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O País – A verdade como notícia

A partir do dia 7 do corrente mês, Os Tuneza de Angola irão realizar seis espetáculos em seis cidades moçambicanas. De acordo com a nota de imprensa sobre a digressão do grupo angolano em Moçambique, Os Tuneza escalarão as cidades de Maputo, Xai-xai, Vilankulo, Beira, Chimoio e Tete, com intuito de animar e fazer também vários intercâmbios com comediantes nacionais.

Ainda em Moçambique Os Tuneza vão facilitar uma oficina criativa na XHUB, no dia 17 de Outubro, entre as 10 e 12 horas para os estudantes da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane.

A XHUB e o ImproRiso Moçambique, entidades envolvidas na produção dos espectáculos de Os Tuneza, assinaram, recentemente, na Incubadora de Negócios Culturais e Criativos, um memorando de entendimento que visa facilitar o processo de intercâmbio de comediantes e também para realizar com regularidade, semanalmente, concertos de Comédia Stand Up com diversos humoristas da praça moçambicana e estrangeiros.

A X-Hub é um projecto financiado pelo Sound Connects Fund, uma iniciativa da Music In Africa Foundation (MIAF) e do Goethe-Institut. O Sound Connects Fund é possível com financiamento do ACP-EU Culture Programme, um projeto implementado pelo Secretariado do Grupo de Estados de África, Caraíbas e Pacífico (ACP) e financiado pela União Europeia (UE). O Fundo também é co-financiado pelo Goethe-Institut e pela Siemens Stiftung. As tintas CIN também são parceiras do projecto.

 

Semana passada, terminaram as gravações de um novo seriado sobre o quotidiano nas áreas de conservação em Moçambique, de Licínio Azevedo. “A natureza dos homens e dos animais” contém um conjunto de seis episódios de 25 minutos cada um e a série é inspirada na convivência, dinâmica e nos conflitos do quotidiano vivenciados no interior e nos limites das áreas de conservação, envolvendo as comunidades locais e os animais selvagens.

A Ebano Multimedia é a empresa responsável  pela produção, com Licínio Azevedo como Director, co-adjuvado por Gabriel Mondlane e com direcção de fotografia de Jesus Sanjuro. A  direcção  de produção ficou a cargo de Jorge Ferrão.

O seriado foi rodado ao longo de seis semanas e decorreu na Reserva Especial de Maputo, que no filme foi designado por Parque dos Elefantes, e teve nas comunidades de  Madjadjane os actores principais. Os fiscais do parque e os caçadores furtivos fazem parte da cinematografia e estiveram envolvidos ao longo das várias semanas em que a série foi gravada.

A série  é uma espécie de documentário drama, por vezes ficcional,  e retrata o drama de quem tem de conviver com os animais selvagens de grande e pequeno porte, todos os dias, as soluções e alternativas que encontram e ainda o apoio que recebem das forças estacionadas no interior dos parques nacionais.

Moçambique  possui uma diversidade de ecossistemas e, ao longo dos anos, foram criados mais de oito parques nacionais, oito reservas nacionais ou parciais, 12 reservas florestais, duas áreas  de protecção especial. Existem, igualmente, mais de 18 coutadas com gestão pública, privada e comunitária,  onde ocorrem o turismo cibernético. Estes ecossistemas são potencialmente ricos quer em recursos da biodiversidade, como em recursos minerais e até energéticos.

No seu interior residem milhares de agregados familiares que passam por momentos de pura alegria, mas, também de evidente  tristeza e pânico. A população humana e de animais tem aumentado, nos últimos anos, na mesma proporção que os problemas que se registam, muitos deles bem conhecidos, outros, nem por isso. Os maiores conflitos prendem-se ao uso destes recursos e espaços, mas, igualmente, ao entendimento sobre como e quando estes recursos devem ser usados.

As áreas  de conservação são, igualmente, espaços onde a mitologia ganha contornos muito para além  dos normais.  Existem crenças de que muitas das pessoas que morrem no interior ou em regiões próximas, transformam-se em animais e regressam às regiões onde viveram. Eles são animais especiais e o seu abate pode representar tempos difíceis ou ainda a morte de quem os abateu. Os curandeiros ganham espaço nestas áreas quer para ajudar a resolver os problemas de saúde, criando vacinas contra as mordeduras dos animais, igualmente, propinando as convicções e condições que transformam os humanos em seres imunes às feras. Os animais destroem campos agrícolas. Toda esta realidade foi captada no seriado e reflecte uma realidade de todo o país. Esta produção será essencialmente baseada em histórias de vida de famílias que precisam de sobreviver com os escassos recursos disponíveis, porém, respeitam as leis impostas quer pela natureza como pelas autoridades administrativas locais.

Numa época que os oceanos estão em destaque, por um lado devido às mudanças climáticas, por outro  existe  uma considerável parte dos parques nacionais moçambicanas fazendo limites com o Oceano Índico, nesta longa costa de mais de 2700 km. A vegetação dos mangais se revestem de grande importância na estabilização dos ecossistemas marinhos e na própria  sobrevivência das comunidades que dependem dos recursos ali existentes. O seriado captou, igualmente, as realidades diárias destas regiões.

Finalizada a gravação e que contou com o apoio financeiro da USAID-Speed em colaboração com o BioFund e AMOCINE, seguem-se algumas semanas de edição e finalização. O lançamento deste seriado está previsto para a época festiva, finais de Dezembro de 2022, devendo os mesmos passar em canais abertos e fechados.

Com a série existe uma expectativa de que os jovens e estudantes, em particular, entendam melhor a natureza em seu redor e ganharem a consciência sobre a importância de conservação dos ecossistemas e o respeito que a natureza impõe. Na realidade, existe um pequeno grupo de crianças que participaram na gravação mostrando como tem sido arriscado frequentar as escolas estabelecidas no interior dos parques e das reservas.

De acordo com os produtores do seriado a intenção será a de ceder os diretos de transmissão  a  estações  emissoras fora do país, quer no espaço falante de português, como em canais que transmitem em inglês e francês, considerando que os seriado será traduzido nestas línguas.

 

Sinopse 

Numa terra de rara beleza, povoada por animais selvagens, dois grupos de homens com atitudes opostas se confrontam: os que velam pela preservação das riquezas naturais, em benefício de gerações futuras, e os que querem usufruir dessas riquezas no presente, para o seu próprio benefício. De um lado, fiscais da Reserva de Maputo, líderes comunitários conscientes da importância da Reserva, crianças que frequentam escolas e aprendem os segredos da conservação. Do outro, caçadores furtivos, traficantes de marfim, feiticeiros maléficos, comerciantes sem escrúpulos. Além de combater os inimigos da natureza, os defensores da Reserva têm a delicada função de harmonizar as suas acções com os interesses de camponeses das áreas vizinhas e proteger as suas machambas que, por vezes, são devastadas por elefantes.

Por Deusa d´Africa

 

A bem-aventurança não é feita de opulências, feixes de luz invadem a alma da pequena porção de terra alumiando a todos os seus elementos; é das entranhas dessa terra onde brota o arroz Wanbao entre outras culturas que concorrem ao património gastronómico da actual capital do Império de Gaza, concebida em 1897 sendo persignada como Chai-Chai, tendo ascendido a vila em 1911. No ano de 1922 torna-se a Vila Nova de Gaza e por conseguinte no ano de 1928 passa a ser designada como Vila de João Belo, ascendeu à categoria de cidade em 1961 e após a independência nacional retornou à sua antiga denominação sofrendo uma alteração na grafia anterior de “Ch” para “X” ou simplesmente Xai-Xai tal como actualmente se designa a cidade de luz e harmonia.

Em Xai-Xai há luz de dia e de noite, raramente o sol e ou a lua se ausentam, nesse cantinho do céu há ainda a preservar-se valores como “o homem vive do seu suor”, uma modelagem de vida para a construção de cidadania. Alguns homens sem alma a perfuram através das regiões circunvizinhas para apoderar-se de sua tranquilidade promovendo o furto de viaturas, um assunto que tem apoquentado aos citadinos, contudo, a luz que resplandece em cada rosto faz com que se desincentive práticas desgraciosas e inestéticas.

Quando o universo crepuscula, homens e mulheres fazem o coro do canto do galo numa chuva adolescente que cai sobre o corpo escultural de gente humilde que sonha com o pão que se ganha pelo suor derramado em diversos ofícios para garantir que não falte chima, xiguinha e mandioca em todas as mesas de todas as famílias.

A terra pernalta estende-se até aos braços do índico, paraíso de povoados de vizinhas nações que aos fins-de-semana tornam esta cidade num pequeno e grande céu onde todos sonham nele morar, sendo um corredor para quem navega em busca de outros territórios, através dos fios de cabelos de Samora Machel que crescem abrindo os caminhos da imensidão.

À outrora fora uma pequena cidade de gente sempre trabalhadora que migrava à cidades como Maputo, Nampula e entre outras em busca do tesouro científico, porém, hodiernamente a cidade possui uma riqueza de instituições de ensino superior em modelo presencial, semi-presencial e até à distância.

Outrossim, no passado havia cajueiros na zona apelidada pelo nome da antiga fábrica de processamento de castanha – Mocita que com a falência, as árvores mantiveram-se a reproduzir o pânico criando lendas como as de Casacos que levitavam de noite assim como de serpentes que reinavam na penumbra, entretanto, pela amabilidade de suas gentes a região fora transformada numa Nova Iorque edificando infra-estruturas públicas e privadas, o que faz com que a cidade mantenha-se acordada de dia assim como de noite.

Hoje, nestes sessenta e um sóis e luas desde a sua elevação à categoria de cidade, a harmonia continua a ser a luz que conduz Xai-Xai e veem-se novas feições como a praça do mineiro, a praça do metical, novos espaços verdes por todo o lado e alguns outros restaurados, a mulher exaltada em festivais municipais, a música coral, campeonatos desportivos de taekwondo e taça munical de futebol, festivais internacionais de poesia e entre outras que revelam a jovialidade e brandura como um tesouro que a urbe possui.

 

Bem-haja Xai-Xai!

 

 

Álvaro Fausto Taruma é autor de quatro livros de poesia: Para uma cartografia da noite (2016), Matéria para um grito (2018), Animais do ocaso (2021) e Recolher obrigatório do coração (2022). Com o segundo título, foi um dos vencedores do Prémio BCI de Literatura para melhor livro do ano – 2018. O seu percurso na arte do verso ou da prosa poética parece promissor. Ainda assim, o poeta não pretende alongar-se mais com a poesia. Logo, o livro que, brevemente, será publicado em Portugal, e, depois, em Moçambique, será o seu último de poesia. Na primeira pessoa do singular, Taruma explica as razões da sua decisão, refere-se às suas convicções, reflecte sobre o panorama literário moçambicano e ainda deixa algumas garantias. E uma das garantias é mesmo essa: o adeus à poesia.

 

Em um ano publica dois livros: Animais do ocaso, em Portugal, e Recolher obrigatório do coração, em Moçambique. Qual é a história por detrás destas propostas poéticas?

A história destes dois livros é uma tentativa de voltar aos lançamentos, depois de algum tempo angustiante de espera e de produção que estava imbuído de muitas incertezas, por causa da responsabilidade que se acresceu à volta daquilo que eu produzia. Se for a ver, os meus dois primeiros livros, sobretudo o primeiro, foi lançado assim ao acaso, dentro de um espírito de jovem poeta que está a começar. Sem, evidentemente, muito protagonismo à volta disso. Apenas houve uma necessidade de lançar e estar no panorama artístico ou no meio literário moçambicano.

 

Para uma cartografia da noite cumpriu o que se propunha no princípio do seu percurso literário?

Podemos dizer que sim. Cumpriu e, depois, esse vulcão, essa montanha acresceu-se com o Prémio BCI de Literatura que chega com o livro seguinte, Matéria para um grito. Daí este receio antes de publicar os livros subsequentes. Aí houve um questionamento como este: então? O que é que vem depois de Matéria para um grito? Nunca quis repetir-me nas formas. Sempre quis trazer uma proposta totalmente nova.

 

Mas há um denominador comum e que é transversal à sua escrita: a presença da noite. Não a noite do sentido de um período do dia, mas a noite do sentido da simbologia.

Exactamente. Isso, evidentemente, está lá… Leva-se um certo tempo a desconstruir um certo modelo de pensamento e criativo. Há uma presença da noite nos meus dois últimos livros como nos dois primeiros, nesse sentido simbólico. Mas também há uma presença constante de uma crítica dura, contundente, de um olhar atento a tudo aquilo que nos rodeia em termos de situação social. Já em termos de efeitos criativos, há sempre uma coisa que tentei reduzir, que é a ideia da plasticidade da palavra. Estou a focar-me mais na realidade do que na plasticidade da palavra que, às vezes, nos coloca numa situação em que estamos a dizer coisas que em termos de contundência não se percebe o que se pretende transmitir.

 

Pretende que a sua poesia tenha mais impacto?

Eu acho que essa é a responsabilidade do criador. A estética, de uma certa forma, para mim, está lado a lado com a moral e, mais do que isso, com a necessidade de transformar.

 

Nada dessa coisa de arte pela arte, apenas…

São opções. Falo da forma que eu escolhi para me expressar. A minha poesia é comprometida com a mudança. É utópica, dá-se para o bem da sociedade e pretende criar uma disrupção e indagações no leitor.

 

Uma poesia de angústias…

De alguma forma, pode ser. De outra, não. As propostas que trago, em termos temáticos, são multifacetadas, de micro realidades que vou buscar no que vejo. Algumas vezes, isso é feliz. Noutras vezes, nem tanto.

 

Nesse exercício encontramos muitas construções e desconstruções da alma e dos sentimentos humanos. O que isso exige de si?

Exige um olhar atento e uma espécie de sofrimento. Não é fácil criar poesia, pelo menos não é como eu a crio. Nunca criei numa situação cómoda, sempre foi numa situação desconfortável. Sempre a perder. Nunca criei numa situação em que estivesse vantajoso de todos os pontos de vista da vida.

 

Apesar de tudo isso, eu penso que a sua poesia é fundamentalmente de amor. Por exemplo, a partir do amor, pode-se se pensar em temas sociais candentes: angústia, depressão e etc. Pensar nas situações que podem comprometer o amor também é um projecto literário?

Há um autor argentino que tem sido fundamental para mim: Jorge Luis Borges. Ele diz que existem apenas dois temas fundamentais na literatura. O amor e a morte. Portanto, a minha poesia, por mais que se afaste, está dentro destes dois parêntesis, o amor e a morte. Eu funciono, em termos de criação, nesse intervalo. O amor em termos de fundação. Começamos aí, é transversal e universal. Depois temos a morte, que não significa perdermos a vida na sua totalidade. A morte é um conjunto dessas pequenas perdas que nós vamos vivendo todos os dias. Assim, voltamos ao tema da noite, a essa escuridão. Eu sou pessimista de natureza, mas nunca escrevo a pensar no pessimismo. Eu escrevo para expressar o contrário. É preciso mostrarmos essa noite para que a pessoa possa encontrar a luz e essa luz significa esperança.

 

Com Matéria para um grito venceu o Prémio BCI de Literatura para melhor livro, ex aequo com Armando Artur. O que isso significou para si?

Em geral, o prémio não me trouxe nada em termos de mudança na vida literária. Ganhei o prémio três meses depois de ter lançado o livro e não significou nada em termos de venda. Se calhar, significou porque, quando ganhei o prémio, eu estava a necessitar de dinheiro. Ganhei 100 mil meticais. Fiquei zangado até porque poderia ter ganhado 200 mil. O prémio foi importante porque deixou a mensagem de que a juventude, os escritores mais novos, podem chegar mais longe e merecer este prémio. Para mim, era evidente que Matéria para um grito merecia o prémio de melhor livro do ano. Mesmo Para uma cartografia da noite, eu tinha a consciência de que estava entre os melhores livros. Eu era observador atento do que se produzia aqui. Desde que entrei para a literatura, sempre quis produzir colocando-me acima do padrão. Por mais que não tivesse conquistado o Prémio BCI, eu tinha a consciência de que estes dois livros trariam alguma mudança.

 

Sentiu-se a representar uma geração?

Sim, porque militei bastante dentro dessa geração, com escritores que saíram do Kuphaluxa, como Amosse Mucavele, Nelson Lineu, Eduardo Quive, Japone Arijuane e Mauro Brito. Fomos pessoas que militamos e demo-nos à causa da literatura. Acima de tudo, tínhamos essa curiosidade de pesquisar mais. Eu, de alguma forma, sabia que dali alguém iria sair e que seria um símbolo, uma voz autorizada a falar de literatura e a produzir livros de qualidade.

 

E acha que a sua geração sentiu-se representada consigo, quando venceu o BCI de Literatura?

Eu acho que se sentiu representada. O retorno foi positivo e as pessoas acreditaram… O livro que venceu no ano seguinte, O menino que odiava números, de Celso Cossa, veio nesta sequência de revolução de um artista jovem quebrar o paradigma. Porque as pessoas não acreditavam que um jovem pudesse ganhar o prémio de melhor livro do ano. Os livros não devem ser premiados pela longevidade dos escritores, mas pelo impacto que trazem no panorama literário. Se formos por aí, as caras vão mudar e vão surgir novas vozes. Por exemplo, a Hirondina Joshua é pouco conhecida, mas é uma autora de impacto. Com força e com pujança. Outro exemplo, Virgília Ferrão, que está a introduzir em Moçambique um tipo de literatura que não existia: a ficção científica. Bem ou mal, ela está a pavimentar um caminho e isto é que uma coisa de impacto, porque, por mais que venham outros, sabemos que a história começou com Virgília Ferrão. São essas pessoas que estão a trazer propostas novas que devem ser premiadas.

 

É preciso premiar quem desbrava matas…

Não só quem desbrava matas como também quem coloca uma pedra fundadora. Por exemplo, temos o prémio HCB. Daqui a dois anos, podemos pensar nas pessoas elegíveis. Veremos que é um conjunto de pessoas que vem há três décadas, muitas vezes, com obras umas boas e outras nem tanto. Umas sem impacto dentro da literatura. É uma coisa de grupos e de confrarias. Por isso digo que eu sempre soube que a minha obra tinha impacto, por mais que não tivesse conquistado o BCI.

 

Depois disso vem Animais do ocaso.

Que o editor pediu-me material… Antes chamava-se Animais com cordas no coração. A nível estético, começo a perceber que coloquei demasiada informação que, se calhar, não seria bem recebida. Mas eu tive de mudar tudo o que construí antes, para me provar que consigo criar de uma forma diferente. Os meus primeiros livros são marcados, por exemplo, por prosa poética. Nos livros que se seguiram, trago versos em estrofes.

 

O poeta também compete consigo mesmo?

Tem que ser, porque, além disso, em termos de criação, do que se produz à volta, comecei a ver muitas repetições de Álvaro Fausto. Todas as novas propostas literárias dos jovens, mais novos que eu, neste momento, estão a competir com os livros que eu publiquei anteriormente. É muito notório até em pessoas que me pedem para ver os seus textos. Mas eu já não posso estar nesse patamar desses jovens criadores que têm como referência Álvaro Fausto. São jovens de qualidade, pena que não temos olheiros que os possam puxar para as suas editoras. Nós, em termos de qualidade literária na poesia, estamos bem.

 

E na prosa?

A prosa é das disciplinas literárias que menos consumo, mas vejo de longe. Consigo perceber que há vozes. Por exemplo, Mélio Tinga. Apareceu e apareceu muito bem. A própria Virgília Ferrão… Recentemente, foram lançadas duas obras pela Fundação Fernando Leite Couto, de Maya Ângela Macuácua e Geremias Mendoso. Depois, temos o trabalho da Fundza, que é praticamente prosa e num bom ritmo. Com o tempo, veremos esse boom. Mas a poesia está a ser muito bem-feita em Moçambique. Infelizmente, não temos esse acompanhamento em termos de leitores e de crítica.

 

Como poeta, gosta de estar canonizado a uma certa forma de escrever?

Não, é por isso que falo desta necessidade de mudar e de não permanecer o mesmo. Sempre temos de buscar novas formas de passar uma mensagem e existem muitas formas de o fazer. Nos meus livros anteriores, recorro bastante à metáfora e também ao recurso imagético como recurso estilístico. Mas, por exemplo, admiro quem usa a ironia. O domínio da ironia permite uma construção poética de valor elevado.

 

Gosta de Craveirinha?

Gosto de Craveirinha, mas o meu poeta de eleição é Eduardo White, no sentido da mancha gráfica e da emoção do texto. Mas gosto, por exemplo, da irreverência do Sebastião Alba, que é um poeta que levou até às últimas consequências a ideia de poesia e de viver como poeta. Às vezes sofrido e muita gente não compreende isso. Respeito-o muito, a ele e às pessoas da minha geração, os que mencionei há pouco tempo, que são pessoas que insistem com a escrita mesmo quando o país não oferece muito em termos de retorno.

 

Até quando o retorno é número de eleitores…

Exactamente. Eu estava a fazer as contas. Lancei Recolher obrigatório do coração e fiz um esforço para que o editor acreditasse e aceitasse publicar mil exemplares. Com isso reduziu o valor da compra. Pessoalmente, vendi 100 exemplares, em três meses. Esse é o pico. Mas tenho 3800 amigos no Facebook. Obviamente, divididos em vários continentes. Esperava que 10% desse número amigos pudesse comprar os livros, ou seja, 380 vendas. Vendi 100. É um cenário assustador! Por isso tenho estado a investir no mercado externo e vem aí mais um livro. Talvez saia até o princípio do próximo ano.

 

Sempre pela Exclamação?

Sempre pela Exclamação. Inclusive, vamos tirar textos de Animais do ocaso para serem publicados em revistas na Inglaterra. É um processo de tradução que já começou e isso irá terminar em livro traduzido para o inglês, nos Estado Unidos e no Reino Unido. Os editores foram à busca de mim e encontraram-me em Portugal e não em Moçambique. A mesma coisa ocorreu porque estamos no processo de tradução do livro para Sérvia. Também deu-se pela presença do livro em Portugal. E digo mais, o livro Animais do ocaso, em Portugal, onde nem sequer sou conhecido, esgotou. Mas o meu novo livro, em Moçambique, onde tenho muita visibilidade, não conseguimos vender 300 ou 500 exemplares a um preço muito baixo.

 

Animais do ocaso faz parte do plano nacional de leitura em Portugal. Imagino que isso seja especial.

Mas seria ainda especial se os moçambicanos conseguissem ao menos perceber o que isso significa. Muitas vezes, as notícias chegam, mas não conseguimos compreender o que se está a dizer. Nem um parabéns sequer recebemos. Mas nós conseguimos chegar a Portugal com um livro e o mesmo livro ser de leitura obrigatória dos portugueses. Não ouvimos ninguém do Ministério da Cultura, do Ministério da Educação. Não existe noção do que se produz em Moçambique. Por isso somos desrespeitados. Por exemplo, há uma produtora de um canal que me pede para o meu verso ser o nome do programa e que o poema sempre passe na abertura desse programa. Eu agradeci e pedi que fizéssemos as contas. Ela respondeu que isso é um pedido que me vai dar visibilidade. Mas não é a visibilidade que queremos, mas o cheque.

 

E que se respeite os direitos do autor.

É aí que eu queria chegar. Alguma coisa tem de mudar. Este ano escrevi uma cancão para UNICEF e fui pago. Foi uma das minhas experiências como compositor e gostei que me tivessem pago os direitos. Queremos chegar a um nível que as pessoas não perguntem de vivemos, quando dizemos que somos poetas. Eu quero viver de poesia e para poesia.

 

Além de viver de poesia e para poesia, teve uma experiência com a prosa, ao publicar um texto na antologia Espíritos quânticos, organizada por Virgília Ferrão. É o inicio de um percurso na prosa?

No início disto tudo, houve um grande investimento, de minha parte e da geração a que pertenço, para podermos nos expressar em qualquer área da literatura. O livro que vai sair em Portugal e que vai ter uma réplica em Moçambique, será o meu último livro de poesia. Por um grande momento, vou estar a investir no que tenho feito agora, escrever para o cinema, para banda desenhada e, quem sabe, para prosa, no sentido de romances e contos. Mas o próximo livro será o último livro de poesia de Álvaro Fausto Taruma.

 

Porquê?

Porque é preciso deixar o espaço para os outros. Fomos irreverentes. Mas a verdade é uma, não conseguimos chegar muito longe, pelo menos para o meu caso. Eu queria poder estar a uma situação em que os livros me ajudassem a viver. Encontrei um espaço na banda desenhada, no cinema, nas telenovelas, e é disso que vivo hoje. Então, por que investir muito do meu tempo no que, apesar de me dar vida emocionalmente, não me dá pés para caminhar naquilo que é o meu dia-a-dia, como homem dentro de uma sociedade?

 

34 anos de idade e quer deixar o espaço para os outros? Não é muito cedo, considerando que há autores com 34 anos de percurso literário?

Mas que, se calhar, não investiram, em termos de sangue, o que eu investi na poesia.

 

Por que acha que com a prosa de ficção será diferente?

Já estou a falar daquilo de que vivo hoje. Vivo do cinema e das telenovelas. É isso que paga as minhas contas e percebi que é nisso que devo investir. Muitos pensam que vivo da poesia, mas a poesia é algo que vem quando muitos estão a dormir e eu não consigo dormir. Eu sempre escrevi triste, agora quero escrever alegre.

 

Sugestões artistas para os leitores do jornal O País.

Sugiro Tornado, de Teresa Noronha, e Na pele do rosto, a coisa do tempo, de Guita Jr.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Morreu o rapper norte-americano Coolio, autor do êxito de 1995 ‘Gangsta’s Paradise’ e vencedor do prémio Grammy. Não são conhecidas as circunstâncias da sua morte, suspeita-se que ele tenha tido uma paragem cardíaca.

Artis Leon Ivey Jr conhecido como Coolio, nome artístico, perdeu a vida nesta quarta-feira aos 59 anos.

Coolio nasceu a 1 de agosto de 1963. Em 1991, aos 28 anos, juntou-se à banda de ‘hip-hop’ WC e The Maad Circle.

Lançou a carreira a solo em 1994 com o álbum “It Takes a Thief”. A canção mais famosa, “Gangsta’s Paradise”, integrou a banda sonora do filme “Dangerous Minds”, de 1995, com a actriz norte-americana Michelle Pfeiffer.

A composição levou o “rapper” a conquistar um prémio Grammy, em 1996, para Melhor Performance Rap Solo.

O repper também actuou em filmes e séries televisivas como Martin (1995), Sabrina, a Bruxa Adolescente (1996), Batman & Robin (1997), Futurama (2001, 2010) e Gravity Falls (2012).

Por Mário Forjaz Secca

 

Um novo livro do Aldino Muianga é sempre um muito esperado evento literário em Moçambique!

Para quem gosta da escrita do Aldino, fica sempre a expectativa do próximo livro. O próximo deleite na sua leitura. E aqui temos um novo livro seu, “O Galo Ruivo”.

Demorou a ser lançado, mas finalmente viu a luz do dia.

Para termos uma percepção da morosidade do processo e deitar algumas achas para a fogueira começada na conversa da passada terça-feira aqui no Camões, num despique entre o Aldino e o Mbate, conto um pouco do meu envolvimento nesta história.

No dia 10 de Janeiro de 2020 recebi uma mensagem por WhatsApp do meu amigo Aldino. Nela Dizia:

“A novidade é esta: estou a preparar a publicação de uma colectânea de contos que estava a acumular poeira nas minhas gavetas há muito tempo. Tenho estado aqui a pensar quem poderia prefaciar esse volume. Depois de várias consultas achei que eras a pessoa mais indicada para esse efeito. Convido-te formalmente a juntar-te a mim neste novo projecto. Conto publicar no segundo trimestre deste ano. Aceitas o desafio? Queres juntar-te a mim à volta desta? Aguardo pelo teu parecer.”

Confesso que li várias vezes a mensagem e cheguei a pensar: “Que estranha literatura anda ele a ler pela África do Sul para pensar em mim para escrever o Prefácio?”. Mas depois de algumas trocas de mensagens extra convenci-me que o Aldino não tinha andado a ler nada de ilegal e realmente me queria a mim para escrever o Prefácio.

Claro que aceitei, apesar de grande dose de medo que me atacou.

E claro que me lembrei do que a minha Mãe me gostava tantas vezes de dizer desde jovem: um prefácio é um texto que se escreve depois de um livro ser escrito, é colocado no início do livro e ninguém o lê nem antes nem depois!

Mas, mesmo assim, não podia deixar de prestar esta homenagem ao Aldino, e humildemente, ter essa honra de escrever esse Prefácio e estar aqui a apresentar o último livro deste grande escritor. Dois anos e meio depois do convite inicial!!!

Um pouco na mesma linha da conversa de outro dia “Médicos & Remédios” começo por falar deste tema da ligação da Literatura e da Medicina, com tantos casos na literatura mundial de médicos que também são escritores e poetas.

Há os exemplos clássicos noutras línguas de Chekov, Somerset Maugham, William Carlos Williams, Louis-Ferdinand Céline e Stanislav Lem, e, em língua Portuguesa, os exemplos de Miguel Torga, Fernando Namora, António Lobo Antunes e Agostinho Neto. Moçambique, com a sua pujança literária actual, não podia deixar de ter a sua quota parte de médicos-escritores já conhecidos, como por exemplo, Mbate Pedro, poeta e editor, e Aldino Muianga, contista e romancista.

Vindo eu da Ciência em geral e da Medicina em particular e estando modestamente ligado à Literatura, não podia deixar de me interessar por estas curiosas pontes / ligações / hibridizações.

Pelo Mundo fora, e ao longo da História, a Literatura não foi feita apenas por pessoas formadas em Letras ou Literatura. Existem muitos escritores com áreas de formação muito diversas, como cientistas, engenheiros, economistas, advogados e mesmo auto-didactas. E também existem muitos médicos!

Mas se esse é o caso, porquê então essa admiração em especial por médicos escritores?

É fácil fazer generalizações. E se o meu interesse for a Medicina, poderei dizer: Muitos escritores são médicos!

Mas nem todos os médicos são escritores e nem todos os escritores são médicos.

Contudo há aqui uma ligação curiosa. Um médico já tem a sua vida tão ocupada pelo seu trabalho profissional que encontrar tempo extra para escrever requer organização, perseverança e amor à literatura. Só essa característica já seria interessante, mas penso que o mais importante aqui é o lado de contacto e observação humanas que a profissão de médico traz consigo e o que essa vertente pode trazer à escrita. Há um olhar clínico, humano, de saber olhar para o outro, de sentir o outro, que aprofunda a literatura. E outro dia o Aldino disse alguma coisa que pela primeira vez me abriu os olhos: um médico tem muitas vezes de fazer a história clínica do doente e muitas vezes, também, para chegar lá, tem de ouvir as histórias pessoais do doente. E que manancial de enredos poderá daí advir, imiscuído com a humanidade de saber ouvir e respeitar a história do doente.

O médico escritor Miguel Torga tem uma série de livros de contos sobre as pessoas do campo e da montanha. E eu não consigo deixar de ler os contos de Aldino Muianga sem pensar em Miguel Torga, porque o Aldino nos faz uma coisa semelhante, que é trazer o seu olhar humano para essas histórias que se passam fora da cultura citadina mais culta, fora dos ambientes em que a maioria dos leitores dos seus livros vive. Dá voz a pessoas que normalmente não têm voz literária e assim nos abre o mundo e o torna mais rico e profundo.

E a lembrança de Miguel Torga vem também pela partilha do estilo literário do conto. Esse estilo onde o escritor num número curto de páginas conta uma pequena história em pinceladas rápidas que nos abre uma pequena janela da vida das personagens e nos traz momentos e pensamentos das gentes que tantas vezes nos cruzam o caminho e não as sabemos ver e ouvir.

O Aldino tem 14 livros publicados, quatro romances, uma novela e nove livros de contos. Obviamente o conto é o principal estilo dele, o seu forte. E eu confesso que é esse o meu estilo de prosa preferido. Questões de gosto…

Em Moçambique, seguindo o movimento global em que as novas gerações literárias se vão modernizando cada vez mais e urbanizando cada vez mais, é muito bom haver escritores que contem histórias do mundo rural e suburbano, porque é essencial para manter viva essa história humana que faz um país, principalmente quando essas histórias são contadas por alguém com a visão humana de um médico.

Não vou fazer aqui uma análise do livro e dos contos, porque o pouco que disse de interesse já está no Prefácio do livro, mas posso dizer que este livro “O Galo Ruivo” é composto por setes contos que, de certa forma, vêm na sequência do anterior livro do Aldino “Os Funerais de Mubengane”, mas enquanto o livro anterior é mais focado no ambiente rural, este novo livro aborda mais o ambiente suburbano, aqui em Moçambique ainda muito marcado pela transição recente do campo para a cidade, acarretando consigo ainda muita da maneira de pensar e viver rural mas já moldado à vida na grande cidade. Um fantástico registo desta faceta da história de Moçambique!

Estava ontem a conversar com duas amigas sobre a força da Literatura para mudar o Mundo e se atentarmos a estes contos do Aldino, com toda a sua humanidade e calor humano, podemos compreender que, se muito mais gente lesse estes contos, poderia haver muito mais pessoas a olharem o mundo com mais compaixão!

Há pessoas que nos cruzam a vida e, de repente, sem sabermos porquê, nos inspiram admiração, respeito, confiança, proximidade e amizade. E o Aldino é uma dessas pessoas. Um amigo que me entrou na vida pela porta da frente e com muita naturalidade. E entrou para ficar!

Só espero que o Aldino continue na sua força literária a escrever por muito mais tempo e nos continue a brindar com estes livros que tanto enriquecem a literatura moçambicana.

Um grande abraço, meu querido amigo!

Maputo vai acolher o prestigiado festival africano de dança contemporânea Danse L’afrique Danse. O evento terá duração de seis dias e vai contar com 26 companhias de dança.

A capital do país vai acolher o prestigiado festival africano de dança, anunciou o conselheiro da acção cultural Laurent Vidal. “Depois de Luanda, em Angola, Antananarivo, em Madagáscar, e Uagadugu, em Burkina Fasso, a bienal da dança em África, iniciada pelo Instituto Francês, vai acontecer em Moçambique, em Maputo”, anunciou Vidal.

Em Maputo, o festival Danse L’afrique Danse vai decorrer em Novembro do próximo ano e vai contar com mais de 20 companhias de dança. Por isso, Quito Tembe, responsável pela organização do evento, afirmou que o país será conhecido internacionalmente através das artes.

“Para nós, é contribuir para que Moçambique seja conhecido através das artes, através do que nós temos de rico que é a criatividade artística. Então, é este Moçambique que nós queremos vender”, enfatizou Tembe, organizador do evento.

Em representação da ministra da Cultura e Turismo, Tiago Langa enalteceu o festival e prometeu que o Governo dará todo o apoio necessário. “O Ministério da Cultura saúda essa iniciativa e dá garantia de que o Governo moçambicano vai dar todo o apoio necessário.”

A cidade marroquina de Marrakech foi a última a realizar o festival no ano passado, dando, agora, espaço para a cidade das acácias receber bailarinos e turistas africanos na bienal Danse L’afrique Danse.

Por José Paulo Pinto Lobo

 

Lourenço Marques 7 de Setembro de 1974.

Nove meses e dez dias após ter completado 16 anos.

Carros buzinando em alegre cacofonia com gente incauta e outros nem tanto, dependurada nas janelas das viaturas e com bandeiras portuguesas desfraldadas ao vento.

Galo, galo. Galo amanheceu!

E feras travestidas de homens atacaram os bairros suburbanos exterminando todos o que podiam sem qualquer pingo de humanidade. A reacção do povo agredido foi colocar na equação similar irracionalidade e adicionar ferocidade aplicando sem dó nem piedade a pena de Talião.

Apelos na rádio para doadores de sangue e voluntários para ajuda na triagem de feridos e noutras tarefas hospitalares. Convocado, prontamente no Hospital Central Miguel Bombarda me apresentei. Com uma bata azul envergada aguardei na entrada pela chegada dos maltratados na demente sanha assassina.

Carros particulares apitando em aflição, fazendo coro com o uivar estridente das sirenes das ambulâncias que afluíam sem cessar, despejando gente, muita gente. Parecia um enxame de vespas furiosas atacando a hospitalar colmeia.

Pessoas irmanadas na dor. Não se distinguia cor, aliás, apenas uma só cor. Vermelho. Tanto vermelho. Rios de sanguinolento vermelho. Até o céu se pintou de rubro ardente.

Todas as tonalidades de vermelho jorravam de ferimentos na cabeça, peito, braços e pernas. Feridas de balas de todo o calibre, de cartuchos de caça, zagalotes, cortes de catanas, machados ou qualquer outro instrumento contundente. Pessoas queimadas ou mutiladas nas pirómanas barreiras da estrada, nas palhotas incendiadas, ossos estilhaçados por balas explosivas e granadas, por pancadas de raiva, vingança e medo.

Médicos capitaneando unidades de combate. Queimados para ali, traumatismos aqui, ferimentos de bala para acolá. Cortem a roupa, limpem as feridas. Enfermeiros e auxiliares meio aturdidos afadigavam-se como regimentos disciplinados. E eu perdido no meio de uma guerra qual soldado recruta sem treino e sem armas.

Roupas, faces e corpos ensanguentados, sangue gotejando para as macas. Gritos de agonia e gemidos sem fim. Penetrando nos ouvidos e reverberando sem cessar enquanto se tentava fazer a (im)possível triagem. E o sempre omnipresente cheiro doce e enjoativo de sangue. E a morte ceifando vidas inocentes.

Mãos trémulas e exauridas buscavam as minhas em silencioso pedido de socorro e alento na minha desfalecida juvenil incapacidade. Emudeci em vã busca de palavras. Inexistia dicionário para aquela condição. A minha bata azul era tela de um louco pintor cuja paleta só tinha uma cor. Vermelho.

Olhares aterrorizados, outros vagos, catatónicos, tentando compreender tamanho pavor. Incrédulos ainda perante a crueldade e barbárie sofrida. Olhos revirando-se buscando mães, pais, irmãos, filhos, amigos, lancinantes apelos perdidos na balbúrdia hospitalar.

E as pessoas irmanadas no horror. Fraternizadas no desespero. Que adolescente poderia aguentar tal abominação? Não suportei. Baqueei.

Nesse mesmo dia e dias seguintes, refúgio encontrei na cozinha do hospital descascando batatas, cortando legumes, lavando pratos e tachos. Mas não deixei de ouvir as sirenes das ambulâncias. Nem os gritos e gemidos dos moribundos ressoando na minha cabeça.

Trágicos e tenebrosos dias fendendo o sonho de prometidas alegrias. Dias de mudança. De céu azul e também de nuvens carregadas prenunciando outras tempestades.

Assim, com a inocência abruptamente perdida fiz-me então incompleto adulto.

 

O novo livro de Juvenal Bucune é, na verdade, uma novela, onde o escritor e poeta ficciona a história incestuosa de uma mãe e um filho. Masingita ou a subtileza do incesto foi apresentado ao público esta quarta-feira, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

 Masingita é a história de Marta e Pepuka, personagens que convocam o leitor ao universo do pecado e do proibido. Tratando-se de mãe e filho que se envolvem sexualmente, do acto nasce um filho, que se vê mergulhado numa história complexa e arrepiante.

Masingita é um termo ronga que significa sacrilégio ou representação do sobrenatural. No Sul de Moçambique, o termo é usado para expressar o insólito ou para reprimir qualquer acção que não seja comumente aceite, como é o caso de uma mãe que concebe de seu próprio filho.

Juvenal bucuane busca, junto do leitor, responder a algumas questões que lhe surgem quando escreve sobre o incesto, um problema que entende ser de realidade moçambicana, mas pouco discutido.

A novela de Juvenal Bucuane leva a ficção a uma prática que existe na sociedade moçambicana, mas, muitas vezes, é ignorada, o incesto.

Ao ler o livro, Juvenal Bucuane espera que o leitor, em especial o moçambicano, reflicta sobre o assunto e que possa levantar um debate social.

“O incesto acontece. O que eu espero é que o leitor receba este livro de uma forma diferente de como tem recebido os outros, porque este traz um assunto que eu não me lembro que se tenha discutido alguma vez. Então para as pessoas é uma novidade trazer-se este assunto a lume. As pessoas vão estar interessadas em discutir o problema. Portanto é uma novidade e penso que vai ter algum impacto”, explicou Bucuane.

O livro foi lançado esta quarta-feira no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, sob a chancela da Editorial Fundza.

 

 

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