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O País – A verdade como notícia

Um despertar mais aprazível e conciliador

Ontem, a angústia e o profundo abatimento eram inconfessáveis. Hoje, despertei envolto pela sensação de alívio e com esse sorriso que se prolonga por toda a jornada! Lula deu a volta e venceu. Por enquanto, tenho a sensação de que o mundo recuperou a esperança e a confiança na decisão de um povo.

 

Sou moçambicano e não voto no Brasil. Todavia, celebrei esta vitória, que ultrapassou em muito tantas fronteiras e teve o sabor da manga e do alívio neste começo do Verão.

A vitória de Lula foi, inequivocamente, um sinal de alívio e a afirmação de que a fome não deve ser um destino, nem a pobreza, uma herança teimosa; muito menos devem os mais frágeis e necessitados continuar a pagar a factura dos privilégios dos mais fortes.

 

Não faço, e jamais faria, de Lula um santo, nem mesmo um apóstolo. Afinal, a política não deve ser confundida com um altar, nem se deve conferir aos presidentes um certificado de infalibilidade. Convenhamos, prefiro as opiniões e os consensos que procuram aproximar os pobres da mesa aos dissensos que afastam a mesa dos pobres. Já era tempo de respirar. O mundo está prenhe de exemplos de pessoas que confundem riqueza com superioridade moral, força com razão e popularidade com autorização divina.

 

Sou sempre suspeito quando falo da divindade. Porém, vou seguindo uma política que coloca Deus acima de todos. Essa postura não só me intriga como também confunde o juízo de valor dos mais incautos. Tem sido assim, com discursos sobre Deus no palanque, com as vontades de Deus na urna e, sempre, com Deus na propaganda. Só falta mesmo pedirem que Deus presida à Comissão Eleitoral. Ainda bem que Deus não carece de assessores políticos, muito menos de cabos ou fiscais eleitorais.

 

Também por cá, em Moçambique, temos admiradores de discursos acusatórios que quase se aplicam à nossa realidade. São discursos que ficam fora da fotografia e se transformam numa espécie de turismo ideológico. Aquele discurso que viaja e importa slogans faz-nos crer que descobrimos a pólvora.

 

É frequente dizer-se, nestas paragens, que “a mentira tem pernas curtas”. De modo semelhante, ensina-se às crianças que “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe”. A democracia tem muito destas facetas. Os poderosos fazem discursos, os eleitores escutam e, no final, o voto até pode estragar a festa de quem já se julgava dono do salão. Lula venceu e agora terá de saber honrar esta confiança. Terá de defender os interesses dos pobres e dos menos pobres; afinal, todos são brasileiros. Terá de respeitar a democracia e jamais esquecer que os aplausos passam, mas as necessidades do povo permanecem.

 

Por fim, não sei se devo negar que acordei mais feliz, sorridente, esperançoso. Não porque todos os problemas tenham desaparecido, mas porque este pesadelo que me invadia parece ter terminado e o sentimento de esperança voltou a abrir as minhas janelas. Afinal, até o café da manhã me soube muito melhor. E, como dizem, enquanto houver vida, haverá sempre esperança. Hoje, pelo menos, essa esperança tomou café no Brasil e chegou até Moçambique, com um paladar ainda mais agradável.

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