O País – A verdade como notícia

Por Virgília Ferrão

 

Os laços entre África e Reino Unido são sobejamente conhecidos. Actualmente, o continente e o país mantêm estratégias de cooperação que redefinem diferentes narrativas em várias esferas: arte, cultura e educação. De facto, a relevância das relações internacionais e o papel que cada indivíduo desempenha nessas mesmas relações é inquestionável.

O que pode ser questionável, contudo, é como as complexas singularidades e os contextos de cada povo são interpretados no decurso de diálogos interculturais. Como diz o ditado popular, a verdade está nos olhos de quem a vê. Neste caso, o que é a verdade? As histórias africanas conhecidas no Reino Unido são aquelas com as quais os africanos se identificam? Será que as narrativas representativas do Reino Unido são conhecidas nos países africanos?

Estas questões são reflectidas, de forma instigante, na pesquisa da British Council, por intermédio da M&S Saatchi World Services, para um programa de cinco anos, designado “Novas Narrativas”. A iniciativa visa contribuir para actualizar as narrativas africanas e do Reino Unido, estimulando o diálogo e promovendo colaborações mais benéficas entre os jovens dos dois lugares.

Nesta resenha, pretendo avaliar até que ponto a pesquisa da British Council é eficaz para o programa “Novas Narrativas”. O enfoque particular vai ao que foi designado “os pontos de contacto da narrativa”, que se referem à interacção das fontes e às condições que moldam as narrativas comuns. Foram identificados quatro pontos de contacto da narrativa: 1) directo, 2) ponte, 3) mediático e 4) icónico.

Os pontos de contacto directo referem-se a experiências em que os jovens entram em contacto com pessoas de outros lugares. Já as pontes, por outro lado, são plataformas que envolvem pessoas de ambos os lugares. Exemplos de pontes incluem a Liga de Futebol Inglesa, com muitos jogadores dos países africanos. Os pontos de contacto mediáticos, por sua vez, incluem actores, televisão ou publicidade e representações na midia de um ou outro. Algumas representações são positivas na forma como comunicam o outro o lugar, mas outras apresentam uma imagem mais trivial.

Os pontos de contacto icónicos são interessantes dado que referem-se a indivíduos, lugares ou edifícios que são identificados, quer com o Reino Unido, quer com a África. Exemplos incluem a família real britânica e William Shakespeare (Reino Unido), assim como Nelson Mandela ou o Kilimanjaro (África).

A pesquisa da British Council indica que a narrativa dominante, pela perspectiva dos jovens africanos, é que o Reino Unido encarna uma gama diversificada de valores positivos, sendo visto como líder mundial, em termos académicos ou económicos. Ao mesmo tempo, existe uma preocupação com o racismo e o elitismo.  Na perspectiva dos jovens do Reino Unido, entretanto, o continente africano, como todo, é imaginado de acordo com dois extremos: idealizado pelas visões românticas da natureza e da vida selvagem, ou demonizado pela corrupção e pobreza. As nuances é são mais pesadas do lado africano no campo da imaginação, e mais ausentes do ponto de vista do lado britânico. Certamente, esperava-se muito mais detalhes no envolvimento de um continente com mais de cinquenta países espalhados por três fusos horários e oito regiões geográficas distintas, o que indica um problema.

A pesquisa vai além ao destacar não só os pontos de contacto narrativos mas também as narrativas que os jovens de países africanos e do Reino Unido gostariam que o outro tivesse acesso, bem como que aspectos das narrativas deveriam ser amplificados e/ou evitados. Curiosamente, por um lado, conclui-se que as tropas coloniais latentes e neo-coloniais, a apropriação cultural e a expressão da fragilidade são para ser evitados. Por outro, as vozes influentes e a diversidade africana são aspectos por ampliar. Se isso acontecesse, haveria um impacto positivo nos diálogos entre os povos e no desenvolvimento das nações, especialmente nos países africanos.

Ainda sobre o tema da diversidade, inclusão e pluralismo, sou de opinião que as novas vozes africanas precisam de ser amplificadas e ouvidas, particularmente aquelas que poderíamos considerar a “minoria”, por exemplo, dos países lusófonos. Apesar da barreira linguística, os países da África lusófona desempenham um papel importante, na arte, cultura e educação, moldando estas relações. Estes países são frequentemente deixados para trás em algumas interacções que reforçam os laços dos países africanos e do Reino Unido. Como tal, as iniciativas de tradução de ambos, para que o público inglês do Reino Unido e de África possa ter acesso às criações africanas lusófonas e vice-versa, é crucial. A este respeito, Moçambique é um dos países que tem dado grandes contribuições. Um exemplo, é o trabalho da editora Trinta Zero Nove, reconhecida através do Prémio Excelência em Iniciativa de Tradução Literária na Feira do Livro de Londres em 2021, e do Prémio PEN Translates Award (atribuído à Sandra Tamele e a Jethro Soutar), em 2022, pela tradução para o inglês da obra “Tchanaze, a donzela de Sena”, de Carlos Paradona. As iniciativas de inclusão poderiam também incluir a promoção de oportunidades de intercâmbio cultural e de aprendizagem.

Outro aspecto que pode ser percebido a partir da metodologia empregada pela pesquisa da British Council é referente a ferramentas fundamentais para uma mudança real nas narrativas actuais. Primeiro, a interacção e a escuta de vozes individuais, especialmente dos jovens. Embora seja essencial o papel do Governo e das instituições para orientar o volante, de modo a atingir-se os resultados desejados, deve ser dada atenção às pessoas, como indivíduos, e às suas escolhas. Da mesma forma, o reconhecimento das realidades múltiplas e complexas sobre cada país parece crucial. Compreender, por exemplo, as características boas, más e, sobretudo, as reais sobre cada lugar – sem cair em precipitadas teorias pessimistas ou optimistas sem suporte – é fundamental para a implementação eficaz do programa “Novas Narrativas”.

Ao destacar os pontos que moldam as narrativas comuns, a pesquisa torna óbvia a importância do desmantelamento de estereótipos óbvios. Não se é farinha do mesmo saco. Os hábitos estereotipados permitem-nos golpes que põem em risco as rotinas diárias individuais e as relações mais intrínsecas interinstitucionais. Melhores oportunidades podem ser alcançadas se as pessoas compreenderem melhor as características culturais dos locais onde se inserem. Os jovens africanos e os jovens do Reino Unido podem sentir que os ambientes ou os lugares estão contra eles, quando, na realidade, é apenas uma questão de mistura de génios e de visões do mundo. O destacamento desta particularidade é um excelente diferencial para o sucesso do programa.

Por falar em oportunidades, não se pode ignorar que uma compreensão das narrativas que constroem os países africanos e o Reino Unido conduzirá a uma inclusão social. Este conceito assenta na pró-actividade dos Estados na abordagem das desigualdades, no entanto, é também um conceito complexo porque engloba muitas realidades diferentes. A investigação facilita a compreensão das diferenças.

Como jovem autora de um país africano lusófono, estou feliz por ver esta pesquisa e este programa com potencial para fomentar o diálogo e a cooperação entre o meu continente e o Reino Unido. Neste contexto, as grandes lições a serem retidas são: ao invés de as realidades complexas sobre cada um dos povos e lugares serem temidas, devem servir para um melhor engajamento entre os povos; as vozes que podem moldar as novas narrativas devem ser ampliadas e as suas ideias podem contribuir para diferentes políticas em ambos lugares. É tempo de dizer adeus aos estereótipos e aos preconceitos. Em bom rigor, é tempo de redescobrirmos a verdade pelos olhos de quem está nos países de África e do Reino Unido.

30 de Agosto de 2022

 

 

Por: Lo-Chi

 

Como prelúdio desta abordagem, dizer que o primeiro contacto que tive com o Bento Baloi foi através do livro de crónicas “A arca de não é”. E por princípio, quando leio um livro de um autor que desconheço, tenho como hábito sacrossanto, não ler (antes do conteúdo do livro) sequer o prefácio, menos ainda a sinopse, e em consequência, não sabia do seu percurso literário, e embalado no comum, disse comigo mesmo durante a leitura, este cronista não tarda muito vai escrever um romance. Afinal havia ele começado pelo romance.

E este romance, “No verso da cicatriz”, o segundo da autoria do Bento Baloi, que segue ao livro de crónicas anteriormente referido, o título à partida provocou em mim uma enorme expectativa em relação ao final, posto que cicatriz é uma marca, fruto de uma ferida sarada, cujo verso pressupõe a existência de tecidos normalizados.

O livro é dividido em três capítulos, que o autor entendeu designar por Livros: Livro Primeiro com o título de “A Ferida”, Livro Segundo, cujo título “O Sangue” e o Livro Terceiro, “A Cicatriz”- note-se o princípio lógico das designações. Nele, os personagens narradores principais, (porque há um terceiro fortuito e fruto da imposição do desenvolvimento da história) o Bernardo e a Helena, que se apaixonam, mas por causa de problemas étnicos, as suas venturas acabam em desdita, que conflui e se confunde com a desdita do país. País esse recentemente nascido, que se queria uno e feliz, mas que sobra derrapando, de asneira em asneira, num processo selectivo de exclusão tão profundo, que chocava e choca com uma das palavras de ordem: Unidade.

Livro Primeiro

Este Livro Primeiro explora fundamentalmente as relações entre indivíduos. Nos factos relatados, nota-se uma evidente verosimilhança com a realidade, e o autor já com propósito, julgo, foi buscar os nomes onde as tramas se desenvolvem, à geografia real do país, e onde factos históricos não ficcionados aconteceram, dando-nos consequentemente a entender que elas tiveram como base de criação factos reais. O enredo deste drama, tem como epicentro o povoado de Carico, que fica a trinta quilómetros a norte da vila de Milange, para quem vai em direcção à actual sede do distrito Mulumbo, onde na realidade histórica do país os professantes da religião, Testemunhas de Jeová, foram colocados em campos de concentração. Campos de concentração que tomaram o eufemismo de campos de reeducação, como tantos outros criados, em Niassa e Cabo Delgado e outras províncias, onde por sinal o Bernardo, personagem fictício, acabou passando por alguns famigerados.

E logo nas primeiras páginas do romance, fico encantado com a história de amor destes personagens principais do livro, o Bernardo Muhlanga e a Maria Helena, que tecem uma relação que me levou aos primórdios da minha existência, quando comecei a sentir aquele impulso terno e vital, o qual provoca a inexcedível empatia pelo sexo oposto. É mesmo aí que o autor me seduz, com a definição que dá aquilo que é a consequência final e almejada desse fenómeno: fazer amor. Descrevendo muito criativamente através do seu narrador, diz: “… deixo de sentir o meu próprio corpo que se funde ao dela num ritual solene” para depois fazer essa hierática revelação “Dizem os entendidos que Deus fez os homens e as mulheres. Deixou-os na terra e Ele foi para o céu. Depois convidou-os a fazerem uma visitinha sempre que seus corações dominassem a razão da vida e fosse difícil descortinar onde começa o corpo de um e termina o do outro.” Maravilhosa e terna essa emoção, para se poder adivinhar, num profundo choque emocional, o que por antítese se tece, paulatina e inexoravelmente. Todo um enredo dramático revoltante, que não cessa, de violência, de ódio, de fome, com dois ou três pequeníssimos intervalos, até ao final do livro.

Neste capítulo, no meu entender, o Bento Baloi pretendia mostrar a relação causa e efeito de determinadas atitudes políticas. Um efeito que vai medrando, subtil e sorrateira, a violência, uma violência que acaba sendo descarada e gratuita muitas vezes, fazendo-nos esquecer a causa. Mas uma causa se subtil, não menos violenta e mais evidentemente desestruturante, social e individualmente falando, cujo lema se pode resumir na mínima: ou estás comigo ou estás contra mim. Para justificar a autocracia e os desmandos. Como se a vida fosse monocromática.

No meio de todo este drama sórdido, o autor recorda-nos a natureza boa do homem, ainda que envolto no meio de algozes e de realidades por demais inumanas, a solidariedade impera, materializadas nos personagens, Nelson, Faruk, Patrick Mutarawa, o malawiano, mestre Chilengue, Sofia e muitos outros que eventualmente vão cruzando nos caminhos de Bernardo e Helena.

 

Livro Segundo “ O Sangue”

Se o primeiro capítulo, “A Ferida”, tem um forte pendor para retratar as relações humanas, neste segundo o que se realça é a relação social, muito caracterizado na relação intra-família e inter-famílias, estas estratificadas pelas etnias.

“O Sangue” é como uma peça do puzzle que vem completar e encaixar-se aos factos ficcionados no Livro Primeiro, dando a conhecer os fenómenos acontecidos concomitantemente, com os do Primeiro, mas em outros espaços. Neste, a personagem narradora é a Helena que se apaixonara e mantivera relações íntimas com o narrador do primeiro, Bernardo; e que por questões de etnia, confundidas ou aproveitadas (pelo seu pai, secretário do bairro) com questões ou circunstâncias político-religiosas inventadas; é deportado para Carico. Helena, uma mulher que sai de Maguaza, distrito da Moamba, em busca do seu amado, viajando em meios nunca dantes navegados, para um local desconhecido, Carico, na província centro-norte da Zambézia, sem recursos, nem azimutes, chega e cai no coração de um conflito armado. Não encontra a pessoa amada. Emigra, imigra, sem saber nem consciência. Tem uma relíquia nas mãos, para ela espiritual, para outros, económica, que por causa da mesma, quase lhe foi fatal. Destruída a relíquia a sua protecção física se vai deteriorando, ainda que retornada as suas origens. Este pequeno dado, cria-me a convicção de que, não por mero acaso, o autor nos chama atenção para a realidade e a força das nossas crenças e Deuses (e ele faz questão de pôr em maiúscula, fora dos cânones do português complexado), apelando-nos para autenticidade. Aqui o Bento Baloi releva o papel determinante da mulher que, na sua aparente fragilidade, no seu silêncio expressivo, se impõe e move mundos, montanhas e até fronteiras físicas e emocionais, quando valores mais altos se alevantam.

Muito subtilmente, este capítulo também levanta a questão da exploração dos nossos recursos, simbolizados nos ossos dados à Helena pelo nhamissororo Zondane. A posse de riqueza que desconhecemos, mais que outros conhecem, e em face da nossa ignorância e dos nossos apertos, económicos, financeiros e humanitários, tentam levá-los por “tuta e meia”. E os nossos irmãos, que tendo um olho – “ em terra de cego zarolho é rei” – à força, tentam roubar aos seus irmãos desesperados, e acabam sequer tendo o rédito devido, criando apenas desgraça no seio e conflitos. Esta imagem teve o condão de levar-me a viajar a Montepuez, a Palma, a Olinda, a Pebane, a Larde, a Temane.

 

Livro Terceiro, “A Cicatriz”

Neste capítulo, revelando um profundo labor de pesquisa, é praticamente a saga do Bernardo na sua segunda deportação, da qual por questões que lhe escapam e por necessidade de sobrevivência acaba como guerrilheiro do revoltoso grupo armado. No desenvolvimento das peripécias, o autor, para além de fazer um mapeamento das principais bases da rebelião armada, de norte a sul, passando pelo centro, não se furtando de dar não apenas a localização como a designação verdadeira, também descreve as principais batalhas acontecidas que iam desequilibrando as forças para um e para outro lado da contenda. Uma das quais, bem conhecida, a batalha de Inhaminga que provocou um tremendo volt face no jogo de forças, impondo mudanças nas hostes governamentais; bem como a batalha de Dombe, só para citar algumas. Importa frisar que o interessante é que tudo isso é narrado numa perspectiva diferente e sui generis, já que feita por um guerrilheiro, que era por obrigação circunstancial e contra a filosofia da organização onde forçosamente operava, mas que também era um revoltado contra o sistema oficial que o deportou. Neste capítulo evidencia-se os sistemas em conflito.

Este livro, no seu conjunto, é a história do personagem Bernardo que quase a ser feliz é deportado, e quase a voltar a origem é de novo deportado, acabando entrando num movimento rebelde com o qual não se identificava (aqui a imagem criada pelo autor do arquitecto e do engenheiro) e quando chega a casa nada é como antes. Quando olho para o enredo do Bernardo, pressuponho que foi intenção do autor fazer representar neste personagem, todo uma série de azarados deste pais, que sem querer, é metido em tramas cujos arquitectos e engenheiros (parafraseando o autor) eles desconhecem e fazem deles operários, quando muito mestre-de-obras, de um edifício cheio de mazelas e problemas de concepção, onde eles não querem participar. Estes sistemas opressores e autoritários acabam fazendo das pessoas aquilo que eles não são e nem queriam ser. No reverso da moeda, não obstante toda a sua máquina de controlo e repressão, criam as bases para o florescer da solidariedade dos oprimidos e no instinto natural de defesa e sobrevivência, induzem a criação de redes de subversão: consequência lógica!

Este drama termina precisamente no encontro (que virou encontrão) entre pai (Bernardo) e filho (Bernarduana), num clima de forte suspeição, sem que soubessem quem era quem. Engalfinharam-se numa batalha, onde o filho acaba desmaiado, carregado pelo pai. E são os residentes de Maguaza que acabam revelando a identidade deles, no momento que se anuncia o acordo geral de Paz de Roma.

Acordo que era suposto constituir a cicatriz, (eu divagando no título) cujo verso resguardasse um tecido regenerado, na inserção, na reconciliação e na união. Esse acordo, infelizmente fora da ficção, virou uma crosta, encobrindo uma úlcera social e económica com tecidos purulentos e em putrefacção, a urgir uma raspagem sob o risco de gangrena e suas consequências lógicas.

 

Quelimane, aos 31 de Agosto de 2022

Por: Cristóvão F. Seneta

 

«(…) muito se tem estado a falar de ilegalidade de toda a espécie, sobretudo as praticadas por pessoas que deviam ter como principal obrigação precisamente manter a legalidade e por aqueles, que, valendo-se do peso do dinheiro que têm e das suas ‘costas quentes’, obtêm um estatuto especial, incluindo imunidade. Sempre em prejuízo do cidadão mais honesto e menos protegido» (Muianga, 2022: 47).

 

Quando me chegou às mãos o livro Zeus, quando é cão, de Francisco Muianga, que, hoje, vem a lume pela Editora Fundza, a primeira interrogação que me veio à mente foi a seguinte: quando é que Zeus é cão? É nesta perspectiva que, para tentar dizer algo conciso, mas hermenêuticamente significativo, resolvi fazer esta breve nota de apresentação, a partir dessa inquietação de fundo pragmático e ontológico.

Em princípio, parece-me que a construção do título da obra estabelece uma delicada cartografia do imaginário mitológico, arvorado na remota antiguidade grega, cujo interesse ultrapassa as preocupações de índole histórica e estético-discursiva do autor, ao mobilizar elementos simbólicos sempre incontornavelmente actuais onde emergem os próprios itinerários do homem na busca de sentido que constitui o suporte da sua existência.

É nesta medida que a convocação titular de Zeus, «a mais importante figura mitológica grega, enquanto «Deus dos Deuses» (Muianga, 2022: 16), sugere uma imagem arquetípica da divinização da natureza humana vinculando-se à natureza canina por causa da incapacidade de exercer o seu poder supremo para estabelecer a ordem e a justiça, enquanto condição da dignidade do homem, num mundo cada vez mais desencantado. Por outros termos, a minha leitura conduziu-me ao entendimento de que Zeus é cão, quando a justiça fracassa na punição dos ofensores, deixando, sistematicamente, as vítimas no estado de abandono.

Sob este ponto de vista, o livro Zeus, quando é cão recupera uma imagem-comum no conjunto da literatura e artes moçambicanas, dotando-a de renovados matizes no afunilamento diacrónico e sincrónico da significação do empobrecimento da percepção das carências do ser humano que busca a sua humanidade. Luís Bernardo Honwana, com o seu Nós matámos o cão tinhoso, deu o mote a essa metaforização do cão no discurso narrativo, cuja declinação no discurso poético permitiu outras incursões dos artistas noutros territórios do fazer artístico: na poesia – Sinopse de cães à estrada e poetas à morte, de Deusa d’África –, na música – Cães de raça, de Azagaia –, e, até mesmo, na escrita ensaística – Cinzas de Cão, de Martins Mapera.

Mas, penso que Zeus, quando é cão estabelece uma perfeita harmonia temática com Cães de raça, do rapper Azagaia, uma composição musical que se presta como interlúdio para o tratamento das relações de poder, produzidas no tecido social moçambicano, com base na raça, resultando daí uma bifurcação cultural e identitária em que a maioria é subalternizada, espoliada e desumanizada e, por isso, privada de autodeterminação por uma minoria que se pensa a si mesma como superior.

Esta análise intermediática pode ser atestada, sobretudo, no texto de abertura do livro intitulado julgamento de cães de raça, em que o narrador revela, através do diálogo entre Moisés Nyika, irmão mais novo do «sexagenário Pedro Nyika», morto pelos cães, e o escriba Jonas, que os donos dos cães de raça são «pessoas endinheiradas», como é o caso da personagem-tipo Alvim de Matos, patrão do finado, que exploram os trabalhadores e manipulam as instituições de justiça.

De modo geral, pode-se dizer que Zeus, quando é cão é uma crónica do nosso tempo que se fecha à banalização do mal numa «sociedade hipócrita». Servindo-se de uma linguagem carregada de humor, o escritor transforma a escrita num libelo de denúncia das patologias quotidianas que aniquilam a sociedade moçambicana.

De facto, nos catorze (14) textos, que concorrem para a coesão estrutural e temática da obra, Francisco Muianga retrata situações dramáticas enformadoras da vivência individual e colectiva das personagens que se movimentam nas diferentes coordenadas espaciais e temporais da(s) narrativa(s), como sejam a migração, a impunidade, a corrupção, «o nepotismo e amiguismo»,  a criminalidade, a violência armada, resultante da guerra civil e da actuação da polícia, a decadência dos valores de cuidado e solidariedade, a superstição, a prostituição, a delinquência juvenil, a pobreza.

Neste aspecto, parece-me que, ao eleger o escriba Jonas como uma das personagens protagonistas do enredo, o autor de Zeus, quando é cão desemboca na problematização da função da literatura/imprensa e do escritor/jornalista no contexto contemporâneo. Fazendo jus á sua profissão de jornalista, fica claro que o escriba Jonas é o alter-ego da voz autoral que busca, no exercício da escrita, a verdade dos oprimidos, silenciada pelas narrativas dominantes. Sobressai, daqui, uma positivação da imagem do cão por intermédio da personificação do papel dos jornalistas na sociedade: «[…] Os bons jornalistas farejam» (Muianga, 2022: 30).

Isto é, o jornalista é como um cão e esse instinto canino é um mecanismo que deve estimular a sua curiosidade, por forma a «descobrir o que poderia não estar desvendado», na medida em que «As caixas jornalísticas saem do obscuro, do limpo, do sujo, e do inimaginável ou do inesperado. De ambientes existentes, mas sem valor enquanto encobertos […]» (Muianga, 2022: 30).

Sob este ponto de vista, o livro Zeus, quando é cão entronca, igualmente, num imperativo categórico que, por via de um realismo militante, se é que se pode usar tal expressão, chama a atenção aos novos profissionais do jornalismo imprenso para a importância do trabalho investigativo, tal como o fizera Carlos Cardoso. Porque É proibido algemar as palavras, a investigação jornalística pode permitir relatar a história das vítimas num contexto em que se fala «de uma justiça corrupta», mas também de uma comunicação social camuflada nas linhas editoriais para perpetuar o cinismo dos poderes instalados.

Portanto, e como dizia Tzvetan Todorov, só desta maneira é que o escritor-jornalista pode realizar um exame crítico da nossa identidade colectiva, colocar a felicidade de outrem e a sua própria perfeição acima dos interesses individuais, e envolver-se, por isso mesmo, numa acção moral.

Dito isto, fica o convite para uma leitura mais aprofundada de Zeus, quando é cão, de Francisco Muianga, uma narrativa profundamente leve no manuseio da linguagem longe de uma estética de imitação do mundo, mas igualmente perturbador na observação atenta das vicissitudes que habitam o nosso imaginário social.

Francisco Muianga lançou, na Feira do Livro da Beira, realizada semana passada, na capital de Sofala, o seu livro de estreia, intitulado Zeus, quando é cão.

Publicado pela Editorial Fundza, o romance de Francisco Muianga retrata a história de Jonas, que acontece em dois países: Moçambique e África do Sul. Em geral, o protagonista do romance move a história no sentido em que vai observando e reportando determinados acontecimentos importantes para a trama.

Na verdade, Zeus é o nome de um cão. A partir do animal e, sobretudo, do jornalista Jonas, o escritor pretende retratar aquilo que aconteceu e o que poderia ter acontecido no ofício dos profissionais da comunicação social. “Quero assinalar a actividade jornalística, explorando aquilo que eles sabem, mas não dizem; as suas limitações e o seu atrevimento”, disse o escritor.

Ao longo do processo criativo de Muianga foram determinantes dois acontecimentos. Primeiro, o assassínio de um juiz. Segundo, a morte de um cidadão, causada pela mordida de um cão. Ao notar que ambos os casos terminaram sem que a justiça fosse feita, Muianga decidiu ficciona-los. Portanto, o romance inspira-se na realidade moçambicana, mas não o escreve como facto real. Zeus, quando é cão ficou concluído em um ano, pois o processo criativo do autor varia entre as crónicas, os contos e artigos de opinião.

Em geral, afirmou o professor universitário Cristovão Seneta, que apresentou o livro, “Pode-se dizer que Zeus, quando é cão é uma crónica do nosso tempo que se fecha à banalização do mal numa «sociedade hipócrita». Servindo-se de uma linguagem carregada de humor, o escritor transforma a escrita num libelo de denúncia das patologias quotidianas que aniquilam a sociedade moçambicana”. Acrescenta Seneta: “Francisco Muianga retrata situações dramáticas enformadoras da vivência individual e colectiva das personagens que se movimentam nas diferentes coordenadas espaciais e temporais da(s) narrativa(s), como sejam a migração, a impunidade, a corrupção, «o nepotismo e amiguismo»,  a criminalidade, a violência armada, resultante da guerra civil e da actuação da polícia, a decadência dos valores de cuidado e solidariedade, a superstição, a prostituição, a delinquência juvenil, a pobreza”.

O romance de Muianga foi lançado na Feira do Livro da Beira, que contou com a presença da Secretária do Estado de Sofala, Stela Zeca, e da escritora Paulina Chiziane.

Francisco Armando Muianga nasceu a 9 de Fevereiro de 1959, no Bairro de Chamanculo, Cidade de Maputo, onde fez estudos primários e secundários. Cursou Mecânica, na especialidade de Torno e Fresa, na Escola Industrial 1º de Maio, de 1979 a 1981. É jornalista de profissão desde 1982, tendo ingressado no Diário de Moçambique, a partir da delegação de Maputo, naquele mesmo ano. Em 1983, foi transferido para a Cidade da Beira, sua actual residência. Entre 1986 e 1988, esteve baseado na Cidade de Chimoio, em Manica, também ao serviço do Diário de Moçambique. O autor concluiu o curso de Ensino de História e Filosofia na então delegação da Universidade Pedagógica da Beira, hoje Universidade Licungo.

No dia 6 deste mês, 17h30, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo,  a Editorial Fundza irá lançar os livros As máscaras da verdade, de Almeida Cumbane, e Água, uma colectânea de crónicas que reúne textos de 19 autores.

As máscaras da verdade foi editado pela Editorial Fundza na sequência de uma chamada literária aberta no início do ano. O livro, essencialmente, procura promover uma reflexão sobre aquilo que, por vezes, parece óbvio. Trata-se de um romance que mescla aspectos filosóficos, morais e éticos.

Segndo a Fundza, a história do terceiro livro de Almeida Cumbane passa-se nas três províncias do Sul de Moçambique, com destaque para Maputo, onde o autor nasceu. Ao lerem a história, Cumbane gostaria que os leitores captassem a ideia de que nem tudo o que parece é.

Com o romance As máscaras da verdade, Almeida Cumbane estreia-se como autor da Editorial Fundza. “Num contexto em que a maior parte das editoras literárias são de Maputo, a Fundza mostra pujança e que ainda vai crescer”, disse o autor.

Cumbane também é autor de “Ilusão à primeira vista” (romance, Prémio Literário TDM – 2016) e de “A distante proximidade” (contos e crónicas). Também é autor de peças teatrais e guiões de radionovelas. Tendo-se licenciado em Filosofia, mestrado em Ciências de Educação, actualmente, é docente no Instituto Superior Politécnico de Gaza.

Em relação à Água, é uma obra literária que resulta do concurso de crónicas, lançado ano passado e organizado pela Associação Kulemba, no âmbito da Feira do Livro da Beira (FLIB 2021). Ao instituir-se o concurso de crónicas sobre água, a Kulemba pretendeu activar nos estudantes universitários a capacidade de participarem no debate sobre as mudanças climáticas através da arte literária. Assim, 19 autores foram seleccionados para a antologia cujas histórias roçam, grosso modo, a ironia, o burlesco e o absurdo. Entre os autores, encontram-se Adelino Albano Luís (primeiro classificado do concurso de crónicas), Fernando Cambedza (segundo classificado), Arlindo José Cossa (terceiro classificado), Luís Nhazilo, Joaquim Oliveira, Iralinda Pelembe, Célia Simango e Elsa Sande.

Esta quinta-feira, às 16 horas, realizar-se-á, na Biblioteca do Centro Cultural Português em Maputo, a apresentação dos projetos subvencionados pelo PROCULTURA em Moçambique.

A cerimónia contará com a presença do Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa, e da Ministra da Cultura e Turismo de Moçambique, Eldevina Materula, bem como do Embaixador de Portugal, António Costa Moura, e do Encarregado de Negócios da União Europeia em Moçambique.

Segundo uma nota de imprensa, em Moçambique estão em curso 10 projectos subvencionados, implementados em cinco províncias – Maputo, Inhambane, Niassa, Cabo Delgado e Nampula – representando um valor global de 4 milhões de euros. Entre os 10, sete são coordenados por entidades moçambicanas.

No país, está ainda em curso o projecto de desenvolvimento de um polo de criação artística contemporânea em Maputo. Estes projetos irão, ao longo dos próximos dois anos, contribuir para a criação de emprego no sector cultural nas áreas da Música, Artes Cénicas e Literatura Infanto-juvenil e, simultaneamente, promover a comercialização e internacionalização da produção artística dos PALOP e de Timor-Leste ao nível regional e internacional.

O PROCULTURA apoia 22 projectos subvencionados nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe) e em Timor-Leste num total de 7,5 milhões de euros.

 

 

O caçador de elefantes invisíveis, de Mia Couto; Museu da revolução, de João Paulo Borges Coelho; Tornado, de Teresa Noronha;  O livro do homem líquido, de Pedro Pereira Lopes; e As formigas do Tavinho e outras recordações, de Almiro Lobo, são os cinco livros moçambicanos semi-finalistas do Prémio Oceanos no Brasil.

2452 livros foram submetidos à edição 2022 do Prémio Oceanos. Desse universo, 65 títulos foram apurados à semi-final, entre os quais cinco obras da literatura moçambicana. O primeiro livro moçambicano que aparece na lista do Oceanos é As formigas do Tavinho e outras recordações, de Almiro Lobo. Na edição da Alcance, o professor universitário reuniu em livro um conjunto de crónicas sobre realidades que o marcaram desde a infância à fase adulta. O livro representa, fundamentalmente, o que Lobo captou em determinados eventos em todas as fases da sua vida.

Em segundo lugar, aparece Museu da revolução, de João Paulo Borges Coelho, um romance que percorre várias geografias e episódios da História de Moçambique dos últimos 50 anos. O centro da história do romance editado pela Caminho de Portugal e pela Kapulana do Brasil é a personagem Jei-Jei, que contribui imenso para que, do ponto de vista técnico-narrativo, o romance seja também rico em inovação literária.

Já o terceiro título moçambicano na lista de 65 livros do Oceanos é O caçador de elefantes invisíveis, de Mia Couto, um conjunto de 26 contos que tanto retratam a situação do terrorismo em Cabo Delgado bem como os contextos da COVID-19. Editado pela Fundação Fernando Leite Couto, um dos textos do livro de Mia, “Um gentil ladrão”, foi publicado no The New York Times, nos Estados Unidos.

O livro do homem líquido, de Pedro Pereira Lopes, é a quarta obra literária na lista do Prémio Oceanos. Editada pela gala-gala, trata-se, segundo a editora, de uma opção versátil de microcontos, onde se mistura a realidade e a ficção possível de embalar o leitor em momentos de lazer, desconstrução e construção de melhores ideias.

Já o quinto e último título moçambicano na lista do Oceanos é Tornado, de Teresa Noronha, um livro editado pela Exclamação de Portugal, que, à semelhança de Museu da revolução, reconstrói certos passados de Moçambique. No entanto, tendo como foco narrativo a perspectiva de uma menina que vai crescendo enquanto narra a sua e a história de um território, ora no período colonial, ora depois da independência. A narração é cíclica e não se adivinha um discurso cronológico. Pelo contrário, desse ponto de vista, a narrativa de Teresa Noronha é imprevisível quanto diversa ao nível temático.

Além dos cinco livros moçambicanos, na semi-final encontraram-se 45 escritores brasileiros, 12 portugueses, uma luso-angolana, um angolano e um cabo-verdiano. Quer isto dizer que Moçambique é o país africano com o maior número de autores na semi-final do Oceanos e o terceiro da CPLP.

Na fase da semi-final, entre os membros do júri intermediário, que fará a selecção dos 10 finalistas, encontram-se a professora universitária Teresa Manjate (Moçambique), Jeferson Tenório, Nina Rizzi, Paulo Scott e Prisca Agustoni (Brasil), e João Luís Barreto Guimarães e José Riço Direitinho (Portugal).

Portanto, na última fase, a final, o júri do concurso irá eleger três vencedores. O primeiro classificado ficará com 120 mil reais (cerca de 1.500.000 meticais), o segundo ficará com 80 mil reais (cerca de 960 mil meticais) e o terceiro ficará com 50 mil reais (cerca de 600 mil meticais).

Outros semi-finalistas

Entre os semi-finalistas desta edição do Oceanos também se encontram Maremoto, de Djaimilia Pereira de Almeida (luso-angolana), O mais belo fim do mundo, de José Eduardo Agualusa (Angola), Safras de um triste outono, de Arménio Vieira (Cabo Verde), A pediatra, de Andréa Del Fuego, O réptil melancólico, de Fábio Horácio-Castro, Minha raiva com uma poesia que só piora, de Carol Braga (Brasil), As doenças do Brasil, de Valter Hugo Mãe, eus Pátria Família, de Hugo Gonçalves, Introdução à pintura rupestre, de José Tolentino Mendonça  (Portugal)

 

Luís Bernardo Honwana considera que a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) enfrenta uma situação de crise. Por isso mesmo, o autor de Nós matamos o cão-tinhoso entende que os escritores devem voltar a unir-se para que a agremiação não caia no abismo. Honwana reuniu-se com os seus confrades esta terça-feira, na AEMO, a propósito dos 40 anos da agremiação que hoje se celebram.

A primeira vez que Luís Bernardo Honwana entrou na actual sede da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), na Cidade de Maputo, aquele edifício tinha a designação Casa da Metrópole, no período colonial. Algum tempo depois, passou a designar-se Centro de Informação e Turismo. Nessa condição, lá organizaram-se exposições de arte. Inclusive, o autor de Nós matamos o cão-tinhoso, então membro do Núcleo d´Arte, expôs alguns trabalhos.

Ora, depois da independência, no processo da criação da AEMO, Honwana convidou Rui Nogar, que se encontrava em Nampula, a ir a Maputo e, subsequentemente, a assumir a responsabilidade de executar tarefas concretas no processo da criação da agremiação, sendo pago por uma verba da Presidência da República.

Na verdade, a Comissão Instaladora da AEMO, presidida por Luís Bernardo Honwana, foi formada em 1980. Alguns anos depois, o escritor, então Chefe do Gabinete do Presidente da República, Samora Machel, envolveu-se na procura da sede da Associação Moçambicana de Fotografia, de que também era membro. Convidado por um amigo, o escritor foi visitar um certo edifício e, imediatamente, decidiu que serviria de sede para os escritores, pois a fotografia precisava de um espaço de exposição e o recinto não era o mais apropriado. Reservou-se, assim, o espaço para os escritores. Portanto, “Foi uma decisão perfeitamente unilateral. Estas coisas de democracia, a gente aprende com o tempo”, gracejou Luís Bernardo Honwana, na sessão com os membros da AEMO, esta terça-feira.

Quando a AEMO foi criada, a 31 de Agosto de 1982, os escritores entenderam que, se estivessem organizados, poderiam, de uma forma mais concertada e articulada, contribuir no processo da construção do país, fazendo uma chamada de atenção para certos aspectos que, eventualmente, representantes de outros sectores não tivessem ou a sensibilidade ou os instrumentos necessários. “Nós estávamos em condições de fazer isso, mas faríamos melhor se estivéssemos articulados. Nesse sentido, penso que temos cumprido o nosso papel. Ao longo desses muitos anos que o país tem, o peso da Associação dos Escritores tem-se feito sentir, bem ou mal”.

Para Luís Bernardo Honwana, o facto de existir uma associação na qual os escritores se encontravam e discutiam, talvez tenha permitido que uma parte da construção da nação tenha sido questionada ou avaliada, porque os escritores pensam e reagem às coisas e encontram caminhos que ainda não foram traçados. Ou seja, os escritores contribuíram para que os moçambicanos pudessem interrogar e encontrar caminhos que, de outro modo, não seriam assim tão visíveis.

“Alguns escritores tiveram um papel importante no processo da independência nacional. Muito dos processos desses autores é parte do processo da consciencialização dos moçambicanos e de luta. Os escritores eram algumas das bandeiras que os moçambicanos empunhavam rumo à independência. Então, era imperativo que houvesse uma associação dos escritores”, lembrou, antes de se referir ao que lhe levou ao encontro na AEMO: a união dos escritores.

 

O RECONHECIMENTO DA CRISE E A URGÊNCIA NA UNIÃO

Segundo entende Luís Bernardo Honwana, a AEMO é uma questão ética, quer dizer, o perfil ético do país é um bocado a responsabilidade dos escritores. Para o autor de Nós matamos o cão-tinhoso, durante muitos anos, a maior parte da sua existência, a AEMO foi especial. Mas isso mudou, e, criticando a fraca adesão num encontro em que estiveram mais jornalistas do membros da AEMO, desenvolveu: “Estamos todos conscientes de que esta associação vive uma situação de crise que, é minha opinião, ainda não está resolvida. Nós tivemos, não faz muito tempo, um processo eleitoral que, pela maneira como foi conduzido e pela maneira como se concluiu, fez com que nós deixássemos de ser aquilo que éramos: um animal diferente que está preocupado com questões de ética e com a própria postura histórica. Ficámos um pouco parecidos com a crise do Maxaquene ou do Desportivo. Ninguém ficou satisfeito com isso”.

Respondendo às perguntas dos jornalistas, Luís Bernardo Honwana criticou a ausência dos que deviam dinamizar a AEMO da seguinte maneira: “Os membros da nossa associação não estão aqui. Nem os actuais nem aqueles que, durante o processo eleitoral, corporizavam uma lista alternativa. Isto é o princípio do fim, não tenham ilusões em relação a isso. Quer dizer, nós ganhamos, mas também não estamos aqui. Não estamos a dar vida a isto. A associação vive das pessoas, do debate e do pluralismo de ideias. Já não estamos juntos. Estamos num momento de crise”.

Por entender que a associação que ajudou a criar está em crise, Luís Bernardo Honwana afirmou que o problema não se resolve com a afirmação de que “eu tinha razão”, mas com a humildade de dizer: “estamos nesta situação e como é que nós saímos disto e o que temos de fazer e de que maneira é que voltamos a ser aquilo que éramos”.

Aproveitando a presença de Filimone Meigos, a quem coube moderar a sessão, na ausência do Secretário-Geral, Carlos Paradona, Honwana invocou ainda mais o último processo eleitoral: “Se eu tivesse estado no processo eleitoral, talvez não teria votado na lista que está no poder. Não me pus esta questão, mas eu não vim propositadamente. Mas, muito provavelmente, eu não teria votado em vocês [referindo a Filimone Meigos]. Mas é necessário, neste momento, que todos nós nos juntemos para não deixar esta associação deslizar por esta via por onde está a deslizar a caminho do abismo. E quem tem de dirigir este processo é a direcção que nós temos. Não estamos a discutir eleições, as listas. Estamos a discutir o futuro desta associação”.

Na abertura da Conferência Constitutiva da AEMO, no então Conselho Executivo da Cidade de Maputo, Marcelino dos Santos, a presidir ao evento, afirmou que a literatura é um meio de elevar a inteligência a níveis superiores e de exercitar o raciocínio, um modo de libertar a capacidade de inovar, uma forma de atingir a plenitude da satisfação criativa e de mobilizar os obreiros da criação literária.

Na mesma sessão, intervieram Luís Bernardo Honwana, Orlando Mendes, Fernando Ganhão, Sérgio Vieira e Carlos Cardoso.

A primeira direcção da AEMO foi constituída da seguinte maneira: José Craveirinha (Presidente da Mesa da Assembleia), Joshua Mbazima e Abiatar Cossa (Vice-Presidentes), Leite Vasconcelos e Rafael Maguni (Secretários), Rui Nogar (Secretário-Geral), Albino Magaia (Secretário-Geral-Adjunto), Jorge Viegas, Calane da Silva, Gulamo Khan (Vogais), Orlando Mendes (Presidente do Conselho Fiscal), Clotilde Silva (Secretária) e Álvaro Zumbire (Relator).

 

O guitarrista e compositor moçambicano falava durante uma saudação do Ministério da Cultura e Turismo, em virtude da conquista de dois prémios internacionais, no último domingo.

Depois do reconhecimento internacional, no passado domingo, na África do Sul, onde o guitarrista moçambicano, Jimmy Dludlu, foi distinguido nas categorias Carreira e Melhor Álbum de Jazz de África, esta terça-feira, foi a vez de receber os “parabéns” nacionais.

A ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula agradeceu ao artista, por considerar que o seu contributo tem servido para o reconhecimento da cultura moçambicana na diáspora.

Para Eldevina Materula, o que a África do Sul fez foi devolver ao artista o que ele tem dado à sociedade, por isso “estamos muito orgulhosos. Esta conquista prova foco e determinação. Foco porque as convicções superam quaisquer dificuldades, que são o segredo para o sucesso”.

Jimmy Dludlu agradeceu a todos os que contribuíram para a sua evolução profissional.

“Desde 1995 que gravo na África do Sul e estou muito grato pelo reconhecimento da minha contribuição na industrial cultural daquele país. Estou grato ainda pelo reconhecimento do Ministério da Cultura. Não é todo dia que se chama alguém do Chamanculo. Estamos aqui para enaltecer a nossa cultura e o nosso bairro”, afirmou.

Apesar de ser grato pelo reconhecimento internacional, Jimmy Dludlu lamenta pelo facto de não sentir o apoio e reconhecimento dos artistas moçambicanos, a nível nacional,

“O que posso fazer, irmão? Ainda que chore profundamente aqui, em Moçambique (…) nada acontece. O que posso fazer? Só posso colocar tudo nas mãos de Deus e continuar a fazer o meu trabalho. Deus é que sabe.”

History in a frame é o título do melhor Álbum de Jazz da África do Sul, designação concedida pelo concurso South African Music Awards (SAMAs). Constituído por 20 faixas originais, é o álbum de Jimmy Dludlu, um guitarrista com mais de 30 anos de carreira.

+ LIDAS

Siga nos