O Presidente do Conselho Municipal de Chimoio, entidade responsável pela gestão da Casa Mortuária da cidade, pediu desculpas à família de uma mulher cujo cadáver foi encontrado com uma das orelhas removida. O edil garantiu que o caso está a ser investigado pelas autoridades competentes, devendo ser responsabilizado quem estiver na origem do sucedido.
Falando sobre o caso, o Presidente do Conselho Municipal de Chimoio reconheceu a gravidade da situação e manifestou solidariedade à família enlutada. “Muito humildemente, pedi desculpa à família pelo ocorrido. Vamos apurar realmente o que aconteceu e, se houver algum responsável, será punido”, afirmou, admitindo que o autor poderá ser um funcionário municipal, um profissional do hospital ou alguém estranho às duas instituições.
O edil afastou, entretanto, a possibilidade de o caso estar relacionado com tráfico de órgãos, argumentando que, segundo as informações de que dispõe, nenhuma outra parte do corpo da vítima terá sido retirada.
Na sequência do incidente, o Conselho Municipal de Chimoio anunciou o reforço das medidas de controlo na Casa Mortuária. Entre as medidas previstas está a coordenação com o hospital para que a entrada de cadáveres seja feita, sempre que possível, durante o período diurno. Em casos de falecimento durante a noite, deverá ser estabelecido um horário e um procedimento específico para a recepção dos corpos, garantindo a presença de um funcionário responsável.
Entretanto, o sector de Medicina Legal esteve, na manhã desta segunda-feira, a analisar os cortes encontrados no cadáver, com o objectivo de determinar a sua origem e esclarecer se foram provocados por intervenção humana ou por animais roedores.
As autoridades aguardam pelos resultados das investigações para determinar as circunstâncias exactas em que ocorreu a remoção da orelha e apurar eventuais responsabilidades.
Nos hospitais da cidade de Nampula, há atendimento aos utentes, mas os doentes denunciam morosidade associada à greve dos médicos que iniciou esta segunda-feira. No Hospital Central de Nampula, os médicos militares estão a dar assistência sanitária.
O Hospital Geral de Marrere fica na periferia da cidade de Nampula e é dos mais frequentados. Contrariamente aos dias comuns, esta segunda-feira, foi de um movimento abaixo do habitual, e o atendimento estava a ser assegurado, ainda que com morosidade.
No momento da passagem da equipa de reportagem do jornal O País do hospital, os responsáveis não estavam e não havia informação concreta sobre a adesão ou não à greve.
Na maior unidade hospitalar do Norte do país, o Hospital Central de Nampula, o movimento no banco de socorros era difícil de entender se está relacionado à greve ou se se trata das enchentes comuns às segundas-feiras.
Seja como for, os utentes, também reclamavam da morosidade no atendimento.
Os médicos militares já estão posicionados e a garantir o atendimento público.
A direcção do Hospital Central de Nampula ainda está a fazer o levantamento para perceber o grau de adesão à greve. Por isso mesmo, prometeu pronunciar-se esta terça-feira.
A selecção nacional de futebol, Mambas, perdeu, hoje, diante do Lesotho, por 1-0, em jogo da segunda jornada do grupo C do Torneio Cosafa. O único golo da partida foi apontado por Neo Mokhachane à passagem do minuto 34. Os Mambas ainda tentaram encentar uma reacção, mas sem sucesso.
Com a vitória, o Lesotho lidera o grupo C com seis pontos, seguido das Maurícias com três. Os ilhéus venceram, também esta segunda-feira, Angola por um a zero. Os Mambas ocupam a última posição com apenas um ponto, sendo que, na última jornada, na quarta-feira, medem forças com as Maurícias.
Para se qualificarem para a fase seguinte, os Mambas precisam de vencer e esperar que o Lesotho derrote ou empate com Angola.
Na capital do país, Cidade de Maputo, os profissionais de saúde queixam-se de sobrecarga em alguns hospitais, devido à greve dos médicos. Os utentes queixam-se de mau atendimento.
Com o frio na Cidade de Maputo, algumas unidades sanitárias registaram pouca afluência de pessoas que procuram por cuidados de saúde. Ainda assim, o atendimento era lento.
Numa ronda por alguns hospitais da capital, o cenário era de pouca afluência. Mesmo assim, parte dos utentes denunciou o mau atendimento no primeiro dia da greve no Hospital Geral José Macamo.
“Cheguei aqui por volta das duas horas da madrugada, particularmente, não gostei do atendimento, porque, quando chegámos, fomos mal recebidos. Eu estava desesperado e uma das enfermeiras estava a falar ao telefone e não fez nada para nos ajudar e só depois de esperar muito tempo é que tivemos ajuda. Isso não aconteceu apenas comigo, há outras situações que acompanhei de vários utentes”, denunciou Sidny Dilas, utente do Hospital Geral José Macamo.
Quem também se queixou de morosidade no atendimento é Domingos, que disse ter ficado mais de duas horas de tempo à espera de tratar certidão de óbito.
“Cheguei muito cedo para tratar certidão de óbito do meu irmão, falecido ontem neste hospital, passam-se quase duas horas de tempo, até agora só pediram a nossa ficha e não temos nenhuma informação sobre o documento. Tudo está parado, nem água vem nem água vai”, disse Domingos, utente naquela unidade sanitária.
Reagindo à situação, o director clínico do Hospital Geral José Macamo, Luís Malle, reconheceu o problema e disse que a situação se deve à ausência de profissionais em alguns serviços.
“No Banco de Socorros, apareceram apenas sete médicos, normalmente são quinze mas divididos em vários turnos. No turno que costuma ter nove a dez pessoas, só há sete, mesmo assim, o atendimento está um pouco lento para aquilo que devia ser. Temos 30 médicos especialistas em todo o hospital, felizmente nenhum deles faltou. Os clínicos gerais são 22 e só temos os sete que estão presentes, mas temos outros turnos e ainda não sabemos se virão ou não”, disse Luís Malle, director clínico do Hospital Geral José Macamo.
Luís Malle disse ainda que os médicos em exercício se ressentem do excesso de trabalho e que a maternidade estava a funcionar normalmente, porque os médicos especialistas não faltaram, mas também temos alguns clínicos gerais que dão apoio e esses faltaram.
Há incerteza de quantos profissionais aderiram à greve na totalidade, mas de uma coisa Luís Malle tem a certeza: “O pessoal ressente-se do excesso de trabalho”.
No Hospital Geral de Mavalane, o fluxo de pessoas à procura de cuidados de saúde também foi abaixo do normal e os profissionais tiveram que redobrar os esforços. De acordo com a directora clínica interina, Luzidina Martins, o atendimento aos utentes estava a decorrer normalmente, mas, para garantir essa normalidade, os poucos médicos que estiveram a trabalhar foram obrigados a redobrar esforços.
“Em alguns sectores, os médicos fizeram-se ausentes neste momento, mas fizemos alguns arranjos com os recursos humanos que temos e estamos a trabalhar”, disse Luzidina Martis, directora clínica interina no Hospital Geral de Mavalane.
O regresso da greve dos profissionais de saúde poderá durar 21 dias prorrogáveis.
Uma pessoa morreu e outra contraiu ferimentos ligeiros na sequência de um acidente de viação que ocorreu, hoje, na Estrada Nacional Número Quatro, cidade da Matola. A Polícia de Trânsito aponta excesso de velocidade e mau tempo como as causas do sinistro. Na província de Gaza, 16 pessoas ficaram feridas em dois sinistros.
Segunda-feira. Dia frio, muito frio na Cidade e Província de Maputo. Cai chuva miúda. Molha o pavimento. Mau tempo e dia mau para conduzir ou um dia de condução prudente que nem sempre dá certo.
Um acidente inusitado e fatal aconteceu, na manhã hoje, na Estrada Nacional Número Quatro (EN4), cidade da Matola.
“O camião saía do lado direito da estrada (para quem vem da Shoprite em direcção a Malhampsene) e queria ultrapassar um carro e, depois, despistou-se, indo embater-se contra uma árvore”, contou Virgílio Amigo, comerciante que presenciou o sinistro.
Ouviu-se um estrondo. Era o acidente de viação que matou o motorista do camião. Ele ainda tentou sobreviver, mas em vão. “Ele tentou sair do carro e o outro ocupante não ficou muito ferido. O primeiro (o motorista) perdeu a vida a caminho do hospital”, detalhou Virgílio Amigo.
No local, apenas especulações sobre o que terá causado o sinistro. “Algumas dizem que ele estava a ‘sonecar’, mas ele perdeu a vida e ninguém sabe ao certo. Ele é que explicaria. Nós estamos a dizer o que os outros contam”, chutou, Genito Wilson, colega do motorista finado.
No camião estava, também, o ajudante do motorista que contraiu ferimentos ligeiros. As vítimas só tiveram socorro cerca de 30 minutos depois. Tempo suficiente para uma vida ir-se embora.
“Uma vez que não houve pronto-socorro para o hospital, o homem não aguentou. Ele ficou por muito tempo e com frio. Logo que vieram levá-lo para a unidade sanitária, perdeu a vida por lá”, lamentou Genito Wilson.
De acordo com a Polícia de Trânsito, na Província de Maputo, o excesso de velocidade é que causou o acidente de viação. “Temos o excesso de velocidade aliado ao facto de o pavimento estar escorregadio em consequência da chuva que se faz sentir. Então, isto propiciou a ocorrência daquele acidente”, indicou Rodrigo Tchabana, porta-voz da Polícia de Trânsito, na Província de Maputo.
Um acidente que feriu e matou. “Tivemos dois feridos, dos quais um com gravidade e outro ligeiro. Ambos foram socorridos, de imediato, para o Hospital Provincial, onde o médico em serviço declarou óbito ao condutor e o ferido ligeiro, após a observação médica foi tratado e teve alta hospitalar”, revelou o porta-voz da Polícia de Trânsito, na Província de Maputo.
HOUVE MORTOS E FERIDOS NA PROVÍNCIA DE GAZA
Ainda nesta segunda-feira, dois acidentes de viação resultaram em 16 feridos, entre graves e ligeiros, na cidade de Xai-Xai, província de Gaza. “Destes doentes, dois apresentavam um traumatismo encefálico grave, foram internados nos serviços de cuidados intensivos e foram transferidos para o Hospital Central de Maputo. Três pacientes foram internados na cirurgia de ortopedia, porém estão estáveis, mas, porque apresentavam que justificavam o internamento, foram transferidos para a enfermaria. Quatro pacientes estão ainda em observação médica e sete tiveram alta clínica”, desenvolveu Moisés Mubango, director do Hospital Provincial de Xai-Xai.
Neste domingo, um acidente de viação matou duas pessoas e feriu outras quatro, no distrito de Bilene, província de Gaza.
Inversão irregular do sentido de marcha e condução ilegal são apontadas como as causas do sinistro, que envolveu um autocarro de passageiros e uma camioneta.
Quatro pessoas pertencentes à mesma família morreram carbonizadas, na noite deste domingo, no Distrito de Marracuene, na Província de Maputo, depois de a casa onde viviam ter pegado fogo por razões até aqui desconhecidas.
No quintal amplo, vedado de espinhosas com árvores frondosas, via-se o baloiço numa das mangueiras. As três crianças que passavam o seu tempo livre nele morreram. Os seus corpos e o da mãe jaziam nos destroços de uma casa de construção precária que, na noite deste domingo, ardeu enquanto dormiam. Ninguém sabe exactamente o que aconteceu, mas, para já, a suspeita é de curto-circuito.
“Não sei exactamente o que aconteceu ao ponto de termos esta tragédia. Eu estava no serviço onde trabalhei durante o turno da noite. Então o irmão mais novo da senhora que faleceu me liga a informar que a Ginoca queimou com a casa e as três crianças”, contou Adzilia Chivindze, familiar da vítima.
Samo Machanguana, secretário do bairro Faftine, em Marracuene, suspeita de curto-circuito: “Ninguém sabe as reais causas para contar devidamente. A nossa desconfiança recai sobre aquele fio de energia que pode ter causado um curto-circuito”.
Na casa ora destruída pelo fogo, viviam o casal e os três filhos, sendo que a mãe tinha acima de 30 anos de idade, a filha mais velha tinha sete e a segunda três anos de idade e a mais nova com apenas seis meses de vida.
“Estamos também admirados com esta tragédia que aconteceu aqui. Foi exactamente pelas 22 horas que recebi a informação de que há uma casa que pegou fogo com quatro pessoas no seu interior”, relatou Samo Machanguana.
Na mesma noite, o pai das crianças tinha saído para comprar refresco numa barraca do bairro, quando a tragédia aconteceu, segundo avançou a cunhada da vítima: “Não estava aqui, ele diz que havia saído até à barraca próxima da casa para comprar um refresco”.
Até à saída da equipa de reportagem do jornal O País, por volta das 11h da manhã desta segunda-feira, o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) ainda não se tinha feito ao local do acontecimento para a perícia e remoção dos corpos.
Está confirmadíssimo. Elias Gaspar Pelembe, ou simplesmente Dominguez, vai mesmo regressar ao futebol moçambicano pela porta da União Desportiva do Songo. O capitão dos Mambas, que vai completar 40 anos em Novembro próximo, já se encontra em Songo para rubricar contrato e ser apresentado como o mais sonante reforço dos actuais campeões nacionais de futebol.
O “puto maravilha” chega aos “hidroeléctricos” a custo zero, porquanto já havia terminado o seu contrato com o Royal AM, clube com o qual esteve vinculado desde a temporada 2021/2022.
“Vou dar o melhor de mim. É isso que pretendo fazer. O que podem esperar é o melhor de mim. Conheço a maioria dos jogadores. Já joguei com eles e também contra eles”, disse Dominguez em entrevista à TVM.
Depois de ter brilhado na África do Sul, para onde se transferiu em 2007, o craque regressa à casa para fechar com chave de ouro a sua carreira. E ambição é o que não falta ao craque que deve ser apresentado ainda esta terça-feira aos adeptos dos campeões nacionais. “Neste momento, estou na UDS. Espero ajudar em todos os sentidos e ganhar títulos”.
Actual segundo classificado do Moçambola 2023 com 19 pontos, menos quatro que o líder Black Bulls, a União Desportiva do Songo aponta intramuros para a revalidação do título. E, no plano continental, há o desejo de atingir a fase de grupos da Liga dos Campeões Africanos, feito que as equipas moçambicanas já não alcançam desde 2017.
“Ter um plantel recheado tanto em qualidade quanto em quantidade é sempre bom para atacar estas competições. São jogadores experientes que vão ajudar muito. São jogadores que vão trazer mais qualidade, mais experiência e mais resultados. É o que nós esperamos com a vinda destes jogadores. São jogadores que serão muito úteis para o balneário, transmitindo a sua experiência, o seu conhecimento durante estes anos todos. Por isso, considero uma vinda boa e apresentam-se como uma mais-valia para a UD Songo”, destacou Carlos “Caló” Manuel, treinador-adjunto da União Desportiva do Songo.
Após passar pelas categorias de base do Estrela Vermelha, começou a carreira profissional no Desportivo de Maputo (também passou pela base), em 2004, permanecendo por mais três anos. Em 2007, e depois de assinar exibições monstruosas nas provas internas, assinou contrato com o Super Sport United da África do Sul.
Dominguez passou ainda pelo Mamelodi Sundowns, Bidvest Vits, Polokwane City e Royal AM.
Dezenas de civis foram mortos hoje numa cidade perto da capital sudanesa durante confrontos entre o exército e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (FAR), que se acusam mutuamente de usar civis como escudos humanos.
Segundo o ministério da Saúde do Sudão, um ataque aéreo na cidade de Um Durman provocou a morte de “22 cidadãos e deixou um grande número de feridos em Dar al Salam al Amriya, a oeste do mercado”.
As FAR responsabilizam as forças armadas pelo ataque, falando em “bombardeamentos contínuos de aviões de guerra do exército” sobre bairros daquela cidade, refere a agência de notícias espanhola EFE.
As milícias paramilitares dizem ainda que um outro bombardeamento intenso provocou “dezenas de feridos na zona de Dar al Salam”.
Hoje, as FAR voltaram a apelar para que entidades nacionais e estrangeiras acompanhem e documentem o “genocídio cometido diariamente pelos golpistas e pelo remanescente do antigo regime” contra a população.
As Forças Armadas anunciaram hoje através de um vídeo nas redes sociais que “as Forças Especiais realizaram uma operação contra a população”, mas não mencionaram vítimas civis nem reagiram às acusações.
O porta-voz do exército sudanês, Nabil Abdullah, disse que as forças continuam “as operações de combate contra os rebeldes entrincheirados nos bairros residenciais de Cartum, Cartum Norte e Um Durman”.
Na linhagem dos Mazuze a que pertence, Ivan é o primeiro músico. Na verdade, pode-se dizer que a vida de profissional em música é um produto do acaso. Afinal, quando foi matriculado numa escola de música, era, sobretudo, para se manter ocupado e nunca se desviar dos bons caminhos. No entanto, mais do que isso, Ivan Mazuze mergulhou na arte musical a sério e, já na adolescência, tocava nos bares do Xipamanine, subúrbio de Maputo, com o seu amigo Deodato Siquir.
Mesmo sem ter em quem se inspirar, no contexto doméstico, Ivan, quinto filho de oito irmãos, partiu para estudar música em Cape Town. Na África do Sul, fundamentalmente, foi bem recebido por Tony Paco, que mostrou ao então adolescente de 15 anos onde, quando e com quem tocar. Simultaneamente, na cidade do afro-jazz, Ivan sedimentou a sua amizade com Hélder Gonzaga, que já partira de Maputo.
Na altura da iniciação à música, com os três amigos, Ivan conviveu o tempo necessário, pois, como que fugazmente, cada um seguiu o seu percurso. Tony Paco (percussão) permaneceria na África do Sul, Hélder Gonzaga (baixo) voltaria para Moçambique, Deodato Siquir (bateria e voz) seguiria até Dinamarca e Ivan Mazuze (saxofone) fixaria residência na Noruega.
Apesar de terem tomado direcções diferentes, os laços entre os quatro músicos se mantiveram e, esta sexta-feira, na Sala Grande do Franco-Moçambicano, Cidade de Maputo, juntaram-se a outros três amigos, nomeadamente: o norueguês de origens indianas, Jai Shankar (percussão); o sul-africano Mark Fransman (saxofone, teclado e voz), autor dos distintos solos de Maganda, igualmente formado em Cape Town e que já produziu Jimmy Dludlu e Moreira Chonguiça; e, por fim, Stélio Mondlane (bateria), que, mesmo sendo o mais novo da banda, trabalhou com intensidade e assertividade. Todos juntos tocaram num concerto que teve Ivan Mazuze como o protagonista, mas em que, com a excepção de Jai Shankar, cada um mostrou a sua melhor versão.
Para abrir o concerto, o tema escolhido foi “Inkomu tatana”, do álbum Maganda, interpretado de forma alegre e num ambiente acolhedor. Na ausência das coristas, a tarefa de colocar a voz nos coros ficou na responsabilidade de Deodato Siquir, que, multidisciplinar, também tocou a sua amada bateria.
Sentado nas primeiras filas da Sala Grande, o pai de Ivan, Abílio Mazuze, ouviu radiante esse tema que parece uma homenagem a si: “Inkomu tatana”, do changana, “Obrigado, pai”. Sempre rodeado de seus familiares, filho, netos e etc., o velho Mazuze voltou a ver o filho em palco como se fosse pela primeira vez. Orgulhoso, bem colado à nora e às duas netas, esposa e filhas de Ivan, aquele espectador especial, à semelhança de parte significativa do auditório, fez, de seguida, de “Inta mutlangela” seu projecto musical.
Com novos arranjos, mas sempre mantendo a base popular que o auditório do Franco teimou em ecoar aos ouvidos do saxofonista, “Inta mutlangela” funcionou, de facto, como uma acção de graça por tudo o que Deus tem feito na sua vida. Uma vez mais, o autor de Mutema fez os coros e toda a gente aparentemente sedenta por um concerto de jazz tlangelou/agradeceu pelas possibilidades até religiosas que a canção popular encerra. A essa altura do concerto, os Mazuze já nem lembravam que, mal Ivan aterrou em Maputo, no último fim-de-semana, meteu-se em ensaios, deixando para depois o afecto de que todos merecem. “Não tive momentos de socialização com os meus pais, nestes dias, porque queria preparar este concerto para vocês”, justificou o artista naquele seu bom português, mas com alguns estrangeirismos na tonalidade.
Ora com arranjos diferentes, ora com prolongamentos rítmicos mais sustentados, Ivan Mazuze foi interpretando temas dos seus quatro álbuns. De Moya, por exemplo, escolheu “Wemba wa”, “Massessa” e “Lunde”, essa composição inspirada nas sonoridades norueguesas; De Ndzuti, escolheu “Mwana wa ku kasa”; de Ubuntu, escolheu, além de “Inta mutlangela”, “Kulhula” e, por fim, o tão solicitado tema “Papa Samora”, de Maganda.
Mesmo em jeito de despedida, “Papa Samora” foi a última e a mais aclamada actuação da noite, o que valeu aos artistas cerca de três minutos de aplausos ininterruptos. No derradeiro momento do concerto, toda a gente levantou-se para agradecer àquelas sete almas pelas duas horas de actuação. Talvez, a uns meros metros da Sala Grande, a estátua do primeiro Presidente de Moçambique tenha vibrado emoção; talvez, onde quer que esteja, Samora Machel tenha escutado o público cantar os seguintes versos traduzidos do changana: “Papa Samora ensinou-nos a não chorar”. De facto, a noite foi de intensa alegria.
Por: Cremildo Bahule[1]
Nos últimos dois anos, para justificar o meu desarranjo dos efeitos sonoros da pandemia, decidi prestar atenção na concepção, edição e divulgação dos discos editados na arena do jazz nacional. Nessa auscultação tímida – típica de um professor da 4.ª classe – tenho me deparado com discos supérfluos, razoáveis e bem-elaborados. Cito quatro, no sentido de vénia, que chamaram a minha atenção: «Blue Window» (Valter Mabas, 2021), «Sense of Presence» (Elcides Carlos, 2022), «Sounds of Peace» (Moreira Chonguiça, 2022) e «Endless Dream – O Sonho da Música» [Do Carmo, 2023 (edição póstuma com a participação de vários artistas]. O fulgor e o mérito destes quatro discos assenta num único facto: a consciência da utilização de elementos oriundos da música folclórica e da música popular nas diversas linhas de interpretação que se enquadram, se acharmos pertinente para a nossa etnomusicologia, na música popular moçambicana. Tal justificação parece ínfima, justa e razoável – dependendo do ponto de vista – se termos em conta que temos discos editados por moçambicanos que reflectem a pura reprodução do jazz estadunidense ou sul-africano. O último caso é fácil justificar: proximidade geográfica e os «alinhados melódicos de Cape Town».
Para alicerçar a minha nota preambular irei me centralizar no disco «Sense of Presence» (Elcides Carlos, 2022) por conta do concerto que vi, na noite da última sexta-feira, do mês passado, 30 de Junho de 2023, na Galeria do Porto de Maputo. Creio que Elcides Carlos nos regala com um vocabulário harmónico bastante rico, com sonoridades impressionistas com bases e experiências com as circunstâncias, como se pode perceber na música «Sedução» (no disco tem a participação de André Sansi & Sheila Malijane) e «O Que Seria» (no disco tem a participação de Rosário Giuliani). Tem uma visão ímpar dos arranjos de melodias tradicionais que nos destinam para explorações modais (advindo do Jazz Modal). Nestas explorações, pode observar-se uma crescente libertação das fundações harmónicas da improvisação em direcção ao poder da melodia livre, o que abre um caminho para a criação do Free-Jazz. É aqui, no Free-Jazz, que estabeleço Elcides Carlos no cenário do jazz moçambicano. O que me chama atenção no disco «Sense of Presence», e certifiquei no espetáculo, é que as composições deste álbum trazem uma honestidade quase ingénua, bem própria de um disco de estreia. São composições com um olhar de novidade para a vida e as experiências que ainda se enquadram como primeiras. Realmente, existe uma sensação de busca por uma presença que só o artista saberá nos dizer e confirmar, quiçá, no segundo ou terceiro álbum. O derradeiro aspecto que é importante de ser mencionado é o modelo dialéctico de apresentação das composições. Essa dialéctica seria, assim, congénita e essencial ao jazz moçambicano enquanto género musical dotado de uma estabilidade em termos de temática [a fricção de musicalidades sendo aqui constituinte, evidenciando-se principalmente nas improvisações], de estilos [fundamentalmente idiomas regionais, como a musicalidade chope que se ouve na música «Mhango» (no disco tem a participação de Cheny Wagune e «Há Fana» (no disco tem a participação de Radjha Ali & Drew Zaremba] e de estruturas composicionais [no código musical propriamente, como na rítmica e no emprego de determinados modos]. As diversas musicalidades trazidas e convidadas tanto para o disco como para o concerto dialogam mas não se misturam: as fronteiras musicais e simbólicas não são atravessadas, mas são objectos de uma manipulação que reafirma a diferença que Elcides Carlos quer impor no jazz moçambicano.
[Evidentemente a minha postura é baseada na audição do disco e no espetáculo que teve como título «In a Soulfoul & Vibrant Afro Jazz Night». Um espetáculo, diga-se sem sortilégios, começou com atraso de quarenta e um minutos depois da hora marcada, com ruído no som nas primeiras três músicas. Porém, apesar deste enredo e problemas técnicos, o «In a Soulfoul & Vibrant Afro Jazz Night» teve o mérito de confirmar que Moçambique, como disse antes, tem infinitas musicalidades e dissemelhantes sonoridades como consegui atestar com os convidados especiais – Xixel Langa, Bhaka Yofole e Deodato Siquir – e dos instrumentistas: Lelas Mavie (baixo), Tony Paco (bateria), Nando Morte (percussão), Sarmento de Cristo (saxofone), Nicolau Cauaneque (teclado), Pauleta Muholove e Sheila Malijane (coros)].
Termino este meu desarranjo harmónico e trémulo com uma certeza: julgo que chegou o momento de assumirmos que a história do jazz moçambicano deve começar a ser escrita com sinceridade e atalhos que nos conectem com o nosso devir. Utilizei, propositadamente, o disco «Sense of Presence» e o espetáculo «In a Soulfoul & Vibrant Afro Jazz Night», de Elcides Carlos, como mote para justificar que os elementos sincrónicos entre o Jazz, que se pretenda que seja moçambicano, e a música popular tem simetrias desde suas bases musicais primárias ligadas as heranças da música urbana ou folclórica. Precisamos definir e classificar todas as fronteiras idiomáticas do Jazz moçambicano. É natural que no processo de argumentação, escrita e valoração todas tenhamos inconsistências e estereótipos relacionados ao Jazz moçambicano. Todavia, é um caminho inevitável. Julgo que, com outras lentes, outros actores e outros saberes, podemos falar de categorias tonais, avant gard, pulsação do ritmo em semínimas, escalas pentatónicas e todas as categorias cromáticas que caracterizam, por exemplo, as obras «Blue Window» (Valter Mabas, 2021), «Sounds of Peace» (Moreira Chonguiça, 2022) e «Endless Dream – O Sonho da Música» [Do Carmo, 2023 (edição póstuma)].
P.S.: o disco «Sense of Presence» (Elcides Carlos, 2022) tem um design harmonioso, um encarte apetecível e com uma ficha técnica bem detalhada. Um disco de fazer cortesia para a prateleira dos coleccionadores de Jazz. Bayete!
[1] Cremildo Bahule é professor, ensaísta e editor. | cremildo.bahule@gmail.com