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A instabilidade no Estreito de Ormuz mantém-se, depois de uma embarcação ter sido atingida durante a madrugada desta terça-feira, por um projéctil de origem desconhecida.

O incidente ocorre num momento em que Washington insiste que decorrem negociações com o Irão para reabrir uma das mais importantes rotas marítimas do mundo, enquanto Teerão rejeita qualquer diálogo directo com os Estados Unidos.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, garantiu ontem que as conversações com o Irão estão em curso e poderão conduzir à reabertura do Estreito de Ormuz esta terça-feira.

A resposta iraniana foi imediata. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão negou que existam negociações directas com os Estados Unidos, esclarecendo que os contactos decorrem exclusivamente com Omã, país que procura mediar um entendimento destinado a garantir a segurança da navegação no Estreito de Ormuz.

O estreito permanece, contudo, fortemente condicionado desde o início de Julho, quando fracassou o processo de desanuviamento entre Washington e Teerão e o Irão voltou a restringir a circulação marítima.

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O cabeça-de-lista da Renamo, Venâncio Mondlane, assegurou, hoje, que esta força política não vai desistir de se manifestar em repúdio aquilo a que chamou de “fraude monumental” engendrada pelos órgãos eleitorais.

Em mais um dia de marcha em repúdio aos resultados eleitorais das sextas eleições autárquicas divulgados até então, membros e simpatizantes da segunda maior força política em Moçambique continuam a marchar, e hoje já com a escolta policial, por algumas artérias da capital do país. É a tônica do movimento, que deixa o trânsito na capital literalmente paralisado, a denúncia de irregularidades no processo eleitoral “luz do dia e a calada da noite”. Ao ritmo das buzina e o refrão “trufafá trufafá”, Mondlane solta, aos gritos: “Ladrões, fora. Assassinos, fora. Corruptos, fora.”  E, percorridos alguns quilómetros pela caravana, ganha fôlego para recordar que “a  decisão de alguns tribunais distritais em anular votos e ordenar a recontagem vem apenas reforçar a nossa denúncia de uma fraude premeditada.” 

E, porque “não vamos desistir”, sustentou “que exigimos que a Procuradoria Geral da República responsabilize criminalmente esses corruptos que roubaram votos”.

Já próximo das esquinas entre as avenidas Guerra Popular e 25 de Setembro, o tom de denúncias sobe com os vendedores informais a rodarem a caravana da Renamo. “Há gente que recebeu 500 mil Meticais. São pessoas do STAE. Nós vamos denunciar essas pessoas e publicar as suas fotos nas redes sociais.” Entre a euforia dos vendedores informais e populares e a impaciência dos motoristas que “querem ganhar tempo para fazer receita do dia”, o cabeça-de-lista da Renamo fala de “compra de consciência, abuso de poder e um processo descredibilizado de tanta roubalheira.”

Mondlane, na interacção com os populares, reforça: “Basta. Não vamos mais aturar esta situação. Ladrões. Corruptos. Gente que oprime o povo moçambicano.”

O cabeça-de-lista da Renamo deixou, depois, um parecer sobre a presença da PRM na marcha para a escolta. “Esse é um claro sinal de que nós não queremos desordem. Não pretendemos vandalizar bens públicos ou privados.”

Mondlane assevera que as  marchas continuarão a ter um cariz pacífico, mas “não posso me  responsabilizar pela atitude do povo perante a injustiça e inoperância dos órgãos eleitorais.Vamos até às últimas consequências”, sentenciou.

A passeata contou com a presença de membros seniores do partido assim como da Comissão Política Nacional da Renamo, órgão que no passado domingo reuniu para analisar os resultados eleitorais.

O Presidente da República recebeu, esta quinta-feira, quatro cartas credenciais de igual número de embaixadores. Na ocasião, Filipe Nyusi pediu trabalho coordenado para a melhoria  das relações diplomáticas existentes.

Trata-se de Ronald Munch, embaixador designado da República Federal da Alemanha, Alain Gaschen, embaixador designado da Confederação da Suíça, Tegan Brink, alta-comissária designada da Austrália e Noralyn Baja, embaixadora designada da República das Filipinas. 

Segundo deu a conhecer a ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Verónica Macamo, durante o encontro com o Chefe de Estado, foi destacada a ampliação da cooperação com os quatro países.

“O Presidente da República retratou aos quatro embaixadores a situação política, económica e social do país, especialmente dos ciclos eleitorais, os progresos registados no combate ao terrorismo e o extremismo violento em Cabo Delgado e a massiva assistência prestada aos deslocados”, disse Macamo.

Na ocasião, Nyusi enalteceu a fortificação e a progressão das relações com a Austrália. “A parceria entre Moçambique e Austrália ampliou, progrediu e fortaleceu-se, cobrindo várias áreas, tais como educação, saúde, segurança alimentar, água, saneamento, desminagem e indústria mineira”, destacou.

De acordo com a ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, nem todos os recém-credenciados fixaram suas residências em Moçambique.

O jornalista e jurista Ericino de Salema diz que, pela magnitude de ilícitos eleitorais que estão a ser evidenciados, o Conselho Constitucional deve efectuar uma peritagem ao processo para melhor tomada de decisão. Sobre a reprovação da contestação da Renamo em Vilankulo, De Salema explica que não é obrigatória a impugnação prévia.

Ericino de Salema diz que as irregularidades no processo eleitoral revelam desafios na integridade dos órgãos eleitorais e descarta a falta de preparo destes órgãos. O jurista diz, por isso, que o Conselho Constitucional, órgão máximo que vai determinar a validade destas eleições, deve tomar posição em função de um estudo minucioso do processo.

No município de Vilankulo, o Tribunal Judicial recusou-se a analisar a contestação submetida pela Renamo, porque não terá sido feita a impugnação prévia. Mas De Salema tem outro entendimento e diz que a Renamo tem espaço para continuar a contestar os resultados.

A profissionalização é uma das saídas apontadas pelo jurista para credibilizar os órgãos de gestão eleitoral e evitar fraudes.

Ericino de Salema, que falava, esta quarta-feira, no Jornal da Noite, da STV, disse que acredita na alteração dos resultados eleitorais em função do trabalho em curso nos tribunais.

 

A Electricidade de Moçambique (EDM) retoma a venda de energia eléctrica à Zâmbia.

Para o efeito, o presidente de Conselho de Administração da EDM, Marcelino Gildo e o director-geral da Empresa de fornecimento de energia eléctrica da Zâmbia (ZESCO), Victor Benjamin Mapani, assinaram, em Luanda, capital angolana, um contrato de fornecimento de energia, que viabiliza a venda de 250 Megawatts àquele país, escreve a Rádio Moçambique.

Na mesma ocasião, as partes renovaram o acordo para a extensão do período de fornecimento transfronteiriço de energia à Vila de Zumbo, província de Tete, a partir da Zâmbia.

O chefe da bancada parlamentar da Frelimo, Sérgio Pantie, disse hoje, no pódio da Assembleia da República, que a vitória do seu partido nas autárquicas de 11 de Outubro foi fruto do trabalho feito durante a campanha e agradeceu o “voto de confiança” depositado pelos munícipes.

“A contagem intermédia mostra que os eleitores escolheram o partido que está melhor preparado para dirigir o seu destino no dia-a-dia”, disse Pantie.

No seu discurso, Sérgio Pantie lamentou os actos de protesto contra os resultados intermédios feitos desde 12 de Outubro pelos partidos da oposição. “Em 2018, perdemos a maioria das autarquias em Nampula para a Renamo. Aceitamos os resultados sem realizar marchas, sem incitar à violência nem colocar em causa os resultados dos órgãos competentes”, realçou o chefe da bancada parlamentar da Frelimo.

Pantie mostrou ainda satisfação pelo resgate de autarquias como Nampula, Angoche, Ilha, Nacala, Malema, Quelimane, Cuamba e Chiúre, assim como a vitória em novas autarquias, tais como Marracuene e Matola Rio.

A Frelimo foi a única bancada parlamentar a discursar, porque as bancadas da Renamo e do Movimento Democrático de Moçambique boicotaram a VIII sessão.

 

Arranca, hoje, em Maputo, a oitava sessão ordinária da Assembleia da República.

Em debate, estarão, entre outras matérias, a Conta Geral do Estado referente ao Exercício Económico de 2022, a Proposta de Lei que cria o Fundo Soberano e a Proposta de Revisão da Lei de Florestas e Fauna Bravia.

Nesta sessão, o Presidente da República vai também apresentar o informe sobre o Estado Geral da Nação.

Actores do agro-negócio defendem a introdução de crédito de insumos agrícolas e uniformização de preços de em todas regiões no país como solução para os actuais desafios da cadeia de valor agrícola no país. Entretanto, os produtores queixam-se da prevalência de entraves do escoamento do produto final das zonas de produção aos mercados.

O segundo painel do primeiro dia da quinta edição da Mozgrow, voltado para o tema “desenvolvimento de cadeias de valor estratégicas”, juntou produtores, revendedores e a fornecedora de insumos AQI. O mote era apontar desafios e soluções sustentáveis para aumentar a produção e o mercado de comercialização de produtos.

Para o dilema do acesso, a AQI revelou a introdução de crédito de insumos agrícolas e uniformização de preços em todas as regiões do país, como solução para os níveis de produção.

“Com a AQI, temos insumos de qualidade e preços competitivos com a iniciativa One Stop Shop. Nós fornecemos produtos totalmente certificados, e aqui há uma novidade: os nossos preços, além de serem competitivos, são uniformizados, o preço praticado no Sul é o mesmo praticado no Centro e no Norte. Adaptamos essa estratégia porque acreditamos que vamos impactar melhor se dermos as mesmas oportunidades a todos os produtores em todo o país”, disse Lírio Nhamuche, representante da AQI.

A estratégia está a impactar os produtores, com o aumento de quantidades e qualidade de produtos. Um caso concreto é da Pecuárias Sumburane, que produz cereais, hortícolas, aves e gado em Vilankulo.

“A terra é apta e os resultados só podem ser melhores com esses incentivos. Este ano, por exemplo, ensaiamos ervilhas, há potencial para serem produzidas. Recentemente, adquirimos gergelim porque, em Vilankulo, há só um fornecedor que não consegue satisfazer o mercado. Acreditamos que estas culturas podem substituir importações”, explicou Mário Mavie, produtor.

Entretanto, produtores e revendedores apontam como um grande desafio da cadeia de valor a prevalência de barreiras para o escoamento do produto final.

Com estas inovações, conseguimos disponibilidade de insumos, sementes, pesticidas, mas não há tractores para lavoura e não há transporte para o escoamento da produção para os centros agrários.

Com estratégias como “mix” de produtos e rotas certas, a AQI apresentou soluções para o problema.

Segundo Lírio Nhamuchue, a AQI implementou, há três meses, o retorno das rotas, isto é, além de entregarem os insumos aos agrodealer, os serviços de distribuições retornam com os produtos dos produzidos para os mercados.

Os actores apontam a necessidade de melhoria das vias de acesso, como um passo crucial para a dinamização da cadeia produtiva.

Arrancou hoje, na Arena 3D, KaTembe, em Maputo, a quinta edição da feira nacional de agronegócio, MOZGROW. O evento vai durar três dias, juntando mais de 30 empresas nacionais e internacionais.

É a edição número 5 da maior feira de agronegócios do país, uma oportunidade única para reflectir e mostrar o que de melhor se faz no sector em Moçambique.

Num ano em que são esperados mais de dois mil participantes e acima de 30 empresas para exporem seus produtos e serviços, o Presidente do Conselho de Administração da DHD Holding and Consulting, Daniel David, fez o discurso de abertura, abordando a importância de debater sobre competitividade e crescimento no agronegócio no moçambicano.

“A agricultura, o agronegócio na sua plenitude, é algo que impacta as nossas vidas. É algo fundamental para que cada um de nós se sinta representado neste projecto”, disse Daniel David, acrescentando que “não há nada que se faça e que não passe pelo agronegócio. Na nossa vida, a nossa saúde e desenvolvimento intelectual, passam pelo agronegócio porque tudo que começa na terra e termina na mesa das nossas casas e junta famílias passa pelo agronegócio”.

E é por isso que desta vez, a MOZGROW grow foi transformada num espaço de excelência para aqueles que fazem o dia-a-dia do agronegócio. Segundo o PCA da DHD “são as empresas que vão garantir que, de hoje em diante, este projecto cresça, tenha dinamismo e uma sustentabilidade que traga retorno às próprias empresas”.

A esta nova característica adicionar-se-ão novidades em relação ao futuro. Daniel David anunciou que “a próxima edição da MOZGROW vai ter parceiros estratégicos vindos de vários países, principalmente do Brasil”. Tal como referiu “fechamos um protocolo com associações empresariais do Brasil e vai ser um MOZGROW baseado naquilo que é a indústria 4.0, onde a tecnologia tem um papel muito importante na dinamização e para que se dêem passos qualitativos para que as empresas queimem etapas e sejam mais competitivas”, avançou.

Para o BCI, um dos parceiros estratégicos do projecto, mais do que um espaço de debate, a feira MOZGROW tornou-se num lugar de busca de soluções para os desafios do agronegócio no país. “Quando, há cinco anos, nos juntamos à MOZGROW tínhamos consciência da importância de uma plataforma desta dimensão onde os principais intervenientes da cadeia produtiva comercial e industrial juntam sinergias para alavancar a economia moçambicana tendo como base no agronegócio”, disse, intervindo na sessão de abertura, Hugo Costa, Director de Grandes Empresas do Banco Comercial e de Investimentos, BCI. Acrescenta que o BCI é o parceiro natural desta iniciativa, desde o início, estando presente em todas as feiras realizadas subsequentemente, em reconhecimento também do elevado potencial do agronegócio em Moçambique”.

A quinta edição da MozMOZGROW grow decorre até sexta-feira sob o lema: “competitividade e crescimento”. Espera-se que as empresas participantes firmem parcerias e troquem experiências ligadas ao sector do agronegócio.

 

ORADORES DEFENDEM QUE MOÇAMBIQUE DEVE DEFINIR CADEIAS DE VALOR PRIORITÁRIAS

A feira nacional de agronegócio 2023 abriu a debater as condições necessárias para melhorar as cadeias de valor de produtos como a banana e os resultantes da avicultura.

Em nome da CITRUM, empresa que produz e comercializa citrinos e bananas, Romeu Rodrigues apontou que a eficácia dessas cadeias passa pelas seguintes medidas. “Numa lógica de exportação aquilo que eu julgo que neste momento está a limitar mais a exportação da banana é o facto de termos um metical forte em relação ao rand porque isso distorce em relação ao mercado sul-africano.

Na perspectiva da expansão eu julgo que o mais importante vai ser sempre a cadeia de logística e ela inclui o frio e transporte. Se por exemplo for aberto para nós o mercado do médio oriente nesse momento vai ser necessário que o Porto de Maputo tenha condições logísticas para que o produto exportado chegue em condições ao destino”, afirmou.

Mas não é tudo. Na cadeia de valor do frango, Rui Gomes Director Geral da Frango de Mahubo diz que é preciso tornar mais acessível o custo dos insumos.

“No frango por exemplo são 170 meticais, por cada unidade, o custo da ração. O custo é enorme, isso sem falar do custo do pinto, que pelo facto do ovo não ser produzido internamente chega a ter que ser importado da Turquia”, disse.

Para o académico Hélder Zavale, não é possível a curto prazo tornar eficazes todas as cadeias de valor, daí que é preciso definir prioridades. “Temos que definir três, quatro ou se calhar cinco cadeias de valor prioritárias e não uma lista de 20 ou 30 cadeias de valor estratégicas. Isso não significa que não se vai dar importância às outras cadeias de valor mas que, para as prioritárias, deveria-se criar condições para a melhoria do ambiente de negócios, adicionando facilidades de acesso a financiamento”, afirmou.

Arnaldo Ribeiro da Associação dos Produtores de Banana alerta que se tem ignorado a importância de acautelar a saúde das plantas e dos animais. “O país deve criar na minha opinião uma autoridade com poderes verdadeiros nesta questão da fitossanidade, porque o departamento nacional que trata desse assunto acaba não tendo poder nenhum porque o director provincial, distrital ou o inspector que está no porto também emitem ordens. Acaba não havendo poder nenhum, também porque as pessoas são muito susceptíveis ao refresco”. Os painelistas defenderam a necessidade de maior publicitação da produção nacional para que tenha mais aceitação pelos consumidores.

Por: Raquel Miambo
(Graduada em Literatura Moçambicana pela UEM)
O presente texto tem como objectivo reflectir e analisar as diferentes dimensões do campo ideológico que se constrói no romance Sina de Aruanda, da escritora Virgília Ferrão.
A compreensão do que seja o campo ideológico passa, necessariamente, da definição de ideologia. Segundo Eagleton (1997), podemos conceber a ideologia sob seis perspectivas, a saber: (1) processo material de produção de ideias, crenças e valores na vida social; (2) ideias e crenças que simbolizam as condições e experiência de vida de um grupo ou classe específica, socialmente significativo; (3) promoção e legitimação de interesse de grupos sociais opostos; (4) actividades de um poder social dominante; (5) ideias e crenças que ajudam na legitimação dos interesses de um grupo dominante; (6) crenças falsas ou ilusórias.
Adoptámos a primeira e a segunda definições que se referem à ideologia como um processo de produção material de ideias, bem como um conjunto de ideias e crenças de um grupo significativo. Ao que se depreende, essas definições aproximam a ideologia da ideia de construção de certa visão de mundo – vista por Japiassu & Marcondes (1996) como uma concepção global, de carácter intuitivo e pré-teórico, que um indivíduo ou uma comunidade formam de sua época, de seu mundo e vida em geral –, pois pretendemos identificar na obra eme estudo elementos que concorrem para a construção ideológica, com atenção ao discurso. Ora, como assegura Reis (1978:409), o código ideológico, em estudos literários, compreende o conjunto de ideias e valores, ligados a uma organização, e que tem, por fim, facultar as relações semânticas, integrando-se na dinâmica da comunicação literária.
Identificámos, na obra Sina de Aruanda, elementos narrativos que concorrem para a produção de ideias, crenças e valores (1) relativos ao ambientalismo através da representação da relação que o Homem estabelece com o meio ambiente; (2) relativos ao Espiritismo, quando evoca a evolução do espírito, através da reencarnação que é a transcendência do espírito para um outro tempo histórico e a relação entre espírito e matéria; (3) relativos ao saudosismo, ao recuperar um dado do passado da História de Moçambique e conferir um espaço privilegiado na produção literária.
(i) Ideologia Espírita: Kardec, citado por Carraca (2000:12), define espiritismo como estudo da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal. Neste contexto, designam-se espíritas os adeptos do Espiritismo, que conhecem os seus princípios ou dogmas.
Podemos identificar intenções ideológicas do Espiritismo a partir do monólogo de alguns narradores-personagens, tal o caso de D. Fernando Costa que pensa: “(…) Não consegui salvar o meu amigo e, portanto, esta é a única coisa que posso fazer para tranquilizar o seu espírito, perdido por estas terras (Ferrão, 2021: 32).
A crença na necessidade de se criarem condições para garantir a tranquilidade do espírito após a morte concorre para o que observamos como visão espírita. Há uma manifestação, não só de fé, mas também de busca pela prática de algumas acções compatíveis com essa crença.
Sou cristão, estou limitado por essa crença, mas juro que, às vezes, de noite, quando olho para as estrelas, tenho a impressão de ouvir vozes. Pode apenas ser mau tempo, o canto do vento, ou a minha imaginação, mas, ocasionalmente, penso que, sinceramente, são vozes dos espíritos desse povo cruzando os céus em busca de liberdade (Ferrão, 2021:93).
No monólogo deste narrador-personagem, D. Fernando Costa, nota-se um choque entre crenças, por um lado da doutrina cristã e, por outro, da tradição africana. Acreditar na existência de espíritos que vagueiam autónomos pelo espaço e que estes respeitam um processo ou ciclo a fim de encontrar a paz, vai ao encontro dos ideais espíritas. Esta passagem evoca a crença na existência de uma vida pós-morte, crença que atravessa diversos momentos da história.
Observámos vantagens em relação à personagem que serve de âncora e consciência dos demais, uma vez que é a ela que se confia a função de reconhecer a reencarnação: “˗ Coincidência o tanas! Não vês? É óbvio! Ela é reencarnação da dona do prazo! E queria tirar-me do jogo, impedir-me de chegar aqui” (Ferrão, 2021:178).
Angelina é uma personagem com características especiais, não só por ser reencarnação de um homem, mas porque possui dons de clarividência. É através dela que se revela a vida passada dos demais, por meios de visões, sinais e digressões orientadas por terapias:
Num minuto estava ali animada, a conversar com Daniel de Barros, e no minuto a seguir… Estava a vislumbrar, através de ampla janela, um luar prateado, uma noite perfeita e um vasto mar. Sentia que tinha a terra, o tempo e os sonhos a meu favor (Ferrão, 2021: 79). (destaque nosso)
Neste excerto, Angelina visualiza-se na vida passada numa espécie de alucinação. Diante de um evento do século XXI, ela revive lembranças da sua anterior encarnação. O espaço Aruanda é propício para a evolução do espírito, é onde os espíritos, após a morte do corpo, avançam para a prova de uma nova existência, uma vez não tendo alcançado a perfeição em vida. Pedro Lucas, à beira da morte, consegue visualizar a sua outra vida, que resultará da reencarnação:
Há um lampejo dentro de mim. É tão penetrante e intrusivo que a princípio não me permite enxergar. Mas depois compreendo. Não é a minha casa, não é Aruanda, não é coisa alguma nem pedaço de nada. É apenas o tempo suspenso, numa partícula de espaço para curar almas (Ferrão, 2021: 222).
A escassos minutos da morte, ele consegue visualizar-se num outro espaço onde se movimenta, mas também num outro espaço-corpo onde o espírito vai intelectualizar a matéria. É a partir de Aruanda que isso acontece, e não só em relação a Pedro Lucas que consegue visualizar-se séculos mais tarde no corpo de Daniel de Barros, como também às restantes personagens. Ora, através dessa prolepse, podemos observar o estado anterior do espírito comparado ao actual, numa espécie de memória do futuro: “Daqui a milhões de anos, quem sabe. Espero o dia em que a alma seja sábia o suficiente para não temer a solidão, nem os fracassos. Quando o mundo sentir mais sinais de liberdade e o ser humano compreender que nunca estará só” (Ferrão, 2021:222).
Num outro contexto discursivo, Daniel de Barros acrescenta: “(…) tenho estado vivo porque a minha alma apreendeu a ser sábia o suficiente para não temer a solidão, nem fracassos. Hoje sei que nunca estarei só” (Ferrão, 2021:239).
É através da anacronia que se explicita essa visão espírita, é onde verificamos o estado anterior do espírito comparado ao actual, e vice e versa. Mas também o relembrar o passado nos conduz à valorização do meio ambiente.
(ii) Ideologia pró-ambientalista: De acordo com Rocha (2001:08), ambientalismo é uma corrente de pensamentos e movimentos sociais em defesa do meio ambiente, que busca a implementação de medidas com foco na protecção ambiental, impondo mudanças no estilo de vida. A relação sociedade-natureza é complexa ao sermos ao mesmo tempo sua dependente e sua consumidora. Ainda assim, desde os finais do século XX até à actualidade, temos um crescente duelo de forças que nos obriga a posicionarmo-nos em relação à possibilidade de extinção das espécies sobre o planeta. É possível notar esta preocupação no romance: “˗ (…) Com os recursos a esgotarem-se na terra, há quem ande a vender parcelas de terreno, em Marte e em outros planetas por descobrir” (Ferrão, 2021: 39).
Um discurso de apelo que leva o interlocutor a tomar uma decisão em relação ao estado actual do nosso planeta. Neste contexto, Daniel de Barros leva-nos a pensar em acções que visam amenizar o impacto da acção humana sobre a Terra, ou seja, é um discurso atravessado pela causa ambiental:
“ – Portanto, ou cuidamos deste planeta, que é, por enquanto, a nossa única casa natal, ou começamos imediatamente a fazer uma grande poupança para poder arrendar espaço, em Marte e afins” (Ferrão, 2021: 39). (destaque nosso)
É um discurso retórico, usando estratégia antitética para convencer o auditório a aderir à sua posição ambientalista, pois, ou tomam conta do meio ambiente ou, caso contrário, será preciso ter condições de ir a Marte, o que seria dispendioso.
Diante de um discurso desta índole, reflectimos sobre o espaço “Terra” e tudo o que este pode significar enquanto espaço colectivo e também individual onde, dia após dia, cada um de nós se desenvolve e se transforma física e psicologicamente. Trata-se de consciencializar o ser humano sobre acções mais acertadas em relação ao planeta.
Uma outra referência que é aqui assinalada remetendo-nos a um discurso ambientalista dá-se nos seguintes termos: “- Não fica bem deitar lixo na praia… para além de estarmos a poluir, a degradar a costa, estamos a dar muito trabalho às pessoas que depois têm de limpar” (Ferrão, 2021: 85).
Espaços sociais como a praia merecem atenção de todos. Estamos diante de um discurso de censura de acções contra a degradação do meio ambiente e apela a práticas de sua conservação: “˗ É lixo que se deve enfiar na sacola, não a vergonha, senhores (…) não custa nada apanhar e deitar esse lixo num local mais apropriado. É um favor que fazem a vocês mesmos, e o planeta agradece” (Ferrão, 2021: 85).
Não só no que respeita à praia, mas também à ilha, que é um espaço importante na obra, se manifestam ideais ambientalistas: “- (…) Aquilo já está em ruínas, a missão foi esquecida e deixada em estado de degradação, mas há esperança de que venha a ser restaurada. Muito em breve!” (Ferrão, 2021:51).
A preocupação com este espaço remoto, a esperança na restauração da ilha, remete-nos à valorização do meio ambiente e à preocupação com a história dos seus habitantes.
(iii) Ideologia saudosista: Para Maria Rollo (2014:01), saudosismo consubstancia uma visão de mundo que tem por base a saudade, a valorização das experiências passadas, resultantes da falta ou ausência de algo, alguém ou momento, nalguns casos, com um efeito de nostalgia. No que se refere à valorização do passado e preservação da história, o Prazo de Aruanda, um espaço exclusivo de uma certa época histórica, é, na obra, localizado no século XIX: “Aruanda está muda. (…) O sossego estende-se até ao casarão dos senhores do Prazo, capitão-mor Bento Noronha e dona Luísa, sua esposa” (Ferrão, 2021: 19).
O Prazo de Aruanda remete-nos para a história de Moçambique, sobre os prazos do vale de Zambeze, que foi uma estratégia de colonização iniciada na segunda metade do século XVI. Assim, leva-nos a uma escrita que valoriza o passado, a uma expressão do saudosismo. Além disso, mais do que recuperar um fenómeno histórico, há uma tentativa de conservar as características empíricas desse fenómeno: “No nosso meio, dentro destas terras empenhadas, têm crescido chefias tradicionais mistas. Isto acontece, há quase três séculos, desde que as terras começaram a ser concedidas por El-Rei, andando sempre de filha em filha… (…)” (Ferrão, 2021: 45).
Como já nos tínhamos referido, o Prazo de Aruanda localiza-se no século XIX, e o narrador evoca o surgimento dos prazos do Vale do Zambeze, três séculos depois, mas também nos dá a conhecer uma das principais características que é a união entre os nativos das terras e os estrangeiros, portugueses e indianos. Veja-se a fala de um outro narrador-personagem, Daniel de Barros, já no século XXI: “˗ Aruanda tem uma carga histórica bela e única! Certamente vocês estudaram sobre os Prazos da Coroa, não estudaram?” (Ferrão, 2021: 51).
Esta fala convida-nos a um momento didáctico, que apela para memória histórica, complementado com o que foi proferido de seguida:
– Os prazos eram unidades políticas, terras conquistadas pela coroa portuguesa e que eram entregues, por um período de três anos a mercadores portugueses e indianos. A sucessão era feita por via feminina; ou seja, as proprietárias eram mulheres, as chamadas “donas”. Uma das últimas resistências majestáticas deu-se em Aruanda, na altura um prazo (Ferrão, 2021: 51).
Este excerto, intencionalmente didáctico, não só recupera um dado da história, como também explica o fenómeno dos Prazos, num diálogo com a história de Moçambique. O excerto também nos remete para as formas de tratamento próprias desta época histórica, que valorizam a organização política: termos como Donas, El-Rei, A-chicunda possuem um valor na hierarquia sociopolítica dos Prazos do Vale do Zambeze.
Considerações finais
O campo ideológico que é projectado no romance compreende o Espiritismo, o saudosismo e o ambientalismo. No que diz respeito à ideologia espírita identificámos, a partir do discurso dos narradores-personagens, expressão de crenças e ideias que nos remetem para a reencarnação e crença na evolução do espírito após a morte. No que toca à ideologia ambientalista, verificámos, no discurso dos narradores-personagens, manifestação de acções e movimentos que visam consciencializar o homem sobre a necessidade de prevenção do meio ambiente. Finalmente, para a expressão do saudosismo, recupera-se uma época da história de Moçambique, através do fenómeno dos Prazos do Vale de Zambeze e da valorização da memória histórica.
Referências Bibliográficas
CARRACA, Orson Peter. (2003). Das dificuldades do Espiritismo Prático: Reformador. São Paulo. Junho de 2003. Disponível em: https://www.espiritualidades.com.br/Artigos/C_autores/CARRARA_Orson_tit_Das_dificuldades_do_Espiritismo_pratico.pdf. Acesso em 03.04.2023
EAGLETON, Terry. (1997). Ideologia: Uma Introdução. Tradução de Luís Carlos Vieira. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista.
FERRÃO, Virgília. (2021). Sina de Aruanda. Maputo” Fundação Fernando Leite Couto.
JAPIASSU, Hilton & MARCONDES, Danilo. (1996). Dicionário Básico de Filosofia. 3.ª ed. Rio de Janeiro: Zahar.
REIS, Carlos. (1978). Técnicas de Análise Textual. 2.ªed. Coimbra: Almedina.
ROCHA, Ernesto Diaz. (2001). Ambientalismo, Ecologia, Educação Ambiental e Universidade: O árduo mas possível caminho da institucionalização da interdisciplinaridade ambiental no Brasil. Rio de Janeiro: Universidade Federal Rural Rio de Janeiro (Tese de doutoramento).
 ROLLO, Maria Fernanda. (2014). Dicionário de história da I República e do Republicanismo. Lisboa: Assembleia da República-Divisão de Edições.

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