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O desperdício mais caro de Moçambique

Há desperdícios que se medem em toneladas de alimentos, quilowatts-hora de energia ou milhões de meticais desviados dos cofres públicos. Outros, porém, são menos visíveis e, justamente por isso, mais devastadores. O maior desperdício que Moçambique continua a permitir é o do seu capital humano, sobretudo o feminino.

Foi essa a reflexão que emergiu da 4.ª Conferência “Mulheres na Economia”, realizada no dia 5 deste mês, em Maputo, por iniciativa da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC). Reunidos sob o lema “Formação, Liderança e Conteúdo Local: potenciar as mulheres para aceder, competir e liderar nos sectores estratégicos da economia“, decisores políticos, empresários, académicos, juristas, representantes do sector financeiro e parceiros de desenvolvimento voltaram a colocar em cima da mesa uma questão antiga, mas cuja urgência aumenta à medida que o país procura acelerar o seu crescimento económico: por que razão Moçambique continua a desperdiçar metade do seu potencial produtivo?

Na abertura da conferência, a Ministra do Trabalho, Género e Acção Social, Drª Ivete Alane, sintetizou o problema numa frase simples: o talento feminino continua a ser desperdiçado. Não se trata apenas da reduzida presença de mulheres nos conselhos de administração ou dos obstáculos ao acesso a cargos de liderança. O problema é mais profundo e estrutural. Está presente nas dificuldades de inserção no mercado de trabalho formal, no acesso desigual às oportunidades de formação especializada, na escassa participação das mulheres nas cadeias de fornecimento dos grandes projectos e na sua limitada influência sobre as decisões económicas que moldam o próprio futuro do país.

Esta realidade revela uma contradição difícil de justificar. Moçambique investe na educação de raparigas e mulheres, forma técnicas, engenheiras, juristas, economistas e gestoras, mas continua incapaz de integrar uma parte significativa desse talento nos sectores que mais necessitam de mão de obra qualificada. Enquanto se multiplicam discursos sobre produtividade, competitividade e conteúdo local, permanece intacta uma barreira silenciosa que impede milhares de mulheres de converter conhecimento em desenvolvimento.

O custo desta exclusão raramente aparece nas estatísticas. Não figura no Orçamento do Estado nem nos relatórios das empresas. Ainda assim, paga-se diariamente sob a forma de menor produtividade, menor inovação, menor diversidade de pensamento e menor capacidade de resposta aos desafios económicos. Quando uma profissional qualificada fica de fora apenas porque é mulher, não perde apenas ela. Perde a empresa que deixa de beneficiar das suas competências. Perde o Estado, que investiu na sua formação. Perde, sobretudo, a economia nacional.

A Agenda 2030 das Nações Unidas oferece um enquadramento claro para este desafio. O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 estabelece a igualdade de género como condição indispensável para o desenvolvimento sustentável. O ODS 8 defende o trabalho digno e o crescimento económico inclusivo. O ODS 10 apela à redução das desigualdades. Não são objetivos independentes. Constituem partes da mesma equação: não existe crescimento económico sustentável quando persistem barreiras que impedem uma parcela significativa da população de participar plenamente na vida económica.

Por isso, reduzir a igualdade de género a uma agenda social ou assistencialista é um erro de perspectiva. A questão é, antes de tudo, económica. Países que aproveitam integralmente o seu capital humano produzem mais, inovam mais e tornam-se mais competitivos. Países que excluem talento por razões alheias ao mérito escolhem crescer abaixo do seu potencial.

Em Moçambique, a consequência desta exclusão frequentemente assume uma forma que o discurso oficial costuma celebrar sem a devida reflexão: o empreendedorismo feminino. Multiplicam-se os exemplos de mulheres que sustentam suas famílias por meio do comércio informal, da venda ambulante ou de pequenos negócios. É comum apresentar estas histórias como demonstrações de resiliência e espírito empreendedor. São, sem dúvida, exemplos de coragem. Mas também revelam outra realidade menos confortável.

Na maioria dos casos, esse empreendedorismo não nasce da identificação de uma oportunidade de negócio, nem de um ecossistema favorável à inovação. Nasce da ausência de alternativas. Surge quando o mercado formal fecha sucessivamente as portas, quando as entrevistas não resultam em contratação e quando a experiência e a qualificação deixam de ser suficientes para superar preconceitos persistentes. Chamar essa realidade de “empreendedorismo”, sem reconhecer as suas causas, é romantizar a exclusão.

O país não pode resignar-se à ideia de que o lugar natural das mulheres é compensar, por meio da informalidade, o que o mercado formal lhes continua a negar. A economia informal desempenha um papel relevante na sobrevivência de milhares de famílias, mas não deve transformar-se na resposta permanente para mulheres com competências para contribuir em qualquer sector estratégico da economia nacional.

À medida que Moçambique procura consolidar grandes investimentos em áreas como gás natural, energia, mineração, agricultura e infraestruturas, o conceito de conteúdo local ganhará verdadeiro significado apenas quando incluir deliberadamente as mulheres. Isso implica garantir acesso equitativo à formação técnica, ao financiamento, à contratação, às cadeias de valor e aos espaços de decisão. Sem esta dimensão, o conteúdo local corre o risco de reproduzir, em vez de corrigir, desigualdades históricas.

A conferência promovida pela FDC teve o mérito de recordar uma evidência frequentemente ignorada: a igualdade de género não constitui um favor concedido às mulheres, nem um exercício de correção política. É uma condição para que o país aproveite plenamente os recursos humanos de que dispõe. Num contexto em que Moçambique enfrenta défices de competências em praticamente todos os sectores estratégicos, desperdiçar talento qualificado deixou de ser apenas uma injustiça; tornou-se um luxo que a economia nacional já não pode suportar.

Talvez seja hora de abandonar uma pergunta que tem sido feita há muito tempo: se as mulheres podem liderar, inovar ou transformar a economia. Todos os dias, a experiência mostra que a resposta é sim, seja em empresas, mercados, universidades, na administração pública ou nas comunidades. A questão realmente relevante é outra: até quando Moçambique continuará a adiar seu desenvolvimento ao persistir em desperdiçar metade de seu capital humano?

Uma economia que exclui talento nunca será plenamente competitiva. Mia Couto já o disse: “Um país em que as mulheres só podem ser a sua metade está condenado a ter apenas metade do seu futuro”. 

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