Cerca de 1,3 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas zonas de origem em Moçambique desde 2017, devido à violência armada no norte do país. Deste total, 661.532 continuam deslocadas internamente, enquanto 721.691 regressaram aos seus distritos de origem, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
No relatório operacional referente ao primeiro semestre de 2026, a agência indica que os ataques de grupos armados provocaram 26.184 novos deslocados entre Janeiro e Junho, em vários distritos da província de Cabo Delgado. Muitos dos afectados foram obrigados a deslocar-se mais de uma vez.
O ACNUR considera que a situação humanitária continua complexa, devido à persistência da violência em distritos como Ancuabe, Chiúre, Macomia, Mocímboa da Praia, Palma, Quissanga, Muidumbe e Nangade.
Para além dos ataques contra civis e infra-estruturas, a agência assinala que os grupos armados têm visado cada vez mais os meios de subsistência das populações, incluindo campos agrícolas, actividades pesqueiras e locais de exploração mineira, agravando a vulnerabilidade das comunidades.
O relatório indica ainda que Moçambique acolhe 24.217 refugiados e requerentes de asilo, provenientes sobretudo de países da África Central e Oriental.
Entre Janeiro e Junho deste ano, o ACNUR prestou assistência directa a 39.699 pessoas, incluindo deslocados internos, refugiados e famílias vulneráveis, através da distribuição de bens essenciais e apoio monetário. A agência apoiou igualmente 15.804 pessoas com assistência jurídica e 8.637 na obtenção de documentos de identificação.
No âmbito do reforço dos serviços de protecção, está em curso um projecto de 34 meses, lançado em Março, em parceria com os Governos de Moçambique e do Japão. A iniciativa prevê a construção ou reabilitação de 27 postos de atendimento em Cabo Delgado, com o objectivo de facilitar o acesso à documentação civil de mais de 100 mil pessoas e prestar assistência jurídica a outras 45 mil.
Para 2026, o ACNUR solicitou 61,3 milhões de dólares para financiar as suas operações em Moçambique e Angola. Contudo, até Junho, apenas 38% do montante tinha sido disponibilizado, deixando um défice de financiamento de 38,2 milhões de dólares.
As autoridades sul-africanas reforçaram as medidas de segurança em zonas consideradas focos de hostilidade contra imigrantes, nas cidades de Joanesburgo e Durban, na sequência do segundo dia de protestos violentos contra cidadãos estrangeiros.
Na sexta-feira, manifestantes incendiaram viaturas, atacaram estrangeiros e saquearam estabelecimentos comerciais. A polícia recorreu ao gás lacrimogéneo e a granadas de efeito moral para dispersar os grupos, que também lançaram pedras e garrafas.
Os protestos foram desencadeados pela circulação de informações falsas sobre uma directiva do Ministério do Interior, relativa à aplicação de uma decisão do Tribunal Constitucional sobre o tratamento dos pedidos de asilo.
A directiva indicava que os requerentes de asilo deveriam ter a possibilidade de apresentar os seus pedidos, mesmo quando tivessem entrado no país sem a documentação exigida. A informação levou centenas de pessoas a concentrarem-se em centros de acolhimento de refugiados, provocando a reacção de grupos contrários à imigração.
A situação foi agravada por alegações falsas de que os imigrantes sem documentação receberiam automaticamente autorização de residência no país.
O líder comunitário Tshepo Mposula criticou a actuação do Governo, acusando-o de privilegiar a protecção de cidadãos estrangeiros em situação irregular. Por sua vez, a vereadora Mpumi Edward contestou a intenção de documentar os imigrantes, defendendo que as autoridades deveriam proceder à detenção dos cidadãos que entraram ilegalmente no país.
Na tentativa de conter a contestação, o Ministério do Interior retirou a directiva na sexta-feira e anunciou a elaboração de um novo plano, em conformidade com os requisitos estabelecidos pelo Tribunal Constitucional.
A polémica surge num contexto de crescente mobilização contra a presença de estrangeiros na África do Sul, com grupos como o March and March a liderarem manifestações ao longo do ano. O movimento intensificou-se também depois de 30 de Junho, data apontada informalmente como prazo para a saída de cidadãos estrangeiros do país, levando dezenas de milhares de pessoas de outros países africanos a abandonar o território sul-africano, segundo o texto de origem.
Em Junho, o Governo anunciou medidas destinadas a reforçar a gestão migratória, incluindo o controlo das fronteiras, o combate ao tráfico de seres humanos e a aceleração da deportação de pessoas que não reúnam os requisitos legais para permanecer no país.
A África do Sul, considerada uma das maiores economias do continente, continua a atrair migrantes de vários países africanos em busca de oportunidades de emprego. Contudo, há quase duas décadas que o país regista episódios recorrentes de violência xenófoba, frequentemente associados a acusações de que os estrangeiros retiram empregos e recursos aos cidadãos nacionais.
As tensões em torno da imigração voltam a ganhar destaque às vésperas das eleições autárquicas, marcadas para 4 de Novembro. O desemprego, que ultrapassa os 30%, continua igualmente entre as principais preocupações da população.
Mais de 200 pessoas foram detidas na Índia, na sequência de manifestações contra o presidente da Comissão Eleitoral, Gyanesh Kumar, acusado pela oposição de permitir irregularidades no processo de revisão dos cadernos eleitorais. Os protestos intensificaram-se este sábado, em Nova Deli, num contexto de crescente tensão política.
A contestação teve início no princípio de Outubro e envolve estudantes, activistas e representantes de partidos da oposição, que exigem maior transparência no processo de registo dos eleitores e a demissão do responsável pela Comissão Eleitoral.
No centro da polémica está a revisão dos cadernos eleitorais, um processo que, segundo as autoridades, visa eliminar registos duplicados, actualizar informações e retirar os nomes de pessoas falecidas. A oposição, contudo, receia que cidadãos com direito de voto estejam a ser excluídos indevidamente, colocando em causa a transparência e a credibilidade dos futuros processos eleitorais.
Perante o agravamento da situação, as autoridades reforçaram as medidas de segurança em Nova Deli, com o destacamento de efectivos policiais, restrições à circulação e o encerramento temporário de algumas estações de metro. As medidas condicionaram a mobilidade dos cidadãos e dificultaram a realização de concentrações públicas.
Enquanto as autoridades defendem a legalidade do processo de revisão eleitoral, os manifestantes exigem garantias de que nenhum cidadão elegível será privado do direito de voto.
A contestação volta a colocar em debate a transparência dos processos eleitorais, a independência das instituições e a salvaguarda do direito dos cidadãos à participação democrática na Índia.
FEMATRO mantém negociações com o Governo sobre o aumento dos preços, numa altura em que os transportadores estão divididos quanto à proposta de incremento de cinco meticais e à reivindicação de 20 meticais.
O preço dos transportes públicos poderá agravar-se a partir de 1 de Novembro, no contexto das negociações entre a Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO) e o Governo sobre as compensações aos operadores.
Apesar de ainda não haver uma data definida para o pagamento das compensações, os transportadores continuam divididos quanto à proposta de incremento de cinco meticais nas tarifas. Enquanto uma parte admite aceitar o valor, desde que se mantenha o subsídio atribuído pelo Governo, outros defendem a proposta submetida pela FEMATRO, que prevê um aumento de 20 meticais.
Perante a falta de consenso, a Federação anunciou que vai retomar as negociações com o Executivo, com vista à identificação de uma solução que responda às preocupações dos transportadores e dos passageiros.
A indefinição em torno das compensações e do reajustamento das tarifas surge numa altura em que havia uma tendência de paralisação dos transportes para segunda-feira, 12 de Outubro. Entretanto, a FEMATRO apelou aos operadores para não avançarem com a suspensão das actividades, defendendo a continuidade do diálogo com o Governo.
Segundo a Federação, os transportadores deram um voto de confiança à sua direcção para prosseguir com as negociações. O ponto de situação deverá ser apresentado numa nova reunião, marcada para 26 de Outubro.
A FEMATRO considera que o aumento das tarifas é necessário para garantir a rentabilidade da actividade e melhorar as condições de operação do transporte público no país. A Federação defende que os operadores precisam de receitas suficientes para continuar a prestar serviços e assegurar condições de trabalho adequadas.
Entretanto, o eventual agravamento dos preços poderá representar um encargo adicional para os passageiros, que aguardam por uma solução para o diferendo entre os transportadores e o Governo.
O secretário-geral interino da Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (Anamola), James Njiji, questionou a decisão do Tribunal Supremo de ordenar o desbloqueio das contas bancárias de Venâncio Mondlane, que continua acusado no processo relacionado com as manifestações pós-eleitorais de 2024.
A posição foi manifestada esta quinta-feira, em Maputo, à margem da I Conferência Anual sobre Democracia Eleitoral, promovida pela Plataforma Eleitoral Decide, um dia depois de ser conhecida a decisão judicial que determinou o levantamento da medida, por considerar que já não subsistem os pressupostos para a sua manutenção.
“Sentimo-nos felizes por ver o nosso presidente com as suas contas libertas e, realmente, como podem imaginar, ter as contas bloqueadas durante dois anos não foi coisa fácil”, afirmou James Njiji, manifestando solidariedade para com o fundador do partido.
O dirigente questionou, contudo, a compatibilidade entre o desbloqueio das contas e as acusações de incitamento ao terrorismo que pesam sobre Mondlane. Apesar disso, afirmou encarar o julgamento do líder do Anamola com “esperança de justiça”, embora considere que este está a responder por crimes que não cometeu.
Venâncio Mondlane enfrenta acusações de apologia pública ao crime, incitamento à desobediência colectiva, instigação pública à prática de crime, instigação ao terrorismo e incitamento ao terrorismo, no âmbito do processo-crime movido pelo Ministério Público na sequência das manifestações pós-eleitorais.
O julgamento está marcado para 17 de Novembro, no Tribunal Supremo. Segundo o despacho de acusação do Ministério Público, a prova contra o político inclui apelos à contestação, greves, paralisações e mobilização para protestos, divulgados através de transmissões em directo nas redes sociais.
As contas bancárias de Mondlane estavam bloqueadas desde Novembro de 2024, quando o Tribunal Judicial da Cidade de Maputo determinou a aplicação da medida e solicitou informações sobre os respectivos movimentos e extractos bancários.
O secretário-geral interino garantiu ainda que o Anamola continua a funcionar normalmente, independentemente do processo judicial contra o seu líder, e disse esperar que os simpatizantes acompanhem o julgamento da forma que considerarem adequada.
A construção e reabilitação de infra-estruturas, a melhoria do acesso à água e à electricidade, o reforço dos serviços de saúde e a formação profissional fazem parte das iniciativas de responsabilidade social desenvolvidas em várias províncias do país.
Da Zambézia ao Niassa e a Nampula, diferentes projectos empresariais têm apoiado a construção e reabilitação de infra-estruturas, a prestação de serviços básicos e a formação de quadros moçambicanos, através de investimentos em estradas, pontes, poços, energia, saúde, bolsas de estudo e oportunidades de emprego.
As iniciativas são desenvolvidas pelas empresas do Grupo Jinan Yuxiao nas respectivas áreas de actividade, em colaboração com as autoridades locais e as comunidades abrangidas.
Infra-estruturas para melhorar a circulação e o acesso à energia
No distrito de Inhassunge, na província da Zambézia, a estrada que liga Chiremane a Boone, uma importante via de acesso à cidade de Quelimane, era frequentemente danificada pelas chuvas e inundações. Perante as dificuldades de manutenção, a Africa Great Wall Mining mobilizou máquinas e trabalhadores para a sua reabilitação, na sequência de um pedido do governo local.
Em Outubro de 2023, a empresa entregou às autoridades cinco quilómetros de estrada reabilitada e cinco pequenas pontes, num investimento de 18 milhões de meticais.
No distrito de Pebane, a TZM procedeu, em Abril de 2024, ao revestimento com terra vermelha de um troço de mais de dez quilómetros da antiga estrada arenosa entre Moebase e Cussiane. A intervenção visou apoiar as obras na área mineira e facilitar a circulação dos residentes das comunidades vizinhas.
Já a ponte sobre o rio Lúrio, construída com o apoio da DH Mining Development Company, estabelece a ligação entre o distrito de Nipepe, no Niassa, e o de Lalaua, em Nampula. Inaugurada a 18 de Setembro de 2024, a infra-estrutura criou novas condições para a circulação de pessoas e o transporte de mercadorias entre os dois distritos.
Em Moma, na província de Nampula, a comunidade de Coropa, na localidade de Mpago, passou a estar ligada à rede eléctrica nacional a 30 de Agosto de 2024. O projecto foi financiado pela Haiyu Mining, no âmbito do Plano de Responsabilidade Social 2022–2026.
O acesso à electricidade permitiu criar condições para o desenvolvimento de pequenos negócios, incluindo barbearias e estúdios de gravação de música, além de facilitar a actividade dos revendedores de peixe.
O acesso à água também integra as iniciativas desenvolvidas nas comunidades. Em Naburi, Mulela e noutras localidades, a TZM apoiou a construção de poços, aproximando as fontes de abastecimento dos residentes e reduzindo as distâncias percorridas diariamente para obter água.
## Saúde e saneamento entre as prioridades
O reforço dos serviços de saúde constitui outra vertente das acções de responsabilidade social. A 12 de Abril de 2023, a TZM Resources, a Africa Great Wall Mining Development e a Mozambique Heavysand lançaram, na Zambézia, o Plano de Responsabilidade Social 2023–2028.
Na ocasião, as empresas doaram três ambulâncias e três milhões de meticais aos distritos de Pebane, Inhassunge e Chinde, onde estão implantados os seus projectos.
Na província de Nampula, a Haiyu Mining participou na construção de infra-estruturas de saúde de proximidade, disponibilizando clínicas e ambulâncias às comunidades. A empresa apoiou igualmente a reabilitação e ampliação do Centro de Saúde de Sangage.
No domínio do saneamento, a Haiyu Mining apoia a construção de sanitários públicos no bairro de Inguri, no município de Angoche. O projecto prevê instalações em escolas, mercados, locais de culto e outros espaços comunitários.
A formação de profissionais de saúde também beneficiou do apoio da empresa. Quatro jovens mulheres das comunidades receberam bolsas de estudo para frequentar o curso de Enfermagem Geral no Instituto Politécnico da RDHC de Angoche, entre 2021 e 2023, tendo todas concluído a formação.
Bolsas de estudo e emprego para jovens moçambicanos
A formação de quadros nacionais integra igualmente as iniciativas de apoio ao desenvolvimento local. Em Agosto de 2015, a Africa Great Wall Mining financiou a formação de dez estudantes moçambicanos na Universidade de Geociências da China, em Pequim, através de um programa de bolsas de estudo.
Mais recentemente, a inauguração da fábrica de processamento de grafite de Nipepe, a 30 de Janeiro de 2026, marcou uma nova etapa na actividade industrial naquela região do Niassa. Na ocasião, o presidente do Grupo Jinan Yuxiao, Wu Tao, afirmou que o projecto já contava com mais de 800 trabalhadores locais.
A construção e o funcionamento da unidade criaram oportunidades de emprego para residentes, tanto no sector mineiro como no processamento de grafite.
Além da criação de postos de trabalho, a formação contínua é apontada como um dos elementos importantes para o desenvolvimento de competências técnicas. A actividade mineira exige conhecimentos sobre equipamentos, segurança, processos de produção e trabalho em equipa, áreas em que a aprendizagem no local de trabalho pode contribuir para a preparação dos trabalhadores.
Durante a inauguração da unidade de Nipepe, foram anunciadas medidas de formação adicional. Na Zambézia, os planos plurianuais de responsabilidade social incluem também bolsas universitárias e formação profissional para jovens.
As iniciativas abrangem, assim, diferentes etapas do percurso académico e profissional, desde o acesso ao ensino superior e à formação especializada até à integração no mercado de trabalho.
A continuidade dos investimentos em infra-estruturas e serviços básicos, a par da formação de jovens e da criação de oportunidades de emprego, constitui uma das dimensões da cooperação entre as empresas e as comunidades onde desenvolvem os seus projectos.
A manutenção das estradas, dos poços e das unidades de saúde, bem como a continuidade das oportunidades de aprendizagem, são aspectos importantes para assegurar que os benefícios destas iniciativas se prolonguem para além da conclusão das obras e contribuam para o desenvolvimento das comunidades.
A jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay tem um longo percurso na defesa dos direitos humanos, da justiça internacional e da dignidade humana, marcado pela luta contra o apartheid e pelo exercício de funções de destaque em instituições judiciais internacionais.
Nascida em Durban, Pillay tornou-se, em 1967, a primeira mulher a abrir um escritório de advocacia na então província sul-africana de Natal. Durante o apartheid, actuou como advogada de defesa de activistas contra o regime, denunciando práticas de tortura e contribuindo para a defesa dos direitos fundamentais dos reclusos na Ilha Robben.
Com o fim do apartheid, em 1995, foi nomeada juíza interina do Tribunal Superior da África do Sul e integrou o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda, onde exerceu funções durante oito anos, incluindo quatro como presidente.
Entre 2008 e 2012, Pillay ocupou o cargo de Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, consolidando o seu papel na promoção da justiça e na protecção das liberdades fundamentais à escala internacional.
Mais recentemente, presidiu à Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre o Território Palestino Ocupado.
O seu percurso profissional é marcado pelo compromisso com a responsabilização por violações dos direitos humanos e pelo reforço do direito internacional.
A União Africana lançou, nas Maurícias, a primeira agência continental de classificação de risco de crédito, numa iniciativa destinada a diversificar as avaliações sobre as economias africanas e melhorar o acesso dos países e empresas do continente ao financiamento.
África passa a ter uma instituição própria para avaliar a capacidade dos seus países, instituições financeiras e empresas de honrarem as suas obrigações financeiras. A África Credit Rating Agency (AfCRA) foi oficialmente lançada esta semana em Port Louis, nas Maurícias, numa iniciativa apoiada pela União Africana e desenvolvida ao longo de vários anos.
A nova agência surge num mercado dominado pelas três grandes empresas internacionais de classificação de risco, S&P Global Ratings, Moody’s e Fitch Ratings. A União Africana e outros actores africanos têm defendido que as avaliações produzidas por estas instituições nem sempre incorporam adequadamente as especificidades das economias africanas, podendo contribuir para custos de financiamento mais elevados.
A AfCRA pretende oferecer uma avaliação complementar, baseada em dados, conhecimento e especialistas africanos. A instituição deverá analisar não apenas governos, mas também entidades subnacionais, instituições financeiras e empresas privadas.
Para os promotores da iniciativa, a classificação de risco tem consequências directas sobre o acesso ao financiamento. Quanto maior for o risco atribuído a um país, maior tende a ser o prémio exigido pelos investidores para comprar a sua dívida. Isso significa que uma alteração na percepção de risco pode influenciar directamente os juros pagos por governos africanos para financiar défices, infra-estruturas e outros investimentos.
A nova agência nasce num momento em que muitos países africanos enfrentam elevados níveis de endividamento e custos crescentes do serviço da dívida. Segundo dados citados pela Reuters, o serviço da dívida externa dos países africanos atingiu cerca de 163 mil milhões de dólares em 2024. Ao mesmo tempo, 23 economias africanas não possuem actualmente uma classificação atribuída por nenhuma das principais agências internacionais, deixando uma parte do continente com cobertura limitada nos mercados de capitais.
A entidade não pretende substituir as agências internacionais. A proposta é criar uma fonte adicional de avaliação, com uma perspectiva centrada nas condições económicas africanas. A União Africana considera que uma maior disponibilidade de informação poderá ajudar investidores a compreender melhor os riscos e oportunidades existentes no continente.
Mas o principal desafio será conquistar credibilidade junto dos mercados internacionais. Para que uma classificação africana tenha impacto sobre os custos de financiamento, investidores e instituições financeiras terão de confiar na sua independência, metodologia e capacidade técnica.
A própria União Africana reconhece que a independência será fundamental para o sucesso da instituição. A agência deverá funcionar como uma entidade independente, financiada pelo capital dos seus accionistas e pelas receitas das suas operações.
As Organizações Sem Fins Lucrativos negam que estejam envolvidas em crimes de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo. Por isso, exigem um tratamento diferenciado diante dos bancos comerciais e das autoridades públicas ligadas à matéria.
Por constarem da lista dos suspeitos de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo há cerca de dois anos, nesta quinta-feira decidiram sentar-se à mesma mesa com o Governo e os bancos comerciais para limpar o seu nome e exigir também um tratamento menos asfixiante.
Num evento que contou com a participação da secretária permanente do Ministério das Finanças, as organizações queixaram-se de estar a enfrentar problemas sérios para abrir contas bancárias e para receber dinheiro de doadores externos para os seus projectos.
“O doador manda o recurso e o banco informa, às vezes depois de duas a três semanas, que recebeu uma transferência e começa a pedir uma série de documentos. Muitas vezes, esses documentos já foram entregues, às vezes não é um contrato novo. É uma transferência para implementar imediatamente. O tempo demora tanto, às vezes dois a três meses. Em alguns casos, há organizações que reportaram que não conseguem receber esse dinheiro e acabam perdendo o recurso. Por exemplo, se é uma resposta a uma emergência, como cheias ou outra coisa, depois de três a quatro meses torna-se irrelevante”, defende a activista social Paula Monjane, representante do Movimento para a Liberdade de Associação.
Diante das constatações, as organizações consideram inaceitável que cumpram os requisitos exigidos pelos bancos para gerir uma conta bancária e que, mesmo assim, os seus processos não corram. Acusam os bancos de ignorar as recomendações das autoridades oficiais.
“As nossas recomendações são: primeiro, que a avaliação sectorial de risco seja uma ferramenta de uso dos bancos e do sistema financeiro para definir as medidas proporcionais. Segundo, que as boas práticas do GAFI também sejam consideradas no processo de definição de medidas baseadas no risco. Terceiro, que haja um diálogo permanente entre o Governo, o sector financeiro e a sociedade civil. Quarto, que as medidas sejam proporcionais, de tal forma que não levem as organizações a abandonar o sistema financeiro formal para começarem a usar um sistema informal, no qual não vai ser possível encontrar e controlar operações suspeitas”, detalha a activista social Quitéria Guirengane.
Contudo, as organizações sem fins lucrativos exigem um tratamento tendo em conta o risco de cada uma delas. “O que nós exigimos como sociedade civil, sobretudo como CESC, é que essa lista das organizações que supostamente foram detectadas na avaliação fosse entregue aos bancos, no sentido de que, na altura das transacções financeiras, fosse a esse tipo de organizações que se devia demandar mais documentação. Não faz sentido, por exemplo, uma organização pequena, ao nível de Cabo Delgado, que precisa de receber fundos para poder implementar os seus pequenos projectos de desenvolvimento para alavancar o desenvolvimento local, não ter acesso a fundos porque, supostamente, as organizações da sociedade civil são susceptíveis de abuso, mesmo que não haja evidências sobre isso”, considera Domingos do Rosário, gestor do CESC, uma organização da sociedade civil.
Por sua vez, os bancos comerciais dizem estar a trabalhar com listas oficiais de suspeitos e com base na legislação, motivo pelo qual exigem melhor organização aos queixosos.
“Temos um sistema de identificação de entidades nacionais relacionadas com o financiamento do terrorismo, e isso consta de umas listas que são publicadas também ao nível nacional e enviadas aos bancos para que adoptem medidas proporcionais ou medidas de mitigação relativamente a essas entidades. Agora, identificar casos em concreto não seria o momento para trazer aqui. O que se pretende mesmo é que as instituições estejam preparadas para evitar que estes riscos de facto se concretizem e que haja de facto este uso do sector para o financiamento do terrorismo”, explicou aos jornalistas Edgar Fortes, da área de anti-branqueamento de capitais do Banco de Moçambique.
Por seu turno, Samir Zacarias, representante da Associação Moçambicana de Bancos (AMB), explica que os bancos têm métricas específicas para medir os riscos das organizações. “Tendo em conta o resultado, a documentação que é solicitada pode divergir em alguns pontos. Quando nós calculamos o nível de risco de uma associação, há associações que operam em áreas de alto risco. Vou dar um exemplo de Cabo Delgado, que é uma área assolada pelo terrorismo. Há outras que não operam numa área de alto risco. Evidentemente, o resultado do nível de risco dessas duas associações pode ser diferente”, explicou.
Na última avaliação, as confissões religiosas apareciam com maior risco. Mas há trabalhos em curso para melhorar a situação e, em breve, haverá uma nova avaliação.
“68% das confissões religiosas foram apontadas com algum nível de risco. Elas estão identificadas na avaliação nacional de risco. Nós temos dados que apontam para as confissões religiosas, é preciso que se retenha o que se está a dizer. E quais são esses riscos? Não há contas bancárias, (…) há uma série de elementos que contrariam a Lei 14 do Branqueamento de Capitais”, destaca Luís Cezerilo, coordenador nacional de políticas de prevenção ao branqueamento de capitais, financiamento ao terrorismo e proliferação de armas.
Espera-se que a reunião que teve lugar ontem em Maputo produza consensos entre os bancos, as organizações sem fins lucrativos e as autoridades do Governo, sem prejuízo das partes.
O país começa a transformar o seu património florestal numa fonte de financiamento climático. O país já arrecadou mais de seis milhões de dólares através do mercado de carbono, mas especialistas alertam que o potencial deste mecanismo continua condicionado pelo desmatamento, fiscalização deficiente e falta de investimentos de longo prazo.
O tema dominou o segundo e último dia do Fórum de Financiamento Climático, que decorreu em Maputo, onde foram igualmente discutidos mecanismos de finanças verdes e gestão sustentável das florestas.
Para os especialistas, um dos principais desafios está na necessidade de integrar os investimentos na agricultura e no sector florestal, de modo a reduzir a pressão sobre os recursos naturais.
“Há uma forte pressão sobre a exploração ilegal dos recursos naturais que existem. É preciso fazer um investimento mais sério, mas este investimento não é só em fiscalização. Tem que haver um processo. Temos que usar a abordagem que, no início dos anos 2000, se falava, fiscalização participativa e integrada com o maneio comunitário dos recursos naturais”, explicou Aristides Muhate, engenheiro florestal.
O especialista defende ainda que os investimentos devem ser contínuos e abranger também as comunidades que dependem directamente dos recursos naturais.
“O financiamento não pode ser aquele financiamento de entrar, entregar dinheiro e a pessoa foi. Tem que ser um financiamento em que financiamos actividades, tanto no sector da agricultura como no sector das florestas. Para o sector das florestas crescer, a agricultura tem que estar bem estruturada”, acrescentou.
Outro desafio apontado está relacionado com as práticas agrícolas, que contribuem para a pressão sobre as florestas. Muhate considera que a baixa utilização de tecnologias e a limitada assistência aos produtores dificultam a redução do desmatamento.
“A agricultura usa métodos não avançados. Usamos instrumentos simples, não investimos em adubar o terreno, não temos serviços de extensão que cubram todos os agricultores, não temos assistência técnica em sementes melhoradas e não temos tecnologia”, explicou.
O país enfrenta ainda o desafio de garantir que os projectos de carbono cumpram padrões internacionais de certificação. Para os especialistas, qualquer falha no processo pode comprometer a credibilidade dos créditos gerados.
“Cada falha nesse ciclo praticamente compromete todo o processo. Daí que é preciso estar totalmente alinhado com os procedimentos internacionalmente válidos e com os padrões que cumprem com esse processo de certificação”, alertou Luís Nhamuchua, especialista em mercado de carbono.
Nhamuchua defende, por isso, maior capacitação dos intervenientes nacionais para melhorar o domínio dos mecanismos internacionais e permitir a adaptação desses processos à realidade moçambicana.
Apesar dos desafios, o mercado de carbono já começa a gerar resultados financeiros para o país. Moçambique arrecadou mais de seis milhões de dólares numa operação de comercialização de créditos de carbono, experiência que, segundo o Governo, trouxe importantes lições para o desenvolvimento do sector.
“O país já teve um pagamento de seis milhões de dólares por essa operação. Foi um exercício desafiante e deixou-nos algumas lições. Nós não podemos, por um lado, transaccionar créditos de carbono porque conservamos a natureza e, do outro lado, estarmos a criar desmatamento”, explicou Albano Manjate, Director Nacional do Financiamento Climático.
Para o responsável, a preservação das florestas é essencial para garantir a credibilidade dos créditos de carbono e evitar que a degradação ambiental comprometa o valor económico deste mercado.
“Isso coloca em risco a própria credibilidade desses créditos de carbono e acaba por minar também o próprio preço”, acrescentou.
Além da comercialização de créditos de carbono, o Governo está a estudar outros mecanismos de financiamento, incluindo formas de conversão da dívida que possam contribuir para a conservação dos recursos naturais sem estimular o desmatamento.
Os debates terminaram com a criação de uma carteira nacional de projectos para a mobilização de financiamento climático. A iniciativa deverá servir de base para orientar a estratégia nacional de angariação de recursos e facilitar o acesso a financiamento para projectos ligados ao clima, às florestas e ao desenvolvimento sustentável.