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O incontornável feitiço da diplomacia

Os últimos tempos têm sido funestos. Trágicos, na dimensão humana, de gratuita e brutal violência, no campo militar. Catástrofes humanitárias desproporcionais, agora, acrescidos pela súbita partida deste iconoclasta, na área da diplomacia.  Abril, mês da revolução dos cravos, fermento das nossas independências, tem sido de insofismáveis contrariedades.

Coincidência, foi o mês em que Oldemiro despontou para vida e beijou a luz do sol, pela primeira vez. Franzino representava esse aguardado “varão” que a família Baloi almejava. Ainda, em Abril, apagou sua chama. Partida súbita. Ponto final à uma peregrinação multidimensional e tantas contingências. Porém, não será o final de um lendário e previsível diplomata. Os desdobramentos diplomáticos se estendem pela eternidade.

Quis convocar o Oldemiro para revisitar suas múltiplas dimensões. Me ocorreu pensar no que ele mais insinuou. “Nunca o homem é tão grande como quando está de joelhos”. Esta sua abordagem sobre a grandeza, me remeteu para “o invisível, a sua sombra e o seu reflexo”, de António Bizarro. Pensar no reflexo do invisível, equivale a assumir que qualquer intenção humana reside em descrever o óbvio; o racional; o aceitável.

Oldemiro, como todos nós, viveu nesta sociedade cuja espontaneidade da relação é a ideologia, política e religião. Obscurantismo. Tinha a consciência que a ideologia não era visão imposta, antes, um movimento do qual tomamos parte voluntariamente. Oldemiro foi instruído na ríspida e assertiva educação de seus pais. Presbiterianos convictos e assumidos. A vivência cosmopolita lhe granjeou valores de outra índole.

Foi o icónico Chamanculo, sem descurar a Malanga e, até, a Matola, que moldaram sua personalidade. Essa efervescência dos nacionalismos, recriou e refinou os seus gostos, muito particulares, pela leitura, arte, desporto e música. Descodificou os sons da música apelativa e da exaltação pela Liberdade. Requebrou a Marrabenta e Xitchuketa, assobiando sustenidos de Rumba e Calipso. Cantarolou Baladas, Rock, Pop e Blues. Fixou-se no Jazz e Funk e, até, na música clássica ou erudita.

Frequentou os liceus quando a forma estética do mundo o impelia a escutar lições sobre liberdades, igualdade, fraternidade, enfim, as Primaveras estudantis e os movimentos nacionalistas.  De estudante, saltou para condição de Mestre. Na época, professor de Matemática, na Escola da Frelimo, depois na Josina Machel. Não tardou para que procurasse, nos bancos universitários, os  cânones da economia. Sua vida era esse somatório de sonhos e vontades.

Oldemiro chegou a diplomacia pelas vias menos ortodoxas. Presidente Chissano o tratava, carinhosamente, por feiticeiro. Não era metáfora. Semelhança de significados. Era o feitiço de realizar, produzir resultados  e encantar pela preciosidade da execução das missões. Reflectia o espelho invisível que o próprio Chissano alcançara, anteriormente, na mesma posição.

Confessava que se revia como gestor bancário. A diplomacia era consequência. A sua companheira de sempre, Judite Baloi, teve esse peso significativo na transformação da sua personalidade e, sobretudo, no alinhamento das suas intervenções públicas. Ela é, igualmente, diplomata por natureza, sempre atenta ao retoque discursivo, cuidando das posições extremadas ou mais conciliatórias.

Forçado pelas circunstâncias e pela debandada colonial, Oldemiro passou, com sucesso, por algumas dessas empresas públicas que roçavam o despencamento e a falência. Saltou, pouco depois, para a oportuna comissão de relações económicas exteriores. O trampolim que reanimou e relançou  a cooperação económica moçambicana. Mozal foi um exemplo, apesar das contrariedades.

Oldemiro cruzou oceanos e confrontou experientes gestores e diplomacias financeiras. Aprendeu o sentido e valor de instituições fortes. Esta seria a primeira característica que o tipificava. Dimensão institucional. As nossas instituições, as que regulam os mecanismos de ordem social, comportamental, cultural e educacional, continuam pouco consolidadas. A sua ordenação e os processos de socialização, são nivelados pela mediocridade, inoperância, inexperiência e ausência de meritocracia. São pouco funcionais.

Oldemiro fez parte da geração dourada do pós-independência. Conquistou, neste período, a dimensão e espírito nacionalista. Nacionalismo moderno e moderado funcional. A geração que fez a ponte entre a transição e a afirmação identitária. Este seria o segundo argumento para o recordar. Com a sua contribuição intelectual, e de tantos outros que se revêem neste espelho, Moçambique se reergueu de um devastador conflito político e militar, que dilacerou o tecido social e produtivo da nação independente. Buscar a paz, por todos os meios, impunha capacidade de auscultar e reconciliar.  Sonhava com um país reconciliado e unido. Estes sonhos são ainda uma miragem.

Mas, o nosso bom Oldemiro que, como qualquer ser humano, era exaltado por muitos, e contrariado por poucos, vivia de pragmatismo. Na sua terceira dimensão, a tecnocrática, prostrado aos valores da verticalidade, também se alimentava de resultados. O seu carácter exigente e inflexível, parecia andar na contramão da diplomacia convencional. Aliás, nem é por acaso que nunca assumiu ser diplomata. Não o era por formação técnica, mas, pelas responsabilidades institucionais. Estes condicionalismos fizeram dele incontornável na diplomacia de corredores. Ou não fosse o lema “fazer amigos e aumentar as parcerias”, o tom que conferiu a sua passagem pelo Ministério.

Na  dimensão da liderança, ele se fez  respeitado no país, região e mundo. A sua postura e transversalidade o impeliram a lidar com matérias complexas. Algumas atitudes e posicionamentos, algumas vezes, mal interpretados, criavam esta espécie de ruptura nas tradições e percepções.

Oldemiro era talhado para a cidadania. Dimensão cidadã. Um dos seus argumentos principais coincidia com valores e regras societárias que parecem em vias de extinção. Se insurgia com a abusiva forma de condução pelas nossas estradas, pelo à vontade com que se usam as árvores e passeios para alívio dos excessos corporais. Cortesia e educação cívica, não eram só um lema, mas uma obrigatoriedade. Sabia que tudo isso estava dependente de uma educação de base. Entendia que a quantidade era inimiga da perfeição. Se assustava com a incapacidade das crianças de absorver conhecimento essencial. Mas, também, não tinha soluções.

A sexta dimensão, óbvia, seria a internacionalista. Um ministro que conviveu com diferentes presidentes, consagrados chanceleres da arena internacional, líderes partidários. Ele era essa espécie de “ponta de lança” do “Real Politics”, como o tipificaram Fernando Sumbana e Mohamed Rafik, dois cúmplices, amigos e colegas. Foram mais longe, apelidaram-no de “Homem novo”, o sonho irrealizado que a revolução engendrou, porém, cujos fundamentos se esfumaram de forma inexplicável e lamentável.

Como articulador regional e diplomático, aliás, rotulado por homem de  firmeza, delicadeza e postura fina, Oldemiro não teve a oportunidade de testemunhar a celebração dos vinte e cinco (25) anos da CPLP. Esta organização que estimou e emprestou seu talento e experiência. CPLP continua sendo um espaço, aparentemente, unido pela língua, porém, desunido por outras divergências, e ausência da livre circulação de pessoas e bens. Na sua perspectiva, CPLP deveria pertencer aos cidadãos e reconcilia-se consigo própria. Mantemos presentes o seu contributo no apoio à reconciliação da Guiné-Bissau. Neste país, chefiou um grupo de observadores nas últimas eleições.

Neste momento que sai de cena, me recordo como ele cuidou, de forma directa e didáctica, do primeiro grupo de ministros que acompanhou o actual presidente, no governo de 2015. A eloquência e a colocação das questões eram de tal forma coloquial e expressiva, que aparentava ter semanas de  ensaio. Tamanha clarividência. Ela parceria o chefe de turma, não indicado, mas assumido, como modelo e guia. Uma espécie de bíblia de governação. Nem deve ser por acaso que serviu três presidentes. Poucos terão esse privilégio.

Guardo os seus argumentos quando Moçambique passou pela crise dos Refugiados no Malawi, em tempos nem por isso tão remotos. O discurso retórico do mainstream minimizava a situação. Ele colocou, de forma aberta, a situação real, desfazendo equívocos e desconstruindo argumentos incoerentes e até a roçar ao populismo.

Era assim este homem multifacetado e amigo de verdade dos seus amigos. Não perdia uma única apresentação do Xiquitsi, vestindo-se a rigor para cada exibição. Esta era a sua dimensão humana e cultural. Com a mesma dedicação caminhava, invariavelmente, todas as manhãs pela calçada da marginal, como se a caminhada fosse a última das suas energias. Mas, era, também, um coleccionador invejável de livros. Na sua biblioteca caseira, guardava de tudo um pouco. Da vasta bibliografia que trazia das suas deslocações. De ficção a ciência, religião a cultura, economia e política, romances ou até contos infantis. Quase todos os autores moçambicanos. Livros e leituras que o ajudaram a catapultar sua passagem pelo mundo e pela vida. Também, por isso, foi galardoado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, pelo governo brasileiro. Porém, o seu maior galardão foi ter servido Moçambique e os moçambicanos.

Até sempre Oldemiro.

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