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O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

No imaginário infantil, txopelar nunca foi, tão só, uma aventureira e arriscada viagem de alguns segundos ou minutos. Muitas, pelo contrário, simbolizavam a realização de sonhos que exorcizam vontades recalcadas. Noutros tempos, as crianças se penduravam nos taipais dos Land Rovers, dos Bedfords e Ifas, até nas bicicletas, e se boleavam, aproveitando a distracção dos pedalantes, para provarem ao mundo a sua agilidade e destreza.

A modernidade transformou os veículos, mas nunca o sentido da aventura. Hoje, txopelamos em chapas feitos transportes públicos. Carroçarias empilhadas e necessidade que perdeu a ingenuidade. As emoções e os prazeres, não se algemaram ao tempo e testemunham, ainda, essa fantasia que se estende pelo infinito. A verdade foi sempre a filha do tempo, e a sabedoria, a filha da experiência. De geração em geração, txopelamos nossas vidas no Centro, no Sul e no Norte deste país que busca esse horizonte de comunhão e prosperidade. Umas vezes por aventura, outras, não raras, por condição. Txopelar dá sentido as carências e vivências.

Os veleiros, nacalenses por designação, se transformaram na única salvação para a sitiada população dos distritos costeiros do Norte de Cabo Delgado. Os txopelas da salvação. De noite ou de dia, eles passaram a transportar milhares de vidas e almas ansiosas pelo reencontro com a própria vida, serenidade e razão para terem nascido. Estes moçambicanos não procuram portos-seguros, antes, procuram as razões da discórdia, da falta de irmandade. Buscam, neste percurso, o sentido da serenidade e da racionalidade.

De Quionga a Olumbi, de Panguane a Pundanhar, Quiterajo a Mucujo, a debandada quase não deixou de ter mãos a medir. O último campeonato pela sobrevivência, mas, nunca, a última corrida em busca de conforto e bem-estar. Distâncias nebulosas, permeadas por ventos e monções do Norte ou Sul. Uns a estibordo e outros à bombordo. Como carga levam seus parcos haveres. Os sobreviventes patos e galinhas, também eles deslocados, como se fossem o maior tesouro de um passado sem tantas carências. Estas aves, sequer precisam de explicações para entenderem as razões da fuga. Como qualquer racional, agradecem aos seus deuses e espíritos pela salvação. No desespero e aflição, não importa as condições e muito menos a comodidade dos txopelas. Elas nunca existiram. Por isso, são txopelas. Ser transportado sem segurança e na aventura. Precisam de se apinhar para zarparem.

Embarcados, e na precariedade do desconforto, viram todos insulares e sem história e nem nomes, procurando refúgio no continente, um espaço que os deixe olhar para os outros seres na condição humana. Porém, a ondulação e os silêncios, atravessadores pelas ordens dos ventos, se fracturam com os choros de crianças não contabilizadas no horário da partida. O txopela, quando todos mesmos esperam, se reconverte em maternidade. Um parto sem assistência e dignidade, mas com a solidariedade das matronas e assistidos por capulanas salgadas pelas ondas. Os mais inapropriados e inconcebíveis espaços para se chegar ao mundo. O mar de tantos mistérios reserva para si o direito de conservar, em suas profundezas, as placentas que registam a incredulidade da malícia e fúria assassina insurgente.

Hawa ou Eva, nessa etimologia bíblica, foi uma de tantos que vieram e chegaram ao mundo flutuando. Embalados pela sinfonia combinada de ondas que testemunham tantos outros nascimentos, no interior de suas profundezas, porém, quase nunca, na superfície de suas águas. Mas, são estas águas que se acalmaram para receber cada uma destas crianças. Receber e transportar para outros mundos inundados de dissabores e imperfeições.

No mar florescem para a vida os pequenos guerreiros ávidos de rescrever sua própria história, alterar o curso da humanidade e fazer valor a historicidade de tantas gerações de Manis que souberam viver da pesca e caça ou recolecção, mas, jamais, de fratricida e inexplicadas disputas. Hawas, Faridas e Omares, Anchas e Ibraimos, Naziras e Salimos, tantos que agora parecem ser números, mas que transportam fascinantes histórias de trabalho, vida e amor. O tempo se encarregará de escrever a sua própria história. Estas crianças nascidas em maternidades ambulantes e flutuantes serão candidatas a navegantes fugidos da barbárie e crueldade, em busca da terra prometida, como Moisés procurou Jerusalém, partindo para essa fé que alimenta a religiosidade.

Vivemos txopelados para essas esquerdas e direitas, com rajadas de vento nem por isso tão favoráveis. Para tanta desgraça não pode ser apenas a natureza que dita o nosso destino. Somos nós próprios. O bom senso e condução colectiva terão de nos orientar para um porto de calmarias. Assim, a sorte acompanhará os audazes.

De maternidades flutuantes os txopelas podem, lamentavelmente, transformar-se em pequenos calvários, espaços onde a vida deixa de fazer sentido. Neste mesmo mar de tantas alegrias e salvação, os afogamentos sepultam corpos em suas águas cristalinas. Junto da placenta dos recém-nascidos, jazem heróis e famílias com destinos interrompidos. As paradisíacas ilhas assistem com a mesma cumplicidade, o gerar e o desfazer de vidas. São estas águas que retiram o melhor de nossos concidadãos. São os txopelas das múltiplas tragédias de tantos refugiados e fugitivos. Nestas horas, o idílico azul se converte num túmulo sufocante e frio, para deixar nas suas profundezas os sonhos de quem nunca entendeu a génese de tanta conflitualidade, descrença e vandalismo.

Entre maternidades e calvários, só tem um nome, esperança de um outro futuro e novos horizontes. Estes txopelas são as imagens do sofrimento, narradas de formas tão cruzadas, incompletas e incoerentes, insensíveis e arrepiantes, que viajam em sentido inverso do aceitável e tatuando as nossas consciências e memórias. Os txopelas revelam a plenitude de uma tragédia e crime humanitário cujas proporções, só mesmo Deus poderá, algum dia, justificar.

Na linha do horizonte, os txopelas vão chegando silenciados e com a réstia de esperança restabelecida. Invadem as místicas praias do Paquitequete. Areias brancas transformadas em pequenos hotéis desprovidos de tudo.  Um céu aberto e a última redenção divina para quem alcança terra firme.  Paquitequete abraça a todos com a mesma gentileza que recebe dezenas de pescadores. Para trás, as narrativas de uma longa aventura, os relatos da crueldade e descaso, a matriz de sentimentos, de pequenez da nossa solidariedade e generosidade e de um presente que não quer ser passado, pois, o futuro também parece ter deixado de existir.

O artigo anterior apresentou com algum detalhe a realidade da Universidade de Macau (UM), neste procurarei referir essencialmente mais alguns aspectos interessantes, normalmente desconhecidos e aos quais tenho estado mais ligado dentro da instituição e que fazem parte duma história que começa a estar recheada de vários sucessos significativos e com impacto mundial.

No entanto, gostaria de salientar numa pequena nota inicial ainda o Encontro Anual da AULP, em Maputo em 1999, na Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Foi um marco importante na minha vida pois marcou o regresso a Moçambique 25 anos depois de ter partido, mas também porque no âmbito do mesmo pude apresentar cumprimentos e falar de novo com o Presidente Joaquim Chissano que tinha ainda bem presente o Doutoramento Honoris Causa na UM no ano anterior. Carreguei de novo o meu imaginário com o contacto pessoal com os Moçambicanos, sempre inesquecível, o regresso a ex-libris memoráveis, como o Restaurante PiriPíri e a Igreja da Polana, a ida ao Palácio da Ponta Vermelha e a estadia no famoso Hotel Polana, estes 2 últimos locais, que na minha memória de miúdo eram inacessíveis e apenas reservados aos “Deuses do Olimpo”!
Mas, regressando à UM, escrevi anteriormente que a minha maior motivação para começar a “partir-pedra” em 1992, em Macau, foi a excelente qualidade dos alunos locais, bem treinados no ensino básico e secundário, extremamente aplicados no estudo, e com grande “Sede-de –Saber”. Apenas três exemplos, o primeiro, em 1994, dava a cadeira de Análise de Circuitos ao primeiro ano da licenciatura, na primeira aula, ao fim de 10 minutos, um pequeno aluno (em termos de estatura pois tinha menos de 1.5m) no meio da sala levanta o braço com uma dúvida, achei estranho pois os alunos Chineses raramente fazem perguntas durante as aulas, e a dúvida era do mais elementar possível, pensei, não faz a mínima ideia do que estou a falar, mas expliquei tudo em detalhe, tendo ido inclusive atrás para explicar outras coisas que devia saber desde o secundário. Não houve mais dúvidas e a aula acabou sem mais nenhuma pergunta. Na aula seguinte, a meio, o mesmo aluno levanta de novo o braço com outra dúvida, também muito elementar, mas esclareci tudo como anteriormente. Pensei, vou ter de continuar a responder a este tipo de perguntas básicas até ao fim do semestre…estava certo e errado, as perguntas continuaram, sempre pelo mesmo aluno, mas o nível das mesmas foi aumentando significativamente, de tal modo que, perto do fim do semestre (só apenas nessa altura descobri que o tal aluno afinal era uma Aluna! Estas ainda eram mais reservadas que os rapazes nas aulas, nunca abriam a boca…) quando o braço se levantava, eu perguntava: “Ok Ruly, what have I written wrong in the board?”… pois, nessa altura, as dúvidas que tinha estavam relacionadas com uma ou outra gralha que eu poderia escrever no quadro, ou seja, já me tinha ultrapassado… no fim do 3º ano já tinha feito todas as cadeiras do 4º ano, mas não podia ainda concluir o curso porque o projecto final (1 ano completo) frequentava-se apenas no último ano. Portanto, nesse ano fez o projecto final comigo e seguiu as minhas 3 cadeiras de mestrado em microelectrónica. Mas, gostava mais de antenas pelo que foi para Hong Kong (HK) fazer o mestrado e doutoramento nessa área, na tal Universidade de Ciência e Tecnologia (HKUST). Ainda me lembro bem que escrevi uma carta especial directamente ao Chefe do Executivo de HK para ele autorizar a sua inscrição, pois a candidatura tinha sido recusada pela universidade devido a problemas de residência, surpreendentemente ele aprovou! Fez um doutoramento brilhante e numa das conferências em que participou encontrou um colega alemão, casou com ele, teve 2 filhos e vive na Alemanha. Foi a(o) melhor aluna(o) que alguma vez tive. O segundo, o Ben, frequentou a primeira turma de mestrado e participou no projecto que desenhou o primeiro circuito integrado (chip) em Macau em 1995, que designámos por UMCHIP, e subsequentemente, foi um dos meus primeiros alunos de doutoramento que obteve o grau-conjunto Faculdade de Ciências e Tecnologia, UM/Técnico, U de Lisboa, em 2002. No âmbito do seu trabalho projectou também um chip que na altura foi o primeiro da UM a ser publicado na conferência mais importante de electrónica no mundo que se realiza sempre em São Francisco, USA, e que se designa por ISSCC – International Solid-State Circuits Conference. Só o conseguiu porque era um circuito “do outro mundo”, com um desempenho invulgar sem comparação com qualquer outro projectado por empresas ou universidades de topo. Actualmente, é IEEE Fellow (USA) e dirige em Macau a sucursal de uma das maiores empresas americanas do ramo. O terceiro, o Elvis (o nome foi bem escolhido, como eu lhe costumo dizer: “You’re The King”! Os Chineses para além dos seus nomes próprios escolhem quase sempre um alias em Inglês), enquanto aluno, no 1º ano da licenciatura, numa aula expliquei, fora do programa da cadeira de Análise de Circuitos, o que significava a investigação nessa área que implicava a publicação de artigos em conferências e revistas científicas de nível internacional. Ele, que era um aluno normal, após a minha apresentação decidiu que era aquilo que queria fazer na vida, voltei a encontrá-lo no 4º ano, em 2003, fez o projecto final de licenciatura com o Ben e comigo, e consequentemente escrevemos um artigo numa revista científica do IET (UK), tendo sido o primeiro aluno de licenciatura a conseguir fazê-lo, normalmente este tipo de artigos em revista são escritos no mestrado ou só mesmo no doutoramento. Com este resultado propus que fizesse o doutoramento directo a partir da licenciatura e em 2006 estava doutorado, sendo também aos 41 anos quase tudo, IEEE Fellow (USA), IET Fellow (UK), Royal Society of Chemistry Fellow (UK), China Academy of Sciences Overseas Member, Professor Catedrático, e em breve, o meu sucessor… Juntamente com o Ben, o Elvis e mais outros, todos de Macau e doutorados pela UM, vimos o nosso laboratório de electrónica elevado em 2011 a Laboratório de Referência da China, com a designação de State Key Laboratory of Analog and Mixed-Signal VLSI, que ao fim de dez anos, já com cerca de 100 membros (70% de Macau) é líder na área em todo o país, colocando a UM à frente da HKUST e de qualquer outra universidade na China. Para além disto, mundialmente e em 2019, na mesma conferência, em termos de números de artigos/chips apresentados (tivemos 8), à frente da UM encontra-se apenas a INTEL (com 10), o que confirma o que afirmei no artigo anterior, ficou provado que o professor que se opôs ao lançamento da pós-graduação em electrónica no Senado da UM (em 1993) estava errado. Após quase trinta anos, os sucessos obtidos, deveram-se inicialmente, em grande parte aos alunos geniais de Macau mas agora também aos da China Continental que já nos procuram em grande número.
Fazendo um parêntesis, apesar de estar radicado em Macau há 28 anos, ainda hoje mantenho a minha ligação ao Técnico, através duma lei portuguesa que permite uma licença especial apenas para o Território. Assim, desenvolvi a minha carreira paralelamente nas 2 universidades e tive de concorrer a mais de uma dezena de Concursos Públicos em Portugal, para Professor Associado e depois Catedrático. Num desses Concursos, um colega Catedrático do Júri com o qual contactei depois deste estar concluído disse-me: “Rui, o maior erro que fizeste na tua vida foi teres ido para Macau!”, depois de trocarmos vários emails e lhe ter explicado melhor a minha situação afirmou: “Rui, teres ido para Macau foi o melhor que fizeste na vida”!!!… finalmente compreendeu, e apesar de longe atingi todos os objectivos da carreira académica tendo passado em Portugal pela primeira vez a Catedrático, em 2008, e por sinal, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, precisamente na última cidade em que o meu Pai trabalhou. No entanto, por tal implicar o regresso a Portugal, e devido à insistência do Governo da RAEM para que aqui continuasse, como Vice-Reitor, desisti da vaga e continuei ligado ao Técnico. Passei igualmente a IEEE Fellow (USA) em 2008 (sendo um dos 10 primeiros portugueses que o conseguiram), e em 2010 fui eleito para a Academia das Ciências de Lisboa, sendo o único dos seus membros a trabalhar na Ásia, pelo que não me arrependo da opção que fiz.
Mas, durante este período, continuei a manter a ligação da UM à AULP através de uma das Vice-Presidências, a 4ª, entretanto criada para a Ásia, em 2005. Nesse âmbito, em 2006 foi estabelecido um acordo entre a UEM e a UM para a colaboração ao nível da investigação e da pós-graduação na área do Direito, e um dos primeiros alunos que aproveitou a oportunidade foi o Almeida Zacarias Machava, que posteriormente decidiu também seguir o doutoramento concluído em Maio de 2013, e que actualmente é Professor na Faculdade de Direito da UEM. O seu doutoramento, ao qual tive a honra de presidir, foi o primeiro em Direito em Língua Portuguesa na Universidade de Macau!
Já em Outubro de 2013 e como Vice-Presidente da AULP, tive a oportunidade de me deslocar de novo a Moçambique, e pela primeira vez ao Norte, a Nampula e ao Niassa, para visitar a Universidade Lúrio e assistir à inauguração do seu terceiro campus no Niassa, a convite do Reitor Jorge Ferrão, na altura na Presidência da AULP. Foi mais uma experiência memorável, nomeadamente as visitas a Nampula e Lichinga e em especial a cerimónia em Wannangu (um campus completamente no meio do nada), presidida pelo Chefe de Estado, Armando Guebuza, a quem tive o prazer de oferecer a Medalha Comemorativa das Bodas de Prata da UM. Um detalhe a salientar, antes da inauguração oficial, junto a uma “árvore especial” no campus, o Régulo local realizou a inauguração de acordo com a tradição, na presença do Presidente Guebuza e de todos os participantes. Inolvidável!
Rui Martins.
Macau, 21 de Novembro de 2020.
P.S.- Não me posso esquecer também nesta visita a Moçambique do acompanhamento inestimável do Professor Tito Fernandes que entre outras coisas me levou pela primeira vez a uma Fábrica de Cajú! Por mais uma daquelas coincidências do destino ou não, os Professores Tito Fernandes, Jorge Ferrão e eu, somos todos Confrades da Academia das Ciências.

Uma nota de “leitura” por Agnaldo Bata

 

Em um ano em que a prestação das autoridades policiais tem estado no centro de vários debates formais e informais, particularmente pelos casos « Matalane » e « 10 de Novembro »,  apraz-nos recordar de um exemplo flagrante em que a arte, concretamente a cinematografia, trouxe para cima da mesa de debate insumos que nos permitissem, com antecedência (ou não), reflectir profundamente e buscar soluções sobre alguns temas transversais aos tempos actuais, tais como « assédio », « poder », « consentimento » e « respeito pelos direitos humanos ».

Em alusão, é o filme moçambicano «A virgem Margarida », publicado em 2012, sob a égide do cineasta  Licínio Azevedo. A longa-metragem retrata um episódio da história moçambicana aparentemente relegado para o passado pela memória colectiva, porém, cujos contornos (tomando o exemplo da prestação das autoridades policiais) podem ser bem contemporâneos. Historicamente situada logo após a independência (1975) «A virgem Margarida » traz-nos a estória de um grupo de mulheres, oriundas de várias regiões do país, que é enviado, à força, para um campo de reeducação, algures, distante de tudo e de todos, com objectivo de transformá-las em « mulheres novas », livres dos « vícios coloniais », neste caso particular, a prostituição. Dentre as mulheres encontra-se a Margarida, uma virgem de 16 anos que estava de visita a cidade de Maputo para comprar roupa do seu casamento, mas, devido a falta de documentos acabou sendo,também, presa e enviada ao campo de reeducação.

Em 86 minutos, assegurados por excelentes representações de actores da nossa praça tais como : Iva Mugalela, Sumeia Maculuva, Ermelinda Cimela, Rosa Mário, Ana Maria Albino, Ilda Gonzales e Eliot Alex (sem esquecer uma passagem icónica, porém, sempre salutar, de Mario Mabjaia), o filme faz-nos viajar sobre um Moçambique recém independente, com as feridas da guerra colonial ainda por sarar, transpirando fome, desemprego, falta de transporte, meios e vias de comunicação, entre outros.

Sob torturas, privações e maus tratos, com alguma humilhação a mistura, decorre o processo de reeducação das «mulheres de má vida», que são incitadas a enxovalhar o seu passado num baú e atirá-lo à corrente do rio. No enredo temos a figura da comandante Maria João (Hermelina Cimela) que acredita nos ideais da formação do «homem novo» como parte fundamental do processo de construção de Moçambique livre e próspero. A comandante não mede esforços para que, em nome da jovem nação, este objectivo seja alcançado (inclusive chega a adiar o seu tão aguardado casamento). Ela encarna vários moçambicanos, seja da polícia, do exército ou de outras instituições, que acreditam num Moçambique feito de cidadãos íntegros que agem dentro da lei, movidos pela boa vontade e da solidariedade com o outro, acreditando que só assim pode-se pensar em melhorar a sociedade onde vivemos. Do outro lado, temos o comandante Felisberto (Eliot Alex) que aproveita-se da fragilidade emocional e física de algumas das «mulheres de má vida » para obter benefícios sexuais. O ponto mais petrificante desta figura (desculpa o spoiler gritante) é quando ele viola sexualmente a Margarida, sob pretexto de estar a comprovar a autenticidade da sua virgindidade.

Percebemos, durante o filme, um constante diálogo emocional entre os que acreditam na integridade dos agentes da lei e lutam para que a lei seja sempre suprema, e aqueles que usam-na como escudo para obter benefícios pessoais, destruindo sonhos, plantando medo, angústia e ansiedade entre os moçambicanos, sendo este um dos grandes méritos do filme. Mas a questão não se fica por aí. O filme faz-nos experimentar a sensação de que não existem verdades simples e universais (reducionistas) sobre um determinado fenómeno. Vemos isso quando Ancha (Ilda Gonzales, que empresta a sua experiência a esta longa) uma das mulheres «presas» no campo de reeducação, seduz o comandante para obter ganhos pessoais, ou ainda quando Rosa (exemplarmente representada pela professora Iva Magulela), igualmente no campo de reeducação, resiste ao assédio por parte do comandante e mostra como é complicado denunciar o assédio perpetrado por alguém que se encontra em uma situação de poder hierárquico. Nada poderia ser mais interessante nesta longa-metragem se não estas reviravoltas que culminam com uma rebelião das mulheres, num final emocionante em que, coadjuvadas pela comandante Maria João, igualmente agastada com os abusos de poder, todas as mulheres fogem com as suas feridas emocionais e físicas, e destinos certamente mudados,  do campo de reeducação.

Rever «A virgem Margarida » em pleno 2020, foi como assistir uma história do passado que, por ter sido mal resolvida, volta a assombrar os tempos presentes e, se mais uma vez, não for resolvida por intermédio de um debate aberto, sincero e inclusivo, voltará a assombrar-nos dentro de algum tempo com consequências mais drásticas em relação as que temos vivido por estes dias, que já não deixam de ser lamentáveis.

Em suma, a arte moçambicana desempenhou, mais uma vez, o seu papel para a construção de uma sociedade melhor, forneceu-nos insumos, a partir de uma reflexão sobre a nossa história, para debatermos e buscarmos soluções dos problemas que temos vivido nos tempos presentes. Talvez devêssemos dar mais atenção e investir mais nela, pois, comprova-se a partir deste exemplo, que jamais tratou-se apenas de diversão ou lazer, mas sim, também, de um meio de exposição ou denúncia do que ocorre no nosso dia-a-dia.

Sobre o Filme:

Titulo –  Avirgem Margarida ; Ano – 2012 ; Categoria: Ficção ; Duração: 86 minAno: 2012 ; País: Moçambique ; Realizador: Licínio Azevedo

Prémios : Melhor Longa-metragem – Selecção Internacional Ficção – 29o Festival Internacional de Cinema Vues D’Afrique (Montreal) ; (entre outros, no mínimo 11) ;

o sentido da ausência em mim

liberta o desejo

e se livra

Virgílio de Lemos

 

O excerto do poema sem título, da autoria de Virgílio de Lemos, escrito em Lourenço Marques, a 30 de Junho de 1959, condiz com o que é poesia em Pedagogia da ausência. Realmente, no seu segundo livro, Amosse Mucavele atribui a vários sentidos emocionais a ausência, tornando-a abrangente, quando a manifesta no enlace entre a manipulação do silêncio e a invocação da memória.

Há séculos que o silêncio (e já nos referimos algumas vezes a isso) é uma condição poética imprescindível. À semelhança de Virgílio de Lemos, poetas mais jovens de Moçambique, por exemplo, Adelino Timóteo, Japone Arijuane, Pedro Pereira Lopes, Jaime Munguambe, Álvaro Taruma, M. P. Bonde, o próprio Amosse Mucavele e, já agora, Otildo Guido, também trabalham aquele recurso, dando voz ao vazio, à inexistência e à indiferença. No caso do autor da Pedagogia da ausência, aquele registo ocorre igualmente numa abordagem à força anímica. Esse vigor permite os sujeitos de enunciação retomarem às suas circunstâncias e à sua inocência pueril, daí a ruptura poética entre a distância e os intervalos de tempo. Amosse Mucavele assim procede para recuperar, através da memória, o que afinal não pode ressurgir, mesmo quando se trata de compensar ausências no texto. Por isso, as vozes do poema não escapam à inventariação da angústia, movida pela solidão e pela insatisfação do desejo nos moldes decisivos.

Na manipulação das trajectórias rumo ao retorno a certos lugares imberbes, Amosse Mucavele reconstrói uma casa, cujos compartimentos fragmentam-se ao longo dos poemas. No entanto, essa casa não é um lugar bom. Deixou de ser pela invasão da soledade: “na velha casa/ a solidão traça uma rotina fúnebre” (p. 11).

Nos (in)visíveis ângulos dos móveis, em Pedagogia da ausência observa-se a poeira da tristeza que, igualmente, em Hirondina Joshua faz da casa um lugar desarrumado, “quase sem alma”. Precisamente, em Amosse Mucevele a casa é triste por ter perdido “almas” que se recompõe num álbum de fotografias. Ora, no jogo entre a distância, o silêncio e a ausência, a memória surge associada ao passado juvenil, implicado a determinadas partidas da vida, enquanto o silêncio isola e amedronta, com fendas nas lembranças: “O rugir do silêncio/ é mais forte/ quando escutado nas colunas do medo” (p. 34). Nesse sentido, reconhece-se uma certa carga de indiferença ao presente, todavia pouco duradoura.

No seu segundo livro, Amosse Mucavele escreve sobre o que lhe é próximo (mesmo distante), sabe, conhece, vê e julga, quer no exercício da memória, quer no passeio aos espaços reais de Maputo. A capital moçambicana, à semelhança do seu primeiro livro, Geografia do olhar, é o chão do poeta, mesmo na alusão aos espaços líquidos, afinal: “O fim do mar é uma cidade universal” (p. 23).

Não obstante, trabalhando sobre a memória, o silêncio e a ausência, Amosse Mucavele parece esforçar-se em descortinar a face do tempo, para quiçá o transformar em intemporalidade, o que até nos sugere uma comparação com Globatinol – (antídoto) ou o garimpeiro do tempo e Mozambique meu corpus quantum, de Filimone Meigos. E Mucavele também escreve sobre a melancolia que se multiplica e vende-se. É sobre isso o poema “Mel amargo”, um retrato a respeito do instinto possessivo humano, causador do desequilíbrio ecológico.

Pedagogia da ausência é um bom livro de Amosse Mucavele, que exagera na inclusão de textos de outros autores. Em 48 páginas enumeradas, temos 31 poemas de Amosse Mucavele e 10 citações alheias ao poeta. Não havia necessidade. Contudo, nada que ofusca esse interessante cruzamento semântico e fonético timbrado nos sons dos poemas.

 

Título: Pedagogia da ausência

Autor: Amosse Mucavele

Editora: Alcance

Classificação: 13

 

A sociedade moçambicana sofreu, ao longo destes anos, muitas transformações. A forma de ser e estar já não é a mesma em relação ao passado. Algumas práticas desse tempo que se usavam para corrigir certas situações comportamentais das crianças, hoje podem ser vistas como crime, violência doméstica ou dos direitos humanos.

O meu pai castigava-me ou dava-me reguadas quando achasse que estava a me desviar da linha. Fazia isso para educar-me. Formar-me como o homem do amanhã. Um homem exemplar.

De castigo para o outro saia renovado. Tornava-me aquele menino bem comportado que era um orgulho para a família. Aquele que sabia cumprimentar pessoas, respeitava os mais velhos e fazia os seus deveres de casa correctamente. Como cristão, evitava cometer pecados.

A educação que levávamos em casa tinha, por isso, que se reflectir no nosso comportamento, como crianças, no seio da sociedade em geral.

No passado, pai era sempre pai. Pais de todas as crianças da aldeia ou da comunidade. Desempenhava o seu papel dentro e fora de casa. Assim que entendesse, podia puxar de um sinto ou de uma varra e bater numa criança qualquer da comunidade por mau comportamento.

A iniciativa de castigar uma criança mal comportada podia partir de uma mulher que, à semelhança dos homens, era mãe de todas as crianças e assumia a sua responsabilidade de educadora dentro e fora da sua família, contribuindo para a moralização da sociedade no seu todo.

Curiosamente, nenhuma criança repreendida ou castigada fora de casa atrevia-se a queixar aos seus pais pela reguada que apanhou porque podia passar por uma punição a dobrar, pois estava em causa a preservação ou salvaguarda da honra e do bom nome da família.

A forma como a sociedade educava aos mais novos não era entendida como violência doméstica, nem tão pouco violação dos direitos humanos, matérias que nem sequer eram do domínio da comunidade. A sociedade tinha as suas próprias regras, os seus valores que eram respeitados por todos. Tudo acontecia com normalidade e sem qualquer tipo de questionamento. Nada do que se fazia era visto como crime, mesmo por parte das autoridades administrativas da época.

Hoje, tudo mudou. Na sociedade moderna em que vivemos, bater numa criança é reportado como um caso de violência doméstica. Bater como processo de educação e não para magoa-la. Não só há leis que penalizam esse tipo de casos, como existem no país organizações não-governamentais que ganham dinheiro com a monitoria e denúncia de ocorrências de género.

Por conta disso, a sociedade demitiu-se do seu papel de educação das crianças, jovens e adolescentes. É que o pai e a mãe perderam o seu espaço como educadores na aldeia ou na comunidade. Hoje, os mais novos dão se ao luxo de insultar aos mais velhos se um deles tomar a iniciativa de chamar atenção a uma criança em caso de mau comportamento.

Os jovens não respeitam aos pais e muito menos a estranhos. O professor não pode atrever-se a dar uma reguada a um aluno ou porque não repetiu as matérias ou porque não fez o TPC. Antes de enfrentar a lei, pode ter problemas com os país do miúdo que vão querer saber porque é que ele bateu no seu filho.

Algumas crianças não estudam e confiam na fraude académica. Copiam ou compram enunciados algures com questões já resolvidas e obtêm boas notas, mas, na prática, não sabem nada, nem escrever uma simples redacção com cabeça, tronco e membros. Os quadros do amanhã, num país que mais valoriza o diploma do que propriamente o saber fazer.

Casos de gravidez prematura multiplicam-se dia-pós-dia, o mesmo em relação ao envolvimento de jovens na venda e consumo de drogas. O alcoolismo é outro problema que a sociedade, com os seus instrumentos legais de defesa da criança, não consegue corrigir.

A sociedade já não é aquela que era, apesar da disponibilidade de leis contra a violência doméstica e a existência de organizações defensoras dos direitos humanos. Estamos perante uma sociedade com graves problemas de imoralidade por conta da degradação dos seus valores que, ao que tudo indica, ninguém consegue resgatar.

Ganhamos as leis. Ganhamos activistas dos direitos humanos sempre atentos ao dia-a-dia da criança. Já na se bate a ninguém nas escolas. A criança está num à vontade, pois não há quem lhe chame atenção na via pública, mas vamos lá ver a sociedade que temos hoje. Uma vergonha.

NB: Não sou defensor da violência doméstica, pois é inaceitável, mas às vezes é preciso que as crianças apanhem uma reguada quando não estudam ou passar por algum tipo de castigo para obrigá-las a comportar-se como deve ser na sociedade.

 

Historicamente, uma vasta bibliografia indica que, com o advento da independência nacional, ocorreu um êxodo populacional das minorias do Moçambique colonial, com o maior caudal para Portugal e África do Sul, deixando o País com cerca de 90% da população por alfabetizar. Por erosão, um considerável universo do pessoal especializado seguiria no mesmo sentido, facto que até a data chamaria a atenção dos estudiosos pelas fragilidades causadas nos sectores da indústria, Saúde e Educação, sobremaneira.

Volvidas quatro décadas e meia de independência de Moçambique, acto com registo a 25 de Junho de 1975, surge a necessidade de se analisar os demais sectores, aparentemente negligenciados, embora de magnitude nada desprezível em termos de consequências causadas na sociedade moçambicana. Como forma de contribuição, e ainda por uma questão de interesse particular, debruçar-nos-emos, no presente artigo, sobre o sector das artes, com enfoque à literatura.

Para melhor compreensão das implicações negativas do êxodo na literatura, importa, antes de quaisquer desenvolvimentos argumentativos, estabelecer um breve paralelismo com o desfalque de quadros verificado no sector industrial, em Moçambique, principalmente após a assinatura dos acordos de Lusaka, a 7 de Setembro de 1974. Este facto culminaria com a tomada de posse do Governo de Transição, cujo período de vigência marcaria um átimo de desamores em relação ao futuro da pérola do Índico.

Com a saída massiva de pessoal especializado, depois da independência, Moçambique desaba na necessidade de seguir em frente, contando com os recursos humanos disponíveis. A colocação de nacionais dotados de relativo conhecimento sobre as diferentes áreas fez com que vários incipientes ou funcionários de escalões inferiores no período colonial passassem a exercer postos de capital relevância na indústria, na Saúde ou Educação, a título de exemplo[1]. O meio literário também conheceria uma semelhante trepidação, sobretudo com a saída do País de autores que escreviam  para afirmar a ideologia colonial na sua expressão luso-tropicalista. Aliás, de acordo com Mendonça (1988), “aparece neste grupo a maior parte da prosa editada em Moçambique.”[2]

A edificação de um novo edifício literário em Moçambique conduziu à criação da Associação dos Escritores Moçambicanos, AEMO, em Agosto de 1982. Este facto constituiu, de certa forma, um braço mobilizador do Estado para impulsionar o surgimento de uma vaga de escritores engajados na causa revolucionária[3]. Jovens interessados desfruiriam de uma oportunidade histórica: ocupar um território literário quase que vazio, por imperativo das dinâmicas sociopolíticas acima descritas. Importa referir que, intencionalmente, recorremos ao termo território para induzir o leitor à ideia da territorialidade, definida como a conduta ou atitude que instintivamente os animais, incluindo o próprio ser humano, a promover a defesa do território que ocupam. No caso dos seres humanos, esta defesa também está relacionada com a cultura, facto que mais adiante trataremos com algum destaque, na esfera da literatura moçambicana.

A literatura no Moçambique colonial, à semelhança do que sucedia em muitas outras ocupações de âmbito profissional, conferia supremacia a autores de descendência europeia, que para alguns estudiosos configuram o que também Noa (2002), designa por “Literatura Colonial”, destacaremos o que este autor assume como a terceira fase dessa literatura, evocando escritores Fernando Magalhães, Guilherme de Melo, Agostinho Caramelo, João Salva-Rey, Eduardo Paixão e outros. Concomitantemente, através de uma leitura atenta sobre o percurso das letras em Moçambique, concluímos que, com este conjunto de romancistas destacados por Noa, coexistiam poetas como Rui Knopfli ou Eugénio Lisboa.

Porque a Independência Nacional de Moçambique, sob vários aspectos, impôs-se como um processo de ruptura com o passado colonial, a partir do conturbado ano de 1974, assistiu-se igualmente à saída de escritores, casos de Guilherme de Melo, que, em Outubro de 1974, faria as malas para Portugal. Rui Knopfli, em Março de 1975, seguiria o exemplo. Fernando Magalhães, em 1977, apenas para trazer à memória alguns dos autores que avultavam no panorama literário do Moçambique colonial. Aliás, arrebatado ao meio literário de Lourenço Marques, numa recentíssima edição do JL, Eugénio Lisboa, que também deixou Moçambique em Março de 1976, recordaria, marcado por alguma saudade, um dos inusitados momentos de convívio literário, já nesses distantes tempos de Lourenço Marques[4].

Diga-se de passagem que, paralelamente à saída desses escritores de Moçambique, desvaneceu a disponibilidade do livro, facto já sensível nos primeiros anos da independência nacional. Em entrevista inserida no Número 1 da Revista Charrua (1984), Rui Nogar constataria que “agora o que nos distancia da aquisição de conhecimentos literários, da aferição dos nossos próprios valores […]: é apenas a inexistência de livros, é apenas a resultante da situação que se vive em qualquer País, colonizado, subdesenvolvido.” Todavia, para muitos da nossa geração etária, residentes no centro da Cidade de Maputo, abririam as tabacarias, ao estilo da Vitória, para troca de livros, como forma de colmatar essa inexistência de livros.

 

Como ficou dito, em 1982, quando já se perdia a memória da antiga Lourenço Marques, ora Maputo, nasceu a Associação dos Escritores Moçambicanos. Lado a lado com escritores revelados no período colonial, estes mais engajados ao processo revolucionário, uma nova e influente geração de poetas e prosadores ocuparia o território literário naquele tempo deixado vago pelos cultores da apodada por literatura colonial. Como território, parafraseando Coelho Neto, entenda-se um espaço com limites estabelecidos por fronteiras colocadas [embora nada físicos], onde a questão da exclusividade de apropriação e de uso distingue hoje “nós”, os incluídos, aqueles que integram o território, e os “outros”, aqueles que não fazem parte do território.

Imbuídos desse espírito de pertença, alguns escritores da vaga de autores como Ungulani Ba Ka Khosa, Armando Artur, Juvenal Bucuane, Eduardo White, Hélder Muteia, Filimone Meigos, Paulina Chiziane, Tomás Vieira Mário, Mia Couto, Suleiman Cassamo, Anibal Aleluia, Nelson Saúte, Calane da Silva, Pedro Chissano, Carlos Paradona Rufino Roque, António Pinto de Abreu, Marcelo Panguana, entre vários outros, adoptariam, alguns, uma conduta ou atitude instintivamente defensiva, para assegurar o território ora ocupado, em consciência, algo agridoce, das circunstâncias próprias do seu surgimento como escritores, e da falta de talento, notório nos textos sem qualquer relevância literária. É preciso evitar-se a romantização dos processos. Aliás, já em 84 do século passado, Fernando Couto, comentando sobre o Número 1 da revista charrua, apontava “como aspectos positivos de realce [na revista] os contos e poemas, mas ressalvando, de modo perítrico, que não todos.”

Hoje, transcorridas pouco mais de três décadas, a distância temporal nos confere a firmeza de elaborar instrumentos de análise, a aferição de quem, nesse grupo de “escritores de circunstância”, de facto foi, ou é, relevante no panorama literário, tendo em vista a obra literária, apenas a obra literária e nada mais. Chamo aqui a todos os escritores nacionais a preencher, individualmente, a tabela a baixo, de modo a que cada um possa aferir a sua relevância como escritor, no seio da sociedade moçambicana, isto atendendo o facto de ser ou não escritor de realce[5].

 

 OBRAS PUBLICADAS   REEDIÇÕES  INSERÇOES EM ANTOLOGIAS TRADUÇÕES EM LÍNGUAS ESTRANGEIRAS PUBLICAÇÕES INTERNACIONAIS  ENSAIOS ACADÉMICOS

SOBRE A OBRA

MONOGRAFIAS DE CULMINAÇÃO DE ESTUDOS SUPERIORES BASEADOS NA OBRA LIVROS SUGERIDOS PARA LEITURA NO ENSINO SECUNDÁRIO  PRÉMIOS LITERÁRIOS
                 

 

Cientes da falibilidade de alguns itens elencados, se em mais de 35 anos de publicação, um escritor não se ajusta a 75% dos mesmos, a sua relevância como autor é assaz duvidosa. A esses itens podíamos acrescentar adaptações das histórias dos livros para o cinema ou teatro, como acontece com autores como Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa e Paulina Chiziane.

Voltando à nossa linha de raciocínio, se no sector industrial, como consequência do êxodo da minoria branca, profissionais de baixa qualificação técnica viram-se na contingência de assumir sectores-chave da produção industrial, na literatura, sem o desdoiro de escritores de relevo surgidos na década de 1980, ocorreu igualmente a ascensão de meros alfabetizados para a classe de literatos[6], possivelmente por exagero de alinhamento na causa. Alinhados, porém, tecnicamente fracos, e/ou de duvidoso talento para o exercício da escrita literária. É certo que parte desses se ajustaria melhor ao lugar de animadores culturais, uns de excelência, tais os declamadores Gulamo Khan, Jaime Santos e Guilherme Mussane, exemplificando.

Por outro lado, a literatura pode ser equiparada ao acto de voar, muitos gostariam de experimentar a sensação, daí que também simples apreciadores de poesia se batem, embora sem algum talento, pela publicação e afirmação no panorama literário, sendo esses facilmente promovidos pelos “escritores de circunstância”, os igualmente sem talento, com o fito único de enturvar as águas e assim lograrem a sórdida empreitada de invisibilização e/ou subalternização[7] dos grandes talentos literários, a destacar Guita Jr., Amin Nordine, Sangare Okapi, Ruy Ligeiro, Lucílio Manjate, Celso Manguana, Chagas Levenne, Adelino Timóteo e, por mera modéstia, detenho-me por aqui.

Tendo falado em voar, ser piloto e escritor marca, nalgum momento da vida, o sonho de muitos adolescentes e jovens. Pouco depois do registo da saída massiva de escritores da literatura colonial, surgiram “escritores de circunstância”, que infelizmente, os medíocres dessa vaga, pela doce condição de continuar a alimentar essa quimera da adolescência em idade adulta adoptaram uma atitude fagocitária, valendo-se do facto de fazerem parte de um movimento marcado pela criação de notáveis revistas literárias, com destaque para a Charrua[8]. Eram os tempos da experiência socialista, de identificação com o espaço literário conquistado, no qual a colectivização da produção constituía a palavra de ordem. Hoje, alguns ainda não conseguiram contemporizar-se, porque mudam-se os tempos, soam novas canções. A obra individual é chamada hoje para advogar o sujeito escritor. Liesegang (1998) refere que se identifica uma pessoa com relação ao seu espaço mais relevante [revistas Charrua, Forja, Xiphefu, ou Oásis], mas o actor continua a ser individualizado.

É claro que estamos certos de que, à luz das mesma circunstâncias que levaram à legitimação de simples alfabetizados como escritores, também surgiram, de facto, escritores merecedores de sê-lo, entre outros, Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, Suleimane Cassamo, Eduardo White, Armando Artur, Lília Momplé, Paulina Chiziane e Aldino Muianga, alguns destes sem associação à revista em alusão.

Hoje, estamos remetidos a uma fase de quase conspurcação do espírito literário, cuja consequência é o desejo daquela corrente de alfabetizados que, por força do contexto, se consagrou no meio literário. Esses procuram veneração por parte dos escritores de prossecução, mas isto nada a mercê da criatividade literária, que tenha sustentado a consagração literária de muitos dos “escritores de circunstância”. É notável a qualidade medíocre das suas obras, por isso batem-se por uma constante invisibilidade literária de quem parece ensombrá-los. Conspurcam os cargos político-administrativos que ocupam, como meio de silenciamento e desqualificação do outro na sociedade, quase sempre incauta às dinâmicas literárias no País. Embora alguém se empenhe em demonstrar que depois de si veio o caos, essa dinâmica literária não deixou de trazer à luz novos escritores. Sobre a mediocridade, do texto, “O Medo da Inteligência”, publicado há 41 anos, mas com muita actualidade, José Alberto Gueiros, defende:

Os medíocres são mais obstinados na conquista de posições. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam apetite pelo poder. Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar.

As muralhas de granito incluem, hoje, a desqualificação do outro, que chega a insana atitude de negar que se possa agir, por parte dos escritores emergentes de 2003 a esta parte, e pensar de livre arbítrio[9]. Em todas as épocas nascerá tanta gente medíocre e ambiciosa, dotados do mesmo oportunismo. Hoje, certa continuidade dessa mediocridade se entrega a ovação dos “escritores de circunstância”, julgando que deles encontrarão algum decreto que os legitime como escritores consagrados. A acção da mediocridade de ontem, associada à de hoje, também se traduz na maledicência, que acaba por manter dividida a classe dos verdadeiros escritores. A mediocridade intriguista calunia e envenena o meio literário, havendo necessidade do surgimento de uma nova ordem literária, na qual o extraliterário não interfere, cabendo à crítica literária autorizada, em Moçambique, não atrelar-se a afinidades tecidas no convívio social dos anos 80. Essas afinidades impõem à crítica um exercício nada salutar à própria literatura, pois, através de malabarismos discursivos, perpetuam a vigência hegemónica de “escritores” que se multiplicam em actos fagocitários à aparição e verdadeira afirmação de novos autores.

Os malabarismos discursivos caracterizam-se muitas vezes por arrolar nomes de “enteados” como autores de destaque, algo não fundamentado pela obra. Quando parece que  prefaciam as obras dos mesmos, prefaciam não a obra, mas o próprio “autor-afilhado”. Quando parece apresentarem um livro, apresentam o próprio autor-afilhado, não o livro. Essa conspurcação estendem-na ao plano internacional, servindo protegidos literários e amos. Assim, da crítica arriscam-se, num porvir não muito distante, ao crivo da crítica da Crítica, em contraposição ao que actualmente também ocorre de muito bom na reflexão sobre a literatura moçambicana. Entretanto, depois de cimentar-se, a partir dessa década de 1980, uma nova classe de exímios cultores da palavra, ficcionistas, hoje, caberá a outros assumir esse legado, sem quebrar pontes, mas atentos a acção da mediocridade nociva, que conta sempre com o recurso à gazua dos cargos político-administrativos que ocupa, para manter a “visibilidade literária”, mercê da invisibilização de quem muito invejam o talento. Felizmente, não existe como parar o vento com as mãos.

 

[1] Precisamente a 8 de Março de 1977, depois da realização do III Congresso da Frelimo, o Presidente Samora Machel intimaria jovens provindos de vários quadrantes do País a assumirem e trabalharem nos vários sectores da economia, então em estado de defecção.

[2] In: Literatura Moçambicana: a História e as escritas. Faculdade de Letras, 1988.

[3] Na Conferencia Constitutiva da AEMO, em discurso intitulado “Condições Para Mobilizar Obreiros Literários ”, enfatizar-se-ia que “a Associação dos Escritores Moçambicanos (…) é condição de florescimento da nossa literatura, é a via necessária de mobilizar os obreiros da produção literária.”

 

[4] Jornal de Letras,  6 de Outubro de 2020.

[5] A tabela, de aferição da relevância literária do escritor, descarta o extra literário, do género, cargos político-administrativos, militância partidária, pertença ou não aos serviços de segurança do Estado, etc., muitas vezes usados como factores de legitimação literária.

[6]  De Fernando Ganhão registamos “Nós, que somos os mais alfabetizados de um País de analfabetos, temos responsabilidades que penso deverão constituir também uma das preocupações desta Associação.” (In: Memorial. AEMO, 2007)

 

[7] Razões de percurso podem explicar a necessidade de se ter subalternos literários. Aquando da criação da AEMO, onde muitos alfabetizados tiveram a oportunidade de seguir a carreira de escritor, poetas da gesta libertária, como o coronel Sérgio Vieira, frequentavam o mesmo espaço e, pela atitude trazida da guerrilha, naturalmente arregimentaram “escritores” que não vinham das matas. Muitos, já mentalmente aleijados, acreditam que essa subalternização constitui alguma herança comportamental, que deve passar de geração em geração.

[8] Chamamos aqui atenção para asserção de Gilberto Matusse (1994): “A Charrua marca um momento de redefinição da literatura pós-independência. Por um lado, porque propicia o surgimento em bloco de novos nomes, que viriam a afirmar-se no cenário da literatura moçambicana, contrariamente ao que aconteceu com a quase totalidade dos nomes isolados que procuraram lançar-se no período entre 1975 e 1984.”

[9] O disparate desqualificador procura sempre negar que os novos autores possam pensar de mote próprio, associando qualquer pensamento destes a manipulações, ora que são porta-vozes do fulano ou beltrano. Esta abordagem, associada à questão etária, explorada por muitos como elemento diferenciador do meio literário, procura simplesmente minimizar a pensamento do interlocutor mais novo. Este sentimento deve ter razões do percurso sociopolítico a que alguns foram expostos. Parte desses deixou-se castrar a nível do pensamento, depois absorveram ideias inculcadas a escopro e martelo e, por isso, essa dificuldade em perceber que outros possam gozar livremente da capacidade de pensar e do direito a liberdade de expressão.

Para o leitor informado, é difícil ler as 11 narrativas de “Karinganas do Índico” sem fazer uma introspeção sobre a linha ténue que faz endereço entre o conto e a crónica ou, mais profundamente, sobre a textualidade que os textos devem (ou não) a um cânone que se quer universal no acto de narrar.

Da autoria de Minyetani Khosa, pseudónimo de Félix Paulo Cossa, “Karinganas do Índico” sai pela Editora Kulera que como já nos acostumou nesta sua fase embrionária, permeia esta obra com um desenho gráfico que pouco ou nada deve mesmo aos mais exigentes.

Em 74 páginas encontramos estas 11 narrativas que, em geral, modalizam as vivências do espaço periférico da cidade de Maputo, com uma permanente viagem temporal senão espacial à realidade rural das províncias do sul de Moçambique (Maputo e Gaza) como quem faz uma busca na árvore genealógica dos personagens desta colectánea de contos e busca-lhes, pela memória, as suas origens senão dos seus ancestrais. Ressalte-se porém, o conto “Tunguinha” em que as acções se espraiam para Benone e arredores.

A abordagem do tempo como categoria da narrativa apresenta-se, nesta colectânea, como o leitmotiv que justifica a introspecção (possível de fazer) sobre a linha ténue que faz endereço entre o conto e a crónica. Se é verdade que o conto narra factos decorridos num tempo relativamente maior e a crónica centra-se no presente ou num passado muitíssimo recente, em “Karinganas do Índico” somos convidados a ter uma posição quiçá eclética relativamente a essa questão.

Khosa permeia as suas narrativas de vivências periurbanas que abordam o alcoolismo tornado regra pelos bairros e que se viu implicado com a vigência do estado de emergência decretado devido à Covid-19; a miséria que assola os residentes desses mesmos bairros a ponto de os aguçar o dilema de ficar em casa ante as restrições impostas pelo EE; o adultério quase institucionalizado entre as noites de sexta-feira e sábado; as admoestações da guerra na genealogia das famílias; a coisificação da mulher pelos dogmas falocentristas; a violação de menores; o papel e sentido dos templos e os desvarios da juventude (sobretudo feminina) para quem o corpo é objecto de trocas comerciais.

Nestas narrativas, é evidente o pendor contista dum autor para quem o acto de narrar é um fim em si mesmo. Sem nenhuma preleção pelos diálogos ou monólogos (pelo menos na maioria dos textos), nem jogos de quebra da linearidade temporal que se tem observado na narrativa moderna, numa linguagem acessível para o grande público que, aliás, habita os enredos, e permeada pela coloquialidade, “Karinganas do Índico” faz jus ao neologismo que o intitula “Karinganas” que remonta uma tradição milenar na cultura moçambicana (africana se quisermos) em que à volta da fogueira um ancião (ou anciã) narra factos, muitas vezes fictícios e alegóricos, a um público não muito numeroso. O leitor familiarizado com esta realidade, ir-se-á ver projectado a este exercício que não mais se materializa devido, talvez, à dinâmica dos novos tempos e hábitos.

Esta maneira de assumir a escrita da narrativa (em geral) tem-se tornado norma em Moçambique muitas vezes pelo discurso mas outras pelo exercício, gerando, para este último caso, polémicas que remontam, por exemplo, o ano de 2004 quando, na Revista Proler, um proeminente crítico literário escreveu na recensão de uma obra que “a literatura, tal como a concebemos, distingue-se pelo investimento na linguagem e não pelo conteúdo por mais nobre que o julguemos.”

Atentando a este estatuto de contador de “karinganas” assumido no viés discursivo que é muito comum, podemos observar que alguns escritores que se assumem como tal, seguem as normas canônicas tidas como universais relativamente aos gêneros textuais em que escrevem, contudo, noto com alguma recorrência que, tal como Khosa, outros autores da geração que está a dar os seus primeiros passos na literatura assume este estatuto, também, no exercício travestindo-se, então, de narradores omniscientes e com o esmero virado sobretudo para a acção que alimenta o enredo.

Assim, ler “Karinganas do Índico” revela-se-me como um exercício contemplativo e introspectivo. Serve-me de exercício contemplativo do “quo vadis” da “nossa” literatura e introspectivo ante as (in)adequações das estruturas universalmente canonizadas.

Tomo, porém, no último exercício, o cuidado de não consagrar qualquer desvio tornado norma mas faço-o em apologia a Jacques Derrida que na sua crítica ao estruturalismo, reclama uma textualidade dentro do texto e critica a crença na centralização das estruturas de sentido de um texto.

Um influencer de marketing é uma pessoa com o poder de influenciar a decisão de um número significativo de pessoas, sobre a compra de um produto ou a adesão a um serviço.

Não existe um número pré-estabelecido de seguidores, para que se possa ser considerado influencer.

270 mil seguidores no Instagram é um número muito elevado. Corresponde a mais do dobro da capacidade dos estádios do Zimpeto e da Machava, juntos.

Quem tem a atenção de tamanha audiência, facilmente consegue convencer 10,000 pessoas a adquirirem um determinado produto. Razão pela qual, marcas recorrem aos serviços de influencers para promoverem seus produtos. Hoje em dia, os influencers têm maior impacto do que as publicidades em formato corporativo, por aqueles criarem uma “aproximação” maior entre a marca e os potenciais consumidores. Os influencers interagem continuamente com os seus seguidores. 1000 fanáticos são capazes de comprar um produto, só para receberem uma atenção especial do influencer promotor de tal produto, ainda que tal atenção seja fictícia.

Quem é comerciante, sabe o que significa poder vender 5000 pares de sapatilhas em uma semana, porque o influencer anunciou que a promoção duraria apenas uma semana. Essencialmente, o selo de aprovação de um influencer torna-se em si, uma marca registrada.

Um influencer é um modelo publicitário. Não está nas telas mas sim nas redes sociais, a promover marcas, expondo-se de maneira atractiva. Quanto mais bem-parecido for o modelo, maior atenção e admiração desperta.

Alichia Adams era uma mulher muito bonita, de corpo com curvas extremamente perigosas e apetecíveis.

Namorou com “Guyzelh Ramos” durante uns anos, deve ter sido com ele onde aprendeu a dançar daquela forma tão sexy que testemunhei nos vídeos que circularam pelo WhatsApp, daquela noite que fora a sua despedida, em grande, deste planeta.

Teria de ter morrido doente ou violada e assassinada, para que não sofresse tanto gozo e desqualificação pelos machos e “intelectuais” moçambicanos? E se fosse um homem a esfregar-se no traseiro de mulheres alheias, fumando um charuto e bebendo whisky, sentir-se-iam mais inconsoláveis e reivindicariam as cinzas de viva voz?

Sentem-se cornudos por ela ter dançado daquela maneira para outros homens que não moçambicanos, ou é só porque os homens “eram bandidos” e por tal, sentem-se antes de tudo, protectores?

Mulher emancipada vive como quiser e dorme com quem quiser.

Ninguém exigiu que lhe erguessem uma estátua. Por outro lado, influencers de marketing não devem ser concorrentes de escritores, PhDs, professores, bancários, etc. Cada qual com a sua esfera de influência.

Respeitem a família e os admiradores de Alichia Adams. E que a nossa irmã descanse em paz.

Muito gosto em estar aqui para falar deste “Pedagogia da Ausência” de Amosse Mucavele. Na minha apresentação vou falar da poesia de Amosse, mas partindo da construção duma crónica. Não pretendo incorrer na tentação da crítica literária, dispenso aos que nos acompanham aquilo que seria o abismo da minha análise semiótica. Vou, por isso, cingir-me ao nível mais modesto, mas para mim mais legível e próximo das minhas poucas habilidades, a crónica.
Vou abordar o que dá título ao livro: a ausência e os lugares que povoam a infância de Amosse, mas que ao mesmo tempo, para mim, marcam o seu presente, ou a vida do homem não seria feita daquilo que ele lembra.
Começo pela poesia “a casa”, a qual indica um lugar, mas preenche uma ausência. Essa ausência, que Amosse aborda é, acima de tudo, muito mais do que presente. Apesar de ser caracterizada como distante “nas manhãs rendidas” ela ganha peso e forma “na velha casa” onde a “solidão traça uma rotina fúnebre”. Todos poemas, ao longo do livro, sussurram nos ouvidos uns dos outros que os títulos não são fronteiras suficientes para separá-los. Ou não fosse “Reencontrar o amor” uma continuidade dos poemas que lhe antecedem. Este livro, parece-me, melhor estruturado do que o anterior. Enquanto na obra anterior Amosse parece feito de retalhos, aqui, quando decide encarar os seus fantasmas apresenta-se de cabeça tronco e membros.
Mesmo quando decide navegar ele faz uma paragem em Mafalala onde “murcha”, diz-nos, “o cansaço das lembranças estampadas. Nesse regresso ele vai buscar uma criança para abrir o caminho da ferida aberta. É a ausência, que mais uma vez, com a força da sua presença ganha corpo. Até em “Tempestade”, quando era suposto aceitar as vicissitudes da vida, há feridas que se abrem na rocha. São os ancestrais que tinham olhos de cor nutritiva, perenes nos sulcos do tempo a soar no tabuleiro da alegria.

É preciso parar em “Ponte Cais”, pois “o fim do mar é uma cidade universal”, que antes era desejosa de “amar emigrantes”. Aqui Amosse saiu do seu universo da infância e instalou-se na baixa, zona de todos os prazeres. Porém, onde quer que vá fá-lo acompanhado daquela ausência presente. Por isso mesmo que a terra derreta na língua do mar acaba sorvendo o “Mel amargo”.

Depois da nudez do Amosse dá-mo-nos de cara com a segunda parte da obra: Migrações. Aqui parece-me difícil descortinar uma linha que liga tudo, mas existe. Amosse compreendeu que a poesia vive da necessidade de não ser periférica. Aqui a obra ganha outras vertentes e rompe o universo familiar. Migrações significa a incorporação de outros lugares e outras literaturas na escrita de Amosse. Migrações é música e pintura verbal, fantasia e imaginação, lazer, ironia, misticismo, consciência crítica da linguagem e exploração do inconsciente e muito mais. Sem Migrações não se explica este Pedagogia da Ausência.

 

 

*Título do editor.

Texto de apresentação do livro Pedagogia da ausência, de Amosse Mucavele.

A escolha de Mauro Pinto (Maputo, 1974) para esta extraordinária colecção de fotografias é o icónico bairro da Mafalala. Uma celebração às suas gentes, a todos aqueles que ali viveram e aos que ali vivem ainda hoje.

Nas imagens altamente provocatórias, as casas de madeira e zinco, despidas de ausências, enchem-se de histórias. Histórias, tão reais e tão próximas que podemos sentir no pescoço, o leve sussurrar da voz de uma Avó, ou o vento nas frinchas da janela que nos embala ao adormecer, e que, devagar, muito devagar, traz com ele o sono, que nos abraça.

O fotógrafo partiu à descoberta de um passado e traz-nos um Mundo ao redor de outro Mundo. Ou será antes, uma memória, intensa e permanente que entra no presente?

É a mesma Mafalala que conheceu de tanto ser falada, e que reconhece agora, vagueando nas suas ruas estreitas, onde submerge em sentimentos, retidos em cada imagem numa brutal realidade.

Um bairro nascido no tempo colonial, criado por gentes vindas das mais diversas partes do Índico, a Mafalala ganhou vida própria, respira, e vive no gap imperativo entre o passado e o presente, transbordando de orgulho dos seus filhos.

Contou-nos Mauro Pinto que, “uns vêm-me, abrem e deixam-me entrar, e eu automaticamente deixo que penetrem o meu ser cobrindo-me de memórias”.

A violência exibida nas imagens de Mauro, arrasa-nos, em episódios emocionantes de um passado traumático articulado no presente.  Na pobreza das casas de madeira e zinco, vemos confrontados, com uma força interior que clama ainda pelos efeitos de todo um movimento anti-colonial, pela igualdade e justiça social.

Mauro Pinto vive em Maputo e é testemunha da ironia entre a riqueza e a humildade existente nos bairros periféricos da sua cidade.  A modéstia das casas de madeira e zinco, contrasta com os anseios e a franqueza de quem lá vive.

Cada casa tem seu cheiro, ruído, por vezes com um silêncio ligeiro, e a musicalidade do bairro tem estas misturas de culturas, religiões e luz… a luz neste trabalho tem individualidade própria, como as pessoas que vivem nestas casas”, observou Mauro Pinto

O fotógrafo mostra-nos a cidade numa nova prespectiva, vindo a público com um diálogo entre a fotografia e a luz, num conceito de apresentação criativo que transborda para o exterior.  Um jogo que integra a técnica, a comunicação atractiva da imagem e o ambiente que a rodeia.

 

 

 

O dia 6 de Novembro de 2020 marca um significativo aniversário na longa disputa de soberania sobre o Tema Malvinas: nessa data se completam duzentos anos da tomada de posse das Ilhas Malvinas por parte de David Jewett, quem naquele dia içou pela primeira vez a bandeira argentina nas ilhas.

No momento da Revolução de Maio, as Ilhas Malvinas – que tinham sido objecto de disputas entre a Espanha, França e Grã-Bretanha no século XVIII – estavam sob o pleno exercício de soberania por parte das autoridades espanholas, com uma posse exclusiva, efectiva, ininterrompida e não contestada pela Grã-Bretanha, nem por qualquer outra potência estrangeira. Esses direitos de soberania passaram à Argentina, como Estado sucessor da Espanha.

A presença espanhola nas ilhas cessou em 13 de Fevereiro de 1811, quando o último governador da época do Vice-Reino das Malvinas retirou-se das ilhas, no contexto do conflito com a Primeira Junta de Buenos Aires.

Apesar da sua evacuação, as Ilhas Malvinas não permaneceram vácuas ou esquecidas. Existia com o arquipélago uma fluída circulação de bens, capitais e pessoas graças aos recursos naturais que possuía: golfinhos e elefantes marinhos, baleias e gado chimarrão. Navios de origem britânica, norte-americana, francesa e argentina exploravam e utilizavam as costas continentais e as ilhas como estações para aportar, caçar e abater. Isso chamou a atenção das autoridades de Buenos Aires que, desde 1813, outorgavam alvarás de pesca, emitiam disposições para evitar a depredação dos recursos e controlavam a instalação de qualquer estabelecimento de carácter permanente na região.

É neste contexto que o facto de içar a bandeira nacional e a presença nas Malvinas, em 1820, de David Jewett, marinheiro norte-americano ao serviço da Armada argentina, ganha toda a sua dimensão.

Com o início dos processos independentistas na América Latina, desde 1810, os novos governos patriotas tiveram de enfrentar o poder realista que se lhes opunha por mar e por terra. David Jewett, igual que outros marinheiros norte-americanos e europeus, incorporar-se-ia a essa luta ao serviço das Províncias Unidas, desenvolvendo actividades de corsário até 1817.

Em janeiro de 1820, o Director Supremo das Províncias Unidas, Jose Rondeau, designou David Jewett, com todas as atribuições e prerrogativas do cargo, como “Coronel do exército ao serviço da marinha.” E foi assim que zarpou em 20 de janeiro, no comando da fragata La Heroína, contando com o reconhecimento das autoridades argentinas como navio de guerra do Estado, para internar-se no Atlântico Sul.

Jewett navegou em La Heroína ao longo de 10 difíceis meses e no final de outubro de 1820 chegou ao Puerto Soledad, nas Ilhas Malvinas, onde encontrou várias embarcações de diferentes bandeiras que aportavam temporariamente ali como parte das suas viagens de caça e pesca para a região austral.

No dia 2 de novembro, Jewett convidou os outros capitães a se encontrarem com ele mediante uma comunicação na qual lhes informava que tinha sido comissionado pelo Governo das Províncias Unidas para tomar posse do arquipélago. Mencionava também que, conforme as normas dadas pelas autoridades de Buenos Aires procuraria evitar a destruição dos recursos das ilhas. No dia 6 de novembro de 1820 foi realizada a cerimónia de tomada de posse das Ilhas Malvinas.

Conforme o relato de testemunhas presenciais, como o capitão britânico James Weddell – que relata o episódio na sua célebre obra “Un viaje hacia el Polo Sur (1822-1824)”—  e o francês Louis de Freycinet, o Coronel Jewett, perante as tripulações ancoradas no Puerto Soledad, e em nome do Governo de Buenos Aires, içou a bandeira argentina, leu uma proclama e disparou uma salva de 21 tiros de canhão.

Três dias depois entregou aos capitães ali presentes uma circular informando sobre a tomada da posse das Ilhas Malvinas em nome do Supremo Governo das Províncias Unidas da América do Sul e de sua vontade de agir com justiça e hospitalidade para com os estrangeiros; solicitando também, que se comunicasse essa informação às outras embarcações.

A circular teve grande difusão através da imprensa internacional. A 3 de agosto, na Grã-Bretanha, The Times publicou uma matéria na qual apresentava o facto como um acto de soberania, e em novembro, o faria El Argos de Buenos Ayres.

Enquanto se difundia o ocorrido nas Ilhas Malvinas, Jewett permaneceu no arquipélago por um período de vários meses. Durante a sua permanência exerceu sua autoridade até que por pedido próprio, em fevereiro de 1821, as autoridades portenhas o relevaram do mando e Guillermo Roberto Mason foi designado como novo comandante de La Heroína.

A solene tomada de posse das Malvinas foi uma manifestação, de carácter oficial e público, do efectivo exercício da soberania argentina, herdada da Espanha, a qual teve ampla difusão, e que não foi contestada pela Grã-Bretanha (que tampouco a objectou em 1825, quando assinou com as Províncias Unidas do Rio da Prata o Acordo de Amizade, Comércio e Navegação onde reconheceu à jovem nação) nem por qualquer outra potência estrangeira. Este significativo acto foi um elo fundamental na longa cadeia de medidas que, desde os próprios inícios do primeiro Governo pátrio até a expulsão das autoridades argentinas de Puerto Soledad, em janeiro de 1833, evidenciam a continuidade da ocupação efectiva das Ilhas Malvinas e do exercício de soberania por parte do nascente Estado argentino.

Esta usurpação, realizada em tempo de paz sem mediar declaração de guerra, nunca foi consentida pela Argentina. Desde então, e durante os seguintes 187 anos, os diferentes governos argentinos têm reclamado permanentemente a restituição do exercício pleno da soberania sobre as Ilhas.

Nessa reclamação, o apoio da comunidade internacional foi fundamental. Além do pronunciamento unânime e precoce dos países da América Latina em favor da posição argentina, foi se somando, à medida que a comunidade internacional se organizava em diferentes fóruns multilaterais, ou de outros grupos regionais. Esse apoio coincidente permitiu conseguir no âmbito da Organização das Nações Unidas a emissão de diferentes resoluções relacionadas directa ou indirectamente com o Tema Malvinas, entendido como a disputa de soberania sobre as Ilhas Malvinas, Georgias del Sur e Sandwich del Sur e os espaços marítimos circundantes.

 

Felipe Carlos Solá, é ministro das Relações Exteriores, Comércio Internacional e Culto da República Argentina

O Génio é para si próprio a sua própria recompensa,

 porque aquilo que cada um é de melhor

deve sê-lo necessariamente para si mesmo”

Arthur Schopenhauer

Se mesmo na condição de um personagem que sustenta um romance impactante, Okolo tivesse interiorizado esta famosa e intrigante frase de Arthur Schopenhauer, a sua função (entenda-se acção do personagem definida do ponto de vista de seu significado no desenrolar da intriga) no enredo de “A Voz” teria sido diferente da que se lê nas 135 páginas desta reedição feita em 1980 pela Edições 70, com a tradução (de inglês para português) de Maria Cristina Rocha.

Originalmente publicada em 1964 com o título “The Voice”, Gabriel Okara estreou-se neste livro como ficcionista quando até então era conhecido como “poeta de muita sensibilidade” conforme refere Arthur Revenscroft na introdução desta reedição.

A Voz” revela-se-me como um enredo local mas global, circunstancial mas actual e, acima de tudo, revigorante cada vez que se lê nas sociedades actuais (africanas, se quisermos) o mesmo mote que terá norteado o enredo alegórico criado por este escritor nigeriano.

O que me faz epigrafar a frase de Schopenhauer neste texto é o pano de fundo deste romance que decorre entre a aldeia de Amatu (aldeia natal de Okolo) e a cidade de Sologa, onde o jovem é “exilado” devido à sua busca por algo que não chega a revelar de forma clarividente. Esta sua busca chega a ser tão ferrenha quanto incómoda para os anciãos e, sobretudo para o chefe Izongo.

Iluminado pelos estudos que o permitem vislumbrar o que poucos da sua aldeia conseguem aceder devido à baixa senão inexistente escolaridade, Okolo indaga aos seus semelhantes e ao poder estabelecido sobre a pertença de algo que não especifica com a sua recorrente questão: pussuí-lo-ão? Pela dedução, os membros da aldeia inferem que as indagações de Okolo são em si uma afronta ao establishment vigente em Amatu numa busca por uma vida política e socialmente melhor tendo, então, granjeado simpatias por parte de alguns membros da aldeia, o que para o Chefe Izongo tornou-se num perigo pessoal.

Não faltaram, portanto, apelos de gente que embora não tivesse lido tantos livros quanto Okolo encontraram na escola da vida, argumentos para sugerir que este vergasse aos ditames vigentes em Amatu:

“neste mundo tudo se modificou. O mundo já não é recto. É por isso que se vejo alguém virar as palmas das mãos, viro também as minhas para baixo. Se, ao contrário, vejo que abrem as mãos e as elevam ao céu, faço o mesmo com as minhas. Põe isso a parte e procede como nós: terás a alma tranquila como nós temos.” (p. 57)

Amatu, torna-se, no universo temporal deste romance, numa terra em que “as almas das pessoas estão cheias de dinheiro, carros e casas de cimento; por todo o lado só se vê a procura do dinheiro”(p. 58) relegando todo e qualquer valor à insignificância.

Movido pelo princípio altruísta assente na crença do valor individual do ser em relação à vida dos outros, Okolo insurge-se contra o paradigma vigente e acaba por ser expulso da sua terra natal para Sologa, uma cidade vizinha cujo elo de ligação é um rio. Ao longo da viagem no barco, Okolo vivencia, novamente, o peso do seu sentido altruísta:

“A rapariga que ia ter com o marido encostou-se a Okolo. Tinha o corpo molhado. Okolo olhou para ela. Não possuía qualquer agasalho. Okolo tornou a levantar-se, afastou o impermeável com os cotovelos para tapar a rapariga e sentou-se. A rapariga fitou Okolo, hesitou e depois chegou-se mais para ele para se tapar melhor” (p. 69)

Esta acção altruísta e quiçá ingênua de Okolo associada ao passado que deixava em Amatu (que também o perseguia) tornaram a sua vida imaterializável em Sologa, tendo sido, enfim, mandado de regresso à sua terra natal pelas autoridades locais.

Ao longo da viagem de regresso a Amatu

“Okolo ia sentado com os joelhos encostados ao queixo, procurando não tocar em ninguém. Pelo menos isso tinha aprendido. No seu íntimo, sorriu. Seria possível que o nosso corpo nunca tocasse no corpo de outra pessoa, que a nossa alma nunca contactasse com outra, nos bons e maus momentos?” (p. 117)

Okolo debruça-se sobre estas questões durante os três dias e as três noites que a viagem durou para concluir que “cada pessoa deve ter um objectivo na vida, para além de criar filhos, e que a paz de consciência reside precisamente na realização desse objectivo”. (p. 119)

Já em Amatu, encontra a aldeia em alvoroço porque “Izongo rigozijou-se por Okolo ter deixado a aldeia. Ficou com o coração cheio de doçura, sentiu-se possuído de bondade e convocou toda a população de Amatu: homens, mulheres, crianças, coxos, surdos, mudos e cegos”(p. 77): comemora-se então a sua expulsão de Amatu. Vendo a ocasião como sendo propícia para a sua reaparição, faz-se pela multidão ao centro das atenções. Antes que este dissesse uma palavra, Tuere pegou na mão de Okolo e saíram do local, tendo sido, na manhã seguinte, afogados pelo rio abaixo a mando do Chefe Izongo.

Em “A Voz” a Gabriel Okara constrói esta narrativa em XII capítulos caracterizados pela linearidade de um enredo que não vem à superfície graças à poeticidade das narrações e descrições que além de endossar a construção da cor local revigoram o pensamento de Spencer citado por Chklovski[1] para quem “o mérito do estilo consiste em pôr o máximo de pensamento num mínimo de palavras”.

De facto, uma leitura apressada de “A Voz” associada à dificuldade (por parte do leitor) de estabelecer uma relação dialógica com a realidade extratextual pode conduzir à conclusão injusta deste enredo, situando-o apenas na dialéctica de um conflito político. Contudo, o leitor informado há-de proceder nesta aparente simplicidade e desinteressada poeticidade de Okara uma mescla de saberes, perspectivas e insights, tal como refere Stein (1981: 214) citado por JONA (2013: 51):

“the implied reader offers simultaneously an interpretation of the history of the novel and a theory of the novel reading as such; the act of reading enlarges upon letter, widening its perspective from prose fiction (…) a beholder must create his own experience. And his creation must include relations comparable to those which the original producer underwent”

Esta “cavalgada” pela poesia presente nesta narrativa de Okara faz-se necessária não só para a interpretação do significado patente nas entrelinhas do significantes mas para compreender o devir do estado de espírito de Okolo e por que não dos restantes personagens senão dos objectos referidos porque, em geral, “o acto de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objecto, aquilo que já se tornou não interessa à arte.” É daí que ao descrever o estado de espírito de Okolo, Gabriel Okara procede da seguinte forma:

“Okolo caminhava na noite escura, tropeçava, continuava a caminhar. O seu interior estava em desordem, como uma sala onde os ladrões tivessem deitado ao chão cadeiras, almofadas, papéis. Abria e fechava os olhos, abria e fechava, esperando ver alguma luz sempre que os abria, mas não viu ninguém naquela noite escura.” (p. 82)

Assim, Okolo torna-se em “A Voz” numa metaforização de um discurso para além do enredo e fixa a sua textualidade no questionamento do alheamento das pessoas às causas comuns, ao sentido de missão e ao curso pelo qual pretendem conduzir as suas vidas. Ora, a busca incessante e ingênua que ele engendra qual um peregrino destemido coloca-o numa posição de busca de uma heroicidade (por lutar pelo bem dos demais descorando qualquer risco à sua integridade física ou moral) ou o transforma no epíteto de uma busca inglória porque não conseguira mais que o despertar de um e outro personagem no enredo, embora se possa daí antever a possibilidade de a sua “luta” ser continuada por outros. Ora, esta é uma inferência muito além do texto que talvez não vingue porque tal como alerta-nos Tynianov[2] “onde a vida entra na literatura, torna-se ela própria literatura e deve ser apreciada como tal”.

Para todos efeitos, ler “A Voz” de Gabriel Okara e criar um sistema de equivalências entre o que parece ter sido o mote da sua criação com o que se vive pelo menos na sociedade moçambicana nos dias de hoje, dá-nos ensejo de perguntar: pussuí-lo-ão?

 

Bibliografia

JONA, Sara. Entre o Índico e o Atlântico: ensaios sobre literatura e outros textos. Maputo: Ndjira. 2013;

OKARA, Gabriel. A Voz. Tradução de Maria Cristina Rocha. Lisboa: Edições 70. 1980.

TODOROV, T. et al. Teoria da Literatura – I: textos dos formalistas russos apresentados por Tzvetan Todorov. Tradução de Isabel Pacoal. Lisboa: Edições 70. 1999;

[1] A arte como processo (74 – 95) in TODOROV et al (1999: 79)

[2] A Noção de construção (118 – 123) in TODOROV et al (1999: 119)

 

Abrem-se-me fendas na retina

Lâminas em jihad sangrando a dor

Cravada no ventre até ao cabo

– É o meu destino no vasto Moçambique?

 

Rasgo sulcos no mar da esperança

Ondas sem norte meus rebentos engolem

Se quero alguma ajuda em suplício?

– Apenas paz que se apaga no luzir dos rubis

 

Na mesma retina

Rasgado de valas e corpos às moscas

Santa a guerra que sangra essa dor?

Outro punhal cravado no ventre até ao cabo

Um legado de angústias em brasa

Rememora alegrias decepadas

No coração da noite

 

E satânicas sinfonias em jihad

Disparam divinas incertezas

Muidumbe, Quissanga e Macomia às costas

– O trilhar de outros caminhos para a liberdade?

 

Fecundo na palma a semente da esperança

Dormente em Mocimboa

Sob estandartes de endiabrados versículos

-Oh GOD, who is the DOG?”

 

Também sou Moçambique!

Na pobre-riqueza das minhas entranhas

Fermenta a embriaguez dos homens

Lascivos ante o Sol de Junho

Oh pátria minha, o teu dormir é letargo

– Ouça novamente a voz: “Surge et ambula!”

 

 

 

Comboio navio avião

Há sempre um que nos deixa

quando devíamos partir

Há sempre um que nos leva

quando devíamos ficar

Guilherme Afonso

 

No dia em que a cidade de Maputo comemora 133 anos de existência, lembro-me de Guilherme Afonso: poeta, escritor e amante do cinema. Se estivesse vivo, hoje completaria 91 anos de idade. Mas não está. Como todos, quando chegou a sua hora, partiu nessa inadiável viagem que não é feita de comboio, navio ou avião. Ainda assim, o artista deixou-nos pelo menos três livros, Circuito (contos, 1988), Memória inconsumível (poesia, 2007) e Pão amargo (drama, 2010).

Conheci Guilherme Afonso por aí em 2011. Já não me lembro como tudo aconteceu, no entanto sei que foi através dos livros. Nessa altura, o escritor tinha 82 e eu 24 anos de idade. Sem preconceitos nenhuns, construímos uma amizade discreta e sincera. Sempre que fosse possível, ligávamos um ao outro e, principalmente, conversávamos via e-mail. Até hoje guardo conversas, conselhos, anedotas, reflexões e alguns textos da sua autoria. Muitos desses e-mails vinham carregados de um tom divertido, impossível não rir, e, simultaneamente, cultivaram-me. Aprendi muito de Guilherme Afonso, um homem de convicções que soube dar ouvidos a um menino que ainda sou, sem julgamentos.

Durante um ano, conversamos sobre livros, autores, filmes, língua portuguesa e sobre o nosso país. Sempre que fosse possível, lá ia a casa dele, na Vladimir Lenine, onde era muito bem tratado. Ficávamos numa sala cheia de livros, cada um com a sua história, como aquele, salvo o erro, Ensaio sobre a cegueira autografado pelo seu conterrâneo: José Saramago. Aí ficamos a saber que ambos éramos leitores do Nobel da Literatura 1998.

Em 2012, mais por obrigação académica, decido escrever o ensaio As intrusões do narrador no conto ‘Momento’, de Guilherme Afonso, trabalho final da disciplina de Metodologia de Investigação Científica, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM. Para mim, na altura em que frequentava o terceiro ano do curso Literatura Moçambicana, aquele seria o primeiro dos poucos ensaios. A minha pretensão era ser outra coisa, todavia, depois de ouvir alguns professores – qualquer dia conto essa história –, sem nenhuma ambição resolvi fazer uma experiência. Reformulei o ensaio submetido à disciplina de Metodologia de Investigação Científica e enviei-o à revista Literatas. Em uma ou duas semanas o texto foi publicado. Aí percebi que alguma coisa nova na minha vida estava a começar.

Algum tempo depois de me estrear como ensaísta, ganho coragem e envio a primeira versão do ensaio As instruções do narrador no conto ‘Momento’, de Guilherme Afonso, ao próprio autor. No dia 14 de Maio de 2012, o poeta e escritor responde-me assim: “Quanto ao seu ensaio (acho que assim se lhe pode chamar) sobre o meu conto ‘Momento’, saiba o meu amigo que, pelo seu saber no mesmo demonstrado, fiquei muito agradavelmente surpreendido. Confesso-lhe que não o sabia capaz de tanto, o que só demonstra que não o conhecia bem. Os meus parabéns, muito estimado amigo, por este seu trabalho. Muitos parabéns, e também o meu profundo agradecimento por ter dedicado o seu saber a analisar este meu conto”.

Foi surreal! Então Guilherme Afonso apreciou a minha análise? Esse episódio aproximou-nos ainda mais e o escritor prontificou-se a ajudar-me com materiais e livros, de modo a melhorar a minha escrita. Ganhei dois livros autografados dele e continuei a aprender, inclusive, que “todos precisamos de qualquer jogo”. Às vezes, as lições vinham com elogios. Noutros casos, com críticas severas. Guilherme Afonso foi um homem muito franco, que expunha as suas opiniões abertamente. Também aprendi dele a separar o autor do texto nas minhas análises literárias. Uma coisa é amizade e outra é literatura. Não mistura-las, na reflexão literária, é um acto de honestidade. Então, quando quisesse ter uma opinião sincera sobre os meus textos, enviava-os a Guilherme Afonso.

Com o poeta também aprendi a não ter receios da crítica e a não temer meter-me em confusões, se nisso vislumbrar um bem maior. Claro, e também aprendi que no exercício literário não devemos guardar mágoas com quem pensa ou age diferente. Esta lição tive um dia, em sua casa, quando o perguntei, digo de cor: “Guilherme, em 1981 travou um debate aceso com Luís Carlos Patraquim, nas páginas da Tempo. Isso afectou a vossa relação?”. Já com os seus 83 ou 84 anos ele sorriu e disse que não. Fez-me perceber que o debate nos jornais é uma coisa e a relação entre as pessoas, à parte a imprensa, é outra. Não houve mágoa nenhuma entre os dois. Tanto que continuaram a conviver e a emprestarem-se livros como se nada tivesse acontecido.

Esclarecimento: No dia 28 de Setembro de 1980, a revista Tempo anuncia o primeiro concurso literário de Moçambique independente, com a pretensão de estimular o aparecimento de novos valores autênticos. Contra a espectativa, das categorias sujeitas ao concurso (poesia, conto, teatro e história de Moçambique) apenas houve uma menção honrosa ao conto “Abatido ao efectivo”, de “103 linhas apesar de tudo”, pseudónimo de Guilherme Afonso, inspirado no número de linhas que o conto submetido ao concurso tinha.

De acordo com o júri constituído por Álvaro B. Marques, Bruno da Ponte, Gulamo Khan, Luís C. Patraquim e Willy Waddigton, “O fracasso foi completo, à excepção do conto ‘Abatido ao efectivo’, de Guilherme Afonso, onde perpassa alguma coisa de técnica narrativa articulada, embora a servir um tema já gasto e de “cliché”. Guilherme Afonso discorda do júri e escreve à Tempo, acusando o júri de ter prestado um mau serviço ao país, culpando a revista por ter elegido aquele júri. Patraquim não demorou, publicou um artigo no dia 22 de Março de 1981, no qual defendeu que a personagem de “Abatido ao efectivo” é manejada como um fantoche para justificar a ideia de que o autor é anticolonialista. Em defesa de Afonso, Quique M’Benhane acusa o júri de empregar uma enorme dose de classicismo ao analisar as obras submetidas ao CLT. O caldo entornou-se e também por isso a Tempo torna-se num espaço privilegiado de debate literário e promoção da literatura moçambicana.

De facto, termos posições diferentes não faz de nós inimigos. Então eu não me envolvi em querelas com o Furdela, n’O País, há alguns meses? Não deixamos de ser amigos. Inclusive falamos com regularidade. Muitas vezes, o que importa é o que fica, quando a discordância é posta de lado. Guilherme Afonso foi um “mestre” nisso e hoje eu sinto saudade dele. Ainda bem que tenho os e-mails. Aí, de vez em quando, recupero as conversas e os bons momentos que passei com ele.

Uma das coisas que Guilherme Afonso gostava de fazer era criar aforismos. A 13 de Fevereiro de 2013 enviou-me 17 aforismos. Segundo me disse, fui o primeiro a lê-los. Fiquei muito emocionado com a revelação. Na verdade, perguntei-me por que ele me confiou essa oportunidade ímpar. Se eu coloquei-lhe essa pergunta? Também não vou contar tudo.

No dia 15 de Fevereiro deste ano, fiquei a saber que Guilherme Afonso morreu numa clínica, na cidade de Maputo. Não tivemos tempo de nos despedir. Nem foi necessário. Para mim, como para a família, não foi um momento para chorar. Celebramos o poeta e o escritor. Cada um do seu jeito e no seu momento. Sou-lhe muito grato por tudo o que foi aqui dito e por aquilo que exclui deste texto.

Como nos dizes no teu poema “Estar”,  “Porque não há partir nem ficar/ Há permanecer/ Há estar// Estar distante ficando/ Permanecer partindo”, onde quer que estejas, Guilherme, neste dia do teu aniversário, receba estas sei lá quantas linhas apesar de tudo.

 

 

PS: Ao primeiro concurso da revista Tempo foram submetidos 93 trabalhos. Não houve vencedor, apenas uma menção honrosa ao conto “Abatido ao efectivo”, de Guilherme Afonso. O conto, à semelhança de “Momento”, está publicado no livro Circuito.  

Guilherme Afonso nasceu a 10 de Novembro de 1929, no Concelho de Santarém, em Portugal. Chegou a Moçambique em Outubro de 1959, a fim de ingressar no corpo de Polícia, onde desempenhou as funções de guarda, escriturário e arquivista no Comando-Geral durante a administração colonial e o Governo de Transição. Depois da independência nacional, no Instituto Nacional de Cinema, desempenhou as funções de Chefe do Sector de Documentação e Informação Cinematográfica, até 1988. Guilherme Afonso foi ainda apresentador do programa “Vamos falar de cinema”, na TVM.

*“Todos precisamos/ de qualquer jogo” é excerto do poema “O poeta”, do livro Memória inconsumível, de Guilherme Afonso.

 

 

 

Acabei o artigo anterior com a partida para Macau, e começo a escrever este a 29 de Outubro, quando se completam 28 anos (!) sobre a minha chegada, nessa altura, a um Território Chinês sob Administração Portuguesa, actualmente (desde 20 de Dezembro de 1999) designado por Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) da República Popular da China.

Chegámos então os 5, à Ilha da Taipa, numa noite depois de uma viagem em que atravessámos 2 continentes de ponta-a-ponta, cheios de malas pois vínhamos para o fim do mundo (…), mas tivémos sorte pois chegámos ao apartamento providenciado pela Universidade no edifício destinado a professores (muitas pessoas vindas de Portugal passavam vários meses em hotéis) e onde vivemos 22 anos até à mudança para o novo Campus em 2014. Logo cedo, na manhã seguinte, atravessei a rua e fui à Universidade, especificamente à Faculdade de Ciências e Tecnologia, que oferecia a licenciatura em Engenharia Electrotécnica, programa para o qual tinha sido recrutado, por 2 anos, como Professor Associado (Visitante – pois mantenho a minha ligação ao Técnico até hoje, com base em leis especiais para Macau), tendo sido mencionado igualmente que viria chefiar o Departamento. Grande surpresa, ninguém na Faculdade sabia da minha chegada (…), nem gabinete tinha, e o Director (Chinês) estava ausente em visita a Portugal (…). Constatei também que não havia Departamentos na Faculdade…e como o serviço docente já estava distribuído (pois o primeiro semestre já ia avançado) encontrei-me na situação de não ter nada para fazer, algo a que não estava habituado depois de 17 anos intensos no Técnico. Lembrei-me então que tinha sido recrutado por um responsável do ensino superior e decidi telefonar-lhe, ficou surpreendido por já cá estar (o processo de vinda foi muito burocrático e prolongado) e combinei ir falar com ele. Na muito breve conversa que tivémos informei-o de que não sabia que Departamento viria chefiar pois estes não existiam na Faculdade, ficou surpreso e disse-me que a mesma era jovem e ultrapassava uma grande crise pelo que esperava que eu pudesse contribuir para o seu desenvolvimento. De repente toca o telefone, ele atende, fala com a secretária e desliga, logo a seguir diz-me: “Prof. Rui Martins ainda bem que está aqui porque quero apresentá-lo ao Infante Dom Henrique!”…Infante Dom Henrique, só me lembrava do Navegador ou do paquete que nos tinha levado de LM a Lisboa. Nesse momento interiorizei instantaneamente: “Onde é que eu estou?”…mas a porta do gabinete abriu-se, entrou um sujeito, e fui apresentado: “Prof. Rui Martins, o Infante Dom Henrique!”…cumprimentei-o e despedi-me de ambos.

Regressei a casa, completamente desconsolado e sem saber o que fazer à vida, e disse à minha mulher para não desmanchar completamente as malas pois iríamos quase de certeza regressar a Portugal em breve…Passei uns primeiros dias bastante desorientado, como não tinha mais nada para fazer, coloquei os 3 filhos no Colégio Dom Bosco, uma das 2 escolas onde havia ensino em Português, e dediquei-me a jogar o Tetris numa pequena consola electrónica dos meus filhos (antes nunca tinha tido tempo para tal), numa semana bati os recordes todos enquanto pensava no que fazer, partir ou ficar…decidi ir estudar a Faculdade e ver como podia contribuir. Pensei escrever um relatório sobre o estado da Faculdade, dos programas e apresentar algumas propostas para o futuro. Escrevi então, em cerca de 1 mês e meio, aquilo a que chamei “First Impressions, First Proposals”, com um título estranho a que não estava habituado pois todas as minhas obras até aí tinham sido de cariz pedagógico, técnico ou científico, mas não tive inspiração para melhor. Ao revisitar esse relatório recentemente concluí que, e apesar das centenas de trabalhos que publiquei ao longo da minha carreira académica, esta tinha sido a melhor obra que escrevi em toda a minha vida, fui divinamente inspirado naquele momento precioso. Tirei “o retrato à Faculdade” e apresentei propostas para o seu desenvolvimento (apesar de ser jovem estava a perder alunos), e também para o lançamento das pós-graduações (havia apenas licenciaturas e assim propus o lançamento de mestrados e doutoramentos) bem como da investigação científica, inexistente na altura, e daí ser correcta a definição de “Deserto” mencionada anteriormente. Quando concluí o relatório, a 18 de Dezembro pouco antes do Natal, distribuí-o pelos responsáveis da Universidade e do Governo, e como era a única pessoa que estava no gabinete nesse dia às 9h da manhã, apresentei-o em primeiro lugar ao Reitor (Chinês), que apenas o aceitou sem fazer qualquer comentário. Quando cerca de meia-hora depois entreguei o mesmo ao Director da Faculdade este disse-me: “Muito Bom (!) trabalho, vamos apoiar em tudo o que nos fôr possível”, perguntei-lhe: “Como sabe o seu conteúdo se ainda nem leu?”, respondeu-me: “Sim, ainda não li, mas o Reitor já o leu e acabou de me telefonar referindo o que lhe acabei de dizer”. Recebi o mesmo apoio de responsáveis governamentais, mas alguns colegas internamente foram críticos interrogando a necessidade do esforço, pois Macau iria mudar de Administração e para além do mais o local era agradável, com boas ligações a praias de sonho na Tailândia, Filipinas, Indonésia, etc…pelo que seria melhor gozar a vida…Ignorei as vozes dissonantes, e apesar de ter apenas apoios verbais, mais nada, decidi-me a lançar “mãos-à-obra”, ou melhor a começar a “partir-pedra” (…). Uma das coisas que me entusiasmou fortemente, e está salientado no relatório, foi a motivação dos alunos, tendo escrito: “A good Student’s Corps, well interested with a very strong thirst of knowledge (completely different and better, in terms of interest, than the one that we’ve in Lisbon)”. Hoje, após quase trinta anos, estava certo, os sucessos que temos obtido, nomeadamente em Electrónica e a nível de topo no mundo a eles se devem, aos alunos de Macau e também da China Continental.

Alguns pormenores interessantes da interacção com uma Cultura muito diferente, quando escrevia o relatório tive de consultar muita documentação relacionada com a Faculdade, criada recentemente em 1989, e que atravessava um período de instabilidade grande, pelo que contactei o funcionário administrativo responsável, ficámos amigos e baptizou-me com um nome Chinês de 3 caracteres: “Mǎ Xǔ Yuàn”, o primeiro Mǎ significa “Cavalo” (signo do Zodíaco Chinês) e relacionado com as 2 primeiras letras do meu apelido, os 2 seguintes Xǔ Yuàn significam “Faz um Desejo”, ou seja “O Cavalo faz um Desejo” (Foi o que fiz quando escrevi o relatório)! Nome este que se revelou ao longo destes anos uma excelente escolha e tem sido quase profético, pois sempre que alguém Chinês o lê fica surpreendido e diz-me que é um nome brilhante…Como referi, no dia em que cheguei não tinha nada para fazer, mas pouco depois quando comecei a “partir-pedra” e até hoje a situação inverteu-se e passei a não saber como arranjar tempo para fazer tudo o que desejava fazer, pois todo um mundo de oportunidades se abriu. No princípio costumava ir frequentemente ao Mercado Vermelho (um mercado famoso no norte da cidade) comprar peixe, no entanto, com o tempo o número de vezes que lá tenho ido reduziu-se significativamente, mas o “nosso” fiel peixeiro (Chinês de Zhongshan aqui radicado e que aprendeu um pouco de Português) diz sempre “Muito Gōng Fu (Trabalho)”, como quem diz: “Muito trabalho, vens cá pouco”…Como referi também antes, quando cheguei não tinha gabinete na Faculdade, mas com o tempo a minha vizinha, administrativa no Instituto de Estudos Portugueses, disse-me que havia um gabinete do Instituto vago noutro edifício e se eu estivesse interessado podia ir para lá, como não tinha alternativa aceitei, mas o gabinete era pequeníssimo, longe de tudo, com mobiliário ultra-rudimentar (ou seja, descartável…), era tão deprimente que várias vezes fechei a porta para chorar sozinho, pensando nas condições que tinha deixado para trás no Técnico…um dia, em que tinha a porta aberta, um professor Chinês, de Taiwan, que tinha estudado e trabalhado nos Estados Unidos, já velhote e que fumava muito naquele local, veio até à porta e perguntou-me quem eu era e o que estava ali a fazer, lá lhe expliquei muito desalentado a minha situação, e ele diz-me: ”Está descansado, este gabinete é extraordinário, pois possui um “Feng Shui” fantástico (foi a primeira vez que ouvi o termo e não sabia de que falava), está de costas para a montanha (a Universidade estava construída numa montanha e a minha janela era virada para lá), que significa Poder, e em frente ao mar (a porta do gabinete apontava para uma janela no fundo do corredor virada para o mar), que significa Dinheiro. Vais ser uma pessoa influente aqui com muito Poder e bastante Dinheiro para gerir. Pensei, já não está bom da cabeça…cerca de 1 ano depois fui nomeado Sub-Director da Faculdade e só nessa altura consegui aí um gabinete, uma tarde o mesmo professor Chinês espreita pela porta desse novo gabinete e diz-me: “Eu não te dizia? E, olha, o Feng Shui deste gabinete é ainda melhor”, tinha mesmo razão e passei a acreditar piamente no “Fluxo de Energia Chinês”!  Quando aguardava pelos bilhetes de avião para viajar até Macau pensava, como é que irei sobreviver num Território ínfimo de 30km2 (…). Mas é nessa exiguidade que reside a Magia do local, como aqui se diz, abençoado pela Deusa Chinesa A Ma e pela Na. Sra. de Fátima, em Macau conheci Portugal todo e o Mundo melhor do que quando vivia em Lisboa, e voltei de novo a África, nomeadamente a Maputo e a Moçambique. Já agora, um pequeno detalhe, ao longo do tempo o interesse dos Chineses pela língua Portuguesa tem vindo continuamente a aumentar, e nunca aqui se falou tanto a língua de Camões como agora, no entanto, o Português mais puro (com melhor sotaque) falado por Chineses continua a ser daqueles que nasceram ou viveram em Moçambique, nomeadamente em LM (Maputo).

 

Rui Martins.

Macau, 2 de Novembro de 2020.

P.S. – Não podia concluir sem explicar quem era afinal aquela personagem misteriosa designada por Infante Dom Henrique…Não é que era ele mesmo? O responsável governamental, era e ainda é monárquico (ficámos amigos), e a referida pessoa era o Infante Dom Henrique, irmão do Dom Duarte, Duque de Bragança, que encontrei também mais tarde.

 

 

 «  Raras são as pessoas que têm carácter suficiente para se alegrar com os sucessos de um amigo sem ter uma sombra de inveja » Ésquilo, Dramaturgo Grego (525-465 a.C )

 

Quando comemoram-se, em 2020, cinco anos após o seu lançamento, « O inspector de Xindzimila » deu-me a honra de descobrir a escrita de Virgília Ferrão, uma das poucas mulheres que ousa desafiar a prosa, um campo literário, em Moçambique, dominado por uma maioria do sexo masculino. Prova disso, é o facto de Virgília Ferrão ter-se tornado a primeira mulher a vencer o prémio 10 de Novembro[1] em 2019, ao assinar o romance «Corais de Rosa».

Nesta trama, cujo título sugere-nos de imediato tratar-se de um policial, Virgília dá vida a uma vila fictícia, Xindzimila, que passa a viver dias conturbados com o regresso de Dionísio, que outrora, após ser cobrador de « chapa », ausentara-se para estudar em Lyon, em França.

O protagonista do romance retorna à sua vila natal para ocupar o cargo de inspector e é confrontado com ressentimentos do seu passado, quando, embora de forma ligeiramente tardia em relação ao que o título da obra nos sugere, uma série de assassinatos misteriosos sucedem-se na vila. Dionísio é desafiado a desvendar o mistério das mortes o mais rápido possível, não apenas por ser um insepector supostamente com uma formação de alto nível, porém, porque todos os indícios levam-nos a crer que o próprio inspector é o assassino.

Para desvendar este mistério, Virgília dá voz aos personagens que, na primeira pessoa do singular, reviram eventos do passado, expressam os seus sentimentos, medos, anseios e receios, conduzindo o leitor à uma reflexão sobre a intrínseca relação entre o sucesso e a inveja, como o fez, de certa forma, o clássico dramaturgo grego, Ésquilo na sua célebre frase supracitada.

O amor ganha um espaço central nesta ficção narrativa, não apenas porque Dionísio descobre  na pele tropical e no incandescente sorriso da Quina um lugar onde deseja passar a sua eternidade, porém, igualmente porque ele é obrigado a questionar as suas certezas sobre o certo e o errado, o moderno e o tradicional, e a descobrir a importância do perdão na construção da dimensão humana dos seres.

O fluxo entre a inveja, a lealdade, a intriga e o amor, alimenta os conflitos entre os personagens desta narrativa, remetendo-nos a um realismo literário que é secundado pela viagem a algumas belezas culturais do vasto Moçambique, como ocorre quando a trama nos faz imergir no meio de cerimónias tradicionais, como é o caso da passagem de poderes entre régulos ou do Chinkwosswe (equivalente ao noivado), ou ainda quando faz-nos degustar um pouco da gastronomia local do centro-norte do país. A descrição da beleza e do encanto da natureza aproximam-nos mais a um romantismo literário porque, como referi anteriormente, Xindzimila não existe no mapa geográfico de Moçambique.

É uma obra que vale a pena ler, de uma escritora que Celso Muianga, renomado editor Moçambicano, terá classificado como sendo um dos « grandes futuros para a literatura moçambicana [2]»

 

Nota de leitura por Agnaldo Bata

Referência da Obra :

FERRÃO, Virgilia (2015) “O inspector de Xindzimila”, 1a Edição. Editora Selo Jovem, São Paulo, Brasil, 196 páginas;

Actualmente o livro pode ser adquirido na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo.

 

Sobre a autora da Obra :       

Virgília Ferrão nasceu na Cidade de Maputo, é Licenciada em Direito (2008) em Moçambique, e Mestre em Direito do Meio Ambiente (2013) na Austrália, actualmente trabalha como consultora jurídica em Maputo.

Publicou “O Romeu é Xingondo e a Julieta Machangane”, em 2005, “O Inspector de Xindzimila”, em 2016, e tem participação em ontologias. É administradora do blog “diário de uma qawwi”.

 

 

 

 

 

 

[1] O prémio 10 de Novembro é concurso lieterário anual, instituído em 2005 em homenagem à Cidade de Maputo, organizado pela Associaçao dos Escritores Moçambicanos em parceria com a Conselho Municipal da Cidade de Maputo.

[2] Entrevista publicada no Jornal « O Pais » no dia 14 de Junho de 2020

MoÇambique estava a ser dilacerado por uma sangrenta guerra civil que rebentou dois anos após a independência do país: a guerra dos 16 anos. De todos os cantos ouvia-se o barulho das armas na província da Zambézia. Milhares de pessoas deslocavam-se de uma região para outra a procura de lugares seguros para habitarem. Durante essas andanças, os braços do jovem Sebastião foram atingidos por uma chuva de balas que não soube de onde é que vinham.

Sebastião começou a sangrar fortemente. O chão todo ficou irrigado de sangue. Os seus amigos, que outrora se desfizeram do grupo almejando escapar duma chuva caindo do céu das armas, encontraram-no, horas depois, estatelado no chão com os braços a jorrarem o sangue. Era como se de uma torneira, saindo águas turvas, se tratasse. Levaram-no, de imediato, para um centro de saúde onde receberia os primeiros socorros. Quando lá chegaram, os médicos procuraram, rapidamente, estancar o sangue. De seguida, realizaram alguns exames médicos e radiografia onde constatou-se que os seus membros superiores foram alvejados gravemente. Os tiros atingiram as suas veias principais e fraturam os ossos. A única solução era amputa-los.

A situação de Sebastião era de difícil encarar. Ninguém daqueles médicos tinha coragem de lhe anunciar àquela triste notícia, mas não havia mais nada a se fazer, para além de se amputar os dois braços. De repente, um dos profissionais ganhou a coragem, aproximou-se do paciente que chorava de tanta dor que sentia nas suas entranhas.

– «Jovem, teremos que lhe amputar os seus braços, pois sofreram bastante com as balas…» – Disse um dos agentes que se mostrou corajoso, com a sua cara possuída de dor e tristeza por ver um homem a sofrer tanto.

– «Não. Não vão fazer isso com os meus braços. Sem eles como é que vou comer, vestir-me… Como farei os meus afazeres?» – Questionou o alvejado, enquanto soltava uns gritos de choro, com os seus olhos inundados de lágrimas.

– «Não é nosso desejo que você fique sem os braços, mas sim, é para o seu bem-estar, pois, depois de muitos exames que fizemos, esta é a última e única opção que temos. As balas causaram danos graves nos seus braços. Se deixarmos assim, você corre o risco de passar mal por toda vida…» – Explicou o profissional de saúde.

As dores que o Sebastião sentia, iam aumentando cada vez mais. Ele estava desesperado e sem saber o que fazer.

– «Será que não há qualquer medicamento que posso tomar para tudo voltar ao normal, sem que precisem de executar este acto?» – Perguntou Sebastião.

– «Infelizmente não temos outra saída. As balas atingiram gravemente as veias e os ossos dos seus braços» – Respondeu o médico.

– «Então, se amputarem os meus braços não terei mais estas fortes dores que estou a sentir?» – Questionou Sebastião, com a voz trémula.

– «Sim, não sentirá mais dores depois de as feridas sararem. Fica calmo, vai dar tudo certo.» – Confortou-o o médico.

– «Está bem, aceito. Então vamos fazer isso rapidamente, pois já não suporto mais estas malditas dores.» – Prontificou-se.

Os médicos levaram-no para a sala de cirurgia onde se prosseguiu com o acto. Ele estava decidido a enfrentar esse segundo momento muito doloroso da sua vida. De seguida foi amputado os seus membros superiores. Ele ficou de baixa no hospital por cerca de quatro meses onde recebia os cuidados médicos. A guerra estava cada vez mais violenta. Passados os quatro meses, o jovem teve alta.

Ansioso para encontrar a sua família, Sebastião dirigiu-se para sua casa rapidamente. Para a sua surpresa, ninguém mais estava lá. Dúvidas começaram a flutuar na sua mente: “Estive internado no hospital por muito tempo e ninguém da família procurou saber de mim. Agora esta casa está totalmente abandonada. Será que toda a minha família tombou nesta maldita guerra? Ou refugiaram-se para um outro lugar seguro? A partir de hoje quem vai passar a cuidar de mim neste estado em que me encontro? A verdade é que já sou inútil na vida… Se aparecerem esses guerreiros malandros vão acabar comigo e nem tenho como me defender. Sou um morto vivo”.

Os dias seguintes foram de grandes desafios para o Sebastião, pois há coisas que já eram difícil de executar por si só. Neste momento em que ele precisava de ajuda de terceiros, alguns zombavam muito dele, mas os outros sensibilizavam-se bastante com o estado em que ele se encontrava e o apoiavam. Em Outubro de 1992, passou-se alguns dias em que, no seu distrito, não se ouviu mais o barulho das armas. Tudo estava estranho para os que não andavam informados. Através de uma rádio, Sebastião acompanhou a notícia que anunciava a assinatura dos Acordos Gerais de Paz, no dia 4 de Outubro de 1992, em Roma, capital da Itália. O calar das armas foi um grande suspiro dos sobreviventes daquela sangrenta guerra que dizimou milhares de pessoas.

O país começou a respirar a paz, mas a guerra levou consigo os braços do Sebastião e deixou-o com marcas indeléveis daquele dramático dia que foi banhado pela chuva mortífera de AKM’s. Num belo dia, Sebastião decidiu sair de casa e apreciar o seu bairro, que já não o via há bastante tempo devido ao isolamento que se submetia por ser deficiente. Enquanto caminhava pelo bairro, viu uns meninos que jogavam futebol. De repente sentiu chichi e, pediu um dos meninos para que lhe ajudasse a tirar as calças para urinar, mas este não aceitou, apenas limitou-se em ri-lo e depois foi-se embora. A pressão da urina aumentava cada vez mais. Enquanto ele ainda tentava tirar as calças para urinar, deu-se conta de que a urina já estava a sair.

Sebastião decidiu encarar a vida de forma diferente. Aprendeu a conviver com a sua deficiência. Aprendeu a fazer muitas coisas sem que precisasse de ajuda de terceiros. Aprendeu a escrever com os pés e depois com as partes dos braços que lhe haviam sobrado.

Um grande fotojornalista circulava pelas várias artérias da província da Zambézia, procurando registar os momentos que lhe serviriam de notícias. Durante estas suas andanças, encontrou o jovem Sebastião e ficou impressionado com o que ele conseguia fazer no estado em que ele se encontrava. O fotojornalista decidiu escrever uma reportagem sobre ele, falando dos desafios que enfrentava na vida por ser deficiente. A reportagem, com uma fotografia grande do Sebastião a escrever com a parte dos braços que lhe sobraram, foi publicada num dos jornais da praça e, na altura, a ministra da educação leu a reportagem e ficou sensibilizada com a história. Mandou chamar o jovem para a cidade de Maputo para que pudesse prosseguir com os seus estudos na capital, recebendo apoio do Ministério. Na capital, Sebastião fez o seu ensino primário e secundário.

Anos depois, com diversas dificuldades, concluiu os seus estudos superiores em psicologia, escolha motivada pelo sofrimento “mental” que tivera durante a guerra civil. Na altura da procura do emprego, nenhuma instituição quis contratá-lo, pois achavam-no inútil. As pessoas zombavam dele por ser deficiente. Ele era desprezado por quase todos. Cansado de ser humilhado, Sebastião tentou perpetrar um suicídio sem sucesso. Depois de escapar do suicídio, ele decidiu continuar a enfrentar os preconceitos que a sociedade tinha contra pessoas portadoras de algum tipo de deficiência.

Passaram-se muitos anos, mas todos aqueles acontecimentos que Sebastião viveu durante a guerra estão gravados na sua mente. Sempre que os moçambicanos comemoram o dia da paz, a 04 de Outubro de cada ano, ele recorda com dor e consternação todos os episódios dolosos que viveu durante a guerra civil. A todo momento que ele olha para os seus braços amputados, a sua mente recua para o passado, trazendo-lhe memórias daquele dramático dia em que os seus braços receberam uma enxurrada de balas. Ele não acredita no assunto da paz, pois todos os dias são de luta contra pessoas que o descriminam.

 

 

 

Que Louise Glück é Nobel de Literatura 2020, o mundo já sabe. Ora, que este facto fez com que a norte-americana poet(is)a reencarnasse o centro de um debate que andava já esquecido no universo literário da quarta língua mais falada no mundo, tenho imensas dúvidas de que ela própria saiba.

Se Sophia de Mello Breyner Andresen assumiu em diversas intervenções que não era poetisa e sim poeta por julgar que houvesse/haja no primeiro termo um viés falocentrista que inferioriza as mulheres relativamente aos homens em igual exercício, Cecília Meireles fê-lo intencionalmente, no poema “motivo” por encarnar um sujeito poético masculino, como se pode ler:

“Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.”

Glück, mesmo sem querer, divide a comunidade de falantes de português em dois: os neologistas e os puristas. Tudo porque diversos veículos de informação, sobretudo electrónicos, usaram nas suas manchetes o termo “poeta” para se referir a esta grande voz da literatura mundial, autora de 12 colecções de poesia e alguns trabalhos de ensaios poéticos.

Ao que se pode denotar, pelo menos até esta parte, não há nenhuma explicação morfológica que justifique esta tendência que vai granjeando mais simpatias. As razões, se considerarmos o argumento de Sophia de Mello Breyner Andresen et al, são mais sociolinguísticas.

Diga-se, no entanto, que esta batalha, se existe, possa ser vencida pelos neologistas porque tal como pondera Antoine Meillet (1866-1936), a história das línguas é inseparável da história da cultura e da sociedade porque a linguagem é um fenómeno eminentemente social.

Assumindo, nestes termos, a língua como um facto social conforme atesta Ferdinand de Saussure (1857-1913), no sentido em que se trata de um sistema convencional adquirido no convívio social, resulta que esta (a língua) caracteriza-se por ser “um produto social da faculdade da linguagem.”

Por assim ser, é pelo exercício da linguagem que o homem constrói sua relação com a natureza e com os outros homens. Portanto, se nesse exercício houver uma visão do mundo que conflitue com o uso linguístico, essa relação não será fecunda porque mesmo parecendo óbvia, a questão da língua como exercício de socialização é complexa porque a passagem do social ao linguístico e do linguístico ao social não é feita com tranquilidade.

Valerá, portanto, a atenção dos sociolinguistas em assumir este debate (poeta/poetisa) como actual e premente de forma a esclarecer as nuances por detrás deste debate aparentemente supérfluo porque é já evidente que, tal como recordam-nos GOMES & CAVACAS (2004: 24) “as palavras entram na língua por adopção, pelos falantes, não por imposição.”

Embora seja importante assumir que a língua é dotada de uma tenacidade que a protege dos modismos de época, é também salutar compreender, nesta batalha entre neologistas e puristas, que esta comporta-se, também, como um organismo vivo e dinâmico. E, na fala dos autores supracitados, a língua e, logo o léxico não tem realmente um dono, e sim construtores e utentes que através dos tempos, tem descoberto, nas palavras, maneiras de encontrar expressão para as suas necessidades e de transformar o uso que faz dessas palavras no seu significado.

 

Mirando, taciturno, os bramidos de um mar que é de per si um habitat natural de peixes e quejandos, espraia-se na incredulidade, partilhada com os seus, de conceber gases liquefeitos nas profundezas do mar mas a chuva de precariedade que lhe cai pelo teto descoberto alia-se à vozearia do seu servo que em cada fim de frase remata um «do mar, trarei três mil pregos» e deposita-lhes, então, uma súbita e religiosa certeza.

De numeracia precária porque dele os tocadores de flautas quinquenais só se recordam no fim de intervalos fechados de cinco invernos, fraturou o lápis porque da escola não mais faturou além do sétimo ano na sua localidade cujo nome não me ocorre (mas isso desinteressa, não é?). Gerada num fim de infância e início de adolescência pela actividade pesqueira e de garimpo, a sua numeracia não definia a exactidão deste três mil em pregos mas reconhecia-lhe a suficiência para cobrir o teto e assim acabar com os des(mandos) da chuva de precaridade absoluta.

«…patrão, ninguém faz tudo sozinho, virão aqui irmãos moçambicanos e estrangeiros para juntos extrairmos três mil pregos. É bom recebe-los com carinho porque iremos aprender muito com eles e poderemos, também, ensiná-los muita coisa…» Para Omar Quionga, de nome de nascença, registo e credo, ser chamado de patrão por quem, no organograma das ordens, está muito acima do régulo a quem presta vénia e um pouco abaixo de Alláh, fora qualquer coisa como uma flor que se agiganta em direcção à abelha para ser-lhe extraída o néctar. Isto, associado a um linguajar corriqueiro que se adentra em Omar numa promiscuidade de amantes consumidos pela volúpia, fita-se-lhe o peito, a alma e os olhos pregando-lhe uma atenção de lobista nesta sua espera por irmãos pretos e brancos que lhe trazem um número tão exacto quanto satisfatório de três mil em pregos.

Ler “Samsung Heavy Industries” num outdoor instalado nas imediações com o letreiro estampado num azul escurecido pelo tinteiro, deixou-lhe o coração liquefeito e mais ainda quando viu Mamadou Hassane pousado com manias de um lord numa viatura em que, dos ocupantes, só o preto da sua pele dava ares de diversidade tonal. Via-se, então, sôfrego em se desfazer da melindrosa vida de ter o teto descoberto e a mercê da chuva de precariedade absoluta.

Deitado de bruços com o olhar absorto num Rovuma que se demora em trazer aquele número exacto de três mil em pregos, que são seus por direito, poderia eu encetar-lhe uma conversa sobre o merecimento e braços para suportar tanta benesse, se Omar fosse matéria capaz de respirar, preencher vazios e se expressar fora do devaneio poético mas isso, também, desinteressa.

Enquanto isso não se materializa, cabe-me dizer-lhe, caro leitor, que Omar está ali deitado de bruços com o olhar num Rovuma que se demora em trazer aquele número exacto de três mil em pregos, com uma tira do caule de um arbusto seco na boca cantando Kihiene de Zena Bakhar e, ao cheio do mar, sobrepõe-se-lhe o da pólvora que, reconhecido pelo seu olfato, escancara o susto que lhe era insuspeito naquele seu estado zen.

«Omar Quionga…» antecipou-se, a treze passos, um dos três homens com armas em punho que em sua direcção se dirigiam e antes que Omar se desfizesse do susto e dissesse uma palavra, vê, ante seus joelhos, três papéis nunca antes vistos de uma só vez, com a imagem de Samora Machel estampada e no canto inferior direito lê-se “mil meticais”. Porque o receptor é também um emissor assintomático, Omar Quionga significou “três mil pregos” em três notas de mil meticais e o martelo que lhe faltava ganhou realização extratextual numa metralhadora AK-47, com pente moldado para uma munição de 7, 62 mm. «Allahu Akbar! Junte-se a nós. A outra parte terás depois do serviço em Macomia» acrescentaram os homens de armas em punho num corro, com o tenor e o baixo devidamente afinados como se tivessem proferido aquela mesma frase para outros 2999 Omares.

Na manhã daquele Domingo, a Alicinha e a Julia, que levava o sobrinho amarrado às costas,  puseram-se a caminho da casa da Melita. Esta vivia nas proximidades da taberna do Loureiro, até não muito distante donde ocorrera aquele incidente em que perdera o lábio superior. Iam a conversar sobre lugares-comuns, apenas para vencer o tempo da caminhada.

Cruzaram-se com raparigas e rapazes de roupas domingueiras, a caminho ou provenientes da missa na igreja da Missão de S. José. Vinham com ares descontraídos e alegres, de quem acabava de descomprimir os peitos com as comunhões ofertadas pelo padre Fernandes. Algumas mulheres estugavam o passo, de regresso dos mercados onde foram adquirir provisões para os matabichos dos maridos, antes do regresso dos campos de futebol onde iam assistir às partidas de futebol matinais entre as suas equipas favoritas.

Aproximavam-se da moradia da Melita, no cruzamento de um beco nas traseiras do “Lourinho” com um caminho largo que desembocava no Muvumbi. A Alicinha estacou e disse à prima:

“Estás ver esta casa aqui?”, apontou com um dedo as ruínas duma barraca de madeira e zinco, desgastada pelas intempéries e pelo abandono”. Aqui nesta casa aconteceram coisas muito misteriosas”.

“Estou curiosa por saber o que sucedeu”, disse a Julia, a ajeitar a criança às costas, desconfortada com o calor que crescia.

E a Alicinha contou a tragédia da família que em tempos habitou aquela cabana ora em ruínas.

“Nesta barraca vivia um casal que tinha uma filha chamada Elisa. O dono da casa chamava-se vovo Madala, uma pessoa já de idade, de uns sessenta anos, talvez. Vinha de Porto Amélia e as pessoas diziam que era macua, porque é macua todo o homem que se veste com túnicas brancas e usa um barrete de tipo cofió. Trabalhava como alfaiate na varanda duma loja no Xipamanine, mais precisamente do indiano Bhai, onde fazia bainhas em capulanas e remendava roupa variada. Toda a gente gostava dele porque era um homem sossegado, alegre e brincalhão.

A mulher do vovô Madala chamava-se Hassina, também muito estimada aqui na zona e vendia hortaliças no bazar do Diamantino. Eles juntaram-se quando ela acabava de ter uma filha, há dezasseis anos, depois de perder o marido num acidente de um barco que virou, durante uma travessia da Catembe para a cidade. Conheceram-se lá na loja do Bhai, e resolveram juntar-se. Assim, iam ajudar-se e viver o resto da vida porque tinham uma comunhão de interesses: uma companhia responsável e a partilha das dificuldades do dia-a-dia.

A criança cresceu nas mãos do velho como filha legítima e tudo ele fazia por ela, como se fosse sua. Ela estudou na escola primária da Missão e crescia que, eh!, os vizinhos diziam que era uma promessa de mulher, elegante, bonitona e alegre como o padrasto.

Tudo parecia correr bem neste pequeno lar. Como sempre acontece nas famílias, a Elisinha e a mãe começaram a desentender-se. Discutiam por dá-cá-aquela-palha. Coisas pequenas transformavam-se em grandes problemas. Ora era a água que faltava no tambor…porque é que não foste carretar água ali no Dias?… ora era a roupa do padrasto que não estava bem engomada… será que nesta casa não temos ferro de engomar?… ora chegava tarde da escola… onde estiveste durante este tempo todo?…; enfim, uma infinidade de reprimendas que deixavam a moça amuada e sem disposição para conversar durante dias. Refugiava-se sempre no ombro do padrasto para aliviar as frustrações. Este tranquilizava-a com palavras de afecto e de encorajamento: “…és mulher, um dia vais ser como a tua mãe… estas más disposições acontecem sempre a qualquer mulher e elas vão passar… desculpa a tua mãe…”. E a vida voltava ao normal.

Durante aquele período de preparativos para as festas de Natal e do Ano Novo o vovô Madala demorava-se a largar do trabalho. Contingentes de mães exigiam da sua perícia para embainhar capulanas, as últimas remessas chegadas de Hong-Kong, às quais elas atribuíam nomes; ora era o Xivite xa Bhai, ora era o Xigubo xa Filipe, Salimina, ou Xi-kambana, e outras mais designações que eram homenagens ou registos de memórias na história da comunidade. Preocupada pelos atrasos a Elisinha ia ao Xipamanine ajudar o padrasto e, juntos, já ao anoitecer, recolhiam a casa em animadas conversas, confortados pelo sentimento de que o sacrifício valera a pena e que se o faziam era para o bem de todos. Ele adorava-a, era a filha que nunca tivera. Ela nutria por ele uma especial admiração e o orgulho de alguém grato por ter um pai afectuoso.

Até que chegou aquele dia em que todos despertaram dos sonhos de felicidade em que adormeciam.

A mãe Hassina atrasara-se nas vendas, esperara pelo homem da camioneta que fornecia as hortaliças durante toda a tarde. E este não havia maneira de chegar e já fazia-se tarde. Era sempre um risco desafiar a escuridão dos becos deste Chamanculo, sem iluminação nem policiamento. Com os malaíta que se escondem nas sombras tudo poderia acontecer. Ainda há dias violaram e mataram a filha duma colega vendedeira lá do bazar, coitada da moça! Aquele demorara-se por causa duma avaria na camioneta, em plena estrada de Marracuene.

A mãe Hassina chegou a casa às vinte horas, quando a emissora da Hora Nativa transmitia as notícias do dia. Entrou pelo portão sem ruído. De dentro de casa escutava-se apenas a voz baixa do locutor no rádio transístor sobre o aparador. Do vovô Madala nem sombra! Da Elisinha também não detectava sinais da sua presença em casa. Dirigiu-se à despensa que esta ocupava. Ao contrário dos hábitos da casa, a atmosfera do compartimento era de escuridão e os candeeiros já deviam estar acesos. Como a surdina de vozes que vêm de longe, escutou murmúrios, a respiração arquejada e suspirosa de gemidos de prazer que se soltavam daquele quarto. Pelas frestas de caniço descortinou o vulto convulsivo e gemebundo de seu marido, o vovô Madala, e testemunhou a entrega vuluptuosa e voluntária da sua filha Elsinha.

Recostou-se à parede para recobrar o equilíbrio. O que presenciara era uma cena dos quadros que se pintam e expõem no Inferno. Este caíra e tomara como habitação a sua casa. Quantas vezes aquilo sucedera? Desde quando assim era? Porque razão não se dera conta destas práticas há mais tempo? Eram estas algumas das muitas perguntas que se atropelavam na cabeça.

Regressou ao fogo principal da habitação. Acendeu os candeeiros e compôs-se.

O vovô Madala penetrou na sala como se viesse do banho: fresco e sorridente. A Elsinha fez o mesmo mais tarde e deu à mãe a desculpa de que atrasara-se na cantina do Dias onde fora comprar petróleo.

A mãe Hassina sofrera já demais. Nem quer recordar o que foram os tempos em que vivera com o falecido marido. Tempos para esquecer! Com o vovô Madala parecia que os céus se abriram e contemplaram-na com a felicidade de ter alguém que a respeitava e amava. A si e à sua filha, que ele tratava com muito carinho, como se sua fosse. Nessa noite teve os piores pesadelos da sua vida, monstros que lhe invadiram os sonhos, que a interpelavam e empurravam para o precipício dumas covas onde fogos altos ardiam; escutou os gemidos da filha no meio duma multidão de supliciados em combustão, a imagem do vovô Madala metamorfoseado em Lucifer, com uma máscara medonha, a soltar grunhidos; e trazia a forquilha de Satanás numa mão e uma serpente viva noutra; gargalhava à entrada do pórtico duma caverna guardada por mulheres nuas que entoavam cantigas obscenas e empunhavam varapaus com formatos de pénis.

A madrugada despontou serena. Os galos cantaram os cantos habituais. Mas o dia, ou os dias, jamais seriam como os habituais na casa da tia Hassina. Ela assim o concebeu e assim o decidiu. Recolheu o escândalo no silêncio do peito, calou na boca as palavras de protesto. Sofrera já demais. Era de madrugada mas já tinha uma babalaza, a lazeira do sofrimento e da humilhação. E interrogou-se: qual é o xarope para esta ressaca, senão voltar a beber do mesmo sofrimento? Qual é o remédio para calar o fogo dum escândalo senão outro escândalo?

Não passavam três dias a mãe Hassina preparou aquele jantar de família. Calhava ser a data de aniversário do vovô Madala. Ia completar sessenta e cinco anos de idade. E estas ocasiões só se comemoram uma vez na vida. Convidados especiais não houve.

Durante a refeição a conversa decorreu amena: a chegada duma nova remessa de capulanas na loja do Bhai, “… como vai o curso de costura, minha filha?… as hortaliças já não chegam para os fregueses… o pedido da filha da vendedeira do balcão ao lado é já no sábado… há mulheres com sorte!…”; enfim, um nunca mais acabar de banalidades que preenchem as conversas duma família feliz. Quem diria que haveria alguma espécie de animosidade no espírito da dona da casa se ela se esmerara nos guisados, na mathapa à moda de Marracuene e na sobremesa? Até deu-se ao luxo de brindar o aniversariante com uma garrafa de vinho “Matateu”. Haveria mesmo algo que houvesse maculado o entendimento neste lar que parecia tão coeso e prendado?

E tudo aconteceu. Antes da meia-noite o vovô Madala morreu sem se aperceber das circunstâncias da sua própria morte. Apenas engasgou-se, espumou pelo nariz e pela boca; e caiu de lado, inerte, sem vida. No instante seguinte, a Elsinha desabou da cadeira e estatelou-se de bôrco na sala-de-jantar, cheia de vertigens e morreu sem um queixume, com os olhos esbugalhados, surpreendida pelo esgar de ódio que decifrou do rosto da mãe.

O desaparecimento simultâneo do vovô Madala e da Elsinha deu azo a desencontrados comentários e muitas interrogações. A mãe Hassina respondia que o marido e a filha haviam-se deslocado a Porto Amélia de urgência, para tratar de assuntos ligados à família que ele lá deixara: “…ele já não vê a família há muito anos e há problemas de heranças que tem de resolver. Daí a urgência na viagem e a demora lá na terra…”.

Três anos passaram depois do desaparecimento do marido e da filha da Hassina”.

“ Três anos sem ninguém saber o que aconteceu? Essa mulher teve sorte!”, admirou-se a Julia que, até àquele ponto do relato, mantivera-se silenciosa e espantada com o dramatismo da narração.

“Sim, três anos sem se saber ao certo onde eles estavam. O problema caira já no esquecimento. A vizinhança passou a ter outras preocupações e desviara a atenção para questões mais prementes: “…como ganhar o pão-nosso-de-cada-dia?…como alimentar e pagar a escola para estas crianças todas que não param de nascer?…”. Um segredo como este não fica assim por toda a vida. Alguma coisa tinha de acontecer para revelar a verdade.

Aquele homem andara pelas lojas dos indianos no Xipamanine, desde o Centro Associativo, até ao Zundap, a perguntar se conheciam um velho chamado  Madala, ou assim conhecido, e que trabalhava na varanda da loja dum tal Bhai. Nem foi difícil localizar o sítio. O próprio Bhai manifestou a sua grande preocupação pelo desaparecimento do alfaiate, que era seu amigo e um grande costureiro, atencioso e sempre pronto a ajudar a clientela. Mandara procurar pela esposa dele no bazar do Diamantino. Esta confirmara que o velho se deslocara para o norte, em Cabo Delgado, mas que não tardaria a regressar e que, ela própria, já estava em sérios cuidados pela demora dele e da filha.

O forasteiro ficou apreensivo com a informação:

”…o meu pai nunca pôs os pés em Porto Amélia há mais de seis anos, embora a gente se comunique por meio de cartas. Estou preocupado porque deixei de receber as cartas dele. A nossa família está desunida, cheia de confusionistas, e precisamos dele para resolver um problema de heranças. Os meus tios querem ficar com as nossas propriedades e só ele, que é o mais velho, é que pode resolver esse problema…”.

O Bhai desconfiou e enrugou a testa, cheio de dúvidas. “… o que você quer dizer é que o seu pai nunca chegou lá em casa, em Porto Amélia?”

”Sim, não vejo o meu pai há muito tempo, e nunca saí lá da terra”.

Os dados estavam lançados. Alguma coisa a mãe Hassina estava a esconder. O Bhai e o filho do vovô Madala dirigiram-se à esquadra da polícia, no Xipamanine, para comunicar a suspeita sobre o desaparecimento daquele e da enteada.

A mãe Hassina foi surpreendida no bazar, quando apregoava a frescura das hortaliças expostas na banca. O espanto foi geral. Ninguém conseguia emudecer a surpresa: “…o que aconteceu com a Hassina?…terá roubado alguma coisa?…será que se meteu nas políticas do Mondlane?”…especulações sobrevoaram a atmosfera do bazar e alimentaram as conversas da semana.

Durante interrogatório sobre o paradeiro daqueles, pela boca da própria Hassina, veio a confissão do crime hediondo de envenenamento do marido, o vovô Madala e de sua filha, a Elsinha, por tê-los surpreendido num acto de ofensa sexual praticado na casa matrimonial.

“E onde estão os corpos?”, perguntaram os agentes da polícia.

“Vamos à minha casa. Vou mostrar onde estão”, respondeu, sem oferecer resistência.

Aquele foi um cortejo fúnebre com destino à casa onde ela habitava. Ia algemada e um contingente de testemunhas curiosas engrossava a procissão.

O ambiente da casa da Hassina era de muita tranquilidade. Nada fazia suspeitar que lá ocorrera um crime com aquela envergadura. Não havia indícios de violência, nem doutros sinais que pudessem fornecer pistas de que algo de monstruoso ali sucedera.

Quando lhe repetiram a pergunta sobre o paradeiro dos corpos ela apontou o chão por debaixo da mesa, com toda a naturalidade, sem nenhuns remorsos. Depois da morte daqueles, durante o resto daquela noite cavou um buraco muito fundo e lá depositou os cadáveres. Cobriu o chão com todos os cuidados e pôs uma esteira sobre essa campa improvisada. Meses depois, quando a notícia do desaparecimento já se esbatera na comunidade, ela própria cimentou aquele chão, como se de um mausoléu se tratasse. Convivia com as vítimas do seu crime, os mesmos que amara como marido e filha, mas que odiara como amantes.

Os coveiros da Câmara desenterraram os restos mortais, umas ossadas misturadas umas às outras, pedaços de carnes decompostas que inundaram o bairro com um cheiro nauseabundo, e meteram-nas numa urna metálica. Esta foi introduzida na carroçaria do carro funerário com alguma sem-cerimónia. Que espectáculo tão macabro!

Quando os residentes viram aquele kwerre comprido, todo pintado de um cinzento prateado, com as inscrições de “Serviços de Salubridade, Câmara Municipal de Lourenço Marques”, a rolar no areal ficaram a saber que a Hassina matara o marido e a filha para punir o crime de incesto que haviam praticado e que _ contradição das contradições_ conservara os corpos em casa porque os amava e deles não podia separar-se porque eram as únicas pessoas de família que possuía.

“ Chiça, ainda vou sonhar com isso!”, disse a Julia com um estremecimento. “E aonde é que essa Hassina está agora?”.

“ Onde é que ela poderia estar? No manicómio, claro!”, respondeu a Alicinha, a bater ao portão da casa da Melita.

 

Sobre o autor, à guisa de introdução

“Pensar globalmente e agir localmente”, sugere ser o lema de Afonso Vaz Vassoa; um indivíduo multifacetado, a julgar pelos diferentes tipos de formação que caracterizam a sua carreira académica: a Linguística, o Jornalismo, a Comunicação Social – com habilitação em Relações Públicas. Juntam-se a esses factores os seus interesses profissionais nas associações sócio-culturais às quais pertence, nomeadamente: Associação de Escritores Moçambicanos, Associação de Profissionais de Relações Públicas de Moçambique, Associação de Ciências da Comunicação e da Informação e da Rede de Profissionais de Relações Públicas, Marketing e Comunicação das Universidades da Commonwealth. Vassoa é também consultor, pesquisador e docente universitário.

Ao pensar do modo acima referido, são sobretudo questões da interculturalidade, ou seja, do convívio democrático entre diferentes culturas que o preocupam nos últimos anos. Um relance a toda a sua obra que demonstra a linha de pesquisa na qual o autor trabalha é o relacionamento entre as culturas ocidentais e as africanas, que seriam a chave para um concerto baseado no investimento em relações interpessoais entre os povos do mundo. Constata-se ainda, desse labor, que não seria necessário que os povos abdicassem daquilo que são, bastava que glocalizassem os seus modos de agir e de pensar. Ou seja, há urgência, na óptica de Vassoa, de se instituir uma nova ordem mundial, que implique mudança de mentalidade na forma como uns veem os outros.

Será ainda no âmbito desse trabalho, dentre outros tantos que realiza, que destaco África: o Berço da Humanidade e a Fonte da Eternidade, de 1998, livro de poesia, no qual se pode apreender o desassossego do autor, pelo desejo de reconhecimento das qualidades de desenvolvimento de África. Além disso, sugere o banimento do afropessimismo, propondo o melhoramento do relacionamento entre as pessoas. “Vocês Homens, amem-se”, refere ele em nota do autor.

Acrescido a isso, no seu segundo livro, com o título e Comunicação Social e Relações Interculturais: desafios e oportunidades da África Contemporânea, publicado em 2010, obra didáctica, e que é de carácter multidisciplinar, o autor cruza as áreas da Antropologia, das Relações Internacionais e das Ciências da Comunicação, abrindo portas para Estudos Culturais. Nele, Vassoa explica a importância que deveria ser dada à valorização dos diferentes tipos de saberes do continente africano, mormente a necessidade de se esclarecer determinada visão estereotipada sobre este e a premência da existência de relações públicas e sociais que possam contribuir para o reconhecimento do continente, bem como a urgência na solução de problemas tecnológicos que permitam partilhar os saberes científicos e as riquezas naturais de áfrica.

Desafios para a interculturalidade: as cambalhotas e o devir

África, interculturalidade, Antropologia e relações humanas, vistas numa abordagem interdisciplinar voltam a ser recorrentes na obra hoje em apresentação: Cambalhotas de Dedos Marcados, um romance que integra, por um lado, o seu pensar mundos, já afirmado nas suas obras anteriores e, por outro, uma amálgama de enigmas, com um pano de fundo que visa o fomento da interculturalidade relativa ao conhecimento científico versus os saberes tradicionais africanos; as crenças e religiões ocidentais versus ou o culto de crenças e religiões africanas. Sobretudo, a obra se dedica a abordar a condição humana.

Destaco, por exemplo, a explicação de saberes medicinais tradicionais africanos, que são transmitidos de um bisavô ao seu bisneto de nome Racaverdão. Esse bisavô representa, no livro, a sabedoria ancestral que Vassoa nos convida a glorificar. Alguns desses saberes são similares aos dos perorados por teorias científicas, como o caso de se dar importância aos sonhos e de os interpretar, por se acreditar que comandem a vida dos povos africanos e transportam recados dados pelos antepassados aos vivos. Sobre isto também nos fala Altuna (1996), na sua obra Cultura Tradicional Bantu. A hermenêutica sobre sonhos preconizada nessa cultura, dialoga com a interpretação do mesmo fenómeno, defendida por Sigmund Freud, no seu livro A Interpretação dos sonhos. Este que é, também, referido na obra em apresentação, pg. 54 e, segundo consta, “Freud […] sustenta que os sonhos são as chaves para o inconsciente, que é a parte da mente que contém vontades reprimidas, traumas e desejos assustadores demais para serem admitidos” […].

Um outro saber que se pretende partilhado com o mundo e que foi mencionado na obra de Vassoa, tem a ver com a medicina tradicional, através da qual se chama a atenção à consideração de uma quantidade de produtos naturais, que tanto no antanho, quanto hoje, são convocados como imprescindíveis no combate a várias doenças, em detrimento ou no convívio que deveriam ter com a medicina moderna que massifica a industrialização de medicamentos. Esses produtos tradicionais de fortes valores medicinais são: batata africana, moringa, gengibre, quebra-pedra, embondeiro, aloé vera, beterraba e outros; hoje também aceites pela medicina moderna como saudáveis e, nos dias que correm, tem-se propalado serem úteis na desactivação do vírus da covid19. Vassoa apela à massificação do conhecimento e da medicina ancestral e ao convívio desta com a moderna.

Cambalhotas de Dedos Marcados é um título que sugere acrobacias e é o que acontece na obra. Há uma série de reviravoltas que são narradas, numa história com um pano de fundo aparentemente trivial, envolto em histórias de amores, de desamores, viuvez e de infidelidade, mas que essencialmente acaba revelando a história de vida da geração moçambicana conhecida por “ 8 de Março”, trazendo-nos imagens da Historiografia e da cultura moçambicanas.

O romance tem várias nuances no que concerne aos géneros literários (romance histórico, autoficção e romance policial). Nele, o autor descreve, ao pormenor, e com muita adjectivação as suas diferentes personagens. O narrador faz questão de mencionar a diversidade étnico-histórica existente entre elas, para depois explicar que, ainda assim, tinham uma amizade muito forte. Isto revela que essas dissemelhanças não constituíram impedimento para a sua convivência pacífica. Ao realizar esse exercício, alerta e apela que as desigualdades culturais ou étnicas não constituem impedimento para o fomento da interculturalidade, pois a coexistência e a convivência entre diferentes culturas não obstroem a construção de um projecto nacional ou continental comum.

 Da narrativa aos cruzamentos de géneros literários

 A narrativa

Há uma descrição adjectivada e bastante pormenorizada de cada um dos personagens, a partir do seu perfil, que comporta características físicas e psicológicas. E não é à toa que o narrador faz isso. Mas voltaremos mais tarde a este assunto, por convir, antes disso, apresentar esse quinteto. São membros de uma banda musical, os “Cinco Dedos” ou “O Mapa de Racaverdão”. Viviam numa mesma residência, o “Lar de Estudantes Pré-universitários”. Em 1977 tinham todos 18 anos, excepto um, Mocelso, o mais novo.

Sãotilma, a vocalista do grupo, é filha de italiano e português. Cursou Medicina. Angs, o baterista, é filho de americano e indiano. Cursou Psicologia. Mocelso ou Branquinho, baterista e líder do grupo musical, é filho de moçambicanos – cuja mãe é de origem camponesa. Cursou Artes Plásticas, é ilustrador-desenhador. Obéniug ou Pretinho, viola-solo, é filho de Enfermeira cabo-verdiana e de pai branco moçambicano. Formou-se em Veterinária e, por último, Racaverdão escrevia as letras para o grupo, filho de professor do ensino primário formado em missão católica e de mãe doméstica, ambos moçambicanos. Formou-se em Agronomia.

Racaverdão, jovem descrito como sendo negro, alto, musculoso, era um homem que tinha poderes mediúnicos e que se medicava em função delas. Tinha uma cicatriz em forma de mapa da África, na mão direita, com configurações que, de certa forma, tornavam alguns países maiores do que deveriam ser na representação de um mapa oficial e ainda alguns países mutilados. Era uma cicatriz advinda de uma queimadura que teve na sua infância. E essa espécie de mapa era a sua fonte de inspiração para as músicas que escrevia. Além de que, em alguns momentos se transfigurava – em mulher grávida e infeliz, vítima de violações de “mapas missionários.” Essa cicatriz tinha o poder de emitir mensagens.

Um desses dias, nas suas visões viu cinco soldados no cume de uma montanha em posição de combate. Tendo lhe sido explicado pelo bisavô que esses homens revolucionariam Moçambique, lutando contra o colonialismo português. Ao longo da narrativa, apercebemo-nos que se trata dos Cinco Dedos ou, para quem queira, da “geração 8 de Março”, representada pelos membros da banda, que realizaram a insurreição de Moçambique, sobretudo nas áreas nas quais foram formados. Trata-se, também, dos cinco países africanos de língua oficial portuguesa e das vicissitudes que têm passado ao longo dos anos, mesmo após a instituição da Organização de Unidade Africana. Trata-se da dificuldade em se libertar das consequências do colonialismo

Em dado momento da narração, Racaverdão entra em transe e faz revelações sobre o futuro de África. O simbolismo de toda a sua narração é como se de uma palestra se tratasse, a partir da qual o autor nos sugere a necessidade de se autenticar os saberes mediúnicos transmitidos, por serem portadores de verdades que em algum momento vêm a ter lugar, tão válidos quanto a ciência. Esse personagem faz a premonição de eventos que, de facto, vieram a ter lugar no séc. XIX, como a exploração de Moçambique pela América e pela China, por exemplo, é o que sugerem as mutações que a sua cicatriz comunica.

Cruzamento de géneros literários

 Romance Histórico

Há na obra afirmações e representações que nos fazem pensar tratar-se de um romance histórico, por exemplo, a afirmação: “procura-se em Cambalhotas de Dedos Marcados […] recriar, […] representar […] linguagens e mensagens de algumas almas silenciosas e ruidosas, nacionais e internacionais […]”, cfr. Pg. 7. Os romances históricos têm também esse condão, repor factos omitidos pela Historiografia. Há, também, um exercício de memória, através da abordagem do passado histórico, atributo típico desse género literário.

Uma outra qualidade desse género literário, representada nesta obra, são as referências a datas históricas moçambicanas, como 2 de Fevereiro de 1825 (Batalha de Marracuene); 1964 a 1974 (Luta Armada de Libertação Nacional); 25 de Junho de 1975 (Independência de Moçambique), 8 de Março de 1977 (Chamada da juventude moçambicana para o desenvolvimento do país); 1994, ano de abertura para o pluralismo político em Moçambique e ano no qual a União Africana completou 31 anos de existência.

Há, no livro, a colocação de personagens com existência real, que no romance histórico são designados personagens referenciais, nomeadamente: Eduardo Mondlane, Samora Machel, Malangatana Ngwenha e Alberto Chissano, que no caso do romance ganham o estatuto de personagens referenciais. Há ainda a indicação de alguns espaços moçambicanos, especialmente os de Maputo e alguns de Pemba, onde decorre grande parte das acções, que numa abordagem literária sobre o género, acabam nos dando a designada cor local dos lugares narrados. Outras províncias de Moçambique e países de África são referidos.

Romance auto-ficcional

Ao ler Cambalhotas de Dedos Marcados o leitor pode se colocar a clássica pergunta típica de quando se está perante um romance auto-ficcional: será que esta obra aborda a biografia do autor? Para Faedrich (2015:48), a Auto-ficção é um conceito cunhado por Doubrovsky (1977), para se referir a determinado tipo de romance contemporâneo que, abordando facto de modo ficcional, não tem compromisso com a verdade, por a tornar ambígua. A autora refere ainda que nesse tipo de obras o autor utiliza biografemas para chamar a atenção sobre a sua biografia. Mas o que prevalece como pano de fundo é o texto literário.

O que é típico na auto-ficção é o convívio pacífico e quase indissociável entre a ficção e a realidade. Digo quase indissociável, porque, para um leitor que não conheça o contexto narrado, dificilmente poderá concluir que a narrativa aborda alguns factos reais.

O que me permite a mim, leitora, advogar que Cambalhotas de Dedos Marcados é um romance auto-ficcional, embora o autor se tenha ocultado ou, pelo menos, não haja sinais da existência do seu nome em alguns dos personagens é que, lendo a sua biografia, aliada às peripécias narradas, constatei que ele distribuiu, por alguns dos seus personagens, a sua representação biográfica. Esta corresponde a uma das técnicas deste tipo de prosa ficcional. Existem outras técnicas.

Por outro lado, o uso da auto-ficção como técnica tem a ver com o facto de o autor não desejar se expor ou expor alguns dos personagens, no que concerne aos eventos representados com recurso à verossimilhança. Além disso, o que a Teoria Literária aventa é que, em obras de autoficção, o seu autor não escreve uma biografia, por considerar a sua vida irrelevante para um país e, por causa disso, prefere camuflar alguns dos seus dados biográficos no emaranhado de uma história que pode ser julgada comum.

Dos dados que temos à mão, que são referentes à biografia do autor e que constam da contracapa do livro em apresentação, revelam que ele é Bacharel em Desenho e que fez parte da Geração “8 de Março”, o que sugere que o autor seja tanto protagonista na história da vida real, quanto na narrativa. A par disso, escreveu “um livro intitulado O Princípio do Fim, com objectivo de narrar a história do grupo musical, desde a sua formação até o dia de despedida em Marracuene, incluindo a catástrofe do incêndio. Primeiramente, ele havia dado o título de um provérbio popular que sugere que, Quando a cabeça não regula, o corpo é que paga! Mais tarde, a pedido dos amigos, ele intitulou a obra de uma outra forma para atenuar, aparentemente, a culpa explícita que estava expressa naquele ditado”[…], cfr.. pg. 53.

Ao longo das páginas 74 e 75, pode-se constatar a menção ao tipo de trabalhos de culminação de cursos que cada um dos cinco dedos faria, sendo que caberia a Angs, dissertar sobre  “Efeitos psicológicos de culpas omitidas e Mocelso, “Técnicas de ilustração de romances baseados na vida real”.

A mim me parece que esta história constante do livro não é comum, nem trivial. Há dados não ficcionais que tornam opacos os reais. E provavelmente, pelo desejo de exorcizar algum problema, como por exemplo o das consequências da fogueira feita num piquenique e o atentado à vida de um dos personas. Não há como provar exactamente o que é que se pretende conjurar, mas os dados apresentados indiciam a existência de biografemas na obra.

 Romance Policial

 A existência do romance policial pressupõe a existência de um enigma sobre uma morte, que no final da obra é desvendada e informado que é o criminoso. Regra geral é assim que funciona. Há, na obra, reminiscências de dados que fazem com que o romance em apresentação seja um policial.

Há uma agente policial, Ailen, que se introduz no grupo dos Cinco Dedos, com objectivos de espiar e obter dados para esclarecer o atentado feito a determinado personagem. Há a explosão de uma bomba, que cinco […]. Há também a referência a um mercenário, Fish Reewell ou Frank Reewll, o suspeito de ter criado condições propícias para se efectivar o atentado. Há um homem morto e outro baleado, que é um dos membros dos cinco dedos e que vai para à reanimação em um hospital. Fica em estado de coma […]. Estas são algumas das características do romance policial possíveis de encontrar na obra, mas existem muitas mais, que deixo a critério do leitor, para as descortinar.

Considerações finais

 Em Cambalhotas de Dedos Marcados, o autor utilizou como alegoria cambalhotas ou incidentes da vida de cinco personagens para falar sobre a condição humana, em primeira instância, dos moçambicanos da “Geração 8 de Março” e dos africanos e a interculturalidade que podem construir, em segunda instância.

A obra constitui uma dimensão simbólica dos problemas vividos por cinco moçambicanos da “Geração 8 de Março”, marcados pelo chamamento da pátria, para que contribuíssem para o desenvolvimento de Moçambique, ocupando as vagas deixadas por profissionais portugueses a quando da sua retirada de Moçambique. Mas também se refere aos cinco Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, marcados pela ofuscação do ocidente.

Ela é narrada com recurso a um cruzamento de três géneros literários, o romance Histórico, o romance auto-ficcional e o policial. Os dados históricos foram representados com recursos a datas históricas, personagens referenciais, cor local e à memoração de datas e de acontecimentos antigos. Os biografemas deixam marcas que demonstram tratar-se de uma obra de autoficção. Entretanto, recordo que, este tipo de romance não tem um compromisso com a verdade, pelo que a minha recomendação é a de que não se imputem como facto, dados narrados neste livro. Além disso, uma das técnicas utilizadas pelo autor, a de distribuir os seus biografemas por diferentes personagens, tornam opaca a descoberta e a separação entre a verdade e a ficção.

 

 BIBLIOGRAFIA

 ALTUNA, R. (1996). Cultura Tradicional Bantu. Maputo: Paulinas.

FAEDRICH, A. (2015). Autofiction concept: demarcations of the concept from contemporary Brazilian literature. Itinerários, Araraquara, n. 40, p. 45-60, jan./jun.

VASSOA, A. (2019). Cambalhotas de Dedos Marcados. Maputo: Alcance.

 

 

 

A vidraça cristalina permitia descobri-la a partir do lugar onde me encontrava sentado, também alguns subsídios luminosos na ordem de uns tantos luxes faziam com que ela cintilasse.

O seu brilho foi o grande chamamento, despertou-me, fui arrebatado pela beleza que ela emanava, venci a timidez que me era característica e reforçado pela cumplicidade nocturna pedi para que o servente a chamasse.

A vontade de tê-la por perto medrava a medida que ela se aproximava acompanhada pelo servente.

Quando chegou olhei-a mumificado, sem saber o que dizer, ela trajava uma saia branca com fundo vermelho e adornos dourados e na parte superior tinha um véu branco que lhe cobria o rosto. Emitia uma beleza peculiar que a distinguia das demais. A frescura que ela exalava animava-me e a alcova que o lugar oferecia constituía tudo o que precisava para me entrosar com ela.

A apreciação unilateral durou o tempo suficiente de perceber que ela era humilde e este sentimento conferiu-me a ousadia de descobrir-lhe o semblante.

Beleza sublime que me convocou para um êxtase sem igual, divaguei perdidamente por um mundo onírico onde ela era a minha princesa.

Era de origem belga e estava em Moçambique a pouco tempo e já tinha um grandíssimo grupo de admiradores e pretendentes.

A cara dela não me era estranha já a tinha visto amiúde em muitos lugares da cidade de Maputo, sempre impondo seu charme em cada lugar que habitava.

Não demorei a confirmar que eu era seu novo apaixonado e que lhe seria eternamente fiel, pisquei-lhe o olho e ela continuou serena.

Senti que uma tácita relação de intimidade surgira entre nós, segurei-a com a mão direita senti a frescura do seu corpo serpenteando o meu ser, fiquei domado pela sua sumptuosidade. Prontos ela acabava que me possuir sem dizer uma única palavra.

Era a primeira vez que eu me enamorava por uma estrangeira, fora sempre fiel às cá da terra, mas esta forasteira usurpava minha alma.

Depois de confirmada à vontade mútua de nos possuirmos, levei-a aos meus lábios e beijei-a profusamente, toda a minha paixão ficou selada naquele acto, estabeleceu-se um contacto supremo entre nós como se ambos tivéssemos vivido antes esta relação que acabava de se iniciar. A continuidade amorosa ia-se cimentando com beijo atrás de beijo.

A música que se fazia ouvir metamorfoseou-se com a minha embriagues e solícito levei-a a pista, evoluímos na dança, sempre a segurando firme com a mão direita por vezes a beijava e experimentava uma nova frescura dos seus lábios e assim ia sucando a essência áquea e o sabor lupo-mate que ela emanava e conferia em mim uma prazerosa sensação governando intrinsecamente todo o meu ser.

Voltamos à mesa e as diligências para nos conhecermos melhor aumentava, eu com o meu olhar usurpador e ela ali sempre fresca para mim.

Experimentei uma leveza concedido pela sua levedura que fomentava em mim uma animação incomum mas estava grato por conhece-la.

Os meus comparsas de paródia que estavam nas proximidades acompanhadas de duas nativas falavam animados. O ruído das suas gargalhadas por vezes roubava o conluio que se operava entre eu e ela.

Quando me levantei para ir aos lavabos tropecei e logo os meus companheiros anularam a queda.

– Temos que ir embora – conferiram quando se aperceberam da minha embriaguez.

– Não, preciso ficar com ela – disse convicto.

Quando voltei dos lavabos ziguezagueando eles ficaram convencidos que precisavam de me acompanhar à casa.

Ainda vociferei para desencoraja-los, mas eles não se deixaram intimidar, ampararam-me lado a lado e forçaram-me a sair.

Mas antes de abandonar o local gritei:

– Amo-te Stella Artois.

 

Três cavalos no estábulo. Dois castanhos e um branco, cada um preso no seu quarto. Fora do estábulo muitas árvores e um céu azul que a pouco e pouco vai sendo tomado pelos mistérios do anoitecer. A Cristiana, namorada do David, vai me apresentando os meninos que estão presos no estábulo enquanto o pai os vai alimentando. Ela tem uma enorme paixão por cavalos, penso enquanto parado na entrada do estábulo vejo os olhos dela a despejarem alegria como uma adolescente quando fala do seu primeiro amor para as amigas.

Um cão branco vem a correr em direcção ao estábulo e os meus fantasmas acordam. Faz um percurso rápido em poucos segundos. Ele vem mesmo em direcção ao lugar onde estamos, penso assustado. O medo é mesmo o petróleo certo para incendiar o sossego de qualquer um. Naquele momento não me aparecia outra coisa à cabeça, apenas os dentes afiados daquele cão que corria agitado para onde eu estava. A Cristiana continua a falar, mas não consigo ouvir mais nada senão os passos do cão que se aproxima. De repente a garrafa que trago na mão cai e quase toda cerveja deita-se no chão da entrada do estábulo. O pai da Cristiana para mim, enquanto o David ri-se do meu medo,

assim vais lá mesmo!

ele não te faz mal, não te preocupes…

E de verdade ele não me faz mal, mas a agitação na qual vinha em minha direcção e aqueles dentes fora não diziam nada disso. Tudo acontece em Tomar e enquanto pela janela do meu quarto entra o latido de um cão não consigo parar de pensar que estou apaixonado. Não falo de uma dessas paixõezinhas fingidas que não passam de um pretexto para chegar ao momento em que as calcinhas vão abaixo e a imagem de um corpo nu à disposição da nossa volúpia nos faz perder a cabeça. Isto é mesmo uma paixão às direitas. É certo que estou apaixonado e enquanto a madrugada continuar sendo como esta folha branca onde cabem milhões de mundos não vejo as cordas que me prendem à esta tontice a se desatarem.

Os relógios da cidade deviam estar a marcar duas e pouco quando pela primeira vez entrei em Tomar. Pela janela do carro entravam o azul radiante que o céu das cidades portuguesas despeja no Verão, o verde do jardim do Mouchão e o cisne branco que mergulhava a cabeça e fazia amor com as águas do rio Nabão que dividem a cidade em duas margens. Por cima da música que tocava no carro, a minha voz excitada dançando para o David antes de ele sorrir

Tomar é mesmo uma cidade linda!

Há tempos que já me tinham falado do Convento de Cristo, cuja construção começou no século XII, das historietas sobre os templários, do facto de se chamar pato-bravo a quem seja de Tomar, mas nunca me tinham dito que

Tomar é mesmo uma cidade linda!

Nesta madrugada estou como um homem que está deitado no colo da sua esposa, mas não para de pensar na amante. Lisboa que me perdoe, mas Tomar não me sai da cabeça. Pequena, simples, mas cheia de cor e muito encanto. Isto faz-me tão feliz. O suicida de “Explicação dos Pássaros” de António Lobo Antunes fez muito bem em morrer longe de Tomar, em Tomar ninguém morre assim.

Enquanto passeávamos no Mouchão, de repente o Higino, sem nenhuma dúvida para provocar o David

então Miguel, gostas mais de Vila de Rei ou de Tomar? E eu com a mão a varrer o cabelo que há quase um ano não corto e um sorriso matreiro a saltar-me pela boca, tentando fugir da parede na qual o Higino pretendia me encostar,

não queiras me meter em problemas, Higino. Mas Tomar é mesmo linda e nada disto seria lindo sem tu e o David a empurrarem-me para beijá-la.

É certo que estou apaixonado e que foi mesmo um exagero em demasia ligar-te à esta hora da noite para estar neste paleio tão gordo de pieguices. Mas também é certo que nós os dois sabemos mais que ninguém que quando se está verdadeiramente apaixonado não é a cabeça que comanda.

Será que o salário é um incentivo para que “bons candidatos” optem por uma empresa em detrimento de outra?

O artigo 85 da Lei do Trabalho estatui que ”o período normal de trabalho não pode ser superior as 48 horas por semana e 8 horas por dia”. Se todos os trabalhadores têm de cumprir com esta lei, então porque alguns ganham melhor que os outros? Esta questão leva-me a refletir sobre a definição do salário.

O QUE É SALÁRIO?

Segundo a definição do Dicionário Infopedia salário “é a quantia fixa que um trabalhador, por conta de outrem, recebe pelo seu trabalho e que é paga de forma regular, de acordo com o definido por um contrato de trabalho; ordenado; vencimento”.

O mesmo dicionário define salário ainda como sendo “o pagamento recebido pela prestação de um serviço ou por um trabalho realizado”.

Baseando-me nas definições deste dicionário minha questão seria a seguinte: então porque é que duas, ou mais, pessoas exercendo o mesmo trabalho, na mesma empresa não recebem o mesmo salário?

Os PCAs trabalham ou deviam trabalhar 48 horas semanais como qualquer outro trabalhador, então como justificar a usual diferença salarial abismal entre o que recebe um PCA e o que é pago a um recepcionista?

A resposta a estas 2 questões eu encontro no valor do trabalho prestado por cada um deles. Neste caso, eu definiria o salário como sendo a quantia recebida pelo “valor” que cada colaborador acresce a produção da empresa em cada hora de trabalho que presta. Ou, por outra, a “qualidade” do serviço prestado  por hora de trabalho sob conta de um terceiro.

Quando ainda trabalhava em Maputo, recordo-me um dia ouvir meu Chefe na altura, Herman W. dizer: “não é recomendável aos colegas compararem seus salários”. Sendo para mim o salário uma medida de valor, eu penso que é normal que façamos comparações entre os nossos salários. Penso eu que o objetivo não é necessariamente de saber quanto o outro ganha, mas de tentar perceber quanto e que “eu valho” como colaborador para a empresa. Como Seres Humanos, nós somos todos motivados por desafios e pela concorrência, saber que os outros ganham melhor equivale a dizer que “eles” têm melhor desempenho. Numa empresa bem estruturada, esta conclusão pode levar a que um colaborador dê o melhor de si para progredir na carreira e atingir níveis elevados de salário. Por outro lado, a diferença salarial pode constituir um critério de descontentamento nas empresas mal estruturadas em termos de grelha de salário e de planos de carreira, pois os colaboradores não terão um foco para apoiarem seus esforços.

DISCRIMINAÇÃO E DESIGUALDADE SALARIAL EM TERMOS DE GÉNERO

A discriminação salarial acontece quando pessoas com as mesmas habilidades e mesmos anos de experiência de trabalho e trabalhando na mesma empresa recebem salários diferentes. Esta discriminação pode ser motivada pela falta de grelha salarial nas empresas mas também e muitas vezes pelo facto dos gestores pagarem salários tendo em conta as “pessoas” e não necessariamente a “qualidade do trabalho prestado” pelos colaboradores. Este último caso acontece geralmente desde o processo de recrutamento. O “cota” que emprega a sobrinha (muitas vezes sem qualificações) e que paga salário mais elevado do que dedica aos restantes dos colaboradores com as mesmas funções, competências ou qualidade de trabalho, o que infelizmente tem sido prática no nosso maravilhoso Moçambique.

 Segundo site especializado em matérias laborais www.acergs.com, “as desigualdades de gênero no mercado de trabalho variam em todos os países e regiões do mundo e de forma muito diferente. Em termos globais, não deixará de haver desigualdade económica entre homens e mulheres nos próximos 169 anos. Só em 2186 é que será atingida a igualdade econômica entre sexos”. Embora tenha ouvido bastante sobre esta versão, minha experiência nas empresas em que trabalhei, principalmente em Moçambique, não confirmam esta tese. Vi em Moçambique homens e mulheres receberem salários de maneira equitativa.

Tanto a desigualdade em termos de género, bem como a discriminação salarial provocam nos colaboradores afectados pelo problema um sentimento profundo de injustiça o que infalivelmente afecta a sua performance no seio das estruturas empresariais em que se encontram inseridos. Fraca produtividade, abandono do posto e saída de trabalhadores para empresas concorrentes, são algumas das consequências diretas destas práticas.

 O SALÁRIO COMO INCENTIVO PARA ESCOLHER UMA EMPRESA/EMPREGO EM DETRIMENTO DE OUTRO?

Para qualquer indivíduo dinheiro é sim importante, pois permite-nos, por exemplo, fazer planos de vida, pagar nossas contas, poupanças para o futuro ou prover uma melhor educação aos nossos filhos, no entanto não constitui o primeiro incentivo a ser avaliado para escolha de um trabalho ou mesmo de uma empresa quando se tratam de “bons candidatos”.

Para os “bons candidatos” o salário é o quarto critério de decisão para escolha de uma empresa a trabalhar ou não.  Os bons candidatos olham para uma empresa que tenha um plano de desenvolvimento credível; um trabalho com mais responsabilidades, onde apresente um plano de carreira profissional de médio e longo prazo; os bons candidatos procuram trabalhar com bons gestores, os superiores hierárquicos servem muitas vezes de mentores e os bons candidatos procuram estar por perto de pessoas que lhes façam crescer; e finalmente vem o critério salário, que não é algo a negligenciar se quisermos atrair um bom candidato, mas que não é o prioritário.

A título de exemplo, recentemente meu padrinho e amigo de mais de 20 anos decidiu mudar de carreira profissional e foi contactado por 3 agências de recrutamento (Headhunters). Numa das nossas conversas pela madrugada, ele lamentava-se do facto dos headhunters estarem a concentrar os seus argumentos para lhe convencerem apenas no salário e no cargo a ocupar, sem dedicarem grande ênfase nas propostas de evolução de carreira, nos treinamentos e formações profissionais dedicadas ao aperfeiçoamento para o desempenho das funções e/ou nos desafios profissionais propostos, o que não lhe motivava bastante. Finalmente, depois de muita análise e negociação acabou optando por uma multinacional, a operar no sector de hidrocarbonetos, que lhe ofereceu não necessariamente o melhor salário mas sim um plano de carreira profissional, um ambiente de trabalho favorável com um grupo gestores experientes e competentes, planos de formação profissional contínuos e desafios profissionais a relevar que lhe satisfizeram. Este é um exemplo de que (somente) o salário não constitui o incentivo primordial se tivermos que recrutar bons candidatos “top people”. Aos bons candidatos como este, as empresas devem no mínimo oferecer uma “revolução de 30%” com relação a situação em que se encontram, percentagem distribuída em cada um dos critérios acima referidos.

Este caso ilustrativo leva-me a conclusão de que para fazer um bom recrutamento devemos oferecer aos bons candidatos o que chamamos de “career move” e não um bom salário como forma de os atrair, pois estes são mais atraídos por “challenges”. Podemos concluir também que para estes níveis de talento, saber que “irá ganhar melhor que os colegas desde a sua chegada na empresa” constitui um ponto negativo na sua tomada de decisão para integrar a empresa, pois o futuro colaborador imagina o mesmo cenário quando forem contratados novos colegas. Isto mostra desde o processo de recrutamento que a empresa e os gestores depositam pouca importância nos colaboradores já em posto, falta de um plano de evolução da carreira, falta de diálogo etc etc.

Mas quando pagar melhor a um novo colaborador se torna necessário, os Gestores devem consagrar tempo de qualidade a justificar aos colaboradores já na empresa a razão dessa decisão, pois o sentimento de injustiça causa desmotivação. Esta é também uma boa oportunidade para o gestor comunicar alguns aspectos a melhorar no colaborador antigo, assim ganham em motivação e produtividade e evita-se conflito e inveja entre colegas.

QUE SOLUÇÕES PARA UMA JUSTIÇA SALARIAL NAS EMPRESAS

As soluções seriam elaboração de uma grelha salarial clara onde entre outros aspectos deve constar a função do colaborador, responsabilidade do colaborador e plano de remuneração associado a evolução de carreira profissional.

Para terminar gostava de dizer que para uma evolução salarial o colaborador deve evoluir em termos de “qualidade como profissional”. Os colaboradores devem, incessantemente, procurar se aprimorar como profissionais no seu domínio de especialização. Ler bons livros sobre a sua área, participar em workshops, assistir vídeos (youtube), ouvir podcasts, fazer parte de grupos profissionais e tomar outras ações que assegurem contínuo crescimento e aprendizado. As empresas e os gestores não podem tudo, estes têm apenas o papel de mentores. A responsabilidade de evolução profissional é, em primeiro plano, e principalmente, do próprio colaborador.

Recomendação de livro para o  mês de Novembro: “Born to Win – Zig Ziglar”.

Samuel Gerson Andrisse é especialista de recrutamento e autor do livro “Be ready for your next job interview”.

O artigo anterior focou-se no período após a “Revolução dos Cravos” contando apenas pequenos episódios e passando rápido pelos 5 anos de estudo no Técnico, mas há ainda algumas estórias interessantes a contar, pois é uma Escola que marca.

Em 1975, no 1º ano, tivemos a cadeira de “História das Ciências”, sem créditos e sem notas, 1h uma vez por semana oferecida por um Professor (Físico)/Padre João Resina Rodrigues, da Academia das Ciências de Lisboa, que nos abriu os horizontes para a Ciência, foi excepcional (a cadeira era facultativa com poucos alunos mas não falhei uma aula). Nessa altura, não tinha ainda a certeza sobre que especialidade devia seguir pelo que comecei a comprar desde então livros sobre Física, Astrofísica, Cosmografia, Biologia, Genética, Filosofia, História, etc…ainda hoje tenho uma biblioteca pessoal mais extensa nestas áreas do que em Electrónica, e, por mais um daqueles acasos do destino, quando o Professor faleceu em 2010, abriu uma vaga na Academia a qual deu lugar à minha entrada na mesma (voltarei ao assunto).

Mas continuando, um pouco mais tarde, já no 3º ano, em 1978, um dos jovens professores que realmente influenciou a mudança no Técnico tinha feito aí a licenciatura em Engenharia Electrotécnica mas doutorou-se no MIT, nos Estados Unidos, e regressou em 1975, em pleno “Verão Quente”, tentou impor um novo sistema de avaliação no meio da confusão que descrevi antes, em que tínhamos apenas trabalhos em grupo. Propôs que houvesse testes, teve forte oposição dos alunos e fizemos greve à cadeira, Fundamentos de Telecomunicações I, ou seja, deixámos de ir às suas aulas (…), no entanto ao fim de algum tempo (2 ou 3 semanas) chegámos a um consenso. Continuámos a ser avaliados em trabalhos de grupo mas agora concluídos numa semana, no semestre seguinte, em Fundamentos de Telecomunicações II, passaram a ser trabalhos de 24h, e isso abriu caminho ao regime normal de testes e exames que ainda se mantém hoje. Um pormenor interessante, quando acabámos a greve às suas aulas, aparecemos para o recomeço num dos anfiteatros do Pavilhão Central, um dia às 8h da manhã, chegámos um pouco mais cedo, mas as portas do anfiteatro estavam fechadas, o que não era normal, aguardámos então que o contínuo as abrisse. Para nossa surpresa, às 8h em ponto, as portas abrem-se, mas do lado de dentro, era o professor que já lá estava e quando entrámos víamos só um dos quadros pretos (eram paralelos e amovíveis sendo cada um o dobro do tamanho dos de uma sala normal), o qual estava já completamente cheio de fórmulas (…). Não houve tempo a perder, foi só sentar e começar a passar tudo para a sebenta, ainda não ia a meio do primeiro quadro (a escrever), já ele tinha descrito tudo e levantou o outro quadro que estava encoberto por trás e o qual estava também já todo escrito! Desisti, era melhor só prestar atenção. Foi o momento da viragem na Escola, a partir daí até ao fim foi sempre a acelerar com uma dinâmica e exigência completamente diferentes em todas as áreas do curso. O professor após algum tempo no Técnico regressou de novo aos Estados Unidos e é dos professores com maior notoriedade mundial na nossa área, ficámos amigos, e uma curiosidade, nasceu na Beira, em Moçambique!

No ano seguinte, em 1979, outro professor, este recém doutorado na Universidade de Manchester, no Reino Unido, Mário Lança (falecido este ano), dava Electrónica Aplicada I e II no 4º ano. Éramos mais de 200 no curso, e lembro bem que na altura poucos passámos a estas 2 cadeiras à primeira…não era difícil, mas continha uma “mudança de paradigma” que era difícil de assimilar, e muitos ficaram a não gostar da Electrónica por causa destas 2 cadeiras, outros adoraram, e fizeram-me despertar para esta área fascinante. Nós tínhamos estudado Electrónica I e II no 2º ano e julgávamos que já sabíamos umas coisas (de Electrónica…), pois ficámos a conhecer umas fórmulas “tipo comboio” (que enchiam o quadro) da corrente e da tensão da operação dos transístores que tinham todos os termos, mas, quando chegámos às suas aulas não queríamos acreditar pois, usando só menos de metade do quadro, o professor pegava nas mesmas fórmulas e deitava quase todos os termos para “o lixo” pois afirmava (e bem) que os termos desprezados não eram precisos para nada em termos de projectos práticos com transístores, e daí a “mudança de paradigma”, mas para as nossas mentes ainda muito matemáticas isso era extremamente difícil de engolir ao princípio…se bem que ao fim de umas semanas, quem aguentava, pois muitos começaram a “baldar-se” às aulas, não queria outra coisa senão trabalhar com aquelas fórmulas muito mais simples! O tal fascínio pela Electrónica e o espírito motivador deste professor, convenceram-me a escolher esta área e assim iniciei a carreira como Assistente Estagiário. Uma nota curiosa, acabei o curso num dia e fui dar aulas no dia seguinte a uma turma da noite, os alunos (trabalhadores) tinham sido quase todos meus colegas, quando entro na sala vou para o lado da secretária/quadro, e dizem: “Ó Rui, o que é que estás aí a fazer, o Prof. está a chegar”, respondi, “O Prof. sou eu…”, gargalhada geral, mas 5m depois prestavam todos atenção.

Seguiram-se 12 anos de ensino e investigação, o mestrado (projectei com outros colegas o primeiro circuito integrado analógico em Portugal, em 1982) e o doutoramento, sempre em Electrónica. Em 1986/87, no início do doutoramento, hesitei, Portugal atravessava uma crise económica grande e já tínhamos 3 filhos, pensei sair do país e emigrar (a ideia de África na juventude estava sempre presente), nomeadamente para a Austrália, ou então fazer o doutoramento fora, mas, outro jovem professor, regressado do Imperial College em Londres, diz-me: “Se fizeres o doutoramento comigo irás publicar nas conferências e revistas científicas de topo mundial, o que equivale a um doutoramento, nos Estados Unidos ou Inglaterra”. Não fiquei muito convencido mas pedi um tempo para pensar, fui passar Julho e Agosto de 1986 de férias ao Algarve, numa altura em que também tinha tido um princípio de um esgotamento. O meu Sogro tinha montado um negócio de “gaivotas” (com pedais) em 3 praias do Algarve, Manta Rota, Altura e Praia Verde, e pediu-me se podia ajudar a coordenar o início do mesmo. Foram 2 meses de trabalho (mais braçal) de sol-a-sol, no duro, pois além da coordenação ainda substitua os jovens trabalhadores temporários que muitas vezes não apareciam e tinha de movimentar as “gaivotas”, que não eram nada leves…mas desanuviou-me a cabeça e decidi aceitar o desafio do doutoramento no Técnico. O orientador estava certo, entre 1986-1992 publiquei mais em conferências e revistas internacionais do que qualquer colega da área que aí se doutorou ou nos Estados Unidos, e contribuí para a criação do primeiro grupo de investigação na área da Microelectrónica em circuitos integrados analógicos, em Portugal. Trabalhei num circuito integrado que foi também o primeiro totalmente personalizado (full-custom) a ser projectado no país e publicado na revista mais famosa de Electrónica. Um pormenor, desenhei a implantação do circuito – layout – na Universidade de Pavia, em Itália (Universidade de Alessandro Volta).

Em Fevereiro de 1992 com o doutoramento concluído passei a Professor Auxiliar, o grupo de investigação era dos mais avançados na área, mas sonhava todos os dias em sair de Portugal, havia qualquer coisa que me atraía para o desconhecido, estavam-me no sangue as aventuras Africana e Mexicana do meu Pai, em especial a primeira devido à vivência em Moçambique. Então, em Março de 1992, o semanário “Expresso” publica um anúncio de recrutamento de professores para a Universidade de Macau…como era e continuo a ser colecionador de selos, desde os tempos de LM, pois retirava-os das cartas que vinham de Portugal, conhecia Macau apenas pelos seus selos antigos…E, não fazia a mínima ideia que aí houvesse uma Universidade, vim a verificar mais tarde que a Universidade de Macau tinha sido refundada com esse nome apenas em Setembro de 1991, sendo nessa altura a única em Macau, como acontecia igualmente em Moçambique com a Universidade Eduardo Mondlane, panorama que mudou muito na década seguinte em ambos os lados. Respondi, passaram 2 meses, sem ter sido contactado, pelo que esqueci. Mas, estava escrito nas estrelas (…), em Julho, encontro por acaso, um ex-colega do Liceu Salazar (Carlos Pires, o “Fininho”), que também tinha sido colega primeiro e posteriormente aluno, no Técnico, e que não via há anos. Disse-lhe que tinha respondido a um anúncio para Macau e ele diz-me: “Rui, está lá o “Gui”!”, “Gui” (Rodrigo Brum) era outro ex-colega do Liceu que não via há imensos anos, telefonei-lhe, a mulher era docente na Universidade, disse-me que era um local agradável, continuei interessado, mas pouco tempo depois recebia uma carta da Universidade dizendo que não havia vaga, e arrumei o assunto. Contudo, em Agosto, recebo um telefonema de um responsável de Macau dizendo que estavam à minha espera (…), não quis acreditar, mas, após um processo relativamente complicado, no fim de Outubro de 1992 lá partia com a família toda (os 5) para Macau.

Um detalhe final, no dia em que mencionei ao meu ex-orientador de doutoramento que tinha aceite uma posição de professor noutra Universidade, achou bem pois pensou que iria para Aveiro, Coimbra, Braga ou Porto, quando lhe disse que era a Universidade de Macau afirmou: “Mas Macau é um Deserto (!), não há lá “Universidade”…”. Respondi que me tinham contratado e ia experimentar. Quando cheguei confirmei que tinha razão (…).

 

Macau, 20 de Outubro de 2020 ! (40 anos depois dos 5 Foguetes!…)

O homem só é consciente quando pode servir-se da sua própria inteligência.

Rodrigues Júnior

 

Para Lex Mucache, escrever é um acto de libertação da consciência? Pode ser muito cedo para darmos uma resposta categórica nesse sentido. Entretanto, ao analisarmos Asas decepadas, seu livro de estreia, constatamos um certo interesse de o autor usar a ficção no encargo da emancipação da razão, sem vulgarizar um eventual propósito literário.

No seu livro com 18 contos, primeiro, Lex Mucache apresenta-se como um escritor deveras interessado em representar questoes ligadas à moral, à solidariedade e à fraternidade na perspectiva comunitária. Em geral, as histórias dos seus contos ou desenrolam-se no meio rural ou situam-se em contextos humildes, às vezes, sem se esforçararem em garantir uma abordagem concreta do lugar. Esta estratégia atribui ao espaço narrativo uma certa autonomia em relação à realidade, tornando a história mais flutuante, no entanto sem se desligar dos substractos que a sustentam.

O primeiro conto do livro, “Asas decepadas”, o que o intitula, logo acusa as qualidades literárias de Lex Mucache na concepção do conto. Ao localizar a sua narrattiva em duas dimensões, no ar e na terra, o escritor leva à sua história uma alegoria da natureza humana, através da qual se evidenciam comportamentos, contrassensos e cenários que diluem quaisquer ambiguidades sobre a lógica insana do poder.

“Asas decepadas” é um conto sobre os possíveis mecanismos de controlo social por parte dos que temem os impactos da consciencialização das massas. Na história, existe uma personagem contratada pelos poderosos para decepar as asas de todas as aves, Ivan Brainovich, de modo que estas possam ser facilmente vigiadas em terra firme. “Os populares [inconscientes?] jubilavam; não mais necessitavam de gaiolas e vedações, pois todas as aves andavam à solta pela freguesia. Era aí em que residia o paradoxo das aves, numa liberdade que era a pior das prisões. E sempre que o conselho se reunia para o balanço habitual, o chefe dos contratadores dizia: ‘Recordam-se da controvérsia que, outrora, divergiu os colonialistas a respeito do nosso saudoso Chitlango? Pois é, caros amigos, está ultrapassado! Lacrado e carimbado. Aqui não há águias, apenas galinhas.’” (p. 12)

Entretanto, a certa altura, o próprio decepador de aves apaixona-se pela possibilidade de voar, ser livre, que usa as asas dos pássaros para se lançar em outras dimensões. O traiçoeiro projecto dura pouco tempo, afinal os poderosos do lugar têm sempre outros artifícios para dominar e amputar iniciativas improvisadas como aquelas. Ivan Brainovich é derrubado em pleno voo e, com mais cuidado, os obcecados pela manutenção do status quo decidem não só continuar a decepar os pássaros bem como passam a colocar todos em gaiolas.

O conto inaugural deste primeiro livro de Lex Mucache é de tal ordem impactante que é impossível não relacionar com a política ou com os jogos de controlo social. Colocando humanos e aves na mesma história, primeiro, o autor activa esse fascínio comunitário que norteia todo o seu discurso narrativo. Segundo, coloca os homens como vilões capazes de violar a essência dos fenómenos naturais para o seu próprio benefício. Terceiro, poe-nos a reflectir sobre o preço real da estabilidade democrata, na relação entre interesses de classes. É um conto para reler várias vezes e até compará-lo, por exemplo, com As aves, de Aristófanes.

Lex Mucache prova, neste seu Asas decepadas, ser um autor com capacidade inventiva para acrescentar qualidade à ficção moçambicana. A sua escrita não é refém de aspectos técnico-narrativos. Ainda assim, o seu estilo narrativo, aparentemente despreocupado, incopora nas histórias algumas marcas discursivas próximas à oralidade. Quem for ler o livro poderá ficar com a percepção de já ter sido contado a história intitulada “Os três viajantes”, cujo enredo é típico das narrativas orais moçambicanas reproduzidas para legitimar regras e veicular valores. Essa é a história de três homens, que partem numa viagem com objectivos diferentes. Sintetizando, do trio apenas triunfa aquele com coração nobre, preocupado em salvar a sua comunidade da seca e das epidemias, que soube ouvir. Os outros dois, por terem desrespeitado as regras da boa conviência e da solidariedade, perderam-se dos prováveis caminhos auspiciosos.

O livro de Lex Mucache é muito comprometido com os contextos que alude. Certamente, o escritor deve ter escrito os contos depois de ter definido os temas do seu interesse, consoante o que sente, o que pensa e o que passou. Logo, em pequenos fragmentos captam-se retratos passíveis de nos proporem reflexões profundas sobre Moçambique. “O motim” é um exemplo doloroso, mas relevante para o efeito. Dizemos o mesmo de “O retrato milagroso de Ben Mabunda”, conto que extrai das nossas rotinas quotidianas uma luz de esperança. Na dor, Lex encontra aspirações e, inevitavelmente, o seu leitmotiv.

Num outro ângulo, no seu Asas decepadas Lex Mucache inclui histórias sobre a justiça e sobre o que se julga isso ser. Paralelamente, revela-se um autor vinculado à sua contemporaneidade. Por exemplo, quando escreve sobre o que fomenta o terrorismo em “A missão”:

“No princípio, Laurindo era um pacato chefe de família e fiel de armazéns. Conferia produtos, controlava a entrada e saída de bens. Várias foram as vezes em que os colegas tentaram aliciá-lo, para fazer alguns desvios, mas ele nunca cedeu. Insatisfeitos pela sua rectidão, os colegas montaram-lhe uma armadilha. Uns produtos roubados na pasta de Laurindo levaram à sua expulsão. Depois que ficou desempregado, perdeu também a esperança; quem contrataria um homem na casa dos cinquenta e que pouco sabia fazer? Imediatamente, atirou-se às bebidas destiladas, passando todos os dias bêbado” (p. 59).

Este excerto justifica o que se vai passar com o protagonista em toda história. E, mais do que uma narrativa sobre o terrorismo, “A missão” é um conto escrito para ajudar a compreender esse fenómeno a ondular entre o que se julga ser fé e a fatalidade, claro, sem julgamentos reducionistas mesmo entre as personagens.

O sonho é outro factor na órbita de Mucache, todavia sugestivo quando é impossível de concretizar. Verdadeiramente “pedagógico”, o escritor dá vitalidade a Mussa e Abu, perdedores enganados pelas suas pretensões. Na verdade, recorrendo a essa dupla, Lex Mucache desconstrói a ideia romântica de que a coragem e a persistência levam as pessoas à vitória. Em Asas decepadas as escolhas é que determinam o destino das personagens. Como aprender a escolher certo? Muitas vezes, é sobre isso que Lex Mucache escreve.

 

Título: Asas decepadas

Autor: Lex Mucache

Editora: Kulera

Classificação: 14

 

Estávamos então em Agosto de 1974 no fim da nossa “aventura africana”, no paquete Infante Dom Henrique a caminho de Lisboa. A chegada e reintegração em Portugal apesar de difícil, não foi tanto como a de muitas outras famílias. O meu Pai dizia “vão sempre ser precisos farinha e pão…”, assim, começou logo à chegada a contactar antigos conhecimentos e em menos de 2 meses conseguiu retomar alguma actividade numa empresa de representação de maquinaria de moagem. Com o passar dos anos, com os 3 filhos já na Universidade em 1978 sentia mais dificuldades económicas, e desta vez o empresário não foi moçambicano, mas mexicano (Faustino Fernández, descendente de Espanhóis) que fez uma oferta ao estilo do Real Madrid! E, partiu de novo, agora só com a minha Mãe, para Hermosillo, capital do Estado de Sonora, no México, que é basicamente um Deserto (Sonora no México e Arizona nos Estados Unidos, voltarei ao Deserto…). Foi chefiar a Moagem do “Molino La Fama”, produzindo a Farinha “Los Gallos”. Aí esteve durante 5 anos, e numa das visitas que nós os 3 filhos aí fizémos a minha irmã do meio decidiu ficar, casou com um Mexicano, e lá está radicada desde o início dos anos 80, um dos ramos da família ficou assim na América-do-Norte.

No meu caso, inscrevi-me em 1974/75 em Engenharia Electrotécnica, no Técnico, e pensei que iria começar o 1º ano, mas a estória foi muito mais gira…em Outubro, realmente, as aulas começaram, mas o sistema universitário estava em “auto-gestão”, as aulas decorriam no anfiteatro de Electricidade, e tínhamos uma cadeira em cada manhã, Análise Matemática, Física e Química, mas o interessante, é que o que era oferecido numa aula não tinha seguimento na aula seguinte, os Assistentes (não havia Professores, tinham-se reformado, sido saneados ou ido para o Brasil quase todos) também não eram os mesmos, aparecia quem estava disponível no momento, e cada um dava o que lhe apetecia dentro dos 3 temas anteriores…a confusão era mais que muita, e ao fim de 1 mês as universidades fecharam, fiquei então sem nada para fazer…mas, como um dos meus Tios trabalhava na Sperry-UNIVAC sugeriu que eu fizesse alguns cursos de computadores (que apareciam em força) para me ir entretendo, assim entre Novembro e Março fiz todos os que havia, as linguagens de programação comerciais, RPG-1, RPG-2, Cobol e ainda Perfuração de Cartões (neste, eram só alunas já com uma certa idade, quase todas ex-datilógrafas, e eu…). Com o “Processo Revolucionário Em Curso” (vulgo PREC) a decorrer, foi criado em Maio de 1975 o “Serviço Cívico” para os alunos universitários (1º Ano) e assim entre Junho e Agosto de 1975, contribuí para a sociedade na Ribeira da Laje, em Oeiras. Todas as manhãs às 8h íamos numa camioneta de caixa aberta da Câmara de Oeiras até à Laje, onde passávamos o dia. Aí, fazíamos animação cultural e desportiva, trabalhos de construção civil, desde a montagem de esgotos, à construção de uma estrada em brita, um pavilhão para a terceira idade, etc…tudo controlado politicamente por um grupo de estudantes como nós, mas bastante revolucionários e facciosos, quanto à população esta era uma maravilha, trabalhávamos e ofereciam-nos de tudo. Foi uma experiência fantástica que nunca mais esqueci. Interrompi este período apenas para me inscrever no Técnico, a 19 de Junho de 1975 (data histórica), ao descer a Alameda D. Afonso Henriques no regresso a casa, vi muita gente aglomerada na Fonte Luminosa (lado oposto ao Técnico) e fui ver o que se passava. Era um comício do Partido Socialista com Mário Soares, apareceu imensa gente, ele exigiu no discurso inflamado contra o Governo a sua demissão, criticando também o Conselho da Revolução, ameaçando paralisar o País, e perto do fim disse: “Vamos todos a Belém”. Lá fomos todos a pé até ao Palácio de Belém (12km!) onde chegámos noite avançada e aí Mário Soares (MNE em Setembro de 1974 que assinou o Acordo de Lusaka com Samora Machel) salta em camisa para a caixa de uma camioneta, mesmo em frente do Palácio, e começa a discursar (em voz muito alta), com os militares armados ao fundo em cima na varanda dos Jardins do Palácio a assistir, a situação esteve muito tensa, era muita gente e receei o pior. Mas, os militares mantiveram-se calmos, a manifestação acabou, fui serenamente até à estação do combóio e daí para casa. Foi o único comício a que fui na vida, o qual marcou o início do célebre “Verão Quente de 1975”, significativo para o futuro de Portugal como uma Democracia Ocidental. E, apenas 6 dias antes da independência de Moçambique a 25 de Junho de 1975!

Em Outubro, comecei finalmente o 1º ano do Técnico, o momento revolucionário ainda se fazia sentir em força, a “auto-gestão” mantinha-se, a organização era melhor, se bem que a Associação de Estudantes ainda controlava tudo, sendo gerida por um grupo conhecido como “Pops” (designação que creio ter origem em “Populares”…) cuja “ideologia” era para lá da “Extrema-Esquerda”… Na avaliação das cadeiras, para uma sociedade igualitária (…), as notas eram apenas “Apto” e “Não-Apto”, classificações que se mantiveram durante todo o 1º ano, não havia exames, e só existiam trabalhos em grupo, sem limite de alunos em cada grupo (…). Comigo aconteceu mais uma coisa interessante, na cadeira de Análise Matemática I (uma das matemáticas difíceis) quis formar grupo com uma outra colega que conheci na altura, e com quem as trocas de ideias iniciais nos faziam convergir na nossa visão do mundo, tendo sido ambos bons alunos no liceu. Assim, quando o Assistente pediu para formarmos grupos, eu fiz grupo com ela. Pouco tempo depois quando a lista dos grupos estava exposta no quadro, salta um dos colegas “controladores revolucionários” (estilo “chefe-de-turma”) e diz: “Esses dois não podem estar no mesmo grupo, e ainda por cima sozinhos, pois são bons alunos e tal criará uma grande desigualdade na turma, têm de ficar em grupos diferentes!…”. A minha colega ficou apavorada com a situação (e eu também…), mas acalmei-a e disse-lhe: “Isto resolve-se facilmente”. Enquanto todos dialogavam para resolver a situação fui falar com o “chefe-de-turma” e propus-lhe que eu e a colega ficássemos juntos, mas convidei-o a fazer parte do grupo e para além disso convidaríamos uma outra colega formando grupo os 4. Ele aceitou logo (!), e rapidamente se esqueceu do que tinha imposto antes quanto à nossa separação. Assim, fez Análise I e II facilmente…enquanto eu e a colega (que é uma professora de topo mundial) colaborámos até ao final do curso. Um outro pormenor curioso, a Cantina era no edifício da Associação de Estudantes, ao almoço a fome era muita depois das aulas desde as 8h, e havia uma grande fila, esperávamos à volta de 30 a 40m, e escutávamos sempre as mesmas músicas revolucionárias Chinesas (!) (sinal premonitório…), interrompidas de vez em quando pelas “Quatro Estações”, de Vivaldi (única diferente). Esta música abre-me o apetite ainda hoje…Os 5 anos correram (1975-1980), as notas passaram a Apto Escalonado no 2º ano (A, B, C, D) e a partir do 3º/4º ano veio a normalidade com testes, exames e notas (0-20), alguns professores regressaram doutorados, dos Estados Unidos, e da Europa, e a Associação de Estudantes evoluiu da “Ultra-Extrema-Esquerda” no 1º ano para a “Direita/Extrema-Direita” (…) no 5º ano! Assim, a 20 de Outubro de 1980, há 40 anos atrás, lancei os 5 foguetes comemorativos da conclusão do curso de Engenharia Electrotécnica! Interessante, que Samora Machel desapareceu no dia anterior em 19 de Outubro, mas de 1986. Soares e Machel, ambos Presidentes, influenciaram significativamente o desenvolvimento dos 2 países e deixaram a sua marca numa geração de Portugueses e Moçambicanos.

No regresso a Portugal, em 1983, o meu Pai foi trabalhar no grupo Amorim & Lage, numa grande Moagem na Maia, no Porto (voltarei ao Porto também mais tarde), onde produzia outra farinha famosa, a “Milaneza”, local onde se reformou em 1997. Um detalhe interessante, já recentemente, este grupo associado a outros parceiros fundaram a Cerealis que é a maior empresa nacional na área de produtos alimentares (Farinhas e Massas) agrupando as duas marcas “Nacional” e “Milaneza”!

Nestes anos, a ligação a Moçambique foi ténue, mas a Memória e a Saudade foram fortes!

 

Rui Martins.

Macau, 9 de Outubro de 2020

P.S. – Escrevi este artigo no dia dos anos de mais uma pessoa importante na minha vida, a minha Mãe, que fez 87 anos, responsável por ter estudado e praticado Piano entre os 6 e os 18 anos, ainda pensei seguir Música, em vez de Engenharia, mas decidi-me por esta última, tendo abandonado por completo a primeira. Um outro colega do Liceu (Miguel Henriques) teve uma opção diferente e é actualmente o Director da Escola Superior de Música de Lisboa, no Instituto Politécnico de Lisboa. Tenho ainda hoje esse “bichinho no corpo”. Após 40 anos de carreira académica, espero ansiosamente reformar-me em breve e voltar ao Piano!

 

 

Assim, do nada, se fez o silêncio. Condoído e melancólico. Inexplicável. No mês do professor, terminava uma viajem que parecia infinita, duma das mais profícuas e renomadas professoras que a própria Universidade Pedagógica ajudou a professorar. O vocabulário da exaltação será sempre restrito e, quiçá, repetitivo para expressar a temporalidade, a dialéctica de metamorfoses, a viagem, e o erudito. As melhores expressões se converteram em lágrimas. Uma dor profunda e uma comoção abrasiva.

Para trás, e neste cenário de incredulidade, ficou um percurso de tantos, e essenciais, livros e outros textos conjuntos e colectâneas de natureza e conteúdo académico e educativo e, acima de tudo, uma história que passou tangencialmente, ou na profundidade, pela história de outros tantos estudantes, docentes e curiosos.

E nesse instante, terminou uma fascinante aprendizagem, cuja intenção se associava a disponibilidade para olhar o mundo que nos envolve, saber escutar e, sobretudo, caminhar junto da natureza no universo das suas diferentes formas.

No ano em que a Universidade Pedagógica de Maputo, mais extensa ou confinada, celebra o seu 35º aniversário, a nossa professora Stela Mithá Duarte, também se aproximou das 35 publicações, dos 35 estudantes que orientou, das 35 conferências que organizou, dos 35 cantos da universidade que amou e dos 35 tectos que edificou. Essa, a marca do reconhecimento e da grandeza de um talento que, indelevelmente, ficará para os anais desta instituição que são o produto da revolução do 25 de Setembro, das vitórias e dos sacrifícios da independência nacional, da coragem e bravura dos melhores filhos desta pátria.

Celebramos os 35 anos de uma universidade que, na sua dimensão territorial, regional, cultural, educacional e científica, uniu e formou moçambicanos de todas as raças e etnias, das classes sociais mais desfavorecidas, das classes médias e abastadas, estrangeiros, e primou por manter presente essa busca incessante pelo conhecimento, pela pesquisa e pela extensão. A professora Stela formatou esse restrito grupo movido pelo ideal do olimpismo universitário que procurou ensinar mais, publicar mais e elevar o brilho de um país que procura o seu reencontro.

Nesta ode, não são as memórias ou as fases institucionais mais importantes, que devem ser restauradas. Serão antes, as energias que ao longo dos anos preencheram suas alegrias, os dissabores que a entristeceram, os debates que acalorou e, principalmente, as virtudes que foi estimulando e que engrandeceram este longo percurso que ainda terá de ser palmilhado. A professora Stela era essa líder. Serena e resguardada, que sabia orientar e iluminar as mentes mais controversas e brilhantes.

Devolvemos o seu corpo à terra no dia do professor, na semana onde as festividades se confrontam com as vicissitudes, nos momentos em que um país inteiro é chamado à reflexão, como se as nuances educativas continuassem desconhecidas ou carecidas de debates. E sob a capa da chuva miúda e teimosa, transformamos o seu corpo em cinzas. Essa cinza, do seu corpo, que é conhecimento e que vai descer rio a baixo, por toda a extensão do Zambeze, contemplando a Chupanga de David Livingstone e desaguando nas ensobradas águas do Índico. Esta foi a sua vontade, e estas cinzas também são a história. O Zambeze se converte no rio de todas as nossas emoções.

O Zambeze se transformará num rio de energias e conhecimento secular e, igualmente, num rio universitário. As águas que nos roubaram uma companheira sóbria, destinta, amiga de todos e companheira de todas as ocasiões.

Ninguém te pede para repousares em paz, professora. Os verdadeiros professores não repousam. Não podem repousar, enquanto existirem pesquisas para escrever, enquanto não nos reconciliarmos como moçambicanos, enquanto existirem crianças e adultos analfabetos, enquanto os tabus superarem a ciência, enfim, enquanto os dissensos forem bem maiores que os consensos. A professora Stela partiu como viveu. Comungou o espírito de reconciliação. Nasceu muçulmana, cresceu católica e hindu. Na hora da partida, comungou estas três religiões, para que a sua alma pudesse partir reconcialiada. Apenas o seu corpo deixou de estar no nosso seio. (x)

 “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.”
José de Almada Negreiros (1921). In A Invenção do Dia Claro. Lisboa: Olisipo .

“Antigamente / (antes de Jesus Cristo) / os homens erguiam estádios e templos / e morriam na arena como cães. // Agora… / também já constroem Cadillacs.”

José Craveirinha (1974). “Civilização”. In  Karingana ua Karingana, Lourenço Marques: Académica.

 

Intróito

Começo o meu texto citando dois poemas que, em meu entender, respondem à grande incógnita que nos reúne em torno do assunto de um dos paineis da Feira do Livro de Maputo, edição 2020. O tema é “Dialécticas literárias em tempos de crise: que ideias para o futuro?”.

São as dúvidas e o medo sobre o tempo vindouro que inspiram o nosso diálogo. São estas questões nunca respondidas, desde que o mundo existe e que não terão uma solução com as intervenções nesse debate. Entretanto, cada um dos participantes tecerá considerações éticas, com as quais, certamente, acredita que podem ajudar a enfrentar o que nos espera, mas nenhum dos painelistas trará uma fórmula acabada. Isso não tem sido possível, tal como ilustram os poemas e tal como temos vivenciado. Ambos os textos revelam que ainda há muito a se fazer pela humanidade e pelo futuro. Por outras palavras, temos que ir cuidando da humanidade para a salvar. Mas o trabalho será sempre inacabado.

 

Pressupostos

Será, também, a partir do pensamento de Edgar Morin (2002), de Zygmunt Bauman (2007) e de Yuval Noah Harari (2020), que tentarei construir o meu pensamento. Morin, porque nos sugere como o futuro pode ser gerido em termos educativos;  Bauman, por nos alertar para a gestão da incerteza e da utopia que é a vida ou o conhecimento sobre o mundo. Em síntese, ambos os autores se referem, nas suas obras, às questões do futuro. Encontrei, também, através de uma abordagem à obra de Yuval Harari, a ideia de que as escolhas que fizermos, actualmente, em relação à pandemia global do coronavírus, mudarão as nossas vidas futuras.  E é em função das ideias destes autores que elaborarei a pretensão de uma “sinfonia” na criação literária para os dias que vêm pela frente.

Em Os Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro, Morin (2002), aponta os caminhos que deverão nortear o ensino no século XXI, a saber: as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; os princípios de um conhecimento pertinente; ensinar a condição humana; ensinar a identidade terrena; afrontar as incertezas; ensinar a compreensão e a ética ao género humano.

No primeiro conceito, o autor alerta-nos para a importância de se ir construindo em permanência o conhecimento, para evitarmos ilusões. Quer dizer que o conhecimento nos transcende. E é, também, o que sugerem as epígrafes do presente texto. No segundo, há um convite para que o conhecimento seja apreendido em função de problemas globais, que depois possam ser particularizados localmente. Quer isto dizer que é importante estabelecer-se relações que permitam a leitura e a troca de informações de dados que sejam comuns, para depois os fragmentar em partes que possam responder a contextos específicos. O terceiro conceito confronta-nos com a dimensão humana, isto é, sobre o facto de o homem ser feito de múltiplas identidades: física, biológica, psíquica, cultural, social e histórica, que devem ser levadas em consideração no ensino, por serem indissolúveis e por coexistirem em toda a raça humana, ou seja, os homens são iguais e é preciso que isso esteja claro na contextualização local ou específica de cada fenómeno. Assim, chegamos à quarta premissa, na qual o autor nos sugere que uma crise de um país arrasta consigo todos os países, ou seja, a terra, no seu todo, é a nossa casa comum, os problemas de uns são os problemas de todos. Estes dois últimos paradigmas complementam-se.  E com o quinto, somos convidados a abandonar as concepções deterministas sobre o mundo, dado que não há como predizer o futuro. Seguindo para o sexto ponto, somos ensinados sobre a necessidade de aprender a compreendermo-nos como humanos, há que ultrapassar a barbárie, a xenofobia, os desprezos,  os racismos, etc.  De alguma forma esta noção surge como alicerce para a compreensão do quarto paradigma. No sétimo somos chamados para a urgência de sermos democráticos. A nossa condição de indivíduos numa dimensão ternária: espécie-sociedade-indivíduo, que, para além de nos conceder uma autonomia individual, cobra-nos em obrigações pessoais, por um lado, e sociais, por outro, para com a espécie humana.

Há em síntese, na concepção deste autor, a ideia subjacente de que o futuro é uma incógnita que deve ser abordado, considerando a ideia de unicidade da espécie humana que habita um lugar comum que é a terra e que, para além das preocupações individuais, há a necessidade de se estabelecerem trocas e conhecimento, uma vez que, por serem seres pluri-identitários, os Homens devem, cada vez mais, cultivar valores éticos, de compreensão, de cidadania, que sejam democráticos, visando proteger o planeta e a sua espécie. Os determinismos são um fenómeno falho na sua essência. O devir é árduo.

A questão da incerteza é também estudada por Bauman (2007:100), na sua obra Tempos Líquidos, no capítulo que aborda a utopia e a incerteza. Segundo o autor, foi no séc. XVI “que as rotinas antigas e aparentemente eternas começaram a se desintegrar”. E foi nessa mesma altura em que, a partir de Sir Thomas More, se começou a utilizar a palavra utopia, para designar novos sonhos. Segundo explica o autor que tenho vindo a citar, significa, grosso modo: lugar bom e lugar nenhum. Entretanto, os seguidores de Sir Thomas More, conforme afirma Bauman, foram propalando a ideia de impossibilidade de se viver um mundo sem utopia. E a utopia na sua óptica é: “uma imagem de um outro universo, diferente daquele que conhecemos ou de que estamos a par. Além disso, ela prevê um universo originado inteiramente da sabedoria e devoção humanas.” (Bauman: 2007:102-103). E é um conceito encoberto de incertezas, com o qual se deve ligar cautelosamente.

As vidas dos seres humanos encontram-se entrelaçadas, conforme nos sugere Yuval Harari (2020), ao afirmar que, no contexto pós-pandemia, é importante que os planos económicos sejam feitos de modo global, uma vez que o problema é global. Segundo ele, deve existir solidariedade entre países pobres e países ricos. O seu ponto de partida é o de que as mudanças nos próximos tempos não terão apenas a ver com os sistemas de saúde mas, também, com a economia, com a cultura, com a política e com a ciência. A crise presente marca, certamente, uma nova era para as nossas vidas.

No entender de Harari, será uma era marcada pelo controle total dos cidadãos, porque se passará a viver num mundo digitalizado. Além disso, deverá haver uma escolha entre o isolamento nacionalista ou a solidariedade global, sendo que essa solidariedade consiste no facto de que os países desenvolvidos construirão soluções cientificamente aceitáveis para debelar o vírus, para a sobrevivência do planeta, para si próprios e para os países pobres e estes últimos, em nome dessa sobrevivência, outra escolha não terão, senão a de colaborar com a recepção de tais soluções.

É já sabido que a actuação do vírus pode ir mudando de foco, de países ricos para pobres e vice-versa. Entretanto, a ideia de se viver num mundo digital vigiado parte de ambas as partes: governo-indivíduos e vice-versa. Há nisso vantagens, segundo o autor. A par disso, o maior risco que se corre é ter de se confiar mais na ciência, do que em teorias da conspiração. E a troca de informação entre países será importante para o avanço desta.

 

Que futuro?: produção e recepção literárias

 Colocados esses pressupostos teóricos, parece-me que as “sinfonias” no âmbito da produção e da recepção literárias passarão, certamente, por adoptarmos algo que temos vindo a repudiar há alguns anos: o contexto digital. Mas é necessário haver  sistematização e massificão do conhecimento, e para que tal aconteça, num país como Moçambique, temos de nos preparar para um processo demorado, dado que o ingresso às tecnologias e aos dados digitais ainda é um problema por ser resolvido.

No que à literatura e ao acesso ao livro diz respeito, basta pensamos que os nossos maiores arquivos literários, a Biblioteca Nacional de Moçambique (Cfr. O País, nr. 4112185, pg. 13, de 01 de out. 2020), em Maputo, e a Brazão Mazula, da Universidade Eduardo Mondlane, não têm todas as entradas bibliográficas digitalizadas em catálogos. Ora, se essas são as maiores, de referência não só pelos tamanhos, como pela dimensão dos seus acervos que contêm, o que será das restantes existentes no país? Além dessas instituições de alto gabarito, a Rádio Moçambique, ao comemorar os seus 45 anos de existência, este ano, segundo referiu um dos seus representantes (Cfr. jornal domingo, nr. 1990, pg. 15, 04 out. 2020), um dos grandes desafios que ainda enfrenta é a digitalização da sua informação e o uso de tecnologias de difusão actualizadas à presente era.

Além disso, em Moçambique têm estado a operar, entre outras as seguintes editoras ou braços editoriais: Alcance, Brinduka, Trinta Zero Nove, Selo Jovem, Índico, Escola Portuguesa de Moçambique, Xidjumba, Oleba, Fundza, Fundação Fernando Leite Couto, Gala-Gala, TDM e FUNDAC (que não o sendo, publicaram obras resultantes dos seus concursos literários), Cavalo do Mar, Ethale Publishing, Ndjira (actualmente integrada no Grupo Leya), MOLIJU, Literatas, AEMO, JV, Plural, Chil, Kuvaninga – Cartão d’Arte e Imagem Real. Deste conjunto, apenas a Trinta Zero Nove e a Ethale Publishing é que se encontram representadas na Feira do Livro de Frankfurt, edição de 2020.

É uma feira criada a 18 de Setembro de 1949 e tem sido amplamente publicitada. Este ano, foi eminentemente digital, dada a emergência sanitária que o mundo atravessa. Da entrevista que fiz a alguns representantes de editoras, contatei que a possibilidade de participar nessa feira, passava por ter uma Banda larga de internet suficientemente potente e capacidade para digitalizar materiais ou de os colocar em arquivos digitais. Por consciência de que muitos países não teriam essa possibilidade, a organização da feira abriu a possibilidade de algumas editoras serem formadas para o efeito, conforme o referiu, Sandra Tamele, editora na Trinta Nove Zero, em entrevista datada de 15 de Outubro, na qual referiu:

“Eu e mais 19 jovens editores estamos a participar do programa de bolsas e a usufruir de formação sobre direitos, metadados e digitalização do negócio. Não porque não tenhamos capacidades, mas reconhecem que nadamos contra a corrente em mercados sem leitores estabelecidos ou onde são poucos. Tenho a mesma abordagem das grandes editoras, a escala é que é muito diferente”.

Esta constitui a solidariedade necessária de que fala Yuval Noah. Portanto, embora a Trinta Nove Zero não seja tão carente, maior parte das editoras moçambicanas, apenas pôde assistir ao que os outros faziam na feira, sem poder participar, tendo se perdido uma possibilidade de publicitar a produção literária ou a possibilidade de tradução de mais autores.

No contexto do que acabei de mencionar, não descuro, entretanto, a colocação de Rosário (2014), no seu texto O livro como fonte do saber na era digital, que é importante ter em consideração a ideia de que o acesso ao conhecimento pode-se processar de diversas maneiras, não apenas através do livro, como também através da palavra oral, derivada do conhecimento sistematizado de geração para geração e dos formatos digitais como vídeo-jogos, entre outros acervos digitais. O que, nos dias que correm, em que a informação se multiplica e se modifica a todo o momento, não é suficiente.

Em Moçambique, quanto a nós, e tanto quanto se pode constatar, ainda carecemos de acesso ou criação de acervos digitais. Da entrevista feita a Sandra Tamele, acima referida, a mesma afirmou:

Gosto de pensar que a internet e todas as plataformas de comunicação digital são o nosso bilhete para viajar e chegar a outros mercados, oportunidades e talvez até leitores. Este ano tem sido difícil e exigiu muito dos organizadores das feiras. É uma lufada de ar fresco ver Frankfurt totalmente digital depois do cancelamento de Bologna, Londres e Liepzig. Tenho aprendido muito com colegas do México, Brasil, Espanha e África do Sul sobre formatos de livros inclusivos, soluções de logística e até refinamento da imagem e marketing da ETZN (3009), portanto faço um balanço muito positivo.

A questão que se coloca e que me parece ficar por resolver, quanto a isso em Moçambique é que o domínio acabado de referir é de uma quantidade ínfima da população e, consequentemente de editoras.

Aliado a esse facto, existe ainda a desvantagem confirmada de que o acesso ao livro, tanto digital, quanto físico, é ainda um grave problema e que, por essa e por outras razões, a literatura não é um fenómeno de massas. No entanto, é ponto assente que, se por um lado, já nos apropriamos da utilização do livro digital, por outro, ainda existe quem o negue, a pretexto da sedução pelo folhear do livro e do cheiro do papel.  Acresce a tudo isto a dificuldade de ligação ao livro digital, pelos motivos já apontados.

Uma grande discussão, no concernente à passagem para o ambiente virtual, coloca-se quanto à recepção de obras literárias. Haverá ou tem já estado a acontecer uma migração (necessária) para se criar hábitos de leitura de livros digitais? As feiras do livro já são realizadas em ambientes virtuais, referimo-lo anteriormente e está a acontecer na presente edição da Feira do Livro em Maputo (existem vendas de livros on line, bem como, estantes virtuais); o acto de contar histórias e os clubes de livro, já decorrem em ambientes virtuais, os concursos literários e as oficinas de literatura já têm lugar no ciber-espaço. Os lançamentos de livros ou webinares em torno do livro e da Literatura, também.

Em meu entender, para que a assinatura de autógrafos passe a ser realizada virtualmente, basta que o autor do livro escreva o texto-autógrafo nesse ambiente e que digitalize a sua assinatura, para que esta possa ser colada no livro de quem pede o autógrafo.  Encontramo-nos a um passo muito curto para lá chegar. Mas, é claro, que muitos ficarão de fora.

Ainda no que respeita aos hábitos de leitura, há, em ambientes virtuais mais avançados, a possibilidade de, com recurso a uma caneta digital, podermos marcar ou sublinhar os livros digitais ao lê-los. A releitura necessária ao livro passará por esse processo. Marcadores de livros não faltarão, porque essas canetas têm a possibilidade de colorir as telas digitais.

O grande problema que se colocará, e que já existe relativamente à recepção do livro, é o acesso ao mundo digital. Para além de a literatura já ser um fenómeno burguês, tendencialmente sê-lo-á ainda mais, pelo facto de que o acesso à internet ainda o ser. Então teremos que trabalhar a inclusividade, posto que a exclusão digital é um dado adquirido, quer para os países em vias de desenvolvimento, quer também para os países desenvolvidos, ainda que de uma forma mais branda. Há que estudar novas formas de acesso à Literatura.

A harmonia digital já é uma realidade para a maior parte dos escritores no mundo. É ínfima a quantidade de escritores que ainda escrevem à mão. Os livros hoje são todos produzidos (escritos e impressos) em ambientes digitais. Existem ainda os áudio-livros. Portanto, do ponto de vista da produção literária, já podemos afirmar que grande parte dos países ou dos escritores se encontram a trabalhar em ambientes digitalizados.

Ainda do ponto de vista da produção literária, seremos convocados a aprender com Morin, quando nos alerta para a ideia de vivermos numa casa comum e de sermos da mesma espécie humana e que, por isso, precisamos de aprender a nos compreendermos e a nos protegermos, para além de ser importante expandir ideias de democraticidade, para uma melhor cidadania. Assim, a Literatura será chamada a re-educar o mundo. Será convocada a (re)escrever temáticas que sugiram ou que façam representações que estimulem uma maior solidariedade para a preservação da espécie humana, bem como a um maior intercâmbio na solução de problemas, visto serem os mesmos, ocorrendo algumas excepções derivadas de cada contexto político, económico, cultural e geográfico. Haverá que se estabelecer um equilíbrio entre uma Literatura universalizante, que aborda questões comuns, mas também a localista, que assinala determinadas particularidades contextuais.

Quanto à representação de objectos simbólicos, a literatura sempre escreveu sobre o passado, o presente e o futuro, isso não me parece que mudará. Provavelmente, considerando as ideias de Morin, Bauman e Harari, mude a perspectiva, a partir da qual se analisa ou se representa a constância de fenómenos sociais no mundo. A certeza ou o determinismo relativo a alguns acontecimentos será ou já se encontra modificada, uma vez que as cartografias geográficas se encontram alteradas. O clima mudou, a vida passará a ser mais digital do que em presença, as relações humanas mudarão, a gregaridade do ser humano passará a ter novas abordagens; o mundo tornou-se uma aldeia global na qual os problemas se encontram interligados. A sociedade precisará de ser (re)educada para essa nova abordagem e a literatura tem um grande papel a desempenhar nesse processo. Mas ficarão em desvantagens países como Moçambique, nos quais a tecnologia ainda é um entrave; o que não significa que se deixará de escrever. Mas a literatura continuará restringida a uma circulação muito circunscrita. Se já existiam excluídos, haverá ainda mais.

A literatura poderá, ainda, trabalhar as representações simbólicas que ajudarão a humanidade no acolhimento das novas descobertas científicas. A par disso, coexistirão ainda no país, por muito tempo, a produção e a recepção de literatura em formato digital e físico. As escolhas que fizermos, a longo prazo, ditarão o lugar no qual o país se colocará. Entretanto, grande parte da mudança será ditada pelo poder económico e pela vontade política, sendo estes poderes a decidirem se o livro, e por consequência a literatura, sejam, ou não, objectos de primeira necessidade. A resposta a isso ainda se coloca no âmbito da incerteza.

O suposto “lugar bom”, actualmente, é o ditado pelas novas tecnologias. É para lá que o mundo se encontra a migrar, com dificuldades e com exclusão ou não. É para Moçambique “lugar nenhum”, a julgar pela presente condição de info-excluidos, ressalvando o iniciado trabalho da Trinta Nove Zero, na produção de livros em brile; pelo que, uma “sinfonia” literária ainda carecerá de percorrer um longo caminho. A presente feira de livro digital, com todo o esforço que foi feito, incluindo os investimentos que foram necessários, não passa de um evento para burgueses.

 

Referências Bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt (2007). Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Zahar.

HARARI, Yuval (2020). The word after coronavirus. Finantial Times. March.

MORIN, Edgar (2002). Os Sete Saberes para a educação do futuro. Lisboa: Instituto Piaget.

ROSARIO, Lourenço (2014). O Livro como fonte do saber na era digital. In Singularidades III. Maputo: Alcance.

LAISSE, Sara. Entrevista a Sandra Tamele – sobre a participação de editoras moçambicanas na feira do livro de Frankfurt, edição de 2020.

 

*Sara Jona Laisse, docente na Universidade Politécnica. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

Eu tenho cá para mim que os grandes booms literários acontecem sempre em tempos de grandes crises. Estes ocorrem justamente quando a literatura, pela sua natureza, busca retratar, relacionar, estabelecer rupturas, ou mesmo consertar dialecticamente as fissuras do mundo. E tenho dito, inclusivamente, que, para a literatura, tal como a própria vida nos ensina, todos os tempos são tempos de conturbação, de contrariedades, tempos estonteantes. No entanto, não importa se tais crises são de cariz político, económico ou social, ou simplesmente se são de índole emocional, existencial, identitário, climático ou epidemiológico, como a doença que a humanidade enfrenta neste momento, desde que esses tempos nos possam emprestar algumas reminiscências de esperança e felicidade, no plano individual ou colectivo.

E se olharmos para a própria história da literatura, encontraremos exemplos que atestam, em certa medida, o meu raciocínio. Temos o caso da “Geração Perdida” que, face às crises geradas pela primeira guerra mundial e, logo a seguir, pela recessão, produziu alguns dos grandes nomes da literatura do século XX. Aqui podemos trazer, à guisa de exemplo, Ernest Hemingway, John dos Passos, William Faulkner, entre outros.

Um pequeno extracto de “SARTORIS” de William Faulkner:

“… e desde que a essência da Primavera é a solidão, uma vaga tristeza e um sentimento de frustração atenuado, suponho que se consegue uma purificação mais profunda quando se lhe acrescenta um pouco de nostalgia como preventivo. Em casa encontro-me sempre a recordar as macieiras ou azinhagas verdejantes ou a cor do mar noutros sítios e entristece-me não poder estar em toda a parte ao mesmo tempo e que a Primavera não seja toda a mesma Primavera, como a boca das senhoras, de Byron.”

(In “SARTORIS”, 1958, EDITORA ULISSEIA, pg. 393)

Outrossim, temos a geração do pós segunda guerra mundial (a que eu chamo de geração da Guerra Fria), onde encontramos escritores como Sartre, Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marques, Júlio Cortázar, Wole Soyinka, entre tantos outros.

Ilustremos aqui com um poema de Pablo Neruda:

Poema 5.

I

É a manhã cheia de tempestade

No coração do verão.

Enquanto lenços brancos de adeus viajam pelas nuvens,

O vento os sacode com as mãos que viajam.

Incontável Coração do Vento

batendo no nosso silêncio apaixonado.

Zumbindo entre as árvores, orquestral e divina,

como uma língua cheia de guerras e canções.

Vento carregando a serapilheira rapidamente

e desvia as flechas dos pássaros.

Vento que o derruba numa onda sem espuma

e substância sem peso e fogos inclinados.

Quebra e submerge seu volume de beijos

lutou na porta do vento do verão.

(In “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”, 1924)

No caso de Moçambique, podemos anotar os precursores da literatura moçambicana, como são os casos de Rui de Noronha, Noémia de Sousa, José Craveirinha, Luis Bernardo Honwana, entre outros, que são produto da resistência colonial, da contestação da dominação estrangeira em Moçambique. Alguns destes até são transversais aos períodos críticos subsequentes, como os da luta de libertação nacional e do pós-independência, períodos esses caracterizados por grandes transformações políticas, económicas e sociais.

Vejamos este poema “África, surge et ambula” de Rui de Noronha:

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.

Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo…

O progresso caminha ao alto de um hemisfério

E tu dormes no outro sono o sono do teu infindo…

 

A selva faz de ti sinistro eremitério,

onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo…

Lança-te o Tempo ao rosto estranho império

E tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo…

 

Desperta. Já no alto adejam corvos

Ansiosos de cair e de beber aos sorvos

Teu sangue ainda quente, em carne sonâmbula…

 

Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno…

Ouve a Voz do teu Progresso, este outro Nazareno

Que a mão te estende e diz-te: — África, surge et ambula!

(in «Literatura moçambicana: as dobras da escrita», de Fátima Mendonça -2008)

Ou este de José Craveirinha:

Grito Negro

 Eu sou carvão!

E tu arrancas-me brutalmente do chão

e fazes-me tua mina, patrão.

Eu sou carvão!

E tu acendes-me, patrão,

para te servir eternamente como força motriz

mas eternamente não, patrão.

Eu sou carvão

e tenho que arder sim;

queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão;

tenho que arder na exploração

arder até às cinzas da maldição

arder vivo como alcatrão, meu irmão,

até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão.

Tenho que arder

Queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!

Eu sou o teu carvão, patrão.

(In “Karingana Ua Karingana, 1982)

Já no período pós-independência registamos ainda o surgimento da geração “Charrua” da qual eu próprio faço parte, que se faz à luz na década 80 do século XX, emergindo de um contexto histórico particularmente conturbado para Moçambique. Este movimento literário não se circunscreve somente aos fundadores da Revista com o mesmo nome, como Hélder Muteia, Juvenal Bucuane, Ungulani Ba Ka Khosa, Tomás Vieira Mário, Eduardo White, Pedro Chissano, Idasse Tembe, pois alarga-se igualmente aos escritores como Paulina Chiziane, Aldino Muianga, Suleiman Cassamo, Filimone Meigos, Marcelo Panguana, Carlos Paradona, entre outros, cujo feito principal foi a ruptura estético-temática, com o que então estava em voga como, por exemplo, a chamada literatura laudatória e panfletária que, exaltando as conquistas revolucionárias, descurava, por assim dizer, o lado estético da criação literária.

Eis aqui um excerto de “UALALAPI” de Ungulani Ba Ka Khosa:

“(…) Mas ficai sabendo, seus cães, que o vento trará das profundezas dos séculos o odor dos vossos crimes e viverão a vossa curta vida tentando afastar as imagens infaustas dos males dos vossos pais, avós, pais dos vossos avós e outra gente da vossa estirpe. Começareis a odiar os vossos vizinhos, increpando-os pelos males que padecerão nas palhotas sem idade (…)”

(In “UALALAPI”, 1987)

Escutemos também este poema de Juvenal Bucuane:

RECUSAM

 Recusam

que esta flor desabroche,

deflagre de esplendor

e encha os olhos do mundo de espanto!

 

Adiam apenas

a explosão telúrica

destas pétalas recalcadas…

Abrir-se-ão cheias de cor

num dia de sol!

 

(In “REQUIEM com os olhos secos”, 1987)

E este de Eduardo White:

Da Ínfima gota

 A tarde se destende toda nua

Unicamente no pó ou nas coisas que me bastem

Então, eu me afasto despido e tão evidente

Como a límpida clareza do grito

 

E sou de repente

A ave apedrejada

A ave ferida

Com as asas largas

Largas e compridas

Fugindo célere ao arremesso.

 (In “AS PALAVRAS AMADURECEM”, CADERNOS “DIÁLOGO”, 1988)

Embora não fazendo parte do grupo “Charrua”, eu incluo também Mia Couto, Calane da Silva, entre outros, cujas obras traduzem, em grande medida, aquilo que sustento nesta alocução. A geração “Charrua” versus geração “80”, como um todo, reflectiu e muito bem, nas suas obras, a crise desses anos, caracterizada fundamentalmente pela escassez de quase tudo, pela desestruturação social, consequentes dos 16 anos de guerra civil.

Mais adiante encontramos ainda as gerações literárias pós “Charrua”,  isto é,  as da década 90 do século XX, e posteriores, que comportam autores que, sendo regulares em termos de publicação, deixaram traços dessas crises nas suas obras, tais como Adelino Timóteo, Sangare Okapi, Aurélio Furdela, Lucílio Manjate, Rogério Manjate, Mbate Pedro, Japone Arijuane, Hirondina Joshua, Álvaro Taruma, entre outros. Estes são alguns desses autores que nas suas obras estão patentes marcas da busca duma identidade nacional, das contrariedades da vida, dentre as quais, as das guerras sucessivas que o país tem vindo a experienciar na sua história recente.

Aqui temos um poema de Adelino Timóteo:

1.

Reparo no amor com virtude de um pássaro

que quer voar em direcção

à larga linha do horizonte,

com tanta gente aqui neste país que o anuncia

e o desperdiça a feri-lo em disputa,

a magoá-lo, a alvejá-lo,

quando o mesmo pode ser uma dilecta criação do peito.

Um amor por si, vale tanto,

vale mais que nada, vale tanto como a vida,

exprime a cor da sua sede,

ao alto dois pássaros a voar.

O amor não merece as pedras

que todos os dias lhe atiramos.

Em vez de acusares a inconstância com que o invocas,

se amas, e não te correspondem,

desde já não lhe ponhas freios,

não uses travões nem borracha.

Pelo Contrário,

desse pouco lucro que te dão as estrelas

contenta-te até,

que o amor é assim mesmo,

sempre a transportar a dor ao âmago.

(In “Os segredos da arte de amar”, 1998)

E ainda do Japone Arijuane:

1.

O machuabo em mim

não é senão um

matchangana disfarçado

a sonhar-se makonde

com engenho da sua arte

se esculpir ndau

n’siro na fé

pintar a crença makwa

adormecida nos chewas,

nyungues e yaos

da minha diáspora.

(In: ”Dentro da pedra ou a metamorfose do Silêncio”, 2014)

O substracto comum nas literaturas produzidas por estes e outros escritores de diferentes gerações e espaços geográficos, em tempos de crise, é o de estabelecer permanentemente rupturas com o seu tempo. Tal como afirma o brasileiro Leomir Cardoso Hilário: “… a negação do mundo vigente abre espaço para a possibilidade de outro mundo. Com esta noção, pretendo reafirmar, no quadro histórico actual marcado pela crise estrutural, a especificidade, potencialidade e relevância da literatura para a produção de uma crítica radical do presente”. O futuro da literatura estará sempre associado aos processos históricos dum país, em particular, ou do mundo, em geral. Eu penso que, sem turbulências sociais e existenciais, pode ser difícil produzir-se literatura, tal como a concebemos. Falo de turbulências visíveis e invisíveis, duas dimensões das crises, a partir das quais o escritor descreve ou reinventa o seu mundo. Vale então sublinhar e prognosticar que a literatura continuará associada ao compasso dos processos e realidades sociais. Assim foi, assim é, e assim será sempre, pois essa é a razão pela qual ela se realiza, consequência directa ou indirecta da perfeita imperfeição do mundo em que vivemos. Quero crer então que a partir de 2021, em Moçambique e noutros lugares do mundo, testemunharemos grandes bums literários, como corolário da grande crise epidemiológica , causada pela doença designada por Covid-19.

 

* Intervenção do autor sobre o tema em referência no quadro da Feira do Livro de Maputo.

 

Livre directo, pouco depois da linha do meio-campo. Luís, no auge da sua forma, dobra os calções e toma balanço, gerando expectativa. Os adversários desconfiam. Será que dali, vai rematar directo? À confiança, fazem a barreira. O bombardeiro arma o remate e “solta” a bomba. O guarda-redes tanzaniano, de tanto espanto sorri, enquanto recolhe a bola no fundo das redes. Foi este homem que acabou de deixar o convívio dos vivos.

Estamos em Dar-Es-Salaam, Março de 1978. Simba-Costa do Sol. Jogo ao início da noite, com luz artificial. Resultado na altura: zero-a-zero. Com a conversão daquele livre, o avançado canarinho tornou-se a estrela no dia da vitória canarinha. O público e os adversários, ficaram espantados. Alguns colegas correram a felicitá-lo, outros nem por isso, pois já estavam habituados aos remates do pé-de-canhão, sobretudo nos treinos.

ESTRELA NO MEIO DE ESTRELAS

Viviam-se os tempos áureos do Costa do Sol, o ex-benfiquinha. Martinho de Almeida tinha conseguido montar um time jovem, que através do seu valor, ia substituindo algumas das estrelas tradicionais do clube, como Moiana, Ibraimo e Afonso Eusébio.
A nova vaga era composta por Nito, Gil, Ramos, Sergito, Caldeira, Artur Semedo e, naturalmente, Luís Siquice, uma estrela no maior esquadrão futebolístico que surgiu no pós-Independência, conquistando dois títulos seguidos: 1979 e 1980.

O nosso personagem poderia ter sido um dos maiores futebolistas moçambicanos no pós-Independência, muito por conta da força do seu excepcional pontapé. Sobretudo de bola parada. O destino assim não quis.  Desde a sua juventude, quando surgissem pontapés livres, alguns colegas queriam que ao invés de rematar, ele enviasse a bola a “pingar” para a área. Diziam: é longe. Pinga lá”. Mas Luís chutava e a bola entrava.

Importa porém referir que o dianteiro canarinho tinha outras capacidades e características. Não era um homem de “viver” no interior da grande área, mas aparecia para fazer miséria, através das imprevisíveis acelerações, ou dos seus pontapés de surpresa. O apogeu foi atingido muito cedo. Alto, a rondar o metro e oitenta, espadaúdo, não virando a cara à luta, travou duelos interessantes com os centrais contrários, que se viam com dificuldades para marcá-lo, pois actuava ao estilo “vagabundo”.

Juntamente com Artur Semedo, em 1977 foi convidado “a saltar o arame”. Não para a África do Sul, mas para Portugal. Houve troca de correspondência mas o pai não o deixou sair. Depois veio a lesão.

A 21 de Agosto de 1978, jogou pela Selecção Nacional pela primeira e única vez, no Estádio da Machava, diante de Cuba. Pelo nível de exibições e desequilíbrios que colocava nas partidas pelo Costa do Sol, esperavam-lhe muitas mais internacionalizações. Porém, esse sonho e provavelmente outros, acabaram por ser cerceados devido a uma gravíssima lesão, que reduziu claramente os seus atributos, particularmente a superior capacidade de fazer o gosto ao seu poderoso pontapé, que colocava em pânico as defensivas contrárias.
Como foi a lesão?

Aconteceu numa disputa de bola com Joaquim Gonçalves, do Sporting (hoje Maxaquene). Luís tinha invadido a área adversária e na altura em que já havia ensaiado o seu fortíssimo pontapé, o duro central adversário opôs-se, de pé em riste. O choque, apesar de violento, parecia sem grandes consequências. Puro engano. Acabou reduzindo as capacidades e a carreira do jovem avançado.

Ainda tentou continuar a jogar, arrastando-se, enquanto se submetia a tratamentos. Os nossos hospitais não possuíam aparelhos para diagnosticar com exactidão a lesão. Uns diziam que era no joelho.

Outros, menisco. A verdade é que não era nada disso. Foi uma ruptura de ligamentos. Soube-se mais tarde que se tivesse parado uns meses e com a tecnologia que existe hoje, teria voltado à ribalta. Foi jogando, esforçando-se, mas… não deu. As intervenções e tratamentos a que foi sujeito, no país e no estrangeiro, permitiram-lhe um regresso aos campos, mas sempre receoso em meter o pé.

No Costa do Sol, passou a alternar a titularidade. Jogava a coxear, denotando grande empenho, mas era visível a redução das suas faculdades. Sem jogar regularmente nos canarinhos, aos 21 anos, transferiu-se para o Maxaquene, tendo jogado durante uma época.

Cedo, muito mais cedo do que o futebol moçambicano merecia, Luís teve que pendurar as chuteiras, quando os voos que lhe estavam pré-destinados eram bem altos. Ao despedir-se, ficou na retina de quem o viu actuar, a potência e eficácia do seu fortíssimo pontapé.

Recordemos: falta assinalada na zona do meio campo. Luís ajeitava a bola no pelado ou relvado. Tomava balanço. Cinco/seis passos para trás. Olhava para a baliza. Ajeitava os calções. Dava entre três a quatro biqueiradas no chão. Arrancava para a bola e chutava com tremenda violência e imenso jeito. O resto ficava à responsabilidade dos locutores e comentaristas desportivos que cobriam o evento.

Pois foi esta ex-estrela do futebol nacional que nos deixou. Uma referência dentro e fora dos campos. Um bom jogador e um bom homem. Foi-se o futebolista, ficou a sua obra! Descança em paz, Luís Siquice!

Quando você se apaixona por correntes de prata, você pode se apaixonar por correntes de ouro.

Você pode se apaixonar por belos estranhos e pelas promessas que eles fazem.

Dire Straits

 

 

Zaiby Manasse pode até ser um escritor pouco conhecido, mas já tem três livros lançados. Depois de O mel do meu passado presente (poesia – 2013) e Devaneios ensanguentados pela globalização (poesia – 2014), em Junho estrou-se como ficcionista com A caneta do balcão 1. Chancelado pela editora Kulera, a obra literária aduz uma história de amor entre Inácio e Felícia. Ambos se amam, no entanto, entre eles existe Ernesto, marido de Felícia, o maior entrave na relação entre os protagonistas. Ernesto é áspero e infiel, porém, para a família da esposa, isso nem é um problema, pois há um outro adjectivo a qualificar aquele vilão: rico. Por isso, sem qualquer limite, Ernesto ofende, humilha, viola e violenta a parceira sempre que o apetece. Logo à partida, está aqui uma história sobre realidades comuns, destacando-se personagens que se apaixonam por correntes de prata e por belos estranhos.

  1. Aspectos negativos

Bem ou mal, Zaiby Manasse tem fôlego para escrever uma história interessante. O escritor goza de boa imaginação e até consegue atribuir a pequenos acontecimentos relevância fictícia oportuna. O problema (grave) é a falta de consistência narrativa. Em A caneta do balcão 1 estão reunidos elementos que tornam o exercício do autor frágil. Honestamente, o livro não deveria ter sido publicado como está, com gritantes erros ortográficos ou atropelos à boa pontuação. Além disso, Manasse, muitas vezes, precipitou-se na urgência de aproximar os protagonistas. A grande consequência disso é simples: Inácio e Felícia encontram-se exageradamente em contextos dispensáveis, tornando alguns episódios supérfluos, principalmente quando o autor tenta introduzir imagens sensuais à história através de má selecção vocabular.

A caneta do balcão 1 tem um problema de verosimilhança acentuado, para um texto bem assente à realidade. Paralelamente, mesclam-se no mesmo universo diegético muita falta de apuro lógico aos encontros entre os protagonistas (em lugares e horários pouco prováveis, considerando o tipo de matrimónio de Felícia) e uma perspectiva redutora do narrador em relação às outras personagens. O princípio, o meio e o fim da ficção é Inácio e Felícia. Logo, o narrador desvaloriza, por exemplo, o passado de Ernesto, o que poderia até ajudar a compreender o seu carácter. Na verdade, o passado das personagens, neste livro, quando surge, é fugaz e próximo ao presente da história. Por conseguinte, a construção de Ernesto e da sua amante Cátia, importantes como vilões, falha frequentemente devido à essa urgência em aproximar os protagonistas.

Os diálogos entre as personagens também merecem atenção, devido à inconsistente elaboração discursiva. Neste aspecto, pode-se reparar no caso da velha Alzira, a avó de Felícia, ou nas intervenções dos familiares de Inácio. Faltou precisão, aquele toque mágico que cativa e deslumbra. Manasse poderia ter trabalhado mais as personagens (explorando mais as suas histórias), o discurso do narrador e investir em anacronias, por exemplo, pois isso impediria a ficção ser tão linear.

  1. Aspectos positivos

A representação do espaço é dos aspectos bem conseguidos em A caneta do balcão 1. Através do livro, percorre-se os bairros das cidades de Maputo e Matola, retratados como são, numa espécie de registo do lugar no tempo. Esta abordagem, de facto, é capaz de estimular alguma imaginação no leitor, levando-o a conhecer espaços reais através da ficção ou a repensar nesses mesmos espaços estando virtualmente distante.

No retrato do espaço não escapa à mira do narrador particularidades sociais quotidianas dos munícipes personificados pelas personagens. Nisso é possível observar-se o drama do transporte, as fragilidades do Sistema Nacional de Saúde, os comportamentos das ruas e dos lares moçambicanos. Não obstante, a escrita de Zaiby Manasse projecta elementos propícios para um debate sobre a tradição, a família e o lugar da mulher enquanto sujeito (que se pretende) emancipado. Felícia é um modelo de alma esclarecida, todavia encarcerada pelo fardo que a família a coloca nos ombros. Sem poder de escolha em relação ao homem com quem quer se casar, a personagem é obrigada a hipotecar a sua própria felicidade em troca do bem-estar dos seus. Nesta condição, a história de Manasse lança um alerta sobre que tipo de sociedade os moçambicanos estão a construir ao condicionarem o futuro das raparigas, quando são ensinadas a servir sem questionamentos. Na história, esta asserção tem uma consequência. Conhecendo a família, Felícia, mesmo agredida e humilhada pelo marido, resiste até ao limite à infelicidade, sem denunciar a violência.

Pecando em questões atinentes à forma, em A caneta do balcão 1 Manasse acerta na contextura ficcional aparentemente dedicada a um certo público literário, provavelmente menos preocupado ao rigor estético. Este não é um livro para satisfação de leitores exigentes. É daquelas histórias românticas juvenis, carregadas de fragilidades, é certo, mas que entusiasmam leitores com outro tipo de interesse narrativo.

A caneta do balcão 1 é uma história com peripécias rápidas, como que a acompanhar o ritmo da vida urbana actual, sobre a esperança e sobre o amor enquanto pretexto para a liberdade. Na narrativa, a solidariedade e o perdão são outras qualidades destacadas. Certamente, Zaiby Manasse sabe como vai o mundo materialista e, por essa razão, adiciona à sua ficção uma personagem que nunca desiste de amar, mesmo quando o amor parece impossível. Felícia carrega consigo os destinos de várias mulheres moçambicanas, condicionadas por uma falsa ideia de bem-estar. Felícia não se apaixona pelas correntes de prata e nem de ouro ao casar-se com Ernesto, como Cátia, mas por um belo estranho e pelas promessas que ele faz: Inácio. Neste sentido, há muitas lições enriquecedoras n’A caneta do balcão 1.

 

Título: n’A caneta do balcão 1

Autor: Zaiby Manasse

Editora: Kulera

Classificação: 11,5

 

O homem que desempenha um papel num acontecimento

histórico nunca compreende o seu significado.

Tolstoi

 

Quem se interessa por Líbano deve saber que há muito tempo que aquele território é alvo de vários interesses. Persas, romanos, otomanos e, mais recentemente, franceses, sírios e israelitas encontraram naquele país asiático um importante espaço para exercerem a sua influência política. Talvez, por isso, ao longo da sua história, os libaneses têm lidado com muita dor e consternação, enquanto tentam construir uma nação ideal.

Um dos momentos mais difíceis para o Líbano aconteceu entre 1975 e 1990. Nesses 15 anos de guerra civil, a opor cristãos e muçulmanos, morreram milhares de  pessoas e grande parte das infra-estruturas locais foram destruídas. Sete anos depois da guerra iniciar, em Junho de 1982, Israel invade Líbano, oficialmente, com a pretensão de acabar com os ataques da Organização para Libertação da Palestina (OLP). Esse movimento, na altura liderado pelo falecido Yasser Arafat, tinha no Líbano apoio das milícias muçulmanas e do exército sírio. Já os israelitas relacionavam-se com as Forças (cristãs) Libanesas, de Bashir Gemayel, que, curiosamente, tendo sido eleito presidente em Agosto de 1982, foi morto dias antes da tomada de posse num atentado à bomba reivindicado por um partido pró-Síria.

Este episódio é usado como pretexto por Israel para que o seu exército se desloque à parte Oeste de Beirute, de maioria muçulmana, oficialmente para evitar qualquer tentativa de desforra em relação à morte de Gemayel. Entretanto, milicianos cristãos libaneses, com o apoio do exército israelita, invadem os campos de refugiados palestinos, em Sabra e Shatila, e massacram milhares de pessoas, entre crianças, mulheres e idosos. Os relatos de corpos amputados e esmagados chocaram a toda gente sensata, inclusive moçambicanos. Por isso, passados 30 anos, a JC Editores salvaguarda a memória dos libaneses que sofreram em 1982 ao lançar, a título póstumo, o livro Tâmaras azedas de Beirute, de José Craveirinha. A obra poética é uma solidariedade em verso do autor para com os libaneses e palestinos que minguaram com as acções dos seus vizinhos israelitas, desde cedo hostis à criação do Estado da Palestina.

Em 31 páginas, o livro de Craveirinha é, igualmente, um acto de repugnância, mais uma vez, contra à injustiça e contra à opressão. Como fez a vida toda, o poeta usa a escrita para denunciar, despertar, consciencializar e, deste modo, exercer a sua expressão na qualidade de cidadão, enquanto homem do mundo. Assim, em Tâmaras azedas de Beirute, José Craveirinha posiciona-se no lado dos que sofrem, criticando veemente a barbárie e as quizumbas orientais no outro lado do planeta. Nesse ofício, logo no primeiro poema, que dá título ao livro, há um sujeito de enunciação vertical, que diz quem são os israelitas invasores que geram terror em território alheio: “Plagiando a ‘blitzkrieg’ dos seus saudosos tempos nazis/ soldados judeus em apropriados dromedários de aço de/ nefastas patas blindadas/ assolam o Líbano/ E MATAM!” (p. 11).

Com efeito, para o autor, a solidariedade poética é uma questão de sensibilidade e honestidade imprescindíveis, por lhe ser impossível resistir calado ao assassínio de crianças na capital libanesa: “Neste papel estarei quite com a minha consciência/ mas as crianças assassinadas terão outra vez vida? (P. 11)”. Certamente que não. Nem os menores voltarão a viver e tão-pouco as balas/ os misseis disparados reconstruirão o que a tragédia destruiu. Esta situação faz com Beirute esteja no livro como um lugar de angústias, no qual a representação do que pode ser desumano está eficientemente sintetizado em artefactos que destroem o amor no limiar da felicidade. Isso é o que nos sugere o poema “Os penúltimos”: “Projécteis de várias estirpes/ ornamentam as corbelhas/ de jovens/ noivos (p. 15).

Quando Craveirinha recorre aos armamentos, nos poemas que compõem Tâmaras azedas de Beirute, em parte, a pretensão crítica é mesmo de exprimir isso: quanto mais sofisticada for uma arma, mais dor irá causar a pessoas inocentes, no caso libaneses e palestinos apoiantes da OLP, para quem dedica toda a sua ternura. E no meio da crise, dos bombardeiros e dos mutilados, atento ao pormenor, Craveirinha não deixa de nos trazer a beleza da capital libanesa retratada na mulher: “As lindas raparigas palestinianas/ são extraordinariamente flexíveis/ agonizantes nas ruinas de Beirute” (p. 12).

Do mesmo jeito que aquelas raparigas aparecem com a beleza incólume nos derradeiros momentos da vida, sendo o centro do universo poético de Craveirinha, Beirute está configurado como espaço histórico, é certo, e, principalmente, como resistência à destruição.

Ao compararmos os eventos aludidos em Tâmaras azedas de Beirute com as explosões do dia 4 deste Agosto, na capital libanesa, fica-se com a sensação de que a história se repete de forma cíclica, afinal o mundo continua a produzir bombas e engenhos dessa natureza. Ora, com Craveirinha observamos, primeiro, que a dor está além dos territórios nacionais. Logo, a solidariedade só pode ser um factor de união. Segundo, Craveirinha revela-nos que os países estão ligados por afecto ou por ódio mais do que se possa imaginar. Por isso mesmo, um episódio distante, aparentemente desligado do nosso contexto, pode-nos trazer muitas surpresas. E viu-se. Uma explosão no Porto de Beirute, no dia 4, tem repercussões em Moçambique quando se fica a saber que as 2,7 toneladas de nitrato de amónio tinham sido encomendadas pela Fábrica de Explosivos de Moçambique (FEM). Aí, os ventos do Oriente passaram a interessar ainda mais os moçambicanos que não deixaram de exagerar ao deduzirem que a carga apreendida há sete anos na capital libanesa poderia ter explodido no Porto da Beira. Mas isso até entende-se. O Idai deixou-nos em alerta máximo em  relação à fatalidade.

No quarto volume de Guerra e paz, de Tolstoi, uma entidade afirma: “O homem que desempenha um papel num acontecimento histórico nunca compreende o seu significado”. Será o caso José Craveirinha, um poeta profético que sonhou com um país que depois existiu? Além de se manifestar contra os invasores do Líbano, terá sido interesse de Craveirinha manter-nos implicados com os libaneses através da literatura? Um revolucionário, defensor da soberania dos povos, dos direitos humanos ou da fraternidade revela-se em relação a Cabo Delgado, Mogadíscio ou a qualquer espaço do planeta. O pensamento de que a dor de qualquer ser humano deve ser sentida como nossa está presente no livro póstumo de José Craveirinha, que, mesmo tendo partido desta para outra dimensão, continua a enviar-nos mensagens sobre ideais e compaixão.

Tâmaras azedas de Beirute não é apenas um livro de 31 páginas, é o jeito como Craveirinha se posiciona em relação aos eventos macabros, resolutamente, como agente activo da oração. O livro de Craveirinha coloca-nos Líbano nos nossos próprios pés, exaltando a liberdade sempre, seja onde for, através de um afecto cada vez mais escasso em tempos de tantos extremos: “Este mísero poema ateu nas catedrais diz:/ Deus esteja convosco ó meus irmãos libaneses de/ Beirute.// Este mísero poema infiel nas mesquitas diz: Salam Aleikum/ Ó meus irmãos libaneses de Beirute”. E mais, num tom conciliador: “(…) Apertai as mãos ó/ concidadãos do Mundo./ Em nome da Bíblia e do Corão largai os morteiros/ e apertai as mãos nas ruas de Beirute” (p. 30 – 31).

 

Num contexto de alta tensão política e social no Líbano, que já resultou em demissões em bloco no governo local, no mínimo, Tâmaras azedas de Beirute, mesmo inspirado na invasão israelita, é um livro actual, sobre “nós no mundo”.

 

Na semana em que ocorreu o rapto do filho da Alicinha um outro fenómeno abalou todo o bairro do Chamanculo. Há quem diga que uma espécie duma maldição ali caíra, como o sopro de um vento que em breve iria dissipar-se. Todos estavam já acostumados a estes eventos cíclicos, que iam e vinham, nem que fosse para quebrar as rotinas dos residentes e colocar-lhes nas bocas novos temas para conversas.

O caso foi que um sujeito de nome Artur acabara de abrir uma agência funerária a que dera o nome inspirado de “Agência Funerária Boa-Viagem”, cuja sede instalara mesmo ao lado do snack-bar Twist. Naquela manhã, ele próprio, o senhor Artur, fora recolher o corpo de um homem na morgue do Hospital Miguem Bombarda – não aparecera ninguém ainda para a vaga de motorista do carro funerário, sabido é que ninguém está na disposição de lidar com defuntos sem prévios e competentes tratamentos. O caixão encontrava-se no interior de um veículo Peugeot 404, station, rodeado e abraçado pelos parentes mais próximos do defunto que, assim, sentiam-se mais aconchegados ao seu ente querido nesses últimos momentos de contacto. Outros parentes, vizinhos e conhecidos aguardavam pelo féretro e pelo cortejo aos portões do Cemitério de Lhanguene. Passava pouco das dez horas da manhã. O cortejo ia em marcha fúnebre, se assim se poderia dizer. O tráfego na Avenida do Trabalho entupia. Os motoristas de camiões com atrelados a abarrotar de mercadorias, machimbombos e veículos ligeiros buzinavam, atrasados nas suas actividades.

“O que se passa lá adiante?”, questionavam os motoristas que se encontravam no meio da longa fila, por  detrás do carro funerário.

“Um palerma de condutor dum kwerre conduz a uma velocidade de quem anda a pé. Esse é que é o problema”, respondeu outro que se dirigia em sentido contrário, em direcção ao Alto Maé.

Assim iam os humores naquele troço da Avenida do Trabalho.

A inexperiência do senhor Artur fizera com que escolhesse essa via, em vez de utilizar a Estrada das Estâncias para alcançar a brigada Montada e daí ir directamente ao Cemitério. Em chegando às proximidades do Hospital da Missão Suíça resolveu acelerar a velocidade do veículo. Fê-lo, mas sem prestar a devida atenção. Quis ultrapassar um machimbombo e, para sua surpresa, colocou-se frente a frente com um camião que circulava em sentido oposto a uma grande velocidade. Numa manobra de emergência para evitar o embate, guinou à esquerda, galgou o passeio e voou directamente para varanda da cantina do Gingador. Embateu em duas colunas com um estrondo que espantou os transeuntes e alarmou os pacientes do Hospital. A violência do impacto cuspiu os passageiros e o caixão para fora do veículo. Como se o incidente fosse de pouca monta, o caixão, por sua vez, executou três piruetas no ar e foi cair por cima dos vendedores que mercavam produtos sobre a varanda. O cadáver do pobre homem foi cuspido da urna e aterrou à porta de entrada da loja onde ficou estatelado de ventas para o ar. Foi um dos acidentes mais espectaculares e mais macabros jamais presenciados pelos utentes daquela via e pelos fregueses do Gingador. Este, alarmado pela comoção, interrompeu o matabicho de vinho com chouriço e saiu para testemunhar aquele que seria um dos motivos principais para encerrar as portas do estabelecimento e transferir os negócios para locais menos propensos a ter guarnições de cadáveres à porta da sua loja.

A notícia de que um morto ressuscitara na varanda da cantina do Gingador, e que lá penetrara para umas compras, correu como poeira ao vento, do Chamanculo ao Cemitério, do bairro Fajardo ao Minkhokwene.

O senhor Artur saiu miraculosamente ileso do acidente. Passadas as primeiras vertigens, mas desorientado no espaço e no tempo, retirou-se do volante e eis que – para surpresa de todos! – deu às-de-vila-Diogo, numa corrida desenfreada, atravessou a estrada e introduziu-se no cinema Tivoli cujos portões se encontravam abertos para limpeza e arejamento. Foi lá onde o acharam, trémulo e agachado, debaixo de um assento, lá à frente junto às filas da plateia. Era um ser semi-morto, rendido à evidência de que para certos mesteres era indispensável uma protecção segura por via de especiais preparos. A agência funerária encerrou portas temporariamente – umas tréguas para reflexão e replanificação.

Para quem estiver céptico sobre a veracidade destes episódios convido a que se dirija à antiga loja do Gingador porque lá testemunhará, – até hoje por reparar – os prejuízos causados pelo Peugeot do senhor Artur ou escutará dalgum velho residente da zona a narração da estória empolgante do morto que, tanto quanto pôde, protelou a sua chegada aos portões do Cemitério de Lhanguene onde iam decorrer as exéquias do seu próprio funeral.

O senhor Artur era uma pessoa de têmpera dura, que se não deixava abalar por desaires do género que se narram acima. Forjara-se numa vida de dificuldades e daquelas aprendera que, se queria ser bem-sucedido na vida, muito tinha de batalhar. E assim fez. Empreendedor como poucos, desviou temporariamente as atenções do negócio funerário para abrir um tasco, o snack bar “Senta Baixo” e uma serração onde vendia sacos de carvão, lenha e material de construção, que é o mesmo que dizer estacas, barrotes, molhos de caniço e outros acessórios complementares.

O negócio da taberna ia de vento em popa. Daí que, e servindo-se da disponibilidade dos materiais da serração, juntou o útil ao agradável. Num terreno baldio anexo à sua residência construiu um componde de doze casas alinhadas três a três, num quadrado perfeito. Parecia a residência de um soba. A demanda de habitação era enorme, sobretudo por emigrantes que vinham do campo, nomeadamente raparigas, até mulheres adultas, à busca de oportunidades de trabalho na cidade. Assim nasceu aquele prostíbulo, o componde do Twist que, emparelhado com o “Senta Baixo” inspirou poetas, alimentou romances de amor, testemunhou memoráveis combates, assim como noites de música e de dança ao som de agrupamentos musicais e dum  dju-box.

Twist era o lugar de referência para todo o bairro do Chamanculo, o núcleo aglutinador das populações que por ali se cruzavam, provenientes de ou com destino ao Clube Desportivo de Beira-Mar, da Ufa ao terminal das carreiras do Sá, daí ao Matadouro Municipal, do bazar do Diamantino ou a caminho da Missão de S. José. Deixou de ser o bar, o compone ou a agência funerária, para ser o lugar de encontros, epicentro do mapa de actividades socias, de intersecção de geografias e caleidoscópios de etnias e de culturas.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

Há duas versões relativamente ao Moçambola, em tempo e no pós-Covid.

A primeira, aponta para o regresso a uma competição mais consentânea com o momento difícil no país, em que a maioria dos clubes que já (sobre)viviam do desembolso dos patrocinadores, viram a situação “apenas” agravada pela pandemia. Assim sendo, apontam para um passo atrás e, daqui a uns anos, dois em frente;

A segunda, mais ousada, revê-se no inverso: dois passos em frente com todos os riscos inerentes, para depois, se tudo correr bem, não haver necessidade de recuos!

FUTEBOL É UMA COISA DESPORTO É OUTRA…

Em tempos, cometeu-se no país um erro gravíssimo, cuja factura ainda está a ser paga: o corte de fronteiras, que cerceou a carreira de muitos atletas com potencial para levar o futebol do país ao Mundo.

Nalguns países da Europa, faz-se a distinção entre futebol e… desporto. Com alguma razão, uma vez que, por exemplo, o salário de um futebolista de gabarito, pode pagar a movimentação de todas as outras modalidades num clube!

Daí que nós, realisticamente, não podemos fugir muito deste tipo de paradigmas, se nos queremos beneficiar da força motivadora que o desporto-rei, cada vez em maiores doses, proporciona em alegria e outras “nuances”, a toda uma nação.

Na antevisão de um país em paz e em alta, com a exploração de recursos minerais, é impensável Moçambique não poder ‘galgar” lugares no “ranking” FIFA, com as nossas estrelas a serem, cada vez mais, objecto de cobiça dos grandes clubes e, em simultâneo, motivo de orgulho e satisfação interna.

Isso poderá não acontecer se desaparecermos dos altos fóruns, investindo apenas na juventude – os ditos alicerces – saindo porém dos “radares” da FIFA, e, consequentemente, do acesso aos respectivos apoios. Por outro lado, perder-se-ão factores motivadores para as nossas crianças e respectivos pais, que subalternizariam a opção pelo desporto competitivo.

Daí que o “edifício” poderá ser projectado com alicerces, mas do tejadinho para baixo. O que pretendo dizer?
Com um Moçambola que motive o envolvimento das multinacionais – e não só – abrindo portas para a contratação e “propagandação” de craques nos OI’s, poderemos ganhar tempo e espaço para a criação de BEBEC’s em massa, culminando em Academias. A partir daí, num curto prazo, o talento já provado e comprovado em períodos não muito distantes, irá despertar do adormecimento em que se encontra.

E a realidade actual tem demonstrado que a festa que o desporto-rei proporciona, semana a semana, traz ventos de emoção e esperança – tal como o gás – a soprarem do Norte, onde o Moçambola monopoliza conversas e exacerba paixões, ao contrário do que acontece na capital onde, mesmo em dias de derby, dificilmente se registam enchentes.

No dia 31 de Julho passado, a RTP (televisão pública de Portugal) exibiu no programa “Linha da Frente” uma reportagem intitulada “Cabo Delgado: Nascer para (Sobre)Viver”. Nela retrata-se a violência que se vive naquela província do norte de Moçambique, que já regista mais de 200 mil deslocados, que fogem dos distritos mais afectados para as zonas consideradas seguras.

O trabalho dos jornalistas Pedro Martins e Gabriel dos Santos mostrou com exclusividade as acções do Exército moçambicano no quartel de Mueda – o posto de comando das Forças de Defesa e Segurança na região norte -, segundo descreveu o comandante do Exército Ezequiel Muianga, entrevistado no teatro operacional pela RTP. Na verdade, parece que é a primeira vez que um dirigente militar de topo fala à imprensa desde que começaram os ataques em Outubro de 2017.

A equipa de reportagem teve privilégio de acompanhar uma acção de treinos, com disparos de vários tipos de armamento, com direito a entrevista aos militares que iam explicando os detalhes do armamento e até o peso das munições, no exacto momento em que treinavam; para além do acompanhamento do trabalho dos médicos militares no combate à pandemia da COVID-19, onde fiquei a saber que, regularmente, os militares são submetidos ao teste do coronavírus para evitar possível contaminação generalizada.

Não quero tirar mérito ao brilhante trabalho jornalístico dos meus colegas da RTP e a crítica não é direccionada a eles. Mas confesso que aquele era o sinal que faltava para concluir que o nosso Governo nutre um certo desprezo pelo jornalismo moçambicano e o povo que o elegeu, ao permitir que os moçambicanos continuem a ter a informação mais importante da vida do seu país através de jornais e televisões estrangeiros.

Aconteceu o mesmo em relação às dívidas ocultas. Foi assim em relação aos mercenários sul-africanos contratados para combaterem os terroristas em Cabo Delgado e pagos com o dinheiro dos impostos de cada um de nós. Foi assim em relação à presença de militares russos que entraram no nosso país para reforçar o Exército moçambicano em Cabo Delgado, em nome de uma cooperação militar que não sabemos quais são as contrapartidas disso.

O sociólogo Elísio Macamo lançou uma crítica recentemente, denunciando a “orfandade” e abandono a que estamos sujeitos por parte de quem nos dirige. Macamo foi ao ponto de dizer que “cada um de nós tornou-se num potencial ratinho, à procura do seu buraco para se proteger, porque o Governo e aquele que jurou defender a unidade nacional decidiram que não somos suficientemente adultos para sermos informados com honestidade e transparência sobre o que está a acontecer em Cabo Delgado. Nunca houve um pronunciamento à nação naquela hora nobre do telejornal para falar de Cabo Delgado. Lemos por aí que eles foram pedir ajuda fora do país; que contrataram mercenários para nos defender, que as Forças de Defesa e Segurança se batem com valentia, etc. Só que certeza mesmo não temos, porque nunca ninguém nos informou com a mesma pompa e circunstância com que nos informam sobre a prorrogação do Estado de Emergência. Talvez por medo de causar pânico ou talvez por vergonha de reconhecer que não têm ideia de como lidar com a situação. Ninguém sabe ao certo”.

Pessoalmente, não sei ao certo o porquê desta grande preferência pelos órgãos de comunicação social de fora e pelo estrangeiro. Nunca dissemos, como jornalistas moçambicanos, que não temos coragem suficiente para irmos cobrir o conflito em Cabo Delgado. Aliás, somos nós jornalistas moçambicanos que cobrimos a guerra civil dos 16 anos e demos a conhecer ao mundo os horrores que estavam a acontecer em Moçambique.

Ademais. Nunca os nossos militares vieram em público dizer que não tinham capacidade para combater os terroristas em Cabo Delgado para se optar pelos mercenários sul-africanos ou pelos russos.

É esse mesmo Governo que assobia ao lado e faz ouvidos de distraído quando o Major-General Samuel Luluva disse numa aula de sapiência na Academia Miliar em Nampula que o nosso Exército precisa ser modernizado e equipado para melhor servir os desafios do momento.

Para quem está fora do contexto até pode pensar que estou a levantar um “não-assunto”. Entretanto, os argumentos abaixo podem ajudar a entender o sentido da minha ira.

Primeiro, é preciso entender que os jornalistas moçambicanos não estão a cobrir o que está a acontecer nas zonas de conflito em Cabo Delgado porque o Governo não permite que isso aconteça. Não se vai a uma zona de conflito militar sem garantia de segurança por uma das partes envolvidas. Razão pela qual o jornalista português José Rodrigues dos Santos, que cobriu sete guerras importantes no mundo, disse claramente que não existe imparcialidade na cobertura jornalística de uma guerra, porque ou o jornalista entra no teatro operacional sob protecção do Exército governamental ou sob protecção da contra-parte no conflito. Para este caso, estou a falar das próprias Forças de Defesa e Segurança que têm a obrigação de garantir a nossa segurança neste tipo de situações, tal como o fez com a equipa da RTP.

Olhando especificamente para Cabo Delgado, a única vez que a televisão pública nacional (TVM) cobriu aquele conflito foi no dia 5 de Novembro de 2017, quando os terroristas protagonizaram três ataques sucessivos contra igual número de bases das Forças de Defesa e Segurança na vila de Mocímboa da Praia.

O jornalista Florberto Fernandes e o seu colega de imagens saíram de Pemba quando souberam do sucedido e chegados a Mocímboa da Praia ainda estava-se em combate aberto, tendo valido muito a protecção da Polícia. Depois disso houve uma espécie de ordem invisível de “no go”!

Pessoalmente, enquanto jornalista da media privada, tive a sorte, repito, sorte, de ir por três vezes fazer cobertura das zonas atacadas e não mais que isso, porque o cenário de segurança foi-se deteriorando e seríamos um alvo a abater se fóssemos sem qualquer tipo de protecção.

Os colegas que se aventuram de alguma forma terminam da forma como terminou Amade Aboobacar que foi detido em Janeiro de 2019 por militares, na vila de Macomia, e levado ao quartel de Mueda (o mesmo sítio onde foi a RTP), onde foi interrogado por militares e agentes do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE), sob acusação de que colaborava com os insurgentes e que era dono de uma conta no Facebook com o nome de Shakira Letícia Júnior, que publicava o que estava a acontecer no terreno. Amade viu-se privado da liberdade durante 108 dias e até hoje, mesmo já em liberdade condicional, a acusação ainda não conseguiu provar o que diz no processo.

O mesmo aconteceu com o jornalista Germano Adriano e quem sabe não seja a mesma motivação que levou ao desaparecimento, há mais de três meses, do jornalista Ibraimo Mbaruco.

Hoje em dia há uma espécie de ordem para não fotografar e/ou filmar no espaço público na cidade de Pemba, capital de Cabo Delgado. Quem se aventura desafiar essa ordem invisível tem o tratamento que teve o meu colega Hizidine Achá, no dia 14 de Abril deste ano, quando em pleno exercício de jornalismo, devidamente identificado, foi interceptado por agentes da Polícia, arrancaram-no o celular, apagaram as imagens que tinha feito de polícias a torturarem indiscriminadamente as pessoas no bairro de Paquitequete, e acabou retido numa esquadra.

Um dos valores nobres de um Governo é comunicar-se com o seu povo. A Constituição da República de Moçambique (2018) determina que o Presidente da República é o Chefe do Governo; é o Comandante-Chefe das Forças de Defesa e Segurança e como tal fica difícil o dissociar do que está a acontecer. Para os jornalistas da RTP terem acesso ao teatro operacional-norte claramente que foi informado e terá anuído o pedido dos jornalistas lusos.

Ao mesmo tempo, fica claro que tem informação de que não se deixa os jornalistas nacionais cobrirem o conflito. Até porque há um dado curioso: quase que de todas as vezes que o Chefe de Estado foi visitar as posições militares no terreno apenas é convidada a TVM e por vezes inclui-se a Rádio Moçambique. A media privada nunca é levada para fazer parte da cobertura.

O artigo 158 da Constituição da República de Moçambique define como competências gerais do Chefe de Estado dirigir-se à nação através de mensagens e comunicações; informar anualmente a Assembleia da República sobre a situação geral da nação. A mesma “lei-mãe” diz que o Presidente da República é o garante da Constituição da República.

Ora, um dos direitos fundamentais que cada moçambicano tem é o direito de acesso à informação. Porém, esse mesmo direito pode estar a ser limitada pelos argumentos que acima expus, numa atitude anti-democrática.

Cabo Delgado também é Moçambique e precisamos ter acesso ao que está a acontecer com os nossos concidadãos e fazermos chegar ao povo “patrão”.

O mês de Julho, de 2009, marcou o início do turbilhão académico da Universidade Lúrio. Primeira instituição pública de ensino superior, nascida fora da capital. Logo, se convergiram as exigências e vontades. Os sonhos e as promessas. Chuiba e Wanaangu, no triângulo Pemba, Sanga e Nampula, se prontificaram para as novas bases do saber.

Estas sedes abriam novas páginas de conhecimento. As ditas “Hard Sciences” vinham desafiar o establishment. Entre medicina e engenharias, florestas e agricultura, biologia e tecnologia. Um começo titubeante, porém, seguro, com jovens originários de todo o país, mas muito poucos destas Províncias.

Não eram, apenas, os estudantes que se auto-desafiavam. Eram, igualmente, seus docentes, jovens, inexperientes, uns buscando seu primeiro emprego, outros, mais calibrados, procurando seu espaço. Professores estrangeiros, amiúde, remavam com velocidades distintas. O mais sensato, por vezes, deixou marcas para descrença. Quantas vezes isso passou-nos pela cabeça?!

De Lichinga para Sanga, foi um ápice. As condições iniciais, radicalmente, se transformaram. Mudança de tempos e de vontades. Lichinga, pacata e pouco hospitaleira, fez nascer o interior agreste de Wanaangu. Wanaangu que, em tradução livre, significa meu filho, não poderia ser filho de ninguém. Era apenas um filho no imaginário de Samora Machel. Um provérbio local dizia que no mundo, ninguém nasce pobre, mas todos que nascem encontram a pobreza no mundo. Se não cremos, somos pobres.

Wanaangu sempre foi a proposta de cidade que só cresceu para o tamanho de cidadela. Despida de intelectualidade, porém, com enorme conhecimento e saber tradicional. Foi normal e aceitável perder alguns, motivar outros e criar, sobretudo, arrependimentos e desistências.

Das primeiras aulas, das experiências de convidar os camponeses para conhecer o campus universitário, da montagem de laboratórios convencionais e híbridos, da captura de espécimes de gafanhotos e outros bichos praga. O respaldo teórico conformou-se com a prática. A verdejante paisagem conheceu, aos poucos, a soja e o seu leite, o morango e os pequenos campos de ensaio que mais se confundiam com espaços lunares.

Não tardou, vieram as jornadas científicas e as empresas florestais, Green Resources, que vasculharam capital humano, essa combinação entre inteligência pura e talento por desbravar. Também a internet chegou. Com ela a transformação dos hábitos e da convivência de hábitos. Os jogos da liga profissional de basquetebol da NBA criaram seu espaço e, na serenidade da noite, despontaram os conflitos de manter, em clausura, jovens com voraz apetite de acasalar. As noites de lua cheia trouxeram quizumbas.

Depois, vieram os festivais culturais. Sukumas, Neymas e Valdemiros, emocionaram plateias mistas. Pela sua voz, requebraram as ancas das rainhas locais dos políticos e curiosos. Também pelas suas vozes chegaram os conselhos de prevenção do HIV e de tantas outras doenças. Nos dias de hoje, eles cantariam contra o Covid-19. Só mais tarde, foi construído o pavilhão de desportos. Ex libris de Sanga. Imponente, o pavilhão conquistou todos os corações e milhares de emoções. Por ali passam os presidentes e os ilustres. Wanaangu ganhou sua bandeira, seu mural e eternizou-se como a cidadela da paz.

Em 2013, o primeiro grupo de estudantes recebeu seus diplomas. Era só o começo de uma multifacetada jornada. Os diplomas tinham algo superior que o seu próprio significado original. Não significavam nem título, nem o fim. Apenas uma permissão para continuar a sonhar e prosperar. Um recomeço para novas etapas e outras estações. Rosalina Tamele e tantos outros jovens fizeram parte dessa fornalha. Não tardou que os mais habilidosos fossem, como consequência, escolhidos para ingressar no corpo docente. Transitar de uma experiência de monitoria gratuita, para outra, minimamente, remunerada. Com os contactos e a abertura ao mundo, Wanaangu se tornou conhecida além-fronteiras.

No Oriente, da terra do sol nascente, Japão, chegaram os primeiros jovens deste país, ávidos por redescobrir os segredos milenares da agricultura africana, a cultura africana e a cultura Yao. Eles aprenderam a língua e os modos de ser e estar. Viveram em quartos duplos, cristalizaram as amizades e fizeram planos para o futuro.

Misaki, uma das mais talentosas japonesas que passou pelo campus do Wanaangu, transformou-se em irmã de alma e de coração da Rosalina Tamele. Começaram a escrever um futuro diplomático e científico. A parceria cresceu silenciosamente, assim como a semente, que quando cresce não faz ruído. Rosalina, anos mais tarde foi seleccionada para fazer a pós-graduação no Japão.

Existe um simbolismo histórico neste percurso. Uma marca de uma geração de múltiplas vontades, moldadas no sacrifício e empenho. Esta dimensão que ultrapassa barreiras e preconceitos, que sobe montanhas e afirma-se como a liderança do futuro que teima em ser presente.

Agora Wanaangu ganha filhos. Os filhos da terra prometida. Nobres. Ilustres. Cultos e formados ao mais alto nível. Wanaangu se converte num re-significar de destinos e infinitos. Uma nova página e correntes filosóficas que farão desta terra o céu e, trarão de volta o homem novo que tarda a surgir. Wanaangu se veste de lentes cor-de-rosa e penteia as suas esperanças.

Wanaangu ganhou a sua primeira Doutora. Rosalina Tamele. Uma jovem que estudou florestas e que mescla conhecimento, aptidão, talento e vontade de triunfar. Um exemplo de quem saiu do desconforto e procurou na ciência, uma forma de estar. Esta Rosalina, algumas vezes Rosa, outras Lina, continua sendo uma jovem tímida e insegura, porém, destemida, inteligente, delicada e perspicaz.

Ainda ecoam os relatos do final do seu mestrado, na mesma cidade japonesa, onde mesmo tendo as notas para progredir para o Doutoramento, ficou sem os recursos necessários para se manter. Não virou a cara a luta e acreditou. Foi trabalhar para um pequeno restaurante japonês e, aí, procurou subsistência. Japão ficou a conhecer culinária moçambicana. Estes, os exemplos que alguns de nós temos vergonha e complexo de passar por eles. Depois, e de forma natural, voltou a convencer que o seu talento não poderia ser desperdiçado. Ganhou a bolsa e progrediu.

Hoje, com o Covid-19 validando a nossa caminhada e os nossos passos, Rosalina voltou às distinções, como uma marca que lhe parece ser comum. Doutorada com distinção e pleno reconhecimento. Vai continuar na Universidade para mais uma estadia, agora como assistente.

O que quer que seja que a vida lhe reserve, esta menina é uma vencedora. Ela não vence apenas os cânones académicos, mas deixou que o seu coração, também, ganhasse o amor. Estudar só tem sentido quando valorizamos o meio circundante. Aqui estava a dupla vitória. Em Wanaangu ou em Japão, aqui está o sentido da vitória.

Wanaangu rejubila, academia moçambicana engrandece-se, família Tamele vai assistindo, sentada numa plateia especial, tudo aquilo que sonhou, mas nem sempre acreditou. A história de Wanaangu escreve-se com Machel, o mês de Julho com centenário de Mondlane e a Lúrio da Rosalina escrevem estas etapas histórias em seus corações, para os reverenciar. A cada um de nós, caberá, apenas, agradecer a Wanaangu e Rosalina por existirem e acreditarem.

Cara avó Tavasse

É sempre um prazer escrever uma carta para ti, avó, e espero que te encontre em perfeitas condições de saúde. Lembro-me das noites do inverno em que ficávamos até mais tarde, à volta da fogueira, a conversar e a contares aquelas histórias engraçadas sobre o coelho, sempre o mais esperto e manhoso do que os outros animais. Animavam muito.

Hoje, não consigo fazer isso do mesmo jeito que a vovó para os meus filhos mais novos, sobrinhos e netinhos. A vida aqui na cidade é muito agitada. Não há tempo para nada. A luta pela sobrevivência é grande, pois o custo de vida está insuportável.

Os preços dos produtos da primeira necessidade estão sempre a subir. Pior agora com o coronavírus. A culpa é atribuída ao vírus por quase tudo que anda mal, apesar de, em alguns casos, sabermos que não corresponde à verdade, mas como não fala… pronto. Temos que engolir.

Com os choques que está a sofrer, o salário está cada vez magro e não chega para pagar todas as contas, nem para garantir a cesta básica. Não estou a exagerar avó.

É que aqui compra-se tudo, incluindo folhas de cacana que crescem sozinhas ai nas machambas da aldeia. Esse é o preço de viver nas grandes cidades.

O Governo, os empregadores e os sindicatos vieram a público dizer que este ano, devido ao maldito coronavírus, não haverá mexida nos salários, mesmo os mínimos nacionais como o meu. Que tristeza avó. Todo o mundo está a murmurar, mas nada a fazer. Odeio aquele que originou o virus!

Vovó, recebi a tua carta que me enviaste há dias em mão do senhor Muthacathe, cobrador do autocarro da transportadora Cossa. Tenho que confessar que fiquei surpreendido com as questões que me colocaste.

Afinal, apesar de não teres tido a oportunidade de estudar muito, compreendes muito bem algumas das coisas que estão a acontecer na sociedade. Se calhar melhor do que pessoas que eu conheço que se sentaram na carteira. Podem faltar-te alguns argumentos. A capacidade de interpretar alguns fenómenos, mas a visão está lá. Os meus parabéns vovó.

Em primeiro lugar queria reconhecer que as suas perguntas são pertinentes, mas algumas delas são difíceis de responder. Espero que me compreendas se eu não puder satisfazer cabalmente as tuas expectativas.

Querida avó. A senhora quer saber donde vêm os 3.5 mil milhões de meticais que o Governo anunciou recentemente para investir na criação de condições higiénicas nas escolas com vista à retoma das aulas. Confesso que não sei. Duvido que a fonte seja o deficitário Orçamento Geral do Estado (OGE).

Juro que acompanhei o debate do documento na generalidade e na especialidade, na Assembleia da República, e estou seguro de que não há lá nenhuma rubrica específica para esta finalidade.

Alguém apareceu na TV a dizer que o dinheiro era do OGE, mas não disse claramente de que rubrica saiu. Por isso, vovó, não fiquei muito convencido com a explicação dada, mas…paciência. Vovó. O melhor é nós ficarmos calados para não sermos mal interpretados. Não achas?

É que aqui no país pessoas que perguntam muito. Sobretudo os que falam a verdade, não são bem vistas. Quando identificadas, são afastadas dos seus postos, se forem chefes. É assim mesmo e eu sou chefe da limpeza.

Sabes vovó. Uma comandante provincial da PRM em Maputo foi exonerada alguns dias depois de dizer que há polícias que usam a farda e os meios da corporação ao serviço de bandidagem e que há dentro da polícia chefes de bandos de criminosos que actuam um pouco pelo país. Alguns polícias dizem que ela falou a verdade que lhe custou o posto.

Avó, por falarmos dos 3.5 mil milhões de meticais para as escolas, há uma coisa muito curiosa que está a acontecer. É que este dinheiro está a ser usado sem nenhum concurso público. Até parece regra e não excepção. Porque tanta pressa afinal? Será que todos os processos de reabilitação de escolas são gêmeos, não justificam o lançamento de concurso público e têm que ser por via de adjudicação directa? Que bela coincidência vovó! É melhor eu calar-me para não deixar de ser chefe da limpeza.

Mas avó, desculpa, o Tribunal Administrativo não gosta nada deste tipo de procedimento. Alguns gestores públicos já foram censurados por causa disso. Será porque havia pressa de aprontar as obras para que viabilizassem aquela aventura do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano da reabertura de escolas a 27 de Julho? Mas a lei não admite atropelos em caso de urgência. Lei, é lei, tem que ser cumprida.

Vovó, não sei se percebeste. O Estado de Emergência já acabou. Legalmente não há mais medidas que limitam as nossas liberdades como cidadãos. Praticamente regressamos ao período anterior ao de coronavírus em que se podia viver ou trabalhar sem restrições.

Significa que tudo pode reabrir, nomeadamente barracas, bares. As festas de aniversário e de casamento podem ocorrer sem a limitação dos convidados, enfim tudo aquilo que no estado de emergência era proibido.

Mas, vovó, é claro que não vamos fazer isso. O Estado de Emergência acabou, mas a doença continua. O coronavírus está a afectar cada vez mais gente no país. As estatísticas, assustadores, mostram isso.

Quer dizer que cada um de nós tem que tomar a consciência de que se deve prevenir contra a doença. Perto de dois mil moçambicanos são o rosto de coronavírus em Moçambique.

Não precisamos de ser policiados. Não é necessário que esteja escrito num decreto presidencial. Não é preciso esperarmos por uma nova comunicação do Presidente da República à Nação para sabermos quais são os passos a seguir.

Todos nós, vovó, sabemos o que se deve fazer. O que falta é todos nós cumprirmos como deve ser as medidas, nomeadamente a higienização das mãos, o distanciamento social, o uso da máscara, a etiqueta da tosse e outros protocolos do Ministério da Saúde. Se fizermos isso estaremos a contribuir para a redução de casos de contaminações com o vírus.

Não há decreto nenhum ou estado de emergência que resolva isso. Nem o estado de calamidade pública irá evitar a propagação de coronavírus no país. A solução está nas nossas mãos. Na nossa obediência. Na nossa entrega à luta contra a doença.

Se não fizermos isso, podemos ter a certeza de que estaremos a nos condenar a nós próprios. Tudo que nós fizermos é para o nosso próprio bem. Da nossa família. Do nosso bairro. Da nossa comunidade. Da nossa aldeia. Da nossa localidade. Do nosso posto administrativo. Do nosso distrito. Da nossa província. Do nosso país.

Tudo depende do comportamento de cada um de nós em relação à doença. O que fizermos e o que deixamos de fazer vai ser determinante para o regresso tardio ou mais cedo à nova normalidade. O regresso aos cultos religiosos. O regresso aos nossos negócios que nos fazem melhorar o nosso poder de compra. O regresso em segurança das nossas crianças às aulas. A retoma da nossa vida sem grandes restrições. Tudo isto é possível se nós nos empenharmos com afinco no combate a este mal.

Independentemente da decisão que vier do Presidente da República, o mais importante, o segredo de tudo, está na obediência. Em plena guerra contra o coronavírus no país e no mundo não deve haver quem vacile.

Vovó é inconcebível que numa altura destas em que o covid-19 está a dizimar gente no mundo e devíamos estar mais unidos para sermos mais fortes na luta contra a doença, alguém não acredite ainda na existência da doença. Infelizmente há pessoas assim em Moçambique que acham que tudo sobre coronavírus não passa de uma simples brincadeira ou invenção do governo alegadamente porque, tirando Eneas Comiche e esposa, ninguém mais apresentou-se como doente.

Avó Tavasse, termino por aqui. Espero não ter sido longo. Olha, proteja-te ai. A senhora é a coisa mais preciosa que eu tenho na vida. É melhor ficares em casa se não tiveres nada a fazer fora. Caso tenha que sair, usas a máscara. Nada de a colocar no queixo. Até mais vovó. Amo-te vovó.

Moçambique foi obsequiado por uma música de um cantor que usa o nome de “Irmão Mbalua”. É natural do distrito de Lugela, província da Zambézia, em Moçambique.

Tem um jingle e um refrão muito simples, que se fixa facilmente nas nossas memórias: o culpado é o namorado dela. Este jingle “bate”, “está em alta”, é “a música do momento”, como se diz na gíria popular. E tudo isso se deve também ao refrão e à restante parte da letra da música, que também gera polémica.

Diz a música, do jeito e até onde pude apreendê-la:

“Aquela moça sempere quando passa aqui, anda isolada, ninguém dali compania, eu admiro do jeito que ela vive mali, parece que ninguém toma conta dela. 2x

Vê o telefone que usa aquela moça usa , é moviteli amarrado com borracha, eu admiro do jeito que ele a vive mali, parece que ninguém toma conta dela.

Culupadu é o namorado dela. 2x. Avarento é o namorado dela, que não satisfaz as necessidades dela.  [Repete-se refrão].

Se fosse quase as garrotas lá na banda iam pulir curação daquele mano, até que ele juraria na verdade, que nunca farei desperezo deste, porque já leva tempo aquela moça soferendo uma tortura perigosa de amore. Contuto isso continua li amando, seu namorado apesar de tudo. Já leva tempo aquela moça soferendo uma tortura perigosa de amore”…

Em diferentes comentários que li, a música foi intitulada “Culupado”. Algumas pessoas são da opinião de que se trata de uma “não música”, porque a letra não diz nada ou, porque está pejada de erros linguísticos. Outras, afirmam que o conteúdo é demasiado machista e outros ainda, têm-na como uma boa música, porque descontrai, ie, “anima”, tal como se tem afirmado entre nós Moçambicanos.

Consultando o dicionário Priberam da Língua Portuguesa (acesso em Julho de 2020), constou-me que música é uma “Organização de sons com intenções estéticas, artísticas ou lúdicas, variáveis de acordo com o autor, com a zona geográfica, com a época, etc; é também a arte e a técnica de combinar os sons de forma melodiosa ou uma composição ou obra musical”, entre outros.

Se considerarmos essas definições, “Culupado” é uma música. Tem sons harmoniosos, que dão um ritmo, não só agradável ao ouvido, como também, bons para se dançar. Os sons foram combinados de “forma melodiosa”, é por isso que o jingle se fixa ao longo do tempo. Essa música até mereceu uma encenação cantada e dançada de Alcy, um artista cómico moçambicano. E a oferta de dois telemóveis ao autor, por parte da Movitel. É lúdica.

E é uma música que diz muito. E que muito é esse? E aí vamos a uma outra definição que diz: “Organização de sons com intenções estéticas, artísticas ou lúdicas, variáveis de acordo com o autor, com a zona geográfica, com a época, etc”. Essa música faz um registo sobre a civilização e mentalidade vividas em Lugela e muitas outras partes do nosso país, nos quais os rapazes, nos ritos de passagem, que incluem preceitos sobre a sexualidade e sobre usos e costumes ligados à vida conjugal, que são realizados tanto para meninos, quanto para meninas, marcando a sua passagem para a vida adulta, é lhes ensinado que devem cuidar e prover as suas mulheres. Sendo que cuidar, significa criar condições para que ela ande sempre bonita, na maior parte dos casos, em Moçambique, deve-lhe comprar sempre capulanas, por exemplo, entre outros bens, para manter ou melhorar a sua beleza e apresentação. A elas cabe, cuidar e seduzir o marido, atraindo-o, encantando-o e mantendo-o sempre enamorado. E cuidar, passa por alimentá-lo devidamente.

Vêm daí as afirmações na música: “eu admiro do jeito que ela vive mali”, “O culupado” é o namorado dela. Pois, se a moça já se encontra em idade de casar, pelo menos é o que aparenta a representação em vídeo, ela já tem namorado. E nessa civilização, o namorado é um noivo, é o homem com o qual a moça se irá casar. Nessa filosofia de vida, não se namora, com a ideia de depois se passar para um outro namorado e por aí em diante. Os meninos e as meninas, nessas civilizações são educados a namorar para casar. E, por causa disso, estando em idade de se casar, assume-se que tenha namorado que deveria cuidar e prover bens com qualidade. É a tradição daquele local. Que é diferente, não melhor, nem pior, que a ocidental ou que aquela que começa a aparecer em alguns círculos nas zonas urbanas, em Moçambique, nas quais, se debatem as questões de igualdade e de equidade de género.

Entretanto, devo acrescentar, que nesses círculos urbanos, mesmo as pessoas que não tenham sido educadas com a ideia de que os homens são provedores, fazem uso disso, para satisfazerem diferentes caprichos, mesmo assumindo, de antemão, que não se casarão com o/a visado/a. Esse capricho é de ambas as partes, homens e mulheres. E nesses contextos, a assumpção, por parte dos homens, é a de que se pago, posso usufruir da mulher e do seu corpo, como e quando desejar. E a que existe, por parte das mulheres, é, se o homem quiser dispor do meu corpo, deve pagar por isso. Acaba sendo um contrato implícito ou explícito, dependendo dos casos. E repito que estes posicionamentos são diferentes dos enunciados na música de Irmão Mbalua.

O que o cantor pretende destacar é a etiqueta cultural da sua tradição. Cuidar e prover a namorada, fazendo que ela se sinta a melhor de entre as outras mulheres. Acompanhá-la, sempre que possível e dar-lhe insumos de que possa dispor com qualidade. Neste caso, o tal insumo é representado pelo telemóvel, que não sendo da sua tradição, já faz parte. E não cuidar e não prover, é um desprezo, tal como o enuncia em: “Se fosse quase as garrotas lá na banda iam pulir curação daquele mano, até que ele juraria na verdade, que nunca farei desperezo deste, porque já leva tempo aquela moça soferendo uma tortura perigosa de amore”.  Para o cantor, a moça está a ser torturada, mas ainda assim ama o seu namorado. Por causa disso, julgo que a música é um apelo ao cuidado pela mulher, pela sua beleza, pelo seu bem-estar, no contexto daquela tradição e civilização.

O conteúdo da música é machista para as pessoas ocidentalizadas ou para os que acreditam na equidade e igualdade de género. Mas no contexto em que é cantada por Irmão Mbalua, naquela sociedade, cada um tem o seu papel a desempenhar. As dinâmicas de estruturação social definem papeis por género e nem se discutem. Há, entenda-se, uma troca. Provavelmente não seja equitativa, mas é o que ficou definido entre os membros daquela comunidade. E é aceite. Admito que com o tempo isso possa mudar, porque as culturas não são estáticas.

No contexto de divisão de papeis por género ou na partilha de deveres e de responsabilidades, para mim, o problema surge, apenas quando se atentam os direitos e a dignidade humana. Parece-me que, tanto no ocidente, quanto nas nossas sociedades tradicionais, nunca será possível que esses deveres e responsabilidades sejam partilhados de modo equitativo, nem igual. Haverá sempre alguma desigualdade. Além disso, o problema surge ainda, quando a desigualdade gera injustiça, submissão ou exploração de uns por outros. Se não for o caso, se houver aceitação, o caminho é continuar-se com o relacionamento. Ou então, em contextos de introdução de novas dinâmicas sociais, nas quais se alternem ou se alterem os papeis sociais, desde que aceites, não vejo motivo para alaridos. Faço essa afirmação alicerçada pela perspetiva de um princípio, dos Estudos Culturais, que preconiza que a análise das culturas deve optar por descrevê-las e não estabelecer subalternidade entre umas e outras.

A outra questão colocada relativamente a essa música é a dos erros de língua. Não vejo problema algum neles, porque a língua é o que os falantes falam e não o que a gramática pretende que seja. Por mais tratados gramaticais que existam, as pessoas sempre falarão em função dos seus contextos e do que aprenderam. E no caso de uma música, há representação de um falar de um determinado contexto, pelo que nada há a protestar. Haverá, se assumirmos que faz parte da beleza estética o bem falar. Mas o bem falar é relativo pois, se se tratasse de um texto de carácter oficial, para ser utilizado numa escola ou numa instituição, aí, sim, em Moçambique, a norma exigida é a europeia. E aí, os erros linguísticos seriam um assunto a ser corrigido, nesse contexto oficial. Mas digo isso com “todas as pinças na mão”, porque me pergunto: corrige-se uma obra de arte? Não sei. Além disso, mesmo em contextos profissionais, há ressalvas a serem feitas, por exemplo, no que diz respeito à publicidade, área na qual se tem estado a adequar a linguagem ao contexto no qual ela é utilizada. Portanto, esse assunto é discutível.

Por estas e por outras questões, que agora não me ocorrem, julgo que o Irmão Mbalua, anima os corações dos seus fãs, especialmente, nesta época em que diferentes formas de provocar alegria são aceitáveis; pelo que ele não se deveria sentir culpado pela polémica em torno da sua música! Os culpados somos nós que não conhecemos os contextos e as subtilezas das nossas culturas. A sua música é uma obra de arte. Agora, se o produto é de “alta qualidade” artística, ou se é uma “grande” obra de arte, eis a questão! Que se discuta, a partir de pressupostos estéticos.

 

Sara Jona Laisse, docente de Cultura Moçambicana. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

 

Vem de Movitel, companhia provedora de telefonia móvel.

É do conhecimento de todos que as autoridades policiais, nomeadamente a Polícia da República de Moçambique e a polícia municipal, são entidades sobre quem recai a responsabilidade de zelar pelo cumprimento das medidas restritivas no âmbito do estado de emergência.

A polícia devia, por isso, encarar todas as medidas em vigor da mesma forma e atribui-las o mesmo peso quando se trata de fiscalizar o seu cumprimento. A higienização das mãos com água, sabão ou cinza, o distanciamento social e o uso da máscara em lugares públicos são inegociáveis.
Infelizmente não é o que está a acontecer no terreno. Na hora de fazer cumprir com estes protocolos do Ministério da Saúde, a polícia parece mais preocupada com algumas áreas em detrimento das outras.

Ela é mais vista a fiscalizar os chapeiros, o que não seria nenhum problema se o objectivo fosse o de combater os atropelos que se verificam neste sector de actividade em que alguns operadores transportam para além do número autorizado de passageiros. Estão mais preocupados em ganhar dinheiro do que proteger os seus utentes.

Era suposto que este sector, por ser um dos maís privilegiados na actuação policial, fosse o que mais cumpre com as medidas do estado de emergência.

Mas, infelizmente, continua a ser o mais problemático. É que alguns excessos ou violações são resolvidos com um simples “refresco”.

Alguns agentes desonestos envergando a farda da polícia de trânsito e da municipal, pouco se importam com o risco que as pessoas estejam a correr com o incumprimento das regras estabelecidas. São capazes de deixarem passar irregularidades desde que ganhem algum dinheiro com isso.

Enquanto prevalecer este tipo de comportamento no seio de alguns agentes da polícia, que consideram o coronavírus como uma oportunidade para ganharem dinheiro, continuaremos a ter muitas infecções.

No calar da noite, a polícia tem feito rusgas à caça dos que teimam em vender bebidas alcoólicas para o consumo no local. Desde que começou o Estado de Emergência, centenas de pessoas foram detidas nestas operações, um pouco por todo o país, acusadas de violação do Decreto presidencial e os seus produtos, apreendidos.

No lugar de responsabilizar os prevaricadores de acordo com a lei, são, mais tarde, soltos e tudo fica como se nada tivesse acontecido. São pouquíssimos os casos que vão parar no tribunal e isso tira seriedade ao processo. É que não vale a pena prender pessoas se não é para responderem pelo crime cometido.

A acção da polícia em si está correcta. As rusgas devem ser feitas. Não se deve permitir a perpetuação deste tipo de situações arriscadas. É correcta sobretudo quando é para colocar tudo em pratos limpos. Prender e responsabilizar os infractores sem subornos ou extorsão pelo meio.

O que causa estranheza nisto tudo é o facto de a polícia fiscalizar o cumprimento de algumas medidas de prevenção de coronavírus e, aparentemente, ignorar outras, também de carácter obrigatória, que exigem o mesmo rigor no controlo por parte das autoridades policiais.

É quase nulo ou pouco visível o papel da polícia, na via pública, no que se refere à fiscalização do uso da máscara. As pessoas circulam num à vontade. Frequentam lugares públicos. Até passam junto à polícia sem máscara e nada lhes acontece, nem uma chamada de atenção.

Os agentes policiais encaram esta situação com normalidade. Não usar máscara não parece para eles um risco ou uma violação do estado de emergência, o que é errado, muito errado. Se não sabem, informam-se.

É grave que a polícia não tenha percebido ainda que circular sem máscara é perigoso quanto não higienização das mãos. Não observância do distanciamento social e da etiqueta da tosse, promoção de convívios, consumo de bebidas alcoólicas em grupo e outras situações.

Tudo isto representa um risco de contaminação com o coronavírus e, por isso, deve ter igual tratamento por parte de quem tem a responsabilidade de fazer cumprir estes protocolos: a polícia.

Continuamos com os mesmos problemas. As mesmas fragilidades na implementação das medidas. Os mesmos focos de infecção. Defeitos que transitam de um mês para o outro do Estado de Emergência porque, em alguns casos, não se faz sentir a mão dura da polícia. A falta de controlo rígido propicia o relaxamento. Infelizmente algumas pessoas só reagem com uma pressão policial nas costas.

A polícia tem que se fazer sempre presente. Tem que estar em cima dos acontecimentos. Informar-se e formar-se para poder fazer leituras correctas sobre qual deve ser a sua forma de ser e estar em cada momento, sobretudo num Estado de Emergência como a que nos encontramos. Não se deve admitir o vazio do poder.

O que é para cumprir, é para cumprir. O que é obrigatório, é obrigatório para todos, sem excepção. Tudo aquilo que é um risco, é sempre um risco. É assim como a polícia deve olhar para o Decreto presidencial. Para as medidas de prevenção estabelecidas em respeito aos protocolos do Ministério da Saúde e garantir que todas sejam cumpridas.

Não estou a pedir que a polícia violente os cidadãos, mas que se sintam, a todo o momento, pressionados, vigiados e, acima de tudo, obrigados a respeitar a lei que é o decreto, uma vez chancelado pela AR.

O papel da polícia não é só de prender as pessoas. Vai para além disso. Passa também pela educação do cidadão.

Não há cadeias suficientes para tantos violadores do Estado de Emergência. Por isso é pertinente que a acção da polícia seja acompanhada pela componente educativa, particularmente no que diz respeito ao uso da máscara que é uma das fraquezas no país. Educar e, ao mesmo tempo, obrigar ao cidadão a usar a máscara em lugares públicos.

Os outros países como a China socorreram-se das tecnologias para mobilizarem o público e fazê-lo cumprir com a decisão de que todos têm que usar a máscara. Colocaram no ar dezenas de drones, equipados com alto-falantes, a veicularem a mensagem sobre a obrigatoriedade do uso da máscara.

Moçambique não dispõe desses equipamentos, mas pode usar a força humana como a polícia, activistas dos direitos humanos, voluntários da Cruz Vermelha de Moçambique, agentes da medicina preventiva, pessoal do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, escuteiros e outras pessoas que possam se interessar em abraçar a causa.

Nas localidades, postos administrativos e distritos podem juntar-se os régulos ou os líderes comunitários, pessoas influentes e respeitadas na comunidade que podem ser ouvidas e acatadas pelas populações.

Não temos os drones, mas um exército suficiente de pessoas para o que se pretende: desencadear uma campanha nacional de educação cívica, com o apoio dos órgãos de comunicação social, de modo a elevar a consciência dos moçambicanos perante a covid-19 e acabar com casos de pessoas que ainda não acreditam na existência da doença no país.

O trabalho devia incidir sobre as áreas onde ainda há fragilidades no cumprimento das medidas de prevenção de coronavírus. Nos mercados, paragens, terminais de autocarros e na via pública, para garantir que é observado o distanciamento social e o uso da máscara. Nos cemitérios, para assegurar que é respeitado o número autorizado para assistir a um funeral. No transporte de carga, para garantir que os camionistas provenientes de alguns países vizinhos estão sob controlo e não representam nenhum risco de propagação da covid-19 em território moçambicano.

Os partidos políticos, na sua maioria ausentes deste processo da luta contra o coronavírus, podem integrar o grupo e estenderem a sua mão aos seus membros e simpatizantes. Produzir e distribuir máscaras aos necessitados e deixarem de só se lembram destes quando é para lhes pedir o seu voto.

Os políticos têm aqui uma grande oportunidade de mostrar o quanto se preocupam pela saúde e bem-estar dos seus fiéis votantes. Os defensores das suas cores políticas. Os guardiões dos seus interesses políticos. Por essa razão, eles merecem uma atenção especial.

Sim! A culpa é de todos nós! Todos que aceitamos, sem questionar, os namorados que nos prometeram o futuro melhor e, como se não bastasse, deixaram-nos viver mal como se ninguém cuidasse de nós.

Sim! Todos nós que aceitamos sob olhar impávido a musicaria da dita nova geração, cuja génese remonta dos tempos do Mc Roger, e deste seguiram-se outros e mais outros, sempre confundido o talento com a indumentária, os arranjos musicais com efeitos, videoclipes para lá da realidade, onde a mulher é banalizada e a aparência ganha um destaque importantíssimo, onde a poesia é escamoteada e a melodia gripada, enquanto isso os verdadeiros músicos são resumidas ao vazio, sucumbido dentro de um silêncio assustador.

Onde o poder económico e as influências de certos não-artistas são, quase em todas as vezes, o suplementar dos talentosos artistas. Obrigando-nos a ouvir cantantes que, em vez de cantar “miam”, que em vez de exibir os seus timbres vocais exibem os já gastos traseiros, como se para se tornar artistas isso fosse critério imprescindível, como fazem essas bailarinas que se tornaram cantantes, desde as lizas e Lilocas, o cúmulo da nossa ridícula musicalidade, o que me coloca a questionar com qual das bocas encantam.

Sim! Todos nós, que não dizemos basta, quando uma tal desavergonhada Melancia de Moz começou a “excrementar”, até chegar aos “trapistas” mudos que dizem cantar, passado por todos outros tão ridículos que aceitamos como músicos moçambicanos, e sob esse rótulo deixamos que nos representassem além-fronteiras. Não há dúvidas que é sóbrio o cenário da música jovem em Moçambique, independentemente do estilo, não se encontra aqui qualquer estilo, além deste ruído produzido em garagens.

Sim! Todos nós que não exigimos uma educação artística de facto nas nossas escolas primárias e nem nas universidades, onde saem jovem artisticamente deformados, sem qualquer sensibilidade com a arte, seja ela música, literatura, pintura e todas outras manifestações artísticas. O que leva a que, hoje em dia, o belo se transforme a tudo isso que fingimos não existir, permitindo, pela indiferença de todos, a proliferação de palhaços que se assumem de músicos. Cujas músicas só agradam pessoas quando ébrias. Não é por acaso que anda tão embriagada a nossa juventude.

É nesse contexto onde o ridículo ganha espaço e destaque, onde assistimos uma coerente ausência do belo, em que aparece o “culpado” de Lugela como um produto altamente artísticos, e de noite para o dia o idolatramos. Não quero com isso dizer que a música do jovem zambeziano não seja boa ou que não mereça o que tanto se diz, mas a verdade é que esta música, para mim, vem mostrar o quão vago está a caixa onde guardamos a nossa sensibilidade artística, mostra o quão vazio vivemos. Esta música mostra que estávamos ávidos de qualquer coisa que nos acalentasse a alma, nesse país de eternas guerras.

Talvez sejam as guerras a razão para tanta euforia, uma vez que esta música consegue ser o espelho fiel daquilo que somos enquanto moçambicanos, sem maquiagens e arranjos. Todos nós que temos a paz amarrada com borracha e sofremos como se ninguém cuidasse de nós. Talvez sejam as guerras o motivo para tanta exaltação uma vez que a música transmite a pobreza, a ganância, a avareza, a prepotência dos homens e, como é óbvio, a dependência da maioria da população (as mulheres) a estes mesmos homens, que uma boa parte deles está sucumbindo em Cabo Delgado.

Talvez seja essa música a metáfora das nossas vidas por isso tem o sucesso que tem, mas para mim o culpado de tudo isso, não é o namorado, o Governo, mas a namorada, nós que aceitamos todas as promessas sem duvidar e nem questionar? Por isso não nos resta mais nada que dançar as “batucadas” do Irmão Mbalua, vivendo mal e sem cuidados de quem nos prometeu que o faria. Mais não disse.

Lurdes Mutola estava com um tempo fantástico mas a segunda marca mundial pertencia a Tina da Glória. Na corrida final do Mundial de Estugarda na Alemanha, 1993, Moçambique terá perdido a oportunidade de concretizar um feito para a história: os títulos de Campeã e Vice de todo o Mundo, nos 800 metros. E por mais incrível que pareça, a dúvida residia apenas em qual das duas cortaria a meta!

O que aconteceu então? Um “tropeção” da nossa número dois na chinesa Lo Ping, na penúltima curva, deitou tudo por água abaixo. Nessa altura, as moçambicanas já se lançavam em direcção à meta, com o ouro e a prata no horizonte. Argentina da Glória caiu, quase desistiu da prova, acabando por cortar a meta numa das últimas posições.

Lurdes venceu, pela primeira vez, o título máximo, mas ficou amargurada pelo facto de a sua prima não ter sido uma das damas de honor.

MANCHA FATAL?

Essa corrida terá marcado a carreira desta grande oitocentista, que antes já havia deixado indicações muito seguras de uma carreira ao mais alto nível, que terá ficado duramente marcada pela queda que destruiu um sonho.

Após a final, apesar dos fortes incentivos de Marcelino dos Santos, do técnico Stélio Craveirinha e, de uma forma geral de todos os moçambicanos que acompanharam o evento, Tina estava inconsolável. Pelo momento de forma em que atravessava, sabia que a luta naquela prova era “apenas” para saber qual dos lugares do pódio iria ocupar.

ASCENSÃO METEÓRICA

Na primeira prova em que participou numa competição “a doer”, os Campeonatos de Portugal de 1992, conseguiu o tempo de 2.03:84 minutos. Era o prelúdio de um salto que permitiu que, em Maio de 1993, após uma série de vitórias no circuito sul-africano e no meeting de Nova Iorque, alcançasse 1:56.62, tempo só superado pelos 1:56.56 m de Mutola. Na altura, era a 50.ª melhor marca mundial de sempre!

Após aquele infeliz dia, nunca mais foi a mesma. Continuou a correr os 800 metros com marcas bem mais modestas, tentou os 1.500… mas o factor motivação já não era o mesmo.

Radicada em Itália de há uns anos a esta parte, de Argentina Paulino pouco se sabe. Ao que tudo indica, a atleta, que tinha potencial para atingir patamares idênticos aos da sua prima Lurdes, já não tinha a motivação de outrora.

Nascida na província de Inhambane, começou por ser praticante de basquetebol e só aos 18 anos optou pelo atletismo, por influência do treinador e antigo recordista nacional de salto em comprimento, Stélio Craveirinha.

Foi, na realidade, uma das maiores estrelas nacionais, um “boom” que não foi maximizado. Poderia ter ido mais longe, provavelmente com mais perseverança e acompanhamento.

Até que naquele fim do mês de Setembro a Alicinha deu entrada na maternidade do Hospital da Missão Suíça para o parto que já vinha com a data atrasada. Na sala de partos ela contorcia-se de dores. Apesar dos encorajamentos das enfermeiras, ela tinha muitas dificuldades em ter um parto espontâneo. Teve de ser operada à barriga-aberta para extrair o bebé. E deu à luz um rapaz a quem, de imediato, deu o nome de Martinho. Doutro modo nem poderia ser. Era a reencarnação do seu noivo, a perpetuação do nome da família.

Na manhã do segundo dia depois da operação-cesariana a Alicinha aprontava-se para ir à sala de pensos, na companhia duma enfermeira. Era a estas horas do fim da manhã que, por rotina, recebiam visitas de caridade de freiras, ou de irmãs filantrópicas; outras mulheres que vinham ajudar as parturientes em tarefas mínimas como mudar as fraldas dos recém-nascidos, aconchegá-los ao colo quando as mães se deslocassem à casa-de-banho; enfim, uma mãos caridosas ao serviço das mães que delas necessitassem.

A senhora enfermeira Judite, que era a chefe do turno da manhã na sala das parturientes operadas, chegou e, com aquele seu sorriso espontâneo, já tradicional, convidou a Alicinha para a rotina da mudança do penso. “ … Deixa lá o bebé com esta nossa amiga…”, dissera, a oferecer os serviços daquela irmã que era já figura quase obrigatória naquele sector. Todas conheciam a irmã Cacilda, uma mulher que habitualmente frequentava a enfermaria em missão de filantropia. Esta nem hesitou porque essa era uma das suas missões: oferecer o seu gesto de entrejuda às parturientes.

Quando, vinte minutos depois, que foi o tempo em durou a mudança do penso, a Alicinha regressou ao quarto, não viu a tal irmã Cacilda, nem o seu bebé recém-nascido! Teve um baque no coração. Olhou ao redor e não viu a mulher a quem confiara a guarda do bebé. Gritou pelo seu nome; o espanto do pessoal e doutras parturientes foi a resposta. O alarme sobre o desaparecimento daquela mulher e do rapto da criança foi lançado. Havia uma emergência no hospital. Foi um corre-corre, desde as casas-de-banho à sala de partos; desde os corredores ao portão de saída da instituição. Em vão, tudo em vão: a dita Cacilda raptara o filho da Alcinha e levara sumiço do hospital sem deixar rastos. Foi um escândalo numa instituição que se prezava pela qualidade dos seus serviços e pela segurança dos seus utentes.

Dizer que a Alcinha ficou abalada é minimizar a dimensão do seu sofrimento. Nada havia que a consolasse. Havia perdido grande tesouro, o mesmo que lhe legara o seu falecido noivo, o mesmo que era uma promessa de uma vida confortada com a companhia desse filho que acabava de perder. Agora, com desaparecimento deste o que restava mais senão entregar-se à morte, porque de que valia viver se não usufruiria do direito de casar e do privilégio de ter filhos? Uma angústia profunda acabrunhou-a e quase levou-a à loucura e ao suicídio.

irmã “Cacilda” era uma mulher de meiaidade que fazia estadias sazonais no bairro do Chamanculo. Poucos conheciam a sua morada certa ou donde provinha. O que se sabe é que, por vezes, embarcava nas carreiras dos Oliveiras com destino a Chibuto, ou de lá vinha em viagens de curta duração a Lourenço Marques. Quando aí estivesse oferecia-se para pequenos serviços no Hospital da Missão Suíça, onde era acolhida com simpatia. Era uma mão extra para pequenos trabalhos nas enfermarias, nos cuidados a doentes acamados. Enfim, quando não comparecesse até chegava a fazer falta. As enfermeiras estimavam-na, era já considerada um membro activo da sua equipa.

Esta “irmã Cacilda”, por aquilo que se poderia apurar, era uma mulher que vinha elaborando um projecto de raptar uma criança da maternidade do hospital. Para dizer a verdade, ela tinha problemas de conceber e ter filhos. Casara-se fazia três anos com um mineiro que todos os anos descia à terra natal em Mabunganine, com a esperança de que esposa lhe concederia a felicidade de lhe dar um filho. O tempo passava e ela sem dar sinais de que, um dia, aquele sonho viria a materializar-se. Vivia na angústia permanente de ouvir recriminações dos familiares, farta das chacotas das vizinhas e, o que era mais grave, das ameaças de expulsão de casa pelo marido. Do íntimo vinha também uma voz que lhe dizia que algo tinha de fazer para ganhar a honra de ter uma criança a que chamasse sua. E então, meticulosamente, elaborou aquele plano. O esposo regressara ao Djone em princípios de Janeiro daquele ano, depois de uma estadia de cerca de um mês. Fora para as celebrações das festas do Natal e do Ano Novo. O casal não poupou tempo ou esforço. Entregou-se em efusões na cama até ao esgotamento. No fim de cada contacto ficava nos espíritos de que ao cabo dum mês os resultados far-se-iam revelar, os de que ela concebera e ao fim dos nove meses outra felicidade entraria no lar.

Dois meses depois do regresso do esposo à África do Sul, a “irmã Cacilda” escreveu uma carta ao marido, ou alguém fê-lo por ela, para anunciar que “estava de grávida” e que aguardava o parto para a última semana de Setembro. Escusado é imaginar quanta alegria encheu o espírito do esposo. Lá nas minas, entre os colegas, começou a anunciar a novidade de que, se tudo correr bem, passaria as próximas festas do Natal com um filho ao colo. O seu filho! Porque já muitos lá na aldeia, e mesmo nos compondes, já duvidavam da sua virilidade e fecundidade. Nada diziam abertamente, mas caçoavam à socapa: “…ah, esse nunca pode ter um filho porque foi mordido por um coelho!…”. E ser “mordido por um coelho” era o mesmo que ser impotente sexual, incapaz de reproduzir um filho.

Durante o período do desaparecimento do filho da Alcinha o Hospital da Missão Suíça entrou em estado de sítio. A administração da instituição considerava que a ocorrência daquele incidente era um enorme vexame, uma grande nódoa à sua reputação. Como se explicava que uma pessoa estranha tivesse acesso às enfermarias, se introduzisse nas equipas de trabalho com aquela facilidade e, mais!, fosse capaz de cometer aquele acto? Tal só seria possível com a conivência de alguém de dentro. E essa era a enfermeira Judite, a mesma que aconselhou à parturiente a deixar o bebé com aquela mulher que se intitulava “irmã” Cacilda.

A enfermeira Judite penou tormentos às mãos da Polícia Judiciária. Foi levada aos calabouços de Ka-Mussana e submetida a intermináveis interrogatórios. Como não confessasse torturaram-na com sessões de palmatoadas, de manhã, à tarde e ao deitar. Como insistisse em dizer que de nada sabia sobre aquele assunto, os detectives resolveram ministrar-lhe o mesmo castigo nos pés e no já magro traseiro.

“ Quem é a mulher que levou o bebé? Onde ela vive? Como entrou no hospital?”, eram as perguntas para as quais ela não tinha resposta. Apenas choramingava e lamentava-se:

“ A única verdade que conheço é que não sei de nada!”.

Como a enfermeira era uma mulher crente em Deus, que sempre vem ao socorro dos injustiçados, os eventos sobre o desaparecimento do filho da Alicinha tomaram novos contornos, dos quais resultou a sua soltura, os mesmos que passo a relatar.

O marido da “irmã” Cacilda, o senhor Muthakathe, regressou da África do Sul para as festas do Natal revigorado pela ansiedade de ver e aconchegar o filho varão ao colo. Claro que recomendara que dessem ao mesmo o seu nome: Jonas César Muthakathe. Desembarcou da carreira dos Oliveiras, no terminal da vila de Manjacaze, ajoujado de bagagens em que abundavam roupas e outros mimos para o recém- nascido, e para a esposa, é de se ver. Daí embarcou numa camioneta que o transportou até ao destino: a localidade de Mbunhane, na povoação de Mabunganine. A recepção foi efusiva, cheia de ululações pela parte dos familiares. A “irmã” Cacilda, porém, não parecia partilhar do contentamento geral. Havia um certo retraimento em toda a sua pessoa, como se a chegada do esposo significasse o fim de um bom sonho, ou o final de uma jornada feliz. O caso é que a criança apresentava feições que se não assemelhavam a nenhum dos parentes próximos, ou mesmo distantes, seus ou do marido. A avó deste, de olhos ramelosos mas aquilinos e com muita experiência da vida sobre os ombros, manifestara a sua desconfiança quando o bebé tinha apenas um mês de idade. Este chorava que até metia pena, durante o dia, e durante as noites, o que, na óptica daquela, significava que “comeram” o apelido do menino, que é filho de alguém estranho à nossa família”. Sem poder conter-se, porque também já corriam boatos na povoação, disse à nora-neta que “…esta criança não parece ser do meu neto… na nossa família não há ninguém com esta cor ou com cabelo tão liso como o dele… parece mais filho dum indiano ou dum mulato… ná, aqui há gato!…”. E por aí ficou-se. O resto ver-se-ia com o tempo. Escusado será dizer que as relações entre as duas mulheres não eram de molde a considerarem-se afectivas e pacíficas.

A avó do Muthakathe já vinha desconfiando dos procedimentos da mulher do Jonas desde que este regressara ao Djone na época anterior. Esta viajou para Lourenço Marques onde se fixou e dizia viver num bairro chamado Hlamanculo. E mais, que arranjara emprego num hospital como auxiliar de serviços. O estranho é que das poucas vezes que viajou para Mabunganine vinha embrulhada em panos e vestidos-à-mamã, como se estivesse “de grávida”. Mas a avó, que já vira milhares de mulheres grávidas, e até ajudara muitas em trabalhos de parto, não enxergou na nora-neta sinais de que na verdade estivesse naquele estado. Mesmo a cara era a mesma, sugada, de mulher esfomeada, nada que se parecesse aos rostos das grávidas, que são arredondados e com algumas borbulhas; as pernas, em vez de mostrar algum inchaço, continuavam fininhas como as das dançarinas de massesse; nunca se queixou de faltas de apetite, ou do seu exagero, nem de vomitar durante as manhãs, embora deglutisse torrões de matope. Para a avó, toda aquela representação era uma farsa, uma tentativa de convencer a toda a gente de que estava grávida. E a verdade veio ao de cima com o “ nascimento” daquele bebé mulatinho. Das duas uma: a nora-neta estava mesmo “de grávida” e a gravidez era de um homem mestiço, ou o mais certo era ter roubado o bebé dalgum lado porque grávida não estava. Qual era a verdade? Como a paciência é a mãe de todas as virtudes, e porque uma gravidez é como um furúnculo que um dia vai rebentar, resolveu esperar para ver. A verdade ia falar por si. E falou.

Naquela mesma tarde do desembarque, o recém-chegado Muthakathe exigiu que lhe depusessem o filho ao colo, o que a esposa fez a contragosto, deve-se confessar. Aquele descobriu a cobertura da cabeça e do rosto do bebé e não gostou do que viu. Não se achava nenhum papalvo, nem tão cegeta que não descobrisse que aquela criança tinha um cabelinho liso, escuro, a pele francamente pálida, como é a dos mestiços. Era, e porque doutro modo não poderia ser, filho de pai ou de mãe mestiça. E estes não os havia na família. Devolveu-a à mãe, carregou o sobrolho e trovejou:

“ Matildana, és capaz de me dizer quem é o pai desta criança?”. Meteu a cabeça entre as palmas das mãos e escondeu-a entre os joelhos. Estava aniquilado de desapontamento, crucificado na cruz da humilhação, um animal enclausurado na jaula da vergonha.

A resposta veio sob a forma de silêncio.

“ O que eu quero saber é: quem foi o homem com quem tiveste esta criança. Só isso. Do resto trato depois”, Jonas persistiu no interrogatório, a ranger os dentes. As mãos estremeciam e os traços do rosto crisparam-se, evidência de uma ira que crescia.

Da boca da pretensa “irmã Cacilda” as palavras saíram atropeladas, um balbuciamento de falsidades mal forjadas: “…hã… porque eu…, hã… porque a mãe da criança morreu…, hã…porque já não sabia o que fazer…”. Era a queda do embuço, a confissão pronunciada do crime de rapto que cometera e da mentira que pretendera impingir ao marido para ganhar o direito ao lar e sustentar o orgulho de ser mãe.

E a bomba explodiu em Mabunganine: a Matilidana sequestrara aquele bebé dalgum hospital em Lourenço Marques, o mesmo que declarara ser seu. E que, pobre da mãe – sabe-se lá quem é, e onde estará – a penar as angústias do Inferno pelo desaparecimento do filho.

A notícia chegou acelerada aos ouvidos das autoridades na vila de Manjacaze através dos arautos do régulo.

Quando os agentes da Polícia Judiciária chegaram a Mbunhane, lá nos matos recônditos da povoação de Mabunganine, encontraram a falsa irmã Cacilda à beira da morte, da sova monumental que o marido lhe ministrou. Com eles levaram a criança raptada e, com brevidade, devolveram-na ao colo da Alicinha que, assim, ressuscitou do estado de desespero e de depressão em que já vivia.

 

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

Debaixo d’água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água se formando como um feto
Sereno, confortável, amado, completo
Sem chão, sem teto, sem contacto com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
(…)

Debaixo d’água por encanto sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar

 

“Debaixo d’água/ agora”

Maria Bethânia

 

Ver e ouvir Maria Bethânia é qualquer coisa que sobressalta a pele e a emoção. Há quatro anos, a cantora esteve em Maputo para um sarau de poesia com participação de Mia Couto e José Eduardo Agualusa, no Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane, e lá deixou os seus predicados, como se justificasse o título de Abelha Rainha da Música Popular Brasileira. Certamente, uma noite memorável.

Ponho-me a pensar em Bethânia depois de ver o espectáculo Dentro do mar tem rio, no qual, entre várias músicas, a brasileira cantou “Debaixo de água/ agora”, uma lindíssima composição de Arnaldo Antunes. A água, nessa letra de um dos integrantes dos Tribalistas, de facto, é o centro de tudo: da beleza, da vida e da contradição que nela existe.

Esse espectáculo disponível no YouTube, com hora e meia de duração, veio mesmo a calhar, pois contribuiu para que decidisse escrever este artigo sobre água, líquido imprescindível e escasso no quotidiano de milhões de moçambicanos. Em Bethânia, a água é tão comovente que, não fosse a impossibilidade de se respirar por debaixo, seria o melhor sítio para se estar: fora do perigo, sem medo, sem fome e sem pranto. Na música da cantora brasileira, a água é um lugar, ao contrário da música “Mati”, de Selma Uamuse. Nesse tema que intitula o álbum de estreia da autora moçambicana residente em Portugal, a água é alimento do corpo, do espírito e da mente; é cura, terapia e vida que merece ser conservada.

Ao cantar sobre a água, com subtileza, Selma Uamusse configura um jogo metafórico, inserindo na música uma entidade disfarçada naquele líquido. A composição é leve e cíclica. No entanto, traduz uma relação recíproca entre a voz que nos comunica, que precisa de água tanto quanto a água precisa dela para ser vital: “You are water/ Water for my mind/ Healing?water/ Water?for my soul”. Ou seja, através de um texto simples, mas não simplista, Uamusse consegue alcançar dois propósitos em simultâneo. Primeiro, num mundo demasiado esbanjador, chama à razão a urgência de se preservar o que se tem de mais relevante: a natureza e os seus encantos, sempre postos em causa a cada descoberta de combustíveis fosseis. Segundo, “Mati” (do cicopi, água), coloca-nos a viajar no poder das palavras ditas ora em cicopi, ora em inglês. Quando isso ocorre, o propósito de Selma Uamusse parece ser o de se apresentar pró-ambientalista, como quem usa a música para exercer um activismo a favor da protecção ecológica. Esta acepção ganha relevo quando, por exemplo, a música diz repetidas vezes: “saving water”. É provável que o interesse da cantora passe manifestar alguma preocupação pelo planeta. Na verdade, nem se deve negar que a música comporta tal dimensão ecológica. Entretanto, à natureza Selma Uamusse parece ir buscar uma matriz a essência do que afinal revigora uma relação humana.

Seja como for, em “Mati” a água é purificação, bênção, a dose certa de hidrogénio e oxigénio na (re)activação da força anímica. A passagem “You are mati/ (…) Mati yo bassissa/ Moya, ndlondo ni mizi” é determinante na hierarquização dos níveis em que o significado da água actua.

Ao contrário de “Mati”, de Selma Uamusse, nas histórias “Nuvem de espuma” e “Na pena de um pássaro”, de Bento Baloi, ambas publicadas na coluna Arca de não é, do jornal O País, a água é uma corrente de dor e maldição. Afinal, é por causa da água que os protagonistas das narrativas perdem os que amam e ainda tudo o que têm. No primeiro texto de Baloi, logo no princípio, o discurso do narrador introduz:

A água chega com os mochos. Os pássaros da morte movem-se pelos ares sussurrando segredinhos apocalípticos aos ventos frios da madrugada. O Búzi nega em deixar-se comprimir por um par de margens já flácidas. Borbulha por aqui e por ali, galgando o interior de impotentes paredes da argila (“Nuvem de espuma”).

A referência aos mochos, no excerto, revela que a água não chega como solução. Longe disso, é uma arma da morte na origem de sinais agourentos. Tal se nota quando, depois de deixar para traz a sua palhota a fim de se refugiar na copa de uma árvore, fintando assim a fúria do rio Búzi, Nyaswa, a protagonista, perde para água parte do que a mantém viva, justamente no momento em que um helicóptero chega para a salvar. O sentimento com que a personagem fica  ao ver a filha ser levada pelas águas é o mesmo que envolve o protagonista de “Na pena de um pássaro”, que, desalentado, diz:

Este céu nem parece o mesmo que deixei no dia em que, acocorado numa barcaça, parti com a minha crença no amanhã submersa em águas turvas. Águas que me roubaram sonhos. Águas que me tiraram a espinha dorsal da vida. Águas que suprimiram toda a razão do meu ser. Só Deus sabe para onde estas águas da morte terão levado a minha família: esposa e filhos (“Na pena de um pássaro”).

Nesta narrativa de Bento Baloi, igualmente inspirada na tragédia criada pelo ciclone Idai, no Centro do país, em Março do ano passado, o protagonista e a água ocupam o epicentro da história. O primeiro, como vítima de uma catástrofe: “Foi aqui que nasci, cresci e fiz a família que a água levou. Este é um reencontro comigo próprio. Um raio frio fulmina-me a alma”; e o segundo elemento como a causa da catástrofe pessoal e colectiva. Também nessa história a água (cheias) é destruição, angústia e frustração. Se quisermos, antónimo de esperança.

Em Bento Baloi, debaixo ou sobre a água, o mundo não é nada bonito. Vai carregado da crueldade da natureza, arrasando, em breves instantes, o que se levou uma vida inteira a construir. É como nos diz um sujeito poético de Nónumar, de Júlio Carrilho: “É isso a água. Uma modelação infinita da superfície. A pôr a lei no caos e o caos na lei de sermos” (p. 20).

Quem também trabalha a sua ficção, tendo água como sustentáculo é João Paulo Borges Coelho. No seu livro Água – uma novela rural, o líquido constitui a maior preocupação das personagens, numa comunidade completamente dependente do que a natureza oferece, quando pode. A água mexe com todos, muitas vezes expondo as personagens ao risco que não supõem correr. Maara, a protagonista, é exemplo disso. Sem sequer supor, conquista o coração de Waaser, que a concede a escassa água importada da cidade nus camiões-cisternas. Numa aldeia pequena, a acção do Engenheiro cria algumas animosidades, com os manipuladores Laago e Praado a descarregarem as suas desilusões na eleita de Waaser.

Ora, num primeiro momento, com a seca a ameaçar a sobrevivência das populações, Laama, uma espécie de sábio da aldeia, enxerga na escassez da chuva algo anormal, isto é, um castigo dos deuses. Já para o seu companheiro, Ryo, a falta de água é um castigo do vento. Conforme observa o narrador, os dois velhos

Estão portanto de acordo, ambos concluem que a falta de água é um castigo. E chegar ao castigo é chegar ao início da resposta, ao início do caminho que é preciso percorrer para atingir a explicação. Reconhecido o castigo, é só retroceder um pouco para chegar à culpa, culpa de algo que havemos de ter feito. Que fizemos nós? A quem desobedecemos? (Água, p. 56).

 

As duas perguntas são pertinentes para a compreensão da mensagem que João Paulo Borges Coelho, Bento Baloi e Selma Uamusse nos trazem, como veremos.

Na novela rural de Borges Coelho, a escassez da água afecta as relações do Secretário da Aldeia  com Praado, quando este a vai roubar no estaleiro do Engenheiro Waaser, e entre Maara e o namorado Ervio. O líquido funciona como uma parede invisível, fazendo com que, de um lado, se tente compreender a falta e, do outro, apenas se deseje. Ervio não tem como estar na aldeia o tempo desejado, pois, na cidade, tenciona chegar rapidamente à conclusão que o permita saber quando a chuva volta para refrescar a vida da sua gente.

Não obstante, em Borges Coelho, sem água, o sentido e a lógica da existência esmorecem simultaneamente com solidariedade comunitária. A harmonia na aldeia deixa de ser constante e passa a intermitente consoante as motivações individuais. Há assim, com efeito, um abalo do conceito comunidade, já que, diante de uma preocupação comum, a ambição de uns e outros aldeões fundamenta-se como o princípio de uma crise social. Daí surgem intrigas, ciúmes, artimanhas e descrenças.

Num segundo momento, na novela, a situação da seca muda numa velocidade asfixiante. De repente, as cheias chegam augurando a morte e a água deixa, paradoxalmente, de ser o maior desejo da aldeia. Na nova condição, todos poem-se a fugir. Sobreviver é nova preocupação. Por isso, os que podem e conseguem refugiam-se na encosta da montanha. Tudo fica para traz, quando o leito do rio, feito hidra realmente malvada, devora a estabilidade social. Aí, igualmente, a história de Borges Coelho é bem realista ao demonstrar como as populações ribeirinhas são vulneráveis à demasiada precipitação. Quando as cheias atravessam a aldeia, submergem o que encontram: o lugar e as histórias desse mesmo lugar, quase apagando, assim, o passado ancestral. A grande consequência disso, em termos narrativos, é a nova orientação da história, que se torna mais colectiva, diminuindo sobremaneira o protagonismo de Maara, enquanto centro do amor de Ervio, do que parece atracão de Waaser ou da presunção de Laago. Na narrativa, as novas pontes da esperança passam a ser os helicópteros que chegam de algum lugar desconhecido para salvar os sobreviventes. Uma descrição que se repete muitas vezes em Bento Baloi, conforme se observou em “Nuvem de espuma”.

Em geral, a água é bênção nas comunidades africanas. A sua escassez, muitas vezes, precipita interpretações da ordem os deuses ou antepassados estão aborrecidos com os humanos. Ou será a natureza enfurecida? A ser, voltam aquelas duas perguntas colocadas pelo narrador de Água: “Que fizemos nós? A quem desobedecemos?”. Ambas as perguntas podem ter a mesma resposta: maltratamos e desobedecemos a própria natureza. Parece ser esta a grande chamada de atenção das narrativas de João Paulo Borges Coelho e Bento Baloi, quando retratam a seca e/ ou as cheias que se repetem todos anos em Moçambique. A escrita dos dois autores mostram-nos um desequilíbrio natural, uma degeneração da vida forçada pela ambição humana. Pode a natureza estar enfurecida? Seja qual for a resposta, a ficção, neste contexto, é uma luz para se repensar o planeta e a protecção das populações carenciadas.

Borges Coelho e Baloi levam à escrita esses outros Moçambique, recônditos na distância do esquecimento. Nos dois casos, a água acaba sendo maldição, pois, ao invés de saciar a sede das personagens, as destrói interiormente, fisicamente e psicologamente. Em nenhuma das duas narrativas as personagens estão preparadas para enfrentar as cheias. Claro que este cenário é diferente em “Mati”, de Selma Uamusse. Nessa música, a água é valiosa em todos os aspectos e não se adivinham máculas. É essa a grande razão de a voz que nos canta sugerir a sua preservação. Satisfeita.

Embora as abordagens sejam diferentes, nos textos de Uamusse, Baloi e Borges Coelho há uma proposta de reflexão sobre a natureza enquanto parte integrante das motivações humanas. A música e as histórias trazem essa lembrança para, quiçá, o Homem perceber o seu lugar e a sua insignificância nos projectos da Terra. Há aí um sopro que espalha no ar um grito inaudito, por isso inefável. Não se descreve esse grito ecológico, apenas ouve-se. Depois, escolhe-se o que se com isso.

Por fim, “Mati”, “Nuvem de espuma”, “Na pena de um pássaro” e Água – uma novela rural são aproximações aos ensinamentos primordiais sobre cuidar, prevenir e amar a matriz tangível da nossa existência: a natureza.

 

Não foi o rádio que tocava, em alto e bom som, as últimas houses durante toda a noite algures em uma das barracas que transformou em pólvora aquela manhã de Dezembro dos moradores dum dos becos do bairro do Chamanculo.

Nem se pode pensar que foi a falta de água nas torneiras mesmo sendo, o beco, um vizinho fronteiriço com o SMAE, onde presumia-se que era tratada e distribuída a água às cidades de Maputo e Matola. Não foi de forma nenhuma o Txaia que, como todas as manhãs, subiu ao poste para dizer à todos que Cahora Bassa já não era nossa, mas que não devêssemos nos preocupar, pois, voltaria a ser no final do dia. Nem foi a Modjane que, mais uma vez, foi ordenada que retornasse para onde tinha passado a noite. Nenhum desses eventos corriqueiros e ordinários seria capaz de transformar a manhã daquela singela zona (uma war zone) em pólvora.

Não foi, também, a carrinha de duas rodas à tracção humana que, visivelmente, carregava no seu regaço alguns sacos plásticos de xinquas, favos de ovos, um kit de mantas, uma ventoinha e mais alguns pepabag’s cujo conteúdo era indecifrável. O que transformou o bairro em pólvora foi quem vinha atrás da carrinha, com uma pasta de costas empanturrada, uma calça com refletores nos joelhos, botas e uma camisa com os três primeiros botões abertos, deixando a vista o peito que expelia um suor com odor estrangeiro. Era o mano Txarles que, desde o seu primeiro regresso, deixara de ser mano Carlitos. Na verdade, não era ele quem aguçava a curiosidade e a inquietação dos vizinhos, mas o que o ele trazia na mão, a maior das últimas novidades da época, o símbolo de uma estadia de sucesso nas terras do rand, prosperidade e visão: um DVD.

Foi o DVD que, em escalas apertadas, juntou os vizinhos do mano Txarles na sua pequena sala cujo quintal, que desaguava num beco, era dividido com outras três famílias. Madala Bêbado, Comando salva-filha, Van damme e Ndvove, Ivon Dragon, Alex, Bruce lee, Bude xpense e Trinintal já poderiam ser vistos em um único disco sem necessitar daquela troca maçante ao minuto 58 que era imposta pelo VCD. Era vizinho a entrar, demorar-se por três a quatro horas e depois sair para dar lugar a outro vizinho que vinha saudar o recém-chegado que, sem excepção, também demorava entre três a quatro horas só a “saudar”. Alguns até repetiam a visita no mesmo dia. Sinceras eram as crianças que frontalmente diziam: viemos assistir.

Mas o fim estava a vista e, infelizmente, seria dramático. Não porque o mano Txarles fosse regressar para Jobeque com o seu DVD ou que o fosse arrumar numa mala em que a chave estaria apenas com ele. Nada disso. Mano Txarles era boa pessoa e todos gostavam dele na zona. Talvez fosse exactamente por isso, por ser boa pessoa. Não foi de alguma forma o cheiro dos ovos fritos que nunca eram servidos aos visitantes, mas apenas ao mano Txarles e aos seus filhos e sobrinhos. Cunhada Clarinha, esposa do mano Txarles, era muito criteriosa nisso, caso contrário os ovos não durariam nem sequer uma semana.

O problema esteve nas crianças, aquelas criaturas tão suaves e sinceras. Não esteve em todas crianças, esteve numa criança apenas, uma curiosa criança que, sentada no chão, distraiu-se do filme, lançou um olhar para baixo da cama do quarto do mano Txarles que estava permanentemente aberto, talvez para exibir a nova roupa de cama ou a ventoinha, e reconheceu uma peça de roupa, uma peça que a sua mãe tinha dado por desaparecida havia alguns meses mas que ninguém nunca conseguira explicar o misterioso desaparecimento. Inconsequente e ingénua, a criança gritou:

– Camisa de papá ali em baixo da cama de tio Txarles.

Dona Clarinha deixou cair uma panela de caril de frango que estava já em fase final de ebulição no fogão apagando quase todo carvão, alguns mais velhos presentes tentaram abafar o eco das palavras da criança, outros fingiram estar muito atentos no aluno do madala bêbado que enchia um tambor com um copito, outros não conseguiram fingir, o seu olhar os denunciou. Outra inocente e sincera criança berrou:

– Sim, é aquela camisa de tio Xande…..

Mano Txarles não era burro. Rapidamente estudou a reacção de todos. Olhou para Cunhada Clarinha que não conseguiu balbuciar sequer uma palavra enquanto o pouco carvão que não tinha sido atingido pelo caril teimava em abrasar. Confessou com os olhos.

Talvez, o bom de tudo, é que mano Xande, que morava no mesmo quintal mas em outra casa, não precisou de um último banho, pois, foi surpreendido na casa de banho untado de sabão. Foi rápido. Antes disso houve gritos, apelos, advogados que tentavam defender mano Xande, ou talvez a cunhada clarinha, mas todos eles foram infelizes. Mano Txarles estava decidido. O Martelo foupause, também recém-chegado, deixou-se cair com ímpeto na cabeça de mano Xande que nem teve tempo de tentar se explicar. O escuro ou a luz devem ter chegado logo a seguir.

Consciente do que acabara de fazer, mano Txarles, sem falar com ninguém, entrou no quarto, levou a sua pasta, calçou as suas botas, pegou no seu passaporte, atirou o DVD a parede deixando-o em pedaços, atirou os discos no carvão aceso, foi-se embora e nunca mais foi visto no Chamanculo.

 

Há dias, a Secretaria do Estado do Desporto, Federação Moçambicana de Futebol, Liga Moçambicana de Futebol e os clubes que irão disputar o Moçambola renuniram-se e, desse encontro, saiu uma realidade assustadora: apenas três, dos 14 clubes que vão disputar o campeonato nacional é que estão licenciados.

Afinal, teria ou não começado o Moçambola 2020, se o Covid-19 não invadisse as nossas vidas? E se tivesse começado, conforme o programado e até com calendário, como ficaria a exigência rigorosa de todos os participantes estarem devidamente licenciados? Seria apenas jogado entre 3 clubes? É que a FMF garante que nenhum não licenciado poderá (ou poderia?) tomar parte na competição máxima.

Os clubes, através do seu porta-voz, Jeremias da Costa, dizem que a direcção máxima do nosso futebol tem a cabeça na realidade de outros países africanos.
A não ser – dizemos nós – que possa sair, em poucos dias, “um coelho da cartola” de tal sorte que os clubes, que se desdobram em busca de dinheiro para pagar salários, de repente passasem a poder responder à exigência da CAF…

UM ASSUNTO COM BARBAS

Uma das ilações que se pode e se deve retirar da pandemia é que teremos, todos, que cair na real. Tal como noutros sectores da sociedade, sem buscar culpados, nem pôr de parte que poderemos, eventualmente, ter que dar um passo atrás para depois, com vigor e certeza, dar dois em frente. Tal como muitos aconselham, nas áreas da Educação ou Turismo.

Nos clubes, a maioria dependentes de integrações e das sensibilidades dos respectivos gestores, sempre se foram acumulando saldos negativos, ao estilo… depois se verá. O mesmo se foi passando com a Liga, que chegou a necessitar da intervenção do Chefe de Estado para concluir um Moçambola.

E agora, com a pandemia, quantos passos atrás estão a acontecer na quase totalidade das empresas integradoras e na publicidade que ajudava a alavancar a prova?

Além disso, haverá que enfrentar novas implicações, face aos caríssimos testes e restrições, além dos jogos terem que ser realizados à porta fechada!

UM LADO OBSCURO?

Um lado que parece obscuro na situação, é que os eventuais recuos, ou não cumprimento nos licenciamentos, podem representar corte nos apoios financeiros internacionais.

Porém, analizada com os pés bem assentes no chão, a realidade mostra-nos que o segredo deverá estar no meio-termo e não no radicalismo. Se o figurino era já insustentável, e os balancetes fechavam sempre com “déficits” crescentes, agora já não parece possível continuar a piscar para a direita e virar para o lado contrário.

Salvo raras e honrosas excepções, as colectividades, cujo número não ultrapassa dos dedos de uma só mão, estão, “de tanga”.

Essa é a verdade. Pensar em obrigar o Matchedje de Mocuba, por exemplo, a criar, entre outras obrigaçõess, um gabinete de imprensa bem apetrechado para 20 jornalistas… se não é ficção, alguém terá a amabilidade de me dizer o que é?

O coronavírus, desde o surgimento do primeiro caso, na cidade chinesa de Wuhan, em Dezembro último, tem-nos mostrado o quanto a Ciência é um verdadeiro tabuleiro de convicções e atrevimentos, de controvérsias, tropeços e resiliência.

A primeira grande controvérsia foi com relação ao uso da hidroxicloroquina em pacientes em estado avançado da doença. Alguns especialistas pensaram, e o medicamento foi sendo usado; outros contra-pensaram, e descobriu-se o contributo zero deste e de outros fármacos antimaláricos para o tratamento da Covid-19. Feito papagaio de linha arrebentada em meio ao vendaval, voou para o espaço o protótipo de fé de muitos de nós, africanos, que, abençoados de malária desde a nascença, melhor, desde o ventre, pensaram que tivessem imunidade garantida. No lugar de sangue, correm em nossas veias, na mesma coloração vermelha, doses carregadas de cloroquina, fansidar e coartem com que combatemos o amor tropical e sempre fiel dos mosquitos da tribo anopheles. A cloroquina era tomada em doses que lembram o estilo clássico de alinhamento de um time de futebol onze. Aquele 4-4-2 fazia a terra girar, comprovando, em ritmo mais rápido, a teoria de Galileu Galilei. Mais do que isso, o malariado podia até jurar que o céu estava na posição errada. Não quis o destino que arrancássemos um graças a Deus por uma maldade de tamanho universo na fuga a sete pés do coronavírus. Uma ironia a menos para o continente berço da humanidade.

Mais tarde, veio o baile das máscaras, inicialmente tidas como necessárias apenas para o pessoal da Saúde (médicos, enfermeiros e auxiliares) e os indivíduos já infectados pelo vírus. Não tardou para se repor a verdade sanitária e fazer-se da máscara um acessório de uso mundialmente obrigatório. Não é que está sendo uma fonte de renda para muitos da nossa banda? Uma costura rápida em pedacinhos de capulana, uns dois centímetros de elástico nas extremidades para dilacerar as orelhas e uma paciência de seguir as pegadas dos já expulsos vendedores ambulantes da baixa podem render um pão seu de cada dia. Para vender máscaras, certamente, os polícias deixam aquela gente circular por ruas e passeios assediando aos que têm medo de morrer. O preço, inicialmente, era 3-100, marca registada do consumidor nacional. Mas porque algumas pessoas vieram com chiliques, querendo aliar o sofrimento à moda, as máscaras foram tomando cores de partidos, de clubes, de fatos, blusas e bolsas, e aos poucos custam mais caro. Esta é outra patologia, mais grave, velha como a idade do próprio tempo, que atravessa as etapas todas da evolução humana: os homens lutam para estar em cima uns dos outros, não importam as circunstâncias. E no que seria apenas uma máscara de protecção contra o vírus, hoje é vaidade e diferenciador social. Será leve a dor quando se morre elegantemente?

Entre tantas idas e vindas, ditos por não ditos, surgiu a ideia dos túneis de desinfecção. Tudo fazia crer que se tratava de um mecanismo bastante avançado no que à prevenção diz respeito. A ideia foi comprada e viajou pelos quatro cantos do mundo. Através do edil de Chimoio, o “todo terreno” João Ferreira, Moçambique deixou de ser uma ilha no uso desta ferramenta. Depois foi o que se viu: corrida de “100 metros barreira” entre os Presidentes de vários municípios nacionais. Entre compromissos de Saúde Pública e Epopeias Eleitoralistas, as nossas cidades foram-se equipando de túneis de desinfecção como no passado estiveram os nossos impérios cercados de aringas para a protecção contra as invasões de inimigos. O inimigo hoje é um batalhão invisível de vírus.

As peripécias da Ciência não pararam, e não tardou que o caldo do desperdício fosse entornado: afinal, os túneis de desinfecção em nada servem, senão como armadilhas para nossa própria destruição. Aquele banho, que faz a gente parecer viaturas em um “car wash”, é completamente desnecessário. Mais do que isso, é uma fonte de infecção. Cinzas e borrões! Hajam rabos para colher perante tamanha desilusão. Mais uma hecatombe financeira para uma nação que corre atrás do desenvolvimento.

A vida ensina a andar para trás, quando se está à beira do precipício. Humildemente, sob o peso da responsabilidade, assim procedeu o Ministério da Saúde. Serão abandonados os túneis, tornar-se-ão elefantes brancos, uma lembrança a enferrujar-se sorrateiramente como canhões que de uma fortaleza apontam para o mar do tempo. E o mérito dos edis? Fica-se pela intenção. A Ciência é assim, foi sempre assim. Graças à resiliência dos cientistas, o progresso jamais parou. E depois de tantas cambalhotas virais, chuva de lágrimas, o sol voltará a brilhar, esculpido de bonança da esperança, certamente.

Caro Presidente da República, excelência
Pensei muito se devia ou não escrever-lhe esta carta. Se não estaria a aumentar lhe o stresse. Compreendo que tem em cima da mesa muitos problemas por resolver. Sei que está preocupado com o assunto das dívidas ocultas que, de certra forma, prejudicaram a sua governação.

Com a sua descoberta, Moçambique perdeu o apoio da comunidade internacional ao Orçamento Geral do Estado. O Banco Munidial e o Fundo Monetário Internacional também ficaram longe. Outros doadores ficaram em cima do muro.

O antigo ministro das Finanças do país, Manuel Chang, está detido há cerca de dois anos na África do Sul e o seu governo luta pela sua extradição para Moçambique. A nível interno, há 19 pessoas detidas em conexão com o crime. O caso está longe de ser esclarecido.

Sei, senhor presidente, que o senhor às vezes não apanha sono por até agora não ter conseguido pôr fim aos ataques sistemáticos da Junta Militar da Renamo (JMR) em Manica e Sofala, comandada pelo General Mariano Nhongo. A solução militar à guerrilha feita por estes homens vai tarde, mas a via de diálogo, essa, está sempre a sorrir para si.

Estou informado, e lamento, que tenha falhado a mediação das Nações Unidas, que aconteceu com o seu consentimento, em busca de solução para o problema. A ONU diz que Nhongo é “inflexível”, mas não desista.

Quase todas as semanas há notícias de morte, destruição e saque de bens públicos, a exemplo de medicamentos, e da população. Tudo da responsabilidade da JMR cujo líder diz que só aceita conversar consigo. O que aconteceria se aceitasse ouvi-lo?

Estou consciente da sua preocupação em relação aos ataques em Cabo Delgado atribuidos a terroristas que, segundo o senhor disse noutro dia, estes estão a ser manipulados para servirem elites internas e externas.

Senhor presidente, confesso que quase não lhe escrevia esta carta quando pensei que, se calhar, não era um bom momento porque tinha muito que pensar nestes e noutros problemas ainda sem desfecho à vista. Soluções que tardam a aparecer, apesar de noites e noites de pesadelos. De noites e noites em claro a tentar descobrir saidas para os mesmos.

Quase desistia ao pensar que depois de quatro meses de estado de emergência está sob pressão para relaxar algumas medidas restritivas e permitir o regresso do país à nova normalidade, numa altura em que a subida galopante de casos de infecções com o coronavirus exige o agravamento das mesmas na tentativa de cortar cadeias de transmissão. Senhor presidente, juro que não gostaria de estar na sua pele.

Foi conversando com os meus botões que acabei chegando à conclusão de que o melhor seria mesmo escrever para estar bem comigo mesmo. Para que, como cidadão atento e preocupado com o que se passa no país, possa deixar a minha singela contribuição acerca do que lhe quero falar.

 

Senhor Presidente, excelência

Resolvi escrever-lhe esta carta para exprimir a minha preocupação quanto ao movimento tendente à reabertura das igrejas. Será, mesmo, boa ideia levantar a proibição dos cultos religiosos numa altura em que casos de infecções estão a multiplicar-se dia-pós-dia com maior velocidade e recomenda-se que haja menor mobilidade das pessoas, senhor presidente?

Para começar, os líderes religiosos não se organizaram o suficiente para baterem a sua porta. Estão a cometer os mesmos erros que da Educação. Correm atrás da galinha com o sal na mão. Antes de sonharem com a retoma, não acha que deviam ter feito um trabalho de casa como deve ser? Tinham que avaliar primeiro os prós e os contras e produzirem uma proposta concreta para ajudar a analisar o assunto e tomar melhor decisão. Proposta que apresenta garantias de que não há o risco de propagação de coronavirus.

Pensei que a transmissão das missas através de canais de televisão que tanto aplaudi pela criatividade e pelo uso das tecnologias de comunicação e informação disponíveis, particularmente no domingo da páscoa, fosse algo para durar. A nova forma de ser e estar das congregações religiosas moçambicanas enquanto continuar a situação de coronavirus no país.

Senhor presidente, excelência

O argumento que os líderes religiosos apresentam parece-me pouco convincente ou, pelo menos, não é suficiente para forçar uma decisão favorável ao seu pedido. Pegam-se em coisas básicas como a garantia da colocação de baldes com água e sabão à porta da igreja, distanciamento social e o uso da máscara para justificarem que as missas realizar-se-ão num ambiente de segurança.

Se isso bastasse, então não teria sido necessário o governo mandar fechar os locais de culto quando os casos de infecções começaram a crescer no país. Está claro que há alguns problemas de profundo que podem contribuir para a propagação do vírus.

Um deles é que faz parte do estilo de algumas igrejas o contacto fisico entre os crentes e estes com os pastores durante a missa. Essa prática, nos dias de hoje, é perigosa e não recomendável porque pode levar à contaminação entre as pessoas.

Há o caso das correntes que são feitas em que toda a igreja fica de mãos dadas enquanto o pastor prega.  O contacto físico é igualmente inevitável, sobretudo nas igrejas protestantes, quando alguém manifesta em plena oração, encarnando espíritos maliciosos, em missas específicas de libertação, com o envolvimento de pastores e obreiros.

Não me parece forte a tese de que a reabertura dos locais de cultos é para permitir que as igrejas participem na mobilização ou educação do público para elevar a consciência do público em relacão ao coronavirus. É que para fazer isso não é preciso abrir as portas das igrejas.

Há várias formas que podem ser usas, desde as tecnologias de comunicação e informação, passando pela transmissão de missas pela TV, ao uso de outras ferramentas.

Senhor presidente, excelência

O senhor tem a consciência de quantas igrejas existem em Moçambique? Claro que não. Nem eu tenho. Andam aos milhares. Agora pegou moda. Qualquer um, querendo, abre uma igreja na sua casa, ao lado ou noutro sítio. O segredo está na caça aos dízimos. Alguns saem-se bem e ganham dinheiro com isso.

Para terem popularidade, esse tipo de congregações usa meios de comunicação social como jornais e canais de televisão. Produzem cartazes ou panfletos a dizerem que curam o SIDA e outras doenças sobre as quais a ciência ainda não tem resposta. Outros enchem a sala através de milagres atrás de milagres. Seria tão bom que as doenças fossem curadas com uma simples oração.

Como pode imaginar, a maior parte dessas igrejas actua fora da lei. Os seus donos não só não estão licenciados pelo Ministério da Justiça Assuntos Constitucionais e Religiosos, como não têm qualquer formação em teologia para estarem em frente de uma igreja. Eis a razão por que temos hoje muitos charlatões no país.

Excelência.

O senhor não acha que as condições exigidas para autorizar a abertura de uma igreja são simples demais? Juntar 600 assinaturas é muito pouco para termos qualidade. Para termos igrejas que podemos respeitar pelo seu papel na educação e moralização da sociedade. Parece que vamos passar para 16 mil. Mesmo assim, o número continua baixo.

Alguns países do mundo exigem que o pedido para a abertura de uma igreja seja acompanhado por 600 mil subscritores. Como se isso não bastasse, o proponente tem que provar, através de um diploma ou de um certificado, que é doutorado em teologia.

Uma decisão sobre a retoma dos cultos religiosos vai significar, também, a reabertura daquele género de igrejas. O mais grave é que algumas delas não têm as mínimas condições para o funcionamento, como água canalizada e casas de banho condignas, o que representa um risco de propagação de coronavirus.
Uma vez levantada a proibição, quem vai impedir que estes locais de cultos regressem igualmente à normalidade se eles em si já são ilegais? Como é que o Estado vai garantir que eles são fiscalizados e que cumprem com as medidas de prevenção contra o coronavirus? Como chegar a eles se não há nenhum registo sobre a sua existência ou localização? São perguntas que se levantam e que nos levam a uma reflexão profunda sobre a possibilidade de reabertura das igrejas no país.

Todos gostamos de rezar. Creio que o senhor também. Anseamos regressar às nossas igrejas onde fomos baptizados e crismados. Onde foi celebrado o nosso casamento. Locais de culto onde louvamos a Deus, salvador da humanidade, mas temos que esperar pelo melhor momento. Temos que aguardar até que a retoma não represente nenhum perigo para todos nós e que a decisão acerca do assunto seja de consenso.

Enquanto isso, cada um vai rezando no seu canto porque, afinal, igreja não significa um espaço físico, mas pessoas e o resto, segundo os próprios líderes religiosos, é uma questão da fé.

Senhor presidente, desculpa por eu ter sido longo. Deixei-me levar pela emoção. Até outro dia

Alvoroço. Multidão, vozaria e braços gesticulando descoordenadamente. Catanas, panelas e terrinas cortam os ares. Mas é o som picante das vozes – a primeira, segunda e a terceira voz fazem lembrar um coro bem desafinado – que atrai a atenção. Há uma rumaria. Todos os caminhos vão dar ao alvoroço.

Um réptil está no centro do furacão. Enorme. Quatro a cinco metros de cumprimento. Barriga farta, justificando um peso de não menos de trezentos quilos. Há um misto de emoções: de um lado está um monstro em cujas garras e dentes afiados vários humanos terão sucumbido; do outro, uma bocarra que se abre, a espaços, como que em busca de clemência.

O animal desistiu de tentar movimentar-se. Está entalado no lodo deixado pelas enchentes do Búzi, muito longe do leito para onde o rio se recolheu. Vozes dissonantes desencontram-se. Uns querem cataná-lo e resolver os problemas do estômago que grassam sobre a comunidade neste pós-ciclone. Outros refugiam-se na metafísica para ocultar os seus temores:

«Este não é um crocodilo qualquer!», exclamam, «é maldição!»

E o animal não é de facto qualquer. Não tem nada a ver com os outros crocodilos alguma vez vistos na aldeia. Ao invés de quatro, tem apenas duas patas. As traseiras. As patas frontais não existem. Será que é possível a um crocodilo faltar duas patas por má formação congénita? Ou as patas inexistentes escondem segredos ocultos?

«Isto é mesmo maldição!», voltam a ecoar as vozes, «que crocodilo é este que se perde da água e se encalha no matope? Estranho!»

«Vamos matá-lo!», dizem outras vozes.

«Yhuu!? É possível matar-se uma maldição? Maldição não se mata!», a tradição ensina que as maldições devem ser tratadas com sapiência. Elas são a personificação de um espírito demoníaco que, se maltratado, depois do ciclone pode até gerar secas, pragas, pestes e outros males sem fim. A única sabedoria preparada para lidar com isto é a de um curandeiro bem experimentado.  Apenas ele pode dialogar com os mortos e pedir-lhes que enxotem a maldição para bem longe da comunidade. E o mestre da comunicação com o além tem que ser trazido de uma outra aldeia bem distante. O da comunidade local foi arrastado durante as enxurradas e o seu corpo esmagado e arremessado sem regresso para a foz oceânica do Búzi.

As vozes não param o seu debate sem regra nem moderador. Mas uma coisa é consensual: enquanto o curandeiro não chegar ninguém mexe no animal.

O curandeiro vem a rufar gases de cansaço por todos os buracos, com seus olhos vermelhos completamente esbugalhados, reclamando uma altivez disfarçada por uma enorme corcunda que se eleva no topo das suas costas.

Não precisa de um grande exercício para contar uma história que toda a comunidade já conhece: a aldeia foi sempre assombrada por um enorme crocodilo de duas patas que degola pessoas e gado. Na calada da noite, o réptil abandona as águas do Búzi, mete-se pela povoação adentro e até bate a porta das palhotas das suas vítimas. Quando acoiçado, o crocodilo fica de pé, como um bípede, e foge a todo o galope de volta ao rio.

Para muitos, essa história é um mito. Porém, convencionou-se na aldeia a nunca se abrir a porta para ninguém assim que o sol se escondesse.

«Não é mentira nenhuma, é a mais pura verdade!», sentenceia o curandeiro, «o crocodilo existe e hoje está aqui. Aos olhos de todos.»

Ajoelhado a poucos metros do animal, o curandeiro mexe e remexe os seus búzios, e continua: «este crocodilo tem dono. É um feiticeiro. O mesmo em que se transforma quando ganha a forma de um homem e foge para o rio. É alguém aqui da aldeia!», os cabelos de todos ficam em pé, os olhos arregalam-se e os ares são dominados por sussurros a roçar uma histeria silenciosa.

«É um velho magrinho, com meia dúzia de fios de cabelo perdidos na sua careca e a boca quase desdentada. Sobram-lhe apenas dois dentes frontais. Os outros caíram, um a um, durante o consumo de carne humana na penumbra de várias noites de feitiçaria», palavras sábias do curandeiro.

Como que obedecendo a uma hipnotizante alavanca, as palmas das mãos dos aldeões elevam-se todas em simultâneo para a cara. Umas para tapar a boca e outras para se esbarrarem contra os olhos, o nariz e as feições. É a expressão de um espanto colectivo: a descrição do curandeiro não podia ser mais assertiva. O feiticeiro é o velho Dilone.

«Vão buscá-lo!», ordena o curandeiro.

Nova equação sem solução. O velho Dilone desapareceu sem deixar rasto na algazarra do ciclone. A sua casa foi destruída. Ninguém sabe se morreu ou se salvou-se. Até pode ser que esteja em algum centro de acomodação algures nesta Sofala.

«O melhor é matarmos esse crocodilo», voltam a dizer as vozes da multidão.

Até parece que o animal também escuta. Não se mexe. Apenas os seus minúsculos olhos rodopiam e a bocarra se abre e se fecha em expressão de desespero. Está longe de parecer a mesma boca que algum dia esmagou presas.

«Mas desde já vos alerto», volta a falar o curandeiro, «se a vossa decisão for de matar o animal, saibam que se o feiticeiro ainda estiver vivo, não interessa onde ele se encontra, morrerá assim que o crocodilo estrebuchar. Metade do seu corpo encher-se-á de escamas rugosas e transformar-se-á em partes de crocodilo. Se o feiticeiro já estiver morto, matando o animal, será a metade do seu dorso que ganhará a forma humana.»

O curandeiro olha para a cara petrificada do chefe da aldeia para quem transfere o ónus da decisão.

«Penso que o feiticeiro já morreu e é por isso que o seu crocodilo ficou maluco e veio se encalhar aqui», ecoa uma voz entre a multidão.

O curandeiro encolhe os ombros e nada diz. Continua de olhar fixo no chefe da aldeia. Este respira fundo, franze o sobrolho percebendo que chegou a hora de assumir o rumo dos acontecimentos. Olha de relance para as pessoas em seu redor, que o fitam com um esgar de ansiedade esculpido nos rostos. Dá a sua voz de comando: «vamos matar o animal.»

A vozaria reergue-se. Golpes de dezenas de catanas aterram em simultâneo sobre o dorso do réptil. Não há sequer tempo para que partes do crocodilo ganhem a forma humana. Em poucos minutos a carne do animal é recolhida em dezenas de tigelas e terrinas para o interior das palhotas em reconstrução. Nunca mais houve notícias do velho Dilone.

Retomamos a nossa série incidente sobre o Direito Digital – plausivelmente interrompida em virtude da necessidade de abordagem de matérias cuja premência e actualidade assim o ditavam, designadamente, relativas ao Estado de Emergência ou aos Códigos Penal e Processual Penal que se preparam para iniciar os respectivos períodos de vigência no ordenamento jurídico do solo pátrio – centrando, neste artigo opinativo, a nossa atenção numa realidade que, curiosamente, conheceu o seu manuseamento, através dos hábitos e costumes mercantis, antes mesmo da fixação do regime jurídico específico a ela aplicável.

Referimo-nos aos estabelecimentos virtuais entanto que instrumento de realização de actividades vinculadas ao comércio electrónico.

O comércio electrónico, também, comummente, denominado de “e-commerce” ou “e-comércio”, constitui um dos campos paradigmáticos de incidência do Direito Digital – ramo multidisciplinar do Direito que possui como finalidade tutelar as relações que se desencadeiam entre as pessoas (singulares/colectivas) em ambientes digitais, através do uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s), sendo que esse ambiente [digital], tal como o ambiente “real”, é também caracterizado por comportamentos, acções, omissões, originadores de direitos e obrigações, quer numa perspectiva unilateral quer bilateral ou multilateral, cuja susceptibilidade de ocorrência de conflitos de interesses, ocasionados quer pela natural dissonância entre sub-interesses particulares dos respectivos intervenientes quer pela violação das regras decorrentes dos direitos e obrigações emergem nesses ambientes, é sempre provável –, advindo, dessa factologia, a necessidade de adopção de normas destinadas a disciplinar as relações jurídicas [d]aí criadas.

Sem, nunca, nos olvidarmos da Convenção da União Africana sobre Cibersegurança e Protecção de Dados Pessoais (doravante “CUACPDP”), ratificada pelo Estado moçambicano através da Resolução n.º 5/2019, é insofismável que a Lei de Transacções Electrónicas (doravante “LTE”) – Lei n.º 3/2017 – consubstancia-se no “centro normativo nevrálgico” regulador do comércio electrónico, que, nos termos do respectivo glossário, é definido como sendo «a actividade económica ao abrigo da qual uma pessoa oferece ou garante através de um meio electrónico a prestação de bens e/ou serviços», sendo que “meio electrónico”, sob a égide do sobredito glossário, é «todo o meio tecnológico usado para a obtenção de dados no formato analógico ou digital, seu processamento, armazenamento, transmissão bem como a sua apresentação».

Merece realce que, paralelamente à definição que nos é trazida pelo glossário indexado à LTE, a CUACPDP, que também possui um capítulo específico que versa sobre a mesma matéria, traz uma definição corporizada por um conteúdo diferente, sem, no entanto, se opor àquela, definindo o comércio electrónico como sendo o «acto de oferta, compra ou fornecimento de bens e serviços através de sistemas de computadores e redes de telecomunicações tais como a internet ou qualquer outra rede através de meios electrónicos, dispositivos ópticos ou similares para a troca de informações à distancia».

Tendo, as normas corporizadas no texto da CUACDPD, sido recepcionadas no ordenamento jurídico moçambicano tal e qual foram adoptadas naquela Convenção e, sendo certo que a partir da respectiva ratificação, tais normas assumem uma natureza infraconstitucional, em igualdade de circunstâncias com as demais leis aprovadas no solo pátrio, isto em consonância com a forma da respectiva recepção – pela AR – coexistem, neste caso duas normas de valor idêntico versando sobre a mesma matéria. O que aduzimos atrás possui supedâneo legal no disposto no n.º 2 do artigo 18 da Constituição da República que assevera-nos que «as normas de direito internacional têm na ordem jurídica interna o mesmo valor que assumem os actos normativos infraconstitucionais emanados da Assembleia da República e do Governo, consoante a sua respectiva forma de recepção».

Poder-se-á, assim, considerar que o capítulo referente às transacções electrónicas – onde se insere a disciplina do comércio electrónico – previsto na CUACPDP revoga o relativo ao comércio electrónico estabelecido na LTE, ao abrigo do princípio “lei nova revoga lei velha”?

A resposta, neste particular caso de aparente confronto – que, definitivamente, não chega a sê-lo – deverá ser inequivocamente negativa, pois, ao se compulsarem microscopicamente os dois capítulos, infere-se, sem dificuldades acrescidas, que a “nova lei” não versa de forma contrária à “velha”, mas, sim, com recurso a enunciaçõessemântico-linguísticas diferentes, traz, na essência, um conteúdo similar, não prevalecendo, por isso, a regra segundo à qual “lei nova revoga lei velha”, pois este postulado só prevalece se a “lei nova” versar num sentido antagónico comparativamente ao estabelecido na “lei velha”.

Ainda que o estabelecimento virtual não seja objecto de definição na LTE, podemos, através de um raciocínio lógico-interpretativo desenhar as componentes conducentes à sua definição, a partir dos elementos que nos são fornecidos no artigo 44 da LTE.

Com efeito, o artigo 44 da LTE, consagra que os contratos relativos ao comércio electrónico celebrados entre empresas comerciais e os consumidores devem fornecer informação precisa, suficiente, clara e de acesso fácil para permitir a identificação das partes contratantes. Conforme se denota meridianamente, a norma acima reproduzida consideraimprescindível que o consumidor tenha, à sua mercê e ao seu dispor, todos os elementos identificativos das empresas que desempenham o comércio electrónico, com as quais celebrará contratos conducentes a adquirir bens e/ou solicitar serviços. A norma enfatiza que os elementos daquelas empresas devem ser precisa, clara, suficientemente identificados e identificáveis ou de fácil acesso.

De entre os elementos mais sonantes de que aquela lei faz depender os obrigatórios requisitos em que se desenvolverá a actividade subordinada ao comércio electrónico, destacam-se os seguintes: designação da firma sob a qual a actividade da empresa comercial é desenvolvida; principal endereço físico para o exercício da actividade, endereço de página de internet, endereço de correio electrónico, número de telefone ou outra forma de contacto; se uma das partes for uma entidade legal, o seu número de registo, os nomes dos seus representantes e o local de registo.

Bem vistas as coisas, esses elementos encimados coincidem, com as necessárias adaptações (diminuições e aumentações), com a definição legal de estabelecimento comercial ínsita no artigo 69 do Código Comercial, tida como unidade dos elementos constitutivos da actividade comercial, representados pelo capital e trabalho, valorizados pela organização, a fim de que o empresário comercial possa exercer, com eficiência, a sua actividade, sendo que, ao abrigo do disposto no artigo 16 do mesmo Código, constituem obrigações especiais dos empresários comerciais adoptar uma firma, escriturar em ordem as operações ligadas ao exercício da sua empresa; fazer inscrever na entidade competente os actos sujeitos ao registo comercial; prestar contas.

Assim, depois de este exercício lucubrativo, podemos afirmar que o estabelecimento virtual consiste num siteacessado virtualmente – por intermédio da internet – pelos clientes, através do “nome de domínio” (que inicia com a popular expressão cibernética “www”) no qual os empresários do comércio electrónico exercem sua atividade, assumindo facetas equiparáveis com as exercidas com os estabelecimentos “reais” (presenciais e físicos, em contraposição aos virtuais), tais sejam, difusão da actividade, emissão de publicidade, com o fim último de realizar, a partir desse espaço virtual, a venda dos seus bens e/ou prestação dos seus serviços.

Parafraseando as muito bem conseguidas palavras de Pierre Levy (sic): «virtualização não é uma desrealização (a transformação de uma realidade num conjunto de possíveis), mas uma mutação de identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológico do obje[c]to considerado». O mesmo insigne autor traz-nos uma delapidar conceituação, ao advertir-nos sabiamente que (sic): «é virtual toda entidade “desterritorializada”»

Visando conferir uma homogeneidade de tratamento legal e coincidência de soluções jurídicas às relações que brotam e se desenvolvem no mundo digital, com as que se sucedem no “mundo vivencial real”, dando-lhes, assim, umafisionomia, anatomia e morfologia idênticas, em respeito a unidade do sistema jurídico (n.º 1 do artigo 9 do Código Civil), encontram-se convergências solucionatórias no que concerne ao regime que disciplina as obrigações dos estabelecimentos virtuais, se comparados com o que regime vigente nas relações comerciais desenvolvidas no mundo real.

A título meramente exemplificativo, tal como se sucede no mundo real (em contraposição ao mundo digital), onde, ao abrigo do n.º 1 do artigo 26 do Decreto 27/22016, que aprova o Regulamento da Lei de Defesa do Consumidor, o consumidor pode, ao abrigo do seu “direito de retractação”, «desistir do contrato no prazo de sete dias uteis a contar da data da sua assinatura ou do acto de recepção, do produto ou serviço, devendo para o efeito, devolver o produto ou serviço nas condições em que o recebeu de forma a não prejudicar o fornecedor, que deve aceitá-lo sem reservas», de igual modo, no mundo digital, ao abrigo do n.º 1 do artigo 46 da LTE, o consumidor goza do privilégio do “período de arrefecimento” e do “direito de livre cancelamento” sendo-lhe atribuído o «direito de cancelar a transacção electrónica ou qualquer contrato com lela relacionado, sem obrigação de fundamentar, devendo suportar apenas os custos de devolução dos bens pelo fornecimento de bens dentro de um período de sete dias após recepção dos bens ou pelo fornecimento de serviços dentro de um período de sete dias apos a data de conclusão do acordo».

Em ambos os cenários exemplificados supra, surpreende-se a manifestação de um autêntico direito potestativo – direito subjectivo cujo respectivo titular, através de prerrogativa conferida por lei, possui a faculdade de o exercer unilateralmente, recaindo sobre terceiro[s] o dever de se resignar ao respectivo exercício – aplicável quer ao estabelecimento comercial (artigo 69 do Código Comercial) quer ao estabelecimento virtual, unificando-se regimes jurídicos emergentes de transacções electrónicas com as transacções mercantis de carácter geral, sendo, entretanto, e fruto do reconhecimento das especificidades intrínsecas dos labirintos do mundo digital, curioso notar que o mesmo legislador, no artigo 45 da LTE, como forma de proteger de forma específica o consumidor nas relações emergentes no seio digital, concede-lhe o “direito à livre resolução do contrato” – em condições completamente diversas das referidas acima –, manifestado na faculdade deste consumidor em cancelar a transacção (compra de bens ou benefício de serviços pela internet) num período de 14 dias úteis após da recepção dos bens ou serviços, se tais contratos não estiverem em consonância com as obrigatórias normas conducentes ao dever que os empresários que desenvolvem o comércio electrónico possuem de colocar o consumidor clara, precisa e suficientemente informado (n.º 1 do artigo 44 da LTE) sobre todos os aspectos fulcrais inerentes quer à empresa quer ao negócio que lhe dá causa, factologia que, por si só, evidencia a autonomia da disciplina jurídica a que estão sujeitos os estabelecimentos virtuais, comparativamente aos tradicionais estabelecimentos comerciais de substracto relacional físico e presencial, constituindo, aqueles, realidades próprias – do mundo digital –  capazes de gerar manifestações jurídicas próprias, sendo, por isso, objecto de tutela jurídica específica e própria, não obstante os pontos de consonância e convergência que, por razoes vinculadas à homogeneidade e unidade do sistema jurídico, são [e devem] estar patentes entre o comercio electrónico/digital e a actividade mercantil tradicional, baseado no Código Comercial, assente nas relações físico-presenciais.

 

Télio Chamuço

Advogado

Email: telio@teliochamuco.com

 

 

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