O País – A verdade como notícia

A artista moçambicana encontra-se a participar numa residência artística que está a decorrer em Lisboa, em Portugal. Mariana Carrilho descreve a experiência como rica e intensa.

 

A cantora lírica Mariana Carrilho foi seleccionada para participar numa residência depois de uma candidatura aberta pelo Laboratório de Artes Performativas de Lisboa, em Portugal. A sessão que irá durar até 13 deste mês é uma oportunidade de criação na qual a artista está a aprender a explorar cantos, criações cénicas e treinamento físico sob orientação da mestre Graziele Sena.

Considerando a pluralidade da abordagem das áreas tratadas na residência, Mariana Carrilho entende que o programa vem mesmo a calhar, pois, além de cantar, navega nas
artes plásticas. Aliás, a sua primeira formação foi em Belas Artes. “Há mais ou menos três anos, venho retomando a minha actividade nessa área”, afirmou.

A residência artística do Laboratório de Artes Performativas de Lisboa está a realizar-se no Palácio Pancas Palha, na capital portuguesa, e tem agendada uma sessão aberta ao público seguida de mesa redonda a 13 de Agosto, portanto, no mesmo dia de enceramento das actividades.

Enquanto a residência não chega ao fim, Mariana Carrilho quer desfrutar de tudo, até porque “É uma oportunidade de explorar a arte da performance e recriar alguns textos que tenho escrito ao longo dos anos, relacionados com a minha experiência com a migração e a diáspora”.

No entender da artista, a experiência a decorrer no Palácio Pancas Palha constitui um desafio, pois encontra-se a trabalhar com pessoas que têm bases muito sólidas de teatro – actores de profissão. “Sempre quis explorar o teatro com mais rigor. É verdade que também é um terreno trabalhado na ópera, mas não é a mesma coisa. Não obstante, como sabemos, nenhum moçambicano tem medo de teatro. Desfruto de cada tentativa, erro e progresso. Estou a aprender muito sobre detalhe, concentração e memorização”.

Outra constatação que está a interessar Mariana Carrilho é a partilha intensiva de conhecimento, no que considera “Um grande cuidado de Graziele Sena na transmissão oral e rítmica dos cantos – elementos incontornáveis da cultura africana –, e um profundo crescimento como colectivo artístico e individual”.

Mariana Carrilho encontra-se em residência artística semanas depois de ter actuado na segunda série de concertos da Temporada de Música Clássica de Maputo deste ano.

A tradução de português para inglês de Tchanaze, a donzela de Sena, da autoria de Carlos Paradona, feita por Sandra Tamele e Jethro Soutar, é uma das distinguidas no Prémio PEN Translate, na Inglaterra.

 

A primeira edição de Tchanaze, a donzela de Sena foi lançada em 2009, pela Associação dos Escritores Moçambicanos. Ao fim de 11 anos anos, Jethro Soutar, da editora Dedalus África, interessou-se em traduzir o romance de Carlos Paradona, cujo enredo místico investe no enaltecimento da mulher e do espaço geográfico do Vale do Zambeze.

Jethro Soutar importou-se em traduzir do português para o inglês a obra literária do escritor moçambicano porque percebeu que merece ser apresentada aos leitores britânicos. Na impossibilidade de realizar esse trabalho sozinho, Soutar convidou Sandra Tamele. Assim, a tradutora moçambicana garantiria a legibilidade de aspectos inerentes a essa donzela de Sena que ultrapassa a dimensão racional da realidade. Já a Soutar caberia afinar aqueles aspectos técnicos que um falante não nativo ignora. “Por isso começamos a colaborar”, afirmou Sandra Tamele.

Com o acordo firmado, os dois tradutores concorreram ao Prémio PEN Translates, cujos vencedores foram anunciados esta quinta quinta-feira, na página online da English PEN.

Para que Tamele e Soutar fossem reconhecidos pelos membros do júri, bastaram alguns capítulos traduzidos, conforme ditaram as regras do concurso – a isso chama-se amostra de tradução –, o que significa que o trabalho de traduzir o romance de Paradona continua e deverá durar até dois anos. “Estaremos a colaborar em diversos moldes e em contacto constante para que, de facto, a tradução seja publicada num período de 24 meses definidos pelo Prémio PEN”.

Quando a tradução estiver concluída, Tchanaze deixará de ser apenas a donzela de Sena para se tornar, como se pretende, a donzela do mundo.  A responsabilidade de tornar a personagem famosa será da Dedalus, comprometida em propor ao seu público autores e narrativas diferentes do que a tradução literária britânica tem geralmente privilegiado.

Apesar de o processo de tradução estar no princípio, Sandra Tamele confessou, esta quinta-feira, que não é fácil traduzir Tchanaze porque há coisas que se lhe escapam, apesar de ser moçambicana. Ainda assim, não vê nisso um constrangimento insuperável. Pelo contrário, tem uma solução:  “Há coisas que serão resolvidas pelo colectivo de tradução e com a colaboração do autor”.

Para Sandra Tamele, ser uma das vencedoras do PEN Translates é positivo porque há anos que essa instituição tem-se focado à criação de programas de estímulo à tradução de literatura de outras partes do mundo, tendo em conta que o panorama literário britânico só lança, conforme explicou, 3% de autores que não sejam britânicos ou que não escrevam em inglês. “Portanto, para tentar enriquecer a diversidade bibliográfica e oferecer aos leitores uma visão mais ampla do mundo fora do contexto inglês, eles criaram um programa que financia tradutores”.

As boas práticas de tradução ditam que um tradutor deve traduzir de uma língua estrangeira para a sua língua materna, e não o inverso. Por isso mesmo, um dos objectivos de Sandra Tamele é descolonizar essa noção de tradução. E promete: “Todos os termos em cicena, do romance Tchanaze, serão mantidos”. Com tal procedimento, os tradutores pretendem valorizar a língua e a cultura moçambicanas”. E promete mais: “Queremos abolir as notas do tradutor e os glossários, que, de certa forma, tornam a nossa criação literária como se fosse um objecto sem o mesmo peso que uma escrita originalmente feita numa determinada língua”. Reforçando: “Para mim, é uma honra constar na lista de vencedores, com tradutores muito mais experientes do que eu”.

Reagindo à novidade, Carlos Paradona afirmou que é com muita satisfação, alegria e orgulho que soube que a tradução da sua obra distinguiu-se no estrangeiro. “A Sandra está de parabéns! Isso significa que nós, moçambicanos, unindo forças, podemos chegar muito longe”.

No Prémio PEN Translates foram distinguidos 21 títulos provenientes de 19 países, com centenas de candidatos de todo o mundo. Além de conferir prestígio aos laureados, o prémio inclui apoio à tradução e possibilita a edição do texto traduzido pela Dedalus.

Por: Valério Maúnde

 

É manhã de sábado e Obadias, mais conhecido na zona por TiDias, está refastelado no sofá de palha da sua sala, com o controlo remoto da TV na mão, pulando de um canal para o outro, buscando um programa qualquer que o ajude a passar as horas. Sheila, sua esposa, após passar para cá e para lá, nos seus domésticos ofícios, não evita estranhar aquele incomum cenário, visto que não tem em memória a última vez em que o pai das crianças se tinha deixado estar em casa em pleno fim-de-semana. Sem dizer palavra, põe-se junto do marido e encosta as costas da mão direita à testa e depois ao pescoço do seu homem, medindo-lhe a temperatura, em clara suspeita de um possível ataque febril ou de qualquer anomalia na sua saúde. O gesto da mulher irrita o homem, que trata de repelir com rudeza aquela cuidadora e amorosa mão.

Sheila afasta-se com o mesmo silêncio com que se aproximara e volta às suas ocupações.  Dali a pouco, ouvem-se impacientes e insistentes dalcenças. Sussurrando, Obadias acautela a mulher sobre a resposta a dar – ela que diga que ele não está e ponto. Do interior da sala, dá para ouvir os diálogos travados no quintal entre a esposa e a dona Gertrudes, proprietária da barraca mais famosa do bairro, lá onde os homens entram às sextas e só saem aos domingos.

– Estou a pedir falar com TiDias – solicita a visitante.

– TiDias não está – responde Sheila em seco.

– Foi para onde? Vai voltar a que horas?

Para ambas as perguntas, a resposta é a mesma, que não sabe.

Esta é só a primeira de muitas outras visitas importunas que vão batendo à porta da casa do TiDias ao longo do dia. Nesta exacta sequência, vieram o dono do talho, o mecânico, o pedreiro, a mukherista e até o sapateiro, todos com o mesmo intento: cobrar dívidas declaradas, ocultas apenas para a Sheila, a quem o marido não dá conta das contas da família.

Farta de ser escudo, porta-voz, porteira ou o que quisermos chamar, Sheila decide não atender mais à porta. – Vai você atender tuas pessoas, estou cansada eu! – sentencia.

Vendo-se sem alternativa, Obadias chama pelo filho Manuelito de 5 anos e encarrega-o da função até ali desempenhada pela mãe. Já perto das 16 horas, pede dalcença o Tio Gaspar, o chefe do quarteirão. Com a honestidade próprias das crianças, Manuelito transmite, com precisão, a mensagem que lhe foi confiada pelo progenitor:  – TiGaspar, papá disse não está.

 Obadias, que acompanha o diálogo do interior da casa, percebe que o tiro saiu, não pelo cano, como era suposto, mas pela culatra, e sai às pressas para o quintal, carregando duas cadeiras plásticas e, antes mesmo de se sentar, trata de salvar a situação embaraçosa, alegando tratar-se de um mal-entendido, resultante da pouca idade do rapaz, que não foi capaz de compreender a instrução do pai.

O chefe do quarteirão finge condescender com o dono da casa e trata de apresentar, sem delongas, a razão da sua visita.

– Vizinho, vieram queixar na minha casa, dizem que estás a dever o bairro todo.

– Não é bem assim, chefe…

– Estás ou não estás a dever?

– Eu estou a dever, não nego, mas a culpa é do governo.

– O governo é que fez você pagar bebida a todos que estavam na barraca? O governo é que levou carne no talho? O governo é que foi deixar o teu sapato no madala[1] Kembo?

– Chefe, essas coisas fui eu, mas o governo prometeu TSU para este mês, mas não pagou até agora. Eu até entrei num Xitique de 20 mil e não sei como fazer.

– Fala com as pessoas, diz a verdade. Não há ninguém que não deve neste país.

– Mas vou dizer o quê eu?

– Pede paciência e repete o que os chefes disseram, que “a TSU terá efeitos retroactivos”.

– Mas nem sabem o que são retroactivos, esses.

– Eu também não sei…

 

 

[1] Velho, em Xichangana

Por: Belchior Eduardo

 

Palavras certas por encontrar, certamente os sinónimos aproximados ao adágio diriam que, mesmo essa, é uma corrida desenfreada para um destino não apenas escuro, também desconhecido. Há de facto palavras que invadem nossas acções atemporais que não sabemos o que realmente significam.

Numa temperatura instável, de dia calor, por meia hora talvez frio ou calor, por outras vezes do dia, calor sucumbindo apenas os cobertores e de fora frio, que penetram e extravasam as narinas de qualquer um que for.

Bairro que dizem fazer limite com a principal cidade, mas de limite físico como tal, nada existe, apenas uma magna fábrica de cervejas nacionais, vi e testifico isso.

Ali as rodovias são de terceira ou quarta, tipicamente esburacadas, isto não é mesmo novidade. Daquele lado, a polícia não se fazia sentir, circunscreviam-se apenas em estradas alcatroadas e entroncamentos das principais avenidas.

O que é mesmo comum, são jovens desperdiçando sua mocidade usando técnicas de mendicidade para matar seus anseios alcoólatras.

Existe uma classe, a dos idosos, que de forma aparentemente humilde saúdam incansavelmente há quem os vê a passar metros de si.

Havia no bairro uma casa, em que o proprietário falecerá no interior dela, há uns dias mudara-se para lá um casal de jovens, expectantes da vida e dispostos a dar inicio a sua nova jornada. Trava-se de Abdul e Tânia.

Abdul, era um homem pouco avantajado, dizem que o nome Abdul fora dado pelo seu avo, que foi a sua última morada sentado em sua casa, pegando ecama (pó de cor negra com um elevado teor de nicotina, que os idosos comummente usam em substituição do cigarro convencional) e numa quithanta (cama de rede feita a base de tecelagem), que o nome transmitia sorte principalmente para quem queira enveredar por actividades comerciais.

Tânia, tinha a pele clara, estatura baixa e jeito aparentemente meio humilde, a caracterizava. Pouco se sabe o significado do seu nome, algo supostamente visível e comum entre ambos, é o pertencimento ao mesmo nihimo (tribo), que é a dos amirasses, que cobre os distritos da antiga macuana.

Nos primeiros tempos de sua estadia no bairro, mereceram por todos saudações de vizinhos e jovens que ali ficavam e outros passavam.

Num dos alvorecer do mês de julho, que aos berros acorda Tânia, assombrada de si mesma e claudicante do evento, e atenta a Abdul, seu esposo.

– Aiii!!! amor me ajude. Gritou logo de madrugada antes que o sol rasgasse o céu, o galo desse seu discurso de abertura, e antes que os camponeses fomentassem com os seus passos as suas incursões semanais.

Abdul não soube ao certo o que se estava a passar naquele instante, seu relógio mental parou e despertou antes da habitual seis da manhã, por uns segundos atónito, e o que lhe apareceu em sua boca foi apenas uma questão:

– O que se passa? No momento olhava para o céu coberto de sua manta adquirida com uma senhora zimbabueana, que se havia aventurado na vizinha África do sul para ir gwevar.

A pergunta passou feita uma aplicação de anestesia, daquelas usadas pela classe médica momentos antes de começar a operação. Tânia estupefacta pelo sucedido questionava-se ˝porquê˝ de estar a acontecer aquilo com ela, via seus olhos invadidos por lágrimas, seu quarto em movimentos de rotação, mas devia mesmo responder ao seu marido:

– Não sinto minhas pernas moverem-se. Um embate de pedras saídas de uma estrutura do fanerozoico, acompanhadas de laços e uma mpama à velocidade luz, foi como Abdul sentiu-se ao ouvir aquelas palavras, e retrucou:

– Como assim não sentes suas pernas moverem-se?

A boca de Tânia foi invadida pelos primeiros raios solares, o grito de pássaros, alentos a ganhar o dia, e os passos dos camponeses provavelmente indo as suas machambas.

Aos gritos, Abdul levantou a sua voz no seu quintal como de se um leão se tratasse perguntando sem expectativa de resposta:

– Somos jovens humildes, o que fizemos nós!? Cumprimentamos a todos, temos boas relações com a vizinhança. Que mal cometemos nós? Desejamos iniciar e fazer a nossa vida, de que nos serve tamanha maldade?

Aquela voz ensurdeceu a todos que por ali passavam, e do nada um idoso posto de braços entrelaçados direccionou a sua voz ao Abdul e disse:

– Meu Neto nesta Zona Mora um Adágio.

 

 

O guitarrista Jimmy Dludlu será formalmente laureado com o Lifetime Achievement Award, Prémio Carreira, na 28ª edição do South African Music Awards (SAMAs), ou seja, nos Prémios de Música Sul-africano. A sessão musical está agendada para dia 28 deste mês, na África do Sul.

Os sul-africanos consideram que Jimmy Dludlu contribuiu significativamente para o desenvolvimento da sua indústria musical nas últimas duas décadas. Por isso mesmo, o guitarrista será homenageado no final do mês, no Sun City Superbowl, para quem conhece bem África do Sul, perto da Cidade de Rustenburgo.

Segundo uma publicação do órgão sul-africano Music in Africa, sobre os SAMAs, o CEO da Recording Industry of South Africa, empresa oficial que representa as indústrias fonográficas daquele país, Jimmy Dludlu é um motivo de orgulho, um tesouro e embaixador da música sul-africana. Assim, para Nhlanhla Sibisi, laurear, entre outros músicos, Jimmy Dludlu, é um acto que eleva o perfil da música sul-africana como um todo e que inspira.

No SAMAs, esta não é a primeira vez que a obra discográfica de Jimmy Dludlu é reconhecida. Em 2016, por exemplo, o guitarrista conquistou no evento musical o prémio de “Melhor gravação audiovisual ao vivo”, com a obra “Live at emperors palace”.

Jimmy Dludlu nasceu em Inharrime, na Província de Inhambane. Ainda assim, é com o Chamanculo, um dos subúrbios de Maputo, onde viveu ainda criança, que tanto se identifica. Muito novo ainda, Jimmy Dludlu partiu daquele bairro para Swazilândia e, depois, para África do Sul, onde, inclusive, fundou com Frank Paco e John Assan a banda Loading Zone, que acompanhava monstros da música sul-africana, como Hugh Masekela, Miriam Makeba, Brenda Fassie e Sipho Mabuse. Na verdade, o artista é reivindicado tanto em Moçambique assim como na África do Sul, daí a sua música ser premiada nos dois territórios.

Com efeito, a distinção nos SAMAs irá acontecer pouco tempo depois de Jimmy Dludlu ter sido nomeado embaixador africano da cultura do continente nos Estados Unidos. Reagindo a essa distinção, o guitarrista comprometeu-se com a procura de novos talentos musicais no continente, de modo a promovê-los na América. “Mas vou começar com os meus estudantes da UEM”, prometeu.

Por Deusa d’Africa

Pela Editora Viseu, no Brasill em 2019, edita-se “O menino que usava uma pessoinha” da Eme Simbin, uma moçambicana que sonha em educar as crianças por via da literatura.

De acordo com a Ananaz (2018), a literatura infantil divide-se em dois momentos fundamentais: a escrita e a oralidade, na comunicação das mães para com os filhos de modo a explicar os fenómenos naturais por via oral e a escrita que surge no século XVII através do registo do que se contava na oralidade. Teve o seu início marcado por Perrault, entre 1628 e 1703, através dos livros como “Mãe Gansa”, “O Barba Azul”, “Cinderela’’, “A Gata Borralheira”, “O Gato de Botas” e etc. Tendo como função educar crianças  através da leitura e escrita.

Analiso o livro em três dimensões:

  1. O Espaço na Narrativa;
  2. O papel da Escola na Criação da Motivação;
  3. O Simbolismo na Escrita da Eme Simbin.

Aos seis anos, o menino alto e forte, rico, criado com mordomias, sonha em ser piloto de aeronaves e durante cinco anos acumulou a experiência de um amigo de seu pai que é piloto.

O uso de expressões nas línguas locais de Moçambique, desperta a consciêcia humana e moçambicana, pois, embora haja o português como língua oficial, há necessidade de criarmos um espaço para oficializar as nossas línguas locais e como forma de manifestar esse sonho a autora vai introduzindo na língua portuguesa impondo o uso e conhecimento desses termos que o faz sabiamente, contextualizando o leitor sobre a sua significância.

  1. O Espaço na Narrativa

O escritor na sua primeira obra tem tendência a ser autobiográfico e Eme Simbin, também o é, embora fale de todos nós em vozes como a de Chiquito, personagem principal do conto, também fala de sí mesma, quando descreve este cenário que decorre na escola que nos fez crescer (a Eme, a mim e entre outros), a Escola Primária Unidade 11 (de Xai-Xai).

  1. O Papel da Escola na Criação da Motivação

O concurso lançado pela escola é narrado como um estímulo que incitou aos meninos e meninas na busca do troféu prometido pelo director da escola ao vencedor da corrida.

Quantas Lurdes Mutola, se escondem nas escolas e no dia-a-dia? Motivaçao é o caminho para descoberta do que há de mais secreto e por vezes místico, na vida de uma pessoa.

Stélio Craveirinha, recordista nacional de atletismo que representou Moçambique nos jogos olímpicos de Moscovo em 1980, primeiro treinador, responsável pela descoberta e preparação da  menina de ouro, Lurdes Mutola, assim como Elisa Cossa e Argentina da Glória, dedicou-se na formação de atletas deste país, embora tenha morrido desconhecido por todos. O livro nos traz a escola como o lugar de descoberta e preparação de talentos, o lugar de  esperança e de desenho do projecto de construção da personalidade de cada um, não apenas em corridas, mas sim em qualquer área, o papel da escola na construção de sonhos individuais.

O desespero de Chicão ao ver seu colega José, um menino mais hábil que ele na corrida, fê-lo desalentado, mas a mãe cumpre com o seu papel de apoio ao professor estimulando ao seu filho a lutar pelos seus sonhos e projectos, ao lembrar-lhe que pode confiar no brinquedo designado pessoinha que pode atender seus desejos.

Diz a mãe na Pag 14: “- Bom, peça ao pessoinha para correr contigo. O pessoinha tem poderes.”

A esperteza e trapaças caracterizam a cena narrada pela Eme, ensinando aos meninos a serem tolerantes e respeitosos, e que a posse de bens materiais não justifica estar acima dos outros, não justifica o egocentrismo e arrogância de Chiquito que usou o seu brinquedo “pessoinha” para vencer a primeira e segunda etapas do concurso e na última etapa que queria vencer sozinho como se o seu guia de sorte não existisse. Quando nos esquecemos de onde viemos, tal como, nos esquecemos dos nossos pais que são os nossos deuses, os nossos ancestrais, nossas crenças, jogamos a sorte afora, somos vazios, entramos em prantos tal como o Chicão “nome adoptado para claque na escola”, Por outro lado o “ferrarani” tal como era conhecido o José, menino pobre, mostra a insurreicção pela miséria, pela indiferença com que é encarado no seio de amigos por ser pobre que mesmo correndo num concurso escolar quase que ninguém olha para ele, mas é o vencedor que fica com o troféu porque a justiça e honestidade são os caminhos de luz que constrõem a realidade de quem sonha e luta de forma íntegra pelos seus sonhos.

Rompe com os esteriótipos ao citar as festas religiosas que distingem uns dos outros, a descriminação racial, social e económica, através da festa de encerramento do concurso que mexe com a cidade de Xai-Xai no seu todo, através das danças executadas por meninos de pés descalços, através da comunhão entre os ricos e pobres que a autora narra no seu conto.

 

  1. O Simbolismo na Escrita da Eme Simbin

Simbolismo, foi movimento literário que surgiu na França no século XIX e consagra-se ao culto do vago, do etéreo, do subjectivo e do do mistério. Valoriza a parte espiritual e oculta, utiliza o símbolo como recurso expressivo e introduz a visão egocêntrica. Usa o hermetismo, uma tradição filosófica e religiosa através de pensamentos simbólicos como quando descreve os personagens egocêntricos do conto, a presença do vago, a busca do sonho de ser piloto e de ganhar um troféu, da mística e histórica mafurreira onde discursou o Presidente Samora aquando da chama da unidade anunciando a independêcia de Moçambique em 1975. As danças tradicionais e músicas de raíz que perfazem a moçambicanidade.

É assim que se estreia a Eme, trazendo a escola como o lugar de construção de sonhos e acima de tudo, de construção de personalidades do futuro, mesmo quando a sociedade por vezes esquece “a escola ou o professor que forma tais personalidades”.

 

Referências Bibliográficas:

ANANAZ, Kanguimbu. “A Literatuta Infantil Angolana no Período Pós-Independência: Estudo sobre a Escritora Cremilda de Lima”. Editora das Letras, 2018, Pag 23-27.

VILARINHO, Sabrina. “Simbolismo”R7. Brasil Escola. Consultado em 29 de

      Objecto oblíquo é um livro que fantasmagoriza a poesia, começaria por dizer.

Lembro o poema Chuva Oblíqua de Fernando Pessoa e cito “A Grande Esfinge do Egipto sonha por este papel dentro…/Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente/ E ao canto do papel erguem-se as pirâmides…”. De certo modo a evocação do poema faz-me pensar que a transversalidade de espaços citacionais e criativos em Objecto Oblíquo – em cruzamento – encaminha a construção do livro, do Objecto, ao perpassar obliquamente paisagens interiores/exteriores de escrita, em narrativa fragmentária.

Pergunta-se a poesia,  a morte, a orfandade; descubro em contraponto de leitura os nexos que me transportam do português ao shona, língua que surge  pela voz dos  cantores zimbabweanos Feli Nandi e Leonard Dembo, ou encontro em outro passo uma referência a Nina Simone, If I should lose you, conectando-se a um poema de T.S. Eliot; mais adiante uma ligeira referência ao inferno de Dante, no mapa sinaliza-se terra de Manica, Guindingui, bucólicas irónicas de Virgílio, ou Alguidar de Versos, incorporação, justaposição de planos, referência à encenação teatral de Venâncio Calisto.

Comecemos, a tentame: há uma abertura com um fragmento de poema de Denise Levertov que nos diz: “cinza, um lugar/sem contornos claros, o ar pesado e grosso/o chão macio entupindo meus pés se eu ando,/chupando-os para baixo se eu ficar de pé.// Você já esteve aqui?”.

Você vai estar aqui. Aqui no Objecto Oblíquo. Que lugar de escrita é este?

Organizado em três partes, com diversas sub-partes “Último Desejo”, “Átrio das Aves”, “O Enterro das Unhas” (nesta última parte a numeração ludicamente é inversa ao ritmo crescente, começamos de nove para um, para chegarmos criteriosamente/ao início e final), este livro encena uma certa surrealidade da arte de estar vivo, em permanente acesso à morte, em oximórico trapézio, numa linguagem que tributa a poesia de algum espaço narrativo. Aqui se trata de necrologia e de distopia, de criação, o pesadelo se alinha numa fácil fulguração com asas, sonho ou pesadelo? Viagens pelo cemitério, escolhendo o lugar, a lápide, o silêncio, o verso. Teatralidade. Poesia. Orfandade, declamação, rapidez, kukurumidza, a morte em orquestração trágica.

 

“Unherera ushe. Unherera umambo. Um pensamento imódico nos tímpanos de um miúdo de seis anos. Leonard Dembo não imaginou que estas palavras assombrariam o miúdo do planalto por anos. Levou-me anos para que pudesse tocar o assoalho desta metáfora. Dembo foi talvez o primeiro compositor que me pôs a pensar seriamente na morte.”

 

 

Aqui, em Objecto Oblíquo, se alternam duas dicções/ritmos, sabiamente orquestrados, a do poeta David Bene e a do narrador Mélio Tinga, que se respondem, alternando, escrevendo “o último desejo”, que acompanha “uma flor que não desabrocha”, a morte. O leitor, tal como eu, poderá ler este livro de diversas maneiras, por fragmentos, parágrafos, sobrepondo espaços sem rosto e vozes sem som, ou contrariamente ouvindo a música de Tracy Chapman em fast car, “a ticket to anywhere”, um bilhete para parte alguma:

 

“O que é um trompete senão a construção dos sonhos, degrau a degrau, dedo a dedo, até que o universo esteja tecido por completo. Descubro comigo mesmo que a literatura é um animal imortal, teimoso, que, ao mesmo tempo que nos acalenta a carne, nos rói por trás.”

 

“Há poesia depois da eternidade? As crianças vão para o lado esquerdo. Os adultos para o direito. Mergulho na minha indecisão.”

 

Convido-vos a ler este excelente engenho de articulação de escritas, de “crianças que voltam sujas do paraíso” com poesia nas algibeiras e fantasmagóricas pirâmides no canto do papel:

 

“O inferno existe. Engano a todos com o poema. Não me arrependo. Se me desculpasse, quem ouviria? O submundo é uma caixa de fósforo. A voz do palito não conhece a aresta que não seja duma Impala. Esqueça-te dos remos, Caronte. A água é areia. Hereges, minha terra prometida. Saia do meu joelho e mostra-me onde queres descansar. Os teus olhos estão mortos, Virgílio. O submundo é raso. Cócito ascendeu e aviva a Ponta Vermelha.

 

Arrumo as mãos na algibeira. A noite perdeu a asa e caiu de cócoras no quintal. As crianças voltam sujas do paraíso. Futura esposa, em Tânger, queima a cebola no fogo de néon. Josué são cinzas na pá do necrotério. E o meu último desejo não existe.”

 

Por Jaime Santos

 

Efémera viagem em que se recolhe memórias do tempo em que se estava sabe-se lá onde.

Memórias? As da vida vivida? As não consentidas? As tristes e abandonadas? As impressas? As expressas? As que não interessa lembrar? Sabe-se lá como uma roleiflex elas estão pintadas com a sua impudica nudez: a da Alma. A pujança sentimento do intemporal tempo e quase sempre a preto e branco acrílico grafite, pastel de óleo…

A tela é preenchida de rostos personagens, movimento e emoções.

Daqui e Dali, pinturas executadas de vários quadrantes, reflectindo afinal uma viagem a lado nenhum, no fundo são apenas para parar as águas do esquecimento.

O Amor, a paixão com cheiro a fermento a sésamo a vida, são apontamentos que não poderiam ficar nalgum recanto dura estante a cobrirem sede pó como antigas fotografias.

Afinal, compreender o sentido da condição do homem e da condição do artista é o que se apresenta como proposta nestas telas.

É verdade que há nelas muito de experiência pessoal, mas ninguém deve ver isso como alzheimer pintar um livro de memórias como plano.

Convido a acompanharem uma viagem sem rumo fixo, junto daquelas telas de quem tanto aprendi e continuo a aprender.

Daqui e Dali

 

A Banda Kakana vai lançar, às 20h30 de sexta-feira, no Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane, na Cidade de Maputo, seu terceiro álbum discográfico. Intitulado Uma nova flor, o disco conta com colaborações de autores como Wazimbo, Tito Paris e Micas Cabral.

 

Há alguns anos, a Banda Kakana lançou o vídeo-clip da música “Xiluva”. Crianças, adolescentes, jovens e adultos, nos carros, nos telemóveis, nos xiguianes ou nos xitikis, ouviram e dançaram ao som do tão afamado tema. Agora, o grupo musical volta à carga, levando ao seu público o terceiro álbum discográfico, Uma nova flor, mesmo a condizer com o significado do termo rhonga “xiluva”, ou seja, flor.

Na verdade, Uma nova flor é uma metáfora. Em outras palavras, significa uma nova página ou um novo recomeço. “Sabemos todos que vivemos tempos sombrios. Este disco, apesar de ter sido produzido num tempo triste, é muito alegre. Então, é um disco de esperança para todos nós”, disse Yolanda Chicana, a vocalista da banda.

O mais recente disco da Banda Kakana possui 17 temas e conta com várias participações. Por exemplo, Jimmy Dludlu, Mingas, Wazimbo, Tito Paris, Micas Cabral, Mr. Kuka e Az Khimera. “Eles são fonte de inspiração para a minha carreira. Este intercâmbio artístico é importante para abertura de culturas. Essa troca de experiências faz-nos capaz de atravessar fronteiras e isso deve continuar”, acrescentou Yolanda Chicane.

A propósito de fronteiras, Tito Paris sublinhou que a música é mesmo universal. Por isso mesmo, “A nossa riqueza está em deslocarmo-nos a outros povos, para nos enriquecermos culturalmente. Costumo dizer que quem não gosta da cultura do outro, não gosta da sua própria cultura”.

Com Yolanda Chicane, Tito Paris fez um dueto na música “Saudade”, cantada em crioulo de Cabo Verde e em português.

Quem também se sentiu honrado em participar no terceiro disco da Banda Kakana é Micas Cabral, vocalista dos Tabanka Djaz. Para o artista, não foi nada difícil colaborar com a banda, até porque “A Yolanda é uma belíssima cantora e tem uma voz incrível. Quando ela me convidou para fazer parte do projecto, obviamente que aceitei sem hesitar. É, talvez, uma grande valia para Banda Kakana e um privilégio para mim”.

À imagem de Micas Cabral, Wazimbo realçou a qualidade criativa da Banda Kakana, com quem tem colaborado já há algum tempo. “Já venho namorando com a Banda Kakana desde a altura que me foi endereçado um convite para participar numa actuação. Sinto que estes os jovens precisam e merecem o nosso apoio e acolhimento. Tenho estado a caminhar com eles e a participar sempre que possível. Daí a minha presença nesta ocasião em que a banda lança o seu terceiro álbum. Esta data é o culminar de um trabalho de abnegação, paixão e total entrega”.

O concerto de lançamento do álbum discográfico Uma nova flor, da Banda Kakana, no Centro Cultural Universitário da UEM, terá duas horas de duração, entre 20h30 e 22h30.

 

 

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