O País – A verdade como notícia

O Presidente da República endereçou uma mensagem de condolências, pela morte do músico Hortênscio Langa, ocorrida ontem, em Maputo.
Na mensagem, Filipe Nyusi diz que o país foi colhido com surpresa pela desoladora notícia da morte do conceituado músico Hortêncio Langa, vítima de doença.
“Exímio e talentoso compositor e intérprete de música de vários géneros, ao longo da sua vida brindou os moçambicanos com um riquíssimo reportório musical versando sobre vários temas sociais, políticos, eminentemente educativos, em palcos nacionais e internacionais. Brilhou e encantou milhões de almas, nos agrupamentos de que fez parte, sobretudo o Alambique, entretendo, educando e incutindo o patriotismo – por isso Hortêncio foi um verdadeiro patriota, tendo sido agraciado com a Medalha de Artes e Letras. Neste momento de dor, em nome do povo, do Governo e no meu próprio, endereço o nosso sentimento de pesar e solidariedade à família enlutada e à classe das artes musicais, literárias e plástica, a que pertenceu com distinto mérito.
Paz à sua alma”,lê-se na nota.

Morreu, esta segunda-feira, aos 70 anos de idade o artista Hortêncio Langa, vítima de doença.

De nome completo Hortêncio Ernesto Langa, o artista moçambicano nasceu a 23 de Março de 1951, em Manjacaze, província de Gaza.

Hortêncio Langa foi um artista multifacetado que escreveu o seu nome na arena cultural moçambicana como músico, pintor e escritor, mas é como compositor e intérprete musical que se fez mais famoso, através da criação de temas que o colocaram como um dos mais talentosos da música moçambicana.

Além de ser músico formado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane é também era Docente de História da Música na mesma Instituição, tendo já sido professor de trabalhos manuais e de desenho em Escolas Secundárias.

A carreira musical de Hortêncio Langa teve início em 1963, quando, em Manjacaze, começou a tocar gaita, guitarra de lata e a cantar. Iniciou-se na guitarra com José Mucavel, seu amigo de infância e com 12 anos, em Chibuto, criou o seu primeiro trio com Wazimbo e Miguel Matsinhe, também seus amigos de infância, os Rebeldes do Ritmo.

Depois de participar em duas bandas, enquanto cumpria o serviço militar em Nampula, e na banda afro-rock Monomotapa, com Arão Litsuri, conheceu o seu baptismo internacional, em 1979, quando se deslocou a Cuba, Jamaica e Guiana, pouco depois da visita de Samora Machel àqueles países.

Com a integração de João Cabaço, o duo passou a trio. Nesse ano, o trio participou do Festival de Neubrandenburg, na então República Democrática Alemã. Da participação resultou um álbum de grande valor histórico e cultural para o país.

Actualmente mantém o artista mantinha uma carreira a solo, com participação em concertos do TP50 do qual é fundador.

No passado dia 1 do mês em curso, o Kugoma – Fórum de Cinema de Moçambique abriu as candidaturas para a 12ª edição do evento que reúne em concurso curtas-metragens produzidas a nível nacional e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e Timor Leste.

À semelhanca do ano passado, neste contexto em que as salas de cinema continuam encerradas, o Fórum de Cinema de Moçambique vai continuar com a mesma modalidade de divulgação de filmes e sessões afins, recorrendo a plataformas online e a parcerias com televisoes nacionais.

Para a 12ª edição, são elegíveis todos os filmes curtas-metragens com duração máxima até 15 minutos. “Aceitamos documentários, ficção e desemhos animados, em 2D ou em 3D, desde que tenham uma história por contar. Depois, o júri fará a selecção para que os cineastas façam parte desta grande festa”, explicou o produtor do Kugoma, António Maxlhaieie.

A 12ª ediçao do Kugoma vai premiar as melhores curtas-metragens submetidas ao concurso. No entanto, adverte o produtor: “Não queremos que as pesosas concorram pelo dinheiro ou pelo prémio, queremos que as pessoas concorram pelo gosto de fazer a sétima arte”.

Além de premiações simbólicas, esta edição inclui organização de seminários e promoção de intercâmbio entre os cineastas. Com a interacção, o objectivo também é apoiar os cineastas na produção de projectos consistentes, visando a busca de financimaneto.

As cadidaturas para 12ª edição do Kugoma estarão abertas até 30 de Junho.

 

 

A escritora Suzy Bila publicou o seu primeiro infanto-juvenil em Portugal. O livro Lamura será lançado numa cerimónia logo que as condições de segurança sanitária estiverem garantidas.

 

Lamura é o título do livro de estreia de Suzy Bila. O infanto-juvenil, constituído por 57 páginas, já se encontra nas livrarias de Lisboa há aproximadamente um mês, aguardando, agora, pelo dia de lançamento.

Em termos de enredo, o livro de Suzy Bila traz a história de um menino, Lamura, que cresce à volta da fogueira, ouvindo histórias contadas pelo pai. Na ficção, é através dessas histórias que o mundo da personagem ganha novos horizontes, pois cada palavra nova leva o menino a pensar no desconhecido. Assim, segundo adianta a autora, a metamorfose é uma palavra mágica que abre, no imaginário da personagem, gavetas nas quais respostas para as suas inquietações estão ainda escondidas.

Esta é uma história sobre a criança e sobre o seu universo. Um dia, algo vindo de fora emudece a aldeia e Lamura e o seu companheiro farão uma caminhada até aos lugares nos quais a sobrevivência é uma miragem e o sonho perdeu a luz. Ao protagonista, só resta o espaço do passado, as imagens da aldeia perdida e uma palavra em que se esconde uma mudança que será tão breve, como o tempo de uma borboleta. Lamura verá, finalmente, o que procurava por detrás dessa palavra. E a questão que se coloca é: que descoberta terá feito?

A história foi escrita e ilustrada por Suzy Bila, que, além de escritora, é artista plástica, com várias exposições individuais realizadas em Moçambique e em Portugal, onde vive e trabalha. De acordo com a autora, a história é inspirada em acontecimentos verdadeiros e mostra como o poder da palavra no imaginário fértil de uma criança desvaloriza o tamanho dos obstáculos. Igualmente, a narrativa faz do nada surgir o significado da liberdade. Por fim, Lamura mostra ainda alguns dos problemas políticos e sociais contemporâneos que merecem um olhar amplo e uma resposta urgente, para a construção de uma sociedade mais humana, onde todas as crianças possam usufruir plenamente dos seus direitos.

Em Moçambique, o livro de Suzy Bila sai sob a chancela da Escola Portuguesa.

Inadelso Cossa acredita que Moçambique, neste contexto, é um país decisivo para o futuro do cinema produzido no continente. A partir de Lisboa, onde vive, o cineasta defendeu, esta sexta-feira, que o Estado deve envolver-se mais para que a sétima arte desenvolva a nível nacional.

Ano passado, Inadelso Cossa foi nomeado membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, instituição norte-americana responsável pela atribuição dos Óscares. A viver em Lisboa, onde trabalha, o realizador olha para as potencialidades artísticas do seu país com mais experiência internacional. Por isso defende que Moçambique é um centro de decisão importante para o futuro do cinema regional e africano em geral.

Em parte, Inadelso Cossa acredita nas potencialidades cinematográficas do país devido à sua nomeação a membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Para o artista, esse reconhecimento significa e deve significar muito para Moçambique. Por exemplo? “Significa que Moçambique passa a decidir na nomeação e entrega dos Óscares. Estar na Academia de Hollywood significa que fazemos parte de um grupo de influência que, a nível mundial, regula e aconselha sobre diversas tendências cinematográficas”.

Na percepção do cineasta, enquanto Moçambique contribuir para a descoberta de novas vozes da região, será decisivo. Igualmente, a confiança a si depositada representa, assume, a responsabilidade de seleccionar, aconselhar, criar grupos de discussão e servir como mentor para futuros realizadores que querem afirmar-se no mercado cinematográfico. “Tudo isto prova que o cinema está a tomar outras direcções, independentes de questões económicas e culturais”.

Ao mesmo que admite a importância de integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para a sua carreira, Cossa sugere que o Estado moçambicano se envolva mais nas produções de filmes de modo que tenha obras elegíveis aos Óscares de melhor filme estrangeiro, por exemplo. “O poder tem de começar a acreditar que o cinema não é apenas diversão, mas olhar para a sétima arte como ferramenta para divulgar o país além-fronteiras, para promover cultura de intercâmbio e gerar rendimento. Só a partir desse passo vamos continuar a ter cinema com responsabilidade”.

Segundo entende Inadelso Cossa, estar na academia é um bom começo e, como jovem, é uma grande responsabilidade porque faz com que seja embaixador do meu país. “Espero que esta minha experiência dê frutos no futuro e espero um dia ver um filme moçambicano e propor para ser nomeado à academia”, sublinhou.

INADELSO COSSA EM PERFIL

Inadelso Cossa é realizador de cinema, produtor e director de fotografia, fundador da produtora 16mmFILMES, Membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, nos EUA, desde 2020. Faz cinema desde 2006. Os seus filmes abordam temas como a memória pós- colonial, trauma, oralidade perdida e amnésia colectiva em Moçambique. A história “não oficial” do píis é quase sempre o veículo do seu cinema, onde o realizador se posiciona de forma pessoal, pois acredita ser seu dever participar no enredo de um país em busca da própria memória. É vencedor do prémio Estação Imagem – Mora de melhor documentário no festival internacional de curtas-metragens FIKE – Évora em 201.

O seu primeiro documentário de longa-metragem: Uma memória em três actos fez estreia mundial no festival IDFA – Festival Internacional de Documentários de Amsterdão, Países Baixos, 2016, e, desde então, tem participado em festivais de cinema como o Indie Lisboa – Festival Internacional do Cinema Independente de Lisboa, Portugal 2017, o festival internacional de cinema de Durban, África do Sul, 2017, e Festival Internacional de Cinema de Zanzibar, 2018.

O filme ganhou o Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema de Zanzibar em 2018 e o Prémio da comissão flamenga UNESCO para melhor documentário africano no Afrika Film Festival Leuven, Bélgica 2020. Inadelso Cossa foi convidado a integrar o júri nos festivais IDFA em Amsterdão 2018, Doc Fest Sheffield 2018, na Inglaterra, e World Press Photo 2020, nos Países Baixos. Cossa também é autor dos seguintes filmes: Xilunguine, a terra prometida, Uma memória quieta, Karingana: os mortos não contam histórias (em produção) e As noites ainda cheiram a pólvora (produção).

Januário, o engenheiro à distância, de Milton Tinga e Rupia Júnior, e Kalunga, de Lara Sousa, são os títulos dos filmes moçambicanos premiados na quarta edição da Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba (MIMB), no Brasil. A ficção e o documentário trouxeram ao país os prémios Melhor Roteiro e Melhor Direcção de Arte.

Na quarta edição da Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba (MIMB) estiveram abertas cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Direcção, Melhor Roteiro, Melhor Actuação e Melhor Direcção de Arte. Moçambique conseguiu distinguir-se em duas dessas categorias, graças aos filmes Januário, o engenheiro à distância, de Milton Tinga e Rupia Júnior (Melhor Roteiro), e Kalunga, de Lara Sousa (Melhor Direcção).

Januário, o engenheiro à distância e Kalunga distinguiram-se num universo de 30 filmes. A primeira produção cinematográfica é uma curta-metragem de ficção que retrata a ineficácia do sistema nacional de educação moçambicano. Com cinco minutos de duração, o filme segue a história de um jovem universitário que se vê obrigado a interromper os estudos em regime presencial face à COVID-19. O guião foi escrito por Rupia Júnior. Já o segundo filme moçambicano premiado na MIMB é um documentário de 22 minutos que retrata a história de uma menina que, estando longe de casa, é movida por sonhos enigmáticos para cumprir um ritual de nascimento espiritual que a leva junto com sua tia já falecida de volta à África.

Entrando mais no espírito de Kalunga, a produção conduz o telespectador a uma história da família da realizadora. E Lara Sousa explica: “O filme é sobre mim e sobre a minha tia-avó, Noémia de Sousa. É uma história sobre retorno a Moçambique e sobre a necessidade de votar a casa”. O filme Kalunga foi rodado em Cuba com material de arquivo de Moçambique, tendo a poesia da “Mãe dos poetas moçambicanos” como elemento essencial. Para Lara Sousa, foi uma boa experiência, mas difícil, mesmo sendo uma narrativa familiar. Ainda assim, o resultado satisfez a realizadora, o que foi possível devido a uma equipa de qualidade que teve em Cuba.

Ora, esta não foi a primeira premiação de Kalunga. Por ter sido financiado por Cuba, o documentário concorreu e também conquistou o Prémio de Melhor Curta-metragem Latino-americana. No Brasil, também conquistou o Prémio Melhor Filme Estrangeiro, no Festival de Cinema de Três Passos. Ainda no MIMB do Brasil, com o filme Fim, Lara Sousa foi premiada Melhor Filme, ano passado. “Receber prémios assim é sempre um orgulho. Ajuda para que novos projectos sejam financiados e expõem o nosso talento como realizadora. Espero que Kalunga seja mais visto”.

Em cada categoria, o melhor filme da quarta Mostra Itinerante de Cinemas Negros – Mahomed Bamba (MIMB) é premiado com mil reais, aproximadamente 12 mil meticais.

 

 

 

 

Fátima Mendonça contribuiu para primeira edição do livro Sangue negro. Graças ao seu envolvimento, em Setembro de 2001 a obra foi lançada pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Além disso, a professora universitária conviveu e manteve amizade com Noémia de Sousa. Por isso mesmo, neste ano que se assinala o vigésimo aniversário de um dos mais icónicos livros da literatura moçambicana, convidamos Fátima Mendonça a partilhar perspectivas literárias sobre os textos de Noémia de Sousa publicados entre 1948 e 1951. De igual modo, neste exercício de memória, Mendonça conta episódios pouco conhecidos da vida de N. S. Como que seguindo os passos da poetisa/ poeta, a ensaísta reconstrói narrativas sobre a autora de Sangue negro em vários ângulos: de Lourenço Marques a Lisboa ou de Lisboa a Paris. Portanto, nesta entrevista há uma “mãe dos poetas moçambicanos” que se pode conhecer melhor. Tudo propositado. Na verdade, esta é a maneira que encontramos para celebrar a mulher cuja escrita ajudou a fundar um projecto de literatura.

 Penso em Noémia de Sousa como um dos expoentes máximos da literatura moçambicana. Como é que Fátima Mendonça a concebe?

Em primeiro lugar não podemos separar o surgimento Noémia de Sousa da emergência das várias manifestações literárias ocorridas nessa época, isto é finais dos anos 40 e década de 50. Havia um clima provocado pelas alterações determinadas pelo final da 2ª Guerra Mundial que se conjugaram com as condições de alguma abertura política durante a candidatura de Norton de Matos à presidência da República em Portugal, entre 1948 e 1949. Em Moçambique existia um sentimento de resistência ao colonialismo que literariamente se manifestava pela problematização da portugalidade. Parte da literatura da época deixava perceber a sedução pela ideia de una síntese futura entre duas visões do mundo, duas formas de expressão: a africana e a europeia, de que são paradigmas as propostas de Orlando Mendes em Trajectórias (1940) e Clima (1959) e de Rui Knopfli numa primeira fase da sua obra Ou ainda em 1952 a proposta da revista (sem continuidade) Msaho veiculada por Virgílio de Lemos. A outra parte inicia a afirmação de uma africanidade próxima da Negritude iniciada com Noémia de Sousa e desenvolvida posteriormente por José Craveirinha. É neste quadro histórico que podemos integrar os poemas publicados então e que viriam a ter uma enorme repercussão. Em 1952 o Poema da infância distante aparece com grande destaque na revista Mshao e em 1953 Mário Pinto de Andrade e Francisco Tenreiro incluem os poemas Magaiça e Deixa Passar o meu povo no caderno Poesia Negra de Expressão Portuguesa onde também figuravam Alda Espírito Santo e Francisco José Tenreiro de São Tomé, e os angolanos Agostinho Neto, António Jacinto e Viriato da Cruz. A partir daí os poemas de Noémia de Sousa passaram a figurar em inúmeras antologias nomeadamente as que foram dedicadas a Moçambique e publicadas pela Casa dos Estudantes do Imperio e nas que Mário Pinto de Andrade organizou: em 1958 uma antologia que alargava a representação do Caderno de 1953, editada em França, e em 1967 uma antologia temática em parceria com Carlos Pestana Heineken, Tomás Medeiros e Sérgio Vieira, apresentada em Argel. Portanto estes poemas acabaram por extravasar as fronteiras da língua sob a forma de traduções e divulgação noutros espaços geográficos favoráveis aos movimentos de libertação em África, que de forma directa ou indirecta, projectavam elementos ideológicos da esfera dos nacionalismos africanos. Aliás o nome dela figura numa brochura da Frelimo intitulada Breve antologia da literatura moçambicana com os poemas Nossa Voz e Se me quiseres conhecer ao lado de José Craveirinha, Rui Nogar, Marcelino dos Santos, Fernando Ganhão, Armando Guebuza, Sérgio Vieira, Jorge Rebelo, João Munguambe e Luís Bernardo Honwana. Esta colectânea foi apresentada na 3ª Conferência de escritores afro-asiáticos, realizada no Líbano, em Beirute, de 25 a 30 de Março de 1967 e na introdução pode ler-se: “Neste tempo de negritude, em que, pela primeira vez, se proclamou o “orgulho escandaloso de ser negro“, como o disse Mário de Andrade, a primeira grande voz da poesia moçambicana surge: Noémia de Sousa. “Julgo que tudo isto responde à sua questão.

Com Nelson Saúte e Francisco Noa, em 2001, contribuiu para a primeira edição de Sangue negro. A si, em particular, o que a levou a envolver-se no projecto?

Realmente é uma longa história. As primeiras tentativas de a convencer a deixar publicar os poemas partiram de Manuel Ferreira e posteriormente de Michel Laban. A Noémia foi peremptória: em primeiro lugar teria de os publicar em Moçambique. De facto como ela refere na entrevista a Michel Laban em 1984, fora já contactada pelo Rui Nogar mas achou que era tudo muito precipitado e pretendia fazer as coisas calmamente (reler o Caderno que ela própria havia organizado antes de sair de Moçambique). Nesse mesmo ano veio a Moçambique pela primeira vez desde que partira em 1951 e foi nessa altura que a conheci. Houve uma empatia muito grande entre nós, ajudada pelo facto de haver uma série de coincidências de ordem familiar que nos aproximava. Convivemos bastante nesses dias e esse foi o início de uma grande amizade e, para mim, possibilidade de me aperceber da sua forte personalidade, argúcia e honestidade intelectual ao longo do nosso convívio. Como entre 1986 e 1988 fui bolseira da Fundação Gulbenkian e já nos anos 90 estive por alguns meses a leccionar na Universidade Nova de Lisboa, passava algum tempo em Lisboa todos aos anos e durante esse período visitava a Noémia praticamente todos os domingos. Esse ambiente favoreceu que as nossas conversas se encaminhassem para a possibilidade de editar o livro e como eu também não sou de pressas, a ideia foi amadurecendo. Entretanto na AEMO as direcções iam-se sucedendo mas a publicação do livro era facto assente, assumida com grande entusiasmo pelo Júlio Navarro que se ocupava do sector editorial, mas não avançava mais do que isso, talvez por minha culpa. Em 1994 a Noémia voltou a Moçambique porque queria vir votar nas primeiras eleições multipartidárias e nessa altura a AEMO organizou forma de ela visitar a Ilha de Moçambique. O Secretário-geral era o Hélder Muteia que me convidou para com ele a acompanhar na viagem assim como ao José Craveirinha… Nessa altura a Noémia de Sousa já tinha conhecido o Nelson Saúte e o Francisco Noa. Este estava a fazer a tese de Mestrado sobre o Rui Knopfli na Universidade Nova de Lisboa e ela tinha ficado muito bem impressionada com ele quando o conheceu. A insistência de ambos para que o livro fosse publicado, a forma como estava a ser recebida em Moçambique fez-lhe perceber como era apreciada pelas novas gerações e isso, creio, foi determinante para que concordasse em publicar o livro. A Noémia voltaria a Moçambique em 1996 onde lhe foi feita homenagem pelos 70 anos. Se a memória não me falha tivemos um encontro os quatro (Noémia, Nelson, Noa e eu própria) nessa altura para assentarmos alguns pormenores nomeadamente que o livro seria a reprodução na íntegra do conteúdo do caderno que incluía uma dedicatória a Cassiano Caldas e João Mendes e duas epígrafes de um poema de Miguel Torga e de Carlos Oliveira. Faltava apenas fixar definitivamente o texto de que fiquei encarregada. Para isso foi usada a cópia que estava depositada no Arquivo Histórico de Moçambique. Também concordámos em que cada um de nós escreveria um texto sob a forma de prefácio ou posfácio. Toda a parte editorial ficou entregue ao dinamismo do Nelson Saúte e do Júlio Navarro. Posteriormente solicitei a João Mendes um depoimento que veio a ser incluído na contra-capa. Foi assim que finalmente o livro foi publicado e lançado numa cerimónia no Salão Nobre do Conselho Municipal de Maputo em 20 de Setembro de 2001, sendo secretária-geral da AEMO Lília Momplé. Infelizmente, a Noémia já estava muito doente e quando eu e o Nelson Saúte a visitámos no lar onde estava, em Cascais, para lhe entregar o livro fomos encontra-la apática, com um sorriso infinitamente triste que nos deixou acabrunhados. Já não era a mesma pessoa. Ela viria a falecer em 4 de Dezembro do ano seguinte aos 76 anos. Foi um fim de história muito triste.

Os poemas que compõem Sangue negro foram escritos entre 1948 e 1951. Passam 70 anos. Que mensagens esses textos continuam a trazer à actualidade moçambicana?

Sabe, eu considero que alguns textos poéticos ultrapassam em muito as fronteiras das circunstâncias em que foram produzidos, ainda que, como disse antes, essas circunstâncias tenham de ser consideradas quando falamos de aspectos relacionados com a recepção desses textos. É que os poemas de Noémia de Sousa introduzem na poesia moçambicana um discurso simultaneamente lírico (no sentido que lhe atribui Paul Valery de “desenvolvimento de uma exclamação”) e épico, o que vai determinar o seu papel de vanguarda estética e justificar mais tarde a sua inclusão no discurso nacionalista africano moderno. Na verdade creio ser este aspecto que explica o facto de a poesia de Noémia de Sousa se ter insinuado, como referência, num campo literário, configurado pelas concepções de Arte Comprometida, preconizada  pelas correntes neo-realistas. De resto se atentarmos nas duas epígrafes que antecedem o livro Um escarro no rosto não tem expressão sente-se de Miguel Torga e Para quem espera como nós é sempre hora de cantar do poeta neo-realista Carlos Oliveira percebe-se que está ali todo um programa. De facto esses poemas tiveram na altura a função de Manifesto e ainda hoje se reconhece neles uma expressão emotiva e torrencial a que não se pode ficar indiferente. Daí o serem percebidos, penso eu, pelas novas gerações como voz fundadora de uma identidade moçambicana, que na verdade é mas, saliento eu, esse estatuto decorre da modernidade literária que essa poesia instaura e que ela proclama no Poema a Rui de Noronha. Concluindo: Noémia de Sousa apropria-se de formas estéticas características do neo-realismo português, estabelece um diálogo com a estética neo-realista, mas o resultado é uma poesia que já não é neo-realista, no sentido restrito de programa com pressupostos estéticos e ideológicos decorrentes de uma dada situação histórica portuguesa. A ela acrescentam-se outros elementos cuja origem está numa situação histórica diferente ‑ a colonização ‑ que produziu novas necessidades artísticas a que a estética da negritude respondia.

Faço aqui um parêntesis para referir que em Moçambique, assim como em Angola, a estética da Negritude teve repercussões, embora a poesia marcada por alguns dos seus códigos discursivos ultrapasse os códigos ideológicos, temáticos e estéticos característicos do Movimento, tal como se manifestaram, quer na poesia da Renascença Negra, quer na poesia da Negritude de Paris, e se aproxime de gestos literários próximos de outros movimentos modernos, nomeadamente o Neo-realismo português e o Modernismo brasileiro.

Surgida com alguns anos de atraso, relativamente ao Movimento nas suas manifestações americanas ou parisienses, por razões históricas explicáveis, coube às gerações dos anos cinquenta de Angola e Moçambique, desenvolver o que, na poesia do poeta santomense Francisco José Tenreiro, se pressentia: uma corrente estético-literária sintonizada com as tendências de ruptura que orientaram os vários modernismos, tendo chegado, em alguns  caso, a excedê-los.

Ultrapassando a representação essencialista da identidade negra, tão cara a Senghor, esta poesia acaba por integrar elementos ideológicos que lhe permitiram funcionar simultaneamente como Manifesto estético e Manifesto político.

Voltando à poesia de Noémia de Sousa, ela é, deste ponto de vista, paradigmática pois orienta-se para uma temática marcadamente nova (no contexto moçambicano) onde recorrentemente emerge África desdobrada em vários símbolos (Mãe, Energia, Redenção) do mesmo modo que os ecos longínquos e distantes de Harlém nela perpassam, como acontece no poema A Billie Holiday, cantora [1]“(…) e então/          tua voz minha irmã americana/veio do ar, do nada, nascida da própria escuridão/estranha, profunda, quente/vazada em escravidão(…)”

Essa inovação temática desenvolve-se no sentido de uma insistente representação do território social suburbano congregando o contratado, o estivador, o mineiro, a prostituta interligados emblematicamente num universo imagístico sustentado pela imprecação violenta de um Eu que, sucessivas mutações metonímicas, conduzem à integração no colectivo.

É desta combinação de elementos que emerge na poesia de Noémia de Sousa, o espaço periférico da cidade de cimento alargado à Munhuana, espaço envolvente do bairro da Mafalala que, com os fronteiriços Chamanculo e Xipamanine, institui a grande referência imaginária da subalternidade colonial. No poema Zampungana, dedicado aos que de noite exerciam a profissão mais baixa da escala social de recolher os dejectos humanos das latrinas dos bairros suburbanos, Noémia de Sousa escolhe a Munhuana e essa personagem marginalizada Zampungana, como símbolo de uma humilhação particular que, pela expressividade poética, se torna geral.

Estas características de poesia de Noémia de Sousa, a que muitas vezes se vem juntar um registo injuntivo, fazem dela uma escrita fixada na acção, em que o projecto de empenhamento é constantemente assumido, concentrando, por isso, no texto, uma força utópica que marca de maneira particular a sua poesia.

Se percorrermos páginas/cadernos, revistas literárias ou obras mais recentes, encontraremos os fios de memória trazidos da sua poesia, a percorrer novos textos que convocam a memória do espaço identitário e matricial dos marginalizados, o que ainda vai de encontro a muitos problemas da actualidade.

Quem foi Noémia de Sousa, essa mulher que  “apenas” a conhecemos através dos seus poemas?

Eu tive a felicidade e o privilégio de ter mantido uma relação de profunda amizade com a Noémia de Sousa e de, por essa via, entrar no seu convívio familiar. Apercebi-me logo de como se sentia repartida com a dispersão familiar que marcou toda a sua vida. O irmão Paulo e a irmã Camila tinham sido enviados pelo pai ainda crianças para Portugal e entregues aos cuidados de uma tia paterna a fim de prosseguirem estudos. Só os conheceu quando foi para Portugal em 1951. Mas é interessante que, tendo conhecido estes dois irmãos já adultos, se ligou profundamente a eles, principalmente com a Camila com quem passou a viver. Quando comecei a visitá-la, a Camila ainda estava viva. Era um encanto de pessoa e as duas estavam sempre bem dispostas e bem-humoradas A Camila era licenciada em Germânicas e tinha sido professora em vários colégios entre eles um em Mangualde onde o Rui Knopfli, de quem foi professora, tinha estudado na adolescência. No período que decorreu entre o casamento com (também poeta) Gualter Soares, em 1962, nascimento da filha Gina, saída clandestina para França, separação do marido (que se fixara em França por razões políticas) e regresso a Lisboa em 1973, para trabalhar na agência Reuters, a vida não foi fácil para Noémia de Sousa. Por não ter conseguido passaporte teve de sair clandestinamente, a salto, de Portugal. Foi uma aventura com muitos percalços, agravada pelo facto de levar consigo uma criança. Felizmente foi bem acolhida pelas autoridades francesas. Mas a separação do marido algum tempo depois e as dificuldades económicas por que passou perturbaram a sua estabilidade. Marcelino dos Santos tinha-lhe arranjado emprego no consulado de Marrocos mas o rendimento não era suficiente para se manter com casa própria, numa cidade como Paris. Foi esta situação que determinou que em 1973 voltasse para Lisboa para trabalhar na Reuters. Por outro lado ao sair de Moçambique tinha-se separado dos outros três irmãos Rui, Nuno e Wanda e de toda a sua vivência de infância e juventude moçambicana, que lhe afluía constantemente à memória. Nas três vezes que veio a Moçambique (1984,1994,1996) pôde reatar essa ligação com o seu passado e, de alguma forma, atenuar esse sentido de estar repartida. Mas isto são os aspectos mais pessoais e eu queria frisar aqui o facto de Noémia de Sousa ter tido um percurso de intervenção política para o qual Mário Pinto de Andrade me chamou a atenção em 1985, com a existência de uma nota do Governo Geral de Moçambique em que o nome de Noémia de Sousa aparece associado aos de Ricardo Rangel, João Mendes e Rui Guedes como fazendo parte de uma “Comissão Central” que pretenderia criar uma “Organização Comunista Moçambicana”. Quando a pude questionar sobre este assunto, Noémia de Sousa deu-me a indicação, creio que por modéstia, de que Cassiano Caldas me poderia esclarecer melhor sobre todo este período. Gravei então uma longa entrevista com Cassiano Caldas em Maputo, que me forneceu detalhes importantes sobre a sua passagem pelo Itinerário, a constituição do MUD em Moçambique, assim como do papel que Noémia desempenhara nessa altura em acções anti-coloniais clandestinas que levaram à sua prisão, embora por pouco tempo, mas que motivaram a deportação de João Mendes. Em 1999 Dalila Cabrita Mateus publicou A luta pela independencia. A formação das elites fundadores da FRELIMO, MPLA e PAIGC, uma tese de mestrado circunstanciada que, para além de confirmar os dados de Mário de Andrade e Cassiano Caldas, reconstrói, a partir dos ficheiros da PIDE, a trajectória política Noémia de Sousa, com continuidade em Lisboa, assim como a de alguns dos protagonistas desse movimento, nomeadamente João Mendes (que reaparece na vida política e social de Moçambique, depois de 1975) e Sofia Pomba Guerra (que vai reaparecer na Guiné-Bissau com ligações ao PAIGC). Ao chegar a Lisboa em finais de 1951, Noémia de Sousa entrou imediatamente e participou no círculo do Centro de Estudos Africanos, criado por Mário Pinto de Andrade com Francisco José Tenreiro e Amilcar Cabral e cuja sessões se realizavam em casa da tia Andresa, de Alda do Espírito Santo. Em 1955 foi a Paris e daí a Varsóvia participar no Congresso Mundial da Juventude. Posteriormente fez parte do directório em Lisboa do MAC (Movimento anti-colonialista) com Agostinho Neto, Amilcar Cabral, Eduardo Macedo dos Santos e Lúcio Lara (O MAC fora criado em 1958, por iniciativa de Amilcar Cabral e Marcelino dos Santos, com a participação de Mário de Andrade, Viriato da Cruz e Guilherme Espírito Santo e posteriormente deu origem à FRAIN e a seguir à CONCP). Penso que o activismo político, aparente e injustificadamente esquecido de Noémia de Sousa foi de algum modo interceptado por aspectos da sua vida pessoal mas isso é já a minha interpretação de muitos dos seus silêncios.

 

Uma das dores de Noémia de Sousa foi não ter sido convidada para cerimónia da proclamação da independência nacional. O Estado ficou em dívida com Noémia?

Eu não colocaria a questão nesses termos. Esse assunto é abordado por ela na entrevista com Michel  Laban e também na entrevista com Nelson Saute e deve ter-se devido a vários equívocos e percepções enviesadas. Recordo-me de em 1985 termos tido uma acalorada discussão com o Sérgio Vieira, em casa da Manuela Soeiro, onde estavam também o Calane da Silva, o Luís Carlos Patraquim e a Paula Possolo exactamente porque havia da parte do Sérgio uma percepção errada sobre a pessoa de Noémia de Sousa, até porque ele a estava a contrapor a Noémia de Sousa à Bertina Lopes e as duas tinham percursos de vida muito diferentes. No ano anterior ela numa entrevista à Tempo dissera, estou citando de cor, que era muito indisciplinada para se submeter a disciplinas partidárias, o que justificaria não se ter juntado à Frelimo na época em que estivera em Paris (1964 a 1973). Talvez não esteja a reproduzir fielmente o que ela disse na entrevista mas a ideia era esta. Nunca referi à Noémia de Sousa esta discussão porque não achava necessário indispô-la. Acho que fiz bem porque em 1989 quando se realizou em Lisboa o I Congresso de Escritores de Língua Portuguesa o Sérgio Vieira (que chefiava a nossa delegação) já estava com outra postura e envolveu no mesmo espírito de ´´charme´´ todos os presentes incluindo os que não vinham na delegação (Eugénio Lisboa, Glória de Sant Maria de Lurdes Cortez, Ana Mafalda Leite, Rui Knopfli e Noémia de Sousa). Parece-me que esse assunto do não convite para as cerimónias da independência e os ruídos que lhe estavam subjacentes, ficaram ultrapassados depois das visitas que fez a Moçambique. Recordo-me do jantar na AEMO de homenagem pelos seus 70 anos, em que estiveram presentes o Presidente Chissano, o Dr. Pascoal Mucumbi e Marcelino do Santos. Aliás via-se, na forma como Marcelino de Santos a tratava, e Marcelino talvez fosse quem melhor tinha acompanhado o percurso difícil de Noémia de Sousa em Paris. Ela percebeu que a estimavam e reconheciam, não apenas os que podiam representar uma atitude mais oficial, mas também os jovens ou pessoas, digamos ´´normais´´. Recordo-me agora de outro episódio ocorrido na visita de 1996. Eu na altura tinha uma casa em Inhambane e levei a Noémia comigo num fim de semana. Quando parei o carro no Xai-Xai para irmos tomar café, de repente entra um rosto de homem pela janela e pergunta: a senhora não é a D. Noémia de Sousa? (Teria visto a foto dela por esses dias) A Noémia ficou atrapalhadíssima com aquele seu sorriso característico e aí o senhor fez um autêntico discurso de elogio que ela teve de ouvir e agradecer. Julgo que esse género de reconhecimento lhe tocou bem no fundo.

 

Como acha que a devemos homenagear? Quer dizer, há forma de retribuirmos ao que Noémia ajudou a construir em relação a um projecto de nação? 

Julgo que a questão não se coloca em termos de retribuição mas sim de reconhecimento do papel que a sua poesia teve na construção de um imaginário que não só se inseria num programa emancipatório como apontava novos rumos num plano estritamente estético e literário. Isso faz-se lendo e estudando. Mas essa leitura e estudo só têm eficácia se forem veiculados pelo sistema de ensino, nomeadamente o secundário. Seria necessária uma reedição de baixo custo para fins pedagógicos. Não basta ser estudada na Universidade. E ainda há formas paralelas de fazê-lo. Estou a lembrar-me de debates que se realizam no âmbito de diversas associações, do Clube de Leitura coordenado pelo Professor Nataniel Ngomane etc.. A AEMO poderia editar uma brochura com as entrevistas de Nelson Saúte e Michel Laban. A entrevista de Laban é muito interessante pois Noémia de Sousa comenta cada um dos poemas explicando as razões que a levaram a escrevê-los. Sendo a filha de Noémia e a viúva de Laban pessoas extremamente acessíveis não haverá problema em obter as autorizações para o que me disponibilizo desde já.

Noémia é a maior voz feminina da literatura moçambicana. Como a situa no espaço africano? 

Não tenho por hábito distinguir as vozes poéticas em função do género, o que é diferente de analisar a forma como nas suas obras é representado o universo feminino. No caso de Noémia de Sousa, ainda menos, pois ultrapassa esses limites, mas, já que coloca a questão nestes termos ocorre-me fazer algumas comparações: Que mulheres africanas se manifestaram literariamente nos finais dos anos 40 início de 50 com a força poética e o impacte ideológico e político dos poemas de Noémia de Sousa? Mesmo considerando que, como se diz, ´´Africa não é um país“ eu olharia para alguns exemplos de escritoras da geração de Noémia de Sousa, apenas com poucos anos de diferença, nomeadamente a senegalesa Mariama Bâ (1929-1981) que se tornou conhecida com o romance Une si longue lettre (1979) e a nigeriana Flora Nwapa (1931- 1993) que se estreou com grande `êxito com Efuru, (1966). Estes romances foram publicados depois da independência quer do Senegal (1960) quer da Nigéria (1963) e reflectem intensivamente problemáticas femininas com algumas tonalidades feministas. No entanto a sua comparação só é possível com a escrita de Paulina Chiziane. Olhando para textos produzidos em contextos políticos idênticos aos de Moçambique dos anos 50, por escritoras da mesma geração de Noémia de Sousa, temos Nadine Gordimer (1923-2014), aqui ao lado na África do Sul, mas, de facto, ela notabilizou-se não como poeta, mas como ficcionista, o que lhe valeu vários prémios entre eles o Nobel, só no pós-apartheid. Estreou-se com uma colectânea de contos Face to face em 1949. Embora esteja aqui a fazer um exercício de memória muito geral e corra o risco de omissões só vejo uma escritora africana com quem se possa comparar Noémia de Sousa: a argelina Assia Djebar, dez anos mais nova (1936-2015), mas que para além de uma extensa lista de títulos de ficção narrativa, escreveu um conjunto de poemas, sem os publicar, tal como Noémia de Sousa, sob o mesmo impacte da violência colonial e da guerra (1954-1962) que conduziu à independência da Argélia em 1962. O seu primeiro romance Le soif (1957) foi seguido de uma extensa bibliografia onde estão incluídos esses poemas só editados depois da independência, (Poèmes pour l Algerie heureuse, 1969). Há portanto esta analogia em termos cronológicos e das condições históricas em que ambas escreveram e foram motivadas. Até de um ponto de vista biográfico se podem estabelecer algumas analogias. É um campo de investigação a explorar.

O seu poema preferido de Noémia de Sousa?

Se me quiseres conhecer, Poema para Rui de Noronha, Zampungana.

 

Bento Baloi lança livro de crónicas às 18h30 de quinta-feira. O evento será transmitido via online nas redes sociais do Centro Cultural Brasil-Moçambique, da Feira do Livro de Maputo, do Flipoços (Festival Literário Internacional de Poços de Caldas) e da Revista Literatas.

 

Quando o Ciclone Idai partiu, deixou o Centro do país devastado. Em Maputo, nessa altura, Bento Baloi entrou no primeiro voo que pôde e viajou à Cidade da Beira para, em missão de serviço, apurar os estragos causados pela calamidade natural. Naqueles dias, o escritor não só trabalhou. Igualmente, deixou-se atingir pela dor dos que perderam quase tudo num ápice. Assim, debaixo das águas, surgiu a Arca de não é, que em livro será lançado quinta-feira.

Na verdade, diante de tanta destruição, Bento Baloi encontrou na escrita a possibilidade de exprimir, de alguma forma, o seu sentimento em relação ao que viu, ouviu e sentiu, sobretudo na província Sofala.

No total, o escritor ficcionou 15 histórias. Depois disso, quis publicar as narrativas em livro em Março de 2020, um ano depois do Ciclone Idai arrasar o Centro do país. Ao invés disso, optou por publicar os textos no jornal O País durante 15 semanas, como forma medir o nível de interesse dos leitores. Com tal procedimento, Baloi sentiu que as suas histórias tiveram algum impacto nas pessoas, por isso decidiu coligir as narrativas e publicá-las neste seu Arca de não é.

Lembrando da tragédia causada pelo Idai, Bento Baloi partilhou: “Testemunhei algumas coisas que achei chocantes, que me inspiraram a desenvolver um conjunto de crónicas, explorando a tragédia sobre vários ângulos. É uma forma que encontrei de homenagear os homens, as mulheres e as crianças que sentiram na pele a dramática situação causada pelo Ciclone Idai, em particular, mas também por esses ciclones todos que têm passado pelo país”.

As histórias que compõem o livro de Bento Baloi são todas fictícias e nenhuma retratada uma realidade factual. Ora, entre as histórias que constituem o livro encontram-se “Jail house”, “Nuvem de espuma”, “Zé das abelhas”, “A minha primeira vez”, “A caminhada”, “A fronteira” e, obviamente, “Arca de não é”.

Editado pela Índico Editores, o novo livro de Bento Baloi será lançado numa sessão online nas redes sociais do Centro Cultural Brasil-Moçambique, da Feira do Livro de Maputo, do Flipoços (Festival Literário Internacional de Poços de Caldas) e da Revista Literatas. O livro será apresentado pelo professor e ensaísta Martins Mapera e pelo filósofo e professor Dionísio Bahule. De igual modo, a escritora Ana Mafalda Leite, a professora brasileira Cíntia Acosta Kütter e a poetisa cabo-verdiana Vera Duarte Pina irão intervir na cerimónia de quinta-feira, a partir das 18h30.

O filme de Milton Tinga e Rupia Júnior é um dos concorrentes da quarta edição da Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba (MIMB), realizada no Brasil. Os realizadores concorrem à categoria Melhor Roteiro e os vencedores serão anunciados sexta-feira.

Januário, o engenheiro à distância é uma curta-metragem que retrata a ineficácia do sistema nacional de educação moçambicano. Com cinco minutos de duração, o filme segue a história de um jovem universitário que se vê obrigado a interromper os estudos em regime presencial face à COVID-19. Escrito por Rupia Júnior, a curta-metragem concorre à categoria de Melhor Roteiro na Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba (MIMB).

A possibilidade de levar a curta-metragem a um concurso brasileiro, na percepção de Milton Tinga, representa-se como muito vantajosa, pois, assim, o seu trabalho e do seu colega será visto a nível internacional. Além disso, o facto de concorrer ao MIMB, acredita o realizador, vai estimular mais jovens como ele a investirem na carreira cinematográfica.

Nesta quarta edição do concurso, Januário, o engenheiro à distância concorre à categoria Melhor Roteiro com mais cinco curtas-metragens. Ao realizador isso não assusta. Mesmo almejando a maior distinção, Tinga está consciente de que há outras vitórias importantes: “Nós esperamos alcançar a vitória, como qualquer concorrente do concurso espera. Mas, acima de tudo, esperamos adquirir experiências e posicionar o nosso filme no mais alto nível, para que possamos tirar o maior proveito disso”.

A quarta edição do MIMB arrancou no dia 31 de Março e realizar-se-á até 9 deste mês, sexta-feira. No mesmo dia, serão anunciados os grandes vencedores das seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Direcção, Melhor Roteiro, Melhor Actuação e Melhor Direcção de Arte. Ao evento cinematográfico concorrem 30 filmes do Brasil, Colômbia, Cuba, Caribe, Portugal, Angola, Guiné-Bissau e, claro, Moçambique.

O elenco de actores de Januário, o engenheiro à distância conta com Tosé João (Januário), Rui Munguambe (Chefe), Nélio Alzira (Vendedor) e Letícia Fernanda (Docente). O orçamento do filme foi de cinco mil meticais, tendo sido produzido graça à ajuda de pessoas próximas.

Para ajudar o filme moçambicano, basta ir ao site do MIMB, entrar na secção filmes, seleccionar Januário, o engenheiro à distância e votar.

SOBRE O MIMB

A Mostra Itinerante de Cinemas Negros – Mahomed Bamba (MIMB) é um evento que promove a difusão das produções de realizadores negros. Nesta quarta edição, a programação será através de plataformas online VídeoCamp, YouTube e Zoom. Segundo a organização, além das exibições de filmes, serão promovidas actividades formativas como oficinas, masterclasses, debates, apresentações culturais e a segunda edição do concurso cultural de curtas de 1 minuto, entretanto, para jovens negros oriundos de periferias do Brasil.

O grande vencedor desta edição do concurso, em cada categoria, será distinguido com mil reais, cerca de 12 mil meticais.

 

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