Parecia um filme de acção, cujas gravações nunca terminam e as cenas mais brutais são realizadas sem dublê e todos os dias têm replay.
Quando o chapa reduziu a Marcha, uma multidão alagou a entrada do veículo na velocidade de quem sabe o que significa ser o último a chegar.
Mas para entrar no chapa, em Maputo, na hora da ponta, já sabemos todos que não basta só correr, é preciso passar pelo terrível teste de um única pergunta:
– Para onde vai? Quem entende Xichangana, sabe que a tradução desta pergunta tem um peso diferente.
Quem responder errado vai reprovar. O problema é que não há resposta certa. O cobrador é quem decide, no fim das contas. E mesmo quando ele te aprova, só tens garantia que estás dentro, quando desce no teu destino.
Uma vez, num chapa para Xiquelene, partindo da Baixa da cidade de Maputo, menti que ia descer na paragem depois da Avenida Joaquim Chissano. O cobrador anunciou e me colocou na “área vip” do chapa, ao lado do motorista, não é para qualquer um, é só para os privilegiados, geralmente familiares, conhecidos ou pessoas do interesse do cobrador ou do motoristas e em raros casos para pessoas cujos destinos são de poucos metros depois da partida.
Nós, “as pedras”, que na maioria descemos quase no fim da linha, viajamos na classe económica.
Convencida de que já tinha vencido a guerra, acomodei-me e meti os dedos no celular, até ouvir :
-Senhora de preto, Xilenhane é aqui, pode descer.
Congelei por segundos, reuni coragem e cuspiu as palavras na cara dele
-Não vou descer.
-Tudo bem, disse ele, muito calmo. – Dá espaço a menina que está a atravessar, deixa ela sentar no meio. Não vi nenhuma menina, mas não desconfiei. Concordei, desci e o carro arrancou, deixando-me para trás, sem crer no que tinha acontecido e ainda deu para ouvir o cobrar, sarcástico a determinar:
-Eu sou o cobrador aqui, eu mando e eu posso gingar.
A raiva encheu meus pulmões como fogo de um vulcão pronto para entrar em erupção.
Naquele momento me perguntei quem tinha dado poder a esses cobradores ao ponto de não respeitar o passageiro. O passageiro não devia ser o tal patrão, não é dele que sai o dinheiro que sustenta a actividade e as suas famílias?
Como chegamos a estes níveis de desordem?
Outro dia, na paragem perucas, quem é de Maputo conhece, num chapa com destino a cidade da Matola, o cobrador berrou “Só levo a volta”.
“A volta” quer dizer que os passageiros devem pagar o dobro do valor do transporte, sendo que na íntegra só vai realizar uma.
Aquilo é um “ deixa andar” autêntico. Ninguém faz nada, ninguém diz nada. Custa viver em Maputo. Fico a imaginar o as equações que os passageiros devem resolver todos os dias para as suas contas “ Baterem”. Há muita impunidade. Outro dia um cobrador disse “ Nao podem nos fazer nada, nós lhes damos refresco”.
Há muita impunidade. O todo poderoso do cobrar faz e desfaz. É mesmo uma figura divina, não teve começo, muito menos um fim à vista. Ele decide quem entra e quem não pode chegar a casa ou ao trabalho atempadamente. E, como um bom “deus” que é, só pelo rosto sabe dizer que mente e, quem realmente tem cara de descer rápido e, a esses, dá o privilégio de ocupar o assento magno, o da frente.
E como ninguém está acima do todo poderoso, a vida segue assim.