O Tribunal Judicial da Cidade de Quelimane condenou Telma Gonçalves da Silva Viegas e Zacarias Inácio Moé pelo crime de denúncia caluniosa contra o presidente do Conselho Autárquico de Quelimane, Manuel de Araújo, pondo termo ao processo relacionado com alegadas falsas acusações apresentadas na sequência das eleições autárquicas de 2023.
Na sentença, a juíza Priscila Briz considerou provado que os arguidos não conseguiram sustentar, em tribunal, as acusações formuladas contra o edil, concluindo que a sua honra, reputação e bom nome foram lesados.
Telma Gonçalves acusava Manuel de Araújo de ter mobilizado simpatizantes da Renamo para se deslocarem à sua residência e ao seu local de trabalho, onde alegadamente a insultavam, chamando-lhe “ladra de votos”. Por sua vez, Zacarias Inácio afirmava que apoiantes do autarca o intimidaram a si e à sua família através da exibição de cartazes. As denúncias foram apresentadas ao Ministério Público, mas o tribunal concluiu que não foram produzidas provas que as sustentassem.
Perante essa situação, Manuel de Araújo intentou uma acção por denúncia caluniosa, reclamando uma indemnização de dois milhões de meticais pelos danos causados à sua imagem e reputação.
Na decisão, o tribunal condenou cada um dos arguidos à pena de um ano e dois meses de prisão pela prática do crime de denúncia caluniosa, previsto no artigo 402.º do Código Penal. Contudo, a pena de prisão foi substituída por multa, nos termos da lei.
No âmbito do pedido de indemnização, o tribunal julgou a acção parcialmente procedente, condenando os arguidos a pagarem, individualmente, 100 mil meticais a Manuel de Araújo por danos não patrimoniais. Foram igualmente condenados ao pagamento das custas judiciais.
À saída do tribunal, Manuel de Araújo afirmou que a decisão representa o restabelecimento da sua honra e uma vitória da justiça. O autarca lamentou, porém, a demora na tramitação do processo, iniciado em 2023, defendendo uma justiça mais célere, proporcional e eficaz.
Segundo Araújo, o objectivo da acção nunca foi financeiro, mas sim pedagógico, visando desencorajar denúncias falsas e reforçar a responsabilização de titulares de cargos públicos e de todos os cidadãos.
Os arguidos abandonaram o edifício do tribunal sem prestar declarações à comunicação social.
A decisão ainda não transitou em julgado e poderá ser objecto de recurso, nos termos da lei.
As inundações na Cidade de Maputo resultam da falta de um plano de estruturação da urbe. Quem assim o diz são os especialistas em gestão ambiental e engenheiros, que acrescentam que a concepção da cidade não teve em conta os eventos extremos actuais.
Casas praticamente engolidas pelas águas das chuvas, infra-estruturas públicas e vias de acesso danificadas é o cenário que caracteriza a capital do país.
Com o objectivo de buscar soluções para a situação, o Conselho Municipal da Cidade de Maputo organizou, na terça-feira, um encontro que contou com a participação de ambientalistas, arquitectos e engenheiros.
O representante do Ministério da Terra e Ambiente, Isac Jaline, considera que este problema é originado pela falta de uma base legal que acompanhe o crescimento da Cidade de Maputo.
“A Cidade de Maputo está a crescer de forma galopante e de forma desestruturada. Temos um cenário de novos bairros a surgirem e novas infra-estruturas a serem implantadas, mas não sabemos a direcção e com que base estão a ser implantadas”, questionou.
A ausência de um plano de ordenamento territorial, aliada à falta de estudo para o actual nível de expansão da capital, é descrita como a causa do problema. Este posicionamento foi defendido pela directora nacional do Ambiente, Guilhermina Amorrane.
“A concepção da Cidade de Maputo não era para o nível de carga que hoje tem. Falamos de saneamento, drenagem e outros mais.
Por acaso, já tivemos um estudo para nos ajudar a perceber se o solo da capital suporta o peso dos edifícios que agora estão a ser construídos, de vinte e trinta andares”, avançou.
Na mesma linha de pensamento, Guilhermina Amorrane defendeu a necessidade de se elaborar um plano que ajudará a Cidade de Maputo a manter-se resiliente aos novos desafios decorrentes das alterações climáticas que têm causado danos.
O docente da Faculdade de Engenharia da Universidade Eduardo Mondlane, Dinis Juízo, acrescentou que a causa das inundações está relacionada ao mau ordenamento territorial.
“O problema é que cada um faz o que entende ou como pode. Alguns erguem as suas infra-estruturas, bloqueando a linha de drenagem natural, o que causa impacto durante o período chuvoso”, disse.
Por sua vez, os engenheiros apontam o dedo a quem atribui licenças para construção de grandes edifícios em zonas impróprias, como é o caso de construção em bacias de retenção de água.
Os mesmos criticaram o facto de se estar a construir em alguns locais impróprios, nos bairros de Mapulene e Chihango, na Cidade de Maputo.
Ainda no rol de problemas que têm provocado o caos sempre que chove na capital, os participantes do encontro apontaram a construção de grandes infra-estruturas em espaços que, anteriormente, albergavam pequenas residências de tipo um a três.
A terminar, houve unanimidade em afirmar que, para minimizar os efeitos das inundações, não basta intervir na componente infra-estrutural. Deve-se, também, ter em conta a preservação das áreas verdes que sofrem o impacto das chuvas.
Foram hoje a enterrar, no cemitério de Lhanguene, os restos mortais de Nelly Jeremias Nyaka, mãe do escritor Luís Bernardo Honwana, autor da celébre obra “Nós matámos o canhão tinhoso”. Nely Jeremias Nyaka, carinhosamente tratada por “vovó Neli”, viveu 103 anos e 115 dias.
A Igreja Presbiteriana de Moçambique, na Paróquia de Chamanculo, acolheu o velório de corpo presente de Nely Jeremias Nyaka. E não foi por acaso que a paróquia foi escolhida para familiares e amigos para se despedirem de “vovó Nely” que impactou a vida de todos que tiveram contacto com ela.
Em vida, Nely Jeremias Nyaka foi uma crente que muito contribuiu para a igreja, tal como fez questão de sublinhar o vice-presidente da Paróquia de Chamanculo.
“A vovó Nely foi uma activista muito forte para esta igreja. Acredito que muito de vós, sem o saber, contribuiram para a consrução desta paróquia porque ela batia portas por todo o lado a fazer f peditórios para que hoje tivessémos a igreja que temos aqui”.
A família falou, igualmente, do legado que Nely Jeremias Nyaka, mãe do escritor Luís Bernardo Honwana, deixou na comunidade paroquial como também os valores que transmitiu aos que com ela privaram.
“A prova cabal de quem ela foi está patente perante os nossos olhos. Basta olhar para o panorama que os seus filhos, netos, bisnetos e demais descendentes no que respeita a harmonia, estabilidade emocional, sucesso social e carácter”, observou Soldêncio Nyaka.
Os netos e bisnetos, em elogio fúnebre, também destacaram as qualidades da “vovó Nely” que deixou um legado de valores morais e éticos que vão se perpetuar ao longo dos tempos.
O escritor Luís Bernardo Honwana e o diplomata João Bernardo Homwana são alguns dos filhos, de um total de dez, onde dois perderam a vida, um dos quais no acidente de Mbuzine juntamente com Samora Machel de quem era seu assistente especial, de nome Fernando Bernardo Honwana.
Em homenagem à mãe, os filhos celebram o exemplo de vida que Nely Jeremias Nyaka foi durante os 103 anos de vida.
“Mais do que apenas chorar a tua partida queremos, nesta homenagem, celebrar a tua vida extraordinária, exemplar e o profundo impacto que tiveste em todos nós”, disse Violante Honwana, uma das filhas, numa mensagem emocionante lida no velório.
Várias personalidades do mundo da política, literatura, associativismo e academia estiveram presentes no velório e não pouparam elogios.
A título de exemplo, o antigo presidente da República, Armando Guebuza, contou ao “O País” que conheceu a falecida desde a sua juventude na antiga Lourenço Marques, actual Cidade de Maputo.
“Nós conhecemos a vovó Nely ainda crianças em Lourenço Marques, assim como na Moamba, onde iamos e aproveitavamos comprimentar para mostrar o nosso respeito pela grandeza da senhora e dos seus feitos.
O primeiro-ministro, Adriano Maleiane, esteve na cerimónia não em representação do Governo mas a título pessoal dada à ligação com a malograda.
A antiga ministra da Educação e actvista social, Graça Machel, partilhou a sua história relatando que foi a “vovó Nely” que a deu conselhos quando foi a vez de casar com o falecido presidente Samora Machel.
“A mâe Nely é minha mãe. Ela foi um pilar na minha vida e na vida da minha família. Quando estava a preparar-me para casar com Samora Machel, foi a mãe Nely que me deu a mão e as orientações do que é que significava casar com Samora nas circunstâncias em que ele já era Chefe de Estado.
Quando Samora morreu, em particular, ela esteve em minha casa, verdadeiramente em minha casa comigo, com os meus filhos e com os irmãos de Samora.”
Os restos mortais de Nelly Jeremias Nyaka foram a enterrar na tarde desta quarta-feira no cemitério de Lhanguene.
O secretário de Estado do Desporto, Gilberto Mendes, diz que o pagamento dos prémios aos atletas nacionais está dependente da disponibilidade do valor nas finanças.
Ainda não há solução em relação ao assunto, apesar de em Fevereiro a Secretaria de Estado do Desporto (SED) ter prometido liquidar a dívida de 16 milhões de meticais, que se arrasta há sete anos, nos finais do mês passado.
Tal não aconteceu, facto que levou a que os atletas se dirigissem, na semana passada, à SED para exigirem explicações sobre o andamento do processo.
Reagindo ao assunto, Gilberto Mendes diz que o processo está nas mãos das finanças. “Quando as finanças tiverem resolvida a questão das primeiras tranches dos pagamentos, iremos chamar os primeiros atletas. Em princípio, vamos começar com os atletas de 2017 e depois vamos subindo, à medida que as tranches forem libertadas”, garantiu o governante.
Questionado sobre o horizonte temporal em que a dívida começará a ser liquidada, Gilberto Mendes foi cauteloso na resposta. “Não posso dizer quando é que será, até porque agora surgiram cheias. Provavelmente as finanças tivessem planos de fazer os pagamentos tendo em conta uma determinada conjuntura e de repente surge uma outra”, explica Mendes.
Anotou ainda que no último encontro que manteve com os atletas “o teor da conversa era de que o país tinha muitos muitos desafios”, disse.
“Infelizmente temos os desafios da guerra e de outras calamidades de que não estávamos à espera”, conclui
A Secretaria de Estado do Estado do Desporto fez saber aos atletas que o “dossier” das dívidas passará a ser tratado com as respectivas federações, contrariamente ao que vinha acontecendo. Sobre o assunto, Gilberto Mendes diz que os atletas pertencem às federações, pois “são elas que nos trazem a documentação”.
O Presidente da República, Filipe Nyusi, desloca-se, esta quarta-feira, à Ilha de Moçambique, província de Nampula, local onde ocorreu o naufrágio que matou 98 pessoas.
Filipe Nyusi já se encontra em Nampula, onde irá participar nas celebrações muçulmanas do Ramadão. Em declarações à imprensa, na terça-feira, no Aeroporto de Nampula, o Chefe de Estado disse que iria hoje à Ilha de Moçambique.
O Conselho de Ministros decretou, ontem, três dias de luto nacional, na sequência da morte de 98 pessoas, vítimas do naufrágio.
Reunido na terça-feira, o Conselho de Ministros criou uma comissão de inquérito para “aprofundar” as causas e as responsabilidades no naufrágio.
Por: Eduardo Quive
Na sua primeira visita a Moçambique, na qualidade de Presidente do Camões, Instituto da Língua e da Cooperação de Portugal, Ana Paula Fernandes conheceu, no terreno, os programas desenvolvidos em parceria com instituições nacionais nas diferentes áreas. Com um plano de cooperação orçado em cerca de 170 milhões de euros, durante cinco dias, com escalas em Maputo, Sofala e Nampula, Ana Paula Fernandes vislumbrou os passos dados e o que está por realizar, nas áreas da Língua e Cultura, Educação, Infra-estruturas e Empreendedorismo.
Esta visita a Moçambique, a primeira que faz desde que ocupa o cargo. Valeu pelo contacto directo com os desafios que o país enfrenta?
O Camões é um instituto que é responsável pela cooperação portuguesa, pela promoção da língua portuguesa no estrangeiro e também por toda a acção cultural externa. Nesse sentido, a minha visita centrou-se nesses três pilares. No primeiro dia, muito vocacionado para a questão da língua portuguesa e da cultura, porque tivemos a oportunidade de assinar, com a Universidade Eduardo Mondlane, um protocolo de colaboração que enquadra o Centro de Língua Portuguesa e também oferecemos ali um reforço da Cátedra, uma aposta também na formação para professores. Portanto, uma óptima reunião que tive com o Sr. Reitor. Também tivemos a oportunidade de inaugurar aqui a exposição dos 50 anos do 25 de Abril. Na Beira tive a oportunidade de inaugurar a mesma exposição no Centro Cultural do Camões. E foi muito importante fazermos isto, termos a capacidade de mobilizar recursos e apoio necessários para fazermos esta exposição também fora de Maputo.
Ainda na Beira, aí também estivemos a visitar o polo da Escola Portuguesa na Beira. Há vontade em podermos aumentar a capacidade de resposta para a quantidade de alunos. Neste momento, há cerca de 300 já na lista de espera e há toda a disponibilidade do nosso lado para trabalharmos no sentido de encontrarmos uma solução para aumentar a capacidade da Escola Portuguesa na Beira.
Depois fui fazer uma parte da cooperação, que é outro dos pilares do nosso trabalho.
E aí visitei todo o trabalho que estamos a fazer com as autoridades moçambicanas na Ilha de Moçambique, os vários projectos que temos nos diferentes eixos estratégicos, na área da Educação, no empreendedorismo, também na reabilitação urbana, com diferentes parceiros portugueses, como a UCCLA, a Fundação Aga Khan, a HELPO, etc. Uma grande parceria entre entidades moçambicanas e entidades portuguesas que constitui este grande desafio que é o cluster de cooperação na Ilha de Moçambique.
Mas também há actividades já desenvolvidas em Lumbo, aliás, como também foi identificado pelas autoridades moçambicanas, como uma necessidade também de criar infra-estruturas no Lumbo. E aí tivemos a oportunidade de inaugurar uma escola e também uma nova infra-estrutura no centro de saúde. Portanto, estamos a participar neste processo de crescimento e desenvolvimento de Moçambique, sempre indo ao encontro e sempre em colaboração com as autoridades moçambicanas, que são as que definem as prioridades e, obviamente, as linhas de actuação.
A inauguração do Centro de Língua Portuguesa na Universidade Eduardo Mondlane vem abrir uma nova página na cooperação? Que actividades este centro vai desenvolver?
A língua portuguesa é falada por 260 milhões de pessoas. Há a língua portuguesa falada em Portugal, há a língua portuguesa falada em Moçambique, no Brasil, em Angola, em todos os outros países da CPLP. É muito importante valorizarmos essa língua também em Moçambique, porque é efectivamente uma forma de valorizarmos o conhecimento dos escritores moçambicanos e aquilo que está escrito em Moçambique (em matéria de investigação na área da língua, o que também inclui a importante componente inerente à formação de professores). Portanto, o Centro de Língua Portuguesa tem, neste momento, a possibilidade de fazer formação de professores. A universidade é o centro de excelência para a investigação, para os estudos. Esta possibilidade de formalização do Centro de Língua Portuguesa contribuirá para que haja mais alunos a estudarem a língua portuguesa, a estudarem os escritores moçambicanos, a fazerem também as suas dissertações de mestrado e teses de doutoramento sobre esses escritores. Portanto, enriquecer, apostar e investir na cultura é também muito importante para o nosso desenvolvimento e para partilha de conhecimento entre povos. Isso é parte da cooperação. A língua, a cultura e a cooperação estão sempre interligadas.
Que acções se esperam com a renovação do protocolo para o apoio à Cátedra de Português Língua Segunda e Estrangeira, da Universidade Eduardo Mondlane?
Nós, os países da CPLP, temos investidos muito em projectos de excelência em matéria de conhecimento da língua em diferentes países. Com a Cátedra e também com o Centro de Língua Portuguesa estamos a potenciar a capacidade de conhecermos mais e de criarmos mais conhecimento sobre aquilo que também escrevem em Moçambique, a investigação e também a publicação, a crítica e os estudos feitos por moçambicanos sobre a língua portuguesa que se fala em Moçambique. É muito importante disponibilizarmos o conhecimento ao mundo, compartilharmos esse conhecimento para valorizarmos a língua. Há três componentes fundamentais para uma língua ser valorizada: ser falada e escrita, ser conhecida e estudada e ser publicada nos diferentes formatos que possam existir. Portanto, a Cátedra e o Centro de Língua estarão presentes nestas três grandes dimensões e daí a sua importância.
Temos muita honra que a Universidade Eduardo Mondlane tenha aceite este desafio no seu centro de línguas.
Tem-se dito que há uma Beira antes e uma depois do Ciclone IDAI. Estão visíveis as mudanças uma vez que visitou o Hospital Central?
Nós sempre apoiamos Moçambique nestes diferentes ciclones que tem vivido. Tivemos a oportunidade de visitar o Hospital Central da Beira, que também é um parceiro com quem temos obras, através de várias organizações que têm estado a apoiar, com o financiamento da Cooperação Portuguesa, a reabilitação pós-ciclone. O hospital foi muito afectado pelo ciclone e nós temos estado, como Cooperação Portuguesa, a responder às necessidades do hospital central, que serve cerca de 9 milhões de pessoas. Concentrámos aí muito esforço de reabilitação e de apoio à resposta.
Na província de Nampula visitou programas realizados com apoio da Cooperação Portuguesa. Que resultados está a ter o Cluster da Cooperação Portuguesa na Ilha de Moçambique?
Estamos a implementar a terceira fase de um grande projecto de cooperação que envolve uma parte do empreendedorismo, com apoio a um grupo de mulheres e associações de mulheres que produzem peças de artesanato e as artes da Ilha de Moçambique, para que elas sejam integradas. Portanto, para que crie dinâmica de valorização do património através da venda de artesanato e também de melhoria de condições de vida. Há uma parte que é feita com a UCCLA, que é uma entidade que reúne as cidades e tem toda esta valência de capacidade de planeamento urbano. Aí contemplamos a reabilitação dos bairros, a organização das comunidades nos bairros. Não só o saneamento, mas também as infra-estruturas, o acesso à água. Temos as entidades que nos apoiam na questão das bibliotecas, como um lugar para desenvolvermos a abordagem das histórias pelo conto e o conto pelas histórias. Depois visitamos a fortaleza, onde também há, neste momento, pensada a reabilitação da capela.
Qual será a próxima fase no projecto de cooperação para a Ilha de Moçambique?
Em termos de eixos estratégicos, vamos fazer agora a avaliação da terceira fase deste grande plano de cooperação na Ilha. Vamos avaliar o impacto das diferentes áreas e vamos nos concentrar em determinados eixos, um dos quais, desde logo, a Educação, porque temos um projecto também com a Helpo, nas escolinhas, que consiste em fortalecer toda a dinâmica educativa. Vamos reforçar o apoio aos jovens para o empreendedorismo e para a criação de emprego. Uma parte grande da cooperação tem que ver com infra-estruturas, com saneamento e com a sustentabilidade da energia e do ambiente. Será essa a próxima fase da colaboração na ilha, sempre com esta dinâmica de valorização do património, acesso aos serviços de Educação e também capacidade de gestão urbanística que permite melhorar as condições de vida das pessoas.
Numa altura que se celebra os 50 anos do 25 de Abril, que foi também importante para a independência de Moçambique, como vê os direitos humanos e as liberdades no país?
A nossa relação com Moçambique, ao longo dos anos, tem sido sempre excelente!
Portugal estará sempre presente quando necessário, obviamente, e quando solicitado.
O que é importante na história é não repetirmos os erros do passado e aprendermos com os nossos erros para construirmos um futuro, e um futuro sempre melhor. Portanto, é muito importante olharmos para os 50 anos do 25 de Abril como essa oportunidade para reflectirmos sobre o que correu mal no passado, em termos históricos, mas também para reflectirmos sobre aquilo que correu bem, no qual devemos apostar. Melhoraremos sempre e faremos sempre mais e melhor, e isso é o processo histórico. Hoje temos que pensar a liberdade e a democracia no presente e no futuro. A Educação é uma ferramenta fundamental para construirmos sociedades livres, educadas, que saibam decidir e daí a necessidade de continuarmos a apostar na educação. Penso que o governo moçambicano também está à procura de parceiros para essa área, que é uma área que considera fundamental. A Educação é fundamental em Moçambique e em Portugal. É um investimento que tem que ser diário, constante, permanente e sustentável. E temos que ir ajustando a Educação às necessidades também dos jovens e às expectativas dos jovens, para que, efectivamente, os jovens continuem a conhecer a História, o que se passou no passado para poderem valorizar o presente e construírem o futuro.
Uma sociedade que esquece o seu passado, obviamente, é uma sociedade que perde parte da sua identidade. Se nós não reconhecemos essa identidade e não construímos e investimos nessa identidade, mais dificilmente somos capazes de pensar o nosso futuro. Esse é um desafio global, é um desafio dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, muito bem colocado pelas Nações Unidas como um objectivo central do desenvolvimento, é um desafio entre sociedades como as sociedades europeias e como a sociedade portuguesa e, portanto, é um desafio para todos. E nós temos muito gosto de estarmos juntos com Moçambique para tentar encontrar as melhores soluções para continuarmos a investir na Educação desde a infância.
E porque fala em Educação, Portugal tem sido importante na oferta de bolsas para formação em várias áreas. Como é que estão esses programas e que planos tem para que cheguem a mais pessoas, tendo em conta a crescente procura e necessidade?
Temos vindo, todos os anos, a aumentar paulatinamente as bolsas em Moçambique.
Neste momento, estamos com, penso, 75 bolsas para Portugal, quando eram cerca de 50 bolsas no ano anterior. Portanto, temos vindo a crescer paulatinamente, em termos de disponibilidade. Fizemos uma alteração ao regulamento das bolsas, de forma a incluirmos, por exemplo, algo que não existia antes, que são os subsídios para habitação, porque reconhecemos a dificuldade. Por exemplo, de encontrar habitação em Portugal. Aumentamos o valor das bolsas e aumentamos o número de bolsas disponíveis. Além disso, temos também bolsas para a área da cultura, da investigação, e estamos também disponíveis para, em cooperação com as autoridades nacionais, identificar as áreas em que será necessário continuar a promover as bolsas e as áreas em que deveríamos eventualmente oferecer novas bolsas.
A cultura é uma área muito importante! O investimento em arte, cultura e música é tão importante quanto a Medicina e a Educação. O que é fundamental é que haja também condições em Moçambique para que as pessoas possam trazer benefícios aos seus estudos e, nesse sentido, as bolsas que nós denominamos bolsas internacionais são igualmente importantes como as bolsas para os estudantes moçambicanos irem estudar para Portugal, seja em licenciatura, mestrado ou doutoramento.
Em termos de volume, superamos, assim, financeiro para todos os países da CPLP. É um trabalho que temos de continuar a fazer, porque consideramos que traz muitos benefícios para quem estuda e também para a sociedade em geral.
Em geral, qual é o ponto de situação da Cooperação Portuguesa em Moçambique e do Programa Estratégico de Cooperação (PEC) de 2022-2026? Quando estamos à metade e tendo em conta as realidades que mudam, quais são as perspectiva?
Nós estamos num momento de transição, em Portugal. Tivemos, esta semana, a tomada de posse do novo governo, e, portanto, há aqui uma necessidade de falarmos com a nova tutela. Como nós dizemos, avaliar e comunicar um pouco aquilo que é o ponto de situação relativamente a essa cooperação. As linhas principais continuam a ser o investimento na Educação. Foram essas as linhas que foram acordadas no âmbito do PEC. É muito importante o investimento em património e cultura, empreendedorismo e também em toda aquela colaboração que existe em matéria de segurança e desenvolvimento, em matéria de cooperação técnico-policial. Há aqui uma série de áreas que continuam a ser uma constante da relação entre Portugal e Moçambique. O que às vezes pode ajustar é o investimento de ano para ano. Moçambique continua a ser o primeiro parceiro em termos de volume financeiro de Portugal, nesta área de cooperação para o desenvolvimento, com um PEC total de 170 milhões de euros, que foi reforçado, como sabe, até por apoio ao orçamento para efeitos também de iniciativas de implementação e também na parte humanitária, por causa dos ciclones.
Portugal tem procurado muito apoiar Moçambique na situação em Cabo Delgado. Nós contribuímos com um milhão de dólares para a OCHA, para o apoio à ajuda humanitária em Cabo Delgado, em Dezembro do ano passado. Continuaremos a fazer, sempre que necessário, esse reforço do apoio humanitário. Mas, além do apoio humanitário, estamos também com a União Europeia num projecto chamado Mais Emprego, para criarmos emprego para os jovens. Ao mesmo tempo que estamos a dar a resposta humanitária, estamos a procurar, com a União Europeia, ter uma resposta às expectativas dos jovens e à dimensão de criação da sua própria sustentabilidade financeira e económica e melhoria das suas condições de vida, para podermos dar resposta às suas expectativas, o que é muito importante em Cabo Delgado. Isso será sempre uma área, nestes próximos tempos, até que a situação, esperemos, esteja resolvida.
A minha missão desta vez não foi fazer um ponto, situação, projecto a projecto. Foi, realmente, conhecer as dinâmicas presentes. Espero vir em breve para visitar outros projectos, também noutras regiões de Moçambique, em que colaboramos com as autoridades moçambicanas para podermos, depois, fazermos essa avaliação.
Referência obrigatória no basquetebol dentro e fora país, Clarisse Machanguana continua a ser valorizada nos corredores da modalidade da bola ao cesto continental, tal é a forma como foi prestigiada recentemente pela sua presença na primeira reunião do Conselho Central da FIBA-África.
Única, sublinhe-se, moçambicana com estatuto de vice-campeã da WNBA, Clarisse Machanguana (Manucha) contribui, agora, na qualidade de integrante da Comissão das selecções jovens da FIBA-Africa, para o desenvolvimento do basquetebol no continente.
Machanguana participou, recentemente (22 e 23 de Março), na primeira reunião do Conselho Central da FIBA-África para o ciclo 2023-2027, encontro que definiu as directrizes para o basquetebol nos próximos anos. Inovou, e já estava na hora, e estabeleceu uma nova ordem no quadro de calendarização e modelo de competições.
Em traços gerais, foi definido que a Costa do Marfim e Angola acolhem, respectivamente, os “Afrobaskets” feminino e masculino, em 2025, e que em Dezembro próximo será disputada a edição de estreia da Liga dos Campeões Africanos de Basquetebol Feminino (ndr: em substituição da actual Africa Women Basketbal, AWBL).
Em Abidjan, Costa do Marfim, a mais bem-sucedida basquetebolista moçambicana partilhou as suas ideias num encontro do qual fizeram ainda participaram o presidente da FIBA-África, Aníbal Aurélio Manave; Director Executivo da FIBA-Africa, Alphonso Bilé; presidente da Fundação FIBA, Hamane Niang; membros do Conselho Central da FIBA, Pascale Mugwaneza e Jean Michel Ramaroson, entre outros quadros.
Como Clarisse Machanguana, nesta nova missão, há, pois, igual: Hamchetou Maiga, maliana que foi também seleccionada para Comissão das selecções jovens da FIBA-Africa.
Prova inequivoca do seu reconhecimento, no quinto mês do ano de 2023, Machanguana fez parte de uma restrita lista de figuras que integraram o painel da sessão da Basketball Africa League (BAL) que se debruçou sobre inspiração, capacitação e elevação da nova geração de mulheres líderes africanas. Privilegiada, Clarisse Machanguana juntou-se a a estratega e sénior de negócios e operações da NBA Egipto e a antiga estrela do Clube Gezira, Yasmin Helal.
Num evento que juntou 50 jovens profissionais e outros 12 especialistas da indústria desportiva com reconhecimento internacional, a patrona da Fundação Clarisse Machanguana deu dicas sobre a gestão da carreira, para além de apontar os caminhos que devem nortear os aspirantes a estrelas de basquetebol.
Completaram o painel de luxo a directora de inovação e experiência da Ignite, Deana Shabaan; directora de responsabilidade social e programas de jogadores da BAL, Marie-Laurence Archambault; jornalista e comentadora da BAL, Usher Komughisha, e a líder de marketing da BAL, Acha Diop.
Intramuros, através de sua fundação Clarisse Machanguana continua a inspirar a rapariga em programas de saúde e desporto.
E mais: a apoiar projectos de formação de novos talentos, tal é o caso da Escola Moçambicana de Basket da Matola, liderado por Leonel “Mabê” Manhique, bem como da acção desenvolvida pela New Vision de Cabo Delgado.
A coordenadora residente das Nações Unidas e coordenadora humanitária para Moçambique, Dra. Catherine Sozi, lamentou, hoje, a morte de 98 pessoas em naufrágio ao largo da Ilha de Moçambique.
Num comunicado de imprensa, a coordenadora residente das Nações Unidas e coordenadora humanitária para Moçambique diz que “está profundamente triste com a morte de pelo menos 91 pessoas, muitas delas crianças, em consequência do naufrágio de um ferry improvisado que viajava da cidade de Lunga para a Ilha de Moçambique na Província de Nampula neste domingo, 7 de Abril.”
Ela apresenta as suas mais profundas condolências às famílias das pessoas que morreram ou ficaram feridas e elogia as corajosas tentativas de resgate por parte das autoridades moçambicanas, que trabalham em circunstâncias extremamente desafiadoras.
No documento, refere ainda que “uma equipa que inclui representantes das Nações Unidas foi enviada para a área para apoiar os esforços de resposta das autoridades nacionais e para prestar apoio aos sobreviventes e às famílias afectadas por esta tragédia. As Nações Unidas estão prontas para ajudar Moçambique e reiteram a sua vontade de apoiar o Governo na sua resposta a desastres.”
Dezanove brigadas de recenseamento eleitoral não estão a funcionar no distrito de Quissanga, no norte de Cabo Delgado, devido às dificuldades de acesso a algumas regiões assoladas pelo terrorismo. Entretanto, a Comissão Nacional de Eleições pondera prorrogar os prazos de funcionamento dos postos caso a situação continue.
O pronunciamento dos órgãos eleitorais acontece 24 dias após o início do processo em que já se inscreveram, em todo o país, mais de 4,3 milhões de pessoas. “Não se equaciona a prorrogação do recenseamento eleitoral no distrito de Quissanga, no entanto, dependendo da evolução do cenário, os órgão eleitorais irão decidir se poderá ou não haver prorrogação mas, neste momento, não se equaciona esta possibilidade”, disse Paulo Cuinica, porta-voz da CNE.
As chuvas que caíram nas últimas duas semanas na zona Sul do país também condicionam o funcionamento das brigadas, com maior destaque para as províncias de Maputo e Inhambane. Só em Maputo e Matola, 12 brigadas foram encerradas devido às inundações.
“Estas condições impactaram negativamente a colocação normal das brigadas e o decurso normal dos trabalhos, além de ter provocado várias dificuldades no funcionamento de energia eléctrica, mas asseguramos que, até agora, tem sido possível implementar os planos de contingência, que nos permitem manter o decurso normal do processo”, acrescentou.
Outras dificuldades que minam o pleno funcionamento do processo eleitoral têm haver com o défice financeiro que os órgãos eleitorais atravessam. Sem avançar dados, o porta-voz da CNE disse, esta terça-feira, em Maputo, em conferência de imprensa, que, “a demora na disponibilização do combustível para a deslocação de equipas interfere na assistência técnica”.
O organismo máximo que tutela as eleições no país admite ainda que a falta da liberação da cota financeira, aliada às dívidas contraídas durante o processo de recenseamento em 2023, está a criar grandes embaraços no fornecimento de bens e serviços.
O recenseamento eleitoral termina a 28 de Abril, tanto em território nacional como no estrangeiro.
Contingente do Botswana começou a retirar-se de Cabo Delgado, marcando o início da saída da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral que combatia o terrorismo.
“Sexta-feira, dia 5 de Abril de 2024, marca o início da retirada da força SAMIM. O contingente retirado de Cabo Delgado foi o do Botswana, que tinha chegado à área da missão em Outubro de 2023”, refere a missão da SADC em Moçambique, numa nota divulgada hoje.
A saída do contingente foi marcada por uma cerimónia militar na província de Cabo Delgado. Entre outras realizações do mandato da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SAMIM), o contingente do Botswana “participou numa operação ofensiva para neutralizar os terroristas e realizou projectos de impacto rápido. Estas actividades fizeram com que um número significativo de Pessoas Deslocadas Internamente (PDI) regressasse à sua vida normal”, acrescenta-se na nota.
A missão da SADC em Moçambique está em Cabo Delgado desde meados de 2021 e, em Agosto de 2023, a SADC aprovou a sua prorrogação por mais 12 meses, até Julho de 2024, prevendo um plano de retirada progressiva das forças dos oito países da região que a integram.
A SAMIM compreende tropas de oito países contribuintes da SADC, nomeadamente Angola, Botsuana, República Democrática do Congo, Lesoto, Malawi, África do Sul, República da Tanzânia e Zâmbia, “trabalhando em colaboração com as Forças Armadas de Defesa de Moçambique e outras tropas destacadas para Cabo Delgado”.
O Governo moçambicano assumiu em 26 de Março que a condição atual da guerra contra rebeldes na província de Cabo Delgado justifica a saída daquela missão militar.
“A situação em que nós nos encontramos agora é muito diferente daquela em que nós estávamos quando esta força veio a Moçambique. A situação actual já justifica que se acione a sua retirada”, declarou Filimão Suazi, porta-voz do Governo moçambicano, momentos após uma reunião do Conselho de Ministros, em Maputo.