O País – A verdade como notícia

ARTIGOS DE OPINIÃO

Naquele época das batucadas choveu a valer em todo o subúrbio. Era uma ameaça renovada pela ocorrência doutro xitala-mati. Os caminhos inundaram-se, alguns barracos desmoronaram-se com a força das ventanias. Costas com costas à casa do senhor Augusto vivia um sujeito conhecido por Compadre. De quem, nunca se soube, mas chamava compadre e comadre a toda a gente. No seu quintal agigantava-se um cajueiro que dava fruta até vergar de peso. Em tempo de maturação manifestava uma generosidade rara no lugar, e ofertava cajus suculentos aos vizinhos. Mudara-se do Vulcano para o Thlavane depois de um incêndio que devorou a sua palhota. No acidente perdeu a mulher e todos os bens que possuía. Vivia com um filho menor de nome Lito, oito anos de idade cheios de travessuras, a quem as senhoras da zona tomavam como filho. Era uma criança disputada por todas as mães, pela graça da sua tagarelice e pela impertinência das suas perguntas. Ele divertia-se e aprendia com elas; elas aprendiam e divertiam-se com a inocência da sua curiosidade.

Mas eis que o destino, uma vez mais, prega outra das suas partidas ao Compadre. Naquela madrugada chuvosa o Lito saiu da esteira para a retrete a fim de fazer necessidades maiores. Acocorou-se sobre o tampo do assento e fez o que tinha a fazer. Eis senão quando, o solo cedeu e todo o assento mergulhou na profundidade da latrina. As areias deslizaram, amolecidas pelas águas das chuvas. E registou-se aquele desastre que abalou e causou estupefação em toda a comunidade.

Aquando daquele evento o senhor Compadre encontrava-se ausente. Já largara para a Estiva e deixara a criança só, pegada ao sono. Assim sempre sucedia porque era ainda cedo para a vizinha dona Nica vir buscá-lo e cuidar dele. Eram oito horas da manhã quando a Nica franqueou o portão do quintal e chamou pelo Lito. Não obteve resposta. Dirigiu-se à cabana onde habitualmente ia recolhê-lo. Na esteira apenas viu cobertores. Da criança, nem um sinal! Chamou uma vez mais pelo seu nome. O silêncio foi a resposta. Alarmou-se. Para onde teria ido a criança nesta hora tão matutina? Muito estranho porque o Lito não era criança de evadir-se para meter-se em brincadeiras nas casas da vizinhança sem a sua autorização. Estranho também porque encontrara o portão do quintal com o cadeado trancado. Vasculhou pelos quatro cantos do quintal. Quando penetrou na retrete não quis acreditar naquele horror do afundamento do assento da latrina. O terreno em redor desta aluira, quebrara e levara consigo as estacas de suporte e pedaços de madeira. À tona dos excrementos flutuava o corpo daquela criança que todos amavam como a um filho. Paz à alma do Lito!

Diziam as comadres e os seus desconsolados maridos que a morte do Lito era apenas uma etapa de um esconjuro que perseguia o Compadre e que outra tragédia estava a caminho. Dito e feito, na madrugada daquela manhã do fim da época de chuvas, o Compadre foi encontrado enforcado, pendurado por uma corda a um dos ramos do cajueiro. E foi assim que nasceu a lenda da Casa do Cajueiro Assombrado. Até hoje a casa permanece desabitada. O cajueiro, perene, continua a frutificar durante todos os anos. Os seus frutos cobrem aquele chão sagrado, intactos e suculentos, porque aguardam pelo regresso do Lito para os apanhar e ofertar a todas as mães do bairro.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

 

São duas horas, a madrugada ainda é incógnita, e eu ainda estou acordado, pese embora sinta um cansaço descomunal nas minhas entranhas, as mãos invisíveis do sono não me alcançam, nem o seu imperceptível olhar me observa, por isso, continuo aberto em espasmos acres opondo-me ao sono. E tenho uma vaga sensação que algures dentro de mim acontece uma revolta militar, sinto como se todo o exército moçambicano estivesse no âmago de mim mesmo e a manifestar-se em repúdio à banalização que se faz da vida em Cabo Delgado. Tento esquecer-me de tudo isso, até de mim mesmo, estender-me por dentro, fechar os olhos e sonhar, mas nada disso me é possível, continuo de olhos postos ao vão, engasgado no interior dessa noite longínqua.

Insisto, todavia, e chego a fechar os olhos, porém, sempre que isso acontece surge um zumbindo, lá no fundo, no epicentro do meu ser e vai-se realizando em mim, um hediondo silêncio que estrondosamente me assalta o imo, dispara contra a minha tranquilidade e vai decepando em partes insignificantes as minhas vontades de sonhar. Oiço que nem cães latem na rua a frente à minha casa. Tento levar os meus pensamentos a um esconderijo, um recanto que esteja mais longe dessa insónia, como quem quer escapulir-se da guerra, fugir de uma realidade fatal, mas sem para onde ir, imobilizo-me dentro de mim.   

Saio da cama e vou à casa de banho, como se tivesse alguma coisa importante para lá fazer, apenas levo o meu atordoado rosto ao espelho, vejo essa imagem que me aborrece, um rosto que se fecha ao sono. Vou à sala de estar, vejo a tevê desligada, como sempre está este inutensílio. Abro as pálpebras da janela, essa cortina branca, tenho acesso à rua. O silêncio é vasto e fulminante, não vislumbro absolutamente nada além do monstruoso vazio, nem os marginais nem mesmos bêbados que em tempos não tão distantes eram tão abundantes e juntos desmontávamos o silêncio da minha rua a essa hora do dia.

Sinto-me cansado dessa lucidez obrigatória e vejo que não há bêbados nesses dias de tédio a embriagarem a cidade toda, apenas um mahindra que de vez em vez cruza os trilhos, que até rola na minha rua, com homens uniformizados e enfeitados à pólvora, como se nessas ruas acontecesse a verdadeira guerra, a que mata e está a matar continuamente o futuro desse país. Ponho-me a pensar onde se meteram os cães, os marginas, os bêbados, todos os vadios, que faziam da minha rua um abrigo, nessa pandémica altura em que as casas foram transformadas em refúgios. “Julgo que um dia teremos de descolonizar o mahindra, como outrora disse Albino Magaia ao Land Rover.”

De volta ao quarto, fixo meu olhar nas paredes dessa construção colonial, abro o telemóvel, mas as redes sociais já me aborrecem de antemão o que dizer delas nessa hora tão aborrecida, desligo-o. Tento reflectir sobre a essência da vida, mas que essência tem a vida nesse severo enclaustramento que a própria vida se encontra?, eu quero apenas fechar os olhos, estender-me dentro de mim e sonhar.

Entretanto, há uma enorme vontade que me enche de futuros, ansioso procuro nesse porvir a solução para o presente dessa noite, “que noite, oh meu Deus”. Eu que sempre pensei saber dos mistérios da noite, surpreendo-me ao ouvir dizer que o tempo, esse professor que me ensinara com mestria, afinal o certificado que tanto exibia era falso e falsificado, que fazer então com este diploma de insónias que trago na âmago da esperança? E quantos professores existem, nessa vastidão de desenrascados, com certificados falsos? Por isso, eu quero apenas fechar os olhos, estender-me dentro de mim e sonhar.

Enfim, sinto-me a síntese da insonolência do mundo. Sinto mais isso a olhar à Lolita, inanimada, mais para lá que aqui, mergulhada dentro dela, sonolenta, com um aspecto de fazer inveja aos deuses. E eu continuo vegetativo adejando essa vontade que vejo ser abundante nela, e se o sono fosse um vírus altamente contagioso, um desse vírus com raízes orientais, talvez estaria eu, a essas horas do dia, estendido dentro de mim, a respirar por meio de ventiladores, mas não, apenas assisto a Loly dormindo unilateralmente como uma pedra com origem nos montes Namúli, sem sentimentos e aflições de alma, e nem do dia que provavelmente amanhã retorna. 

Volto a mim, e agora Japone? Retiro do travesseiro um livro, o do Fernando esse Pessoa que muito adoro ler, tento curar a minha insónia com esse desassossego que ele me propõe. Leio, releio e volto a ler. Entretenho-me nessa leitura animada e cheia de mim, é como se o Fernando escrevesse sobre minha pessoa. Por algum momento pestanejo, oiço o cântico do galo da zona, essa ave mantida em cativeiro no terraço da vizinha, essa mulher gorda que não aceita uma vida urbanamente vazia. Mas como disse, eu quero apenas fechar os olhos, estender-me dentro de mim e sonhar.

“Já são seis horas, não vais ao serviço?” Diz-me a Loly. Acordo ainda cheio de sono, e quase que me ia-me esquecendo que certos chefes mandaram fuder o Estado de Emergência, e eu trabalho normalmente sem a bendita rotatividade prevista pelo decreto, como certas repartições do Estado que ainda pensam em festas e outros espalhafatosos convívios. É hora de sair de casa, por mais que eu queira apenas fechar os olhos, estender-me dentro de mim e sonhar, tenho de ir ao serviço, talvez seja a falta de pão o motivo pelo qual não me faz apanhar sono. Ora bolas.

O Tribunal Judicial Provincial de Gaza tem a grande responsabilidade de julgar o caso de assassinato, a 7 de Outubro, de Anastácio Matavele, activista social e director executivo do Fórum das Organizações Não-Governamentais de Gaza (FONGA).

As audiências arrancam já com fortes desconfianças de manipulação do processo. É que há dias, a juiza do caso respondeu com um silêncio absoluto  ao pedido do advogado da família Matavele. Ele solicitou, na fase de instrução contraditória, que fossem feitas diligências para a obtenção de extractos das conversas telefónicas mantidas entre os arguidos nos dias 5, 6 e 7 de Outubro do ano passado.

O objectivo do proponente era esclarecer e completar a prova indiciária. Entendia que os áudios poderiam ajudar a descobrir a verdade material, com fortes hipóteses de chegar à posse de algumas revelações importantes para a acusação definitiva.

Surpreendentemente, a juíza, com todos os poderes ao seu dispor para indeferir o pedido caso julgasse irrelevantes as diligências, em despacho fundamentado, manteve-se pura e simplesmente calada.

Ela deixou passar uma oportunidade ímpar de autorizar o requerimento, às operadoras de telefonia móvel, para o fornecimento dos extractos dessas conversas entre os arguidos antes e no dia do cometimento do crime.

Esta atitude apática do tribunal gazense quanto ao pedido do advogado é tida como “parcial e tendenciosa” e terá, de certa forma, contribuido para a obstruição da descoberta da verdade material, sobretudo a identidade dos verdadeiros mandantes do assassinato a tiro de Anastácio Matavele.

O grande desafio deste julgamento será chegar aos mandantes porque quanto aos executantes do crime, esses, estão nas mãos da justiça. Há uma tendência por parte de alguns polícias envolvidos em dar o dito por não dito. Nos primeiros interrogatórios, revelaram, e ficou registado, que receberam instruções para não lhe matarem, mas deixarem-lhe sem a possibilidade de poder andar.

Nas fases subsequentes de instrução do processo, os mesmos disseram que não receberam orientações de ninguém para atirarem contra o activista social, como que a darem a entender que tudo foi por conta e risco próprios.

A província de Gaza, bastião do partido no poder e com uma grande dose de intolerância política, está em prova neste julgamento, sobretudo porque é a primeira vez que lida com um caso desta envergadura. Além de polícias, está arrolado o edil da vila de Chibuto pelo partido Frelimo por a viatura usada pelos criminosos estar registada em seu nome.

O assassinato ocorreu em plena campanha eleitoral para as presidenciais, legislativas e das assembleias provincias e há uma semana da votação. Anastácio Matavele era um dos observadores do sufrágio em representação da sua organização.

Este crime hediondo acabou por manchar o processo eleitoral, em geral, e na província de Gaza, em particular, esta que ainda não tinha esgotado o debate à volta da disparidade do número de eleitores recenseados para as eleições de Outubro de 2019. É que a Comissão Nacional de Eleições tinha 300 mil a mais em relação aos dados apresentados pelo Instituto Nacional de Estatística, que é autoridade na matéria.

A morte a tiro de Anastácio Matavel deixou de ser um simples homicídio e ganhou uma outra dimensão, a de um crime político dado ao espaço e ao tempo em que aconteceu. Desde então, o caso está a ser vigiado por organizações da sociedade civil moçambicanas e pela comunidade internacional que se revelou chocada com o crime.

Os Estados Unidos de América, por via da sua embaixada em Maputo, a União Europeia, através da sua equipa de observação eleitoral, a Amnistia Internacionmal, órgão de defesa dos direitos humanos, e outras organizações e governos estrangeiros condenaram o acto bárbaro, exigiram o esclarecimento do caso e a responsabilização dos autores do crime.

Estes parceiros estratégicos de Moçambique, que se juntam às vozes internas,  incluindo a comunicação social, nacional e estrangeira, estão todos de olho neste julgamento e esperam que a justiça seja feita em termos de condenação exemplar aos implicados.

Dependendo do conteúdo da sentença a apresentar, o desfecho do mesmo poderá promover ou despromover a imagem já em si degradada dos órgãos de administração da justiça e a do Tribunal Judicial da Provincial de Gaza.

Se se chegar à conclusão de que o tribunal passou ao lado daquilo que era a expectativa do público em termos de justiça feita, terá disparado contra o seu próprio pé ou afundado cada vez mais a imagem do sector da justiça. A ser assim, pode dar razão àqueles que olham para a justiça moçambicana com desconfiança no sentido de que é facilmente manipulável pelo poder político.

O facto de os presidentes dos tribunais Administrativo, Supremo, Constitucional e o Procurador Geral da República serem nomeados e tomarem posse perante o Chefe de Estado, coloca-lhes numa situação de vulnerabilidade e retira-lhes o sentido de independência em relação ao poder político.

O descrédito à justiça moçambicana ficou patente no caso Manuel Chang. Vozes, internas e externas, levantaram-se a defender que o antigo ministro das Finanças, peça-chave do dossier das dívidas ocultas, preso há mais de um ano na África do Sul, devia ser extraditado para os Estado Unidos de América porque em Moçambique não havia garantias de um julgamento sério e sem interferências políticas. 

Está claro que não há nenhuma pena que possa compensar o assassinato de Anastácio Matavele, por maior ou pesada que seja.  A vida não tem preço. Mas há sentença que pode deixar a sua família confortável. O país e o mundo com a certeza de que foi feita a justica. É, o mínimo, o que estamos a pedir ao Tribunal Judicial Provincial de Gaza.

A enorme vaga de água lamacenta surpreende as três barrigudas fechadas na circular palhota que faz de “casa de mãe espera”. Hanidjo é a mais velha. Esta é a sua quarta gravidez. As outras duas são marinheiras de primeira viagem. 

Empoleirada numa carroça puxada por dois burros, Hanidjo deixou a casa, o marido e as três filhas numa remota aldeia a vários quilómetros da sede do posto administrativo. É desta que acredita que vai ter o rapaz que alimenta os sonhos e as fantasias do marido. Ele quer um filho varão para lhe ensinar a ser homem, a ir à caça, a dominar os contornos da vida e, acima de tudo, para perpetuar o apelido da família.

As duas estreantes são de aldeias mais próximas. Também estão em gravidez terminal e vieram para aqui em busca de um parto seguro. O tempo é passado a ouvir as sábias experiências de Hanidjo: de como a dor do parto não tem paralelo com mais nenhuma; de como na hora da verdade todas as fantasias esfumam-se e apenas a força interior da mulher consegue demover todos os pedregulhos; e de como a mão divina está sempre por perto para dar o impulso que o novo ser precisa para se fazer à vida.

A chuva ininterrupta, os ventos e as trovoadas fortes chegaram antes dos bebés. É de madrugada. A cobertura e toda a estrutura da palhota dançam. O chão virou uma nascente. A água fervilha. Não há ninguém no posto de saúde para apoiar. 

O albergue das três mulheres vai abaixo e dissolve-se como açúcar em água quente. Não sobra nada. Todos os destroços seguem viagem ao ritmo da corrente. Relampeja. As mulheres estão agora totalmente ensopadas e entregues às vontades da chuva e dos ventos fortes. A corrente de água atinge-lhes a cintura. Ainda assim, elas mantêm o equilíbrio e, de mãos dadas, arrastam lentamente as suas enormes barrigas para o edifício principal do posto de saúde.

Não há como buscar abrigo no interior. As portas estão gradeadas e trancadas a sete chaves. É a única forma de proteger o posto dos energúmenos que, vezes sem conta na calada da noite, tomam-no de assaltado para surripiar medicamentos e vendê-los num tchungamoyo da grande cidade, e assim obter alguns trocados para comprar cabanga

As três mulheres estão agarradas às grades do portão. O seu choro, em coro, oculta-se no roncar dos céus, no uivar da ventania e no borbulhar da torrente de lama. O inferno desceu à terra!

Sem aviso prévio, as chapas de zinco, que cobrem o posto de saúde, levantam voos espontâneos e sincronizados. Uma a uma. É como se se tratasse de um esquadrão de caças-bombardeiros, que obedecem a um comando para descolar de um porta-aviões. Atravessam os ares em voo rasante, transbordando vigor e tenacidade. Difícil é saber onde cada chapa irá aterrar. Até pode ser no pescoço de qualquer incauto em fuga.

Um ruído forte abafa o som da trovoada. A estrutura do pequeno edifício estremece. Hanidjo assusta-se. Os nervos sobem à flor da pele num arrepio avassalador. As mulheres compreendem que a parede traseira cedeu. Abriu-se um acesso. Sempre de mãos dadas, fazem uma marcha lenta e sincronizada na direcção da parede que ruiu. O nível da água continua a subir.

O susto provocou sensações estranhas em Hanidjo. Entra em contracções. Começa a ser difícil arrastar os pés. Ela sente algo quente massageando-lhe as pernas e misturando-se com a água lamacenta. A experiência ensina-lhe que é a bolsa que rompeu. O seu bebé já está perto.

No interior do edifício principal do posto é um total alvoroço. A força da água precipita tudo para fora. As três mulheres buscam o equilíbrio possível. Não pára de chover. Há um enorme tampo de madeira, de meia altura, fixado junto a uma das paredes. As outras duas ajudam Hanidjo, que já não se aguenta, a trepá-lo.

A água ultrapassa ligeiramente a altura do tampo. Hanidjo deita-se de costas. Metade da barriga está submersa. A outra metade está fora. Ela quer entregar um novo ser a este mundo. Um mundo que hoje se confunde com as trevas.

Não há apoio médico. Há apenas duas jovens inexperientes que procuram ajudar. Hanidjo quer ser mãe. Quer dar ao marido o filho varão que não tem. Quer continuar a plantar rosas sem espinhos e colorir o mundo com o dom da vida.

A água turva roça-lhe as coxas num imenso turbilhão. Ela chora. Grita. As duas jovens não sabem fazer de parteiras. Também choram. São ecos que não se sobrepõem ao som dominador que a mãe natureza faz: o assobiar dos ventos, o relampejar do céu e o tamborilar de cada gota da intensa chuva.

Mas o bebé tem de nascer. Deus tem de ser misericordioso. A crença tem de prevalecer. A energia positiva das três mulheres tem de vencer. O ciclone tem de deixar espaço para que a vida sorria, e que o raio que risca os céus ilumine a pétala de uma voz que quer ser ouvida.  

O bebé sai disparado do ventre de Hanidjo num mergulho directo para a água turva. Não precisa da tradicional pancada no rabinho para chorar. Solta a sua voz de macho e anuncia-se ao mundo. Sobreviveu, tal como a Rosita do ano 2000.

 

Quando convém, a comunicação social é parceira do governo. Dos partidos políticos. De organizações da sociedade civil. Há rasgos elogios destes ao seu trabalho a nível do discurso político, talvez para conquistarem simpatias junto dos jornalistas e saírem bem na fotografia.

As palmadinhas nas costas e todo um palavreado bonito não faltam a 11 de Abril, dia do jornalista moçambicano, e a 3 de Maio, dia internacional da liberdade de imprensa. Elas vêm do Presidente da República. Dos ministros. Dos governadores e de outras “excelências”.

É tida como aquela que educa. Que contribui para a formação do homem novo. Que mantem a sociedade informada sobre o que se passa no país e no mundo. A comunicação social até fica encabulada com tudo isto.

Como se de elogios fúnebres se tratassem, ninguém fala dos seus defeitos. Dos seus erros, que até são públicos, deferentemente dos cometidos noutras profissões ou funções e por outros actores na governação. Na gestão da coisa pública e noutros campos de actuação.

Muitos dos erros na tomada de decisões e não só morrem nos gabinetes. Nas secretarias. Nas províncias e noutros lugares, se escaparem das redes sociais. Dos olhos de jornalistas e das denúncias dos defensores da boa governação, igualdade de oportunidades e de uma sociedade livre de todos os males.

Quando a vida resolve virar as costas, tudo muda num ângulo de 360 graus. As mesmas pessoas que antes esgotaram os adjectivos qualificativos sobre o papel da comunicação social na sociedade, aparecem a atacar a torta e a direita. A chamar nomes à comunicação social. A considera-la “Persona non grata” e, por isso, um inimigo a abater.

Vítima do seu próprio trabalho, ela é tida como aquela que desinforma. Que desmobiliza. Aquela que veicula informação manipulada. Esta é a mais recente visão do ministro do Interior em relação a notícias produzidas pela imprensa sobre os insurgentes em Cabo Delgado.

Não apontou casos concretos de manipulação da informação, os órgãos de informação implicados e não disponibilizou a versão correcta da história para repor a honra e bom nome do seu sector. Ele, definitivamente, coloca toda a comunicação social no mesmo saco.

O governante quase culpou à classe jornalística pelo insucesso das vitoriosas e gloriosas forças de defesa e segurança no teatro das operações, num país que tem tudo para dar certo.

A situação parece-me mais grave do que as suas declarações contra a classe jornalística. É que o sector privado de comunicação social começa a ser discriminado em coisas simples como o briefing semanal com o porta-voz do Comando Geral da Polícia. Esta é a parte oculta das declarações venenosas do ministro.

Qualquer pessoa está livre de criticar o que julgar errado no trabalho de jornalistas. Mas no caso particular do chefe da polícia, antes de atacar, devia ter avaliado o desempenho do seu sector para verificar como é que está a comunicar o assunto dos terroristas em Cabo Delgado. Se está a comunicar bem ou não e corrigir o que estiver errado.

Com este exercício, chegaria a uma rápida conclusão: Que afinal o seu sector não está a comunicar o suficiente para contrapor as investidas inimigas. Os tabus estão a ensombrar tudo. Reage lentamente e na defensiva ao invés do ataque. Fica calado quando todos estão à espera de ouvir a versão oficial da história.

Este é o pano de fundo da questão. O velho problema que nenhum governo conseguiu resolver no país. O Ministério do Interior é apenas parte da questão. Há uma dificuldade enorme em comunicar mesmo quando a informação é favorável ao governo.

Na semana passada, o executivo anunciou 129 baixas nas hostes do inimigo, algo raro desde que iniciaram os ataques terroristas a aldeias recônditas de Cabo Delgado que já vitimaram cerca de 500 pessoas e provocaram mais de 160 mil deslocados.

O governo, em geral, e Ministério do Interior, em particular, perderam uma grande oportunidade de fazer “show” com a notícia. Não conseguiram tirar proveito da informação. O facto é que se limitou a anunciar o número de mortos e mais nada. Ninguém se deu ao trabalho de mostrou o corpo de pelo menos um dos terroristas abatidos. Matou-se a história e retirou-lhe a credibilidade.

O comando das FDS não só não comunica o suficiente, como também não deixa comunicar. Os jornalistas que se interessam pelo assunto dos insurgentes são perseguidos, ameaçados e presos em Cabo Delgado. Quando soltos, são obrigados a apagarem as imagens, vezes sem conta, inofensivas captadas em alguns distritos alvos de ataques e a verdade sobre o que está a acontecer no terreno fica por apurar.

Infelizmente, os terroristas saem-se melhor nesse aspecto. Relatam a sua versão dos factos nas redes sociais falando das suas incursões. Pousam para a posteridade nas sedes distritais que assaltam e ocupam por algumas horas e colocam a informação em circulação.

Para convencerem as pessoas dos seus actos criminais, usam os mesmos canais de comunicação para publicarem vídeos em que estão a fazer e desfazer a seu bel-prazer. Alguns, gravados no interior das residências de administradores distritais. Outros, diante dos comandos distritais da PRM. Anunciam números elevados de baixas que dizem ter infligido às forças de defesa e segurança e como sempre nada se diz oficialmente.

As guerras ganham-se não só no teatro das operações, como também na imprensa. Tudo depende da capacidade de cada uma das partes em explorar os vários canais de comunicação disponíveis a seu favor para criar uma boa imagem perante o público e fazer uma demonstração de força.

Para quem vive fora daquela província pode ter a falsa impressão de que está tudo bem. Milhares de camponeses estão a abandonar as suas aldeias e a viverem como deslocados, num clima de medo e terror, algures em Cabo Delgado, uma autêntica crise humanitária.

O melhor em tudo isto é a abandonar a política de hostilização de jornalistas no exercício da sua actividade. Na verdade o foco das FDS devem ser os terroristas. Esses, sim, são inimigos. A comunicação social, não. Apesar de reflectir o pensar diferente, é patriota e está preocupada com tudo que está a acontecer em Cabo Delgado.

Saibam trabalhar com ela na defesa dos interesses nacionais, um objectivo comum. Aliás, o Presidente da República, Filipe Nyusi, bem disse, nas suas palavras de carinho à classe jornalística por ocasião do seu dia, 11 de Abril, que o jornalista é um parceiro.

A parceria a que o PR se refere tem que se desenvolver na base do respeito mútuo para que a mesma possa se fortalecer e tornar-se saudável. Deve desenvolver-se sem ameaças, intimidações, muito menos detenções e confiscação de materiais de trabalho.  

 

O Presidente da República (PR), nos termos da alínea c) do n.º 1 do artigo 3 do decreto-presidencial n.º 11/2020, que declara o Estado de Emergência, determinou a suspensão do ano lectivo de 2020 ao ordenar, de forma expressa, o seguinte: «na pendência do Estado de Emergência, e na medida do necessário para a prevenção e/ou combate à pandemia do covid-19, devem verificar-se as seguintes medidas restritivas gerais: suspensão das aulas em todas as escolas públicas e privadas, desde o ensino pré-escolar até ao ensino universitário».

O decreto-presidencial que acima se faz alusão foi ratificado pela Assembleia da República (AR) através da Lei n.º 1/2020, ao que se sucedeu a respectiva prorrogação, através do decreto-presidencial n.º 12/2020, que, por sua vez, foi também ratificado pelo mesmo órgão de soberania (AR) por intermédio da Lei n.º 4/2020, sendo que aquela norma que suspende as aulas foi literalmente transplantada para o “decreto-presidencial prorrogador”.

Entretanto, os estabelecimentos de ensino “revogaram” uma norma aprovada por um decreto-presidencial e ratificada por uma Lei, determinando, imagine-se, que o ano lectivo tem, sim, continuidade, com recurso a critérios unilateralmente fixados por esses mesmos estabelecimentos de ensino.

Além de ter ocorrido algo impensável em Direito (um estabelecimento de ensino “revogar” uma Lei), estes mesmos estabelecimentos de ensino, determinaram que as aulas, que o PR havia mandado suspender como medida restritiva geral, terão continuidade com recurso a meios virtuais/digitais, através do uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs).

Sem perder qualquer tempo, estes estabelecimentos de ensino passaram da ideia à acção: os estudantes, através do Whatsapp ou emails ou outros mecanismos on-line, recebem matérias lectivas produzidas pelos preditos estabelecimentos que, assim, encontraram uma forma sorrateira de obrigar os estudantes a pagar por um serviço que o PR tinha mandado suspender.

Entretanto, entre os elementos das turmas, aqui e acolá, que recebem essas lições digitais, nem todos têm computadores/computadores pessoais e, de entre aqueles que têm, nem todos têm acesso ilimitado à internet.

Aliás, em Moçambique, a maioria dos estudantes com acesso pessoal a internet o fazem através dos respectivos telemóveis (que agora, por ordem dos estabelecimentos de ensino, são obrigados a lerem, num dispositivo minúsculo como o é um telemóvel, uma multiplicidade de páginas, sendo completamente despiciendo convocar argumentos para demonstrar a desumanidade destas práticas) ou nos computadores implantados nas respectivas entidades empregadoras.

Da suspensão decretada pelo PR, decorrente da necessidade de se mitigarem os efeitos funestos da pandemia do covid-19, resulta que, chegará o dia em que a mesma, será levantada pelo PR. Dito de outro modo: quando as circunstâncias que inspiraram o decretamento das medidas de restrição voltarem a normalidade, o PR levantará a suspensão que decretou.

Significa isto dizer que, nesse dia, alguns estudantes (os privilegiados possuidores de laptops e acesso a internet) estarão num nível diferente comparativamente àqueles, coitados, que cometeram o pecado de não terem nem computadores e muito menos acesso a internet para poderem estar no mesmo estágio de aprendizagem que os colegas que os possuem, significando que, na mesma turma, alguns estarão no segundo semestre e outros ainda no primeiro.

Colocadas as coisas como estão, os estabelecimentos de ensino introduziram em Moçambique um novo conceito de acesso à educação. A educação passa, ao arrepio da lei, a ser um serviço de carácter elitista, somente à mercê de quem possui computadores e acesso a internet.

Entretanto, o n.º 1 do artigo 88 da Constituição da República (CRM) estabelece que «na República de Moçambique a educação constitui direito de cada cidadão».

O n.º 2 do referido artigo vai mais longe, determinando que «o Estado promove a igualdade de acesso de todos os cidadãos ao gozo deste direito»

O que se disse acima está intimamente ligado com um princípio basilar em Direito – princípio da universalidade e igualdade – entre nós, consagrado no artigo 35 da CRM que salienta que «todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, independentemente da (…) posição social (…)».

Cremos que não são necessárias virtudes de genialidade para se chegar a fácil conclusão que os estabelecimentos de ensino ao leccionarem suas aulas virtuais somente para um grupo de estudantes – os agraciados com computadores e acesso a internet –, estão, de forma acintosa, a violar o princípio constitucional da universalidade e igualdade, e ainda atropelam violentamente o direito à educação, também ele de cariz constitucional.

Além disso, verifica-se as normas constitucionais acima citadas, além de conferirem direitos aos cidadãos, também atribuem deveres ao Estado – de garantir que esses direitos [dos cidadãos] sejam respeitados.

Parafraseando as memoráveis palavras de Salvador Allende: “não basta que todos sejam iguais perante à lei; é também necessário que a lei seja igual perante a todos”. Pelo que nos é dado a reparar, não é o que se sucede em Moçambique.

Agora, em Moçambique, por determinação dos estabelecimentos de ensino, o acesso a educação é determinado pela posição social, ou seja, só goza desse direito quem tiver acesso a computadores e internet, sendo que, no último senso realizado sobre o uso de internet no país, extraiu-se que nem 10% da população moçambicana tem acesso a este meio, o que significa dizer que, a partir de agora, o direito a educação, por determinação dos estabelecimentos de ensino que se arrogam a detentores de poderes para revogar leis aprovadas pela AR, 90% da população deve ficar a espera que as circunstâncias que determinaram a suspensão, pelo PR, do ano lectivo voltem a normalidade.

Mas as atrocidades jurídicas em torno deste paradoxo não se ficam por aqui…

Ao abrigo do contrato firmado entre estudantes e estabelecimentos de ensino, as aulas (objecto do contrato) são presenciais (modo de prestação do objecto do contrato).

Entretanto, os estabelecimentos de ensino numa desenfreada atitude visando continuar a auferir os rendimentos mensais que colhiam antes do decretamento do Estado de Emergência, modificaram, unilateralmente, a forma de prestação do objecto do contrato (pois não se conformam com as consequências do Estado de Emergência). Assim,

Os estabelecimentos de ensino têm impingido aos estudantes o pagamento de valores referentes a propinas, relativos a um serviço – aulas virtuais – que não foi solicitado pelos mesmos estudantes.

A este respeito, à luz do artigo 92 da CRM, os consumidores têm direito à protecção dos seus interesses económicos e, ao abrigo do que dispõe o n.º 4 do artigo 11 da Lei de Defesa do Consumidor – princípio da protecção dos interesses económicos do consumidor refere que – «o consumidor não fica obrigado ao pagamento de serviços que não tenha previamente solicitado, ou que não constituam cumprimento de contrato válido, não lhe cabendo, do mesmo modo, o encargo da sua compensação». Mais ainda,

Essa actuação dos estabelecimentos de ensino enquadra, simultaneamente, os conceitos de “prática abusiva” e “cláusula abusiva”.

A “prática abusiva” «consiste no fornecedor prevalecer-se da fraqueza e ignorância do consumidor para impor os seus serviços» (alínea d) do n.º 1 do artigo 29 da Lei de Defesa do Consumidor), e no que se refere às “cláusulas abusivas”, «são nulas e de nenhum efeito as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de serviços que estabeleçam obrigações consideradas iníquas e abusivas que coloquem o consumidor em desvantagens exageradas ou sejam incompatíveis com a boa-fé e equidade» (alínea d) do n.º 1 do artigo 22 da Lei de Defesa do Consumidor), sendo que o conceito de “vantagem exagerada” nos é fornecido pela alínea c) do n.º 2 do referido artigo 22, que refere que presume-se exagerada a vantagem que se mostra excessivamente onerosa para o consumidor considerando a natureza e conteúdo do contrato (aqui não se pode perder de vista que estes estudantes que são obrigados a pagar por um serviço que nem solicitaram, já vêm suportando as terríveis consequências financeiras que se originaram nas suas vidas, em virtude do decretamento do Estado de Emergência, que, pela peculiaridade de algumas das restrições decretadas, retirou capacidade de ganho a generalidade das pessoas). 

A conduta observada pelos estabelecimentos de ensino viola as regras da boa-fé, previstas quer no n.º 1 do artigo 227 quer no n.º 2 do artigo 762 e constitui, ainda, “abuso de direito” ao abrigo do artigo 334, todos do Código Civil.

Sobre o abuso de direito, o citado artigo 334 do Código Civil assevera que «é ilegítimo o exercício de um direito, quando o titular exceda manifestamente os limites impostos pela boa-fé, pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse direito».

Como se tudo isso não bastasse,

Esse comportamento dos estabelecimentos de ensino constitui “crime de usura”, previsto e punido nos termos do n.º 1 do artigo 305 do Código Penal, que promulga que «quem, com intenção de alcançar um benefício patrimonial, para si ou para outra pessoa, explorando situação de necessidade, (…) inépcia, inexperiência ou fraqueza de carácter do devedor, ou relação de dependência deste, fizer com que ele se obrigue a conceder ou prometer, sob qualquer forma, a seu favor ou a favor de outra pessoa, vantagem pecuniária que for, segundo as circunstâncias do caso, manifestamente desproporcionada com a contraprestação é punido com pena de prisão e multa», chamando-se atenção que, os crimes cometidos pelas pessoas colectivas, repercutem-se também nos seus representantes (artigo 30 e 31 do Código Penal), pois é através deles que as pessoas colectivas materializam os seus actos.

E se aliarmos o crime previsto no artigo 305 do Código Penal ao disposto no artigo 6 do decreto-presidencial que prorroga o Estado de Emergência, que refere que «o desrespeito às medidas impostas pelo presente diploma legal será considerado crime de desobediência e punido com as penas correspondentes», tendo sempre em atenção que a punição da desobediência é realizada ao abrigo do artigo 412 do Código Penal, de uma sentada, temos, por parte dos [representantes dos] estabelecimentos de ensino, a perpetração de dois crimes (usura e desobediência) contra uma multiplicidade de estudantes.

No meio do contorcionismo em que os estabelecimentos de ensino mergulham, chegam ao ponto de tentar criar a ideia de que quando o PR disse que as aulas estão suspensas, o PR não quis dizer que as aulas estão suspensas, violando, conscientemente, um princípio básico – bem básico – de interpretação jurídica, estabelecido no n.º 2 do artigo 9 do Código Civil que nos ensina que «não pode, porém, ser considerado pelo intérprete o pensamento legislativo que não tenha na letra da lei um mínimo de correspondência verbal, ainda que imperfeitamente expresso». Violam aquela norma do Código Civil ao trazerem interpretações que não possuem qualquer correspondência semântico-linguística com a norma que, de forma clara, diz: «na pendência do Estado de Emergência, (…) devem verificar-se as seguintes medidas restritivas gerais: suspensão das aulas em todas as escolas públicas e privadas, desde o ensino pré-escolar até ao ensino universitário».

Voltando à génese do problema,

Um diploma legal só pode ser revogado por outro de igual posição hierárquica ou superior. Isto que se disse atrás traduz-se num princípio mestre do Direito Administrativo – “princípio do congelamento do grau hierárquico” – que estabelece que as normas de um diploma legal só podem ser alteradas, modificadas e revogadas por outro diploma de igual ou superior grau hierárquico. Ex: só uma lei pode revogar outra lei; um decreto não pode revogar uma lei. Se um decreto não pode revogar uma lei, porque esta é hierarquicamente superior àquele, imagine-se então instruções de estabelecimentos de ensino…

Mas aqui, no nosso país, aconteceu o impensável: estas instruções “revogaram” uma ordem do PR (que manda suspender o ano lectivo de 2020 em todas as escolas públicas e privadas, desde a creche até às universidades), constante do decreto-presidencial que prorroga o estado de emergência e ratificado por lei proveniente da AR, e tais instruções já estão a ser implementadas à custa da ignorância, fragilidade, desconhecimento de direitos, dependência e necessidade dos estudantes, num acto que se traduz numa espoliação criminosa dos direitos de propriedade dos estudantes, o que, para além da colecção de ilegalidades acima evidenciada, faz emergir a figura do “enriquecimento sem causa” previsto no artigo 473 do Código Civil que determina que «aquele que, sem causa justificativa, enriquecer à custa de outrem é obrigado a restituir aquilo com que injustamente se locupletou. A obrigação de restituir, por enriquecimento sem causa, tem de modo especial por objecto o que for indevidamente recebido, ou o que for recebido por virtude de uma causa que deixou de existir ou em vista de um efeito que não se verificou».

Portanto, a lei proíbe que uma das partes “enriqueça”, “se locuplete” “ganhe vantagens financeiras” de forma ilegítima (entendido, sem causa justificativa para enriquecer, se locupletar, ganhar vantagens financeiras o ganho de vantagens financeiras sem causa idónea para o efeito).

Isto significa dizer que, à luz da Lei, estes estabelecimentos de ensino estão obrigados a restituir aos estudantes os valores ilegalmente recebidos destes (algo que só aconteceu devido à exploração da fraqueza, ignorância, fragilidade, dependência dos estudantes que pagaram por serviços não solicitados achando que são obrigados a pagar, quando, conforme vimos em algumas reproduções legais expostas acima, não são).

 

Télio Chamuço

Advogado

Email: telio@teliochamuco.com  

 

 

 

ROBERT ESCARPIT (França, 1918 – 2000) foi um académico, escritor e jornalista. Publicou vários livros entre artigos científicos e romances de ficção. Um dos livros que me interessou, aliás, o único que li deste autor, chama-se “Carta Aberta a Deus”, edição portuguesa (Editorial Pórtico, Lisboa, 1971, tradução de José António Nunes de Carvalho, 140 páginas).

 

***

As minhas preocupações existenciais remontam ao tempo da minha adolescência. Minha mãe era religiosa, frequentadora assídua de uma das igrejas da família dos protestantes, praticadas em Nauela. Sempre que ela me convidasse a acompanhá-la à Igreja eu apresentava “dificuldades” de vária ordem, tudo para escapar da difícil tarefa de ter que me fazer à casa de Deus. O mesmo acontecia com meus amigos e outros familiares que também me convidavam à igreja católica. Aliás, Nauela tem o histórico de ter sido um dos centros das missões tanto das igrejas protestantes quanto da igreja católica, a nível da Zambézia. Portanto, era embaraçoso, do meu ponto de vista, ir a uma Casa cujo Dono era todo poderoso e sem igual. Confesso que essa ideia me apavorava bastante. Isto é, era um misto de pavor e resignação.

Sendo Ele omnipresente, liberdade em potência e acção, eu receava que eventualmente Deus me perguntasse, ainda que silenciosa e secretamente, se eu o amava ou não. E isso certamente seria complicado para mim, uma vez que não saberia responder ao certo, e com a sinceridade e honestidade requeridas, sem temer pelas possíveis represálias. Porque dele eu só sabia que era Dono do mundo e de todas as coisas nele contidas. Por isso, senti que necessitava de tempo para interiorizar com profundidade a noção da sua existência, antes dessa importantíssima visita à Casa do tão Ilustre e Invisível Anfitrião. Daí em diante passei então a cogitar sobre Ele e a possível relação entre mim e Ele, exercício esse que se mantém até aos dias de hoje.

Tenho dito vezes sem conta que sou um agnóstico em matéria de religião e quejandos. Nunca tenho certeza de nada, principalmente em assuntos tão complexos quanto os da Fé religiosa. Em brincadeira com os meus próximos, tenho dito igualmente que se fosse para fundar uma igreja esta chamar-se-ia de “Igreja da Dúvida”. Mas também não me parece que a igreja seja o único lugar de encontro com Deus, sendo este omnipresente. Ocorre-me agora citar aqui a famosa afirmação de Sócrates: “Só sei que nada sei”. Por conseguinte, nunca pus em causa a existência desse Ser Supremo, e também nunca fui um devoto da sua existência. Ou seja, sou uma espécie de anfíbio, esse espécime ora vivendo na água ora na terra. Tanto me sinto bem com aqueles que o acreditam quanto com aqueles que não o apoiam. Assumo que a vida é uma viagem estonteante e, como tal, Deus afigura-se-me simplesmente como uma possibilidade.

***

Voltemos ao livro de Escarpit, “Carta Aberta a Deus”. É uma daquelas obras que só se sugerem a alguém com a mesma linha de raciocínio, aliás, por razões óbvias. Pessoalmente li-o sugerido apenas pelo seu título. Para quem se interessar digo apenas que é um livro que deve ser lido de consciência livre e sem preconceitos de espécie alguma. A busca pela verdade exige-nos abertura total de mente e espírito. Independentemente das nossas vertigens, a realidade é hirta, alheia e impassível! Cada um de nós, dentro da sua liberdade, faz dela o que melhor lhe aprouver. Por conseguinte, Deus é, em última análise, uma manifestação individual. E é por essa razão que não posso ignorar e muito menos repudiar aquilo que meus semelhantes têm por verdade inalienável.

Na “Carta Aberta a Deus” Escarpit começa com uma advertência ao suposto portador que, neste caso, é o director geral das telecomunicações: “Confio-lhe esta carta sem a franquia e suponho que o destinatário deverá pagar multa. Ele não regateará. Conheço-lhe a reputação: se lhe perdoar a franquia, retribuir-lhe-á cem vezes mais.” (p.9)

O autor adverte ainda àqueles que eventualmente o lerão já com ideias preconcebidas, com laivos de radicalismo, digo eu, nos seguintes termos: “Não tenho interesse algum em ser lido pelas pessoas que lêem com um só olho, o esquerdo ou o direito, é indiferente, ser-me-á desagradável ouvir dizer que este livro é um chorrilho de blasfémias pretensiosas e primárias, e ainda me custará mais ouvir dizer que Escarpit está a deixar-se levar pelos padrecas, que mudou muito, que já tínhamos previsto isso há muito tempo.” (p.11)

Depois disso, Escarpit entra já na parte do diálogo directo com Deus, confessando que, “Dito isto, não penseis que tento iludir as obrigações que tenho para convosco. Que eu creia ou não em vós não é de importância capital, mas o facto é que necessito de vós, nem que seja como tapa-buracos.” (p.15)

Mais adiante o autor afiança desconfiar que Deus seja um intelectual de esquerda. E a razão desta desconfiança está no facto de ambos desejarem ardentemente a revolução. “O intelectual de esquerda tem tanto mais coragem quanto mais se apega às suas ideias. É tudo o quanto tem a mais que os outros e é muito.” E diz mais: “Não me surpreenderia se houvesse no Paraíso muito mais comunistas que padres.” (p.25/26)

Robert Escarpit compara a intencionalidade de Deus com a de Marx, cuja comunhão de atitudes corresponde a uma certa convergência dessas intenções, “Com bastante lógica e mesmo bom senso, Marx coloca a realização do fenómeno humano nos próprios homens. Mas vós recuais diante dessa lógica, temendo que ela vos deixe de fora e vos condene à inutilidade (…).” (p.28)

“O vosso achado, há dois milénios, foi o de vos proclamardes simultaneamente imanente e transcendente e dissimulardes a incompatibilidade dessas duas naturezas sob o véu do mistério sagrado. Top secret. É proibido compreender. Streng verboten!” E explica mesmo que “É isso que o diabo não vos perdoa. Ele quer compreender.” (p.29). Mas Escarpit não quer saber se compreende ou não, o que lhe interessa, isso sim, são os resultados e não os métodos. É a isto o que se chama de “pragmatismo existencial”. E a vida exige justamente isso.

Em contrapartida, diz Escarpit, “Ser da direita é não ser nem humilde nem modesto e, sobretudo, nunca o confessar, nem a si próprio nem aos outros. É pertencer a um sindicato de interesses que disfarça a vontade de domínio universal sob uma ideologia geralmente piedosa, por vezes sedutora e sempre brilhante.” Por isso, diz ele a Deus para não se espantar por, nestas condições, o pensamento político dominante ao longo de séculos ter sido quase que exclusivamente o de direita. (p.35)

Num outro capítulo, Escarpit, consciente da não abrangência em todos os cantos do mundo, pergunta a Deus se, por ventura, não sente já a ironia patética de um ecumenismo que só respeita uma parte apenas das terras habitadas pela humanidade, enquanto o seu nome pretende abranger e designar todo o conjunto da humanidade, e o autor justifica que “Mesmo que os cristãos conseguissem restabelecer a unidade, ainda que cristãos, judeus e muçulmanos descobrissem que adoram sob três nomes um único e mesmo Deus, as terras que habitam só representam uma fracção da terra dos homens.” (p.52)

Dizia alguém que leve o tempo que levar, o homem conhecerá Deus! Como que a fazer jus a isso, Robert Escarpit tem a esperança de que, “chegaremos a conhecer a vossa criação melhor que vós próprio a conheceis, porque a teremos recriado átomo por átomo, segundo por segundo, com as nossas mãos e cérebros.” (p.82)

Diz ele, Escarpit, que qualquer atitude religiosa é primeiro uma atitude de culpa. E que a oração começa pela purificação. “Claro que cometemos todos, dia a dia, erros de comportamento de que podemos sentir-nos responsáveis, mas de que poderíamos ser colectivamente responsáveis como homens?” (p.90/91)

“Quanto ao assunto da maçã, devíeis ter plantado a árvore noutro sítio ou não ter criado Adão à vossa imagem.”

“Se queríeis que o homem continuasse no estado de inocência, não devíeis ter posto ao seu alcance os meios e, nele, a ambição de sair dele.” (p.91).

Escarpit não acredita no amor universal. Isto é, para ele não é possível amarmo-nos uns aos outros simultaneamente. “É possível amar-se uma coisa ou pessoa sem se recusar outra?”

 “É possível amar ao mesmo tempo em muitas direcções, mas como amar em todas as direcções simultaneamente? Como amar tudo? O amor universal é a universal indiferença.”

“Eu compreenderia muito bem que não amasseis o diabo. Também não gosto dele e tenho tendência para preferir-vos. Amar é preferir.” (p. 113/114)

Escarpit termina o livro pouco se importando se Deus é produto mais ou menos mórbido das suas angústias ou uma realidade que se desenrola nas suas aparências. O facto, porém, diz ele, é que o diálogo por ele iniciado com Deus só terminará com a sua  morte. “No dia, se chegar, em que nos encontrarmos cara a cara, prometei dizer-me o que tendes a dizer.” (p.138)

Como se pode depreender, o livro é um diálogo exteriorizado do autor com Deus, dele, quiçá, nosso. É um livro descomplexado, dum filho que dentro da sua inocência coloca questões ao pai invisível sobre a sua própria invisibilidade. É uma obra que levanta problemas existenciais mas que, ao mesmo tempo, trás ao de cima as contradições “ideológicas” mais profundas entre o ser humano e o seu criador.

Há 563 anos antes de Cristo nascia um dos primeiros profetas, o Buda; há 2020 anos nascia o próprio Cristo; e 571 anos depois de Cristo nascia Maomé. Com a actual multiplicação de seitas religiosas no seio da humanidade, assistimos igualmente a proliferação de profetas que até fazem questão de “ombrear” com clássicos como Buda, Jesus, Maomé, na busca de espaços e ovelhas para a sua pastagem. Cá por mim, resta-me somente, em meio deste cenário delirante que se vive nos tempos actuais, demandar, nos papiros apagados pelo tempo, os calendários dos já prometidos regressos sempre adiados. 

Dom Manuel Viera Pinto foi alguém que nos habitou às múltiplas despedidas, tantas foram as vezes que partiu e regressou. Quando recebi a notícia do final da sua missão, ainda consternado, tratei de ligar ao Padre Filipe Couto e, acto continuo, conversamos sobre um sem número de facetas e episódios. 

Uma trilogia de memórias me vem à cabeça, sempre que falamos no Bispo Dom Manuel Viera Pinto, que nos deixa uma saudade e o sentido de que a sua missão está distante do final.

Primeiro, quando foi expulso de Nampula, ali no aeroporto, bem próximo de sua residência, em 1974, afirmando para os microfones da rádio “…saiu pela porta grande e com as minhas malas, todavia, quem me expulsou, sairia pela janela e sem nada em suas mãos…”. Não foi apenas uma saga, pois, meses depois se confirmava o que antes parecia sonho.

A minha geração ainda teve o privilégio de escutar muitas das homilias. Falava com sentido de oportunidade e de forma convincente. Repetia, bem alto e em bom tom, que gostaria de morrer em Nampula e de ser sepultado à entrada da Sé Catedral, para continuar próximo de seus fiéis. 

Em segundo lugar, me recordo da famosa carta dele e dos sacerdotes da sua diocese, sob o título "Imperativo de Consciência", que eu nunca cheguei a ler, aparentemente redigida pelos padres Combonianos, um documento demasiado famoso para ser ignorado, em contexto moçambicano. Aliás, essa carta não agradou ao Governo de Marcelo Caetano, ao exigir uma resposta corajosa aos problemas graves do povo moçambicano. 

Finalmente, a carta que Dom Manuel Viera Pinto escreveu a Samora Machel, em Setembro de 1986, um mês antes do factício acidente que o roubou do nosso convívio. Esta carta, aliás, merece uma releitura.  Samora e Vieira Pinto conversavam e debatiam este país com profundidade e respeito. Assim, com a devida vénia, transcrevo à carta. Oxalá, um dia o seu maior desejo em vida, seja satisfeito e regresse à sua cidade de coração, Nampula. 

O povo não sabe onde pôr o coração

A confiança que Vossa Excelência nos merece, como Presidente da Frelimo e da República Popular de Moçambique, leva-nos a falar, mais uma vez, das violências que não cessam de humilhar e destruir o nosso povo. A guerra continua e com ela a violência, a humilhação, os abusos, os excessos, as atrocidades e os crimes. Permita-nos, Senhor Presidente, que falemos, concretamente, das violências que, neste momento, mais humilham e esmagam o nosso Povo, mais destroem o país e o encobrem de vergonha e de sangue: os massacres, as execuções sumárias, os assassinatos, as n…. e as torturas.

Massacres: 

As informações de que dispomos dizem-nos que os massacres, cometidos por uns e por outros, não são um boato ou uma pura invenção, mas sim uma triste e dolorosa realidade. Sabemos que, ao longo destes anos de guerra, os massacres de pessoas e de populações inocentes e indefesas foram muitos, contando-se por milhares, o número de vítimas: homens, mulheres, velhos e crianças, jovens e adolescentes, mães lactantes e mães grávidas. O povo pergunta pelas razões destes crimes, destes actos executados e pergunta, igualmente, por quem os comete ou manda cometer. Julgamos que não basta responder com a desculpa de que a guerra é guerra ou de que na guerra não há lei, nem há moral. 

O povo entende que, na guerra, há uma inelutável irracionalidade congénita, o que necessariamente dá origem a abusos e a violências arbitrárias. O povo entende que a irresponsabilidade, a indisciplina, o descontrolo, o espírito de represália e de vingança podem tornar, num dado momento, os homens armados em homens ferozes, homens sem lei e sem um mínimo de respeito pela vida, pela dignidade da pessoa humana e pela segurança a que as populações têm inegável direito. Mas, bastarão estas razões para explicar os numerosos massacres, cometidos contra pessoas inocentes, populações indefesas e contra o próprio Povo? Não haverá outras causas, além da lógica diabólica da guerra e da irresponsabilidade de quem os comete, permite ou manda cometer?

Perguntas fundamentais: 

O povo pergunta se, na origem destes actos brutais, não estará uma ideologia de violência e de desprezo pela vida e direito da pessoa humana, não estará uma estratégia de liquidação e de extermínio, não estará uma política de posições obstinadas e irredutíveis. O povo pergunta se, na base destas atrocidades, não estará o princípio imoral de que os fins justificam os meios, de que na guerra não há lei e de que a necessidade extrema tudo desculpa, se, na origem destes abusos, não estará a desagregação, a corrupção dos valores mais elementares da ética, da moral, do direito e da própria cultura. O povo pergunta se, os massacres e outros actos abomináveis, são apenas um atentado contra a vida das pessoas e das populações ou, igualmente, um atentado contra a vida e a alma da própria Nação.

 

Crueldades: 

Estas perguntas tornam-se mais insistentes quando tais atrocidades são cometidas com requintes de crueldade e de cinismo. Muitos, com efeito, têm sido os massacres perpetrados, com um desprezo absoluto pela dignidade e direitos fundamentais da pessoa humana e também com requintes de terrorismo e de extrema crueldade. Basta pensar nos massacres de pessoas frágeis e inteiramente indefesas, como são as crianças, os velhos, as mães lactantes ou grávidas, nos massacres de populações, convocadas e reunidas ao engano e, em seguida, encurraladas pelas armas e, barbaramente, destroçadas e assassinadas. Basta pensar nas centenas de pessoas retalhadas ou liquidadas à golpe de catana, de baioneta ou de punhal, torturadas ou degoladas, ou então queimadas vivas.

Estas, e outras, vergonhosas crueldades põem, de facto, em causa a civilização e a cultura e levam-nos, necessariamente, a concluir que tais crimes não seriam possíveis se, a par da irracionalidade e brutalidade da guerra, não houvesse um processo de degradação e de corrupção dos valores éticos, morais e espirituais do homem e do povo moçambicano. O povo preocupa-se e, diante destas vergonhosas e infames manifestações de violência, não deixa de perguntar se, a par das armas que massacram as pessoas, não há outras armas que tentam liquidar e destruir a alma e a vida do País.

Execuções: 

As execuções sumárias constituem uma outra violência degradante e criminosa. Estas execuções sumárias, tenham a justificação que tiverem, são sempre um crime, um atentado à legalidade, uma injúria grave à dignidade e aos direitos de todo o ser humano, bem como ao direito de todo o homem a que, uma vez acusado, a sua causa seja examinada, com equidade e publicamente, por um tribunal independente e imparcial. Muitas foram as execuções sumárias, ocorridas nestes anos, por sentença de tribunais improvisados e presididos pelas Forças de Defesa e Segurança. Alguns destes julgamentos e execuções, mercê da crueldade que os caracterizou e acompanhou, transformaram-se num horroroso espectáculo de sangue. Seria longa e chocante a enumeração destes lamentáveis espectáculos de sangue. 

Limitamo-nos a lembrar, como exemplo, as execuções à baioneta, à catanada e à facada, as execuções com torturas e humilhações dos acusados e condenados, as execuções por espancamento, por estrangulamento ou por esmagamento do crânio, as execuções por esquartejamento, abrindo, por vezes, a barriga aos executados, arrancando-lhes as vísceras e expondo-as ao público, as execuções com a participação das populações, manipuladas para o efeito e, por vezes, obrigadas a injuriar e a esbofetear os cadáveres deixados, por fim, insepultos à mercê dos abutres e das feras. Estas horríveis e vergonhosas execuções denunciam, tal como a violência dos massacres, a lógica impiedosa da liquidação do inimigo, a todo o custo, a lógica da represália e de vingança, não olhando a meios nem a imperativos de ordem moral ou mesmo legal.

Sentimo-nos, por isso, obrigados a lembrar às Forças em presença que tais execuções corrompem a cultura e a civilização do País, põem em causa a personalidade e a alma da Nação, abrem caminhos ao crime e ao abuso contra a vida e contra a dignidade, seja de quem for.

Assassinatos: 

Os assassinatos, a partir, sobretudo das áreas afectadas ou simplesmente suspeitas, aumentam sempre mais, tornando-se, por isso, na consciência de quem os pratica ou manda praticar, num acontecimento sem qualquer responsabilidade moral. Matar não é nada: assim se exprime quem comete tais crimes. Parece, com efeito, que a vida das pessoas não é mais um valor que mereça respeito, não é mais um direito que mereça defesa. O assassinato torna-se vulgar. A vida, o valor, o sentido da vida estão postos em causa. As pessoas sentem-se inseguras e, mais ainda, quando vêem pela frente homens armados. 

Como diz o Povo, chorando amargamente esta humilhação “os homens da Renamo desprezam e matam”, “os homens da Frelimo desprezam e matam”, uns e outros não têm pejo em assassinar homens ou mulheres, velhos ou crianças. Uns e outros não sabem mais o que é o respeito pela vida humana e pela intangível dignidade de todo o ser humano. Por isso, cometem assassinatos a frio, usando, muitas vezes, métodos cruéis. Há assassinatos a golpe de baioneta, de faca ou de catana, a golpe de martelos, de machados e de chicote. Há assassinatos por decapitação, por espancamento, por mutilação, por esquartejamento, por sevícias ou torturas até à morte. Há assassinatos por fogo ou por outros métodos cruéis e desumanos, tais como enterrar as vítimas, ainda vivas, obrigando-as, previamente, a abrir a própria cova. Mas todos sabemos que os assassinatos são um crime de delito comum e constituem a face da história e da consciência do Povo, uma pesada hipoteca de sangue. Estes crimes, tal como o crime das execuções sumárias e dos massacres, abrem caminho à violência generalizada, à degradação dos valores que defendem a vida e a dignidade do próprio povo.

Maus tratos e castigos desumanos: 

O clima de violência engendra e autoriza mais violência. Os maus tratos, os castigos humilhantes, são actos de violência degradante e, como tais, não deveriam ter lugar em Moçambique. A Constituição do País, a própria cultura do nosso País, não deveriam dar lugar a práticas desumanas e primitivas, como são os maus tratos e os castigos humilhantes. Infelizmente, estas práticas estão presentes no dia a dia das populações. Há maus tratos, há medidas político-militares e administrativas que magoam e humilham o povo. Os castigos desumanos e os maus tratos são crimes à face da ética mais elementar. São graves atentados contra o melhor da consciência universal dos povos, tão clara e corajosamente manifestada na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Convenção Contra a Tortura e Contra Tratamentos e Castigos cruéis, desumanos e degradantes, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de Novembro de 1948. 

Hoje, não falta quem, por sua conta, mande aplicar o chicote ou determine o castigo que muito bem entender. O chamboco tornou-se frequente e irresponsável e, igualmente, o castigo pela aplicação da pena capital. Qualquer comandante a pode decretar, qualquer cidadão pode ser executado, não contando para nada a Legalidade ou as Instâncias competentes. Há mesmo quem diga que, em tempo de guerra, não há Tribunais. Há a lei da guerra, a lei da repressão e da liquidação de possíveis ou reais inimigos.

Torturas: 

As torturas são actos imorais e criminosos. São graves atentados contra os Direitos do Homem, contra a honra e a dignidade da Nação. Nada, absolutamente nada, justifica a tortura. Uma causa que pretendesse defender ou consolidar o seu direito e a sua justiça, um Regime que tentasse assegurar a sua continuidade ou estabilidade, usando tais medidas, estaria a provocar a sua própria degradação e ruína. A tortura, os maus tratos, o desprezo sistemático pelo homem, não consolidam o poder constituído, antes o corrompem e o põe em grave perigo. Tais abusos e crimes, também não concorrem para a unidade, a reconciliação e a paz nacional, antes as destroem e dificultam.

Aspirações do povo:

Continua.

Fonte: (O Jornal. 16-09-1986), Transcrição de Eusébio A. P. Gwembe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

– Dos requisitos para o seu decretamento em face da introdução da “prisão domiciliária”

Conforme é que-farte sabido, Moçambique aprovou, através da Lei n.º 25/2019 um novo Código do Processo Penal (CPP), publicado no Boletim da República (BR) em 26 de Dezembro de 2019, cujo período de vacatio legis é de 180 dias, significando que esse horizonte temporal se perfará nos finais do mês de Junho (isto, partindo do inseguro princípio que a data da publicação constante do BR coincide, efectivamente, com o real dia em que o diploma em apreço foi disponibilizado ao público na Imprensa Nacional).

A prisão traduz-se na consequência simultaneamente mais paradigmática e mais extremosa em decorrência de lesões a bens jurídicos protegidos pelo Direito Penal. É, indesmentivelmente, a manifestação mais sonante do poder punitivo do Estado, na sua função de guardião dos valores axiológicos que nos são aprovisionados pela consciência moral colectiva, cerceando-se um dos mais nucleares direitos de que são titulares os cidadãos – o direito a liberdade – universalmente concebido como um direito umbilicalmente vinculado à dignidade da vida humana.

É precisamente devido a natureza superlativa do direito a liberdade – que pede meças ao direito à vida e à saúde – entre nós constitucionalmente consagrado no n.º 1 do artigo 59 da Constituição da República (CRM), que a respectiva restrição deve obedecer a critérios rigorosíssimos de apreciação, visto que, dessa restrição, se coarta tão sacrossanta dádiva, atribuída a todos os seres pensantes como elemento inerente à sua inalienável condição de ser humano.

O Direito Penal, na prossecução das suas finalidades, tem conhecido, ao longo dos tempos, uma evolução que se direcciona no sentido de amolecer as características mais sancionadoras que sempre lhe foram intrínsecas. Se tradicionalmente, apontavam-se-lhe as finalidades “preventiva especial”, “preventiva geral” e “retributiva”, hoje é escancaradamente visível em vários ordenamentos do universo que as citadas finalidades se vêem enfraquecidas após lhes terem sido impostas a companhia de outras três finalidades/funções representativas do Direito Penal moderno: a “justiça restaurativa”, a “função reparadora” e ainda a “função ressocializadora da pena”.

O que se disse acima, consubstancia-se no conteúdo plasmado no artigo 58 do actual Código Penal (CP), aprovado sob os auspícios da Lei n.º 35/2014, nos termos do qual «a aplicação de qualquer medida ou pena criminal visa garantir a protecção dos bens jurídicos, a reparação dos danos causados com a infracção praticada, a reinserção do agente na sociedade e prevenir a reincidência», conteúdo que também foi transplantado para o artigo 59 do novo CP, aprovado sob a égide da Lei n.º 24/2019, que cura ainda de fazer menção que aquelas finalidades são perseguidas sem prejuízo da finalidade repressiva da pena.

Claro se torna, que estas últimas particularidades se enquadram numa visão de humanização, quer do Direito em si e quer também do tratamento dos arguidos/presos, e constituem afloramento da Doutrina do “Direito Penal Mínimo” que, essencialmente, nos ensina que a prisão de um individuo, exprimida como medida mais gravosa que lhe pode ser imposta por uma pena (ou medida de coacção), só pode ser levada a cabo se outras medidas mais conservadoras não se mostrarem adequadas a consecução dos objectivos das penas.

Moçambique, à luz do CP ainda vigente – diploma que caminha aceleradamente para o respectivo sepulcro e lá jazerá para dar lugar ao novo CP – já carreava os princípios do Direito Penal Mínimo, concretamente, no artigo 57 do actual CP ao estipular que «a privação da liberdade apenas ocorre ou se mantém quando, através da aplicação doutras medidas ou penas não privativas da liberdade, não for possível prevenir a prática futura de crimes pelo infractor ou pelos restantes membros da comunidade em geral ou garantir a protecção dos bens jurídicos», princípios que foram herdados pelo artigo 67 do novo CP, que prepara a sua estreia no panorama jurídico nacional, que vai mais longe do que o seu “diploma antecessor” ao estabelecer, no referido artigo 67, sob epígrafe «prevalência das penas e medidas não privativas de liberdade» o seguinte: «na função individualizadora de fixação da pena, privilegiam-se as medidas substitutivas à pena de prisão, com realce no seu carácter de ressocialização, colocando-se, sempre que possível, nos termos da lei, o agente em liberdade monitorado pelo Estado e pela comunidade».

Atrelados ao princípio atrás mencionados, foram, no CP ainda vigente, introduzidas as figuras das penas alternativas à pena de prisão e medidas alternativas à pena de prisão, institutos que, repete-se, densificam o princípio segundo o qual, só se podem aplicar penas privativas da liberdade se outras medidas ou penas de carácter mais sensual não se mostrarem legalmente convenientes para garantir o estabelecido no encimado artigo 57 do actual CP.

Toda esta lucubração efectuada supra, incidente sobre o direito penal substantivo (que qualifica os crimes e estabelece as respectivas penas), serve de mediação destinada a uma melhor compreensão do que pretendemos esgrimir, no que concerne aos [novos] requisitos da prisão preventiva, enxertados no novo CPP.  

Assim, flui, com toda a naturalidade, que, da homogeneização dos citados princípios do direito penal substantivo (CP), o direito penal processual (CPP) também se deve harmonizar com a fisionomia daquele, pois este, que adjectiva àquele, fixando a ritologia processual e procedimental que deve ser obedecida na prossecução das finalidades daquele – e não é por coincidência que os novos CP e CPP entrarão em vigor em data idêntica – deve tratar de concretizar, no percurso do processo-crime, os princípios respaldados naquele.

Compulsando-se o regime instituído no novo CPP respeitante à disciplina das medidas de coacção, a prisão preventiva (artigo 243) continua sendo a medida mais gravosa, todavia, ao lado dela, e com feições similares a ela, surpreende-se, no artigo 242, outra medida de coacção, entre nós inovatória: a “obrigação de permanência na habitação”, também denominada, na Doutrina, de “prisão domiciliária”.  

Apesar de o novo CPP também prever outras medidas de coacção como o “termo de liberdade e residência”, “caução”, “obrigação de apresentação periódica”, “suspensão do exercício de funções, de profissão e de direitos”, e “proibição de permanência, de ausência e de contactos”, e,

Sobretudo,

Apesar de estabelecer, no seu artigo 245, que nenhuma medida de coacção à excepção da relativa ao termo de identidade e residência (TIR), poder ser aplicada se em concreto se não verificar (i) fuga ou perigo de fuga; (ii) perigo de perturbação do decurso da instrução ou da audiência preliminar do processo e, nomeadamente, perigo para a aquisição, conservação ou veracidade da prova; ou (iii) perigo, em razão da natureza e das circunstâncias do crime ou da personalidade do arguido, de perturbação da ordem e da tranquilidade públicas ou de continuação da actividade criminosa, de entre o rol das medidas de coacção elencadas, destaca-se que a prisão preventiva e a obrigação de permanência na habitação (ou prisão domiciliária), diferenciam-se largamente das demais, em virtude de ambas se caraterizarem pela aplicabilidade da restrição da liberdade do arguido, que se vê, em ambas, compelido a permanecer num espaço diminutamente delimitado, circunscrito e confinado, ou seja, em autêntica situação reclusória (distinguindo-se, entre ambas, somente o local: estabelecimento penitenciário ali, domicílio aqui).

O início do problema…

Relativamente a medida de coacção “prisão domiciliária”, o n.º 1 do artigo 242 salienta que «se houver fortes indícios de prática de crime doloso punível com pena de prisão superior a 2 anos, o juiz pode impor ao arguido a obrigação de se não ausentar, ou de se não ausentar sem autorização, da habitação própria ou de outra em que de momento resida». O n.º 2 do sobredito artigo adverte que «para fiscalização do cumprimento da obrigação referida no número 1 podem ser utilizados meios técnicos de controlo à distância, nos termos previstos na lei»

Por sua vez, no que concerne a medida de coacção “prisão preventiva”, a alínea a) do n.º 1 do artigo 243 assevera que «se considerar inadequadas ou insuficientes, no caso, as medidas referidas nos artigos anteriores, o juiz pode impor ao arguido a prisão preventiva quando houver fortes indícios de prática de crime doloso punível com pena de prisão superior a 2 anos»

Conforme se pode concluir com meridiana facilidade, quer a prisão preventiva quer a domiciliária, para além dos requisitos delineados no artigo 245 (que faz menção expressa que devem ser observados “em concreto”) – que são comuns a todas medidas de coacção à excepção ao TIR –, ambas possuem como requisito basilar e indeclinável para os respectivos decretamentos, a existência de “fortes indícios de prática de crime doloso punível com pena de prisão superior a 2 anos”.

A pedra de toque determinativa da opção pela prisão preventiva ao invés da prisão domiciliária, será no caso de o juiz considerar inadequada ou insuficiente a prisão domiciliária. É, laconicamente, só isto que a lei processual diz.

Quando é que ela é inadequada ou insuficiente? A lei não tratou de elucidar.

Ora, um ponto de destrinça colocado nestes termos tão perfunctórios, possui todas as condições para se transformar num perigoso foco gerador de problemas a nível decisório, sob o ponto de vista processual, com repercussões nocivas ao nível dos direitos, liberdades e garantias dos arguidos, isto para além de colocar o próprio juiz numa autêntica camisa-de-onze-varas.

Sendo que os requisitos gerais para o decretamento de ambas as medidas são as mesmíssimas (fuga ou perigo de fuga, perigo de continuação da actividade criminosa e perigo de perturbação da instrução), o requisito especial respaldado na moldura penal aplicável aos crimes a ela sujeitas é similar (crimes superiores a 2 anos) e, por fim, a modalidade de culpa envolvida é idêntica (só se aplicam a crimes dolosos), tememos, honestamente, que o arguido saia profusamente prejudicado pelo simples facto do Tribunal não possuir os meios técnicos de controlo à distância idóneos a garantir o controlo e fiscalização do cumprimento, por parte do arguido, das obrigações que lhe são impostas na prisão domiciliária (n.ºs 1 e 2 do artigo 242).

Pois, colocadas as coisas como estão no novo CPP, que proíbe a aplicação de qualquer medida de coacção, à excepção ao TIR, se “em concreto” não verificarem os requisitos delineados no artigo 245, o juiz está a partir de agora – na verdade, sempre esteve, mas, agora, está mais do que nunca – obrigado a fundamentar a real existência dos elementos concretos que determinam a decisão de decretar a prisão preventiva.

Não valerão nem suposições, nem presunções e muito menos desconfianças inspiradas na subjectividade do juiz. O despacho que determinar a prisão prisão preventiva (ou a sua manutenção), não só deverá fundamentar, como também deverá provar – na verdadeira acepção da palavra – que concorrem situações insuficientes e/ou inadequadas para optar pela prisão domiciliária.

Não nos podemos olvidar que o nosso CP (quer o actual quer o vindouro) é inspirado pelos postulados do Direito Penal Mínimo (no sentido de se dar primazia às medidas punitivas mais modestas, antes de se lançar mãos às mais gravosas); e se partirmos do inafastável princípio que o CPP adjectiva aquele diploma, lógico se torna que a medida de coacção mais gravosa (prisão preventiva) só poderá ser manuseada se as medidas mais conservadoras se mostrarem, numa apreciação sempre casuística, irrecomendáveis.

Por outras palavras, fica claro que a prisão domiciliária passa a ter preferência comparativamente a prisão preventiva, sendo que, concorrendo, entre si, os requisitos para o decretamento de ambas as medidas coactivas (que, conforme vimos, são mesmíssimos), a prisão domiciliária traduzir-se-á na regra e a prisão preventiva consistirá na excepção colocada na “retaguarda das medidas”, que somente será convocada se, fundamentadamente, ilustrar-se que aquela se mostra insuficiente e inadequada para a realização dos seus fins.

 

Télio Chamuço

Advogado

Email: telio@teliochamuco.com

 

 

Os braços estão levantados como que buscando súplica divina. A torrente de água roça-me as axilas. Não me faz cócegas. Faz-me chorar. São lágrimas que me nascem no coração, trituram-me a alma e desembocam continuamente na própria água assassina.

Passei horas lutando por proteger a minha palhota. Ela desabou. Os seus destroços flutuam errantes e ajudam a água a fazer mais vítimas.

Passei horas lutando por salvar a Marina, minha filhota linda. Ela sucumbiu. A sua alma ainda habita o meu ser, mas o corpo está a caminho do oceano à velocidade da torrente.

Passei horas lutando pelo meu filho Chomunoha. Também partiu. Tentava ajudar-me a salvar a irmã quando tropeçou e se perdeu debaixo das águas. 

Passei horas lutando pela minha esposa Ndakayiyenyi. Chorávamos juntos pelos nossos pequenotes, quando uma chapa de zinco num voo rasante resolveu aterrar precisamente no seu pescoço. Ainda tentei acudi-la, mas a água fez o resto. Arrastou-a num rasto de sangue contra o qual nada pude fazer.

Agora luto pela minha vida. Luto pelo futuro. Mas que futuro? O futuro é cada minuto que se segue. É cada passo que dou. É cada lufada de oxigénio que inspiro.

A água já não só me roça as axilas. Galga-me os ombros a caminho do pescoço. Em breve vou perder o chão. Tenho de tomar uma decisão de vida. Decisão rápida. Não há nenhuma árvore por perto. Estou rodeado de pequenas plantas que há muito se renderam à fúria das águas. Sobra-me o edifício da sede do Posto Administrativo que é para onde todos os caminhos vão dar. Vejo-o a reluzir à distância de uma vida. Nunca soube nadar. Arrasto-me rezando para que nunca deixe de ter pé. Há dois focos nesta caminhada. Primeiro são os pés, que a cada passo se devem manter firmes num chão movediço. Depois é a cabeça, que deve fintar cada pedaço do entulho que vem com a água.

O nível do líquido da morte atinge-me rapidamente o pescoço. Apenas a cabeça subsiste fora.  A muito custo alcanço a escadaria do edifício. Está apinhada de gente. Homens e mulheres.  As crianças há muito que deixaram de ter pé. Foram todas içadas para o tecto, a única tábua de salvação.  

Procuro um ponto de apoio numa janela escancarada. Por ela descubro que o interior está completamente inundado. Documentos oficiais levitam na água. Com toda a força que me resta, pego na aba superior do edifício e num impulso hércule coloco-me fora da água. Uma ampla placa de betão, completamente repleta de gente, enche-me a visão. O tecto está despido de chapas de cobertura. Todas elas seguiram viagem pelos ares. Terá sido uma delas que vitimou a minha Ndakayiyenyi? Só Deus sabe.

Sobra pouco espaço para anichar-me. Tanta é a gente que busca cada milímetro quadrado deste tecto para salvar a própria vida. Há alguma solidariedade para com os que ainda trepam. Muitos, sobretudo mulheres e idosos, precisam de nossa ajuda cá em cima para lhes dar o impulso que falta para subir. Uma mão segurando na do outro é o gesto suficiente.

Volto a olhar para baixo tentando uma vez mais estender o meu apoio. Surpreendo-me com o brilho de uma careca famosa aqui da povoação. É a cabeça do Chefe do Posto: o homem mais importante. O mais poderoso. O mais temido. O homem que anda sempre de ombro esticado e queixo levantado para encurtar a distância com Deus, de quem se assume seu representante na comunidade. Hoje os seus galões murcharam e pede ajuda. Quer que lhe estenda a mão e lhe dê a força que necessita para alcançar o tecto.

Dou-lhe a minha mão sim. Ele segura-a com toda a firmeza. A sua vida está agora nas minhas mãos. Todo o seu poder agora de nada vale. Toda a sua petulância de nada conta. Toda a fanfarronice murchou. Se eu o largar ele cai que nem uma pedra e morre afogado porque, como eu, não sabe nadar.

Puxo-o para mim com toda a energia e o homem tomba no tecto. É das últimas pessoas que aqui chegam. Lá em baixo a água já ultrapassou a aba superior. Ninguém mais tem pé. Quem não está aqui connosco ou conseguiu pendurar-se em alguma árvore ou foi então arrastado na direcção do abismo.

Nada mais nos resta que não seja esperar ou que as águas parem de subir e vazem rapidamente, ou por alguma ajuda que venha dos céus. Enquanto isso vamo-nos agarrando uns aos outros numa espera que pode durar dias ou semanas.  

O Chefe do Posto está aqui connosco. Também em pânico. Também ofegante. Trémulo, segurando a minha mão. O seu futuro é tão incerto quanto o meu. Novas questões emergem do meu pensar. Afinal de contas o que será o poder? São as pessoas? Os edifícios? Os carros? Ou as construções que erguemos na nossa consciência?

Seja qual for a resposta, o ponto é que pela primeira vez, sinto que o poder não é mais que uma abstração. O temido Chefe do Posto aqui choraminga comigo. Aqui apanha chuva comigo. Aqui sofre com o vento comigo. Aqui passa fome comigo.

Estamos todos aqui apinhados. Homens, mulheres e crianças. Agarrados uns aos outros, respirando o mesmo ar, vivendo a mesma agonia e todos decalcando na calçada do desespero um amanhã sem horizonte à vista. Pior ainda: estamos todos por cima do edifício da sede do Posto Administrativo. O edifício do poder. Esfomeados, frágeis e esfarrapados, mas por cima do poder! Sorrio de esguelha e abafo a alma.

 

Estou praticamente a terminar um mestrado em Contabilidade. Durante dois anos de estudos naquela área de conhecimento, infelizmente, não tive o privilégio de trocar qualquer tipo de conversa com colegas na minha língua materna: o xitswa. Tal não aconteceu, quer na sala de aula, quer no átrio da faculdade onde me formei. Na verdade, isto não é nenhuma novidade. Quando era pequeno, lembro-me que na escola primária era proibido falar dialecto ou língua materna no recinto escolar. Muitos da minha geração cresceram ouvindo dizer que a língua materna (referindo-se à língua bantu) não servia para nada e, quando se contrariavam estas regras, meninos do meu tempo apanhavam muita tareia dos professores ou dos funcionários da escola que na altura tinham poder paternal sobre os alunos.

Por causa das proibições dos professores nas classes inicias, aprendi a conter o prazer de falar o xitswa na escola primária e, mais tarde, na escola secundária. Até que chegou a vez de me matricular na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Ali vivi uma experiência diferente. Habituado a conter a minha herança cultural, admirei-me várias vezes ao ouvir doutores, meus guias na aprendizagem, sem receios de se dirigirem à turma em xichangana. Recordo-me que no princípio da minha formação em Linguística, alguns dos meus professores dirigiam-se a mim em xichangana. Com os traumas e preconceitos que me foram impostos na infância, eu não os respondia em xichangana, apesar de ser fluente nesta língua. Afinal, sempre fui ensinado, na escola primária, que a língua portuguesa é que era oficial e que somente esta devia ser usada em locais públicos e principalmente no ensino.

Quando me habituei à nova realidade da Faculdade, à medida que os casos se foram repetindo, passei a falar em xichangana não apenas com os meus professores, como também com colegas estudantes. Tal não foi a minha surpresa quando alguns deles chamaram-me de ignorante, chegando a vaticinar-me reprovações e insucesso universitário de toda a natureza. Aí percebi melhor a situação. Como quase em tudo, há sempre dois lados da moeda. Se, para uns, a liberdade nacional é acompanhada de liberdade cultural e, consequentemente, linguística, para muitos, existem elementos da cultura moçambicana que podem ser ignorados. Por exemplo, as línguas bantu.

Não há dúvidas de que Moçambique é um Estado independente, ao nível político. Há 45 anos, de forma heroica, os moçambicanos libertaram a terra e o Homem da dominação colonial portuguesa. Entretanto, ainda há um grande trabalho por fazer de modo que a liberdade política possa estender-se a outros domínios sociais, no caso, o da cultura, ou das línguas, mais concretamente. Quem não tem o prazer de falar a língua local do seu país (tendo condições para o efeito), não somente nega-se essa liberdade, como também, recusa-se a aceitar parte de si e da sua identidade. O que nos faz únicos no mundo não é a beleza da fauna ou da flora; não são os recursos do nosso subsolo ou o nosso território extenso. O que faz de Moçambique único é a cultura, evidentemente, assente nos hábitos, costumes, na religiosidade, mundividência, e etc. Tudo isto só é enaltecido de geração em geração através da língua bantu, porque, como dissemos nos artigos anteriores, há elementos de uma cultura que não podem ser traduzidos para uma outra língua.

Por isso, a todos os que desvalorizam ou julgam inferiores as línguas moçambicanas, línguas bantu, digo-lhes que é depreciativo recusarem-se o direito de serem bitongas, nyungues ou makondes, ou qualquer bantu. De outro modo, iremo-nos tornar lobos das nossas próprias línguas, dando, assim, continuidade ao projecto colonial de menosprezar o património linguístico bantu. Sejamos, compatriotas, meus caros, uma janela de esperança e canto de memória para as futuras gerações, sobretudo neste contexto em que, mais do que nunca, o inglês, o francês ou o mandarim vêm se tornando cada vez mais apetecíveis do que qualquer outra língua moçambicana ou não. Devemos resistir a esta tendência e impedir que a globalização signifique o fim das nossas singularidades. E, para não ficarmos atrás neste “progresso” tão almejado, é necessário aprendermos a globalizar as especificidades que nos definem, com educação e cultura. Só assim poderemos acabar com os preconceitos e alcançar a liberdade linguística que sonhamos.

   Dissipada a tempestade, sobrevieram tempos de bonança.

   O senhor Ruben e a esposa, a dona Sara, exilaram-se no bairro de Thlavane, longe das murmurações dos residentes do Bairro Indígena, que outra coisa não sabiam fazer senão maldizer e propalar boatos. O senhor Ruben é muito cauteloso na escolha de companhias e de amizades, dado também o facto de pretender esquecer as circunstâncias da perda do dedo, que ele sempre atribuiu a “um acidente de trabalho”. Prefere o recolhimento do lar, embora corra o risco doutras mutilações mais radicais, dado o carácter irascível e imprevisível da consorte. De peso maior na mudança de hábitos_ diga-se a verdade_ é a vigilância permanente com que a esposa o cerca. Não vá dar-se o caso dela distrair-se e, às tantas, inventar ou saber doutros envolvimentos dele com outras galdérias fingidas de comadres que, já se sabe, o que querem é destruir o seu lar e andar atrás dos maridos das outras. Porque maridos, nos dias de hoje, custam a apanhar!

   Thlavane pode significar muitas coisas. Se perguntássemos ao senhor professor Carlos, que lecciona na Escola Nova, o que thlavane quer dizer, ele divagaria do seguinte modo: ”…etimologicamente, thlavane, é um vocábulo pertencente ao idioma  ronga. Deriva da palavra xitlavana, que em Português quer dizer pico! Ora, como é do conhecimento de todos e está também patente debaixo dos nossos olhos, nesta área a planta predominate é a espinhosa, um arbusto que dá flores roxas e folhas ovais, e que cresce abundantemente em lugares de savana, ou semi-desérticas. É uma variante de cacto. Por outras palavras, espinhosa pode estar na origem da designação deste território. Outra possibilidade é que aqui neste lugar era comum haver assassinatos de cidadãos, por malfeitores provenientes do campo, principalmente da província de Gaza. (Aqui, o professor Carlos descuidou-se e não pôde evitar a denúncia de tendências tribalistas visto que era um maronga empedernido; para ele a única etnia digna de ser assim chamada era a sua, a ronga). Então, thlavane pode significar “o lugar onde se esfaqueam pessoas”, porque esfaquear é picar, penetrar com um instrumento perfurante. Não sei se me estão a entender. Duma maneira ou doutra, ka-Thlavana, é o lugar onde se pica, seja por cerdas das espinhosas, seja por usar facas e punhais para assassinar gente”. E estaria dada a explicação por um dos mais destacados eruditos dos que já houveram em todo o subúrbio de Lourenço Marques.

   O casal Ruben foi viver num barraco por detrás da Fábrica de Tabacos Velosa,  à distância de um assobio da cantina de Manhamele. Tinha vizinhos singulares: o senhor Augusto, um curandeiro matswa proveniente da Maxixe, negociante da vida e da morte dos seus concidadãos. A sua casa era frequentada por gente de muita categoria, como os assimilados, funcionários públicos e, até, brancos da cidade. Vivia com uma senhora mestiça de nome Maria Cafusa, antiga beldade, reformada da Rua Araújo, e que então tivera a sorte de encontrar algum encosto para a velhice no ombro  do adivinho. Mudara-se para a casa deste com uma filha,  a Maninha, um vitelo em miniatura. Assim, aos treze anos, a menina exibia um corpo anafado, redondo, com banhas para dar e vender. Nela, na Maninha, o que contrastava com a carinha de felino era uma voz de falsete esquisitamente timbrada. Chamava “mano” e “mana” a toda a gente com sonoridades que muito se assemelhavam ao miar dos gatos. Daí que a meninada da zona a atribuiu-lhe a alcunha de Maninha, a Gata.

   O outro vizinho dos Rubens era outro curandeiro, o papá Josefate, especializado em exorcismos. A sua residência assemelhava-se ao reduto dum mago, onde se espalhavam potes de plantas medicinais, caudas de búfalos, caveiras de macacos, peles de répteis, cabeleiras barradas de tinturas, eish! e outros objectos de aspecto medonho a que ele chamava “chaves para abrir as portas do sobrenatural”. Era um colégio de formação de adivinhos para onde afluíam jovens possessos de espíritos,  encaminhados àquela tenda para a aprendizagem das artes de adivinhação. O seu posto era o de nhamussoro-mor que formava futuros nhamussoros.

   O terceiro dos eminentes vizinhos do Ruben era o senhor Alberto Sithói, trabalhador da Estiva, na ponte-cais e pastor duma seita zione. O que mais se salientava deste  cidadão era o facto de que, mesmo em época em que o calor abrasava, de Janeiro a Janeiro, era visto sempre encasacado, de sobretudo comprido, envergado como se fosse a sua própria pele ou debaixo da indumentária pretendesse ocultar algo. E fazia-o com essa intenção, se quisermos trazer a verdade dos factos ao conhecimento de toda a gente. Muitas vezes regressava dos piquetes com os bolsos a abarrotar de  produtos, como garrafas de bebidas, alguns utensílios domésticos e, enrolados no corpo, como se de roupa interior se tratasse, faixas de tecidos caros, os mesmos que, sabe-se lá como, retirava dos armazéns da ponte-cais, ou dos porões dos navios que descarregava; um autêntico armazém ambulante!

   Ao contrário da Maninha Gata que era aversa a amizades, os filhos do senhor Alberto eram camaradas afáveis, que não regateavam esforços para partilhar com os vizinhos dalguns dos benefícios que o seu estatuto permitia. O irmão mais velho chamava-se Aliberto, não Alberto, mas era xará do pai. Pessoa um tanto ou quanto obtusa, nunca se deu bem com livros, motivado este facto por algum tipo de retardamento no desenvolvimento mental que, segundo o pai Sithói, nisso saía à mãe. O Aliberto marcou passo numa segunda classe e ficou por lá enterrado até a tropa filá-lo e despertá-lo para o real da vida nas matas do Norte. Entrou soldado-raso para o exército e mais raso de lá saiu. Não se lembra de nada do que por lá aconteceu.

    A irmã do Aliberto chamava-se Julia, não Júlia com acento agudo no “u”. Havia  algo de exotismo e disparidade entre a sua figura e o seu carácter. Como o pai, era cortês e carinhoso para com os amigos. Tinha aquele sorriso fácil que sempre cativava os que com ela conviviam. Possuía; porém, uns olhos que procuravam ser ternos e encantadores; contudo, o destino enviezava-lhe o direito enquanto o esquerdo fitava  de frente. Se o direito fitava o interlocutor, o esquerdo seguia a sua marcha mais para  o mesmo lado, evidência de um estrabismo que tirava toda a graça à fisionomia do rosto. Tirando isso, era um anjo de rapariga. De quando em vez, na casa do senhor Sithói recebiam a visita duma prima chamada Alicinha, que vivia com uma avó na zona do Vulcano. A Alicinha, vista de perfil fazia adivinhar maravilhas. Todavia, quando se achasse de frente apresentava uns olhos que, a fitar, ficava-se sem saber para que objecto o faziam, tal como a prima Julia, indício de alguma doença de transmissão familiar.

   A estas três famílias vizinhas do senhor Ruben acrescia-se um cortejo de nomes-sem-nome, gente que deambulava pelos becos, todos os dias, entre as bhangas de xidangwana, de ntho-ntho-ntho ou de uputso, ou assentava posto aos balcões do Manhamele, à procura dum canto donde pudessem erguer alguma dignidade e respeito.

  No meio desta multidão como é possível esquecer a Fatinha que, na tenra idade dos dez anos, já se revelava uma ninfa insaciável de sexo, sempre aturdida de paixões por adultos solteirões, a quem se ofertava para labores domésticos, como varrer o quintal, sacudir o pó aos móveis e outras tarefas que exigiam alguma intimidade pessoal. Claro, daí à gravidez foi uma mera questão de tempo. De quem era a gravidez só Deus é que sabe, porque os nomes das pessoas para quem ela apontou o dedo eram vários, e algumas daquelas nem viviam nas proximidades. Enfim, a pequena Fátima tornou-se adulta sem perceber quanta malvadez existia nas pessoas ou que sentido tomava a rotação da roda da vida.   

   Como também esquecer aquele respeitado estudante, sempre a sobraçar calhamaços de livros, a exibir-se todo, nos machimbombos, nos caminhos, a falar português fino, extraido de dicionários, só para dar nas vistas e ganhar reputação na zona?

   Mas o pior nas relações entre os moradores está para se contar. Por vezes sucedia que na residência do exorcista Josefate se executavam os rituais de expurgação de espíritos aos instruendos. Em simultâneo realizavam-se orações na “capela” do pastor Alberto Sithói, assim como outras na casa do curandeiro senhor Augusto. Em todas elas as cerimónias decorriam com as habituais evocações de deuses e de espíritos de defuntos, sempre ao ritmo de batucadas. E o inferno vinha instalar-se, com todo o seu peso, naquela pequeno aglomerado ao redor da cantina do Manhamele. Os batuques iniciavam em dó maior, tum-tum-tum. Parecia a senha de chamada para o concerto de tan-tans. Os sons subiam de nota, cada qual o mais alto, sempre em competição com o da casa vizinha. Da casa do Sithói o ritmo das batucadas era acompanhado de coros de cantigas de glorificação a Deus. Da residência do Josefate eram vozes graves umas vezes; agudas outras, as dos exorcismados, trêmulas no transe da possessão. Os concertos prolongavam-se noites dentro, ensurdecedores, para desconsolo do estudante que não conseguia concentrar-se nos compêndios. E dizia até: “…se eu chumbar a culpa será destes analfabetos meus vizinhos…”, manobra de táctico desvio. Toda a gente sabia que os livros ele só os carregava, e não os compulsava, porque consumia o tempo nos becos dos quintais abraçado a raparigas ou em farras de que era frequentador assíduo e participante activo.

   De nada valeram os esforços dum senhor assimilado de nome Bambo que, usando do estatuto de ser agente da Pide-DGS, procurou esfriar o calor dos cultos com ameaças de prisão. Em vão. Quanto mais ele reclamava “pelo barulho ensurdecedor que polui a atmosfera do nosso bairro e não deixa ninguém gozar do direito ao descanso, nem sequer os bebés e os enfermos”, o entusiasmo das celebrações redobrava de intensidade, e à meia-noite atingia o auge. Caso estranho é que apartir de uma determinada altura a área começou a ser policiada por agentes da Polícia de Choque. Semanas depois do início das operações soube-se da morte de um dos agentes, que era também um residente da zona. Aquela foi atribuída à insatisfação dos espíritos, enviados por um dos curandeiros, por tentativa de travar o curso harmonioso dos cultos. O patrulhamento abrandou, para depois prosseguir em lugares mais distantes; não vá o Diabo tecê-las, porque nestas coisas sempre é melhor estar precavido e jogar no seguro.

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

A avó Ndindaza está à caminho de 80 anos de idade e ainda assim parece mais nova do que alguns jovens da aldeia. Com apenas 30 anos, estes não conseguem esconder os sinais de desgaste físico estampados na sua cara.

As suas buchechas grandes, longe de significarem bem-estar, denunciam a malnutrição de tanto beberem e alimentarem-se mal. Geralmente os alcoólatras não têm apetide de comer.   

O seu hálito é um misto de cigarros e aguardente puro de massala ou de caju da adega tradicional do velho Tsambe, negócio de anos através do qual criou os seus sete filhos, educou-lhes e hoje assumem posições importantes na sociedade.

Não estudam. Não trabalham. O seu único divertimento é beber e fazer filhos, atrás de filhos, em casamentos prematuros, característicos das zonas rurais. Às vezes fazem biscatos. Carregam coisas para ali. Carregam coisas para acolá. Constroem latrinas. Reabilitam coberturas de capim removidas por ventos fortes que se têm feito sentir na aldeia.

Trabalhos deste género abundam nos meses de Dezembro e Janeiro em que quase toda a gente tem poder de compra. Uns, porque ganharam dinheiro com a produção de aguardente de caju e pela venda da castanha de caju a comerciantes da zona. Outros, sobretudo estes, porque um membro da sua família regressou das minas da África do Sul.

Na casa da avó Ndindiza, viuva, as coisas são diferentes. Aqui vive-se da agricultura. Os seus filhos e os netos estão espalhados pelo país, mas a maior parte reside e trabalha em Maputo. Todos os filhos estudaram e estão bem na vida.

Teimosa, orgulhosa e com a sua mania de não querer depender dos filhos, Didi, como é carinhosamente tratada pelos seus netos e por pessoas mais próximas de si na aldeia, apesar da idade avançada, não abandonou a sua enxada de cabo curto. Pendurada no ombro esquerdo, com botas nos pés para se proteger de cobras e lenço na cabeça, canta enquanto se dirige à machamba, numa rotina diária que começa as 05:00 da manhã.

Quando chega o tempo da colheita, é inacreditável. Enche os celeiros. Uma parte dos produtos manda para a família na cidade. O excedente, vende na aldeia e às vezes a clientes da vila.

Ela, pouco ou nada sabe do que se passa no país. Os filhos lá na cidade ainda não lhe falaram de coronavirus e sobre a necessidade de se prevenir da doença. Acham que a doença não pode chegar lá no interior da província onde nasceram.

O Estado de Emergência vs quarentena é caso para esquecer, numa comunidade que festeja o regresso de seus filhos das minas da África do Sul e não só. Os casamentos, os funerais e as cerimónias religiosas movimentam uma aldeia inteira.

O pequeno rádio da avó Ndindiza através da qual acompanhava os noticiários em língua tsonga, avariou faz tempo e não disse nada aos filhos. Não se pode falar da televisão porque a energia da rede nacional ainda não chegou à aldeia, apesar de promessas sucessivas de políticos em períodos eleitorais de caça ao voto.

Há uma semana, dois idosos, um de sexo feminino, com mais de 60 anos de idade e outro, do sexo oposto, com 70, perderam a vida depois de se queixarem de febre e tosse. A notícia espantou a aldeia inteira. É que muitos já apanharam gripe, mas ninguém antes morreu por causa disso.
Eram pessoas muito respeitadas na comunidade dado à sua honestidade e amor ao próximo. Por causa disso, os seus funerais, realizados em ocasiões diferentes, foram muito concorridos. Centenas de aldeões não quiseram perder a oportunidade de se despedirem deles.

Como manda a tradição africana, depois das demoradas orações no cemitério da aldeia, debaixo de um calor intenso, orientadas pelo pastor Mabunda, os presentes foram juntar-se nas casas dos malogrados para lavarem as mãos e tomarem o habitual chá antes de se dispersarem.  

O seu telefone, a “bombinha” através do qual se comunica com os filhos, recarrega na banca de Mutchatcha, um jovem empreendedor que, para o efeito, instalou um conjunto de batarias. São dez meticais de cada vez e o serviço ajuda a muita gente. Logo pela manhã, a banca até parece uma loja de telemóveis. Fica cheia de telefones de várias marcas e tamanhos.

Didi não sabe ler e escrever. O seu neto, o Joãozinho, de 9 anos, inteligente, a frequentar a quarta classe debaixo da sombra de uma árvore, é quem lê as mensagens enviadas para si por parentes, em língua portuguesa, e traduz para a sua avó. Todos confiam nos serviços do miúdo porque não sabem escrever em xichangana.

Na aldeia, todo o mundo se conhece bem. Através das pegadas dos pés, qualquer um sabe dizer para que direcção foi algum membro da comunidade. Já passavam das 8:00 horas da manhã de segunda-feira e avó Ndindiza, ela que acorda diariamente muito cedo, ainda não tinha sido vista, o que causou espanto e preocupação entre os aldeões.
 
Doía-lhe a coluna. Tossia muito e com febre. Quando lhe bateram a porta, meio aberta, continuava deitada na sua cama e o seu neto, a fazer alguns trabalhos domésticos correspondentes à sua idade. A doente foi acompanhada para o centro de saúde local, mas não ajudou em nada: não havia medicamento e a província acabava de anunciar roptura.

Os seus filhos, netos e a família em geral não foram informados sobre a doença para não lhes preocupar. Tudo está a ser gerido localmente com a certeza de que logo a velha ficará bem.

Uma semana depois, para a surpresa e preocupação da aldeia, o estado de saúde da avó Ndindiza complicou-se. Tem dificuldades de respirar e o hospital de referência dista 120 quilómetros daquela comunidade.

Eram 17:00 horas de domingo quando alguém da comunidade, mais próxima da doente, resolveu ligar a informar sobre a situação de Ndindiza à família em Maputo. Já era tarde para viajar e quando chegaram no dia seguinte, ela tinha perdido a vida três horas depois do telefonema do dia anterior sem poder despedir-se dos seus filhos e netos.

Ela morreu sem conhecer a doença que lhe arrancou a vida, a covid-19. Deixou este mundo sem ter tido a oportunidade de se proteger, como os outros, contra o Coronavírus que invadiu a sua aldeia ante a ignorância daquela comunidade em relação à pandemia.

Ndindiza e os outros dois idosos, Macucule e Mucavel, desapareceram do mundo dos vivos deixando ficar muitas sementes espalhadas pela aldeia que germinarão no seu tempo: dezenas de pessoas infectadas com o Coronavírus transportado para aquela comunidade por alguns dos regressados da África do Sul há cerca de um mês sem passarem por uma quarentena.

 

 

Xi-cau-cau

Que foi o primeiro campeão nacional, já todos sabíamos; que forneceu imensas glórias futebolísticas ao país, também; que enquadrou jogadores na primeira linha nacional, como José Luís, Mambo, Ângelo, Miguel, Adelino Jorge e outros, é uma realidade.

O que talvez poucos esperávamos, é que…
Em tempo de pandemia e após sinais de queda que punham em risco a sua participação no Moçambola, os fabris do Chimoio – graças a uma nova direcção chefiada pelo empresário Quinito – ganhassem uma dinâmica tal, que no Chimoio e numa grande parte de Manica, o azul do seu equipamento viesse a ser a côr preferida, um pouco por todo o lado.

Dia após dia, respeitando as regras do isolamento individual, o clube de Manica demonstra uma nova dinâmica, apoiada num princípio que vai, seguramente, ser um exemplo para outras províncias: a união em redor do seu representante.

O sucesso, que parece estar no embrião, vai dando sinais positivos: equipamentos e símbolos repletos de originalidade, “banners” colorindo a cidade, reparação de recintos desportivos, organização dos departamentos com a adesão do empresariado e entidades locais ao projecto.

Paralelamente, um caminhar, a passos largos, rumo a uma meta até há pouco impensável: a do sócio mil! Quem diria!
 

PEDRA NO SAPATO
 
Diferentemente da capital do país, algumas províncias têm que repensar e interiorizar que a herança do benfiquismo, sportinguismo e por aí em diante, já não faz sentido. Porque é que, zambezianos ou nampulenses, não se unem em redor do seu representante na nação, indepedentemente das cores das camisolas?

Unidos ficamos fortes, desunidos, acontece o contrário. A pandemia veio colocar mais a nu essa realidade, em todas as áreas e sectores. O desporto não foge à regra. Somos um dos poucos maus exemplos que se conhecem no mundo. Atente-se nos casos do Manchester, Barcelona, Porto, Braga e outros, clubes que protagonizam, na plenitude, o amor pela terra que representam.

Por cá, apoiados pelas autoridades provinciais, os amantes do desporto devem unir-se em torno do bem maior: a presença de um forte representante, neste caso no Moçambola, para a todos orgulhar.

Felizmente, o bom exemplo do Textáfrica, primeiro campeão nacional, está aí, para ajudar a (re)tirar essa pedra do sapato.

O futebol nacional dará um passo em frente e o país agradecerá!

O cenário é sombrio em Cabo Delgado. Duas nuvens sobrecarregadas tingem o mesmo espaço, não se podem esquecer as feridas não saradas abertas pelo Kenneth, haverá álcool-gel suficiente para desinfetar as armas?, ou não precisam de máscaras as sobreviventes almas desalmadas de um destino mais digno? Será que as máscaras dos ontem “insurgentes” hoje “terroristas” foram feitas salvaguardando a tónica de três camadas recomendáveis?, que venha vigilância epidemiológica da sns averiguar a real situação.

O que mais se pode esperar dessa fatídica realidade que cresce diante do olhar impávido de quem disse este país ter tudo para dar certo, onde está o tudo para dar como certo nesta guerra que cresce a olhos fechados?, quanta pólvora é suficientemente para estancar a pandemia do medo, imposta pelos carniceiros do norte?, será o pão, o doce, ou umas três moedas sujas que fazem com que os jovens em Cabo Delgado sujem a alma, o futuro e o nome de Moçambique, dentro e além-fronteiras?

Ainda há poucos dias foi notícia no mundo: um traficante-mor procurado a três décadas foi aqui capturado em Moçambique. “e o Chang quase esfuma-se da curta memória desse povo que têm de pensar no prato de comida para a quarentena de todos os dias, nas ínfimas moedas para às máscaras, enquanto isso os deputados pensam como reintegrar-se com três milhões de meticais encaixados ao bel-prazer, é caso para não dizer nada apenas chorar, prantear do medo que representa a vida nesse país, hoje e como sempre foi, “mas eternamente não, patrão”, como diria o velho Zé, ó por lembrar-me do soba, sobem-me à memória o “eles foram lá” foram lá mesmo, mas dessa vez encontraram os outros mascarados, com a arma na esquerda e alcorão na direita.

Se houvesse investimentos nos e para os jovens, quanto se pouparia do aluguer do “gazelle” e no vexame militar que passamos internacionalmente? Falou-se e repudiou-se, ainda das redes sociais, como um novo desafio: Cabo Delgado também é Moçambique!, E o quê é Moçambique, senão a fonte da loucura e mais loucura? Porquê tanta xibaba para integrar alguém já integrado e imunizado?, Esse é sem duvidas um país de loucos, e como loucos faltam-nos as camisas de força para fabricar máscaras, é lá vem o friozinho de junho para incubar a nossa agonia. Ó junho da nossa insistência. Quem dará hoje o último tiro para fechar o ciclo começado em Chai?

Historicamente fizeram-se avisar a todos da audácia maconde, E então?, já não se fazem macondes como antes? Eis que o mapiko se ergueu onde surgiu, não bastou o primeiro tiro, precisamos de tiroteio completo, camarada, esses miúdos que mal sabem comunicar-se em português, afinal sabem oficialmente disparar, é preciso pará-los! Precisamos de novas zonas libertadas das mãos desses jovens desempregados. Mas, será que precisávamos de mercenarismo?, que atestado de incompetência está a passar-se as forças de segurança? parece-me que é o mesmo atestado, carimbado e autenticado, passado à nossa justiça a quando da extradição do Chang-suga, ninguém o queria aqui pelas razões óbvias, ou da nossa educação exibida na “têvêemi”.

Quem chupa o mel dessas ferroadas todas?, uma vez que andam em quarentena às voltas as abelhas. Moçambique quem ti viu que te esqueça jamais, agora nada está maningue nice como era antes, quando apenas a pobreza nos apoquentava, hoje há pólvora e sangue em demasia perfumando e regando as machambas dos camponeses sem norte.

Era bom que todos fossemos deputados, mudos e inaptos, porém, com contas chorudas e um “baifobaifo”, como dizia DHL, para nos levar a passear embriagados sem represália do Estado de emergência que se bufou do bafômetro dos bufos”. Então, o que dizer ainda sobre Cabo Delgado? Como fazer para não ter medo do medo destilado em todos cantos, dos nyongos aos tais insurgentes terroristas, passando pelo covid19, a vida não podia ser mais simples, nessa outrora pérola do índico?  Uma coisa é certa: não se pode continuar a bater palmas para a hecatombe em Palma.

 

 

 

 

 

– O confronto de normas constitucionais

A erupção do surto pandémico do covid-19 tem propiciado os Estados a criar meios e mecanismos que visem tornar hábil a tarefa de conter e prevenir a velocidade da propagação do vírus, por forma a frear a produção dos efeitos por si causados, factualidade que arrastou, irresistivelmente, grande parte dos Estados afectados pela pandemia a decretar, nos respectivos ordenamentos jurídicos, o Estado de Emergência.

Em conformidade com o que já vínhamos referido nas publicações transactas, o decretamento do Estado de Emergência – uma prerrogativa constitucional atribuída ao Presidente da República (PR) – caracteriza-se por limitar direitos, liberdade e garantias individuais, também eles expressamente plasmados na Constituição da República (CRM).

Se é verdade que a salvaguarda do direito à protecção de dados pessoais goza de garantia constitucional, também é verdade que é a própria CRM que fixa os parâmetros dentro do qual o titular do direito à protecção de dados pessoais pode ver restringido a amplitude do exercício dos seus direitos, em decorrência do decretamento do Estado de Emergência.

Com efeito, a alínea e) do 2 do artigo 3 do Decreto n.º 12/2020, que regulamenta a Declaração do Estado de Emergência constante do Decreto-Presidencial n.º 11/2020, prevê, como uma das medidas restritivas no âmbito da declaração do Estado de Emergência exigência do conhecimento em tempo real de pessoas através do recurso a geolocalização.

No essencial, a geolocalização traduz-se num mecanismo de detecção de doentes de covid-19 ou controlar o cumprimento das regras de quarentena obrigatória, através do recurso a meios tecnológicos/informáticos ou equipamentos electrónicos ou aplicativos digitais, em suma, com recurso as Tecnologias de Informação e Comunicação, de entre os quais se destacam o mecanismo de rastreio por “GPS” (que pode ser efectuado através de um telemóvel/smartphone), pulseiras electrónicas. Daqui, no que releva para o presente artigo opinativo, emergem duas situações que inquietam os titulares dos direitos a protecção de dados: (i) a questão relativa à inexistência do seu consentimento para a rastreamento a que é sujeito e posterior uso desses dados pela autoridade pública e (ii) as consequências resultantes da divulgação desses dados, os quais, dependendo do manuseamento no respectivo processamento e da susceptibilidade de serem conhecíveis pelos demais – pois podem ser executados através de Apps disponíveis em telemóveis (smartphones), que são descarregadas no Google Play e na App Store – implicam prejuízos na esfera dos visados, que colidem com o direito ao esquecimento, ou seja, o direito conferido ao titular de não permitir que um facto, ainda que verídico, ocorrido em determinado momento de sua vida, seja exposto ao público em geral, causando-lhe transtornos morais, de tal forma que já não lhe seja possível eliminar os efeitos (muitas vezes desonrosos) desse facto intimamente vinculado aos seus direitos à reserva da sua intimidade privada. O direito ao esquecimento é, assim, um corolário da defesa da privacidade individual, consistindo na faculdade que uma pessoa possui de eliminar certos efeitos desonrosos ou que belisquem a sua imagem, sucedidos no passado e que se podem consubstanciar em transtornos que persigam, eternamente, a sua imagem, bom nome perante a comunidade em que está inserido, pois, se repete, dependendo dos meios tecnológicos a serem usados na geolocalização, há sempre o perigo de, a partir de um mero smartphone, serem acessíveis por qualquer pessoa (sem o consentimento do visado).

O que se disse acima – restrições aos direitos de privacidade em benefício de razões de interesse público – faz emergir incontornavelmente uma contraposição entre princípios constitucionais: contraposição entre o interesse público e a segurança jurídica dos direitos de privacidade. A relação entre estes dois princípios, sobretudo num cenário de Estado de Emergência, é, de forma quase unânime, caracterizada como uma antinomia: serão duas premissas inconciliáveis, excluindo uma a validade da outra. Se o legislador preferir o interesse público prejudica a privacidade e se, pelo contrário, valorizar esta desvaloriza aquela

O quadro ganha contornos mais complexos quando se vislumbra a robustez dos direitos de protecção de dados pessoais, visto que eles estão inseridos no Capítulo da CRM reservado à disciplina dos “direitos, liberdades e garantias individuais”. O facto de serem constitucionalmente consagrados, confere a estes direitos uma particular força e dignidade, à mercê dos respectivos titulares, no âmbito da ordem interna, advindo, dessa natureza, que a restrição desses direitos deva obedecer a requisitos “apertados”, sendo que tais requisitos devem provir do próprio texto constitucional que lhes outorga uma particular supremacia dentro da ordem interna.

Do cotejo entre o disposto nos n.ºs 1 e 3 do artigo 71 da CRM, resulta claro e translúcido o reconhecimento constitucional ao direito de consentimento que é facultado ao titular de dados, no sentido de, em regra, os seus dados poderem ser usados por terceiros mediante a sua autorização expressa: «é proibida a utilização de meios informáticos para registo e tratamento de dados individualmente identificáveis relativos às convicções políticas, filosóficas ou ideológicas, à fé religiosa, à filiação partidária ou sindical e à vida privada» (n.º 1 do artigo 71 da CRM); «não é permitido o acesso a arquivos, ficheiros e registos informáticos ou de banco de dados para conhecimento de dados pessoais relativos a terceiros, nem a transferência de dados pessoais de um para o outro ficheiro informático pertencente a distintos serviços ou instituições, salvo nos casos estabelecidos na lei ou por decisão judicial» (n.º 3 do artigo 71 da CRM).

Paralelemente, da correcta interpretação ao estatuído no cânone constitucional ínsito no n.º 4 do retro mencionado artigo, extrai-se, entre outros, o “direito ao esquecimento” de que goza o titular de dados pessoais, no sentido de poder exigir de terceiros que estejam na posse dos seus dados a sua eliminação, ao estabelecer que «todas as pessoas têm o direito de aceder aos dados coligidos que lhes digam respeito e de obter a respectiva rectificação». Esta rectificação tanto pode dizer respeito a uma mera correcção, modificação, alteração, como também pode exprimir-se na sua eliminação.

O direito ao consentimento e o direito ao esquecimento traduzem-se, assim, nuns dos mais salientes corolários do direito [geral] à protecção de dados pessoais, incumbindo-se à Lei o ónus de criar os mecanismos legais idóneos com vista a salvaguarda desses direitos.

Entretanto, questiona-se: tratar-se-ão de direitos absolutos e irrestringíveis (sobretudo num panorâmico de Estado de Emergência ocasionado por uma calamidade pública, como a é o covid-19)?

A resposta deverá ser negativa.

Desde logo, apesar de n.º 1 do artigo 56 da CRM – que fixa os princípios gerais dos direitos, liberdades e garantias” – propugnar que «os direitos e liberdades individuais são directamente aplicáveis, vinculam as entidades públicas e privadas, são garantidos pelo Estado (…)» contém uma importante ressalva, na sua parte final, que assevera que «(…) devem ser exercidos no quadro da Constituição e das leis». Mais concludente do que esta acepção, é a previsão normativa-constitucional enxertada no respectivo n.º 2 que dilucida que «o exercício dos direitos e liberdades pode ser limitado em razão da salvaguarda de outros direitos ou interesses protegidos pela Constituição».

Ora, partindo do elemento teleológico que origina a letra do n.º 2 do artigo 56 da CRM e plenamente cônscios de que as medidas restritivas (e temporárias) do Estado de Emergência, destinam-se a evitar a produção de consequências nefastas que perigam, essencialmente, dois bens constitucionalmente salvaguardados – direito à saúde (artigo 89 CRM) e direito à vida (artigo 40 CRM) – cuja inquestionável magnitude e indiscutível importância vital os coloca num plano superior comparativamente àquele [plano] que visa salvaguardar direitos inerentes à privacidade e reserva da vida privada (onde se insere a protecção de dados pessoais), torna-se lógico que este último grupo de direitos deverá ceder perante aquele primeiro, se o exercício de ambos entrarem em confronto numa amplitude em que a simultaneidade entre ambos se torne incombinável.

No mesmo diapasão, se conciliarmos o que se disse acima com as disposições conjugadas entre o n.º 3 do artigo 56 CRM que assevera que «a lei só pode limitar os direitos, liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição» e o n.º 1 do artigo 72 CRM que salienta que «as liberdades e garantias individuais só podem ser suspensas ou limitadas temporariamente em virtude de declaração (…) do estado de emergência nos termos estabelecidos na Constituição», e, ainda, no que concerne à possibilidade de limitação de direitos que este último artigo expressamente permite, afastadas, por exclusão de partes, os direitos inatingíveis delineados no artigo 294 CRM (limites impostos à declaração do Estado de Emergência, dos quais não constam os relativos a protecção de dados pessoais/privacidade, mas, em sentido inverso, consta o relativo a protecção à vida), fica patente que, se o sucesso do combate à calamidade pública do covid-19 (uma questão de saúde pública, nos termos do artigo 89 CRM), depender do cerceamento dos direitos de privacidade, então não haverá alternativas, senão limitá-los na medida e na proporcionalidade (artigo 291 da CRM) necessária a garantir a materialização do mencionado sucesso.

No mais, a lei ordinária exprimida pela ratificação, pelo Estado moçambicano, da Convenção da União Africana sobre Cibersegurança e Protecção de Dados Pessoais (CUACPDP), através da Resolução n.º 5/2019, já prevê restrições às regras de processamento de dados pessoais de forma coadunável com o estipulado na Declaração do Estado de Emergência, concretamente, estando-se em face de uma situação de surto epidémico da magnitude funesta do COVID-19.

O princípio do consentimento pode ser revogado quando o processamento de dados for necessário para a execução de uma missão de interesse público no exercício de autoridade pública conferida ao controlador de dados (…) e ainda para a salvaguarda dos interesses vitais ou direitos fundamentais do portador de dados (…) – alíneas b) e d), respectivamente, do artigo 13 da CUACPDP e, no que tange ao processamento de dados sensíveis relativos ao estado de saúde do portador de dados quando o processamento de dados for necessário para proteger os interesses vitais do titular dos dados ou de uma outra pessoa, se o sujeito titular dos dados estiver física ou juridicamente incapacitado para dar o seu consentimento – al. c) do n.º 2 do artigo 14 da CUACPDP.

Em suma, o consentimento do titular dos dados pessoais (e sua legitimidade) é afastado quando confluem as seguintes razões: (i) cumprimento de obrigação legal; (ii) protecção de interesses vitais; (iv) execução de missão de interesse público ou exercício de autoridade pública; (v) prossecução de interesses legítimos, desde que não devam prevalecer os interesses ou direitos, liberdades ou garantias do titular, significando que a geolocalização pode ser legitimamente manuseada para as finalidades atrás referidas, em virtude de estar em causa a necessidade de defesa de interesses e direitos manifestamente superiores ao direito à privacidade individual(izada).

 

 

Télio Chamuço

Advogado

Email: telio@teliochamuco.com  

 

Síndrome do pequeno poder. Riu-se antes de continuar. Falar à Freud não iria adiantar. Quem o compreenderia? Era preciso uma linguagem mais ligeira como a nossa música. A marrabenta ou o Pandza? Abanou-lhe, repentinamente a dúvida. Então para evitar equívocos suspirou um: senta baixo, que te explico. Ando impressionado com a quantidade de ditadores que se forma lá terra. Afinal produzir é isso? Multiplicar autoridades autoritárias? Decidiu ir directo ao assunto. Quantas angústias cabem no choro de uma mãe?

O choro daquela mulher na televisão… um filho morto à pancadas por aqueles que deviam o proteger. Ainda por cima pediram refresco para libertar o moribundo. A autopsia do autoritarismo não podia ser tão alucinadora. Um homem morre massacrado, torturado, triturado pela polícia… E o crime?… tentou denunciar a barbárie. A lei do silenciamento. Que fazer?

Não permitir que as lágrimas daquela mulher sequem antes que se faça justiça. Um irmão morreu nas mãos dos carrascos. Vai lá Alboury reclamar o cadáver do nosso irmão. O choro da velha não deixará ninguém dormir. Alboury, Alboury… Faltam Alboury’s lá na terra, uma mão corajosa que se erga contra a injustiça, cada dia mais trivial, cada dia mais convertida em normalidade. Alboury, Alboury, alguém que desconfie e questione as regras. Alboury…

A mulher chora em pleno telejornal, o juiz muda de canal, o procurador finge que não vê, e amanhã a vida segue o seu percurso… mais uma morte ficou por reclamar.

A sombra noturna da buganvília deve ter devorado o nosso Alboury. Ficamos órfão de vez. Lamenta-se a resignação embrulhada em véus de capulana. O luto pede chá às toneladas e muwuguelo de carapau. O fardo das despesas multiplica a dor. Assim família não guenta, desaba ainda mais na pobreza. Mataram o meu filho. A mulher continua inconsolável. Clama por um Alboury, mas a sombra noturna da buganvília, a sombra noturna da buganvília… Alboury, Alboury, alguém que desconfie e questione as regras. Alboury…

O canhão da repreensão estacionou na avenida. Quem se atrever vai comer chumbo até dizer chega. proclama a sombra noturna da buganvília. Ninguém mais pergunta por Alboury, o clamor silenciado pelo medo das represálias. Mas a mulher não se cala. O seu choro mais perturbador que a azáfama do dumbanegue, clama por Alboury… alguém que reclame o cadáver do seu filho. Alguém que responda ao seu grito. A mulher vai chorar a noite toda, todas as noites, Munhava não vai dormir… a mulher clama por alguém que vá lá e diga:
– Chamo-me Alboury, senhor. Vim buscar o corpo do meu irmão.

Lisboa, 24 de Abril de 2020

 

O menino André tem sede. Sede de voltar à escola. Sede de aprender. Sede de ouvir a incisiva voz da professora Sónia. Sede de voltar a abraçar a longa caminhada em busca da luz que iluminará o seu poço de sonhos. 

Passou dias e noites empoleirado numa árvore na infinita espera pelo tempo. Passou fome. Passou frio. Esperou que o vento ciclónico abrandasse. Esperou que as nuvens parassem de gotejar. Esperou que a água assassina voltasse ao seu leito e que devolvesse a luz e alegria à aldeia. Esperou pela glória de voltar à sala de aulas, para enfrentar o olhar, sempre inquisitivo, da professora Sónia. Quer alimentar a sua sede de aprender.

O menino André foi arrancado do cimo de uma árvore como se de fruta se tratasse. Foi escoado numa barcaça de borracha pilotada por um homem branco com vestes militares e que falava uma língua estranha. Tudo muito rápido. Ao ritmo do piscar de um olho. Seus pais ficaram para trás. Seus amigos ficaram para trás. Sua aldeia ficou para trás. Sua escola ficou para trás. A sede de voltar a beber da aritmética cravada nas feições da professora Sónia é que não ficou. Continuou presa aos seus anseios.

O menino André foi parar a um enorme aldeamento. Cheio de gente de todas as idades. As tendas brancas diferentes das palhotas da sua aldeia. A quantidade de pessoas por cada tenda muito maior que na palhota que partilhava com os pais e irmãos. O espaço para brincar diminuto em relação às planícies sem fim da sua aldeia. Os panelões de cozinha muito diferentes da minúscula panela de barro usada pela mãe. A bicha e os horários das refeições muito diferentes da rotina deixada na aldeia. O que sempre foi igual é a sede. A sede de voltar a ser o primeiro aluno da turma a responder acertadamente, e de braço bem levantado, às sempre difíceis perguntas da professora Sónia.

Semanas depois, o rio da aldeia voltou ao leito. O menino não regressou na barcaça. Tal como o camião em que viajou, a mente de André voltou cheia. Cheia de esperança. Cheia de vontade de respirar o amor dos pais, abraçar a aldeia e tactear o ar da sua escola.

Por cada solavanco, o camião esculpiu um traço de alegria na face do menino André. Uma voz do amanhã afagou a sua alma e inculcou na sua minúscula cabeça a crença de que o nevoeiro iria se dissipar do horizonte e que a sua escola seria de novo o sol da sua vida.  

Na aldeia, o menino André reencontrou os pais e os irmãos. Estavam perdidos algures, num outro aldeamento de tendas brancas. Hoje, os sorrisos habitam os corações de todos. Os abraços e choros exaltam a força divina que, contra a estúpida vontade do ciclone, conseguiu reunir a família.

Para celebrar, não se mata galinha porque a água levou todas, mas dança-se e canta-se. As vozes de alegria pairam pelos ares da aldeia. Nesta e naquela casa festeja-se a reunificação das famílias. Em algumas a esperança reside nos camiões que ainda estão por chegar.

O menino André quer reunificar-se não só com os seus de sangue, mas também com a escola e com a professora Sónia. Pela manhã prepara-se. Não tem uniforme, porque a água levou. Não tem cadernos, porque o vento ciclónico rasgou. Mas tem a vontade de ir à escola. Quer abraçar o seu sonho. A sua sede. Quer abrir os caminhos do amanhã.

É o único aluno que se faz presente numa escola totalmente fustigada pela tempestade. Os tectos evaporaram-se todos. A maioria das paredes desabou. A água voltou ao rio, mas deixou, a espaços, pequenas poças que pontificam aqui e acolá, sendo o seu epicentro precisamente no que sobra da sala de aulas do menino André. 

As carteiras já não existem, mas o corpo do menino é atravessado por uma corrente de emoção quando ele descobre que o quadro preto resistiu e continua intacto. Sorri. Puxa por um pedaço de bloco queimado que se estilhaçou na queda de uma parede e senta-se. Para não molhar os pés, empoleira-os num outro pequeno bloco e espera.

O menino André fecha os olhos e mentalmente ensaia as justificações a dar à professora Sónia: pelos vários dias de ausência das aulas; por não ter livro; por não ter caderno; e por apenas trazer um pedaço de lápis de carvão e uma amarrotada folha de papel nas mãos. Repete várias vezes, até se convencer de ter achado o antídoto certo para que a professora Sónia não se zangue.

Agora aguarda pelo reencontro com o sonho. Espera pela chegada de mais colegas. Pelo toque do sino. Pela chegada da professora. Quer satisfazer a sua sede! O que ele não sabe é que a professora Sónia jamais chegará. O ciclone transformou-a num anjo. 

 

Um homem sem dinheiro é pior que o camaleão:

para ele todas as pessoas ficam da mesma cor.

Agostinho J. Caramelo

 

Um dos belíssimos contos de Clemente Bata é, seguramente, “O embrulho”, o quarto do livro Outras coisas (2016), publicado pela editora Kapulana do Brasil. Naquela história, o escritor reúne vários elementos que, em sincronia, fazem da sua escrita algo cinematográfico e comovente.

“O embrulho” é narrado pela protagonista da história. Ao enunciar o discurso, Marieta leva-nos a percorrer dois universos assimétricos – o da abundância e o da miséria –, nos quais se destacam peripécias derivadas da estratificação social. Na narrativa, a empregada doméstica, confrontada com a miséria que abala a família, tem de escolher entre deixar as três filhas a sucumbir à fome, depois de nada comerem no dia anterior, e roubar alguns produtos da casa dos patrões para alimentar as meninas e o marido alcoólatra. Nesse debate, vence a segunda situação. Estando sozinha na cozinha da patroa, Marieta coloca num embrulho de jornal duas postas de peixe carapau, três batatas e uma cebola. Mas as coisas não correm conforme o plano e a personagem acaba tendo um dia emocionalmente mais desgastante do que a fome, pois os produtos roubados, inexplicavelmente, desaparecem do seu controlo.

A história que até ali poderia ser mais uma com ricos e pobres apresenta-se como um exercício sobre o arrependimento causado por uma opção errada, ainda que com propósito nobre. Assim, no conto, Marieta é um ponto de conflito no qual se buscam respostas para dois momentos difíceis, a misturarem o delito e a razão. Há em “O embrulho” uma construção variável do comportamento humano perante à crise.

Em termos temáticos, o conto de Clemente Bata estabelece uma certa ligação com “O linchamento dos dólares”, o primeiro do livro A mulher sobressalente (2018), de Dany Wambire, também publicado no Brasil, pela editora Malê. Se no primeiro caso há uma mãe zelosa, que coloca o bem-estar das filhas acima de tudo, no segundo há um pai que no infortúnio do filho encontra um feliz acaso para sair da miséria. Esse é Valdemar. Ao perder o filho Samissone, vítima de uma explosão na empresa Camarão da Munhava, o protagonista de “O linchamento dos dólares” regozija-se ao saber que receberia uma indemnização de 2 000 dólares: “o enlutado ficou emudecido, entulhado de alegria. Não a manifestou, contrariando o hábito. Pensou que não era bom que os pobres, correligionários seus, soubessem que iam perder um membro” (p. 13).

Diante da miséria, Valdemar sacrifica até a memória que guarda do filho, pois, para ele, o dinheiro compensa tudo. Decididamente, para o protagonista de Dany Wambire nada é tão apreciável quanto os dólares. Enquanto em “O embrulho” a realização de Marieta está associada à satisfação das três filhas, em “O linchamento dos dólares” a riqueza ou a ilusão a isso relacionada é o grande propósito de vida. Por isso, quando numa certa noite Valdemar é roubado o dinheiro, a socialização e a liberdade tornam-se palavras esvaziadas de sentido.

Em “O linchamento dos dólares” está um protagonista ávido de dinheiro, sinédoque de um materialismo grave, eventualmente à medida do mundo actual. Há ali uma descrição cruel à importância dada às coisas em detrimento da fraternidade. Logo, claro está, a crise de Valdemar não é apenas financeira, é sobretudo de valores morais e éticos. Na miséria, Valdemar coloca os seus interesses em primeiro lugar. E aqui está a grande diferença com Marieta, personagem que em “O embrulho” despe-se dos seus predicados para tentar saciar a fome das pessoas que ama.

Nesta época em que se está a agravar a diferença entre ricos e pobres, os contos de Clemente Bata e Dany Wambire são dois grandes alertas para quem quer pensar o presente e futuro não muito distante da sociedade moçambicana. Através de Marieta e Valdemar é fácil compreender o que aí vem se mais famílias ficarem sem alimentos. Na dor gerada pela fome, certos pais, certamente, roubarão e matarão pelos filhos e outros venderão a alma dos que geraram para resolver uma ambição diminuta. Esta é uma leitura válida dos textos escritos há alguns anos, entretanto bem à imagem do actual contexto nacional e africano.

Nos contos “O embrulho” e “O linchamento dos dólares”, resumindo, a privação é um factor que transforma e destrói a integridade do Homem, deixando-o apenas do tamanho das suas aflições. À semelhança de Marieta e Valdemar, muitas vezes, as pessoas são consequências do meio circundante. Logo, se atmosfera está contaminar-se de pó, como ter cidadãos limpos?

 

Escrevo este diário a partir do centro de confinamento para controle de coronavírus na cidade de Santiago do Chile, onde me encontro confinado desde o dia 9 de abril. A sentença foi de 14 dias de escuridão, sem a luz do dia e sob uma forte vigilância das autoridades locais. Por pouco, caia em depressão, mas a música salvou-me.

Dia 1

“Uma saída difícil do Brasil que me levou ao confinamento”

A minha história começa na cidade de São Paulo, onde estava a realizar um intercâmbio internacional de estudos ambientais, que infelizmente foi cancelado. Foram 5 dias de ida ao aeroporto sem poder viajar, na maioria dos dias pelo cancelamento do voo, informação que apenas tinha acesso no local. Entre vários motivos, deveria regressar ao Chile por se tratar do meu país de residência e por ainda ter obrigações acadêmicas naquele país. 

No dia 9 de abril, finalmente consegui viajar e para o meu espanto se tratava de um “voo humanitário” de regresso dos nacionais e residentes no Chile. Éramos em média 20 passageiros, e mais tarde fiquei sabendo que alguns tinham testado positivo para Covid-19. Chegado ao aeroporto, fui surpreendido com a informação sobre o confinamento, que deveria permanecer num “hotel” (pago pelo governo) durante 14 dias. Segundo explicaram, o facto de ter passado por um país de risco tornava-me, automaticamente, um caso suspeito. Pelo que, deveria ser confinado num estabelecimento monitorado. A minha temperatura inicial foi de 36.7 (normal) mas mesmo assim, o cumprimento do protocolo era indispensável.

Fiquei assustado, não sabia em que condições passaria os meus próximos 14 dias, mas a ideia do hotel acalmava-me, pois, imaginava um local a (mil) maravilhas – pensamento desmentido pela realidade. 

Cheguei ao local, eram 22h, o carro deixou-me na porta do hotel. Já estavam à minha espera e conduziram-me ao quarto. O quarto era pintado de branco e tinha janelas com cortinas presas (que não me davam acesso ao exterior). Sobre o hotel, não sei nada de concreto, não conheço a cor, o tipo de infraestrutura e nada, apenas sei que nas manhãs sentia um cheiro de comprimidos – algo que me fazia levantar várias questões.

Dia 2:

“Chorei, quando recebi a minha primeira refeição”

Eram 7h45, quando bateram à porta (sinal de aviso da hora de refeição), abri-a e vi uma bandeja, com pedacinho de pão e água quente. Entendi, já que se trava de pequeno-almoço, mas a história piorou na hora do almoço: quando eram 12h, o sinal da porta voltou a despertar-me. Fui a porta e estava lá a minha bandeja, com um prato esquisito. Não consigo descreve-lo com exatidão, apenas sei que era um prato composto por uma pequena porção de feijão, muita verdura e água. A imagem não era agradável, o meu corpo não resistiu e as lágrimas foram inevitáveis. Naquele momento, entendi que estava numa prisão (desmoronando-se a imagem do hotel).

Dia 3:

“As notícias de Moçambique, deixavam-me mais triste”

Acompanhava diariamente as notícias de Moçambique, casos aumentando a cada dia e mais relaxamento das medidas. Fiquei confuso, não entendia como numa altura que o país registava maiores números, se relaxa medidas de grande importância como a lotação nos transportes públicos. Não entendia como alguns doentes de coronavírus continuavam em cuidado domiciliário. Ficava mais confuso quando recebia depoimentos de pessoas em quarentena obrigatória dizendo que nunca foram ligados pelas autoridades de saúde. Perguntava-me, como isso é possível? Eu, mesmo sem apresentar sintomas fui submetido ao confinamento e recebo ligações periódicas para o controlo do meu estado de saúde. 

 

 Dia 4:

“O cheiro de comprimidos que não me deixava em paz”

O cheiro de comprimidos piorava a cada dia, não o suportava e decidi abrir a minha porta para avaliar a sua origem “a história da curiosidade que matou o gato”. Em menos de 1 minuto se aproximou um funcionário e disse “volta ao quarto, abra esta porta apenas quando for para levantar a comida”. Humildemente retornei ao quarto e a sensação de estar preso piorava. A partir deste dia, aprendi a conviver com a minha curiosidade, com a minha dor e angústia. Foi nesta mistura de sentimentos que fiz amizade com uma nova companhia “a música” e ela apresentou-me novos “amigos”, levou-me à “novas paixões” e inseriu-me num “ mundo novo”.   

Dia 5:

"A história de Cobaia e o medo por ser negro"

Por pouco, caia em depressão, mas a música salvou-me”

(Próximo capítulo)

* No próximo capítulo, vou partilhar o repertório que me fez companhia durante o confinamento e o papel que cada música desempenhou na referida transformação (na amizade, no amor, e na forma de ver o mundo).

 

FRANTZ OMAR FANON (1925 – 1961) foi um filósofo, ensaísta e psiquiatra. Este intelectual marxista, nascido na ilha da Martinica, no Caribe francês, descendente de escravos africanos, foi um dos influentes pensadores do século XX, principalmente no que se refere à temática da descolonização africana. Frantz viveu e trabalhou na Argélia onde depois se envolveu na luta pela independência daquele país.

Frantz Fanon é  autor de vários ensaios entre os quais o badalado livro “Os Condenados da Terra”, 1961, que o li pela primeira vez em 1990, edição brasileira (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968) que me chegara pela mão do poeta Rui Nogar (1935 – 1993). Nos seus estudos sobre a descolonização, mormente os desta obra escrita com base na experiência argelina, e não só, Fanon analisa as consequências da colonização do ponto de vista psicológico tanto para o colonizador quanto para o colonizado, e o processo de descolonização africana, duma forma geral, considerando seus aspectos filosóficos, sociológicos e até psiquiátricos.

O livro leva um prefácio da autoria de Jean Paul Sartre, filósofo existencialista francês (1905 – 1980), de quem Frantz Fanon era um grande admirador. Conta-se que Fanon teve que viajar à Itália ao encontro de Sartre, a fim de o solicitar o prefácio. A admiração era tal que chegou a afirmar que era capaz de pagar vinte mil francos só para estar à conversa com Sartre durante quinze dias consecutivos.

É interessante notar que, enquanto Fanon direcciona “Os Condenados da Terra” aos colonizados em África, Sartre, por sua vez, através do prefácio, envia recados aos seus patrícios – colonizadores europeus. E é o próprio Sartre quem o confessa:

“Este livro não precisava de prefácio, tanto menos porque não se dirige a nós. Contudo, eu lhe fiz um para levar a dialéctica até ao fim. É necessário que nós, europeus, nos descolonizemos, isto é, extirpemos, por meio de uma operação sangrenta, o colono que há em cada um de nós.” (p.16)

Sartre traduz a situação colonial descrita no livro na perspectiva da desumanização do colonizado, aquele a quem lhe foi retirado tudo que o tornava um humano, com direito a seus mitos, às suas línguas, à sua cultura. Oiçamo-no-lo:

“A violência colonial não tem somente o objectivo de garantir o respeito desses homens subjugados; procura desumaniza-los. Nada deve ser poupado para liquidar as suas tradições, para substituir a língua deles pela nossa, para destruir a sua cultura sem lhes dar a nossa; é preciso embrutecê-los pela fadiga.” (p.9)

Frantz Fanon começa por descrever a descolonização como sendo um fenómeno que se propõe mudar a ordem do mundo: “Mas não pode ser o resultado de uma operação mágica, de um abalo natural ou de um acordo amigável. A descolonização, sabemo-lo, é um processo histórico, isto é, não pode ser compreendida, não encontra a sua inteligibilidade, não se torna transparente para si mesma senão na exacta medida em que se faz discernível o movimento historicizante que lhe dá forma e conteúdo.” (p.26)

De facto, são justamente os movimentos de libertação que lhe dão essa forma e esse conteúdo, rebuscados e alicerçados nas massas populares. E mais adiante Fanon diz ainda que “A descolonização é, em verdade, criação de homens novos.” E que ela “introduz no ser um ritmo próprio, transmitido por homens novos, uma linguagem, uma nova humanidade.”

O livro continua descrevendo a colonização em si, centrando-se no colonizado que acaba interiorizando aquilo que será o fundamento e a necessidade da sua sublevação, pois “descobre que sua vida, sua respiração, as pulsações de seu coração são as mesmas do colono. Descobre que uma pele de colono não vale mais do que uma pele de indígena. Essa descoberta introduz um abalo essencial no mundo. Dela decorre toda a nova e revolucionária segurança do colonizado. Se, com efeito, minha vida tem o mesmo peso que a do colono, seu olhar não me fulmina, não me imobiliza mais, sua voz já não me petrifica.” (p.34)

Mais adentro, Frantz Fanon debruça-se sobre o processo da descolonização, tanto na óptica do colonizado como na do colonizador. E prossegue atendo-se no transcurso das lutas de libertação nacionais, pontificadas pelos movimentos políticos nacionalistas, com todas as suas particularidades: “O colonizado descobre o real e transforma-o no movimento da sua praxis, no exercício da violência, em seu projecto de libertação.” (p.181)

O autor problematiza também a situação do colonizado, já na perspectiva de mentalidade, ou seja, de sequelas da noite colonial, resultantes da difícil relação colonizador – colonizado e vice-versa. Mais do que isso, é sabido que a natureza destruidora, aniquiladora, traumatizante da colonização, impôs-se de forma impiedosa  sobre os oprimidos, o que contribuiu sobremaneira para a sua própria desestruturação. É, portanto, uma análise sobre o colonizado ou, se quisermos, o ex-colonizado, e Fanon observa que:

“Diz-se então que os colonizados querem progredir com demasiada rapidez. Ora, é bom não esquecer que pouco antes atestava-se a sua lentidão, a sua indolência, o seu fatalismo. Nota-se já que a violência nos caminhos bem demarcados no momento de libertação não se extingue magicamente depois da cerimónia do hasteamento das bandeiras nacionais.” (p.58)

Muitos dos problemas dos outrora oprimidos pelo jugo colonial não terminam, de facto, com a proclamação da independência nacional. Ademais, estas massas, uma vez mais, serão chamadas a arregaçar mangas e redobrar seus esforços, desta feita, para a reconstrução da nação em todas as suas dimensões. Neste processo surgem também paradoxos estonteantes de permeio. Afinal de contas são paradoxos, quanto a mim, inerentes à própria condição humana. Nesta conformidade diz-nos Frantz:

“A mobilização das massas, quando se efectua por ocasião da guerra de libertação, introduz em cada consciência a noção de causa comum, de destino nacional, de história colectiva. Também a segunda fase, a da construção da nação, vê-se facilitada pela existência dessa argamassa preparada em meio ao sangue e à cólera. (…) Durante o período colonial convidava-se o povo a lutar contra a opressão. Depois da libertação nacional, é ele convidado a lutar contra a miséria, o analfabetismo, o subdesenvolvimento. A luta, afirmam todos, continua. O povo verifica que a vida é um combate sem fim.” (73)

Fanon continua ainda analisando as sequelas deixadas pela situação colonial na mente do ex-colonizado, sequelas essas também traduzidas na forma de estratégias por este delineadas ou adoptadas no decurso do processo da sua auto-governação. E porque são estratégias muitas das vezes desestruturantes, porque vazias em si mesmas, por não contemplarem a práxis popular – aliás, resultado da incapacidade de do povo extrair a razão -, são, invariavelmente, estratégias condenadas ao fracasso. Neste contexto ele defende que:

 “A consciência nacional em vez de ser a cristalização coordenada das aspirações mais íntimas da totalidade do povo, em vez de ser o produto imediato mais palpável da mobilização popular, não será em todo o caso senão uma forma sem conteúdo, frágil, grosseira. As fendas que nela se notam explicam amplamente a facilidade com que, nos jovens países independentes, se passa da nação à etnia, do Estado à tribo. São essas gretas que justificam os recuos tão penosos e tão prejudiciais ao impulso nacional, à unidade nacional.” (p.123/124)

No capítulo sobre a cultura nacional, e também sobre os fundamentos recíprocos da cultura nacional e das lutas de libertação nacional, Frantz Fanon questiona: “Quais são as relações que existem entre a luta, o conflito – político ou armado – e a cultura? Durante o conflito há suspensão da cultura? A luta nacional é uma manifestação cultural? (…) A luta de libertação é, ou não, um fenómeno cultural?” (p.204/205)

Obviamente que em África, digo eu, as lutas de libertação nacionais foram sempre de carácter eminentemente cultural. Porque o que estava em causa, na noite colonial, era o homem na sua integridade, na sua totalidade, no seu direito de ser e estar no seu espaço. Por outro lado, sempre acreditei que toda luta alicerçada nas massas populares só pode ser intrinsecamente uma luta cultural. Mas Fanon responde de forma global atribuindo a cada geração a sua responsabilidade específica:

“Cada geração, dentro de uma relativa opacidade, tem de descobrir a sua missão, cumpri-la ou atraiçoá-la. Nos países subdesenvolvidos, as gerações anteriores resistiram ao trabalho de corrosão realizado pelo colonialismo e, ao mesmo tempo, prepararam a maturidade das lutas actuais.” (p.171)

Enfim, “Os Condenados da Terra” é um livro portentoso, envolvente, mas também frio, realista, premonitório e, por isso mesmo, abrangente. Em minha opinião, é um livro de leitura obrigatória para os africanos de hoje e de amanhã. Como africanos que somos, o livro é um tratado sobre a nossa bravura, a nossa resistência, a nossa vitória, mas igualmente sobre as nossas fraquezas, os nossos medos, os nossos traumas. Fundamentalmente, é um ensaio sobre o nosso passado, o nosso presente, o nosso futuro. E é por pensar no futuro que Fanon explica que: “A condição  humana, os projectos do homem, a colaboração entre os homens em tarefas que acrescentem a totalidade do homem, são problemas novos que exigem verdadeiros inventos.” (p.272)

Em jeito de conclusão: qualquer semelhança ou dessemelhança com a nossa realidade, é pura “coincidência”, mesmo que se trate dum mesmo processo histórico. Sendo assim, fica então esta advertência que Frantz Fanon nos doa como africanos:  

“A humanidade espera alguma coisa de nós que não seja essa imitação caricatural e em geral indecorosa.” (p.275)

E mais:

“Se queremos transformar a África numa nova Europa, a América numa nova Europa, confiemos, então, aos europeus os destinos dos nossos países. Saberão fazê-lo melhor que os mais dotados de nós.” (p.275)

“Além disso, se queremos responder à esperança dos europeus, não devemos reflectir uma imagem, mesmo ideal, da sua sociedade e do seu pensamento pelos quais sentem de quando em quando uma imensa náusea.” (p.275)

É caso para perguntar: quo vadis África?

 

 

 

O Estado de Emergência de 30 dias decreto, em finais de Março, pelo Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, está a chegar ao fim. Ainda que seja preliminar, o balanço não me parece positivo, olhando para os números, aliados àquilo que era o objectivo principal da medida: evitar a propagação do coronavirus no território nacional.

Quando entrou em vigor, a 1 de Abril, o país só tinha 10 casos, sendo oito importados e dois de contaminação interna. Hoje, estamos a falar de 39 pessoas infectadas. Os casos importados não evoluiram, mas a outra linha, a de infecções locais, a mais perigosa porque significa a ramificação ou a expansão da doença dentro do país, cresceu de dois para 31 casos.

Para quem olha para estes números e compara-os com dos outros países da região, como é o caso da África do Sul e de outros, pode dizer que estamos bem, que não há motivos de alarme. Mas se prestarmos atenção, vamos verificar que antes era só a cidade de Maputo, mas agora o virus chegou à província de Maputo, cidade nortenha de Pemba e Afungi, na província de Cabo Delgado.

O outro detalhe muito importante deste balanço é que, de repente, o epicentro de coronavirus passou de Maputo, no sul, para Cabo Delgado, no norte do país. Estes pormenores são, em si, preocupantes. Significa que em três semanas o vírus atingiu mais três novas regiões do país. Só o caso Afungi já levou ao registo de 29 positivos.

A julgar pelo mapa das diferentes linhas de contacto estabelecidas pelas equipas da saúde na sequência da investigação em curso em Cabo Delgado depois da descoberta do primeiro caso, nada me surpreenderia que nas próximas actualizações de dados o Ministério da Saúde anunciasse o alastramento do vírus para novas zonas do país.    

Antes de chegarmos às cadeias de contaminações comunitárias (até agora são esporádicas) e passarmos a números assustadores, porque é que não se isola Cabo Delgado? De quê o governo está à espera para agir? Os novos casos notificados nos últimos dias pelo MISA, têm como origem aquela província. Há o risco de alguns positivos, ainda não identificados e sem sintomatologia, poderem movimentar-se para outros distritos ou províncias, transportando consigo o virus.

Aliás, o MISAU confirma que alguns trabalhadores do acampamento de Afungi sairam antes da descoberta do primeiro caso naquele local. Se um deles estiver infectado pode estar a espalhar o vírus pela província de Cabo Delgado e não só.

A outra questão é que dos 29 positivos relacionados com a investigação em Cabo Delgado, três são casos não profissionais ou seja de pessoas que nunca estiveram em Afungi e que se infectaram através de um contacto com um trabalhador positivo daquele acampamento da TOTAL.

Estes pormenores reforçam a opinião de que se deve bloquear Cabo Delgado. Todo o cuidado é pouco. É preciso cortar, por alguns dias, as ligações rodoviárias, ferroviárias e aéreas entre Pemba e o resto da provincia e com outras capitais provinciais. É preciso também suspender a comunicação inter-distrital e fazer uma vigilância clínica ou testagem em grande escala nos bairros de Pemba e em Afungi só para termos a certeza da situação.

Em caso de viagem forçada, obrigar que todos que vêm de Cabo Delgado fiquem em quarentena no destina, sem excepção. Sei que são medidas duras, impopulares e susceptíveis de críticas. Sei que vão afectar as trocas comerciais entre as populações, mas esta é a única via que existe para controlar os movimentos das pessoas e suster a propagação de coronavirus a nível da província e no país em geral.  

Sei que muitos vão olhar para a decisão como sendo um exagero ou excesso de zelo da parte do governo, mas este é o caminho certo para evitar, tão sedo, que pessoas infectadas, não descobertas e sem sintomatologias, continuem a viajar pelo país e a espalhar o vírus.

Angola está nesta direcção. Estabeleceu uma cerca sanitária em que durante a vigência qualquer angolano que se movimentar de uma província para a outra é obrigado a ficar em quarentena domiciliária no destino.

Em caso de resistência, teria de cumprir a institucional. Talvez por isso que a situação de coronavirus naquela país está estacionário. Há mais de uma semana que não se registam novos casos.

Os chineses também fizeram o mesmo que estou a propor aqui e algo mais. Tomaram medidas de choque. Para começar, bloquearam cidades que estavam no centro da covid-19, limitando as entradas e as saidas das pessoas.

O uso da máscara no dia a dia passou a ser obrigatório para todos e a observância dessa medida era fiscalizada através de drones doptadas de alto-falante que aconselhavam a quem não tivesse a voltar para casa.

Suspenderam todas as ligações aéreas, rodoviárias e ferroviárias entre as cidades com casos de infecções e outras. Os chineses tinham que se inscrever antes de sairem ou entrarem numa localidade.

Como uma medida de prevenção, o banco central instruiu aos bancos comerciais para desinfectarem as notas yuan com luz ultra-violeta e em altas temperaturas. Depois disso ficaram armazenados durante uma ou duas semanas antes de serem colocadas de volta em circulação.

O dinheiro proveniente de áreas de alto risco de contaminação, como é o caso dos hospitais, era canalizado directamente ao banco central para a sua destruição. Em compensação, a instituição libertou grandes quantidades de dinheiro novo.

À partida, esta medida foi mal vista por alguns círculos de opinião como um exagero da parte do governo de Xi Xinping, mas, parecendo que não, a mega operação teve um peso significativo no combate ao virus.

Sendo que o coronavirus pode sobreviver por algum tempo no papel, o dinheiro, que passa de mão em mão, pode ser um vector para a fácil e rápida propagação da doença.

Se nós não estamos em condições de fazer este tipo de intervenção, pelo menos que lavemos as mãos várias vezes ao dia, principalmente aqueles cuja actividade obrigue ao manuseamento sistemático do dinheiro: funcionários bancários, vendedores de mercados e ambulantes, os caixas dos supermercados, restaurantes e de outros sectores.

Uma outra decisão chinesa que mereceu críticas internas e externas foi a proibição da venda no país de medicamento para combater a tosse e a febre. O objectivo era evitar a automedicação e incentivar as pessoas a procurarem o tratamento numa unidade sanitária.

Foi, sem dúvida, uma medida de risco e ousada, mas o governo chinês foi em frente porque queria garantir que todo o mundo com febre e tosse fosse aos hospitais para a testagem. É um facto que um ser humano, quando tem algum problema de saúde, prefere, primeiro, fazer uma automedicação. O hospital é relegado ao terceiro plano e fica como uma alternativa em caso de persistência da doença.

A outra medida do governo do Partido Comunista chinês, talvez a que deu mais trabalho, foi a de destacar equipas que andaram de casa em casa para ver se as pessoas tinham febre. As que apresentavam sintomas eram recolhidas em autocarros para alguns estádios e outros sítios para a quarentena.

No mínimo, esta operação exige investimento em recursos humanos, mas acho exequível entre nós. A Cruz Vermelha de Moçambique, os Escuteiros, voluntários, as equpas do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) e outros podem reforçar esses grupos de trabalho.

Foram estas as armas principais que a China usou para enfrentar e derrotar o coronavirus. Foi uma guerra que durou cerca de três meses de restrições severas. Quase tudo fechou e a economia chinesa parou para reduzir o movimento das pessoas na via pública e permitir melhor controlo.

Por termos sido dos últimos a lidar com a situação de coronavirus, estamos numa posição privilegiada de podermos contar com as experiências dos outros países que foram os primeiros a serem infectados pelo virus e podermos tomar medidas certas, na hora certa e implementá-las no devido momento para a prevenção da doença.

 

Modelos matemáticos desenvolvidos um pouco pelo mundo mostram que cerca de 1% da população de um país estaria infectada em 10 dias após o anúncio do primeiro caso, caso não sejam tomadas medidas de prevenção. Assim, alertam os estudos, a curva exponencial de infecção dependerá do comportamento de cada indivíduo como sociedade, das suas relações de convivência, mas também do poder público, na medida em que os indivíduos estão sujeitos a normas e instituições regulatórias dessa convivência.

De facto, no bojo do anúncio oficial dos primeiros casos, algumas sociedades tiveram autorizadas a realização de jogos de futebol com mais de 40 mil espectadores, outras tiveram autorizados festivais com mais de 200 mil pessoas, afinal, regidos pela percepção de (apenas) poucos casos oficiais, estes mereceram o desprezo das autoridades e, consequentemente, uma política de distanciamento e isolamento tardia.

Estas sociedades (desenvolvidas) passaram a investir em testes massivos diante da curva exponencial acentuada verificada 10 dias depois dos primeiros casos, acção em grande medida impulsionada por outras entidades, especialmente pelas instituições de investigação científica.

Atentas, as sociedades em desenvolvimento aproveitam-se dos descontos que a história recente de contágio lhes permite, e com isso antecipam as medidas de distanciamento social, isolamentos e outras medidas de prevenção e controlo do COVID-19. Mas, dificilmente conseguiriam fazer os testes massivos.

No entanto, os testes devem ser feitos, ainda que por amostragem. Neste momento, sejam os modelos matemáticos, sejam as fórmulas do cálculo das amostras são básicos: o quadrado do grau de confiança e do desvio padrão sobre a margem de erro. Ou seja, numa sociedade de 28 milhões de habitantes, tendo em consideração a um levantamento heterogêneo, a 3% (ou 5%) de margem de erro e 95% de confiança, não seriam necessários mais do que aproximadamente 1.070 indivíduos a serem testados de forma aleatória e por acaso, durante um período reduzido de tempo. Isso serviria não somente para aferir o nível de prevalência, mas permitiria um rastreio mais amplo, para além dos pressupostos sobre os quais são determinados os números oficiais em grande parte destes países, sobretudo tendo em conta que se trata de uma doença silenciosa e bastante rasteira. A limitação de recursos não pode ser um argumento. Neste caso, vale a máxima de que se achamos cara a educação, que experimentemos a ignorância. Ou seja, se achamos caros os testes, que NÃO experimentemos a ignorância do estado real da infecção e o consequente colapso do sistema de saúde. Ainda neste caso, medidas tardias são inócuas, como podemos assistir a partir da experiência de alguns países, mesmo os de economias avançadas.

É escusado referir que não é papel da ciência encontrar mais casos, mas sim constatar factos e informar decisões. Escusado também é mencionar que de todo o indivíduo testado, mesmo que o processo seja a esmo, deve-se, em simultâneo, ser produzido um cadastro.

Devido às suas características sociais, aos países em desenvolvimento certamente será mais difícil exigir um nível de 70% da população em distanciamento ou isolamento social. Nestes casos, para além de outras medidas como a de rotatividade no trabalho, pode-se acrescer a rotatividade nos horários de entrada e saída do trabalho em função dos sectores de actividades ou outro vector, reduzindo assim a pressão sobre o reduzido sector de transporte.

Um outro debate que assola as sociedades em desenvolvimento tem que ver com o uso das máscaras, luvas ou outros materiais de protecção individual que, sendo uma questão económica, deve ser tratada devidamente. Num outro prisma sobre este mesmo assunto e apesar dos diferentes resultados de estudos com mais de 10 anos – em função das diferentes metodologias de análise sobre o uso ou não das máscaras, em particular – um facto é comum a todos eles: o que está em questão não é a eficácia da máscara em si (se ela estiver dentro dos padrões recomendados), mas a ineficiência no seu uso. Isso remete-nos para a necessidade de os países em desenvolvimento investirem também na educação sobre as formas de uso e de manuseio destes materiais, sob pena de haver um comportamento social que negligencia as demais medidas de prevenção por se estar supostamente protegido por um ou mais objectos de protecção individual.

Por Manuel Valente Mangue, PhD.
Doutor em Ciência da Informação
Universidade Eduardo Mondlane

O nosso país pode estar a passar uma das piores fases da sua história enquanto Nação. Desde que nasci, depois formei família, mais tarde geramos rebentos que hoje estão na fase de discernimento do bem e do mal, sempre ouvi falar de guerra. E, infelizmente, tudo leva a crer que as futuras gerações estarão sujeitas, tal como eu, a ouvir e viver a dura realidade do soar das armas.  

Mas afinal, que mal cometemos? Será que muita coisa falhou na construção do país depois da independência? Tal vez sim, talvez não.

Depois de uma análise profunda, eis que me ocorre a seguinte pergunta para reflexão: Será que Moçambique vive hoje a quarta guerra?

A resposta sobre esta temática deixo ao critério. Mas quanto a mim procuro trazer a minha resposta olhando para quatro cenários a saber:

CENÁRIO 1:

Pobreza.
Esta foi desde cedo a principal guerra que os moçambicanos até aos dias de hoje travam a meio de muitas adversidades. O nosso país vive um dilema em que os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. Infelizmente, o facto ocorre num país com tudo “para dar certo”, se os recursos naturais fossem devidamente partilhados.

 

CENÁRIO 2:

Insurgentes no norte do país.
Considero como a segunda guerra que os moçambicanos travam na actualidade, concretamente na província de Cabo Delgado.

Os insurgentes efectuam suas incursões, decapitando compatriotas inocentes. Dói o coração ouvir diariamente por vias de vários meios de comunicação, por um lado, e por outro, ver por vias das redes sócias, relatos e cenários macabros de tremenda guerra protagonizada pelos referidos insurgentes, colocando à prova a capacidade do nosso Estado.

O povo moçambicano merece outra sorte. Merece a paz, o bem-estar e, por isso mesmo, busca todos os dias explicações sobre aquele fenómeno mas, sem resposta, por parte de quem devia dar. Refiro-me àquele que deve garantir a nossa segurança enquanto povo.
Sim, aqueles a quem depositamos confiança para nos governarem.

A população  de alguns distritos  da província  Cabo Delgado como Palma, Mocímboa da Praia, Muidumbe, entre outros, vivem momentos de terror. Situação de clara guerra.

As nossas tropas governamentais, infelizmente, não conseguem buscar respostas para satisfazer o povo.

 

CENÁRIO 3:
Junta militar da Renamo.

Estamos diante da terceira guerra que se vive na região centro de Moçambique, onde nos últimos tempos, e com  alguma frequência, acompanhamos relatos na imprensa, de ataques armados. Ataques esses que a polícia conhece os rostos, tanto é que já veio várias vezes a público atribuir “aos homens armados da Renamo”, liderados por Mariano Nhongo.

Uma acção que prejudica o povo que com muito suor, sacrifício e paciência luta para assegurar o seu sustento.

Recentemente, de entre vários ataques, acompanhamos cenários de assalto a um estaleiro de madeira na região de Dombe, província de Manica, onde para além de incendiarem camiões e destruir bens, tiraram a vida de um cidadão estrangeiro de nacionalidade vietnamita.

Na verdade, tirar a vida de um ser humano, pode ser o comportamento mais baixo que um ser racional pode fazer contra o seu semelhante.

Pelo menos no centro, já se conhece o rosto dos ataques. Mas afinal porque é que não se soluciona o problema para dar algum alento à população moçambicana que precisa “correr” para trazer o desenvolvimento das suas vidas.

 

CENÁRIO 4:

Covid-19.
Uma pandemia que se confunde com uma verdadeira guerra. Um inimigo global que, em tão pouco tempo, ficou bastante conhecida. O novo coronavírus é uma pandemia que está a dizimar vidas humanas no mundo.

No nosso país há mais de três dezenas de casos já confirmados. Um vírus que aterroriza as nossas mentes. Aliás, está claro que o novo coronavírus poderá constituir problema de saúde pública de uma geração.

A avaliar pela letalidade do vírus, a questão é: Como lidar com a vigilância epidemiológica num país onde falta quase tudo para fazer face a doença?

O historiador Walter Scheidel defende que “as crises muito sérias podem afectar preferências e escolhas politicas, sobretudo, quando os eventos são severos, podem alterar preferências do eleitorado de forma que se mova para uma defesa de um estado de bem-estar social mais forte”.

Nesta perspectiva o nosso Estado tem, na actualidade o desafio das “quatro guerras” por vencer, no sentido de salvaguardar a sua legitimidade e confiança perante o povo que o escolheu.  

Advertência I: apesar do novo Código Penal (CP), aprovado sob os auspícios da Lei n.º 24/2019, e o novo Código do Processo Penal (CPP), aprovado sob a alçada da Lei n.º 25/2019, não se encontrarem ainda em vigor, visto que ainda decorre o período delimitado para a “vacatios legis” de ambos os diplomas (só entram em vigor após se completarem 180 dias contados da data das respectivas publicações, nos termos determinados, curiosamente, pelos “artigos 8” das leis preambulares, tanto do CP bem como do CPP), todas as menções legais que se forem efectuando no presente artigo reportar-se-ão aos citados novíssimos Códigos.

Advertência II: o crime – qualquer que seja – que seria imputado ao agente infiltrado não vem, logicamente, previsto no CPP, mas, sim, no CP, diploma que detém o pecúlio de albergar as condutas definidas como criminosas e de estabelecer as respectivas penas. Entretanto, a figura (seu conceito, sua actuação, sua abrangência, suas competências) sobre a qual merecerá o presente estudo, vem, essa sim, enquadrada no CPP. O crime a ser-lhe imputado encontra-se no CP, mas os critérios de aferição que nos conduzem à consumação de um crime por parte de um agente infiltrado, estão previstos no CPP. É por essa – e só por essa – razão que se referencia, no título, à ligação entre o CPP e a punibilidade de um crime, não significando que o CPP qualifica crimes e determina penas.

O novo CPP traz, de entre várias inovações, a actuação do “agente encoberto”.

O artigo 226 do CPP traça o “regime jurídico” em torno do qual gravita aquela actuação, aprovisionando-nos o “conceito de acções encobertas” e, indexando, nela, o conceito do respectivo agente, preceituando que «consideram-se acções encobertas aquelas que são desenvolvidas por funcionários de investigação criminal ou por terceiro actuando sob o controlo do Serviço Nacional de Investigação Criminal para prevenção ou repressão dos crimes indicados nesta lei, com ocultação da sua qualidade e identidade».

Portanto, o agente encoberto é, nos termos realçados no artigo antecedentemente reproduzido, aquele que, agindo no domínio das competências naturais de um polícia de investigação criminal, tem, ainda, a particularidade de também agir com identidade e qualidade oculta(da).

Entretanto, conforme o título já denuncia, a presente abordagem é circunscrita ao “agente infiltrado” – que não é merecedor de denominação legal no nosso CPP – e não propriamente ao genérico “agente encoberto”, sendo, por isso, antes de mais, imperioso “separar os limites fronteiriços” entre as duas figuras.

O conceito que nos é arremessado pelo artigo 226 CPP – agente encoberto – faz referência a funcionários de investigação criminal (FIC) ou terceiros actuando sob o controle do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), que no âmbito da execução das suas obrigações, em regra, visando prevenir e/ou reprimir a prática de crimes, actuam com identidade oculta(da).

Se nos atentarmos ao rol delineado nas várias alíneas [a) à r)] do artigo 227, que estabelece o âmbito de aplicação das acções encobertas, chegamos facilmente à conclusão que correspondem aos tradicionais campos – de prevenção e repressão – de actuação da polícia (veja-se, a título de exemplo, o rodízio de competências entrincheiradas nas alíneas do n.º 1 do artigo 7 da Lei n.º 2/2017, que cria o SERNIC, e nas alíneas do n.º 1 do artigo 6 do Decreto n.º 46/2017, que aprova o respectivo Estatuto Orgânico).

A diferença substancial reside no facto de os FIC actuarem desprovidos de qualquer elemento que permita identificá-los como tais (ex.: sem a farda policial, sem o distintivo ou crachá), transmutando-se naquilo que comummente apelidamos de “polícia à paisana” (um termo muito vulgar entre os moçambicanos).

E percebe-se facilmente a razão de andarem encobertos (à paisana): a presença notória da polícia chama a atenção dos potenciais autores de crimes e o objectivo orienta-se, nessas acções, em a polícia não se fazer notar para que, desse modo, surpreenda com maior margem de sucesso os correspondentes criminosos ainda na fase da execução dos actos preparatórios, se possível, ou, em flagrante delito ou, em último caso, imediatamente após a consumação da prática do crime.

Por sua vez, o agente infiltrado – figura de criação doutrinária e acolhida em alguns ordenamentos jurídicos – que também actua com identidade oculta(da), vai mais longe do que a simples ocultação ou actuação à paisana que caracteriza o modus actuandi do agente encoberto (nomenclatura legal abraçada pelo legislador penal moçambicano).

Para que o leitor tenha uma ideia aproximada do que é um agente infiltrado, é só recuar no tempo e se recordar do filme “Donnie Brasco” e ir repristinar a personagem Joseph Pistone interpretada pelo célebre actor Johnny Depp. No filme em alusão – exemplo paradigmático de agente infiltrado e muitas vezes usado na Doutrina como cobaia explicativa –, que, por sinal, retrata uma história verídica sucedida em 1972, Joseph Pistone é um policial pertencente a uma unidade especializada na investigação do crime organizado, sobretudo, a Máfia. Para o sucesso do labor investigativo dessa Unidade, foi determinado que Joseph Pistone dever-se-ia infiltrar no seio da organização criminosa, fazer e cimentar amizade com os respectivos chefões, ganhar a confiança destes, tudo com o objectivo de poder estar em condições privilegiadas de reunir informação sobre a quadrilha para, posteriormente, endereçar à sua Unidade Investigativa.

Outro exemplo sonante de agente infiltrado é encontrável no também célebre filme “Face Off” (em português, mereceu a tradução “A Outra Face”), que conta com a participação dos galácticos Nicolas Cage (que interpreta o papel do “bandido” Castor Troy) e John Travolta (que interpreta a personagem do agente do FBI, Sean Archer). Resumidamente, após um acidente em que Castor Troy fica em coma, e porque se sabia que ele fazia parte de uma tramoia que se preparava para detonar uma bomba cujos efeitos seriam de proporções gigantescas, decidiu-se que o agente do FBI, Sean Archer, devia se apoderar da face de Castor Troy, através de uma operação plástica, como forma de se fazer passar por este e, assim, se infiltrar no seio da organização deste, para extrair informações sobre o plano de detonação daquele engenho explosivo. Tal como Joseph Pistone no filme “Donnie Brasco”, Sean Archer, no filme “Face Off”, munido da face de Castor Troy, teve que assumir hábitos típicos da organização criminosa (chegando, inclusive a assumir hábitos de Castor Troy, como o uso de drogas, tudo com o objectivo de obter informação).

O leitor certamente que fará ideia que o agente infiltrado, porque mergulha até as profundezas da actuação da organização criminosa, tem de viver como eles, isto é, se, por exemplo, a quadrilha tiver de violar uma mulher, o agente infiltrado também deverá participar desse acto hediondo; se a quadrilha se dedica a assaltos a mão armada, onde existe a sempre susceptibilidade de ocorrência de assassinatos, o agente infiltrado não poderá hesitar em cometer assassinatos, pois, repete-se, a infiltração implica a assunção, por parte do agente infiltrado, do modus operandi e modus faciendi da organização criminosa.  

Percebe-se o que se disse acima, pois, se, porventura, o agente infiltrado não exibe um comportamento similar ao dos [novos] amigalhaços, corre o risco de estar sob suspeita da organização criminosa e, aí, os resultados podem ser fatais para o agente infiltrado.

Essencialmente, a destrinça entre o agente encoberto e o agente infiltrado prende-se com o facto de o FIC estar imiscuído num seio que não é o seu (“infiltrado”), uma realidade muito mais profunda comparativamente àquele FIC somente que age travestido (à paisana, encoberto, como quem usa uma máscara, termo inspirado na expressão inglesa “undercover”), essencialmente, para que não se dê conta da sua presença – encarando-se, aqui, o termo “presença” como sendo “presença da autoridade”.

O termo “agente infiltrado”, ainda que também seja uma subespécie ou subdivisão de “agente encoberto”, traz a ideia de alguém que se penetra num meio, assume hábitos e comportamentos típicos desse meio, entretanto, de forma dissimulada. Ou seja, o termo infiltrado qualifica o FIC destacado para se imiscuir no leito da organização criminosa relativamente à qual se pretende a obtenção de informações, pois, a despeito de ter de estar “encoberto” (disfarçado) ele praticamente transforma-se “num deles” (“infiltra-se” até as suas profundezas), metamorfoseia-se noutra pessoa com hábitos e comportamentos aplaudíveis no mundo do crime, em geral, e no seio da quadrilha sujeita à investigação, em especial.

As razões determinativas da decisão que aponta para o manuseamento das acções encobertas não constituem objecto da presente dissertação, todavia, fugazmente, revela-se que o crescimento exponencial do crime [organizado], aliado à sua sofisticação, que traz consigo a dificuldade de compreensão do fenómeno em si, da identificação dos seus autores visando a respectiva neutralização para posterior responsabilização criminal – que, nos termos do artigo 28 do CP, consiste na obrigação de reparar o dano causado na ordem jurídica da sociedade, cumprindo a pena ou a medida estabelecida na lei –, influenciou os Estados a adoptar mecanismos arrojadamente excêntricos com vista a combater (prevenir e reprimir) o crime organizado.

Sendo as acções encobertas um meio especial de obtenção da prova (Capítulo IV do Título III do CPP), constitui, ainda uma questão controvertida a legalidade do seu manuseamento, tendo em conta às regras a que se subordinam os “meios de obtenção da prova” (artigo 206 e seguintes do CPP: exames, revistas e buscas e “outros meios especiais”, onde se enquadram – nos preditos meios especiais – as escutas telefónicas e as acções encobertas, sendo que é esta última que, aqui, nos interessa) e, porque possuem implicação directa na posterior qualidade/legalidade dos “meios de prova” (artigo 159 e seguintes do CPP: testemunhal, declaração das partes, pericial, por reconhecimento, acareação, reconstituição dos factos, documental) “obtidos” pelo agente infiltrado, matéria que também não merecerá, aqui, o nosso debruço, sendo que essa temática – “meios de prova e meios de obtenção de prova, quer sejam ou não as recolhidas pelo agente infiltrado” – será, dada a sua relevância, tendo em conta as proibições estabelecidas na Lei, relativamente a esse aspecto (exemplos: artigos 4 e 222 do CPP) aflorada em ocasiões vindouras.

A despeito da nossa lei não fazer menção ao “agente infiltrado”, quedando-se no genérico “agente encoberto”, se analisarmos com olhar microscópico os preceitos que fazem referência à [sua] identidade fictícia (n.º 3 do artigo 230 CPP), tomando-se em consideração que, para o sucesso de determinadas investigações, é imperiosa a atribuição da identidade fictícia (sujeita às formalidades descritas nos n.ºs 2 e 4 do artigo 230 CPP), tendo ainda em conta o que esse trabalho investigativo requereria relativamente a certos crimes delineados no artigo 227 CPP, chega-se a conclusão que a lei processual penal moçambicana prevê, ainda que timidamente, a infiltração do agente encoberto na organização criminosa sujeita à investigação, pois, no rol das competências do agente encoberto, algumas podem implicar que se infiltre e permaneça na organização tempo suficiente para a produção da prova (daí a possibilidade de prorrogação da identidade fictícia de que aduz o n.º do artigo 3 do artigo 230 CPP). Neste caso, o agente encoberto transforma-se em agente infiltrado, um “subsistema (agente infiltrado) dentro de um sistema (agente encoberto)”, com um raio de actuação mais sensível e mais circunscrito do que aquele em que gravita o “genérico” agente encoberto.

A lei trata-os de forma indiscriminada e indistinta – somente por agentes encobertos –, todavia, pelas justificações emitidas supra, denominaremos de infiltrado (porque de facto o é) aquele agente encoberto cuja sua actuação requeira a penetração no seio da organização criminosa sujeita à investigação.

E porque, aqui, unicamente nos ocuparemos da relevância dos crimes (e sua punibilidade) cometidos pelo agente infiltrado, desde logo, é míster salientar que nos termos do n.º 1 do artigo 1 do CP – princípio da legalidade – «nenhum facto, consista em acção ou omissão, pode julgar-se crime sem que uma lei, no momento da sua prática, o qualifique como tal» e, consequentemente, à luz do n.º 2 do mesmo artigo «não podem ser aplicadas medidas ou penas criminais que não estejam previstas na lei».

A partir desta enunciação fica translúcido que só é crime – e sujeito à aplicação de penas – o que a lei dispuser como tal.

A lei penal estabelece uma série de circunstâncias que, caso se verifiquem, ainda que uma acção seja tipificada como crime, dá-se a irresponsabilização do respectivo sujeito infractor. A título meramente exemplificativo, chamamos à colação as causas excluidoras da ilicitude (n.º 1 do artigo 51 do CP) e excluidoras da culpa (n.º 2 do mesmo artigo), que justificam o facto criminoso, às quais, uma vez concorrendo na prática de um crime, manda a lei com que o crime seja afastado, precisamente pela justificação da ilicitude ou culpa – dois tradicionais elementos integradores do conceito de crime, a par da acção e da tipicidade, consubstanciando-se que só há crime quando, cumulativamente, estão reunidos esses quatro elementos.

No elenco das causas excluidoras da ilicitude, estabelece-se na alínea e) do n.º 1 do artigo 51 do CP que constituem causas de exclusão da ilicitude, justificando o facto: a autorização legal no exercício de um direito ou no cumprimento de uma obrigação, se tiver procedido com diligência devida, ou o facto for um resultado meramente casual.

Daqui, obvia-se a discussão se estamos perante uma causa excluidora da culpa ou da ilicitude (pois a própria lei tratou de salvaguardar a dicotomia entre uma e outra) e perscruta-se, outrossim, a base legal permissiva em torno da qual se branqueiam os crimes que o agente infiltrado for a cometer, concretamente, no trecho que refere «no cumprimento de uma obrigação».

Entretanto, o trecho precedentemente citado – «no cumprimento de uma obrigação» – vem atrelado da menção «se tiver procedido com diligência devida», não restando dúvidas de que, se, por um lado, a lei considera justificado o facto e exclui a ilicitude caso o agente infiltrado tenha cometido crimes no cumprimento de uma obrigação, por outro, a mesma lei adverte que esse facto só é justificado e, assim, afastada a ilicitude, se o agente “tiver procedido com diligência devida”.

É aqui onde principia o paradoxismo, pois,

Ao abrigo do n.º 1 do artigo 231 CPP, «não é punível a conduta do agente encoberto que, no âmbito de uma acção encoberta, consubstancie a prática de actos preparatórios ou de execução de uma infracção em qualquer forma de comparticipação diversa da instigação e da autoria mediata, sempre que guarde a devida proporcionalidade com a finalidade da mesma».

A expressão usada na parte geral – “se tiver procedido com diligência devida” – como critério de exclusão da ilicitude, é, conforme se atesta do regime específico estabelecido para a actuação do agente encoberto, concretamente, no disposto no n.º 1 do artigo 231 CPP, substituída pela expressão “sempre que guarde a devida proporcionalidade com a finalidade da mesma”.  

Isto conduz-nos a concluir que a “diligência [que é] devida”, traduz-se no cumprimento da proporcionalidade que é exigível ao FIC quando tiver, com a sua conduta, de ofender bens jurídicos protegidos pelo Direito Penal.

Uma das figuras mais controversas na Doutrina do Direito Penal, não acolhendo, até, os dias hodiernos, entendimento unânime, apesar de algum esforço visível no que se prende com a sua definição, é precisamente a proporcionalidade. Ainda que se propugne que ela é apreciada casuisticamente, tendo em atenção as reais circunstâncias em que um acto [proibitivo] é praticado, deve ser convocado o princípio da “não exigibilidade” – princípio basilar do Direito Penal na aferição da culpa ou das modalidades do dolo – sendo de realçar que a proporcionalidade é uma circunstância intimamente ligada à culpa, e não à ilicitude como se sucede com a causa justificativa que afasta o crime cometido pelo agente infiltrado, nos termos estatuídos na alínea e) do n.º 1 do artigo 51 do CP.

O princípio da não exigibilidade, princípio crucial em Direito Penal e fundamento de exclusão da culpa e que se caracteriza por se considerar como aceitável que uma pessoa se possa comportar de uma forma [censurável] desde que, atendendo as circunstâncias em que estava mergulhado aquando do referido comportamento, não se pode exigir que agisse de forma diferente daquela que agiu.

Este princípio traz-nos a ideia de não ser exigível um comportamento (correcto/legal) a um indivíduo que, colocado numa circunstância em que as reais peculiaridades da mesma não tornem, dele, exigível outro comportamento, senão outro (incorrecto/ilegal).

Nos termos da Doutrina da não exigibilidade, o crime é desculpável se, atentas as reais condições em que ele foi cometido, chegarmos a conclusão objectiva que qualquer pessoa de diligência mediana, nas mesmas circunstâncias, não teria agido de forma diferente daquela que o sujeito, sobre quem recai a aludida imputação criminal, agiu.

É por isso que, em conformidade com o que se referiu nas primeiras sílabas do presente texto, se a quadrilha na qual o agente infiltrado está inserido, decide violar uma mulher, não é exigível ao agente infiltrado outro comportamento senão, também, tomar parte desse acto hediondo-associativo, pois, em face das suas funções tendentes a colectar informação sobre a quadrilha, tem de agir nos exactos termos em que todos os delinquentes da quadrilha agem.

Diferente, é o caso do agente infiltrado que toma a iniciativa de orquestrar o desígnio que leva à prática do crime. Este FIC, à luz do que dispõe o n.º 1 do artigo 231 acima citado, em regra, já responderá criminalmente, na medida em que não se pode defender que não era exigível, da parte do agente, outro comportamento.

A não exigibilidade funcionará, assim, como termómetro preferencialmente aferidor da responsabilidade do agente infiltrado.

A lei processual penal dá particular relevância, como critério aferidor da punibilidade do agente infiltrado, a sua forma de comparticipação, referindo expressamente que somente estará isento de responsabilização criminal se a sua actuação assumir comparticipação diversa da instigação e autoria mediata.

Dito de outro modo: se o agente infiltrado somente aderir ao plano criminoso da quadrilha, a sua responsabilidade criminal será, em regra, excluída, desde que, nessa actuação, haja com proporcionalidade (proporcionalidade essa que, conforme vimos atrás, depende das reais circunstancias da situação e poucas vezes está à mercê do livre arbítrio do agente em causa);

Por sua vez, o agente infiltrado será, em regra, sempre responsabilizado criminalmente se, contrariamente à adesão de um plano criminoso, for ele próprio o desenhador, o instigador, o criador do evento que culmina com a ofensa de bens jurídicos protegidos pelo Direito Penal, pois aqui, dir-se-á que é-lhe exigível que adopte outra conduta.

Logicamente, cremos que esta regra deve sofrer o seu devido desvio se, por exemplo, no seio de uma organização criminosa estiver estipulado que a responsabilidade pela criação do plano criminoso é rotativa (no sentido de caber, a cada um dos membros integrantes da quadrilha, de forma intercalada ou interpolada, a responsabilidade de criação do plano) ou se eventualmente, por determinação dos seus chefes na quadrilha, ainda que não esteja plasmada aquela regra da rotatividade, (por nós hipoteticamente criada), lhe for confiada a missão de arquitectar o plano.

Nestes dois cenários hipotéticos, cuja verificação não é inverosímil, não se pode concluir que o agente infiltrado brotou o plano de sua livre e espontânea vontade, estando, nesse caso, acolhido pela norma disposta no n.º 1 do artigo 231 CPP, na parte que faz referencia à comparticipação diversa da instigação e autoria mediata e, consequentemente, deverá ser irresponsabilizado de qualquer imputação criminal.

 

Télio Chamuço

Advogado

Email: telio@teliochamuco.com

 

 

Sentado na sala de embarque, com a mão envolta da minha pequena pasta de cabedal, me vem à memória sucessivas imagens da difícil jornada percorrida até aqui chegar. Durante anos, foram inúmeras as tentativas de alimentar aquele sonho da mais tenra infância: voar. 

Vivo há menos de dois quilómetros do aeroporto e, diariamente, contemplo os aviões a chegar e partir. Sempre me perguntei, como será estar dentro daquele engenho? Cabem todos lá dentro? Enjoos? Medo de altura? O som do avião a abalroar nas nuvens? Os relâmpagos? Hoje eu teria respostas para todas questões.

Continuo a viajar na minha memória e recordo-me da linda moça que fez o meu check in. Era o meu nome lá nas máquinas deles, não contive a emoção, eu estava dez vezes mais sorridente que ela, afinal de contas eu ia finalmente voar. Entraria num avião e de lá do alto contemplaria os céus, a minha casa, o meu bairro e, o mais lindo de todos, o mar. Foi ela, logo depois do check in, que me apresentou esta lendária sala de embarque. Daqui, apenas alguns metros me separavam da glória.

Uma sensação desconfortável me veio à mente quando olhei para o meu extracto do cartão da companhia aérea. Eu recebera um prémio por fazer o meu quinquagésimo voo como cliente. Fiquei petrificado, sem jeito, envergonhado por ter espalhado tanta emoção. Eu já tinha feito esse trajecto dezenas de vezes, provavelmente centenas, porém, o meu coração agia como se fosse a primeira vez.

Tendo consciência da situação senti-me cansado. Era demais voar cinquenta vezes pela mesma companhia? Quantos outros voos terei feito pelas outras companhias? Sempre a mesma coisa, sair de casa, ir até ao aeroporto, fazer o check in, caminhar até a sala de embarque, de onde habitualmente oiço o meu nome nos alto-falantes, porque sou, de natureza, atrapalhado com o número de voos e com as entradas. De seguida, caminhar até ao interior do avião, ouvir as instruções do comandante e dos comissários de bordo para depois ouvir os motores do avião rugirem com toda potência que levará a mim e aos outros passageiros a um outro porto, digo, aeroporto.

Verdade também seja dita, não há o porquê de me sentir assim tão cansado. As viagens não foram todas similares. Em cada viagem, houve sempre uma história por contar nas varandas das barracas que ornamentam o meu bairro. Houve vezes que não terminei de fazer a mala, atrasei-me ao aeroporto e perdi o voo. Nalgumas vezes, saí até a porta de casa e a boleia plantou-me até perder a viagem. Das raras vezes em que a boleia chegou, algo aconteceu pelo caminho. Uma vez perdemo-nos e fomos parar no lado da cidade oposto ao aeroporto. Da outra vez o carro avariou e numa outra vez o engarrafamento impediu-nos de chegar a tempo ao aeroporto. Parece que o aeroporto mudava de endereço em cada viagem.

Teve, sim, vezes em que cheguei ao aeroporto. Fiz o check in e depois perdi-me nas enormes instalações do aeroporto, de tanto apreciar os enormes aviões que ali atracavam. Me enchia os olhos aquela vista dos motores a rugirem, os comandantes e os mecânicos de voo a avaliarem o trem de pouso, os flaps, os níveis de combustível, os pesos previstos na decolagem e no pouso, as cartas meteorológicas, os passageiros, orientados pelos comissários de bordo, todos sorridentes a tomarem os seus lugares, os camiões cisternas devidamente estacionados perto dos aviões, os manobristas a taxiarem os aviões para a pista de manobra de onde rolavam até a pista principal e os comandantes na expectativa de receberem, de lá do topo da torre de controle, uma autorização para invadirem a pista de decolagem e rezando para que nenhuma aeronave estivesse em final aproach  o que atrasaria, em minutos, a sua partida. Nessas vezes, acabei, também por perder o voo.

Os eventos incomuns sucedem-se sempre quando, finalmente, cumpro com sucesso todos os procedimentos e chego ao interior do avião. Nesses casos olho para a janela sorrindo e digo para mim mesmo, desta vez vai dar tudo certo. Aqui, agora, sentado na sala de embarque pela quinquagésima vez, não consigo explicar o que de facto ocorreu, mas, por mais difícil que seja acreditar, eu perdi o voo nesses casos também.

Não tenho tempo de pensar mais ou continuar a reviver amargas memórias, o meu nome já se ouve nos alto-falantes. Sou eu, trapalhão, mais uma vez. Olho novamente para o bilhete e o passaporte, é realmente o meu nome. Pego na minha bagagem de mão, sorrio levemente e caminho em direcção ao avião que se encontra ancorado na pista. Vejo os passageiros, algumas faces são conhecidas. Se algum dia eu pudesse convidar alguém para voar, seriam, de certeza, as primeiras a receber o convite.

Alguns dos passageiros estão emocionados. Vão voar pela primeira vez, rio-me deles pois eu vou voar pela quinquagésima vez. É verdade que antes de me dar conta do número de vezes que vim voar estava, também, emocionado, por isso eu lhes entendo, voar deve ser emocionante. Principalmente quando é a primeira vez.

 Estou novamente no avião, encaixo-me na cadeira certa, sigo com rigor todas as instruções de segurança, sorrio novamente, é tudo igual ao que vi na televisão e na internet, podia jurar que era uma cópia genuína ou uma recriação minha do original.

Depois de apertar o cinto de segurança o comandante anuncia que o voo vai partir, olho pela janela, a visão é turva mas tenho certeza que estou dentro do avião o que me faz ver, à distância, a extensão de todo edifício do aeroporto. Sorrio novamente e digo em tom baixo: finalmente parece que vou voar.

Os motores rugem, o coração bate forte, é a emoção do primeiro voo. Os motores rugem com mais intensidade, viro a cabeça para abafar o som na tentativa de viver o meu voo. O meu quinquagésimo voo. O meu primeiro voo. Mas os motores mantêm-se vigorosos, são fortes, o seu ruído é intenso, dá-me cabo das memórias.

Por uns instantes sinto-me inerte, acedo à última réstia de memória que quase me escapava pela janela do avião, apego-me a ela e aí recordo-me, este som é familiar. Mas faz todo sentido, afinal de contas é o meu quinquagésimo voo. Não, é familiar de outras galáxias, este som, é o som do despertador. Que me faz despertar. Que faz despertar, em mim, a angustia e a amargura de nunca ter voado.

 

 

Se Eusébio Johane N’Tamele (Zeburane), estivesse vivo, completaria hoje 90 anos.

Hoje, o Governo, em Gaza, através da Ministra da Cultura e Turismo Eldevina Materula, irá inaugurar o novo edifício do ARPAC, uma infraestrutura moderna que vem conferir cada vez mais dignidade à cultura na província.

O leitor poderá estar a se questionar sobre o nexo de causalidade entre uma notícia e a outra. Assiste-lhe a razão! Porém, se analisar com um pouco mais de cuidado, tendo em conta uma das atribuições próprias desta instituição, que é de “pesquisa, arquivo e divulgação sistemática, dentro dos parâmetros cientificamente reconhecidos, da cultura e do património cultural dos moçambicanos, com a finalidade de estudo, educação e deleite”, aí poderá perceber a ligação entre as duas.

 É que, se levarmos em conta que Gaza viu nascer um dos grandes vultos da música moçambicana, que é Eusébio Johane N’Tamele, e no entanto, pouco se sabe ou se conhece dele e da sua obra, então, concluímos que é altura de estudá-lo com mais profundidade e dentro dos parâmetros científicos reconhecidos, como forma de conferi-lo a grandeza, a legitimidade e o direito que tem como grande músico.

Eusébio Johane Ntamele, ou simplesmente Zeburane, tinha admiração por Feliciano Ngome e Mahecuane Macuvele, também nascidos em Gaza, o primeiro, proto-marrabentista, que dá cara ao disco The Forgotten Guitars From Mozambique (do etonomusicólogo Hugh Tracey), e contém o maior número de canções nesta colectânea, e o segundo, um dos que apurou a linha de execução de Marrabenta. Estes dois Gazenses, como Zeburane, também merecem e devem ser estudados.

Mas voltando para Zeburani, sabemos que ele inspira grandes músicos. Os acordes da sua guitarra e os timbres vincados dos seus sons, a sua temática de estima e valorização da figura da mulher, a sua canção de uma beleza singular, fazem dele um nome de eleição, contudo, pouco conhecido entre muitos moçambicanos.

Hoje, a música Pandza e afins, herdou a linha de execução de guitarra de Eusébio Johane N’Tamele(um som cuja vibração das cordas lembra o bandolim), mas muitos não sabem, porque nunca ninguém lhes disse, nunca foram informados e nem formados, assim como nunca foi estudada esta linha para o seu aprofundamento e aperfeiçoamento adequado.

 Um dos maiores legados de Zeburane é a sua canção de exaltação do feminino sofredor, que chora de forma permanente as dores próprias do lar conjugal, firme nos seus deveres, procurando a correcção do seu companheiro. Sabemos que Zeburani é inspiração de grandes nomes da música moçambicana como Wazimbo, José Mucavele, Salimo Mohamed, Hortêncio Langa, Aniano N’Tamele (suspeito por ser filho do mestre), Roberto Chitsondzo dentre muitos outros, alguns com conhecimento e reconhecimento disso, e outros nem por isso.

 O ARPAC em Gaza, terá também este papel de correr atrás deste e de outros nomes como Feliciano Ngome, Aurélio Nkovano (Ntonganhane), José Matirandze, José Mucavele, Alexandre Langa, Francisco Mahecuane, Alberto Mhula, António Marcos, Daniel Langa, Hortêncio Langa, Pedro Langa, Mário Ntimane, e muitos outros que Gaza viu nascer e deixaram suas marcas, no entanto, não estudadas convenientemente e não divulgadas para o deleite dos demais.

Hoje, Gaza irá celebrar duplamente, mas sempre a concorrer para um único objectivo: a valorização da nossa cultura e a recuperação dos saberes da nossa rica terra.
Avante Gaza!

 

Por Amosse Macamo
Secretário de Estado de Gaza

Coronavírus em Moçambique: De quem é a responsabilidade de segurar postos de trabalho?
Como era de esperar por estas alturas de Coronavírus, as empresas moçambicanas estão a fazer um jogo de cintura para manter as portas abertas e continuarem a pagar o precioso salário aos seus trabalhadores.

Algumas estão numa situação melhor que as outras, mas todas têm algo em comum: os prejuízos. O regime laboral já não é o mesmo. As equipas de trabalho reduziram. Os índices de produção, também. As contas estão quase a vermelho.

O sector privado está a viver o presente, cinzento e de dificuldades extremas, porque o amanhã, esse, é incerto. Ninguém sabe que direcção a tomar e com quem contar para devolver a esperança às empresas.   

As primeiras 217 firmas já notificaram ao governo sobre as dificuldades que estão a encontrar para continuarem a laborar nos mesmos moldes. Os turnos, a força de trabalho e a carga horária reduziram devido ao Coronavírus.

Há empresas que já avançaram com a rescisão dos contratos de trabalho com os seus operários, num universo de 6.400 postos de emprego em risco.

Algumas avisaram que este mê só pagarão 75 por cento do salário e que caso o Estado de emergência seja prorrogado por mais tempo, no segundo mês, será só metade e no terceiro, apenas 25 por cento. Isso está na lei.

No sector de turismo, a situação está pior. A taxa de ocupação é de apenas 6 por cento. As reservas estão todas canceladas. De janeiro a Março, o prejuízo evoluiu de 35 para 65 porcento. Algumas unidades hoteleiras estão a dar férias colectivas de 30 dias, mas isso não significa solução para a crise.

Revisitei o pacote de medidas administrativas de cumprimento obrigatório, com quase quinze dias de implementação, a nossa bíblia sobre o que se deve e o que não se deve fazer durante a vigência do Estado de Emergência de 30 dias no país. Não estão lá decisões direccionadas a ajudar ao empresariado a mitigar os efeitos nefastos de covid-19, com a excepção das facilidades fiscais e aduaneiras anunciadas esta semana pelo Governo para os importadores de materiais de prevenção de Coronavírus.

Nada dizem sobre o que fazer em defesa dos postos de trabalho em risco e aqui coloca-se uma pergunta: A quem cabe a responsabilidade pela sua manutenção? Ao Governo, ao sector privado ou aos dois?

Os encargos com os salários constituem o principal custo para as empresas e, por isso, o trabalhador é o elo mais fraco. Quando as contas apertam, o empregador desfaz-se de parte da sua força de trabalho para equilibra-las.

Não sendo interesse do governo o aumento do desemprego no país dado às implicações políticas que isso representa, fica aqui o recado no sentido de olhar pelas empresas. É urgente conceber medidas específicas de apoio, integradas numa estratégia, que sirvam de almofadas para minimizar os efeitos do Coronavírus.

As empresas, num total desespero, estão à espera de um sinal do governo para continuarem a produzir e manter os postos de trabalho. Podem ser iniciativas de natureza fiscal ou através de disponibilização de pacotes de financiamento às micro, pequenas e médias empresas que empregam mais gente.

O governo tem que agir quanto cedo para garantir que as pessoas se mantenham nos seus postos de trabalho, sob risco de não fazer muito sentido o seu plano de criar, durante o presente quinquénio, três milhões de empregos.

A Constituição da República confere ao cidadão moçambicano o direito ao trabalho e a responsabilidade de promover o emprego é inteiramente do governo através da mobilização de investimentos, nacionais e estrangeiros, facilitação de abertura de empresas e a garantia de um bom ambiente de negócios.

Politicamente, nos seus contactos com as autoridades governamentais, as empresas prometem continuar a pagar os salários, mas não aguentarão por muito tempo. A avaliar pela evolução de Coronavírus no país, o estado de emergência poderá ser prorrogado por mais tempo. Se isso acontecer, as dificuldades no sector empresarial irão avolumar-se.  

Do mesmo sinal estão à esperam milhares de moçambicanos que abdicaram das suas fontes de sobrevivência: barracas, bares, botequins, salões de cabeleireiro, venda de comida na via pública, entre outros, cumprindo as medidas restritivas.
É um facto que essas pessoas estão a passar por muitas dificuldades. Estamos a falar de cerca de 80 por cento da população a trabalhar no sector informal. Esses indivíduos não sabem o que fazer para se manterem vivos sem violarem as regras de prevenção de covid-19, algo muito sério.

Há algumas experiências a nível da SADC em termos de mitigação dos efeitos negativos do Coronavírus, em particular no que se refere às micro, pequenas e médias empresas, com a disponibilização de alguns financiamentos.
O governo sul-africano, por exemplo, acaba de aprovar um fundo no valor de 200 milhões de randes para tentar salvar o sector de turismo gravemente afectado pelo covid-19.

A estratégia angolana está mais virada para o cidadão. A Comissão Económica, órgão colegial do Presidente da República, João Lourenço, autorizou ao sector privado a transferir para o salário do trabalhador, o valor descontado para a Segurança Social, correspondente a três por cento do seu salário durante os meses de Abril, Maio e Junho. A decisão é em benefício aos agregados familiares sob ameaça de aumento dos preços de bens alimentares básicos.

Os provedores de serviço de energia e água em Angola têm instruções para não efectuarem cortes no fornecimento durante este mês de Abril.
O governo angolano disponibilizou igualmente 315 milhões de Kwanzas para apoiar as famílias mais carenciadas em forma de bens da cesta básica.

Por seu turno, os presidentes de Ruanda, Paul Kagame, e de Uganda, Yoweri Kaguta Museveni, têm estado a distribuir, porta a porta, alimentos da cesta básica às populações mais necessitadas para reduzir a movimentação das pessoas na via pública.

São sinais deste género e outros possíveis que o moçambicano está à espera do governo para continuar a sonhar com o amanhã. O Conselho de Ministros ainda tem espaço para melhorar ou reforçar as medidas administrativas e permitir que todos se possam espelhar nelas: as empresas e o cidadão.

 

 

Não sinto as gotas de chuva que incessantemente tamborilam o meu corpo e a minha alma. Não sinto a força dos ventos que me chicoteiam as costas. Não sinto o estômago que há três dias reclama pão.

Sinto as mãos que, trémulas, continuam agarradas a um ramo que me faz baloiçar, que nem um pêndulo, ao sabor do vento. Sinto as minhas pernas entrelaçadas em torno deste ramo tornado no último palco da minha vida.

Os meus olhos, impotentes, insistem em manter as pálpebras abertas para sulcar Nyatwa, a filhota que me sobra e que, no outro ramo, também trava a mesma luta: a luta contra a morte.

Mas o que é a morte? Será uma viagem ao infinito das águas para onde a minha esposa e dois filhos seguiram ontem? Ou será este desespero que me mantém nesta fronteira ténue. A fronteira entre cá e lá. É uma fronteira tão leve que cabe nas minhas frágeis mãos calcinadas pelo cansaço, fome e medo. Bastaria que eu largasse o ramo para que a torrente de água turva me levasse para o outro lado. O lado da paz celestial.

O vento sopra forte. O meu corpo fraqueja. Há uma força enorme e oculta que luta contra a heroica missão das minhas mãos. Sinto que a minha hora de atravessar a ténue linha de fronteira se aproxima. Não sei se alguém chorará por mim. A minha esposa já se foi. Dois, dos meus três filhos, seguiram-lhe as pegadas. Um a um. Ou será que lá do outro lado também se chora? Não sei.

A minha certeza é que Nyatwa é a única pessoa, em terra, que provavelmente vá ter algum tempo para chorar por mim. Será fugaz. Também fraquejará em seguida e irá tombar. O melhor, se calhar, seja chorarmos agora. Um pelo outro. Antes de ambos também atravessarmos a linha de fronteira.

O meu coração desata a chorar. A minha força interior não deixa que as lágrimas me cheguem aos olhos. Sou homem.  Apenas devo exteriorizar o amor. Por isso oro. Por mim e pela minha filha.

Acredito que a minha mulher e os meus filhos, lá onde se encontram, por nós aguardam para nos receber de braços abertos. Mas será que lá para cima foram com os braços? Ou estes foram estrangulados pelas águas e atiradas a uma foz qualquer? Ninguém sabe.

A minha Nyatwa continua agarrada ao seu ramo. Contemplo-a. Os meus olhos faíscam nesta voz das trevas. Ela apega-se ao ramo com toda a energia que lhe sobra. O vento faz esvoaçar as suas roupas. O seu rosto está meio franzido e com os dentes à mostra. Penso que é cerrando-os que ela busca a força que necessita para se manter viva. Ainda assim, consigo descobrir a beleza única das suas feições. Como ela é linda! Típico sangue do meu sangue.

Queria eu estar no mesmo ramo que ela, para lhe dar a devida protecção de pai. Não me sobram forças para lá chegar. Consola-me acreditar que os meus olhos são os maiores guardiões do mundo.

O limiar da morte une as nossas mentes. Ela intui o que eu penso. Vejo que tenta gesticular. Quer dizer-me algo que o vento não me deixa ouvir. Prefiro pensar que ela diz que me ama.

«Eu também te amo, filha!», uso o pouco fôlego que me sobra nos pulmões para ensaiar aquilo que devia ser um grito. Duvido que ela me tenha ouvido.

As suas mãos são mais fortes que as minhas. Mas o ramo em que ela se refugia abana ao ritmo do vento. O céu resmunga forte. O raio que solta risca e ilumina os ares. A noite vira dia. Fecho os olhos e estremeço. O coração bate forte e um calafrio atravessa-me a espinha. Quando volto a abrir as pupilas, apenas vejo o vazio da chuva. Nem o ramo, nem a minha Nyatwa.  

Os meus tímpanos captam ecos de um grito abafado da minha filha. É um grito que vira um mantra contínuo na minha mente. O grito do adeus. O grito do aceno aos deuses que habitam o outro lado da tal linha ténue.  

Não choro. Sei que a minha vez também não tardará.  

“O banco standard Totta está a arder. Vai agora para lá trazer-me a notícia”, ordenava o meu chefe de redacção. Foi uma vergonha para mim. Não havia nenhum incêndio. O gerente do balcão riu-se e perguntou-me: onde está esse incêndio? Por acaso estas a ver algum fumo ou algo queimado por aqui?” – Nada, respondi.

… A Organização Nacional dos Professores (ONP) ia reunir-se numa manhã. Eu era o repórter acompanhante. Na parte de tarde, ja na redacção, o reporter senior com quem fui ao terreno não voltou mais do almoço e as minhas notas não davam para construir uma notícia.

… Era hora do almoço no centro social do SNJ (arroz com carapau aguado) que não chegava para todas as pessoas, quando um colega do “Notícias” perguntou-se o que eu iria escrever. Revelei-lhe o tema e ele foi sacar a notícia da minha fonte e publicou primeiro que eu. O Diário de Moçambique onde trabalhava não saiu à rua e perdi a concorrência.

… O pai do Presidente Samora Machel, Malengane Machel, morre em Chilembene e sou destacado a cobrir o enterro. Abel Faife, um jornalista muito bom em reportagem, estava entre a equipa. O que temia aconteceu. No dia seguinte estavam todos os pormenores no jornal. Nao sobrou nada para mim que não consegui enviar a história por falta de energia na Beira.

Foi com estes choques que comecei a minha carreira profissional no “Diário de Moçambique”. Quando as linhas de transporte de energia eléctrica fossem sabotadas pela Renamo, ficavamos sem jornal por uma ou duas semanas seguidas.

Percebi que quando o meu chefe me mandou trazer uma notícia do incêndio que não existia estava a transmitir a mensagem de que o lugar para um jornalista è na rua, pois é lá onde rolam as notícias: nas paragens de autocarros, nos machimbombos, nos mercados, em suma, à nossa volta, nos bairros onde vivem, etc, etc.

Quando naquela tarde o reporter a quem acompanhei e que tinha a responsabilidade de cobrir a reunião da ONP não regressou à redacção era um aviso de que tenho que contar com os meus próprios pés, gatinhar à minha maneira. Cometer erros até chegar à superação.

Aprendi através da história com o meu colega do jornal notícias que me roubou a minha história do dia que o jornalista tem que tem sigilo e deontologia profissional.

Com o episódio de Chilembene, fiquei triste por perder a oportunidade de desafiar Aber Faifa com os meus poquíssimos anos de carreira profissional, mas foi uma oportunidade para aprender, uma vez mais, com o meu mestre como se faz uma reportagem descritiva como mandam as regras de jornalismo.

Foi com desafios como o da minha indicação para a cobertura da Assempleia Popular, hoje Assembleia da Repúbica fruto de multipartidarismo, quando eu achava que não estava ainda preparado para isso, que mais cedo superei as dificuldades básicas de quem está a iniciar a profissão: descobrir notícia, identificar fontes de informação, registar dados com segurança e dominar as técnicas de notícia.

Se hoje é difícil “furar” para conseguir informação de utilidade pública com o papel que a comunicação social tem de contribuir para o desenvolvimento da democracia no país, imaginem em 1982, no sistema monopartidário, em que a informação era controlada pelo poder político.

Comecei a carreira numa altura em que era obrigatório as direcções dos órgãos de informação apresentarem planos temáticos para três ou seis meses ao Departamento do Trabalho Ideológico do partido que se sobrepunha ao Ministério da Informação e o nosso trabalho tinha que ser feito dentro dessas balizas.

Para o meu caso,  as notícias eram ditadas ao telefone, a partir da delegação de Maputo onde estava afecto, com um copo de água ao lado, pois era aos gritos. Pouco ouvia-se. O país estava atrasado em termos de telecomunicações.

A outra alternativa para enviar os textos era o avião, mas nem sempre havia voos para a cidade da beira. Às vezes tomavamos conhecimento do cancelamento do único voo do dia já no aeroporto, com o envelope das notícias na mão.

Eram frustrações atrás de frustrações quando escreviamos e as notícias não saiam no dia seguinte no jornal. As circunstância obrigavam-nos a apostar, como saida, em histórias exclusivas ou que não perdiam a actualidade para ganharmos a concorrência.

Mais tarde, recebemos das Telecomunicações de Moçambique uma máquina para a redacção chamada telex através da qual passamos a enviar as notícias para a sede do Diario de Moçambique na Beira. Compunha-se o texto e este ficava gravado numa fita amarela picotada e fina que depois era montada na cabeça do equipamento.

O operador tinha que marcar o número do destino que eram quatro algarismos. Assim que conseguisse a linha, primia o botão para começar a passar a fita e a notícia ser recebida do outro lado numa máquica idêntica num rolo de papel com a largura de um A4. E era difícil estabelecer a ligação devido ao atraso nas telecomunicações.

As gráficas dos dois jornais que existiam até então, o “Notícias” e o “Diário de Moçambique”, incluindo a “Revista Tempo”, usavam um equipamento muito atrasado e que correspondia a essa época. Depois de batidos na máquina de escrever, os textos passavam para um compositor que os batia novamente.

As frases, que ficavam gravadas em barrinhas de chumbo, iam caindo num recipiente agregado à máquina de onde eram, depois, recolhidas e arrumadas em caixas de chapa próprias formando uma página do jornal.

Resolvi escrever este artigo como uma homenagem a todos os jornalistas desse tempo, incluindo a mim próprio, por ocasião da passagem de 11 de Abril, Dia do Jornalista, que com dificuldades de comunicação e acesso às fontes, faziam o seu melhor para manter a população informada sobre o movimento revolucionário iniciado com a proclamação da independência nacional em 1975.

Os jornalistas faziam omolete sem ovos no seu papel de educar e informar numa altura em que 97 por cento da população moçambicana era constituida por analfabetos e decorria um programa nacional de educação de adultos nas empresas e nos bairros para reverter a situação. Mesmo sem condições, muitos se tornaram grandes jornalistas, como é o caso de Narciso Castanheira, António Sefane, Abel Faife, Mário Ferro e outros.

O artigo é também uma homenagem aos mais novos que resolveram abraçar esta carreira, mesmo cientes de que é uma profissão ingrata e de grande risco. Dizia meu professor de jornalismo que se quer ficar rico, escolheu uma profissão errrada.

Ao longo dos meus 38 anos de profissão não fiquei rico, mas conquistei algum prestígio na sociedade. Viajei pelo mundo. Conheco muito bem o meu pais, desde a localidade, passando pelo posto administrativo e distrito até à capital provincial.

Privei com altos dignatários: presidentes da República, ministros, embaixadores e outras figuras estrangeiras. Isso para mim é um grande capital. É mais do que dinheiro.  

Aqui fica uma mensagem de encorajamento a todos que estão a seguir o jornalismo porque gostam e não por uma questão do emprego. Ter vocação nesta profissão é um bom começo e a garantia de sucesso nesta difícil missão de informar e com responsabilidade.

Hoje, o jornalista tem todas as ferramentas necessárias em termos de tecnologias para fazer o seu trabalho. Além das redes sociais, do facebook, twitter, google e de outras plataformas, há leis que propiciam o seu trabalho, nomeadamente a liberdade de imprensa e de expressão. Se têm tudo nas mãos, de quem estão à espera para brilhar?

 
Por Alexandre Chiure
Jornalista
alexchiure@gmail.com

 

Sim, um mal traz sempre outro pior na cauda. A esposa do vizinho Ruben não se sentiu tranquila enquanto não cobrasse contas aos adúlteros. Até tinha insónias. Ela a mirrar lá em Marracuene, na machamba, feita uma parva, uma crónica abstémia de sexo, a matar-se a produzir comida para ele e para os filhos, e ele na boa-vida com amantes. “…não, isto não fica assim!…”. Numa manhã que se prometia feliz fez o cêrco. Fazia-se acompanhar de três valentonas nervosas, sempre na disposição de agredir alguém, umas zaragateiras conhecidas no bairro, donas de muitos filhos de pais incógnitos. Também já haviam recebido a sua quota-parte de sovas das esposas dos amantes.

A dona Virgínea mal transpusera o portão da casa, logo as quatro mulheres caíram-lhe em cima. Como introdução ao ataque mimosearam-na com epítetos pouco dignificantes à moral, à sua e à da mãe que a pariu. Beliscões na testa e puxões ao nariz seguiram-se; bofetões começaram a voar para a cara da mãe Virgínea, que mal podia defender-se, impotente pela surpresa do ataque e pela superioridade numérica das atacantes. Ululações, apupos e assobiadelas chamavam a atenção dos transeuntes naquela rua para espalhar a notícia do escândalo que vizinhos de lado protagonizavam.

A dona Virgínea sofreu o vexame de ser despida em público para deixar exposta aquela nudez que cometera o delito de entregar ao vizinho, o senhor Ruben. Quando ao entardecer este tomou conhecimento da altercação tentou pedir contas à consorte. Que enorme imprudência foi ele cometer! Aquilo foi o mesmo que deitar petróleo numa fogueira. Para mal dos seus pecados, o atrevimento saiu-lhe como nunca esperara. Ficou sem a falangeta do dedo indicador da mão direita, amputada à dentada pela consorte traída. Durante a confrontação a esposa do senhor Ruben entrou num estado de histeria incontrolável. Barafustava em voz alta, toda agitada e desempenada, levantava as capulanas até muito acima das coxas para inquirir do esposo: ”…hen! a da Vergina é mais gostosa do que a minha?… hen? …fala!…fala lá aqui!…o quê que essa prostituta tem mais do que eu?…hen?…diz-me lá aqui!…”, e apontava o baixo-ventre com um dedo indicador. Um escândalo memorável!

Pela primeira vez vi um homem chorar. Desconheço se o senhor Ruben fazia-o por causa da dor no dedo amputado ou de vergonha pela humilhação.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

Certa vez, a mão perguntou aos dedos:
— Qual de vós faz de mim um órgão especial?
    O mínimo apressou-se a responder:
— Com certeza ter um dedo pequeno para esgravatar o nariz faz de ti um órgão muito especial.
    O anelar imediatamente sacudiu a cabeça, em repúdio indisfarçável.
— A mão — disse ele — só é especial porque tem um dedo no qual se introduz um anel matrimonial.  
    O médio não se demorou a dizer todo anafado de orgulho:
— Ter um dedo que se destaca entre os demais, sem sombra de dúvidas, faz da mão um órgão especial.   
O indicador respondeu muito sério, logo a seguir:
— Sem mim, a mão não teria como apontar as pessoas e as coisas.
    O polegar, nos outros dedos, reparou, antes de dizer:
— Não concordo com o que dizem, pois o que seria da mão se não existisse um dedo para dizer que “Está tudo bem!”?
    E depois de ouvir com muita atenção as respostas de todos dos dedos, a mão disse, sorrindo como nunca tinha o feito até aquele dia:
— Infelizmente, todos vocês não souberam responder. Foi o braço quem o disse: ter dedos que saibam que sozinhos podem pouco e juntos podem muito é o que faz de mim um órgão muito especial.

 

Com a eclosão do coronavírus no continente asiático, em Dezembro de 2019, as bolsas de valores e de mercadorias dos países mais industrializados do mundo, começaram a registar quedas nunca mais vistas anteriormente devido ao susto causado aos investidores pela Covid-19 provocando “havoc” nos mercados financeiros na própria Ásia, Estados Unidos da América, Inglaterra, Alemanha, França, etc. É uma situação que tem vindo a desvalorizar as acções colocadas nas bolsas pelos investidores e criando perdas consideráveis.

Não obstante, o coronavírus está a ser responsável pela queda do preço do petróleo por barril dos cerca de USD 60 até dezembro de 2019 para USD 30 até Março passado nos principais países produtores deste recurso, nomeadamente a Rússia e a Arábia Saudita devido à fraca procura por parte dos principais compradores na Índia, China, na Europa Ocidental, incluindo África. Estes factores todos associados poderão contribuir para a queda do crescimento da economia mundial dos 2% projetados anteriormente para 1,5% este ano.

O Coronavírus está indubitavelmente a impactar negativamente na economia moçambicana, atendendo e considerando que o nosso país não é uma ilha, ele é parte integrante do comércio internacional o que torna difícil a mobilidade de mercadorias e pessoas dum país para o outro fazendo com que o comércio internacional não flua a níveis desejados.

Por um lado, com as restrições que se registam na arena internacional, o nosso país já começou a ter limitações para exportar a sua produção, especialmente para países como a China e a Índia que são os maiores compradores dos recursos minerais produzidos no nosso país com maior destaque para o carvão mineral produzido na bacia carbonífera de Moatize, província de Tete, o que tem contribuído de sobremaneira para a queda do preço deste minério no mercado mundial. Além do carvão, o nosso país enfrenta grandes barreiras para exportar produtos agrícolas como o açúcar, tabaco, nozes, castanha de caju, legumes bem como bens pesqueiros para países da Europa nomeadamente o Reino Unido, França, Itália, entre outros.

Por outro lado, devido as restrições que se verificam no mercado internacional, Moçambique naturalmente que está a enfrentar dificuldades para importar diversos tipos de bens e serviços uma vez que a maior parte dos maiores parceiros económicos do nosso estão em “lockdown” mas também porque já existem casos confirmados de coronavírus no país o que inibe a saída de moçambicanos para o exterior por exemplo para a compra de alho na China.

Estes factores estão a concorrer para o agravamento do défice na conta corrente da balança de pagamentos de Moçambique impactando negativamente na entrada de divisas em moeda externa com particular destaque para o dólar norte-americano (a principal moeda usada para o comércio internacional), tendo em consideração que o comércio internacional é a força motriz para o desenvolvimento de qualquer economia. Nenhum país é auto-suficiente na produção de topos tipos de bens e serviços e, por mais que existisse, sem exportar essa mesma produção não pode haver crescimento económico.

 

Possíveis implicações

O agravamento do desequilíbrio na balança de pagamentos do país devido ao coronavírus se a situação prevalecer por mais 3 meses trará consigo consequências muito devastadoras como a subida galopante dos preços de produtos básicos para o consumo devido à fraca produção no país e alta dependência em relação as importações principalmente da vizinha África do Sul que também debate-se com os problemas de coronavírus o que por um lado encarece o custo de aquisição desses bens de consumo uma vez que regista-se uma ligeira queda do nível de produção e produtividade naquele país vizinho o que faz com que o preço ao consumidor a nível doméstico seja muito elevado corroendo deste modo o poder de compra da maior parte da população moçambicana cujo salário mínimo está abaixo dos 100 dólares norte-americanos provocando uma queda no nível de consumo das famílias. Esta alta dependência em relação às importações é prejudicial para o nosso país uma vez que a mesma concorre para a desvalorização da moeda nacional em relação ao dólar dos Estados Unidos dos cerca de 62 Meticais em Janeiro para 67.69 Meticais em Abril.

Por outro lado o coronavírus já está a afectar negativamente o sector privado nacional com particular destaque para as pequenas e médias empresas que serão obrigadas a terem que optar pelos despedimentos involuntários de alguns colaboradores seus provando um aumento da taxa de desemprego no nosso país e aumentando desta forma a pobreza e quiçá contribuindo para a queda da produção e produtividade das empresas o que poderá provocar a falência das mesmas provocando um caos na economia atendendo e considerando que o sector privado é o vector do desenvolvimento económico de qualquer país, o Estado aparece como regulador da economia.
As actividades como turismo, restauração e hotelaria é que serão os maiores perdedores por causa do coronavírus pois muitas delas vão ter que encerrar as portas devido ao cancelamento de vistos por parte dos turistas estrangeiros e fraca afluência por parte dos consumidores e utentes dos restaurantes e hotéis, respectivamente.

Isto vai resultar no agravamento do défice fiscal por parte do Estado moçambicano uma vez que o imposto é a principal fonte de receita do governo, evidentemente que há sectores da nossa economia que irão registar uma queda acentuada no que ao investimento governamental diz respeito, falo precisamente da saúde, educação, agricultura e infra-estruturas.

Estes todos factores que foram arrolados nos parágrafos anteriores vão agudizar a queda do crescimento da economia moçambicana dos 5,5% previstos para este ano pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em finais de 2019 para 2%. O país estava prestes a mostrar sinais de recuperação após os ciclones IDAI e Kenneth que fustigaram as zonas centro e norte de Moçambique destruindo infra-estruturas e campos de produção agrícola.

Os efeitos do Coronavírus serão mais devastadores que os das dívidas ocultas e dos ciclones IDAI e Kenneth.

Medidas do Banco Central

Recentemente, na última reunião do Comitê de Política Monetária, o Banco Central decidiu libertar 500 milhões de dólares americanos para o sistema financeiro nacional como forma de permitir que os bancos comerciais tenham maior liquidez em moeda estrangeira para fazer face às importações de bens, e serviços e portanto para fazer face à depreciação do metical em relação ao dólar devido à queda do volume e do valor de exportações do nosso país exacerbada pela eclosão do coronavírus no mercado internacional no geral e em Moçambique em particular.

Só podemos esperar para vermos qual vai ser o impacto desta injecção no mercado financeiro a médio e curto prazos, mas naturalmente que se a situação prevalecer a moeda nacional vai continuar a depreciar uma vez que os factores que concorrem para a tal depreciação são vários devido à complexidade da própria estrutura da economia moçambicana. Se o défice de produção no país avolumar-se e as fronteiras continuarem fechadas do lado sul-africano veremos cenários piores ainda, e o dólar poderá disparar para 80 meticais nos próximos dois meses encarecendo cada vez mais as importações.

A medida é bem-vinda mas coloca de lado as pequenas e médias empresas que são as maiores vítimas desta situação uma vez que terão por fim ao cabo que declarar “lockouts” ou seja despedimentos uma vez que sofrerão quedas na produção uma quebra no que diz respeito a oferta dos serviços e bens no mercado e, terão que honrar com os compromissos salariais.

Não tendo alternativa a melhor opção será o fecho das portas e despedir os trabalhadores. Penso que o Governo pese embora esteja a passar por tempos difíceis devido ao défice orçamental agudizado pelas famosas dívidas ocultas e pelos efeitos devastadores dos ciclones que sacudiram o nosso país no ano transacto, deveria encontrar mecanismos para apoiar as pequenas e médias empresas para continuarem a operar e para honrarem com os seus compromissos salarias. As instituições financeiras internacionais e nacionais deveriam também apoiar o sector privado uma vez que este é que garante o bom funcionamento da economia.

 

Por Elcidio Bachita
Economista e docente universitário

O Governo tornou público, na última semana de Março, um pacote de medidas administrativas de cumprimento obrigatório por todos os moçambicanos para evitar a propagação do Coronavírus, próprias de um país em Estado de Emergência que entrou em vigor a 1 deste mês e por 30 dias.

Passado uma semana, o resultado de avaliação da implementação destas medidas que se nos oferece fazer é, em alguns casos, preocupante e noutros, encorajador. No geral todos estão cientes em relação à doença e o perigo que representa na vida das pessoas, mas há os que, mesmo assim, se refugiam na sobrevivência para não cumprirem com o decreto.

O que pegou facilmente nestas coisas de prevenção de Coronavírus é a recomendação de que se deve lavar as mãos com sabão, muitas vezes ao dia, ou desinfectá-las com gel. Baldes com torneiras estão em tudo que é canto. Algumas instituições públicas e privadas têm o gel na entrada e alguém para obrigar aos utentes a desinfectar as mãos. Excelente!

Quanto aos cultos religiosos, as igrejas estão a fazer a sua parte com zelo. As missas deixaram de ser presenciais. A cerimónia de domingo de ramos foi transmitida através de canais de televisão. Os crentes acompanharam tudo a partir de casa, afinal a igreja não é o edifício, mas as pessoas. Maravilha.

As barracas, os bares, os botequins, as discotecas, os tais locais de diversão, fecharam, incluindo salões de cabeleireiro. Alguns, com resistência e outros, não porque têm a consciência de que a sua actividade está no grupo de alto risco de propagação do COVID-19. Apesar de existirem alguns prevaricadores, é fácil de controlar a situação.

Onde havia problemas sérios é no sector dos transportes públicos e privados e nos táxis em forma de motos e bicicletas, caso específico da Zambézia e um pouco da província de Nampula.
Com as suas medidas restritivas, o governo havia transferido o risco de contaminação com o Coronavírus do interior dos autocarros e dos minibuses do serviço semi-colectivo de passageiros, os vulgos chapeiros, para fora destes. Para os terminais e paragens dado às grandes enchentes de pessoas à procura de transporte. Bastava uma “gotinha” de Coronavírus sobre a multidão para termos uma autêntica tragédia no país.

 

2014 – 10 por cento cobertura e 2018 – 92 porcento

Além disso, significavam o reinstalar de uma crise aguda de transporte, particularmente nas principais cidades moçambicanas, em particular Maputo, Matola e as vilas distritais de Marracuene e Boane.

O país havia regredido cerca de dez anos em apenas uma semana de implementação do Estado de Emergência no que diz respeito à satisfação da procura.

Cerca de um milhão de pessoas procuram o transporte diariamente apenas na cidade de Maputo. Estatísticas oficiais indicam que em 2014, o nível de cobertura pelos transportes públicos e privados era de apenas 10 por cento. Com as restrições quanto ao número de passageiros nos comboios, autocarros e chapas, a taxa havia baixado muito mais.

Em 2018, a taxa de satisfação da procura de transporte evoluiu para 92 por cento, segundo dados do governo como resultado de investimentos feitos nos últimos cinco anos na aquisição de meios circulantes.  

Era, por isso, o sector com mais dificuldades de cumprir na letra e no espírito as medidas administrativas adstritas ao decreto presidencial que estabelece o Estado de emergência, situação que produziu, ao longo dos primeiros sete dias de vigência das restrições, muitos prevaricadores com números sobre os prejuízos na manga para provar a sua inocência.

Os retoques que o governo fez às medidas restritivas, no seu sexto Conselho de Ministros extraordinário desta semana, vieram salvar a milhares de cidadãos moçambicanos que a versão inicial expunha, no quotidiano, ao risco de contrair o Coronavírus nas paragens e nos terminais de autocarros em longas esperas de quatro ou mais horas de desespero.

O recuo devolveu o sistema de transporte urbano aos carris. Com as novas regras, já não está em causa o distanciamento entre um passageiro e o outro. O que se torna obrigatório, e isso é imperdoável, é o uso de máscaras que cobrem o nariz e a boca, quer por parte dos operadores, quer dos seus utentes, prática que se estende aos lugares de maior concentração pública.   

As vezes é bom dar mão à palmatória. Isso significa maturidade e, acima de tudo, responsabilidade, sobretudo quando é para salvar vidas humanas. Sempre acreditei que ainda havia espaço para o governo corrigir ou reforçar as medidas administrativas, particularmente para as áreas cuja implementação levantava problemas, como a dos transportes.

O regresso ao respeito das lotações dos autocarros e dos semi-colectivos de passageiros foi bom para a criação de uma plataforma que garanta que todos observem à risca as medidas de prevenção do COVID-19. Vale apena assim para que pelo caminho, nesta luta contra o COVID-19, não haja infractores em nome da sobrevivência e todos nós fiquemos a ganhar.

 

Por Alexandre Chiure
alexchiure@gmail.com

Depois de cada acontecimento cataclísmico, tende-se a pensar que o mundo nunca mais será o mesmo. Desta vez é verdade que, de certa forma, o mundo tem de mudar. A história global está carregada de tais pontos de viragem, sendo quase todos dolorosos. Há anos que fomos alertados de que uma pandemia pode ser tão cataclísmica. A parte da humanidade que vive no meio de guerras violentas, crises, fragilidade endémica, colapso do Estado e miséria humana, poderia ser perdoada por pensar que não poderia ser pior. Aqueles que vivem em regiões pacíficas e prósperas poderiam pensar que nada os poderia prejudicar e que estavam destinados a continuar a ter sorte.

Mas uma pandemia é o que é; nenhuma sociedade, nenhum indivíduo pode esperar estar fora do alcance de um vírus mortal. Por conseguinte, distanciamo-nos dos outros, das bênçãos das interacções sociais. As infecções atingiram todos os continentes, excepto a Antárctida, os números correm para um milhão e irão certamente ultrapassá-lo, mais de um terço da humanidade tem ordens para ficar em casa, e a todas as vidas que já perdemos em números chocantes juntar-se-ão dezenas de outras. O custo económico desta pandemia também será assustador e poderá ser de longo prazo. O impacto nas fragilidades estatais existentes, na política e na segurança irá certamente sobrecarregar os governos de todo o mundo. Ainda não vimos a luz ao fundo deste túnel e não podemos esperar por ela. É um momento de reflexão, mas também de liderança e de acção.

O sistema global estava em farrapos mesmo antes de a humanidade ter sido atingida pelo coronavírus. A Turquia, por exemplo, tem vindo a defender que precisávamos de reformar o sistema. Chamámos-lhe "o mundo é maior que cinco", referindo a composição desactualizada do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas não parando por aí. Como um país que tinha de enfrentar conflitos intermináveis e a miséria humana na nossa vizinhança próxima e onde reside a maior população de refugiados do mundo, sabemos que o sistema não estava a funcionar.

Em 2008, quando o mundo foi golpeado, naquela altura, pela pandemia económica, o G20 foi capaz de trazer um sentido de orientação e, consequentemente, estabilidade à economia mundial vacilante. O sistema tinha funcionado então, mas graças, em grande medida, a um actor global relativamente novo. Também desta vez temos de nos preparar para um impacto económico semelhante e maciço e assegurar que o sistema funcione, mesmo que façamos as correcções e substituições necessárias.

A principal prioridade é proteger a saúde e a segurança das pessoas contra a COVID-19. Apoiamos a declaração oportuna do G20 através da qual os líderes se comprometeram a agir solidariamente na luta contra a pandemia e a salvaguardar a economia global e o comércio sem restrições. A extensão dos acordos SWAP tem sido uma das medidas significativas acordadas pelo G20. Congratulamo-nos com o facto de a nossa proposta de formar um Grupo de Coordenação de Altos Funcionários ter sido aceite pelo G20, visto que temos de coordenar estreitamente questões como a gestão das fronteiras e o repatriamento de cidadãos. Agradeço ao Canadá por ter apresentado ideias iniciais sobre as suas modalidades. O G20 está novamente a provar ser o formato certo na gestão global de crises.
Vários países estão também a tomar medidas individuais enérgicas, incluindo a Turquia. No entanto, os esforços individuais não seriam suficientes. Um desafio global exige uma resposta global, primeiro na frente da saúde pública e depois na economia, e, a longo prazo, na reforma das instituições internacionais e na forma como os países as apoiam. As instituições internacionais relevantes devem assumir um papel eficaz na assistência financeira e na assistência em matéria de equipamento médico.

A protecção das comunidades frágeis, dos migrantes irregulares e dos refugiados e o apoio aos países de acolhimento são agora ainda mais importantes. As redes globais de abastecimento e as transferências de carga devem funcionar sem entraves. As sanções, enquanto instrumento de política bruta, devem ser avaliadas do ponto de vista humanitário. Muitas sanções, incluindo as que são aplicadas contra o Irão, prejudicam apenas o povo iraniano, mas também os seus vizinhos. Numa altura de pandemia, este risco é ainda maior.

Os países em desenvolvimento e menos desenvolvidos, nomeadamente em África, não devem ser deixados para trás.
Um tema transversal na tão necessária resposta global é acabar com os conflitos que causam enormes prejuízos aos seres humanos, ao ecossistema, à economia e à nossa consciência. Apelamos, pois, à comunidade internacional para que abandone todos os conflitos, cesse as hostilidades e procure seriamente o diálogo e a reconciliação, inclusive no Médio Oriente.

As competições geopolíticas e as queixas políticas fazem pouco sentido quando o mundo luta pela sua própria saúde e sabe que todos sofrem. Este apelo não pode passar despercebido, se todos nós aproveitarmos um momento para o apoiar a nível mundial. Esta geração de líderes está, de facto, a definir o futuro da ordem mundial através das decisões que tomam hoje no que respeita à pandemia. As sementes que hoje semeamos confrontar-nos-ão em breve como uma realidade plena.

A realidade de um sistema global baseado em regras, uma rede de Estados-nação que funcionam e que são resistentes e responsáveis, economias que não deixam ninguém para trás e beneficiam todos, apoiadas por organizações internacionais adequadas, todas elas centradas no bem-estar das pessoas, independentemente da sua nacionalidade, fé ou raça, pode estar ao nosso alcance. Porque as missões alternativas não são significativas, mesmo prejudiciais para o bem comum. E assim pode haver um legado positivo desta pandemia, apesar de toda a dor que ela tem causado, se todos nós optarmos por concretizá-la. Fique em casa e seja prudente.

S.E. Mevlüt Çavu?o?lu
Ministro dos Negócios Estrangeiros de Cooperação/Turquia 

A velocidade do novo coronavírus, cujo relato dos primeiros casos da doença, começaram a chegar da China no início deste ano 2020, com vítimas mortais, confunde-se com uma Guerra Mundial.

Daquele país Asiático, em tão pouco tempo, a COVID-19 espalhou-se para todo o mundo, incluindo o nosso país, Moçambique.

Nunca imaginei que a doença que inicia num país Asiático, aterrorizasse imediatamente o mundo no geral, e nosso país em particular. Com os números de óbitos na China, depois na Europa com destaque para países como Itália, Espanha entre outros e a seguir na América, concretamente nos Estados Unidos, provasse com clareza a sua força maligna colocando a prova o sistema de saúde das principais potências mundiais na mitigação das novas infecções do novo coronavírus. Este facto coloca-nos cada vez mais apreensivos, sem saber que será de nós a cada amanhecer.

É uma verdadeira “guerra” contra um inimigo invisível, cenário típico dos filmes de terror, é o que a mídia internacional relata diariamente, sobre a realidade do novo coronavírus no mundo. As grandes cidades tornaram-se desertas, devido ao medo de contaminação por um lado, e por outro a velocidade em que este vírus se transmite. O lema é ficar em casa para evitar infecções.

Aliado a pobreza a que estamos sujeitos, o maior medo no nosso seio é sem sobras de dúvidas, que será feito de nós? Se aqueles que estão no chamado primeiro mundo, com todos os equipamentos de ponta, avanços galopantes na medicina, enfrentam cada vez mais dificuldades para debelar este maldito vírus.

Com o número de óbitos que a mesma continua causando, faz-me lembrar os estragos causados nas anteriores guerras. Na primeira guerra mundial (1914-1918) houve registo de mais de 10 milhões de combatentes mortos. Na segunda guerra mundial (1939-1945) estima-se ter ocorrido perto de 70 milhões de mortes, esta última foi na verdade a mais letal guerra de todos os tempos.

Já que neste momento todos somos soldados chamados para intervir nesta guerra deste inimigo invisível, vivemos sem dúvidas, momentos de muita incerteza quer de ponto de vista político, econômico e social, tendo em conta que muitas medidas necessárias poderão ser tomadas pelo governo mas com impactos negativos sobre tudo na economia familiar das mais desfavorecidas classes sociais. O governo não tem como inverter, terá mesmo que procurar medidas acertivas para aliviar não só o impacto social, como também econômico já que muitos trabalhadores já começaram a ser dispensados dos seus postos de emprego.

Quais serão as medidas que o governo deverá tomar, para evitar que os empresários fiquem menos capitalizados, que a população perca seus postos de trabalhos, que o sistema de saúde funcione para que o povo seja tratado desta pandemia, em fim são várias questões em volta desta triste realidade.

O historiador  Walter Scheidel, professor da Universidade de Stanford nos Estados Unidos citado recentemente em entrevista pela BBC News Brasil, refere que "depende de quão longa e severa será o coronavírus. Podemos ver algumas tendências, uma delas é que os ricos neste momento estão menos ricos do que eram a menos de um mês atrás, por causa dos efeitos da bolsa de valores. É um efeito de curto prazo, vimos algo parecido após a crise financeira global depois de 2008.

O historiador diz ainda que "ao mesmo tempo, vemos que parte da força de trabalho está sendo afectada negativamente, especialmente pessoas em trabalho menos protegido, estão perdendo emprego, trabalhando menos horas, assumindo dívidas. E vai levar mais tempo para eles se recuperarem disso, especialmente por conta das dívidas".

Ou seja, o mundo está a entrar numa fase crítica e que seguramente ficará indelevelmente marcada no nosso seio. Neste momento, a que apenas estar atento pois a nos cabe seguir a risca a forma de higienização recomendada pelas autoridades. Temos que estar serenos para que o nosso principal inimigo do momento, o novo Coronavírus não devaste a nossa pobre sociedade.

 

É facto inegável que o Direito da Protecção de Dados vem assumindo um protagonismo protuberante nos últimos tempos, muito por culpa da erupção do fenómeno tecnológico, associado ao impulso dado naquela área do Direito pela União Europeia (UE) com a adopcão da Directiva (EU) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de abril de 2016, relativo à protecção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados, que influenciou, não só os países da UE – que estão adstritos ao cumprimento da retro mencionada Directiva – mas também aos ordenamentos jurídicos espalhados por esse mundo fora, cujos regimes jurídicos relativos a protecção de dados pessoais projectam-se nos postulados basilares enunciados pela UE sobre a matéria.

Caso paradigmático do que afirmamos na parte final do parágrafo antecedente, é a Convenção da União Africana sobre Cibersegurança e Protecção de Dados Pessoais (CUACPDP), cuja concatenação das normas que lhe corporizam casa-se em regime de comunhão de bens com o regime instituído pela UE.

Percebe-se, com meridiana facilidade, que os regimes jurídicos referentes a esta temática possuam, na maioria dos países, um sustentáculo similar, por várias razões, constituindo uma das principais [razões], o facto de as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s) estarem a colonizar os meios e recursos através dos quais estes dados são recolhidos, processados e armazenados, e sendo esse movimento tecnológico de amplitude global/universal, os problemas que daí são originados são basicamente idênticos para a generalidade dos ordenamentos jurídicos.

Dito de outro modo: o fenómeno epidémico [no bom sentido] do Direito Digital, para o bem e para o mal, atinge a todos os países. A necessidade de se regularem as actuações que se verificam nesse mundo – mundo digital – está na ordem do dia da agenda de todos os países. E sendo que as TICs gravitaram o centro nevrálgico de actuação do Direito da Protecção de Dados para o mundo Digital, num movimento imparável cujo fim não se descortina, emerge uma implícita necessidade de se globalizarem os meios de protecção da segurança da informação – aspecto vital do Direito da Protecção de Dados – de tal sorte que os meios de sabotagem a que estão sujeitos possam ser facilmente detectados e neutralizados.

No parágrafo precedente referimo-nos concretamente à acção dos hackers, espécie que temoriza todo e qualquer sistema de cibersegurança, em especial, e protecção de dados pessoais electrónicos, no geral. Cremos que eles constituem, sem dúvidas, arriscamos nessa acepção, o inimigo que une os países na necessidade de se instituírem mecanismos que, a nível global, cerceie o campo da suas delituosas actuações.

Por isso, e aqui recuperamos a origem do raciocínio que ocupou as linhas do pensamento vertido nas sílabas anteriores, o impulso dado pela UE através da Directiva 95/46/CE (Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados), que, após sucessivas revisões, culminou na adopção da Directiva (EU) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho, tende a ser uma política de protecção universal(izada), reflectida na similitude das normas vigentes sobre a matéria, quer na Europa quer na América Latina quer ainda em África.

Para se ter uma ideia exacta do que se pretende dizer nas palavras transactas, é só se imaginar a extremosa dificuldade que ainda se enfrenta em se aferir o locus delicti do perpetramento de um cibercrime (facto que não constitui preocupação exclusivista da área da protecção de dados pessoais, mas sim, transversal à toda panóplia de bens jurídicos universalmente protegidos pelo Direito Penal).

Moçambique não foge à regra na preocupação em robustecer-se de meios adequados com vista a regular a matéria relativa à protecção de dados. A Constituição da República moçambicana (CRM) alberga, no capítulo reservado à consagração dos “direitos, liberdades e garantias individuais”, a disciplina constitucional incidente sobre a protecção de dados pessoais.

Com efeito, o artigo 71 da CRM, sob epígrafe “utilização da informática”, estabelece que «é proibida a utilização de meios informáticos para registo e tratamento de dados individualmente identificáveis relativos às convicções políticas, filosóficas ou ideológicas, à fé religiosa, à filiação partidária ou sindical e à vida privada» (n.º 1); «a lei regula a protecção de dados pessoais constantes de registos informáticos, as condições de acesso aos bancos de dados, de constituição e utilização por autoridades públicas e entidades privadas destes bancos de dados ou de suportes informáticos» (n.º 2); «não é permitido o acesso a arquivos, ficheiros e registos informáticos ou de banco de dados para conhecimento de dados pessoais relativos a terceiros, nem a transferência de dados pessoais de um para o outro ficheiro informático pertencente a distintos serviços ou instituições, salvo nos casos estabelecidos na lei ou por decisão judicial» (n.º 3); «todas as pessoas têm o direito de aceder aos dados coligidos que lhes digam respeito e de obter a respectiva rectificação» (n.º 4).

Realça-se que o princípio geral deste capítulo da CRM, reflectido no artigo 56, cuja epígrafe cimenta: “princípios gerais dos direitos, liberdades e garantias individuais”, é peremptório em determinar que «Os direitos e liberdades individuais são directamente aplicáveis, vinculam as entidades públicas e privadas, são garantidos pelo Estado e devem ser exercidos no quadro da Constituição e das leis» (n.º 1); «O exercício dos direitos e liberdades pode ser limitado em razão da salvaguarda de outros direitos ou interesses protegidos pela Constituição» (n.º 2); «A lei só pode limitar os direitos, liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição» (n.º 3); «As restrições legais dos direitos e das liberdades devem revestir carácter geral e abstracto e não podem ter efeito retroactivo» (n.º 4).

E se trouxermos à colação que, ao aconchego do artigo 291 da CRM, a declaração do Estado de Emergência, deve, com base nos pergaminhos argamassados na própria CRM, (…) respeitar o princípio da proporcionalidade e limitar-se, quanto à extensão dos meios utilizados (…) ao estritamente necessário ao pronto restabelecimento da normalidade constitucional, conjugando-se esta norma com outra do mesmo texto constitucional – a do n.º 1 do respectivo artigo 72 – que sob a epígrafe “suspensão de exercício de direitos”, estabelece que “as liberdades e garantias individuais só podem ser suspensas ou limitadas temporariamente em virtude de declaração (…) do estado de emergência nos termos estabelecidos na Constituição, emerge a legítima preocupação em se aquilatar em que medida é que os direitos e garantias individuais concernentes à protecção de dados são atingidos pela excepcionalíssima declaração do Estado de Emergência.

A resposta, ainda que ilíquida, começa a desenhar-se nas normas que corporizam algumas das alíneas do artigo 295 da CRM, que, subordinada à epígrafe “restrições das liberdades individuais” elenca, no que releva para a presente análise, as seguintes restrições: restrições relativas à inviolabilidade da correspondência, ao sigilo das comunicações, à prestação de informações (…) [respectiva alínea d)]; busca e apreensão em domicílio [correspondente alínea e)].

Tendo como respaldo o excepcionalmente permitido pela CRM, a Declaração do Estado de Emergência, constante do n.º 3 do artigo 3 do Decreto-Presidencial n.º 11/2020, ao estipular que as medidas decretadas e a sua execução devem respeitar o princípio da proporcionalidade e limitar-se à sua extensão, duração, meios utilizados e ao estritamente necessário ao pronto restabelecimento da normalidade, dá eco vibrante às mencionadas alíneas d) e e) do artigo 295 do texto constitucional, abrindo as vias de acesso para que os direitos relativos à protecção de dados pessoais possam ser legitimamente violados com base no argumentário que, ainda que não esteja escrito em lado algum do rectângulo do referido Decreto-Presidencial, está “implicitamente explícito” no imaginário deste diploma legal que, o que sustenta a restrição é o facto de “haver direitos superiores que devem ser priorizados à custa da violação – legítima, repete-se – daqueles direitos referentes à protecção de dados pessoais”.

Logicamente, não nos opomos ao princípio. Aliás, a CAUCPDP, ratificada pelo Estado moçambicano através da Resolução n.º 5/2019, já prevê restrições às regras de processamento de dados pessoais de forma coadunável com o estipulado na Declaração do Estado de Emergência, concretamente, estando-se em face de uma situação de surto epidémico como a é o COVID-19, desde que se respeitem os sacrossantos princípios estipulados na CUACPDP sobre a matéria.

Assim, o processamento de dados pessoais deve obedecer aos princípios gerais contidos no artigo 13 da CUACPDP: (i) princípio do consentimento e de legitimidade de processamento de dados pessoais; (ii) princípio da lealdade e legalidade do processamento de dados pessoais; (iii) princípio da finalidade, pertinência, conservação e do processamento de dados pessoais; (iv) princípio de exactidão dos dados pessoais (v) princípio de transparência de processamento de dados pessoais (vi) princípio de confidencialidade e de segurança no processamento de dados pessoais.

Paralelamente àqueles princípios gerais acima elencados, o processamento de dados pessoais deve, ainda obedecer a princípios específicos relativos ao processamento de dados sensíveis, plasmados no artigo 14 da CUACPDP.

O princípio do consentimento e de legitimidade do processamento de dados pessoais, apesar de instituir um regime regra que estabelece que o processamento de dados pessoais é considerado legítimo quando o titular dos dados der o seu consentimento, todavia este requisito pode ser revogado quando o processamento de dados for necessário para a execução de uma missão de interesse público no exercício de autoridade pública conferida ao controlador de dados (…) e ainda para a salvaguarda dos interesses vitais ou direitos fundamentais do portador de dados (…) – alíneas b) e d), respectivamente, do artigo 13 da CUACPDP.

O vertido na alínea d) do artigo 13 da CUACPDP – que se reportava a recolha e processamento de dados gerais – acima reproduzido, combina perfeitamente com a excepção relativa a proibição de processamento de dados sensíveis relativos ao estado de saúde do portador de dados quando o processamento de dados for necessário para proteger os interesses vitais do titular dos dados ou de uma outra pessoa, se o sujeito titular dos dados estiver física ou juridicamente incapacitado para dar o seu consentimento – al. c) do n.º 2 do artigo 14 da CUACPDP. Não precisamos mergulhar até as profundezas da regras da exegese jurídica para concluir que a pandemia do COVID-19 se insere como caso paradigmático que origina a excepção aqui permitida.

 

Sobre este particular aspecto, emerge o polémico debate sobre a pertinência e proporcionalidade da geolocalização.

A alínea e) do 2 do artigo 3 do Decreto n.º 12/2020, que regulamenta a Declaração do Estado de Emergência constante do Decreto-Presidencial n.º 11/2020, impõe como uma das medidas restritivas no âmbito da declaração do Estado de Emergência exigência do conhecimento em tempo real de pessoas através do recurso a geolocalização. Ela – a geolocalização – consiste em detectar doentes de covid-19 ou controlar o cumprimento das regras de quarentena obrigatória, através do recurso a meios tecnológicos ou equipamentos electrónicos ou aplicativos digitais, de entre os quais se destacam o mecanismo de rastreio por “GPS” (que pode ser efectuado através de um telemóvel/smartphone), pulseiras electrónicas, etc.

Os países que já a adoptaram, executam-na através de Apps disponíveis em telemóveis (smartphones), que são descarregadas no Google Play e na App Store e lhes permite seguir os movimentos dos cidadãos que são obrigados a permanecer isolados, seja porque vêm de um país estrangeiro seja porque estiveram em contacto com uma pessoa infectada. Se o aplicativo detectar que determinada pessoa está infectada, o algoritmo localizará todas as pessoas com quem esteve em contacto, e estas receberão uma mensagem de que são potencialmente portadoras da doença. Por um lado, ajuda a salvar vidas; Por outro lado, é uma aplicação que permite a quebra do sigilo sobre os dados pessoais da pessoa visada, que podem, em alguns casos, se a recolha e processamento forem mal usados, vir a ser do conhecimento público. Questiona-se se será que os meios justificam os fins? De que forma é que uma emergência, como a do covid-19, justifica uma privação de direitos como a que estas aplicações parecem pressupor? 

 

Télio Chamuço

Advogado

Email: telio@teliochamuco.com  

 

Godine nasceu já órfão de pai. A chamada doença do século – que já nem se sabe a que século se refere – é a culpada de todos os males. Primeiro esquartejou a autoestima do cota: ele deixou de ir às festas da comunidade; deixou de beber com os amigos; deixou de ir à machamba; deixou de pôr os pés fora de casa; deixou de querer ser visto. Enclausurou-se. Depois do espírito, dilacerou-lhe a carne: doenças oportunistas transformaram-no num campo de diversões; o corpo minguou; a pele abraçou-se ao esqueleto; as articulações fraquejaram; os membros viraram inúteis e resguardou-se numa esteira no canto da sua palhota. Morreu uma semana antes do nascimento de Godine.

 O parto não foi fácil. Ora o menino não queria sair. Ora tinha que se aguardar por uma ambulância para levar a parturiente para a cesariana na cidade grande. Ora o menino já de novo queria sair. Ora a mãe estava a perder muito sangue. Ora o sistema imunológico dela tinha sido dizimado pelo vírus. Muita complicação. Até que Godine se anunciou para a vida. A mãe até ouviu o primeiro choro. Nada mais. Seguiu-se o vazio da escuridão. Ela também seguiu o destino dos anjos. 

A árvore genológica de Godine ficou amputada de uma geração. Foram os avós maternos que assumiram os cordelinhos da vida do recém-nascido. A avó Zwayitika deu um passo atrás no tempo e rebuscou os seus dotes de mãe. Trocou-lhe as fraldas, percorreu quilómetros e quilómetros para a quinta do branco Zé de Madeira que, de favor, dava-lhe diariamente dois litros de leite quente de vaca com que alimentava a criança. Foi ela quem voltou às panelinhas de papa, ensinou o netinho a gatinhar, a se aguentar de pé e depois a dar os primeiros passos na vida. Mesmo sem saber ler e escrever, foi a velha quem levou o rapaz à escola da aldeia e que lhe vigiava, ainda que não o pudesse ajudar, na hora de fazer os deveres de casa.

Já o avô Gumisanyi era um homem de caça. Não facilitou com o neto. Levou-o às entranhas da mata. Ensinou-lhe a escutar o silêncio ruminante das árvores e a voz das estrelas da madrugada. Deu-lhe as dicas de como se leem as sombras do vento, e como se distingue, à distância, o cheiro de uma boa caçada do cintilar das pupilas de um felino. Hoje o rapaz conhece bem os caminhos da vida e os atalhos que levam à morte. Sabe que um verdadeiro macho enfrenta a vida com coragem e de peito aberto.

O arco do tempo ditou que Godine se tornasse num adolescente cada vez mais forte e os avós cada vez mais frágeis. Inverteram-se os papéis. Passou a ser ele a percorrer quilómetros e quilómetros em busca de leite quente para alimentar os avós; a preparar papas de farinha para um par de bocas já desdentadas; e, acima de tudo, a atear fogo na lenha para aquecer-lhes os sonhos, já por si, diminutos. As doenças da idade atiraram os dois velhotes para o leito da esteira.

Cuidar dos avôs passou a ser a razão da vida de Godine. Desde que o sol nasce até que se ponha. Não quer que lhes falte pão e água. Sente-se no dever não de lhes retribuir pelo que fizeram por si, mas sim de, como rapaz digno, cumprir com os desígnios que Deus lhe colocou pela frente. Não é apenas uma questão de honra. Há uma força interior que lhe insufla energias que alimentam esse infinito dever de estar ao lado dos dois velhos. Sempre na mesma palhota. Os cuidados que eles precisam já não lhes permitem dormir em espaço próprio.

A água do Idai chega de madrugada. Invade a tal palhota por tudo quanto é canto. O vento forte faz o resto: levanta a cobertura e põe toda a palha a voar pelos ares. Os velhos abraçam-se. Não se podem levantar e tentar fugir. As pernas já não o permitem. Pedem socorro. Godine é o único socorro possível.

A trovoada e o uivar dos ventos digladiam-se pelo domínio dos sons dos ares. Os relâmpagos insistentes riscam os céus e cortam o escuro da madrugada. A chuva cai a cântaros. Os dois velhos não gritam. Gemem. A água galga-lhes os corpos flácidos que não se libertam da esteira. Se aqui continuarem por mais algum tempo, morrem afogados.

Godine vira-se para a mesa de quatro cadeiras que, indiferente, recebe o banho de chuva no centro do que sobra da palhota. É pequena, mas é nela que descobre a solução. Pega na avó Zwayitika, num misto de delicadeza e apreensão, e coloca-a por cima do pequeno móvel. Deitada. Encosta-a à borda. Tem que sobrar espaço para o avô Gumisanyi, a quem o carrega de seguida e o coloca ao lado da esposa.

Alívio momentâneo. Observa em redor e apenas vê o escuro. Sente que a água já o atinge a cintura. Gera-se uma nova frustração. A este ritmo a água voltará a alcançar os velhos. Toma uma decisão de coragem. É o único caminho que lhe sobra. Contem a respiração, agacha-se, penetra por baixo da mesa e levanta-se com o tampo na cabeça. Tem os dois velhos, mais uma vez, a salvo.

Abandona a palhota. Com a mesa feita num capuz por cima da sua cabeça, enfrenta a madrugada, o vento, a chuva, o frio e a trovoada. Luta por se aguentar em equilíbrio desafiando a força da corrente que rapidamente lhe atinge o peito. No topo, os velhos agarram-se à mesa com as poucas forças que lhes sobram. Sabem que o mínimo descuido pode significar o fim das suas vidas.

Godine caminha. Lentamente. Busca por um ponto seguro. No sentido contrário ao do rio, a natureza bafejou a aldeia com uma pequena colina. É um ponto em que a extensa planície espreguiça-se e o relevo dobra-se numa pequena elevação a partir do qual, em dias de sol, as crianças dançam o sorriso dos corvos de gola branca. Será que consegue chegar lá? Ele próprio duvida. Os seus olhos não mais cintilam. O escuro penetra-lhe a alma. As articulações dos joelhos fraquejam. A incerteza domina os seus passos e o espelho do seu amanhã deixa de reflectir. É o som desesperado dos gemidos dos velhotes que, perdido no eco da tempestade, lhe massageia insistentemente os tímpanos e lhe convoca para a busca de novas alternativas.

O cimo de uma árvore é o caminho que resta. A colina está distante. Godine aproxima-se da primeira que lhe parece suficientemente robusta. Tem ramos baixos. Ramos fortes. Aproxima-se o mais que pode. A lutar contra a corrente da água, pousa a mesa no chão, e esta assenta com alguma firmeza devido ao peso dos velhos. Coloca-os sentados. É a única forma de manter as suas cabeças fora da água.

Pega primeiro na avó Zwayitika. Ela agarra-se a ele com todas as energias. Eleva-a para o primeiro ramo num exercício de equilíbrio enorme em que uma escorregadela pode ser fatal. Sobem mais dois ramos e atingem uma altura relativamente segura. Godine tira a camisa que traja colada ao corpo. Com os dentes, rasga-a ao meio e a metade em mais quatro partes. Amarra a velhota contra a árvore pelos pulsos e pelos pés. Assim dá-lhe maior sensação de segurança.

Uma vaga, vinda sabe-se lá de onde, abana por completo a pequena mesa. O velho Gumisanyi, sozinho, tenta equilibrar-se, mas é um destroço qualquer que, arrastado pela forte corrente, derruba o pequeno móvel e deita o velhote a pique. Ele tenta gesticular. Abre a boca para reclamar socorro. A força da água imobiliza-lhe os gestos, já por si frágeis, penetra-lhe boca adentro transformando o grito num esgar de pânico. Entra em reboliço. 

Num voo pela vida, Godine salta da árvore directamente para o epicentro do alvoroço. Embrulha-se com o velhote. Luta contra o seu peso e contra a fúria das águas. Logra levantar-se com ele nos braços. Não precisa escutar a sua respiração ou as palpitações do coração para saber que ainda está vivo. A ligação sanguínea é a mensageira do destino. Volta ao céu da árvore. Repete o mesmo ritual que fez com a velhota. Com o que sobra da camisa rasgada, amara-lhe a um ramo tanto pelos pulsos como pelos pés.

Godine respira fundo. Passa, em simultâneo, de alto abaixo, as palmas das mãos pela sua própria cara como que enxugando retalhos de uma vida. Ao som do vento e da chuva, observa aquelas duas almas. Resta-lhes apenas esperar. Esperar que os astros se realinhem e que o sol volte a iluminar o futuro. Esperar que, um dia, a vida retorne à terra firme.

 

Junho de 1980. A Selecção Nacional de Moçambique viajou para a Bulgária para um estágio em pleno período de carências no país. O vôo era Maputo-Roma-Sófia. A partir daí, um estágio na pequena cidade de Sliven, com jogos em Plovdiv e Burgas. Ficaram espantados os anfitriões com o nosso nível e uma grande parte dos nossos jogadores foram “namorados” para ficar. Porém, as normas rígidas e as relações com aquele país socialista, não permitiam nem pensar em “saltar o arame”…

Em tempo de Olimpíada em Moscovo, a palavra solidariedade era dominante no nosso vocabulário. Um estágio na Bulgária, permitiria dar rodagem à nossa então fortíssima representação, num país em que eles pensavam que nós jogávamos com um bola quadrada. Enganaram-se.

Alguns episódios, que relembram aquela histórica deslocação, em tempo de três dólares/dia, dão uma ideia do potencial que tínhamos e que nem nós, possivelmente, sabíamos.

 

POR TERRAS ONDE POUCOS PRETOS TINHAM SIDO VISTOS…

Sófia é a capital da Bulgária. Na altura, com uns desbotados fatos de treinos, a Seleccão Nacional do nosso país, teve uma paragem de dois dias em Roma, contemplando um mundo de sonho, com tudo à disposição, porém inacessível devido aos exíguos três dólares/dia que nos eram concedidos. Vivíamos o tempo das carências, do carapau, como se dizia. Ninguém fazia ideia do que nos esperava. Eu era o único representante da Comunicação Social moçambicana e, simultâneamente, vice-presidente da CNAF.

Em Roma, muitos de nós optou pela “quarentena”, pelo simples facto de não interessar ver nas montras, coisas que tanto gostariam de ter, mas que os bolsos não permitiam adquirir. Tudo era lindo, mas inacessível.
Chegámos a Sófia, mas destino para o estágio, era Sliven, uma cidadezinha situada a mais de 600 quilómetros. Tudo novidade, para nós, mas também para eles…

O primeiro choque foi na primeira paragem, para nos refrescarmos. Aconteceu que os velhotes, espalhados um pouco por todo o lado, ficaram surpresos! E as reacções eram as mais díspares: uns queriam ouvir-nos, apreciar-nos e tocar-nos. Outros, fugiam a sete pés. Razão? Nunca tinham visto um preto nas suas vidas e, de repente, saíam do autocarro, duas dezenas deles. Houve ajuntamentos, com pessoas a quererem ter o privilégio de tocar nos estranhos visitantes.

Mais tarde, quando estagiávamos em Sliven, se algum de nós quisesse aparar a carapinha, isso transformava-se em algo inédito, só comparável com a visualização dos quadros de Malangatana.

SURPRESA NO PRIMEIRO JOGO

Mário Coluna, o Monstro Sagrado, era o cabeça de cartaz. Pela Selecção portuguesa, ele tinha, anos atrás, marcado e desfeiteado a maior glória do futebol búlgaro de todos os tempos, chamado Asparakov. Agora quem nós éramos, de onde vínhamos, que nível tínhamos, tudo era uma incógnita.

Fomos ao primeiro teste. Uma surpresa, para nós e para eles. Chegámos a uma vitória por 3-1, sem colocar “o pé no acelerador”.  A partir daí…

Tínhamos um tradutor, um jovem que aprendera português no Brasil, adepto/admirador confesso do Monstro Sagrado. Foi-nos dando as dicas. Afinal antes eles pensavam que éramos “moleza”!

O teste a seguir seria para valer. Aconteceu no Estádio principal de Sliven, cheio como um ovo. Antes do início da partida, os microfones anunciaram a presença de Mário Coluna, a estrela que “desgraçou” a Bulgária no Campeonato do Mundo de 66.

O Monstro Sagrado levantou-se perante forte ovação e muito ao seu jeito, fez o seguinte comentário para o seu adjunto, Cremildo Loforte:
Ó Minhoca, levanta-te, aproveita a minha boleia, para seres também aplaudido!
É claro que o “mister” em alusão, não fez mais do que sorrir e limitar-se à sua – na circunstância – insignificância.

A partir daí, o nosso prestígio cresceu. Ninguém, na Bulgária, imaginava que uma ex colónia de Portugal, tivesse um plantel com tantas estrelas. Provavelmente, nem nós.

Quem eram os craques? Isaías e José Luís, na baliza; Defesas: Joaquim João, Artur Meque, Aurélio, Chinguia, Mandito e Frederico; médios: Artur Semedo, Dover, Rui Marcos e Carlitos; avançados: Lucas Barrarrijo, Chababe, Calton, Gil, Miguel e Cossa.
É preciso dizer mais?
Fizemos mais três jogos, perante super-reforçadas equipas. Mais a verdade é que deixámos, em terras búlgaras, o perfume do futebol moçambicano. Por eles, metade da nossa equipa ficaria por lá, bastando assinar os papelinhos do contratos que chegaram a ser propostos.

 

GIL MILANDO CHEIO DE “LETBAS”

Apesar da minha condição (sempre) de jornalista, pertenci à primeira Comissão Nacional de Árbitros. Foi também por isso que viajei. Comigo, o antigo juiz, Gil Milando. Grande árbitro, grande homem. Falecido há uns anos… que Deus o tenha!

Pois o nosso árbitro não deixou os créditos em mãos alheias. Apitou vários jogos, deu palestras, brilhou! O tempo era o de “troca de experiências” e ninguém pensava em remunerações.

Daí, a surpresa:
Uma tarde, o nosso intérprete do búlgaro-português, veio chamá-lo, para receber o pagamento das arbitragens que fizera. O Gil, tendo em conta o contexto, não quis aceitar os valores, em “letbas” (moeda local), dizendo que apenas tinha vindo para “ganhar experiência”. Fui chamado a intervir. Coloquei depois a questão ao chefe da delegação, Mário Coluna. A sua resposta:
Diz lá ao Gil Milando que se não quer o dinheiro, eu vou receber por ele!

O Gil acabou recebendo a “montanha” de dinheiro que estava à sua frente. O que fazer dele? Decidiu que iríamos desfrutar em conjunto. A partir daí, um agradável problema. Não tínhamos a noção exacta dos valores. Daí que gastássemos o dinheiro a comprar coisas básicas, que eram baratas e por isso, recebíamos trocos e mais trocos. Um problemão gastar de imediato tanto dinheiro que não valia noutro sítio.

No fim, lá conseguimos “livrar-nos” da mola, trazendo para o país, qualquer coisa como quarenta e tal caixas de….fósforos!

KHALIL GIBRAN foi um dos maiores poetas árabes do século XX. Ele é autor de uma vasta obra literária tanto escrita em árabe quanto em inglês. Viveu grande parte da sua vida nos Estados Unidos, para onde imigrara juntamente com a sua família. Mas nem com isso deixou adulterar a sua alma de árabe e de libanês.

Deste clássico da literatura universal destaco aqui três dos seus livros, designadamente, a célebre obra “O Profeta”, “O Louco” e “Asas Partidas”, através dos quais Gibran conseguiu deixar nas profundezas de mim ecos da sua vibrante e portentosa poesia. Seus escritos em linguagem simples, apesar de serem parábolas, são de fácil leitura, e transportam consigo uma forte componente filosófica, moral e espiritual.

No seu livro, “O Louco”, Khalil Gibran conta o seguinte:

“Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em minhas sete vidas – e corri sem máscaras pelas ruas cheias de gente, gritando: ‘Ladrões, ladrões, malditos ladrões!’ Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: ‘É um louco!’. Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua. Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei minhas máscaras. E, como num transe, gritei: ‘Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!’ Assim me tornei louco. E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.”

Será o homem um animal de múltiplas máscaras que o impedem de ver e desfrutar livremente da vida e do mundo? Mas afinal, o que será então a loucura de que se refere Gibran? Será simplesmente uma disfunção mental ou uma negação radical de convenções sociais impostas pela sociedade ou, ainda, uma espécie de apologia exacerbada do “eu” fora dos limites da liberdade? E qual é o lugar dos deuses nesta loucura (des)consentida? Deixo aqui o leitor, dentro da sua liberdade, fazer as suas próprias conjecturas.

Os escritos de Khalil Gibran chegam a ser autênticas teses existenciais, na medida em que o autor coloca-nos questões mas dentro das respostas que ele próprio dá àquilo que a vida nos apresenta. Toda a sua obra, quanto a mim, é uma incursão que parte do ateísmo ao religioso, e do cristianismo ao islamismo, e vice-versa. Em “O Profeta”, debruçando-se sobre “a liberdade”, encontramo-lo nesta mesma senda com toda aquela poesia de primeira grandeza executada numa prosa rítmica e compassada. Ouçamo-lo:

“Na verdade, o que chamais de liberdade é a mais forte dessas cadeias, embora seus anéis cintilem ao sol e vos deslumbrem.

E que quereis rejeitar para serdes livres, senão fragmentos de vós próprios?

Se é uma lei injusta que pretendeis abolir, lembrai-vos de que esta lei foi escrita por vossa própria mão em vossa testa”.

(…)

É dessa maneira que vossa liberdade, quando perde seus entraves, transforma-se num entrave para uma liberdade maior”.

Khalil Gibran lembra-nos que aquilo que construímos com liberdade pode igualmente subjugar a nossa liberdade. Com efeito, quando tentamos exercer a nossa liberdade, acabamos sendo vítimas desse exercício, isto é, dos sistemas que nós próprios criamos com a bandeira da liberdade, não havendo, por isso, lugar para a culpabilização de terceiros, sejam eles deuses ou não.

O tempo é uma categoria não só da nossa mente como também do nosso espírito. O tempo é simplesmente um invólucro onde nele tudo acontece com ou sem o nosso controlo. Nascemos dentro do tempo, amamos dentro do tempo, sonhamos e morremos dentro do tempo. O tempo é um dos deuses que rege o nosso deambular por este mundo que nos é tão familiar quanto misterioso. Neste diapasão, ainda em “O Profeta” Khalil afirma:

“Gostaríeis de medir o tempo, o ilimitado e o incomensurável.

Gostaríeis de ajustar vosso comportamento e mesmo de reger o curso de vossas almas de acordo com as horas e as estações.

Do tempo gostaríeis de fazer um rio, na margem do qual vos sentareis para observar correr as águas.

(…)

E sabe que ontem é apenas a recordação de hoje e amanhã, o sonho de hoje,

E que aquilo que canta e medita em vós continua a morar dentro daquele primeiro momento em que as estrelas foram semeadas no espaço.”

O prazer é a vibração do bem e do belo; é o entusiasmo da vida manifestado no corpo e no espírito humanos. O prazer é o clímax da liberdade no processo de recriação do mundo. O prazer é a comunhão do espírito com o universo. E Kahlil Gibran como que a concordar comigo vai mais longe ainda:

 “O prazer é uma canção de liberdade,

Mas não é a liberdade.

É o desabrochar de vossos desejos,

Mas não o seu fruto.

É um abismo olhando para o cume,

Mas não é nem o abismo nem o cume.

É o engaiolado ganhando o espaço.

Mas não é o espaço que o envolve.

Sim, na verdade, o prazer é uma canção de liberdade.”

Dentre os ensinamentos do personagem Al Mustafá, contidos em “O Profeta” que é, na realidade, o profeta descrito no livro, há um que acho interessante que é aquele que fala das crianças (nossos filhos). Gibran, neste caso, diz-nos que os filhos não são, por assim dizer, pertences dos pais. Uma vez, estes filhos, dotados de livre arbítrio, os pais devem apenas protegê-los e encaminhá-los na vida, mas sem nunca impor-lhes sobre suas escolhas, sejam elas filosóficas, religiosas, ideológicas ou mesmo de opinião.

“Os vossos filhos não são vossos filhos.

São os filhos e as filhas da Vida que anseia por si mesma.

Eles vêm através vós, mas não de vós.

E embora estejam convosco não vos pertecem.

Podeis dar-lhes o vosso amor, mas não os vossos pensamentos, pois eles têm os seus

Próprios pensamentos.

Podeis abrigar os seus corpos, mas não as suas almas.

Pois as suas almas vivem na casa do amanhã, que vós não podereis visitar, nem em sonhos.

Podereis tentar ser como eles, mas não tenteis torná-los como vós.

Pois a vida não anda para trás nem se detém no ontem”

 “Asas Partidas” é uma novela de amor, autobiográfica, aliás, como quase toda a obra de Gibran. São relatos do seu primeiro amor quando tinha 18 anos. Das milhentas definições que possa ter, o amor é um repositório de felicidade e também de angústias. O amor é como a “energia escura” que não interage com a matéria, embora compenetrando-a, envolvendo-a, influenciando-a. O amor (in)depende da pessoa/objecto amado, pois na sua (in)temporalidade actua sempre enquanto dura; ele é a luz em potência, que tanto pode iluminar como pode escurecer o nosso espírito. Neste alinhamento, Khalil Gibran revela-nos:

“Não sei. Mas sei que naquele entardecer fui invadido por sentimentos que jamais conhecera antes. Moviam-se em volta do meu coração como as almas devem ter esvoaçado por cima dos abismos antes da aurora dos tempos. Daquele sentimento, nasceram tanto minha felicidade como minha desgraça.”   

Mas quando o amor se revela num poeta de forma directa e instantânea como um raio de trovão, torna esse momento, essa ocorrência, não só absolutos em si mesmos como também eternos na sua duração relativa, tal como acontece nos instantes da criação poética quando o poema começa a ganhar corpo e substância. Sem dúvida, são realmente momentos únicos de esplendor e totalidade. E Khalil Gibran, ainda em “Asas Partidas”, quando conhece e se apaixona pela Selma – seu primeiro amor -, vive justamente o mesmo sentimento:

“A moça olhou intensamente nos meus olhos como se quisesse descobrir neles o motivo da minha visita. Depois, estendeu-me a mão, branca e macia como os lírios do vale. Senti, ao apertá-la, um sentimento novo e estranho, similar ao pensamento poético quando começa a formar-se na imaginação.”

Gosto de poetas, mas daqueles poetas maiores, como Gibran, que definem assim a beleza duma mulher, ou seja, a beleza por detrás da beleza duma mulher: “A beleza de Selma não estava no seu cabelo dourado, mas no halo de pureza que o rodeava. Não estava nos olhos, mas na luz que emanava dos olhos. E não estava nos lábios, mas na doçura que deles fluía; (…) A beleza de Selma na estava na perfeição do seu corpo, mas na nobreza de sua alma, uma chama branca que se elevava da terra para o infinito. A beleza de Selma vinha da mesma fonte que produz o génio poético, cujos reflexos encontramos nos poemas semíticos e nas pinturas e músicas imortais.”

Este grande e multifacetado poeta libanês, que também foi pintor, ensaísta, novelista e filósofo liberal, faleceu a 10 de abril de 1931 em Nova Iorque e, a seu pedido quando em vida, foi sepultado em Bsharri, no Líbano. O seu corpo foi recebido em festa, pois era o filho de regresso à terra que o vira nascer a 6 de janeiro de 1883.

O homem que no seu âmago não tenha música/

E que não se comova com a harmonia de sons melodiosos,/

Está pronto para traições, estratagemas e pilhagens.

William Shakespeare

 

No livro O mercador de Veneza, de William Shakespeare, a personagem Jéssica, filha de Shylock (um judeu), diz, a certa altura: “Não me sinto alegre quando ouço música sentimental”. Em resposta à sua noiva, Lourenço afirma austero: “O homem que no seu âmago não tenha música/ E que não se comova com a harmonia de sons melodiosos,/ Está pronto para traições, estratagemas e pilhagens,/ Os impulsos do seu espírito são escuros como a noite,/ E as suas afeições tenebrosas como Érebros/ Que não se confie em semelhante homem… Ouçamos a música”.

Como que a seguir a sugestão daquela personagem gerada nos finais do séc. XVI, de modo a estar-se bem longe de traições, estratagemas e pilhagens, ouvi música. Boa música! Feita por moçambicanos que acrescentam outros valores à arte nacional. No primeiro plano, “Madre Aya”, de Michel William, que vive e trabalha em Portugal. A música faz parte do álbum I’ve got a plan, constituído por 11 temas, entre os quais, por exemplo, “Don’t be blind”, “Obaia Mantra”, “Oh mama” ou “Ouve o grito”.

Em três minutos e quinze segundos, Michel William produz em “Madre Aya” qualquer coisa de penetrante, harmonizando, ao nível temático, traços típicos do sermão com uma visão vanguardista em relação à vida. Nisso a emoção, elemento chave em qualquer obra de arte, é essencial. Ou seja, almejando transmitir uma mensagem voltada para a purificação do coração do ser humano, o cantor e compositor constrói nas notas da sua guitarra, aparentemente acústica, o princípio de um diálogo entre um sujeito virtual e um receptor que se pretende bem real. “Madre Aya”, a partir de uma letra e execução instrumental simples, é uma música motivacional – sentimental, se quisermos parafrasear Jéssica –, que parte da experiência do “eu” para atingir as sociedades.   

“Madre Aya” deve ser a música mais bonita do I’ve got a plan, também pela particularidade de, num mundo com tanto caos, ainda conseguir iluminar a lâmpada da esperança, da determinação e do afecto. Ali a felicidade é uma finalidade, que, absolutamente, depende do indivíduo: “O paraíso na terra é se eu quiser”. A partir desse excerto, a música de Michel William pluraliza o discurso que se adivinha promissor para a Humanidade. Isto é, se cada indivíduo quiser fazer da terra um paraíso o mundo torna-se mais habitável e, eventualmente, menos aborrecido para a maioria.

O que se destaca em Michel William em termos de mensagem para um destinatário colectivo, observa-se igualmente em Deltino Guerreiro. Como calha em “Madre Aya”, no seu novo single, “Com amor se paga”, o autor do álbum Eparaka identifica no amor pelo próximo uma razão da vida. Fundamentalmente, a música condena o materialismo excêntrico, que põe em causa todos os valores atinentes ao altruísmo. No lugar do Metical, em Deltino Guerreiro o sorriso é mais relevante, daí quem nos canta nunca compreender a razão dos seus vizinhos e conhecidos quererem pagar por uma ajuda desinteressada: “Amor com amor se paga. Eu não quero mais nada. Se te dei amor, me paga com amor”.

Na música de Deltino Guerreiro são evidenciados os propósitos que movem a comunidade no sentido mais autêntico: a solidariedade, a partilha dos problemas e dos sucessos. Atento ao ritmo do mundo, “Com amor se paga” apresenta-se como uma proposta com essa pretensão de reaver a lógica da fraternidade a esfumar-se um pouco por todo lado. Quatro minutos e catorze segundos foram suficientes para Deltino Guerreiro opor o bem e o mal numa perspectiva correctiva.  

Quer em termos temáticos, quer em termos rítmicos, “Com amor se paga” é uma convocação para um espaço, no qual “o amor não deve ter câmbio”, está acima de todas as coisas efémeras e redundantes. Com efeito, os sons da percussão adiciona esse carácter afro alguma coisa que se funde perfeitamente com o RAP, na colaboração com Azagaia.

“Madre Aya” é uma música mais serena, para ouvir e desejar chorar na visualização de um lugar ideal, que pode ser onde se está: o paraíso. “Com amor se paga” não coloca possibilidades sobre – entenda-se a metáfora – o paraíso ser onde se está. O espaço é coisa acabada, o que não está é a(s) pessoa(s), que sempre pode(m) ser melhor(es) para habitar(em) o paraíso que tanto procura(m). Nos dois casos, claro está, a música é a letra com um propósito: colorir o mundo cinzento que há em nós.

A vontade de Deus jamais nos levará aonde a sua graça não nos pode alcançar;

Chico Xavier

 

O cinzento do céu e os tenebrosos relâmpagos prolongaram, por mais algumas horas, o tempo de trabalho de Marisa. Quando se apercebeu que as águas que seguiram a tempestade cairiam por mais tempo do que o esperado, ela decidiu retornar à casa.

Voltar a casa transformou-se num calvário diário para Marisa. De dia, mulher bem-sucedida, directora de uma das empresas cita na majestosa cadeia dos edifícios mais luxuosos do país, mas, ao cair do sol, ela arrependia-se por estar viva.

Os vidros escuros do seu carro testemunharam o diário funeral do olhar altivo e dominante que reinava durante o dia. Os dias eram todos iguais, sem nada de novo para viver. Quis o destino que aquele dia fosse diferente. O destino, justamente ele, que ela tanto odiava.

Ao parar o seu carro ao lado dum jardim, que ficava a escassos metros dos edifícios onde ela trabalhava, viu uma criança que tentava, a luz dos faróis dos carros, usar um papelão como colchão e um plástico como manta para que as águas da chuva não o atingissem.

Marisa tentou ignorá-lo, mas as forças invisíveis da natureza, novamente, não colaboraram. Uma árvore caíra perto do semáforo impedindo momentaneamente a progressão das viaturas que já se tinham enfileirado, daqueles eventos típicos em dias de chuva. Minutos passaram-se e, por detrás dos vidros escuros, Marisa continuava a observar o rapaz que empenhava-se cada vez mais em evitar que as águas da chuva o atingissem. Foi nessa incomum atenção que a mulher se apercebeu que jaziam, na face do menino, pequenas gotículas de água. Não era, indubitavelmente, a água da chuva que escorria pela sua face, ela conhecia aquele estado. Era febre.

Subitamente uma preocupação tomou conta de si, reflexões que nunca tivera invadiram a sua mente. Como é que aquele menino foi parar na rua? Os seus pais? Os familiares? Se realmente ele estiver doente, quem o socorrerá sob aquela chuva? A mulher olhou a volta e enxergou que o mundo continuava a girar e as pessoas continuavam a sua vida normalmente ignorando aquela situação. Ela também o fizera durante a vida toda.

Já na casa dos 40, os eventos da sua vida a ensinaram a ter sensibilidade para aqueles casos, porém, ela continuava sem saber o que fazer. Ficou por muito tempo a pensar, a ponderar diversas hipóteses, que nem se apercebeu que os restos da árvore tinham sido removidos e o tráfego fora reestabelecido. Foi o ruído das buzinas dos outros carros que a fizeram retornar à terra.

Movida pelo instinto, a mulher decidiu encostar o carro e chegar perto do menino. Ao abrir a porta do carro teve consciência do quão frio estava no exterior e do quão necessitado aquele menino, provavelmente, estava.

Ao se dar conta da presença da elegante mulher, o menino tentou reagir, mas em vão. A febre não o deixou. Pacificamente o menino deixou-se levar pela mulher e enroscou-se no seu colo enquanto era transportado para o banco traseiro do carro. Nem as lendárias histórias do Tatá Mamã e Tatá Papá o assustaram, afinal isso só servia para quem tinha pai e mãe.

Ao chegar a casa, apesar de ter o banco traseiro do seu carro inundado, a mulher sentia-se renovada, tinha um motivo para viver. A casa não estava mais vazia. Lembrou-se, por instantes dos tempos em que ela andou cheia, com brinquedos a voar por todo lado, as colunas a expelirem um som alto, o uísque a marcar o seu território no odor da casa, a cheirosa comida do entardecer pronta na mesa para, em família ser devorada…  Apressou-se em colocar o menino na banheira, imergindo-o de seguida em água morna. No fogão estava em ebulição uma sopa de legumes, que a fez lembrar do sr. Martinho que, sempre solícito, deixava todo santo dia uma sopa no fogão. Sorriu ao lembrar como ela era feliz e uma lágrima escorreu-lhe o rosto ao lembrar como, num sopro, a vida fora dura com ela. 

Enquanto Marisa empenhava-se em lavá-lo à banheira, o menino mantinha os olhos fixos nela. Parecia querer falar com ela, mas algo o impedia. A mulher pegou nos pés do menino, analisou a sua altura, adivinhou a sua idade. Ele deveria ter entre 7 e 8 invernos. Marisa caminhou lentamente para o compartimento esquecido, o quarto proibido, onde reinavam as memórias mais doces e mais tenebrosas da sua vida. De lá trouxe algumas roupas, bem engomadas e cheirosas, todas coloridas que serviram na perfeição o menino, dos pés a cabeça.  Amaldiçoou a perfeita coincidência.

Encaminhou o rapaz para a sala de estar e o pousou no sofá. “Ainda consigo”, pensou ela. Foi buscar a sopa e, colher a colher, foi o dando de comer e ele a saboreava no silêncio dos deuses e no final deu-lhe um analgésico. Marisa não insistia que ele falasse e o menino continuava sempre com o olhar fixo nela e um sorriso misterioso.

Marisa foi novamente ao quarto proibido e desta vez trouxe consigo um cobertor. Colocou sobre o rapaz que, sem nenhuma resistência, deitou-se no sofá. Voltou a passar-lhe a mão na cabeça e no seu pescoço e, para a sua alegria, certificou-se que a febre baixara. Desajeitadamente ela deu um beijo na testa dele e ele a puxou para um abraço mais demorado. Marisa sentiu uma energia passar entre os dois e uma paz interior a invadiu.

No corredor, em direcção ao seu quarto, a choradeira foi inevitável. Em silêncio, gritou, deixou as lágrimas escorrerem-lhe o rosto, deixou a dor desvanecer, um sentimento há muito sedimentado em seu coração. Agachou-se, viu as águas da chuva escorrerem pela janela, lembrou-se do dia em que o seu filho foi diagnosticado um cancro em fase terminal, lembrou-se do momento em que lhe disseram que sobravam-lhe apenas dois meses e, no final das contas, tudo resumiu-se em apenas um mês. Marisa chorou, chorou como no dia em que velou o próprio filho diante de uma plateia de olhares acusadores.  Desta vez já não chorava em silêncio, gritava como uma criança.

Os dias seguintes ao velório foram tenebrosos. O Marido foi o primeiro a quebrar silêncio, segurou nas suas malas e saiu de casa. Culpou-a pela morte do filho, o único herdeiro. Acusou-a de se concentrar demais no trabalho e de ignorar os sinais de uma doença que há muito consumia o rapaz.

Marisa desistiu de ir ao seu quarto, foi novamente ao quarto proibido. Dispensara, logo após o trágico evento, o sr. Martinho, fiel zelador da casa, e abraçara a solidão desde então. Cheirou, ainda em pranto, as roupas do falecido filho. Se tivesse prestado mais atenção nele, se tivesse faltado àquela reunião, se tivesse adiado àquela viagem, se tivesse cancelado àquela formação, certamente o teria levado mais cedo para o hospital e provavelmente ele estaria, naquele dia, correndo pela casa. Ela era a culpada, a única culpada daquilo tudo, como se o filho fosse somente dela e, foi no meio da choradeira e do cansaço que ela pegou no sono, ali mesmo, naquele quarto.

Marisa acordou no dia seguinte sob o barulho da diarista que vinha zelar pela casa. Atordoada foi a correr para a sala e não havia nenhum sinal do rapaz. Questionou a diarista e ela disse que não vira ninguém e não havia nenhum rasto de sopa no fogão e nem loiça suja, que tudo estava como ela deixara no dia anterior. Correu para o carro…. Estava seco, sem sinal de ninguém ter estado lá. Recorreu as camaras de vigilância e, infelizmente, tiveram um apagão de cerca de duas horas que foi devidamente justificado pela direcção do condomínio. O porteiro não pôde atestar se ela estava só ou não, pois, os vidros do seu carro eram escuros.

Marisa percorreu desesperada a casa toda a procura de algum sinal da presença daquele rapaz e quanto mais procurava nada encontrava. Desesperada voltou para o quarto do falecido filho e procurou pela roupa que ela vestira o rapaz. A roupa estava lá, engomada e bem cheirosa, como se ninguém a tivesse mexido. Terá sido apenas um sonho? Não! Marisa jurava que não. Remexeu nos bolsos da calça que vestira o rapaz e lá encontrava-se um bilhete. Marisa leu-o, como se fosse um poema. Olhou para o alto, agradeceu e pôs-se novamente a chorar.

Um ano depois Marisa dava entrada na sala do parto para, mais uma vez, dar à luz a uma nova vida. Quando dava o grito final relembrou-se do escrito no bilhete.

Mãe, não foste a culpada. Os desígnios de Deus são sempre incompreensíveis aos corações humanos. Obrigado pela sopa, estava boa, como sempre me habituaste.

Mãe…. voltarei, e vamos começar tudo de novo, desta vez rodeados de pessoas que confiam em ti e apoiem os teus sonhos

 

Quando se deu por terminado o período da Guerra-Fria em 1989, depois de intensos anos de rivalidade entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas (URSS), representando o bloco Capitalista e Socialista, respectivamente, vozes apareceram a tentar descrever o que seria a Nova Ordem Mundial (NOM) sob ponto de vista de actores, estrutura do Sistema e Agenda Internacional. Dentre estas vozes, destacam-se de três autores, Fukuyama, Huntington e Kissinger. Para este artigo, interessa questionar o primeiro e provavelmente o mais peremptório na descrição da NOM.

Fukuyama em seu artigo “O Fim da História?” escrito em 1989, que culminou com a publicação do livro “O Fim da História e o Último Homem” publicado em 1992, procurou desenhar aquilo que para ele seria o fim do processo evolutivo da humanidade, e tal, seriam a Democracia e a Economia Liberais.

Em sua obra, Fukuyama baseia o seu pensamento nos debates de Hegel e Karl Marx, filósofos que abordaram também esta questão usando a terminologia fim da história, no sentido em que, este fim da história seria quando a humanidade tivesse satisfeito os seus profundos e mais fundamentais desejos. Para Hegel, o fim da história seria o Estado Liberal, enquanto para Marx, seria a Sociedade Comunista.

 Fukuyama, tendo visto estas duas formas de governo digladiarem-se durante a Guerra-Fria, e tendo visto a Democracia Liberal se sair vencedora, teria concluído categoricamente que este seria o fim da história, portanto colocando fim ao debate dos seus predecessores. Para a nova era, Fukuyama previu um mundo que, sob ponto de vista de actores, teria vários actores, ou seja, seria multipolar. Contudo, haveria uma predominância dos Estados Unidos da América (EUA), no sentido em que, as fragilidades dos outros actores irão perpetuar o domínio dos EUA, que é a maior Democracia Liberal existente.

Sob ponto de vista de Paz e Segurança, Fukuyama trouxe-nos a visão Hegeliana da luta pelo reconhecimento, que na ordem normal conduz os Estados à uma luta generalizada pela supremacia. Mas com o liberalismo promovido pelos EUA, esse simples desejo pelo reconhecimento condutor à conflitos, é substituído pelo desejo irracional de ser reconhecido igual diante dos outros, pelo reconhecimento da legitimidade por outros Estados. Com isso, Fukuyama viu a Nova Ordem Mundial como uma boa nova, pelo facto de haver uma universalização destes valores liberais, o que seguindo a lógica de Kant e reiterada pelo próprio Fukuyama, é positivo, dado que as democracias liberais não se digladiam.

Com a eclosão do Corona vírus, ou Covid-19, em Janeiro de 2020, uma pandemia de nível mundial com origem em Wuhan, na China, que até finais de Abril já havia atingido mais de 1 milhão de pessoas e morto cerca de 64 mil, tendo como países mais afectados os EUA, a itália e Espanha, foram sendo reveladas as ineficiências do sistema liberal, os problemas de solidariedade liberal existentes e permitiu o reposicionamento da China e da Rússia como as principais referências de uma liderança global depois de muito tempo de dominação dos EUA e dos países europeus, contrariando totalmente o que Francis Fukuyama vaticinara em 1992.

A crise do modelo liberal de economia e de vida é de longe uma consequência do Corona Virus. Os seus problemas já se vêm revelando desde as arbitrariedades da invasão americana ao Iraque em 2013 e se prolongaram até à invasão à Líbia em 2011, deixando para trás nada mais do que rastos de destruição em Estados que apesar de problemas nos seus modelos de liderança, conheciam níveis de vida muito melhores do que de democracias liberais consolidadas. A hipocrisia revelada ao estabelecer relações de amizade com autocracias como da Arábia Saudita, é prova das incorrespondências entre o discurso e a acção da maior liderança do modelo liberal, os EUA. Fazendo vincar a máxima realista de que os Estados guiam-se puramente por interesses e pelo desejo de domínio ou exercício de poder sobre os demais Estados, e quando for favorável, aliam-se à qualquer tipo de regime.

A crise económica eclodida em 2008, que afectou as principais economias Ocidentais, as crises internas nos Estados Ocidentais, o contínuo envolvimento em conflitos, seja de forma directa ou indirecta, sem dúvidas levantaram questionamento não só da natureza pacifista do modelo liberal mas também da sua sustentabilidade. Sobretudo num período em que a China, por outro lado, ia aumentando e consolidando a sua influência global através da Estratégia de “Ascensão Pacífica” enunciada em 2003, e catapultada pela iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” que se materializa através de investimentos e desenvolvimento de infra-estruturas em mais de 70 países.  

Os EUA, acordando para esta inevitável conquista chinesa do mundo, iniciou um processo revisionista liderado pelo presidente Donald Trump, que consistia em rever os principais acordos comerciais dos EUA, já começando pelo banimento do Trans-pacific Partrnership (TPP) em 2017, revisão dos acordos comerciais com o Canadá e Mexico, bem como com a União Europeia e com a China. Com este último deflagrou um conflito comercial que gerou muita perda económica aos dois Estados e ao mundo no geral. Está subjacente neste revisionismo a ideia de que os EUA precisavam tornar a América grande novamente, mas isso começaria por emendar as relações comerciais que estavam a ser feitas às expensas dos mesmos. Ainda neste processo, os EUA exigiram maiores direitos na Organização das Nações Unidas (ONU), sendo que são o principal financiador.

Todas estas manobras iniciadas por Trump eram na tentativa de adiar o inevitável, a perda significativa do poder americano no mundo, atrelada à crise do modelo neoliberal como principal referência de crescimento das economias, que nos últimos anos produziu mais diferenças sociais do que benefícios para os seus povos – no contexto do corona vírus mais de 10 milhões de pessoas foram levadas ao desemprego nos EUA. Portanto, o que para Fukuyama parecia certo, era que este modelo continuaria a prosperar garantindo paz e desenvolvimento para todos os Estados do mundo. Entretanto, o que se vê hoje em dia é o modelo misto de Estado centralizado e economia liberalizada adoptado pela China e pela Rússia a florescer e a conquistar progressivamente o mundo.

Na conjuntura actual em que vivemos, a China e Rússia não só mostraram resolução e liderança global para lidar com uma pandemia que tinha potencial de atingir proporções gigantescas nos seus territórios, como também revelaram os desajustes e incompetências existentes nos seus pares ocidentais para salvaguardar os seus nacionais. E isto justifica-se pela evolução rápida das infecções e mortes nos EUA, Itália e Espanha. Actualmente, assumindo o papel antes assumido pelas potências ocidentais, a China e a Rússia prestam apoio ao mundo e aos seus mais directos contendentes, como os EUA e Estados europeus. Ademais, países na sua linha de orientação apresentam sinais claros de capacidade para apoiar os demais Estados do eixo-ocidental, é o caso da Cuba a prestar apoio à Italia e ao Reino Unido, enquanto a Itália reclama indiferença dos seus pares da União Europeia na oferta de assistência básica para o combate ao Covid-19. Portanto, se em 1992 Francis Fukuyama vaticinou o fim da história, a história nega-se a vergar à sua própria condenação, mostrando que à ela não se lhe pode colocar ponto final, pois ela é cíclica e o ciclo de domínio do modelo neoliberal a nível global parece estar a conhecer os seus piores momentos, senão o seu fim.

 

Rufino Sitoe: Analista político, docente e pesquisador da Universidade Joaquim Chissano

 

Por debaixo da ferida rançosa que cobre a cidade, mais do que tudo, salta à vista o medo do perecimento de uma espécie que duvida de sua eternidade autoconcedida. Talvez o silêncio destes tempos, ainda que seja efémero, cure os cancros de um planeta adoecido por excessos. Mais funesto que o distanciamento social no qual a cidade vive é demasiado doloroso o isolamento afectivo.

Pequenas gotas de chuva vão regando o fim de tarde de uma Primavera gelada e silenciada pela pandemia. As ruas estão vazias e um céu parcialmente nublado oculta as estrelas zonzas que lutam para dar as caras. Andamos todos num luto imposto; quando é que o luto não é imposto?

Um prédio amarelo continua sendo a única lanterna deste bairro periférico. Tem cinco pisos, cada um com as suas misérias. Um desses pombos que guardam a cidade bate as asas e levanta voo. Quase com o corpo no fim do prédio, o pequerrucho pára numa das janelas do quinto piso e fixa os olhos num miúdo de aproximadamente seis anos que se esforça para ignorar a realidade. O miúdo conduz o seu carro no chão da sala; brinca, mas sem conseguir esconder o semblante triste. O cheiro de cebola a apodrecer, na estante presa à parede da cozinha, vai infestando o fim de tarde.

De repente, um daqueles sons humanos que despertam a atenção de qualquer pessoa invade a sala através da porta do quarto, é um grunhido doloroso. Desde que amanheceu, o estado clínico da mulher que definha nos lençóis floridos da cama se deteriorou. É tão cinzenta a alma de um doente!

Perdeu a noção do tempo que passou desde que está deitada. Nem sequer se lembra que há cinco dias a cabeça foi tomada por fortes dores. Nem sequer se lembra que no meio de um sonho preso em calafrios perguntou-se quantos espíritos tinha no corpo. Nem sequer se lembra da cor creme das paredes que dão luz ao quarto. Não se lembra de nada, apenas grunhe e vê a viagem que se aproxima.   

O miúdo suspende a viagem que faz no chão da sala; pára de conduzir o seu pequeno carro. Ninguém consegue se concentrar por muito tempo com isto tudo a acontecer.  A cada segundo que passa, respirar é um sacrifício para a mulher; o bicho parece ir lhe fodendo os pulmões; ela dá luta, embora os grunhidos que lhe saem por todo o corpo se assemelhem aos de um asmático na última agonia. De vez em quando tudo pára e recomeça com fortes sessões de tosses que lhe deixam com um peito em chamas como o interior de um vulcão. O miúdo levanta-se e apoia-se ao corpo gordo do pai que lhe passa a mão grossa nos seus cabelos escuros. Enquanto duas filas de lágrimas grossas enchem a bagageira do carro, pergunta aos soluços

a mamã vai ficar bem?

O homem tira a mão dos cabelos do miúdo, enxuga as lágrimas que descem lentamente a face e diz

a mamã vai ficar bem, meu filho.

Enquanto o diz, ouve o som da campainha a tocar. São eles, pensa o pai do miúdo. O semblante não engana o seu estado de alma; se mantém altivo, mas está destroçado. Nunca é fácil ver uma pessoa amada a perecer. Se afasta do miúdo e rapidamente vai abrir a porta.

Muitos dos que nos precederam não esqueceram os seus anos de pestes. Poucos de nós apagaremos da memória os pedregulhos deste ano, cujas chamas desafiam a eternidade.

Cinco pessoas que trazem trajes verde brancas que cobrem o corpo inteiro e máscaras brancas que tapam a face entram na casa. O primeiro, sem cerimónias, pergunta onde está a doente. O pai do miúdo aponta para a direcção de onde vem os grunhidos. Três dos quatro homens que acabam de entrar seguem de imediato, com uma maca hospitalar, em direcção ao quarto. O primeiro homem a entrar na casa, o chefe da equipe médica, diz ao pai do miúdo

  vocês tiveram contacto com ela nos últimos dias. Provavelmente estão infectados. Também terão de vir connosco ao hospital.

O pai do miúdo parece que vai dizer alguma coisa, mas apenas deixa cair lágrimas apressadas e corre ao quarto quando ouve uma voz sobressaltada a gritar

ela está inconsciente, doutor Padilha.  

À Amina,

que a pouco chegou ao mundo

e já lhe andam à volta algumas coroas

 

— Pai, por que lhe chamam quarentena? — sentada no tapete de linóleo da sala de estar, perguntou a minha filha mais nova, a Amina, enquanto penteava delicadamente o cabelo da Sushi, sua companheira de todos os segundos, uma boneca que difere da Lília e do Rafa, primeiro por ser feita de pano, segundo por não trazer roupas aos corpo, terceiro e quarto por ter apenas um olho de botão e estar sempre a sorrir de orelha a orelha embora não tenha orelha alguma.

— Assim lhe chamam — disse-lhe, ajeitando os meus óculos com lente de fundo de garrafa —, porque há muito, muito tempo, muito antes dos avós dos teus avós terem nascido, numa cidade europeia chamada Veneza, os navios que vinham de lugares que sofriam de uma doença muito má chamada Peste Negra eram obrigados a esperar quarenta dias antes de atracarem no porto daquela cidade italiana.

— Entendi. Mais… ou… menos. Mas, pai!

— Sim, filha.

— A nossa casa é um navio?

— É claro que não. Nem sequer vivemos sobre a água. Mas onde é que tiraste essa ideia?

— É que a mãe disse-me, hoje cedo, porque estamos em quarentena, não podemos sair para fora de casa.

— E ela tem toda a razão do mundo.

— Não entendo, pai.

— O que não entendes, minha filha?

— Por que razão tenho eu de sofrer hoje por algo que aconteceu antes dos avós dos meus avós terem nascidos?

— Olha, filha! Nós não vivemos em Veneza. E a nossa quarentena não tem nada a ver com a Peste Negra. A verdade é que o tempo faz as coisas mudarem. De tamanho. De significado. E de outras coisas mais. Hoje, por exemplo, és pequenininha, mais ou menos do tamanho do meu travesseiro. Contudo já foste do tamanho de um camarãozinho. Com o passar do tempo, como sem dúvida a vida te vai mostrar, num piscar e abrir de olhos já terás o tamanho do Christian, depois do Laerty, não tardando que sejas tão alta quanto a tua irmã mais velha, a mana Naycha.

— E a Sushi, também irá crescer?

— Sim. Do jeito dela. Mas também irá crescer.

— E como é que as bonecas crescem?

— As bonecas não crescem como as pessoas. Elas não mudam de tamanho. Apenas mudam de significados aos olhos das pessoas que gostam delas.

— Para mim, a Sushi será sempre a Sushi: o mesmo tamanho e o mesmo significado.

— Fico feliz por ti.

— E eu e a Sushi agradecemos. Continuando…

— Ah, sim. Como eu ia dizendo, as pessoas crescem, para não dizer que mudam, e as palavras não ficam atrás.

— O pai quer dizer que a palavra quarentena não tem o mesmo significado que tinha antes dos avós dos meus avós terem nascido?

— Na mosca. Hoje, quarentena significa o tempo que as pessoas suspeitas de terem uma certa doença têm de ficar isoladas até que se tenha certeza que elas não estão doente.

— E os quarenta dias da época da tal Peste Negra: ainda continuam?

— Não. O tempo de quarentena é determinado pelo tempo de incubação da doença.

— Tempo de incubação?

— Desculpa, filha. Às vezes me esqueço que ainda tens de crescer. Tempo de incubação é o período necessário para o aparecimento dos primeiros sintomas de alguma doença.

— Então, estar em quarentena não é mesmo que ficar quarenta dias em casa?

— Não. A nossa quarentena, por exemplo, terá a duração de catorze dias, que corresponde ao período de incubação da doença de nome bonito, como lhe gostas de chamar.

— Viu, Sushi! — E a Amina passou o polegar pelo olho de botão da sua boneca, enquanto dizia: — Não há como não ter orgulho de um pai que nos fala de coisas que não sabemos.

— E eu digo mais ou menos a mesma coisa: não há como um pai não se encantar com a vida, tendo uma filha que lhe faz falar de coisas que ele também não sabia que sabia.

Tornei o corpo e os olhos para o ecrã do computador sobre a escrivaninha. Foi bom ter relaxado. Já me doía o pescoço. E sobre ele tenho a dizer alguma coisa, ou seja, existem pais que, para aliviar as suas dores, prefiram ir a uma farmácia ou a um hospital. Comigo é diferente. Eu já sei que as nossas casas escondem remédios naturais para muitas enfermidades do corpo e da alma — brincar com os nossos filhos.

— Pai! — disse a Amina, enquanto eu terminava a frase que me faltava para enviar o e-mail que o meu superior hierárquico pedira.

— Sim, filha — correspondi-lhe depois de fechar o computador novamente, para virar o corpo para a minha filha e a seguir, os olhos para a Sushi.

— Que idade tem a mãe?

— Quarenta.

— E a mana Naycha?

— Catorze.

— Por que então chamam à mãe de quarentona e à mana Naycha, de catorzinha?

— Por que os adultos adoram tornar as coisas difíceis.

— Os adultos deviam ser como as crianças, simplificar sempre, até o mais simples.

— E como é que a minha querida filha simplificaria o problema que viu nas palavras quarentona e catorzinha?

— Não seria mais fácil chamar-lhes apenas quarentona e cartozona ou quarentoninha e cartorzinha? — Meneei a cabeça, como se abrisse espaço para pensar mais a fundo no que acabava de ouvir. — E tem mais — disse ela, olhando depois para a Sushi com olhos iriados de brilho. — A partir de hoje, nós não estamos em quarentena; estamos em catorzena.

           

 

 

O obituário refere 1941-2020 como espaço temporal da passagem do Professor Carlos Serra pelo planeta terra e Moçambique. Também, faz alusão à Tete como a cidade onde ficou enterrado seu cordão umbilical. Todavia, algo deve estar errado! O Professor Carlos Serra, um dos mais profícuos e engajados intelectuais moçambicanos, não partiu para lugar algum. Ele permanece imortal e devoto às análises epistemológicas. Carlos Serra, no jeito Samoriano, não poderá, nunca, despedir-se da sua terra, dos seus estudantes e seguidores.

Ao redigir esta evocação, das mais complexas que alguma vez pude fazer, evitei a expressão “Pai da Sociologia Moçambicana”. Não é que eu tenha dúvidas dessa paternidade, como os sociólogos locais assim o apelidam, mas não queria, pelas experiências anteriores, recriar, bem no modelo político nacional, mais uma paternidade para designações comuns. Porém, concordo, salvaguardadas as devidas proporções, que o Professor Carlos Serra, a seu tempo e espaço, contribuiu, como ninguém, para recriar esta sociedade. De todos, se faz um país e, o bom do Professor interpretou e desmistificou realidades sociais complexas que, de outro modo, teriam passado inexplicadas.

Não fazia ideia que o haviam tratado por obstinado e excêntrico, em algum momento da sua intensa e bem vivida carreira. Mas, ele era um nacionalista, convicto e livre. Foi assim quando sentiu que o fervor azul da revolução conduzia, irremediavelmente, a uma aceitação e esquecimento colectivos e pacíficos da história de Moçambique, pela história da revolução e dos 10 anos de luta de libertação nacional.

Temia que perdíamos a capacidade de questionar e ajuizar as realidades sociais. Sem se eximir das suas responsabilidades, à semelhança do que propõe Noam Chomsky, “falar a verdade e expor mentiras dos governos”, o Professor foi escrevendo textos dilacerantes sobre a história pré-colonial moçambicana, para que não se deturpasse, nunca, uma historiografia secular prenhe de heróis e heroicidade, um percurso histórico de reinados e sultanatos memoráveis e inexpugnáveis. Nem se coibiu de pesquisar a essência do proto-nacionalismo, onde Kamba Simango se destacou não só pela sua tenacidade, mas, e principalmente, pelo seu academicismo.

Mas o Professor Carlos Serra não partiu, e deve estar, algures, repousando. Nos recusaremos, perpetuamente, a aceitar, de consciência, essa ausência física. Ainda acredito, talvez lunaticamente, que ele regressará, com os textos inéditos, com reflexões pertinentes e actuais, conclusões assertivas e, outros juízos de valor perspicazes. Regressará porque deixou inconcluída uma obra que pertence a este povo e país.

O Professor regressará para esclarecer a pandemia do coronavírus, o reacender dos discursos Samorianos nos chapas, os linchamentos que o “encrencado” sistema de justiça não consegue desvendar e travar, os raptos que estão na moda e, até, o entendimento sobre as igrejas pentecostais e profetas em períodos de mudanças climáticas. 

Professor Carlos Serra regressará mesmo, pois, ainda carece de autorizações para se ausentar. Carecemos todos de um entendimento sobre a fome, as epidemias, a inanição e a violência que perduraram, e algumas até prevalecem, incontroláveis, ao longo de milhares de anos. Esta natureza imperfeita, não aceita o domínio humano no modelo actual e, por isso, se rebela. Também, ele precisará de abordar o porquê de viveremos resguardados e com a sensação de que o mundo já não precisa dos humanos. Ou será que voltaremos a rezar aos deuses e anjos para nos salvarem?

Como forma de o honrar, teremos de resumir, em quatro ou cinco parágrafos, bem no seu estilo, a sua contribuição epistemológica. Resumir o deslumbramento dessa mente brilhante e preocupada. Dizer em duas palavras a chave e as soluções para todas as questões sociais, económicas e jurídicas. Para isso, serviram as oficinas de sociologia, uma das suas mais marcantes inovações.

Não resistiria, nestes resumos, de resgatar os dois volumes sobre a história de Moçambique que fizeram dele um historiador de referência e, dos estudantes, agentes activos de uma mudança que construiu Moçambique e suas gentes.  O blog e o diário de um sociólogo merecem referência. Pelo seu blog, antes bem mais visitado que agora, o Professor não se limitou a reproduzir conceitos, mas, antes, recriou um modelo híbrido e endógeno de observação e interpretação de alguns dos fenómenos sociais que marcaram os nossos anos de independência e liberdade.

Os textos mais científicos ou mais jornalísticos inspiraram e cimentaram o entendimento de que um sistema se alicerça muito para além da democracia representativa e de eleições multipartidárias. Para lá dessa linha de horizonte, existe um povo culturalmente maduro, uma classe média com valores e regras de conduta, uma massa também menos esclarecida, mas ciente das verdades mundanas e uma academia que procura firmar-se dentro e além-fronteiras. Enfim, existem as crenças, religiões, arte e vontade próprias. Todos nós procuramos, de forma incessante, rebuscar as fórmulas e os modelos que farão desta sociedade e país, um lugar de paz e prosperidade.

Também ficará órfã a página do Savana sem o Fungula Masso. Mas o Professor pregou-nos uma partida! Mudou-se para uma outra galáxia quando ainda precisava de finalizar um conjunto de cadernos de ciências sociais que, nos últimos anos, coordenou com mestria e habilidade. Cadernos que se converteram em manuais de consulta para todos os extractos sociais, com respostas simples sobre temas complexos. Esta colecção combinava simplicidade e rigor de autores de vários quadrantes do mundo, falantes de língua portuguesa. Qual constelação de pesquisadores espalhados pelo mundo e várias universidades! Ninguém conseguiria congregar tantas e mais variadas áreas de saber num projecto que tinha alma e espírito.

“Olá, muito bom dia, boa tarde ou boa noite, consoante o vosso fuso horário. Apenas para vos dizer que foram editados mais 5 livros da nossa colecção, com capas e contracapas em anexo……”. Era assim que ele aparecia em nossas telas, todas as semanas, solicitando os trabalhos e cuidando da posterior edição.  Nestes cadernos, seu último trabalho epistemológico de vulto, foram desconstruídas matérias eclécticas e complexas. O direito e a justiça, revisitou a pobreza e o porquê de continuarmos pobres, esgrimiu argumentos sobre ideologia e poder político, viajou no âmago da nossa sofrida educação e da violência sexual, enfim, pincelou as facetas sobre como se produz a cultura do medo e tantas outras coisas.

Estou convencido que ele andaria, bem no jeito dos heterónimos de Fernando Pessoa, dialogando sobre a insurgência de Cabo Delgado. Afinal, nem importa desbravar apenas o fenómeno, teremos de seguir por uma via de resolução de conflitos. Um país como o nosso merece paz, bem-estar e desenvolvimento social. Merecemos, todos, um Moçambique com as mesmas oportunidades e direitos.

Só mais um detalhe, obrigado pelos múltiplos conselhos sobre educação. Foi uma bênção ter sentado consigo para entender o porque do sistema educativo nacional ter colapsado. Ainda ecoa, pelos nossos ouvidos, a proposta de Pacto Nacional sobre educação, com especial atenção a ser dada a formação de professores. Onde quer que estejas, Professor Carlos Serra, repousa em paz e ao som do Soul Makossa de Manu Dibango.

Principiarei e culminarei o presente artigo opinativo com uma frase – da autoria de António de Oliveira Salazar, ex-estadista nacionalista português, já ido – a qual constituirá o espírito que me animará o âmago durante todo o transcurso do presente texto (sic): «aguardamos apenas a realização de condições convenientes para que o remédio não seja pior de sofrer do que o mal que se destina a curar».

A frase, ou melhor, o pensamento nela reflectido, surge a propósito dos “males” que a recente e inédita declaração do Estado de Emergência (constante do decreto-presidencial n.º 11/2020 e ratificado pela Lei n.º 1/2020) pretende “curar”, tendo em atenção às competências excepcionais atribuídas às Forças de Defesa e Segurança (FDS) destinadas a fiscalização das normas incorporadas na predita Lei.

No momento em que grafo o presente texto – 2 de Abril de 2020 – Moçambique vive o segundo dia de cumprimento das medidas adoptadas para vigorar no período de duração do Estado de Emergência, sendo que, paradoxalmente, já ecoam preocupantes relatos que apontam para uma exibição de excesso de zelo observado por parte das FDS – coadjuvados pela Polícia de Protecção (PRM) e Polícia Camarária – no âmbito da incumbência de executar as medidas decretadas, que lhes foi outorgada por intermedio do n.º 4 do artigo 3 do citado decreto-presidencial.

Sendo certo que, em conformidade com o estabelecido no preâmbulo do referido decreto-presidencial (sic): «tendo presente a alta de taxa de morbi-mortalidade e o impacto social e económico negativo que mesma provoca, mostra-se necessária a implementação urgente de medidas de contenção da propagação da doença, com vista a salvaguardar a vida e saúde pública» (fim de citação), houve necessidade de se determinar medidas limitativas de direitos e garantias individuais, constitucionalmente consagrados, e que o cumprimento de tais medidas assume uma dimensão fulcral visando evitar as maleitas atrás reproduzidas, e, por isso, o Estado viu-se, justificadamente, obrigado a manusear meios repressivos de carácter “anormal”, também é certo que a actuação dos retro mencionados meios devem ajustar-se adequada e perfeitamente dentro das fronteiras limítrofes estabelecidas no decreto-presidencial aqui sindicado.

Em condições normais, as tarefas de executar as medidas decretadas, excepcionalmente atribuídas às FDS durante a vigência do Estado de emergência, são exercidas pela PRM, designadamente, o Ramo da Polícia de Ordem e Segurança Pública (aqui, vale a pena recordar que a PRM contém ainda o Ramo da Polícia de Fronteiras e o Ramo da Polícia Costeira, Lacustre e Fluvial), em conformidade com as competências da PRM delineadas no artigo 14 da Lei n.º 16/2013 – Lei da PRM – e no artigo 10 do Estatuto Orgânico da PRM aprovado pelo Decreto n.º 58/2019.

Se confrontarmos as competências da PRM descritas nos compêndios legais referidos no parágrafo precedente com os princípios que regem a actuação as FDS, constantes da Lei n.º 18/2019 – Lei de revisão da Lei n.º 18/97, que aprova a Lei da Defesa Nacional e das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (LDNFADM), capta-se, essencialmente, que, por um lado, à PRM, cabem tarefas de prevenção e repressão à ordem e tranquilidade públicas, ou seja, tipicamente ligadas à segurança interna, e, por outro, às FDS, cabem, tarefas de âmbito militar, umbilicalmente vinculadas à salvaguarda da soberania, com a responsabilidade de assegurar a defesa militar da República de Moçambique contra qualquer ameaça ou agressão externas (n.º 1 do artigo 15 e n.º 1 do artigo 16, ambos da LDNFADM).

Traduzindo-se acepção de carácter insofismavelmente indiscutível que as FDS durante o Estado de Emergência, não actuam ao abrigo das suas atribuições originárias, mas sim recepcionam por empréstimo as atribuições da PRM, é pacífico e lógico afirmar, com certeza indubitável, que, durante aquele período, os limites de actuação das FDS, são os limites normais de actuação da PRM.

O que se disse acima, encontra respaldo no disposto no artigo 25 da LDNFADM cuja epígrafe é: “Emprego das Forças Armadas de Defesa de Moçambique no Estado de Sítio ou Estado de Emergência”, que preceitua que «as Forças Armadas de Defesa de Moçambique podem ser utilizadas na segurança interna nos casos em que os meios da polícia não podem fazer face à situação prevalecente».

Assim, conforme vínhamos defendendo, durante o período de vigência do Estado de Emergência, a amplitude, extensão e limites da actuação das FDS devem coincidir com os da PRM, previstos nos já citados artigo 14 da Lei da PRM e artigo 10 do Estatuto Orgânico da PRM.

Essencialmente, essa actuação – completamente deslocada daquela que se exigiria, por exemplo, num cenário de guerra (que ocasionaria um estado de sítio) – orienta-se de modo a garantir a ordem, segurança e tranquilidade públicas; protecção de pessoas e bens; prevenção de prática de crimes, contravenções e outros actos contrários à lei; observância e cumprimento de obrigações legais que regem a realização de reuniões, manifestações e espectáculos públicos; entre outras, típicas do ramo de segurança interna, repete-se, completamente distanciada dos princípios que regem a actuação militar(izada).

E porque assim é, as FDS, durante o período do Estado de Emergência, estão, acima de tudo, adstritos ao cumprimento dos princípios fundamentais do funcionamento e actuação da PRM, destacando-se, no que releva para a presente abordagem, «o respeito pelos direitos humanos» (n.º 3 do artigo 2 da Lei da PRM) bem como, «no uso dos meios coercivos para a garantia da ordem, segurança e tranquilidade públicas, a PRM [o que equivale dizer FDS durante o Estado de Emergência] observa os limites da necessidade, razoabilidade, proporcionalidade e adequabilidade» (n.º 4 do artigo 2 da Lei da PRM).

Pelos assustadores relatos que ecoam de todos os cantos do país, concernentes à actuação das FDS – logo no primeiro dia de execução das medidas decretadas para o Estado de Emergência – torna-se irrefragavelmente indiscutível que os princípios emprestados à FDS – adequabilidade, proporcionalidade, razoabilidade e necessidade – estão a ser alvos de clamorosa violação (por parte das próprias FDS).

Pior do que isso, é o facto de o princípio-mestre que os arcaboiça – o princípio da legalidade ínsito no n.º 3 do artigo 253 e n.ºs 1 e 2 do artigo 262, ambos da Constituição da República, alterada e republicada pela Lei n.º 1/2018, ex vi n.º 1 do artigo 2 da Lei da PRM e ainda artigo 19 da LDNFADM – estar, também [o princípio da legalidade], a ser alvo de desprezo, porquanto, a título meramente exemplificativo, a alínea c) do artigo 7 do decreto-presidencial que declara o Estado de Emergência estatui que «durante a vigência do estado de emergência deverão ser mantidos os serviços e actividades públicas e privadas essências, destacando-se [a] venda de bens alimentícios e de primeira necessidade».

Ora, determinar o encerramento de estabelecimento comerciais destinados à venda de bens alimentícios e de primeira necessidade, como se não bastasse, com recurso a coercibilidade, é uma actuação largamente contrária aos elementos espirituais e literais do decreto-presidencial que declara o Estado de Emergência.

É necessário que as FDS sejam doutrinadas sobre a imprescindível necessidade de se pautarem por uma postura didáctico-pedagógica, instruindo o povo na assunção de um compromisso de amplitude nacional na luta contra o surto pandémico do COVID-19, fazendo-o ficar cônscio, através de métodos professorais, sobre a anormalidade do actual quadro panorâmico que, por sua vez, justifica a adopção de novos e atípicos comportamentos.

Não se deve perder de vista que um exponencial segmento do povo moçambicano – que nunca esteve mergulhado num Estado de Emergência – carece de cognoscência exacta sobre esta figura, não sendo, por isso, causador de estranheza que nos primeiros tempos de vida do Estado de Emergência, haja uma semi-desculpável relutância no acatamento das medidas decretadas pelo Presidente da República.

A propósito da necessidade de se privilegiarem, em primeira linha, actuações didáctico-pedagógicas por parte das FDS (que, temporariamente, actua sob as vestes da PRM), lembra-se, que nos termos do artigo 33 da Lei da PRM, deve-se dar primazia à utilização de meios persuasivos e só em última e recôndita instância é que é admitido o manuseio de meios coercivos.

Com efeito, propugna a alínea b) do n.º 2 do artigo 33 da retro mencionada Lei que «é permitido o uso de meios coercivos para vencer a resistência à execução de um serviço no exercício das suas funções, depois de procedido à intimação formal de obediência e esgotados outros meios para o conseguir».

E chama-se a atenção que, inclusive, os meios coercivos devem conformar-se com os princípios da necessidade, proporcionalidade e razoabilidade (n.º 3 do artigo 33 do mesmo compêndio legal).

Há motivos mais do que justificados – até porque o passado é farto de exemplos disso – que o excesso de zelo das FDS pode dar azo à causação de uma atmosfera de revolta no seio da população, que, por sua vez, pode originar rebeliões refractárias cujos resultados são – conforme a memória do passado nos recorda – susceptíveis de redundar num caos social tingido de sangue.

Logicamente, o que se disse aqui não equivale dizer que se deve apadrinhar actos de desacato ilícito, desobediência ilegal e resistência ilegítima por parte da população. Nem de perto nem de longe. Todavia, reconhecendo-se a incomparável superioridade das FDS relativamente à população – em razão do material bélico com o qual aqueles se fazem transportar –, aliado à peculiaridade da situação gerada e especialidade das condições socio-económico-culturais de Moçambique, alvitra-se que sejam convocados, por parte das FDS (que devem actuar como actuaria a PRM e não inspirada em postulados militares) os “princípios costumeiros” da parcimónia, do bom-senso, da equidade, da tolerância, compaginando-os aos “princípios legais” da proporcionalidade, razoabilidade, necessidade e adequabilidade.

Sendo que o Estado de Emergência, justificadíssimo por unanimidade, destina-se a evitar e/ou mitigar o contágio e propagação do COVID-19 e seus efeitos infecciosos altamente mortíferos, a forma de executar as medidas conducentes ao alcance desse desígnio não podem, elas próprias, resultar noutro tipo de catástrofes «para que o remédio não seja pior de sofrer do que o mal que se destina a curar».

 

Télio Chamuço

Advogado

Email: telio@teliochamuco.com  

 

Era uma vez numa terra onde havia muita fome. Um dia, o povo foi pedir ajuda ao rei, pois este tinha uma machamba muito grande. O rei disse a todas as pessoas para irem colher todo o milho que estava na machamba para, posteriormente, dividi-lo equitativamente pelos presentes. Todos foram à machamba e cada um usava um saco para colocar o que colhia.

No grupo, havia uns que colhiam muito, outros que colhiam pouco, e outros ainda que não colhiam nada, somente carregavam um saco cheio de cascas de milho, e ainda falando no seu coração: “quando virarmos, o rei vai pensar que é milho”.

De repente, quando o povo já estava a regressar da machamba, o rei mandou um mensageiro para dizer à população o seguinte: “cada um pode levar para casa o saco com milho colhido”.

Cada um foi para a sua casa, mas aqueles que não tinham colhido nada e que queriam enganar o rei, com sacos cheios de cascas, começaram a chorar. Os que tinham colhido pouco ficaram arrependidos e com inveja dos que tinham colhido muito.

Os que tinham colhido muito foram felizes para as suas casas, pois ganharam muito pelo esforço e dedicação.

Contado por Eva José

 

Nota do editor:

Anguista Tomás escreveu esta história quando frequentava a 7ª classe, há dois anos. Hoje é aluna da 9ª classe, na Escola Secundária de Nharichonga, em Nhamatanda, Sofala. Com a história, venceu a terceira edição do Concurso de Redacção de Contos Tradicionais, organizado pela Associação Kulemba, sedeada na cidade da Beira. “Tempo de fome” foi publicado no livro infanto-juvenil À volta da fogueira vol. III, em 2018. A todos, um feliz Dia Internacional do Livro Infantil.

 

 

Este céu nem parece o mesmo que deixei no dia em que, acocorado numa barcaça, parti com a minha crença no amanhã submersa em águas turvas. Águas que me roubaram sonhos. Águas que me tiraram a espinha dorsal da vida. Águas que suprimiram toda a razão do meu ser. Só Deus sabe para onde estas águas da morte terão levado a minha família: esposa e filhos.

Hoje estou aqui. Debaixo de sol quente e céu azul. Contemplo um horizonte distante e sem obstáculos de permeio. As águas voltaram ao leito e, aparentemente inocentes, deixaram-se comprimir pelas margens do rio. As marcas de lodo seco no chão e o livre raio de alcance da minha vista testemunham o desastre: a minha aldeia foi arrasada.

O que as águas assassinas nunca souberam é que podiam sim destroçar a aldeia, mas nunca riscá-la do mapa. A minha aldeia não é apenas feita de palhotas, campos de cultivo e gado. É também feita de homens e mulheres de fibra. E estamos de volta.

Saímos daqui içados numa pinça de salvação e a pingar gotas de amargura nas asas de um tempo sem dó. Aguentámos a dura vida colectiva no branco das tendas de acolhimento. Hoje voltámos. Estamos dispostos a recomeçar tudo.

Palmilhar a minha terra firme através destes atalhos da vida não me silencia os sentimentos. Fecho os olhos, abro os braços e canto o cheiro da brisa fresca da minha terra. A brisa do meu chão. Foi aqui que nasci, cresci e fiz a família que a água levou. Este é um reencontro comigo próprio. Um raio frio fulmina-me a alma.

Deixo o coração da aldeia e caminho em direcção ao que sobra da minha casa. Sei que não serei recebido pelo riso magnetizante das minhas filhas que, correndo, se precipitariam para ver qual delas me abraçaria primeiro. Sei que não reencontrarei o calor da mulher que a vida inteira me deu amor e me fez acreditar que o sorriso habita os areais da vida. Tudo a água levou. As minhas lágrimas substituem os meus sonhos. O amanhã eclipsou-se.

Acende-se um ténue esgar de espanto quando descubro que o bloco queimado com que construí a minha casa resistiu à força destruidora da água. As chapas de cobertura seguiram os destinos dos ventos, mas a estrutura, sem porta nem janelas, continua intacta. Uma boa base para recomeçar.

Pequenas dunas, com um manto de matope seco, pontificam a espaços, um pouco por todo o quintal. Desde que as águas voltaram ao rio nunca mais ninguém colocou aqui os pés. Cada passo que dou decalca marcas do esbranquiçado original da areia. 

O silêncio penetra-me pelos tímpanos e anicha-se num enorme vazio que me enche a alma. Os meus passos não são firmes. São titubeantes. São a personificação de uma carga emocional interna que quase que me faz levitar. Deixo-me levar. Sigo o destino.

Vários riscos pretos e horizontais serpenteiam toda a largura da casa deixando claro as marcas de onde a água foi descansando enquanto vazava de volta ao leito. Chego à entrada. Estremeço. É de emoção. Galgo uma pequena escada que me separa da porta e entro. A minha vista tacteia o nada de uma casa construída com suor e lágrimas. Passo a vista de relance num pavimento com uma lama seca de cerca de meio metro de altura. Um pequeno entulho, igualmente coberto de lodo seco, desenha um estranho polígono preso a um dos cantos.

Respiro fundo e ganho fôlego para pôr as mãos ao trabalho. Não tenho pá nem enxada para remover matope seco. Mas alguma coisa tenho de fazer. No quintal procuro restos de ramos secos que fazem de enxada e pá e volto ao interior para começar a minha fascina. Priorizo o pequeno entulho. É o ponto que me parece mais crítico. Com o pau remexo. Não sei o que é, mas é algo duro. Remexo com um pouco mais de força, tentando tirar a camada preta de lodo. A minha respiração fica suspensa com a visão. Não grito, mas dou um pulo para trás. Os meus olhos arregalam-se. Volto a estremecer. Agora é de susto!

Um esqueleto – na verdade são dois esqueletos – jazem calcinados pelo matope no interior da minha casa. Uma mulher e uma criança. A criança estava no colo da mãe quando ambas foram colhidas pelo último suspiro. Ainda são visíveis os restos da roupa que trajavam e da capulana com que a mulher amarrava o filho nas costas. Da própria carne e do cheiro nada sobra. Foi tudo levado pelas águas.

Esta mulher e esta criança não são e nem podem ser os meus. A minha gente tentou, em vão, contornar a morte bem longe daqui. Estes esqueletos são de pessoas que me são estranhas. Mais do que trucidar a minha família, as águas transformaram o interior da minha casa num cemitério. Será isto uma maldição, ou a voz oca do espírito do mal?  

Impossível continuar com a minha limpeza. Volto à rua e grito! Grito forte! Não é de socorro que busco. Procuro pela pena de um pássaro, voando bem alto, para pousar a minha voz. Choro para que a vida me escute.

 

Ainda estou para perceber como é que os jovens daquele tempo começavam a namorar tão cedo. Namorar é uma maneira de dizer porque bastava uma menina sorrir para um rapaz para este começar logo a dizer “…eh!… vocês sabem duma coisa? Eu namoro com a fulana de tal…”; ou então começava a propagar o boato de que assim sucedia, embora a moça fosse a última a saber que já namorava. O caso que vou contar é dum sujeitinho dado a galã, de nome Mateus, que dizia “namorar” uma moça chamada Fina. Até há algum tempo atrás eram vizinhos no Bairro Indígena, mas os pais dela divorciaram-se e a mãe mudou-se para a Bela Rosa. Aí as dificuldades provocadas pela separação começaram a apertar. Para se aguentarem, a mãe da Fina resolveu vender alguns produtos mesmo em frente à loja do Chilepfane. A Fina ajudava nas vendas durante as férias e aos fins-de-semana. Mas eis que chega aos ouvidos do Mateus que a Fina tinha compromissos com outro rapaz. Cheio de fúria, não fez mais nada senão recrutar uns valentes da sua malta. Tomaram caminho em direcção ao Chilepfane para dar uma lição ao usurpador dos seus amores. Isto foi num fim-de-semana. Quando chegaram à varanda da loja encontraram a Fina a vender peixe frito, mais propriamente magumba com piri-piri, a chalacear com um rapaz mais ou menos da idade dela. “…já apanhámos o tipo… este é que deve ser o tal novo namorado da Fina…”, disse o Mateus aos cúmplices. Eram ao todo uns seis, todos fortalhaços e com caras mal lavadas, de quem veio mesmo para fazer zaragata. A discussão foi assim:

   “Olá , Fina: Quem é este gajo aqui?”, perguntou o “namorado” traído.

   “ Qual gajo?”, quis a Fina saber, surpreendida pela rispidez da pergunta.

   “ Não te faças de surda. Eu bem sei que desde que saíste do nosso bairro andas a namorar com este tipo aqui”.

   “ E se eu ando a namorar com ele o que é que tu tens a ver com isso?”, fogo na resposta da Fina.

Um ooohhh! de gozo explodiu da pequena multidão que se aglomerava à volta dos desavindos.

   “ E se eu for namorada dele, porque é que isso te dói? Eu não sabia que era tua namorada! Mesmo que soubesse não tens direito de me pedir contas. Deixa-me em paz”, disse a Fina melindrada com o embaraço. Se a mãe vier a saber dos seus namoricos devolve-a logo para Gaza, donde ambas provêm. E escola é esquecer. A mãe bem avisou: “…se me fazes trafulhices por aqui, devolvo-te para a casa do teu avô…”. Daqui concluo que a memória tem fraca memória de si própria: a mãe da Fina divorciou-se porque foi apanhada na cama em flagrante pelo marido, com um vizinho de lado de nome Ruben.

O moço acusado de namorar com a Fina ficou especado de estupefação com o rumo da discussão. Nada tinha a ver com esses assuntos de namoros, nem sequer intenção de pretender a Fina, que até nem era uma beleza de rapariga, com a cara toda cheia de sardas e, ainda por cima, tinha uns dentes grandes e umas gengivas muito pretas por causa da mulala.

O Mateus não foi capaz, ou não quis compreender a inocência dos acusados e disse a um dos companheiros:

  “Samson, segura a minha camisa, quero dar uma lição a este gajo por me roubar a namorada”. E despiu a camisa, já meio despedaçada pelo tempo e pelas lavagens frequentes. O amigo segurou a tal camisa já em vias da reforma. Os contendores puseram-se em termos de luta. O Mateus só dizia: “… eu vou-te matar… eu vou-te matar…”, mas mantinha uma distância de segurança, fora do alcance dos punhos do outro. Deram umas voltas assim, para a direita e para a esquerda, para a frente e para trás, sem se tocarem.

Mal sabiam que alguém fora avisar o Chilepfane: “… anda lá fora um grupinho de rapazes a abusar da Fina, a filha da comadre Virgínea… sim, essa que vende peixe  aqui na  varanda da loja…”. Aquele não se fez de demoras. Tirou o cavalo-marinho de debaixo do balcão e dirigiu-se ao local da confrontação. À socapa misturou-se no ajuntamento que já engrossara; escutou parte da conversa e os preparativos dos adversários para o combate. Identificou os intrusos, porque conhecia toda a gente da zona. E então o cavalo-marinho “entrou de serviço”. Aquilo não foi bater. O Chilepfane era de facto um justiceiro. Batia como se matasse cobras. A gritaria era tal que até os motoristas dos carros que circulavam na estrada pararam e outros fizeram marcha-atrás para ver a causa do alarido. Os membros do grupo invasor estavam em maus lençóis. Foram imobilizados pelos residentes. Depois de demoradamente, competentemente e suficientemente sovados foram obrigados a pedir perdão pelas inconveniências causadas à comunidade e deixar a promessa de que nunca, mas nunca mesmo, atravessar estradas para vir provocar inocentes nas suas próprias residências e provocar escaramuças noutros bairros. Na circunstância esqueceram-se da camisa do seu representante. O valentão ciumento e apaixonado teve de arranjar uma desculpa a todos os títulos mirabolante para convencer a mãe de que a mesma fora-lhe roubada num assalto ali na Mafalala. Aquela só disse: “não tenho dinheiro para te comprar outra camisa… aguenta-te como puderes”.  E assim o assunto de namorados e seus ciúmes ficou enterrado. Até hoje, o Mateus e os do seu grupo fingem que nunca ouviram falar dum lugar chamado bairro Chilepfane, nem de nenhuma moça que responda pelo nome de Fina; mas lá no fundo dos corações têm a memória das dores provocadas pelo cavalo-marinho do senhor Pedro Chilepfane.

Um mal nunca vem só. Naquela tarde da sova o Mateus foi visto por um tio seu, o senhor António Boy, antigo mineiro e reformado da vida produtiva. Despendia o tempo ao balcão da cantina do Silva, ali nas proximidades, na companhia do vinho tinto e de mulheres de ocasião. Presenciou os eventos ocorridos com aquele sobrinho, mas não se manifestou para evitar embaraços e compromissos. Mas, dois dias depois, deu conta dos factos à prima, a mãe do Mateus. Esta encarregou-o de ministrar ao sobrinho o correctivo a que este tinha direito. E fê-lo como um pai, com muita demora e competência, como nunca o fizera em vida, porque esse era o papel de um tio responsável, compenetrado no cumprimento dos seus deveres de educador zeloso. E o Mateus andou sem camisa uma grande porção de tempo até apropriar-se duma, num assalto a um garoto na bucaria da Mafalala.

 

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