O País – A verdade como notícia

A exposição Um urbanista da memória, de Jorge Dias, será inaugurada às 19 horas desta quinta-feira, no AT|AL|609 – Lugar de Investigações artística, na Cidade de Campinas, no Brasil.

Com curadoria do artista brasileiro Genivaldo Amorim, a exposição de artes plásticas reúne obras inéditas, feitas com capulana. Fundamentalmente, a mostra trata das memórias individuais e colectivas que se transformam nas sociedades.

Para Genivaldo Amorim, a exposição descreve Jorge Dias como um artista que há muito tempo trava uma luta diária para escapar das armadilhas dos que tentam estabelecer aspectos consolidados do que deve ser, parecer e comportar. “Do seu lugar de origem, Jorge busca um diálogo que fala das memórias, dos valores culturais que fazem parte do processo de construção de identidade comum em permanente construção. Não ancora no óbvio, nem nos contornos da clareza, optando por privilegiar as perguntas em vez da busca por respostas definitivas”, lê-se na nota de imprensa da exposição.

A sua individual, igualmente, permite que Jorge Dias “transite em territórios fronteiriços entre o mundo real e da arte, entre as formas existentes e seus limites, naquilo que é tangente e que flui num hibridismo cultural. Consequentemente, os questionamentos feitos por Dias são sempre presentes, trazendo reflexões a partir da experiência pessoal e do grupo”.

Durante a visita da mostra, Jorge Dias espera que os brasileiros encontrem outras formas de olhar para as identidades. Até porque, conforme entende, as  preocupações dos artistas em Moçambique, noutras partes do mundo e no Brasil, têm vários pontos de encontro. “Esta exposição foi pensada especialmente para ser apresentada no Brasil e vai ficar no AT|AL 609 – Centro de Investigação Artista durante três semanas”, disse o artista plástico.

Jorge Dias começou a preparar Um urbanista da memória ano passado, em Moçambique, sendo que parte da exposição foi “terminada” no Brasil.

A Fundação Fernando Leite Couto inaugurou, esta quarta-feira, a individual de pintura Êxodos, da autoria de Vito Ferrinho. O valor da venda das telas será canalizado ao apoio das vítimas do terrorismo em Cabo Delgado.

 

Mesmo na ausência de Vito Ferrinho, que se encontra na Suécia, a sua individual de pintura foi inaugurada na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Constituída por 18 telas, Êxodos reconfigura os movimentos, os rostos, as emoções e a expectativa dos moçambicanos que, no Norte do país, perderam praticamente tudo, por causa do terrorismo.

Recorrendo a acrílico sobre tela, Vito Ferrinho retrata, essencialmente, o ser feminino, ora como sujeito maternal, ora no campo de trabalho. As imagens, com efeito, são cheias de cor vibrante e pretendem demonstrar que a arte participa na vida quotidiana da sociedade moçambicana.

A ideia da exposição conta com o envolvimento da Associação Acácia, que, ao sentir a dor das populações descolocadas no Norte do país, contactou a Associação Pantera, e, através desse contacto, conseguiu sensibilizar uma voz moçambicana que se encontra na Suécia: Vito Ferrinho. Assim, explicou Carlos Macuo, da Associação Acácia, Ferrinho transformou a dor das populações em obras de arte.

Com a excepção de três peças, cujo valor irá cobrir as despesas de viagem do artista para Moçambique, o valor de todas as outras 15 obras será canalizado ao Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres, para apoiar as vítimas do terrorismo em Cabo Delgado.

Para a Fundação Fernando Leite Couto, a parceria com a Associação Acácia em prol da exposição é oportuna porque, assim, pode-se celebrar a arte ao mesmo tempo que se apoia a quem precisa. “Poderemos gerar renda e, com essa renda, ajudar as gentes de Cabo Delgado em função dos deslocamentos que têm havido. O título da exposição é Êxodos e representa esses deslocamentos tanto de ida, tanto de regresso”, afirmou Sara Jona Laisse, Directora-Executiva da Fundação Fernando Leite Couto.

A individual de pintura Êxodos estará patente na Fundação Fernando Leite Couto até 3 de Setembro.

A longa-metragem O poeta da ilha, da autoria de Júlio Silva, será exibida nos dias 26 e 28 deste mês de Agosto, nas cidades de Roterdão e de Zaandam, sempre nos Países Baixos.

 

A mais recente produção cinematográfica de Júlio Silva será exibida nos Países Baixos, num evento da TV Letra das Ilhas. A primeira sessão está agendada para dia 26 de Agosto, a partir das 20 horas, na sala de Pelgrimsstraat de Roterdão. Já a segunda sessão irá acontecer às 14 horas do dia 28 de Agosto, em Zaandam.

Com 85 minutos de duração, a longa-metragem O poeta da ilha, de Júlio Silva, foi rodada em Cabo Verde, tendo sido estreada em Luxemburgo. Em geral, é um filme adaptado de factos reais, que retrata a história sobre a luta que os cabo-verdianos fizeram na clandestinidade durante a época colonial.

Desde a estreia até aqui, o cineasta revela que o feedback do público que viu a longa-metragem tem sido fantástico. E lembra que: “Através da Rádio Televisão de Cabo Verde, em comemoração do aniversário da agência do Sal, fizemos uma tournée por quatro ilhas de Cabo Verde (Ilha do Sal nos Espargos e em Santa Maria, na Ilha  de São Vicente fizemos duas sessões no Centro Cultural do Mindelo e na Sala do Alaim, fizemos quatro sessões em três conselhos da Ilha de S. Antão – Porto Novo, Ribeira Grande, Ponta do Sol e Paul”.

Ainda em Cabo Verde, a longa-metragem O poeta da ilha, de Júlio Silva, também foi levada à capital Cidade da Praia, onde foi projectada no Palácio da Cultura Ildo Lobo e na Sala de Conferências do Hotel Trópico. Em todas as sessões, realça o cineasta, teve sala cheia.

Tendo sido um sucesso em Cabo Verde, Júlio Silva afirma que o filme falado em crioulo cabo-verdiano e português, com legendas em francês e inglês, começa a ser exibido em vários países onde vivem cabo-verdianos. “Depois desta etapa de promoção e divulgação do filme, vejo o meu nome a ser falado como realizador moçambicano”.

O filme O poeta da ilha foi premiado no Festival Internacional das Migrações em Luxemburgo, inclusive, com várias distinções aos actores.

 Há muitos anos que o saxofonista Ivan Mazuze vive na Noruega. Naquele país europeu, Mazuze desempenha a função de Conselheiro Nacional para o Fórum de Jazz Norueguês, uma organização de cariz artístico-cultural que reúne a comunidade de jazz local e que trabalha na promoção do género musical e das acções inerentes.

Na Noruega, entre 17 e 22 do mês passado, decorreu o Molde Jazz Festival. Na sua vasta programação, o evento integrou a iniciativa Jazzintro, que teve como um dos membros de júri Ivan Mazuze.

Segundo uma nota de imprensa, o saxofonista moçambicano trabalhou com alguns dos principais músicos de jazz da Naruega, nomeadamente, Ellen Brekken (baixista), Dag Magnus Narvesen (baterista) e Sanskriti Shrestha (tablaista).

A nota de imprensa acrescenta que Jazzintro é um programa de lançamento de talentos destinado a jovens músicos de jazz noruegueses. Os vencedores deste ano irão exibir-se, além dos principais clubes de jazz locais, nos maiores festivais de jazz noruegueses, tais como Vossa Jazz Festival, Molde Jazz Festival, NattJazz Festival, Kongsberg Jazz Festival e Mai Jazz Festival.

Entre 55 inscrições ao programa Jazzintro, avança a nota de imprensa, oito bandas foram seleccionadas para participar, designadamente, Bento Box, Munch Trio, Peders Hode, Ototoi, Joakin Rainer Trio, Firvel, Ask Morris Quartet e Stenøien/Hjemmen/Heide Bø. O júri refere que “No processo de selecção, gostamos de ouvir as demos enviadas, onde não foi fácil escolher apenas oito bandas”.

Conforme entende Ivan Mazuze, citado na mesma, esta é uma experiência enriquecedora pela responsabilidade de poder fazer parte do júri que escolhe os futuros executores do jazz – sendo um artista moçambicano – e por poder contribuir para o crescimento do estilo musical na Noruega e no mundo.

Desde a sua criação, em 1998, Jazzintro tem sido muito importante para destacar talentos do jazz norueguês. Muitos dos grandes nomes do jazz de hoje participaram do Jazzintro no início das suas carreiras, como Mathias Eick, Stian Westerhus, Anja Lauvdal, Gard Nilssen, Marius Neset, Hanna Paulsberg e Morten Qvenild. Os vencedores anteriores incluem Monkey Plot, Albatrosh, Puma, In the Country, Urban Connection, Megalodon Collective e Kongle Trio.

 


 

Aos 16 anos de idade, Jimmy Dludlu emigrou clandestinamente de Moçambique. Destino? Swazilândia. Objectivo? Ser guitarrista, tendo como fonte de inspiração o bairro Chamanculo e o guitarrista norte-americano Jimi Hendrix. Ainda imberbe, passou por muitas privações: na Swazilândia, no Botswana, na África do Sul e na Namíbia. Mas nunca largou a música. Pelo contrário, formou-se em música quase a vida toda. Neste 2022, comemora 37 anos de percurso como profissional. Tem 56 de idade. Olhando para trás, lembra-se de tudo um pouco: do trabalho nos bares, nas machambas ou a cuidar de animais, o que lhe permitiu comprar a sua primeira viola; lembra-se da relevância e dos sucessos na banda Loading Zone, na qual esteve com Frank Paco ou John Assan. O pretexto da conversa, na verdade, é o prémio carreira que irá receber no South African Music Awards, no dia 28. Por isso mesmo, aproveita a oportunidade para lamentar por esse reconhecimento do seu próprio país, que tarda chegar. Mas Jimmy também fala da nomeação ao cargo de Embaixador Africano a Representar a América na Diáspora, do espectáculo no Centro Cultural Franco-Moçambicano, no dia 19 deste mês, e, claro, do infinito amor pelo Bairro do Chamanculo.

 

O South African Music Awards (SAMAs) irá distinguir-lhe com o Lifetime Achievement Award, Prémio Carreira. O que esse reconhecimento significa para si?

Em primeiro lugar, eu quero agradecer a Deus pelo talento que possuo. Sem Deus, eu não chegaria onde hoje me encontro. Em segundo lugar, agradeço à minha família e a todos os que me apoiaram, de modo a conseguir inspiração: a minha falecida mãe, aos meus irmãos Imaculado e Tina, aos meus sobrinhos e à minha esposa Sandra, machope da minha vida, porque ela é que me inspirou a fazer o In the Groove e o History in a frame. Por fim, agradeço a estes meus irmãos que se encontram aqui comigo [Nelton Miranda, Stélio Mondlane, Taphelo e Pimenta]. Estes discos eu fiz com eles. Na verdade, a lista de agradecimentos é enorme. Inclui ainda George Lee, da Swazilândia, que me ajudou a saber ler música, Nanando, Chica, primo Benjamim e primo Eurico, todos do Chamanculo que me apoiaram ainda menino, Hugh Masekela, Miriam Makeba, os meus irmãos Frank Paco e John Assan, que estivemos juntos nesta batalha. Para a África do Sul, hoje, reconhecer Jimmy Dludlu, eles fizeram parte desta caminhada. Quanto ao prémio, dos 10 discos que já gravei, sempre acompanhei o Prémio Carreira dos SAMAs como que para pessoas que já não estão connosco. Foi uma surpresa. Até agora não acredito que eu irei recebê-lo. Só posso agradecer a Deus.

Como é que reagiu, quando soube na notícia?

Ajoelhei, agradeci à minha mãe e a Deus e brindei com a minha esposa. Também liguei à minha filha mais velha, em Botswana, para que ela apurasse a veracidade da informação. Mas a minha boss disse que o prémio era realmente para mim, que não havia enganos. Eu disse que não acreditava porque o prémio não é atribuído a pessoas vivas. Aí ela disse-me que as coisas mudaram. Então eu disse khanimambo! Xikwembu xini nhlamulile [do rhonga, obrigado! Deus abençoou-me].

Como é que se constrói um percurso, de modo a merecer um prémio carreira na África do Sul?

Com muito trabalho. Eu estou na música profissionalmente desde 1982. Comecei acompanhando músicos, até que um dia quis ser e meti-me numa escola [Cape Town]. Ser bom aluno e viver em família sempre ajuda. O que acho mau, é um músico que não sabe se posicionar. Eu sempre trabalhei para levantar a bandeira das culturas africanas. A África do Sul reconhece isso. É pena que aqui no meu próprio país isso ainda não aconteceu. Mas mais tarde ou cedo irão perceber que, de facto, o Jimmy está a fazer alguma coisa. Países como Estados Unidos, Gana e, agora, África do Sul, já reconheceram a minha contribuição para cultura e para indústria musical.

Faz falta um reconhecimento em casa?

Em casa seria mais especial. É um pouco triste não ser reconhecido na sua própria casa, mas eu deixo tudo nas mãos de Deus.

São 37 anos de percurso musical, 56 de idade. Quais são os momentos mais altos e os mais baixos?

O momento mais complicado, para mim, foi sair de Moçambique no tempo da guerra. Saí com um amigo-vizinho, o Manito. Ele queria ser futebolista e eu músico. Eu gostava muito do Jimi Hendrix… E… imagina, miúdos de 16 anos largarem a escola, caminharem a pé uma semana, até chegarem a Manzine [eSwatini, a aproximadamente 200km de Maputo], naquelas montanhas, um deles a sonhar ser músico, um guitarrista e, com isso representar uma nação… Chegamos lá e fomos tratados como machanganas, com aquela toda xenofobia. Emigramos para Botswana e lá fomos tratados como membros da juventude do ANC. Ou seja, apanhamos racistas em todo lado. Foi muito difícil. Lembro-me muito bem da minha saída do Botswana, sem documentos para ir a África do Sul. Eu e os meus amigos viajamos num comboio de cimento. Quando o comboio passou a fronteira e conseguimos saltar, a pessoa que estava à nossa espera ficou extremamente assustada. Pensou que fôssemos svipokus [fantasmas]. E fugiu. Tivemos de ir à cabine para lhe dizer que eramos nós. Depois, ir à universidade, em Cape Town, onde não se admitia pessoas negras… Eu e o meu irmão Frank [Paco] lutamos e fizemos de tudo para conquistar o que hoje são frutos do nosso trabalho. Foi um desafio muito grande. Tive de deixar de tocar nos bares e ir à universidade para aprender a criar e a tocar o meu estilo de música. Foi uma loucura, mas foi a visão que Deus me deu.

A propósito de Frank Paco, o seu primeiro grande momento foi com os Loading Zone?

Foi com Loading Zone. À primeira vez que subi ao palco, eu tive medo. Eu falava muito baixo. Lembro-me que até uma senhora disse-me para falar como homem. Foi um desafio tocar a música pela primeira vez para o público. Tinha muita vergonha, mas aqueles que estavam a trabalhar comigo deram-me força, dizendo que eu era capaz. Ganhei confiança e estamos aqui, hoje.

Falou de Swazilândia, África do Sul e Botswana. E aquele momento em Namíbia, com Loading Zone?

É verdade. Um dia desses nós saímos da África do Sul, muito cedo, e partimos para uma digressão a Namíbia. Oito pessoas na mini-bus: eu, Paco, John Assan, entre outros. A única coisa que tínhamos ali era Coca-Cola e Fanta. Aquilo já nem era refresco de tão quente que estava. Nem sei o que era. Mas tivemos de tomar aquilo até chegar a Namíbia para tocar num bar. Ficamos por lá dois anos. Certo dia chegou Papa Wemba. Ele viu-nos e gostou de nós. Acompanhamos Papa Wemba. Depois, decidimos ir à Cape Town. Para sair de Cape Town foi muito difícil. Aquelas banda de Cape Town tocam muito bem. Para mim, Cape Town foi a universidade da minha vida, musicalmente. Foi ensaio a sério. Lembro-me que, quando estava na Swazilândia, eu começava a ensaiar às 17h. Às 5h, quando as pessoas se levantavam para ir trabalhar, eu ia dormir. E ainda trabalhei como servente, soldador, já cuidei de machambas e de animais. Tudo isso para comprar a minha primeira viola. Hoje, Deus diz-me que todo aquele esforço não foi em vão.

Dos Estados Unidos também chegou uma boa notícia. Foi nomeado para desempenhar a função de embaixador africano na promoção da música do continente fora de África…

Quando recebi a carta da América, a dizer que eu seria o primeiro Embaixador Africano a Representar América na Diáspora, para fazer promoção da música africana, eu julguei que fosse mentira. Agora tenho um desafio enorme, porque os meus alunos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane terão de seguir essa viagem. Para o ano, irei ao Senegal e a Gana para identificar outros artistas, de modo a irem a América também.

É uma responsabilidade acrescida?

Muito. Sabe, cada passo que damos, é uma fase nova da nossa vida e aquilo que pensamos que estávamos a fazer, ontem, torna-se diferente, hoje.

Que resultados espera alcançar com essa função de embaixador?

Espero conseguir identificar pessoas que algum dia irão dar uma boa imagem do continente. Os americanos estão à procura de grandes talentos africanos.

Jimmy nasceu em Inharime, Inhambane. Viveu na Swazilândia, Bostwana, África do Sul e Namídia. Mas Chamanculo, esse bairro suburbano de Maputo, é o seu local de eleição. Porquê?

Chamanculo sou eu. Eu sou molwene de Chamanculo. Toda gente sabe disso. Mas do Chamanculo saem figuras proeminentes. Não sei o que se passou com esse bairro, que consegue produzir todo o tipo de pessoas importantes. Não estou a dizer que não há coisas negativas, como em todos os bairros. Mas Chamanculo é a minha fonte. Sem esse bairro não sou nada. Chamanculo é tudo para mim. Inspira-me.

E é por isso que, com Carlos Gove, irá tocar Chamanculo no Franco-Moçambicano?

Quando eu era miúdo, o Carlitos já acompanhava muitos artistas. Para eu e ele chegarmos a este nível, tivemos o incentivo de Fanuel Paúnde e outros da zona, como do grupo dinamizador. Então decidimos que tinha chegado o momento de fazer alguma coisa pelo bairro. Então trouxemos este concerto “Celebrando, Chamanculo”. Será uma grande festa. Iremos tocar muita coisa, começando do Echoes from the past, para homenagear Nanando e outros músicos. O nosso espectáculo deverá durar três horas, 90 minutos para mim, e outros 90 minutos para o Carlitos.

Dois navios saíram, esta segunda-feira, da Ucrânia carregados de milho e soja. O anúncio foi feito pelo Governo da Turquia, citado pelo Notícias ao Minuto.

Desde o acordo assinado com a Rússia, segundo a fonte, estas saídas elevam para 10 os navios de exportação de cereais que já deixaram os portos ucranianos em direcção ao mar Negro.

Segundo o ministro da Defesa turco, o “Sacura” saiu de Yuzni com 11 toneladas de soja e dirige-se a Itália, O segundo navio, o “Arizona”, deixou Chornomorsk com 48.458 toneladas de milho e navega em direcção a Iskenderun, no sul da Turquia.

Este domingo, tinham saído mais quatro navios que deverão chegar a Istambul na noite desta segunda-feira. A inspeção da carga está agendada para terça-feira.

O acordo foi assinado com as Nações Unidas e a Turquia no mês passado, mas o primeiro barco só deixou o porto na semana passada. O objectivo deste acordo é evitar uma grande escassez de alimentos e surtos de fome em várias partes do mundo.

A exportação dos cereais ucranianos está a ser controlada pelo Joint Coordination Centre (JCC), em Istambul, que conta com representantes russos, ucranianos, turcos e das Nações Unidas.

Também à Ucrânia começam a chegar os primeiros navios estrangeiros, desde o início do conflito. Segundo o ministro das Infraestruturas ucraniano, Oleksandr Kubrakv, a primeira embarcação a ancorar no porto de Chornomorsk está já pronto para receber a carga. Um segundo navio está também a caminho da Ucrânia, depois de ter sido inspecionado em Istambul.

O Governo ucraniano pretende também começar a exportar cereais a partir do porto de Pivdennyi, estimando que sejam expedidos pelo menos três milhões de toneladas por mês.

A Rússia e a Ucrânia produziam, antes do início da guerra, um terço da exportação mundial de trigo, sendo também importantes mercados para outros cereais.

 

Por Wilson Profírio Nicaquela

 

É manhã de sexta-feira, 22 de Julho de 2022, a 1ª Capital de Moçambique acorda com um movimento jamais visto nos últimos 224 anos de elevação à categoria de cidade. As três principais ruas que derivam da ponta sul da Ilha recebem jovens e adultos, regressando do norte da Ilha para se juntarem ao largo da praça dos heróis moçambicanos.

A coisa fica “estranha” pela similaridade da vestimenta entre homens e mulheres, todos trajados de vestidos azuis-escuros muito longos, acompanhados de chapéus quadrados, que aumentavam essa estranheza, numa comunidade em que no quotidiano usar chapéus redondos (cofió) é normal, mas a veste das mulheres é diferente dos homens.

Ao aproximar das 7h30min o movimento aumenta, os moto-taxistas, entre identificados com formação e ocasionais (sem noção do código de estrada), transportam apressadamente aos graduandos.

Mesmo assim, com o movimento desusado, eram aperitivos, pois do lado continental, ao largo daquela que, até 2015, era a única ponte erguida sobre o oceano Índico, em solo pátrio, suportava um Machibombo transportando um dos melhores grupos culturais das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique (a banda militar).

A cancela foi aberta, os homens das “ordens comandante” começaram a “desembarcar”, o número de curiosos aumenta extraordinariamente, ainda que única flauta ou trombeta não tivesse sido testada.

Lá do norte da Ilha, as autoridades do governo central, provincial e da direcção máxima da Universidade esperam, com relativa apreensão, pelos graduandos que foram colocados a marchar sem necessidade?!

Para que reduzíssemos o nível de apreensão, formulamos um convite aos dirigentes e aos órgãos colegiais da Universidade, para que viessem a pé, (na Ilha é normal) para aquele modesto edifício que sobrou milagrosamente do Ciclone Gombe, o qual alberga parte da FCSH, onde poderiam assistir segura e tranquilamente à marcha alusiva à primeira graduação de uma Instituição de Ensino Superior na história da Ilha de Moçambique.

De repente estava uma multidão em erupção do lado da Paróquia, de fronte do tribunal da Ilha de Moçambique, eram crianças, jovens, adultos, homens e mulheres, que romperam o protocolo pela curiosidade, colocaram-se à frente da banda militar e das viaturas de escolta, mas sem impedir a marcha normal.

Esse movimento de pessoas que se esqueceram, temporariamente, da COVID-19, comoveu ao Professor Doutor Daniel Nivagara, Ministro da Ciência, Tecnologias e Ensino Superior. Não sei e não me lembro em que estado ficou o Dr. Mety Oreste Gondola, Secretário de Estado na Província de Nampula, quando acompanhava os acenos dos marchantes vestidos a rigor académico. Preferi não olhar para o rosto da Professora Doutora Eng. Leda Florinda Hugo, Magnífica Reitora da Universidade Lúrio, e de seus Vice-Reitores, (os Profs. Doutores Marcelino Marta Liphola e Fred Charles Nelson), mas alguém me afiançou que, a Reitora esteve muito mais feliz que nunca, desde a sua nomeação para dirigir a Universidade Lúrio em meados de 2020.

A marcha passou, a comitiva seguiu, a dupla dos mestres-de-cerimónias sem experiências alguma, mas que surpreenderam (O Germito Alexandre e a Fernanda Dinheiro), anunciaram a entrada do presidium. Rompemos a fórmula, a entrada acontece num campo de FUT-SAL, estava um sol abrasador e calor húmido. Não havia sombra suficiente, a vedação recorria a esteiras com desenhos insignificantes aos olhos dos formalistas. Muitos não sabiam que estávamos na Ilha de Moçambique, Património Cultural da Humanidade.

A cerimónia teve o seu início formal, os graduados e a FCSH receberam bênçãos da religião islâmica e dos cristãos, os cépticos perceberam que estávamos num espaço multi-religioso.

Ao ritmo do Maulide, uma dança em extinção, do tufo em transformação e do imponente grupo de canto e teatro da FCSH, o Dr. Lucílio Beca, Director dos Serviços Académicos da UniLúrio, declara oficialmente os primeiros 64 Licenciados da FCSH.

Dentre eles, três são naturais da Ilha de Moçambique. As emoções estavam ao rubro, a chuva era intermitente, as togas e as batinas dos recém-licenciados, e dos PhD da UniLúrio tornaram-se agasalhos de um frio repentino, mas ninguém ousou desistir. Afinal, a Reitora e o Ministro não haviam falado ainda. Os alunos da Escola Secundária da Ilha estavam inconformados, queriam e estavam a assistir pela primeira vez a uma graduação a céu aberto, sem aparato de segurança, que caracteriza a presença altos dirigentes do Estado.

Foi assim como havíamos planeado, para esta 1ª Cerimónia de Graduação da FCSH em que, um dos melhores graduados, o Abdul Tawazir Juma, nasceu, cresceu e estudou na Ilha de Moçambique. Como disse o Presidente da Associação Ilha de Moçambique, o Sheik Hafis Jamú, na mensagem da comunidade (uma inovação nas graduações da UniLúrio), foi possível “sem ter atravessado a ponte, nem o mar, para ter o Ensino Superior” e receber o diploma de mérito.

A cerimónia conheceu o seu fim formal no meio de um chuvisco que de ameaça, ganhou sentido de bênção, no dizer dos participantes. A festa ganhou outro sentido, afinal toda Ilha estava parada, literalmente. As conversas no dia da graduação mudaram de objecto no interior dos bairros da zona de “Macuthi“, Macuti ou Makutti, todo o dia não se falou da pesca, nem se jogou M’pale, o objecto era o ABDUL do Museu, que foi declarado melhor estudante.

Nesta primeira graduação não facilitamos, diziam os ilhéus, que se rendiam com o nível de organização e atrevimento da FCSH em assuntos que, antes só era possível ver pelas televisões. A admiração da comunidade foi tal, ao ponto de alguém, expressando gratidão, naquele mercado fornecedor de “jantar em direto” (Andalane), dizer em emakhuwa: “Anaharamo-ale yahiwanana” (qualquer coisa como: os tipos estavam preparados e bem organizados), essa expressão para quem não percebe os falares dos naharas, pode achar ofensiva.

A graduação transitou de um evento da Faculdade e Ciências Sociais e Humanas, tornou-se numa cerimónia da Ilha e dos ilhéus. Alunos que participaram do evento prometeram ser os próximos vencedores do diploma de mérito (Medalha da FCSH), o que tudo indica, o maior número de inquilinos nesta jovem Faculdade, pode vir a ser da Ilha de Moçambique

Esta cerimónia foi o fim de uma etapa, dos projectos emblemáticos iniciados pela equipa do Professor Francisco Noa, na Universidade Lúrio.

O projecto Combatendo a Poluição Através das Artes apresentou, na Universidade de Save, no Campus Principal de Venhene, no Distrito de Chongoene, na Província de Gaza, a peça teatral o “Dilema de Xongate”, que tem como objectivo sensibilizar as comunidades sobre os efeitos das mudanças climáticas e as acções concretas que podem ser levadas acabo para os combater.

De acordo com uma nota de imprensa, a peça teatral apresentada pelos estudantes do curso de teatro da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), retrata os principais comportamentos humanos que promovem as mudanças climáticas como é o caso de poluição do ar, das águas de rios e mares, corte de mangais, devastação de ecossistemas marinhos e desmatamento florestal.

A plateia composta maioritariamente por estudantes e professores daquela universidade, mostrou-se engajada na luta contra as mudanças climáticas, e através do debate no fim da peça teatral, deu suas contribuições para a melhoria da protecção do meio ambiente na Província de Gaza e em Moçambique em geral.

Além da peça teatral, o projecto Combatendo a Poluição Através das Artes pintou um mural no Herbário e Jardim Botânico da UEM como forma de chamar a atenção dos estudantes, funcionários e visitantes sobre a importância da proteção do meio ambiente, especialmente nas suas diversas espécies e ecossistemas que caracterizam o nosso país.

O projecto é fruto da parceria entre a Joint Neture Conservation Committee – JNCC (Comité Conjunto de Conservação da Natureza) do governo do Reino Unido, o departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências, Faculdade de Letras e Ciências Sociais e a Escola de Comunicação e Artes todos da Universidade Eduardo Mondlane.

 

A Ministra da Cultura e Turismo dirigiu uma equipa da instituição que dirige a uma visita ao Núcleo d’Arte e à Fundação Fernando Leite Couto (FFLC), esta quarta-feira, na Cidade de Maputo. Nos dois locais, Eldevina Materula interagiu com gestores e vários artistas sobre assuntos do campo das artes.

No primeiro caso, Núcleo d’Arte, a equipa foi recebida por Celestino Mudaulane e, na FFLC,
por Sara Jona Laisse.

De acordo com o Ministério da Cultura e Turismo, os encontros tinham como intuito manter contacto directo com os fazedores das artes e vivenciar o dia-a-dia da vida dos artistas nos seus espaços de produção e exposição. Assim, no Núcleo d’Arte abordou-se, dentre vários assuntos, a necessidade de melhorar a legislação sobre a circulação de obras de arte para o estrangeiro. Já na FFLC, a equipa de trabalho visitou as duas exposições patentes no espaço, designadamente: “Hino das Cores”, de Gumatsy, e “Equalização das linhas da vida”, de Chaná de Sá.

Depois de explorar as duas exposições, a equipa do MICULTUR teve a oportunidade de esclarecer alguns aspectos e trocar impressões sobre matérias em curso e, sobretudo, em relação à criação do Estatuto do Artista.

Os encontros estão igualmente inseridos no plano de debates promovidos por diferentes órgãos, sobre a necessidade da implementação do Estatuto do Artista.

A Ministra da Cultura e Turismo apelou à intervenção directa dos artistas e instituições de arte de modo a serem parte integrante na institucionalização dos instrumentos que regulam o sector.
A governante também referiu que o Ministério está, com os encontros, a intensificar o contacto com os agentes das artes para uma maior e melhor inclusão.

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