O País – A verdade como notícia

A terceira edição do Festival Gala Gala arrancou esta segunda-feira, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo. O início do evento que junta nove centros culturais aconteceu com a inauguração da exposição A dança das sombras, de Butcheca. A apresentação da individual de pintura coube a Nelson Saúte.

A abertura da terceira edição do Festival Gala Gala teve dois momentos. Primeiro, foi uma sessão formal, que aconteceu na biblioteca do Camões – Centro Cultural Português em Maputo. Nessa ocasião, intervieram representantes de várias entidades que apoiam e/ou realizam o festival multidisciplinar. Um dos intervenientes da tarde foi Antonino Maggiore, Embaixador da União Europeia em Moçambique. Para Maggiore, o apoio à cultura é preponderante porque a expressão cultural constitui uma das formas de os povos conhecerem-se e aproximarem-se. E ainda reforçou, dizendo: “A acultura, para a União Europeia, é a chave do desenvolvimento social e o que une as pessoas”.

Além de unir os artistas, os produtores, os directores e todos os entusiastas das artes, a terceira edição do Festival Gala Gala pretende funcionar como uma plataforma viável para que as pessoas se expressem e possam ser compreendidas. Intervindo em representação dos nove centros culturais que realizam o festival, Sara Jona Laisse lembrou que “150 artistas vão mostrar o seu trabalho em diferentes modalidades artísticas” ao longo de uma semana do evento. Com isso, acrescentou a Directora-Executiva da Fundação Fernando Leite Couto, o objectivo é colocar Maputo no mapa das cidades criativas ao nível mundial.

Na primeira parte do evento desta segunda-feira, coube ao Director Nacional das Indústrias Culturais e Criativas declarar aberta a terceira edição do Festival Gala Gala em representação da Ministra da Cultura e Turismo. Segundo disse Emanuel Dionísio, o Festival Gala Gala é uma iniciativa preponderante porque “Oferece mais espaço para que os nossos artistas possam expressar e apresentar as suas ideias”.

Num segundo momento, todos os presentes foram convidados a trocar a biblioteca do Camões – Centro Cultural Português pela Galeria, onde foi inaugurada a exposição A dança das sombras, de Butcheca. Durante a apresentação da individual de pintura, Nelson Saúte referiu-se ao processo criativo do artista plástico e de como, nos últimos meses, foi acompanhando a produção da mostra. Sem esconder o entusiamo e admiração, o escritor realçou que “O Butcheca é, indubitavelmente, um dos maiores talentos da nova geração de pintores moçambicanos”.

Já na sua intervenção, Butcheca referiu que A dança das sombras é uma individual de pintura que traduz vários episódios experienciados por si, sempre partindo da realidade. De algum modo, a sua preocupação foi representar algumas danças moçambicanas, entre as quais nyau e mapiko. Mas na mostra também há uma colecção de máscaras, colocadas logo à entrada da galeria: “Esta exposição toda que estamos aqui a ver é baseada numa história real”, disse Butcheca, partilhando momentos que foram determinantes  para que a imaginação fluísse durante o processo da maturação das ideias da exposição.

A terceira edição do Festival Gala Gala realiza-se entre 12 e 18 de Setembro.

Por Valério Maúnde

 

Elísio Macane é funcionário público, afecto a um dos ministérios do nosso país. Como todo o bom funcionário estatal, cumpre escrupulosamente o horário laboral: às 07h30m, está já no seu sector de trabalho e, pontualmente, às 15h30m, tem a sua marmiteira na mão e o pé na saída. É nesses exactos horários em que Elísio entra e sai do seu local de trabalho todo o santo dia, de peito cheio e de cabeça erguida, pela firme convicção de que, na função em que trabalha – logística, ou procurement como preferem alguns, tentando parecer importantes – não tem como ser envolvido no crime que ditou a transferência de Moçambique para outro hemisfério.

Ao volante do seu Toyota Run-X, mas que, pelo acelerado estado de degradação, resultante dos embates e arranhões por condução em estado de embriaguez, perdeu a última letra, lendo-se agora apenas Run (corre ou foge em Inglês). E é por este exacto motivo – fuga – que Elísio, por dois longos anos, ao invés de sair do trabalho directo para casa, na Zona Verde, faz paragens quase que obrigatórias (o mais certo é dizer aliviadoras) no bairro de Bagamoio, para passar algumas horas nos braços de Marta, sua amante, a quem eufemicamente trata por refúgio.

O sol já repousa quando Elísio buzina à entrada da casa da Marta, cuja renda, como é obvio, é paga por ele próprio, o que dá sentido à seguinte reformulação: …Elísio buzina à entrada da sua casa-2. Marta abre apressadamente o portão, para a entrada da viatura, mas não esconde a surpresa, pois, conforme o hábito e acordo, as visitas são às quartas e sextas (às vezes aos sábados), mas nunca aos domingos, jamais, pois esse dia é sagrado: é para a missa e para a família.

Já no interior da casa, conforme manda o manual de procedimentos da boa amante, Marta dá-lhe um beijo prolongado e depois tira-lhe o casaco, para ele se sentar confortavelmente no sofá. Com o seu homem, aliás, com o homem da outra já acomodado, Marta, que via uma novela, muda para o canal de desportos e, sem demora, vai à cozinha buscar uma cerveja e preparar um petisco para o seu emprestado homem.

Boas-vindas feitas, Marta senta-se ao lado dele e recosta a cabeça no seu ombro, em silêncio. Este silêncio esconde uma certa indignação e no seu íntimo protesta: “não é porque é ele que paga a renda e as contas que tem que chegar sem avisar, também tenho vida própria”, mas engole a insatisfação, pois bem sabe que reclamar é direito e ofício de esposa, então, mantém-se calada.

Minutos depois, Elísio vai à casa de banho e deixa o celular desbloqueado sobre o sofá. Uma inquietante curiosidade invade a alma de Marta, que se sente tentada e impelida a pegar no aparelho e descobrir o teor das mensagens trocadas com a esposa, a duração das chamadas, as fotos na galeria, mensagens do Ponto 24 e M-pesa, mas contém-se, pois recorda-se que inspecionar o telefone é também privilégio de esposa. Esta curiosidade, diga-se, em saber o que se esconde por trás da tela de bloqueio daquele celular é frequente, mas, felizmente sempre evitou tal indiscrição. Dizemos felizmente porque, tendo-o feito, descobriria que sempre que lhe envia mensagens com o teor “posso te pedir algo”, é do 84111 que Elísio as recebe.

Marta sacode a cabeça para espantar os pensamentos que a assombram. Nisso, Elísio regressa e ela diz as palavras próprias de amantes:

– Que bom que vieste me ver, estava com saudades.

– Eu também, eu também – repete Elísio, buscando convencer-se da veracidade das suas palavras.

– Pareces preocupado, amor. Não queres contar o que se passa?

– Não é nada, só estou cansado – abrevia.

Marta não faz ouvido de mercador, levanta-se imediatamente a preparar um banho quente e aromático para o fatigado homem. Elísio mergulha de corpo e alma nas graças da amante e esquece-se da missão que originou a sua visita intempestiva.

São quase 20 horas quando Elísio olha para o relógio. De sobressalto, pula da cama e ajeita-se às pressas. – Está tarde, tenho que ir.

Marta, sempre compreensiva e atenciosa, desce da cama, veste o roupão e ajuda-o a ajeitar-se para ir ao encontro da mulher, e fá-lo com todo o zelo, como se o fizesse em jeito de retribuição à esposa, que, com igual ou superior zelo, o arranja para si.

Já a caminho de casa, Elísio trava um diálogo consigo próprio e censura-se severamente por não ter tido coragem de pôr fim à sua relação extraconjugal, como tinha decidido há dias. O discurso estava preparado e ensaiado. Bastava chegar e dizer: – Marta, minha querida, foram maravilhosos os momentos que vivemos nestes dois anos, mas já não está a dar para mim, o custo de vida está alto e já não consigo manter a minha família e a ti. Está na hora de acabarmos.

Era isto dito e estava tudo acabado entre eles, mas faltou-lhe coragem. Para piorar, Marta não facilitou a situação. Se ela ao menos tivesse reclamado de alguma coisa, tivesse denotado alguma má vontade ou indisposição em cumprir o seu papel, qualquer coisa que o convencesse de que não valia a pena manter aquela relação, mas não, pelo contrário. Foi como se ela tivesse adivinhado o perigo e, por isso, esforçara-se a dar-lhe uma última amostra do que ele perderia caso decidisse deixá-la.

Em casa, esposa e filhos aguardam-no para o jantar. Nas travessas sobre a mesa há apenas arroz fogado e um magro carapau frito de número negativo (-16 talvez). Aquela modesta e carente refeição contrasta de forma gritante (de um grito que ensurdece) com os faustosos banquetes que Elísio financia para a sua amante. No seu íntimo, brota-lhe um misto de vergonha e culpa e jura que fará cumprir a sua decisão e voltará a ser um homem honrado, por amor à família ou por incapacidade financeira, o facto é que assim fará. Amanhã ele ser um homem novo.

Mas cá entre nós, que ninguém nos ouça, amanhã será, de facto, um novo dia, e Elísio até pode acordar mudado, mas Marta não, esta acordará igual a sempre: encantadora, amorosa, solícita e com a mesma habilidade de enredar e fazer naufragar as melhores intenções de Elísio Macane.

 

 

A Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, recebeu, sexta-feira, o Ministro do Turismo e Meio Ambiente do Reino de eSwatini, Moses Vilakati. A reunião, na Cidade de Maputo, teve como objectivo discutir e encontrar conjuntamente caminhos para o reposicionamento do sector, para o alinhamento das acções de cooperação no domínio da cultura e turismo e para a fortificação dos laços de cooperação bilateral e de amizade entre a República de Moçambique e o Reino de Eswatini.

De acordo com um comunicado de imprensa do Ministério da Cultura e Turismo, o assunto de maior destaque foi a recuperação do turismo. De forma
unânime, os dois governantes falaram do PROGRAMA TRILAND, que decorreu recentemente, abrangendo Moçambique, Eswatini e Mpumalanga (África do Sul), como destino turístico único.

De igual maneira, Eldevina Materula e Moses Vilakati ambos concordaram que a iniciativa constitui uma oportunidade bastante forte para promover o turismo dos países envolvidos e que os resultados já começaram a surgir.

O Ministro do Reino de eSwatini saudou o Presidente da República moçambicano, Filipe Nyusi, pelas medidas anunciadas, recentemente, que visam facilitar e criar condições para o restabelecimento da economia.

As partes falaram da fraca conectividade entre os países africanos e da pretensão de se criar uma feira da SADC para uma maior e melhor aproximação.
Ficou a intenção de Moçambique e Reino de Eswatini reverem os acordos de cooperação outrora assinados de modo a reactivá-los.

A Ministra moçambicana fez referência à realização do FIKANI, que terá lugar brevemente, em Maputo, aproveitando a ocasião para convidar Eswatini a expôr as suas atracções turísticas e de negócios. A dirigente destacou ainda o potencial turístico de que África detém bem como a necessidade de se investir muito no turismo, sendo este evento uma janela aberta para intercâmbio, captação de investimentos e visibilidade do Turismo de Moçambique e de África.

Por sua vez, o Ministro de Eswatini convidou a sua homóloga para participar no festival Marula, em Fevereiro do próximo ano.

O antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, considera que os exemplos de Dom Dinis Sengulane devem inspirar as novas gerações. Chissano defendeu essa tese na cerimónia de lançamento de Olá paz: homenagem a Dom Dinis Sengulane, de Hélio Filimone, e de Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo, esta sexta-feira, na Cidade de Maputo.

 

Joaquim Chissano assinou o prefácio do livro Olá paz: homenagem a Dom Dinis Sengulane, de Hélio Filimone. Convidado a intervir na cerimónia de lançamento daquele livro e de Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo, o antigo Presidente da República destacou a importância de Dom Dinis na pacificação do país, sublinhando que sempre caminharam juntos na busca da paz.

Conforme entende o antigo Presidente da República, além de buscar a paz, Dom Dinis Sengulane incutiu na consciência das populações moçambicanas uma nova forma de cultivar a paz. “Dom Dinis Sengulane enveredou pelo processo de apelo, para que quem tivesse armas as entregasse para serem destruídas de uma maneira muito inteligente, que era de transformar em instrumentos de arte ou úteis para outros efeitos. Ele incutiu um novo espírito nas populações, para a causa a paz”.

Joaquim Chissano disse que “nós somos aquilo que somos no interior, daí que temos de transmitir a nossa paz aos outros e receber a paz deles. Este é um grande ensinamento de Dom Dinis Sengulane”. Por isso mesmo, cruzando sempre o legado do Bispo Emérito da Diocese dos Libombos com a história recente do país, Chissano, igualmente, referiu-se aos ensinamentos proporcionados pelo autor de Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo. “Os seus exemplos devem inspirar as novas gerações. Penso que quem vai para pastor ou para padre, deve seguir ao máximo as suas orientações, de praticar o bem com humildade. Sengulane procura materiais para apoiar também o bem-estar físico das pessoas, para além do apoio ao bem-estar espiritual”.

A propósito de apoio, o valor dos livros vendidos de Dom Dinis servirão para ajudar as pessoas que necessitam de apoio nas áreas sociais identificadas pela Fundação Dom Dinis Sengulane.

 

OBRAS QUE INSPIRAM

De acordo com o bispo anglicano, Dom Carlos Matsinhe, Olá paz: homenagem a Dom Dinis Sengulane, de Hélio Filimone, e Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo são fontes de inspiração e uma luz que ilumina o futuro. “Afinal de contas, é possível contribuirmos para a reconstrução do nosso país. Todos sabemos que temos a missão de construir um país livre de violência e de tantos outros males. Portanto, estes livros ajudam-nos a ver isso, aquilo que pode constituir matéria para que as pessoas possam desenvolver no seu dia-a-dia”.

Olá paz: homenagem a Dom Dinis Sengulane, da autoria de Hélio Filimone, e Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo, da autoria de Dom Dinis Sengulane, são os títulos dos livros que retratam o percurso de vida e a obra do Bispo Emérito da Diocese dos Libombos. A cerimónia de lançamento dos dois títulos decorreu esta sexta-feira, no Centro de Conferências do Instituto de Formação da Tmcel, na Cidade de Maputo, tendo contado com a presença de várias personalidades moçambicanas, entre elas os antigos presidentes Joaquim Chissano e Armando Guebuza.

O auditório do Centro de Conferências do Instituto de Formação da Tmcel, na Cidade de Maputo, esgotou as entradas para a cerimónia de lançamento de Olá paz: homenagem a Dom Dinis Sengulane, da autoria de Hélio Filimone, e Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo, da autoria de Dom Dinis Sengulane, livros que retratam o percurso de vida do Bispo Emérito da Diocese dos Libombos.

No momento inicial da celebração dos 76 anos de peregrinação de Dom Dinis Sengulane, a cerimónia de lançamento começou com invocação a Deus, através do poder da palavra cantada. Assim, o Projecto Sonho Paraíso entoou canções evangélicas como introito. De seguida, o Bispo da Igreja Anglicana, Dom Carlos Matsinhe, assumiu a responsabilidade de dirigir a oração de abertura, de modo que tudo corresse de feição. Feita a oração, do presidium, o primeiro a intervir foi Octávio Matusse, representante da editora Patmos, que chancelou o livro Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo. “Nós, como editora que se preocupa com a literatura, encontramos na biografia de Dom Dinis Sengulane ingredientes extraordinários, que ajudam e inspiram a sociedade”.

A seguir a Octávio Matusse, sob o olhar de Dom Dinis Sengulane e dos antigos chefes de Estado, Joaquim Chissano e Armando Guebuza, coube a Dom Dinis Matsolo partilhar com a audiência do Centro de Conferências do Instituto de Formação da Tmcel as suas percepções sobre o livro do Bispo Emérito da Diocese dos Libombos. “Na sua obra, Dom Dinis Sengulane coloca ao dispor de todos os principais marcos da sua vida particular e sacerdotal”, disse o apresentador do livro Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo, acrescentando: “Os seis capítulos das 262 páginas do livro retratam a vida de um homem devoto a Deus, que nos presenteia com uma lisura no seu percurso neste mundo belo”.

A seguir a apresentação de Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo, no Centro de Conferências do Instituto de Formação da Tmcel foi apresentado outro, Olá paz: homenagem a Dom Dinis Sengulane, da autoria de Hélio Filimone. Referindo-se ao seu mais recente trabalho literário, o jornalista e escritor explicou como foi processo de produção do livro e ainda partilhou o simbolismo desse exercício. “Para mim, foi uma honra, mais uma vez na minha carreira, escrever uma obra sobre uma grande figura do nosso país. Isso levarei comigo como um orgulho”.

Apresentados os livros Olá paz: homenagem a Dom Dinis Sengulane, de Hélio Filimone, e de Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo, chegou o momento mais aguardado da cerimónia, a intervenção de Dom Dinis. Primeiro, o Bispo Emérito da Diocese dos Libombos pediu um minuto de silêncio e fez uma breve oração em homenagem à Rainha Isabel II. De seguida, expressou a sua gratidão a Deus por todas as obras que tem realizado na sua vida. De igual modo, Dom Dinis estendeu os seus agradecimentos a todos aqueles que irão ler o livro e, depois, permitir-se enveredar por novas iniciativas de modo a contribuírem para um belo mundo.

Além de gratidão ao Senhor e aos potenciais leitores, o Bispo Emérito da Diocese dos Libombos fez um convite a todos os presentes na cerimónia. “O convite é que, dado que cada um de nós está neste nosso belo mundo, cumprindo o plano de Deus, favor reconhecer e executar a agenda de Deus para si pessoalmente, na divulgação das coisas belas que encontrar e localizar neste mundo”.

Partindo do princípio de que a vida não é um evento linear ou previsível, ao partilhar as suas memórias, Dom Dinis Sengulane procura demonstrar que por detrás das bênçoas divinas, há sempre um trabalho árduo e comprometido por realizar. “Nesta obra buscamos compartilhar os caminhos por vezes sinuosos para implementar as soluções para que o mundo continue a ser reconhecido na sua beleza”. Logo, o autor descartou ser o seu um livro de eventos extraordinários.

Quanto aos principais pilares de Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo, Dom Dinis Sengulane mencionou: “Paz, saúde, ética e espiritualidade continuam a ser os pilares que clamam pela intervenção de cada um de nós, desde os mais pequenos até aos da minha idade”.

Já a encerrar a sua intervenção, Dom Dinis Sengulane disse qual é o seu propósito com Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo: “Nós queremos ser uma nação cuja história é uma geração que caminha para uma vida plena”.

Na parte final da cerimónia, Dom Dinis Sengulane ofereceu um exemplar de Minhas memórias: uma peregrinação pelo mundo belo a alguns leitores. Entre eles, os antigos chefes de Estado Joaquim Chissano e Armando Guebuza, e também a Graça Machel, Dom Carlos Matsinhe e Daniel David.

Blackmoney é o título da exposição fotográfica e multidisciplinar de Mauro Pinto. Inaugurada esta terça-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo, a mostra pretende ser um manifesto a favor do Homem e da Terra.

 No dia do seu aniversário, 6 de Setembro, Mauro Pinto (1974) inaugurou Blackmoney, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo. O exercício artístico, mais do que uma individual fotográfica, na verdade, pretende ser um manifesto de um cidadão que faz parte de um planeta agredido pela vaidade e prepotência.

Partindo do tema combustíveis fósseis e das questões inerentes à sua exploração e utilização, Mauro Pinto propôs-se, através da arte fotográfica, lançar uma plataforma de discussão sobre que tipo de mundo o Homem está a construir. A questão de fundo é: “Até que ponto o nosso desenvolvimento, como seres humanos, passará pela exploração dos combustíveis fósseis?”.

Em parte, Blackmoney vai buscar ao universo dos mineiros toda uma situação dramática que os aflige e reduz na luta pela sobrevivência sempre feita de perigos. “Esta também é uma forma de discutirmos a humanidade, porque estamos a chegar a um nível de desumanidade tremendo. Acho importante começarmos a ter uma conversa mais profunda do que está a acontecer a nível mundial”.

Para o fotógrafo, a humanidade e as mudanças climáticas são assuntos sérios e que merecem uma reflexão sempre pontual.

Em termos de curadoria, Blackmoney é uma exposição multidisciplinar ousada e com níveis altos de produção. Aliás, toda a sala de exposição do Franco-Moçambicano está transformada. Para ver as fotos e todos os artefactos patentes, o visitante, primeiro, tem de usar um capacete igual a dos mineiros, headphones e uma luz específica. Depois, atravessa uma espécie de túnel de acesso e deixa-se mergulhar na escuridão. No interior, igualmente, o visitante tem uma experiência visual e sonora, que o envolve e surpreende, ora experimentado a sensação de estar numa verdadeira mina de carvão mineral, ora aproveitando tocar o carvão mineral trazido de Tete. Sobre isso, Mauro Pinto explicou: “Eu acho que sou uma pessoa que gosta de pensar fora do baralho, além daquilo que eu vejo. Eu quis trazer a experiência de como uma mina funciona. Este é um diálogo com todo o tipo de mina”.

Para a exposição Blackmoney, Mauro Pinto procurou estabelecer um equilíbrio entre a pesquisa e a arte. Nesse sentido, a individual também é informativa à medida que traz muitas questões políticas, culturais e socio-económicas. Em Maputo, a mostra é inaugurada dois anos depois de ter sido exposta em Portugal.

A escritora Paulina Chiziane irá orientar uma palestra sexta-feira, às  12h30, no recinto da Escola Secundária Força do Povo, no Distrito Municipal de KaMavota, em Maputo.

 

O Conselho Municipal de Maputo promove, sexta-feira, a primeira edição da Festa do Livro de KaMavota, no recinto da Escola Secundária Força do Povo, no Distrito Municipal de KaMavota.

Na sessão, os alunos, escritores, editores, actores, jornalistas, estarão reunidos para debater em torno do tema Literatura e Desenvolvimento Sustentável e, prestar tributo a vida e obra dos escritores Luís Bernardo Honwana e José Craveirinha, o homenageado e o patrono da 8ª. edição da Feira do Livro de Maputo, respectivamente.

Assim, de acordo com a organização, Paulina Chiziane vai dar uma palestra sobre a importância da leitura.

No mesmo evento, estarao editoras, livreiros e parceiros que farão a exposição e venda de livros, promoção da leitura e divulgação de obras de escritores moçambicanos, bem como a criação de um espaço infantil, dinamizado pelo Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, Kuvaninga, com sessões do conto. Existirá uma zona de leitura, coordenada pela AMOLP, a BIOFUND e ANAC associam-se a este evento de modo a incentivar a educação ambiental, com oficinas e palestras.

A Festa do Livro, que tem sempre entrada livre, realiza-se nos Distritos Municipais, em Maputo, e é uma iniciativa que a edilidade lançou no ano passado, em KaNyaka, visando promover a leitura e aproximar os livros à comunidade. O tema Literatura e Desenvolvimento Sustentável tem como objectivo trabalhar a subjectividade humana e proporcionar condições de análise do panorama social e pessoal. As histórias, os poemas, o teatro, a música assim como o cinema, exercitam a empatia e lançam um olhar profundo e humano nas questões do dia-a-dia.

Para a organização, a expectativa é de que 15 mil alunos das escolas públicas do Distrito Municipal KaMavota visitem a mostra. Projectos de valorização do livro e incentivo à leitura começaram antes, nas salas de aulas, com actividades tais como, “Rodas de Leitura”, “A Hora do Conto” e “Clube de Leitura”.

A Feira tem como propósito despertar nos alunos o interesse pela leitura e pelas artes através de prática lúdico-pedagógicas e criar oportunidades de promover a circulação do livro e da leitura entre alunos, professores, encarregados de educação, editoras, livrarias e o público no geral. “As festas do livro nasceram a partir da necessidade de o Município levar o livro à escola, aproximar o aluno do escritor e criar espaços de incentivo à leitura. Com a Feira na escola, o aluno tem a oportunidade de ler uma diversidade de livros a sua escolha e abrir os seus horizontes. Isso, sem dúvida, desperta interesse pela leitura”, afirma a Directora de Serviço Municipal de Bibliotecas e Arquivo, Cristina Manguele.

 

Por: Mélio Tinga

 

António Lobo Antunes disse numa entrevista, algo como: é difícil falar sobre os livros. E tinha razão. O livro tem uma estrutura demasiado complexa que, não é possível que faça apenas um caminho. Por isso, esta conversa estará para os desafios de publicar e sobre como sobrevive o livro em meio ao caos. Não pretendo construir um caminho linear, mas partilhar fragmentos e circunstâncias, fotografias esparsas sobre a minha visão acerca do livro.

Estou convencido que existem três formas de dar vida a um livro. A primeira, é a autoria, o trabalho de criação, de escrita, de invenção; a segunda é a leitura, uma espécie de um sopro que dá alma e esqueleto ao livro e um dos gestos mais solidários que conheço; a terceira forma é discutir, falar e partilhar ideias sobre o livro, o que o cobre de carne, tornando-o um animal vivo. Acho que foi iludido nesse pensamento que aceitei este desafio da Casa do Professor.

Enquanto seguia a caminho escutava aleatoriamente uma lista musical, entre as que gosto e as que desconhecia. Três delas chamaram-me especial atenção: “A Beleza Vai Mudar O Mundo”, de Soraia Tavares; “Astronauta”, de Gabriel O Pensador e Lulu Santos; e uma terceira, “La Famba Bicha”, de Jeremias Nguenha.

A primeira – que também nos pode recordar do escritor russo Fiódor Dostoiésvky ao afirmar praticamente nos mesmos termos; “a beleza salvará o mundo” – chamou-me atenção sobre o facto do livro ser, indubitavelmente uma coisa bela, das mais belas coisas criadas pela humanidade. Isso levou-me a pensar sobre como a literatura pode, porventura, salvar o mundo, o que, em parte, recordou-me um belíssimo engenho poético de Luís Carlos Patraquim – “Elegia Carnívora”, no seu livro “Matéria Concentrada”:

porque embrulho de carne nos fazem/ desatado na noite/ uivo de sangue/ entre as sombras de deus, inerte, / no asfalto porque é noite, — e agora/ já não dormimos o sono dos cães —, / nós voltamos, poucos, entre as sombras/ de deus, em Tsalala um nome. / À uma hora da madrugada somos deus/ aos látegos sobre os perfis das casas, / das frontes latejando voos de extenuados/ pássaros e batemos no poema. Abram! / Já não morremos nas mãos brincando/ do menino com dois anos de idade. / Assassinou-se para não ser homem nem deus, / nem perguntas de voos augurando/

metafísicas inúteis na ascensão de domingo, / à uma hora da madrugada.

 Mãe, quero um barco verde com risos/ e um rio dentro dos ossos e um asfalto/ de carne, limpa, sem sombras de deus/ ou a noite na boca, Mãe!

 

Esta mesma ideia (de beleza e salvação do mundo) lembrou-me as “Incontinências do Fogo”, de Andes Chivangue, em “fogo preso”, um livro incisivo e cheio de humanidade, ao escrever:

 

Ainda que fossem vazados os meus dois olhos, / com uma pedra os dentes partidos, / e com uma gazua os genitais decepados/ mistério maravilhoso a vida permaneceria,

 

tão somente para ouvir a tua voz/ ou canto dos pássaros à compita/ nas manhãs chuvosas, que se prometem soalheiras.

 

Ao mesmo tempo, “Astronauta”, de Gabriel O Pensador (com Lulu Santos) e “La Famba Bicha”, de Jeremias Nguenha, traduzem, em parte, o meu estado de questionamento, de dúvidas em relação a vários aspectos que, poderia ligá-lo a um interessante livro de Manuel Alegre, “A Terceira Rosa” cujo excerto partilho logo a seguir:

 

“Padre Júlio era um padre especial, diga-se desde já. Vociferava contra os ricos e transformava cada homilia num inferno de caldeirões e almas a arder. Pregava contra os pecados da carne e do dinheiro, mas almoçava sempre em casas de boa mesa. Era visto de mãos dadas com senhoras devotas. Dizia mal da política e dos políticos, mas era membro do partido único, a União Nacional. Parecia um revolucionário, mas fazia frequentemente o elogio a Mussolini. Era um padre original.

Quando Xavier lhe confessou as dúvidas sobre a existência de Deus, ele respondeu-lhe: E quem é que as não tem?”

 

Estas referências, da música e da literatura são apenas um ponto de partida, mas talvez, também, os pontos principais do que penso, do que acredito, do que me move e de como faço a interpretação do mundo, como autor, como designer e como leitor. Estarão todas opiniões alicerçadas nestes três pilares, que, como podem compreender, muitas vezes será difícil desagregar.

 

LIVROS: CAMINHAR ENTRE OS NÚMEROS

Objectivamente: o caminho do livro passa por olhar (também) para os números. Desta maneira podemos saber como, quando e para onde conduzir as nossas acções. Os números orientam-nos a tomarmos decisões racionais, em direçcão aos problemas reais, na quase recorrente tentativa de resolvê-los.

Temos uma população de cerca de 31.616.078 habitantes. A taxa média de analfabetismo é de cerca de 53.6%, sendo mais elevada nas zonas rurais (65.7%) do que urbanas (30.3%) e mais saliente nas mulheres (68%) do que nos homens (36.7%). Apenas 46.4% da população em Moçambique é alfabetizada, o que equivale a pouco mais de 14 milhões de pessoas.

Outro dado que é interessante quando falamos dos livros tem a ver com as instituições de ensino: mais de 13 mil escolas primárias, perto de 700 escolas secundárias, um total de 53 instituições de ensino superior, entre públicas e privadas. (Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior: mctes.gov.mz)

 

Em 2021 o Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou um documento intitulado “Estatísticas da Cultura”, em que, por exemplo, mostra que em todo país foram publicadas, no total, 453 obras literárias. No mesmo ano, foram registadas 40 livrarias e papelarias, com destaque para Sofala (20), Maputo cidade (14), Nampula (4), Cabo Delgado (2). Foram realizadas cinco feiras nacionais do livro e do disco, totalizando 2.659 visitantes em todo País. As feiras foram realizadas apenas em três províncias: Inhambane (1), Gaza (1) e Maputo Província (3) com destaque para Inhambane com maior número de visitantes (1050).

 

Porquê estes dados são importantes e como eles nos podem servir se quisermos falar de livros? Consideremos algumas situações hipotéticas:

 

  1. Se imaginarmos que as 453 obras publicadas em 2021, cada um delas tenha uma tiragem de 200 exemplares, significa que temos 90.600 livros. Se desses livros a instituição “responsável” comprasse 6/7 exemplares para as escolas primárias e secundárias, quer dizer que estariam esgotados;

 

  1. Se considerarmos que o preço do livro são 500Mt, 7 livros custariam 3 mil e quinhentos meticais, ou seja, cada uma destas escolas, de algum modo poderia contribuir para que isso pudesse acontecer. Da mesma forma que se pensa no polêmico dinheiro do guarda, poderíamos pensar no dinheiro do livro. Se a escola tiver 1.500 alunos e cada um destes contribuir 3 MT, no total teremos 4 mil e quinhentos meticais.

 

Mas isto é, como disse, muito hipotético. Apenas para reflectirmos sobre como os números, de forma simples, podem ser importantes na construção de uma parte do caminho do livro. Com esses dados é possível pensarmos em estratégias concretas, evitando tomar decisões baseadas em preconceitos e no amor que os autores e editores, no nosso contexto, têm pelo livro. Um amor que se desgasta com o tempo.

 

 

LIVROS: AMORES & PRECONCEITOS

Acho que muitas vezes o livro é olhado e falado como se olha e se fala de sexo. Existem experiências que os autores são quase sempre tentados a generalizar, influenciados por suas próprias experiências, ignorando o outro. Algumas dessas ideias encaixotadas que, muitas vezes ouvimos são;

 

a) Até que venha a inspiração…

Há pessoas que acham que escrever à madrugada é uma espécie de coisa mágica, tratando esse facto de forma romântica, quando pode ser claramente explicado pela Psicologia – isso chama-se concentração. À essa ideia associa-se também a inspiração, o aguardar por uma espécie de luz divina que nos vai iluminar. A meu ver isso não é totalmente mau, cada autor tem um método, um caminho, tem o que funciona para si, que pode não funcionar para o outro. Nenhum livro de facto é movido apenas pela inspiração. A produtividade é resultado de disciplina, de rotina.

 

b) Deixa o livro “amadurecer”

Se me perguntassem se o livro precisa “amadurecer”, a minha resposta seria um forte “sim, precisa”. Dependendo da experiência do autor, pode levar mais ou menos tempo. O tempo de distanciamento é útil para que se retorne a ele com um olho ainda mais crítico. Mas isso não significa que todos livros devem incubar por 5 anos para todos. Não podemos levar isto como regra geral.

 

c) Escrever sem ler, é possível, claro!

Uma outra ideia que nós autores mais novos alimentamos, e que, provavelmente herdamos dos outros (alguns), é que podemos escrever sem ler. Pessoalmente, acho um absurdo. Se eu pretendo tocar jazz, é importante que eu escute jazz, se eu quero tocar marrabenta preciso de escutar marrabenta para compreendê-la, para conhecê-la, mesmo que depois não faça daquele modo específico. O processo de leitura a meu ver funciona como um gás necessário para mover a escrita, nos ajuda a ter um panorama geral do que existe e a destruir a ilusão de que estamos a fazer coisas absolutamente novas.

 

d) Basta o meu livro ser bom, será publicado

É mentira! Aqui, mais uma vez provamos que os números importam, com a diferença de que aqui trata-se dos números em dinheiro. Todo editor gostaria de publicar um bom livro, mas muitas vezes não é só um bom livro que funciona no mercado. O livro requere um investimento, e no nosso contexto a maior parte das pequenas editoras vivem sugando um pouco dos seus proprietários.

 

SOBREVIVÊNCIA

Um dos maiores desafios das novas editoras em Moçambique, não é publicar o livro, mas construir um sistema que as permita viver o maior tempo possível, tornando-se consistente. A questão da comunicação, da consistência, é provavelmente das mais importantes, por dois motivos: primeiro, espelha o que é a editora e o que anseia; segundo, é que aqui a ideia de que quem comunica é visto e quem não o faz morre, materializa-se de facto, a edição e publicação são um negócio. Até as igrejas fazem publicidade. Penso que precisamos buscar referências nesse sentido e experimentar coisas: a Coca-Cola é das mais antigas marcas mundiais e mesmo assim continua a fazer publicidade, na televisão, na rádio, nas redes sociais, em outdoors. Precisamos quebrar os preconceitos, se quisermos que as nossas pequenas editoras evoluam e se consolidem. Precisamos de parar de pensar que o livro não pode ser publicitado. Porque, até onde sei, não há lei que proíbe em Moçambique.

 

Se isso implica investimento, implica. Se isso significa contratar pessoas, a resposta é afirmativa. O editor é incapaz de fazer tudo, não pode ser o coordenador, o editor de texto, o revisor de língua, o designer, o gerente de marketing, o estafeta, o comercial. A maturidade das editoras passa também por compreender que uma pessoa, por mais talentosa que seja, não pode fazer tudo.

 

Outro aspecto, na relação autor-editora, é que, por uma questão estratégica as editoras precisam de construir relações de continuidade, em que um autor começa e juntos constroem um plano de publicação do autor nessa editora, durante, por exemplo 5 anos. Isso pode beneficiar os dois lados com o passar dos anos, na medida em que no segundo e terceiro livro, o autor já terá um número de leitores consideráveis, e terá construído um público que poderá beneficiar também outros autores da editora.

 

Precisamos parar de propalar a falsa ideia de que o livro não dá dinheiro. Afirmar simplesmente que livro não dá dinheiro, parece-me incoerente, uma daquelas canções que cantamos sem ter consciência do real significado da letra. Existem editoras simplesmente comerciais, cujo foco é publicação, independentemente da qualidade do livro: o autor paga e a editora publica. É um modelo de sobrevivência. É aquilo que o seu fundador definiu. Outras publicam o que interessa o editor (proprietário), outras procuram publicar livros técnicos e escolares e alimentam os livros de ficção e a poesia, por exemplo. O mercado literário, em todo mundo é feito disto, existem os que passeiam na margem e fazem as suas vidas com isso, existem os que estão no centro do sistema.

 

Para mim, como editores e autores, o nosso trabalho passa por construir um bom produto, porque o livro é um produto, e comunicá-lo bem. Um bom produto passa pelo texto, cuja responsabilidade é do autor e do editor. Um bom produto significa ter um livro atrativo e de boa legibilidade, papel do designer gráfico. Um bom produto significa encontrar uma gráfica que responda ao nível de qualidade do que queremos.

 

Não se justifica que um livro publicado há cinco anos, com 200 exemplares, continue nas livrarias e o autor sinta orgulho disso, desse sinal de um mau trabalho! Também não se justifica que o livro esgote e ninguém se interesse em fazer reedição.

 

Tinha esperança que pudesse ter, até aqui, algumas respostas, mas ao fim disto, continuo a sentir que só tenho perguntas. Um dos maiores pesquisadores da educação e da pedagogia, Jean Piaget, chama a fase dos porquês de período pré-operatório, normalmente acontece por volta dos 3 anos. Eu, estou recorrentemente a regressar a essa fase, apesar da idade:

 

Porquê há mais de 40 anos tínhamos uma publicação com 20 mil exemplares e hoje 1000 cópias levam uma eternidade? Exemplo: Yô Mabalale, de Albino Magaia.

 

Porquê a definição de uma política do livro, de estímulo ao autor, ao editor, não tem um real impacto sobre quem faz livro e fica um assunto dos corredores? Moçambique não pode fazer registo de ISBN porque se quer chega a 25% do número exigido por ano para poder o fazer. Canadá faz esses registos gratuitamente para estimular os autores e editores. O nosso registo de livro no Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas custa 500 MT, temos de ir fazer o pedido no local (poderia ser online), temos de fazer uma declaração, entregar uma cópia de bilhete de identidade e ainda esperar uns dias.

 

Porquê em eventos relacionados a indústria (?) cultural o livro fica sempre lá no fim da fila? Certamente falta sensibilidade, mas também falta uma pressão de quem faz o livro.

 

Por fim…

Penso que o caminho do livro, o sistema literário, não existe. Se o temos trata-se então de uma máquina parada no tempo, cujas engrenagens tonteiam, cujas peças caem na corrosão. O caminho do livro só é possível se todos os seus intervenientes estiverem conscientes do seu papel, do que devem fazer, como devem fazer, para quê devem fazer, com quem devem fazer. Cada um dos elementos desse sistema precisa do outro, o autor, o editor, o leitor, os livreiros, os distribuidores, e, talvez o mais importante e maior elemento de tudo isso, o Estado.

Quase no fim, cito uma frase dita por Lília Momplé, em 2007, no Instituto Superior de Relações Internacionais – ISRI, durante as celebrações do dia do livro e dos direitos do autor: “não há ideia de que Moçambique precisa de livros”.

Nota-se, em Soraia Tavares e em Fiódor Dostoiésvky, não apenas ideias brilhantes, mas a sensação de que a beleza, de facto tem capacidade, é um instrumento de salvação. Mas aqui, “La Famba Bicha”, mostra-nos que é como se “a fila andasse do lado ondes eles estão”. Eles quem?

Chegado aqui, tenho muitas dúvidas de que a beleza, a beleza dos livros, nas condições em que estamos, realmente poderá salvar o mundo.

 

 *Texto adaptado da conversa com o título: O caminho do livro – editoras e autores, de 28 de Julho, na Casa do Professor, em Maputo.

Por: Cri Essencia

 

Depois do fiasco dos livros escolares em Moçambique, tudo leva a crer que há colonos a determinarem como devemos vestir e que penteados usar nas instituições moçambicanas.

Conforme podem ver na amostra fotográfica, o cabelo natural de mulheres negras é proibido no Banco de Moçambique.

Numa era em que o mundo negro reclama e aclama por identidade própria (da qual o cabelo crespo/carapinha faz parte), que dela durante séculos foi obrigado a prescindir perante a hegemonia branca, em África, o continente de onde o negro é oriundo, faz-se um movimento contrário, possivelmente com o objectivo de nos tornar em ilhas caribenhas ou América Latina, onde o negro é praticamente proibido – ponto.

Qual é o projecto em causa? Tornarmo-nos num país de cabelo liso? Quem é que está por detrás deste plano? E por que é que o pessoal do banco não reparou na política por detrás destas restrições?

Lá está, a velha história inconsequente do “qual é o problema?/não tem mal nenhum!” característico da ignorância moçambicana; táctica para se desfazer do desconfortável/transparecer ser-se boa pessoa, e voltar ao normal de um igualmente inconsequente “está tudo bem”.

A culpa é obviamente do sistema de ensino, que não nos ensina o que somos, o que é nosso, o que é susceptível de ameaça externa (incluindo a nossa essência) e por tal, devamos defender com toda a garra, e como devemos proceder à tal defesa. Não aprendemos que o conceito de agressão não se restringe à integridade física de impacto imediato.

Esta política do Banco de Moçambique lembra-me muito a política de branqueamento no Brasil (através da qual, se devia extinguir a raça negra por via da procriação). Sim, entre os anos 1888-1920, foi implementada tal política no Brasil. A marginalização do negro brasileiro até aos nossos dias, é também consequência dessa política. Um outro cenário notável que me vem à cabeça, são os EUA, onde muito recentemente (em Março de 2022) a Câmara dos Representantes aprovou uma lei (H.R.2116 – Creating a Respectful and Open World for Natural Hair Act 2022) que proíbe a discriminação contra o cabelo afro e todos os penteados que os negros tendem a usar, com o seu cabelo natural. A aprovação desta lei era necessária porque nos EUA ainda existiam regulamentos nas escolas e locais de trabalho, pelos quais, o cabelo carapinha era considerado inadequado e não profissional.

No mesmo diapasão, preocupa-me o reality show “Hair Reality Show” que passa na TVM. Não percebendo a necessidade de tal show (entretem e/ou ensina?) só posso alertar à necessidade de se evitar desmerecer o cabelo carapinha (ainda que numa manipulação psicológica – típica de agendas políticas), passando a mensagem de que o cabelo liso é que é bonito e adequado; que não promovam a branquitude, pois seria automaticamente agressão à negritude, tal como o é, o regulamento do Banco de Moçambique, pelo menos no que concerne à vestimenta e cabeleira africana “inadequadas”.

É irónico que o “inadequado” do Banco de Moçambique seja altamente antiético.

É caso para dizer que devemos alargar as áreas de cooperação com o Ruanda, para melhor compreendermos que o negróide não pode ser subjugado no seu continente.

 

 

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