Cerca de 1,3 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas zonas de origem em Moçambique desde 2017, devido à violência armada no norte do país. Deste total, 661.532 continuam deslocadas internamente, enquanto 721.691 regressaram aos seus distritos de origem, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
No relatório operacional referente ao primeiro semestre de 2026, a agência indica que os ataques de grupos armados provocaram 26.184 novos deslocados entre Janeiro e Junho, em vários distritos da província de Cabo Delgado. Muitos dos afectados foram obrigados a deslocar-se mais de uma vez.
O ACNUR considera que a situação humanitária continua complexa, devido à persistência da violência em distritos como Ancuabe, Chiúre, Macomia, Mocímboa da Praia, Palma, Quissanga, Muidumbe e Nangade.
Para além dos ataques contra civis e infra-estruturas, a agência assinala que os grupos armados têm visado cada vez mais os meios de subsistência das populações, incluindo campos agrícolas, actividades pesqueiras e locais de exploração mineira, agravando a vulnerabilidade das comunidades.
O relatório indica ainda que Moçambique acolhe 24.217 refugiados e requerentes de asilo, provenientes sobretudo de países da África Central e Oriental.
Entre Janeiro e Junho deste ano, o ACNUR prestou assistência directa a 39.699 pessoas, incluindo deslocados internos, refugiados e famílias vulneráveis, através da distribuição de bens essenciais e apoio monetário. A agência apoiou igualmente 15.804 pessoas com assistência jurídica e 8.637 na obtenção de documentos de identificação.
No âmbito do reforço dos serviços de protecção, está em curso um projecto de 34 meses, lançado em Março, em parceria com os Governos de Moçambique e do Japão. A iniciativa prevê a construção ou reabilitação de 27 postos de atendimento em Cabo Delgado, com o objectivo de facilitar o acesso à documentação civil de mais de 100 mil pessoas e prestar assistência jurídica a outras 45 mil.
Para 2026, o ACNUR solicitou 61,3 milhões de dólares para financiar as suas operações em Moçambique e Angola. Contudo, até Junho, apenas 38% do montante tinha sido disponibilizado, deixando um défice de financiamento de 38,2 milhões de dólares.
A falta de informação sobre os preços, os elevados custos de transporte, o acesso limitado ao financiamento e as deficiências das infra-estruturas continuam a comprometer a capacidade da agricultura do país de gerar rendimentos e alimentar a indústria nacional.
Os constrangimentos afectam diferentes cadeias de valor e dificultam a transformação da produção agrícola em riqueza, apesar do potencial de recursos de que o país dispõe.
Estas são algumas das constatações apresentadas no livro Agricultura e Transformação Económica em Moçambique: Evidências, Políticas e Caminhos para o Desenvolvimento, uma obra colectiva que reúne 16 autores, entre investigadores nacionais e estrangeiros, e resulta de estudos desenvolvidos ao longo de vários anos sobre os desafios da agricultura e da transformação estrutural da economia moçambicana.
Na apresentação da obra, que teve lugar esta quarta-feira, na Cidade de Maputo, Alberto da Cruz explicou que os estudos surgiram no contexto da preparação de políticas de desenvolvimento e industrialização, tendo sido analisadas diferentes cadeias de valor, entre as quais o milho, o algodão, o frango e o feijão bóer.
O investigador destacou a falta de informação fiável sobre os preços e as dificuldades de transporte como obstáculos que prejudicam os produtores e limitam a ligação entre a produção agrícola e a indústria.
“Os agricultores, no caso do milho, não têm informação do preço. Isto é um problema, porque já não sabem como negociar”, afirmou.
Alberto da Cruz chamou igualmente a atenção para as dificuldades de escoamento da produção, que impedem que determinados produtos cheguem aos principais centros de consumo e às unidades industriais.
“A indústria agrícola não compra o milho que sai da Angónia porque não chega a Maputo”, explicou, defendendo que a industrialização do país depende também de investimentos em infra-estruturas que liguem as zonas de produção aos mercados.
“Se realmente queremos industrializar Moçambique, é preciso infra-estruturar”, sublinhou.
Baixa produtividade mantém agricultores na pobreza
Por seu turno, Egas Daniel, também autor da obra, considera que o desafio da agricultura moçambicana não se resume à quantidade de terra disponível ou ao número de pessoas envolvidas na actividade, mas à capacidade de produzir mais com os recursos existentes.
“A diferença é que há pouco rendimento nesta muita terra, neste muito trabalho”, observou o investigador, ao explicar que o crescimento da produção agrícola tem acompanhado o aumento da área cultivada e da população, sem uma evolução significativa da produtividade por trabalhador e por área.
Segundo Egas Daniel, esta realidade limita os rendimentos dos produtores e dificulta a transformação da estrutura económica do país. Para o investigador, o aumento da produtividade agrícola deve ser o ponto de partida para dinamizar outros sectores, incluindo a indústria transformadora e os serviços.
“O agricultor não é irracional. Ele não produz pouco porque não quer ganhar, os simples riscos que ele enfrenta ao produzir muito são tais que não lhe dão incentivos para ele produzir mais”, afirmou, defendendo que os riscos e os constrangimentos enfrentados pelos produtores ajudam a explicar a baixa produção.
Entre os factores identificados no livro estão as dificuldades de transporte, o acesso à terra, a falta de crédito, a ausência de seguros agrícolas adequados e as limitações do mercado de trabalho. Na perspectiva do autor, estes obstáculos estão interligados e devem ser enfrentados de forma articulada.
Egas Daniel alertou ainda para a necessidade de integrar as mudanças climáticas na planificação pública. Cheias e secas podem desencorajar os produtores a investir e comprometer até a produção que conseguem realizar, sobretudo quando não existem mecanismos de protecção adequados.
O investigador defendeu igualmente a diversificação dos mercados e o processamento da produção nacional, para reduzir a dependência de compradores externos. Como exemplo, apontou o caso do feijão bóer, cuja exportação depende fortemente do mercado indiano.
Potencial agrícola exige ligação à indústria
Na sua intervenção, o ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, afirmou que o país dispõe de um potencial agrícola significativo, mas continua a enfrentar dificuldades para o converter em rendimento e desenvolvimento económico.
“O nosso problema não é a ausência de potencial, mas a ausência das ligações que convertem potencial em rendimento”, declarou.
O governante recordou que a agricultura emprega cerca de três quartos da força de trabalho nacional, mas representa aproximadamente um quarto do valor acrescentado da economia. Moçambique dispõe de cerca de 36 milhões de hectares de terra arável, dos quais aproximadamente três milhões têm potencial para irrigação, mas apenas cerca de 50 mil hectares estão efectivamente irrigados.
Salim Valá destacou também o baixo nível de comercialização da produção agrícola, estimando que, em média, os agregados familiares agrícolas comercializam cerca de 12% da sua produção.
“Aumentar a produção sem assegurar mercados, financiamento, logística e processamento industrial produz resultados económicos limitados”, advertiu.
Para o ministro, a transformação da agricultura exige uma abordagem que ultrapasse o aumento da produção e inclua o acesso aos mercados, a melhoria das infra-estruturas, a expansão da irrigação, o financiamento e o desenvolvimento da indústria de processamento.
“O verdadeiro valor económico da agricultura mede-se também pela indústria que alimenta, pelas empresas que dinamizam, pelos empregos que criam e pelos mercados que desenvolvem”, afirmou.
A obra apresenta, assim, um conjunto de evidências e propostas para orientar as políticas públicas e os investimentos privados, defendendo uma maior articulação entre os diferentes sectores da economia.
A mensagem central dos autores é que o potencial agrícola de Moçambique só poderá traduzir-se em desenvolvimento sustentável se forem removidos, de forma coordenada, os obstáculos que limitam a produtividade, o rendimento dos produtores e a ligação entre a produção e a indústria.
Moçambique e Malawi assinam, nesta quinta-feira, na cidade de Tete, um memorando de entendimento sobre medidas sanitárias e fitossanitárias, com vista a facilitar o comércio de produtos agrários, reduzir barreiras comerciais e reforçar a segurança sanitária.
A iniciativa pretende melhorar a circulação de mercadorias entre os dois países, com particular incidência nos corredores da Beira e de Nacala, que ligam o Malawi aos mercados regionais e internacionais através dos portos moçambicanos.
O Secretário Permanente do Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas, Acubar Baptista, considera fundamental assegurar a coordenação entre as instituições de Moçambique e do Malawi, de modo a facilitar o comércio entre os dois países.
Para a Secretária Permanente responsável pelo sector da Agricultura da República do Malawi, a cooperação comum dos riscos sanitários e fitossanitários é necessária para fortalecer a capacidade dos dois países de gerir pragas que afectam o comércio agrícola.
O sector privado acolhe com optimismo a assinatura do memorando, considerando que o instrumento poderá reforçar o controlo de qualidade dos produtos comercializados entre os dois países.
O memorando enquadra-se no Projecto de Comércio e Conectividade da África Austral, financiado pelo Banco Mundial e implementado pelo Ministério dos Transportes e Logística.
A mineradora Kenmare continua a negociar com o Governo moçambicano a renovação do Acordo de Implementação, que regula as condições de processamento e exportação dos minerais extraídos das areias pesadas de Moma, na província de Nampula. O acordo expirou em Dezembro de 2024 e, apesar de vários anos de negociações, as partes ainda não chegaram a consenso sobre os termos da sua extensão por mais 20 anos.
A dimensão do projecto ajuda a explicar a importância do processo. Kenmare está a executar um investimento de 341 milhões de dólares para modernizar a unidade de concentração húmida WCP A e preparar a transição das operações para a zona de Nataka. No final de 2025, mais de 80% desse montante já tinha sido aplicado, ficando cerca de 70 milhões de dólares previstos para o período entre 2026 e 2032. O projecto pretende assegurar a continuidade da produção de Moma nas próximas décadas. A modernização inclui equipamentos e infra-estruturas para manter a capacidade operacional da mina durante os próximos anos.
A empresa tem dois enquadramentos contratuais distintos com o Estado. O contrato de exploração mineira mantém-se válido até 2029, enquanto o Acordo de Implementação estabelece os direitos e benefícios aplicáveis ao processamento e à exportação. A Kenmare pediu a renovação deste último em Setembro de 2022, propondo uma extensão por mais duas décadas.
“Tomámos conhecimento de que o processo já estava concluído através de algumas reportagens e estamos apenas à espera de uma comunicação oficial por parte do Governo”, afirmou Gareth Clifton, director nacional da Kenmare em Moçambique.
A negociação atravessou a transição entre os governos de Filipe Nyusi e Daniel Chapo. A actual administração pretende rever as condições do acordo para aumentar os benefícios económicos para o país. Um dos principais pontos em discussão é a taxa de imposto sobre a produção, conhecida como royalty, cobrada sobre a actividade mineira.
Uma resolução interna aprovada pelo Conselho de Ministros em Julho de 2025 prevê elevar a taxa dos actuais 1% para 2,5% entre 2025 e 2027, aumentando-a para 3% no período de 2028 a 2030 e para 3,5% entre 2031 e 2044. A proposta representa um aumento gradual da receita directa do Estado associada à produção mineral, mas as condições definidas não foram acordadas com a empresa.
A posição da Kenmare, contudo, exige uma clarificação: a empresa propôs inicialmente elevar a taxa para 2,5% e, numa revisão apresentada em Abril de 2025, passou a admitir um aumento faseado de 2,5% até 3,5% ao longo dos 20 anos de extensão. A divergência está, por isso, também no calendário e nas condições em que o aumento seria aplicado, bem como nas restantes alterações fiscais e aduaneiras.
A mesma resolução prevê a retirada do estatuto de Zona Franca Industrial à área de operação da Kenmare e limita as isenções de direitos aduaneiros e do IVA na importação a determinados equipamentos, peças sobressalentes e acessórios. Para a empresa, estas mudanças podem afectar os custos e as condições de funcionamento do projecto. A Kenmare tem defendido que os termos finais devem resultar de um entendimento entre as partes.
Apesar das divergências, a empresa manifesta abertura à legislação que prevê o processamento local de 20% dos recursos minerais explorados no país. Actualmente, os produtos resultantes do processamento das areias pesadas de Moma são exportados, pelo que a aplicação da nova regra poderá exigir investimento adicional e a entrada de operadores capazes de transformar a matéria-prima em Moçambique.
“Agora, o país deve concentrar-se nos benefícios da matéria-prima e atrair investidores com experiência nessa área, para comprarem o que precisarem de empresas como a nossa e contribuírem para a economia moçambicana”, afirmou Clifton.
A intenção é aumentar o valor acrescentado gerado internamente, criando oportunidades para novas actividades industriais, emprego e fornecimento local de bens e serviços. A concretização da medida dependerá, porém, da capacidade de atrair investidores e de desenvolver condições para o processamento dos minerais.
A Câmara de Minas de Moçambique considera a decisão oportuna, mas alerta para os desafios da sua implementação. O sector defende que o país deve avaliar experiências internacionais e definir mecanismos que permitam aproveitar economicamente a parcela da produção destinada ao processamento local.
“Em algum momento temos de olhar para as experiências de outros países e perceber como têm gerido esta componente para gerar rendimento com os 20% que ficam para o país. Há casos, como o do Zimbabwe, em que, se o operador não tiver condições de transformar o produto, acaba por comprar o produto ao Estado”, afirmou Edson Matches, presidente do Conselho de Administração da Câmara de Minas de Moçambique.
O INNOQ anunciou o reforço da fiscalização do peso do pão em Moçambique, exigindo balanças verificadas e advertindo sobre sanções para os estabelecimentos que não cumpram a legislação.
Assim, os estabelecimentos são obrigados a disponibilizar balanças verificadas aos consumidores. Em comunicado, o INNOQ indica que a medida visa assegurar o cumprimento da legislação metrológica e a protecção dos consumidores na produção e comercialização do pão, acrescentando que os panificadores devem garantir que o pão seja produzido e comercializado de acordo com os pesos nominais legalmente estabelecidos.
Aponta ainda que os estabelecimentos de venda ficam obrigados a afixar, em local visível, tabelas com os respectivos pesos e preços.
O INNOQ determina ainda que todos os locais de comercialização de pão disponham de balanças devidamente verificadas e com marca de verificação metrológica válida, colocadas em locais acessíveis para que os consumidores possam conferir o peso do produto adquirido.
Para garantir o cumprimento das disposições, o INNOQ anuncia a realização de acções de controlo metrológico e fiscalização junto dos estabelecimentos de produção e comercialização de pão em todo o território nacional, avisando: “O incumprimento das disposições legais aplicáveis poderá determinar a adopção das medidas administrativas e sancionatórias previstas na legislação em vigor”.
O INNOQ considera que o cumprimento destas medidas contribuirá para aumentar a transparência das transações comerciais, reforçar a proteção dos consumidores e promover a confiança no mercado nacional.
O mercado de Nicadine, no distrito de Pebane, província da Zambézia, entrou em funcionamento a 9 de Outubro de 2026, após obras de reabilitação realizadas pela empresa Shuang Long, Limitada, no âmbito do Projecto 8637. A intervenção incluiu a disponibilização de cinco arcas congeladoras para a conservação de produtos perecíveis.
A cerimónia de entrega contou com a presença do administrador do distrito de Pebane, Cássimo Manuel Jamal, e de representantes da empresa. Durante a visita às instalações, os participantes observaram as bancas e os espaços destinados à venda de produtos, bem como os equipamentos disponibilizados.
O mercado constitui um espaço de trabalho para os vendedores locais e uma fonte de abastecimento diário para a população. A reabilitação das instalações e a disponibilização dos equipamentos visam melhorar as condições de funcionamento do espaço e apoiar a actividade comercial.
A conservação do pescado, da carne e de outros produtos perecíveis exige condições adequadas de armazenamento, desde a aquisição até à venda. Neste contexto, as cinco arcas congeladoras passam a integrar os meios disponíveis para a conservação dos produtos, contribuindo para a gestão das existências e para a redução de perdas.
A Shuang Long, Limitada, subsidiária da Hainan Zirconium Titanium Resources Holding Group Co., Ltd., enquadra a intervenção nas suas iniciativas de responsabilidade social, desenvolvidas no âmbito do Projecto 8637, que incluem a melhoria de infra-estruturas públicas de apoio às actividades económicas e à vida das comunidades.
Única fábrica nacional de produção de painéis solares passa a ser gerida pelo grupo Jampur, do Dubai, ao abrigo de uma concessão de 20 anos que pretende reactivar a produção, modernizar equipamentos e responder à procura de soluções de energia solar no mercado nacional e nos países vizinhos. A transferência da gestão, assinalada esta quarta-feira, na Matola, ocorre depois de cerca de quatro anos de paralisação e de dificuldades técnicas que limitaram a competitividade da unidade industrial.
Inaugurada em 2013, no Parque Industrial de Beluluane, a fábrica representou um investimento de 13 milhões de dólares, financiado pelo Governo da Índia, e foi concebida para apoiar a produção nacional de painéis solares e os programas de electrificação, sobretudo nas zonas rurais. A retoma, porém, não será imediata: a nova gestão prevê substituir parte significativa dos equipamentos existentes e estima alcançar a produção plena no primeiro trimestre de 2027.
O presidente do Conselho de Administração do FUNAE, Mety Gondola, justificou a entrega da operação ao sector privado com limitações tecnológicas e de escala que impediam a fábrica de competir. A unidade produzia painéis com potência na ordem dos 270, enquanto produtos concorrentes chegavam a cerca de 670, além de apresentarem uma diferença de preço próxima de mil meticais. “A dimensão não nos permitia melhor escala. A potência máxima daquilo que se produzia não nos permitia ser competitivos com os produtos disponíveis no mercado, e havia ainda a questão do preço”, explicou Gondola.
A decisão enquadra-se, segundo o PCA do FUNAE, numa visão em que o fundo deve concentrar-se no financiamento e no apoio às políticas de energia, deixando a implementação e a operação de actividades industriais para operadores privados. Gondola ressalvou, contudo, que a passagem de gestão não significa o afastamento total do Estado. O FUNAE continuará a acompanhar a iniciativa e discute com a Jampur possibilidades de novos investimentos, incluindo a produção de contadores e outras soluções ligadas ao sector energético.
O responsável sublinhou ainda que a fábrica não deve orientar a sua produção apenas para grandes encomendas do Estado ou de empresas. Na sua perspectiva, a modernização deve permitir fabricar soluções de menor dimensão, acessíveis a famílias, pequenos produtores e agricultores que precisam de energia para desenvolver actividades nas suas machambas. A capacidade de responder a diferentes segmentos de mercado será, assim, uma das medidas da utilidade económica e social do empreendimento.
“Vamos determinar qual é a procura no mercado moçambicano, porque acreditamos que é elevada. Ainda não temos um número específico, mas será necessário investir bastante e serão criados muitos postos de trabalho”, declarou Muhammad shafiq, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Jampur , acrescentando que a empresa pretende introduzir equipamentos novos. Segundo o gestor, parte dos equipamentos actualmente instalados tem entre dez e quinze anos e deverá ser substituída, por não corresponder às necessidades tecnológicas da produção que a Jampur pretende implementar.
A empresa afirma já ter iniciado os preparativos para trazer os novos equipamentos e indica que um fornecedor, identificado na intervenção como Red Solar, esteve recentemente no local. A meta anunciada é atingir a produção plena no primeiro trimestre de 2027. Até lá, permanecem por esclarecer o montante global a investir, a capacidade diária que será instalada e o calendário detalhado de entrada em funcionamento das diferentes fases da linha de produção.
Os dados apresentados pelo FUNAE ajudam a dimensionar o desafio. Antes da paralisação, a unidade conseguia produzir até 100 painéis por dia, segundo Joaquim Macanguisse, administrador do pelouro de projectos do fundo. O responsável afirmou que a Jampur está a avaliar as instalações para determinar a capacidade futura, mas espera que a adopção de tecnologia moderna permita aumentá-la de forma significativa.
Macanguisse explicou que a fábrica enfrentava dificuldades de manutenção e de acesso a matérias-primas e assistência técnica, num contexto em que as mudanças tecnológicas na indústria tornavam mais difícil manter os equipamentos em funcionamento. A falta de apoio especializado podia prolongar as interrupções, reduzindo a regularidade da produção e a capacidade de responder às encomendas. A transferência para um operador privado pretende, entre outros objectivos, ultrapassar estes constrangimentos operacionais.
A concessão também levanta questões sobre o emprego e a continuidade dos conhecimentos acumulados pela equipa anterior. De acordo com Macanguisse, os 14 trabalhadores que estavam afectos à fábrica eram funcionários do Estado e foram integrados em diferentes sectores do FUNAE após a paralisação da unidade. A nova gestão poderá contratar trabalhadores, em função das suas necessidades, e existe a possibilidade de alguns dos antigos funcionários transitarem para a Jampur, caso haja interesse e disponibilidade.
“Todos os trabalhadores que estavam aqui na fábrica já foram integrados em vários sectores do FUNAE”, afirmou Macanguisse, esclarecendo que os contratos existentes permanecem, em princípio, ligados ao fundo. O administrador não avançou uma previsão do número de novas vagas, remetendo a estratégia de recrutamento para a empresa concessionária. Assim, a promessa de criação de emprego ainda não está acompanhada por metas quantificadas, nem por um calendário de contratação.
O governador da província de Maputo, Manuel Tule, considera que a retoma poderá contribuir para alargar o acesso à energia, em particular nas comunidades onde a extensão da rede eléctrica convencional é difícil ou dispendiosa. O governante apontou a produção local como uma oportunidade para responder à procura interna e externa e reduzir a dependência de importações, embora o alcance desse efeito dependa da capacidade produtiva que vier a ser instalada e da competitividade dos painéis no mercado.
O governador apelou igualmente à contratação e capacitação de jovens locais, defendendo que a fábrica deve gerar benefícios para a população da região onde está instalada. Tule reconheceu que alguns candidatos poderão não dominar inicialmente a tecnologia a utilizar, mas considerou que a formação pode prepará-los para trabalhar na unidade. O apelo coloca a qualificação da mão-de-obra nacional entre as expectativas associadas à concessão, numa fase em que o plano concreto de contratação ainda não foi divulgado.
A passagem para a Jampur constitui, por isso, uma tentativa de recuperar um investimento público de 13 milhões de dólares e converter uma unidade inactiva num activo industrial operacional. O acordo abre espaço à modernização e a novas oportunidades de negócio, mas deixa por quantificar elementos essenciais para avaliar o seu impacto económico: o capital que será aplicado, a capacidade instalada, os empregos efectivamente criados e a parcela da procura nacional que poderá ser satisfeita pela produção local.
O primeiro trimestre de 2027 será o marco para avaliar a retoma. A execução dos investimentos, a produção e os empregos criados dirão se a concessão tornou viável este activo industrial em Moçambique.
Está patente ao público até 5 de Novembro, na Mediateca do BCI, em Maputo, a exposição individual “Versos d’Alma”, do artista plástico moçambicano Miqueias Rocha, conhecido no meio artístico por Das Rochas.
A mostra reúne obras em aguarela sobre papel que traduzem memórias, emoções e experiências marcantes do autor, convidando o público a uma reflexão sensível sobre o quotidiano, a identidade e as referências culturais moçambicanas.
A cerimónia de abertura teve lugar na terça-feira, e contou com a presença de artistas, representantes do meio cultural e convidados, tendo sido marcada por intervenções que evidenciaram a dimensão estética e simbólica da exposição, bem como o percurso criativo do seu autor.
Na ocasião, a Coordenadora das Mediatecas do BCI, Telma Jorge, destacou a importância da iniciativa enquanto espaço de valorização da expressão artística nacional, sublinhando que as obras convidam o público a um exercício de memória e observação da realidade moçambicana.
Reafirmou, igualmente, o compromisso do Banco com a promoção da cultura, particularmente no ano em que celebra três décadas de existência. Por sua vez, o curador Titos Pelembe realçou a riqueza temática e expressiva da exposição, identificando três dimensões fundamentais na produção artística apresentada: as memórias da infância, as dinâmicas da vida urbana e a exploração de símbolos de matriz africana, numa linguagem simultaneamente contemporânea e enraizada na identidade cultural.
Destacou, ainda, a diversidade de abordagens e a importância do regresso do artista à apresentação pública dos seus trabalhos.
O autor Das Rochas descreveu a exposição como um momento de renascimento artístico, depois de um longo período afastado da pintura. Revelou que o nascimento das suas filhas constituiu um dos principais impulsos para retomar os pincéis e reencontrar uma paixão que o acompanha desde os tempos de formação. Para o artista, cada trabalho representa uma parte da sua própria história, traduzindo sentimentos e experiências que agora partilha com o público.
A exposição assinala, igualmente, um marco no percurso de Miqueias Rocha, que, apesar de já ter participado em diversas mostras colectivas, apresenta agora a sua primeira exposição individual.
Ao acolher “Versos d’Alma”, o BCI reafirma o seu papel enquanto parceiro da cultura e dos criadores nacionais, proporcionando espaços de encontro entre artistas e público e contribuindo para a divulgação do talento moçambicano, numa aposta contínua na valorização da identidade e do património cultural do País.
Os fazedores das artes e cultura na Zambézia defendem maior valorização das manifestações identitárias da província no Plano Estratégico da Cultura 2027–2036. A auscultação nacional, que decorre durante dois dias, procura recolher contribuições para um documento que deverá orientar as políticas culturais na próxima década.
A cultura da Zambézia quer deixar de ser apenas uma expressão da identidade dos seus povos para assumir um papel mais expressivo na promoção do turismo, na criação de oportunidades económicas e na dinamização das indústrias culturais e criativas.
É neste contexto que a província acolhe uma auscultação nacional no âmbito da elaboração do Plano Estratégico da Cultura 2027–2036, um processo que pretende reunir contribuições dos fazedores das artes e cultura para a definição das prioridades do sector nos próximos dez anos.
Num território marcado pela diversidade de manifestações culturais, pela riqueza gastronómica e pelo talento dos seus jovens, os participantes esperam que o documento final reflicta as particularidades da identidade zambeziana e reconheça a cultura como um recurso estratégico para o desenvolvimento social e económico.
A expectativa é que as propostas apresentadas não se limitem ao registo formal das manifestações culturais, mas contribuam para a criação de mecanismos de promoção, preservação, valorização e sustentabilidade das actividades artísticas e culturais.
A auscultação coloca, assim, uma questão central: como transformar a riqueza cultural da Zambézia num instrumento de desenvolvimento, capaz de gerar oportunidades para artistas, criadores, promotores de eventos, agentes turísticos e comunidades.
“Não estamos nesta reunião como meros ouvintes, mas como actores importantes que possam contribuir para construção de um instrumento que possa nortear o sector da cultura”, disse Pio Matos, governador da Zambézia, lembrando aos fazedores das artes e cultura no sentido de partilharem propostas que reflitam a nossa realidade”.
MUCAPATA E GALINHA À ZAMBEZIANA NA ESTRATÉGIA CULTURAL
Entre as propostas que se pretende ver reflectidas no Plano Estratégico da Cultura está a valorização da gastronomia zambeziana, com destaque para a mucapata e a galinha à zambeziana, pratos que constituem referências da identidade culinária da província.
Mais do que alimentos tradicionais, estas especialidades representam conhecimentos transmitidos entre gerações, práticas comunitárias e formas de expressão da identidade local. A sua valorização pode contribuir para promover a gastronomia como património cultural e como elemento de diferenciação turística.
“Precisamos que os nossos pratos, a nossa mucapata e o nosso caril de coco estejam também na componente de dinamização das indústrias culturais e criativas. Precisamos que festivais como Zalala constem neste plano estratégico, pois ao constar estaremos a dotar os fazedores das artes e culturas de capacidade de gerar renda, incrementando postos de trabalho e assim devolver a dignidade de vida aos nossos fazedores das artes e culturas” disse Ivan Bonde, director nacional das Artes e Cultura
A integração destas referências numa estratégia de promoção cultural poderá abrir espaço para iniciativas que aproximem a gastronomia das actividades turísticas, dos festivais, das feiras culturais e dos circuitos de comercialização de produtos locais.
A aposta na gastronomia constitui, deste modo, uma oportunidade para valorizar os conhecimentos tradicionais e, simultaneamente, criar condições para que cozinheiros, pequenos empreendedores, produtores e outros agentes económicos beneficiem da crescente procura por experiências culturais autênticas.
Para os fazedores das artes e cultura, a questão não se resume à inclusão dos nomes dos pratos tradicionais no documento. O desafio consiste em garantir que a sua valorização seja acompanhada por acções concretas de promoção e divulgação, capazes de projectar a identidade gastronómica da Zambézia para além das fronteiras provinciais.
NIKETCHE NA VALORIZAÇÃO DO PATRIMÓNIO
A proposta de valorização cultural abrange igualmente o Festival de Zalala e de Niketche, este último é dança tradicional praticada na Zona alta da Zambézia. As mulheres e os homens, colocam objectos de latas que criam sons que dão “gosto aos ouvidos”
O Festival de Zalala representa uma oportunidade para promover manifestações culturais, reunir diferentes expressões artísticas e aproximar a cultura das actividades turísticas e económicas. A sua valorização estratégica poderá contribuir para ampliar a visibilidade da província e criar novas oportunidades para artistas e agentes culturais.
A eventual valorização destas referências no âmbito da estratégia cultural poderá contribuir para reforçar a divulgação do património artístico e literário moçambicano, promovendo o diálogo entre a tradição e as expressões contemporâneas.
A intenção é que a cultura da Zambézia seja reconhecida na sua diversidade, incluindo a gastronomia, a literatura, a música, a dança, as festas tradicionais e outras manifestações que caracterizam a identidade dos seus povos.
FAZEDORES DAS ARTES QUEREM PARTICIPAR NAS DECISÕES
A auscultação nacional pretende colocar os fazedores das artes e cultura no centro do processo de elaboração do Plano Estratégico da Cultura 2027–2036.
A participação dos agentes culturais é considerada importante para que as prioridades definidas no documento correspondam às necessidades concretas de quem trabalha diariamente na criação, produção, divulgação e preservação das manifestações artísticas e culturais.
O desafio lançado aos participantes é o de assumirem um papel activo na discussão, apresentando propostas que possam contribuir para a construção de uma estratégia ajustada à realidade do país e às especificidades de cada província.
Na Zambézia, a expectativa é que a diversidade cultural e o potencial criativo dos jovens sejam reconhecidos como processos que podem contribuir para a dinamização das indústrias culturais e criativas.
Este sector pode abrir oportunidades de emprego e geração de rendimento, desde que existam condições para a formação artística, o acesso a financiamento, a circulação de obras, a promoção de eventos e a protecção dos direitos dos criadores.
DO DOCUMENTO À VALORIZAÇÃO EFECTIVA DA CULTURA
Durante dois dias, os actores das artes e cultura serão ouvidos, num processo destinado a recolher contribuições para a matriz do plano estratégico.
O resultado desta auscultação será particularmente importante para determinar em que medida as propostas apresentadas poderão influenciar as prioridades e as acções a desenvolver ao longo da próxima década.
Para Zambézia, a expectativa é que a sua identidade cultural encontre expressão efectiva no documento final, através de iniciativas que promovam as manifestações tradicionais, valorizem os criadores e reforcem a ligação entre cultura, turismo e desenvolvimento económico.
A elaboração do plano representa, assim, uma oportunidade para discutir não apenas a preservação das tradições, mas também a criação de condições para que a cultura continue viva, renove e produza benefícios para as comunidades.
Mercado central de Quelimane, quem te viu e quem te vê! A expressão traduz a transformação vivida pelas mulheres que diariamente comercializam hortícolas, mariscos e comida confeccionada naquele que é um dos principais espaços de actividade comercial da capital provincial da Zambézia.
As novas instalações, inauguradas a 21 de Agosto, por ocasião da celebração dos 84 anos da elevação de Quelimane à categoria de cidade, estão em funcionamento e representam uma mudança significativa nas condições em que as comerciantes exercem as suas actividades.
O jornal o país visitou o mercado e encontrou um ambiente marcado pela satisfação das vendedeiras. Entre bancas organizadas e produtos expostos para a comercialização, as mulheres reconhecem que as novas infra-estruturas vieram responder a algumas das dificuldades que enfrentavam no passado, sobretudo a exposição permanente ao sol e à chuva, que condicionava o trabalho e colocava em risco a conservação da mercadoria.
Para muitas destas comerciantes, o mercado é mais do que um espaço de compra e venda. É a principal fonte de rendimento e o meio através do qual asseguram o sustento das suas famílias. Por isso, a melhoria das condições de trabalho representa também uma oportunidade para desenvolver a actividade comercial num ambiente mais protegido e organizado.
“Não temos palavras para agradecer o conselho municipal por livrar-nós das dificuldades do passado. Hoje temos dignidade, aqui buscamos sustento para a nossa família e estamos felizes com o nosso novo mercado” disse Paulina Emílio uma vendedeira do mercado central a mais de 25 anos.
DA EXPOSIÇÃO AO SOL E À CHUVA A MELHORES CONDIÇÕES DE CONSERVAÇÃO
Antes da entrada em funcionamento das novas instalações, as condições de trabalho constituíam um dos principais desafios para as mulheres que vendem produtos alimentares no mercado central de Quelimane. A exposição às condições climáticas dificultava a actividade diária e podia comprometer a qualidade dos produtos colocados à disposição dos consumidores.
Com as novas bancas, as comerciantes passam a dispor de melhores condições para acomodar e conservar a mercadoria, reduzindo a exposição directa aos factores ambientais que afectam os produtos perecíveis.
A conservação dos hortícolas e de outros produtos alimentares assume particular importância numa actividade em que a qualidade da mercadoria influencia a confiança dos clientes e as possibilidades de venda. Para as mulheres que trabalham neste segmento, a existência de instalações adequadas constitui, assim, uma melhoria que ultrapassa a componente estética do mercado.
“Hoje podemos conservar melhor as nossas hortícolas e, quando largamos até deixamos aqui e ninguém rouba. As condições mudaram para melhor” explicou Josina Isaías uma vendeira de alface, que nesta época trás do vizinho Malawi.
A satisfação manifestada pelas vendedeiras reflecte a importância de investimentos públicos e de cooperação que respondam às necessidades concretas dos pequenos comerciantes, sobretudo das mulheres que encontram no comércio informal uma fonte essencial de rendimento.
INVESTIMENTO SUPERIOR A 44 MILHÕES DE METICAIS
O projecto de requalificação permitiu a construção de cerca de 300 bancas, num investimento superior a 44 milhões de meticais, financiado pela organização GAIN, através de fundos provenientes da Noruega.
As novas instalações são compostas por três edifícios com estrutura de betão e incluem sistemas de drenagem e esgoto, instalações eléctricas e outras infra-estruturas de apoio ao funcionamento do mercado.
A presença destes equipamentos procura proporcionar melhores condições para o exercício da actividade comercial, ao mesmo tempo que contribui para uma maior organização do espaço e para a criação de um ambiente mais adequado à comercialização de produtos alimentares.
A intervenção representa um passo na melhoria das infra-estruturas comerciais de Quelimane, cidade onde os mercados desempenham um papel importante no abastecimento das famílias e na geração de rendimento para centenas de vendedores.
O DESAFIO DE PRESERVAR AS NOVAS INFRA-ESTRUTURAS
Apesar da satisfação com as melhorias introduzidas, a utilização e conservação das novas instalações constituem um desafio que exige o envolvimento das comerciantes e das entidades responsáveis pela gestão do mercado.
A manutenção da limpeza, a utilização adequada dos sistemas de drenagem e esgoto e a preservação das bancas serão determinantes para garantir que o investimento continue a produzir benefícios ao longo dos anos.
“O nosso desvio agora, passa por conservar o mercado central. A responsabilidade neste sentido é nossa e esperamos cuidar para ficar muito e longos anos num bom estado” precisou Manucha João, outra vendeira.
Mais do que inaugurar infra-estruturas, o desafio consiste em assegurar que estas permaneçam funcionais, limpas e organizadas, proporcionando condições adequadas tanto para quem vende como para quem procura produtos no mercado.
Em Quelimane, a transformação do mercado central demonstra que a melhoria das infra-estruturas comerciais pode ter um impacto directo no quotidiano de quem depende do pequeno comércio. Para as vendedeiras, a mudança é visível nas condições em que trabalham, na protecção da mercadoria e na esperança de desenvolver uma actividade com maior segurança e dignidade.