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Familiares despedem-se de Hortêncio Langa

Os restos mortais de Hortêncio Langa vão a enterrar esta quarta-feira, no Cemitério de Michafutene, em Maputo. O funeral será antecedido de velório na Capela do Hospital Militar.

Às 9 horas desta quarta-feira, na Capela do Hospital Militar, na Cidade de Maputo, familiares e pessoas próximas irão despedir-se de Hortêncio Langa. Devido às restrições impostas pelo Coronavírus, poucos poderão estar no velório do artista multifacetado.

Duas horas depois do velório, às 11 horas, Hortêncio Langa irá descansar no Cemitério de Michafutene, na Província de Maputo.

O músico, compositor, artista plástico e escritor faleceu esta segunda-feira, vítima de doença, e deixa para trás uma vida intensa dedicada à música e às artes em geral. Por isso mesmo, os seus amigos e colegas de sempre, com efeito, defendem a necessidade de se estudar a vastidão da obra do autor do livro Magoda. E não basta estudar. Para Elvira Viegas, por exemplo, é fundamental que se salvaguarde e divulgue o trabalho realizado por Hortêncio Langa a vários níveis, de modo que as actuais e as futuras gerações tenham onde entrar em contacto com o legado do artista. “Espero que o ARPAC faça o levantamento de todo o manancial de Hortêncio Langa e guarde em um lugar onde nós, os mais novos, os nossos filhos e os nossos netos possam ir consultar”.

Dito isso, Elvira Viegas lembrou que trabalhou 17 anos com Hortêncio Langa, no secretariado da Associação dos Músicos Moçambicanos. Quando pensa no amigo que perdeu, a cantora vê um homem ponderado, comunicativo, que sabia partilhar o seu conhecimento com os outros e que soube ser bom pai mesmo quando as adversidades da vida atingiram a sua família.

Elvira Viegas partilhou o palco com Hortêncio Langa várias vezes. Inclusive, lembra-se de uma digressão que juntos fizeram pela Finlândia. “Ele foi um homem espectacular e tudo o que nos deixou vai ficar para sempre”, afirmou artista, lamentando a partida de Hortêncio Langa quando o projecto que dirige, Casa do Artista Kutenga, se preparava para o homenagear.

Um dos velhos amigos de Hortêncio Langa é Wazimbo. Ambos conheceram-se no Chibuto, Província de Gaza, ainda imberbes. Concretamente, conheceram-se na escola primária. O serviço militar obrigatório separou-os por algum tempo, porém a música foi mais forte e voltaram a encontrar-se. Aliás, ainda jovens, Langa e Wazimbo criaram a banda Rebeldes do Ritmo. Quase 60 anos depois, a admiração pelo artista permanece. Daí Wazimbo recomendar que se siga os ensinamentos deixados pelo amigo que acaba de perder. “As gerações vindouras devem continuar com o trabalho iniciado pelo Hortêncio. Devem pegar nos ensinamentos que o Hortêncio nos deixa e aprenderem o melhor que há desses ensinamentos”.

Quando partiu para estudar em Lourenço Marques, Hortêncio Langa continuou a fazer muitos amigos. Um deles é Joel Libombo, igualmente colega nos TP50. Ambos conheceram-se no bairro Chamanculo, na Cidade de Maputo, lá vão 50 anos. Libombo lembra-se do seu amigo como uma pessoa especial – “O Hortêncio tinha características próprias. Era uma pessoa sincera, afável, capaz de dar tudo do seu para ver o problema do amigo resolvido. Acima de tudo, o Hortêncio era sábio e é raro encontrar pessoas assim. Se há alguém que, entre a nossa geração criou uma viragem no nosso universo musical, terá sido Hortêncio, terá sido o Jaimito. O Hortêncio ouvia aspectos sociais e transferia-os ou para tela ou para música. E mais, marcou uma era”.

Hortêncio Langa partiu numa altura em que, com os seus amigos e colegas, trabalhava na criação do portal da música moçambicana, que deverá funcionar como museu da música nacional. Não terminou esse projecto. Entretanto, Roberto Chitsondzo reconhece-lhe o mérito na evolução da banda Ghorwane. “Nós reuníamo-nos em casa de Hortêncio Langa, antes de passarmos para o Sindicato dos Jornalistas. Nessa altura, ele corrigia-nos constantemente, pois, quando uma banda estivesse a tocar, ele tinha a capacidade de perceber a corda desafinada de um determinando instrumento”. Essa é uma das razões que faz com que Chitsondzo reconheça que Hortêncio Langa foi uma inspiração para muitos artistas jovens do seu tempo”.

Em 51 anos de carreira, Hortêncio Langa tocou com muitos músicos. Envolveu-se na banda Monomotapa, Grupo RM, TP50 e um dos seus grandes projectos é o Alambique, fundado com Arão Litsure. “Lembro-me que estivemos juntos, como trio com João Cabaço, num festival na antiga RDA. Lá cantámos durante hora e meia sem nos apercebermos que estavam a gravar o espectáculo. Foi daí que saiu o nosso primeiro disco de vinil que contém cerca de 12 músicas. Saltando para uma etapa mais recente, eu e o Hortêncio estávamos na Jamaica a assistir a um festival. Ficamos tão empolgados e sentimos que podíamos desenvolver mais a nossa música formando uma banda maior. Foi assim que criamos a banda Alambique. Portanto, estamos de luto porque perdemos o Hortêncio e, recentemente, o Gomate”.

A terminar o seu exercício de memória, Litsure disse que é preciso que pesquisa para se descobrir mais trabalhos de Hortêncio Langa, que vão servir de inspiração para mais moçambicanos.

 

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