A União Africana lançou, nas Maurícias, a primeira agência continental de classificação de risco de crédito, numa iniciativa destinada a diversificar as avaliações sobre as economias africanas e melhorar o acesso dos países e empresas do continente ao financiamento.
África passa a ter uma instituição própria para avaliar a capacidade dos seus países, instituições financeiras e empresas de honrarem as suas obrigações financeiras. A África Credit Rating Agency (AfCRA) foi oficialmente lançada esta semana em Port Louis, nas Maurícias, numa iniciativa apoiada pela União Africana e desenvolvida ao longo de vários anos.
A nova agência surge num mercado dominado pelas três grandes empresas internacionais de classificação de risco, S&P Global Ratings, Moody’s e Fitch Ratings. A União Africana e outros actores africanos têm defendido que as avaliações produzidas por estas instituições nem sempre incorporam adequadamente as especificidades das economias africanas, podendo contribuir para custos de financiamento mais elevados.
A AfCRA pretende oferecer uma avaliação complementar, baseada em dados, conhecimento e especialistas africanos. A instituição deverá analisar não apenas governos, mas também entidades subnacionais, instituições financeiras e empresas privadas.
Para os promotores da iniciativa, a classificação de risco tem consequências directas sobre o acesso ao financiamento. Quanto maior for o risco atribuído a um país, maior tende a ser o prémio exigido pelos investidores para comprar a sua dívida. Isso significa que uma alteração na percepção de risco pode influenciar directamente os juros pagos por governos africanos para financiar défices, infra-estruturas e outros investimentos.
A nova agência nasce num momento em que muitos países africanos enfrentam elevados níveis de endividamento e custos crescentes do serviço da dívida. Segundo dados citados pela Reuters, o serviço da dívida externa dos países africanos atingiu cerca de 163 mil milhões de dólares em 2024. Ao mesmo tempo, 23 economias africanas não possuem actualmente uma classificação atribuída por nenhuma das principais agências internacionais, deixando uma parte do continente com cobertura limitada nos mercados de capitais.
A entidade não pretende substituir as agências internacionais. A proposta é criar uma fonte adicional de avaliação, com uma perspectiva centrada nas condições económicas africanas. A União Africana considera que uma maior disponibilidade de informação poderá ajudar investidores a compreender melhor os riscos e oportunidades existentes no continente.
Mas o principal desafio será conquistar credibilidade junto dos mercados internacionais. Para que uma classificação africana tenha impacto sobre os custos de financiamento, investidores e instituições financeiras terão de confiar na sua independência, metodologia e capacidade técnica.
A própria União Africana reconhece que a independência será fundamental para o sucesso da instituição. A agência deverá funcionar como uma entidade independente, financiada pelo capital dos seus accionistas e pelas receitas das suas operações.