O País – A verdade como notícia

O guitarrista Jimmy Dludlu foi distinguido com os prémios Carreira e Melhor Álbum de Jazz, na 28ª edição dos South African Music Awards (SAMAs), que decorreu este domingo, no Sun City Superbowl, na África do Sul.

 Jimmy Dludlu viajou para África do Sul sabendo que seria distinguido com o Prémio Carreira, no South African Music Awards (SAMAs). Com efeito, além de tal reconhecimento que para si, à partida, constituiu uma bela surpresa, o guitarrista conquistou a estatueta referente ao Prémio Melhor Álbum de Jazz da África do Sul.

Numa sessão bem concorrida por astros da indústria musical sul-africana, discursando no palco, este domingo, Jimmy Dludlu agradeceu a todos os que contribuíram para que o seu 10º disco fosse uma realidade: “Agradeço a Deus por este prémio. O meu agradecimento especial estende-se à minha família, à minha esposa Sandra e a todos os músicos que contribuíram para este álbum”.

History in a frame é um álbum constituído por 20 faixas, no qual, pela primeira vez, o guitarrista faz uma fusão dos ritmos jazz e amapiano. Além de investir na recriação de temas do cancioneiro popular moçambicano, por exemplo, com o tema “A masiko”, o disco também é um pretexto encontrado por Jimmy Dludlu para homenagear autores como Eugénio Mucavele, Bob Marley, Aretha Franklin, James Brown, Hugh Masekela e Miriam Makeba, artistas de referência para o guitarrista de Chamanculo.

O Melhor Álbum de Jazz da África do Sul é, portanto, Made in Mozambique e conta com várias colaborações. Por exemplo, de Moreira Chonguiça, Rodhália Silvestre e Camilo Lombard. O disco foi chancelado pela Universal Records da África do Sul.

 

 

 

Os livros vencedores do Prémio Literário Fernando Leite Couto 2021/2022, Diamantes pretos no meio de cristais, de Maya Ângela Macuácua, e Quando os mochos piam, de Geremias José Mendoso, serão lançados esta terça-feira, a partir das 18 horas, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo.

Numa cerimónia que contará com intervenções de Mia Couto e do Director do Camões, João Pignatelli, os dois vencedores do prémio literário (ex aequo) irão referir-se ao seu processo criativo e, eventualmente, ao simbolismo de serem editados pela Fundação Fernando Leite Couto.

Diamantes pretos no meio de cristais é um romance que ficciona uma série de eventos inerentes à segregação racial em Moçambique, na África do Sul e nos Estados Unidos. A partir do seu exercício literário, a Maya Ângela Macuácua sugere pensar-se o presente a partir do passado e da relação que as personagens estabelecem com o outro. “Eu escrevi o livro em 2016, para um outro concurso, que, infelizmente, não consegui participar. (…) Antes de submeter ao Prémio Literário Fernando Leite Couto, um amigo ajudou-me a rever a história. Aí notei que a história tinha alguns poréns. Era necessário muito estudo para aprofundar a matéria, porque se tratava de épocas diferentes, com personagens diferentes e características diferentes. Foi aí que eu notei que tinha de vasculhar mais a História e perceber como é que poderia incluir aquilo que realmente aconteceu na ficção”, explicou Maya Ângela Macuácua, numa entrevista cedida a este jornal, em Maio.

Quanto a Quando os mochos piam, Geremias Mendoso escreveu o livro de contos explorando a tradição oral. Até porque “Em África, consideramos que, quando os mochos piam, transmitem uma informação sobre a morte. Isto tem relação com o meu primeiro livro, O gato que chora como pessoa, editado em Portugal”, acrescentou, esta segunda-feira, o autor: “No entanto, não uso o mocho como personagem, mas como narrador de todas as histórias que têm algo em comum”.

Quando os mochos piam é um livro a oscilar entre o hilariante e o trágico. Também por isso, Mendoso espera que os seus leitores se divirtam enquanto estiverem a lê-lo.

Em virtude da distinção no concurso literário, Macuácua e Mendoso dividiram 150 mil meticais. Além disso, depois da edição da Fundação Fernando Leite Couto, os seus livros serão editados em Portugal, onde também terão uma residência literária na Câmara Municipal de Óbidos, durante 30 dias, e participação no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, em Outubro.

Entre os membros do júri que distinguiram Diamantes pretos no meio de cristais, de Maya Ângela Macuácua, e Quando os mochos piam, de Geremias José Mendoso, destacam-se Francisco Noa (Presidente), Conceição Siopa, Conceição Siueia e Albino Macuácua.

 

 

 

 

 

Às 16 horas desta terça-feira, a Editorial Fundza vai lançar, no Instituto Guimarães Rosa/Centro Cultural Brasil-Moçambique, na Cidade de Maputo, dois livros infanto-juvenis, designadamente: O príncipe Suehtan e a Aruella no Tulipix, de Andreia Edna da Silva, e O abecedário que finge ser mudo, de Ernesto Moamba.

Ambas as obras serão apresentadas pelo escritor Juvenal Bucuane e foram editadas na sequência da chamada literária aberta pela Fundza no início do ano.

O livro de Andreia Edna da Silva, O príncipe Suehtan e a Aruella no Tulipix, segundo uma nota da Editorial Fundza, começou a ser escrito em Dezembro de 2021, em Inhambane. “Recorrendo à ficção, a escritora quis projectar uma certa imagem do filho na adolescência, pensado no seu carácter, na sua educação, no seu futuro e no respeito às pessoas”, lê-se mp comunicado.

O príncipe Suehtan e a Aruella no Tulipix é uma história sobre a amizade de dois adolescentes, em que o príncipe é muito curioso e gosta de fazer muitas amizades e a Aruella é uma menina especial que se protege constantemente do mundo. A personagem assim procede porque já foi discriminada por ser albina. O príncipe Suehtan tenta ajudar a amiga, mostrando-a que os seres humanos são todos diferentes e, nessa condição, iguais. O livro foi ilustrado por Denise Mboana

Quanto a O abecedário que finge ser mudo, avança a Fundza, é primeiro livro de Ernesto Moamba editado em Moçambique e foi escrito durante o confinamento, em 2020. Em geral, trata-se de uma fábula, resultado das experiências que o autor teve vivendo no campo com os seus avôs. No livro, Moamba explora uma narrativa sobre a realidade actual em Moçambique e no mundo.

Ilustrada por Ariana Kom, o conto de Moamba passa-se numa biblioteca. Nesse espaço fictício, existem um abecedário e números. Os números sempre se julgam os melhores do mundo. Pelo contrário, o abecedário sempre investe na igualdade, o que leva ao enredo um certo equilíbrio social.

A cerimónia de apresentação dos livros de Andreia Edna da Silva e Ernesto Moamba, em Maputo, acontece depois de ambos terem sido lançados no FLIK 2022, na Cidade da Beira.

Andreia Edna da Silva nasceu no dia 2 de Março de 1986, em Maputo, e vive na Cidade de Inhambane. Tem algumas participações em antologias poéticas e de contos, tendo, em Dezembro de 2020, sido seleccionada para fazer parte do e-book Um Natal experimental e outros contos, com o texto “O desejo do príncipe Suehtam”, pela Gala Gala Edições. Em Abril de 2022, foi lançada a obra “Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa”, organizada por Virgília Ferrão, onde tem o texto “Os guardiões da terra”.

Ernesto Moamba nasceu a 4 de Agosto de 1994, na Cidade de Maputo. A temática de sua escrita é marcada pela dor, o desespero e o sofrimento do seu continente. É membro fundador da AMCL (Academia Mundial de Cultura e Literatura), ocupando a Cadeira 21, com o patrono Cruz e Souza. Lançou e publicou, pela Editora do Carmo (Brasília, DF), o livro de estreia de poesia “Liberta-te, mãe África”. Lançou e publicou, pela Editora Folheando (Pará, Brasil), o livro infanto-juvenil “O coelho fugitivo: entre a esperteza e o medo”. Recentemente, publicou, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, por meio da Editora Underline Publishing, o livro “Free Yourself, Mother África”, e, na Colômbia, pela Editorial Torcaza, “Libérate, madre áfrica”, ambas traduções de “Liberta-te, mãe África”.

 

 

O Museu Mafalala, em parceria com a Associação Cultural Boa Coisa, reinaugura, às 14 horas desta terça-feira, no Bairro Mafalala, na Cidade de Maputo, o Mural dos Poetas.

A obra de Shot-B foi inicialmente produzida em Fevereiro de 2016, segundo lembra o Museu Mafalala, fruto de um exercício de envolvimento comunitário, construção de símbolos e referências locais.

O acto de reinauguração, com efeito, busca enaltecer os feitos de grandes nomes da literatura moçambicana. Além de José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui de Noronha e João Albasini, que morreu há 100 anos.

Segundo avança uma nota de imprensa sobre a reinauguração, o mural integra-se no programa de galeria a céu aberto do Museu Mafalala, que, além da estética e do elemento pictórico, busca, por via da arte, manter viva a memória colectiva.

O projecto, acrescenta a nota de imprensa, contou com a participação do estúdio de arquitectura HUEIV e com a colaboração de estudantes da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane.

O Mural dos Poetas faz parte de um conjunto de intervenções em espaço público com a curadoria do Museu Mafalala, que também contempla as seguintes obras: Mural Diversidade Cultural | Tufo da Mafalala, 2016, de Francisco Vilanculos; Mural Xipixi xa Ntima, 2019, de Marcelino Manhula; e Mural  dos Heróis do Desporto, 2020, de Chaná de Sá.

A terceira edição do concurso de descobertas de talentos infantis, Mozkids Talents, arrancou este domingo, na Stv. Na gala de abertura, 34 crianças subiram ao palco da Arena 3D, na Catembe, Cidade de Maputo.

 

Ao fim de dois anos, o Mozkids Talents está de regresso ao palco. Às 18 horas deste domingo, o concurso de descobertas de talentos infantis levou ao palco da Arena 3D, na Catembe, Cidade de Maputo, 34 concorrentes divididos em três categorias: Teatro, Dança e Música. Na primeira de 10 galas, os primeiros concorrentes a apresentarem-se foram Miguel e Shelton, de teatro, que apresentaram uma peça sobre questões domésticas actuais. Na interpretação, a dupla de pequenos actores reflecte sobre a leviandade de algumas mulheres, que valorizam o entretenimento em detrimento da informação. De igual modo, os meninos exploraram a situação de Cabo Delgado, colocando o público como que a visualizar o drama do terrorismo.

Na abertura do Mozkids Talents, na verdade, o teatro serviu para levar aos pais e/ou encarregados de educação, que puderam acompanhar a gala a partir da Arena 3D, momentos de introspecção, muitas vezes, com tom hilariante assinalável.

Já na dança, concorrentes como Leónidas Massingue tornaram a marrabenta uma linguagem universal. O menino fingiu ser uma dançarina de Neyma, ao dar movimento à música “Como anima a marrabenta”.

Individualmente e em duplas, os concorrentes do Mozkids Talents não só exerceram capacidades psicomotoras como puderam fazer o que gostam com o apoio dos pais e/ou encarregados de educação que também fizeram parte da festa.

Além de Teatro e Dança, a gala ainda teve instrumentistas de qualidade. Entre eles, a menina Naima, que investiu no cancioneiro popular moçambicano. A pequena pianista fez do teclado uma aliança e, por isso, conseguiu impressionar e colorir o domingo dos que acompanharam a gala, quer na Arena 3D, quer, eventualmente, pela Stv. Vestida de branco, a pianista pareceu ser um anjo a tocar. Talvez, por isso, não só as luzes do palco tornaram o seu vestido mais reluzente, bem como os olhos do público fixaram-se religiosamente nela, enquanto durou a actuação.

Ainda nos instrumentos musicais, Kennedy interpretou o tema “Aleluia”, mesmo a condizer com o primeiro dia da semana. Tocando saxofone, Kennedy quase fez do seu instrumento musical um factor de oração. O pequeno saxofonista interpretou aquele tema acompanhado por coristas profissionais, o que fez da actuação algo realmente contagiante.

Ainda nos instrumentos musicais, quem não quis ficar atrás foi Vanilson. O menino tocou bateria como ninguém. Por isso mesmo, um dos membros do júri, Joaquim Matavel, não se conteve: “Eu estava a ouvir aqui na produção que vão tocar o baterista da banda por Vanilson. Boa actuação e parabéns!”. As palavras de Matavel foram ditas entre gargalhadas do público que apoiou muito o baterista.

Ora, um dos momentos mais altos da gala de abertura foi quando os concorrentes de Música foram desafiados a cantar com banda, como nunca antes tinha acontecido. Com os instrumentistas e coristas profissionais, os pequenos iniciaram-se no palco com apresentações exigentes, e cantaram ao vivo como se estivessem habituados a estar em palco. Em geral, ouviu-se muita música moçambicana na gala de abertura. “A mensagem que nós estamos a transmitir para sociedade é que é preciso investir na cultura e nas artes porque têm mais-valia na aprendizagem e na activação de outras capacidades cognitivas das crianças”, disse Zé Pires, o Director-Artístico do Mozkids Talents.

De modo a alcançar-se os resultados artísticos pretendidos na formação das crianças, o Mozkids Talents decidiu envolver os pais na concepção dos conteúdos a serem apresentados pelas crianças ao longo das galas. “Tudo o que for a ser visto, foi cuidadosamente estudado para que preserve as crianças”, acrescentou Zé Pires.

Além do encenador Joaquim Matavel, as crianças terão, ao longo das galas, acompanhamento de outros membros do júri, nomeadamente, a bailarina e coreógrafa Memi e a cantora Lenna Bahule.

Para a apresentadora do programa, Yara da Silva, Mozkds Talents vai continuar a lapidar estrelas nacionais como aconteceu nas duas primeiras edições. “Temos várias estrelas que saíram dos nossos realty shows. Vale a pena, porque, para além de estarem a fazer o que gostam, aprendem bastante do júri.

Durante o casting desta terceira edição, cerca de 150 crianças disputaram o acesso ao Mozkids Talents. A sorte coube a 34 concorrentes, que voltam ao palco da Stv próximo domingo, às 18 horas.

 

 

 

Silke Guilamba estreou-se como actriz esta quarta-feira, no Centro Cultural Moçambicano-Alemão, na Cidade de Maputo. A artista contracenou com Mateus Nhamuche, na peça Molhar na chuva com os corvos. A produção da peça foi feita por António Sitoi e a música esteve na responsabilidade de Arsénio Gonçalo.

Até esta quarta-feira, Silke Guilamba era apenas uma talentosa cantora, autora dos discos Namasté e Eleven, assinados com o pseudónimo Tégui. No entanto, porque a música também prega algumas partidas aos seus executores, a cantora estreou-se como actriz através da peça teatral Molhar na chuva com os corvos. “Foi uma experiência muito enriquecedora e um desafio”.

Ao longo de mais ou menos 30 minutos, Silke Guilamba sentiu que conseguiu aprender alguma coisa que, eventualmente, irá usar no futuro. “A peça exigiu de mim muito exercício, muita entrega e também uma libertação. Deixe-me levar para poder interpretar a personagem”.

Na peça adaptada do texto do escritor Mélio Tinga, publicado na antologia Espíritos quânticos, organizado por Virgília Ferrão, Silke Guilamba interpretou o papel de Berta, filha de um antigo militar morto em combate. Trata-se de uma personagem fantástica, que, depois de ser morta, reaparece em sua casa para exigir um enterro digno. Apenas o irmão de Berta, Miguel (Mateus Nhamuche), consegue vê-lo, esmerando-se, por isso, em provar que o pai continua presente, apesar do que lhe aconteceu. “É uma peça profunda, que nos fala muito da perda e da morte que nos diz respeito a todos”.

Molhar na chuva com os corvos é uma peça que une representação, música e movimentos condizentes com a dança contemporânea. A ideia toda foi do encenador e actor Mateus Nhamuche. Para Silke Guilamba, essa mistura toda foi oportuna: “Veio a calhar porque estou numa fase da carreira que ando à procura de fazer coisas novas. Esta foi mais uma oportunidade de melhor explorar a arte e descobrir-me como artista”.

Não obstante ter sido exigente, Silke Guilamba confessa: “Apesar de ser a minha primeira actuação, como actriz, senti-me em casa e foi muito natural, para mim, fazer a peça”.

Há uns dois ou três anos, Mateus Nhamuche conheceu Silke Guilamba numa actuação musical que a cantora teve com Rita Couto, na Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia (FEIMA), na Cidade de Maputo. “Eu ouvi-a cantar e mexeu comigo. Quando pedi ao Mélio Tinga para me propor um texto de palco, achei que a Silke seria a pessoa certa. No princípio, eu a convidei apenas para cantar”. Contudo, a música e/ou o teatro lá pregaram essa partida à cantora que, desde 17 de Agosto de 2022, integra o elenco dos novíssimos actores moçambicanos.

Às 18h10 desta quarta-feira, a Casa do Professor, na Cidade de Maputo, reuniu académicos e artistas para celebrarem o pensamento de um homem plural: Aquino de Bragança. Para a organização, essa foi uma forma encontrada para conhecer e dar a conhecer uma figura importante da História de Moçambique.

Com aproximadamente uma hora de duração, o documentário intitulado Enviado especial foi exibido na Casa do Professor a 17 de Agosto, ou seja, no dia em que a jornalista e académica sul-africana Ruth First, amiga e colega de trabalho de Aquino de Bragança no Centro dos Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, foi assassinada a bomba. Inclusive, segundo lembra o escritor Nelson Saúte, num artigo de opinião publicado esta quarta-feira neste jornal, Aquino de Bragança ficou ferido na sequência da explosão. “Penso que esta foi uma boa coincidência, porque, a partir de um filme sobre Aquino, também tivemos uma oportunidade de falar de Ruth First”, disse Aissa Mithá, da Casa do Professor.

Enviado especial estreou há quatro anos. Ainda assim, para Emídio Jozine, que participou na produção do filme, é sempre oportuno mostr­a-lo às pessoas porque, assim, se recupera o pensamento de um homem que se envolveu nas independências de vários povos africanos, além de Moçambique. Assim, acredita Jozine, pode-se buscar inspiração para a melhoria da situação social ao nível nacional.

Ao ser convidada a participar de um programa de celebração de Aquino Bragança, a realizadora do filme, que vive em Goa, ficou satisfeita. “Estou super contente porque, quatro anos depois de termos mostrado o filme aos antigos colegas dele, amigos, ex-alunos e ao público em geral, o filme volta a Moçambique, aqui a Casa do Professor”, disse Nalini Elvino de Sousa.

A ideia de Nalini Elvino de Sousa produzir um documentário sobre Aquino de Bragança surgiu em 2014. Nessa altura, a realizadora estava à procura de uma coisa que ligasse Goa a Moçambique. “E encontrei na internet esta personalidade fantástica que foi Aquino de Bragança”.

Nalini Elvino de Sousa é uma realizadora portuguesa. Mudou-se para Goa há duas décadas, onde já realizou mais de 100 documentários para a série Contacto Goa. A cineasta também produz curtas-metragens pela sua produtora Lotus Film & TV Production, a mesma do filme Enviado especial. Nasceu no dia 19 de Outubro de 1973. 13 anos depois, na mesma data em que nasceu, Aquino de Bragança morreria na sequência da queda do avião presidencial em Mbuzine, África do Sul, no qual, além de Samora Machel, seguiam tantas outras personalidades, como Gulamo Khan.

Aquino de Bragança foi um homem multifacetado: jornalista, diplomata, político, cientista social e Conselheiro de Estado, quando Samora Machel estava no poder. Um dos seus trabalhos de relevo foi a criação e afirmação da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), em 1961, com os seus camaradas Marcelino dos Santos, Mário Pinto de Andrade e Amílcar Cabral. Estas individualidades convenceram o Rei Hassan II, de Marrocos, a apoiar a luta de libertação contra o colonialismo português.

 

 

 

 

 

 

O escritor e poeta Afonso Vaz Vassoa lança, às 17 horas desta quinta-feira, o livro de poemas Aromas e símbolos de sobrevivência. A obra literária será apresentada pelo Reitor da Universidade Pedagógica de Maputo, no Auditório do BCI, na Cidade de Maputo.

No prefácio de Aromas e símbolos de sobrevivência, Armando Artur considera que a nova proposta literária de Afonso Vaz Vassoa deve ser lida de forma livre e despreconceituosa, da mesma maneira como é apresentada pelo seu autor. Para Artur, os poemas ressoam no leitor como rumores antigos e recentes, aparentemente trazidos pelos ventos alísios, na ondulação temporal do território que Vassoa chama de ReMoça, ou seja, República de Moçambique.

A ser lançado esta quinta-feira, no Auditório do BCI, na Cidade de Maputo, os poemas de Aromas e símbolos de sobrevivência são, em geral, de índole social, o que, para o prefaciador, traduz a preocupação e o desassossego do autor ante a realidade moçambicana: “É uma poética que para além de interiorizar o sofrimento, as inquietudes, o medo, a dor, também vai à outra face da mesma moeda, ao encontro dos maravilhosos elementos que perfilham a geografia natural e humana que, indubitavelmente, constituem fonte de orgulho, de conforto e esperança dos homens e mulheres da ReMoça, do mesmo modo como nos sugerem os poemas do subtítulo ‘Vozes do fascínio’”, lê-se no prefácio assinado por Armando Artur.

Em Aromas e símbolos de so­brevivência encontram-se, segundo Afonso Vaz Vassoa, poemas aromáticos e não aromáticos, que podem ser captados por órgãos dos sentidos das entranhas, to­dos passíveis de serem simbolicamente representados em forma de sin­gelos versos. “É assim que nós, do nosso jeito, pintamos, aqui e agora, a presente composição presumivelmente poética, como o resultado de uma espécie de escape sócio-profissional necessário, embora imposto, natural ou arti­ficialmente, pelo recém-reactivado teletrabalho – cuja dinâmica nos obri­gou a duplicar o tempo e as energias, por razões alheias e não alheias às nossas competências de adaptabilidade, principalmente de ordem tecno­lógica, metodológica e sócio-cultural”, escreve Vassoa no posfácio por si assinado.

Ao longo do seu exercício de escrita, Afonso Vaz Vassoa lembrou-se, em especial, das vítimas das guerras, das mudanças climáticas e de tantas outras ca­lamidades naturais que afectam Moçambique.

Na cerimónia de lançamento, o livro chancelado pela Imprensa Universitária será apresentado pelo Reitor da Universidade Pedagógica de Maputo, Jorge Ferrão.

Por Valério Maúnde

É segunda-feira num país sem nome nem coordenadas geográficas. Sabe-se apenas que existe. Na Escola Secundária Futuro da Nação, o clima é de apreensão por parte dos alunos, que se preparam para prestar provas trimestrais. Na sala 22, está a turma B da 9a classe, perante o enunciado da prova de Português. Nos rostos dos alunos, semblantes variados, uns de indiferença, outros de dúvida e até de espanto, para não dizer assombro, como é o caso da Neima, rapariga de 15 anos de idade, que se vê incapaz de avançar com qualquer resposta após a escrita do seu nome, número e turma na folha de respostas.

Neima lê o enunciado, faz pausa, sacode a cabeça e torna a ler. O efeito é igual: confusão. A estudante olha primeiro ao seu redor e nota que os seus colegas vão preenchendo a folha de respostas e aflige-se, por, aparentemente, ser a única em completo estado de inércia. Neima lança então um olhar de socorro para a secretária do professor, na esperança de que um provável contacto visual revele a sua aflição e faça o professor aproximar-se, para averiguar a razão da inquietação. Infelizmente, os olhos da aluna tombam como cajus maduros sobre a terra, ou, se preferirem, não logram cruzar-se com os do professor Januário, que vigia a prova de corpo presente, mas de alma, espírito e atenção totalmente ausentes, arrebatados que foram pelo fascínio das redes sociais.

Desamparada, Neima recolhe os negros olhos marejados e, pela enésima vez, torna a lançá-los sobre o enunciado, esforçando-se em decifrar o paradoxo diante de si, e, não conseguindo solucioná-lo, culpa-se por ser incapaz de compreender o que está estampado na sua folha de perguntas.

A adolescente passa da culpa para a dúvida. Começa por duvidar da sanidade da sua vista, esfrega os olhos, depois duvida dos seus conhecimentos, tem comichão na cabeça, por fim, enche-se de uma tímida coragem e ousa duvidar de que o enunciado da sua prova queira dizer o que diz.

Por cima do quadro negro, os ponteiros do relógio seguem em ininterrupta marcha. Farta de pensar e sentir sem dizer, vendo o tempo correr, levanta o braço, pedindo a atenção do professor. Contrariado, este pousa o celular na secretária e responde monossilabicamente, como quem poupa energia para mais importantes e gratificantes ofícios.
– Sim!

Receosamente, Neima expõe a sua inquietação:
– Professor, aqui na prova está escrito assim: “O texto da sua prova apresenta-se em estrofes e versos e obedece…”
O professor interrompe-a impacientemente:
– E depois?
Gaguejando, a rapariga esclarece:
– É que, para mim, este texto não tem estrofes e versos.

Mais uma vez a aluna é interrompida pelo professor, que toma a imaculada atitude com afronta.
– Menina, estás a dizer que o enunciado está errado? – E, dirigindo-se agora à turma inteira, proclama, em tom áspero e zombeteiro – Ouviram, meninos? A vossa colega acha sabe mais do que as pessoas que fizeram a prova.

A turma inteira desata em gargalhadas e vaias. Envergonhada, a pobre aluna tapa o rosto com as duas mãos, apoiado os cotovelos sobre a carteira. Gotas salgadas vão humedecendo as folhas de papel, escorrendo sobre as linhas brancas sedentas de respostas.

Januário levanta-se de rompante da secretária, ou se quiserem, do trono das incontestáveis verdades e, pela primeira vez desde que a prova se iniciou há quase meia hora, lê finalmente o enunciado, com o dedo indicador direito dando cadência à leitura.

– “O texto da sua prova apresenta-se em estrofes e versos…”
Januário interrompe de súbito a leitura, como se uma trave lhe tivesse atravessado abruptamente a garganta, e, ao contemplar a mancha gráfica do texto, estremece, sua frio, baixa o dedo de autoridade e esconde o rosto por trás da folha, dando-se conta de que o texto que não se dignara ler antes de distribuir pelos alunos é, afinal, uma prosa, nem de longe poética.

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