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O País – A verdade como notícia

Da pele do rosto a coisa do tempo, de Guita Jr., encontra-se na fase final do Prémio Literário Glória de Sant’Anna, cujo vencedor será anunciado dia 12 de Maio.

 O título do livro que leva Francisco Guita Jr. à final do Prémio Literário Glória de Sant’Anna é Da pele do rosto a coisa do tempo. Essencialmente, a obra literária é composta por dois cadernos. Primeiro, “Da pele do rosto”, escrito num período em que o poeta tinha a sensação de já ter dito tudo que tinha para dizer. “Mas fui, sem pretensão alguma, apontando aqui e ali frases soltas, pensamentos, ideias. Um dia reuni esses retalhos e disso resultaram as 30 quadras que compõem esse livro”.

Quanto à escrita do segundo caderno do livro, “A coisa do tempo”, o processo foi diferente porque, em termos de forma, o poeta voltou ao formato do seu primeiro livro, que consistiu em escrever poemas soltos, título e corpo, o que considera “poemas individuais”, o convencional. Com excepção de um ou outro texto, os poemas que compõem “A coisa do tempo” são de há dois anos a esta parte. “Então reuni ambos livros e disso resultou o presente volume, que é uma edição da parceria entre a editora angolana Kacimbo e a nossa Ethale [Publishing]”.

Na final desta nona edição do Prémio Glória de Sant’Anna, Da pele do rosto a coisa do tempo, prefaciado por Luís Carlos Patraquim, concorre com mais sete livros. Por exemplo, Regresso a casa, de José Luís Peixoto; roupão azul, de Ana Paula Jardim; e Para não dizer que não falei dos equinócios, de Maria José Quintela. Estar nesse curta lista, obviamente, é agradável para o fundador do Caderno Literário Xiphefu (1987). “Isso já por si é um prémio. É uma forma de crítica/avaliação (que tanto falta à nossa literatura) à obra. Diria que encoraja a seguir o caminho a que me propus. Porque requer, de facto, coragem”. Por isso, o que mais o poeta pode esperar? “Mais nada senão que haja mais leitores interessados em ler o livro. Publica-se para que se leia, não é verdade?”. E a pergunta fica no ar.

Ora, esta não é a primeira vez que a poesia moçambicana está representada na fase final do Prémio Glória de Sant’Anna. Segundo julga Guita Jr., isso é sinal de que a produção literária, no caso a poesia nacional, continua a ter qualidade que sempre teve, desde os seus percursores. E o poeta lembra: “Moçambique foi sempre considerado um país de poetas e é bom que assim continue! A poesia não salva o mundo mas, se for útil, ajuda as pessoas a serem pessoas melhores”.

O grande vencedor desta edição do Prémio Glória de Sant’Anna, que tem como um dos membros do júri Ana Mafalda Leite, será anunciado dia 12 de Maio, no site do concurso literário. Portanto, o vencedor será distinguido com 3 mil euros, cerca de 200 mil meticais.

 

O POETA DO XIPHEFO

Francisco Guita Jr. nasceu em Inhambane, em 1964 Inicia a sua actividade literária no Xiphefo, Caderno Literário, em 1987, do qual é membro fundador. Estreia-se em 1997 com o livro de poesia O agora e o depois das coisas (AEMO – Associação dos Escritores Moçambicanos). Em 2000, publica Da vontade e de partir (Prémio FUNDAC – Rui de Noronha, 1999) e Rescaldo (1.º Prémio de Poesia TDM – Telecomunicações de Moçambique, 2001) pela editorial Ndjira. Lança em Portugal e Moçambique, em 2006, Os Aromas Essenciais pela Editorial Caminho e Ndjira, e Los Aromas Essenciales em 2010, pela Ediciones Baile de Sol, Islas Canárias.

No Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor, livreiros defenderam, na Cidade de Maputo, que é falsa a afirmação de que as pessoas lêem ou não lêem pouco porque o livro é caro. Segundo entendem, os potenciais leitores têm outras prioridades, que não cruzam com a leitura.

As livrarias têm livros para todos os bolsos. E a leitura é importante porque amplia saberes em todos os sentidos. No entanto, tem-se dito que o livro é caro. Os livreiros da Cidade de Maputo discordam. “Se nós estamos preocupados por alguma coisa, fazemos sacrifícios para a obter. Com o livro não é diferente. Só é uma excepção quando não estamos interessados. Se olharmos para os nossos jovens, podemos ver que têm celulares muito mais caros do que um livro, mas, porque estão interessados no celular, conseguem comprar”, explicou o livreiro Laurentino, da Mabuko.
No Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor, os livreiros da Mabuko, Escolar Editora e Paulinas abriram as portas das livrarias para defender que, na verdade, o problema não é o preço do livro, mas a diminuição do interesse pela leitura.
Além disso, desde que as restrições de mobilidade iniciaram em Moçambique, a procura pelo livro também abrandou significativamente. “Quando a escola abre, notamos alguma diferença, porque a procura pelo livro é notável”, disse Jonathan Diamante, da Livraria Escolar.

Por: José Pinto Pinto Lobo

 

Contador de histórias

Tenho visto na net, nas livrarias, em quase todo o lado, livros, excertos, publicações e citações de pessoas famosas, líderes, coaches, psicólogos, sociólogos, escritores, com mensagens positivas, de motivação, bem como belas frases para reflexão e promoção do auto-conhecimento e auto-ajuda.

Partilhamos alegremente tais textos com um único senão, o de provavelmente no dia seguinte já os termos esquecido e, eventualmente, não agirmos de acordo com o seu conteúdo, mas desse pecadilho, ninguém está isento.

Confesso que tenho inveja da aptidão dos palestrantes e influenciadores que conseguem dizer e escrever coisas inteligentes e com sentido todos os dias e assim terem influência na vida das pessoas, alcançando uma multidão de seguidores. Mais ainda do pessoal que vai ao TED e dos seus minutos de fama junto do público e dos incontáveis acessos no youtube e Gosto no facebook!

Infelizmente não tenho essa capacidade ou competência motivacional, nem o talento para burilar as palavras e, sinteticamente, transmitir mensagens de reforço positivo, de incentivo e entusiasmo, que provoquem nas pessoas um frémito, um Uau! na sua imaginação, assim como uma vontade irreprimível de agir e de melhorar. Se o tivesse, talvez estivesse rico ou famoso ou então me tornaria um guru, aparência pelo menos já tenho…

Mas voltando ao que importa, o que me fascina é a simplicidade, a forma como alguém consegue em tão poucas palavras, dizer tanto.

Como tenho a mania de simplificar as coisas, procurei reflectir sobre a minha curta experiência existencial. O que aprendi foi que a força motriz da nossa vida se pode resumir num triplo A, (apesar de não haver agências de notação para as pessoas, com excepção dos nossos pares, por vezes mais cruéis e incoerentes que as próprias agências).

O meu triplo A consiste em três simples palavras: AMAR, ACREDITAR, ALCANÇAR!

Podemos ainda acrescentar mais um A, o de AGIR, que é a chave da mudança.

Creio que todos precisamos de alguém a quem amar, algo em que acreditar e alguma coisa para fazer ou alcançar.

Amar o que fazemos, acreditar em quem amamos, fazer o que amamos, alcançar o que acreditamos, acreditar que alcançaremos o que ou quem amamos. Podemos fazer as combinações que quisermos com estas palavras…

A escolha do Alguém, do Algo e de Alguma coisa é con(v)osco!

 

Por: Dadivo José

 

Tlanguelani ku hanha

Hi ku a utomi I xigwa xaku lomba

Aku hanha swi tsandzili vanu missaveni

Vo djiyela va hoxa ni ntente

 

Celebrem a vida porque a vida é algo que temos por empréstimo

A vida é difícil que algumas pessoas acabaram caçando insectos para sobreviver.

 

Começamos justamente por citar esta receita da vida. Hortêncio mostra aqui o sentido da honestidade com que se deve viver. Já nascemos endividados porque estamos de passagem. O mais importante é a forma como rentabilizamos as nossas vidas. O nosso professor viveu num contexto de Kudakabanda… se fosse hoje diríamos, vivemos num contexto em que a macena ma hlanhili. Faz sentido que ele tenha aproveitado o ritmo e a melodia para recriar uma música que fizera para a campanha de valorização do metical em 1989, quando dizia: “dinheiro custa dinheiro, nunca se deve estragar, por isso cuida bem do seu dinheiro, ajuda o país”. Chamou-nos atenção e não entendemos. O metical despencou e veio o Kudakabanda, justamente o título do álbum lançado em 1998.

Queremos agradecer pela forma como o nosso amigo mereceu a confiança do seu credor da vida e o deu longos 70 anos, para devolver a vida donde levou por empréstimo. Como aquele indivíduo escolhido para codificar as nossas conquistas, as nossas dores, as nossas preocupações, se fez de poeta com humildade para devolver a esperança de amor. Com muita dedicação podemos viver o amor desde o plantio à colheita, como aconselha-nos em a Alirandzu. Falamos de humildade porque a forma como chora para a Teresa que se foi embora, a forma como descreve a beleza da nossa cidade em Maputo, a forma como educa a menina para não correr para o namoro antes do tempo, é típico de quem conhece a arte de manipular as palavras, mas, mesmo assim, como quem só sabe que nada sabe, olha para a sua musa e diz “quem me dera ser poeta meu amor, para te dizer palavas belas”. Prof, tu já eras um poeta, gingão e jovem. Tao jovem quanto as suas ideias inovadoras. Gravar com um menino da idade de Bakili (estudante de música da ECA), participar em tudo que fosse evento da ECA, desde música ao teatro, dar aulas com alegria e mestria, isso é coisa de jovens que sonham. Vamos sentir saudades disso. Os nossos olhos vão procurar o Honda Balade preto com matrícula MMS estacionado algures.  A certeza que temos é que vamos continuar a cultivar este Moçambique através da tua obra para que mais pessoas não se desviem da escola para serem Va nwatimbangue e vamos chegar lá e …, quando lá chegarmos … quando lá chegarmos, dançaremos ao som de Xipandanganda ou de Madjika. Estamos cientes das dificuldades que vamos enfrenta. Sabemos da guerra, a mesma que já tinhas denunciado em Nyandayeyo, que leva homens e mulheres a experimentarem um turismo geográfico forçado. Escalam montanhas fugindo dos homens armados, escondendo-se nas bandas de Malawi, Zâmbia e Zimbabwe, até sair rachas nos pés. Não adianta reclamação que está nos rostos de gente amordaçada, não adianta ver as lágrimas  das crianças absorvidas por uma terra impiedosa.  E só Nyandayeyo de um homem que, as vezes, desiste da vida, entregando-se ao álcool para esquecer a pobreza e guerra, e dormir sem sequer se reconhecer. Ni ta phuza ni k uga txotxovoloooo ainda que não seja a solução porque dia seguinte, os filhos estarão ali pedindo pão, pedindo uniforme e mais responsabilidades de um pai derrotado pelas dificuldades. Ainda bem que tu, colega, prof. Hortêncio, tio Hortêncio, mais velho… e mais designações que te permitias atribuir, foste sempre um exemplo para os teus meninos, esposa, netos e demais familiares, a quem endereçamos as nossas mais sentidas condolências e aproveitamos pedir que nos ajudem a celebrar este crédito que é a vida e contigo, todos os dias.

Um abraço tio Hortêncio.

Dadivo José, em nome dos docentes da ECA

Maputo, 16 de Abril de 2021

Os últimos tempos têm sido funestos. Trágicos, na dimensão humana, de gratuita e brutal violência, no campo militar. Catástrofes humanitárias desproporcionais, agora, acrescidos pela súbita partida deste iconoclasta, na área da diplomacia.  Abril, mês da revolução dos cravos, fermento das nossas independências, tem sido de insofismáveis contrariedades.

Coincidência, foi o mês em que Oldemiro despontou para vida e beijou a luz do sol, pela primeira vez. Franzino representava esse aguardado “varão” que a família Baloi almejava. Ainda, em Abril, apagou sua chama. Partida súbita. Ponto final à uma peregrinação multidimensional e tantas contingências. Porém, não será o final de um lendário e previsível diplomata. Os desdobramentos diplomáticos se estendem pela eternidade.

Quis convocar o Oldemiro para revisitar suas múltiplas dimensões. Me ocorreu pensar no que ele mais insinuou. “Nunca o homem é tão grande como quando está de joelhos”. Esta sua abordagem sobre a grandeza, me remeteu para “o invisível, a sua sombra e o seu reflexo”, de António Bizarro. Pensar no reflexo do invisível, equivale a assumir que qualquer intenção humana reside em descrever o óbvio; o racional; o aceitável.

Oldemiro, como todos nós, viveu nesta sociedade cuja espontaneidade da relação é a ideologia, política e religião. Obscurantismo. Tinha a consciência que a ideologia não era visão imposta, antes, um movimento do qual tomamos parte voluntariamente. Oldemiro foi instruído na ríspida e assertiva educação de seus pais. Presbiterianos convictos e assumidos. A vivência cosmopolita lhe granjeou valores de outra índole.

Foi o icónico Chamanculo, sem descurar a Malanga e, até, a Matola, que moldaram sua personalidade. Essa efervescência dos nacionalismos, recriou e refinou os seus gostos, muito particulares, pela leitura, arte, desporto e música. Descodificou os sons da música apelativa e da exaltação pela Liberdade. Requebrou a Marrabenta e Xitchuketa, assobiando sustenidos de Rumba e Calipso. Cantarolou Baladas, Rock, Pop e Blues. Fixou-se no Jazz e Funk e, até, na música clássica ou erudita.

Frequentou os liceus quando a forma estética do mundo o impelia a escutar lições sobre liberdades, igualdade, fraternidade, enfim, as Primaveras estudantis e os movimentos nacionalistas.  De estudante, saltou para condição de Mestre. Na época, professor de Matemática, na Escola da Frelimo, depois na Josina Machel. Não tardou para que procurasse, nos bancos universitários, os  cânones da economia. Sua vida era esse somatório de sonhos e vontades.

Oldemiro chegou a diplomacia pelas vias menos ortodoxas. Presidente Chissano o tratava, carinhosamente, por feiticeiro. Não era metáfora. Semelhança de significados. Era o feitiço de realizar, produzir resultados  e encantar pela preciosidade da execução das missões. Reflectia o espelho invisível que o próprio Chissano alcançara, anteriormente, na mesma posição.

Confessava que se revia como gestor bancário. A diplomacia era consequência. A sua companheira de sempre, Judite Baloi, teve esse peso significativo na transformação da sua personalidade e, sobretudo, no alinhamento das suas intervenções públicas. Ela é, igualmente, diplomata por natureza, sempre atenta ao retoque discursivo, cuidando das posições extremadas ou mais conciliatórias.

Forçado pelas circunstâncias e pela debandada colonial, Oldemiro passou, com sucesso, por algumas dessas empresas públicas que roçavam o despencamento e a falência. Saltou, pouco depois, para a oportuna comissão de relações económicas exteriores. O trampolim que reanimou e relançou  a cooperação económica moçambicana. Mozal foi um exemplo, apesar das contrariedades.

Oldemiro cruzou oceanos e confrontou experientes gestores e diplomacias financeiras. Aprendeu o sentido e valor de instituições fortes. Esta seria a primeira característica que o tipificava. Dimensão institucional. As nossas instituições, as que regulam os mecanismos de ordem social, comportamental, cultural e educacional, continuam pouco consolidadas. A sua ordenação e os processos de socialização, são nivelados pela mediocridade, inoperância, inexperiência e ausência de meritocracia. São pouco funcionais.

Oldemiro fez parte da geração dourada do pós-independência. Conquistou, neste período, a dimensão e espírito nacionalista. Nacionalismo moderno e moderado funcional. A geração que fez a ponte entre a transição e a afirmação identitária. Este seria o segundo argumento para o recordar. Com a sua contribuição intelectual, e de tantos outros que se revêem neste espelho, Moçambique se reergueu de um devastador conflito político e militar, que dilacerou o tecido social e produtivo da nação independente. Buscar a paz, por todos os meios, impunha capacidade de auscultar e reconciliar.  Sonhava com um país reconciliado e unido. Estes sonhos são ainda uma miragem.

Mas, o nosso bom Oldemiro que, como qualquer ser humano, era exaltado por muitos, e contrariado por poucos, vivia de pragmatismo. Na sua terceira dimensão, a tecnocrática, prostrado aos valores da verticalidade, também se alimentava de resultados. O seu carácter exigente e inflexível, parecia andar na contramão da diplomacia convencional. Aliás, nem é por acaso que nunca assumiu ser diplomata. Não o era por formação técnica, mas, pelas responsabilidades institucionais. Estes condicionalismos fizeram dele incontornável na diplomacia de corredores. Ou não fosse o lema “fazer amigos e aumentar as parcerias”, o tom que conferiu a sua passagem pelo Ministério.

Na  dimensão da liderança, ele se fez  respeitado no país, região e mundo. A sua postura e transversalidade o impeliram a lidar com matérias complexas. Algumas atitudes e posicionamentos, algumas vezes, mal interpretados, criavam esta espécie de ruptura nas tradições e percepções.

Oldemiro era talhado para a cidadania. Dimensão cidadã. Um dos seus argumentos principais coincidia com valores e regras societárias que parecem em vias de extinção. Se insurgia com a abusiva forma de condução pelas nossas estradas, pelo à vontade com que se usam as árvores e passeios para alívio dos excessos corporais. Cortesia e educação cívica, não eram só um lema, mas uma obrigatoriedade. Sabia que tudo isso estava dependente de uma educação de base. Entendia que a quantidade era inimiga da perfeição. Se assustava com a incapacidade das crianças de absorver conhecimento essencial. Mas, também, não tinha soluções.

A sexta dimensão, óbvia, seria a internacionalista. Um ministro que conviveu com diferentes presidentes, consagrados chanceleres da arena internacional, líderes partidários. Ele era essa espécie de “ponta de lança” do “Real Politics”, como o tipificaram Fernando Sumbana e Mohamed Rafik, dois cúmplices, amigos e colegas. Foram mais longe, apelidaram-no de “Homem novo”, o sonho irrealizado que a revolução engendrou, porém, cujos fundamentos se esfumaram de forma inexplicável e lamentável.

Como articulador regional e diplomático, aliás, rotulado por homem de  firmeza, delicadeza e postura fina, Oldemiro não teve a oportunidade de testemunhar a celebração dos vinte e cinco (25) anos da CPLP. Esta organização que estimou e emprestou seu talento e experiência. CPLP continua sendo um espaço, aparentemente, unido pela língua, porém, desunido por outras divergências, e ausência da livre circulação de pessoas e bens. Na sua perspectiva, CPLP deveria pertencer aos cidadãos e reconcilia-se consigo própria. Mantemos presentes o seu contributo no apoio à reconciliação da Guiné-Bissau. Neste país, chefiou um grupo de observadores nas últimas eleições.

Neste momento que sai de cena, me recordo como ele cuidou, de forma directa e didáctica, do primeiro grupo de ministros que acompanhou o actual presidente, no governo de 2015. A eloquência e a colocação das questões eram de tal forma coloquial e expressiva, que aparentava ter semanas de  ensaio. Tamanha clarividência. Ela parceria o chefe de turma, não indicado, mas assumido, como modelo e guia. Uma espécie de bíblia de governação. Nem deve ser por acaso que serviu três presidentes. Poucos terão esse privilégio.

Guardo os seus argumentos quando Moçambique passou pela crise dos Refugiados no Malawi, em tempos nem por isso tão remotos. O discurso retórico do mainstream minimizava a situação. Ele colocou, de forma aberta, a situação real, desfazendo equívocos e desconstruindo argumentos incoerentes e até a roçar ao populismo.

Era assim este homem multifacetado e amigo de verdade dos seus amigos. Não perdia uma única apresentação do Xiquitsi, vestindo-se a rigor para cada exibição. Esta era a sua dimensão humana e cultural. Com a mesma dedicação caminhava, invariavelmente, todas as manhãs pela calçada da marginal, como se a caminhada fosse a última das suas energias. Mas, era, também, um coleccionador invejável de livros. Na sua biblioteca caseira, guardava de tudo um pouco. Da vasta bibliografia que trazia das suas deslocações. De ficção a ciência, religião a cultura, economia e política, romances ou até contos infantis. Quase todos os autores moçambicanos. Livros e leituras que o ajudaram a catapultar sua passagem pelo mundo e pela vida. Também, por isso, foi galardoado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, pelo governo brasileiro. Porém, o seu maior galardão foi ter servido Moçambique e os moçambicanos.

Até sempre Oldemiro.

Por: Belchior Eduardo

 

Nas ruas ávidas de total paz e silêncio, caminham os habitantes que dela desfrutam. Apenas ouvem-se pássaros e meninos que sobrevoam e saltitam inconsequentemente.

Os escombros de uma presença colonial são visíveis na zona. Importadas de Goa, cobrem-na esculturas ao estilo de abóbadas herdadas da Roma Antiga, edifícios erguidos por pedras e, por um lado, paradoxalmente, por palhas de coqueiro. Localidade atravessada por uma majestosa ponte, avenidas, ruas e picadas pavimentadas, são heranças resultantes do título da primeira capital daquele longínquo país, coberto por águas azuis.

Índia foi o nome que baptizaram a zona devido à presença de uma senhora de ancestralidade da Índia e na qual fornecia diversos alimentos com a sua mercearia para quem ali vivesse e para quem por lá passasse. De altura média, agora na terceira idade, a fala testificava também essa ancestralidade. Amava demais seu único filho, muito protectora na qual dava tudo que quisesse desde a tenra idade.

Habib, seu filho de trinta e tal anos de idade, ainda morando com a sua mãe viúva, a dona Índia (aquela nata comerciante), bebedouro alcoólico, famigerado mulherengo muito conhecido como o mulato delas, com o ensino básico geral não concluído, não há quem não o conhecia. Também conversador, simpático, heeeeee aquele movimentava a zona. Gostava de lograr seus intentos através da sua mãe, no qual apoiava desde para coisas tóxicas até para coisas sérias (apesar de falhadas inúmeras vezes). Dono de tudo da sua mãe (como ele pensava), sem tempo para ficar na mercearia ajudando sua mãe, ahhhh aquele era muito curtidor mesmo. De cor meio branca,  altura para modelo, sempre muito bem vestido, com aquelas roupas de muenwe,  olhos azuis e com penteado sempre no ponto.

Eu, vizinho da dona Índia, reformado da polícia, de estatura média alta, pele negra e cabelos invadidos pela idade. Sentado, gastando meu tempo de reforma na minha cadeira à moda antiga, passando o ar todo santo dia defronte a essa magnífica mercearia via todo movimento dali.

Jossias, um amigo incondicional de Habib, negro farto pelas viadas nocturnas, achado a gostosão, sempre asseado à estilo de funcionário da banca,  a um jovem talvez endilheirado (apesar de não se saber a proveniência do dinheiro), revelou-me nos seus unguentos alcoólicos que Habib gostará de manter o controlo, pois a sua mãe já se encontra velhinha e devia “reformar” das suas actividades, e eu, apoiando-me no dito popular, que boca aberta não entra mosca, apenas calei-me e também não notei relevância daquilo devido ao estado do mesmo.

– Bom dia, dona Índia, como está?

– Bom dhia, senholi vizinho, como está?

– Estou bem, graças a Deus.

– Obligado.

E de longe, uma discussão no interior da mercearia:

– Porque não ficale aqui ajudal sua mãma velha a vender pessoas?

– Eid ajudar, mãe, vou tratar umas boladas com o Jossias.

– Você sempre dizer assim, mas não ajuda mãma, quando vir pedir dinheiro não vou te dari.

– Ahhh, mãe, não me chateia você, eu disse que voltarei e estarei aí a te ajudar. Também você já está velha porque não deixa isso para mim? Pedes ajuda, mas ficas aí a me controlar tipo sou ladrão. É isso que não gosto, se estou ajudar-te tens que ir descansar e não ficar aí a me controlar.

Saiu batendo forte com a porta no seu tabuleiro e foi-se. Um dia, decerto, aquele jovem trará problemas sérios à sua pobre mãe.

Os dias foram correndo como de um redemoinho se tratasse. Vinha a chuva seca e parava assim sucessivamente.

– O que se passa aqui? Perguntei-me, pois via um fluxo de carros e jovens alcoolizados neles com mulheres diversas todas semi-nuas.

– Habib, estás a criar barulho à vizinhança. Disse eu.

– Relaxa, cota, a vida é única. Tens que curtir. Falou Habib dando mais um gole daquela cerveja nacional e batendo na bunda de uma das mulheres ao seu lado.

De repente, saía sua mãe com vestes de dormir a reclamar o mesmo que eu.

– Descele daí você Habib, está fazele balulho a todas essas pessoas, Habib você um dia vai me matale. Se seu pai não mollia ia te indileitale bem.

– Mãe, vai dormir. Estou a curtir a vida. O que se passa mesmo? eu sou maior de idade e sei o que faço, disse Habib.

– Relaxa querida, minha mãe é assim. Estás a ver, tudo isso é meu, estás a ver só? Cochichou, Habib, para uma das moças que estava com eles assistindo sua mãe a entrar.

– Meu amigo, já são três da madrugada. Eu vou com duas e você fica com duas, o que achas? Perguntou Jossias.

– Ya, pode ser! Por hoje chega, mas ando muito fudido com essa cota. Ela olha-me como se eu fosse uma criança e isto farta-me, respondeu Habib.

– Então até amanhã, às 11, naquela esquina, mas trata dessa cota de uma vez por todas, você não é puto. Despediu-se Jossias em viva voz.

Eu e outros moradores entramos em nossos aposentos para nos recolhermos.

No dia seguinte, uma voz de ébano nos despertou.

– Mayeee, mayeee patarao aka owokhotiwa, murwasse, murwassen (ai, ai minha patroa foi assassinada, venham, venham).

De quem são esses gritos logo pela manhã? Perguntei a mim mesmo.

Saí as correrias quase que descamisado em direcção a voz e os murmúrios de vozes assombradas de algum sucedido.

– O que se passa? O que aconteceu?

– A dona Índia faleceu. Respondeu alguém.

– Faleceu como!? De madrugada estávamos cá com o seu filho e seus amigos como é possível? Perguntei admirado.

– Foi assassinada, estrangulada o pescoço e deixada no chão da sua mercearia. Uma voz respondeu na multidão.

– Onde está o Habib, perguntei.

– Está a dormir ainda. Respondeu o seu empregado no qual descobriu o corpo a dentro.

Eu e dois jovens fomos em direcção ao quarto do Habib e encontramo-lo inconsciente devido à ingestão de bebidas alcoólicas, porém sem as duas moças que todos presenciamos a entrada delas no quarto na última madrugada junto.

– Habib, Habib acorda, não estás a ouvir o barulho? Acordei-o

– O que se passa? Perguntou ele

– Sua mãe faleceu, assassinada. Retorqui.

– Onde ela está? Perguntou Habib.

– Na mercearia. Disse-lhe.

Vendo o corpo estrangulado, e, de repente, ouvindo gritos de choros, lágrimas por todo lado apoiado num travesseiro que ela usava em sua cadeira antiga para afagar as suas dores de coluna vertebral, lamentava-se Habib pela morte da sua mãe.

– Desculpa, mãe, desculpa por não ser o filho que desejavas que eu fosse. Desculpa, mãe. Dizia ele, lamentando-se diante do corpo, colocado em suas pernas.

– Vamos chamar a polícia, vou ligar à polícia. Disse eu.

E assim, fizemos.

Quem poderá ter assassinado a dona India? Habib, para definitivamente herdar a mercearia, a casa e outras propriedades da sua malograda mãe? Jossias, que via a mãe do seu amigo como um entrave nas suas andanças? As duas supostas companheiras de Habib, na última noite talvez para um assalto ou algo do género? Um cliente insatisfeito (apesar de não existência de um sinal de arrombamento da porta)? Quem poderia cometer tamanha barbaridade a uma velha viúva simpática e que ajudava todos? Foram perguntas que todos ao redor se faziam.

 

Continua …

 

 

 

Os primeiros autores, que se vão beneficiar do apoio financeiro do Instituto Nacional de Indústrias Culturais e Criativas (INIC), em representação do Governo, são Licínio Azevedo, Gabriel Mondlane, Elísio Bajone e José Augusto Nhantumbo (Zegó). O anúncio foi feito pelo júri, esta terça-feira, na Cidade de Maputo.

 

Em Novembro do ano passado, o Ministério da Cultura e Turismo lançou a primeira edição do concurso para apoio e financiamento à actividade audiovisual e cinematográfica. Cinco meses depois, os membros do júri reuniram-se, no Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas, na Cidade de Maputo, para anunciar os grandes vencedores do concurso, que são Licínio Azevedo, com o projecto Nhinguitimo; e Gabriel Mondlane, com o projecto Palma penosa, ambos na categoria de ficção.

Na categoria documentário, os projectos vencedores são intitulados Marcas do terrorismo, de Elísio Bajone; e Ungulani Ba Ka Khosa, de José Augusto Nhantumbo (Zegó).

Nesta primeira edição do concurso para apoio e financiamento à actividade audiovisual e cinematográfica, os filmes de ficção receberão, cada, 800 mil meticais para a produção. Os documentários, por sua vez, receberão 1.200.000 meticais cada.

Ao fim de 10 anos a tentar obter financiamento para o seu filme, Gabriel Mondlane vai, finalmente, rodar Palma penosa, “o que me deixa emocionado, porque vou poder realizar o meu sonho. O projecto tem a ver com a pesquisa que fiz sobre a relação entre os mais novos e os mais velhos”, afirmou Gabriel Mondlane.

Na cerimónia de anúncio dos vencedores, igualmente, esteve Elísio Bajone. O autor de Marcas do terrorismo optou por um projecto que busca retratar o lado humano da situação em Cabo Delgado. Nesse sentido, a ideia do realizador não é retratar a guerra, mas os seus efeitos. “Procuro trazer este lado humano da guerra, este espírito de acolhimento de alguns moçambicanos que recebem famílias deslocadas”.

A confrontação ao júri

Mal que o júri anunciou os vencedores do concurso, do auditório ouviu-se Amosse Mucavele. Insatisfeito, o poeta confrontou o júri pelo que, segundo fez entender, constitui um desrespeito ao regulamento do primeiro concurso para apoio e financiamento à actividade audiovisual e cinematográfica no país. Essencialmente, Mucavele quis saber por que o júri avaliou os trabalhos de autores consagrados, quando o regulamento prevê que, no concurso, são elegíveis novos autores. O debate levou minutos e, mesmo depois das explicações de Karl de Sousa, Ana Magaia, Djalma Lourenço e Fátima de Albuquerque (membros do júri), Amosse Mucavele não ficou satisfeito.

A sustentação do júri

Confrontado pela observação de Amosse Mucavele, o júri concordou que parte do financiamento do concurso deve ser dirigido às novas obras e à formação dos novos autores. “Esse é um trabalho que deve ser feito antes de começar o próximo concurso, de modo que projectos de qualidade possam ganhar peso e a história possa ter um bom fio condutor. Isso está na proposta apresentada ao INIC”. Depois, o júri acrescentou: “Nas próximas edições, temos que ser mais cuidadosos à resposta dos jovens talentos. Nós também estamos preocupados que os jovens talentos apareçam”. Entretanto, a pergunta de Amosse Mucavele referia-se à presente, e não à próxima edição.

O que diz o regulamento

O Artigo 3 do regulamento do concurso do INIC diz: “1. Este Regulamento aplica-se aos seguintes programas: a) Apoio aos novos talentos e primeiras obras”. Este foi o número invocado por Amosse Mucavele para contestar a decisão do júri (Djalma Lourenço, Ana Magaia, Karl de Sousa, Fátima Albuquerque e Sérgio Libilo) ao anunciar vencedor projectos de Licínio Azevedo e Gabriel Mondlane.

A exposição de Filipe Branquinho, Butcheca e Luís Santos, na Feira de Arte Arco Lisboa, conta com a curadoria de Élia Gemuce, da galeria Arte d’Gema. As obras que compõem a série Distras estão expostas online desde 15 deste mês.

O título da exposição que apresenta as obras de Filipe Branquinho, Butcheca e Luís Santos, na Feira de Arte Arco Lisboa, é Distras II, ou seja, um momento de pausa e de reflexão em que os artistas invocam a reflexão sobre determinadas realidades e certos contextos.

À Feira de Arte Arco Lisboa, os três artistas expõem com curadoria de Élia Gemuce, da Arte d’Gema, galeria que tem investido na internacionalização das artes moçambicanas e dos seus autores. Na verdade, a participação de Filipe Branquinho, Butcheca e Luís Santos surge depois de, há alguns anos, a Arte d’Gema ter participado com sucesso naquela iniciativa portuguesa, numa edição que contou com a parceria da curadora angolana Paula Nascimento, responsável pela apresentação das galeria africanas na Arco Lisboa.

Impossível de repetir uma presença física, devido às restrições impostas pela COVID-19, a Arte de Gema aderiu à exposição online na plataforma da Arco Lisboa.

À feira, Filipe Branquinho levou um conjunto de seis fotografias documentais, que estabelecem a relação da fotografia do espaço arquitectónico e das pessoas que habitavam na Vila Algarve, Cidade de Maputo, antiga sede da PIDE. É um trabalho em progresso, que o fotógrafo iniciou em 2004. “Tentei fotografar a Vila Algarve porque achei interessante que aquilo que foi um espaço da polícia, de prisioneiros e de violência tenha se transformado em um espaço de pessoas sem abrigo, que procuraram fazer daquele espaço um lar”.

Por sua vez, o artista plástico Luís Santos levou à exposição seis desenhos em tinta-da-china sobre cartolina vermelha. As obras “falam desta overdose de informação da media e da internet. Somos sempre bombardeados com informação e interesses. E, por isso, passamos muito tempo ligados, conectados online e desconectados nas nossas vidas”. Luís Santos interessou-se com a situação e a retratou em tela.

Com a curadoria de Élia Gemuce, a mostra Distras II, na Feira de Arte Arco Lisboa, pretende dar visibilidade aos artistas moçambicanos e apoia-los neste contexto em que não estão a ter rendimento ‘normal’. Além disso, a curadora da Arte d’Gema entende que esta é uma oportunidade de os artistas mostrarem o seu trabalho e manterem diálogo com o público. Além disso? “Percebemos que tínhamos poucos artistas moçambicanos conhecidos fora. Estamos a apostar na sua internacionalização”, afirmou Élia Gemuce, esta segunda-feira.

Filme de João Ribeiro venceu três prémios no Festival Brasil de Cinema Internacional: Melhor Longa-metragem, Melhor Figurino e Melhor Actor Co-adjuvante. O anúncio foi feito pela organização do evento terça-feira.

A longa-metragem de João Ribeiro, Avó Dezanove e o segredo do soviético, voltou a trazer prémios a Moçambique. Há dois dias, a obra cinematográfica conquistou três prémios na sétima edição do Festival Brasil de Cinema Internacional. Assim, a realização de João Ribeiro venceu os prémios de Melhor Longa-metragem, Melhor Figurino (Sara Machado) e Melhor Actor Co-adjuvante (Flávio Bouraqui).

Numa publicaçao feita na sua página Facebook, João Ribeiro voltou a lembrar, como sempre que ganha um prémio, que o cinema é uma arte colectiva. Por isso mesmo, afirmou: “fantástico receber estes reconhecimentos pelo trabalho feito por nós”.

A sétima edição do Festival Brasil de Cinema Internacional teve lugar na Cidade do Rio de Janeiro, entre 5 e 13 deste mês. Aquele evento cinematográfico tem como objectivo principal a difusão e a premiação da produção audiovisual mundial e o encontro dos profissionais e amantes do cinema,  possibilitando o intercâmbio entre produtores, distribuidores e exibidores, no intuito de promover a indústria cinematográfica, formar público e aproximar os realizadores do público formado.

Esta não é a primeira vez que o filme de João Ribeiro foi distinguido. Além do Brasil, Avó Dezanove e o segredo do soviético também foi laureado na Alemanha, em Cabo Verde e no Quénia.

Adaptado do romance do escritor angolano Ondjaki, o enredo de Avó Dezanove e o segredo do soviético passa-se numa cidade para além do tempo e da geografia, num bairro não identificado, que ganha assim contornos quase mitológicos. É aí que vive Jaki, o protagonista da história.

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