Skip to main content

O País – A verdade como notícia

A Associação Cultural Kulungwana premiou, esta quinta-feira, três artistas plásticos no concurso “Prémios Melhor Futuro”, nomeadamente: Faira Beatriz, P. Maumby e Vado.

A cerimónia de entrega dos prémios realizou-se esta quinta-feira na Galeria Kulungwana, na baixa da Cidade de Maputo. Visivelmente satisfeitos, os três artistas laureados Faira Beatriz, P. Maumby e Vado (Valdemar Mariano) receberam da organização lembranças como a certificação da vitória.

Reagindo ao prémio, Faira Beatriz disse que se sentia honrada por merecer o reconhecimento do júri do concurso “Prémios Melhor Futuro”, iniciativa da Associação Cultural Kulungwana wm parceria com a Hollard Seguros. A seguir, a artista em fase inicial de carreira acrescentou que o seu privilégio estende-se à participação na série de exposição colecção, que, este ano, teve adesão de 147 artistas provenientes de oito províncias nacionais.

Logo depois da cerimónia terminar, falando igualmente da distinção, Vado defendeu que a iniciativa da Associação é interessante para artistas plásticos que se querem expor numa plataforma com impacto, daí ter-se candidatado.

Com o tema “Futuro”, a exposição Colecção Crescente 2021, que dura há 10 anos consecutivos, de onde foram retirados os três vencedores,
junta 323 obras e é realizada em parceria com a Hollard Seguros Moçambique. “Esperamos com esta parceria poder contribuir para um futuro melhor dos artistas moçambicanos”, afirmou Henri Mittermayer, CEO da Hollard Seguros Moçambique.

Entre os nomeados desta edição dos “Prémios Melhor Futuro”, além dos três vencedores estiveram Butcheca, Pinto Zulo, Tsenane e Zadoc.

 

OS PRÉMIOS
Por terem sido distinguidos nos “Prémios Melhor Futuro”, Faira Beatriz, P. Maumby e Vado irão participar numa residência que vai durar uma semana no Artist Proof Studio de Joanesburgo, conforme realça a Associação Kulungwana, um dos mais prestigiados estúdios de gravura na África do Sul. As despesas de viagem, acomodação e alimentação estarão garantidas pela Hollard Moçambique.

Durante a residência artística, avança Kulungwana, Faira Beatriz, P. Maumby e Vado terão a oportunidade de aprender novas técnicas, como linogravura, ponta-seca e monotipia. Igualmente, os três artistas deverão integrar exposições na Galeria White River na África do Sul, no segundo semestre.

A celebração do livro infantil organizada pela Associação Kulemba inicia no dia 16 de Junho e vai prolongar-se até 20 do mesmo mês. O festival tem como patrono Mia Couto e contará com a participação de escritores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

 

O que se pode considerar pré-lançamento do Festival do Livro Infantil da Kulemba (FLIK) aconteceu esta quarta-feira, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Na sessão informal, estiveram Mia Couto, patrono do festival, e Dama do Bling, uma das escritoras convidadas para a edição deste ano.

Entre lembranças e abraços virtuais, afinal Mia Couto assinou o prefácio do livro de estreia de Dama do Bling, Melissa e o arco-íris, os dois autores concordaram sempre no que se refere à importância da celebração do livro infantil no país. O primeiro a falar da iniciativa da Associação Kulemba foi o Mapeador de ausências. Segundo disse, o festival é um evento raro, jovem, que pretende espalhar a palavra literária e a criação artística, orientado para escola, para aqueles que devem saber que não podem ser formados se não se entregarem ao livro e à narração de histórias. Além disso, há também um lado afectivo que leva Mia Couto, em particular, e a Fundação Fernando Leite Couto a associar-se à iniciativa da Kulemba. “Nós somos da Beira. Então, termos este festival a realizar-se lá diz-nos muito. É como se fosse um vínculo”.

A presente edição do Festival do Livro Infantil da Kulemba vai decorrer através das plataformas digitais. No evento não faltarão conversas com crianças, debates, lançamento de livro, representação/ performance e três concursos: literário, de redacção e ilustração. Sobre os concursos, Mia Couto, que vai presidir o júri do prémio literário, afirmou: “Acho que é importante que o jovem tenha um estímulo para competir, mas precisa de compreender que essa competição não é ao nível individual. Ou seja, não escrevemos para ganhar os outros, mas para ganhar com os outros”.

Quem também não resistiu ao convite de participar nesta edição do FLIK é Dama do Bling. A cantora e escritora disse que se sente privilegiada por poder conversar à volta do seu livro Melissa e o arco-íris no festival. “Sempre que posso, associo-me a este tipo de movimento que envolve a leitura, pois a leitura está muito associada àquilo que queremos trazer a um Moçambique perfeito. Quando fiz Melissa e o arco-íris, com prefácio de Mia Couto, uma daquelas coisas que me faz pensar que vou morrer realizada, escrevi trazendo o intuito de deixar mais do que música como legado”.

Bling lembrou que trabalha muito com crianças e adolescentes. E sublinhou: “Fazer a obra e dar palestras com crianças é um acto de libertação. Temos de dar continuidade às coisas que fazemos. Espero contribuir bastante neste projecto”.

Apesar de ser conhecida como cantora, Dama do Bling sente-se realizada na escrita. Mas advertiu que não é fácil ser escritora e ainda explicou por que é importante estar com outros autores: “O amor pelas coisas que fazemos só importa quando é partilhado. Estes intercâmbios são importantes para perceber que caminhos devemos seguir na nossa arte”.

O FLIK 2021 vai acontecer em parceria com o Centro Cultural Português em Maputo. “É uma bela iniciativa, que nós temos muito orgulho em estarmos associados. O festival vai promover a literatura moçambicana e em língua portuguesa”, afirmou João Pignatelli, Director do Centro Cultural Português em Maputo.

A partir da Cidade da Beira, onde vive, o Director do FLIK referiu-se aos objectivos e ao que move a iniciativa. “O Festival do Livro Infantil é um prolongamento das actividades da Associação Kulemba e tem como objectivo promover a leitura. Achamos que, ao invés de forçarmos as crianças a ler, devemos encontrar um conjunto de actividades entre lúdicas e sérias para que sejam levadas à leitura. Com esta actividade, estaremos a estimular o gosto pela leitura e pela escrita, o que contribui para educação em Moçambique e para o desenvolvimento psíquico das crianças”, esclareceu Dany Wambire.

 

 

No dia 19 de Maio, às 17h30, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo e a Delegação da União Europeia em Moçambique inauguram uma exposição de fotografia intitulada “HOMO URBANUS EUROPEANUS “, uma selecção de obras do fotógrafo francês Jean Marc Caracci. Esta exposição integra as atividades alusivas à Semana da Europa 2021 e faz parte da programação cultural que a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia está a promover em diversos países.

HOMO URBANUS EUROPEANUS apresenta imagens a preto e branco de 27 capitais europeias. Os habitantes urbanos e o seu ambiente foram o mote que levou este fotógrafo francês a percorrer todas as capitais europeias e a registar momentos inéditos e muito peculiares que relacionam o cidadão com a arquitectura e urbanismo e se distinguem de outras fotografias tradicionais de espaços icónicos e turísticos que habitualmente são associadas a estas cidades. O olhar atento e muito particular de Jean Marc Caracci permite ao público viajar pela Europa, contemplar a sua diversidade e imaginar um discurso particular em cada uma das imagens apresentadas nesta mostra organizada para Maputo.

A série HOMO URBANUS EUROPEANUS, que tem sido muito apreciada internacionalmente já foi apresentada em mais de 50 exposições, em 26 países diferentes. Em Maputo, estará patente ao público no Camões – Centro Cultural Português de dia 20 de maio a 11 de junho de 2021, de segunda a sábado, entre as 11h00 e as 17h30 (entrada gratuita).

No âmbito do contexto actual a cerimónia de abertura será reservada a convidados e respeitará todas as medidas adequadas de higiene e segurança definidas pelas autoridades competentes.

 

 

Por: Reinaldo Luís

 

 

Este mês, de maio, decidi lembrar Elsa Mangue. Não pela morte, e nem pela vida – pálida e cruel a que foi sujeita durante os seus 56 anos na terra. Faço-o porque, acredito, ser uma manifesta entrega à solidão. Relembro e tolero, aqui, a solidão, o ancorar da voz suave de uma menina de Zavala, filha de régulo, quejanda das agruras. E são, precisamente, sete anos que, entre os esplendores da luz perpétua, encontra o alento, o descanso merecido.

Não digo nenhuma novidade ao afirmar que Elsa Mangue merecia mais do que demos e que o Estado o devesse muito mais. Mas aí está: qualquer homenagem que se preste agora é fruto dessa solidão que nos acostumou e nos deixou. E o Estado, esse, qualquer tributo que possa prestar às grandes figuras artísticas da história deste país é/será sempre feito de ausências. É o que nos acostumam enquanto vivos e nos oferecem na morte, na dose máxima da indiferença.

Elsa Mangue, como outros bons artistas perecidos nesta pérola, viveram imerso no meio dessas antinomias, onde aproveitamentos e apontares do dedo do meio se misturam na algazarra de assobios e saudações com champanhes. A ideia da valorização, do cuidar, do proteger e do querer o bem convive com a exploração intensiva, quais lobos em peles de cordeiros. É o que temos. Aceitamos…e a roda da vida move-se.

E naquele setembro de 2014, quando deu o seu último suspiro, era o “azar” e a vida no extremo intersecto. Depois de 56 anos de lágrimas, vontades, pavores, renúncias e várias mortes da alma. Era o fim, colorido de esperança e carregado de ar novo para encher os pulmões atónicos. E a voz? Continuou acutilante, qual marca da sua vida, revivendo a solidão, a indiferença, a tristeza, a dor, a vida, a morte. E como sempre, foi do mesmo jeito: voltou à Zavala, sua terra natal, a bordo de uma carinha “my love”, entre a chaparia, um caixão e capulanas como cobertores, tal como veio à Maputo na ventosa quarta-feira do dia 18 de Agosto de 1974, aos 15 anos.

E foi assim: nasceu a 14 de setembro de 1958, em Inhambane, no distrito de Zavala. Foi baptizada Elisa Filipe Mudumane, filha de Filipe Mudumane Mangue, grande régulo, e de Doroteia Carlos Mutlombene, a 36.º esposa do regulado, com cerca de 162 irmãos. Sua mãe foi entregue ao Mudumane, como mulher, aos 12 anos de idade num tratado de cooperação. De imediato fez parte do regulado, onde teve Elsa, ainda no auge da adolescência.

Foi negado o direito à educação pela madrasta, Dona Marta, supostamente para não ser “puta”. Por isso, os seus dias no regulado, quando não estava a cuidar dos irmãos pequenos, eram feitos na machamba e no rio, das 5 horas da manhã às 16 horas. Tinha apenas sete anos.

Aos 15, Elsa foge da casa do pai, em Zavala, para Maputo. Era uma quarta-feira, à noite, quando todos estavam a dormir. Caminhou em direcção à Estrada Nacional Número 1, durante um dia e uma noite sem parar. É aqui, na capital do país, onde a narrativa da sua mísera condição humana retoma. Buscando memórias do abandono, na solidão, cantou “Lágrimas”. Aproveitada, por homens energúmenos, cantou “Fim de estrada” e “Kuni Kanganhissa”, a maldizer Joshua, seu eterno amor. Humilhada, cantou “Tindjombo”. E também quis largar tudo, voltar para sua casa, encontrar sua mãe. E fê-lo a partir das suas entranhas. Transitou a dor, o sofrimento, o passado, a vida de música em música até o último suspiro.

 

 

Por: Belchior Eduardo

 

– Quem achou o corpo? Perguntou o inspector logo que chegou ao local do crime.

Era um homem magro, de pele escura, altura baixa, daquelas que não fica bem em um homem, trajava casaco cinzento comprido, colocava seus óculos escuros, rosto assustador e convicto nos seus ideais.

– Onde está o empregado? Perguntei sorrateiramente.

Fez-se ouvir um silêncio total no meio das pessoas que ali estavam, confusas com o caso e amedrontadas pelo inspector.

– Não entenderam a pergunta? Questionou o assistente. Um jovem esperto, detalhista, de altura média, claro, com os seus cabedais nos pés, sempre asseado e meio desconfiante de tudo e todos.

– No meio de vocês encontra-se o assassino desta pobre senhora, e eu irei achar. Acreditem, apodrecerá para sempre naquelas celas imundas, com outros delinquentes. Disse o inspector.

Na multidão ouviam-se murmúrios de pessoas, umas olhando as outras, como se ali estivessem em suas cabeças as línguas de fogo de espírito santo da quaresma na igreja primitiva.

– Detenha seu filho, ache essas putas e esse tal de Jossias. Quero ver se terão coragem de mentir, olhando nos meus olhos. Ordenou o inspector ao seu assistente.

– Às ordens, chefe. Respondeu o assistente, acenando aos polícias que o acompanhavam.

O bairro todo ficou no total silêncio, um luto completo, por morte de quem respondia às necessidades daquela zona, a dona Índia, aquela senhora já na terceira idade, simpática e atenciosa a todos.

Já não havia outra conversa nas ruas, em aglomerados e outras zonas circunscritas.

– Está a insinuar que tenha eu assassinado a minha mãe? Minha própria mãe? É isso? Perguntou o Habib, bem nervoso.

– Pode ser também que tenhas praticado essa tamanha barbárie, sim. Afinal de contas, a mercearia ficou para ti. Disse o assistente do inspector interrogando o Habib no estúdio 66.

– O quê? Você está bom de cabeça mesmo!? Assistente de meia tigela. Retorquiu Habib.

– Vê como fala comigo, ohhh filhinho da mamãe. Aqui eu sou quem faço as perguntas, percebeu? Respondeu o assistente nervoso olhando directo nos olhos do Habib.

– E diga mais uma coisa…

Nesse momento foi interrompido por um agente que bateu a sua porta dizendo que estava a ser solicitado pelo inspector.

– Tens todas as peças contigo? Perguntou o inspector ao seu assistente.

– Sim, tenho. Respondeu o assistente.

– Achaste as duas putas fugitivas? Perguntou o inspector.

– Sim. Disseram que saíram cedo pois estavam em trabalho. Nenhuma prova lhes coloca em frente ao crime e, por isso, soltei-as. Respondeu o assistente.

– E esse bandido do Jossias? Perguntou o inspector.

– Interroguei-o. Disse que ficou todo tempo a dormir e só apercebeu-se do sucedido horas mais tarde, e testemunhas testificam a sua declaração. Respondeu o assistente.

– Por onde anda o marido da finada? Perguntou o inspector.

– Faleceu por causas naturais no ano passado e foi cremado no Cemitério Britânico. Respondeu o assistente.

O esposo da dona Índia era um bom homem, nato comerciante, distribuía alimentos por toda localidade. Não há quem não o conhecia, ambos, faziam uma boa dupla, seu filho Habib, ainda novo, abafaram minha tentativa de criação de meu negócio, ahhhh, também nunca fui bom naquilo.

– Habib, estás livre. Disse o inspector.

– Finalmente alguém sensata nesta imundice. Disse Habib.

– Vê como falas comigo, ohhhhh rapaz, tenho poderes de te manter por aqui mais sete meses do que já ficaste, para te tornares mais bem-educado, está bem? Disse o inspector.

Habib foi solto com a tonalidade de sua pele agora fraca, cabelo grande e desorganizado. Hiiiiiii até dava pena. Também, sete meses sem nenhum avanço, essa polícia não tem meios modernizados para investigar um caso macabro daqueles.

– Interrogaste a pessoa que encontrou o corpo? Perguntou o inspector ao seu assistente.

– Não.

– Localize o empregado imediatamente e me traga cá. Vou interroga-lo pessoalmente.

Foram à procura do mesmo, falaram com Habib e explicou onde ele mora e seguiram em diante.

– Entra. Disse o inspector a quem batera a porta do seu gabinete.

– Permissão, meu inspector. Pediu o assistente.

– Entra. Localizaste o empregado? Questionou o inspector.

– Sim. Localizei-o mas já estava melhor.

– Seja claro.

– Localizei-o, porém morto, estrangulado o pescoço tal como a finada da dona Índia.

– Meu assistente! Disse o inspector com uma cara de satisfação e um sorriso maroto no rosto.

– Sim, chefe. Respondeu o assistente

– Sete meses depois, estando a nossa esquadra em frente deste caso, finalmente achamos quem molestou aquela pobre senhora e o seu empregado. Como o mundo é pequeno. Vamos a casa do Habib…

 

Continua

O poeta Armando Artur foi laureado com o Prémio Literário José Craveirinha de Literatura 2020. A cerimónia da consagração realizou-se esta quarta-feira, na Cidade de Maputo.

 

Do poeta as palavras quase fugiram. Depois de receber o cheque gigante na ordem de 25 mil dólares (mais ou menos um milhão e quatrocentos mil meticais) e algumas lembranças, Armando Artur foi convidado a dizer algumas palavras no pódio. Primeiro, o poeta cumpriu o protocolo. Cumprimentou os convidados acomodados na primeira fila e os confrades em geral. A seguir, falando pausadamente, como se escrevesse um poema, confessou estar, naturalmente, muito feliz por receber o Prémio Literário José Craveirinha 2020. “Tenho cá comigo que os prémios vêm, de certo modo, marcar a trajectória ou a obra de um escritor, mas também julgo que nenhum prémio faz um grande ou pequeno escritor. Ou se é ou não se é”.

Ainda no pódio, falando ao auditório que soube cumprir as regras de distanciamento enquanto a cerimónia decorria, o poeta lembrou que pelo mundo fora há grandes escritores que nunca ganharam sequer um único prémio, mas não deixam de marcar a sua presença na história literária da humanidade. “É verdade também que nunca é demais um prémio literário. Quanto mais não seja para responsabilizar o autor que sou. Realmente, é uma grande responsabilidade. Isto impele-me a continuar a trabalhar para a literatura, para as artes e para a cultura moçambicanas. Por isso mesmo, sinto um grande peso sobre mim, nesta vertente de continuar a trabalhar”, até porque, realçou o poeta: “o meu compromisso é para com a literatura moçambicana. O meu compromisso sagrado foi sempre para com a literatura moçambicana”.

No Hotel Glória, Cidade de Maputo, o anúncio do autor laureado foi feito pela professora universitária Teresa Manjate, na qualidade de presidente do júri. A académica leu a acta que reflecte os encontros e a decisão unânime de todos os membros do júri, nomeadamente, Adelino Timóteo, Ungulani Ba Khosa, José Castiano e Manuel Tomé (em representação da HCB). Assim, no segundo e último encontro, o júri deliberou consagrar Armando Artur com o Prémio Literário José Craveirinha 2020. Na fundamentação, o júri destacou os 10 livros de Armando Artur publicados entre 1986 e 2019 e o facto de possuir obra traduzida para línguas como inglês, francês, sueco e árabe. Por fim, na acta o júri afirma ainda que Armando Artur propõe-se, do ponto de vista estético, a reinventar o ser por via da linguagem e instaura uma forma própria de escrever poesia.

Na cerimónia da consagração de Armando Artur esteve a Ministra da Cultura e Turismo. Eldevina Materula elogiou os esforços da Hidroeléctrica de Cahora Bassa em manter o prémio e felicitou o laureado. “Gostaria de endereçar as minhas felicitações e encorajar a prosseguir com abnegação no processo de promoção do património literário. Agora tem responsabilidades acrescidas. Passa a ser uma pessoa que deve inspirar os mais novos. Por isso, muitos parabéns, felicidades e votos de continuação desta excelente carreira que muito orgulha o povo e o Governo moçambicano”. Afirmação mesmo a condizer com as palavras do Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), Carlos Paradona, que, minutos antes, disse que o Prémio Literário José Craveirinha representa o orgulho dos moçambicanos por ser o maior galardão do país que distingue o conjunto da obra dos criadores literários.

 

 

 

 

 

 

O Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBLP), em parceria com o Banco de Moçambique (BM), está a apetrechar bibliotecas de instituições públicas do país, no âmbito do Memorando de Entendimento entre as duas instituições. Trata-se de uma oferta de 15.261 livros de diversas áreas de estudo, desde Matemática, Economia e Negócios, Ciências Sociais e Humanas, Ciências de Computação, Literatura, Arte, entre outras, que irão apetrechar a Biblioteca Nacional e outras espalhadas pelo país, a saber: bibliotecas províncias (10), distritais (35) e municipais (5); universidades e escolas superiores (14); e escolas secundárias (5).

De acordo com uma nota de imprensa do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, os livros são fruto de uma doação feita ao Governo moçambicano, através do BM, pela Books for Africa, uma organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos da América, que se dedica à colecta, classificação, envio e distribuição de livros para crianças e adultos, no continente africano.

O apetrechamento dessas bibliotecas insere-se no quadro das atribuições primárias do Fundo Bibliográfico, de garantir a disponibilidade do livro, incentivar e promover o gosto pela leitura em Moçambique, e nas acções de responsabilidade social do BM de apoiar as bibliotecas, através de doações de livros, bem assim de incentivar a produção literária com a promoção de concursos literários.

 

por: Celso Muianga

 

Camarada São José ainda bem que nestes tempos pandémicos e incertos a HCB não apanhou Covid. E é já amanhã que será anunciado o maior prémio da nossa República das Letras, que é Prémio José Craveirinha, com o alto patrocínio da Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Um prémio que anda agora na grande avenida da consagração à vida literária e à obra dos melhores filhos de Moçambique.

Olhando para o histórico das últimas edições deste galhardão vejo que, por exemplo, Luís Bernardo Honwana, com  NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO, Lília Momplé, Calane da Silva, a eterna luz, e Fátima Mendonça, os madodas das nossas letras já levaram para casa os justos 25 mil dólares, pelo seu visível e reconhecido emprenho nas diversas frentes literárias, o que é de todo inquestionável.

Para o ano 2021, tendo em conta o mérito e engajamento literário vejo Luís Carlos Patraquim, POR CIMA DE TODA A FOLHA, a liderar a minha casa de apostas. E ao lado de Patraquim coloco Mia Couto e Francisco Noa.

MONÇÃO, a obra inaugural de Patraquim que o académico Nataniel Ngomane farta-se de classificar como um marco, um livro divisor de águas do nosso território literário, no sentido em que constitue um sinal de evidente de mudança do paradigma literário. Esta obra conta já 41 anos de estrada. MONÇÃO é o segundo livro chancelado pelo INLD, a seguir a CELA 1 de José Craveirinha, o patrono deste prémio.

Tendo em perspectiva e olhando para a carreira de Patraquim vejo-o a liderar a GAZETA DE ARTES E LETRAS que serviu de plataforma de lançamento de novas vozes da literatura moçambicana, incluído a célebre geração CHARRUA. E o mesmo Luís Carlos Patraquim, verdade seja dita, esteve envolvido nas propostas de publicação de autores moçambicanos em Portugal, sobretudo na Editorial CAMINHO, onde começou a internacionalização dos nossos autores, no sentido em que atingiram outros público e o tão ambicionado mercado das traduções. Ainda vale a pena olhar e ver o número de vezes em que Luís Carlos Patraquim participou no apoio às edições de obras dos novos e jovens autores moçambicanos nos últimos 20 anos, quer tutorando, prefaciando e apresentando novas publicações. Um empenho visível que ultrapassa o simbolismo dos números.

A fechar este libreto sobre Patraquim, nestes seus 44 anos de produção literária vale a pena visitar dois notáveis estudiosos:

«Luís Carlos Patraquim é hoje o mais importante poeta africano de língua portuguesa, juntamente com o angolano Ruy Duarte de Carvalho» palavras de Pedro Mexia, poeta e crítico português.

O brasileiro Mário Luchesi afirmou «Luís Carlos Patraquim vive no delta da língua portuguesa. Entre Pasárgada e Inhambane. Como um dos seus poetas mais completos e mais inspirados».

A obra de Luís Carlos Patraquim consta na enciclopédia Britânica, no capítulo sobre o legado das literaturas africanas, com  uma referência à MONÇÃO  e a outros livros de autores moçambicanos e dos países de língua portuguesa. Para lá da poesia Patraquim tem cultivado a prosa, através da crónica e da novela, obras já publicadas em Moçambique e em Portugal e no Brasil.

São José,

A minha outra aposta para a edição 2021 recai sobre o escritor Mia Couto, outro divisor de águas, segundo Ngomane, com a publicação de RAIZ DE ORVALHO, há 38 anos. Couto é de longe, o mais regular, o mais traduzido e com maior número de reedições fora de portas, onde as tiragens gravitam acima de milhares de cópias por título. Num extenso universo de prémios e distinções recordo que recentemente venceu o prémio Jan Michalski, sendo o primeiro autor africano a vencê-lo, para além de ter sido finalista do Mann Booker Price e ter vencido o Neustadt. A distinção recente veio na esteira da publicação francesa da trilogia AS AREIAS DO IMPERADOR.  Mia Couto, um autor com notável polivalência nos diversos géneros literários, desde a poesia, à crónica, ao conto, ao texto dramático, infanto-juvenil, novela, romance, ensaio, e na composição de canções nos mais diversos momentos vivivos no país, como as cheias, ciclones, e aquando das primeiras eleições multipartidárias, em colaboração com os Ghorowane, no álbum NÃO É PRECISO EMPURRAR.

Tendo em conta que o prémio carreira também já distinguíu académicos, no caso, Fátima Mendonça, vejo na obra de Francisco Noa um manancial carregado de mérito e inegável reconhecimento. Por isso mesmo, em 2014, com o livro PERTO DO FRAGMENTO, A TOTALIDADE  ele venceu o prémio BCI de literatura, o que só abona a favor deste ensaísta, de uma produção regular e que nos conduz, com as suas reflexões sobre o fénomeno literário, ao debate e às mais diversas facetas da vida literária moçambicana.

São José,

Gostaria de apostar em mais autores e acho que me permites apenas dizer alguns nomes notáveis, pelo seu talento, empenho e impacto literário, são os casos de Paulina Chiziane, João Paulo Borges Coelho, Suleiman Cassamo, Nelson Saúte e Fernando Manuel.

Vou ficar-me por aqui nos meus palpites, camarada, em expectativa crescente para saber a decisão do júri. Até já!

Abraço índico e repetido,

Celso Muianga

 

 

 

Por: Eunice Moreira

 

Ao lado da mulher dos meus sonhos, passei vários momentos que compõem a minha vida. Sim, a mulher dos meus sonhos, a que foi de muitos, antes de ser só minha. O mundo a dei e melhores impressões nela criei. Pretendia roubar a lua só para lhe dar, mulher virtuosa merecedora de todo o ar. Mas, como ao mundo chegamos sem avisar, o mundo a tirou de mim num piscar de olhao.

Sou um velho vivido, cheio de vazios, mas me reconstruindo. Hoje, vivo de casinhos (como os mais novos dizem), um namoro aqui, outro ali, só para descontrair.

Nunca fui pai, mas vivo me relacionando intimamente com as minhas filhas. Não são propriamente minhas filhas, mas meninas que poderiam ser. Da primeira à segunda idade passei. Sou um velho que com a idade foram as palavras certas e carinhosas para as usar. Assim, para as ter, pago bem. Talvez seja por isso que elas vêm se entregar como se não fossem de ninguém. Isso não é de bem!

Eu até me julgo, mas que culpa tenho se a minha insatisfação cresce na mesma proporção que a vontade delas de aparentar e ter mais e mais? Que culpa eu tenho se ao meu lado desejam estar e pelas notas se deitar?  Sou um velho a caminho dos 50, mas pareço um catorzinho, e não é pelo meu corpo que digo isso, mas pela falta de juízo.

Eu nem as conquisto, elas vêm até mim e não resisto. Passam por mim com ar de quem está nem aí, mas basta eu chamar que viram sem hesitar. Vêm com aquele olhar de quem não quer nada, olham para mim com uma cara inocente, enquanto gritam por dentro “que sorte!”. Por experiência, eu já conheço as malandras, assanhadas, sinal de que na infância não levaram bem porrada.

Eu, olhando para elas num tom despido de segundas intenções , pergunto o que vão beber? Elas se olham em código e demoram a responder. Como se não fossem experientes, pensam e dizem: pode ser “Amburque e breezer de muranco”.

Eu continuo tranquilo fumando meu cigarrinho e bebendo um cafezinho. Fiquem à vontade, como se estivessem com um jovem (risos). É o que as digo para as descontrair enquanto vou acendendo a brasa para derreter esse gelinho.

Essas flores que já murcharam, assanhadas, matam-me. Entregam-se como se o corpo deixasse de ser uma casa da alma. As mais velhas julgam-se inteligentes. Curtem comigo, depois vazam, mas deixam um recado: “sei onde voltar a lhe encontrar”.

Conseguindo o que quero, dinheiro não dou, mas proporciono tudo de bom. Comigo é assim: ou aceita ou vai viver sem mim. Algumas são atrapalhadas: pedem tudo, mas, no final, não fazem nada. Outras são mais estudadas: garantem o rancho, as mobílias, o dinheiro para fazer negócios da China. E ainda outras, num tom mais consciente e de organizada, pedem um espaço na zona em expansão.

Às vezes, sou romântico, compro flores e digo que a amo, mas nem todas são merecidas e é por isso que tenho as minhas preferidas. Aquela magrela descontraída que tudo fala ou a baixinha tímida que nada diz…

E dia pós dia, sigo sendo o Kota (A)ntónio (T)omás (M)arcos delas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

+ LIDAS

Siga nos

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE