Skip to main content

O País – A verdade como notícia

O Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. e a Fundação Calouste Gulbenkian vão apoiar o desenvolvimento de quatro polos de criação artística contemporânea nas áreas das artes cénicas e/ou música, nos PALOP e Timor-Leste, com o objectivo de promover a qualificação de recursos humanos e de instituições da sociedade civil ligadas às artes.

Segundo escreve o Camões, as candidaturas decorrem entre 26 de Maio e 7 de Julho e destinam-se a instituições/entidades com sede e actuação nos PALOP (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe) e Timor-Leste, que deverão cumprir o requisito de ser legalmente constituídas como pessoas colectivas de natureza privada, sem finalidade lucrativa e ter trabalho comprovado no âmbito das artes cénicas e/ou música.

De acordo com a nota do Camões, as actividades apoiadas podem incluir: a investigação artística; a criação de novas produções/obras artísticas, nomeadamente em regime de residências; a programação de produções/obras preexistentes; iniciativas de carácter formativo e de capacitação; acções específicas de envolvimento e desenvolvimento de públicos, habilitando comunidades locais diversas a participarem activamente na criação e fruição artística. Estas actividades poderão ainda ser realizadas em cooperação com outras entidades a nível local, nacional e internacional, muito especialmente no âmbito dos PALOP-TL. O concurso decorre em duas fases. No final serão apoiados quatro polos, cujo programa de atividades deve ter a duração de 30 meses.

O projecto PROCULTURA PALOP-TL é uma acção do Programa Indicativo Multianual PALOP – Timor-Leste e União Europeia, financiada pela União Europeia, cofinanciada e gerida pelo Camões, I.P. e cofinanciada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Tem como objectivo contribuir para a criação de emprego em actividades geradoras de rendimento na economia cultural e criativa nos PALOP e em Timor-Leste.

Por: Ricardo Mutita

 

Já soava pelos ares da cidade, entre os ambulantes de gema:

– Estas boladas que por aqui se fazem, um dia, vão nos cair mal.

De um lado, circulam os vamos comer aonde?, que, a todo custo, têm de voltar para casa com um pedaço de pão, revendendo produtos que se abstêm de responder pelo tipo ou nível de qualidade. Do outro, os maimai?, ou, se preferirmos nos gabar de bosses ou marrões, “qual é o último preço disto?”. Os vamos comer aonde?, que, para além de businessman, são preciologistas, ou seja, aqueles que conseguem estipular preço a um determinado produto, prevendo os maimais, aliás, possíveis descontos até ao último, sem entrar em prejuízo.

E mesmo com toda esta bagagem de consciência sobre as boladas de cá, já naquelas modernas balalaicas de capulana costuradas pelo mais puto alfaiate da pequenina zona de Muchinha, que se gaba de estilista e influenciador digital, pôs-se, Djampirito, à rua, à procura de um bom smartphone:

– Acho que com estes oito paus consigo um bom Iphone 6s Plus com leitor multimédia, 128 GB e bateria 100%. Ah… vou! Assegurava-se a si mesmo o jovem das águas de Mutomote.

Depois de ter marchado uns cinquenta passos, Djampirito abraçou a Estrada Nacional n° 1, bem ali naquela bússola que deixa a qualquer um meio confuso em decidir para onde ir, entre o Aeroporto e CFM, Memória e Namicopo. Mas como já vinha programado e decidido a usar uma máquina de último grito, cansado de esperar por um transporte com lugar vazio para se sentar, pendurou-se na porta de um “chapa 100” que recolhia ao Resta. Afinal, o centro de boladas, em Nampula, é mesmo ali no círculo –  Museu, Prédio Fabião até ao Hotel Girassol e Shoprite, Mercado dos Bombeiros até ao Instituto Industrial e Comercial de Nampula.

Enquanto o motorista se concentrava em proteger vidas dos buracos assaltantes e de outros gafanhotos voadores pela estrada do sacrifício, o cobrador com uma força de atleta e voz de solista, gritava bofeteando a velha chapa:

– Waresta… Waresta… Waresta… Carreeega… Oholó mista…

Chegado a CFM, outra bofetada mais:

– PHÁÁÁ…         

Tão forte fora a bofetada que até os passageiros assustaram-se e, por uns segundos, viram-se no norte de Cabo Delgado, sem moedas nem palmas. Afinal, era saída para Djampirito, em frente ao Clube Ferroviário de Nampula. Preferiu começar dali, descendo para aquelas lojas do Mercado Novo a sondar pelas máquinas. Logo de primeira, foi recebido por um grupo de profissionais de marketing e publicidade sem formação, mas que actuam na área com muito mais dedicação em relação aos com diplomas universitários:

– Txeca lá máquinas, boss. Pouca mola só.  Apreciar não se paga nada.

– O que tens aí? Eu quero Iphone, bro. Respondeu, Djampirito, abanando os pés e a cabeça, como quem entendesse melhor desse tipo de boladas.

– Qual Iphone, patrão?

– 6s Plus com pelo menos 64 GB, bateria 100% … Não precisou de terminar com a descrição:

– Ah… tenho! Posso ir buscar com um sócio aí. Weita-me lá uns cinco minutos, aqui mesmo.

– Tá certo. Vou circulando por aqui a apreciar outras coisas. Encontramo-nos naquele take away, ali, para bolarmos melhor.

– Ok, mas não é para comprares com outra pessoa, aqui. Eu não vou demorar. Confia lá – já tens o cell. 

E com um assobio relampejado anunciou o “três: largar” para uns moto-taxistas que se encontravam, desde as quatro horas da madrugada, na posição “dois: preparado”, ali em frente ao Foto Mário. Tendo, então, Djampirito tomado a liberdade e prosseguido com a sua ronda pela cidade. Foi descendo… contornando o murro da Rádio Encontro, os seus olhos e bolsos vibravam em sintonia com o Banco de Moçambique e, consigo mesmo, ia debatendo as contas:

– Ah… com estes oito paus, posso, sim, ter um iphone. Estes gajos não sabem que, também sou de boladas.

Naquele mesmo instante, como se a lei da atracção se estivesse a materializar, aproximou-se dele um jovem forte, de baixa estatura e pele clara, com um smartphone igualzinho ao que descrevera ao primeiro businessman:

–  É só apreciar, boss: Iphone 6s Plus, 128 GB, bateria 100% …

– Quantos paus? Já com o produto e os olhos nas mãos como quem diz – “sim senhora, é, exactamente, isto que estou à procura.”

– Quanto tens, boss? Fique à vontade!

– Ah… como assim, pah!? Afinal quem é que está a vender, aqui?

– Tá nice! Como é você, né: dá-me lá 19.850 (dezanove mil e oitocentos e cinquenta). Só e só!

– Heee… essa mola eu nunca vi. Podes bazar com o teu cell.

– Ok! Vamos lá falar como homens: tens quanto?

– Falando mesmo como homem, aqui onde estou, tenho seis paus.

– Seis mil meticais? É isso? (Risos) você só deve estar de brincadeira!

Já desanimado, saiu a caminhar a passos de um camaleão malareado. Nem mais um, depois dos dois passos, o businessman:

– Ouve lá, sócio, nós somos homens: aumenta lá só mais uns quatro paus para dez mil, e eu te ofereço esta granda máquina.        

– Ok! Maimai?

– Nove mil e quinhentos. E não se discute mais. Se não queres podes bazar. Isto não é android, pah.

– Oito paus na unha. Fechamos a bolada. Se não quiseres, também podes bazar.

– Tá nice! Passa-me lá essa mola, e ninguém conhece ninguém.                   

E dali, saiu o grande Djampirito com a máquina dos sonhos, altamente operacional. Sempre com ela abraçada entre os dedos da mão de maior segurança, e o lado do sabor da maçã sempre pronta para saciar a fome de quem se atrevesse passar. Dispensou o “chapa 100” para andar a pé, optando pelo corta-mato até sobressair à Padaria Nampula. Mais do que qualquer outro bem que tivesse, sentia apenas a elegância do seu nené que não suportava a tamanhã alergia do tecido da fralda dos seus bolsos, confortando-se apenas à vista dos binóculos do povo.

Foram-se meses, momentos de muita graça que seduz, cativa e deslumbra, momentos regados de amizades e, também rivalidades devido ao seu charme especial, até que um dia, a coisa ficou mesmo preta para o grande homem das boladas que já se encontrava em Cabo Delgado a trabalhar na Função Pública:

– Aló, bom dia! É o senhor Djampirito Sufo Muriparipa?

– Sim, sim. Muito bom dia! E com quem tenho o prazer de falar?

– Olha, sei que pode achar que é mais um desses truques que andam por aí, mas eu asseguro-lhe que não é nada disso. Este é um assunto sério e que pode prejudicar a sua vida. Então, é melhor o senhor colaborar para que eu possa lhe ajudar. Está a falar com o agente Birihate do SERVINCER (Serviço de Investigação de Celulares Roubados), em Nampula. O senhor comprou um Iphone 6s Plus black com 128 GB, roubado, entre a EDM e o Mercado Novo, em Nampula, certo?

Com aquele tom robusto com que se fazia correr as palavras, ramificadamente, bem regadas, a terra, o céu e o mundo pareciam estar a tombar para o chão, levando pelas costas Djampirito. Sentia-se hospede em seu próprio corpo e só passou a sentir-se com vida depois de uma insistência do ilustríssimo agente naquela voz de general:

– O senhor entendeu o que eu disse ou vai precisar de um outro tipo de explicação?   

– Não precisa! Fechou os olhos e respirou fundo para ver se recuperava um pouco de força: – Olha, eu comprei, sim, um celular com essas descrições e nesse mesmo local. Agora se é ou não roubado, eu não sei.

– Ok! O senhor tem o prazo de até amanhã para devolver o celular ao SERVINCER, caso não queira se envolver em problemas.

– Mas, assim, encontro-me a residir em Cabo Delgado. Trabalho aqui. Como é que me deslocarei a Nampula assim do nada e, o pior, nestas condições em que as nossas estradas viraram lâminas fulminadoras de vidas? Poderíamos encontrar uma outra saída?

– Bom, o senhor é que sabe! Como eu disse, quero lhe ajudar para não agravar a sua situação. Faça de tudo para me mandar o produto até amanhã.            

A terra, o céu e o mundo do pobre jovem, para além de estarem a tombar, escureciam. Djampirito sentia-se estranho em um corpo que não se lembra por quem foi emprestado, e só passou a sentir-se com vida depois de uma audiência com o procurador do distrito:

– Sim, em que lhe posso servir?

– Excelência, há mais de três semanas que venho sendo pressionado por um suposto gestor do SERVINCER, alegadamente por ter comprado, hááá… se a memória não trai, quatro meses, um celular roubado, em Nampula. Na ligação, o gestor insiste para que me desloque a Nampula para tratar do assunto ou, se não quiser me envolver em problemas, envie o produto. Eu trabalho e moro cá mesmo. Como sabe, pela situação que se vive em Cabo Delgado, é muito perigoso fazer viagens.

– Quando e qual foi a última conversa que tiveram?

– Lembro-me mais da penúltima: há uma semana. Por estranhar a maneira como se estava a conduzir o caso pelo suposto agente, fui consultando a alguns amigos e conhecidos e aconselharam-me a pedir transferência do caso para cá onde me encontro fixado e com responsabilidades profissionais.

– E ele?

– Ele insistiu, mas, depois de um tempinho, veio a assegurar-me que a transferência já estava em processo e, dentro de três dias, eu iria, por bem ou por mal, esclarecer o assunto.  

– Então, continuemos à espera da tal transferência.

E até ontem, meses e mais meses… nem telefonema nem mensagem, apenas uma espera desesperada no ventre de um desejo invocado no fim de cada terço pelo momento difícil e duvidoso em quem buscar e confiar nestas boladas de cá.

 

Um coração de gozo – poemas eróticos, de Virgílio de Lemos, e Por eu amar-te tanto – poemas para os apaixonados, de Rui de Noronha, são os títulos de duas antologias que a editora Gala-Gala lança, este mês. As obras literárias integram a série “Poesia de bolso”, uma iniciativa que pretende trazer boa poesia a preços módicos, e serão distribuídas exclusivamente pela livraria Ethale.

Os dois livros, com efeito, chegarão aos leitores em formato hardycopy e e-book. Segundo o esclarecimento da editora Gala-Gala, sem a realização de evento público de lançamento. “Resolvemos começar com estes dois autores, cânones e marcos da poesia moçambicana moderna. O nosso intuito era, com estes dois autores, oferecer as diversas formas que eles pensaram o amor”, avançou a Gala-Gala.

De acordo com António Cabrita, citado na nota da editora Gala-Gala, Um coração de gozo é um poema que é “um dos raros exemplos de erotismo na poesia em língua portuguesa daquele tempo” e deste tempo.

Quanto ao livro do precursor da poesia moçambicana, a Gala-Gala afirma: “Esta publicação, que acontece 77 anos depois da morte de Noronha, é uma tentativa, que se espera não ser vã, de reviver alguns dos seus versos mais marcantes e levar aos mais jovens e aos eternos apaixonados o que acreditamos ser o melhor da poesia de amor de Moçambique”.

“Nunca realmente conhecemos alguém. E, muitas vezes, os nossos sentimentos nos cegam. E descobrimos que os que mais amamos são os que nos machucam. Mas a vida segue e sempre há espaço para recomeços, segundas chances. Não devemos parar de viver porque alguém nos magoou ou não soube valorizar-nos”. As palavras são de Lilly Maxwell e, de acordo com a escritora, reflectem exactamente a história do seu primeiro livro.

Intitulado Pedaços de um coração partido,
a narrativa escrita por Lilly Maxwell passa-se numa cidade fictícia e é uma história de amor  que envolve a personagem Mabel.  Tudo começa na transição da adolescência  para a juventude. A fase dos primeiros amores, sonhos e esperança de um “felizes para sempre”.
Na história, Mabel nutre uma paixão por um rapaz mais velho chamado Nelson. Por vários meses sonhou, suspirou e quando o destino fez com que finalmente seus olhares se cruzassem, ela teve certeza que havia encontrado seu príncipe encantado.
Mas Nelson não é quem aparenta ser. Por trás esconde um relacionamento com outra mulher.  E Mabel tem de descobrir da pior forma possível.

No romance, o trauma da descoberta faz com que Mabel se feche ao amor. Mas, quando menos se espera, o amor bate à porta. E Ivan surge para preencher o vazio deixado por Nelson, reacender sentimentos que há muito Mabel sequer imaginava.

O livro é constituído por 244 páginas e a autora espera que o leitor se identifique e envolva-se com a história. “Acima de tudo, quero que a história deixe uma marca em sua vida”.

O romance Pedaços de um coração partido será lançado numa sessão com presença do público, marcada para 18 horas desta sexta-feira, no espaço Flor de Café, na Cidade de Maputo.

Lilly Maxwell é pseudónimo de Sónia Mila da Glória Muianga. A escritora nasceu a 25 de Outubro de 1984 e é funcionária Bancária há mais de 12 anos. A sua paixão pela escrita começou com diários ainda na adolescência. Em 2019, começa a partilhar histórias em redes sociais. O seu romance Pedaços de um coração partido é editado pela portuguesa Chiadobooks. Sua maior inspiração é o amor e o seu sonho é publicar seus livros e tê-los espalhados pelo mundo.

 

Por: Nilton Arão

 

Como todas outras mães ricas, nasci a norte de um país mais a sul da África. Naturalmente linda, com missangas a cintura e pérolas do Índico sobre o meu pescoço. Vi muitos chegarem e muitos partirem.

Aos meus 46 anos, sou mãe de onze filho de um pai desconhecido, cujo o tempo e o passado o renegou ao esquecimento. Ao longo dos 29 anos, em paz, os meus filhos criei, com uma discussão aí, outra acolá, com suas crenças e diferenças, e sempre unidos.

Quis o destino que fôssemos viver ao cabo da esperança. Do cabo da esperança de um futuro risonho, o lugar transformou-se em cabo do medo e da incerteza.

Com o medo vieram as incertezas dos batimentos cardíacos que nos restavam. Não porque queríamos perpetuar a nossa estadia na terra, mas sim porque como toda mãe, os nossos filhos queríamos ver crescer. Crescer sem divisionismo, sem tribalismo, mas sim como um só corpo.

Hoje acordo. E se acordo, é com os olhos virados para a mata que vivo. Matas estas que um dia a lenha nos serviu, para aquecer o pouco que não tínhamos para com os filhos comer. Hoje delas nos servimos para dos mesmos filhos do desconhecido nos escondermos, esperando o sol derrotar a lua, para uma caminhada para o infinito percorrer.

Como mãe, hoje só peço a Deus que guie a mente e a alma dos meus filhos para um porto seguro, mesmo que de lá para a terra firme não partam, pois mais vale uma quase certeza de um dia ao destino chegar, que a incerteza de um futuro marcado por caminhadas mata a dentro sem do líquido vital deliciar.

Como mãe, não mais quero um cabo de esperança ou de riquezas, apenas quero sentar em paz, com a lenha, sem GÁS, para os meus filhos cozinhar.

Não mais quero nenhum cabo de esperança, ou sobre o meu quintal ver ferros a flutuar, apenas quero um Cabo de enxada para em paz a terra cultivar.

Que culpa tenho eu? Sempre com a lenha cozinhei, e sobre o GÁS nada sei.

 

 

A MultiChoice e a Incubadora de Talentos da MultiChoice (MTF) resolveram celebrar a paixão pelo cinema africano com o lançamento da série de filmes Colours of Africa.

Segundo uma nota de imprensa, a série contará com 16 filmes rodados e realizados pela Turma de 2020 da Academia da MTF, os quais são disponibilizados na Showmax neste Dia de África e no canal POP-UP AfroCinema da M-Net Movies até 30 deste mês. Os telespectadores poderão desfrutar da selecção de filmes de África Oriental, Ocidental e Austral, e acompnahar os resultados do talento aprimorado pelo currículo da Academia da MTF.“A série de filmes Colours of Africa é uma das várias maneiras da MultiChoice celebrar o talento cinematográfico jovem de África. Orgulhamo-nos em honrar o Dia da África celebrando o trabalho da Turma de 2020 da Academia da MTF desta maneira. A série de filmes também mostra o compromisso da MultiChoice em desenvolver e nutrir a abundância de jovens talentos que representam o futuro da nossa indústria.”, disse Yolisa Phahle, CEO do Entretenimento Geral e Vídeo Conectado do Grupo MultiChoice, citada na nota de imprensa.

Ainda de acordo com a mesma nota, o POP-UP AfroCinema da M-Net contará também com filmes da turma inaugural da Academia da MTF, bem como anúncios públicos filmados pela Turma de 2020 para a campanha #PrometoPausar das Nações Unidas como parte do curso académico. Entre os quais se destacam-se as contribuições dos estudantes MTF Moçambicanos, Savannah Skies (Ludmila Mero, Turma 2019), The Painting (Gerson Amaral, Turma 2019) e The Lobola (Maira Tauacale e Amarilis Gule, Turma 2020).

A pandemia da COVID-19 estabeleceu um precedente para a Turma de 2020. Embora o curso acadêmico dos alunos tenha sido estendido de 12 para 18 meses, o tempo adicional permitiu um curso online credenciado por meio de uma parceria com a New York Film Academy.“O tema da colecção de filmes é “Conectar gerações através da narrativa” e o que é particularmente fascinante sobre a série é que os estudantes da MTF produziram as curta-metragens nos seus países de origem, adicionando o contexto, voz e visuais locais às suas expressões cinematográficas na série Colours of Africa. A série também ilustra o propósito da MTF de garantir que investimos na próxima geração de contadores de histórias com conhecimento compartilhado por profissionais qualificados da indústria.”, disse Cheryl Uys-Allie, Directora da iniciativa Incubadora de Talentos da MultiChoice.

Esta série de filmes também é compilada especialmente para aqueles que amam o cinema africano e está em linha com a missão do Grupo MultiChoice para a preservação e celebração da história, cultura e tradições africanas através do cinema e da TV. Além de estimular as indústrias criativas de África, o Grupo MultiChoice é igualmente motivado a celebrar as histórias de classe mundial criadas por africanos para os africanos e o mundo.

Por José Paulo Pinto Lobo

 

Vivemos num tempo de escravatura. Não concordam com a afirmação? Eu explico.

Defendo que vivemos num tempo dicotómico entre a escravatura do sucesso e a escravatura do emprego, cuja conjugação deriva quase irremediavelmente numa escravatura de sobrevivência.

Na Escravatura do Sucesso estamos agrilhoados ao êxito contínuo, ao pular de emprego para emprego, à progressão na carreira, ao carro topo de gama (ou ao four by four como se diz na minha terra), às viagens de férias para destinos paradisíacos, aos acessórios de luxo, às malas e carteiras, aos telemóveis de último modelo, aos relógios, às roupas de marca, às jóias, ao frequentar os espaços in, com gente bonita, seja lá o que isso for.

A pressão por nós sofrida faz com que haja um efeito dominó em relação aos nossos filhos, sobrinhos, netos. Queremos, mais, exigimos que eles sejam os melhores, na escola, nas actividades extra-escolares, em tudo, porque sendo os melhores terão mais hipóteses de vencer na vida. Tudo se resume então à competição com os outros por um lugar ao sol, de preferência numa cobertura ou num condomínio fechado.

Como objectivo talvez até não esteja errado, valorizando a responsabilidade, o esforço e a dedicação que se deve trazer para a aprendizagem e para o desempenho, de forma a se obter a correspondente recompensa, mas preocupamo-nos verdadeiramente com que os nossos descendentes sejam também melhores pessoas?

A pressão que exercemos, conjugada com a que a própria escola exerce é por vezes tal, que as crianças deixam de o ser para se tornarem em máquinas ou autómatos de trabalho, escravos também eles, desde cedo.

Isto quando as crianças têm a sorte de frequentar uma verdadeira escola e não terem aulas debaixo de um cajueiro ou em salas e instalações completamente degradadas e sem condições adequadas para a aprendizagem. Escola não é apenas salas de aula…

Que estratégias se utilizam para se trepar nesta voragem ascensional, para a maioria das pessoas pouco importa. Bem… tentamos transmitir alguns valores e princípios, mas esquecemo-nos muitas vezes que o verbo a conjugar não é TER mas sim SER.

Mas no mundo de hoje se tens, és, se não tens…

Na melhor das hipóteses, quedamo-nos como escravos do ser para ter, ainda assim escravos do sucesso, debatendo-nos pela sobrevivência no topo, numa luta contínua e desesperada para de ali não sair, para nos mantermos junto daqueles que consideramos ser os nossos pares.

Na base da pirâmide a escravatura é outra, mais angustiante.

Na Escravatura do Emprego vivemos em permanente desassossego, no pavor de sermos dispensáveis, de se ser excedentário, sujeitos à ditadura dos números, sejam eles dos lucros empresariais ou da falta deles, seja dos orçamentos nacionais exíguos (para alguns), mesmo que sejam resultado da incompetência de personagens do topo, num terror persistente de perdê-lo e, para quem tem mais de 40 ou 45 anos, passar a fazer parte do que eufemisticamente se designa de desemprego de longa duração.

Longa duração? Qual longa duração, na Europa melhor seria dizer desempregado definitivo!

É também fundamental manter os escravos do emprego sob coação constante, sob a ameaça do despedimento, para que aceitemos, sem estrebuchar muito, as reduções salariais, o aumento das horas de trabalho, as horas extra sem remuneração, agradecendo encarecidamente a quem nos proporciona, ainda, um posto de trabalho, que nos permita pagar as prestações da casa, do carro, do televisor.

Nos escravos do emprego, a pressão sobre as crianças é praticamente inexistente, quer pela falta de tempo das famílias, quer pela falta de recursos para pagar apoios escolares, explicações e outras actividades ocupacionais para as mesmas, garantindo assim uma adequada reprodução de novos escravos desta camada.

Para a maioria das crianças moçambicanas a pressão poderá ser de outro tipo. Desde a obrigatoriedade de cuidar dos irmãos mais novos, passando pela ajuda no sustento da família, até ao flagelo dos casamentos prematuros.

Muitos tentamos sobreviver com dignidade, como disse há tempos o meu amigo Manoel Carlos, não numa tentativa de sobrevivência num determinado estrato social alto mas sim no afã de garantir a nossa própria existência como gente, como ser humano.

Nem sequer me refiro a muitos dos meus compatriotas que lutam apenas por comer uma vez por dia!

O Poder, no topo da pirâmide, utiliza os mesmos métodos dos antigos romanos, ou seja panem et circenses com exactamente o mesmo objectivo, o de distrair os escravos da base da sua situação confrangedora e, em situações de crise, na falta do pão, “toma lá mais circo”.

Exemplos abundam, desde o omnipresente futebol, em Portugal muitas vezes notícia de abertura nos telejornais, à antevisão e debates dos jogos em todos os canais, passando pelos debates políticos e tempos de antena dos comentadores da actualidade, às festas luxuosas das redes de televisão, onde os papalvos se babam na fronteira das passadeiras vermelhas, até aos concursos de fama instantânea, tipo pudim-flan, alguns de gosto mais duvidoso que outros, mas que dão a ilusão da possibilidade de ascensão meteórica ao topo da pirâmide.

Se isso não chegar, tomem lá com as revistas de bisbilhotice e fofoca, com os jornais desportivos (por sinal os jornais com mais vendas em Portugal) e com os programas com artistas de música, antigamente denominada de pimba e agora de popular, onde também alguém pode ganhar alguns milhares de euros, pagos por quem ligar para determinados números telefónicos. Não, não me enganei, não é a quem ligar, mas sim por quem!

Alguns amigos me contestam e me dizem que o mundo é assim e sempre será, porque se baseia nas melhores características da espécie humana, isto é, na inveja, na mesquinhez, na intriga e na maledicência. Podem chamar-me de ingénuo, idealista, sonhador, mas ainda me revejo nos versos de António Gedeão do poema “Pedra Filosofal”:

…

Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

 

 

Num contexto caracterizado por muitas restrições, o Grupo Teatral Haya-Haya está a investir em alternativa ao teatro tradicional, feito em espaços específicos. O grande desafio dos actores é levar os espectáculos às pessoas, via online, de modo que não se fique refém dos cine-teatros.

 

O Grupo Teatral Haya-Haya recusa-se a render-se às limitações impostas pela COVID-19. A arte da representação pode e deve vencer as intempéries. Por isso mesmo, Calene, Lúcio Chiteve e Cátia lançaram-se ao desafio de interpretarem uma história hilariante, sobre uma família e todos aqueles que enfrentam determinadas dificuldades ligadas ao custo de vida no confinamento.

A nova proposta teatral do Haya-Haya tem 90 minutos de duração e pretende ser um pretexto de alguma resistência. Se antes da COVID-19 as apresentações teatrais do grupo eram feitas nos cine-teatros, agora, os espectáculos estarão cada vez mais disponíveis nas plataformas online. Com isso, explicou Lúcio Chiteve, Director Artístico do Grupo Teatral Haya-Haya, a ideia é manter um projecto de animação cultural que possa entreter, educar, estimular e impactar a vida das pessoas. No entanto, os espectáculos teatrais continuarão a ser apresentados no palco, enquanto for possível, e, simultaneamente, poderão ser visualizados através dos telemóveis ou dos computadores. É simples. Os interessados só têm que aceder a um link e pagar pela peça que irão ver. “Acreditamos que este projecto vai poder crescer e as pessoas vão aprender a ter de ver peças teatrais a partir de casa, porque nas salas de teatro há limite de público. É possível fazermos arte no palco e termos uma maior abrangência”, explicou o Director Artístico do Grupo Teatral Haya-Haya.

Escrito por Lúcio Chiteve e Calene, o espectáculo teatral Haya-Haya Show é um exercício humorístico do qual surgem histórias sobre relacionamentos, lealdade e excessos. A pretensão dos actores é levar mensagens positivas à sociedade através da arte e numa perspectiva descontraída.

Haya-Haya Show é um espectáculo produzido por Brand Guru e Haya-Haya. Estando disponível online, pode ser visto numa apresentação presencial no próximo dia 30, 17h, na Casa do Artista da Cidade da Beira. “Será um show animado porque estamos a trazer acontecimentos do dia-a-dia”.

 

Por: Francisco Raposo

 

O dia acabava de se revelar. E os sonhos estavam ainda frescos, depois de uma longa noite de confeição. Maigod acordou, rebolou em sua cama de ferro com molas tortas perfurantes, que lhe arranhavam a coluna durante o ronco. Espreguiçou-se e apalpou a esposa a procura das mamas. Ela estava ausente. Os deveres de mulher ultrapassam os limites da cama de solteiro menor que compartilhavam, em nome do amor no bairro da Munhava-central.

Ao sair da cama, Maigod fica triste, a realidade da casa não condiz com o sonho moçambicano que teve durante a noite, talvez os espinhos abocanharam tudo, antes dele acordar. Chama pela mulher e ela responde do lado de fora do edifício de pau-a-pique de dois (in)cómodos. –Espera pai de Bebito, estou a vir, vou levar capulanas do partido que estão a distribuir em casa de só secretário. Ele não aguardou, e foi diretamente à casa de banho de caniço, encontrou água no balde de lata e um lago de peixes vivos em redor do calcanhar porque o vizinho edificou a casa sobre a vala que drenava sua miséria. Maigod não tem como reclamar, tem medo de ser cobrado a dívida de cinquenta meticais porque o gato dele comeu dois carapaus alheios.

Engole saliva. Molha seu corpo, mas não vê sabão. Lembra que tem muitas dívidas conhecidas e outras ocultas na banca do vizinho, que com certeza, não lhe faria novamente o favor de empréstimo. Pai de Bebito tem fama de mau pagador.

Na república da sua casa, o povo (seus filhos) choram de fome e muitas vezes colam nas casas dos amiguinhos, como se estivessem a brincar, e ficam até a hora de refeição. Nunca tiveram proibição de “não comer em casa de dono”.

Perde forças e esfrega o corpo com a pedra para pé. Faz com suavidade para dar a ilusão de estar a amolecer sujidade. Termina o processo, volta a pisar a água da extinta vala. – Ainda bem que restei um pouco para molhar os pés na porta. Entra e veste uma camisa que no passado foi branca, fazia parte da lista do lobolo da sua irmã mais nova. Que acabou morrendo atropelada salvando o filho de um acidente numa tarde de sexta-feira quando ela vendia peixe frito na berma da estrada e o filho vinha com um garrafão de petróleo da bomba das Palmeiras. Conquistara alguns clientes fixos por causa da sua honestidade, mesmo sendo um miúdo da Munhava não acrescentava água no seu produto. Muito honesto!

Ela viu o carro com governo descontrolado, em direção ao precipício, viu o filho medindo petróleo e o cliente dele contando o troco. Levantou-se bruscamente, sem apertar a capulana, em direcção ao filho. O rapaz na maior inocência procurava atingir a graduação para ser mais justo nos direitos humanos do consumidor, mais uma gota e já está. De repente ela empurra os dois. O petróleo e o troco se espalham pela estrada.  O carro travou no corpo dela. Ela não sangrou e nem teve nenhum arranhão. A população aproximou-se e começou apanhar as moedas espalhadas. Alguns já estavam a vandalizar a viatura. Ninguém reparou na vítima, excepto o motorista que pagou muitos refrescos para passar na escola de condução. Este sem querer perder muito tempo, ofereceu dois mil meticais pelos transtornos e se foi.

Dias se passaram e as dores da mulher não melhoravam. Ela foi ao hospital. O aparelho de raio X não tinha filmes para fotografar os ossos. Os médicos, naquele momento, deitavam atenção para televisão. Em destaque: O presidente da república voltou da França e negou promulgar a proposta de lei de regalias e subsídios de sono aos membros da assembleia da república. A equipe médica ficou feliz e esperançosa pois, isto significava mais fundos para os hospitais, escolas ou agricultura.  Quando o último dente de felicidade foi fechado, assim também foi o livro da vida da paciente, por excesso de sangue dentro do corpo.

Maigod, sente o cheiro da irmã na mudança da cor da camisa. Sempre leva ao alfaiate para emendar os laços de sentimento com o além, criando o seu sobrinho como próprio filho. E com este pensamento sai de casa sem satisfazer as lombrigas. Deixa tudo que tem para os petizes (comida da noite anterior).

A rua lhe guarda muitos biscatos, mas ele não sabe por onde começar a procurar. Vai para casa da mãe de mãe, para pedir água gelada e lhe oferecem também Coca-Cola. Ela conta que Txibeg, o rebenta cocos, fugiu da cadeia e vai se vingar de quem lhe queixou. Maigod engole saliva, ele sabe o que fez. Conta de seguida que todos devem ficar em casa porque existe uma nova doença que mata quando respirar sem máscara. Maigod se ri, mas aceita receber máscara de pano que lhe aparenta ser sutiã de uma mama só e se vai.

No caminho, não existe o aqui e nem o longe. Existe fome e objetivos. Existe desigualdade. Existe miséria. Maigod só lamenta da desistência à escola por ter engravidado a esposa ainda muito jovem. Tentou o curso de morcegos mas não deu certo. Muitas saias eram subidas no (in)cumprimento da aprendizagem e passadas à pente magro de cor cinzento.

Para no mercado. Consegue um biscato descarregando um camião de feijão manteiga que acabava de chegar de Tete. No final de quatro horas, pagam quinhentos meticais.  Ele tira uma nota de cem põe no bolso esquerdo e o restante no bolso direito. Limpa o suor e usa de volta a camisa de lobolo. Caminha pra casa. Pela estrada, há poucas pessoas circulando, as mamanas e os ambulantes desaparecem como ladrões.

Chega às esquinas do bairro, paga bebida de tampa vermelha, engole fundo e faz cara feia. O sobrinho aproxima e pede um doce. Maigod tira cinco meticais e oferece, entrega também os quatrocentos meticais doutro bolso para o orçamento da casa. E o menino vai correndo pensando em regressar para jogar bola.

Maigod senta no campo assistindo ao jogo das crianças. Com inveja da infância que cedeu à guerra civil como membro da tropa. Ele fugiu da morte no meio do combate na Gorongosa. Seu lema foi: -viver ou ser democrático, prefiro viver. E agora actualizou: entre ficar em casa ou morrer de fome, prefiro morrer de fome. Porque em casa vou morrer de desgosto.

O sobrinho do Maigod era o guarda redes da equipe. A bola de preservativos e sacos plásticos, coberto de panos e linhas, fazia mais golos que a selecção nacional das minhocas. E os resultados satisfaziam a todos, ou pelo menos aos sessenta por cento que aprovavam automaticamente para preencher os relatórios para o inglês (o Maigod) ver. Porque esse gostava de assistir o derby e no final premiar com vinte meticais a equipa vencedora.

Um dos jogadores, recebe o poder que todos lutam para ter em seus pés. Finta um, finta outro. O jogo está bom. E organiza as pernas para chutar contra a baliza. A tensão aumenta com barulho da plateia. É agora, é agora. E uma viatura Mahindra apareceu de repente. Oito agentes da polícia fortemente armados desceram e começaram a massacrar as crianças, chambocos e pontapés, organizam a arma e ameaçam tiros contra os petizes como no filme de Rambo. Maigod não aguenta ver o sobrinho a sangrar e aproxima. – chefe, chefe…! antes de dizer o que queria se viu no chão comendo capim, pisaram nele, chutaram. – covid, nunca ouviu falar de covid? Fizeram um círculo sem distanciamento social. Pisaram nele e trituraram até aos sonhos de amanhã, e o poder de continuar a lutar pela sobrevivência. – covid! Não sabe que já temos um caso positivo em Moçambique? Estavam a falar para eles mesmos. Maigod estava, na dor, se despedindo do coração da mulher, dos filhos, e da pobreza. Morreu assim, a primeira vítima da covid-19 em Moçambique. Pena que não entrou na estatística.

 

Email: favoritocp@gmail.com

+ LIDAS

Siga nos

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE