O País – A verdade como notícia

O escritor Sérgio Raimundo lançou, esta segunda-feira, na Cidade de Maputo, o seu mais recente livro de crónicas. Intitulado As ancas do camarada chefe, o título pretende ser um testemunho da realidade moçambicana.

 

Primeiro, as pessoas. Muito provavelmente, o Camões – Centro Cultural Português não faz ideia de quando é que teve de interromper a entrada de potenciais leitores à sua biblioteca, devido à lotação mais do que esgotada. Esta segunda-feira, isso aconteceu. Afinal, jovens, senhores, velhos, artistas, jornalistas, académicos, políticos ou público em geral, segundo disseram alguns, lá foram ver as famosas ancas do camarada chefe.

Como não é muito habitual em cerimónias de lançamento de livros, em Moçambique, muitos compraram o novo título do escritor que, nos últimos anos, vive entre Moçambique e Portugal. Por isso mesmo, como se viu, a fila para os autógrafos foi concorrida como bichas de pão, de outros tempos, e a partir do lado de fora da biblioteca do Camões.

Segundo, a expectativa. Que ancas, afinal? De que chefe? Em surdina, artistas e convidados expressavam sons quase ininteligíveis. Pois, ao mesmo tempo que desejam dizer, a vontade de ouvir era maior. Assim, apesar de a biblioteca do Camões ter estado cheia de gente, do lado do público, o silêncio sempre se impôs à apresentação de Álvaro Carmo Vaz, que, na sua intervenção, se referiu ao poder criativo do escritor e à originalidade das suas crónicas, isto é, testemunhos da realidade moçambicana. E realçou: “Estas crónicas são imprescindíveis testemunhos deste nosso tempo, deste nosso Moçambique. São textos que oscilam entre o dramático, o trágico e o infeliz. Sérgio Raimundo coloca no centro as pessoas. Com as mulheres, na sua luta diária, num plano primeiro que merece a nossa atenção”.

O livro de Sérgio Raimundo foi lançado há dois meses em Portugal. No entanto, mal “aterrou“ em Moçambique, polémica. Tal situação valeu ameaças de morte ao escritor, inclusive, expressas durante madrugadas. Sobre isso, Álvaro Carmo Vaz referiu que Moçambique não deve e não pode transformar-se num país do medo e protestou contra ameaças de, eventualmente, lambe-botas que criticaram o título do livro do escritor sem terem lido.

As cerca de 60 crónicas de Sérgio Raimundo, nessas Ancas do camarada chefe, são curtas, constituindo 125 páginas. Com o livro, a esperança de Álvaro Carmo Vaz é que o registo que se vai fazendo do país, através das crónicas, sirvam para que os mais jovens fiquem com ideias das vivências moçambicanas. Até porque nessas ancas do camarada chefe se sentem cheiros de verdade a par da qualidade literária do autor.

Além do tema sobre as mulheres, que sofrem pelas suas e pelas dificuldades que são de todos, com violência doméstica e conformismo, Sérgio Raimundo explora, no seu novo livro, questões como dificuldades nos chapas, no atendimento e no tratamento médico nos hospitais públicos e ainda valoriza a importância das mães, quiçá, as verdadeiras camaradas chefes.

Entre algumas crónicas do livro, encontram-se as que o autor se refere a figuras históricas moçambicanas. Por exemplo, Marcelino dos Santos, Graça Machel e Armando Guebuza.

 

Sérgio Raimundo: entre o nervosismo e a acutilância

Depois de uma longa e bem acolhida apresentação do livro, feita por Álvaro Carmo Vaz, chegou o momento de Sérgio Raimundo dizer algumas palavras de ocasião.

A primeira coisa que o escritor fez foi contar um episódio engraçado, que lhe aconteceu nesta segunda-feira enquanto se deslocava à cerimónia de lançamento. Mesmo em jeito de crónica, o autor contou que, graças às ancas, ele próprio se tornou chefe, no chapa, e, por isso, não só teve o direito de se sentar à frente da minibus, bem como o cobrador dispensou-lhe de qualquer pagamento, pois reconheceu nele, igualmente, um camarada chefe.

Assim, Sérgio Raimundo tentou disfarçar o nervosismo. Ao invés de falar propriamente do livro, diante de tantas pessoas que foram ver a cerimónia, o autor preferiu apresentar mais uma crónica que, de facto, mereceu muitos sorrisos.

Não tendo dito o que os jornalistas queriam ouvir, a parte da polémica que bem alimenta certos jornais, houve uma disputa feroz para entrevistar o escritor que, pela audiência, confessou estar a sentir-se como Cristiano Ronaldo. Os fãs de Lionel Messi ou de Dominguez parece que não gostaram da comparação. Com o microfone na mão, desviaram o escritor do futebol, que o foco era outro: a polémica, as ameaças, a morte. Então, a partir daí, não se ouviu muito do livro em si, mas de coisas como liberdade de expressão, medo e etc..

Ainda assim, Sérgio Raimundo, primeiro, confessou que, apesar de não ser o seu primeiro livro, sentia alguma responsabilidade por estar a lançar As ancas do camarada chefe. De seguida, clarificou: “Este livro, no fundo, é um diário sobre a realidade de Moçambique e sobre peripécias que se passam aqui em Moçambique”.

Já mergulhado no tema polémica, Sérgio lembrou-se do seu lado Militar. Aí, sim, foi mais acutilante nas respostas. “Eu acho que um artista deve fazer arte. A arte é aquilo que movimenta, que cria convulsão. Eu não faço artesanato. O artesanato é que não nos remete ao pensamento. Sobre as polémicas? Eu fiquei totalmente surpreendido porque se levantou sobre um livro que ainda não tinha sido lançado. Eu achei isso incrível porque o livro ainda não tinha sido lançado e já havia quem sabia do seu conteúdo. E outra coisa, eu responsabilizo-me por aquilo que escrevo e não por aquilo que as pessoas entendem que eu escrevi. Eu escrevi um livro e os outros escreveram um livro sobre aquilo que eu escrevi. E esse livro a mim não me pertence. O livro que eu escrevi é este que foi apresentado hoje, As ancas do camarada chefe.

Já tenso, a imprensa quis saber o que o escritor sofreu, de concreto, em termos de ameaças. Sérgio Raimundo respondeu dizendo que “Deram-me uma escolha. ‘Queres que circule o teu livro ou então tu? Vocês os dois não podem circular’. Eu fiquei de rastos e tive dias difíceis porque muita gente ligada à minha família era ameaçada. Eu tenho vindo a Moçambique de seis em seis meses. Quando vim, ano passado, vi uma espécie de ignorância. Eu vi que aqui, em Moçambique, a ignorância era extrema. Mas, com isto que aconteceu comigo, eu vi que da ignorância nós saímos para estupidez. Porque o meu livro foi julgado tendo em conta o título. Só isso”.

Antes de terminar a série de respostas dadas aos jornalistas, Sérgio Raimundo, que colabora com a imprensa moçambicana e portuguesa, disse que não entende a razão das ameaças, apenas que certas pessoas se precipitaram a fazer uma analogia do título do seu livro com o que ele não sabe. “Estou feliz porque o meu título acabou por ser um motor de criatividade para as pessoas. Por cima do meu título, foram escritos vários títulos que era bom que fossem publicados também”.

Na sequência disso, os jornalistas tiveram de interromper a entrevista ao escritor porque o público, entre empurrões, disputava o primeiro lugar na fila de autógrafos, que não era bicha de pão de outros tempos.

 

 

 

A ópera “Orfeu nos Infernos” volta, cinco anos depois, a ser apresentada em Moçambique. Mas, desta vez, em celebração do décimo aniversário do projecto Xiquitsi. A emblemática obra é o principal atractivo dos concertos programados para a 2ª série da 10ª Temporada de Música Clássica – Xiquitsi 2023.

Para a ópera “Orfeu nos Infernos”, entram em cena quase todos os participantes da estreia, em 2019, em Moçambique, incluindo a recém licenciada do curso de canto na Escola Superior de Música de Lisboa, Márcia Massicame, que vai interpretar o papel da Opinião Pública. Deuscio Vembane, vai estrear-se com a interpretação de Orfeu.

A abertura da 2ª série será feita com o concerto Fado-Jazz, “ALMO”, no dia 21 de Julho, às 19h00, no Montebelo Indy Maputo Congress Hotel. O concerto é realizado em colaboração com o Camões – Centro Cultural Português em Maputo, que vai levar ao palco três talentosos músicos. Nomeadamente, o pianista e compositor Júlio Resende, que se estreia em Moçambique e que se vai unir ao talento interpretativo dos cantores Paulo Lapa (tenor) e Tiago Matos (barítono). Ambos os artistas já estiveram nas edições anteriores do Xiquitsi.

No dia 30 de Julho, às 15h, no Montebelo Indy Maputo Congress Hotel, está em cartaz a “Tarde para Pais e Filhos”, um concerto a ser dirigido pelo coordenador pedagógico do Xiquitsi e Maestro Estêvão Chissano.

Por fim, nos dias 3 e 4 de Agosto, no Teatro Scala, às 19h00, será a apresentação da tão esperada ópera “Orfeu nos Infernos”, uma sátira ao mito de Orfeu, com música de Jacques Offenbach (1819-1880), na qual surge o tema que tornou o compositor e esta ópera dignos de notoriedade internacional: o Can-Can.

Durante a Temporada 2023, de celebração dos 10 anos do Xiquitsi, uma das propostas do projecto é proporcionar melhores momentos que marcaram a década, para relembrar e mostrar a evolução do Xiquitsi ao longo deste período.

 

O vice-ministro da Economia e Finanças diz que as reivindicações dos médicos vão ser atendidas, considerando os limites do Orçamento do Estado aprovado pela Assembleia da República. Amílcar Tivane avança que o Governo não deve violar os limites orçamentais para pagar mais aos médicos.

Após participar do lançamento da avaliação das actividades do Banco Mundial em Moçambique entre 2008 e 2021, o vice-ministro da Economia e Finanças foi confrontado por jornalistas sobre a actual greve dos médicos que queriam saber se o Governo tem ou não dinheiro para responder às reivindicações desta classe de profissionais. Tivane disse que tudo deve ser feito considerando o documento aprovado pelo Parlamento moçambicano.

“Nós temos um Plano Economico e Social e Orçamento do Estado para 2023 que foi aprovado em Dezembro do ano passado pela Assembleia da República (AR). Esse orçamento fixa limite máximo da despesa pública, assim como também os limites das receitas do Estado. E é com esse orçamento que estamos a trabalhar, sendo que o esforço de implementação da política económica e social está financiado no quadro deste orçamento”, disse Amílcar Tivane, para em seguida dizer que o Orçamento responde às preocupações dos médicos e dos outros funcionários do Estado através da política salarial adoptada pelo Governo.

Quanto às horas extras dos professores em dívida, Amílcar Tivane diz que serão pagas em breve, mas alerta para casos de professores com horas extraordinárias elevadas.

“Nós temos a avaliação do passivo que deve ser pago aos professores, será pago oportunamente e não quero avançar com datas porque amanhã vocês virão para dizer que este e aquele professor não receberam as horas extras. Temos que manter alguma serenidade. Estamos a fazer o levantamento das horas extras porque algumas têm de ser validadas. Isto porque há vezes que a informação é questionável. Temos casos em que o encargo associado a horas (extras) é muito grande. Então, é necessário questionar que funcionário é esse que passa a vida mais ligado às dinâmicas associadas às horas extras que ao seu próprio salário. Portanto, é um processo de validação que é feito junto dos sectores que estão envolvidos”, explicou Tivane.

Professores de todo o país reclamam o pagamento de horas extras, desde o fim do ano passado, chegando alguns a não comparecer às salas de aulas devido a esta situação.

Nos hospitais da cidade de Nampula, há atendimento aos utentes, mas os doentes denunciam morosidade associada à greve dos médicos que iniciou esta segunda-feira. No Hospital Central de Nampula, os médicos militares estão a dar assistência sanitária.

O Hospital Geral de Marrere fica na periferia da cidade de Nampula e é dos mais frequentados. Contrariamente aos dias comuns, esta segunda-feira, foi de um movimento abaixo do habitual, e o atendimento estava a ser assegurado, ainda que com morosidade.

No momento da passagem da equipa de reportagem do jornal O País do hospital, os responsáveis não estavam e não havia informação concreta sobre a adesão ou não à greve.

Na maior unidade hospitalar do Norte do país, o Hospital Central de Nampula, o movimento no banco de socorros era difícil de entender se está relacionado à greve ou se se trata das enchentes comuns às segundas-feiras.

Seja como for, os utentes, também reclamavam da morosidade no atendimento.

Os médicos militares já estão posicionados e a garantir o atendimento público.

A direcção do Hospital Central de Nampula ainda está a fazer o levantamento para perceber o grau de adesão à greve. Por isso mesmo, prometeu pronunciar-se esta terça-feira.

Na linhagem dos Mazuze a que pertence, Ivan é o primeiro músico. Na verdade, pode-se dizer que a vida de profissional em música é um produto do acaso. Afinal, quando foi matriculado numa escola de música, era, sobretudo, para se manter ocupado e nunca se desviar dos bons caminhos. No entanto, mais do que isso, Ivan Mazuze mergulhou na arte musical a sério e, já na adolescência, tocava nos bares do Xipamanine, subúrbio de Maputo, com o seu amigo Deodato Siquir.

Mesmo sem ter em quem se inspirar, no contexto doméstico, Ivan, quinto filho de oito irmãos, partiu para estudar música em Cape Town. Na África do Sul, fundamentalmente, foi bem recebido por Tony Paco, que mostrou ao então adolescente de 15 anos onde, quando e com quem tocar. Simultaneamente, na cidade do afro-jazz, Ivan sedimentou a sua amizade com Hélder Gonzaga, que já partira de Maputo.

Na altura da iniciação à música, com os três amigos, Ivan conviveu o tempo necessário, pois, como que fugazmente, cada um seguiu o seu percurso. Tony Paco (percussão) permaneceria na África do Sul, Hélder Gonzaga (baixo) voltaria para Moçambique, Deodato Siquir (bateria e voz) seguiria até Dinamarca e Ivan Mazuze (saxofone) fixaria residência na Noruega.

Apesar de terem tomado direcções diferentes, os laços entre os quatro músicos se mantiveram e, esta sexta-feira, na Sala Grande do Franco-Moçambicano, Cidade de Maputo, juntaram-se a outros três amigos, nomeadamente: o norueguês de origens indianas, Jai Shankar (percussão); o sul-africano Mark Fransman (saxofone, teclado e voz), autor dos distintos solos de Maganda, igualmente formado em Cape Town e que já produziu Jimmy Dludlu e Moreira Chonguiça; e, por fim, Stélio Mondlane (bateria), que, mesmo sendo o mais novo da banda, trabalhou com intensidade e assertividade. Todos juntos tocaram num concerto que teve Ivan Mazuze como o protagonista, mas em que, com a excepção de Jai Shankar, cada um mostrou a sua melhor versão.

Para abrir o concerto, o tema escolhido foi “Inkomu tatana”, do álbum Maganda, interpretado de forma alegre e num ambiente acolhedor. Na ausência das coristas, a tarefa de colocar a voz nos coros ficou na responsabilidade de Deodato Siquir, que, multidisciplinar, também tocou a sua amada bateria.

Sentado nas primeiras filas da Sala Grande, o pai de Ivan, Abílio Mazuze, ouviu radiante esse tema que parece uma homenagem a si: “Inkomu tatana”, do changana, “Obrigado, pai”.  Sempre rodeado de seus familiares, filho, netos e etc., o velho Mazuze voltou a ver o filho em palco como se fosse pela primeira vez. Orgulhoso, bem colado à nora e às duas netas, esposa e filhas de Ivan, aquele espectador especial, à semelhança de parte significativa do auditório, fez, de seguida, de “Inta mutlangela” seu projecto musical.

Com novos arranjos, mas sempre mantendo a base popular que o auditório do Franco teimou em ecoar aos ouvidos do saxofonista, “Inta mutlangela” funcionou, de facto, como uma acção de graça por tudo o que Deus tem feito na sua vida. Uma vez mais, o autor de Mutema fez os coros e toda a gente aparentemente sedenta por um concerto de jazz tlangelou/agradeceu pelas possibilidades até religiosas que a canção popular encerra. A essa altura do concerto, os Mazuze já nem lembravam que, mal Ivan aterrou em Maputo, no último fim-de-semana, meteu-se em ensaios, deixando para depois o afecto de que todos merecem. “Não tive momentos de socialização com os meus pais, nestes dias, porque queria preparar este concerto para vocês”, justificou o artista naquele seu bom português, mas com alguns estrangeirismos na tonalidade.

Ora com arranjos diferentes, ora com prolongamentos rítmicos mais sustentados, Ivan Mazuze foi interpretando temas dos seus quatro álbuns. De Moya, por exemplo, escolheu “Wemba wa”, “Massessa” e “Lunde”, essa composição inspirada nas sonoridades norueguesas; De Ndzuti, escolheu “Mwana wa ku kasa”; de Ubuntu, escolheu, além de “Inta mutlangela”, “Kulhula” e, por fim, o tão solicitado tema “Papa Samora”, de Maganda.

Mesmo em jeito de despedida, “Papa Samora” foi a última e a mais aclamada actuação da noite, o que valeu aos artistas cerca de três minutos de aplausos ininterruptos. No derradeiro momento do concerto, toda a gente levantou-se para agradecer àquelas sete almas pelas duas horas de actuação. Talvez, a uns meros metros da Sala Grande, a estátua do primeiro Presidente de Moçambique tenha vibrado emoção; talvez, onde quer que esteja, Samora Machel tenha escutado o público cantar os seguintes versos traduzidos do changana: “Papa Samora ensinou-nos a não chorar”. De facto, a noite foi de intensa alegria.

Por: Cremildo Bahule[1]

 

Nos últimos dois anos, para justificar o meu desarranjo dos efeitos sonoros da pandemia, decidi prestar atenção na concepção, edição e divulgação dos discos editados na arena do jazz nacional. Nessa auscultação tímida – típica de um professor da 4.ª classe – tenho me deparado com discos supérfluos, razoáveis e bem-elaborados. Cito quatro, no sentido de vénia, que chamaram a minha atenção: «Blue Window» (Valter Mabas, 2021), «Sense of Presence» (Elcides Carlos, 2022), «Sounds of Peace» (Moreira Chonguiça, 2022) e «Endless Dream – O Sonho da Música» [Do Carmo, 2023 (edição póstuma com a participação de vários artistas]. O fulgor e o mérito destes quatro discos assenta num único facto: a consciência da utilização de elementos oriundos da música folclórica e da música popular nas diversas linhas de interpretação que se enquadram, se acharmos pertinente para a nossa etnomusicologia, na música popular moçambicana. Tal justificação parece ínfima, justa e razoável – dependendo do ponto de vista – se termos em conta que temos discos editados por moçambicanos que reflectem a pura reprodução do jazz estadunidense ou sul-africano. O último caso é fácil justificar: proximidade geográfica e os «alinhados melódicos de Cape Town».

Para alicerçar a minha nota preambular irei me centralizar no disco «Sense of Presence» (Elcides Carlos, 2022) por conta do concerto que vi, na noite da última sexta-feira, do mês passado, 30 de Junho de 2023, na Galeria do Porto de Maputo. Creio que Elcides Carlos nos regala com um vocabulário harmónico bastante rico, com sonoridades impressionistas com bases e experiências com as circunstâncias, como se pode perceber na música «Sedução» (no disco tem a participação de André Sansi & Sheila Malijane) e «O Que Seria» (no disco tem a participação de Rosário Giuliani). Tem uma visão ímpar dos arranjos de melodias tradicionais que nos destinam para explorações modais (advindo do Jazz Modal). Nestas explorações, pode observar-se uma crescente libertação das fundações harmónicas da improvisação em direcção ao poder da melodia livre, o que abre um caminho para a criação do Free-Jazz. É aqui, no Free-Jazz, que estabeleço Elcides Carlos no cenário do jazz moçambicano. O que me chama atenção no disco «Sense of Presence», e certifiquei no espetáculo, é que as composições deste álbum trazem uma honestidade quase ingénua, bem própria de um disco de estreia. São composições com um olhar de novidade para a vida e as experiências que ainda se enquadram como primeiras. Realmente, existe uma sensação de busca por uma presença que só o artista saberá nos dizer e confirmar, quiçá, no segundo ou terceiro álbum. O derradeiro aspecto que é importante de ser mencionado é o modelo dialéctico de apresentação das composições. Essa dialéctica seria, assim, congénita e essencial ao jazz moçambicano enquanto género musical dotado de uma estabilidade em termos de temática [a fricção de musicalidades sendo aqui constituinte, evidenciando-se principalmente nas improvisações], de estilos [fundamentalmente idiomas regionais, como a musicalidade chope que se ouve na música «Mhango» (no disco tem a participação de Cheny Wagune e «Há Fana» (no disco tem a participação de Radjha Ali & Drew Zaremba] e de estruturas composicionais [no código musical propriamente, como na rítmica e no emprego de determinados modos]. As diversas musicalidades trazidas e convidadas tanto para o disco como para o concerto dialogam mas não se misturam: as fronteiras musicais e simbólicas não são atravessadas, mas são objectos de uma manipulação que reafirma a diferença que Elcides Carlos quer impor no jazz moçambicano.

[Evidentemente a minha postura é baseada na audição do disco e no espetáculo que teve como título «In a Soulfoul & Vibrant Afro Jazz Night». Um espetáculo, diga-se sem sortilégios, começou com atraso de quarenta e um minutos depois da hora marcada, com ruído no som nas primeiras três músicas. Porém, apesar deste enredo e problemas técnicos, o «In a Soulfoul & Vibrant Afro Jazz Night» teve o mérito de confirmar que Moçambique, como disse antes, tem infinitas musicalidades e dissemelhantes sonoridades como consegui atestar com os convidados especiais – Xixel Langa, Bhaka Yofole e Deodato Siquir – e dos instrumentistas: Lelas Mavie (baixo), Tony Paco (bateria), Nando Morte (percussão), Sarmento de Cristo (saxofone), Nicolau Cauaneque (teclado), Pauleta Muholove e Sheila Malijane (coros)].

Termino este meu desarranjo harmónico e trémulo com uma certeza: julgo que chegou o momento de assumirmos que a história do jazz moçambicano deve começar a ser escrita com sinceridade e atalhos que nos conectem com o nosso devir. Utilizei, propositadamente, o disco «Sense of Presence» e o espetáculo «In a Soulfoul & Vibrant Afro Jazz Night», de Elcides Carlos, como mote para justificar que os elementos sincrónicos entre o Jazz, que se pretenda que seja moçambicano, e a música popular tem simetrias desde suas bases musicais primárias ligadas as heranças da música urbana ou folclórica. Precisamos definir e classificar todas as fronteiras idiomáticas do Jazz moçambicano. É natural que no processo de argumentação, escrita e valoração todas tenhamos inconsistências e estereótipos relacionados ao Jazz moçambicano. Todavia, é um caminho inevitável. Julgo que, com outras lentes, outros actores e outros saberes, podemos falar de categorias tonais, avant gard, pulsação do ritmo em semínimas, escalas pentatónicas e todas as categorias cromáticas que caracterizam, por exemplo, as obras «Blue Window» (Valter Mabas, 2021), «Sounds of Peace» (Moreira Chonguiça, 2022) e «Endless Dream – O Sonho da Música» [Do Carmo, 2023 (edição póstuma)].

 

P.S.: o disco «Sense of Presence» (Elcides Carlos, 2022) tem um design harmonioso, um encarte apetecível e com uma ficha técnica bem detalhada. Um disco de fazer cortesia para a prateleira dos coleccionadores de Jazz. Bayete!

 

[1] Cremildo Bahule é professor, ensaísta e editor. | cremildo.bahule@gmail.com

De regresso ao país, o saxofonista e compositor Ivan Mazuze vai apresentar-se, às 20 horas desta sexta-feira, na Sala Grande do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo, em concerto.

Segundo avança uma nota de imprensa sobre o evento, a iniciativa da Imazuze Music faz parte de uma digressão musical que o artista moçambicano está a apresentar, este ano, em diversos países. Entre os quais, Itália, Noruega, Dinamarca, Brasil e Letónia, apresentando-se em grande nível em eventos tais como Mixite Festival, Saulkrasti Jazz Festival, Amapa Jazz Festival, Trondheim Transform Festival, Nasjonal Jazzscene, Cosmopolite Scene, USF Verftet e Drammen Kulturnatt.

Nos países onde Ivan Mazuze tem actuado, além de levar consigo a música que produz a partir de Noruega, onde vive há anos, o artista tem a iniciativa de colaborar em concerto com variados músicos locais, promovendo, dessa maneira, um forte intercâmbio artístico-cultural entre criadores de proveniências diferentes. Assim, sem deixar de fora a Ivan Mazuze Group, para o concerto de sexta-feira, no Franco-Moçambicano, Ivan Mazuze convidou alguns artistas com os quais tem um relacionamento artístico de longa data. Tal relação profissional, vai permitir aos espectadores de Maputo ouvir os temas propostos ao concerto com sugestivos arranjos musicais.

Os artistas convidados para o concerto de Ivan Mazuze, portanto, são Deodato Siquir (Dinamarca/Moçambique), Mark Fransman (África do Sul), Jai Shankar (Índia/Noruega) e  Tony Paco, Stélio Mondlane e Hélder Gonzaga (todos residentes em Moçambique).

De acordo com Ivan Mazuze, em termos conceptuais, “Este será um concerto com uma essência rítmica percussiva e melódica, incorporando elementos da música clássica indiana, criando uma fusão única com os ritmos percussivos de Moçambique com uma base harmónica solidificada”, lê-se na nota de imprensa.

O concerto de Ivan Mazuze na Sala Grande do Franco-Moçambicano acontece numa altura em que o músico encontra-se a finalizar um trabalho comissionado para a Oslo Global Music, na Noruega, o qual será apresentado neste segundo semestre. O trabalho em causa, com efeito, vai resultar no lançamento do seu próximo álbum discográfico.

 

 

O artista plástico Amanhiça vai inaugurar, esta quarta-feira, às 18 horas, na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto, a exposição de escultura “Estórias por contar, por contar, por contar…”.

Com nota de apresentação de Suleiman Cassamo, a mostra do artista enaltece, segundo o escritor, sobretudo as mulheres, como que numa homenagem pela maternidade.

Além das mulheres, o artista homenageia os pássaros, que lhe acompanham desde a infância. Observa Suleiman Cassamo: “Por ele vistos ou pensados. Apesar da densidade do metal, não falta aos pássaros a vontade de voar. Tanto nos pássaros como nas mulheres persiste o perpétuo desejo de evasão. Mas ao fim de algum tempo a olharmos fascinados as peças justamente inspirados por estas obras somos nós que levantamos um voo imaginário”.

Amanhiça nasceu a 6 de Maio de 1961, em Maputo. Em 1975, estabelece os primeiros contactos com o mundo das artes através de alguns artistas paisagistas. Em 1981, em Nampula, conhece Titos Mucavele, que lhe dá apoio material e moral, criando juntos um grupo de interesse em artes plásticas.

Em 1985, em Nampula, Amanhiça pinta, com o Elias Manjate, um mural alusivo ao 21º  aniversário do início da Luta Armada de Libertação Nacional.

Em 1986, já em Maputo, participa em estágios artísticos no Núcleo de Arte. Dedica-se também à escultura metálica, tendo como recurso material os desperdícios oficinais da escola onde é professor.

Tem a sua obra em colecções individuais e públicas no país e no estrangeiro. Foi laureado com o 2º Prémio do Concurso Novos Talentos (Horizonte Arte Difusão), em 1990.

Amanhiça participou em mais de uma dezena de exposições colectivas e fez duas individuais em Maputo e na Alemanha.

 

De 1 de Julho a 31 de agosto, estão abertas as candidaturas ao Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa, um galardão instituído pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda [INCM], que premeia, anualmente, trabalhos inéditos no domínio da prosa literária produzidos por cidadãos moçambicanos ou a residir em Moçambique há mais de cinco anos.

Segundo avança uma nota de imprensa sobre a iniciativa, à semelhança da edição anterior, nesta 7.ª edição do Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa as candidaturas fazem-se exclusivamente online no site da Imprensa Nacional.

Na sétima edição, o júri do Prémio é composto pelo escritor e professor Lucílio Manjate (que o preside), pela professora Sara Jona Laisse e pela editora-chefe da Imprensa Nacional-Casa da Moeda Paula Mendes.

O vencedor receberá um prémio pecuniário no valor de 5000 euros, cerca de 350 mil meticais, e verá o seu trabalho publicado pela Imprensa Nacional, a chancela editorial da INCM.

As edições anteriores do Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa já distinguiram, entre vencedores e menções honrosas, os trabalhos Mundo Grave, de Pedro Pereira Lopes, Bebi do Zambeze, de António Manna, Saga d’Ouro, de Aurélio Furdela, Sonhos Manchados, Sonhos Vividos, de Agnaldo Bata, A Ilha dos Mulatos, de Sérgio Raimundo, O Homem que Vivia Fugindo de Si, de Japone Agostinho, Marizza, de Mélio Tinga,  Eva, de Léo Cote e Teatro de Marionetes (ou Ensaio sobre a Mecânica Descritiva da Desertificação dos Homens), de Jofredino Faife.

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda criou este prémio no intuito de incentivar a criação literária em Moçambique e, ao mesmo tempo, de prestar homenagem a Eugénio Lisboa, seu autor e cidadão e homem de cultura nascido em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique. Eugénio Lisboa é doutor honorário das Universidades de Aveiro e Notthingham, Inglaterra, e Oficial da Ordem D. Henrique.

O Camões — Centro Cultural Português em Maputo é o parceiro na promoção e divulgação deste prémio em Moçambique.

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