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O País – A verdade como notícia

Álvaro Fausto Taruma é autor de quatro livros de poesia: Para uma cartografia da noite (2016), Matéria para um grito (2018), Animais do ocaso (2021) e Recolher obrigatório do coração (2022). Com o segundo título, foi um dos vencedores do Prémio BCI de Literatura para melhor livro do ano – 2018. O seu percurso na arte do verso ou da prosa poética parece promissor. Ainda assim, o poeta não pretende alongar-se mais com a poesia. Logo, o livro que, brevemente, será publicado em Portugal, e, depois, em Moçambique, será o seu último de poesia. Na primeira pessoa do singular, Taruma explica as razões da sua decisão, refere-se às suas convicções, reflecte sobre o panorama literário moçambicano e ainda deixa algumas garantias. E uma das garantias é mesmo essa: o adeus à poesia.

 

Em um ano publica dois livros: Animais do ocaso, em Portugal, e Recolher obrigatório do coração, em Moçambique. Qual é a história por detrás destas propostas poéticas?

A história destes dois livros é uma tentativa de voltar aos lançamentos, depois de algum tempo angustiante de espera e de produção que estava imbuído de muitas incertezas, por causa da responsabilidade que se acresceu à volta daquilo que eu produzia. Se for a ver, os meus dois primeiros livros, sobretudo o primeiro, foi lançado assim ao acaso, dentro de um espírito de jovem poeta que está a começar. Sem, evidentemente, muito protagonismo à volta disso. Apenas houve uma necessidade de lançar e estar no panorama artístico ou no meio literário moçambicano.

 

Para uma cartografia da noite cumpriu o que se propunha no princípio do seu percurso literário?

Podemos dizer que sim. Cumpriu e, depois, esse vulcão, essa montanha acresceu-se com o Prémio BCI de Literatura que chega com o livro seguinte, Matéria para um grito. Daí este receio antes de publicar os livros subsequentes. Aí houve um questionamento como este: então? O que é que vem depois de Matéria para um grito? Nunca quis repetir-me nas formas. Sempre quis trazer uma proposta totalmente nova.

 

Mas há um denominador comum e que é transversal à sua escrita: a presença da noite. Não a noite do sentido de um período do dia, mas a noite do sentido da simbologia.

Exactamente. Isso, evidentemente, está lá… Leva-se um certo tempo a desconstruir um certo modelo de pensamento e criativo. Há uma presença da noite nos meus dois últimos livros como nos dois primeiros, nesse sentido simbólico. Mas também há uma presença constante de uma crítica dura, contundente, de um olhar atento a tudo aquilo que nos rodeia em termos de situação social. Já em termos de efeitos criativos, há sempre uma coisa que tentei reduzir, que é a ideia da plasticidade da palavra. Estou a focar-me mais na realidade do que na plasticidade da palavra que, às vezes, nos coloca numa situação em que estamos a dizer coisas que em termos de contundência não se percebe o que se pretende transmitir.

 

Pretende que a sua poesia tenha mais impacto?

Eu acho que essa é a responsabilidade do criador. A estética, de uma certa forma, para mim, está lado a lado com a moral e, mais do que isso, com a necessidade de transformar.

 

Nada dessa coisa de arte pela arte, apenas…

São opções. Falo da forma que eu escolhi para me expressar. A minha poesia é comprometida com a mudança. É utópica, dá-se para o bem da sociedade e pretende criar uma disrupção e indagações no leitor.

 

Uma poesia de angústias…

De alguma forma, pode ser. De outra, não. As propostas que trago, em termos temáticos, são multifacetadas, de micro realidades que vou buscar no que vejo. Algumas vezes, isso é feliz. Noutras vezes, nem tanto.

 

Nesse exercício encontramos muitas construções e desconstruções da alma e dos sentimentos humanos. O que isso exige de si?

Exige um olhar atento e uma espécie de sofrimento. Não é fácil criar poesia, pelo menos não é como eu a crio. Nunca criei numa situação cómoda, sempre foi numa situação desconfortável. Sempre a perder. Nunca criei numa situação em que estivesse vantajoso de todos os pontos de vista da vida.

 

Apesar de tudo isso, eu penso que a sua poesia é fundamentalmente de amor. Por exemplo, a partir do amor, pode-se se pensar em temas sociais candentes: angústia, depressão e etc. Pensar nas situações que podem comprometer o amor também é um projecto literário?

Há um autor argentino que tem sido fundamental para mim: Jorge Luis Borges. Ele diz que existem apenas dois temas fundamentais na literatura. O amor e a morte. Portanto, a minha poesia, por mais que se afaste, está dentro destes dois parêntesis, o amor e a morte. Eu funciono, em termos de criação, nesse intervalo. O amor em termos de fundação. Começamos aí, é transversal e universal. Depois temos a morte, que não significa perdermos a vida na sua totalidade. A morte é um conjunto dessas pequenas perdas que nós vamos vivendo todos os dias. Assim, voltamos ao tema da noite, a essa escuridão. Eu sou pessimista de natureza, mas nunca escrevo a pensar no pessimismo. Eu escrevo para expressar o contrário. É preciso mostrarmos essa noite para que a pessoa possa encontrar a luz e essa luz significa esperança.

 

Com Matéria para um grito venceu o Prémio BCI de Literatura para melhor livro, ex aequo com Armando Artur. O que isso significou para si?

Em geral, o prémio não me trouxe nada em termos de mudança na vida literária. Ganhei o prémio três meses depois de ter lançado o livro e não significou nada em termos de venda. Se calhar, significou porque, quando ganhei o prémio, eu estava a necessitar de dinheiro. Ganhei 100 mil meticais. Fiquei zangado até porque poderia ter ganhado 200 mil. O prémio foi importante porque deixou a mensagem de que a juventude, os escritores mais novos, podem chegar mais longe e merecer este prémio. Para mim, era evidente que Matéria para um grito merecia o prémio de melhor livro do ano. Mesmo Para uma cartografia da noite, eu tinha a consciência de que estava entre os melhores livros. Eu era observador atento do que se produzia aqui. Desde que entrei para a literatura, sempre quis produzir colocando-me acima do padrão. Por mais que não tivesse conquistado o Prémio BCI, eu tinha a consciência de que estes dois livros trariam alguma mudança.

 

Sentiu-se a representar uma geração?

Sim, porque militei bastante dentro dessa geração, com escritores que saíram do Kuphaluxa, como Amosse Mucavele, Nelson Lineu, Eduardo Quive, Japone Arijuane e Mauro Brito. Fomos pessoas que militamos e demo-nos à causa da literatura. Acima de tudo, tínhamos essa curiosidade de pesquisar mais. Eu, de alguma forma, sabia que dali alguém iria sair e que seria um símbolo, uma voz autorizada a falar de literatura e a produzir livros de qualidade.

 

E acha que a sua geração sentiu-se representada consigo, quando venceu o BCI de Literatura?

Eu acho que se sentiu representada. O retorno foi positivo e as pessoas acreditaram… O livro que venceu no ano seguinte, O menino que odiava números, de Celso Cossa, veio nesta sequência de revolução de um artista jovem quebrar o paradigma. Porque as pessoas não acreditavam que um jovem pudesse ganhar o prémio de melhor livro do ano. Os livros não devem ser premiados pela longevidade dos escritores, mas pelo impacto que trazem no panorama literário. Se formos por aí, as caras vão mudar e vão surgir novas vozes. Por exemplo, a Hirondina Joshua é pouco conhecida, mas é uma autora de impacto. Com força e com pujança. Outro exemplo, Virgília Ferrão, que está a introduzir em Moçambique um tipo de literatura que não existia: a ficção científica. Bem ou mal, ela está a pavimentar um caminho e isto é que uma coisa de impacto, porque, por mais que venham outros, sabemos que a história começou com Virgília Ferrão. São essas pessoas que estão a trazer propostas novas que devem ser premiadas.

 

É preciso premiar quem desbrava matas…

Não só quem desbrava matas como também quem coloca uma pedra fundadora. Por exemplo, temos o prémio HCB. Daqui a dois anos, podemos pensar nas pessoas elegíveis. Veremos que é um conjunto de pessoas que vem há três décadas, muitas vezes, com obras umas boas e outras nem tanto. Umas sem impacto dentro da literatura. É uma coisa de grupos e de confrarias. Por isso digo que eu sempre soube que a minha obra tinha impacto, por mais que não tivesse conquistado o BCI.

 

Depois disso vem Animais do ocaso.

Que o editor pediu-me material… Antes chamava-se Animais com cordas no coração. A nível estético, começo a perceber que coloquei demasiada informação que, se calhar, não seria bem recebida. Mas eu tive de mudar tudo o que construí antes, para me provar que consigo criar de uma forma diferente. Os meus primeiros livros são marcados, por exemplo, por prosa poética. Nos livros que se seguiram, trago versos em estrofes.

 

O poeta também compete consigo mesmo?

Tem que ser, porque, além disso, em termos de criação, do que se produz à volta, comecei a ver muitas repetições de Álvaro Fausto. Todas as novas propostas literárias dos jovens, mais novos que eu, neste momento, estão a competir com os livros que eu publiquei anteriormente. É muito notório até em pessoas que me pedem para ver os seus textos. Mas eu já não posso estar nesse patamar desses jovens criadores que têm como referência Álvaro Fausto. São jovens de qualidade, pena que não temos olheiros que os possam puxar para as suas editoras. Nós, em termos de qualidade literária na poesia, estamos bem.

 

E na prosa?

A prosa é das disciplinas literárias que menos consumo, mas vejo de longe. Consigo perceber que há vozes. Por exemplo, Mélio Tinga. Apareceu e apareceu muito bem. A própria Virgília Ferrão… Recentemente, foram lançadas duas obras pela Fundação Fernando Leite Couto, de Maya Ângela Macuácua e Geremias Mendoso. Depois, temos o trabalho da Fundza, que é praticamente prosa e num bom ritmo. Com o tempo, veremos esse boom. Mas a poesia está a ser muito bem-feita em Moçambique. Infelizmente, não temos esse acompanhamento em termos de leitores e de crítica.

 

Como poeta, gosta de estar canonizado a uma certa forma de escrever?

Não, é por isso que falo desta necessidade de mudar e de não permanecer o mesmo. Sempre temos de buscar novas formas de passar uma mensagem e existem muitas formas de o fazer. Nos meus livros anteriores, recorro bastante à metáfora e também ao recurso imagético como recurso estilístico. Mas, por exemplo, admiro quem usa a ironia. O domínio da ironia permite uma construção poética de valor elevado.

 

Gosta de Craveirinha?

Gosto de Craveirinha, mas o meu poeta de eleição é Eduardo White, no sentido da mancha gráfica e da emoção do texto. Mas gosto, por exemplo, da irreverência do Sebastião Alba, que é um poeta que levou até às últimas consequências a ideia de poesia e de viver como poeta. Às vezes sofrido e muita gente não compreende isso. Respeito-o muito, a ele e às pessoas da minha geração, os que mencionei há pouco tempo, que são pessoas que insistem com a escrita mesmo quando o país não oferece muito em termos de retorno.

 

Até quando o retorno é número de eleitores…

Exactamente. Eu estava a fazer as contas. Lancei Recolher obrigatório do coração e fiz um esforço para que o editor acreditasse e aceitasse publicar mil exemplares. Com isso reduziu o valor da compra. Pessoalmente, vendi 100 exemplares, em três meses. Esse é o pico. Mas tenho 3800 amigos no Facebook. Obviamente, divididos em vários continentes. Esperava que 10% desse número amigos pudesse comprar os livros, ou seja, 380 vendas. Vendi 100. É um cenário assustador! Por isso tenho estado a investir no mercado externo e vem aí mais um livro. Talvez saia até o princípio do próximo ano.

 

Sempre pela Exclamação?

Sempre pela Exclamação. Inclusive, vamos tirar textos de Animais do ocaso para serem publicados em revistas na Inglaterra. É um processo de tradução que já começou e isso irá terminar em livro traduzido para o inglês, nos Estado Unidos e no Reino Unido. Os editores foram à busca de mim e encontraram-me em Portugal e não em Moçambique. A mesma coisa ocorreu porque estamos no processo de tradução do livro para Sérvia. Também deu-se pela presença do livro em Portugal. E digo mais, o livro Animais do ocaso, em Portugal, onde nem sequer sou conhecido, esgotou. Mas o meu novo livro, em Moçambique, onde tenho muita visibilidade, não conseguimos vender 300 ou 500 exemplares a um preço muito baixo.

 

Animais do ocaso faz parte do plano nacional de leitura em Portugal. Imagino que isso seja especial.

Mas seria ainda especial se os moçambicanos conseguissem ao menos perceber o que isso significa. Muitas vezes, as notícias chegam, mas não conseguimos compreender o que se está a dizer. Nem um parabéns sequer recebemos. Mas nós conseguimos chegar a Portugal com um livro e o mesmo livro ser de leitura obrigatória dos portugueses. Não ouvimos ninguém do Ministério da Cultura, do Ministério da Educação. Não existe noção do que se produz em Moçambique. Por isso somos desrespeitados. Por exemplo, há uma produtora de um canal que me pede para o meu verso ser o nome do programa e que o poema sempre passe na abertura desse programa. Eu agradeci e pedi que fizéssemos as contas. Ela respondeu que isso é um pedido que me vai dar visibilidade. Mas não é a visibilidade que queremos, mas o cheque.

 

E que se respeite os direitos do autor.

É aí que eu queria chegar. Alguma coisa tem de mudar. Este ano escrevi uma cancão para UNICEF e fui pago. Foi uma das minhas experiências como compositor e gostei que me tivessem pago os direitos. Queremos chegar a um nível que as pessoas não perguntem de vivemos, quando dizemos que somos poetas. Eu quero viver de poesia e para poesia.

 

Além de viver de poesia e para poesia, teve uma experiência com a prosa, ao publicar um texto na antologia Espíritos quânticos, organizada por Virgília Ferrão. É o inicio de um percurso na prosa?

No início disto tudo, houve um grande investimento, de minha parte e da geração a que pertenço, para podermos nos expressar em qualquer área da literatura. O livro que vai sair em Portugal e que vai ter uma réplica em Moçambique, será o meu último livro de poesia. Por um grande momento, vou estar a investir no que tenho feito agora, escrever para o cinema, para banda desenhada e, quem sabe, para prosa, no sentido de romances e contos. Mas o próximo livro será o último livro de poesia de Álvaro Fausto Taruma.

 

Porquê?

Porque é preciso deixar o espaço para os outros. Fomos irreverentes. Mas a verdade é uma, não conseguimos chegar muito longe, pelo menos para o meu caso. Eu queria poder estar a uma situação em que os livros me ajudassem a viver. Encontrei um espaço na banda desenhada, no cinema, nas telenovelas, e é disso que vivo hoje. Então, por que investir muito do meu tempo no que, apesar de me dar vida emocionalmente, não me dá pés para caminhar naquilo que é o meu dia-a-dia, como homem dentro de uma sociedade?

 

34 anos de idade e quer deixar o espaço para os outros? Não é muito cedo, considerando que há autores com 34 anos de percurso literário?

Mas que, se calhar, não investiram, em termos de sangue, o que eu investi na poesia.

 

Por que acha que com a prosa de ficção será diferente?

Já estou a falar daquilo de que vivo hoje. Vivo do cinema e das telenovelas. É isso que paga as minhas contas e percebi que é nisso que devo investir. Muitos pensam que vivo da poesia, mas a poesia é algo que vem quando muitos estão a dormir e eu não consigo dormir. Eu sempre escrevi triste, agora quero escrever alegre.

 

Sugestões artistas para os leitores do jornal O País.

Sugiro Tornado, de Teresa Noronha, e Na pele do rosto, a coisa do tempo, de Guita Jr.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Morreu o rapper norte-americano Coolio, autor do êxito de 1995 ‘Gangsta’s Paradise’ e vencedor do prémio Grammy. Não são conhecidas as circunstâncias da sua morte, suspeita-se que ele tenha tido uma paragem cardíaca.

Artis Leon Ivey Jr conhecido como Coolio, nome artístico, perdeu a vida nesta quarta-feira aos 59 anos.

Coolio nasceu a 1 de agosto de 1963. Em 1991, aos 28 anos, juntou-se à banda de ‘hip-hop’ WC e The Maad Circle.

Lançou a carreira a solo em 1994 com o álbum “It Takes a Thief”. A canção mais famosa, “Gangsta’s Paradise”, integrou a banda sonora do filme “Dangerous Minds”, de 1995, com a actriz norte-americana Michelle Pfeiffer.

A composição levou o “rapper” a conquistar um prémio Grammy, em 1996, para Melhor Performance Rap Solo.

O repper também actuou em filmes e séries televisivas como Martin (1995), Sabrina, a Bruxa Adolescente (1996), Batman & Robin (1997), Futurama (2001, 2010) e Gravity Falls (2012).

Por Mário Forjaz Secca

 

Um novo livro do Aldino Muianga é sempre um muito esperado evento literário em Moçambique!

Para quem gosta da escrita do Aldino, fica sempre a expectativa do próximo livro. O próximo deleite na sua leitura. E aqui temos um novo livro seu, “O Galo Ruivo”.

Demorou a ser lançado, mas finalmente viu a luz do dia.

Para termos uma percepção da morosidade do processo e deitar algumas achas para a fogueira começada na conversa da passada terça-feira aqui no Camões, num despique entre o Aldino e o Mbate, conto um pouco do meu envolvimento nesta história.

No dia 10 de Janeiro de 2020 recebi uma mensagem por WhatsApp do meu amigo Aldino. Nela Dizia:

“A novidade é esta: estou a preparar a publicação de uma colectânea de contos que estava a acumular poeira nas minhas gavetas há muito tempo. Tenho estado aqui a pensar quem poderia prefaciar esse volume. Depois de várias consultas achei que eras a pessoa mais indicada para esse efeito. Convido-te formalmente a juntar-te a mim neste novo projecto. Conto publicar no segundo trimestre deste ano. Aceitas o desafio? Queres juntar-te a mim à volta desta? Aguardo pelo teu parecer.”

Confesso que li várias vezes a mensagem e cheguei a pensar: “Que estranha literatura anda ele a ler pela África do Sul para pensar em mim para escrever o Prefácio?”. Mas depois de algumas trocas de mensagens extra convenci-me que o Aldino não tinha andado a ler nada de ilegal e realmente me queria a mim para escrever o Prefácio.

Claro que aceitei, apesar de grande dose de medo que me atacou.

E claro que me lembrei do que a minha Mãe me gostava tantas vezes de dizer desde jovem: um prefácio é um texto que se escreve depois de um livro ser escrito, é colocado no início do livro e ninguém o lê nem antes nem depois!

Mas, mesmo assim, não podia deixar de prestar esta homenagem ao Aldino, e humildemente, ter essa honra de escrever esse Prefácio e estar aqui a apresentar o último livro deste grande escritor. Dois anos e meio depois do convite inicial!!!

Um pouco na mesma linha da conversa de outro dia “Médicos & Remédios” começo por falar deste tema da ligação da Literatura e da Medicina, com tantos casos na literatura mundial de médicos que também são escritores e poetas.

Há os exemplos clássicos noutras línguas de Chekov, Somerset Maugham, William Carlos Williams, Louis-Ferdinand Céline e Stanislav Lem, e, em língua Portuguesa, os exemplos de Miguel Torga, Fernando Namora, António Lobo Antunes e Agostinho Neto. Moçambique, com a sua pujança literária actual, não podia deixar de ter a sua quota parte de médicos-escritores já conhecidos, como por exemplo, Mbate Pedro, poeta e editor, e Aldino Muianga, contista e romancista.

Vindo eu da Ciência em geral e da Medicina em particular e estando modestamente ligado à Literatura, não podia deixar de me interessar por estas curiosas pontes / ligações / hibridizações.

Pelo Mundo fora, e ao longo da História, a Literatura não foi feita apenas por pessoas formadas em Letras ou Literatura. Existem muitos escritores com áreas de formação muito diversas, como cientistas, engenheiros, economistas, advogados e mesmo auto-didactas. E também existem muitos médicos!

Mas se esse é o caso, porquê então essa admiração em especial por médicos escritores?

É fácil fazer generalizações. E se o meu interesse for a Medicina, poderei dizer: Muitos escritores são médicos!

Mas nem todos os médicos são escritores e nem todos os escritores são médicos.

Contudo há aqui uma ligação curiosa. Um médico já tem a sua vida tão ocupada pelo seu trabalho profissional que encontrar tempo extra para escrever requer organização, perseverança e amor à literatura. Só essa característica já seria interessante, mas penso que o mais importante aqui é o lado de contacto e observação humanas que a profissão de médico traz consigo e o que essa vertente pode trazer à escrita. Há um olhar clínico, humano, de saber olhar para o outro, de sentir o outro, que aprofunda a literatura. E outro dia o Aldino disse alguma coisa que pela primeira vez me abriu os olhos: um médico tem muitas vezes de fazer a história clínica do doente e muitas vezes, também, para chegar lá, tem de ouvir as histórias pessoais do doente. E que manancial de enredos poderá daí advir, imiscuído com a humanidade de saber ouvir e respeitar a história do doente.

O médico escritor Miguel Torga tem uma série de livros de contos sobre as pessoas do campo e da montanha. E eu não consigo deixar de ler os contos de Aldino Muianga sem pensar em Miguel Torga, porque o Aldino nos faz uma coisa semelhante, que é trazer o seu olhar humano para essas histórias que se passam fora da cultura citadina mais culta, fora dos ambientes em que a maioria dos leitores dos seus livros vive. Dá voz a pessoas que normalmente não têm voz literária e assim nos abre o mundo e o torna mais rico e profundo.

E a lembrança de Miguel Torga vem também pela partilha do estilo literário do conto. Esse estilo onde o escritor num número curto de páginas conta uma pequena história em pinceladas rápidas que nos abre uma pequena janela da vida das personagens e nos traz momentos e pensamentos das gentes que tantas vezes nos cruzam o caminho e não as sabemos ver e ouvir.

O Aldino tem 14 livros publicados, quatro romances, uma novela e nove livros de contos. Obviamente o conto é o principal estilo dele, o seu forte. E eu confesso que é esse o meu estilo de prosa preferido. Questões de gosto…

Em Moçambique, seguindo o movimento global em que as novas gerações literárias se vão modernizando cada vez mais e urbanizando cada vez mais, é muito bom haver escritores que contem histórias do mundo rural e suburbano, porque é essencial para manter viva essa história humana que faz um país, principalmente quando essas histórias são contadas por alguém com a visão humana de um médico.

Não vou fazer aqui uma análise do livro e dos contos, porque o pouco que disse de interesse já está no Prefácio do livro, mas posso dizer que este livro “O Galo Ruivo” é composto por setes contos que, de certa forma, vêm na sequência do anterior livro do Aldino “Os Funerais de Mubengane”, mas enquanto o livro anterior é mais focado no ambiente rural, este novo livro aborda mais o ambiente suburbano, aqui em Moçambique ainda muito marcado pela transição recente do campo para a cidade, acarretando consigo ainda muita da maneira de pensar e viver rural mas já moldado à vida na grande cidade. Um fantástico registo desta faceta da história de Moçambique!

Estava ontem a conversar com duas amigas sobre a força da Literatura para mudar o Mundo e se atentarmos a estes contos do Aldino, com toda a sua humanidade e calor humano, podemos compreender que, se muito mais gente lesse estes contos, poderia haver muito mais pessoas a olharem o mundo com mais compaixão!

Há pessoas que nos cruzam a vida e, de repente, sem sabermos porquê, nos inspiram admiração, respeito, confiança, proximidade e amizade. E o Aldino é uma dessas pessoas. Um amigo que me entrou na vida pela porta da frente e com muita naturalidade. E entrou para ficar!

Só espero que o Aldino continue na sua força literária a escrever por muito mais tempo e nos continue a brindar com estes livros que tanto enriquecem a literatura moçambicana.

Um grande abraço, meu querido amigo!

Maputo vai acolher o prestigiado festival africano de dança contemporânea Danse L’afrique Danse. O evento terá duração de seis dias e vai contar com 26 companhias de dança.

A capital do país vai acolher o prestigiado festival africano de dança, anunciou o conselheiro da acção cultural Laurent Vidal. “Depois de Luanda, em Angola, Antananarivo, em Madagáscar, e Uagadugu, em Burkina Fasso, a bienal da dança em África, iniciada pelo Instituto Francês, vai acontecer em Moçambique, em Maputo”, anunciou Vidal.

Em Maputo, o festival Danse L’afrique Danse vai decorrer em Novembro do próximo ano e vai contar com mais de 20 companhias de dança. Por isso, Quito Tembe, responsável pela organização do evento, afirmou que o país será conhecido internacionalmente através das artes.

“Para nós, é contribuir para que Moçambique seja conhecido através das artes, através do que nós temos de rico que é a criatividade artística. Então, é este Moçambique que nós queremos vender”, enfatizou Tembe, organizador do evento.

Em representação da ministra da Cultura e Turismo, Tiago Langa enalteceu o festival e prometeu que o Governo dará todo o apoio necessário. “O Ministério da Cultura saúda essa iniciativa e dá garantia de que o Governo moçambicano vai dar todo o apoio necessário.”

A cidade marroquina de Marrakech foi a última a realizar o festival no ano passado, dando, agora, espaço para a cidade das acácias receber bailarinos e turistas africanos na bienal Danse L’afrique Danse.

Por José Paulo Pinto Lobo

 

Lourenço Marques 7 de Setembro de 1974.

Nove meses e dez dias após ter completado 16 anos.

Carros buzinando em alegre cacofonia com gente incauta e outros nem tanto, dependurada nas janelas das viaturas e com bandeiras portuguesas desfraldadas ao vento.

Galo, galo. Galo amanheceu!

E feras travestidas de homens atacaram os bairros suburbanos exterminando todos o que podiam sem qualquer pingo de humanidade. A reacção do povo agredido foi colocar na equação similar irracionalidade e adicionar ferocidade aplicando sem dó nem piedade a pena de Talião.

Apelos na rádio para doadores de sangue e voluntários para ajuda na triagem de feridos e noutras tarefas hospitalares. Convocado, prontamente no Hospital Central Miguel Bombarda me apresentei. Com uma bata azul envergada aguardei na entrada pela chegada dos maltratados na demente sanha assassina.

Carros particulares apitando em aflição, fazendo coro com o uivar estridente das sirenes das ambulâncias que afluíam sem cessar, despejando gente, muita gente. Parecia um enxame de vespas furiosas atacando a hospitalar colmeia.

Pessoas irmanadas na dor. Não se distinguia cor, aliás, apenas uma só cor. Vermelho. Tanto vermelho. Rios de sanguinolento vermelho. Até o céu se pintou de rubro ardente.

Todas as tonalidades de vermelho jorravam de ferimentos na cabeça, peito, braços e pernas. Feridas de balas de todo o calibre, de cartuchos de caça, zagalotes, cortes de catanas, machados ou qualquer outro instrumento contundente. Pessoas queimadas ou mutiladas nas pirómanas barreiras da estrada, nas palhotas incendiadas, ossos estilhaçados por balas explosivas e granadas, por pancadas de raiva, vingança e medo.

Médicos capitaneando unidades de combate. Queimados para ali, traumatismos aqui, ferimentos de bala para acolá. Cortem a roupa, limpem as feridas. Enfermeiros e auxiliares meio aturdidos afadigavam-se como regimentos disciplinados. E eu perdido no meio de uma guerra qual soldado recruta sem treino e sem armas.

Roupas, faces e corpos ensanguentados, sangue gotejando para as macas. Gritos de agonia e gemidos sem fim. Penetrando nos ouvidos e reverberando sem cessar enquanto se tentava fazer a (im)possível triagem. E o sempre omnipresente cheiro doce e enjoativo de sangue. E a morte ceifando vidas inocentes.

Mãos trémulas e exauridas buscavam as minhas em silencioso pedido de socorro e alento na minha desfalecida juvenil incapacidade. Emudeci em vã busca de palavras. Inexistia dicionário para aquela condição. A minha bata azul era tela de um louco pintor cuja paleta só tinha uma cor. Vermelho.

Olhares aterrorizados, outros vagos, catatónicos, tentando compreender tamanho pavor. Incrédulos ainda perante a crueldade e barbárie sofrida. Olhos revirando-se buscando mães, pais, irmãos, filhos, amigos, lancinantes apelos perdidos na balbúrdia hospitalar.

E as pessoas irmanadas no horror. Fraternizadas no desespero. Que adolescente poderia aguentar tal abominação? Não suportei. Baqueei.

Nesse mesmo dia e dias seguintes, refúgio encontrei na cozinha do hospital descascando batatas, cortando legumes, lavando pratos e tachos. Mas não deixei de ouvir as sirenes das ambulâncias. Nem os gritos e gemidos dos moribundos ressoando na minha cabeça.

Trágicos e tenebrosos dias fendendo o sonho de prometidas alegrias. Dias de mudança. De céu azul e também de nuvens carregadas prenunciando outras tempestades.

Assim, com a inocência abruptamente perdida fiz-me então incompleto adulto.

 

O novo livro de Juvenal Bucune é, na verdade, uma novela, onde o escritor e poeta ficciona a história incestuosa de uma mãe e um filho. Masingita ou a subtileza do incesto foi apresentado ao público esta quarta-feira, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

 Masingita é a história de Marta e Pepuka, personagens que convocam o leitor ao universo do pecado e do proibido. Tratando-se de mãe e filho que se envolvem sexualmente, do acto nasce um filho, que se vê mergulhado numa história complexa e arrepiante.

Masingita é um termo ronga que significa sacrilégio ou representação do sobrenatural. No Sul de Moçambique, o termo é usado para expressar o insólito ou para reprimir qualquer acção que não seja comumente aceite, como é o caso de uma mãe que concebe de seu próprio filho.

Juvenal bucuane busca, junto do leitor, responder a algumas questões que lhe surgem quando escreve sobre o incesto, um problema que entende ser de realidade moçambicana, mas pouco discutido.

A novela de Juvenal Bucuane leva a ficção a uma prática que existe na sociedade moçambicana, mas, muitas vezes, é ignorada, o incesto.

Ao ler o livro, Juvenal Bucuane espera que o leitor, em especial o moçambicano, reflicta sobre o assunto e que possa levantar um debate social.

“O incesto acontece. O que eu espero é que o leitor receba este livro de uma forma diferente de como tem recebido os outros, porque este traz um assunto que eu não me lembro que se tenha discutido alguma vez. Então para as pessoas é uma novidade trazer-se este assunto a lume. As pessoas vão estar interessadas em discutir o problema. Portanto é uma novidade e penso que vai ter algum impacto”, explicou Bucuane.

O livro foi lançado esta quarta-feira no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, sob a chancela da Editorial Fundza.

 

 

No dia 1 de Novembro vai arrancar um programa de formação musical ambicioso no país. A realizar-se na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, a formação será desenvolvida em módulos, que pretendem equipar os formandos com ferramentas que lhes permitam não apenas registar, digitalizar e arquivar esse património, mas também preservá-lo e divulgá-lo a gerações futuras.

Segundo uma nota de imprensa sobre o evento, de igual forma, outra importante parte da formação passará a fornecer os formandos de conhecimentos técnicos ao nível da criação musical e expressão poética, bem como oferecer-lhes relevante informação sobre o funcionamento da indústria musical de forma a potenciar a criação de novos empregos.

A nota avança que o programa de formação é constituído por seis módulos, num total de 230 horas formativas teórico-práticas, designadamente, Técnicas de gravações áudio em ambientes exteriores, Processo de digitalização, regravação e masterização;  Classificação e arquivologia de conteúdos para arquivos centrais e sua gestão; Escrita criativa e edição de obras; Gestão da plataforma Marimba e comercialização digital;  Organização do ecossistema e cadeia de valor da indústria da música e entretenimento.

O projecto Marimba é apoiado pelo PROCULTURA, uma acção do programa PALOP–TL e UE, financiada pela União Europeia, co-financiada e gerida pelo Camões I.P., e tem por objectivo a promoção do emprego e actividades geradoras de rendimento no sector cultural dos PALOP e Timor-Leste.

O projecto pretende valorizar a produção musical em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor Leste, através da sua pesquisa, digitalização, promoção e distribuição internacional, contribuindo para o resgate da identidade cultural, para a sua divulgação e para o reforço, inclusão e sustentabilidade dos agentes do sector.

 

 

 

Às 17h30 de quarta-feira, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo, Juvenal Bucuane irá lançar a sua mais recente obra literária. Intitulada MASINGITA ou a subtileza do incesto, a novela ficciona uma prática que, existindo na sociedade moçambicana, muitas vezes, é ignorada. Trata-se de uma história sobre o incesto, uma união ilícita entre parentes próximos, em grau proibido por lei.

No centro da narrativa de MASINGITA ou a subtileza do incesto encontram-se Marta e Pepuka, que, para o autor, representam a personificação de pessoas reais.

De acordo com a nota de imprensa da Fundza, a mais recente ficção de Juvenal Bucuane é inspirada em acontecimentos concretos. No entanto, a fim de não ferir susceptibilidades, o autor tomou o devido cuidado, ora subvertendo o perfil das personagens, ora dando-as existência particular. “Aliás, todas as personagens do livro são fictícias, assim como os lugares-cenários e actos. Passei os diferentes estágios do meu crescimento em diversos bairros suburbanos da capital moçambicana e conheço deles o bastante para poder contar como se vive nesses lugares”, lê-se na nota de imprensa.

Segundo a mesma nota de imprensa, a escrita de MASINGUITA ou a subtileza do incesto foi, para Juvenal Bucuane, um exercício árduo, pois o seu grande desafio estava além de uma mera ficção, “por implicar algo que me parecia profundo e verdadeiro, factual, que para ser abordado com alguma probidade, tinha de ser feito com recurso a algum caso precedente, ocorrido em alguma época e em algum lugar. Assim busquei reminiscências do que estudei há bastante tempo sobre a antiguidade na história universal, mais propriamente, a relação entre o Rei Édipo e a Rainha Jocasta, que serviu de base para as pesquisas psicanalistas de Sigmund Freud”.

MASINGUITA ou a subtileza do incesto foi escrito durante o segundo semestre de 2021, numa altura em que o escritor encontrava-se confinado em casa, por causa da COVID-19. Juvenal Bucuane define MASINGUITA como uma crítica, por saber que o incesto, acto abjeto, acontece no seio de muitas famílias e é consentido mesmo sabendo-se que é moralmente condenável. “É, também, uma intervenção, pois penso que aqueles que o lerem e não se coadunam com a sua prática, não só ficarão escandalizados com esta realidade que no livro trago, como também, cientes da corrosão que o incesto provoca no seio das famílias e em geral da sociedade, algo farão para ajudar na sua erradicação”.

O primeiro livro de Juvenal Bucuane pela Editorial Fundza será apresentado no Camões – Centro Cultural Português em Maputo pelo jornalista e ensaísta José dos Remédios.

Por José P. Castiano & Ricardo Santos

 

Esta foi uma excelente ocasião proporcionada por Almeida Cumbane para poder pensar na relação entre literatura e filosofia. O pretexto para este pensar é esta oportunidade de ter sido intimado pelo autor para apresentar o livro A Distante Proximidade do jovem escritor Almeida Cumbane. O meu próprio interesse por esta matéria foi aguçado pelo facto de estar a acompanhar um rápido desenvolvimento de uma literatura moçambicana muito jovem, talvez já não refém das temáticas da Geração Charrua que a antecedeu.

O importante a reter na relação entre a filosofia e a literatura é que esta é muito íntima, de uma amizade muito profunda. É uma amizade em que cada um está atento ao outro, vive com o outro, no entanto não se mistura. Albino Chavale acha que existem “fronteiras porosas” entre a filosofia e a literatura[1]. Até podíamos aventurar dizer que é uma relação de “desconstrução” mútua:

O defeito (será que devo dizer o perfeito?) da filosofia é construir um pensamento crítico. A crítica, em termos de pensamento, encontra-se no ponto de inflexão que leva à reflexão sobre fenómenos naturais, sociais, políticos e outros. De uma crítica resulta uma outra forma alternativa de interpretar uma certa realidade.

Todavia, a crítica filosófica se diferencia ou afasta da opinião porque nesta não precisamos necessariamente de nos dar conta ou citar o que o Outro ou os outros pensam sobre o mesmo assunto. Também, para emitirmos a nossa opinião sobre as coisas não precisamos de cogitar muito.

Já para uma crítica filosófica, entretanto, temos a obrigação de nos envolver com o objecto do debate (fenómeno ou processo) e, o mais importante, com as diferentes interpretações existentes, disponíveis no passado e na sociedade que vivemos. Quase que diria, temos que passear pelo mundo das interpretações diferentes primeiro – e isso se faz, por exemplo, por via de citações de outros autores – para depois emitirmos o nosso ponto-de-vista ou juízo de valor sobre o mesmo fenómeno. Assim, o pressuposto para uma boa crítica, é também uma boa interpretação prévia. Olhar para o que os outros já disseram ou escreveram sobre um mesmo fenómeno ou processo é a condição necessária e imprescindível para uma boa crítica filosófica. É por isso que somente por via de uma profunda reflexão sobre as coisas se chega a uma boa crítica. É também por isso que uma boa crítica pressupõe diálogo e não monólogo. Quem monologa está em seus devaneios.

Uma das formas através das quais a filosofia exerce o seu dever crítico é propor categorias novas ou recriar das velhas categorias do “entendimento humano”, para falarmos com base em Kant. São categorias que ajudam o homem a entender o seu mundo natural, social e espiritual.

A filosofia cria estas categorias não somente para entender esse mundo fora de si, como também e sobretudo para que os homens se entendam universalmente e possam falar entre si. Na verdade, para que se compreendam mutuamente.

Neste seu papel crítico, a filosofia em Moçambique, enquanto uma das formas de pensamento sobre Moçambique no Mundo, deve estar atenta ao que se produz na machamba da literatura moçambicana, sobretudo aquela que é escrita pelos mais jovens. A Filosofia ocupa-se do futuro, das utopias; concomitantemente, não é possível ocupar-se “do” sem saber o que ocupa as almas das pessoas mais jovens. À questão, qual é o tempo que nos espera no futuro, os jovens escritores respondem provavelmente com uma maior propriedade do que os mais velhos.

Desta forma, como sabemos desde Hegel, a filosofia ocupa-se em resumir o tempo vivido no pensamento e a Literatura a umas das “pistas” que auxiliam a filosofia a construir as tais categorias de entendimento.

Na verdade, a literatura é uma das fontes mais antigas para a filosofia viver. Foi graças à literatura que a filosofia sobreviveu em seus momentos menos gloriosos, porque muitos filósofos recorriam à literatura como refúgio para esconderem as suas ideias. Nós podemos denunciar um golpe de estado por via de uma escrita crítica directa ou por via de um conto.

Já os românticos alemães do movimento Sturm und Drang reconheciam na literatura um campo de saber mais sublime, acima da filosofia porque nas artes, segundo eles, se podem juntar o belo, o justo ao pensamento. Este movimento privilegiava sobretudo as emoções, a subjectividade e o individualismo. No fundo era uma criação burguesa que cultivava o sublime, como uma reacção contra o iluminismo e o racionalismo exacerbados. Nos romances, vencia o carácter subjectivo.

A este movimento literário romântico se seguiu um outro denominado realismo. Enquanto aquele era mais elitista com o seu subjectivismo, o realismo inclinava-se a descrever as pessoas, os lugares as circunstâncias e condições dos pobres tais como elas são.

Podemos, para já, concluir que as narrativas contidas em livros literários nos levam, a nós almas que se ocupam da filosofia, ao conceito do tempo em que vivemos ou ao tempo no conceito.

Como disse atrás, estas estórias contadas pelos jovens da literatura moçambicana são, na verdade, as pistas que construímos para compreender o nosso tempo. E, por sua parte, a filosofia olha para estes contos como momentos de concretização do seu tempo. As estórias contidas num livro de contos são as marcas das “circunstâncias” (Ortega & Gasset) que cada época nos oferece para serem objectos da nossa escrita. Se, por um lado, as circunstâncias constituem as marcas do tempo, por outro, o homem somente é entendível por via das circunstâncias do teu tempo.

Por isso, um filósofo que não se dedica à leitura dos livros de literatura do seu tempo torna-se empobrecido. E ele não terá se dado conta do quão o seu tempo é rico em sugestões para o seu conceito de tempo vivido.

Almeida Cumbane divide o livro em 17 contos ou narrativas. Cada uma delas diz-nos muito sobre o tempo vivido no Moçambique actual, apesar de concentradas na região do Sul do Save. O autor vive no Distrito de Guijá e trabalha em Lionde (Gaza). Ele usa muito o conhecimento que tem sobre a natureza, a sociedade e sobretudo as culturas que atravessam esta região.

O que faz do livro A Distante Proximidade africano? Este pode ser considerado pertencente à literatura jovem africana devido à continuidade que faz da ancestralidade (pelos seus temas), da oralidade (pelo seu método escolhido para a narrativa), e dos provérbios (pelo carácter por vezes axiomático e axiológico da sua escrita).

No que diz respeito à ancestralidade, a inclusão da voz de antepassados – os que o filósofo queniano John Mbiti chama “mortos-vivos”, aqueles antepassados que nos deixaram há pouco tempo e cujos espíritos ainda chamamos ora para a protecção, ora para providenciar alguma sorte na vida – é uma característica permanente em quase todos os contos contidos no livro de Cumbane. Em Traídos pelo Sono, a intervenção activa na cama adúltera do defunto marido é evidente. No caso particular do conto Os Filhos Gémeos o autor até introduz uma inovação, dado que os protectores da riqueza são filhos já mortos, mas que “vivem” debaixo da cama dos progenitores.

Do mesmo modo que a oralidade, que eu chamei algures por oratura, é a forma de escrita que encontramos em todos os contos. Assim também o recurso a uma linguagem axiomática, baseada em provérbios africanos, encontramos transversalmente presente, em especial no conto Carta de um Invisível.

Sendo estas histórias africanas e muito moçambicanas pelas razões atrás aduzidas, o livro de Almeida Cumbane torna-se verdadeiramente universal na senda dos escritores que aprofundam o conhecimento e o pensar dos lugares mais recônditos, mostrando assim a sua universalidade.

Ao ler estas crónicas e contos apetece sentar à volta da fogueira e ouvir o seu eco nas vozes dos mais velhos porque escrever ficção é, afinal, saber contar bem uma história, na esteira da melhor tradição africana.

Na preparação para esta apresentação fiz um breve exercício que consistiu em dar títulos alternativos a cada um dos contos. E assim ficaram os meus:

 

  1. Um Infortúnio Bem-Aventurado o título alternativo seria “O Despenho do Embraer 190 na Namíbia”. Inharrime, Macia e Marracuene são balizas ou marcos a caminho de Mavalane, no chapa que precede o avião;
  2. Dona Pérola seria apenas “Moçambique” e conta a história de uma mulher que nasceu no dia 25 de Junho de 1975;
  3. Traídos pelo Sono ficaria simplesmente “Adultério”. Ela no Jonasse, ele no Chamanculo e um terceiro também no Jonasse, não se sabendo se o de Chamanculo chamaria como seu qualquer cabrito nascido no Jonasse;
  4. De A Matreca da Festa mudaria para “A Recarga”, onde se fala dos sistemas de recargas virtuais muito em uso no país para compra de serviços;
  5. O Vinho da Discórdia seria transformado em “O Drama das Cheias em Chókwè”. As cheias são iguais em toda a parte. E o Chókwè é toda a parte;
  6. O Actor que não sabe fingir recebeu o título alternativo de “Violência Doméstica”, ou quando a ficção teatral e a realidade se misturam no Dia da Mulher Moçambicana;
  7. Carta de um Invisível recebeu, por sua vez, “Coronavírus com Vida”, referindo aquele que tirou as maiores alegrias dos pobres: o abraço, o beijo e o convívio;
  8. Os Filhos Gémeos transformei em “Tradição e Riqueza” porque conta a história de um homem que mantinha duas cobras debaixo da cama, representando os seus dois gémeos mortos, para manter a riqueza;
  9. O conto Uma Casa de Alvenaria denominei por “O Paradoxo da Morte na Tradição” (eu teria gostado chamar simplesmente ZéDú para mostrar como as honras são prestada depois de alguém morrer. Na estória do livro trata-se de um velho cujos filhos só lhe fizeram as honras e festa faustuosa no seu funeral, depois de ter vivido miseravelmente. Os filhos o visitam e o reconhecem na urna, ZéDú somente teve as honras de Estado depois de morto, numa urna);
  10. Guest House transformei em “A Traição da Amiga”.;
  11. Njunju foi mudado para “A Força de um falso Amuleto de Futebol”. O que conta são as crenças e a verdade é embrulho biodegradável;
  12. O (Extra)Ordinário Condutor passou para “Alcoolismo e suas Consequências”. É a estória de um jovem que, alucinado pela bebedeira, atropelou um homem no meio da noite, confundindo-o com um animal;
  13. O Tradutor de Línguas seria “O Escorpião de Mapai”. Ngonhamo, professor cuja língua materna era o português e tinha dificuldade em aprender changana, soltou um berro em changana na hora da verdade.
  14. Um Ladrão Misterioso foi trocado por “As Manifestações das Tradições na Mulher”.
  15. O Pé de Ruca troca por “Corrupção na Polícia de Trânsito” é um conto sobre um polícia que reconhecia viaturas susceptíveis de serem irregulares na estrada por via da erecção do seu pénis, sinal que lhe foi dado por um curandeiro;
  16. A Distante Proximidade mudei para “A Facebook Society no Chapa”; por sinal, este conto dá título ao livro e tem o tom filosófico da formação do autor por retratar uma aporia típica da era digital e neoliberal: dois jovens que estavam no mesmo chapa, próximos, mas falando entre si como se estivessem distantes um do outro;
  17. (In)Voluntários Assassinos mudaria para “O Jardim Zoológico do Jardim”.

 

Como notamos, é no cruzamento entre uma literatura moçambicana jovem como esta e a sua compreensão teórico-filosófica que se descobrem as intersecções do engajamento dos intelectuais moçambicanos com os desafios que o seu tempo lhes impõe.

E isto é ainda mais importante precisamente hoje, quando a credibilidade da função da teorização e dos estudos científicos dos fenómenos como o terrorismo, subdesenvolvimento, etc. estão sendo postos em causa, particularmente por parte de um número cada vez maior de políticos moçambicanos e pela geração pós-independência.

 

 

Texto de apresentação de A Distante Proximidade, de Almeida Cumbane.

 

 

[1] Cfr. Chavale, A. (2015): Filosofia e Literatura: Fronteira Porosa? In: Ngoenha, S.E. & Castiano, J.P. (Coord.): Filosofia: Fronteiras ou Pontes. Editora Educar. Universidade Pedagógica, Maputo. Pp.61-77

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