O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

Há trinta e poucos anos, vivíamos motivados em fazer evoluir “a nossa dama” que é o desporto, com vigor e patriotismo, por África e pelo Mundo. Era o fervor pela recém-proclamada Independência Nacional. Com pouco dinheiro, na chamada época do carapau, “moviam-se montanhas”, apesar da inexperiência.

Se os estádios enchiam em dias de treino, imaginem nos grandes jogos, tanto internos como internacionais.

Agora, tudo mudou. Nos rostos onde fervilhavam sonhos de evoluir, só resta estampada a desmotivação, talvez mesmo desilusão. O fervor que alimentava a alma e contagiava os mais novos desapareceu. Agora vive-se e vibra-se só com as “importações”, de terras e lugares longínquos, nalguns casos por vezes “nunca navegados”.
E é ao sucesso dos outros, que antigos atletas, dirigentes do futebol, boxe, basquetebol, atletismo e outras modalidades vão buscar as suas emoções e referências. E pouco importa que a nossa criançada, devido a este corte na nossa auto-estima, vá vivendo de “play-station”, definhando paredes-meias com este novo paradigma assumido, de viver como seus os sucessos dos outros.

A frustração parece ser total. A excepção vai para a meia-dúzia de “teimosos e persistentes”, que por acreditarem e apoiarem o medíocre desporto indígena, não escapam ao epíteto de… medíocres.

Sinais dos novos tempos…

Os que pertencem à elite urbana, com possibilidade de pequenas fugas à Europa, por lá “tiram a barriga de misérias”. Os menos ou nada abastados, vão criando movimentações de veteranos, como forma e razão para a realização da “3ª parte”, onde demonstram que continuam craques, numa competição em que os adversários são as médias ou as bebidas espirituosas.

Na busca dos culpados para esta realidade que não pode ser vista nem sentida como normal, são identificados todos factores, menos os que moram em cada um de nós. A primeira explicação aponta para a baixa qualidade do nosso desporto. Como se a eles, que acumularam experiência, não coubesse qualquer obrigação de participar, para reverter o cenário; depois, a falta de “oportunidade e espaço”, que se diz ocupado por oportunistas e infiltrados. Seguem-se: Governo, que não prioriza a actividade desportiva, clubes que se esqueceram deles e por aí fora.

Será que no desporto, em crescendo em todo o mundo, considerado o maior e melhor remédio contra as doenças previníveis, combate à droga e por aí em diante, a geração que sentiu e viveu o despertar pujante das modalidades neste país, não consegue encontrar outro tipo de resposta que não seja a indiferença e um virar costas que tanto prejudicará esta e as próximas gerações?

Sente-se que quem ergueu as bases para o percurso do desporto até hoje, claramente atirou a toalha ao chão. Mas é sempre tempo de a reerguer e, de mãos dadas com os mais novos, voltarmos a (re)jubilarmo-nos com triunfos dos novos talentos. O “furacão Mutola”, que tanto nos encheu de orgulho, é para replicar em várias modalidades!

É por estas e por outras que estou a pensar em candidatar-me a sócio do Ferroviário da Beira…

 

Passa hoje um ano após a investidura de Filipe Nyusi como Presidente da República. Uma data que o Presidente fez questão de tor­ná-la inesquecível com o seu discurso inovador e renova­dor de sonhos. O povo ouviu, aplaudiu e sorriu com a espe­rança de que uma nova página da história do país se abria.

O encanto foi profundo e generalizado. Mas, com o aflo­rar dos dias negros, o sorriso não permaneceu nos rostos. As rugas de preocupação ca­racterizaram muitos moçambi­canos que viram seus sonhos, pessoais, profissionais, acadé­micos, esmagados pela conjun­tura política e económica que esteve a desfavor.

A começar pela tão almeja­da Paz que esteve sempre ao reboque de duas pessoas: Fili­pe Nyusi e Afonso Dhlakama. Dois “irmãos” desavindos que não conseguem se reconci­liar e fazem da imprensa um pombo correio. Nyusi prome­teu que tudo faria para que jamais irmãos se voltem contra irmãos seja a que pretexto for. Mas ainda não conseguiu se entender com Dhlakama e por conta disso o país se afunda em instabilidade, por receios de investimento e avaliações negativas de agências rating internacionais.

Vivem uma guerra excitante, mas perigosa. Aliás, o político britânico Winston Churchill há décadas despertava para os seus riscos, na célebre frase: “a política é quase tão excitante como a guerra e não é menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas”.

A cada pancada que o pri­meiro ano de governação de Nyusi deu ao povo, uma urna se abria. Assim como se abria para Dhlakama sempre que agitava o país quando recuava os passos pacificadores.

Nyusi prometeu tudo e mais alguma coisa. Sublinho rapidamente a promessa da transparência, presente em muitos parágrafos do discur­so de investidura, por ser uma das que menos cumpriu neste primeiro ano. Por exemplo, disse: “asseguraremos que as instituições estatais sejam o espelho da integridade e trans­parência na gestão da coisa pú­blica”. Infelizmente, o dossier Ematum esvazia seu discurso ao continuar às cegas tal como vinha no governo do seu ante­cessor. A pouca claridade que se deu não foi suficiente. Aliás, neste capítulo, maior ganho seria a institucionalização da transparência nas instituições públicas, para que não pareça caridade ou boa vontade de alguns sempre que fornecem informação de interesse públi­co. Afinal, governar pressupõe saber prestar contas. No caso, ao povo, para que o contrato social tenha valor.

Com todos os socos, pan­cadas e rasteiras do primeiro ano de Nyusi, o tempo para remendos e uma nova rodada na ignição ainda é extenso. As­sim, vale renovar as esperanças para os próximos 4 anos.

XIPIKIRI

O calendário sorriu, marcava sexta-feira. Jesus largou o expediente. Desapertou, sem cerimónia, a gravata. Saiu do escritório antes da hora, sem despedir. A semana toda se concentrava na goela. A saliva raspava a garganta. Sentia uma sede incontrolável que lembrava os mais originais anúncios de cerveja. Sob o burburinho do trânsito já ouvia o coro clássico da música de copos a encherem-se de espuma. Decidiu passar por casa, para roupas mais cómodas e menos suadas. Madalena, a mulher de Jesus, pilotava um fogão a gás de três bocas. Com uma colher de pau comandava uma panela e dava ordens ao caril de amendoim. A mulher desconfiou:

– Vieste cedo.

Demorou a desenrolar o novelo emaranhado das respostas que os homens dão às sextas-feiras. Dizia palavras-chave como “meeting”, workshop. Madalena dobrou o sobrolho. Algo lhe fugia do sentido.

– Reunião? Sexta-feira a esta hora?

Jesus demorou com a fivela da sandália, ganhando tempo para raciocinar. Falou-lhe de team building, e outros termos em língua distante, de modo que Madalena se encurralasse com as perguntas.

– E vais de sandálias?

Assegurou o aperto das calças jeans. Lambeu o desodorizante roll on nos pêlos rebeldes das axilas. Mergulhou numa túnica. Tudo à velocidade de se manter ocupado e com a demora construir respostas cabíveis. Fez cara de reunião e atirou palavras mais fortes como stakeholders, partnership, join venture. Mexeu, teatralmente, alguns em papéis. Falou de doadores e da crise. A panela dançava sobre o fogão de três bocas, ao ritmo das volutas com que madalena remexia o caril de amendoim. Estava calada. Engana-se quem pensa que o silêncio de uma mulher é de resignação. Ela cala-se para te deixar escorregar, enrolares-te até te entregares sozinho.

Jesus reparou na chama azul do fogão a gás a amarelar-se, anunciando o fim da botija. Foi à carteira e trouxe um maço de dinheiro discreto, mas gordo para os tempos de crise e muito para o que maria madalena se habituara. Com aquele gesto que rebenta com o argumento das mulheres, disse:

– Toma, é para pão, energia e gás e cabeleireiro.

A desconfiança aumentou. Madalena intensificou os gestos circulares de pilotar a panela de caril de amendoim. A capulana agitava-se com os gestos. A mulher manteve-se calada como fora instruída na preparação para o lar. De túnica e sandálias, com uma pasta a tiracolo, outra na axila e estilo executivo, foi para onde os homens vão às sextas-feiras (e eu não posso, obviamente, revelar aqui).

Mergulhou na sexta-feira, de tal forma que quando deu por si já era domingo. Voltou para casa, dois dias depois, Madalena sempre no fogão, fritava badjias. Jesus rebuscou uma explicação dramática, convincente. Dizer que fora arrastado, crucificado, espancado, morto e só ressuscitou naquele domingo, seria demasiado óbvio. Preferiu dizer que foi a polícia, estava detido por conduzir embriagado e só fora solto naquele dia. Mal terminou a explicação esfarrapada, com hálito à sexta-feira acabada em domingo, viu a frigideira de óleo quente a voar-lhe para a cara. E assim, frito, feito badjia, Jesus passou pelo hospital e foi parar ao céu.

 

Cada pessoa nasce com uma predisposição para cuidar de si própria, construir uma consciência da sua condição humana, desenvolver mecanismos de auto-afirmação e auto-defesa e exprimir a sua continuidade através da reprodução e transferência de conhecimentos.

Na interacção com os mais próximos, acumula o seu capital social primário, a nível familiar ou através dos vínculos de amizade e vizinhança. Esses laços são muitas vezes sustentados pelo pragmatismo da partilha de objectivos imediatos, sacrifícios, recursos e interesses, mas sempre na perspectiva de grupos restritos e coesos.

Há os que transcendem estas fronteiras dominadas por laços de sangue e cumplicidade para abraçar relações e causas mais abrangentes, e por isso mais complexas, a nível comunitário. Na generalidade dos casos, dedicam-se a projectos sociais, económicos, ambientais ou culturais que beneficiam preferencialmente a comunidade.

Mas há também os que encaram visões mais transcendentais, a nível nacional ou internacional. Constroem laços de empatia e cumplicidade, que são cimentados por uma consciência sublime da importância da comunhão alargada de esforços entre seres humanos, da partilha em largo espectro de um propósito para essa condição e missão privilegiadas, e da convivência sã baseada em valores.

Apropriam-se de uma maneira peculiar das dores alheias e colectivas. Sentem fervilhar dentro de si turbilhões de motivações, vontades, energias, coragem e determinação para se dedicarem a uma visão partilhada e altruísta.

São pessoas que sonham a humanidade. Por isso, a devida vénia deve-lhes ser prestada. Não apenas por representarem casos raros, mas também por serem fundamentais para fazer girar a roda do progresso nos variados campos da organização política, social, científica, cultural, artística, religiosa e ambiental.

Qualquer nação que queira desenvolver-se deve ter a capacidade de gerar pessoas com tal mentalidade. Que demonstrem uma fé extraordinária na humanidade e nas pessoas, que acreditem no poder das ideias e ideologias, que partilhem as oportunidades e possibilidades que a vida oferece, que condimentem a vida com o tempero das emoções naturalmente humanas, e que equacionem a vida como um equilíbrio entre direitos e deveres.

Fé nas pessoas

A sua determinação em fazer coisas extraordinárias que beneficiem a generalidade de pessoas, e não simplesmente a si próprias, exige sacrifícios e muita fé na humanidade. É uma postura que se distingue e se eleva, porque não concebe o ser humano apenas com base nos elementos biológicos e materiais. Rejeita que a vida se resuma aos sinais vitais, posses, números e cifrões (capitais, trocas, preços, lucros, etc.).

Para essas pessoas, a condição humana impõe um propósito individual e colectivo, que transcende as necessidades circundantes e imediatas, e projecta-se no espaço e no tempo. Busca o encanto, a magia e a poesia de ser gente, numa harmonia que não segue uma fórmula aritmética, porque se exprime na diversidade, em múltiplos tons e tonalidades (que se harmonizam ou se desarmonizam em função de contextos, realidades e aspirações).

Essas interacções resultam em situações positivas ou negativas que influenciam o desenvolvimento das comunidades, países ou da humanidade como um todo, fazendo-os progredir, estagnar ou regredir em função de factores económicos, sociais, ambientais e culturais. A escravatura, a inquisição, os conflitos armados e a segregação contra mulheres, crianças, jovens, e idosos são exemplos lamentáveis de factores de retrocesso.

Por isso, através da sua fé na condição humana e sua determinação em fazer o bem, essas pessoas inspiram e motivam correntes positivas e previnem o mal e a negatividade.

O poder da “ideia” e da ideologia

Tais pessoas compreendem que a melhor resposta à complexidade da vida é uma abordagem simples, mas pensada. Compreendem que a vida é repleta de surpresas e armadilhas e que o desenvolvimento sustentável, eficiente e eficaz deve ser pensado antes de ser posto em prática. Isso começa sempre com uma ideia que é gerada e partilhada, partindo de desafios reais (vistos, sentidos ou previstos), e que resultam em ideias sobre soluções e fórmulas de partilha de responsabilidades, tarefas e resultados.

Compreendem que uma ideia recheada de racionalidade e valores representa uma luz que mostra o caminho, inspira, motiva, orienta, ajusta e faculta. A ausência dessa luz orientadora, induz ao improviso, ao comportamento instintivo, a impulsos imediatistas que acentuam o egoísmo e egocentrismo, e acabam por gerar a desconfiança e a ruptura de sistemas de valores.

Entendem ainda que essa ideia só é válida quando pensada no colectivo. Reduzem o egoísmo e egocentrismo a níveis mínimos (estritamente necessários para apimentar a competitividade e os processos de desenvolvimento), pois a sua presença em doses excessivas retarda o desenvolvimento da humanidade como um todo.

Há o exemplo dos políticos desprovidos de uma “ideia partilhada” ou ideologia que se encontram perdidos na sua ambição, vulneráveis às pressões sociais e apelos cleptocratas e corporativos, e sucumbem à formação de cartéis e bandos criminosos. Acabam recorrendo ao nepotismo, amiguismo, corrupção, para cristalizar os resquícios do poder que exercem.

Partilha de oportunidades e possibilidades

Para os que sonham a humanidade, a vida plena é encarada como uma oportunidade para exercer a liberdade e escolhas positivas (como trabalho, inovação, expressão, realização, organização, partilha, colaboração, etc.) ou negativas (como a delinquência, frieza, egoísmo, guerras, destruição, vandalismo, boato e desordem).

É uma questão de escolha e de partilha das mesmas. Ao revermos a história da humanidade deparámo-nos com muitos exemplos positivos: a invenção da roda há cerca de 5.500 anos, da prensa por Johannes Guternberg no século XV, da fotografia em 1826 por Joseph Nicéphore Niépce, da lâmpada em 1835 por James Bowman Lindsay e Thomas Edison, do telefone por Alexander Graham Bell, da internet no início do século XX, do aço que permitiu a construção de arranha-céus já no século XVIII, a viagem à lua em 1969, a luta revolucionária através da não violência no inicio do século XX por Mahatma Ghandi, o discurso “I have a dream (tenho um sonho)”de Martin Luther King em 1963, o primeiro transplante cardíaco em 1967 pelo Dr. Christiaan Barnbard, a libertação triunfante  de Nelson Mandela em 1990, o início da luta de libertação de Moçambique sob liderança de Eduardo Mondlane nos anos 60,  e a proclamação da independência do país em 1975 por Samora Machel.

No lado negativo, podemos citar as duas grandes guerras, o nazismo, o apartheid, a escravatura, a Inquisição, a Guerra Fria, o terrorismo, a mutilação genital feminina, as seitas do mal, os genocídios etc.

O tempero das emoções

Sonhar a humanidade implica compreender que o ser humano é um turbilhão de vontades, ideias e emoções (risos, lágrimas, zangas e brigas). Exprimir emoções, fragilidades e vulnerabilidades mostra a dimensão humana e desenvolve o espírito de luta. Sem ela a vida fica desprovida da sua “alma”.

Os que sonham a humanidade sabem que as emoções têm um verdadeiro potencial de desenvolvimento, desde que as mesmas sejam vividas com realismo e seriedade, e que sejam exercidas de forma equilibrada e na dosagem certa.

Elas compreendem que quando as emoções são dominadas pelo ódio, ganham um efeito tóxico, incentivam a rivalidade animalesca, inibem a competitividade racional e construtiva, provocam um desperdício de valores e qualidades, e tornam o terreno fértil à mediocridade, descrença, irresponsabilidade, medo, coerção, exclusão, agressividade, cinismo e frieza.

Assim, os que sonham a humanidade, utilizam as boas emoções para combater o desânimo, a intriga, o derrotismo, a indiferença, a passividade e o fatalismo.

Direitos básicos e deveres essenciais

As pessoas que sonham a humanidade dedicam-se à defesa do direitos e deveres essenciais, partindo do princípio que o maior património de um ser humano é a sua dignidade. Entre os direitos mais básicos e elementares para expressão das potencialidades humanas estão a alimentação, a saúde, a segurança, a justiça, a educação, a liberdade de expressão ou a fruição de um meio ambiente puro e saudável.

Conscientes dos problemas que o mundo enfrenta, estas pessoas lutam por os corrigir: cerca de 800 milhões de pessoas vivem privadas do seu direito a uma alimentação condigna; 2 milhões de pessoas estão anémicas, sobretudo devido à grave carência de micronutrientes como o ferro;  2 biliões de adultos padecem de sobrepeso, dos quais 600 mil são obesos; cerca de 11 milhões de crianças morrem, anualmente, devido a doenças que poderiam ser tratadas com medidas de prevenção sanitária (como a malária, cólera, diarreia simples, parasitoses, pneumonia, desnutrição, etc.); 121 milhões de crianças e adolescentes vêm o seu acesso à educação interdito e o seu futuro comprometido; o aquecimento global, o desmatamento, a contaminação do solo, da água e do ar atmosférico ameaçam a biodiversidade e o equilíbrio ecológico no planeta.

Para além de se entregarem a estas causas, elas também se batem para que cada um conheça e ponha em prática os seus deveres: a transparência, o amor, o respeito, a justiça, a caridade, a solidariedade, a colaboração, o respeito pela natureza e pelo ambiente, etc.

A concluir…

Os que apenas se enrolam em torno do seu próprio umbigo permanecem cativos desse minúsculo ponto. São lembrados pela sua rotina corrosiva, seus rastos e destroços, sua ganância desmedida, seu infinito egoísmo e gatunagem.

Os homens que sonham a humanidade e a abraçam em toda a sua plenitude, nas mais diversas áreas e quadrantes, realizam e inspiram acções de progresso, amor, bondade e fé. Mesmo que os seus nomes sejam esquecidos, os seus legados serão reconhecidos, lembrados e perpetuados.

 

Não quero da luz o artifício de uma glória passageira.
Antes a escuridão, com o artifício de uma vida sincera.
JR

Monodia é um termo originário do grego, quer dizer canto isolado. No caso da poesia lírica grega da Antiguidade, bem explica Massaud Moisés, o termo era usado para considerar o poema cantado por um só indivíduo, em especial a elegia, por ocasião de cerimónias fúnebres. Estas são as palavras que sintetizam a escrita de Andes Chivangue, em Fogo preso, uma colectânea de poesia cuja essência habita na manifestação de uma alma turva, conturbada, feita de segregação e muita frieza, como se os versos fossem fruto de uma árvore podre, regada com a urina ingénua das avenidas de Maputo.

Numa escrita compacta, carregada de várias atmosferas densas que no caso fazem o poeta, Fogo preso leva-nos consigo na caravana de trás de uma locomotiva atrelada ao abismo. Ali, estando só e longe de todos, o desafio do sujeito poético é cantar para si, entre o silêncio e o monólogo interior que se ouve. Com esta atitude, os versos tornam-se algo distante da convivência, da alegria e mais distante ainda da felicidade porque isso é algo, de facto, inalcançável. Diríamos que temos nesta obra um conjunto de entidades trancadas no seu universo da palavra por terem percebido que o mundo é uma treta, feito de gente imbecil a esgotar-se na gargalhada do que não foi. E isto incomoda, porque, por exemplo, “A minha geração morre nas encostas do tempo,/ nas páginas de cada livro que fica por ler (p. 24).  

Sendo esta obra literária um bom exemplo da monodia Antiga, faz-se elegíaca, com entidades a queixarem-se do que a vida não é. Simultaneamente, essa vertente poética feita de lamento parece prenunciar uma morte inacabada, qualquer coisa de intangível traduzido por muita aversão à uma realidade, pelo menos, reinventada, a mesma que prende o fogo. Trata-se de uma realidade dura, que o poeta a rejeita com refúgio ao verso. É aí onde ele sobrevive, longe dos artifícios de uma glória passageira, porque para os que habitam nos poemas antes a escuridão, a solidão, se isso conter a sinceridade como recompensa.  
À semelhança do que a escrita de Luís Carlos Patraquim nos habituou, em Fogo preso Andes Chivangue não veicula o impulso que gera sentimentos dos sujeitos poéticos de forma gratuita. Aliás, sendo aquelas entidades parte de si, o poeta vai protegendo a mensagem da sua escrita num gesto, provavelmente, de autodefesa/ precaução. Ainda assim, este livro começa sugerindo que a vida é um tédio e a escrita algo masoquista. Ao longo das páginas, à medida que acaba, a linguagem altera ou alterna, dando espaço à imagem erótica, parca, porém suficiente para romper com a Sibéria presente na maioria dos versos.

Este não é um livro com poemas para serem declamados ou sussurrados ao ouvido. Nem tão pouco. Nesta monodia ao estilo grego Antigo, Andes Chivangue é demasiado pungente para ser doce e meigo.

Título: Fogo preso
Autor: Andes Chivangue
Editora: Cavalo do Mar
Classificação: 13

 

 

Entregou-me uma moeda. Estendi-lhe os balões. Escolheu um. Era amarelo.

Ali mesmo, segurou-o com o trejeito do indicador e polegar. A língua desenhou uma vírgula sobre os lábios, lubrificando-os. Esticou os beiços. Fez um tubo com a boca como se a fosse meter no difícil sistema de canalização de um beijo. Apontou a boca ameaçadora para o balão. Enfiou-a como se o balão fosse um gorro. E assoprou.

O balão respondeu ao sopro. Mas voltou a cair. O puto não gostou. A flacidez desafiava-o. Voltou a assoprar com mais força. Assoprou, assoprou, assoprou. O balão, rendido, inchou, inchou, inchou.
Era um mufana gordo, como aquele do Craveirinha, que “… comprou um balão amarelo e assoprou, assoprou com força…”.

Outro mufana, magro, largou a correria, interrompeu o difícil expediente de brincadeiras, para admirar o balão. O sol, no ângulo poente, acendeu-lhe o olhar. A luz amarelava ainda mais o balão amarelo. O balão já cobria o rosto do gordinho. A barriga inchava e vazava, com a força de empurrar o ar todo para o balão. O balão crescia, crescia, crescia. O magrinho movia a cabeça para cima, cadenciando, à medida que o balão enchesse. A pele do balão esticava e ganhava transparência. O sol atravessava, dispersava a luz e doía nos olhos. O magrinho juntou as pestanas.

Às vezes o ar escapava. O gordinho irritava-se. Dobrava o sobrolho e assoprava o balão teimoso com mais força. O balão não queria mas cedia e crescia, como a barriga do menino. Entusiasmado a dominar o balão, enchia-o a todo o peito. O balão, oprimido, cansado, rebelou-se: puff! Rebentou, como aquele do Craveirinha, em que “… o menino gordo assoprou assoprou assoprou, o balão inchou e rebentou”.

O balão estilhaçou-se. Os putos fecharam os olhos. Sobressaltaram. Saltaram. Levaram as mão à cabeça. Fizeram a cara de susto que fazem os daquela parte do noticiário em que as bombas explodem muito. Caíram.

– Edjê, edjê, a bomba rabentou! – gritaram outros, sem interromperem o que brincavam.

O magrinho riu-se quando viu a cara de susto do gordinho. Riu-se ainda mais quando o gordo, ainda assustado, fez cara de zangado. Ria-se com a boca muito aberta. Rebolando no chão. Agarrando a barriga com uma mão e apontando para o gordo com a outra. O gordinho não gostou e foi-se embora. O magriço pôs-se a recolher os estilhaços da bomba e fez o que fizeram aqueles do Craveirinha quando “… o balão inchou e rebentou. Meninos magros apanharam os restos e fizeram balõezinhos.
Levou o pedaço elástico à boca. Soprou-lhe a areia. Encostou-o aos lábios. Num beijo, chupo-o até fazer um balão pequenino, dentro da boca (os balões dos gordos são grandes e assoprados. Os dos magros são pequenos e chupados). Fez muitos balõezinhos, arrumou-os disciplinadamente sobre um cartão. Olhou para mim. Estendeu o braço como se me servisse, aquele gesto que na língua da rua significa “estou a vender”. Desafiava com os balõezinhos amarelos, os balões inteiros que eu vendia. Dei-lhe um sorriso e ofereci-lhe um balão. Não era amarelo. Sorriu. Foi-se embora aos saltos, como se o sol poente o arrastasse. A silhueta desapareceu na luz. Desejei-lhe, sem falar nada, um feliz dia da criança.

 

A força das circunstâncias é capaz de transformar anões em gigantes

José Eduardo Agualusa

Embora a situação geral da nação mantenha-se firme, conforme assegurou o Presidente da República no seu último informe, a sensatez convida-nos a aceitar que Moçambique vive um momento muito complexo. Se, por um lado, a crise financeira aliada ao alto custo de vida humilha as famílias humildes, por outro, os assassínios (de polícias e ladrões), as explosões de camiões-cisterna, os acidentes de viação, os naufrágios, vendavais, a corrupção e, claro, a tensão militar, são factores que tornam o quotidiano algo estranho.

Ora, ainda que essa estranheza que inquieta tenha certas tonalidades, o cenário não é novo neste espaço-Índico. Há 50 anos, um poeta, que aguardamos pela morte para o pintarmos com pompa de herói, escreveu um texto distinto no vol. II da Poesia de Combate: “Esses tempos estranhos”, de Armando Guebuza, que o recuperamos para entrelaçar um paralelismo temporal. Com efeito, porque esse fragmento do nosso passado não é o único que se impulsiona para o presente, recuperamos, igualmente, outra herança literária: “Súplica”, de Noémia de Sousa. Por cavalheirismo, começaremos pela rapariga da Catembe, por ser a proveniência da excitação que nos mantém firme neste diálogo entre passado e presente. Vamos ver no que dá.  

Em “Sangue negro” notamos que a poesia de Noémia de Sousa não se acaba na literatura. Com ênfase, os versos da “mãe dos poetas moçambicanos”, como bem assumiu Nelson Saúte, são tão relevantes por tudo o que continuam a sugerir, pois, quando os lemos, enxergamos os estragos do chicote nas costas dos oprimidos e as metáforas daí resultantes. Noémia é uma autora prisioneira da liberdade e criadora de esperanças (utópicas) bem verosímeis. O poema “Súplica” é um exemplo de luta para impedir que a convicção de que tudo é possível, quando cremos, caia no vazio. Então, para reforçar o juízo de que a força motriz para a concretização de sonhos é interior ao Homem, logo, desinibido de factores externos, o sujeito de enunciação põe-se a hipotecar tudo a um opressor: “Tirem-nos a terra em que nascemos,// Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,/ a lua lírica do xingombela// tirem-nos a machamba que nos dá o pão,// Podem desterrar-nos”, mas em troca de tudo isso, avança o poema, “deixem-nos a música”, esse conjunto de harmonias que mantém vivo a determinação pela superação.

Em “Súplica”, Noémia absorve as circunstâncias passíveis de macular a relação entre o moçambicano e o seu país: o poder opressor, que consegue nos arrancar das cubatas e do nosso pão. Fazendo isso, na verdade, Noémia esmera-se em ecoar-nos aos ouvidos essa mensagem que calha em “A conjura”: “a força das circunstâncias é capaz de transformar anões em gigantes”, e, com isso, permitir a demolição de qualquer cordilheira dos andes à nossa frente. Neste caso, basta apenas existir em nós a música, isto é, a vida e o desejo de conquistar a liberdade.

Para Noémia, em “Suplica”, nenhum poder é suficientemente forte para nos derrubar enquanto a vida e a esperança coexistirem. Mas o que este poema tem a ver com o nosso presente? Na próxima intervenção, partindo da leitura do poema de Armando Guebuza, esperamos responder à pergunta.
 

Palavras sem algemas

A guerra já come­çou! Uma oração arrepiante que nos faz estremecer na pro­jecção do futuro. Futuro intangível e sombrio que o presente nos faz experimen­tar. Mas, infelizmente, inde­pendentemente do nome que se lhe atribui – “tensão” ou “instabilidade” política -, a verdade é que os tiros ape­nas nos lembram o cenário de guerra que quem expe­rimentou roga a Deus para que essa página da História nunca mais se abra.

A Renamo veio, esta se­mana, reiterar que este mês vai governar. No seu estilo característico, apimentou as condições de diálogo, alegando ser necessário, primeiro, iniciar a governa­ção efectiva nas províncias onde ganhou, gorando cla­ramente a esperança de que haverá diálogo são nos pró­ximos tempos. Portanto, o céu está altamente carrega­do de nuvens negras, pelo que seria tapar o sol com a peneira negar que a chuva vai ser destrutiva. Uma tem­pestade que nos vai propor­cionar capítulos dramáticos de uma série de terror que a vida nos impinge. E que já vimos.

Infelizmente, as palavras proferidas pelos políticos não são suficientes para travar os tiros, nem os tiros são inofensivos para se pre­ferir o silêncio. Dhlakama prometeu atacar em legíti­ma defesa, mas os ataques que vitimam cidadãos na EN1 e em outros pontos do país nada têm que ver com legítima defesa, mas com banditismo de quem os pro­tagoniza.

E quem é o bandido? Todos sabem apontar, mas poucos podem provar. Não apenas o indicador, como os restantes dedos da mão vão em direcção à Renamo como autor dos ataques a inocentes. Mas a inteligên­cia humana atina e recorda que a verdade é a primeira vítima em tempos de guer­ra. E, neste laivo de lucidez, vale sublinhar que se trata de criminosos desconheci­dos, enquanto não se prova o contrário.

Com rosto ou sem rosto dos autores do mal, o coita­dinho da guerra não é nem a Renamo, nem o Governo, mas o povo, cujos presen­te e futuro são roubados, quando, humildemente, luta pela sobrevivência. Por­tanto, nem palavras nem ti­ros. Queremos paz.

Agora, em voz baixa, mas audível: sobre os refugia­dos, deslocados ou pedintes de asilo, como explica o Go­verno para desdramatizar tudo quanto se diz dos mo­çambicanos que estão no Malawi fugidos de Moçam­bique, advogo o combate à desinformação. Indepen­dentemente da cor partidá­ria, etnia ou género, sendo moçambicanos, merecem o amparo da Governo.

E que as vozes das autori­dades que se pronunciam sobre o fenómeno não en­vergonhem a opção do voto da maioria dos moçambica­nos que escolheram o Pre­sidente Nyusi para governar o país. Que os seus homens de confiança acabem com os discursos antagónicos.

Que haja união!

XIPIKIRI

Khô! Foi um som seco. Mudo. O crânio estremeceu. Os ombros saltaram. Os amortecedores do pescoço cederam. A nuca, sacudida, bateu as costas. Os olhos fecharam-se com uma força brusca, como se a cabeça fosse implodir. No rosto a carranca de dor. O elástico dos músculos retesou. Os dedos saltaram das mãos, como se a dor quisesse sair por ali. O tronco curvou-se. O homem encolheu-se. E a dor desceu, desfazendo-se, de vértebra em vértebra, como os dados comunicantes de um dominó.

Era um gotuâna, aquele carolo que se dá, com o braço em martelo, a falange do dedo médio a espreitar, emprestando a mão, a forma pérfida duma serpente pronta para o ataque. O gotuâna é disciplinador e tem o condão da hierarquia. É dado de mais velho para o mais novo, foi por isso que o homem não entendeu, como é que ele, naquela idade, pôde levar um gotuâna… um gotuâna como se fosse miúdo, justamente ali naquele mato grisalho, onde brilha uma clareira de calvície que, ao que se sabe, significa respeito.

Ouvia o trepidar irritante de um veículo a misturar-se aos zumbidos da dor. Soltou as pálpebras e foi abrindo os olhos, devagarinho, à medida que a dor se ia desfazendo. Não reparou na agitação à sua volta, porque a dor voltava, como uma réplica teimosa de um terramoto, latejando ao compasso da pulsação… e o trepidar irritante de um veículo a misturar-se aos zumbidos da dor. Levou, por instinto, a mão à cabeça. Seguiu as coordenadas da dor para alcançar o local do sinistro. Percorreu a careca, com lentidão desesperada. Acariciou a dor, para a acalmar. Uma dúvida martelava: “Quem seria? Quem seria este filho da… quem ousaria desrespeitar esta calvície grisalha com um humilhante gotuâna?”

Manteve-se sentado sobre o caixote. Virou a cabeça, lentamente, seguindo com o olhar, a sombra do provável autor do desrespeito. Nascia atrás de si, de baixo de um sapato preto, sofrido, maquilhado à graxa. As calças da cor de um uniforme conhecido, alheias ao vento. Um cassetete na cintura e um emblema na fivela do cinto. Levantou a cabeça, mas o sol, sobre o ombro do fulano, não deixava ver o rosto. Tinha o punho ainda cerrado, como uma serpente pronta para outro bote de gotuâna:

– Não sabe que não deve vender aqui?

Por entre as pernas magras do agente viu a viatura com motor de trepidar irritante que se lhe misturava aos zumbidos da dor. Na porta, um logotipo, igual ao da fivela do cinto e a escrita com força das letras maiúsculas: POLÍCIA MUNICIPAL. Uma senhora desesperava, enquanto dois fulanos de uniforme atiravam as coisas que vendia para a bagageira do carro. Outra mulher, caída no asfalto, apoiou-se ao lancil do passeio, tentando levantar-se, ao mesmo tempo que recuperava do chão os seus legumes e frutas, equilibrando um bebé às costas.

– Hein? Não sabe?

Quase riu-se quando viu, ainda por entre as pernas magras do agente, outra mamana perseguida por um polícia, ser acudida por um carteirista, que lhe protegeu os bens. Mas não se riu porque os olhos fecharam-se, com muita força, como se a cabeça fosse implodir, quando sentiu a dor inexplicável de outro gotuâna a alastrar-se pelo corpo, e o trepidar irritante do veículo a misturar-se aos zumbidos da dor. Khô!

– Não sabe?

 

Para dominar uma natureza, deve-se, primeiro, aprender a obedecer-lhe

in O nome da Rosa

Fôssemos convidados a dizer de que é feita a alma de um poeta, partindo da Geografia do olhar, de Amosse Mucavele, talvez mencionássemos o desassossego como matéria-prima, a condizer com a incapacidade de se viver calado. Escolheríamos o desassossego não por julgarmos a palavra razoável e nem por nos lembrar Bernardo Soares ou Costley White. Nada disso, a escolheríamos porque nesta odisseia pela versificação o livro impõem-se como instrumento sintético do que caracteriza Maputo, sobretudo, nesta atmosfera feita de reencontros com o quotidiano, num sprint constante.

Em Geografia do olhar, Amosse Mucavele confere poder aos sujeitos de enunciação, ora numa espécie de introspecção, sonhando em viagem, ora num desabafo, pisando o chão na mesma proporção que os personagens de uma estória real, contada em qualquer entroncamento da baixa da capital. Por isso, os seus poemas, predominantemente curtos, herdam o carácter narrativo do que sucede em Maputo, enquanto espaço de urgências no qual é obrigação enfrentar o pesadelo acordado, para que o sonho possa tornar-se no mínimo verosímil.

Destarte, mesmo sem trazer um tema novo, na forma como o poeta explora a cidade, os seus (des)encantos e as angústias ligadas intrinsecamente, esta geografia percorrida com olhar – preenchida com a íris de um transeunte da palavra, combinando traços de um Okapi ou Bata, curiosamente, um poeta e outro contista – vem com um registo assinalável quanto à preservação da relação homem e espaço, onde desaguam desejos há muito transformados na “Guerra Popular”.

Esta iniciativa literária constitui um ponto de partida de regresso ao local em que o leitor se encontra, se for Maputo ou Lisboa, por exemplo, pelos ecos a transbordarem, em jeito de Retratos do instante, imagens e circunstâncias relativas.

Ao escrever este livro, longe do melhor de si, ainda pode voar mais alto, Mucavele levou em consideração a ideia tão apresentada nesse O nome da Rosa, de Annaud, claro, adaptado do Eco: “Para dominar uma natureza [da literatura, neste contexto], deve-se, primeiro, aprender a obedecer-lhe”. Então, logo se vê o poeta a reconhecer, ao longo dos versos, e a obedecer várias naturezas de que ele próprio se completa, autores como Borges das Ficções, a personificação de gostos e preferências.

O campo de visão desta Geografia de Mucavele tem mérito por nos levar a enxergar como as cidades são centros aglutinadores de mágoas, uma larica que consome o corpo, a esperança. O livro vinca essa ideia de a urbe ser uma nau no alto mar sem bússola, feita de vazios, mas sem que isso signifique o fim, porque os sujeitos poéticos vêem o sol em toda a sua glória. E mesmo a propósito do mar, temos aqui entidades a sugerirem que, se o cimento é uma circunstância de angústias, aquele espaço líquido oferece o encanto e o aconchego, portanto, um farol.

É este poeta feito de cimento e água que encontramos reflectido nesta Geografia, um poeta em formação, produto das suas conjunturas, urbano por excelência.

 

Título: Geografia do olhar

Autor: Amosse Mucavele

Editora: Cavalo do mar

Classificação: 12.5

 

Ano de 1994, Estádio da Machava, minuto 90. Chiquinho Conde “tira” dois adversários da jogada, endossa o esférico ao recém-entrado Tico-Tico, que não perdoa. Moçambique, 3-Guiné Conacri, 1. Os mais de 50 mil espectadores presentes, rejubilaram. Na Tribuna de honra, Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama (este pela primeira vez no futebol), dançaram e abraçaram-se, efusivamente. Já lá vão 24 anos.
Será que aquele gesto de paz, após a assinatura dos Acordos de Roma, poderá repetir-se no final da Taça de Moçambique, fecho da época futebolística actual, tendo agora como protagonistas o Presidente Nyusi e o líder da Renamo?

Política e desporto: reciprocidade subestimada

Em países mais desenvolvidos que o nosso, o simbolismo da presença dos mais altos magistrados faz parte da tradição e da história. Por exemplo: em Espanha é o Rei, na Inglaterra a Rainha ou seu directo representante, em Portugal é o Presidente da República quem, obrigatória e tradicionalmente se fazem presentes na Final da Taça para entregarem ao capitão da turma vencedora, o simbólico troféu.
Nós seremos dos poucos países do Mundo em que essa tradição entrou em desuso. Chegou a acontecer na vigência do Presidente Chissano, depois no primeiro ano de governação de Guebuza. A partir daí, por razões que se desconhece, passou a estar em desuso.
Estamos a falar de um “não” casamento em que todos perdem. Porquê? A “obrigatoriedade” do retomar desta tradição seria um sinal inequívoco de que o desporto é um assunto de Estado, símbolo de concórdia e união entre as pessoas, ao mesmo tempo que se valorizaria, através da Festa da Taça com a presença do Chefe de Estado, toda a actividade desportiva do país.
Imagine-se o Estádio do Zimpeto, repleto de alegria, com os adeptos a apoiarem as suas equipas numa tarde  memorável. Todo o mundo galvanizado: jogadores, árbitros, dirigentes dos clubes e da Federação, adeptos com as cores das suas colectividades – e não dos partidos políticos – comunicação social em peso, fotografias para a posteridade!
Uma tarde que poderia, porque ímpar, (re)motivar e ajudar a melhorar muito o tão sedento desporto nacional. Ocasião também para quebrar um ciclo cada vez mais agudo em matéria do desporto, em que os moçambicanos parecem virar as costas à actividade indígena, encontrando motivação e paixão no que se passa além-fronteiras.
No nosso país, dia-a-dia e infelizmente, a tendência é cultivarem-se mais razões para tristezas e cada vez menos motivos para, com abraços e saudações, exaltarmos as virtudes dos nossos melhores executantes!

 

A vadiação é coisa santa, foi inventada por Deus no paraíso
Jorge Amado

Quem acredita que a compreensão do presente depende do passado, tem mais uma razão para ler Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz, novo livro de Adelino Timóteo. Não que esta obra seja feita de fundamentos, nem pensar, mas por encerrar um contexto deveras ignorado, no qual ainda vivem personagens de estórias sobre os prazos do Zambeze e as belas mulheres de uma época a imortalizar.

É verdade que um Borges Coelho, Ungulani e Paradona já foram passear a Tete, tendo retirado das profundezas do grande rio mil eventos de amor, ódio, apropriação cultural, terror e mistério. Mesmo assim, o Zambeze, sendo água, é terra por desbravar. Razões? Várias, não fosse aquele território electrizante ser o encontro e a separação das sociedades patrilineares e matrilineares.

É naquele território que, seguindo a pena de Timóteo, encontramos uma figura incrível, a qual a vida deu a escassa ventura de possuir maridos que conviviam em harmonia mais do que alguns casais monogâmicos de Goengue. Trata-se de dona Luíza Michaela da Cruz, aparentemente ninfomaníaca por não conseguir resistir a um falo cujo tamanho estivesse bem desenhado. Logo, a história desta senhora dos prazos, e deste livro consequentemente, é feita de amores, oficiais e clandestinos, pois no processo da personagem buscar a felicidade o êxito dependia desse carácter possessivo estender-se aos homens a quem se juntava por atracção ou por conveniência. Nada feio, afinal, acreditando no Vadinho, de Amado, “a vadiação é coisa santa, por ter sido inventada por Deus no paraíso”.

A fim de nos contar esta história recuperada do séc. XIX, Adelino Timóteo reconstrói com eficiência peripécias de um cenário constituído de rivalidades entre pretos (entre si) e brancos, na luta pelo poder. E porque “nenhuma fortuna possui o pano limpo” (p. 32), o livro abre alas à honra, que, quando necessário, é lavada com sangue. Por essa razão, a história de Luíza começa logo com lágrimas, causadas pelo irmão Bonga ao assassinar Inominado, seu filho, fruto da relação extraconjugal entre a protagonista e um escravo preto, Fazbem, traindo assim Belchior, um português.

Esta também é uma narrativa de disputas territoriais, bem à imagem dos eventos anteriores à colonização, contada por Livingstone, um missionário inglês cuja tarefa passa por evangelizar os pretos nas terras do Zambeze. Por via daquela personagem histórica, as vitórias e os dramas de Luíza da Cruz são contadas por um narrador homodiegético, essa entidade que nos conta a história na primeira pessoa sem que seja protagonista. Talvez, essa, não tenha sido a melhor opção. Um narrador heterodiegético, portanto, que não fizesse parte do enredo como personagem, seria mais interessante. Quando Livingstone é o centro dos eventos, configurando focalizações omniscientes, há um encanto que se perde em termos técnicos-literários, ainda que isso não comprometa o universo da história. Outra coisa, há demasiada coincidência entre o discurso do narrador – configurado por um missionário iluminado como é o inglês – e os diálogos das personagens, inclusive pretos. Uma clara diferenciação de estilos calhava bem nos relatos.

Os oito maridos de dona Luíza é uma história dos espaços e do que neles se gerou, com o tempo, quase na mesma proporção que Lueji: o nascimento de um império, romance de Pepetela, no qual também se encontra personagem feminina com poder de mandar e escolher o homem que lhe desse vontade de levar ao leito, como dona Luíza, confrontando a tudo e a todos.

Com este romance, constituído por narrativas paralelas, Timóteo vai contribuindo para a multiplicidade literária voltada a uma riqueza cultural que deve ser recontada, demonstrando uma paixão por mulheres poderosas. No livro anterior, foi Cleópatra, resgatada do Egipto. Eis que agora chegou o momento de Luíza da Cruz, do Zambeze, pretexto para veicular mensagens: “o pior na morte não são as lágrimas, mas a hipocrisia que elas contêm” (p. 145).
 
Título: Os oito maridos de dona Luíza Michaela da Cruz
Autor: Adelino Timóteo
Editora: Alcance
Classificação: 14.5

 

Xi-Cau- Cau

Foram horas de festa encarnada na Praça Robert Mugabe, com carros exibindo a bandeira do SLB, manifestações inequívocas de benfiquismo envolvendo alguns portugueses, mas muitos, muitos mesmo, moçambicanos. A festa no Marquês de Pombal, centro de Lisboa, teve uma filha legítima em Maputo. Idêntica situação seguramente aconteceria se o vencedor da Liga Portuguesa fosse o FC do Porto, detentor de um penta, ou do Sporting, eterno candidato ao “tenta”.
Estamos em presença de um fenómeno comum a várias modalidades e até actividades. Creio, sinceramente, que não fará mal ao Mundo que as actuações das grandes estrelas do planeta sejam por todos vividas e até apropriadas. Vi cidadãos portugueses, vitoriarem Lurdes Mutola a correr por Moçambique como se de uma atleta lusa se tratasse. Em Angola, Cabo Verde e outros países lusófonos, o futebol português é algo incontornável, alterando agendas para ser acompanhado em pormenor. E nem mesmo a anglofonia “escapa” a esta onda de fanatismo, relativamente ao Manchester, Liverpool ou Arsenal.
É também o que acontece na cultura, nas artes e até na ciência.

O “BUSILIS” DA QUESTÃO

As estranhas diferenças, residem no seguinte: nos outros países, sejam eles anglófonos, francónos ou lusófonos, para lá de se vibrar com os triunfos das outras paragens, onde o nível é inequivocamente mais alto, também se sofre, se chora e se explode de alegria, consoante a “doença” de cada um, quando as colectividades ou atletas locais têm os seus desempenhos. Por exemplo: uma eventual vitória no Girabola do 1º de Agosto, Petro ou outra turma angolana, faz parar o trânsito de Luanda, Lobito ou Benguela. Há festa rija, apaixonada e espontânea. Com desfile de bandeiras em caravanas de viaturas.

Porque tudo é diferente entre nós? Que não me venham com a história da nossa má qualidade, pois o campeonato angolano não se situa a um nível acima do nosso. Prova-o, por exemplo, o facto de a nossa prova ter uma equipa na fase de grupos da Liga Africana, ao contrário dos nossos “kambas”.

Portanto Maputo, particularmente, é um caso “sui generis”. Os componentes das claques das principais equipas, em número bastante reduzido, é composta por cidadãos sem grandes posses e sem poder para desfilar com bandeiras e cachecóis. Daí que não seja difícil antever que caso uma das turmas da capital ganhe o título esta temporada, o desfile será, como nas épocas anteriores, de “meia-dúzia de gatos pingados”. Os poderosos, os adeptos das águias, leões e dragões, não terão tempo, nem disponibilidade, para se juntarem aos que se contentam com o nosso mísero futebol “de trazer por casa”.
Felizmente que este retrato, não se replica da mesma forma pelo país fora. Apraz-me constatar a união dos beirenses em redor do seu representante e dos gazenses, relativamente aos seus guerreiros do Chibuto, o que se replica um pouco pelo Norte e Centro do país.
Porque temos – há que o reconhecer – um futebol medíocre comparado com o europeu, os maputenses não se revêem nele. E talvez considerem que quem nele se revê, seja também… medíocre.

Para quem como eu viveu momentos tão exaltantes do nosso desporto, sobretudo o basquetebol, que em femininos até fazia corar de inveja os lusos, é dolorosa esta realidade.  Apetece-me – mas não o vou fazer – gritar a plenos pulmões que este virar as costas tem relação com a auto-estima, ou melhor, com a falta dela. Enquanto o corpo vai “definhando” por cá, o pensamento “esvoaça” por outras latitudes em muitos casos nunca algumas vezes visitadas…

 

 

Sonha como se fosses viver para sempre e vive como se fosses morrer amanhã

James Dean

É bem provável que a melhor receita da vida esteja nesta frase: “Sonha como se fosses viver para sempre e vive como se fosses morrer amanhã”, pois nisso acontece o encontro entre o ideal e o real em plena harmonia. Deve ser esta uma das razões de Carlos dos Santos, em O eco das sombras, ter feito referência a James Dean. E a presença de Dean, aqui, tem nos Passos de magia ao sol, de Mauro Brito, uma justificação, não fosse o livro de estreia do poeta uma “verdadeira alusão” ao conselho daquele “personagem”. Nada de propósito, que nestas coisas da escrita aceitam-se coincidências e, sobretudo, o dialogismo textual há muito apontado por Bakhtin.

Portanto, lembramo-nos de Dean porque nestes Passos de magia ao sol revestidos de muita simplicidade linguística e imagética, Mauro Brito, mais do que tudo, faz o leitor sonhar em direcção ao passado na mesma proporção que ao futuro, levando-o a renascer na beleza infante ou a florescer na presunção de uma maturidade sempre no meio do percurso. Nesse movimento, o autor consegue tornar a poesia, simultaneamente, um acontecimento que nos toca diariamente num conjunto de sensações que afagam a alma nos passos mágicos. Está nisso a lhaneza das entidades textuais, as quais expressam horizontes de um mundo colorido, que lhes habita, estando no exterior. Trata-se de um mundo iluminado de estrelas do céu, preenchido pela água azul do mar, por onde passam navios a chegar e a partir, em constante viagem, daí a necessidade de se ter o poema “Farol” a inaugurar as páginas de uma saudade que começa na leitura, por se saber que ao fim de 28 fecharemos o livro com a mesma vontade de voltar a lê-lo novamente.

Mauro Brito escreveu este livro para um público sem rosto. Talvez não se tenha apercebido disso, mas os versos de Passos de magia ao sol, ao reflectirem uma parte de si, “que o tempo guardou nas gotas de chuva” (p. 06), por isso fértil, converge idades, todas, na circunstância de terem de se livrar da memória natalícia para serem vidas apenas, protegidas por um “cobertor de sonhos” que é o livro.

Este é um livro cuja abordagem vale por ser reinventada, com boas conjugações verbais e óptima selecção das palavras: curtas, claras, impactantes e muito próximas à sugestão nessa relação entre significado e significante. Com isso, Brito dá vida a sujeitos humildes, sinceros, capazes de cativar ao som do verso dito em surdina e de obrigar uma reflexão, por exemplo: “Para quê inventar heróis,/ se o papá e a mama/ já o são?” – os versos são do poema “Os meus heróis” (p. 26).   

Enfim, a obra de estreia de Mauro Brito é um pequeno livro para se ler em família, acomodado na certeza de que a magia poética funciona eminente, como um recurso onírico, quando se dão os passos certos.

 

Titulo: Passos de magia ao sol

Autor: Mauro Brito

Edição: Escola Portuguesa de Moçambique

Classificação: 14
 

A felicidade não tem história, com uma vida feliz não se faz romance

Jorge Amado

Hakuna maguezi (do rhonga, não há luz). Foram estas as primeiras palavras que ouvimos, quando, nesta quarta-feira, manifestamos o interesse de apreciar a nova exposição de Sebastião Matsinhe, patente no Museu Nacional de Arte até 30 de Abril. Como se aquilo pudesse ser uma interdição, não deixou de nos chamar atenção, afinal teríamos de ver “Mistérios da noite” – e esse é o título da mostra do artista plástico – num ambiente, digamos, com efeitos nocturnos, já que as salas com as obras estavam escuras, uma mais do que a outra. Ainda bem que os chineses inventaram uma lanterna tão capaz quanto aquela de um Huawei que a empresa soube e bem oferecer. Assim, houve maguezi, por um instante, o tempo necessário para ver, avaliar e intrometermo-nos na dimensão ou no imaginário do autor que, enquanto fervíamos os miolos, devia estar a gozar a precipitação da chuva miúda no hotel Santa Cruz. Poderíamos ter-lhe ligado naquela altura, rematando-lhe a perplexidade ou algo assim. Mas não, que os mistérios tinham de ser desvendados em silêncio num pacto perpétuo.

Então seguiu-se a odisseia, a qual, logo à partida, deu-nos a emoção e a razão, num nível subtil, em que a primavera anímica dizia-se ser viagem. E tudo aquilo resumia-se na frase do autor baiano: “A felicidade não tem história, com uma vida feliz não se faz romance”. E nem artes plásticas, eventualmente, se nos guiarmos pela presunção de apenas ter a mostra de Matsinhe como modelo. Porque essa obra surge oportunamente para exprimir o sentimento de que a melancolia impõem-se como uma ferramenta distinta na tessitura de qualquer enredo. Isso, misturado com suspense, intriga e mistério, de facto, torna uma obra digna de ser e existir.

Estas telas de Sebastião Matsinhe conseguem conter um impacto acutilante na ordem do pensamento de quem as contempla ou deixa-se levar a um patamar em que a fantasia mistura-se com o impulso gerido pela inquietude interior do autor, arrogante por exigir existência material num paralelismo harmónico com a subjectividade do que se sugere por via da pintura.

Com efeito, “Mistérios da noite” revela-se como veículo que em si transporta várias imagens: a tradição e a natureza, e as suas derivações. Nisso encontramos a mulher, que bem pode estar, igualmente – acreditamos nisso –, a representar o pecado e a terra. No primeiro caso, com tudo o que a inferniza. No segundo, usando das transferências metafóricas já projectadas por Craveirinha naquele velho texto: “Mãe” – na mostra, disfarçado em “Mãe e filho” (2013), por exemplo, pintada, adivinha-se, com sentimentos profundos, daí as cores com tonalidades deveras acentuadas.

Mesmo a propósito de sentimentos, “Mistérios da noite” junta vários afectos, com primazia para o amor que liberta um farol suficiente para iluminar a noite que aqui também sugere o lado sombrio do Homem, incapaz de respeitar a espécie e o meio que a sustenta. Por isso temos, nas seis dezenas de telas aproximadamente, uma com o título “Violência contra a natureza” (2012), colocada com destaque para chamar atenção, com um stop, a conduzir uma introspecção voluntaria. Essa é das telas mais bem concebidas do ponto de vista temático, actual. Na companhia, aparecem as mais belas, como: “Máscara” (2007) – simples e simpática –; “O baptismo da avó” (2016) – uma espécie de passagem de testemunho que conduz à sabedoria agora ignorada por tudo –; “Figura central” (2014) – das mais complexas e incómodas, e bem localizada ao lado de “A riqueza” (2010), com mesmas cores e múltiplas sugestões. Essas merecem lá estar. Existem as que não merecem? Na nossa opinião, certamente. Por exemplo, a tela “A beleza da natureza” (2017), banal, machista e vulgar, por colocar a imagem feminina cruelmente desnudada, de tal modo que nem inspiraria a garrafa de Laurentina Preta. “A biquiri” (2016) é outra descartável.  

Contudo, nesta exposição, feita de acrílico sobre tela, Sebastião Matsinhe leva-nos consigo rumo a um diálogo com o nosso mundo interior, em momentos em que somos dia, por conseguirmos nos manter completamente sisudos, bem como em momentos em que somos noite, pedaços de uma escolha que gera “Fome” (2014) e, depois, uma “Tempestade” (2014) generalizante, como se “Mistérios da noite” quisesse ser um farol, e é, mostrando quem somos e quem poderemos ser.

 

Título: “Mistérios da noite”

Autor: Sebastião Matsinhe

Exposição de Artes Plásticas

Classificação: 13

 

Palavras sem algemas

Sim, sou mulher. Mas por que sou? Desen¬gana-se quem, precipitadamente, responder que o sou porque nasci do sexo feminino. Ser mulher é muito mais do que o sexo, os cabelos trançados, as unhas longas e cintilantes, os batons coloridos nos lábios, as saias e os vestidos, os saltos altos, as bolsas grandes, os brincos que baloiçam com o roçar dos ventos, ou qualquer outro adereço que pos¬sa ostentar.

Quando se aprecia o sexo à nascença, o bebé ganha à partida um destino: o de ser homem ou mulher. Do homem não me iria pronunciar, relegando para outra inspiração. Mas, porque está intrinsecamente ligado ao da mulher, vou fazê-lo.

Ser homem ou mulher é, à partida, uma expectativa social. Portanto, há um conjunto de comportamentos pré-fabricados pelos que têm o poder de definir valores numa sociedade, os quais, uma vez entranhados, se transformam em normas sociais.

Neste sentido, das mulhe¬res, em muitas sociedades, espera-se que sejam boas donas de casa (saber lavar, passar, cozinhar e cuidar do marido). Para isso, tem uma infância que a induz a essa responsabilidade. Brinca com bonecas para crescer a saber cuidar dos filhos, com panelinhas e fogões forjados para saber cozinhar. E tudo gira à volta desta implícita e imposta preparação, sem contar que, ainda criança ou na adolescência, passa da simulação para a acção verdadeira ao participar nos trabalhos de casa.

Do homem, espera-se que seja o provedor da família, garantindo a arrecadação da renda para suprir as necessidades. Colocam-nos a brincar com carrinhos para lhes incutir o espírito de luta pela vida no mundo fora… impingem-lhes a ideia de que homem não chora, de que deve exibir a sua força para parecer valente, etc… e, por vezes, constrói-se um monstro que se apaixona pela violência e pelo crime gratuitamente.

Sucede que as sociedades se transformaram com o evoluir dos tempos e, rapidamente, a mulher começou a desempenhar as tarefas tidas como próprias do homem, mas o contrário ainda é a excepção. E aqui reside a heroicidade da mulher na actualidade – ela consegue, virtuosamente, conciliar o que a sociedade reserva para ela e para o homem. E quando se foca numa só função, o sucesso é ainda maior.
Todos passam por uma socialização pré-definida pela sociedade, embora não faltem excepções. Mas para os que rejeitam as vontades so¬ciais e seguem puramente os instintos, sobra-lhes a sorte de serem percebidos e aceites ou enfrentarem a dura rejei¬ção social.

A todas as mulheres virtuosas, faço-lhes uma vénia.

 

 

Palavras sem algemas

São inúmeras as lições de contos populares que moralizam sobre a importância de nos solidarizarmos com os pro¬blemas dos outros por puro altruísmo. As voltas que o mundo dá provam que muitos dos tropeços da vida são consequência da perspectiva individual de viver a vida.

O país está às cambalhotas. Assiste-se a um coktail de males que ainda sabe bem na ingenuidade de al-guns paladares pouco apurados. Gente inocente que reconhece o sabor amargo, mas desconhece as razões e acredita que a receita se mantém genuína. Um es¬tado de sonambulismo que será duramente quebrado com a pancada da vida quando nada mais houver para beber.

É mesmo assim. O individualismo excessivo, com uma dose de ignorância à mistura, leva algumas pes-soas a pensar que a crise económica em que o país está mergulhado é problemas dos outros, mesmo quando no dia-a-dia sentem que o custo de vida elevado esvazia os bolsos num sopro.

Os dados são tenebrosos. O Investimento Directo Estrangeiro reduziu para níveis de há 15 anos, ao sair dos 7.1 biliões de dólares americanos em 2014 para 1.3 em 2015, segundo revelou o ministro da Econo-mia e Finanças, Adriano Maleiane, que prima pela transparência quando atin¬ge o limite da tolerância da compreensão da omissão. Mas, ainda que apresentada aos bocados, montado o puzzle, a imagem que se vislumbra é triste. Por um lado, é a dívida pública que está próxima da insustentabilidade e sufoca as contas do Governo, colocando a Autoridade Tributária a aplicar mão dura às empresas numa busca desesperada de receitas. Por outro, é a actividade económica que está a abrandar, a factura¬ção das empresas a reduzir, os preços de quase todos os produtos a subir, a tensão político-militar a inibir e/ ou travar a actividade económica, pessoas a perde¬rem emprego e outras sem esperança de o conseguir.

E para amargar mais a vida, a seca que assola a re¬gião Sul e as chuvas no Centro e Norte do país afectam a produção agrícola, dizi¬mam vidas humanas e de animais, levando famílias a migrarem à busca da sobrevivência.

Com tudo isto, há quem acredita que o problema ainda é dos outros. Para este nível de ignorância, cuja cura é a pancada directa, só o Governo pode evitar, salvando o país da queda no precipício.
Moçambique merece sonhar com dias mais color idos , s enhore s governantes.

 

Quanto tempo leva para aprender que uma flor tem vida ao nascer?

Maria Gadú

Vácuos é uma flor a sonhar ser vagem. Bem dito, é o próprio fruto de uma semente fértil por sobreviver a todas intempéries, quais tremores de terra capazes de abalar uma substância constituída pela resistência do vazio. O que mais se perde, quando se está nu, mas verdadeiramente puro?! Eventualmente, nada. Logo, há-de ser por isso que Mbate Pedro (re)escreve o seu quarto livro despido de tudo: das amarras literárias, da pressão da vitória efémera e das expectativas do leitor.

Na condição de um poeta educado, esgotando-se até à exaustão para salvaguardar o pacto rubricado com a escrita, Mbate, nesta proposta, parte para longe a fim recuperar “o barrulho escutado quando uma flor cai lá do alto” (p. 17). Um momento mágico quanto cheio de naturalidade; um momento beleza, em que o chão vai colhendo parte do que melhor gera. No livro, obviamente, quem colhe, o que quer que seja bem feito pelo milagre da gestação, é quem ousa ler a poesia cuja essência habita no jogo de palavra efectuado com suavidade; de palavras comuns, é facto, mas a sugerir sentidos complexos, que nos levam a almejar perceber o que se pretende dizer ou a desistir, deleitando-se pela estupefacção. Porque todos estes vácuos que paradoxalmente preenchem os sujeitos desta composição poética correspondem ao labor da palavra vivida, sentida e partilhada. Tal situação, não passa modesta, pois, do início ao fim, a poesia aqui trazida evolui no ritmo que quase boicota qualquer interesse de se largar o livro. As vozes das entidades enunciadoras tornam-se tão presentes que parecem sussurrar palavras de excitação feitas de mel, a invocar um amor Bethânia, feito de composição cubista (numa renúncia à perspectiva), como diria Caetano Veloso.
 
Estes Vácuos confrontam-nos com uma versificação ponderadamente perfurante e comovente.
 
Se é verdade que o livro nos conduz a um lirismo focado, ganhando corpo num monólogo de quem fala para não minguar calado, não é mentira que os poemas nos dão uma outra dimensão, subjectiva, de ver o mundo real.
 
Nos encantos da palavra em Mbate, descobrimos as impurezas das nossas vestes, os desencantos do que vai mal em casa – que concorrem para estes Vácuos, precisamente – e “o desespero que me é dado a/ assistir nos rostos bafientos e medrosos/ dos poetas novatos” (p. 62). Tudo isto, possuído pela reivindicação de colorir a poesia com a sua matéria-prima, a palavra, nua como a flor a sonhar ser vagem. E é aí onde a poesia acontece, na capacidade que a alma do poeta tem de se livrar dos paraísos terrenos em troca de um lugar santo: perto do mar e longe da cruz.

Em Vácuos, mais do que no livro anterior, Mbate Pedro consegue impressionar ao dar-se mais tempo para pintar as páginas da existência… com uma poesia distante das perspectivas quotidianas. Assim, Vácuos, título inquietante quanto oportuno, solidifica, com efeito, que a angústia e a repugnância podem ser transformadas numa obra que nos preenche o vazio de coisas sãs. Simultaneamente, a macha gráfica e o verso bem dito – com simplicidade, a lembrar-nos que poesia não é escrever difícil –, fazem desta obra um marco a registar. Por isso, discordamos daquela personagem do Jorge: não é verdade que “médico SÓ sabe dizer palavra bonita e ter caligrafia ruim”.

 

Titulo: Vacuos
Autor: Mbate Pedro
Editora: Cavalo do Mar
Classificação: 16

 

XIPIKIRI

– Ntlha!!!

Maússe dobrou a língua em sinal de desprezo. Levantou-se sem pedir permissão. Abandonou a reunião como se saísse duma discussão informal num bar qualquer. O chefe engasgou o discurso. Engoliu o espanto de queixo caído. O rosto, habituado a vassalagens, derreteu a expressão. Os tentáculos desfaleceram, sem reacção, sobre o tampo da mesa. O silêncio estendeu-se pela sala como um elástico tenso, em quase ruptura. Para cortar o silêncio, o microfone acusou interferência e assobiou como uma faca sonora.

– É o quê, Maússe? – Perguntou Fenias, colega e companheiro, em tom e volume de não desrespeitar a solenidade da reunião, chamando-o à razão, quando Maússe passava por ele, disparado para a porta, como um touro enfurecido pelo salário magro.

Maússe respondeu com um gesto curto, grosso e claro: atirou a mão e os dedos para trás, por cima do ombro, num óbvio futseka!, que é como se manda lixar, por estas bandas. A imprensa registou, mas iriam obviamente “desregistar”. Não ficaria bem um futseka ao chefe aparecer na TV.

Mais tarde, porque o principal sintoma da fúria de um funcionário raso é uma estiagem interminável nas goelas, Fenias iria procurar pelo amigo no local mais óbvio: o quiosque da Dona Marta, onde a possibilidade de fiado compensava a qualidade da cerveja.

– O que te deu, irmão? – Perguntou Fenias, dando um gole do copo do colega.

– Estou cansado.

– Do salário baixo? Do cargo anão? Do gigante custo de vida? Estamos todos cansados, mas já nos habituamos. Nós, funcionários públicos, estamos talhados para aguentar.

Fenias falava com palmadas no ombro do amigo. Entornou a garrafa para o copo do Maússe, com o copo na posição certa para não fazer muita espuma.

– Há gente a viver bem, a afundar o país, nós aqui sem salário e mandam-nos desfilar para o 1 de Maio… desfilar sem salário. Poxa! Estou cansado de mentiras – deu um gole infinito

– Mas a mentira sempre existiu, irmão. Este país cresceu sobre a lógica de mentiras. Por isso cresceu. Temos de manter a coerência. A fundação e os pilares deste nosso país têm a robustez da mentira.

– É isso que não concordo: viver por cima de mentiras. Aumentam o salário mas não recebemos o tal salário.

– A verdade, no meio de muita mentira, é falsa e chega a ser imoral. Se diante desta mentira toda em que vivemos, andares a proferir verdades, não vais conseguir viver entre nós.

– Não vou!, eu não vou ao desfile de 1 de Maio.

Maússe encharcou a goela com mais um trago. Fenias não o deixou pousar o copo na mesa. O copo passou da mão trêmula de um para a do outro. Partilhavam o copo como têm partilhado as dores de bolso.

– Esquece isso irmão. Queres ser expulso e perder a reforma?

Deu um gole fundo, profundo, abissal. Ia encher o copo mas a garrafa estava vazia, apenas pingou, ironicamente, um cuspo de espuma. Estalou os dedos a pedir outra.

– Desfilar no dia do trabalhador sem salário – suspirou –, preferia desfilar no dia das mentiras. Trocassem o 1 de Maio pelo 1 de Abril!

O amigo riu-se. Calaram-se. Ficaram ali sentados a olhar para o fundo sem sentido do copo vazio. Maússe levantou o braço e com um gesto cancelou a cerveja pedida. Estava intragável.

Palavras sem algemas

Não é difamação, muito menos injú­ria. Fomos mesmo ludibriados pelo Presidente Nyusi. A desilusão já pas­sou de sensação para realidade, tal e qual pas­sou o período de graça e de paninhos quen­tes. Na avaliação, após um ano e três meses de governação, em matéria de transparência o nosso presidente chumbou. Fez inúmeras pro­messas públicas que não se compadecem com o quotidiano da sua nublosa governação. A pretensão da transparência não se compadece com adiamentos. É imediato. E transparente o seu o Governo não é.

A começar pelo meloso discurso de investi­dura, reproduzido no discurso de tomada de posse do Governo e noutras ocasiões, o Presi­dente Nyusi sempre pregou a transparência, mais para a sepultura do que para a vida, num túmulo já enterrado pelos seu antecessores.

Recordemos algumas das falsas promessas:

“Exigiremos maior eficiência e melhor qua­lidade das instituições e dos agentes públicos que respeitem os princípios da legalidade, transparência e imparcialidade por forma a servir cada vez melhor o cidadão”.

“Asseguraremos que as instituições estatais e públicas sejam o espelho da integridade e transparência na gestão da coisa pública, de modo a inspirar maior confiança no cidadão. Queremos uma cultura de responsabilização e prestação de contas dos dirigentes”.

“Este Governo deve ser comunicativo com o povo. Os membros deste Governo devem enca­rar o acesso à informação como um direito de cidadania consagrado na Constituição e na lei. A nossa acção deve estar alicerçada nos mais altos princípios da ética governativa, como a transparência, a integridade,…”

Hoje, somos alfinetados com informações de que o país se afunda no abismo do endivi­damento descontrolado e insustentável. Uma curva para a desgraça de um povo inocente, cujo único e exclusivo tranquilizante seria a transparência e responsabilização que tanto nos prometeu o Sr. Presidente, quando disse: “Não aceitaremos a violação deste contrato so­cial firmado com o nosso povo. Ninguém está acima da Lei e todos são iguais perante ela”.

Sem este paliativo, como podemos respon­der ao seu apelo de, juntos, edificarmos Mo­çambique? Como podemos projectar o nosso futuro? Sim, gritamos, “Nyusi eu confio em ti”… Mas de que nos vale a confiança às cegas quando vemos as instituições de Bretton Woo­ds a um passo de nos estenderem a mão para o resgate do abismo? Como podemos confiar na sua liderança para reconstruir a esperança de um futuro melhor, com a força da mudan­ça? Quando disse que o povo era o seu único e exclusivo patrão, afinal, que sentido tinha esta oração, para além do valor estético nas colori­das linhas do seu discurso?

Pior, como interpretar o convite que fez aos moçambicanos e aos partidos políticos da opo­sição para, “de forma patriótica e responsável, participarem no processo de fiscalização do novo ciclo governativo”, quando o partido que dirige é o primeiro a negar esclarecer as con­tas do Estado na Casa do Povo? Afinal, o di­nheiro do Estado não é nosso? Sendo, porque não podemos conhecer os destinos que toma quando chega à vossa gestão? Por que conhe­cer parte do estado das contas da nossa casa através de terceiros?

“Queremos que Moçambique continue a ser refenciado como um dos países do mundo que mantém taxas de crescimento elevadas”. Como será possível, se esses países são os primeiro a saber da nossa precária situação financeira?

A nossa pacata condição de cidadãos, atro­fiada pelo individualismo e certa cobardia, está à beira da extinção. A pressão da vida está prestes a roçar o limite da paciência e a activar o estado natural do Homem na luta pela so­brevivência. É mesmo assim, o caos acontece quando a todos tudo falta. Não deixe que falte, Sr. Presidente. Que a boa governação seja, de facto, a vossa palavra de ordem e que fique a lição de não prometer o que não tem.

Xi-cau Cau

Desempenhos dentro de uma bitola bastante aceitável nesta fase do campeonato, pontos perdidos devido a remates a poucos centímetros do poste, "devoluções" da trave, enfim, imprevisibilidades que fazem do futebol o desporto-rei, é o que tem acontecido a Arnaldo Salvado no Ferroviário de Nampula, claramente uma turma para ambicionar os primeiros postos do actual Moçambola, apesar de só ter amealhado 2 pontos em 3 jogos.

Estamos a falar do técnico com mais títulos na história do nosso futebol pós-Independência, alguém que deixou para trás uma carreira de Engenharia Civil por amor ao desporto, que "bebeu", pacientemente, das experiências como adjunto de Rui Caçador e Bondarenko, que muito deu, por vezes graciosamente da sua capacidade à Selecção Nacional. Em suma, um conhecedor e estudioso do futebol e que, à semelhança de Martinho de Almeida, só admira que ainda não tenham sido lembrados para justas homenagens.

Tenho que referir que por ele nutro muita admiração, apesar de já termos tido divergências por diferenças de opinião, com cada um a defender os sectores que escolheu para ajudar a avançar a "dama" que a ambos apaixona: o desporto! Ele, pugnando pelas equipas ou selecções que treinou e eu na minha trincheira de há 50 anos: o jornalismo. Tudo dentro das regras do respeito, decência e boa educação.

Arnaldo Salvado é um homem temperamental. Sempre igual a si próprio, ele "não leva o desaforo para casa". Mas é amigo do seu amigo, da verdade e da lealdade. Do seu bolso, já apoiou atletas, aconselhou-os a não perderem o foco da formação como homens, pensando no pós-futebol. Porém, muito da sua tolerância, param à porta das quatro linhas, onde é exigente q. b.

Recordo que há uns anos, abandonou um lucrativo projecto à frente de uma equipa sul-africana, por são ser compatível com a sua maneira de ser. O mercantilismo que encontrou obrigar-lhe-ia a ter que obedecer às ordens do Presidente do clube, quanto aos jogadores a escalar para cada partida, de forma a serem posteriormente vendidos.

Estudioso do fenómeno desportivo e social, faz questão de conhecer os atletas, os seus temperamentos e capacidades, para deles extrair o máximo em benefício das equipas. Uma das vantagens da experiência que tem, é a de conhecer de uma forma geral as equipas e treinadores adversários, até a sua filosofia, de maneira a tirar benefícios destes trunfos.

Com Salvado, o Costa do Sol colocou na forja, com sucesso, um dos mais arrojados e bem sucedidos projectos do nosso futebol: o do "Pembinha", que gerou, Riquito, Pintainho, Arnaldo e outros, que mais tarde deram títulos ao canário e alegrias ao país através da Selecção Nacional.

Salvado está magoado com alguns adeptos dos locomotivas macuas. E com razão, porque foi atacado nas vertentes em que ele é, na realidade, impoluto: o patriotismo, o anti-racismo e o anti-tribalismo.

É evidente que o que "fala" para os adeptos, são os resultados. Mas terá que haver mais ponderação e serenidade.

Ao abordar este assunto, devo referir que em regra os técnicos do Sul sabem que no Norte do país, o factor tribal funciona segundo os resultados: saudações e abraços quando vencem, rótulos de marronga ou machangana quando perdem.

Independentemente do que venha a acontecer quanto à continuidade de Salvado no Ferroviário de Nampula, pela sua estatura, serviços e lealdade largamente demonstrados, ele não merece, em momento algum, ser "mimoseado" com anti-machanganismos primários.

 

Vivemos tempos di­fíceis. Uma crise ouvida e percebida também pelos outros senti­dos. Uma crise que actua de forma silenciosa, mas violen­ta. Uma crise que não grita para ser vista, ouvida e sen­tida. Simplesmente chega e derruba esperanças.

Com o metical desvalori­zado, o investimento a re­trair drasticamente, a dívida pública para além da sus­tentabilidade, os doadores a fecharem-nos as portas, e outros males à mistura, há quem diria que estamos no fundo do poço, tramados e sem saídas.

Mas, na verdade, toda a crise é uma oportunidade para nos reinventarmos e descobrirmos novas e me­lhores formas de agir. De nos livrarmos da mesmice, que mata mais do que ali­menta. Se chegámos onde chegámos por falta de ri­gor nas contas, por gestão danosa do Orçamento, por despesismo excessivo, pela mentalidade de que no Es­tado tiramos o leite e toda a gordura que alimenta a vaidade, com a crise, a lição está dada. Falta-nos querer e mudar de atitude e de men­talidade. Mas, para isso, im­põe-se liderança.

Este é o desafio do Pre­sidente Nyusi. Secar todas as lágrimas que o acom­panham desde que tomou posse e descobriu cofres va­zios, dívidas embrulhadas, atrasos nos desembolsos dos doadores, investidores em fuga ou retraídos, etc., e todas as consequências que daí advêm. Este é o seu mo­mento para imprimir a sua visão de liderança, porque todos os argumentos estão a seu favor. A arca está pron­ta, a maré está brava, mas precisamos de chegar a um porto seguro e o Presidente é o capitão.

O leite entornou? Sim. Mas não está perdido. Vai fertilizar o solo para o Presi­dente Nyusi lançar a semen­te que muito acalentamos que brote. De facto, são pou­cos os que tiram proveito das crises, tal como são pou­cos os que governam o Povo. Por isso, esperamos que esta envenenada oportunidade que a vida dá seja bem apro­veitada.

Queremos uma gestão das finanças públicas mais transparente, racional e equilibrada, com rigor e corte nas despesas fúteis. Queremos endividar-nos para continuar a crescer – mas sempre pelos melhores motivos e à medida da nossa capacidade. Não queremos ser acarinhados com pala­vras, mas com actos que re­novem as nossas esperanças.

Que a economia dê as suas voltas entre prosperidade e recessão, mas que o Governo nos devolva a confiança de que somos bem conduzidos. Sabemos que não caminha­mos num movimento recti­líneo, uniforme. Conhece­mos o quão acidentada é a terra que percorremos e os malabarismos que precisa­mos de fazer para alcançar o boom do crescimento.

Auguramos uma recessão de curta duração, porque o que nos projecta é ainda maior do que o que nos des­trói. Por isso, grito: maldita crise bendita que nos devol­ve a esperança de virmos a ser um país melhor.

Saído do completo anonimato pelas mãos de Júlio Rito, Henrique Pedrosa, Martinho de Almeida e outros homens do desporto com “H” maiúsculo, o benfiquinha de Lourenço Marques em poucas temporadas virou Costa do Sol ganhador, clube de primeira linha que venceu dois campeonatos nacionais no final da década 70.

Um regalo. O Estádio da Machava, cheíssimo, deu várias vezes corpo a tardes e noites de futebol absolutamente irrepetíveis. Os “canarinhos” tinham um Nito que começava as jogadas atrás, subindo e descendo pela sua ala como se existisse um alçapão; Adelino Caldeira, era o GPS por onde passavam todas as ideias centrais do jogo, coadjudvado por Sergito e Ramos; à frente, Gil e Luís, “trituravam” as defesas, mercê de um conjunto de argumentos e alternativas muito raras no desporto-rei.

Foi o ciclo de ouro do Costa do Sol e, consequentemente, do futebol do país, que então abria os olhos para o nosso Continente. Dono e senhor na competitividade interna e a pensar em altos voos, os dirigentes não se sentaram “à sombra da bananeira”, a curtirem os sucessos. Bem pelo contrário “burilaram” uma das mais originais e exitosas experiências viradas para o futuro – programada, pensada e executada com rigor – cujo sucesso não se fez esperar. É o que vamos relatar.
 
Um laboratório chamado Pembinha

Muito embora o clube tivesse uma equipa de reservas para onde os jogadores saídos dos juniores iriam explanar as suas capacidades, lutando por uma oportunidade diante dos galáticos de então, os dirigentes do clube deitaram mão à potenciação de um seu “satélite” – o Desportivo de Pemba, mais tarde conhecido por Pembinha – e enviaram quase uma equipa, mais o respectivo treinador, para um projecto de quatro anos, que permitisse a curto prazo render, sem sobressaltos a representação principal.

É verdade e ficou neste caso provado, que as grandes vitórias organizam-se e preparam-se. Jogadores como Riquito, Pintaínho e outros, irmanados e orientados por Arnaldo Salvado, fizeram história no Campeonato Nacional de então. E que se não pense que o que aconteceu foi um mero “despejar” de jovens “machanganas” numa cidade do Norte, como hoje acontece. O grupo sabia ao que ia, tinha direitos e obrigações. Desde logo, com perspectivas. Os que eram estudantes tinham que continuar os seus cursos, os outros tiveram um enquadramento laboral. Com um plano estruturado, os jovens “canarinhos” iam às escolas e bairros motivar a criançada para o desporto, demonstrando que os seus feitos eram produto de muita aprendizagem e entrega. Os jogadores locais com grandes capacidades, eram chamados a integrarem a equipa, em situação de perfeita igualdade de oportunidades.

Quatro anos volvidos, o regresso. Que deixou muitas saudades e um nome que nunca se apagará: o Pembinha! A arte, a cumplicidade do grupo e a integração de outros jogadores, sob a “batuta” de Salvado, de imediato projectou-os para a senda do sucesso. Aconteceu então uma renovação natural na equipa principal, a qual conferiu muitas alegrias e títulos aos “canarinhos”.

Tudo isto foi planeado e executado no nosso país, por moçambicanos. Os custos, seguramente que estarão muito aquém do que se gasta em meia dúzia de anos a contratar estrangeiros de qualidade duvidosa que não assumem a mística do clube e a realidade do país facilmente. A pergunta é: porque não se replicam projectos destes?

Alguém me respondia que planos com cabeça tronco e membros, para lá do grande esforço organizativo que implicam, não se compadecem com a pressão do imediatismo actual. Nesta altura, a preocupação é aumentar de 3 para 5 jogadores estrangeiros em cada equipa, colher frutos imediatamente, de forma a justificar verbas alocadas e esconder a “preguicite” que campeia nos clubes.   
 

 

Não basta só interpretar o mundo, é preciso muda-lo também.

Karl Marx

O mundo já foi e continuará a ser interpretado de diferentes formas: por mentes iluminadas, infantes ou imberbes. Mas o que isso acrescenta a um Pragmatismo de Charles Peirce no apogeu da subversão ousada ao farol kanteano? Talvez, muito pouco, daí a relevância dessa sugestão de Marx, quando se refere à necessidade de se investir na mudança do mundo onde habitamos. A questão é: por quê mudar…? A resposta pode ser encontrada no livro mais recente de Luís Carlos Patraquim, O cão na margem, lançado recentemente pela Kapulana do Brasil. Não à laia de pressuposto teórico, que nem suposto é, mas na manifestação da linguagem – ora pesada e densa ora leve e suave – constituída por repulsa e indignação em relação a uma realidade que de tanto palpável, deixa de mexer com as pessoas.

Esta proposta poética de Patraquim representa o espírito de entidades que se atribuem a missão de reconstruir infra-estruturas melancólicas para dar azo à violência e à indiferença, não com o propósito promocional, mas com repúdio irrevogável. Esta é uma voz que se levanta, em parte, “Porque atiramos pedras à janela/ de onde a criança olhava o som/ dos pássaros diurnos” (p. 22); é a voz de quem não sossega quando se apercebe que não gozamos a vida como bênção a completar-se com convivência, sem animosidades. Por essa razão, eventualmente, há sensação do poeta ter escrito os poemas com lágrimas na pena, por exprimir o que o mundo tem de menos afável, incluindo a dor de se encontrar distante dos lugares/contextos sobre os quais se escreve. Assim, neste Patraquim, “Chegar é estar longe” e “Se nascemos/ é para distância inominada” (p. 24).

No mesmo instante em que “O cão na margem” – primeira das três partes que constituem o livro – nos provoca, ao fazer-nos sentir passivos, mortos como os mortos, uma clara demonstração de inércia, bem explícita no poema “Os filhos de Lumumba”, tenta contagiar-nos com um baril de repúdios, pronto a explodir pelo inconformismo de se ver quem ousa fazer dos inocentes, vítimas mortais. No poema “Bellum injustum”, por exemplo, o eu poético não só cospe a baba asquerosa como se distancia de qualquer doutrina de “guerra justa” defendida por um Agostinho de Hipona ou por Tomás de Aquino.

Na segunda parte do livro, a linguagem das entidades textuais altera de forma acentuada. Na homenagem à “Omuhípiti” – outra forma de dizer Ilha de Moçambique, em emakhuwa – Patraquim escolhe palavras mais favoráveis na partilha dessa admiração pelo lugar. Nesta secção, a poesia é mais paisagística, emotiva e menos acutilante. Em “Omuhípiti”, os ecos da palavra absorvem o barrulho das ondas do mar e ressuscitam aquele que um dia a tratou por Ilha de próspero: Rui Knopfli, no mesmo estilo que o poeta eterniza José Craveirinha, em “Metamorfose”, numa alusão oportuna.

“Omuhípiti” não é tanto de nos manter cativo, estupefactos. Importa porque também não impede que o “O escuro anterior”, última parte do livro, se imponha, com os sujeitos a exprimirem o que viram emergir numa espécie de backstage do mundo, onde mora a opressão e morre o sopro, esse sentido de vitalidade. Aqui, a poesia intriga, estimulando a necessidade de se compreender cada coisa dita, bem como a razão de ser dita às metades. “O escuro anterior” corroí-nos por isso.

Então, é este O cão na margem, de Luís Carlos Patraquim, livro que mostra o mundo tal como é: com dissabores e belezas. Diríamos que a colectânea pode ser lida na perspectiva de aceitarmos as imperfeições de que somos feitos de lês-a-lês, captando-as com as nossas sensibilidades de modo a colori-las. Patraquim coloca-nos na margem social para sentirmos o que significa lá estar e aí apropriarmo-nos do inconformismo de lá continuar. Este é o livro para nos fazer mudar, iluminando o nosso “escuro anterior”, interior, com as cores de “Omuhípiti” tão feitos de encantos.

 

Título: O cão na margem

Autor: Luís Carlos Patraquim

Editora: Kapulana

Classificação: 15
 

Xi-Cau Cau

O Barça perdeu em França com uma das mais poderosas equipas da Europa, o Paris S. Germain, pelo “irrecuperável” resultado de 4-0. Restava o “inferno” de Campo Nou para a segunda mão, onde a classe de Lionel Messi se apresentava claramente insuficiente para se prever uma reviravolta. Final dos 95 minutos da disputa: 6-1 a favor dos galáticos.
Como buscar explicações para uma histórica viragem, a maior até hoje operada na exigente Liga dos Campeões Europeus, valorizada pelo facto de os franceses possuírem uma das mais poderosas equipas do Mundo?

Não foi um futebol de melhor nível que superou o outro. Não foram as estratosféricas somas milionárias que Messi, Neymar e seus pares desfrutam, que suplantou as diferenças 'irrisórias” que separam os valores pagos aos milionários craques da turma francesa. Nada disso!

Peso da camisola, união e… mística!

Com a equipa de basquetebol do Maxaquene, campeã Africana em 1983, tive a oportunidade e o privilégio de visitar a Cidadela de Barcelona, com o Camp Nou como ponto alto. Assisti a um jogo tremendo e senti como deve ser para os visitantes, jogar naquele inferno. Na altura, instaladas fora das quatro linhas, estavam uma grade sólida e uma “piscina”. Tudo para conter as emoções dos adeptos, que vivem fervorosamente o clube, a sua cidade e com ela a identidade catalã. Sobretudo quando o adversário é o rival da outra circular, que dá pelo nome de Real Madrid.

Contou-me então um amigo espanhol, que em certa ocasião, o Barça acabava de sofrer o terceiro golo, face ao rival madrileno. A bola foi para o centro do terreno para o recomeço do jogo quando, como por artes mágicas, apareceu no centro do terreno, totalmente encharcado, um adepto a ajoelhar-se junto do juiz, rogando para que pusesse fim à partida. O que tinha acontecido? O adepto tinha-se lançado à água, para depois subir as grades, com a finalidade de implorar misericórdia para a sua honra que estava sendo ultrajada! Por este pequeno exemplo se pode fazer ideia do peso de uma camisola e da mística que um clube transporta.

Pois foi isso que permitiu esta vitória inédita, numa competição de altíssimo nível de exigências.

Quem derrotou os franceses foram o crer e o querer, elevados ao mais alto nível. Não foi o melhor futebol, mas a extraordinária cumplicidade entre clube, adeptos e cidade. O Camp Nou começa a causar desgaste nos adversários, mesmo antes dos jogos começarem.

Estádio da Machava
ex-cemitério dos visitantes

Numa dimensão ajustada à nossa realidade, recordo-me que o Estádio da Machava, no tempo de Mário Guerreiro como Presidente da FMF, chegou a criar uma mística que punha em sentido os adversários da nossa Selecção. Ficámos nove anos sem lá perder, nos nossos melhores tempos. O mítico recinto do Vale do Infulene, chegou a ser designado de “cemitério dos visitantes”. Estávamos então entre as 60 primeiras selecccões no ranking FIFA e já começavam a surgir convites princepescos para exibirmos os nossos dotes além-fronteiras.
Quer tudo isto dizer que a ascesão e o resgate dos nossos valores, passam por todos e por cada um de nós. O atleta tem que sentir que ostentar a camisola dos Mambas, não é o mesmo que vestir um qualquer farrapo das calamidades. Pisar o Estádio da Machava ou do Zimpeto, é diferente de evoluir num qualquer torneio de bairro.
A Mística do Camp Nou e do Barça, à nossa medida e realidade, podem e devem ser insufladas. Estaremos assim a ajudar a passar o tão propalado “slogan” da auto-estima, das intenções à prática.

 

Xi-Cau Cau

1.    O antigo Presidente Joaquim Chissano, com a melhor das intenções, recebeu em audiência um apresentador de televisão que havia tido um excelente desempenho numa missão no estrangeiro. Após o anúncio, o saudoso Luís Brito, então director da SOBEC, mentor e realizador do Torneio infantil BEBEC, claramente a maior realização de futebol infantil pós-Independência, decretou: “a partir de hoje, o meu envolvimento neste torneio, cessou”. E explicou: “Eu organizo há dez anos uma prova que movimenta milhares de crianças, produz estrelas e nem sequer o Ministro me recebe…”. Assim empalideceu uma original competição que parava a cidade de Maputo, envolvendo a Comunicação Social, Escolas, Bairros e pais da criançada. Pode dizer-se que terá sido um erro (conselheiros distraídos?), apesar cheio de boas intenções.

2.    Independentemente da afabilidade da pessoa, Ministro ou Vice-Ministro, é sempre um cargo de alto nível que não deve ser banalizado. No pelouro da Juventude e Desportos, tanto o Dr. Nkutumula com a ex-grande basquetebolista Flávia Azinheira, são pessoas sempre disponíveis a estar próximas de onde as coisas acontecem. Porém há um lado problemático: é o da banalização de tão ilustres figuras do Estado. Sente-se que, consoante a capacidade de persuasão de quem organiza – uma palestra, o regresso de uma caravana, um campeonato vulgar de lineu – lá temos os dirigentes máximos do MJD a “incentivarem”. Onde está o problema? A questão que coloco mais atrás, relativamente ao SOBEC, é válida. Hoje por hoje, há muitos que querem trabalhar só para dar nas vistas. Do outro lado da “barricada” ficam aqueles que, desinteressadamente, movimentam actividades importantes e que se podem desmotivar por haver distinção apenas para os adeptos do “show-off”.

3.    Também na esteira destas ideias, vem a questão sensível das premiações. Não se devem banalizar as distinções. É evidente que não é fácil conseguirem-se consensos – cada cabeça sua sentença – mas é necessário “cavar” o mais fundo possível, para distinguir os melhores, usando critérios e credibilidade que não se assemelhem a uma extracção do Totoloto.

4.    Kurt Couto é um dos mais credenciados atletas dos últimos anos, provavelmente o que ainda nos resta de uma fornada que incluíu Mutola, Tina da Glória e Leonor Piúza. Ele tem um sonho: chegar à final dos próximos Jogos Olímpicos no Brasil. Muito sinceramente eu, e creio que todos os moçambicanos, gostaríamos que essa pretensão anunciada de alcançar a final de uma das mais exigentes competições – os 400 metros barreiras – é de todos nós. Mas uma coisa é um sonho e a outra é a realidade. E por vezes, como é o caso, as distâncias são enormíssimas. A partir daí, está-se a vender ilusões. Kurt Couto tem como seu MELHOR tempo, a marca de 49.02. O recorde olímpico e mundial desta distância, pertence a Kevin Young, com 46.78 segundos. O último campeão olímpico, Félix Sanchez, em Londres 2012, percorreu-a em 47.63. Que leitura se pode fazer destas marcas e da distância no terreno e concreta que vai entre o nosso compatriota e a elite mundial? No desporto em geral, não há milagres. No atletismo, a fita métrica e o cronómetro não permitem sonhar com “a mão de Deus”. Ir com os mínimos, só pode significar o sonho do recorde nacional. E como nas eliminatórias os “cobras” são colocados nas séries com os menos cotados, a “sentença” é dada logo ali. À memória vêm-me as imagens da corrida do americano Edwin Moses, que dominou os 110 barreiras durante mais de uma década e que em Barcelona 92, chegou à final da prova em que era dono e senhor, apenas a cumprir calendário, com uma

 

Ajeitou a capulana de modo a cobrir os joelhos, quando percebeu o meu olhar a trepar-lhe pelas canelas roliças. Os homens olhavam. As mulheres sussurravam. Mas ela não tinha culpa. Até a capulana com que tentava disfarçar as cordilheiras ondeava, rendida ao relevo.
Estava sentada sobre uma esteira de palha. Dobrou as pernas para um lado e descaiu o corpo para outro, deixando o peso todo sobre o braço. A cabeça inclinou para o lado e encostou-se ao ombro. Com a mão livre pôs-se a fazer rabiscos invisíveis na esteira.

Estava no meio, ao jeito réu das loboladas. De um lado as mulheres, também sobre esteiras. Do outro os homens, em cadeiras, caixotes, jerricãs, troncos ou qualquer outra coisa que lhes colocasse os rabos acima dos delas, à altura da hierarquia machista. Chegaram as estruturas da vila, o padre, o administrador, o cantineiro, o primo do administrador e outros chefes. Caminhavam vergados ao peso solene dos casacos. Sentaram-se de frente para ela, ao jeito dos juízes. Ela endireitou a postura e dobrou ao máximo as pernas, de modo que a capulana lhe cobrisse os tornozelos. Os homens olhavam. As mulheres sussurravam. Mas ela não tinha culpa. Olhou para mim, para os outros, depois para as estruturas da vila. Os olhos acendiam. O rosto não resistia ao peso da beleza. As bochechas almofadadas amorteciam a expressão dos lábios. Não se percebia se estava sorridente, triste ou com fome. Parecia a Monalisa. Monalisa de lenço e capulana.
Era uma vila sossegada até ela chegar, diziam. Não havia ali problemas, para além do xipoko do custo de vida. Todas as mulheres adultas eram casadas. Ela veio trabalhar no contentor do Chico onde, de um lado é mercearia e do outro bar. Circulava entre as mesas, ria-se com os beliscões que lhe davam, atrapalhada com as contas, com os trocos e as gorjetas cresciam. Os homens já não saíam do bar. Depois do trabalho, ia com um ou outro lá para onde vão os homens quando saem do bar. O facto agravou, nas estatísticas, os casos de ximokos conjugais, maridos queimados a óleo, caril ou gasolina. Na igreja, as mulheres queixaram-se ao padre que os maridos tinham uma esposa oculta. O padre apresentou o problema às estruturas do bairro. Por isso estavam ali reunidos. E decidiram:
– Para resolver o problema, decidiu-se converter a Esposa Oculta em Esposa Pública – em coro, as mulheres disseram “oooh!” – Toda a vila vai lobolar a visada para que tenha uma aliança no dedo anelar, porque aqui não é lugar para mulheres solteiras.
De novo “ohh!”. Aquilo não podia ser. Pagar o lobolo de alguém trazida para a vila às escondidas, sem lhes consultarem?
– Essa não é uma esposa oculta. É amante oculta que agora querem converter à amante pública! – acusavam elas – quem a trouxe é quem deve assumir o lobolo.

A discussão incendiou a reunião. Ela olhou para mim, baixou os olhos e endireitou-se na esteira. O administrador tapou a boca disfarçando o bocejo e interrompeu a sessão. Aguarda-se, até agora, pelo desfecho para que se possa terminar este texto.

Ela ajeitou a capulana e foi trabalhar. Os homens olhavam. As mulheres sussurravam. Mas ela não tinha culpa. Cansados, os homens foram para o bar, espairecer.

 

 

 

A liberdade é alma de tudo porque, sem ela, tudo é vazio e desolação

Catarina, a Grande

Onde buscar a liberdade de ser íntegro, puro e genuíno? Haverá, neste mundo em que a vida é uma pista de atletismo movida pelas metas a alcançar, uma fonte na qual se pode embeber a rajada de ar fresco de que se necessita para ser gente? Há perguntas que a cada lusco-fusco deixam de ser feitas, como se as respostas representassem ameaças, chantagens ou extinção de quem as exige. Perguntas inadequadas? Provavelmente… Mas quais seriam as adequadas, susceptíveis de nos conduzir a uma meta sem fim, feita de princípios, diversos, em que a corrida na pista fosse apenas prazer e as vitórias daí resultantes colectivas? Subjectividades, de todo, provocadas por tão subentendidas leituras contidas na nova obra literária de Hélder Faife: DESdENHOS, que nos confronta com as ferramentas de que se tece a liberdade de ser íntegro, puro e genuíno. Uma dessas ferramentas é a infância sugerida nas imagens que as palavras geram, e outras são consequências da metaforização do que a fase infante da Humanidade significa.

Nestes DESdENHOS, a liberdade vive e floresce na meninice, porque nela se reúnem todos os elementos da abstração em relação a tudo de errado que o mundo e os desejos insensatos dão de graça, em detrimento daquele instante efémero em que uma brincadeira equivale a um urinol A fonte, de Marcel Duchamp. Aqui, como o francês, Faife faz do comum o muito que nos é exigido, resgatando a pureza dos desenhos, e, na mesma acção, desdenhando a borracha que os apaga.

Bem dito, o poeta reclama em verso o lado “A” da existência, por nela captar o plano infinito que o tempo destrói. Destarte, em DESdENHOS vê-se entidades a combaterem esse mesmo tempo, responsável por nos tornarmos presunçosos, casmurros e com pouca tolerância. “O tempo é o casulo/ que encarcera a infância” (p. 35). E, por assim ser, um alvo a abater ou, se isso for demasiado violento, um alvo a moldar. Por isso, na perspectiva de contornar o cenho configurado pelo crescimento, Hélder Faife faz outros planos, nos quais os trabalhos são substituídos por brincadeiras porque brincadeiras são trabalhos sérios também. Esta é a sua maneira de dar um título vitalício aos sonhos sonhados no papel, na tenra diversão, “Porque brincar é esculpir sentimentos” (p. 49) sinceros, pontos de partida para administração de um homem/mulher alheio às agendas sugeridas pelo O príncipe.

Mais do que um livro, este DESdENHOS é um manual que incorpora lições de vida que as crianças dão. É um caderno de apontamentos escrito a lápis, autêntico, no qual os adultos são tão bem convidados a eliminar o seu sentido de grandeza por isso tão exageradamente contribuir para a construção de um mundo feito de Berlim… sempre a dividir-nos.

Portanto, esta é uma obra para a reconciliação individual (escrita equilibrada, feita de momentos e ideais), convidando-nos constantemente à procura desse recurso caro que nos livra do vazio, da desolação: a liberdade, mas não aquela subalternizada nos discursos de alguns políticos, a liberdade de sermos nós por compreendermos que só seremos por vocês existirem.   

 

Título: DESdENHOS

Autor: Hélder Faife

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 14

Desde os tempos da Secretaria de Estado aos de Ministério dos Desportos, passaram por lá vários titulares. Cumpriam uma tarefa do Estado. Uma vez chegada ao fim, pouco neles sobrou. Nem sequer a paixão que obrigaria a regulares presenças nos eventos desportivos que antes faziam gala em referir como importantes para a formação completa dos cidadãos. Há excepções, mas a regra mostra-nos o seguinte: alguém se lembra de ter visto nos últimos anos, os senhores José Júlio de Andrade, Pedrito Caetano, Fernando Sumbana, Mateus Kathupa e outros, nos recintos desportivos?

Eram frequentadores enquanto titulares – de contrário ficaria mal – mas uma vez retirados, outras agendas falam mais alto.

Estava-se portanto em presença do mero cumprimento de uma tarefa, de cuja passagem não ficou uma réstia de paixão, numa uma área tão apaixonante?

Mais exemplos: o ex-PCA de Cahora Bassa, Paulo Muxanga, era visto nos campos a torcer pela “sua” equipa, enquanto titular da Hidro-eléctrica. Actualmente, vemos por lá o seu sucessor, o ex-Ministro Couto, ao que tudo indica para cumprir e dar a cara à tarefa que foi recentemente incumbido na empresa integradora do clube.

Porém, este assunto ganha mais estranheza quando alguns dos antigamente “carolas” como José Neves, Michel Grispos, Mário Guerreiro, Osório Macome, Augusto Fernando e tantos outros, ficam épocas inteiras sem darem uma “forcinha” aos clubes que dirigiram e de que se diziam apaixonados.

Esse “virar das costas” aos campos, infelizmente, até atinge antigos jogadores e jornalistas desportivos que em regra só marcam presença para cumprir a escala de serviço.

 

Falta de qualidade explica tudo?

 

Como alegação de fundo, a fraca qualidade. Se fosse o Real Madrid, Benfica ou Borússia… Infere-se daí que a qualidade sendo medíocre, só satisfaz a mediocridade. A menos que haja por detrás, algum imperativo de… tarefa!

Felizmente sopram ventos bons, do Centro e do Norte do País. O Ferroviário da Beira, como única equipa dos PALOP na Fase de grupos da Liga dos Campeões de África, “filha” legítima de uma terra em que os campos e os camarotes extravasam entusiasmo e festa, contagiando tudo e todos, está dar o mote. Lá ninguém fica indiferente, quando há futebol ou basquetebol competitivo.

Mas abordo este assunto porque é preocupante, pois a falta de qualidade para mover os espectadores aos campos, pode e deve ser alterada com a nossa participação e presença e não com um mero virar as costas.  E como entender os quês e porquês de um Girabola, que custa milhões, ser vivido e sentido por velhos e novos em Angola, quando a Selecção vem cá exibir um nível claramente inferior ao nosso?

Então, a baixa qualidade não explica tudo. Ela também está sendo vitimada pela baixa auto-estima que se apoderou de nós e em que o “Made in Mozambique” (nunca entendi o porquê desta sigla estar em inglês), representa, à partida, falta de qualidade.

Claro que a paixão não deve vir por decreto. Com as novas realidades no Mundo, o desporto têm que ser gerido e dirigido por métodos modernos e competentes, mas a paixão continua a ser importante.

É lindo – para eles, triste para nós – quando vemos de Portugal, antigos dirigentes do FC do Porto, Benfica, Sporting ou outros, a cederem os seus postos aos mais novos, mas nunca o privilégio de continuarem incondicionais adeptos de uma causa que só desaparece com o fim da vida.

Porque tudo é diferente entre nós? Explique-me quem souber!

 

 

Cada indivíduo, família, comunidade ou país busca, naturalmente, o desenvolvimento. Faz-no com recurso aos mais diversificados meios e formas. Nem sempre, contudo, os resultados são alcançados. Entre os que são bem-sucedidos e os que fracassam, as diferenças não resultam somente das oportunidades e condições vividas. Há inúmeros exemplos em que, partindo de situações similares, os resultados finais foram diametralmente opostos.

De todos os elementos que contribuem para o sucesso e o fracasso, o mais determinante é o capital humano, reflectido na capacidade de transformar trabalho em valor (económico, social, cultural ou ambiental). Apesar da sua complexidade, é muitas vezes abordado de maneira simplista, dando exclusividade à dimensão académica do conhecimento. Porém, o capital humano abarca outros elementos, não menos importantes, de natureza social e cultural (como hábitos, criatividade, motivação, inspiração, etc).

É fácil conceber modelos de desenvolvimento com doses elevadas de racionalidade, particularmente quando se coloca em perspectiva o indivíduo ou a família. Contudo, quando se avança para a análise de uma comunidade ou país, entram em jogo factores adicionais, que operam de forma dinâmica e complexa. Surgem novas interacções que resultam em sinergias, antagonismos e complementaridades. Elas geram compasso (visão temporal), coordenação e vários factores de correcção e superação. Nada disso é espontâneo, pois requer uma visão e objectivos claros previamente refutados. E essa capacidade de gerar, cultivar e fazer uma agenda comum só pode resultar de uma boa liderança.

Que liderança?

A liderança que almeja o desenvolvimento não deve ser vista apenas como a capacidade de exercer poder e influência ou enquanto sinónimo de uma qualidade centrada no indivíduo. O surgimento de indivíduos que se acham “iluminados” para comandar os destinos dos restantes muito facilmente resulta em ditaduras. Pelo contrário, a liderança genuína é o resultado de uma consciência colectiva de busca de inspiração nos mais capazes, em função dos contextos e desafios específicos.

O estudo do comportamento das aves migratórias tem revelado elementos interessantes que podem ajudar na reflexão sobre os processos de liderança. Perante o desafio de perpetuar a espécie e buscar o melhor habitat para cada época do ano, elas são forçadas a longas migrações. Isso implica enfrentar distâncias, correntes de ventos e suprir a necessidade de se alimentarem ao longo do percurso. O instinto ocupa-se de uma parte considerável do processo. Mas, guiados pelo instinto e a experiência, há mecanismos de liderança que se estabelecem a partir do lançamento do voo. Ao longo da jornada, o pássaro que vai à frente é o que se mostra mais capaz de o fazer, na ocasião. Se se desvia da rota, não é acompanhado. Se acelera demais, vai sozinho. Se se retarda, fica para trás. Ele não assume todas as responsabilidades de guiar o bando. Outras unidades no meio dele ajudam na formação e ordenação dos restantes para permitir uma melhor aerodinâmica. Se o líder enfraquece, adoece ou é abatido, é imediatamente substituído. E assim o bando cumpre com naturalidade os seus desígnios.

No reino animal é natural que o instinto e a experiência ganhos em voos anteriores sejam de grande importância. Na condição humana, uma boa liderança deve ser inspirada num sistema de valores baseado em direitos e deveres. Por isso, a verdadeira liderança deve permitir a partilha e coordenação de ideias, visões, responsabilidades e destinos. Motivar as pessoas a dar a sua contribuição, nos diversos sectores (políticos, económicos, sociais e culturais). A título de exemplo, um padeiro, um pescador e um carpinteiro podem ser considerados líderes, pela sua capacidade de inspirar rigor, qualidade e pontualidade.

O ponto de partida

Os factores que influenciam o desenvolvimento são numerosos. Entre eles encontramos: a localização geográfica, que pode gerar oportunidades e oferecer vantagens comparativas e competitivas; a disponibilidade de recursos naturais (fertilidades de solos, recursos minerais, regime de chuvas, mares, rios, lagoas, florestas, fauna etc.) a partir dos quais se podem desencadear processos produtivos; infra-estruturas básicas (como estradas, pontes, indústrias de transformação) que ajudam a reduzir os custos de transacção e estimulam o comércio; regimes institucionais e legais que estimulam e protegem o investimento e reprimem a criminalidade e a corrupção; liberdades políticas que permitem a expressão de ideias inovadoras; a estabilidade e organização social que sedimentam valores e práticas; a contínua educação e transmissão de conhecimento tecnológico; e muitos outros.

O ponto de partida também pode estar carregado de valores negativos como, por exemplo, modelos coloniais, tradições retrógradas, seitas do mal, tribalismo, racismo, desigualdade de género, etc.

Já um ciclo virtuoso de desenvolvimento sustentável resulta de um sistema de valores e da emergência de lideranças fortes e diversificadas. O exemplo de alguns países que alcançaram níveis de desenvolvimento elevado em condições difíceis, como o Japão e a Coreia do Sul, mostram que a partir de pouco se pode fazer muito.

Na ausência de um sistema de valores e uma liderança esclarecida, as riquezas naturais podem tornar-se um factor de divisão, conflitos, guerras, e não propriamente um estímulo ao desenvolvimento.

Na disponibilidade de recursos e valores sociais, uma boa liderança deverá, em prol do crescimento, ter a capacidade de estabelecer um quadro de prioridades e políticas de desenvolvimento, promover a acumulação de capitais, diversificar a economia e promover a cultura de rigor e disciplina.

A importância dos capitais

Na actualidade, não se pode conceber o desenvolvimento na ausência da disponibilidade de capitais. Para os novos e pequenos estados em formação, isso requer a acumulação de capitais próprios para viabilizar estratégias de investimentos públicos e a mobilização de investimentos privados para dinamizar a economia e os mercados.

A ajuda externa, na perspectiva do desenvolvimento, deve ser tida como uma medida transitória e deve ser considerada apenas como uma transfusão de sangue para os pacientes sob cuidados intensivos. A sua utilização sistemática e abusiva interfere no desenvolvimento sustentável da economia e pode colocar o país em condições de vulnerabilidade a pressões e chantagens.

A diversificação económica

A robustez de uma economia também se mede pela diversificação. Isto reforça a resiliência e a integração. A concentração de uma economia num único sector ou produto resulta no chamado “dutch disease” (doença holandesa). Caem nessa armadilha os países que, tendo descoberto recursos minerais (petróleo, diamantes, ouro, carvão mineral etc.), acomodam-se nos rendimentos daí gerados e se esquecem dos restantes sectores.

O sector mineiro, particularmente, está sujeito a oscilações dos preços internacionais, revela uma alta dependência de monopólios, e faz uma péssima distribuição da riqueza. Este sector tem ainda uma excessiva verticalidade (beneficia os actores directamente implicados) e uma fraca transversalidade (fraca inclusividade e efeito multiplicador).

Para um desenvolvimento equilibrado, a aposta na agricultura é incontornável. Ela integra na economia os pequenos produtores rurais, processadores, transportadores, vendedores e prestadores de serviço. A cadeia de valor começa no capo, mas chega aos centros urbanos. Ela garante um nível aceitável de soberania alimentar e reduz o preço dos alimentos. Também reduz os processos de migração urbana e o agravamento da pobreza urbana. Alivia, igualmente, a balança de pagamentos e abranda os choques e abalos económicos.

Factores sociais e motivacionais

Os factores sociais e motivacionais do desenvolvimento têm sido recentemente alvo de investigação intensa. Alguns fenómenos têm servido de casos de estudo, permitindo seriar os mecanismos e documentar o seu impacto na economia. Funcionam como estímulos positivos, por exemplo, o sucesso no desporto, as eleições bem-sucedidas, a fé e as crenças religiosas. Funcionam como estímulos negativos, por exemplo, a insegurança, o senso de injustiça e a ausência de desafios.

 A existência de uma visão clara sobre os objectivo comuns, e como estes vão beneficiar a todos, é fundamental, e contribui para a responsabilização individual e colectiva, a competitividade saudável (com base num sistemas de incentivos), a liberdade de opinião e iniciativa, a meritocracia associada ao rigor e disciplina, e a justiça na partilha de oportunidades e desafios.

A concluir

Quase a totalidade dos países que atravessam crises de desenvolvimento manifestam uma incapacidade de gerar lideranças de qualidade. Vegetam com base em “chefaturas” que se embebedam de egoísmo e ganância, permitindo que nações inteiras “vivam de cócoras”. Mesmo perante desastres naturais e outras calamidades, uma boa liderança é decisiva. Ela pode ser a locomotiva para fazer avançar uma agenda comum, libertar as energias necessárias e permitir a expressão plena de um desenvolvimento inclusivo, sustentável e dignificante.

 

O guitarrista Jimmy Dludlu acaba de colocar à dispo­sição dos seus fãs e ao mundo um novo álbum intitulado “In the Groove”. Mas apesar de ser um leigo no que à música diz respeito, vou me atrever a fazer uma breve incursão por este albúm. A co­meçar pelo primeiro tema in­titulado Masseve (compadre). Nesta música, Jimmy socorre­-se ao cancioneiro popular para celebrar o compadrio, com enfeites de acordes do jazz, como só ele sabe fazê-lo.

No segundo tema, Jimmy res­gata e presta tributo ao célebre Alberto Machavela, recordan­do a todos que, apesar dos títu­los que possamos ostentar, da riqueza e importância social, temos uma dívida e a morte à espreita, com o título Ha Deva (Temos dívida). Mas a morte não é motivo para deixar de celebrar, com a expressão Wa­retwa da sua língua materna o XiChopi, o guitarrista volta à celebração dando indicação de o quão a vida é bela e doce…

As atribulações da vida não significa que devemos ficar na rotina. É o que nos propõe na música que dá nome ao álbum. Por isso temos de tornar cada fim de semana especial e essa mensagem foi buscar à famosa Weekend Special de Brenda Fassie que ganhou uma versão em smooth jazz e com a belís­sima voz de Judith Sephuma a servir de cereja no topo do bolo.

Mas o fim de semana não pode ser especial se nos esque­cermos da grandeza de Jesus e num jazz que foge um pouco das características de um gos­pel, Jimmy enaltece a grandeza do Filho de Deus que é funda­mental para a nossa restaura­ção espiritual proposta na mú­sica a seguir e que nos habilita a percorrer a longa estrada que é a vida em Long Street. E essa estrada leva alguns à paragem de chapas de Saul. Ali, no pro­longamento da Av. Vladimir Lenine, na rota Baixa-Xiquele­ne. Quem não conhece a con­fusão ali criada pelos chapas? Agora ficou eternizada numa música de jazz com mistura de quizomba/semba.

Mas prontos, vencida a guer­ra dos chapas e chegados a casa, vale a pena brincar de Mu Tumbelelwana (esconde­-esconde) para esquecer as atribulações da vida. Esta é a proposta de Jimmy Dludlu. Mas será que as novas gerações conhecem esta brincadeira? Mas vale a pena recorda-lhes. E no Mu Tumbelelwana quem consegue descobrir os que es­tão escondidos celebra a sua vitória com um Nkulungwa­na. Essa forma nossa de exte­riorizar a alegria em todos os momentos alegres ganha uma música neste álbum.

O Nkulungwana também usamos para exaltar o nosso patriotismo e Jimmy Dludlu faz isso ao exaltar as Cores da Sua Bandeira. Aqui o músico busca excertos do discurso de Samo­ra Machel que se insurge con­tra os parasitas que corroem o Estado levando o povo ao descontentamento, um discur­so bem actual, mas também lembra um dos cânticos revo­lucionários em swahili que diz que apesar das adversidades, venceremos.

E aí poderemos todos agra­decer a Deus. Em Khensani (louvai) com os préstimos da lindíssima voz de Isabel Nove­la “ jazzfica” o cântico popular e religioso de acção de graças a Deus pelas bênçãos que nos dispensa. E isso faz-nos olhar como belo é tudo o que temos ao nosso redor. É por isso, que em Woza Sthando Sami, Jimmy nos convida a contemplar a be­leza das nossas amadas (os). E com esta incursão pelas emo­ções e vivências não há como não dar um passo a frente em todos os sentidos da vida. É assim como Jimmy Dludlu termina este álbum com a mú­sica One Step Ahead, um jazz puro misturado com acordes de rumba de lá das bandas de Cuba. De facto Jimmy Dludlu deu neste álbum um passo à frente, afinal, celebra este ano 50 anos de vida.
 

Se o segundo dia do Festival Tropical Zouk foi um marco indelével é, com certeza, graças a banda Kassav. Aos outros intervenientes, que prenderam o público com as suas algemas musicais não se tira, por isso, o merecido mérito. Mesmo golpeado pela chuva e frio ao longo de toda a noite o vasto auditório não arredou o pé da cidadela da Matola.

Entretanto, a prestação da família de Martinica e Guadalupe (regiões francesas) foi irresistivelmente formidável. Os jovens de 1979 e com mais de 30 álbuns ensinaram, mais uma vez, como se trata um público sedento de boa música. Foi, sem quaisquer excessos, uma aula se sapiência.

A aula durou perto de uma hora, período que se concede para um discurso eloquente, pausado e cadenciado. A instrumentalização, a coreografia, o poder das vozes foram os diferentes momentos do espectáculo sincronizados num único compasso: performance.

Era bom se a banda inaugurasse o evento de dois dias. Assim, sobretudo os mais jovens, exemplos de Boy Teddy, irmãos Baronet e Filomena Maricoa, colocavam um pouco mais de sabor as suas actuações. Mas como essa é a estratégia de tudo que se quer audiência, Kassav ficou um pouco mais para o fim. Desta forma, os espectadores incondicionalmente testemunhavam a presença dos outros. Estratégia válida, sem dívida, aliás, sem dúvida.

Faltava a banda Splash, Edmásia Mayombe e Yuri da Cunha quando o grupo subiu ao palco. Foram aplausos de início ao fim. Aliás, foram também gritos, assobios, agitação, resumindo, muito barrulho. A cidadela ficou ao rubro… não se reconhecia aquele espaço dominado por capim alto e pedras desregradas.

A vez de “Ou lé” foi fatal. Se alguém, por sei lá que infortúnios, tenha resistido à dominação dos monstros do zouk com essa música levantou a carta-branca. Sem querer diminuir o potencial de Jocelyne Beroard, Georges Decimus, Jean Philippe Marthely e de Jean Claude Naimro, a voz rouca de Jacob Desvarieux provoca algo parecido com arrepio, sacode os cinco sentidos, hipnotiza e descomanda os neurónios. Todas as músicas interpretadas pelo francês tem um quê de fenomenal. E não é para menos, aos 12 anos ganhou a sua primeira guitarra e aos 16 fundou a sua primeira banda, esta dedicada ao rock. É uma obra de pessoa moldada pelo tempo. Sim, o artista de 61 anos é uma peça fundamental desde a primeira hora dos Kassav e até hoje o astro do zouk não descarrila, tal um comboio fiel à linha férrea numa época de guerra.

Os cinco músicos, acompanhados por outros instrumentistas e coristas, foram uma presença conseguida nesta primeira aventura à Matola e seus bons créditos não ficaram na França ou no passado, fizeram parte da bagagem que aterrou em Mavalane.

Sem exagero, os Splash poderiam ter feito melhor espectáculo se tivessem antecipado os Kassav. A bateria de Grace Évora e a voz de Dina Medina, entre outros membros, até foram competentes só que os “malditos” do Caribe pareciam ter dito tudo e em todas as línguas.

Edmázia tinha as músicas que provocam a febre feminina, mas o palco já estava quente demais para “Beijinho no ombro”. Yuri da Cunha, com a ajuda das suas brincadeiras, até resolveu o problema que Kassav tinha provocado e já eram 7h00 quando o jovem forçado pela claridade abandonou o palco, mas o perfume sonoro dos Kassav foi tão poderoso que até hoje está a exalar.

 

 

Pediu-me o Prof. Silvério Ronguane que fizesse a apre­sentação do seu livro “Mandela, filósofo africano”.

Apesar da sua dimensão minúscula, em número de páginas, para aquilo que são os padrões normais das obras que se lançam nos nossos dias, esta é uma obra de uma riqueza profunda.

Primeiro, porque é uma obra de um filósofo africano sobre uma personalidade africana. Enriquece, pois, a historiografia e a biblio­grafia africanas e, no caso vertente, a moçambicana.

Segundo, porque é uma obra sobre uma imensa personalidade africana, uma das raras que ganhou verdadeiramente dimensão universal pelos seus próprios méritos, sem nenhuns favores, nem a habitual complacência que os europeus têm dos africanos.

Essa personalidade é Nelson Mandela. Aqui, o Prof. Ronguane traz-nos a dimensão filosófica do pensamento deste líder africano dos nossos tempos, colocada numa interessante relação dialógica com outra imensa personalidade universal de outros tempos: o in­defectível Sócrates.

Foi o linguista russo Mikhail Bakhtin quem elaborou, pela primei­ra vez, o conceito de dialogismo. É o diálogo de textos, um meca­nismo de interacção textual muito comum na polifonia, processo no qual um texto revela a existência de outras obras em seu inte­rior, as quais lhe causam inspiração ou algum influxo.

O dialogismo está presente tanto nas obras impressas como na própria leitura. Em ambas as esferas, o discurso surge em constan­te acção recíproca com textos semelhantes e/ou imediatos. Este elemento aparece quando se instaura um processo de recepção e percepção de um enunciado que preenche um espaço pertencente igualmente ao locutor e ao alocutário.

No caso da obra em apreço, o Prof. Ronguane coloca o discurso de Nelson Mandela em diálogo com o discurso de Sócrates. É esta a essência deste livro. E também do dialogismo de Bakhtine. Um diálogo de textos, independentemente do seu contexto temporal. Sócrates é do séc. IV AC. Mandela do séc. XX. A despeito da dis­tância temporal, os seus discursos estabelecem, aqui, na presente obra, uma interessante relação dialógica.

O autor refere que foi a transmutação resultante da experiência de luta de Mandela que moldou a sua personalidade, a sua forma de estar na vida, a sua dimensão humana, hoje reconhecida por mui­tos. Afinal, ao longo dos seus quase 100 anos de idade, Mandela foi­-se metamorfoseando de anónimo e pacato jovem da rural aldeia de Mvezo, no interior remoto do Cabo Oriental, sucessivamente em advogado, activista civil anti-Apartheid, guerrilheiro, irredutí­vel prisioneiro mais famoso do mundo, primeiro presidente negro da África do Sul e, mais importante que tudo, em um dos maiores líderes morais e políticos de nosso tempo.

FILOSOFIA AFRICANA

Mas a obra começa por problematizar a existência ou não de uma filosofia africana. Como todos sabemos, muito do nosso conheci­mento foi concebido de fora para dentro de nós. Isso abriu espaço a discussões epistemológicas como: existe um conhecimento afri­cano? Uma filosofia africana?

Ora, o conhecimento é a capacidade de pensar, de organizar e re­criar o mundo de acordo com a percepção do Homem. Quer isto dizer que não há conhecimento europeu, americano ou africano. Há conhecimento. Desde que haja a capacidade de pensar, de or­ganizar e recriar o mundo, segundo a percepção do ser pensante.

Quer isto dizer que a filosofia é algo intrínseco ao próprio homem, não fazendo sentido o questionamento da existência ou não de uma filosofia africana. Como diria Descartes, penso, logo existo. O homem africano, e logo a sua filosofia, existe em função da sua

capacidade de pensar e afirmar a sua própria existência.

Mas outros lembrar-nos-ão de que a tradição dos africanos é emi­nentemente oral, logo, incapaz de sistematizar o pensamento.

Mas, neste livro, o Prof. Ronguane ensina-nos que a escrita não é condição sine qua non para haver filosofia. Que os mitos africanos são veiculadores de verdades ancestrais sobre a organização polí­tica.

O autor informa-nos ainda que usou como matéria-prima para a sua comparação o discurso de Mandela, em 1962, pronunciado no tribunal que o condenaria à prisão perpétua, e o discurso que, no ano 339 AC, é atribuído a Sócrates, também num tribunal, em Hélada, Atenas.

O Prof. Ronguane começa por nos lembrar as diferenças entre Mandela e Sócrates: a separação espacio-temporal: Atenas do séc. IV AC não se parece com nada da África do Sul do Apartheid, do séc. XX; a diferença etária, social e profissional entre ambos à data dos factos. Mas sobretudo motivacional: Mandela responde por uma acusação de carácter penal – atentado contra o Estado. Sócrates responde por uma acusação aparentemente de teor cível e religioso: corromper a juventude e de não crer nos Deuses.

Mas o autor conclui que é, dialecticamente neste extremar de dife­renças que se gera a aproximação entre Mandela e Sócrates.

1º: Tanto um como outro transformam o momento de defesa numa oportunidade para afirmarem reiteradamente as suas ideias, no lu­gar de se vergarem à posição dominante do opressor;

2º: O compromisso político – o discurso de Mandela é uma resposta política a uma questão política. A acusação a Sócrates é igualmen­te política: porque os deuses da cidade na Grécia antiga eram a base do poder do Estado; a queixa de corromper os jovens era de­claradamente política. Visava moldá-los politicamente para mudar o futuro do Estado;

3º: O apego incondicional à verdade e às ideias;

4º: Eram ambos cumpridores das leis humanas, mas tinham o pri­mado da consciência como lei;

5º: Tinham afeição pelo universal na sua ideia de identidade dos problemas humanos, como todos os filósofos, mas não descuravam o particular. Por amor aos outros, distanciavam-se deles próprios.

Na leitura a que nos conduz o autor desta obra, Mandela e Sócrates são, pois, da mesma estirpe, a estirpe dos sábios, dos homens com a consciência do dever cumprido. Dos homens capazes de promover a rebeldia e ao mesmo tempo o acatamento das leis que eles pró­prios combateram.

Mandela e Sócrates convocam-nos para a dimensão ético-moral, pela centralidade da ideia de reconciliação, muito vincada nas suas personalidades, emergindo o compromisso como elemento fun­damental do diálogo. Por acaso, ou talvez não, o maior desafio às lideranças dos nossos tempos…

*Texto de apresentação do livro “Mandela, filósofo africano”, do Prof. Silvério Ronguane

O que ainda não se escreveu sobre o amor? Pode ter sido esta a pergunta que, inconscientemente, despertou a imaginação de Lucílio Manjate ao escrever o seu novo livro, Rabhia, que vai oscilando entre uma estória de amor e de sobrevivência. Na verdade, o livro é uma estória de amor trágico que se vai transformando em sobrevivência à medida que vários incidentes intrometem-se no percurso de Boanar e Rabhia, os escolhidos pelo autor para sustentar a ficção. Com efeito, tendo aquelas duas personagens no centro das suas motivações, Manjate mexe – mais uma vez – com as cicatrizes de uma História cuja trama é feita de eventos paralelos, no entanto, igualmente importantes na estruturação de uma memória que cabem todas verdades. Por isso, temos nesta Rabhia uma descrição constante do submundo que sustenta o dia-a-dia das pessoas, com a atenção de quem sente a dor de uma ferida.

Como calha em A legítima dor da dona Sebastião, outro livro seu, em Rabhia, Lucílio Manjate volta a enveredar pelos caminhos da ficção policial – novamente com o agente Sthoe, agora com um estagiário –, inserindo no enredo um jogo de interesses suficientemente arrojados para destruir o amor em troca da verosimilhança estúpida de que se tece a rotina quotidiana. Por essa razão, Rabhia afirma-se como um retrato de todos os que são obrigados a ter de cicatrizar as feridas dos seus sonhos fracassados. Aliás, a partir da personagem que intitula a obra, o escritor liberta a hipótese de se estabelecer um conjunto de comparações entre Rabhia e Moçambique, afinal, ambas as entidades são vítimas de circunstâncias que as prostitui. No texto, enquanto a personagem tem amor imaculado, que a alimenta incondicionalmente, prospera com a beleza de ser essa muthiana de uma província abençoada. Logo, em Manjate, Rabhia – assim como o país – é exemplo de terra fértil, com tudo para gerar vida enquanto contar com um homem que a quer bem e a orienta. Não obstante, contra todas as expectativas, num ápice, o destino baralha as cartas de outra forma e o objecto do amor de Rabhia – como sucede com Moçambique – desvanece-se e os que aparecem em substituição retiraram-na a honra, obrigando-a a ser o rosto da sobrevivência por ter de se adaptar às novas realidades e por reflectir essas mesmas realidades. Então, sem opção, a narrativa ganha uma prostituta, obrigada a manter-se nessa condição pelos que gozam por pagar pela desgraça, os mesmos que, ao fartarem-se dela, matam-na. Esta narrativa gira à volta dessa morte, com analepses incríveis e um discurso do narrador convincente, típico dos bons escritores, o que faz da escrita de Manjate um produto muito apreciável – o prémio foi muito bem atribuído.

Escrevendo sobre o que Rabhia passa, Lucílio Manjate, sempre apaixonado pelo bairro Luís Cabral, para muitos, de outros tempos, Xinhambanine, leva-nos consigo a questionar as acções dessa mão invisível que sempre a condenamos, sem a conseguir amputar. Como consequência disso, ler este escritor é uma forma de também compreendermos o que se passa nas cabeças dos sobreviventes, dos corruptos e dos que adoram dar ordem a tudo, menos à Mãe que Craveirinha amou.

 

Título: Rabhia

Autor: Lucílio Manjate

Editora: Edições Esgotadas

Classificação: 16.5

Há mais de um ano que vivemos em lamentações, lamúrias, cochichos… quase que brincado de falar de crise, quer política ou económica, no país. Saudamo-nos assim e naturalizamos o estado negativo da vida. É a morte silenciosa da esperança, da crença na nossa capacidade de operar mudanças, aliás, bem diante de nós. Mas os óculos de betão ofertados pelos “iluminados” tornam impossível o vislumbrar de coisa alguma. E o cúmulo do ridículo é que os tantos cegos suam dia e noite para produzir os óculos transparentes dos poucos que bem captam a irrealidade que para todos projectam. Estes tantos são um sombreiro que, exposto ao sol, chuva e todas as tempestades, protege a quem o devia proteger. Uma inversão de papéis que a história deverá corrigir, no seu tempo. Pois, não há mal que dura para sempre, tal como o bem não é eterno.

Esta agonia a que está sujeito o povo moçambicano – com certeza – tem dias contados. Tiros e terror banalizando a vida e retraindo investimentos; preços levando os cidadãos a roçar a costura dos bolsos; o dinheiro tornando-se tangível apenas no espaço imaginário; as calamidades naturais denunciando a nossa precária previsibilidade e proactividade, etc., são o retrato da vida que nos impõem. Parecemos doentes em fase terminal clamando pela recuperação, com apenas a alma como ouvinte. E quando nos cansamos de lutar pela vida, pedimos a morte, já mortos.

Afinal, por quem nos toma a desgraça? Por fracos. Certamente! Porque desistimos de lutar. Desistimos de vencer.

Acreditar na mudança ainda não é uma loucura, mas o alto estado de lucidez que devemos firmemente activar para dizer basta. Sofrer não pode ser um destino imposto apenas, mas também uma escolha da qual temos de nos desancorar.

Chega de brincar de mudo, gritando para os surdos. O Presidente da República e todo o seu Governo devem saber que têm a obrigação de conhecer as nossas aflições e esmerarem-se por saná-las. Devem saber que não somos cobaias para nos testarem uma cirurgia a sangue frio, porque podemos gritar até atingir o irracional e, como os felinos acuados, garantirmos a nossa sobrevivência.

Que não se confunda a paciência e a confiança do povo com burrice. Porque, para suportar tamanha agonia na passividade, este povo devia ser declarado Herói. Uma heroicidade que pode ser usada como arma para iniciar as mudanças radicais de que precisamos para voltar a dar um bom rumo ao país.

Estamos dispostos a sofrer, mas por causas justas. Um sofrimento fundamentado no sonho colectivo de um povo que merece um futuro melhor, com a força da mudança, pela confiança no líder. Portanto, que o Presidente da República e seu Governo não se deleitem nas ondas calmas do mar, porque a passividade, fielmente imposta pela confiança na delegação do poder, pode desvanecer. E… no caos, não há trono.

 

O Ministério da Juventude e Desportos diz que os jovens devem apostar na formação técnico-profissional para que não sejam estrangeiros a construir grandes infra-estruturas do país. O Ministério diz que não faz sentido existirem grandes projectos, como a Ponte Maputo-Ka Tembe, a Estrada Circular, a serem construídos, na sua maioria, por pessoas de fora.

Estes pronunciamentos foram feitos, na manhã de hoje, durante a cerimónia de abertura da Conferência sobre a Edução organizada pela Comunidade Académica para o Desenvolvimento (CADE) e a AIESEC, uma organização de jovens que desenvolvem experiências de liderança. A conferência tem como objectivo discutir o papel dos jovens na melhoria da qualidade de educação.

Os casamentos prematuros, o consumo de drogas e a violência doméstica, que, nos últimos dias, vem se mediatizando com maior frequência, são outros males que o ministério dirigido por Alberto Nkutumula quer ver os jovens a combatê-los.

Dois indivíduos foram detidos pela polícia na posse de uma arma AK47, com 15 munições. Os mesmos são acusados de fazer parte de uma quadrilha de quatro elementos. Os outros dois puseram-se em fuga.

Os jovens, de 25 e 30 anos, foram detidos, na madrugada da última sexta-feira, no bairro de Zimpeto, em Maputo, quando se preparavam para um assalto em Magoanine. Em sua posse, foi encontrada a arma e um medicamento tradicional. Os indiciados negam o envolvimento em actos criminais e acusam o líder da quadrilha que se encontra fugitivo.

“Fomos encontrados com esta arma, os colegas que tinham esta arma fugiram e deixaram cair, nós como estávamos atrás formos neutralizados. Quando a polícia chegou mandou-nos parar, eles correram deixaram a arma no chão então recolheram a nós”, contou um dos indiciados.

A polícia não tem dúvidas que se trata de criminosos e acrescenta que o grupo perturbava a ordem e tranquilidade públicas. “É uma quadrilha que vindo aterrorizar a cidade e a vila da Manhiça, tanto é que um dos integrantes é morador da Manhiça. Saíram da vila com a intenção de tentar mais uma incursão criminosa. Há um mês foram flagrados e deixaram cair uma arma”, disse Paulo Nazaré, Porta-voz da Polícia ao nível da cidade de Maputo.

A ousadia dos indiciados ultrapassa a ciência. Para alcançar seus objectivos, estes usam remédios tradicionais na arma, acreditando que através da sua aplicação não serão descobertos. “Contatou-se que na arma tinha um remédio tradicional. Aquele produto não é nenhum componente da arma. Informações dão conta que eles aplicavam este produto na arma para terem sucesso nos seus roubos para que as vítimas não descubram a presença deles”, fez saber Nazaré.

O porta-voz revelou que diligências estão a ser feitas, no sentido de neutralizar os outros integrantes da quadrilha.

A Polícia da República de Moçambique diz que, em geral, a cidade de Maputo esteve calma durante o final de semana e não houve registo de grandes incidências criminais

Filipe Nyusi entrou no salão nobre do Conselho Municipal de Maputo como convidado de honra à cerimónia de lançamento do livro “50 Anos do Destacamento Feminino: génese, expansão e impacto” e não quis sair mudo. O programa não previa a sua intervenção, mas, depois de receber um exemplar do livro e presentes da Associação Nachingweia, o Chefe de Estado quebrou o protocolo. Foi ao pódio dizer que o lançamento do livro faz parte da campanha contra o “branqueamento” da história de Moçambique. “Quero felicitar a Associação Nachingweia pelo lançamento do livro. Isto é uma campanha que estamos a lançar contra o branqueamento da história. A nossa história não pode ser forjada, inventada, porque ela foi feita e existiu. Quando escrevem, permitem que aqueles que têm ideias diferentes tenham matéria para discutir. Isso é mais importante do que as pessoas que, a cada dia, contam e inventam que eu estava aqui, eu estava ali”, disse o Presidente da República, na sua curta intervenção.

Minutos antes, António Hama Thai já tinha defendido a importância do livro como instrumento de preservação da memória colectiva sobre a luta de libertação nacional. Na apresentação do livro, o general na reserva e deputado da Assembleia da República disse que os autores apontam, sob diferentes perspectivas, o papel estratégico abnegado e o percurso histórico das “25 meninas” fundadoras do Destacamento Feminino para as nossas gerações. Mas não só. Com o livro, os autores também realçam a questão segundo a qual os valores da moçambicanidade resultam de um processo complexo e de coragem, que culminou com a libertação de Moçambique. “Com esta obra, ficou evidente que os autores procuram atingir o objectivo principal, que consiste na contribuição para a preservação da memória colectiva do povo moçambicano e um tributo às mulheres que prestaram serviços incomensuráveis em prol da nossa pátria amada”, defendeu Hama Thai.

Falando em nome dos autores, o tenente general na reserva Raimundo Pachinuapa lembrou que falar de Nachingweia é falar do local onde foi forjada a unidade nacional e o patriotismo. “Nachingweia foi, também, o berço da emancipação da mulher moçambicana. Foi ali onde 25 meninas do Destacamento Feminino, destemidas, juntaram-se aos seus camaradas do sexo masculino, receberam treinos militares e participaram activamente nas frentes de combate”, disse.

Além de Pachinuapa, são autores do livro que retrata os 50 anos do destacamento feminino Renato Matusse, Páscoa Themba e Pedro Gemo.

A cerimónia de lançamento foi testemunhada por diversas personalidades, com destaque para o Chefe do Estado; o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano; o primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário; membros do Conselho de Ministros, dirigentes da Frelimo e combatentes da luta de libertação nacional.

 

Retorno ao lar

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