta ideia de privilegiar a burocracia para resolver os problemas, ao invés de cumprir o mais elementar nos instrumentos existentes. São os casos das propostas de criação da Política de Segurança Rodoviária e a revisão da Lei de Terras. Começemos pelo primeiro:

Em Agosto deste ano, o Instituto Nacional de Transportes Terrestres lançou uma consulta pública, em todo o país, para elaboração da Política de Segurança Rodoviária com vista à redução, em metade, dos acidentes de viação. De acordo com a polícia, as principais causas dos acidentes de viação são a condução em estado de embriaguez, excesso de velocidade, fraca formação dos condutores e desrepeito às regras de trânsito.

Ora, estas quatro razões dos acidentes de viação têm tratamento no Código de Estrada, actualizado em 2011 com a introdução de penas severas, como sejam a inibição do condutor em casos de embriaguez, excesso de velocidade e não uso do cinto de segurança. Acresce-se ao Código de Estrada, a existência de um Conselho Nacional de Viação, regulamentos para os subsistemas de transporte urbano, inter-urbano, inter provincial e internacional, além, por exemplo, da proibição do transporte de passageiros de longo curso entre as 22h00 e 04h00.

As perguntas que se impõem são as seguintes?

Que vazio pretende preencher a proposta de Política de Segurança Rodoviária que não seja possível fazê-lo no actual quadro?

O que falta ao Conselho Nacional de Viação, Código de Estrada e aos demais regulamentos se o seu papel é regular o trânsito, o comportamento na via pública e o transporte de passageiros?

Por que o Código de Estrada, tão severo, não serve como um elemento dissuador, quando condutores moçambicanos obedecem à risca as mesmas regras na vizinha África do Sul?

Na semana passada, no contexto do Fórum de Consulta sobre Terras, ficou consensualizada a ideia de revisão da Lei de Terras, passados 20 anos desde a sua entrada em vigor.

Um argumento de que produzimos documentos em que não nos revemos é o facto de que o princípio geral da Lei de Terras nunca foi respeitado desde 1997. É o tal princípio de que “a terra é propriedade do Estado e não pode ser vendida ou, por qualquer forma alienada, hipotecada ou penhorada”.

A lei que foi feita para também assegurar os direitos das comunidades e que estabelece que a terra é do povo moçambicano por direito parece não existir nos reassentamentos em Palma, onde o ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento, Celso Correia, reconheceu irregularidades e mandou parar as consultas públicas, em 2015.

Somos, em muitos sectores de actividade, um país com leis sem resultados; com estratégias sem estrategas; com políticas sem soluções; com planos sem metas. Somos um país com os melhores papers, mas com imensas dificuldades de passar para o plano prático o preâmbulo do que nos propomos realizar.

A capulana a fazer de cortina. A luz, violenta, trespassa o pano. A mulher cerra os olhos. Cobre o rosto com a mão. Protege o sono. Num impulso busca o telemóvel. Tacteia, desesperada, a cama. A cabeceira. O chão. Resgata o telefone celular, entre as roupas despidas à pressa. Aguenta a luz. Abre um olho. Espreita as horas.

– Epa!

O susto afugenta o sono. Pestaneja. Esfrega os olhos. Mas não melhora a visão embaciada. Vai outra vez ao telemóvel. Confirma a hora.

– Caraças!

Dá um salto. Do sono para a vigília. Da cama para o chão. Enrola-se na capulana mais à mão.

– Acorda, comparsa.

O homem abre meio olho. Resmunga. Estica o corpo. Rebola. Devolve-se ao sono.

– Acorda comparsa. Está na hora.

Circula apressada. Faz volutas de vento com as partes sacudidas, ao andar. Vai. Vem. Desesperada.

– Acorda, comparsa.

 Uma gaveta emperra. O móvel está velho. Irrita-se. Mas não perde o respeito

– Comparsa.

Sacode-o. O homem acorda. Mas não se aviva. Demora deitado

– Comparsa. Estamos atrasados.

Dobra uma toalha. Pousa ao lado do marido. 

– Perdemos a hora.

Pendura uma camisa como se vestisse a cadeira.

– Não ouvimos o despertador

Acaricia as calças como se a  engomasse  com as mãos. Vê as horas. Vê o homem sonolento. Segura-se para não explodir. O respeito supera a irritação.

– Levanta, comparsa.

Levanta-se a custo. Nem deve ser tão tarde, pensa. As mulheres exageram, continua a pensar. Espreguiça. Uma, duas, três vezes.

– O que significa “comparsa”?

Ela não ouve. Não está ali. Esta na cozinha. Toalha no ombro. Fecha-se na casa de banho. A rosca seca da torneira chia: não sai água. Ouve-se um som grave de carretar no tambor: whooo! A música do balde a despejar na pia: whaaaa! Ritmo compassado da caneca a atirar água para o corpo: Tchá! Tchá! Tchá… Volta do banho. Atira a toalha ao acaso. Ajeita-se na roupa.

– Não engomo porque não há energia – desculpa-se ela.

– Está bom assim – conforma-se. Limpa os sapatos. Ajusta o cinto. Pára diante da porta. Vê as horas. Impacienta-se.

– Vamos, mulher.

Ela está ao espelho. Dá  uma última  demão no rosto. Arruma a toalha húmida de há pouco. Recolhe o telemóvel. A bolsa. A sacola com a clássica tigela de mangungo para o almoço. Diz "vamos comparsa" antes mesmo de estar pronta. Ele franze o sobrolho: o que quer dizer comparsa?

Não há tempo para perguntas. Correria. Ele vai a frente. Posição do alfa. A desbravar caminhos. 

Ela ajeita a saia para alargar a passada. Na pressa, tropeça. 

– Cuidado 

Contornou buracos. Lixo  no chão. Engarrafamento de viaturas no passeio. Poças de água das sarjetas entupidas. Depois de uma casa em ruínas, em frente a um muro que cheira à casas de banho públicas, com a escrita "aviso: proibido mijar", é a paragem. 

Os chapas estão abarrotados. Como latas de sardinhas prontas para exportação. Um camião atraca ao jeito salvador das arcas bíblicas. As pessoas correm. Trepam  como formigas desesperadas. É um transporte público improvisado. Um "my love".

O casal vê as horas. Troca um olhar cúmplice. Os olhos dele perguntam, quase decretam: vamos? Os dela, resignados, obedientes, dizem: vamos. E vão.

O homem trepa com agilidade masculina. Ela protege a bolsa na axila. O celular no sutiã.  Seguro a borda da carroçaria. Levanta a perna. Pisa a roda. A saia sobe. Ajeita. Em vão.

Ela sobe sem esforço. No espírito de entreajuda, cavalheiros solidários empurram-na pelas nádegas esponjosas. O camião acelera. O vento esvoaça os penteados. Assim apertados nem sentem os solavancos. Três batidas na chapa, sinal de paragem. É  o ponto dele. Pergunta: Tens dinheiro para a volta?  Ela diz que sim com a cabeça. Paga pelos dois. Salta do camião. O telemóvel cai do bolso. Esparrama-se. Enquanto recompõe  vê  o camião a afastar-se. A mulher entre o gado de passageiros, sorri e acena. Percebe os lábios dela a pronunciarem "comparsa". Na dúvida franze  a testa. O que significa "comparsa"?

Acácias amareladas de urina emolduram a via. O camião enfrenta  o esburacado do asfalto. Avança sob um dístico que atravessa a estrada e cria um portal majestoso, com a escrita "Parabéns cidade de Maputo pelos 130 anos". E desaparece.

 

O segredo do sucesso é conquistar aquilo que o dinheiro não pode comprar

In O vendedor de sonhos (Jayme Monjardim)

A cidade de Maputo completa, hoje, 130 anos de existência. Como forma de celebrar o aniversário, resolvemos, no texto que se segue, deixar ficar uma mensagem para um autor que tanto representa a capital na sua obra lá vão 30 anos. Nada ao acaso, afinal, a cidade das acácias, por via do Conselho Municipal, homenageou o escritor na Feira do Livro de Maputo deste ano. Quisemos fazer parte dessa iniciativa. 

Começaríamos esta intervenção, feita numa ocasião importante para a cidade de Maputo, por felicitar um grande autor da nossa literatura. E quando afirmamos grande, não nos referimos ao tamanho físico, é mesmo de espírito, porque aí, nesse espírito, mora a linha contínua que nos mantém sempre unidos numa atmosfera que se chama Moçambique. Mas apenas felicitar um autor que, em 30 anos de percurso literário conseguiu aglutinar todo um universo feito de fragmentos que nos caracterizam, a nós, como povo que sonha, vibra, celebra, canta e dança, mesmo quando as lágrimas são rios que não secam, parece-nos pouco, insignificante até. Por isso, ao invés de o felicitar por toda a obra que conseguiu erguer com sacrifício, suor e uma entrega árdua ao poder da imaginação, assumindo a presunção de representar o leitor moçambicano, cada vez mais sedento da sua obra, preferimos agradecer: obrigado, Aldino Muianga; obrigado por nos transportares para as letras e, a partir disso, conduzires-nos a uma infinita viagem pela nossa realidade (e cidade), que, seguramente, nos escaparia da memória sem a ficção que nos habituaste. A obra de Aldino tanto consegue nos purificar a alma com esse poder catártico, como possui uma incrível capacidade de nos devolver a nossa História, naturalmente, feita de várias estórias. E mais, os 15 livros do escritor são instrumentos que permitem aos moçambicanos e quem gosta de Moçambique conhecer o advento da construção de um país que bem sabe o valor da liberdade.

Por via da escrita de Aldino Muianga, aprendemos a ser pássaros que sabem voar bem alto e contradizer os ponteiros do tempo. Porque, a partir da obra, aprendemos que podemos recuar ao passado e projectarmo-nos para o presente sempre que nos der vontade. Então, nunca fiques com Asas quebradas porque te ter como escritor é um privilégio… a tua obra é a personificação de um ser que em cada lusco-fusco brinda-nos com a esperança ainda mais reluzente. Por isso felicitar-te é pouco. Agradecer resume todas as nossas emoções, sensibilidades, convicções e desejos, de forma sincera e autêntica, porque também sabemos dar “uma mão cheia de nós, das boas coisas que somos”, como nos diria o nosso Eduardo White.

Numa altura em que Maputo celebra 130 anos desde a sua elevação à categoria de cidade, sinceramente, consideramos estas linhas coerente. Afinal, quem não sabe que a escrita de Aldino Muianga é uma ode à cidade de Maputo e a tantos mbongolwenes que nela habitam? Quem não sabe que a obra de Aldino é um guia que nos consegue levar de pés descalços por aqueles kavieira (Maxaquene) para, em troca, nos encher de sorrisos resultantes das artimanhas desses domadores de burros de outros contextos? A forma como o nosso escritor configura a capital, os hábitos dos cidadãos e as cores da sua alma, de tão encantador, prende-nos, pois, como disse Noel Langa uma vez, Aldino Muianga não escreve o que vê, escreve o que sente. E escrever o que nos vai à alma representa o mais elevado grau do que nos sintetiza como pessoas feitas para o bem dos outros.

O Aldino é um vendedor de sonhos, sem que isso implique um retorno monetário. O Aldino é a nossa voz em silêncio, essa que, quando a conseguimos escutar, faz-nos alcançar uma dimensão mais plural da nossa singularidade.

Com efeito, agradecer-te, Aldino Muianga, é reconhecer o que ainda és capaz de fazer por esta cidade que tanto precisa de todos nós. Esta cidade que acolhe gente de todas etnias, de todas cores, culturas e origens. Uma cidade orgulhosamente moçambicana, mas humildemente aberta ao mundo. E o mundo que cá vive está consciente disso.

Obrigado por nos contares cada um dos 130 anos que Maputo tem. Pelo poder da pena, tu consegues dizer o que nos custaria uma eternidade a tentar compreender como se faz. Contigo, mais do que ser fácil, é prazeroso conhecer esta que jamais deixará de ser a pérola do Índico.

Obrigado, Aldino Muianga; obrigado, Maputo, por resistires às intempéries.

Esta semana, o jornal “Notícias” publicou uma reportagem dando conta de que a fábrica de montagem de veículos automóveis “Matchedje”, sediada na Matola, está sem mercado e em vias de fechar, pois os consumidores preferem importar viaturas a comprar aquela marca nacional.

A fábrica “Matchedje” foi inaugurada há apenas três anos pelo então Presidente Guebuza e, como foi dito na altura, ela é resultado da implementação da política nacional de industrialização ,que prevê a criação de um modelo de desenvolvimento industrial eminentemente moçambicano.

Entre outros, esta fábrica tinha o objectivo de reduzir a importação de viaturas ao país e alegrar a nossa auto-estima como moçambicanos.

Para alicerçar aquilo que parecia um cometimento genuíno do governo com o que apregoava, um ano após a sua inauguração, a fábrica recebeu o selo “Made in Mozambique”, do Ministério da Indústria e Comércio, para deixar inequívoco que esta é uma marca moçambicana e reforçar o lema “Produza, consuma e exporte moçambicano”.

Três anos volvidos, não se vislumbra que esteja em curso nem um modelo de desenvolvimento industrial endógeno ao qual a fábrica esteja ligada nem reduzimos a importação de viaturas por passar a comprar as fabricadas localmente e muito menos, pelo que se vê, há na actual situação da “Matchedje” motivos de nos enchermos de auto-estima. Antes pelo contrário.

Poderíamos dizer que os gestores da “Matchedje” não calcularam devidamente o risco que representa o nosso mercado e contaram com um conjunto irrealista de premissas, que não se concretizou. Mas um Estado que queira induzir o consumo do produto nacional, tem ele próprio que assumir a iniciativa. Afinal, o nosso Estado ainda é o principal agente na nossa economia.

Ora, neste caso, vemos as mesmas pessoas que clamam por investimento para o País a desvalorizarem-no, quando este chega, porque é mais importante assegurar os seus interesses que os do Estado.

Por isso que, estranhamente, nada mudou na política de aquisições do Estado, no tocante a viaturas, apesar de termos ido mobilizar um investidor para “torrar” 150 milhões de dólares numa fábrica que sabíamos que não lhe ligaríamos nenhuma.

A apetência de quem toma decisões no procurement do Estado continuam a ser os mercedes e outras marcas estrangeiras, porque os slogans de auto-estima, made in Mozambique, são apenas para debitar em discursos oficiais.

Outrossim, a fábrica Matchedje foi anunciada, na inauguração feita pelo Presidente Guebuza, há três anos, como fabricante de autocarros de transporte de passageiros a preços mais competitivos, em meticais, e com toda a assistência técnica, mas precisamente esta semana, a vice-ministra dos Transportes e Comunicações anunciou a importação de cerca de 300 autocarros, o primeiro lote dos quais é esperado este mês de Novembro.

Estranho, não é, quando se tem uma fábrica, no nosso próprio país, que o próprio Governo nos disse que fabricava autocarros.

Daqui a mais ou menos um ano, estaremos aqui a discutir, como se viu na recente visita do Presidente da República aos TPM, que muitos destes 300 autocarros estão parados por falta de acessórios no mercado. Aliás, nos últimos três anos, o Governo, sem exagero, importou cerca de 400/500 autocarros para as principais cidades do país. Parte significativa deles está parada e não deve ter circulado mais do que dois anos.

Dá para entender?

Nos últimos anos, tem sido dada a conhecer, por meio do Gabinete Central de Combate à Corrupção, a abertura de centenas de processos-crime, sejam de pouca monta, sejam os que tocam algumas das altas figuras ligadas aos sectores público e privado.

Se olharmos atentamente para os números, compreendemos que a investigação à corrupção melhorou, de 2014 a 2016. Senão vejamos: 2014 (906 processos-crime); 2015 (1 051 processos-crime); 2016 (1 235 processos-crime). Em 2016, os 1 235 processos-crime conduziram a 500 acusações e mais de 160 detenções.

As recentes condenações do antigo administrador financeiro da LAM, Jeremias Tchamo, e do ex-ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Abdurremane de Almeida, o julgamento do “caso FDA” e a investigação em curso do “caso LAM/EMBRAER”, entre tantos outros, são sinais de que o Gabinete Central de Combate à Corrupção ganhou alguma margem para enfrentar o poder.

Esta actuação, associada ao discurso do Presidente da República de que a corrupção é um cancro que dizima a sociedade, é reveladora de uma intenção que pode significar intolerância ao desvio de fundos no aparelho de Estado.

Contudo, o mais importante no combate à corrupção, hoje, ainda não foi feito e é aqui onde o discurso do Presidente da República perde pragmatismo e coerência, e a Procuradoria-geral da República deixa a imagem de estar paralisada, de ser selectiva em todos os momentos em que é rápida. É o caso das dívidas ocultas, tecnicamente designados processo Nº 2/PGR/2015, relativo à EMATUM, e processo Nº 15/PGR/2016, ligado a PROINDICUS e MAM.

É nosso entender que, enquanto não houver esclarecimento e responsabilização pelos erros na contratação das dívidas destas três empresas, todo o esforço e discurso de combate à corrupção será muito pouco para convencer os moçambicanos de que a nossa justiça é confiável e funciona.

Se ficar provado, as dívidas ocultas serão a maior fraude da história de Moçambique, mas há contas que nenhuma projecção pode ainda determinar: quanto custa o bloqueio dos Parceiros de Apoio Programático ao Orçamento de Estado? Quanto custa a imagem descredibilizada do país? Quanto custa o encerramento da embaixada da Dinamarca? Quanto custa reconstruir a confiança?

É por isso que as dívidas ocultas poderão ser a maior prova de (in)justiça em Moçambique, acima  de qualquer caso, não só pela necessidade de esclarecimento e responsabilização, mas pelos danos ao tecido social, à economia e às famílias.

O relatório da Kroll apontou inconsistências no propósito declarado relativamente aos USD 500 milhões do empréstimo da EMATUM, discrepâncias nos preços dos activos e serviços, inoperância das empresas, lacunas na emissão das garantias do Estado, evidência de falhas na gestão das empresas auditadas e bloqueio de informação por parte dos gestores das três empresas. A questão de fundo é: que elementos faltam à Procuradoria-geral da República para avançar?

Esta segunda-feira, o influente The Wall Street Journal – o jornal de maior circulação nos Estados Unidos – revelou que a justiça americana está a investigar os bancos envolvidos nas dívidas ocultas. Dito de outra forma, há uma parte do trabalho que não precisamos de ser nós a fazer, os outros fazem por nós com os métodos mais modernos do mundo.

Nunca tenhas medo do horizonte, não há prazer mais saboroso que o trajecto

Raquel Lanseros

Com “O bebedor de horizontes”, Mia Couto chega ao fim da linha, no que diz respeito “As areias do imperador”, não fosse aquele o último dos três livros que ficciona parte da história de Ngungunyane. No livro, encontramo-nos com um Leão de Gaza debilitado, por ter sido capturado por Mouzinho de Albuquerque. Assim, a narrativa dá-nos a imagem de um rei comum como os seus subalternos, com tanto medo do horizonte que se configura no seu olhar e na sua imaginação a cada dia da sua condição de prisioneiro. Em cada trago desse horizonte angustiante, Ngungunyane enxerga a morte, situação suficiente para o tornar obsessivo, paranoico e desconfiado. É por consequência da humanização desse rei extraordinário que a narradora da estória consegue-o desmascarar. Por causa de Imane Nsambe, temos a imagem de cada ruga do Leão de Gaza e do seu comportamento diante do medo. Nisso, Mia Couto consegue tornar Ngungunyane, por via da personagem, mais conhecido e mais perto de nós.

Ora, se, por um lado, Mia desenterra uma estória em letargia, do séc. XIX, desrespeitando completamente o rigor da história oficial, por outro, ao contar uma outra versão dos factos, depois de uma exigente e impressionante pesquisa, torna a sua estória sobre Ngungunyane um subterfúgio para narrar sobre a condição da mulher. Para o efeito, o escritor apega-se a uma relação amorosa, entre a chope Imane Nsambe e o português Germano de Melo, que já vem de “Mulheres de cinzas”.  

Tem se dito que por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. No caso de “O bebedor de horizontes” essa mulher não está atrás de um grande homem como é o caso de Ngungunyane. Está ao lado, e, não poucas vezes, até passa à frente em termos de importância discursiva. É Imane essa mulher – narradora autodiegética com igual protagonismo do imperador – que nos dá pelo menos duas narrativas em paralelo: a do fim de um império (Gaza) e a do surgimento de um pesadelo (sua própria história).  

Com Imane no enredo, Mia explora com acutilância a subalternização da mulher. Imane é exemplo disso, afinal a personagem é obrigada a deixar o seu amor para trás e embarcar numa viagem como tradutora de Ngungunyane. É uma condição de servidão que abraça Imane, em relação ao imperador e em relação aos portugueses, pois, a certa altura do trajecto a Portugal, tornam-na uma espiã ao serviço da coroa lusitana. A filha dos Nsambe é uma rapariga sem controlo da sua vida e tão-pouco de Sanga, o fruto do amor partilhado com Germano. Por isso, tempos depois do parto, a sogra arranca-lhe o bebé, mesmo a cumprir o desejo de Germano. Mais do que isso, a violência de Laura de Melo impede Imane de ser mãe, com filho vivo.

Enquanto ao Ngungunyane é-lhe dado a oportunidade de partir com sete esposas e ficar com o filho Godido no exílio, sem saber o que é sede, de tanto beber dos horizontes, à Imane é-lhe retirada tudo o que tem de mais valioso por não ser além de um instrumento do poder. Sem o amor e sem o fruto dessa árvore, a personagem apenas aprende a perder até o chão. Mal vista pela sua gente e pelos portugueses, nem em Portugal pode ficar. Quando deixa de ser útil, primeiro é levada a São Tomé e, depois, de volta a Moçambique, sem nunca reencontrar Germano. A vida é o próprio exílio da personagem, condenada a ser pouca coisa.

Ora, este “O bebedor de horizontes” é um livro riquíssimo do ponto de vista de verosimilhança. A fronteira entre o real e a ficção é invisível. Aqui temos um Mia como que no auge do seu poder criativo, conseguindo respeitar na trama a atmosfera de um período movido por outros comportamentos. É deveras apreciável a maneira como a narrativa evolui ao longo dos espaços. Depois, há ainda as personagens, com o poder de nos colocar à espera de ouvir a beleza causada pelas palavras bem combinadas: “quem mais sofre? Aquele que espera para sempre ou quem nunca esperou por ninguém?” (p. 349). Essa é Dabondi.

Portanto, esta é uma história que nos mostra como a mulher é tratada ao longo do tempo. Ao fazer-nos sentir as dores de Imane, “O bebedor de horizontes” coloca-nos por alguns instantes no lugar da personagem, quem sabe, para deixarmos de colocar a mulher por detrás de um grande homem. É mesmo ao lado que ela deve ficar.

 

Título: “O bebedor de horizontes”

Autor: Mia Couto

Editora: Fundação Fernando Leite Couto

Classificação: 17

 

 

1.

Leio o conto “A carruagem”, de Nikolai Gógol. A história passa-se numa cidadezinha B…, que vive mergulhada num tédio profundo, mas passa a ser um lugar muito animado quando  nela se aquartela um regimento de cavalaria. Num grande almoço, que reunia homens apenas, dos mais influentes da cidadezinha, onde se encontravam desde oficiais a proprietários de terras, eis que o mais conhecido aristocrata, de seu nome Pifagór Pifagórich Tchertokútski, quando o anfitrião exibia o seu novo cavalo,  se gabará  da sua nova carruagem.

            Nikolai Gógol:

            “- Qual? Aquela com a qual chegou?

– Ah, não! Esta é própria apenas para as minhas viagenzinhas, mas a outra… é um espectáculo, leve como uma pena e, quando a gente se senta nela, então…! Excelência, se me permite, é como se uma aia o embalasse em um berço!

– Então é bem confortável?

– Muito, muito confortável; as almofadas, as molas…tudo parece uma pintura.

– Que beleza!

– E as acomodações, então? Eu nunca vi coisa igual, Excelência. Quando eu ainda estava em serviço, cabiam no seu maleiro dez garrafas de rum e umas vinte libras de tabaco, sem contar, Excelência, que ainda levava comigo uns seis uniformes, roupa-branca, dois cachimbos dos mais compridos, e nos bolsos ainda dava para colocar um boi inteiro.

– Que beleza!

– Paguei por ela quatro mil rublos, Excelência.

– A julgar pelo preço, deve ser boa mesmo. E foi o senhor mesmo que a comprou?

– Não, Excelência, consegui-a, assim, de ocasião. Meu amigo comprou-a, pessoa muito rara, amigo meu de infância, com o qual o senhor se daria muito bem. O que era de um era do outro, tanto fazia. Ganhei-a dele no jogo de cartas. Se Vossa Excelência me der a honra de vir almoçar comigo amanhã, então poderá vê-la também.

– Não sei bem o que lhe dizer. Eu assim sozinho, não sei bem… A não ser que o senhor me permita ir acompanhado por dois oficiais.

– Claro, por favor, os senhores oficiais também. Senhores, será para mim uma grande honra ter prazer de recebê-los em minha casa!

            O coronel, o major e os demais oficiais agradeceram com cortesia e fizeram uma reverência.

– Eu mesmo, Excelência, também penso que, quando compramos alguma coisa, tem de ser boa, caso contrário, é melhor não comprar nada. Amanhã, em minha casa, por exemplo, quando me derem a honra de me visitarem, mostrar-lhes-ei algumas aquisições de uso doméstico.

            O general observou-o e deixou a fumaça escapar da boca.

            Tchertokútski ficou muito satisfeito de ter convidado os senhores oficiais, e mentalmente começou desde logo a encomendar os patês e molhos, olhando alegremente para os senhores oficiais, que, de sua parte, também pareciam agora redobrar a simpatia para com ele, o que podia ser notado pelos seus olhos e pelos pequenos movimentos do corpo na forma de ligeiras saudações.

            Tchertokútski passou a conduzir-se de modo mais desenvolto, a voz tornou-se então mais relaxada, com uma entonação plena de contentamento.

            – Vossa Excelência conhecerá também a dona da casa.

            – Com muito prazer – disse o general, acariciando o bigode.”

 

Tchertokútski quis sair cedo e voltar para casa para preparar o almoço do dia seguinte, mas hesitou e foi ficando. Primeiro foi um copo de ponche, bebido num gole, depois foi outro, e ainda outro e outro e outro. Entre o copo e a diversão no jogo do whist ficou até de madrugada, tendo chegado a casa completamente embriagado.

 

Nikolai Gógol:

“Em casa todos dormiam profundamente. Custou muito ao cocheiro encontrar o camareiro, que conduziu o seu senhor pela sala de estar, entregou-o à criada de quarto, com a qual Tchertokútski alcançou cambaleante o quarto de dormir e se aninhou ao lado da jovem e bela esposa, que estava deitada de forma encantadora em seu traje de dormir, branco como a neve. Ela despertou com o movimento produzido pela queda do marido na cama. Estirou-se, ergueu as pálpebras e, depois de semicerrar rapidamente os olhos três vezes seguidas, abriu-os com um sorriso algo amuado, mas ao certificar-se de que desta vez ele não lhe dispensaria a menor carícia, virou-se para o outro lado com certo desgosto e, apoiando a bochecha fresca na mão, pegou no sono.

            A manhã já ia bem adiantada, o que para o campo não é nada cedo, quando a jovem acordou ao lado do marido, que roncava. Ao lembrar-se de que ele voltara para casa às quatros horas da manhã, teve pena de despertá-lo. Calçou então as pantufas que o marido mandara vir de Petersburgo e, vestida em uma camisola branca cujas pregas ondulavam ao longo de seu corpo como cascata, entrou em seu toucador, lavou-se com água tão fresca quanto a sua tez e aproximou-se do espelho. Depois de se olhar uma duas vezes, concluiu que não estava nada mal naquela manhã.”

 

Sentada mais tarde, na alameda sombreada, de onde se divisava a longa estrada, esquecida da hora e do facto de o marido estar a dormir, para lá das 12 horas, avistou, perante uma nuvem de poeira, várias carruagens e adivinhou que se trata de visitas que se dirigiam à sua casa.

 

Nikolai Gógol:

“- Será que estão vindo para cá? – pensou a dona de casa. – Ah, meu Deus! É mesmo, eles viraram na ponte! – Ela soltou um grito, ergueu os braços e correu pelo canteiro de flores directo para o quarto de seu marido. Ele dormia como um morto.

– Levante. Levante! Levante rápido! – gritava, pegando-o pelo braço.

– Hein? – murmurou Tchertokútski e espreguiçou sem abrir os olhos.

– Levante, meu pomponzinho! Não está ouvindo? Temos visitas!

– Visitas, como visitas? E dizendo isto, emitiu um pequeno grunhido como um bezerro que procura com o focinho as tetinhas da mãe.

– Mm…- resmungou. – Traga aqui esse pescocinho, minha mumu, que vou te dar um beijinho.

– Levanta, meu amorzinho, pelo amor de Deus, rápido! Vem aí o general e seus oficiais! Ah, santo Deus, você tem bardanas nos bigodes.

– O general? Então ele já vem vindo? Por que diabos ninguém me acordou? E o almoço, então já está tudo pronto para o almoço?

– Que almoço?

– Será possível que eu não encomendei?”

 

Tchertokútski decidiu esconder-se, cogitou fazê-lo na cocheira, mas quando estava lá, percebeu que poderia ser encontrado. Então, lembrou-se da carruagem e abaixou o estribo e meteu-se lá dentro e fechou-se, cobrindo-se de uma manta e de uma cobertura de couro.

 

Nikolai Gógol:

“- O senhor não está em casa – disse um lacaio, aparecendo no terraço da entrada.

– Mas como não está? Mas deve estar para o almoço, não?

– De modo algum. Estará fora o dia todo. Talvez amanhã por volta deste mesmo horário já esteja por aqui.

– Mas veja só isso! – disse o general. – Como é possível?

– Aposto que é uma brincadeira – exclamou o coronel, rindo.

– Ah, não, isto não se faz! Prosseguiu o general nada satisfeito. Arre! Que diabo! Se não nos podia receber, então por que convidou?”

 

O coronel resignado propõe que se vão embora, mas o general antes de abandonar a casa procura pelo cavalariço e pergunta pela carruagem que Tchertokútski adquirira recentemente. Vão todos até à estrebaria.

 

Nikolai Gógol:

“O general e os oficiais deram uma volta ao redor da carruagem e examinaram cuidadosamente as rodas e as molas.

– Bem, não vejo nada de especial – disse o general. – É uma carruagem das mais comuns.

– Sem graça nenhuma – confirmou o coronel. – Absolutamente nada de especial.

– Me parece, Excelência, que não vale nem quatro mil rublos – acrescentou um dos jovens oficiais.

– Quê?

– Eu disse, Excelência, que ela não vale quatro mil rublos.

– Mas que quatro mil rublos! Não vale nem dois mil. Ela não tem nada de nada. A não ser que dentro tenha algo de especial…Por gentileza, amigo, levante a cobertura de couro…

            E diante dos oficiais surgiu Tchertokútski, envolto no roupão, encolhido de uma forma bem esquisita.

– Ah, então você está aqui!… – exclamou o general estupefacto.

Dito isto, no mesmo instante o general bateu as portinholas com violência, atirou de novo a cobertura sobre Tchertokútski e foi embora com os senhores oficiais.”

 

Este belíssimo texto, resumido aqui de forma canhestra, oriundo de uma tradução btrasielira, aqui adaptada, data de 1836. Nikolai Gógol viveu entre 1809 e 1852. Tanto ele como Fiódor Dostoiévski (1821-1881), que escreveu Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov ou O Jogador; Ivan Turguêniev (1818-1883), que foi o primeiro autor russo a adquirir fama fora da Rússia, que escreveu Pais e Filhos, ainda hoje considerada uma obra-prima;  Anton Tchekhov (1860-1904), autor de peças como A Gaivota ou Tio Vânia, são importantes na minha formação literária, nos anos 80, quando eu fazia teatro radiofónico. Tchekhov abandonaria o teatro e ficaria na história da literatura como um grande contista, tendo influenciado nomes que me são caros, como John Cheever, Ernest Hemingway, Raymond Carver, entre outros, só para citar os mestres americanos; Lev Tolstói (1828-1910),  o da Guerra e Paz, mas também da Ana Karenina. Estes são os grandes nomes da literatura russa anterior à revolução bolchevique de Outubro de 1917, que fez por estes dias – 7 de Novembro –  100 anos. Viveram a revolução ou os anos da revolução Maximo Górki (1868-1936), de quem li muito jovem o romance A Mãe; Boris Pasternak (1890-1960), autor de Dr. Jivago, famoso por ter recusado o Prémio Nobel dois anos antes da sua morte;  Isaac Bábel (1894-1940), que lembro de ter em casa dos meus pais e de ler Os Contos de Odessa, que muito me impressionaram; ou ainda Vladimir Nabókov (1899-1977), muito conhecido pelo romance Lolita, autor russo e simultaneamente anglo-saxónico. Alexander Soljenítsin (1918-2008) nasceu um ano depois da Revolução. O autor de Um Dia na vida de Ivan Denisovich e Arquipélago de Gulag foi laureado pelo Nobel em 1970.

 

2.

Fany Mpfumo morreu há 30 anos. Procuro, na noite de 3 de Novembro, o disco Nyoxanini. Sei que o tenho algures. “Famba ha hombe” traz-me de volta aquela voz. Sobressalto de emoção. Cresci a ouvir Fany Mpfumo. Eu ouvia vezes sem conta “Hodi”, “A vasati va lomu”, “Georgina”, “Unga hlupheki” ou “Lesvi wene unga xonga”. Retorno, nesta noite de sexta-feira, à minha infância. Vi-o duas vezes – no vetusto Scala e no pavilhão do Estrela Vermelha. Creio que foi o último espectáculo que ele deu. Já estava carcomido pela doença e pelo infortúnio. Lembro o seu virtuosismo e a sua voz atravessando a sala. Vibrante. Ele era um espectáculo. O espectáculo. Representa uma época que, de certo modo, terminou. A época de grandes compositores e cantores populares que hoje são autênticas lendas. Talvez Xidiminguana e Dilon Djindji tenham sido aqueles que mais prolongaram essa aura. Fany Mpflumo também representa a dureza da nossa tragédia colectiva: a condição social do artista. Legou-nos uma obra exemplar. Porém, morreu pobre e desgraçado.

 

Para os adolescentes, as questões da puberdade, da intimidade, dos relacionamentos, do amor, do sexo, da saúde reprodutiva, incluindo a contracepção, são complicadas. Para os jovens com deficiência, navegar neste terreno é muito mais difícil.

Por exemplo, Betty tem 26 anos e é natural do Uganda. Apesar de ter desafios físicos, ela tem também necessidade de saúde sexual e reprodutiva. O mesmo acontece com a maior parte das pessoas que sofrem de várias deficiências.
Como mulher jovem com desafios físicos, Betty diz que se sente sem apoio e incapaz de usufruir da sua saúde e dos seus direitos sexuais e reprodutivos.
Segundo ela: os “jovens com deficiência, especialmente as mulheres, enfrentam um triplo desafio”.

 “És marginalizado pela sociedade que vê a tua deficiência de forma negativa. Portanto, se és jovem com deficiência, és estuprada, és negligenciada. Em seguida, a sociedade responsabiliza-te por teres engravidado. Ninguém se quer identificar com uma rapariga grávida com deficiência”.

Kelvin, jovem zimbabweano de 24 anos, tem a mesma experiência. Nasceu com osteogenesis imperfecta (vulgarmente conhecida como doença dos ossos frágeis) e é seropositivo.
Segundo ele: “Somos marginalizados na comunidade. As pessoas acreditam que as pessoas com deficiência não têm desejo sexual e, pior do que isso, não temos acesso a informação ou a serviços”.

Desafio global
Entre 180 e 220 milhões de jovens de 10 a 24 anos, a nível mundial, vivem com deficiência mental, intelectual, física ou sensorial. Além disso, 20 milhões de mulheres ficam com deficiência anualmente resultante de complicações durante a gravidez ou parto, tal como, a fístula obstétrica.
Cerca de 80% das pessoas com deficiência vivem em países em desenvolvimento, com uma estimativa de 15% de africanos com deficiência moderada a grave.

Os jovens com deficiência têm três vezes mais probabilidade de sofrer violência física, sexual e emocional do que as pessoas sem deficiência.
A sua situação é exacerbada pelas leis, políticas e atitudes que são insuficientes para proteger a sua saúde e os seus direitos sexuais e reprodutivos.
Os jovens com deficiência representam, de forma evidente, um segmento da sociedade esquecido. Na maior parte dos casos, este é o grupo mais esquecido quando se trata do acesso a serviços básicos.
 

Acção colectiva
A responsabilidade dos jovens, incluindo os com deficiência, e as suas necessidades de saúde e direitos sexuais e reprodutivos são uma consideração multissectorial que envolve os Ministérios da Saúde, da Educação, da Juventude e da Previdência Social, além da sociedade civil, do sector privado, das organizações baseadas na fé e das universidades.

Permitir que os jovens com deficiência usufruam da sua saúde e dos seus direitos sexuais e reprodutivos, incluindo da sua capacidade de prevenir o abuso sexual, a gravidez precoce e a não desejada, o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis ajudará, por sua vez, a garantir o usufruto de outros direitos, tais como à educação, a oportunidades económicas, à independência financeira e ao empoderamento social. Esta mensagem está destacada no Relatório do Estado da População Mundial de 2017, ‘Worlds Apart: Reproductive health and rights in an age of inequality’. O relatório descreve 10 acções para um mundo mais igual, incluindo a protecção social universal, que exige que todos tenham acesso a um rendimento básico seguro, que inclui maternidade, deficiência, filhos e benefícios semelhantes essenciais para o bem-estar.

Devido à lacuna no usufruto da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivas dos jovens com deficiência na região da África Oriental e Austral, o FNUAP em parceria com a AID do Reino Unido, as Comunidades Económicas Regionais, tais como a SADC e a EAC, os governos, a sociedade civil e a participação activa de jovens com deficiência, elaborou orientações estratégicas regionais informadas por evidências que expandirão o acesso e a procura de informação e de serviços de saúde sexual e reprodutiva. Milhões de jovens com deficiência poderão, potencialmente, beneficiar.

Vários obstáculos em torno da concepção e implementação de soluções baseadas nas novas tecnologias estão também incluídos em grande parte da forma de pensar no FNUAP. Na sequência da revolução digital em curso, vários centros de novas TI e inovação estão centrados na concepção de soluções de mercado que tendem a excluir minorias e grupos marginalizados. Portanto, apoiar os jovens empresários no desenvolvimento de soluções inovadoras para os principais desafios da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos assumiu-se o desafio que enfrentam para o acesso.

O FNUAP, através da iniciativa de aceleração da inovação (iAccelerator), procura formas inovadoras para trabalhar com 15 start-ups de quatro países da África Oriental e Austral. A iniciativa beneficiará jovens empresários de populações marginalizadas, incluindo os jovens com deficiência, e dá também prioridade às soluções para os desafios enfrentados pelos grupos marginalizados, incluindo os YPD.

O desenvolvimento de iniciativas, juntamente com os governos, que desbloqueiam o poder das parcerias privadas e, em última instância, garantem uma vida mais saudável aos jovens com deficiência é parte fundamental do nosso compromisso.

Jamais viver com indignidade
A visão dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (SDG) é garantir que ‘ninguém seja esquecido’. Se essa visão for para ser alcançada, devemos fazer mais para nos concentrarmos nos direitos, incluindo a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos dos jovens com deficiência.
Segundo a Directora Executiva do FNUAP, Dra.

Natalia Kanem: “Todos os jovens devem ter acesso a educação sexual abrangente e aos serviços que necessitam para proteger a saúde, o bem-estar e a dignidade. Os jovens com deficiência deverão, nunca, ter que suportar o trauma da violência física, psicológica ou sexual, nunca”.

É responsabilidade de todos garantir que as pessoas que vivem com deficiência possam viver com dignidade e ter capacidade para usufruir dos seus direitos, incluindo os relacionados com o sexo, a sexualidade e a reprodução.

Com os jornais à tiracolo, Nhinguito, o ardina, caminhava de tronco vergado ao peso. Eram as últimas notícias que os tornava tão pesados, até lhe esmagavam o ombro. Deslocou, sem pressa, o palito, de um canto da boca para outro. Pousou o xidjumba de jornais e dispôs no chão, em montículos, ao jeito das vendedeiras, de modo que ficassem com as apetitosas manchetes expostas. Em parangonas, lia-se: O PREÇO DAS VIATURAS.

O sol era quente. Parecia ter saído das tórridas reuniões do recente congresso. Ergueu-se, imponente, reforçando a impressão de que com o calor intenso à que já nos habituou, os dias, depois da agitação do congresso, voltariam à normalidade.

Nhinguito sentou-se sobre uma caixa de engraxar. Enquanto vendia jornais poderia ir dando lustro ao mundo, pelos sapatos. O sol não dava tréguas. Fez o gesto instintivo de desabotoar a camisa, percebeu que estava já aberta e sentiu-se impotente por nada poder fazer para se refrescar.

Os curiosos que acercavam os jornais e interpretavam ávidos as manchetes quentes, entupiam a circulação do ar e chamavam o ardina ao debate, como se, por ele transportar jornais, fosse responsável pelo conteúdo. Nhinguito irritou-se. Moveu o palito, devolve-o para outro canto da boca e ficou a olhar para o pousa pés da caixa de engraxar, enquanto o pensamento olhava para sabe-se lá onde.

– Nhingutô! Estes preços, estas viaturas… É verdade isto?

Apesar de irritado, com o calor, com as perguntas, com os preços ou sabe-se lá o quê mais, o ardina alimentava, com inocente arrogância, a ideia de que ele era conhecedor da verdade por detrás daquelas notícias, por ser muito próximo dos jornais:

– Ohôooo! Brincas? Há mola neste país.

Falou sem olhar, enquanto tentava distrair a irritação na transparência que o sol causava na capulana da vendedeira de amendoins torrados que circulava sem pressa por ali.

Uma sirene estridente cortou a manhã. Era um batedor de trânsito a abrir alas. Os pescoços rodaram instintivamente para ver, sem entusiamo, a caravana passar. O ardina moveu apenas o olhar para aquela direção, lentamente, enquanto mandava o palito, de um para outro canto da boca.

O batedor acelerou na contramão para ultrapassar a fila de veículos que se entupia no semáforo. Mandou tudo afastar, tudo parar. O chapa, em manobras que se sabe, teve de travar bruscamente, percebendo-se, por leitura labial, o peso bélico das palavras que o motorista contrariado proferiu. A moto descreveu em grande ginga um, dois, três círculos no cruzamento das avenidas, desautorizando o semáforo, irritando o mundo.

– Em vez de comprarem machimbombos. Ntlha!                     

Um buraco na estrada contrariou a gincana. A moto caiu. O agente gordinho esparramou-se no chão. Ouviu- se “ooohhh!”, com os olhos arregalados e mão sobre a boca. Depois silêncio.

Do fundo do silêncio, do nervosismo dos automobilistas, da irritação dos passageiros do chapa, do desespero da gente aglomerada na paragem, da indiferença da vendedeira, dos leitores das manchetes do ardina, do rosto amuado do Nhinguito, de todo o lado despontou uma gargalhada sem maldade, enquanto o batedor se recompunha no uniforme, na moto, na vergonha…

Nhinguito apanhou do chão o palito caído com o descuido da risada e devolveu-o à boca.

O crescimento da violência, dentro e fora dos campos, com compra de árbitros e resultados à mistura são alguns dados demonstrativos de que a temporada futebolística de 2017 em Moçambique, que está praticamente concluída, merece um sério repensar.

Sendo o futebol o desporto-rei, transportando responsabilidades acrescidas, tanto na componente física como na socialização dos cidadãos, esta modalidade deveria contribuir para a fraternidade e unidade entre as pessoas, desde o núcleo ao país inteiro. Porém, se quisermos fazer um balanço honesto, tanto sob o ponto de vista técnico como social, o ano prestes a findar não foi positivo.

E não é necessário procurar muito, pois os “venenos” estiveram à vista de todos, tanto no Moçambola, como na Divisão de Honra. Os “contra-venenos”, aplicados tarde e a más horas, é que não foram suficientemente eficazes, ficando a certeza de que importa rever a legislação, humanizar a prova e criar espaços para educar os intervenientes, de forma a conhecerem os limites e as fronteiras entre a rivalidade sã e a confrontação de quem quer ganhar a todo o custo.

Nos jogadores, tudo passa por uma boa maior dedicação à causa, respeito pelos colegas e pelas exigências da profissão. Trabalhar o pormenor, cultivar a superação. Nos dirigentes, importa valorizar a paixão e o profissionalismo, reduzindo o espaço para infiltrados e “chicos-espertos”, cuja motivação é o “show-off” nos camarotes e a caça aos passeios.

Quem vai ao futebol?
Cada vez mais, o nosso futebol tem sido lugar de indisciplina e arruaça. Levar a família e incentivar os filhos é um risco, pois os campos não são um lugar pacífico. Há que ir preparado para ouvir ameaças e impropérios vindos de todos os lados.

Num país em que os cidadãos têm no seu dia-a-dia mais razões para andarem tristes do que alegres, os campos deveriam ser um “refúgio salutar”, um sítio em que só perde quem os não frequenta. Mas não. Os recintos do desporto-rei tornaram-se locais para quem não tem ou não sabe fazer mais nada, os depreciativamente chamados de “pés-descalços”. Aquele que se considera “gente fina” não vai, não se mistura, preferindo acompanhar a modalidade em casa, girando o botão da TV ao mesmo tempo que vai degustando uns aperitivos.

Diz-se que a qualidade do espectáculo não é atractiva, e é verdade. Mas essa será só uma parte da questão. A outra, talvez a mais marcante, é que, entre nós, o futebol tornou-se uma coisa menor, havendo a sensação de que ser adepto de um clube nacional é algo desprestigiante. Prova disso, é que os que rejeitam o Moçambola, são os mesmos que exibem quadros com fotografias consideradas por eles históricas, de episódicas passagens pelos estádios da Luz ou de Alvalade. Aí sim, ganha-se prestígio e cria-se inveja.

Números podem ajudar a melhorar
Não é só no atletismo que os praticantes são comparados através dos números. Hoje em dia, o futebol e outros desportos, são também mensuráveis. Agora que estamos em final de época, impõe-se a criação de um espaço para que os técnicos avaliem, com substância, os quês e porquês de tão baixos coeficientes, que começam no ritmo, nos exíguos contra-ataques e no baixíssimo índice de conversão.

Há que ver e comparar com os mais exigentes campeonatos em que em regra se marca o triplo dos golos, apesar de os cifrões serem bem mais apetecíveis que os do nosso seio, o que, à partida, consubstancia a tendência de arriscar menos.

Será que se treina por cá, mais o anti-jogo que o jogo? Ou há crise de desequilibradores? Ou ainda as razões têm a ver com as deslocações, que quase obrigam as equipas a treinarem-se nos aviões?

Diz-se, com grande dose de razão, que o futebol é espectáculo. E que o golo é o sal e a pimenta do jogo.

Portanto, se os tentos – bonitos, diga-se –, têm acontecido em tão escasso número, é por aí que se terá que buscar factores para mudar a face.

Sem “politiquices” e busca de protagonismo, o defeso é uma boa ocasião para os profissionais da área técnica aprofundarem as questões de fundo que impedem que as nossas principais provas sejam atraentes, numa modalidade que em todo o mundo arrasta multidões.

Ao choque e estupefacção generalizada do país perante a dura e inaceitável verdade de que os direitos e regalias dos dirigentes superiores do Estado são prioritários mesmo perante a miséria e o sofrimento da esmagadora maioria dos cidadãos, o esclarecimento do Governo foi estarrecedor.

“São compras de 2015, foram feitas antes da suspensão do apoio por parte dos parceiros e só 6 viaturas são deste ano”, sentenciou o Secretário Permanente do Ministério da Economia e Finanças. Em 2005, lê-se pelas palavras deste zeloso SP, éramos tão ricos que era normal gastar 90 milhões de meticais no bem-estar de meia dezena de dirigentes.

Esqueceu-se o bom do SP que, a 15 de Janeiro desse mesmo ano 2015, no discurso da sua posse, o Presidente Nyusi prometera ter um governo austero (e não é austero Governo que gasta 90 milhões de meticais em 39 viaturas num país onde o povo sossobra no “My Love”); que nove meses depois, mais exactamente a 29 de Outubro desse mesmo 2015, o Presidente Nyusi revelou, no jantar dos 20 anos do BIM, que encontrara os cofres do Estado vazios e era o presidente que estava a governar em piores condições na história recente do país (que rico cofre vazio, senhor presidente!).

Então, bem vistas as coisas, nada mudou entre 2015 e 2017: há dois anos, o Estado estava com os cofres vazios e numa governação difícil e, ainda assim, encontrou espaço para financiar uma despesa supérflua.

Este ano, as finanças públicas estão em derrapagem, não há doadores para cobrir o défice e o Governo financia-se à custa de um cada vez mais insustentável recurso ao endividamento interno. Em consequência disso, cortou de forma significativa na despesa, na contratação de novos funcionários, mas encontrou folga para pagar 29 milhões por 6 viaturas, duas das quais para um antigo primeiro-Ministro e um antigo Presidente da Assembleia da República, que custam, juntas, quase 22 milhões de meticais.

O problema não tem nada a ver com o contexto, mas sim com hábitos há muito enraizados num Estado em esvaziamento, em que a dignidade dos dirigentes se mede pela dimensão da cilindrada e preço da viatura que lhe está afecta. O problema é que as contas do Estado não são independentes da sua economia.

Um país com uma economia em coma profundo, como o admitiu há uma semana o Governador do Banco de Moçambique, dá-se ao luxo de distribuir Mercedes e outras marcas pelos membros da Comissão Permanente do Parlamento e seus cônjuges e gastar perto de 22 milhões de meticais por apenas dois antigos dirigentes.

Se juntarmos as regalias e remunerações de todos os antigos presidentes da República, presidentes do parlamento, primeiros-ministros, ministros, procuradores-gerais, aos actuais incumbentes nos mesmos cargos, ficamos com uma soma certamente assustadora, mas que ninguém conhece a sua verdadeira dimensão.

Infelizmente, há uma espécie de pacto de silêncio dentro do poder político para manter em segredo a lista dos antigos dirigentes que recebem as chamadas pensões “douradas” ou subvenções mensais vitalícias, os valores que aqueles recebem, bem como as regalias associadas.

É esta a reflexão que se impõe: pode um país como o nosso dar-se ao luxo de sustentar os devaneios de antigos e actuais dirigentes e ainda atender às necessidades básicas dos seus cidadãos? É justo para os inúmeros cidadãos honestos deste país, que trabalham uma vida inteira de sacrifícios, sustentarem, vitaliciamente, as extravagâncias dos seus dirigentes, só porque estes estiveram cinco anos num cargo público?
Urge, pois, construir uma plataforma de entendimento entre o Governo e o Parlamento sobre a necessidade de revisão da legislação sobre os direitos e regalias dos dirigentes superiores do Estado para a ajustar às condições económicas do país. Um cargo político não é um emprego.

No seu estilo sui generis, o governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, transmitiu, semana passada, sinais preocupantes de desrespeito à lei, mostrando que prefere seguir convicções próprias a respeitar as decisões das instituições estabelecidas.

Isto vem a propósito das últimas declarações de Rogério Zandamela sobre o controverso processo de recapitalização do Moza Banco. O governador do Banco de Moçambique disse e passamos a citar ipsis verbis: “Nós não vivemos de comentários, compete a nós tomar decisões. Eu, pessoalmente, assumo a cem por cento as decisões que tomei. Para mim, foi uma operação de sucesso, foi uma operação certa. Quer criticar, que critique. Foi a decisão milagrosamente certa.

Na minha vida, se há uma coisa que estarei orgulhoso de ter feito com sucesso, é esta. Para mim, o processo está fechado e é irreversível”.

Estas palavras são de um significado perigoso não tanto pelo tom de desafio a que nos habituou Rogério Zandamela, mas pelo desprezo às instituições, à cultura de Direito e às regras de jogo.

Por deliberação de 19 de Julho deste ano, a Comissão Central de Ética Pública acusou directamente o governador do Banco de Moçambique de ter atropelado a Lei de Probidade Pública, por adjudicar o controlo do Moza Banco à Kuhanha.

A deliberação concluía que, na qualidade de servidor público, Rogério Zandamela decidiu a favor da Kuhanha, de que é Presidente do Conselho de Administração, pisando a linha do conflito de interesses. Se quisermos resumir, Rogério Zandamela foi juiz em causa própria.

Pelos seus recentes pronunciamentos, fica claro que a posição da Comissão Central de Ética Pública não passa de letra-morta para o governador do Banco de Moçambique. Mais: ao afirmar que a adjudicação do Moza Banco à Kuhanha foi uma “decisão milagrosa”, “operação de sucesso” e “que não vive de comentários”, é como se assumisse que a sua decisão está acima de qualquer suspeita, incluindo de ter violado a Lei de Probidade Pública.

É na lógica deste raciocínio que o governador do Banco de Moçambique diz que o processo está “fechado” e que é “irreversível”, como se agora fosse juiz de tribunal de recurso, a quem compete tomar decisão definitiva sobre os processos judiciais. É pouco provável que Rogério Zandamela agisse da mesma forma no Fundo Monetário Internacional, onde fez carreira e onde as regras de compliance são cumpridas como se fossem uma religião.

As nossas instituições não devem admitir que as suas decisões sejam banalizadas, visto que enfraquece o seu papel na sociedade, descredibiliza-as e cimenta a ideia de que “a nossa justiça é forte para os fracos e fraca para os fortes”.

A deliberação da Comissão Central de Ética Pública sobre a recapitalização do Moza Banco está depositada na Procuradoria-Geral da República e no Gabinete Central de Combate à Corrupção, desde Julho passado. Portanto, está em mãos certas para que se possa fazer cumprir a lei.

Tal como a PGR repôs a legalidade no caso dos memorandos assinados entre o ministro dos Transportes e Comunicações, Carlos Mesquita, e o administrador da Cornelder Moçambique, Adelino Mesquita, por flagrante conflito de interesses, é expectável que as instituições de justiça sinalizem que a lei não pode ser suspensa em função de determinadas circunstâncias ou indivíduos. Dura lex, sed lex, senhor governador, dirão os juristas.

PS: Nas páginas de anúncios do jornal Notícias desta terça-feira, ficámos a saber que o Governo está a comprar 45 viaturas de luxo, incluindo de marca Mercedes Benz, num valor de perto de 120 milhões de meticais. É revoltante. Não é necessário mais nenhuma prova de que somos um país do faz de conta. Faz de conta que somos um Estado de justiça social, faz de conta que estamos em crise, faz de conta que não há dinheiro para pagar subsídios aos professores e aos enfermeiros…
 

 

Em 2003, o partido MDM consolidou, nas eleições autárquicas, a posição de terceira força política nacional, espaço que tinha começado a conquistar cinco anos antes, nas eleições gerais, onde tinha conquistado oito assentos na Assembleia da República.

A posição consolidada nas autarquias de 2003, com a conquista de quatro autarquias, foi uma espécie de crescimento natural de um partido que soube aproveitar os espaços abertos pelas retecências da Renamo e o desgaste da Frelimo.
Estes foram, em parte, os factores bem aproveitados pelo Galo, que soube ainda enamorar o eleitorado jovem, com um charme de galã e promessas de um “Moçambique para Todos”.

O Galo chegou às eleições de 2014 e continuou a beneficiar do estado de graça e do embalo dos ciclos anteriores. Com mais deputados, consolidou-se como a terceira maior força parlamentar, ainda que, no global, os resultados eleitorais ficassem aquém das expectativas que vinha até então gerando.
Cronologia à parte.

O facto é que, desde o ano passado, os sinais começam a mostrar que algo vai mal no reino do Galo.
Nascido e “abrigado” a assumir posição de adulto em corpo de criança, começa agora a denotar uma espécie de crise de adolescência. Um adolescente que se assumiu adulto com uma identidade por consolidar e ideologia política por alinhar junto da sua base de militância, que se foi agregando ao ritmo de um embalo eleitoral.

As clivagens mal resolvidas com o então edil de Nampula, Mahamudo Amurane, os questionamentos à liderança feitas a vários tons por quadros superiores do partido, a mal gerida situação do “tocovismo” e o silêncio quase ensurdecedor do Rei Galo mostram um futuro sombrio.

Com os punhais a serem afiados para o conclave de Dezembro em Nampula, tendo pelo meio as intercalares no mesmo município, tudo conspira para que os próximos meses sejam de muito sururu no reino do Galo.

Mais desafiante ainda, e com o regresso da Perdiz nos próximos ciclos eleitorais, o xadrez político nacional parece estar a dar a entender que o palco terá menos espaço para mais dançarinos.    

Existe alguma terra onde o batimento cardíaco é o criador do próprio coração?

Raquel Lanseros

Sou do tempo em que, na cidade onde nasci, era possível fazer turismo de Moçambique para Moçambique; tempos bonitos, em que eu e tantos da minha malta, por via da escola primária, conhecemos locais sagrados pela importância, como a Fortaleza de Maputo, Museu da Moeda, da Revolução, a Casa de Ferro, o Tunduru ali ao lado, a Praça da Independência e, claro, o Zoológico, na outra margem de Maputo. Sou de um tempo em que esses locais tinham um simbolismo acentuado, e, novo, percebia que existia uma espécie de um roteiro turístico, ainda que incipiente, da capital. Os anos passaram e mudaram-se as vontades. E a mudança, aqui, parece-nos algo reacionário, no sentido de que nos coloca a remar contra a maré, num esforço tão redundante quanto desnecessário.

Se, há alguns anos tivemos uma rota turística em Maputo, mesmo de faz-de-contas, hoje já nem sabemos o que isso significa, por desinteresse nosso e por negligência. Isto é assombroso, porque à semelhança da cultura, o turismo é a porta de entrada de um país, e isto não se constrói apenas com praias bonitas ou com infra-estruturas atraentes. Mais do que o belo, essa componente tornada mais complexa por Marcel Duchamp, com o seu famoso urinol, é necessário investirmos no simbolismo das coisas, engrandece-las como merecem na mesma proporção que as divulgamos e valorizamos. Ninguém vai nos dizer que as casas onde viveram José Craveirinha ou Malangatana são santuários que se devem manter abertos para o mundo, deixando, assim, de pertencer aos filhos ou netos daqueles artistas da palavra e da cor. Aquelas casas são dos moçambicanos porque nos apropriamos daquelas figuras de forma total e completa.

A propósito destas duas palavras, total e completa, que me devolvem a imagem de Samora, pensemos agora no que é feito da casa onde viveu o primeiro Presidente da República. Quantos de nós a conhecemos? Qual o estado e como contribuiria para o turismo da capital se tomássemos uma decisão acertada? Quem diz Samora, aqui, também refere-se a Chissano, Mucumbi, Caliano, Eusébio, Fany Mfumo, Ricardo Chibanga e etc.

A Associação IVERCA tem feito um trabalho notável, quanto à divulgação das potencialidades da Mafalala e não é de hoje. Mas é um caso quase que isolado. A intervenção pujante do Ministério da Cultura e Turismo é indispensável. Quer para tornar o bairro um espaço super aproveitado, com um roteiro claro, quer em activar espaços com história, que suscitem curiosidade, mexam com emoções, com arte e com a intelectualidade, como é o caso do antigo Grémio Africano de Lourenço Marques, hoje esquecido no esquecimento – a ser supérfluo de propósito. Como conseguimos mandar pastar a casa de O brado africano, tão bem feito pelos irmão Albasini?

Depois de termos colocado um rei de chinelos no antigo Instituto Negrófilo (Ntsindya), corrigimos e bem o erro. Aquilo voltou a activar os feitos do primeiro locutor preto da Rádio Clube de Moçambique (RM) em pleno regime colonial, o professor Samuel Dabula, e de tantos outros que por lá passaram, como a Orquestra Djambo, Mondlane, Josina e outros estudantes do NESAM. Mas a pergunta volta ao de cima: estamos a fazer do Ntsindya um verdeiro celeiro das artes, no qual o passado e o presente conectam-se de maneira que a instituição seja uma referência nesse sentido? Quantos da década 80 – e não me quero referir aos que nasceram em noventa e tal, coitados – visitaram os espaços mencionados? O turismo começa connosco, com a convicção de que o que estamos a promover é muito bom. Quer dizer, corrijo. Não só é muito bom como é o melhor do mundo. Para o efeito, quiçá, os responsáveis pela área turística de Maputo (e do país inteiro) precisem estagiar no mercado do Xipamanine ou mesmo na Baixa da capital. Mas o melhor é no Estrela, que ali aprende-se num instante os truques inabaláveis para vender um produto, com ousadia, determinação, persuasão e até dissuasão. Ali, os fundamentos da oratória defendidos por Górgias ou por Isócrates, pensadores da Antiguidade Clássica que há mais de 2000 anos preocuparam-se com a ornamentação da linguagem no acto discursivo, são captados num ápice, à velocidade supersónica, porque lá a conversa para boi dormir desperta.

Moçambique precisa abrir-se para si próprio e acabar com a ladainha de que Nelspruit é o melhor que uma classe média fantoche pode alcançar. Devemos olhar mais para a nossa realidade, convictos de que aqui temos coisas bonitas, suficientes para fazerem a diferença se houver o mínimo de bom senso e criatividade.

O Conselho Municipal tem uma iniciativa extraordinária, a Feira do Livro de Maputo; a Khuzula, tem o AZGO, que tanto deve nos orgulhar; Minó tem o Zouk, que mexe com muita gente; o Girassol tem o Festival Internacional Teatro de Inverno; o Xiquitsi tem a temporada de música clássica; a More Promotins, agora, tem o Festival Internacional de Jazz de Maputo – tão apostada em envolver-se na divulgação do turismo nacional, vamos ver o que vai dar –; a BDQ, tem o Moments of Jazz; o nosso Ministério, o Festival Nacional da Cultura; o Franco, a Festa da Música. E pergunto, de que modo estas actividades todas estão conectadas para proporcionar uma dinâmica cultural e turística acentuada à cidade? Temos uma conexão? Conseguimos, com efeito, unir arte com outras realidades ao nosso redor, de tal forma que, ao sair de Maputo, Benson, Miller, Ocean, Bona, Afonso Cruz, Helder Macedo (um pouco nosso), uma Bethânia, Gadú, etc., levem consigo um desejo de cá voltarem de férias ou de espalhar elogios pelo país além-fronteira? Ou tudo acaba no tão afamado intercâmbio cultural?

É preciso fazer mais e melhor. Alguém disse isso. E para fazermos mais e melhor, se não soubermos como se faz, devemos ter a grandeza de ser pequenos e aprender dos outros. Não é possível que não estejamos a ver o que a South Africa Airways tem estado a fazer pelo turismo sul-africano, unindo cultura e conhecimento. Veja-se o caso do INDABA e o Essence Festival. Eles têm dinheiro? Têm, mas é certo que a maquia não é tudo. Com uma cidade velha, como a nossa capital, podemos impressionar, desde que haja organização. Por exemplo, o turismo na Europa, em parte, vinca devido às cidades velhas que lá existem. A cidade invicta, Bruxelas e Amsterdão reflectem essa realidade. Porque ali não se constrói a torto e a direito como nós fazemos, sem cumprir prazos de construção em muitos casos e sem abandonar as obras. As praças, favorecem os transeuntes, ao invés de viaturas, como calha nas nossas. Lá há um respeito pelo velho, que cá não temos nem pelo Homem e tão-pouco pela obra. O Museu Van Gogh, no Museumplein, Amesterdão, e tantos outros ali em redor, são espaços que rendem milhões de euros porque houve um pensamento e uma comunicação que os torna valiosíssimos. Se nós próprios não valorarmos os nossos produtos continuaremos nesta previsibilidade decadente, de uma cidade que extermina salas de cinema como cresce em densidade populacional sem criar parques de diversões e de lazer a sério, para adultos e para crianças.

Temos de olhar urgentemente para o nosso passado e ressuscitar todos aqueles que devem ficar imortalizados e fazer disso uma forma de promover a cultura, o turismo e ganhar dinheiro. Temos de voltar a acreditar que aqueles passeios escolares feitos por alguns de nós, na meninice, têm uma importância na formação de uma personalidade íntegra e na construção de um território limpo, mais do que na via, em nós mesmos. Estamos carentes desse território invisível e devemos recuperá-lo porque quem gosta e tem a noção do que o turismo vale, quem aprende a partilhar a beleza com os outros e sente-se parte disso, não atira uma casca de banana do interior do “chapa” para a rua; não condena às árvores a um ácido cruel e é o primeiro a dizer que existe alguma terra onde o batimento cardíaco é o criador do próprio coração. Moçambique pode ser essa terra, se diferentes intervenientes unirem-se por um propósito, porque Moçambique, nem mais, é maningue nice!

 

Ninguém dúvida que o 11 de Setembro de 2011 mudou por completo a forma como o mundo lida com o terrorismo. A resposta imediata do ataque da Al Qaeda nos Estados Unidos da América foi o reforço dos serviços de inteligência americana e com base nisso foi possível perseguir células terroristas no mundo e os seus cérebros, o que culminou com o assassinato de Bin Laden.

Os ataques iniciados a 6 de Outubro corrente na vila da Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado não pode de jeito algum ser ignorado ou equiparado a um ataque isolado, sem nenhum significado subjacente. Muito pelo contrário, aquilo é um indicativo de que qualquer um de nós, em qualquer canto deste país pode acordar no manto de um ataque terrorista. Todos podemos ser vítimas e por isso o combate a esse fenómeno deve fazer parte da agenda nacional.

Aqui já não estamos perante um conflito militar entre o Governo e a Renamo, onde os alvos estão bem identificados. Lembremo-nos que naqueles ataques, os homens armados abriram fogo na Esquadra da Polícia, onde de forma indiscriminada espalharam terror com os violentos disparos de armas de fogo tipo AKM. Podiam estar cidadãos queixosos naquele instante e podiam ter morrido. Nas comunidades onde os mesmos se refugiaram depois dos ataques a polícia fez uma rusga e também disparou, recorrendo, até, à artilharia pesado, pelo que podiam ter morrido cidadãos inocentes.

Semana passada o Conselho de Ministros anunciou a aprovação da Lei que combate actos terroristas. Salvo o erro é a primeira na história do país. Já é um passo, mas falta o essencial: orçamento que fortifique os serviços de contra inteligência policial e das Forças de Defesa e Segurança. Podem questionar a prioridade da segurança num país que sofre de fome, de crise financeira aguda, etc. A resposta podemos encontra no vizinho Zimbabwè, por exemplo, onde mesmo com a crise sempre subiu o orçamento para a área da segurança do Estado.

Mas isso é futuro! Olhando para o passado e o presente ficou indignado: como se explica que grupos de jovens armados tenham se incubado durante três anos e os serviços secretos não conseguiram os desactivar? A Polícia, ali perto foi comunicada e não agiu para evitar o pior. Consequência, 17 pessoas morreram naquele ataque dos chamados homens do Al Shabaab. Alguém devia ser responsabilizado. O comandante distrital seria o primeiro a cair. Só como estamos num país…”queixa a andar”, como escrever Mia Couto.

Um bom médico não é avaliado pelo mínimo número de erros que comete, mas sim pelos erros que não comete. Então, um bom serviço secreto de segurança do Estado é aquele que é capaz de interceptar e desactivar planos de atentados. No nosso caso, a “secreta” chumbou.

Mas tenho também questões por fazer. Quem são aqueles homens armados? Quem os financia com armamento de guerra? Com que intenção? E porque é que escolheu Mocímboa da Praia? Justamente ali na vila onde fica o aeródromo bastante usado pelas companhias que estão envolvidas nos projectos de gás em Palma, também naquelas bandas? Que mensagem queriam passar ao atacar a Polícia?

Na entrevista publicada na edição de ontem deste, o filósofo Severino Ngoenha abordou a questão do ressurgimento dos grupos étnico-regionais e fez uma relação com a descoberta dos recursos minerais no Norte que podem polarizar ainda mais este mal social. Numa das passagens disse algo que achei muito interessante: “Suspeito (também) de que alguma comunidade internacional ou algumas empresas internacionais não estão completamente livres ou independentes deste fenómeno. Algumas pessoas têm interesse em que este fenómeno se alargue, isto é extremamente perigoso para um dos fundamentos da vida de Moçambique, que é a nossa Unidade Nacional”.

Concordo plenamente com esta visão do Professor Severino e acho que pors detrás dos homens armados que criaram terror em Mocíboa da Praia há interesses que devem ser investigados e desmascarados. Não nos esquecamos que a segurança dos mega-projectos de gás do Rovuma é um negócio bastante lucrativo. Armando Guebuza, enquanto chefe de Estado, fez um investimento na área militar, onde sabemos que parte da frota de barcos encomendados em nome da Ematum, afinal de contas outros era para o exército (fiscalização das águas territoriais moçambicanas). Infelizmente a forma como esse investimento foi feita fez com que fosse completamente combatido – as chamadas dívidas ocultas que nos levaram ao túnel da crise do qual nem temos perspectivas de sair. Verdade, porém, é que as empresas multinacionais do ramo de segurança privada não iam gostar de perder o negócio em Moçambique. Com efeito, os ataques na Mocímboa da praia não seriam uma forma de desacreditar a capacidade nacional de garantir segurança a esses projectos para legitimar a contratação de empresas internacionais por parte dessas companhias?

Ademais. Porque é que esses ataques não aconteceram na província de Gaza onde não há qualquer investimento de vulto?

O que quero dizer é que o “timing” em que os ataques acontecem (quando se caminha para o início da exploração do gás que nos coloca no espectro do mundo dos gigantes como a Rússia e Estados Unidos), o local e os alvos escolhidos não foi ao acaso e cabe aos Serviços de Informação e Segurança do Estado investigar profundamente e evitarem o desenvolvimento de movimentos terroristas como assistimo. 

Escuro. Noite. Ele achegou-se com intenções claras. A mulher esquivou o olhar com timidez acesa de pirilampo. Pôs as mãos no peito do homem, defensiva, naquela recusa que atiça a libido. Sentiu a mão áspera percorrer-lhe a cintura. A carícia evoluiu para um leve arrepio, depois cócega:

– Hiiii!

– É o quê?

– Cócegas.

A mão avançou pelo trópico de capricórnio, entre a blusa e capulana, por onde o corpo se greta em estrias. Pelas dobras da cintura. Pelo trilho agradável do fio de missangas que lhe segurava os amuletos. Pelas listras da pele tatuada à lâmina com a caligrafia dos antepassados. Pelo rio de suor que lhe percorria as costas. Num súbito acesso de razão, repeliu-o:

– Pára!

O homem pressionou-a contra a árvore. Ela cedeu, naquela submissão sem inocência com que as mulheres adestram os machos. Abraçou-a. Adivinhou-a a fechar os olhos quando disse:

– Hmmmmm!

– É o quê?

– Sinto.

– Sentes? O quê? – Perguntava com  o lábio à porta do pavilhão e o a voz a humedecer-lhe o ouvido. A mulher estremeceu. Sentiu o suor da camisa do homem quando correspondeu ao abraço e pousou a cabeça no peito largo. Ouvia-lhe os batuques acelerados do peito.

– Sinto coesão!! Forte coesão entre nós.

O homem sorriu, encostou-se nela com mais malícia, convencido que “coesão” significa “coisa grande”.

Ela repeliu-o, sem sair do abraço e tentou, em vão, falar sem mel no tom de voz:

– Sabes… – Levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos – sabes…

Ele calou-lhe com um beijo e continuaram ali,  duas silhuetas irrequietas, a fazer aquilo que os amantes fazem no escuro, ao luar, em noites quentes, húmidas e enluaradas, como aquela.

 

Um mosquito tentou protagonismo como em todas noites quentes, húmidas e enluaradas, mas não foi ouvido porque os beijos chiavam mais alto do que o zumbido e arfavam mais do que o croachar de rãs dum charco próximo.

A mão percorreu, sem permissão, os corredores do amor, a sala de espera, de reuniões, a secretaria… e antes que adentrasse em compartimentos vedados à estranhos, ela repeliu sem convicção na voz:

– Pára!

Como uma flor que se abre em pétalas a capulana desabrochou sem se desamarrar da cintura. A mão ousou pela pele arrepiada:

– Pára!

O homem parou subitamente. A mão desfaleceu, desapontado, quando percebeu, na coxa, a textura duma ceroula, daquelas intransponíveis com que elas decretam feriado no corpo e anunciam suas greves.

– Tira – sugeriu desesperado.

– Esquece – disse ela, com malícia no sorriso.

– Porque?

– Estou cansada de você me gastar…

– Eu sou teu namorado. É meu direito.

A mulher levantou o queixo e as sombracelhas, desafiadoramente.  Rebuscou o fundo da enciclopédia de conselhos maternais e atirou a frase mestre:

– Então me lobola.

Silêncio.

– Enquanto não me lobolares, és interino. Namorado interino. Se queres ser namorado efetivo, com direitos plenos, lobola-me.

O homem ficou a olhar, em silêncio, para o reflexo da lua nos olhos dela. Um mosquito segredou-lhe algo, na língua zumbida dos mosquitos, talvez a explicar o significado de “interino” que, no curto universo lexical, lhe soava à “inteirinho”. Não percebia como podia ser um namorado “inteirinho” mas não gozar de direitos inteirinhos.

A Autoridade Tributária está a levar a cabo uma fiscalização e auditoria às empresas e lojas em todo o país, com o objectivo de aferir se estas estão a pagar os impostos, com maior incidência no Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA). E a Confederação das Associações Económicas (CTA) veio a público repudiar a inspecção, alegando que a mesma vai sufocar cada vez mais as empresas que já enfrentam situações adversas, decorrentes da crise económica que o país atravessa, agravada pelo corte de financiamento ao Orçamento do Estado por parte dos parceiros de cooperação e instituições de Bretton Woods.

Na verdade, não esperava ouvir este posicionamento por parte da CTA, antes pelo contrário, devia apoiar a iniciativa da Autoridade Tributária, sensibilizando seus associados a receber os auditores, bem como a cumprirem com as suas obrigações fiscais. E mais, devia ajudar aqueles que, até ao momento, estão em dívidas com o fisco para regularizarem a sua situação e negociar a melhor forma de pagar as suas obrigações, beneficiando, se possível, de algum tipo de perdão. Mas condenar a AT pela inspecção e auditoria é uma mensagem errada da parte da CTA.

Se eu fosse a presidente da Autoridade Tributária mandava os inspectores irem auditar as contas dos dirigentes da CTA em primeiro lugar, porque o seu posicionamento mostra que temos muitas empresas que não estão a pagar os impostos e, como as multas são pesadas, estão todos receosos sobre o que vem aí.

Caros, chegou o momento do Estado moçambicano viver dos seus próprios recursos e isso significa que todos nós “sócios” deste Estado temos que contribuir para a sua sustentabilidade. E essa contribuição é feita através do pagamento dos impostos. Não podemos mais viver de mão estendida para outros povos que tiram dos seus rendimentos, limitando-se de alguns luxos, para financiar o funcionamento dos seus Estados e ainda nos dar dinheiro para sobrevivermos. Enquanto isso, aqueles que entre nós podem contribuir para o funcionamento do nosso Estado furtam-se para financiar seus luxos.

Até porque aproveito a ocasião para propor à Autoridade Tributária para adicionar a esta medida a sensibilização aos cidadãos a exigirem facturas sempre que adquirirem produtos e serviços ou mesmo quando tomarem refeições nos restaurantes e estimular esse hábito com premiação que faça as pessoas entenderem que esse acto que parece simples ajuda o Governo a ter recursos para financiar as suas actividades. Porque auditar empresas e lojas, quando as mesmas não passam facturas aos seus clientes, pode não ter o alcance que se pretende, aliás, há empresas e lojas que assim procedem que até deviam ser alvo de pesada multa.

Como ficou demonstrado pela reacção da CTA, a medida da AT choca com os interesses dos grandes empresários nacionais e pelo poder que a maior parte tem, esforços não faltarão para tentar travar as inspecções, por isso, apelo ao Governo a manter-se firme e não se deixar abalar pela pressão de quem quer que seja. O país precisa se endireitar e precisa de dinheiro para pagar salários, financiar a agricultura, educação e saúde. Os capitalistas e lobbistas devem conformar-se com a lei e não se pode permitir que capturem o Estado.

Entretanto, há que assumir que a moeda tem outra face e, por isso, reconheço e alinho com a CTA, quando diz que os impostos em Moçambique são caros e sufocam as empresas, pelo que apoio incondicionalmente a luta para que os mesmos sejam reduzidos e sejam tomadas medidas para que mais moçambicanos contribuam para financiar o nosso Estado. Essa, sim, é a luta que a CTA deve travar.

De facto, pagar impostos em Moçambique dói muito, principalmente para as Pequenas e Médias Empresas que cada metical que ganham procuram reforçar a sua capacidade de intervenção no mercado. Senão vejamos: as empresas têm que pagar 17% do IVA, que na verdade é imputado ao consumidor, o IRPS que também é pago pelo trabalhador ou sobre rendimentos do empresário e o IRPC pago pela empresa.

O IPRC, por sua vez, subdivide-se em Pagamento Especial por Conta que é igual ao valor correspondente a 0.5% do total da facturação anual e tem o limite mínimo de 30 000,00 Mt e máximo de 100 000,00 Mt. O segundo é o Pagamento por Conta que é tirado do lucro das empresas num determinado exercício económico. Por exemplo, se uma determinada empresa teve o lucro de 100 000.00 Mt a fórmula para pagar este imposto é: 100 000.00 Mt x 32% = 32000.00 Mt. Isto é o valor de impostos a pagar é de 32 000.00 Mt, mas, mesmo assim, as finanças solicitam um adiantamento do mesmo valor na ordem de 80%, ficando assim 32 000.00 Mt x 80% = 25 600.00 Mt. Os 25 600 Mt devem ser pagos em três prestações e podem ser usados pelo contribuinte no ano seguinte. 

Em outras palavras, o lucro de 100000.00 Mt paga por impostos um total de 57 600.00 Mt. E a empresa fica com 42,400.00Mt. E se ela decidir pagar dividendos ao accionista, o mesmo volta a estar sujeito a pagar o Imposto sobre Rendimento de Pessoa Singular (IRPS). Ou seja, dos 42 400.00 Mt, o Estado volta a ficar com 15% definidos pelo Código do IRPS. Isto é, 42 400.00 x 15% = 6 360.00 Mt. Por fim, o empresário fica apenas com o lucro líquido de 36 040.00 Mt.

O Estado fica com cerca de 64% do lucro das empresas e se tivermos em conta a dedução do Pagamento Especial por Conta, o valor que fica com o Estado sobe um pouco mais.

Segundo o demonstrado acima, a maior parte das empresas prefere fugir ao fisco ou declara ganhos muito reduzidos para pagar pouco pelos impostos. Mas agora com a inspecção e auditoria por parte da Autoridade Tributária, a empresa ou loja que for achada sem ter pago o IVA ou um dos impostos acima, terá de pagar o valor em dívida e mais uma multa de seis mil meticais por cada dia, desde a data em que deveria ter pago até à data que efectuar o pagamento, mais os juros de mora que são definidos no momento pela AT.

Há de facto que reduzir este sufoco às empresas, mas tal não passa por manter o actual status quo. As empresas e os singulares são obrigados, por lei, a cumprir estas regras e nem devem impedir o Estado de fiscalizar o seu cumprimento.

Aliviar o custo dos impostos deve também permitir ao Estado ir buscar impostos a sectores que estão praticamente isentos deles. Por exemplo, o Estado pode acabar com isenções fiscais aos Grandes Projectos, pode ir buscar impostos nos arrendamentos de imóveis; na venda de viaturas e dos imóveis, como voltar a cobrar IRPS a todas as categorias salariais, incluindo o trabalho doméstico, o comércio informal, combater todas as formas de contrabando, cobrar as barracas e contentores que preenchem cada esquina dos nossos bairros, entre outras actividades.

Ao alargar esta base de tributação e reduzir os impostos pagos pelas empresas, a Autoridade Tributária terá mais empresas, mais pessoas e mais comerciantes a contribuir e isso vai ajudar a combater o défice orçamental que antes era suprido através de doações.

Mas o Estado tem, igualmente, que se assumir pobre. Os impostos não podem ser usados para pagar vida luxuosa aos governantes. Servir o Estado tem de ser um privilégio e não uma forma para enriquecer. Há que reduzir os funcionários a mais no Aparelho do Estado. Porquê os Ministros, Governadores e outros funcionários seniores do Estado não podem pagar pelo seu próprio combustível? Seu telefone? Casa em que vivem? O rancho para as suas residências? Porquê não podem andar numa viatura modesta? Se até os nossos doadores andam em classe económica, porquê os nossos governantes, até de nível mediano, têm de viajar em classe executiva?

Se a maior parte dos moçambicanos vive na pobreza, não podem os governantes viver como se estivessem a governar um povo rico. E estes cortes na despesa do Estado, combinados com o alargamento da base tributária, vão certamente permitir-nos alcançar a sustentabilidade e independência orçamental. Não vamos precisar de viver de mão estendida, seremos senhores do nosso destino. Exemplos há muitos pelo mundo. Cuba e os países nórdicos devem nos inspirar para a transformação que se mostra muito urgente se quisermos ser um país independente e soberano ao nível económico.

Que Deus abençoe Moçambique!

Quando o mister Miguel Guambe convidou-me para apresentar a sua primeira obra “Educar e treinar Basquetebol”, interroguei-me logo: porquê eu?

É certo que comecei o jornalismo no desporto, fui um atleta de basquetebol. Aliás, Miguel Guambe foi o meu primeiro treinador do Basquetebol federado, no Costa do Sol. Mas não fui nem um lustroso atleta, nem sequer treinador para fazer, com autoridade, uma leitura crítica de uma obra que é um verdadeiro manual teórico e científico sobre o processo de treinamento do Basquetebol.

Mas o Miguel lembrou-me que eu também sou um professor, e que, como o demonstra no livro, há uma relação histórica entre o Basquetebol e a educação, porque este jogo nasceu no contexto escolar; o treinador é um professor e o campo de jogo uma enorme sala de aulas, delimitada, não por paredes, mas por linhas em toda a sua extensão, e as tabelas são os barómetros da avaliação, que determinam as aprovações (leia-se vitórias) e as reprovações (leia-se derrotas).

O treinador tem, assim, a obrigação de utilizar o jogo como um meio prático de educação ou quanto muito como uma alternativa educacional.

Estamos, portanto, em presença de um livro didáctico, que como afirma o seu autor, tem o objectivo de satisfazer as necessidades de quem quer melhorar o seu desempenho e educar através do treinamento das técnicas e tácticas do jogo de Basquetebol.

Através deste livro, o mister Miguel compartilha as suas vivências de décadas como treinador e professor, focalizado em dois públicos-alvo: a) o primeiro – dos professores-treinadores, que lidam com as crianças e adolescentes desde a fase da sua iniciação desportiva até à fase de aperfeiçoamento dos fundamentos e princípios do jogo. b) O segundo – dos treinadores que se focam na fase de especialização dos processos técnicos e em que o foco é a obtenção de resultados. A fita Alta Competição.

Estruturação do livro
O livro está estruturado em 7 capítulos, designadamente: O que nos fala da relação da história do Basquetebol com a educação. O que estabelece relação entre educar e ensinar Basquetebol. O que nos fala da função do treinador. O que nos fala dos fundamentos técnicos do Basquetebol. O que nos fala dos conteúdos tácticos de um jogo. E finalmente o que trata da planificação e programação do Basquetebol como actividade basilar para o sucesso.

No primeiro capítulo, o autor discorre pela história do Basquetebol, desde a sua fundação, no final do século XIX, com a particularidade de nos lembrar que o basquete nasceu na escola, tem uma dimensão pedagógica profunda. Ensina-nos os valores da entreajuda, do sacrifício, da superação, do aprender a viver com a derrota para poder chegar à vitória. A centralidade do Desporto na educação do homem.

No segundo capítulo, o autor centra-se sobre a necessidade de o treinador fazer uma selecção criteriosa do conteúdo e método do treino para facilitar aprendizagem do jovem jogador, elucidando-nos de três fases cruciais. a) A de iniciação desportiva, cujo foco devem ser actividades lúdicas, participativas e alegres. Considera-a mesmo ideal para ensinar a técnica. b) A fase de aperfeiçoamento. Aqui, sugere o autor, o treinador deve proporcionar ao atleta a oportunidade de praticar os fundamentos aprendidos e automatizados em situações que se aproximam do jogo, da competição. Por isso, deve ter exercícios em maior grau de dificuldade no desenvolvimento dos fundamentos, privilegiando resistência, força, velocidade, flexibilidade, coordenação, agilidade, etc. c) Especialização – aqui o foco é a obtenção de resultados.

No terceiro capítulo, o mister debruça-se sobre a função do treinador, realçando a dimensão humana de um mister. Com efeito, Miguel Guambe lembra-nos que um treinador é simultaneamente líder e gestor. Líder porque ele deve ser inspirador, agregador, mobilizador e ter o inequívoco reconhecimento dos próprios jogadores que lidera. Gestor porque a sua função é rentabilizar os activos que são os jogadores, obtendo deles o melhor rendimento possível. APROFUNDAR

No capítulo 5, o autor propõe-nos os fundamentos técnicos do Basquetebol. Apresenta-nos, com o labor de um treinador com sensibilidade para lidar com atletas principiantes, passo a passo, os principais movimentos e gestos a realizar no trabalho do domínio do corpo, a técnica de movimentos para execução de paragem a dois tempos, a forma como se deve pegar e dominar uma bola de basquetebol em varias situações de jogo, nomeadamente em pressing; a técnica de demarcação, recepção, passe, lançamento, drible, ressaltos, bloqueio. Neste capítulo estão os fundamentos técnicos mais elementares do conhecimento na área do treino, que nenhum treinador deve dispensar no processo de treino.

No capítulo 6, o autor apresenta-nos a dimensão activa do jogo, destacando o contra-ataque como o conteúdo táctico mais determinante, por ser a primeira forma de ataque de que dispõe uma equipa a partir da altura em que tem a posse da bola. Apesar de o autor nos propor o desenvolvimento do contra-ataque em múltiplas nuances tácticas, nomeadamente dois para zero; três para zero; quatro para zero e cinco para zero, sublinha que deve e pode ser realizado com a participação dos cinco jogadores de campo, requerendo a aposta na rapidez e na execução e organização colectiva.

Para além do contra-ataque, o autor apresenta-nos outras ideias tácticas suas sobre o jogo, nomeadamente os ataques contra defesas posicionais à zona, nos sistemas ofensivos, a recuperação defensiva, a defesa homem a homem e a defesa à zona, isto nos processos tácticos defensivos.

No sétimo e último capítulo, o autor escreve sobre a pedra angular de qualquer actividade que desenvolvemos, seja ela um jogo de Basquetebol ou de outra modalidade, ou o nosso trabalho ou ainda a nossa vida quotidiana: a importância da planificação e da programação.

O mister Miguel lembra-nos que também no processo de treinamento, o sucesso depende de boa rigorosa planificação e programação. Sem ela, nenhuma técnica ou táctico alcança resultados.
Como afirma numa das passagens da página 87, o entusiasmo do treinador contribui para o sucesso do exercício da sua função, mas é fundamental que o trabalho por si desenvolvido não fique exclusivamente entregue às suas emoções nem aos seus impulsos. A boa sessão está dependente da organização que o treinador introduz no seu trabalho, da programação da actividade por si dirigida, sempre com os interesses e as necessidades dos praticantes e da equipa. Por isso, o autor desperta-nos para a
necessidade de definição de metas colectivas e ou individuais para cada período da época como ponto de partida do trabalho de um treinador, a necessidade de especificar o trabalho e conteúdos a serem trabalhados no processo de treino, de saber se os jogadores estão preparados o suficiente para o que se lhes propõe, etc.

Aliás, um aspecto que este livro deixa evidente é o papel dos jogadores no trabalho do treinador. Já ouvimos falar de treinadores que dizem “Quero, posso e mando”. Os jogadores que os suportem!
O mister Miguel mostra-nos, neste livro, que não é assim como as coisas funcionam. Os atletas não são meros receptáculos das decisões do treinador. Este tem que contextualizar toda a sua acção de concepção, planeamento e implementação da sua ideia de jogo com e para os jogadores. Isto é, focalizando sempre os interesses e as necessidades dos atletas, afinal, o centro do jogo.

Esta é uma obra inovadora entre nós.
Não é comum entre nós um treinador decidir transpor para livro os seus conhecimentos teóricos, científicos e práticos sobre o treinamento no Desporto. Por isso, o mister Miguel marca território nisso. Valoriza o título de treinador, ainda visto, entre nós como alguém que trabalha em improviso.

Por isso, todos os que se interessam em desenvolver as suas capacidades intelectuais no campo do treino e da interpretação do jogo, não hesitem em ler esta obra. Leiam-na para aprender, mas também para a enriquecer. Porque não há nenhuma obra acabada. Como defende Vincent Jouve (2002:56), a leitura é uma actividade de antecipação, de estruturação e de interpretação. Ou como nos ensina Imbert (1986:56) a leitura de um texto é um exercício interpretativo, que encerra o ciclo do processo criativo iniciado no autor. Este livro vem mostrar que, ao contrário do que se possa pensar, há ciência por detrás da acção de um treinador e o sucesso de uns e de outros não é um mero acaso de a bola entrar ou bater no espigão.

O mister Miguel provoca os outros treinadores e estudiosos do Desporto a criar e enriquecer a nossa doutrina, com esta valiosa e poderosa ferramenta de trabalho.

Numa era em que o conhecimento é a trave mestra, talvez esta obra nos faça despertar para o que o Prof Chico da Conceição escreve no prefácio: que a qualidade de jogo e os progressos nacionais e internacionais que pretendemos alcançar, a formação de atletas de alto nível técnico, táctico e físico, que amiúde apressadamente pretendemos formar, continuarão a ser uma miragem se passos importantes e significativos não forem dados pela generalidade dos nossos professores de Educação Física e treinadores das várias modalidades, à escala nacional.

Que passos são esses? interrogar-se-ão alguns: e responde esta obra. Pensar o Desporto como uma disciplina científica e cujo resultado depende, em muito, do método que escolhemos seguir no nosso trabalho. 
 

Quem quiser desmentir esta afirmação arrisca-se a não ser convincente. A corrupção está mesmo na moda. Desde que o país experimentou a democracia que ela se evidenciou, entranhando nos mais finos tecidos da sociedade, até se auto-afirmar independente e livre de sanções. Já de barba branca e altamente nociva, ela torna-se um trunfo político, uma arma de guerra com balas de borracha que ferrem, mas não matam.

A corrupção como uma acção ou mesmo um conjunto de letras que produzem um significado constrangedor para quem o decifra longe do contágio social de um povo embriagado pela prática, é uma triste realidade nacional que repele o desenvolvimento do país.

Na eloquência dos seus discursos “cor-de-rosa”, o Presidente da República tem falado da luta contra a corrupção como um pastor quando prega a Palavra de Deus na luta desesperada pela conquista de fiéis. Quanto mais emocionante e embalador for, melhor. Assim foi no discurso de 15 de Janeiro de 2015, reeditado a 26 de Setembro de 2017 – para os camaradas no 11º Congresso – e agora com mais feitiço, no dia 13 de Outubro de 2017, para uma plateia de dirigentes intermédios da Função Pública.

Enquanto uns socorrem-se do ditado popular que diz “cão que ladra não morde”, outros, viciados de esperança, encontram na sabedoria popular a teoria que diz “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. O ângulo da verdade está na rigidez da crença individual; a crença directamente proporcional à verdade. Portanto, dispensa discussão – diriam os sábios.

O Orçamento do Estado para o próximo ano denuncia, em simples leitura, que poucos esforços serão encetados na luta contra a corrupção. O Presidente Nyusi quer instituições da Justiça fortes e independentes. Estas clamam por fundos para que tenham mais pujança e o Orçamento pouco altera no que aloca ao sector. E a grande corrupção vai-se enraizando, com a anuência objectiva das ferramentas cirúrgicas obsoletas.

Em voos rasantes, também se contempla o agudizar da pequena corrupção. A tesoura entrou no sector dos transportes, retirando mais de metade do valor que lhe foi atribuído no ano passado. Se indigna é a forma como são transportadas as pessoas, pior é o fomento das teias da corrupção. Os “my love” – salva-vidas – passam por inúmeras chantagens no trajecto em que actuam. Enquanto operam como alternativa possível, são cobrados formalismo, como se os desejássemos legalizar.   

Não pretendo ser a uma antítese à governação do dia, mas ainda que emocionalmente embale como os melosos discursos anestesiantes, passado o finito efeito insciente, afogo-me na arrepiante realidade, que aponta para mais décadas com esta moda em alta.

De uma declaração recente da senhora Graça Machel retirei, com a devida vénia, a ideia que tem muita profundidade que coloquei em título. Ela cabe, que nem uma luva, na realidade que hoje se vive no nosso desporto, sector que deveria ser um farol a iluminar a sociedade, porque guiado pelas máximas olímpicas da mente sã, em corpo são.

Não é isso, infelizmente, o que se vive de uma forma geral no nosso país, com enfoque, pela negativa, no futebol. Tudo é pegado pela rama, estamos preocupados com o imediato, pois o médio e longo prazo… a Deus pertence.

Mas o mais preocupante, é que não se vislumbram caminhos para inverter este cenário. É triste e doloroso, sobretudo quando os estudiosos nos fazem recordar que nos anais da mais importante entidade da FIFA estão lá, gravados de forma indelével como dos maiores futebolistas de sempre, dois nomes que nasceram na Pérola do Índico: Eusébio e Coluna.

Patrocínio e mão estendida

Profissional, amador, não amador, recreativo… onde colocar, com verdade, o nosso futebol? De acordo com as conveniências, o nosso desporto-rei vai gravitando de forma indefinida entre o sim e o não, ficando-se pelo… nim!

Pelo mundo, não é preciso aprofundar muito para se concluir que o dinheiro, no profissionalismo, é quem dita as leis. Não é por acaso que nas duas últimas décadas, os que venceram a mais importante prova de futebol entre clubes no Mundo – o Campeonato Europeu – são os que maiores receitas movimentam em todo o planeta: Barcelona, Real Madrid, Manchester, Bayern, Juventus…. Eles recrutam os melhores e mais bem pagos futebolistas do Mundo, realizam receitas extratosféricas vindas dos seus activos, da publicidade e da bilheteira.

E nós por cá? Quais as bases de sustentação para se criar um clube de alta competição e, mais do que isso, para a sua sustentação? Os novos emblemas, em regra vêm de elevador, em detrimento dos que possuem história e bases. Daí que o que (pre) domina tenha a ver com uma palavra mágica: patrocínio. Dele dependem os clubes, a Federação, a Liga. Jogadores para negociar são escassos, publicidade é quase nula, quotização idem, e a receita da bilheteira mal chega em muitos casos para pagar à arbitragem.

Quer isto dizer que vivemos à mercê de uma “teta” – o referido patrocínio – que tem que ser, a cada temporada renegociado, dependendo em regra da “sensibilidade” dos gestores das grandes empresas públicas, que dão o aval para garantir as competições.

E como o desporto não é uma ilha, é de prever dificuldades face à nova realidade nos transportes aéreos, por exemplo, que quase por milagre permitiu às LAM descontos e privilégios na ordem de 70% para a competição recém terminada.

Daí que…

Planificar com propriedade para não andar à última hora com as “calças na mão” e de braço estendido, seja crucial. Estamos a qualificar turmas para o próximo Moçambola, sem saber se começará em Fevereiro – o que seria bom para as nossas representações nas Afrotaças – ou mais tarde, pois ainda não estão fechadas as contas desta temporada. Vamos para o defeso e depois se verá, num tempo em que as contas do Mundial da Rússia no próximo ano e o do Qatar em 2022, já estão “fechados”!

Afinal, as nossas vitórias, improvisam-se!.

 

Confusão é uma palavra que inventamos para descrever uma ordem que não compreendemos

Henry Miller

Confusão é a palavra que, logo à partida, serve para caracterizar a família Nhaligagane, na nova peça da Companhia de Teatro Gungu: “Jogo de intrigas”, na qual se levantam vários problemas misturados relacionados com à actualidade moçambicana, como os desvios de fundo do sector público, a intolerância social, as burlas, os lobbies e a urgência em conseguir-se boa vida com pouco trabalho. Então, mais do que uma família, Nhaligagane é um país em fragmaneto, pintado a preto e branco com todas as rugas e vaidades. Eventualmente, por essa razão, mais uma vez, na peça do Gungu a corrupção não só é um tema recorrente como aparece com destaque, mostrando-se que directa ou indirectamente aquela mazela social afecta-nos a todos.

À medida que a estória do “Jogo de intrigas” ganha relevo, a peça permite que se obtenha, digamos, a personalidade de cada personagem. A partir daí, o expectador começa a relacionar as personagens com pessoas que conhece, pois as feições, as artimanhas, as necessidades e os vícios são propositadamente retratados com esse propósito. Assim, as magaivices de um Vítor (Gilberto Mendes), um gigolô que não se cansa da vida fácil de que se beneficia na casa dos sogros, onde vive, constituem modelos sociais de uma juventude carente de boladas como quem vem nisso o auge da dignidade humana. Aliás, Vítor é a personificação de um Homem egocentrista, capaz de virar as costas a tudo – à família, à moral e ao sentimento pela esposa – em troca de uma satisfação banal: a sensação de grandeza que, paradoxalmente, se confunde com fraqueza.

Cada personagem de “Jogo de intrigas” foi dada voz para com pretensão de construir uma imagem verosímil, tão perto da realidade que chega a parecer-se connosco próprios ou com quem está ao nosso lado. Sandra (Beatriz Munguambe) é um exemplo concreto, no caso, dessas mulheres que por almejarem prender o marido a todo custo não vêem constrangimentos em oferecê-lo uma viatura estatal ou em atropelar os preceitos de uma tradição machista, permitindo que ela e os pais alimentem o marido, quase trocando-lhe as cuecas. Nesse universo de “Jogo de intrigas” há ainda a destacar uma velha rabugenta e ninfomaníaca: Filomena, maravilhosamente bem encarnada por Juanet Rombe, do ponto de vista vocal, das carectas, da postura física e dos movimentos. Naquela personagem entendeu-se tudo: de que as sogras muitas vezes se esquecem de ter sido jovens algum dia e que, elas próprias, também cometeram erros típicos da idade. No entanto, ao contrário da casmurrice das sogras reais, na peça, Filomena aprende a perdoar, quando descobre que a nora, Julinha, engravidou num adultério 10 anos depois de tentar dar um filho ao marido infértil, Titos (Eduardo Gravata) – Emelda Macamo desempenha a um nível alto esse papel de nora inconsequente.

Todo este jogo é feito para configurar um sarcasmo em relação à podridão dos comportamentos que congestionam as avenidas de sujidade. Tudo de desastroso que a peça possui deve-se mais à facilidade que as personagens têm em falhar e menos à capacidade delas corrigirem os erros.  

Esta é uma peça que se centra muito no indivíduo, nas suas acções, pretensões, de modo que disso retire consequências não poucas vezes com efeitos colaterais. Fazendo de cada personagem um universo, a peça encenada por Gilberto Mendes activa em nós quase sempre as atitudes mais negativas para no fim tentar sugerir um carácter exemplar. Também por isso, “Jogo de intrigas” é uma palmatória – que nos obriga a ser mão – que castiga e educa, com responsabilização.

Título: “Jogo de intrigas”

Autor: Gungu

Teatro

Classificação: 13

XIPIKIRI
A chave rodou. O veículo respondeu ao golpe da ignição com um solavanco tímido, mas conteve a precipitação. O motor soltou-se e gemia: hmmmmmmmm! Trémulo, o carro parecia nervoso. O molho de chaves pendurado na ignição tilintava. O escape arfava em suspiro contínuo. Senti uma inquietação súbita, uma quase cócega no peito. A minha mão, instintivamente, tapou a boca. Tossi. A tosse, dizem os sábios que leem búzios e ossículos, é a alma a querer livrar-se de interferências e a recompor-se no corpo.

O painel acendeu avisando das carências do carro. Uma lusinha incómoda indicava gasolina na “reserva”. Mas não há problema, pensei, conheço o carro. Até porque nos dias de hoje poucos veículos se empanturram. Quase todos circulam com o estômago na “reserva”. Voltei a sentir aquela inquietante cócega no peito e a mão em direção à boca. Tossi.

Olhei para o manómetro da gasolina, a tentar calcular, pela distância que o ponteiro baixara do último traço, o que me sobrava de “reserva”. Reparei na forma absurda do ponteiro: parecia um facão. Um facão assustador. Um facão sobre os tracinhos vermelhos que indicam “reserva”. Gume sobre vermelho, estaria o carro a sangrar… a sangrar combustível? Levei a mão a boca, mas não para tossir: aquele gesto involuntário que ajuda a pensar, para perceber a ferida do veículo.
O escape suspirou em aceleração discreta. Pelo sim, pelo não, decidi ir abastecer sem maltratar o bolso. O carro, contornou os buracos de que o tapete da estrada é feito. Os pneus arrastaram o chão como se o chinelo de asfalto fosse uma enorme sola de borracha. Atravessou o trânsito entupido à velocidade de poupar gasolina. Atracou, finalmente, no bom porto da bomba de combustível, a agonizar. Com o carro assim ferido eu cuidava para não o magoar, de tal forma que, evitando movimentos bruscos, segurei a tosse.

A chave rodou em respeito ao sinal de “desligue o motor”. O veículo estremeceu. As luzes do painel apagaram-se. O ponteiro facão de gasolina não arreou porque já estava caído ao limite. O manómetro continuava a sangrar. O motor calou-se. A mangueira da bomba, enrolada ao jeito de uma serpente venenosa, olhava para mim com o bocal a salivar combustível. O homem das bombas aproximou-se, arrastando as botas à passo que se sabe, esforçando-se para preencher o uniforme. Eu tinha de aguentar a tosse até encher o tanque e o ponteiro, o facão, subir e parar de espicaçar aquela ferida.

Desenrolou a mangueira como se adestrasse uma enorme serpente. Bateu no vidro que eu me distraíra de abrir, para me perguntar “de quanto?”, enquanto eu rebuscava o fundo da algibeira e mexia, com a mão livre, o manípulo que abre a tampa do tanque.

Foi ali que percebi que era um assalto. Na mão direita do homem, o esguicho da mangueira era um pistola, tinha o dedo no gatilho e disparou: “sabe que combustível subiu, né?”.

No peito todo o escarro acumulado revirou-se, implodiu num engasgo e deu em tosse interminável, enquanto o assaltante, calmamente, enchia o tanque até onde os meus trocados permitiram.

 

Porque a alma não vive entre as coisas/ mas na acção ousada de as decifrar
Raquel Lanseros

Os subúrbios de Maputo encerram, na sua essência, vários momentos importantes da vida dos moçambicanos. Por isso, não faltam autores que encontram naqueles espaços a lanterna que ilumina o poder da criatividade literária. Um desses autores é Rogério Manjate, homem de teatro que também faz da escrita uma forma de alongar a vida, sempre breve quanto efémera.

Na colectânea de poesia Cicatriz encarnada, Manjate manipula o tempo e regressa ao passado, no qual habita, quiçá, a imagem eterna de um contexto feito de outras vicissitudes. O propósito, a existir algum, é maior: cantar Malanga como quem reconhece que disso depende a sonoridade que se quer afinada. Do mesmo jeito que Adelino Timóteo não se cansa de fazer de Macurungo o centro do mundo, seguindo esta pegada, à imagem de autores como Luandino Vieira, em relação a Makulusu, Craveirinha, em relação às suas Mafalalas – que não são apenas Mafalala –, o nosso poeta, nesta Cicatriz, faz da Malanga um lugar marcante, com o protagonismo que isso merece, mesmo quando o lugar é algo sem esperanças, feito de pesadelos. Deste modo, esta proposta literária exprime sentimentos com apego a certos hábitos e costumes, bem como ao imaginário de uma gente que se dedica a retirar dos pesadelos diários a alegria que a dança, as estórias à volta da fogueira garantem. Temos aqui um espaço-casa, com o conforto que tudo isso implica. Daí nos revermos, nós, os frutos desses lugares suburbanos, em demasia, quase em anacronia.

Cicatriz encarnada não deixa de nos entregar circunstâncias feitas de sonhos enterrados, uma poesia feita de dor de ver a casa, o lar, perder o seu carácter acolhedor: “a mesa já não é o centro da família” (p. 28).
Malanga é a casa dos sujeitos poéticos, onde a mágoa constante de uma realidade cruel dá intervalos intermitentes ao sorriso de uma infância perdida, tudo feito num jogo simétrico.

Sem que esta homenagem a Malanga e aos subúrbios em geral torne-se algo forçado, cansativo de se ler, longe disso, a qualidade reflectida no livro faz das 49 páginas deveras poucas, a versificação leva-nos a uma realidade humilde, por via dos cheiros, da arquitectura dos zincos e caniços que as palavras concretizam, como se fossem ferro e betão armado. Parece-nos que temos aqui uma poesia movida pela saudade ou, pelo menos, temos uma saudade provocada, que aproxima Cicatriz encarnada à escrita de um Aldino Muianga, afinal, Rogério Manjate canta o subúrbio como quem recupera os encantos de um Domador de burros ou mesmo Dos meninos da Malanga, de Calane da Silva. Como calha em Calane, em Cicatriz encarnada Malanga é um espaço indispensável, porque “dentro do céu da Malanga,/ o chão brinca de pensar/ e quer ser pássaro” (p. 35).

À laia de um contador de estórias sobre lugares, Rogério Manjate faz, digamos, da técnica narrativa um truque para que a sua poesia seja penetrante, cativante, algo que nos reaproxima a uma época dos que, à sua maneira, souberam conquistar a cidade.

Título: Cicatriz encarnada
Autor: Rogério Manjate
Editora: Cavalo do Mar
Classificação: 15

 

É virtual campeão, a duas jornadas do fim do Moçambola, com um avanço que não deixa dúvidas. Diante das câmaras da televisão, apresentou-se cansado, denotando rouquidão, mas alegria e gratidão. É o Chiquinho Conde que todos (re)conhecemos, vindo de uma família de Condes em que mais três irmãos jogaram na Selecção Nacional, algo que deveria figurar no livro dos recordes.

E se é verdade que a UD do Songo não é um clube qualquer e que com o seu antecessor, Artur Semedo, foi vencedor da Taça e esteve a “milímetros” do ceptro principal, foi com o novo técnico que a equipa ganhou estabilidade, revelando ou consolidando duas estrelas que já brilham no nosso firmamento futebolístico: Luís
Miquissone e Kambala. Quis o destino que um beirense de gema, assumido, tivesse “operacionalizado” a mudança do ceptro máximo da Beira para Tete. É assim o desporto profissional.

As mexidas operadas deram tranquilidade à equipa e ao clube, ganhando um fôlego que se espera ultrapasse as fronteiras na próxima temporada, seguindo o exemplo do ainda campeão beirense. A pontuação final, tudo indica, poderá figurar nos anais do Moçambola. E se fizer a dobradinha…

Carreira que orgulha a nação

Pela sua trajectória, é o futebolista moçambicano pós-Independência que chegou mais longe. Sporting, Setúbal, Tampa Bay (EUA) e Selecção de África foram algumas das equipas que repre¬sentou. Parecia ter uma “fada madrinha”, para os grandes momentos, mas a condição que fez sempre questão de cumprir foi: trabalho, muito trabalho.

Apesar da carreira pelo Mundo, colocou sempre em lugar cimeiro a presença nos Mambas, a quem ajudou a dar glórias, como capitão. Jogou pela equipa de todos nós 46 vezes, tendo marcado 12 golos. Na retina de muitos, ainda permanecem os “piques” colossais deste filho do Chiveve, que levaram ao rubro as multidões que viveram os momentos mais altos da vida dos Mambas. No pós-Independência foi o primeiro craque a sair legalmente do país, com contrato assinado com o Belenenses, em 1987. Venceu a Taça de Portugal no ano da entrada. O passo a seguir foi uma transferência para o Braga, onde permaneceu uma época, antes de rumar para o clube e cidade onde se tornou um talismã, com três regressos: Setúbal.

O grande salto deu-se em 94, para o Sporting, pela “mão” de Carlos Queirós. Foi, então, convocado para a Selecção de África que defrontou a sua congénere europeia. Ele e Tico-Tico são os únicos Mambas que se podem orgulhar de ter marcado presença em três CAN’s e sempre com prestações largamente salientadas.

Nos dias que correm, o sucesso na sua carreira como técnico, campeão pelo Ferroviário de Maputo em 2009 e agora pela UD do Songo, falam por si..

 

O passado é sempre uma ilusão, um devaneio da nossa imaginação
Carlos do Santos

Voar com asas quebradas é péssimo para qualquer pássaro que quer esbanjar-se na beleza de ser ave. É difícil e isso resulta num conjunto de problemas que fazem do voo um acto de sobrevivência. E sobreviver é tudo que Celinha, a protagonista da nova obra de Aldino Muianga, aprende desde os primeiros anos de vida, quando Macisse, sua mãe, a abandona na casa de um casal que não podia ter filhos. Bem visto, Asas quebradas é um romance feito de lutas interiores, motivadas pela impossibilidade de se fintar as adversidades enfrentadas no universo narrativo. Neste contexto, duas gerações de personagens femininas assumem o protagonismo da ficção, como figuras activas e passivas da acção que alimenta o enredo.

No seu novo romance, Aldino Muianga aposta na ficcionalidade de uma realidade dramática, essa com tios que violam sobrinhas dias antes de se casarem com o homem amado. Macisse, logo no início da estória, funciona como reflexo de quem ao ser humilhada por um parente é igualmente condenada a enfrentar um futuro incerto, com consequências funestas na vida da filha, quem, na impossibilidade de ser feliz vivendo uma mentira, decide romper as malhas que protegem o passado, porque de outro modo é impossível ter um presente tranquilo.

Na verdade, ao escrever a estória de Celinha, Aldino deixa-se levar pela necessidade de mostrar como os erros do passado, quando mal resolvidos, constituem problemas em maturação, categóricos em mandar para os ares tudo o que se leva anos a conquistar: a honra, a paz, o amor e a família. Para o efeito, este romance cruel na subalternização das personagens femininas, condenadas a sofrer como quem não merece outra sorte, instaura uma série de acontecimentos sucessivos, construídos para desestabilizar… Do mesmo modo, Asas quebradas é o grito que dá som à lagrima da mulher, sujeita a ver seu império de sonhos desmoronar-se, porque o homem que a devia proteger, a devora, e os antepassados que a deveriam proteger, deixam-na abandonada à sua sorte. Assim, a protagonista do romance vê-se a perder o sorriso permanentemente e a procurar pelas suas origens. Mais do que por uma questão identitária, as investidas de Celinha traduzem o desejo de se reencontrar com a paz de espírito que perdeu ao ficar sem o conforto de uma família que se acreditava ser de sangue.

Ora, se para Carlos dos Santos “o passado é sempre uma ilusão, um devaneio da nossa imaginação, modelada pelas especificidades da percepção de cada um de nós”, para Aldino Muianga, neste livro, o passado é uma mazela que se impõe no destino das personagens para alterar percursos, eliminar laços de familiaridade, esclarecer episódios e projectar novos caminhos, sem haver preocupação em relação à destruição do amor. Por outro lado, quando o passado é instaurado na narrativa por via de revelações fantásticas, cumprem a missão de punir, no caso de Celinha, até por erro que não se cometeu.  

Título: Asas quebradas
Autor: Aldino Muianga
Editora: Cavalo do Mar
Classificação: 14

 

Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades
José Saramago

A intolerância é um incidente constante em o mundo que iremos gaguejar de cor, de Pedro Pereira Lopes. Manifestada de formas diferentes, aquela mácula aparece categoricamente no livro mesmo com alguma finalidade: discriminar, condenar ou punir. Nisso, são várias as personagens, sobretudo protagonistas, que são encontradas, como é o caso de sebastião, em “reza as tuas orações todos os dias”. Nesta estória, o narrador apresenta enredo com um quadro emocional muito forte, ao descrever os dramas pelos quais um personagem passa, com impacto acentuado na família. Por via de sebastião, rapaz que se aventura na soruma quando devia concentrar-se na escola, “reza as tuas orações todos os dias” projecta uma animosidade entre as autoridades (polícia popular) e a família do infractor, que em lágrimas, soluços e silêncios à mistura clama por perdão. Todavia, o que poderia terminar com um abraço, um pedido de desculpas, promessas ou mesmo mudança de comportamento acaba numa punição cruel, fria e ideologicamente exagerada. Assim, boas-vindas e fenias, pais de sabastião, esgotam-se no desassossego de não conseguirem aceitar que o filho vá para Niassa numa operação que deveria ser apagada da História.

Portanto, o poder representado pela polícia nesta narrativa é intolerante, pois prima em seguir uma convicção cega em detrimento do tino. Tal decisão, não só desterra um rapaz novo como, anos mais tarde, cria um luto precoce.

Outra estória de Pereira Lopes que também configura um grau elevado no que à intolerância diz respeito é “uma noite na cela”. O protagonista desta narrativa é parafino, e, uma vez mais no livro, a polícia aparece como vilã da cena, mas, no caso, movida por um interesse imbecil: moedas para comprar cigarros. Por não pagar no momento em que é encontrado a circular à noite, sem bilhete de identidade, parafino é obrigado a pernoitar na cela. Podendo ser mais compreensíveis diante da explicação que parafino dá, as autoridades optam por outra via, ao verem frustradas as tentativas de extorquir o rapazola.

Em “o cobrador”, outra estória do livro, o fenómeno intolerância repete-se. Consciente disso, o protagonista da trama bufa num monólogo: “sou o cobrador deste machimbombo, tenho autoridade, sirvo à sociedade, sou, afinal, relevante. útil como nunca fui, mas os malditos suspeitam, não crêem. não porque não o querem, não o podem, não lhes tolera a consciência” (p. 46). E, no texto “a greve”, mais uma vez a polícia não consente, em nenhum momento, mesmo confrontada com uma razão óbvia, às reivindicações dos grevistas, o que faz com que na estória instaure-se um caus social entre as personagens, que leva à morte uma delas, eunito. Há ainda o exemplo de jesuina – em “a invenção do cemitério” –, quem morre de desgosto pela incapacidade de aceitar que não pode gerar filhos. Mesmo com um marido bom, quinzedias, jesuina é intolerante consigo mesma e, assim, parte para longa viagem.

Em todos estes casos – neste livro cujo estilo de escrita bem nos lembra uma Lispector, Saramago e, sobretudo, Lobo Antunes – a intolerância interfere negativamente na vida das personagens, abalando não apenas a vida delas, mas também dos entes queridos. Em geral, estas cinco estórias visualizam o que pode e acontece quando numa sociedade como a nossa as pessoas apenas sentenciam como se os seus telhados não fossem de vidro.  

Título: o mundo que iremos gaguejar de cor
Autor: Pedro Pereira Lopes
Editora: Cavalo do Mar
Classificação: 14  

 

Um nome é um corpo vivo fervilhando de energia

Paulina Chiziane

A poesia moçambicana continua a merecer atenção, com poetas que não sabem fazer outra coisa senão o bom uso da pena. Nesta vegetação, com vários oásis, não nos faltam essas vozes do silêncio feitas de solidão, desejo e viagem, como quem rema para adiar alguma coisa ou, quem sabe, para alongar o que a Aorta conserva. Uma dessas vozes – firme, frontal e livre – a conhecemos lá dos anos 70 e, dizemos mais uma vez, não a esquecemos porque consegue resistir aos impasses da vida, à ingratidão e ao esquecimento que graças (também) a esse deus restante não é colectivo: Luís Carlos Patraquim, a quem faremos, quando acabar, tudo o que White rejeita naquele “A morte” d’Opoeta diarista.

Mesmo a propósito de o deus restante, este é o título do último livro de Patraquim, o qual se constrói por via de uma tessitura textual exímia na apropriação de momentos. E não é apenas isso. A partir daí, o poeta gera um conjunto de elementos estéticos que minguariam se ali houvesse precipitação na expressão de sentimentos e das suas emoções. Nos poemas de o deus restante, Patraquim escreve sobre o seu coração, usando o que a mente armazena como meio para compor cada verso que o instante permiti-lhe criar. Além do efeito belo e comovente resultante da palavra bem combinada com as tais sugestões que nos conduzem aonde o poema quer, este parece-nos um livro que fragmenta lentamente o que Patraquim é: um leitor do mundo, seduzido pela vaidade de eternizar lugares, rostos, épocas e movimentos. Para o efeito, o poeta insere na escrita vários substantivos, próprios e comuns. Tal investimento não se gasta no nada, antes pelo contrário, enriquece e atribui singularidade aos textos, tornando-os um produto para a consolidação pessoal, para onde se regressa, porque em cada alusão sentimos que lá poderíamos ter estado.

Com efeito, os nomes de o deus restante funcionam para tornar a escrita de Patraquim consequência de muita relação com os contextos, além da literatura, mas não preza às previsibilidades da realidade. É como se os nomes fossem o complemento da criatividade, e são, o que obriga o leitor a saber mais para ali não ficar nefelibata. Os nomes emprestam aos poemas imagens, alongando os versos porque assim deixam de terminar no papel. Os nomes aglutinam uma referencialidade, demonstrando, eventualmente, sobre o que o autor pensa quando escreve. Ora, desde modo, porque a poesia não deixa de estar associada ao seu contexto, Patraquim, acompanhado de figuras como Heidegger, Erik Satie, Ivan Goran e William Blake – num traço poético que transporta há muitos anos –, por um lado, garante que um determinado período seja aproveitado no deleite literário, porque, por exemplo, escrever sobre Satie e Goran é também manter cativo na poesia momentos de séculos passados e bandeiras de países.

Por outro lado, Vístula, Zambeze, Xiquelene ou Lhangene funcionam como bússolas que nos ajudam a identificar a localização dos sujeitos poéticos na altura em que a versificação ganhava corpo, algo apreciável, porque enquanto os espaços são configurados pelo poder do vocábulo, quem lê é transportado para uma realidade que conhece ou vê-se na condição de inventar uma verdade. Não obstante, os vários nomes inseridos em o deus restante fazem da poesia uma forma de compreender os universos de que o autor é feito e os que ele próprio produz.

 

Título: o deus restante

Autor: Luís Carlos Patraquim

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 17

 

Xi-Cau Cau

Edil em grande plano…
do governador, nem sombra!

Antes de moçambicanos, somos manachuabos. Este foi o “pano de fundo” que uniu e levou a Quelimane, na Semana da comemorações das Bodas de Diamante, pessoas com ligações à terra, vindas de vários lugares do Mundo, que se juntaram aos que vivem na terra do coco, para um conjunto de manifestações belas, entre as programadas e as espontâneas. Assim sendo, sob um mesmo ideal, cidadãos de vários extratos sociais, muitos deles ignorando a “barriga de misérias” em que vivem, conviveram num de retemperar de esperanças inesquecível.
Entre o crer e o querer surgiram planos para vencer novas batalhas, pelo que as Bodas de Diamante “prometeram ser para ficar”, graças a uma ideia que pode representar um passo importante: a criação da Associação Bons Sinais, sem fins lucrativos, que vai realizar acções concretas, palpáveis, em prol da cidade e dos cidadãos, a começar pela reabilitação da velha catedral, a histórica igreja que marcou gerações e é um símbolo de amor quelimanense.

Feia nódoa em lindo pano

Difícil, muito difícil mesmo, é descrever o que de mais significativo aconteceu na ponta final do mês de Agosto. As cerimónias envolveram o povo anónimo, houve um carnaval quase permanente, a vinda de “muzungos” das embaixadas, quelimanenses na diáspora ou a viverem noutros pontos do país, um jogo de futebol Quelimene-Blantyre, corridas de bicicletas, de almadias, visitas às praias, palestras, comícios e muito mais. Festa para todos gostos e feitios, tocando todos os corações e sensibilidades.

Manuel de Araújo, o edil, falou inglês para traduzir as explanações do Edil do Blatyre, transmitiu, até à rouquidão, o que lhe ia na alma de cidadão nado e criado na terra do coco, levando ao êxtase os presentes no comício diante do Município, usando o seu chuabo “a vati”, o que quer dizer de raiz. Foi o momento mais alto de uma festa que tocou a fundo todas as sensibilidades… mas, provavelmente, houve uma excepção. Qual? A do Governador, que primou pela ausência, apesar da sua residência ser a escassos metros.

O que ficou nas mentes, pelo que testemunhámos? O exacerbar de um sentimento de anti-machanganismo (o Governador não é de lá), sendo também por alguns interpretado como falta de “guizos” de Sua Excelência, face à possibilidade de ser subalternizado pelo Edil, que pertence a um outro partido…

Ouvimos de tudo um pouco. Primeiro, que estava ausente, por assuntos “mais importantes”, o que seria uma péssima opção da agenda a não priorizacão das Bodas de Diamante da Cidade que dirige. Mas não. Afinal, o Chefe estava em Quelimane, aventando-se que tenha recebido “orientações” para não participar. Alguém perguntava: será que ele pensa que a data é do MDM?

Abdul Razak, é verdade, esteve representado, mas o sentimento quase generalizado foi de que se saiu muito mal na fotografia e, por arrastamento, o partido Frelimo de que é membro.

 

Quero partir a palavra aos pedaços para que volte a ser inteira
JR

A escrita literária ainda é o ocaso que conduz a uma peregrinação além do espaço. E nessa peregrinação inusitada quanto fascinante, tudo é feito em várias simetrias, como acontece em Romaria: três dimensões do vento, de Armindo Mathe (autor duas vezes distinguido na edição passada do Prémio Literário TDM, na categoria de Poesia e Conto). Na verdade, a colectânea de poemas de Mathe é um produto que soa como algo gerado pela natureza, explorado com os contrastes da palavra de modo a causar sentidos de um escrita ambulante por percorrer lugares (sólidos, líquidos e intangíveis) que não deveriam ter gente, talvez porque poeta reivindica a solidão como fecundidade de qualquer concretização poética com efeito.

De facto, Romaria é um livro constituído por três dimensões, as quais, em conjunto, vão configurando com que estado de espírito os versos foram escritos. Na primeira parte, a poesia apelativa de Mathe faz das dificuldades oportunidade para renovar a confiança, o empenho em relação a um por vir, daí que os textos “Angelina”, Marinheiro” e “Apocalipse” funcionem como modelo do que se deve ser para que tudo valha alguma coisa. Aqui a versificação traduz caminhos conducentes a um destino enigmático, com sonhos e insónias gerados por uma “obsessão” focada na ansiedade pelo amanhã. Nesse jogo, os sujeitos de enunciação associam-se à grandeza da natureza para recuperar um estado de pureza instaurado logo no primeiro texto do livro: “Natural”.

Como se estivessem numa marcha contínua, em que se escolhe o que interessa e exclui-se as redundâncias, na segunda parte do livro, as vozes dos poemas afastam-se da artificialidade com que se constroem certos saberes, produtos típicos dos trapezistas, agentes da encenação barata? Provavelmente, porque neste campo nada é certeza, mas causas da saga que a este nível tem no país o palco desencantado, onde o amor esfuma-se nas entrelinhas do sorriso. Esse impulso é feito com esse sentido de ser ave: “Não gosto nada disto, definitivamente, detesto fronteiras. Quebro as grades que me circundam. Sou mar, sou rio e sou ave na azul reverberação dos céus, doutra espécie. Não pretendo ser ninguém além da liberdade que sou” (p. 53).

A terceira parte do livro apresenta outras particularidades, atinente à saudade de um tempo feito da inocente sinceridade de um sorriso infantil, suportado por desejos do que é ideal, como ter um espaço insular: “Quero uma ilha desabitada/ onde não possa mais nada ver/ nem saudações inférteis de amor,/ nem sorrisos imprecisos” (p. 67). Do natural ao artificial, nesta dimensão, Armindo Mathe quer é esbanjar-se no desejo ideal, conciliando um cocktail de ingredientes que adocicam a escrita num patamar onde a poesia merece e deve estar.

Armindo Mathe escreve como quem recolhe sentimentos de modo a vendê-los depois de manufacturados. O efeito disso acaba numa obra que nos desliga de quem somos enquanto a leitura dura. Com isso, o poeta leva-nos aonde quer e bem entende, numa romaria cujo propósito é fazer de nós peregrinos da palavra sugerida e repartida.

Título: Romaria: três dimensões do vento
Autor: Armindo Mathe
Classificação: 15,5

 

A bondade é o mais precioso de todos os tesouros
Máximo Gorki

Em Albergue nocturno, Máximo Gorki manifesta um raciocínio: “a bondade é o mais precioso de todos os tesouros”. De facto, o autor russo tem muita razão, quase que na mesma proporção que João Paulo Borges Coelho, quando, em Água, salienta uma verdade: “deste nosso inferno, nos tempos que correm, migram quase todas as boas intenções”. Como que atento no paradoxo imposto pelas duas frases, nos dias que correm (por um lado, a bondade é nobre, no entanto, por outro, não investimos nela), Manuel Mutimucuio escreve VISÃO, uma novela bem ajustada à realidade moçambicana (presente) no que concerne a esse banal instinto de sobrevivência, o qual consiste em virar às costas à dignidade em troca de dólares.  

Tendo como protagonista Enoque, fundador e Director-Executivo da VISÃO, uma organização não-governamental, a narrativa de Mutimucuio concentra-se num jogo de influências que resumem as motivações por detrás de certas boas intenções, quer de entidades nacionais quer das quem vem do estrangeiro aparentemente para prestar um serviço social. Conversa para boi dormir. Este é um livro que retrata o processo de crescimento de uma instituição concebida para facturar em nome de uma filantropia hipócrita e ambiciosa. Nesse sentido, Manuel Mutimucuio investe com êxito numa estória muito bem contada, actual, leve, curta e sarcástica, como se a escrita fosse a única e verdadeira possibilidade de despir a máscara das quizumbas armadas em benevolentes. Escrevendo sobre a realidade que capta, mais do que reproduzir, o autor exprime um sentimento que, sendo seu, também é de um punhado de gente honesta, incapaz de perceber porque o peão de um tabuleiro de xadrez, não podendo ser bispo, num ápice, almeje tanto ser rei às custas dos outros.

VISÃO é sem dúvidas um livro de intervenção social que mostra como a ganância pode conduzir à degeneração de uma família que se revê na honestidade. Simultaneamente, esta obra de estreia de Manuel Mutimucuio brinca com a verdade de a bondade ter, muitas vezes, a ingratidão como paga, porque o oportunismo torna-se mais sedutor que qualquer sensatez. Fatiminha, cunhada de Enoque, é um exemplo disso, quando se aproveita a torto da confiança cedida pela irmã, Lurdes, num negócio na reprografia que beneficiava a ambas.

Esta estória que tem como centro a Beira, amplia o espaço da ficção moçambicana, abrindo uma linha temática nova, longe das repetições do passado. VISÃO é uma novela feita para o leitor actual, que prefere o cimento à palhota; é uma narrativa que não se esgota na ficcionalidade, de forma alguma, a ficção é apenas um subterfúgio para convidar o leitor a seguir um caminho crítico no que concerne à relação ONG e fomentadores de políticas sociais. Se Enoque representa a parte moçambicana, com toda manha que a estória lhe confere, Agnes é a personificação dos que, partindo do estrangeiro, vêm a Moçambique para alcançar uma notoriedade por um trabalho mal feito. Como é possível que ao invés de uma elevada soma de dinheiro permitir criação de programas para prevenir a propagação do HIV, em Sofala, seja convertida em tinta usada para pintar edifícios e estradas?  

Título: VISÃO
Autor: Manuel Mutimucuio
Editora: Fundza
Classificação: 15,5

 
 

 

Você pode apaixonar-se por belos estranhos e pelas promessas que eles fazem
Dire Straits

Como contar a história dos últimos 50/ 60 anos? Certamente, esta pergunta não merece resposta inquestionável. Não existe uma fórmula definitiva, mas sempre há possibilidades de se recuar no tempo e, das suas entranhas, retirar-se o que de mais impactante encontra-se. Em Recados de alma – romance histórico por investir na coexistência de figuras e episódios históricos com eventos e personagens inventados, como bem defende A. Halsall – temos essa hipótese de reconfigurar o cronótopo de um país feito de estórias incríveis, como a de Eugénio e Mafalda, personagens que fazem do amor um recurso que ultrapassa todas as barreiras e derruba preconceitos.

Na verdade, neste flashback atinente à história recente de Moçambique, Bento Baloi forma no casal Eugénio e Mafalda dois estratos sociais que, tendo muito de diferente, ambos aproximam-se e esbanjam-se no amor simplesmente por isso ser bom. É o sentimento cor-de-rosa que aproxima o menino pobre e preto de Mbongolwene, subúrbio de Lourenço Marques, à menina branca da cidade, fazendo do empregado um príncipe encantado entre lutas e promessas.

A partir do amor que surge num contexto de ódio entre pretos e brancos e vice-versa, Baloi tece um Moçambique possível, livre de estereótipos, um país feito de aproximações mesmo nas circunstâncias em que as distâncias são verdadeiramente acentuadas.

Recados de alma é daqueles romances que – se não forem consequência de uma experiência profunda do autor, o que não retira o mérito da imaginação, de modo algum –, seguramente, traduz uma (re)investigação concentrada dos contextos históricos e sociais aludidos. As diferentes ramificações diegéticas incorporadas no discurso do narrador faz deste livro um produto literário tanto verosímil como credível, pois, de forma equilibrada e numa viagem sem sobressaltos, o leitor é transportado sobre realidades conhecidas, no entanto, vistas de um ângulo raro. Tal evento, faz com o romance reconstrua espaços fundamentais por encerrarem em si fragmentos de um povo que se vai esquecendo de onde vem. A partir de uma relação polarizada entre o caniço e o cimento, Baloi apresenta-se muito ambicioso na reconfiguração espacial, o que nos leva a percorrer ruas de Lourenço Marques, Maputo, Harare, Lisboa, e etc., com uma minúcia de quem conhece esses territórios como a si próprio.

Pelo seu carácter atento ao pormenor, estes Recados conseguem despertar, com efeito, um conjunto de emoções no leitor à medida que o retrato e as peripécias de Eugénio, Mafalda, Simões, Cristina ou Original ganham relevo. São estas as principais personagens, elos que aproximam a História de Moçambique à uma ficção audaz, quer do ponto de vista do manejo de modalidades técnicos-narrativas, quer do ponto de vista da amplitude da narrativa contada.  

Esta obra literária é um autêntico contributo para salvaguardar a memória de uma época em que a coragem foi tudo. Por isso, cá temos os contornos heroicos do “Galo, galo amanheceu” que bem recordam a gloriosa Mafalala dos Calianos também eternizada em livro por Le Bon. Bem visto, os protagonistas do romance são exemplos dessa coragem que mais do que na dor, encontra na honra a força interior capaz de mover montanhas.

Título: Recados de alma
Autor: Bento Baloi
Editora: Fundação Fernando Leite Couto
Classificação: 17

 

A ideia de dar corpo na Sociedade do Notícias a um jornal desportivo, em período de muitas carências no país, mas de grande exaltação desportiva, esteve muito tempo a “ruminar”. Os estádios andavam permanentemente em ebulição, os campeonatos dos bairros, das empresas e dos quartéis idem. Na primeira “luz verde”, o nome escolhido foi “Equipa”. Para corporizar a ideia, a equipa integrava Renato Caldeira como chefe de Redacção e dois repórteres: Alexandre Zandamela e António Marmelo, este a acumular as suas funções com as de repórter fotográfico. Quando tudo parecia estar a postos, a carência de papel inviabilizou. Se não havia matéria-prima para as publicações já existentes…

Finalmente, o parto sonhado

24 de Julho de 1987. Passam-se agora 30 anos. Finalmente, um sonho tornava-se realidade no país. O surgimento de um jornal desportivo. E na hora em que a velha rotativa lançou para o mercado essa publicação inteiramente dedicada a um fenómeno tão querido dos moçambicanos, a bicha à porta da SN começou bem cedo, para uma edição que só sairia à rua às 16 horas. José Catorze, o então director-geral da empresa, apesar de não ser um entendido na matéria, acumulava a direcção máxima do semanário.

A primeira “orientação”: cada pessoa da bicha, só podia comprar dois exemplares. A manchete: transferência de Chiquinho Conde para o Belenenses – a primeira legalmente autorizada pós-independência. Na última página, também pela primeira vez, falava-se de uma menina, um fenómeno de trancinhas Lurdes Mutola. Ela jogava nos juvenis do Águia d'Ouro, tinha um pé esquerdo terrível e “desgraçava” os futebolistas/homens das outras equipas. Deu então entrada na Associação um protesto, que culminou com a proibição de Mutola jogar nos federados com os meninos. Surgiu, em boa hora, a “mão” do falecido poeta José Craveirinha, que possibilitou o aparecimento da maior atleta moçambicana de sempre. Mas voltando ao lançamento do Desafio. O autor destas linhas, então com 38 anos, passou a chefiar editorialmente um projecto que poderia não durar, tendo em conta as experiências anteriores. Completavam a nova equipa redactorial, Boavida Funjua e Domingos Elias como repórter-fotográfico.

Desafio “pegou de estaca"

Cada letra e cada frase transportava um pouco de nós, os fazedores, após horas intermináveis de criação das matérias, revisão e “casamento” com as fotografias. Tudo acompanhado à minúcia até à paginação. E como estariam a reagir os leitores? Essa responsabilidade tirava-nos o sono, a tal ponto que eu, face à responsabilidade que tinha, bastas vezes “espreitar”, sem dar nas vistas, as reacções dos meus leitores, se eram de alegria ou desagrado.

O jornal cedo se popularizou e passou a bi-semanário, integrando novos repórteres dos quais vou recordar alguns: Homero Lobo, Rosa Inguane, Paraskeeva, Rui Rebouta, César Langa, Jeremias Langa, entre outros. Mas o mais importante é que tudo fazíamos para cobrir o máximo de actividades e modalidades. Cada modalidade, sobretudo as menos concorridas e de menor impacto, tinham no seu seio um “repórter” para nos fornecer os dados para as notícias. O mesmo acontecia com os bairros e até quartéis. Dois nomes me vêm à memória pela dedicação a esta causa: Horácio Sucena, do ciclismo e Hamilton Surtin do Xadrez, ambos infelizmente já falecidos.

Do sucesso deste empreendimento, um registo: uma quarta-feira à tarde, no campo do Maxaquene e durante um jogo de futebol, o público, numa avalanche que dava a entender alguma anormalidade, correu em massa em direcção aos portões. Eu que tinha participado no fecho do jornal nessa manhã, questionei a razão da correria. Disseram-me: “o Desafio acaba de sair”. Eram outros tempos e realidades, em que havia um grande nível de interesse, tanto pela leitura, como pelo desporto do país!

 

São assim os homens (…): têm medo das mulheres quando elas falam e mais medo ainda quando ficam caladas
Mia Couto

Mutumbela Gogo estreou há dias Os pilares da sociedade, obra apropriada do dramaturgo Henrik Ibsen, mesmo com o intuito de estabelecer uma relação entre a Noruega de um período e Moçambique destes dias. Tal propósito, com efeito, foi bem alcançado, afinal a peça secular tem no enredo uma actualidade que nos inquieta.

Os pilares da sociedade, à imagem do que acontece com Ibsen, na versão do Mutumbela traz consigo a estória de um empresário que investe na construção e transporte naval: Karsten Bernick (Jorge Vaz). Esse personagem ardiloso, que não mede consequências para atingir os seus objectivos, mantendo a sua reputação, reflecte a ganância que cá se tem pelo dinheiro e pelas negociatas resultantes de várias “comichões”, como diria Sérgio Vieira. Por isso, na primeira oportunidade que tem, Karsten Bernick permite que a honra de um homem leal a si, Johan (Hélder Timane), fique maculada. Na sombra de uma inocência pirata, Bernick ergue seu império de influências e tenta levar a cabo um grande projecto ferroviário. Mas porque a mentira, em alguns casos, tem mesmo pernas curtas, depois de longo tempo de ausência, Johan regressa com a irmã Lona, antiga paixão de Bernick, para lavar a imagem. É nesse regresso que se desenrola uma cadeia de amor de uns com os outros que, afinal, nem o tempo foi capaz de extinguir. Com isso, a peça introduz-nos na intimidade de uma família nobre e nos alicerces que a sustentam.

Assim, mais do que recuar no tempo, com esta obra Mutumbela projecta um país estereotipado, cuja ignorância vinca na incompetência em compreender que os pilares da sociedade não são aqueles que se julgam ser. Antes pelo contrário, são aqueles que não se quer que sejam: as mulheres e essa incessante coragem em resistir à merda, por elas acreditarem que tudo na natureza, de facto, transforma-se. Esta peça dá eco a essas famosas falas de Lavoisier, pois, num contexto de podridão, Lona (Isabel Jorge), contra todas as expectativas, consegue o improvável, tornar Bernick outra personagem. Lona é tão poderosa que Bernick teme a sua fala e o seu silêncio. No entanto, é a inteligência dela que faz a diferença. A mensagem da peça é clara a esse respeito: não se deve desistir de lutar contra as banalidades desencadeadas por endinheirados deste país. A sugestão encaixa bem nos políticos e os navios em referência na estória, como “The Indian Girl”, aproximam ainda mais a peça de Ibsen à nossa realidade.   

Contando com actores como Adelino Branquinho, Vítor Raposo, Yolanda Fumo, Angelina Chavango e, diga-se, com uma belíssima performance de Yuck Miranda, Os pilares não envereda pelo caminho da crítica opaca, forjada para difamar governantes, embora haja muita alusão implícita a eles. O foco é outro, mostrar como dirigentes são para, depois, sugerir o que a sociedade deve fazer de modo a recuperar neles o bom senso. É uma obra feita de convicções, com duas faces da moeda: o problema e a solução; uma obra que se deixa mover pelo objectivo de eliminar o conformismo nos espectadores, e, daí, começar a reconstruir o edifício de uma nação forte, assente nos verdadeiros pilares da casa que queremos. Porque a mensagem é que mais importa, o cenário, o figurino são assuntos marginais. O maior investimento vai para a complexidade da trama feita de repulsa em relação a um quotidiano cada vez mais asqueroso.

Os pilares da sociedade notifica-nos para, ao invés de atirarmos a primeira pedra contra os lobistas do país, passarmos a lutar por eles, porque libertá-los é também uma forma de devolver Moçambique aos carris do progresso.

Título: Os pilares da sociedade
Autor: Mutumbela Gogo
Teatro
Classificação: 15

 

 

Xi-Cau Cau

Belmiro Simango, Claudino Dias, Aníbal Manave, Ernesto Júnior e João Chirindza, constituíam o cinco-base. Mas havia outros como Ernesto Gomes, Firmino e José Moiane, que corporizaram a única vitória de Moçambique num Africano de Basquetebol de clubes, com a consequente ida ao Mundial, em Barcelona. No centro do sucesso, um nome: Chuck Skarshug, um técnico norte-americano fortíssimo no aspecto mental, sem o qual, seguramente a colectividade não teria chegado tão longe.

Decorria o ano de 1985. O Maxaquene era orientado por um treinador português chamado José Esteves. Tinha ganho o título nacional ao seu rival, o Desportivo, onde pontificavam os irmãos Amad e Naimo Mogne, com um base de excelência que dá pelo nome de João Paulo Vaz.

Então, que venha o Africano, a realizar-se entre nós.

Um técnico que fez a diferença

Chuck chegou a Moçambique 15 dias antes do arranque da prova. A sua ideia era mesmo a de ganhar, apesar da reconhecida superioridade dos adversários. O técnico norte-americano falava espanhol, o que facilitou a integração. Numa semana, ele já conhecia os hábitos e o “tamanho do coração” dos seus atletas. Passou a ser um amigão e um professor, quanto à importância da força mental, na alta competição.

Um exemplo: Chuck foi à casa de Firmino Moiane, família humilde e equacionou tudo quanto à entrega daquele atleta. Disse-me: “Caldeira, ele madruga, vai à Universidade, treina duro e ainda dá treinos à equipa feminina. O Firmino tem um coração grande. Por isso prefiro colocá-lo no banco e quando o mando lá para dentro, não preciso de lhe dizer nada”.

Veio o sorteio do Africano e saiu ao Maxaquene, na ronda inaugural, o Kano Pilars, então campeão africano. “Ainda bem” – disse o Chuck. “Vamos quebrar as tremedeiras e ver quem é que os tem no sítio”. Seguiram-se noites inolvidáveis de pavilhão cheio e vibrante, chegámos ao título, algo antes impensável.

Depois, seguiu-se o Mundial de Clubes, em Barcelona. Uma curiosidade: enquanto que no Algarve os baixinhos tugas se espantavam por ver um ajuntamento de pretos altos, em Barcelona, o que causava espanto era o inverso: um grupo de “txotes” a querer confrontar-se com autênticos gigantes.

Chuck era um ganhador. Não tinha meios-termos. No estágio pré-competitivo no Algarve, tudo foi preparado para um teste final, diante do Imortal da Albufeira, a três dias da competição na Catalunha. Os jogadores, contra a vontade do treinador, decidiram poupar-se. Pela primeira vez, Chuck viu o jogo sentado, parecendo indiferente. Interiormente, estava muito zangado.

Terminada a partida em que fomos derrotados por uma equipa da II divisão, encaminhamo-nos para o autocarro, em silêncio. Arrancámos. A meio do trajecto, o técnico mandou parar o veículo e deu ordens para se acenderem as luzes interiores. Seguiu-se uma palestra que até hoje me está gravada. Falou dos sacrifícios que todos tinham que fazer em prol dos milhões de moçambicanos que passam fome, da necessidade de confiarem na sua honestidade e entrega, ele que deixara a família a milhares de quilómetros.

Do sonho à realidade

Chuck não tinha a noção exacta das diferenças. Da mesma forma que vencera o Africano, achava possível ganhar o Mundial. No primeiro jogo, diante de uma equipa cubana, perdíamos ao intervalo por cerca de trinta pontos. O “mister” estava confuso e por isso mudou toda a equipa-base, metendo os suplentes, reforçados por Amad Mogne. E porque conseguimos um equilíbrio neste período, decretou a inversão: os titulares passavam a banqueiros. E assim foi. Mas as diferenças era enormes, em tudo. No jogo com os donos da casa, o Barça, a meta era a de perder “só” por 50 pontos, o que não foi atingido!

Em tempo de carências no país, várias estórias aconteceram nessa deslocação, mas vou recordar apenas duas:
No período de aquecimento antes do jogo, os catalães, que tinham dois norte-americanos, faziam “afundanços” e tudo o mais para nos impressionar. E quando as duas equipas entraram lado-a-lado para o campo, Lewis, um dos norte-americanos, de 2.15, girou a cabeça de José Moiane, que tinha cerca de 1.60 e exclamou: “você, com essa altura, vai jogar basquetebol comigo”?

Final do jogo com o Barça, as estrelas San Epifânio, De La Cruz, Sibílio, Vilacampa e outros, numa manifestação de simpatia, vieram ao nosso autocarro para fazerem a tradicional troca de camisolas. Uma honra, para nós, sem dúvida. Só que… os nossos atletas receberam as camisolas mas não puderam retribuir pois tratava-se, na realidade, de um dos dois jogos de equipamentos que possuíam. Foi difícil fazer entender essa realidade àquelas estrelas multimilionárias!

 

A casa é amizade construída aos poucos
Zélia Duncan

Na Janela para o oriente, de Eduardo White, e no Livro do desassossego, de Bernardo Soares (um dos heterónimos de Fernando Pessoa), a casa é um lugar distinto para a imaginação poética. É nela que a viagem para o exterior inicia em múltiplas dimensões, porque lá é o ponto de partida para um voo errante, desinibido. Não obstante, a casa não é o começo para aqueles poetas apenas. No seu livro de estreia, Hirondina Joshua sublinha a sua ligação virtual com o espaço que habita dentro e fora de si. São estes alguns cenários encontrados em Os ângulos da casa, um livro de poesia em que a palavra assume-se como um signo empenhado em gerar imagens e sentidos ao que no campo do ser poeta cabe.

Logo no primeiro texto do livro, Hirondina Joshua introduz o leitor à sua poiesis, repleta de salas, paredes e móveis, uma atmosfera feita de nada, no entanto, suficientemente capaz de urdir um sentimento ou tanto ou quanto nostálgico. É uma sensação esquisita esta de ler a autora nas circunstâncias em que faz da moradia um fertilizante na busca de uma combinação estética feita de muita naturalidade. Escrevendo sobre os compartimentos da sua própria moradia intangível, Joshua leva-nos de volta para nossa própria residência de modo a recuperarmos a essência das coisas “vãs”, paradoxalmente constituídas de tanta significação quando bem aproveitas. Os ângulos da casa recicla a poesia com coisas minguantes e sem se deslocar tanto do lugar, afinal partir, aqui, não implica necessariamente ir, também pode ser regressar a um plano que nos torna mais preparados para captar o que desperdiçamos em nós e em nosso redor.

A partir destes ângulos Hirondina sai para apresentar-se ao mundo, explorando exaustivamente a palavra, sem temê-la e sem poupá-la, pois a sua sintaxe é sempre o começo do que se pretende dizer. Então, as 83 páginas que fazem o livro sintetizam a determinação em apostar no ofício, porque, citamos: “Se for para entrarmos [na casa da poesia, pode-se entender] entremos com o corpo todo e depressa e usando a porta da frente” (p. 20).

A melhor Hirondina Joshua deste livro é essa que reconstrói a casa com o poder do verso, nesse retorno ao pormenor. Eventualmente, mais focada ao espaço e ao que a partir disso pode ser feito. Infelizmente, a aposta em retirar da paisagem domiciliar versos revestidos de muita humanidade é rapidamente substituída ao dar-se expressão a entidades textuais mais presas às experimentações do “eu”. Ainda bem que não varia o cuidado com o ritmo, a salvaguardar o equilíbrio da métrica, sobretudo quando o corpo do poema é mais acentuado.

Além disso, vale reparar que Os ângulos da casa é obra escrita por uma autora que não expõe as silhuetas dos seus sujeitos poéticos, mas a alma, de tal forma que cada uma pode trajar-se de qualquer sexo e ser um pouco das nossas entidades adormecidas. O poema da página 81 pode ser usado para notar este traço que impede a prevalência de imagens cor-de-rosa, vulgar em muitas poetisas: “ – Sou igual a todos os humanos. Capaz de amar e matar na mesma intensidade.// Do falo a escrita não precisa, ela por si pode urinar e fazer amor.// Ai, dói isto de pensar que a escrita precisa de um corpo táctil. E erecto”.  

Título: Os ângulos da casa
Autor: Hirondina Joshua
Editora: Fundação Fernando Leite Couto
Classificação: 13

 

 

Xi-CAU CAU
O BOM – Tudo foi criado e idealizado na governação do saudoso Presidente Samora Machel e os primeiros jogos tiveram um lançamento no Estádio da Machava, em cerimónia irrepetível. Agora estamos nos 13º Jogos Escolares, mantendo-se a tradição de reunir a pequenada, os técnicos, dirigentes e toda uma sociedade, por vezes “extasiada” com algo subestimado mas de capital importância nas nossas vidas: o desporto, sobretudo o infanto-juvenil.

Vivem-se, sem sombra de dúvidas, momentos ímpares de confraternização, ocasião para os meninos e meninas conhecerem um pouco mais do seu país, orgulharem-se das suas zonas de nascimento através de uma competição sã e, nalguns casos até usufruírem, mesmo que por poucos dias, de uma dieta alimentar mais rica e que afinal deveria ser a quotidiana.

Enriquecem-se os conhecimentos, vivem-se dias maravilhosos e sem as quotidianas obrigações dos muitos deveres e poucos direitos, fazendo aquilo que toda a criançada gosta: correr atrás de uma bola, brincar, conhecer gente nova, alargando horizontes.

A presença do Chefe de Estado na cerimónia de abertura, os Ministros e outros “titios” que eles só vêem pela televisão, estão ali, à frente dos seus olhos. Alegria, cor, festa… como anima!

O MAU – Um festival nacional com “pompa e circunstância” deveria ser do culminar de qualquer grande coisa. Não é o caso. Senão, vejamos: os Jogos Escolares, nesta altura, resumem-se às finais, que acontecem de dois em dois anos. No restante período… Andam os meninos e as meninas o ano inteiro, sem que a disciplina de Educação Física e Desportos faça parte do seu currículo real, funcionando como “uma borla” ou tempo para recuperação de outras disciplinas “mais importantes”. Não há memória de um aluno ter reprovado por não ter tido boa nota em EFD. Muito pouco se faz no intervalo dos festivais, tanto no tocante aos movimentos para conferir saúde aos estudantes, como no que à competição diz respeito.

Assim, sendo… É mau, muito mau mesmo, este adormecimento do desporto escolar ao longo do ano, despertando, cheio de frenesim só “para obter medalhas” na grande final. E o que vai acontecer à maioria destes meninos e meninas quando os JE findam? Uma pequena franja – os ditos talentos – vai ser enquadrada para representar clubes ou selecções, mas a maioria só voltará a ouvir falar de desporto daqui a dois anos.

Os especialistas poderão fundamentar o quão pernicioso é para a saúde, “puxar ao máximo pelo físico” durante dois meses, para depois deixá-lo adormecido o resto do ano. Convive-se com a exigência da competição e superação cerca de um mês e depois regressa-se, por falta de alternativas, muitas vezes a actividades perniciosas ao corpo e ao espírito. E quanto à busca de talentos, vem a pergunta: “um campeão nasce, ou faz-se”? A resposta é que, cada vez mais… faz-se! O  que é nato representa um percentual cada vez menor no surgimento dos grandes campeões. Por isso, o trabalho continuado, desde tenra idade, é decisivo.

Tivemos Mutola e queremos enquadrá-la na lógica do talento nacional, sonhando com outras estrelas da mesma grandeza. Foi um milagre e os milagres não surgem todos os dias, anos ou mesmo décadas. Dizia um dia a nossa Menina de Ouro: “quando tu ganhas algo cá dentro, não significa nada lá fora”.

Portanto, uma final pomposa, mas que não resulta de toda uma movimentação regular, tem apenas o condão de nos transmitir ilusões. Estamos, isso sim, em presença de uma pirâmide invertida, ou talvez mesmo de gigante de pés de barro.

 

Quem tem música e asa,/ não precisa de casa

Hélder Faife

“O canto dos escravos” é o título do novo livro de Paulina Chiziane. Escrito com essa sucessão de sílabas/ fonemas que formam unidade rítmica e melódica, isto é, o verso, a obra constrói-se com sentimentos impossíveis de conter na violência sentenciada pelo silêncio. Por essa razão, exprimir-se, aqui, é uma forma de se manter iluminado feito luz de uma mentalidade ainda por firmar.

Ao contrário dos versos líricos – que se esgotam na beleza da sugestão – estes de Chiziane têm num sonho ambicioso uma razão de existir: o sonho de ser ave e de transferir a metáfora do voo para toda a sua gente, do seu país, do seu continente na diáspora porque há toda uma África perdida algures no mundo. Por isso mesmo, a palavra dita objectivamente, sem rodeios e com tão poucos recursos estilísticos que tornam a mensagem ambígua ou algo polissémica, dilui-se com o canto para dar voz ao grito da liberdade.

Neste livro, Paulina Chiziane trava um combate exacerbado consigo mesma, pois nisso sobrevive a frontalidade com que encarra um explorador (in)visível, (in)temporal, além de um espaço. O tom da mensagem deste livro revela-nos um conjunto de entidades fartas da submissão e de todos os estereótipos à volta do Homem preto. Também por isso, a autora de “Niketche”, tal como nessa narrativa, abraça uma causa, não restrita à mulher, mas atinente a uma nação inteira, porque a dor desse chicote agora feito de paleio é sentida por todos. Não há dúvidas, nesta obra Chiziane apresenta-se com uma expressão muito coincidente com África surge et ambula, de Rui de Noronha, em termos de projecto do que este continente fragmentado por toda a parte, por gente imbecil, deve ser: sempre livre dos seus opressores, ainda que essa gente seja os ilustres libertadores da pátria.

Os cantos, de facto, são dos escravos, mas não se precisa recuar até ao séc. XIX para se perceber que os escravos, neste contexto literário, somos todos nós, excluídos/ extintos pelos nossos receios, silenciados pelas bocas que outrora nos deram voz. A esses, Paulina Chiziane, cada vez mais incisiva, algo que se confunde com amadurecimento (?), lembra: “Não é preciso matar gente para construir uma civilização” (p. 52). Outrossim, porque quer repartir com mais alguém as desventuras que não rendem manter trancadas no peito, a autora dá eco aos gritos dos seus sujeitos de enunciação, que nos dizem: “Em nome da salvação conheci os caminhos da perdição” (p. 70), verso melhor de entender quando se pensa no teor de um outro: “Os colonos já foram, mas deixaram capangas/ Fiéis guardiões dos fantasmas do passado” (p. 96).

A partir desta urdidura textual, fica-se mais claro em relação à sugestão deste livro. Paulina quer o mundo para sua gente – que por séculos viveu na sombra das suas cicatrizes – consciente de que só se pode conquistá-lo apropriando-se de território em território. Para o efeito, os sujeitos textuais cantam o canto dos escravos, transportando do passado a memória colectiva para suplantar o novo “Big Brother”. Portanto, nesta nova aparição literária – melhor quando se recita do que quando se lê em silêncio – Paulina Chiziane faz com que o canto seja um testemunho das crueldades antigas e actuais, força motriz para se arregaçar as mangas e partir à procura da liberdade, em qualquer lugar, porque um Homem livre não precisa de casa.

 

Título: O canto dos escravos

Autor: Paulina Chiziane

Editora: Matiko e Arte

Classificação: 13

XI-Cau Cau

O sistema existia e o combate na frente desportiva, à medida que a luta anti-colonial crescia, ia sendo assumido e enquadrada no processo mais vasto de libertação das pessoas e sua dignificação, como seres iguais e pensantes.
Justiça seja feita, numa realidade de puro amadorismo, a maior parte da elite que dirigia o desporto no “tempo da outra senhora” fazia-o com paixão, nos seus tempos livres. E disso se beneficiava uma franja de jovens que, pelo talento indiscutível, eram integrados no desporto do “xilunguine” e aí, facilmente, marcavam diferenças, pela positiva.

Recuando ao “meu” mundo

Vou recuar a 1961, altura em que eu vivia onde nasci, a Cidade de Quelimane. Tinha 12 anos, tudo começava e terminava no meu bairro, Sinacura, onde jogava nos tempos livres, assistindo amiúde ao campeonato de futebol no campo da Sagrada Família. Só nos “dias grandes” ia às partidas da cidade. Era o que a realidade me permitia sonhar, pois o meu Mundo estava limitado a esse espaço e horizonte.

Nas peladas suburbanas, recordo-me, a ideia prevalecente, era a de que “o branco não sabe jogar futebol”. Porém, havia sempre que se fazer uma cedência, pois só o filho do cantineiro tinha uma bola de borracha. Isso garantia-lhe um lugar cativo.

Jogávamos nos terrenos baldios, sonhando com os craques da cidade. Lá, as regras estavam bem definidas. Ferroviário e Sporting eram rivais, batiam-se forte e feio, por razões desportivas, mas não só. É que, até finais da década 60, os leões não admitiam jogadores não-brancos. Nem nas suas equipas e muito menos a frequentarem as suas instalações. Excepção para os mulatos de certas famílias, cujo estatuto permitia “fazer vista grossa” à questão da cor da pele.
Recordo-me perfeitamente do dia em que o campo do Sporting de Quelimane registou uma anormal enchente nas bancadas e cujo motivo central era ver o primeiro negro a vestir a camisola “leonina”: chamava-se Rolando, vinha da então Rodésia. Jogava que se fartava, mas o motivo da curiosidade centrava-se no facto de ver como assentava num negro, a camisola dos “leões”!

Talento venceu segregação

Para além do Sporting, o futebol da urbe quelimanense era dominado pelo Ferroviário, que escolhia os melhores jovens da cidade e lhes proporcionava emprego, o Benfica, enquadrando o extracto social intermédio e a Associação Africana, dominada pelos mestiços, também ela conduzida pela estractificação: admitia os chamados “mulatos de segunda e os cafre-metade”.
Desta forma, as disputas transportavam toda a carga de diferenças e as vitórias ou derrotas representavam oportunidades para afirmação ou humilhação de uns para com os outros.

Na verdade, pela realização permanente de jogos “muda aos cinco e acaba aos dez” nas zonas suburbanas, a ascensão dos mais talentosos da “temba” aos clubes da cidade que se pretendiam manter fortes, rapidamente passaram a algo natural.
Foi assim em Quelimane, mas sei que na Beira, pela proximidade e influência da Rodésia, este processo foi bem mais difícil.

E em Lourenço Marques? No Sporting, o clube dos polícias, as integrações até finais da década 60 eram restritas e tinham o seu quê de cosméticas. Felizmente, quando vim para a capital, em 1964, havia dois clubes que desde a sua raiz se posicionaram como anti-racistas: Desportivo de LM e 1.º de Maio, conhecidos como Nações Unidas, por integrarem negros, mestiços, brancos, asiáticos, chineses e de outras raças, sem quaisquer reservas. O que “mandava” era o talento. O Sporting de LM, já então havia acordado para essa realidade, a tempo de “exportar” alguns dos jogadores que eram os melhores do espaço português de então. Exemplos? Eusébio, Hilário, Madala Gaíza, Maurício, Satar, Armando Manhiça e muitos outros.

É verdade! Sem ter recorrido a armas, o desporto foi um importante factor de combate ao racismo e de aproximação entre os cidadãos.

 

Xi-Ca Cau

Memórias ricas, que o tempo não pode apagar: os novos nomes em clubes nacionais. Já lá vão quatro décadas!

Foi num comício muito concorrido, que o Presidente Samora Machel orientou, de forma enérgica, que não fazia mais sentido os clubes moçambicanos continuarem a ostentar designações dos colonizadores, ou de cariz tribal e religioso. Aplausos. Restava cumprir a ordem.

Nós, os jornalistas, de regresso às redacções, que passo daríamos a seguir? Se já não havia Sporting, nem Benfica, nem Mahafil ou Atlético Maometano; se ao Gazense, Inhambanense e outros, lhes haviam sido amputados os nomes, mas as competições prosseguiam, como é que nós, na Comunicação Social, poderíamos noticiar os próximos eventos?

A longa reunião na Secção Desportiva do Notícias resultou num contacto com o então Director Nacional, João Carlos da Conceição, que por sua vez fez consultas à Ministra da Educação, Graça Machel. Debalde. A resposta foi: contornem vocês o problema, mas esses nomes não podem ser usados.
O que fazer? Foi então que o Albuquerque Feire, um velho jornalista desportivo já falecido, trouxe a “gazua” que resolveu o problema. A introdução do “ex”. Moral da história: até à criação dos novos nomes, os clubes abrangidos seriam tratados da seguinte forma: ex-Sporting, contra ex-Benfica, no campo do ex-Mahafil. Imagine-se a tabela classificativa, cheia de ex…

Só à terceira AG nasceram os Maxacas

No meio deste delicado momento da mudança de nomes, é engraçado recordar o percurso do Sporting de Lourenço Marques, até chegar à designação Maxaquene. Na primeira AG nesse sentido, decidiu-se pela mudança para… Leões da Gorongosa. Dessa forma, manter-se-ia o símbolo e a génese leonina. Palmas e aplausos se sucederam.

Mas o Presidente Samora Machel queria mudanças efectivas e não cosméticas. Num comício dias depois, declarava: “mudaram de Sporting para leões, para nos enganarem. É como mudar a água de uma garrafa verde para um vasilhame branco e dizer que já não é água. Mudem de facto, queremos designações bem nacionais”.

Nova AG, nova tentativa, novo fiasco. Pela ligação às Linhas Aéreas, o novo nome proposto foi o de… Asas de Moçambique. A aprovação não agradou a todos. E mesmo antes da publicação no BR, a Direcção foi obrigada a convocar uma nova sessão magna.

A quem coube então a proposta, que acabou ficando, de se adoptar o nome do bairro em que o clube estava inserido? Ao saudoso Domingos Moura, um adepto de quatro costados, que apesar de leão, entendia a justeza da mudança.

E assim nasceu o Maxaquene, com novas cores, colectividade que com este nome já obteve inúmeros troféus, sobretudo em basquetebol, onde conquistou, em masculinos e femininos, títulos africanos.

Beira: Palmeiras, sim… mas com o leão!

Parece uma anedota, mas não é. A obrigatoriedade da mudança de nomes era para todo o território nacional. E nada obrigava as províncias a copiarem-se os nomes dos clubes da capital, até porque alguns optaram pelos dos seus bairros, designações apenas existentes em Maputo.

Vai daí, o Sporting da Beira, cujo presidente era um magnata chamado Abdul Azize, após muito resistir à mudança, concordou com o nome Palmeiras da Beira. Mas era preciso mudar o emblema, tirar de lá o leão. O mais lógico e acertado, era o símbolo passar a ser uma bonita palmeira.

Que fazer? – pensou o Azize. E acabou aceitando, mas… mandando desenhar na base da palmeira, a espreitar, um leãozinho do seu Sporting.

Foi, na realidade, mais uma batalha que se teve de travar, para remover o último símbolo do sportinguismo da colectividade beirense!.

 

Deus ajuda os bons quando são melhores que os maus
Isabel Allende

119 páginas fazem o livro A pátria do João Lucas, de Luís Artur, o qual baloiça entre a novela burlesca e o romance. É um livro de leitura fácil, cuja beleza discursiva é a que mais surpreende o leitor que entra em contacto com o autor, rico por possuir várias estórias contadas numa, por um narrador brilhante, com alto sentido de humor (isto vai dar teatro) e que, por isso, obriga-nos a ler com um sorriso guardado perto, pronto a manifestar.

Aparentemente, temos neste livro de Artur uma estória quotidiana, entre João Lucas e Rosa, dois namorados à moda antiga, daqueles casais que o amor é um meio para se chegar a um fim… à felicidade… Mas essa finalidade é interrompida, porque, nos tempos de cólera, entre guns and roses a vitória balança para a força. Assim, à saída de uma sala de cinema, o que era para ser até à morte é brutalmente interrompido por um conjunto de soldados que viu no João um potencial recruta. Daí, o nosso protagonista vai à tropa, levando consigo apenas uma bagagem de sonhos encarcerados no coração, portanto, insuficientes para continuar a ter sua Rosa perto de si.

Toda a estória de amor entre João e Rosa é contada de modo envolvente, com recurso a esses vai e vem provocados por analepses oportunamente inseridas no relato. Tudo a condizer do ponto de vista do relato diegético e de construção desse universo fictício. A alternância de focalizações, sobretudo omnisciente e externa, são elementos-chave nessa busca por verosimilhança atinente a uma realidade que nos tocou, para que o passado não fique perdido.

A partir do amor, este belo livro de Luís Artur conduz-nos a Nhezi e arredores. De lá, sem que nada seja forçado, confluímos nos anos da guerra entre uma posição e os tipos armados em bandidos. É essa cólera de uma atmosfera insana, envolvendo duas alas e muitos mais, que, comprometendo o sentimento do nosso casal, desterrando famílias (veja-se o rumo que tiveram Mandava e Julieta, pais de João), faz com que a astúcia do poder representado no comandante Bila ou na IGREJA UNIVERSAL REINO DOS RICOS vença. Bila é sinédoque do que a força é capaz na sua essência. De forma peremptória, Bila torna-se o vilão que se esmera para domar Rosa, vítima do seu próprio amor e da sua ingenuidade.  

A pátria do João Lucas é ainda um notável livro porque as linhas que fazem o enredo garantem uma sucessão de frases feitas com eufemismo e troça, motivadas pela vontade narrativa de minimizar o peso das circunstâncias. Logo, é comum encontrarmos no livro frases como: “o senhor Mandava chegou à casa mais cedo do que o costume. Pegou um autocarro expresso, que de expresso só tinha preço” (p. 44) ou “o cemitério tinha engordado tanto, que foi impedido de comer mais” (p. 52). Com isso, o livro não deixa de encarnar a alma das maiorias nessa vitimização imposta pelo poder que as impele (as maiorias) ao sofrimento e à fuga, no mato ou noutras direcções, porque a fronteira entre o inimigo e o aliado é ténue no que às balas diz respeito.  

Contudo, os últimos dois capítulos do livro mereciam ser outra coisa, pois bem poderiam estar mais ligados ao passado de João. Mandava, Julieta, ainda se entende, mas Rosa e Bila desaparecem precoce do foco narrativo. Aí faltaram eventos que justificassem a escolha do narrador em relação ao sumiço daquelas personagens, que até é oportuna – faz com que o leitor imagine mais. O retrato emocional de João também poderia ser mais catártico, considerando toda a trajectória negativa que a sua vida teve e o facto de Deus não lhe ter ajudado, quiçá, por não ser melhor que o mau (Bila). Seja como for, esta A pátria do João Lucas não deixa de ser uma grande obra (escrita com uma graça que muito nos lembra Hinyambaan, de João Paulo Borges Coelho), confrontando, como nos diria García Márquez, o amor aos tempos de cólera.

Título: A pátria do João Lucas
Autor: Luís Artur
Editora: Fundação Fernando Leite Couto
Classificação: 16.5

 

XI-CAU CAU

Balanço dos jogos na voz dos adjuntos

Tudo o que possa dar força, vida e credibilidade ao Moçambola deve ser estimulado. É que a prova-maior do nosso futebol, depende mais da asserção política de unidade nacional, da tradição de envolvimento de empresas públicas como CFM, EDM, LAM e outras, do que “peso específico” da sua qualidade.

Na competição-mãe do futebol que está a decorrer, a ZAP associou, em boa hora, o seu nome à prova, parecendo claro que como negócio, a haver retorno efectivo, será daqui a uns tempos. Da parte dos beneficiários directos – os agentes da modalidade – impõem-se por isso acções de reciprocidade a vários níveis,  uma vez que se não está em presença de uma acção de caridade, mas de publicitação de um produto, a sugerir retorno.

Bons jogos de futebol, muitos golos, comentários repletos de visibilidade, balanços e outras acções, tudo isso permitirá atrair atenções e dar mais dignidade ao Moçambola.

Oratória também se trabalha

Pois bem. Na competição-mãe do nosso futebol, salta à vista, pela negativa, a recorrente “delegação” por parte de alguns treinadores, aos seus adjuntos e por vezes aos directores do departamento, da tarefa de falarem à comunicação social no final dos jogos.

Que imagem se está a passar com este comportamento?
Não está em causa para nós, os destinatários, qualquer desvalorização dos adjuntos. Apenas a questão de se subestimar algo importante após os jogos: conhecer a forma como uma partida decorreu, as opções de cada momento, pela voz do mais alto responsável técnico.

É assim em todo o mundo e se estamos a querer ser diferentes, neste caso será pela negativa. O futebol joga-se dentro e fora das quatro linhas. Ao treinador, como condutor de homens, exige-se o ser e o parecer. Não virá mal ao mundo que alguns técnicos, ao sentirem-se com deficiente capacidade de comunicação se preparem para essa tarefa, que faz parte das suas atribuições. Isso só aumentará o seu prestígio, o do grupo de trabalho e, em muitos casos, até poderá acalmar os adeptos nos momentos difíceis ou refrear optimismos extremos em situações inversas.

E é verdade que da mesma forma que se exige aos jogadores boa técnica e muitos golos, também se pede aos “misters” que trabalhem alguma eloquência na comunicação, de forma a saírem dos habituais 'copy-e-paste' do “levantar a cabeça e continuar a trabalhar” quando se perde, ou “fomos superiores ao adversário”, quando se ganha. Fica-se mais com a sensação de um “frete”, do que da explanação de um conhecedor dos meandros de um desporto que o apaixona.

 

 

A poesia não é distração, mas concentração, não substituto da vida, mas iluminação do ser

Johannes Pfeiffer

No futebol, as fintas dos jogadores são celebradas, mesmo porque conseguem acrescentar ao jogo pormenores relevantes. Com fintas, feitas artisticamente, o espectáculo torna-se algo mais e os animais ferrozes contidos nos homens nas bancadas revelam-se aos gritos. Uma finta é uma obra de arte. Imaginemos tantas concretizadas no relvado por um Ronaldinho Gaúcho ou pelo próprio El Pibe? Ballon d’Or inevitável… Fosse poesia um campo de futebol e as palavras uma bola, teríamos no Mr. Bonde, bem dito, M. P. Bonde, um candidato a Melhor do Mundo por nele existir um craque pujante, com rigor que derruba qualquer Cannavaro concentrado.

Mas poesia não é nenhum campo, é um jogo, no qual as metáforas geram iluminação no ser que a lê. Em “Ensaios poéticos”, essa imagem de luz ligada ao encanto da subjectividade é algo duradouro, pois Bonde, ao escrevê-lo, apresenta-se com uma susceptibilidade visível na forma como expõe o que lhe vai às veias: uma mistura de beleza com tédio, nostalgia com desejo, humildade e certeza, como se o seu destino fosse caminhar de lês a lês, à beira-mar, e a escrita surgisse dessa escolha persistente. Esta proposta literária é um exemplo de que a poesia bem floresce na liberdade interior de quem a escreve. Por essa razão, nela temos entidades que sabem o que desejam: “Quero estar solto na escuridão” (p. 38), de onde surgi o compromisso renovado com os “Exercícios poéticos”.

Nesta partilha dos mundos (coloridos e cinzentos) que lhe constituem, M. P. Bonde é suave e cuidadoso com o que revela do seu interior. Tal atenção, permiti-lhe não ser óbvio sem ser distante. O poeta quer é ser presente, estar perto das pessoas com a pretensão de as roubar deste plano rotineiro para um outro que interesse mais por garantir a absorção das nossas atmosferas diárias por via de outras perspectivas. Além disso, consciente de que “A geração passada deixou-nos de braços atados para o futuro que não chega, criou em nós a preguiça da espera, o calor da transpiração à hora da criação” (p. 17), Bonde agara-se tanto à convicção de Johanne Pfeiffer quando prefere na poesia a concentração em detrimento da distração.  É essa concentração desinibida que permite o poeta fintar e exibir-se ao público sem fogos-de-artifício na escrita. Na naturalidade sobrevive a personalidade deste poeta que leva ao mundo elementos de um poema vertical, rumo à inpiração celeste, já que para si “as ruas são menos expresivas”.

O que não tem de criativo no título, este livro de M. P. Bonde esbanja na capacidade de sorver certos recursos como ruído, o tempo, a água, fazendo disso um fertilizante fecundo à poética, sem ser previsível. Também nisso reside a beleza das fintas do poeta, as quais deixam para trás as ofertas do espaço urbano porque “A cidade tornou-se num vendaval, um hálito de fobias, onde as sombras mulatas alimentam mentes marcadas pela amnésia aguda” (p. 40).

Deixar-se levar pela estética de M. P. Bonde é não se importar por se perder na poesia; é querer voltar à realidade mais leve, com a certeza de que, de facto, na literatura reside a cura para os males da vida.

Título: Ensaios poéticos
Autor: M. P. Bonde
Editora: Cavalo do Mar
Classificação: 16

 

 

XIPIKIRI

Samora regressou de Nachingweya como quem regressa, ao fim do dia, de uma intensa jornada de trabalho. Aliviou-se da espingarda que lhe pesava o ombro, pousou-a sobre um móvel, como quem pousa uma sacola com o expediente do dia. Deu um beijinho à sua esposa, cumprimentando-a, como se tivesse saído de casa naquela manhã. Nos braços, embrulhada em panos com o sangue e as poeiras da guerrilha, uma criança chorava docilmente.

– Trago-te uma filha da guerra – entregou-lhe a criança com o cuidado de quem oferece um presente frágil e muito valioso.
– O teu filho é meu filho – respondeu a esposa, encostando o nado ao peito.
– Chama-se Independência! – disse Samora. Ela arrastou os olhos de cima do bebé, levantou a cabeça devagarinho e olhou para ele. Trocaram brilhos nos olhares. Ele abraçou-a e ficaram os dois a olhar para a bebé que acendia no colo, como se ela carregasse um xiphefo entre os braços.

Desapertou os botões dos trajes militares desbotados pelos anos de uso, como se desapertasse a forca executiva de uma gravata. Tinha um ar cansado, mas realizado. Regressava de um expediente de dez anos com o mesmo ímpeto que se regressa de dez gloriosas horas de trabalho diário.

Adormecida a criança, a esposa descalçou-lhe as botas e acariciou-lhe os calos. Aparou-lhe a barba, o cabelo e outras pelugens. Manicurou-lhe as unhas sujas da guerrilha. Samora lavou os dentes, corpo e a alma sujos de sangue.

– Agora quero ver os meus filhos – disse em tom de marechal da família.
– Estão no quintal.

Abriu a porta e viu os seus filhos, espalhados do Rovuma ao Maputo do seu quintal:
– Meus filhos! – chamou-os para um comício familiar.
– Papá! – responderam, correndo para os seus braços.
– Trouxe-vos uma irmã – disse olhando para a mãe sorridente, com a criança nos braços. Acercaram a mãe, com pirilampos acesos nos olhos. Samora abraçou-os.
– Chama-se Independência!
(…)

Está crescida, a Independência, e fez anos. Havia uma vela de aniversário hasteada no meio de um pão de lenha. A chama desfraldava-se como uma bandeira irrequieta. Mas alguém recusava-se a cantar “parabéns:
– Não podes fazer anos, Independência. Tu não existes.
Em resposta, o rosto dela imitou a chama e acendeu um sorriso.

Devagarinho, desenhou, com a mão, um círculo sobre o ventre. Ouviu-se “oooh” entre cochichos.
– Independência, estás grávida?

De olhos fechados gingou a cabeça, para cima e para baixo.
– Existo, tanto é que estou grávida.
– Não, tu não existes, Independência. Nós nunca fomos independentes.
– É uma menina e vai se chamar Democracia.
– E quem é o pai? – cochicharam.
– Parece que o pai é Sofrimento.
– Não. Dizem que Independência foi esturpada pela Guerra e agora está grávida.
– Yuh!, afinal não é Corrupção, o amante da Independência?

Ela fingiu não ouvir os sussurros. Virou-se, assoprou a vela. A chama recusou-se, mas cedeu. As pessoas começaram a cantar “parabéns” com palmas tímidas. No meio do pão, o pavio da vela a fumegar, lembrava uma haste sem bandeira e um país chamuscado. Sorriu. Acariciou o ventre. Repartiram o pão e começou a festa da Independência, enquanto esperavam pelas bebidas que os doadores prometeram.

 

Quantos dos que escrevem/ chegam a dizer o que quiseram que fosse dito?
Filimone Meigos

Um poeta nasce, cresce e morre. Se a sorte sobrar, antes da morte o abraçar, reproduz e espalha poesia por tudo quanto é lado, em livro, perfeita janela para eternidade. Nada gratuito, pois tudo nesta vida tem preço. Por isso, neste contexto, a eternidade paga-se com a delicadeza conquistada ao lapidar-se a palavra enquanto recurso que afaga a alma daquele criador ou que lhe condena a um labirinto obscuro, sem nenhum fio de Ariadne para de lá retirar-se com vida.

Enfim, parece que o verso acaba por se tornar um reflexo de quem escreve, algo grave quanto a consequência daí resultante, sobretudo se for negativa, afinal os livros podem sempre decepcionar como tudo. Assim, valerá a pena lançar uma obra e assumir os riscos causados pela exposição? Bernardo Soares, no “Livro do desassossego”, proporciona-nos uns versos categóricos a este respeito: “SABER QUE SERÁ má a obra que se não fará nunca, pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita”. E esta “As idades do vento”, de Jaime Munguambe, diga-se o que quer que seja, está feita e vale tanto por essa coragem escassa nesta época em que urge inventar uma nova “Geração da utopia”.

A pena deste autor distinguido com o Prémio Literário do Banco de Moçambique, na categoria de poesia, em 2015, reflecte permanentemente o desejo de existir (por se perceber que o anonimato nesta atmosfera é um acto cobarde) e de ser vivido. Assim, com a sua inocência, Jaime Munguambe passeia pelo seu interior para buscar os primeiros frutos de uma árvore ainda pequena, mas cheia de vida. Com isso, o poeta vai redescobrindo o encanto da palavra (repetindo-a exageradamente ao longo das páginas, é certo) ao mesmo tempo que a tenta colorir com subtileza. Nesse aspecto, Munguambe é instintivo e muito sensitivo. Não admira, por essa razão, o retrato das imagens captadas pelo olhar, pelo tacto dos dedos. Em sintonia, esta harmonização poética resulta, obviamente, na subjectividade quase que na mesma dose que acaba na sugestão feita de possibilidades: de ser, estar ou partir para um lugar distinto, onde se pode “(…) reencontrar a coreografia da lua/ entre os braços longos das estrelas” (p. 42).

“As idades do vento” é um livro de partida, no qual ainda é notável a contensão do poeta. Como livro de partida, talvez não se deva procurar uma poesia estupefacta, que nos deixe abananados. Deve-se, sim, gozar-se esta partilha literária como quem testemunha, eventualmente, o começar de um percurso vasto, cujos percalços apenas podem advir da impossibilidade de se escutar a solidão.  
Sem revelar-se um alto livro do seu tempo, longe disso, “As idades do vento” trazem o compromisso do autor com escrita lírica, feita de universos em que as asas dos pássaros constituem desejo como subterfúgio para o alcance do firmamento e dos mais apreciáveis mistérios naturais. É neles que se esclarecem “As sílabas da fantasia”: “Chego à Vénus/ com o corpo aberto/ sobre o poema/ e com as mãos antigas do sonhar/ abro as blusas do tempo” (p. 24). Este pacto com a palavra, portanto, permite-nos renascer na nossa infinidade.

Título: As idades do vento
Autor: Jaime Munguambe
Editora: Fundação Fernando Leite Couto
Classificação: 11.5

 

 

XI-CAU CAU

Vencer uma batalha, pode estar muito longe de ganhar uma guerra. Mas poderá ser um passo importante e até decisivo, no caminho de colocar o desporto no lugar a que tem direito na sociedade, proporcionando saúde a novos e velhos, alegria para o aumento da produção, atracção para o turismo e motivação, muita motivação, para a auto-estima real dos moçambicanos.

E quando o Chefe de Estado, na sua mensagem aos Mambas, refere que o desporto está de volta, o que podemos daí concluir? Que está de volta, tendo em conta novas perspectivas, enquadradas numa realidade em que o país, com mais saúde financeira, reunirá condições para mais investimento no sector do desporto. Só com modernização e novos métodos de gestão no horizonte, poderemos sonhar com glória, dinheiro e prestígio.

Acertar o passo com a actualidade

Temos poucos campos e espaços livres, na cidade de cimento e nos subúrbios. Porém, mesmo para esses escassos terrenos, a juventude revela pouca apetência. O tempo dos jogos de muda aos cinco e ganha aos dez, já lá vai. Porquê?

Tudo começou com erros políticos de que ainda nos ressentimos. A proibição da transferência de atletas que “não cabiam” no nível interno, provocando uma debandada; o desaparecimento de muitas das colectividades pequenas que alimentavam as principais; a venda de espaços dos clubes e por aí adiante.

Mas agora o tempo não é o de “chorar sobre o leite derramado”, mas de agir. Nada será como dantes. Os meninos e meninas na actualidade, desde cedo estão sujeitos a pressões de todo o tipo, inclusivamente às de cedo se terem que tornar chefes de família, mal se revelem os primeiros indicadores de talento. A oferta da sanduíche e do refresco, já não convencem o clã familiar…

“Cavalgar” esta onda favorável

Vive-se nos dias que correm um ambiente favorável à retoma. Há mais de uma década que não vibrávamos com feitos similares aos do Ferroviário da Beira e dos Mambas. Há que capitalizar o entusiasmo e motivação desses feitos, independentemente do que se vier a passar daqui para a frente, fazendo tudo para que a presença na alta roda africana seja a regra e não a excepção.

Não podemos querer ser profissionais com condições para amadores, com o rigor a ser aplicado só no que nos convém, desvalorizando as regras e “reprimendas” das entidades internacionais quanto à obrigatoriedade de movimentar camadas jovens, ter pelo dois campos de treino, etc. Investir na juventude, infelizmente, continua a não passar de um “slogan” para justificar seminários, viagens e promoções.

O país está de volta, também no desporto – disse o Presidente Nhussy. E se se antevêem novos paradigmas para o país, o desporto não pode continuar a viver de mão estendida aos patrocínios, mas bem pelo contrário transformar-se num sector vitorioso, capaz de colocar as marcas e os homens de negócios “à bulha”, para encontrarem um lugar de privilégio onde publicitem as suas marcas, seguros de que terão retorno garantido.

 

(…) respeitar as leis, defender os desvalidos e desprezar o dinheiro, porque os heróis nunca esperam recompensa
Isabel Allende

“Não vamos esquecer o tempo que passou. Não vamos esquecer o tempo que passou. Não vamos esquecer o tempo que passou. Quem pode esquecer o que passou?”. A canção (com a letra) é a antiga, e é das mais conhecidas do repertório “revolucionário”. Mais que aquela, só mesmo o Tiyende pamodzi ndi mtima umodzi, por esboçar imagens de Tete, Niassa, e, claro, por nos recordar Samora. Lembranças não se apagam, porque esquecer é deixar de existir no instante; lembranças não se calam, porque o silêncio pode trazer do passado a dor escusada no presente. Então, vamos ou não esquecer o tempo que passou? “Comboio de sal e açúcar”, de Licínio Azevedo, responde categoricamente: De modo algum. Esquecer é errar pela segunda vez, e um erro deve ser assumido para se tornar uma lição. Se quisermos ir por aí, esta é uma das mensagens do filme que ficciona a realidade sinistra porque passaram vários moçambicanos numa altura em que a esperança quase morreu na tosse de uma kalashnikov.

A partir de um comboio, com momentos de avanço e de pausa condicionados pelas emboscadas na linha férrea, Licínio Azevedo leva à tela as consequências que a guerra entre o Governo e a Renamo teve na vida, quer dos que manipularam as armas quer dos que desses artefactos necessitaram para se sentirem protegidos. O comboio metaforiza o país inteiro, mais ameaçado por heróis que, ao servir o povo, esperam ser bem recompensados. Dinheiro e prazer parecem ser a paga ideal. Por isso, temos um alferes Salomão (Thiago Justino) prepotente, quem, por exemplo, arranca a mulher de um civil para a abusar vergonhosamente. Como calha em “Mayombe”, de Pepetela, “Comboio de sal e açúcar” tem cuidado ao insinuar que nem sempre o verdadeiro inimigo é apenas quem julgamos sê-lo. Dando crédito à ideia, revoltada com o que os soldados “governamentais” fazem, uma personagem bufa agastada: “Às vezes, aqueles que nos defendem são piores do que aqueles que nos atacam”. Logo, desenrascar até chegar ao destino (Iapala e Malema, para alguns, Ribaué, Cuamba ou Malawi, para outros) é a palavra de ordem.

Este filme é uma estória sobre a sobrevivência, que nos conduz à nossa História recente, feita de rancor, ganância e muitas falsidades, afinal, poucos, como tenente Taiar, estão deveras preocupados com a causa nacional. Bem visto, Taiar, no meio de tantos lobos maus, é a esperança ténue, por ser amável, mas também é a desilusão, quando o mal triunfa sobre ele e Rosa, sua namorada, ficando sem pétalas. O momento em que isso acontece, merecia melhor representação de Matamba Joaquim (Taiar). As suas feições, o modo como anda e fala depois de ser baleado pelo seu camarada Salomão, com quem disputava os encantos da Rosa, não convencem. Ali o actor angolano poderia ter dado o melhor de si, para que estivesse ao nível de Melanie Rafael (Rosa), quando abraça a dor.

À parte a narrativa muito bem contada, com diálogos maduros entre as personagens, este “Comboio” tem êxito no que ao casting dos actores diz respeito: distribuição dos papéis bem elaborada. Se Taiar e Rosa distinguem-se pela doçura, Caravela (Victor Raposo) e Omar Imani (Abdil Juma) dão-se bem com o medo. E o que dizer do comandante Sete Maneiras (António Nipita) daquela tropa que protege o comboio de Nampula a Malawi, com tatuagens macondes na face? O comandante é a personificação dos homens leais aos antepassados, o exemplo de que uma guerra não se faz apenas com coragem. Há sempre mistérios cuja essência os mais imberbes são incapazes de compreender. Ao configurar o fantástico a partir do comandante, com poderes sobrenaturais, o filme enaltece a cultura bantu, lançado um debate sobre o que não existe, mas nos mexe.  

Este “Comboio” de Licínio Azevedo, sem deixar de ser um retrato do contexto das rotas comerciais de sal e açúcar; sem deixar de ser um registo histórico dos erros cometidos no passado; e, acima de tudo, sem deixar ser uma bela obra de arte, que investe com sucesso na componente emoção, é um veículo que nos devolve a letra da canção, para não cairmos no mesmo precipício: “Não vamos esquecer o tempo que passou. Quem pode esquecer o que passou?”.

Título: Comboio de sal e açúcar
Autor: Licínio Azevedo
Filme
Classificação: 18

 

 

Por um voto consciente do escritor 

A Associação dos Escritores Moçambicanos convocou, no passado dia 19, os seus membros para a realização da sua Assembleia-geral, acto que culminará com a eleição

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