O País – A verdade como notícia

O concurso de fotografia lançado pela Marimba é destinado a jovens de até aos 30 anos, de nacionalidade e residência em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor Leste, países parceiros do projecto.

De acordo com uma nota de imprensa, serão seleccionados quatro candidatos, sendo um por cada país de intervenção, cujo objectivo final é a participação numa exposição colectiva, com trabalhos previamente seleccionados e que terá lugar em Maputo, no culminar do projecto, em 2024.

As candidaturas decorrem até 8 de Setembro de 2022, sendo que o regulamento de participação encontra-se disponível na internet.

Em geral, Marimba tem como objectivo valorizar a produção musical, através da sua pesquisa, digitalização, promoção e distribuição internacional.
Paulo Flores, Nástio Mosquito (angolanos), Manecas Costa (guineense), Stewart Sukuma (moçambicano) e Etson Caminha (timorense) são os embaixadores do projecto.

A peça Entre corpo e alma será apresentada às 19 horas desta quarta-feira, no 16Neto, na Cidade de Maputo. A performance conta com Nélia Gilberto, Paulo Jamine (actores), Beauty Sitoe (música) e Lucrécia Paco (leitura).

 

Ao longo de 30 minutos, a encenação Entre corpo e alma, de Ramadane Matusse, estará no palco do espaço 16Neto, na Cidade de Maputo. Em geral, trata-se de uma peça multidisciplinar, que surgiu como resultado de uma pesquisa feita pelo encenador na disciplina de Expressões Artísticas, em 2017, no Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC).

Originalmente, a pesquisa consistiu em explorar o significado do corpo para diferentes religiões e etnias. Depois disso, Ramadane Matusse conversou com Joana Chivale, de Inhambane, que lhe apresentou algumas comparações inspiradores sobre o corpo. De seguida, Matusse leu um artigo da autoria do professor de teatro e actor Dadivo José, sobre corpo e movimento nos rituais nacionais. A experiência de leitura foi tão gratificante que o encenador decidiu unir o útil ao agradável: refelectir sobre o corpo enquanto recurso sociocultural e artístico. “Espero que o público aceite este desafio fora dos cânones habituais. Aqui temos uma peca de teatro, mas não se trata de um teatro falado. Exploramos movimentos, um casamento com a música e um texto lido”.

O texto referido por Ramadane Matusse será interpretado por Lucrécia Paco, num espectáculo que estará carregado de imensas questões existências do Homem. Já a performance em si, irá, sobretudo, explorar a significação do corpo feminino, segundo a sua pesquisa, tido como mais frágil relativamente a do homem.

Entre corpo e alma estreou ano passado, durante a segunda edição do Festival Gala Gala, na Cidade de Maputo. Porque a peça não teve grande repercussão, já que apenas foi apresentada virtualmente, Ramadane Matusse decidiu voltar a levar ao palco, agora com presença do público, uma performance relevante, pela temática e pela actualidade.

Quanto à apresentação feita ano passado no Centro Cultural Moçambicano-Alemão, a peça tem apenas uma mudança, concernente à música. Ou seja, já que a cantora Lenna Bahule encontra-se fora do país, a parte cantada da peça estará na responsabilidade de Beauty Sitoe.

A dramaturgia de Entre corpo e alma foi feita por Mulandi Mazoio e na interpretação estão os actores Nélia Gilberto e Paulo Jamine.

O fundador do Grémio Africano de Lourenço Marques, e dos jornais O Africano e O Brado Africano, João Albasini, também conhecido pelo seu nome rhonga Nwandzengele, morreu a precisamente 100 anos, isto é, a 15 de Agosto de 1922. Neste artigo, na verdade, apenas lembramos essa enorme referência intelectual e da imprensa moçambicana. Pelo menos…

 

João Albasini sorri, quando Hans lhe conta que na noite anterior quase se perdeu num mato que existe perto do hotel.

‘Mato?’.

Trata-se antes de um jardim. Ou melhor, de um projecto de jardim, uma vez que, como sempre, as hesitações ou mesmo o desvio de verbas erodem ideias e planos que acabam por dar em não mais que grotescos esboços, coisa nenhuma. João Albasini é assim, tem a curiosa propensão de conduzir todos os diálogos numa mesma direcção, de assestar sobre a municipalidade e os seus jogos todas as baterias que tem. É tinta que lhe corre nas veias, não sangue. Alguma coisa muito séria lhe hão-de ter feito para que veja o mundo sempre assim.

‘Mato?’.

Albasini ri com gosto.

Esta é uma das imensas passagens do romance O olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho, no qual João Albasini aparece ficcionado como personagem. Mas também lê-se a seguinte:

João Albasini desta vez não sorri. Está muito sério. E conta. Conhece-o desde há alguns anos, ele próprio ainda proprietário e editor d’O Africano, um jornal de muito sucesso que há uns meses atrás foi obrigado a vender. Grande parte desse sucesso devia-se à popularidade entre os moçambicanos que trabalhavam nas minas de Joanesburgo, onde circulava às centenas de exemplares.

No livro com o qual João Paulo Borges Coelho venceu o Prémio LeYa 2009, João Albasini não só é uma figura interessantíssima como mantém um ar muito educado e esclarecido. De certo modo, apesar de ser ficção, O olho de Hertzog permite criar-se uma certa imagem, verosímil ou apenas fictícia, de quem pode ter sido João dos Santos Albasini, filho do negociante Francisco João Albasini e de Facaxanam, baptizada Joaquina Correia de Oliveira.

Conforme os dados bibliográficos compilados por António Sopa, na revista Tempo de 25 de Agosto de 1985, Albasini aprendeu as primeiras letras na escola paroquial da capital moçambicana, onde, bem mais tarde, tornou-se um dos fundadores do Grémio Africano de Lourenço Marques (1908), dos jornais O Africano (1908) e O Brado Africano (1918). Já em 1919, acrescenta Sopa, Albasini viajou a Portugal, onde manteve contacto com a Liga Africana e onde apresentou ao governo português revindicações como fim do trabalho forçado, da discriminação racial, do imposto de palhota, da expropriação de terras e mostrou-se a favor de mais educação.

João Albasini foi mais do que um célebre jornalista de O Africano ou de O Brado Africano. Mais do que isso, fez-se referência intelectual muito além do seu tempo. Por isso, interveio em prol da sociedade moçambicana do séc. XX como um fenómeno de difícil repetição, ora metendo-se em questões socioculturais, ora em questões de ordem política e económica.

Num artigo intitulado “José Francisco Albasini e a saúde do corpus moçambicano”, publicado no livro Encontros brasileiros com a literatura moçambicana, de Rita Chaves e Tania Macedo (Marimbique, 2012), César Braga-Pinto descreve da seguinte maneira os dois jornais que se confundem com João Albasini:

Escritos em português e ronga, e em alguns momentos até em inglês e zulu, os jornais O Africano (1908 – 1918) e O Brado Africano (1918 – 1974) alcançaram um público leitor bastante significativo, chegando a reivindicar para si o lugar de jornal mais vendido de Moçambique.

A referência ao excerto acima está descrito em jeito de ficção no romance O olho de Hertzog, no qual, igualmente, João Albasini é um eixo favorável para se pensar o presente através do que o passado legou. A propósito de legado, Albasini é autor de O livro da dor, publicado a título póstumo em 1925, para alguns estudiosos, um dos grandes marcos na periodização da literatura moçambicana.

Menos concentrado no homem, mais na obra, em Além do túnel (2020), Francisco Noa refere o seguinte sobre O livro da dor: “um livro sobre o próprio processo de escrita, enquanto criação, ou recriação. Essa dimensão autorreflexiva reconhece-se nos vários intertextos, implícitos e explícitos, que atravessam a obra e que resultam do facto de este autor/narrador revelar-se um leitor consumado e insaciável”.

O livro da dor é uma colecção de cartas da autoria de João Albasini, recolhidas e editadas por Marciano Nicanor da Sylva, quem assina o prólogo do livro. Partindo de um plano real, em que o autor exprime as suas amarguras, sempre num tom melancólico, a confundir-se com tédio, frustração, apresenta elementos textuais construtores do que Roman Jakobson considera literariedade, isto é, o que faz de um texto uma obra literária. Sem a informação prévia de que o livro reúne um conjunto de cartas, muito provavelmente seria classificado à luz dos preceitos poéticos, narrativos ou mesmo dramatúrgicos. Afinal, o que o livro possui de potencialidade lírica, igualmente, esbanja em recursos indispensáveis à narração e aos monólogos. No livro reconhece-se um sujeito amuado, num diálogo solitário, todavia à espera de ser correspondido pela sua amada, quem, tivesse dado ouvidos às loas do autor, teria impedido a materialização de um exercício que fica para história da literatura moçambicana. Assim começa O livro da dor:

Tenho de mim para mim, muito no íntimo do meu peito, que te perdi para sempre, que nunca mais me farás a esmola de me olhar e muito menos a caridade de me ouvir a defesa; mas também creio, piamente, como Cristão, como também lial e sincero que sempre fui, que um dia farás justiça a êste desgraçado que, perante a calúnia, a intriga, o Destino inclemente se confessa vencido e te pede perdão sem ter de quê. O Destino das criaturas! Moralmente morri. Mataste-me (p.17).

À imagem do excerto acima, é o eu de quem sente a dor de um amor falhado que predomina nesta obra secular de Albasini. No texto, de forma aturada, o sujeito de enunciação confessa os danos causados pela atitude da sua amada:

Que me não amas – acredito – mas não é também razão para me teres ódio, para me não falares. Era o bastante dizeres: «Mwambongolo, gosto de brincar contigo mas não quero casar contigo». E eu sofreria no meu amor próprio e por ver desfeito o meu sonho, mas não atingiria estes paroxismos de agonia que proveem do teu ódio, do propósito firme de me não falar, não me dizes o mal que te fiz (p. 34 – 35).

João dos Santos Albasini, Nwandzengele, nasceu a 2 de Novembro de 1876 e morreu a 15 de Agosto de 1922, tendo sido sepultado no cemitério público de Lourenço Marques, hoje Maputo. Como muitos membros da sua família, incluindo o filho Carlos e o irmão José, morreu vítima de tuberculose, a três meses de completar 46 anos de idade.

 

*Parte deste artigo foi extraído de um outro, em construção.

Frank Paco começou a tocar bateria aos 11 anos de idade. De lá a esta parte, o músico estudou, aprendeu, viajou e colaborou com grandes bandas e artistas. Não consegue dizer quem terá sido mais especial, pois de todos sempre aprende. Um dos grandes concertos do seu percurso artístico é 46664 Mandela AIDS, partilhando o palco com a banda Queen, Bono, Jimmy Cliff, Angélique Kidjo, Johnny Clegg e Peter Gabriel. A arte, na verdade, é de família. Tem vários irmãos artistas e, nesta entrevista de percurso, também se refere a isso. Autor dos álbuns Buyanini e New Horizons, Frank Paco encontra-se a trabalhar em novos projectos, sempre (re)imaginando à sua moçambicanidade. É um cidãdao do mundo. Depois de Moçambique, África do Sul ou Namíbia, agora, está radicado na Ilha Reunião, no Oceano Índico.

 

Frank, escolheu fazer da bateria um veículo que o permite ser um cidadão do mundo ou isso foi acontecendo sem que se apercebesse?

Posso dizer que, quando nós temos um sonho e cremos nesse sonho, acontece. Isso começou na minha infância, sempre que me encontrava diante de um mapa do mundo, a imaginar visitar vários países. Felizmente, deu certo e, um dia, vi-me apenas na Suécia, Suíça ou Inglaterra. É a partir dos sonhos que temos que podemos realizar as coisas e ser o que pretendemos.

 

Foi daqueles meninos que decidiu fazer da música uma forma de existência. Inclusive, perseguiu esse sonho que acaba de referir. Que acontecimento foi determinante para, já aos 16 anos, decidir que a música seria o seu futuro fora do país?

A música escolheu-me a mim, pelas influências que nós tivemos a partir de casa. Falo de mim e dos meus irmãos. É algo de família. Lembro-me que, quando éramos novos, um nosso tio, Alexandre, convidava-nos a ajudar-lhe a esticar câmaras de ar para pneus de carro de modo a fazer batuques com latas. Então a nossa batucada começou aí. Mas também tivemos uma grande sorte, porque os nossos pais, em casa, sempre ouviram boa música. Desde o rock ao pop, incluindo música africana. Havia de tudo na nossa casa, no Bairro de Mavalane/Aeroporto, onde nascemos, porque os nossos pais eram grandes coleccionadores de música. Recordo-me que, depois da independência, houve uma grande explosão da cultura moçambicana, porque começamos a aprender o que é nosso. Além disso, tivemos a sorte de viver perto de um vizinho músico, Salimo Muhamed. Foi ele que nos convidava para ir ver sessões de música no Bairro da Coop. E, para mim, sempre foi a bateria…

Porquê?

Aquela acção toda e o baterista que víamos na altura era muito vivo.

Houve receio de que a música podia não dar certo?

Como disse, a música escolhe-me a mim. Então, nunca houve receio de minha parte. E tive a sorte de os meus pais apoiarem-me. Recordo que, quando eu tinha 14 anos, fui tocar no Bairro T3, na Matola, onde vivia uma tia minha. Ela esteve na audiência, a ver-me tocar. Mas eu não tinha dito aos meus pais que iria tocar. Disse-lhes que ia a uma festa. Mas, como a minha tia lá esteve a ver-me, os meus pais ficaram a saber. O meu pai chamo-me e disse-me para seguir o meu coração, mas os estudos deviam estar em primeiro lugar. Estamos nos finais dos anos 70.

Penso que a carreira de Frank Paco consolida-se, sobretudo, fora de Moçambique. Como descreve essa experiência?

Nós temos, em Moçambique, uma diversidade de ritmos que nos enriquece. Quando estamos a fazer música fora do país, as pessoas logo percebem que não se trata de um músico local. Daí fica fácil enquadrarmo-nos.

A musicalidade dos instrumentistas moçambicanos confere-lhes a capacidade de poderem imporem-se noutros países da região…

E no mundo. Está aí o meu irmão Celso [Paco] na Suécia. Ele é uma riqueza lá.

Tem a experiência de conhecer esses mercados musicais da região. Inclusive, no passado, criou uma banda com Jimmy Dludlu e John Assan, Loading Zone, na África do Sul. Nessa altura, tiveram a oportunidade de acompanhar grandes nomes da música africana. Como foi para vocês se projectarem para os grandes palcos do mundo dessa forma?

Foi um período muito interessante para nós, porque foi lá que descobrimos que temos uma coisa diferente. Quando cheguei a África do Sul, toquei com vários artistas, consagrados: Brenda Fassie, Yvonne Chacka Chaka ou Hugh Masekela. No entanto, houve necessidade de formarmos essa banda porque os artistas lá estavam a falar dos artistas moçambicanos que tinham uma coisa diferente para oferecer. Nós, cheios de energia, estávamos esfomeados em tocar. Então formamos essa banda para acompanhar esses vários músicos. Houve uma altura em que éramos convidados a tocar em quatro festivais num só dia, em cidades e províncias diferentes. Por isso tínhamos uma avioneta que nos levava a esses lugares todos. Mas, depois, começou uma onda de violência com a pressão para se libertar Nelson Mandela da prisão. Aí tivemos de mudar porque já não era fácil criar festivais, devido à turbulência nos subúrbios. Como podíamos continuar? Começamos a fazer fusão de música, para o clube do jazz.

O que mais vos permitiu a banda Loading Zone?

Adicionou muito o nosso desenvolvimento artístico, individualmente e em termos de grupo. Antes, eu tive a oportunidade de colaborar para uma outra banda, com a qual viajei para Suécia e Itália. Então, com os Loading Zone, ficou ainda mais fácil enquadrar-me como baterista em termos de jazz.

Ter conseguido impor-se na África do Sul permitiu-lhe facilmente ser referência em Moçambique do que se tivesse sido o inverso?

Boa pergunta! Para poder chegar a África do Sul, primeiro, tive de sonhar em tocar com certos músicos. Sempre que o meu pai tocava música em casa, eu pegava no vinil e punha-me a imaginar a tocar com esses artistas. Era imperativo que eu fosse para África do Sul porque é lá que o meu coração estava. Eu já parto para África do Sul com esse propósito. Por isso falo da possibilidade de os sonhos se tornarem realidade.

Qual foi a sensação de tocar e/ou partilhar o palco com esses artistas que o inspiravam ainda criança (Jimmy Cliff, Angélique Kidjo, Johnny Clegg e Peter Gabriel)?

Perguntei-me se não estava a sonhar.

E pensou que naquele momento também era um monstro?

Onde temos ido, as pessoas elogiam-nos, mas a jornada não termina aí. Ainda tenho muito a aprender. Eu nunca me sinto no topo, a vida é sempre uma aprendizagem e isso contribui para que eu possa ensinar aos outros. Há sempre uma coisa a aprender e a ensinar aos outros.

Quando termina os Loading Zone, quais passaram a ser os seus objectivos?

Tendo tocado nos clubes, ao nível nacional da África do Sul, inclusive, tivemos a oportunidade de ir a Namíbia, para os primeiros três meses… Foi lá que fomos contactados para tocar com Papa Wemba. No nosso regresso a África do Sul, tivemos uma residência em Cape Town. Lá estando por longo tempo, houve essa oportunidade de podermos estudar, na fase de transição do Apartheid. A universidade ficou aberta para a nossa raça e um amigo que me pediu para lhe ajudar com alguns ritmos, ficou espantado quando soube que eu sabia ler pauta musical. Tive grandes homens que me iniciaram na bateria e uma dessas pessoas é o grande Mundinho. Pronto. Estando na universidade, ele disse-me que tinha oportunidade para me inscrever. Ele foi falar com o director. Fiz a minha audição. A seguir, logo meteram-me no big band, a maior banda da universidade.

Como é que os seus pais reagiram à sua consagração musical?

Infelizmente, o meu pai não viveu tanto tempo para poder ver tudo isso. Mas a minha mãe acompanhou a nossa progressão com muito orgulho. Não só a progressão dos meninos, mas da nossa irmã Lucrécia Paco também, que é um orgulho para o país e que faz coisas extraordinárias para o teatro.

Quando se fala do seu percurso, também é impossível não nos referimos ao projecto Tucan Tucan. Como é que se concretiza?

É uma longa história, mas vou tentar resumir. Quando estava na universidade, houve um conjunto de artistas jovens que eu descobri que podiam fazer parte do grupo, incluindo as nossas raízes, jazz e musicalidade latina. Lá senti a necessidade de envolver artistas moçambicanos, para garantir a nossa musicalidade. Pedi aos meus camaradas Ivan Mazuze, Hélder Gonzaga, Texito e Xixel Langa. A banda teve muito sucesso em Cape Town. Depois do lançamento do disco, fomos bem acolhidos em Joanesburgo e foi uma grande surpresa saber que a banda também foi muito bem recebida em Moçambique.

Quando está a compor sofre esta pressão de imprimir nas suas músicas a sonoridade que permite colocar Moçambique nos ouvidos do mundo?

É como se diz, se tentamos imitar sempre, ficamos uma imitação. Temos de tentar assumir o que somos porque aí alguém vai poder escutar o que temos a oferecer. Por isso levo as minhas origens aonde vou.

Como se explica esse exercício de tornar a música universal, de tal modo que, quando a escutamos, esquecemos as diferenças que nos poderiam afastar?

A música é uma língua universal e atravessa todos os obstáculos. Eu sinto-me abençoado por poder criar música que pode tocar coração de muita gente e unir as pessoas.

Tem a sorte de poder trabalhar com os seus irmãos. Um deles é Toni Paco…

O Toni é um grande percussionista e tem estado a tocar com grandes músicos a nível mundial. Nós estivemos juntos quando fizemos o grande concerto Nelson Mandela, a acompanhar grandes artistas, como Bono, dos U2, Angélike Kidjo, Youssou N’Dour e vários artistas do mundo, em 2003. Ele ainda ficou no palco a acompanhar mais artistas, pois algumas bandas levaram consigo bateristas.

Há um músico, um grupo ou um projecto com o qual tenha sido particularmente especial tocar?

Essa pergunta é difícil de responder.

É uma armadilha.

Uma boa armadilha! No mundo da música, todo o artista sempre tem algo a oferecer. Sempre que vou ao palco para acompanhar alguém, dou de mim 100%.

E o que significa para si a possibilidade de tocar com um novo projecto?

Aprendizagem e descoberta. Eu estou sempre disposto a essas experiências.

Sei que vêm aí novos projectos musicais. O que será?

Será um projecto paralelo ao que estou a fazer, com elementos de jazz. Mas o novo projecto será mais lusófono e estarei a cantar. Inclusive estou a trabalhar com Filipe Mondlane, grande engenheiro de som. O projecto será lançado em Moçambique. É em português e com algumas marrabentadas.

O que a música continua a significar para si?

Para mim, continua a ser esse veículo… Sabe, com a música, posso derrubar uma ditadura. A música pode influenciar as massas para perceberem a verdade. Os músicos são embaixadores.

Embaixadores da boa vontade e dos sentimentos.

Excatamente.

Recentemente, teve a possibilidade de tocar com os seus irmãos. É algo que vai continuar?

Até aqui, calhou que todos estávamos todos em Maputo e queríamos honrar a nossa mãe, que partiu. Se houver mais oportunidades, por que não?

O que lhe falta tocar e com quem falta tocar?

Gostaria de tocar timbila e mbira. Como estou na Ilha Reunião, gostaria de misturar esses novos elementos com um batuque da ilha, usado para o estilo maloya. Gostaria de tocar melhor maloya, criar um projecto à volta disso. Quanto à segunda parte da pergunta, a mim falta tocar com todos os músicos com quem cresci e descobrimos essa arte. Por exemplo, Stewart e Childo Tomás.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro O 7º juramento, de Paulina Chiziane; e a música de Kapa Dech;

O espectáculo Outra babalaza das hienas será apresentado terça-feira, às 18 horas, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo.

 

Tsemba Cavele é uma menina de 7 anos de idade. Na peça Outra babalaza das hienas, é a actriz mais nova. Fascinou-se pela arte da representação com menos de 5 anos de idade, em casa, vendo a mãe a ensaiar. A menina interessou-se e tão logo começou a seguir-lhe os passos.

Ora, no espectáculo encenado por Lucrécia Paco e com dramaturgia de Aurélio Furdela, Tsemba é essencialmente um menino que perde a mãe num contexto de terrorismo em Cabo Delgado. Desamparado, o menino é ajudado por uma mulher chamada Maimuna (Angelina Chavango) e casada com Carimo (Mateus Nhamuche). É com eles que a personagem interpretada por Tsemba Cavele ganha um lar e uma família num contexto de cólera.

Tsemba Cavele encontra-se no elenco de actores porque o espectáculo precisou de um menino que representasse tantos outros garotos moçambicanos que em Cabo Delgado perdem até o chão que pisam. Outra babalaza das hienas marca o princípio da pequena actriz na arte teatral, o que, inclusive, a permite contracenar com a própria mãe.

A certa altura, o menino perdido (Tsemba Cavele) passa a chamar-se Carimo e o nome é dado pelo seu “novo pai” (afectivo). De algum modo, o menino “substitui” Kilonko, filho biológico de Maimuna e Carimo, pois, sentindo-se jovem, vai à guerra para ajudar a eliminar a instabilidade gerada pelo terror.

Quer isto dizer que Outra babalaza das hienas recupera o drama social das personagens a vários níveis. Pensa nas crianças vítimas do terrorismo como também retrata a tragédia vivida pelos pais dessas mesmas crianças. Por isso mesmo, os actores resolveram apresentar o espectáculo na Fundação Fernando Leite Couto, depois de ter sido levado ao Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI), numa sessão realizada no Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), e ao Conselho Municipal de Maputo, onde foi apresentada na cerimónia em que se anunciou o vencedor do Prémio de Literatura José Craveirinha: Mia Couto. Rigorosamente, foi no Município de Maputo que Tsemba Cavele estreou-se e, na Fundação Fernando Leite Couto, terá mais uma oportunidade de fazer o que realmente gosta.

Referindo-se à terceira apresentação de Outra babalaza das hienas, Mateus Nhamuche explicou que o conceito do espectáculo é o mesmo. No entanto, alertou: “O espaço transforma o espectáculo. Continuamos a trazer as personagens e a pensar a sobrevivência em Cabo Delgado. A dramaturgia é a mesma, mas com novas perspectivas de alguns elementos de cena”.

Para Nhamuche, está a ser interessante voltar a preparar o espectáculo de 30 minutos. E sobre o papel que interpreta, Carimo: “É uma personagem muito protectora. Tem 54 anos de idade. Numa primeira fase, foi-me complicado construir o papel porque tive de fazer uma pesquisa a fim de perceber a psicologia das pessoas que passam por situações de guerra. As histórias que fui ouvindo sobre o tema também ajudaram-me muito”.

Do ponto de vista social, os actores esperam que a nova apresentação do espectáculo sirva para que o público de Maputo compreenda que a situação das vítimas do terrorismo é caótica e que a arte tem o poder muito forte de levar a realidade ao palco. “Ao verem o espectáculo, terão uma outra forma de pensar”.

Concordando com Mateus Nhamuche, Angelina Chavango reforçou que o espectáculo tem o propósito de provocar e de fazer com que as pessoas em zonas aparentemente protegidas não fiquem indiferentes ao drama de Cabo Delgagdo. “Nós, em Maputo, ouvimos falar, mas, às vezes, parece que se trata de um assunto que não nos diz respeito. As pessoas têm de perceber que o terrorismo não é um conto, é real”.

No espectáculo, a personagem de Angelina Chavango, Maimuna, representa o povo makonde. “É uma mulher que sonha essa mãe do Kilonko (Paulo Jamine)”.

A fim de manterem o espectáculo verosímil, os actores trabalharam sotaques makondes. Nisso, esclareceu Angelina Chavango, não existem quaisquer elementos de troça. Pelo contrário, “Pretendemos dizer que entendemos a vossa linguagem e o vosso sofrimento. Aliás, ninguém vê a peça e sai a sorrir. Depois de verem o espectáculo, as pessoas saem mais consciencializadas”, garantiu, afinal, a mãe da menina Tsemba Cavele.

 

Sinopse e ficha técnica

Outra babalaza das hienas é uma narrativa aberta com cenas de amor e de esperança, simbolizados pelas personagens Malidza, Kilonku e suas famílias, numa época de terrorismo, de medo e de luta pela sobrevivência na Província de Cabo Delgado. A dramaturgia propõe também uma reflexão sobre os direitos humanos, a paz e a preservação da cultura.

Outra babalaza das hienas foi concebida através de uma miscelânea entre poemas de José Craveirinha, prosa de Augusto Tembe e excerto de Carneiro Gonçalves. Todavia, a linguagem teatral conta com salpicos de crítica, romance, invocação e humor.

Quanto à ficha técnica: Lucrécia Paco (encenação), Aurélio Furdela (dramaturgia) e os actores Angelina Chavango, Eunice Mandlate, Joana Mbalango, Mateus Nhamuche, Nélia Gilberto, Paulo Jamine e, claro, Tsemba Cavele.

 

Por: Ivan Collinson

 

No ano 2019, o mundo assistiu à uma apresentação da origem de Joker, o arqui-inimigo de Batman, do Mundo da DC Comics. Com um orçamento modesto, o filme posteriormente aclamado pela Academia das Artes e Ciência de Hollywood, registou uma receita superior a $1 bilião de dólares americanos.

A história é íntima… pessoal… até familiar… e esclarece a génese desta figura incontornável do mundo dos super-heróis, em especial, do Batman. Com uma interpretação de altíssimo nível que, aliás, valeu ao protagonista Joaquin Phoenix o galardão de melhor actor, este filme contou com actores de enorme gabarito, nomeadamente, entre eles, Robert De Niro e o director, ambos galardoados pelo seu desempenho em produções anteriores.

Mas é na Cidade de Gotham que a história de Joker se desenrola sempre, desde a criação deste personagem em 1940, por Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson. Nesta produção, diante de uma cidade essencialmente tomada pela violência e economia atrofiada, caracterizada, por um lado, por uma enorme latência por parte de quem tem o poder e, por outro lado, pela perniciosa e consumidora corrupção, o comediante Arthur Fleck, portador de uma condição neurológica, depois de uma sucessão de eventos, entre eles um ataque visceral, inicia um processo de defesa pessoal, que culmina com o confronto junto de quem considerava ser seu progenitor – curiosamente, pai de Bruce Wayne, para depois perceber que sua mãe, esquizofrénica, terá idealizado tal fantasia. Contudo, o movimento de protesto, usando a máscara de um palhaço, que aliás, era instrumento de trabalho, antes de ser despedido, já havia ganho momentum, principalmente depois da sua trágica aparição na televisão local, que culminou com o assassinato da personagem de Robert De Niro, Murray Franklin.

Esta cidade utópica marcada pela desigualdade… pelo foço entre os ricos e pobre, pela corrupção que, mais tarde, sustentou a emergência de um sentimento anti-rico entre aqueles que nada tinham (alegadas vítimas do sistema) e os que tinham (vistos pelos primeiros como corruptos), como se não houvesse uma terceira via… dos honestos que, trabalhando honestamente, conquistaram um pedaço de felicidade e estabilidade social.

Não se trata de um artigo de opinião sobre cinema. Nem de longe!

Trata-se, antes, de uma contribuição às várias interpretações de fenómenos sociais que convergem numa narrativa de alegada opressão, que remete o clamor até à quem já não mais governa, anteriores dirigentes, de tempos razoavelmente bons e de calma colectiva.

Trata-se de encontrar no mais recente filme Joker, galardoado nos Óscars e não só, os sinais presentes e similares (comparação!) entre o sentimento dos habitantes de Gotham e os de Maputo, Matola, quiçá Moçambique. Aqui nestas cidades, enquanto se condena a vandalização do bem público e da perturbação da ordem, há um certo sentimento paralelo de compreensão, talvez até de corajosa empatia para com quem protagoniza estes actos.

Daí que esta proposta atrevida de interpretação de um evento social se chame o Efeito Joker.

Os actos ocorridos no dia 14 de Julho de 2022, decorreram depois de anúncios feitos por promotores “sem cara”, contudo, capazes de paralisar uma cidade capital de um País, provocando dezenas de milhares de Meticais em prejuízos, alterando planos colectivos, individuais. Mas estes actos, denominados por “greves” por quem os convocou ou promoveu, foram ecos de outras com mais ou menos as mesmas características, designadamente, o fundamento de que a situação de injustiça, de desigualdade e impunidade, diante das condições de vida precárias da maioria dos cidadãos, não pode prevalecer.

Em 2008, também diante de um aumento dos preços dos combustíveis, populares terão alegadamente se organizado para protestar com recurso à violência no dia 05 de Fevereiro, com queima de pneus, saque de lojas, vandalização de propriedade privada, interrupção da circulação nas estradas.

Em 2010, o aumento do custo do pão, da electricidade, da gasolina, do gás doméstico e seu efeito replicador noutros produtos essenciais, levou com que uma greve violenta culminasse até com perda de vidas humanas, para além dos danos materiais avultados.

Há que lembrar que, desde os protestos em 2008, condenado por várias forças da sociedade, do lado de quem se considerava “oprimido”, houve uma sensação de justiça servida. Como que dizendo “à vocês também chega a dor”. E aí, uma nova ordem é formada.

No filme de que nos servimos para fazer a analogia, o actor Joaquin Phoenix, ao interpretar o carácter de Joker, tem a ilusão de que é filho de Thomás Wayne e, portanto, meio-irmão de Bruce Wayne, o Batman. Afinal, como terá também imaginado Penny, mãe de Jocker, somos todos irmãos; filhos do mesmo pai, entretanto, um abandonado e outro acarinhado, mesmo que numa esfera completamente surreal e inautêntica. Mas é aí que reside o sentimento de abandono que também caracteriza a exclusão social, mesmo que a origem seja completamente esquizofrénica.

Afinal, de que mente sã sairiam tais pensamentos destrutivos? Colocando em risco a estabilidade da colectividade?

Seja qual for a origem, falsa, esquizofrénica, o facto é de que há um parte do povo que experiencia qualquer coisa próxima à opressão, à desigualdade e exclusão sociais e estas têm consequências nefastas para as sociedades, como aliás a história documenta. Um documento agora pouco consultado, mas muito referido nos meus tempos de faculdade, foi a Agenda 2025. Os cenários propostos por aquela equipa de profetas, descreveram os possíveis caminhos de Moçambique, caso determinadas características permanecessem, neste caso concreto, invocam-se a corrupção, desigualdade e exclusão sociais, descritas no Cenário do Cabrito.

Efeito Joker seria apenas uma nova etapa, uma consequência quase que inevitável, de origem esquizofrénica, diante das pressões à que determinados grupos se sentem sistematicamente sujeitos. Não se pretende justificar qualquer acto perturbatório da ordem pública, muito menos conferir respaldo teórico à vandalização. Mas apenas oferecer um quadro de análise com o qual também nos identificamos, para entender (atenção: entender!) a actual realidade social.

É preciso ouvir o povo.

 

 

 

O filme Nkwama, realizado por Gigliola Zacara, foi seleccionado para a nona edição do Festival Internacional de Cinema e Artes SOTAMBE, na Zâmbia. A curta-metragem será exibida na capital Lusaka, próximo mês.

A história de Alice, uma mulher que faz do plástico o seu meio de subsistência, já foi exibida em Moçambique, Cabo Verde, Portugal e Brasil. Agora, com efeito, chegou a vez da Zâmbia, onde a curta-metragem terá audiência no Festival Internacional de Cinema e Artes SOTAMBE.

Referindo-se à oportunidade, a actriz e realizadora do filme afirmou que decidiu participar no Festival SOTAMBE porque o evento zambiano se interessa pelo tema mudanças climáticas e meio ambiente. “Nesta senda, o filme Nkwama enquadra-se de todas as formas na temática deste festival”.

Por isso mesmo, Gigliola inscreveu o filme em várias categorias, designadamente, Melhor Direcção, Melhor Direcção Feminina, Melhor Curta-Metragem e Melhor Actor, ano passado. Já há dois dias, recebeu a confirmação de que o filme, afinal, tinha sido seleccionado entre vários para ser exibido no Festival Internacional de Cinema e Artes SOTAMBE.

Neste momento, Gigliola Zacara não esconde que está expectante em receber a mensagem de que Nkwama poderá concorrer a prémios nas categorias cinematográficas mencionadas, o que depende da comissão instituída para o efeito.

E Gigliola diz mais: “Ter o filme Nkwama em exibição em Lusaka é uma mais-valia para nós. É importante para mim e para a equipa que eu represento que o filme participe no SOTAMBE. Não só por representar Moçambique e os PALOP, mas porque é gratificante conseguir ser seleccionado para a fase de exibição”.

Com Nkwama, igualmente, Gigliola Zacara espera contribuir para promover a arte cinematográfica moçambicana e a cultura em geral.

A curta-metragem da realizadora é uma co-produção do Centro de Recriação Artística & 7 OFÍCIOS – Rede de Mulheres Artistas, com apoio do INICC, AMOCINE, Olhar Artístico, António Sendi, etc. e Maochas Filmes. Em Moçambique, Nkama foi considerado o segundo melhor filme no Concurso de Curtas-Metragens do Centro Cultural Moçambicano-Alemão.

A nona edição do Festival SOTAMBE irá decorrer em Lusaka, de 16 a 24 de Setembro.

A segunda edição da Feira do Livro da Beira (FLIB 2022) inicia dia 24 deste mês, na Livraria Fundza, na Cidade da Beira. A iniciativa da Associação Kulemba termina dia 27 de Agosto e conta com a participação de Paulina Chiziane. “Literatura, música e património” é o tema do evento.

Em 2021, a Feira do Livro da Beira (FLIB) concentrou-se nos debates inerentes à economia do livro e ainda debateu sobre o espaço urbano como elemento literário. Nesta segunda edição, a Associação Kulemba pretende estabelecer um diálogo entre literatura e música. Por isso mesmo, a figura de cartaz é o Prémio Camões 2021. “Não podíamos ter uma figura ideal como Paulina. A escritora navega nos dois mundos. Ela tem muito a dizer-nos sobre esta relação literatura e música”, afirmou Dany Wambire, o Director da Feira do Livro da Beira.

Realmente, além dos vários livros publicados, Paulina Chiziane também é autora de um álbum discográfico constituído por 12 faixas, Cantos de esperança, lançado em 2019. Assim, logo no dia da abertura, 24 de Agosto, entre 17 horas e 18 horas, a escritora irá ministrar uma palestra subordinada ao tema “O lugar da música na literatura”. A sessão irá acontecer na nova Livraria Fundza, na Baixa da Cidade da Beira, que será inaugurada pela Secretária de Estado de Sofala, Stela Zeca, antes da intervenção da escritora.

A participação de Paulina Chiziane na FLIB 2022 inclui a assinatura de autógrafos, marcada para a Universidade Zambeze, a partir das 9h do dia 26. Mas, mais do que isso, a palestra que irá ministrar deverá inspirar um debate mais amplo sobre as obras de autores moçambicanos de referência, na Província de Sofala. Entre eles David Mazembe, Madala ou Isaú Meneses. “Nós pretendemos mostrar que a literatura não está isolada das outras artes”, disse Dany Wambire, reforçando que a FLIB 2022 insere-se numa estratégia iniciada ano passado. Logo, ainda que o tema das mesas redondas tenha alterado, há actividades que prevalecem. Por exemplo, o Concurso de Crónicas aberto a estudantes que frequentam um curso universitário no país. Ano passado foi assim e o resultado está à vista. No dia 26, a partir das 18h, a Editorial Fundza irá lançar dois livros. O primeiro é O dicionário da sobrevivência, de Francisco Raposo. Já o segundo é Água, dos vencedores do Concurso Literário FLIB 2021. Portanto, os vencedores do concurso desta edição serão publicados em livro próximo ano. Para o efeito, terão de escrever uma crónica sobre o tema “Paz e reconciliação”, até porque a 6 deste mês o país celebrou o terceiro aniversário do Acordo de Paz de Maputo, assinado entre o Governo e a Renamo. O propósito do concurso? Estimular a produção literária nos estudantes universitários.

Outra actividade que continua nesta edição da FLIB é o Concurso de Fotografia Eu na Livraria. Esta quinta-feira, Dany Wambire explicou qual é a motivação dessa iniciativa. “Num contexto em que as pessoas tendem a fotografar tudo, através de um celular, ocorreu-nos criar uma oportunidade para que se fotografassem com os livros e, assim, aproxima-las à livraria. Gostamos imenso dos resultados alcançados no ano passado e, por isso, continuamos com o concurso”.

O principal objectivo da FLIB 2022 continua sendo o de sempre: formar leitores. Assim sendo, ao contrário do ano passado, em que a feira se realizou apenas na antiga Livraria Fundza, este mês o evento terá lugar em vários outros espaços: UniLicungo, UniZambeze, UNISCED e Universidade Alberto Chipande, sempre na Cidade da Beira.

Segundo Dany Wambire, a FLIB irá expor cinco mil títulos de livros, de todas editoras nacionais e algumas estrangeiras.

 

MESAS REDONDAS

No dia da abertura irão intervir, na Livraria Fundza, a Secretária de Estado da Província de Sofala, Stela Zeca, o Presidente do Município da Beira, Albano Carige, e a escritora Paulina Chiziane. No entanto, a FLIB 2022 conta com outros convidados, que vão partilhar ideias e leituras. Assim, Joaquim Tesoura, Nídia Chamussora e Julião Carlos predispuseram-se a reflectir sobre o tema “O retrato da mulher na música e na literatura”. O encontro está marcado para 17 horas do dia 25 de Agosto, na Livraria Fundza.

Já na segunda e última mesa redonda, a iniciar às 17h do dia 26 de Agosto, igualmente na Livraria Fundza, Urbano José, Domingos Brasso e Pedrito Cambrão tratarão do tema “Ndoita lenhi: a música como património imaterial”. Ndoita lenhi é o título do mais recente álbum discográfico de Isaú Meneses, lançado em 2021.

Por Matos Matosse*

 

UM POEMA

«… um poema

é a pedra duma escola

com palavra giz

para a gente apagar

ou guardar».

                                                                                                                                                                                       (Saúl Dias)

 

O COMBOIO QUE ANDAVA DE CHINELOS é título do livro de poesia escrito pelo escritor e poeta Pedro Pereira Lopes; é livro com o qual, Lopes ganhou o concurso literário prémio Maria Odete de Jesus, ano 2016, cujo tema foi a “Paz em Moçambique”. Este concurso tinha como objectivo: «contribuir para o incentivo à leitura, despertar o gosto pela poesia e incentivar e valorizar a produção literária infanto-juvenil». Tem ilustrações de Walter Zand.

[Lopes dedica este livro a duas mulheres – que têm [mantenho este tempo verbal por razões próprias] a afoiteza de escrever para crianças, jovens e adolescentes – Angelina Neves e Fátima Langa, esta última com obras – [de entre várias que escreveu] – como: O rapaz e a raposa, 2012; O coelho e a água, 2012, ambas em bilingue (português e cicopi). Publicou, ainda, a primeira obra em braille. Ao escrever em cicopi, sua língua materna, mostrava a preocupação em ver a sua obra lida, mesmo por aqueles que não falam português. E, em braille, para ter uma literatura inclusiva; leva a sua obra, também, para as crianças com deficiência visual. – terão sido estas e outras razões, creio, que fizeram que Lopes dedicasse este livro a esta escritora, por valiosa contribuição que deu à literatura moçambicana.]

É um livro com 17 poemas e igual número de figuras. Todas a cor. A combinação destas figuras a cor com textos tem um impacto para a criança-leitora. Motiva-a a manusear o livro. Deste acto, nasce-lhe o gosto pelo livro, pela leitura; desde cedo, cultiva-se-lhe esta paixão. Nasce-se-lhe o amor pelo “verbo” – entenda-se como metáfora.

Os poemas que compõem este livro são de versos curtos, porém, profundos, isto é, com uma boa mensagem. Educativa. Posso dar o exemplo do poema CRUZAR A AVENIDA, pág. 33, em que o autor chama a atenção aos meninos ao atravessar a estrada, para evitarem acidentes: «Quem me oferece a mão/ para atravessar a avenida?// Quem me dá atenção/ para vigiar a esquerda?// Quem me abre o coração/ para espiar a direita?// Aqui não fico o dia inteiro/ não há sinal nem sinaleiro!// A avenida não pára parada/ e eu não quero ser atropelada!», e este DENTINHO, pág. 17: «Tenho um novo dente/ é pequeno e afiado// nasceu de noite/ de repente// para fechar a baliza/ que eu tinha à frente.//  É branco como leite/ e muito cometente/ que belo enfeite/ para se ter de repente»., em que se nota um ensinamento; uma transmissão de valor estético dental.

Lopes apresenta os seus versos em diferentes formas gráficas.  É um estilo que ele adopta. Uma criatividade pura. Por exemplo, o poema POEMINHA BRINQUEDO, «Um poema brinquedo/ nem é poema de verdade/ é poeminha poemeto/ coisa de criança sem idade»; cuja ilustração que o acompanha é um pião, xindiri, a arrumação dos versos deste poema é interessantíssima: parece-se com um traçado ou marcas desenhadas pelo pião em movimento, naquele seu gira-gira, ao ser “açoitado”. Belíssima arrumação.

Esta técnica de pôr os versos, dando-os a ideia de movimento, é, quanto a mim, para espevitar, à criança, o interesse pela leitura do livro.  É bem divertida. Os poemas POEMINHA DO ARCOS-ÍRIS, AS PALAVRAS, SONHO, O GATO ROMEU E O VÔ ABREU, [neste, as palavras dão-nos a impressão de estarem a se perseguir [entre aspas], talvez à mesma velocidade levada pelo gato(!) e, o signo onomatopeico: “PLOFT!”, a acompanhar os tracejados [= signos cinéticos] – propositadamente, colocados pelo ilustrador – que indicam o movimento e a queda. Outros signos onomatopeicos patentes no livro: MIAU! MIAU!]. e de admirar esta sincronia entre o poeta e o ilustrador Zand.

Vamos ver alguns poemas, claro, não na forma gráfica em que o autor os apresenta: POEMINHA, «O bolo da rã/ é branco como lã/ tem gosto de avelã/ e no meio uma vela.//  A vela é da irmã/ coaxa aqui e acolá/ e, então vejam lá/ pôs uma fita nela.// Cantaram aos anos da rã/ e falou a irmã tagarela/ sopraram todos a vela/ e comeram o bolo da lã». Pedro Pereira Lopes brinca com a anáfora, usa, ainda, o encadeamento, a metáfora e a comparação, neste poema. Lopes dispõe os versos – isto, já o tinha dito – numa forma que faz transparece um movimento. Aliás, o próprio título do livro, já nos dá essa ideia.

E, em POEMINHA BRINCADEIRA, pág. 27, «Maria brinca na areia/ enche o pote e sorri/ se passam por ela, ri// faz do quintal cozinha/ mistura água e areia/ e faz papas de aveia.// Faz também chá/ serve uma bolacha/ e come de mentirinha.// Brinca e o tempo foge/ suja o vestido bege/ e põe-se logo a chorar.// Tocada pela aflição/ aparece a sua avozinha/ e com água e sabão/ fica a Maria/ lim-pi-nha». Lopes traz-nos um sujeito poético do género feminino que brinca com areia e água… fica aflita por ter sujado o seu vestido. Chora. Várias lições tiram-se deste poema.

Conclusão: este livro de Lopes educa. Tem uma linguagem simples. Poemas lindos, cujas ilustrações estão, sob ponto de vista temático e artístico, bem ajustadas aos textos. É um livro que, mesmo um leitor-adulto poderá lê-o com volúpia. Bom livro para a iniciação à leitura de textos poéticos. Cativa, finalmente! Recomenda-se!

Parte das obras do autor: O homem dos 7 cabelos (2012, prémio Lusofonia 2010), Kanova e o segredo da caveira (2013), Viagem pelo mundo num grão de pólen e outros poemas (2014), A história do João Gala-Gala (2017), em co-autoria com o Chico António (músico), O comboio que andava de chinelos (2019). Organizou várias antologias.

                  * professor, escritor, poeta e ensaísta literário         

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