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O País – A verdade como notícia

Membros da Assembleia Municipal confrontaram e exigiram mais explicações ao presidente do Município de Maputo sobre as suas recentes declarações em torno da eliminação dos parques de venda de viaturas em segunda mão. Eneas Comiche reiterou a sua intenção sem tirar nem uma vírgula.

A Assembleia Municipal de Maputo reuniu-se, esta quarta-feira, na sua última sessão ordinária para este ano. Na agenda, estava a discussão da proposta de portas abertas para área de restauração e venda de bebidas, proposta que foi acolhida favoravelmente pelos membros da Assembleia Municipal, bem como a postura sobre a protecção do património cultural.

Antes da ordem do dia, os membros da Assembleia Municipal da Renamo questionaram Eneas Comiche por conta da sua intenção de acabar com os parques de venda de viaturas usadas.

“O que é que está a fazer com que levem muito tempo para fabricar carros originais? Dois, quem autoriza a importação dessas viaturas para esta cidade? Portanto, não podem querer enganar o povo moçambicano, que vive dos restos deixados de vossa excelência”, criticou Omar Jaime, da bancada da Renamo na Assembleia Municipal.

Outro membro da Renamo que levantou o mesmo questionamento foi Francisco Machaieie: “Quem é que deu autorização para a venda daqueles carros é o Governo da Frelimo, através do senhor David Simango. Mesmo na África do Sul, país mais rico que o nosso, há venda de carros [usados] e por que é que, no nosso município, não se pode vender carro usado?”

Em reacção, Comiche não retirou nem uma vírgula, pelo contrário apelou para que se apoie a sua iniciativa, argumentando que já houve visitas a 75 parques de venda de viaturas em segunda mão e lojas de venda de peças usadas, tendo-se constatado várias irregularidades, das quais falta de DUAT e licenciamento.

“Estamos preocupados com estes parques porque a sua construção não é licenciada pelo Conselho Municipal de Maputo, nem têm uma licença emitida pelo Balcão de Atendimento Único. O que estamos a dizer é que não queremos transformar a cidade capital de Moçambique numa lixeira de carros usados”, reiterou Eneas Comiche, edil de Maputo.

Por seu turno, o Movimento Democrático na Assembleia Municipal questionou o Município de Maputo sobre a alocação do subsídio ao passageiro que ainda não está a acontecer, bem como o pagamento da compensação aos transportadores que chega de forma irregular.

Ainda hoje, a Assembleia Municipal de Maputo aprovou a atribuição do nome de Hortêncio Langa para a Rua número 1294 no Bairro da Sommerschield.

A série de assassinatos na cidade da Beira está a gerar uma onda de indignação nos diversos sectores da sociedade. De uns meses a esta parte, mulheres têm sido alvo de violações sexuais e depois assassinadas, situação que cria terror e pânico nas comunidades naquela urbe.

Recentemente, a ministra do Interior, Arsénia Massingue, admitiu a ocorrência de falhas por parte da corporação na prevenção da criminalidade na cidade da Beira. Agora, organizações da sociedade civil, em Sofala, levantaram a voz contra os crimes hediondos e apelam às autoridades de justiça para investigarem profundamente as razões que estão por detrás deste fenómeno.

Na reunião havida esta terça-feira, as ONG exigiram de quem de direito acções mais enérgicas para devolver a segurança e tranquilidade públicas naquela urbe.

“Por que as mulheres estão a ser mortas?”, questionou Estrela Mboe, membro do Núcleo das Associações Femininas de Sofala. A activista social foi secundada por Catarina Artur, da Organização Pressão Nacional dos Direitos Humanos.

É, dizem, horrível e aterrador o cenário que se está a viver na Beira com a ocorrência dos casos de homicídios.

Dados actualizados do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) indicam que 21 mulheres foram assassinadas desde o início de 2022, em Sofala, sendo que 16 casos de homicídios foram registados na cidade da Beira, com enfoque nos últimos dois meses.

O SERNIC, na província de Sofala, fala de 10 pessoas detidas em conexão com estes casos.

A solução para os participantes da reunião está na união de esforços e investigações mais apuradas, para além da prevenção. “O que deve ser feito é uma investigação adequada porque, primeiro, só se fala de morte de mulheres trabalhadoras de sexo. Mas, na realidade, não são apenas mulheres trabalhadoras de sexo. As mulheres estão a morrer”, denunciou Naira Cardoso, representante da Associação de Mulheres para Promoção de Desenvolvimento Comunitário.

Os assassinatos, lamentam as comunidades, estão a destruir famílias e sonhos, até porque “as crianças estão a ficar traumatizadas ao verem as suas mães a serem assassinadas, para além de ficarem órfãs”.

Cerca de 30 anos depois, a Arquidiocese da Beira tem um Bispo auxiliar. Trata-se de Dom António Constantino, que, na sua apresentação, deixou ficar mensagens de esperança e de fraternidade. Dom António Constantino mostrou-se, igualmente, preocupado com a onda de criminalidade que tem afectado a cidade da Beira nos últimos tempos.

O Papa Francisco nomeou, recentemente, o reverendo Dom António Constantino como Bispo auxiliar da Arquidiocese da Beira. Na sua recepção no Paço Episcopal, ontem, o Bispo auxiliar foi recebido com aplausos e mensagens de boas vindas na missão que lhe foi indicada pelo Papa Francisco.

“O Bispo da Diocese é um, mas, agora, partilhamos o mesmo serviço. Procuraremos caminhar juntos para ajudar a servir melhor o povo de Deus aqui, na Beira”, disse o Arcebispo da Beira, Cláudio Dalla Zuanna, durante a apresentação do Bispo auxiliar.

Dom Constantino António Constantino foi ordenado padre há 21 anos, na Beira, tendo desempenhado várias funções no seio da Igreja Católica tanto no país como no estrangeiro.

Até à sua indicação como Bispo auxiliar, Dom António Constantino era presidente da Conferência dos Religiosos em Moçambique, atribuindo-lhe a Sede titular de Sutunurca.

Falando à imprensa, já na qualidade de Bispo auxiliar, Dom António Constantino disse haver necessidade de os beirenses se unirem para desenvolverem espírito de solidariedade e fraternidade.

Dom António Constantino defende que, com estes valores, os cidadãos podem ajudar a travar os elevados índices de criminalidade na Beira. “Todos juntos temos que fazer algo. A oração primeiro, e depois partirmos para este ambiente de fraternidade. As pessoas devem saber viver, respeitando a vida de outrem. Isto é muito importante”, referiu o Bispo auxiliar da Beira, para depois acrescentar que “devemos cultivar os valores éticos porque onde há registo destes crimes significa que há falta destes valores”, apelou.

Nascido a 9 de Novembro de 1969, na Diocese de Tete, tendo concluído o Pré-postulantado nos Missionários Combonianos do Coração de Jesus em Nampula e de ter frequentado o Seminário da Matola, fez o Noviciado no Uganda.

Até ao momento presente, o Bispo auxiliar Dom António Constantino exerceu, entre outros, os seguintes cargos e estudos superiores: Licenciatura em Jornalismo em Madrid, Espanha (2001-2007); colaborador da revista Mundo Negro; director da revista Vida Nova, colaborador do Centro Catequético de Anchilo (2008-2011); pároco de Anchilo, na Arquidiocese de Nampula; Pároco da Paróquia de São João XXIII em Chitima e de Santa Maria em Mucumbura, na Diocese de Tete (2011-2016); desde 2016 é Superior Provincial dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus, Maputo; Presidente suplente da Conferência dos Religiosos em Moçambique (2018-2019); desde 2019, Presidente da Conferência dos Religiosos em Moçambique.

Além disso, trabalha no Instituto Superior Maria Mãe de África em Maputo e na Comissão para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM).

Uma mulher e sua filha morreram na tarde desta terça-feira na cidade de Chimoio, depois de terem tomado um pequeno-almoço. Presume-se que tenham sido vítimas de intoxicação alimentar provocada pela salada de alface.

Segundo informações a que “O País” teve acesso, o caso ocorreu no bairro 16 de Junho, arredores daquela cidade, quando a família Alfredo Muchuchua consumiu, no seu pequeno-almoço, massa, peixe e salada de alface.

Depois da refeição, uma das filhas começou a sentir-se mal e foi transportada pela sua mãe para o hospital provincial de Chimoio, tendo perdido a vida. Horas depois, a sua mãe também morreu depois de ter tido os mesmos sintomas.

Leonardo Alberto, único filho que não tomou a refeição, contou ao “O País” que foi de repente.

“Foi levada (a sua irmã) pela mamã para o hospital, mas ela também de repente começou a ter os mesmos problemas. O médico disse que era intoxicação alimentar, perguntou o que elas haviam comido e expliquei que comeram massas esparguete, peixe e salada de alface”, contou Leonardo.

Outras duas filhas que haviam feito parte da refeição foram depois transportadas para o hospital provincial de Chimoio, onde uma delas está sob cuidados intensivos.

O Hospital Provincial de Chimoio, através de um dos médicos dos serviços de urgência, confirmou a morte das duas pessoas por intoxicação alimentar e assegurou que a paciente que se encontra internada nos cuidados intensivos revela bons sinais vitais.

O preço de um favo de ovos registou uma subida de 160 Meticais em uma semana na cidade de Nampula. A situação acontece depois de a INAE ter recolhido mais de 12 mil favos de ovos proveniente do Malawi. A produção nacional não cobre a necessidade de consumo.

Na semana passada, a Inspecção Nacional de Actividades Económicas (INAE) apreendeu mais de 12 mil favos de ovos provenientes do Malawi, que estavam à venda na cidade de Nampula a um preço de 190 Meticais por cada favo, contra o preço normal de 230 Meticais. Em consequência dessa operação, verifica-se escassez de ovo na chamada capital do Norte, e o pouco que existe está a ser vendido a 350 Meticais, representando uma subida de 160 Meticais.

“Estamos a vender o favo a 300 Meticais, mas ainda hoje (terça-feira) vai subir para 400 Meticais”, avisa Alfane Momade, revendedor de ovos que, semana passada, viu parte da sua mercadoria apreendida na semana passada.

A operação da semana passada foi o culminar de uma denúncia feita pela farma denominada Novos Horizontes, localizada no distrito de Rapale, a 20 km da cidade de Nampula, que é a única que produz frango de corte e ovo em grande escala, na cidade de Nampula. É a mesma que, neste momento, está a vender ovo, mas os revendedores dizem que não têm stock suficiente, justificando a crise no mercado.

“Nós, quando compramos a 280 Meticais cada favo, revendemos a 300 Meticais para ficarmos com uma margem de 20 Meticais”, explicou Anito Momade, outro revendedor de ovos na cidade de Nampula.

No mercado central da cidade de Nampula, a situação é a mesma. Absinel Domingos, vendedor, disse que “o ovo malawiano está a um preço acessível, e nós, os comerciantes, comprávamos a um preço razoável. O ovo nacional está a um preço alto”.

Dulce Armando, cliente, deixou de comprar a quantidade que desejava, porque o preço “consumiu” a sua expectativa. “Queria comprar dois favos, mas desisti. Só comprei um.”

O director provincial da Indústria e Comércio em Nampula minimiza a crise e diz que há ovo suficiente para abastecer o mercado. “Temos, neste momento, um stock de 531 mil ovos e, com este stock, a produção que temos e a que estamos a constatar por dia, não há razão de haver escassez de ovos. O que deve estar a acontecer é o açambarcamento por parte de alguns comerciantes, só para poder despistar as normas que estão a ser seguidas para garantir um bom ambiente de negócio.”

Entretanto, a nossa reportagem sabe que a produção de ovo na província de Nampula não é suficiente para satisfazer a necessidade interna de consumo. Ora vejamos, com cerca de seis milhões de habitantes, a relação aritmética da Organização Mundial da Saúde sugere que cada pessoa consuma, em média, um ovo por dia e, de acordo com os Serviços Provinciais de Actividades Económicas de Nampula, neste momento, a província tem uma produção anual de 36 milhões de ovos.

Olinda Namburete Mendes morreu na última quarta-feira em Portugal, vítima de doença. Até à data da sua morte, era directora-geral da companhia teatral Gungu.

Mais conhecida por Lindinha, Olinda Namburete Mendes era esposa do secretário de Estado do Desporto, Carlos Gilberto Mendes. Era empresária e, até à altura de sua morte, era directora-geral da companhia teatral Gungu, mas também desempenhava acções sociais.

Esta terça-feira, familiares, amigos, colegas de trabalho e individualidades do Governo despediram-se de Olinda Mendes. O velório decorreu em Maputo, na igreja Santo António da Polana.

Com cânticos, orações e mensagens, muitos diziam o último adeus a Lindinha. Para a família, o seu legado permanecerá para sempre.

“A nossa irmã teve que partir cedo demais, mas jamais deixaremos que caia no esquecimento. Tudo faremos para relembrar a mulher incrível que nos deixou”, disse uma das irmãs da falecida.

“Foste e deixaste o mundo com tanto para falar, tanto para fazer, sempre pensando no bem-estar da família, da qual foste pilar”, disse um representante da família Mendes.

Lindinha foi apresentadora de um programa infantil da STV, Tribo Júnior, e complementou o elenco de produção do programa Conexões do Gil.

Lindinha, que deixa três filhos, morreu aos 47 anos de idade, na última quarta-feira, em Portugal, vítima de doença.

A Ordem dos Enfermeiros de Moçambique exige dos profissionais mais respeito pela dignidade dos pacientes e sigilo profissional. Maria Lourenço falava, esta terça-feira, no lançamento do primeiro Código de Ética e Deontologia Profissional dos Enfermeiros.

O mau atendimento hospitalar, a corrupção e a falta de cortesia são algumas das queixas recorrentes dos utentes nas unidades sanitárias, problemas que o Ministério da Saúde espera ver resolvidos com o lançamento do Código de Ética e Deontologia dos Enfermeiros.

Segundo explicou o director nacional dos Recursos Humanos do MISAU, Norton Pinto, que falava na cerimónia de lançamento do instrumento, em representação do ministro da Saúde, Armindo Tiago, o código tem como propósito a definição de padrões e princípios relacionados aos direitos, responsabilidades, proibições e deveres a serem considerados durante o exercício da profissão de enfermagem em Moçambique.

“O código de ética para os profissionais de enfermagem em Moçambique delimita as infracções e as respectivas penalizações pelos actos que contrariem ou ameacem o respeito pelas boas práticas profissionais, pelos direitos humanos, elevando assim a consciência de humanismo como incentivo para um bom ambiente de prestação de cuidados de saúde”, disse Pinto.

Para a bastonária da Ordem dos Enfermeiros de Moçambique, Maria Acácia, o Código de Ética e Deontologia dos Profissionais de Enfermagem de Moçambique vai ajudar a sancionar os profissionais acusados de mau atendimento hospitalar, que é uma das maiores preocupações do sector da saúde.

“Com o lançamento deste código de ética e a sua implementação, se realmente o mau atendimento é perpetuado pelos enfermeiros, o instrumento vai ajudar, porque a ética exige-nos que façamos o bem”.

Sobre os enfermeiros que exercem funções sem carteira profissional, Maria Acácia garante que a ordem não será tolerante, pois “vamos retirar quem não está regularizado. Todos os enfermeiros devem inscrever-se, regularizar a sua situação, porque só assim poderemos certificar se o profissional de facto tem formação que lhe dá a competência de poder cuidar de outro ser humano”.

O código de ética foi lançado na sua primeira edição e vai permitir guiar os profissionais de enfermagem.

O presidente da Associação Moçambicana dos Juízes analisava o estado actual do ensino de Direito no país e classifica-o como defeituoso, razão pela qual diz existirem “muitos juristas coxos”.

Os desafios do ensino de Direito foi o tema de reflexão do presidente da Associação Moçambicana dos Juízes, durante o encerramento do quinto curso de preparação para carreiras jurídicas. Nesse âmbito, Carlos Mondlane classificou o ensino de Direito, no país, como defeituoso e denunciou a existência do que denominou como “juristas coxos”.

“Nós temos muita gente que, depois de obter o título, continua com debilidades. Pessoas que foram formadas pelas faculdades de Direito, mas ainda apresentam dificuldades básicas. Nós notamos, infelizmente, que o grosso de pessoas que se formam em direito, o que lhes interessa é o diploma e não o conhecimento e isso representa um perigo muito grande para a classe dos advogados, juristas ou procuradores”, anotou Carlos Mondlane.

Para combater as fragilidades do sistema do ensino de Direito e eliminar os juristas “coxos”, a Associação Moçambicana dos Juízes formou 60 profissionais, entre juízes e advogados, que não estão ainda a exercer as suas profissões.

A formação tinha como objectivo preparar os profissionais para o início das suas carreiras jurídicas, por isso foram abordados temas como ética e deontologia profissionais.

“O curso permite uma componente mais prática da profissão de juiz, procurador, defensor.”

Por sua vez, os formandos recomendaram a expansão do curso para outras partes do país.

Este foi o quinto curso desde que a Associação iniciou o projecto, do qual já se beneficiaram mais de 100 profissionais.

O maior valor está em risco. Há pacientes que se deitam sob o soalho, sob o olhar indiferente dos profissionais da bata branca. Uma semana depois, Governo e médicos trocam mimos na imprensa, construindo uma cortina de ferro que fecha o diálogo.

Os historiadores dizem que os ciclos da história se repetem. Provavelmente, a actual greve dos médicos confirma essa tese, porque, nove anos depois, Moçambique volta a assistir a uma greve dos médicos, com duas similaridades: no fim dos mandatos presidenciais e com o salário na base da reivindicação.

Em 2013, era o Presidente Armando Guebuza. O seu Governo bateu-se literalmente com os médicos que queriam 100% de aumento do salário-base e uma subida de 10 para 35% do subsídio de risco. Essa greve durou 24 dias.

Desta vez, é Filipe Nyusi na presidência. Enfrenta o mesmo problema, cujo período de duração anunciado pela Associação Médica de Moçambique é de 21 dias.

Passa uma semana e o braço de ferro continua. Das declarações públicas dos grevistas e do Governo, denota-se uma crispação total, que bloqueia qualquer possibilidade de diálogo, por isso a imprensa tem sido o veículo das mensagens de cada lado.

No meio desta contenda, está a população enferma, entregue à sua sorte. Parece um paradoxo, num país onde se diz que 70% da população recorre, primeiro, à medicina tradicional para curar as suas doenças.

No Norte, “o Hospital Central de Nampula, numa situação normal, é um problema. Imagina agora com a greve!”, desabafa um médico especialista afecto àquela que é a maior unidade sanitária que dá assistência às províncias de Nampula, Cabo Delgado, Niassa e parte da Zambézia. Por razões óbvias, não se identifica porque, em conflito aparente, faz parte dos que devem garantir o atendimento ao público, mas identifica-se com as motivações da greve.

Os pacientes fazem longas horas de espera por uma consulta médica nos serviços de urgência, bem como nas consultas externas autorizadas para funcionarem enquanto vigorar a greve.

De pé, apoiando-se no encosto de um banco metálico, com o corpo a denotar fraqueza, Angerone Mukenga cruza o olhar com o autor destas entrelinhas. Com os olhos muito abertos, quase sem pestanejar, o doente parece pedir, em surdina, para dar uma entrevista.

Estamos na área de espera dos serviços de urgência. É quase meio-dia e a lotação nem permite a circulação de macas. Mukenga consegue o que parecia tanto desejar e sem delongas, desabafa: “estou aqui desde as 6h00 da manhã e ainda não fui atendido. Estou muito mal”.

Os bancos nos locais de espera estão preenchidos. A imagem predominante é de doentes vencidos pelo cansaço. Devido ao atendimento moroso, deitar-se sob o soalho é a opção para alguns doentes.

Os pouquíssimos médicos em serviço são militares, estrangeiros e alguns moçambicanos que garantem serviços mínimos. “O atendimento está a correr normalmente, apesar de alguma enchente”, diz Adamugy Sacugy que segura na mão esquerda a chapa do raio-x do filho.

A direcção do hospital assegura que os grevistas estão a garantir serviços mínimos, mas não restam dúvidas de que, nos próximos dias, a situação pode complicar-se mais, porque já começou a chover em Nampula e, sendo assim, há possibilidade de mais casos de doenças típicas de época, como é o caso de malária e diarreias.

“Espero que a greve não continue. Que haja uma negociação entre o Governo e os médicos; que haja um acordo, porque, se porventura isto continuar, podemos ter uma situação não muito boa para todos, tanto para o médico, assim como para os doentes”, alerta a médica pediatra Dalva Khossa, porta-voz do Hospital Central de Nampula.

O mesmo cenário verifica-se no Hospital Provincial de Tete. Devido às longas horas de espera e falta de atendimento, alguns doentes com consulta médica marcada para esta segunda-feira decidiram abandonar o hospital.

“Estou cá desde as 7h00 da manhã e estão a dizer-se para marcar nova consulta. Devido à demora no atendimento, procurei saber do paradeiro do médico, e disseram-me que não estava. Sendo assim, a única decisão é regressar à casa, mas são custos porque saio da cidade de Moatize”, lamenta um dos doentes que fala em anonimato.

O retrato do Norte e do Centro é basicamente o mesmo do Sul.

O que está em jogo é dinheiro e tudo começa com a Tabela Salarial Única (TSU) que o Governo aprovou por lei para reduzir os níveis salariais e reduzir o fosso entre profissionais da Função Pública. Nessa senda, muita coisa correu mal, com erros que se consubstanciam na desvalorização de especialistas e consideração de detentores de cargos de chefia, situação que continua a ser corrigida.

Dos 14 pontos do caderno reivindicativo dos médicos, consta o pedido de manutenção do subsídio de exclusividade em 40% e o decreto que aprova a TSU fixa em 5%. Consta também a exigência de manutenção do subsídio de turno em 30%; o pagamento da remuneração do trabalho extraordinário e o reajuste do subsídio de localização em 25%.

Em termos de enquadramento nos escalões da tabela que regula a remuneração na Função Pública, os médicos querem estar nos níveis 16 a 18, para médicos de clínica geral, e níveis 19 a 21, para médicos especialistas. Porém, de acordo com os actuais critérios da TSU, o enquadramento dos médicos de clínica geral começa a partir do nível 13Ae os especialistas, do nível 16A, o que mostra que um médico especialista que já atingiu o topo de progressão regride para o nível 16ª, porque os procedimentos actuais não o colocam no topo da carreira.

O nosso jornal sabe que o Governo e os médicos estiveram numa reunião até noite adentro, esta segunda-feira, sem se saber em que ponto se chegou, uma vez que tanto o bastonário da Ordem dos Médicos, como o presidente da Associação Médica de Moçambique não corresponderam aos nossos contactos.

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