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O País – A verdade como notícia

O livro Tornado, de Teresa Noronha, foi, uma vez mais, distinguido em Portugal. Desta vez, com o Prémio PEN. Trata-se de um prémio com tradição em Portugal. Ao longo dos anos, por exemplo, também foram laureados autores como José Saramago, Virgílio Ferreira, Agustina Bessa Luís e Lídia Jorge. Também por isso, naturalmente, a escritora está feliz, afinal, não estava nada à espera. “Este prémio é considerado dos mais importantes prémios anuais em Portugal, escolhendo dentre os livros publicados no ano anterior, aqueles que o júri considera os melhores. Sendo assim, é uma grande honra e um prazer, porque o livro partilha um pouco do meu país, mas também outras questões que considero ser importante pensar e questionar, questões da história, questões sociais, do lugar de cada um no mundo. Um mundo que gostaria que fosse mais equilibrado e sem tantas clivagens”, disse Teresa Noronha, reagindo à distinção do seu livro. Ora, mais do que a satisfação da autora, recuperamos uma entrevista, nunca antes transcrita, cedida pela autora de Tornado ao programa Artes e Letras da Stv, em Junho deste ano. Aos leitores que irão embarcar nesta viagem profunda sobre a História e as realidades moçambicanas, que não se esqueçam disto: “Todos nós carregamos marcas daquilo que somos e da nossa herança”.

Tornado é um livro sobre várias viagens: sobre o seu universo interior, sobre a nossa sociedade, sobre o tempo e sobre o espaço. É um livro de dor e que pode ser de esperança, dependendo da forma que o lemos. Como foi para si viajar sobre o universo ficcional aqui apresentado?

Este livro tem vários tempos e vários universos imagéticos que remetem, no fundo, para a vida, em termos gerais, e a posição do indivíduo em relação ao mundo que o rodeia. O que é crescer e o que é crescer com as condicionantes que nós temos à nossa volta, com a História do país onde nos inserimos, a nossa condição enquanto cidadãos deste mundo, em que lugar geográfico nos situamos e, portanto, em que universo simbólico é que também nos situa a nós. O olhar do outro situa-nos. Tudo isto é um bocadinho da nossa condição que nós vamos criando em relação àquilo que nos rodeia. Há tudo isso à nossa volta, com essas dores, mas também com as oportunidades que essas dores nos fazem reposicionar para nos reafirmarmos.

Por isso mesmo, Tornado também é o que nos acontece?

O Tornado é aquilo que nos vai acontecendo. Portanto, nós entramos num turbilhão. A adolescência também é esse período de turbilhão, e nunca saímos iguais. O princípio do livro é um momento de luto, mas, depois, a personagem sai dessa condição. Portanto, depois desse movimento, que também é um movimento que fazemos na nossa memória, acabamos por nos posicionar. Nós falhamos muito durante a nossa vida, mas saímos disso um bocadinho melhor. Embora o livro pareça negro, como autora, eu tenho uma visão positiva do mundo. Nós não estamos piores; temos sempre é de nos reposicionar em relação ao mundo onde estamos, afirmando-nos como cidadãos, e acho que isso, quando é feito por todos nós, acaba por ser um movimento de construção de algo melhor.

Falou de memória e de construção. Como foi para si construir esta personagem e, através dela, reconstruir um certo contexto e uma certa imagem de Moçambique?

Esta personagem carrega consigo a história e tem marcas de que não consegue livrar-se. Ela nasceu numa condição de filha de colonos, e vai ter de viver com isso e aceitar isso, no fundo. Portanto, não é uma história fácil. Todos nós carregamos marcas daquilo que somos e da nossa herança. A personagem vai-se procurar em vários espaços geográficos. Vai viver em França essa mesma condição… Ela é africana, mas não é olhada como tal. A pele dela é mais clara e confundida com uma brasileira. Ela nunca é aquilo que os outros pensam que é, mas vai ter de se confrontar com isso e não volta imediatamente para Moçambique, porque precisa de se encontrar primeiro, antes de regressar à sua terra. Ela precisa de aceitar aquilo que é. Nesse movimento, vai-se confrontar com várias situações e vai ter de sair de França fugida, porque deveria regressar a Moçambique, mas opta por não regressar. Ela vai-se tornar uma espécie de emigrante ilegal, e isso talvez a faça sentir o que os outros que não nasceram no “sítio certo” sentem. “Certo” no sentido mais favorável do mundo. Isso tudo é uma aprendizagem e uma iniciação. Este Tornado é também uma viagem iniciática por essas situações e também difícil.

No livro, temos a morte presente. É uma forma de pensar a vida?

O primeiro capítulo é muito forte. É um livro de luto e, às vezes, isto é tão forte que faz esquecer outras componentes. Mas, de facto, a morte faz parte da vida. É uma coisa que, muitas vezes, a evitamos pensar, mas esta personagem teve de confrontar-se com isso, talvez, num momento em que não estava muito preparada para o fazer. Ela tinha 18 anos quando o irmão morreu de uma forma trágica. Ele suicidou-se. Isto levou a uma série de questionamento sobre a vida e a morte e a estas situações que estão por trás da nossa vivência. Ela ainda não tem maturidade para dar respostas e deixa muitas perguntas em aberto, e o leitor terá, se calhar, de encontrar respostas que ela não dá. Mas, se calhar, talvez nem haja respostas a dar. Perante a morte, que tipo de resposta podemos dar?

Então, quis trazer uma espécie de debate identitário através da personagem?

Sim. Eu penso que, em Moçambique, passamos por várias etapas. A primeira etapa, de Moçambique independente, afirmava-se que éramos todos iguais, que tínhamos todos os mesmos direitos e que tínhamos a mesma condição. Isso, de alguma maneira, escondia que nem todos vínhamos do mesmo sítio, que todos carregamos uma história e quer queiramos quer não, apesar de todos desejarmos que estejamos a viver em comunhão, isso não deixar de existir. Não é porque não falamos de um assunto que este deixa de estar lá. Este livro procura, de alguma forma, trazer à superfície algumas questões que nunca foram claramente enumeradas. Eu acho que nomeá-las é, se calhar, um princípio para podermos passar para uma fase seguinte, em que cada um aceita a sua herança. Mas isso não é um problema e não constitui um entrave para nos entendermos. É preciso aceitar, e acho que nomear é o primeiro passo para aceitar.

Ao mesmo tempo que vai explorando e reconstruindo essa identidade, temos uma narradora que explora muito bem os espaços. Parece a voz que faz a narração funcionar como ponte que aproxima os espaços distantes uns dos outros…

É verdade. Eu acho que essa narradora procura exactamente isso, o cosmopolitismo. Esta situação trouxe-nos, de alguma maneira, a globalização e a possibilidade de podermos incorporar vários espaços, várias culturas, sem deixarmos de ser quem somos. Então, acho que sim, que esses movimentos de incorporação de vários espaços estão aí presentes. Ao conseguirmos ultrapassar a barreira de sermos, de nos cristalizarmos como apenas de um sítio, nós conseguimos estar facilmente uns com os outros.

Esta narradora conta a história como se estivesse a comunicar connosco, mas também como se estivesse a comunicar com o seu irmão que partiu. Do ponto de vista de definição do estatuto do narrador, debateu-se sobre como a narradora nos contaria a história?

Sim, isso não apareceu imediatamente. Aliás, é engraçado, porque o irmão apareceu mesmo no fim, quando eu estava à procura de fazer esta interpelação. Eu já tinha vários blocos que iriam constituir o livro, mas não tinha um fio condutor. Ainda estive hesitante entre dois interlocutores, entre o irmão e uma personagem que seria uma amiga. Não tinha a consciência plena, mas sabia que isso era importante, essa definição de quem é que está do outro lado a ouvir a narradora. Se eu tivesse escolhido um outro interlocutor, talvez o foco do leitor teria sido outro. Portanto, tenho a consciência plena de que, ao ter definido o irmão como interlocutor, aquilo que os leitores vão ler, é mais a história do luto do que outras histórias. Se tivesse tido um outro interlocutor, talvez o olhar dos leitores tivesse pousado numa das outras histórias que compõem o livro.

Este livro levou muito tempo a ser escrito e foi reescrito várias vezes, até que decidiu submetê-lo a um concurso. Chegou a sentir que o livro estava pronto, ou teve de decidir parar de o reescrever?

Quando fiz 50 anos, tive a consciência de que eu tinha de terminar este ciclo do livro. O livro passa por várias etapas e pretende fazer uma reconciliação da personagem consigo próprio. Portanto, percebi que tinha de fechar este ciclo se queria fazer mais alguma coisa além de escrever o livro composto por várias partes. Aliás, qualquer uma destas histórias, do irmão, do professor, da França, de Lisboa e da mãe, podiam ser livros separados. Mas, a um determinado momento, percebi que isto fazia sentido como uma viagem de construção identitária e que, portanto, não valia a pena estar a pensar em romances separados. Antes valia juntar tudo isso num só livro e, depois, se for o caso, desenvolver em outros projectos, com o desenvolvimento de algumas personagens que estão neste livro. Para decidir fechar o livro, passaram dois anos. Mas, até no fim, estive a ponto de decidir que isto não vale nada; vamos rasgar e começar de novo.

Ao fim de dois anos!

Essa insatisfação ainda estava presente e essa dúvida também faz parte do processo artístico.

 

E é boa?          

Pode ser boa e pode não ser. Tem de ser doseada. Se for em doses grandes, pode impedir-nos de andar para frente. Pode ser boa no sentido da exigência que nos colocamos na qualidade do que eu quero colocar para fora.

 

Há um excerto de que gosto neste livro. Diz mais ou menos assim: “Há feridas que não curam. As crianças também morrem de amor, de amor não correspondido ou da mentira. E, por mais que encontrem mil razões que o expliquem, nunca vão entender que aquele que as cativou abra, num momento e sem aviso, a porta do cativeiro.” (p. 30). Esta também é uma forma de recuperar o tema da infância, que marca a sua literatura, de modo a impulsionar-nos a alguma circunstância ou a algum lugar que até pode ser do futuro?

Sim. O Principezinho dizia que nós somos responsáveis por aquilo que cativamos. Realmente, as nossas feridas de criança e de adolescência são feitas, geralmente, por pessoas que mais amamos. E essas feridas carregamo-las até conseguir sará-las. Normalmente, só saramos as feridas com amor. Esta personagem viveu a primeira decepção com a avó, que não conseguiu mantê-la perto de si. Ela vive mais uma vez essa ferida quando se apaixona por este professor, que não é capaz de corresponder ao imenso amor que ela tem por ele. Eu penso que todos nós, ao longo da vida, temos estas feridas que nos fazem crescer. Temos de aprender a cicatrizar as nossas feridas para podermos tornar-nos mais humanos.

Há uma vantagem de ter fixado a narração em uma menina?

Talvez isso tenha dado uma voz que é universal. Todos nós passamos pela infância, todos nós crescemos e tivemos as nossas dores, alegrias e coisas que nos marcaram. Este território da infância permite um diálogo quase imediato com o leitor.

Esta menina, à medida que vai crescendo, vai activando em si diferentes focalizações, fazendo com que o leitor capte vários contextos em que se insere. Há aqui doses de realidade que precisou de revisitar para que a história ficasse tão verosímil?

Sim, sem dúvidas. Ao longo da escrita, houve várias coisas que eu tive de revisitar sobre o passado. Isso, talvez no inconsciente, passa para a forma de escrever. Ao revisitar lugares do passado, provavelmente, eu consegui descer novamente àquela condição de ser criança, ser inocente, de estar apaixonada. Isso tudo foi importante e foi quase uma psicanálise, em que a pessoas volta aos lugares da memória para poder caminhar para frente. Houve pessoas que não gostaram nada disso, que me disseram que o livro termina como se uma adolescente a escrever. Eu fiquei contente com essa crítica porque, de facto, se isso aconteceu, era mesmo isso que se pretendia. Como é que a escrita começa de uma forma tão madura e termina como se tivesse sido uma adolescente a escrever? Porque, dentro de nós, carregamos vários tempos. Nós não temos apenas um tempo.

Na apresentação do livro, Álvaro Carmo Vaz disse que o livro não nos traz uma sequência de acções cronológicas, porque os nossos processos, como humanos, não são assim tão cronológicos, mesmo quando estamos a contar uma história sobre a nossa própria vida. Esteve consciente de que tinha de ser assim?

Não, há muitos processos na escrita que são inconscientes. Nós fazemos e só a posterior é que nos damos conta. Há processos mentais em que o cérebro tem os seus próprios mecanismos e acaba por acontecer. Depois, vemos se o resultado funcionou ou não.

Muitas páginas cortadas…

Muitas, mas isso não lamento. Se calhar, até haveria mais a cortar. Já houve quem me dissesse que tinha algumas repetições, mas as repetições, às vezes, não fazem mal. Neste movimento de tornado, aparentemente, voltamos ao mesmo sítio, embora já não esteja exactamente no mesmo sítio. É como se fosse uma espiral.

Outra passagem: “Também eu, não entendo tudo o que conto. Só relato. Tudo se passou noutro tempo, noutra vida” (p. 52)…

Às vezes, há a sensação de que as coisas já não nos pertencem, porque nós já não somos aquela criança, aquele adolescente. Mas isso não deixa de estar dentro de nós. Carregamos e, ao mesmo tempo, já não carregamos.

Como saiu desta escrita?

Só me dei conta mais tarde, mas acho que saí outra pessoa, mais leve, mais feliz. Acho que houve muita coisa que ficou no livro. Talvez seja por isso que as pessoas dizem que é um livro tão duro, tão difícil. Muita sobrecarga que estava dentro de mim, passou para o livro.

O livro é Prémio Literário Maria Velho da Costa, em Portugal. Esta distinção fez-lhe perceber que tinha alcançado o que propôs escrever?

Sim, houve também esse alívio. Quando colocamos alguma coisa cá fora, nunca sabemos o que o outro vai pensar. É sempre um tiro no escuro. É sempre surpreendente aquilo que o leitor vai encontrar no livro. Muitas vezes não é aquilo que a pensávamos que encontraríamos. O relevo que dão às coisas é diferente daquele que nós damos. Acho que o prémio dá algum alívio. Pelo menos houve um grupo de pessoas que entendeu que o livro valia a pena. Isso é sempre bom, porque, de certa maneira, confirma que não era para estar na gaveta, era para vir cá para cima.

Trabalha com crianças há alguns anos e a sua escrita também contempla muitas personagens infantis. O seu lado didáctico, pedagógico ou editorial interfere no seu processo criativo?

Não. Eu separo muito bem a parte de edição da parte de escrita. Se eu fosse editora da minha própria escrita, se calhar não seria bom juiz. Quando voltei para Moçambique, sabia que devia deixar alguma coisa para o país. Se calhar, ainda vivo aquela utopia, porque nós vivemos numa altura única, em que acreditamos que cada um de nós está aqui para dar um pouco de si. Eu senti que tinha vivido fora e que, ao voltar, tinha de deixar alguma coisa e este trabalho editorial tem-me permitido fazer este movimento de construir algum acervo que acho importante para as crianças. Se calhar, é uma falta de modesta. Mas penso que dentro da nossa responsabilidade social, temos que dar o nosso melhor.

Na literatura também cabe a responsabilidade social?

Na literatura também cabe a responsabilidade social, cabe despertar para o universo com algum deslumbramento, em que a palavra tem um valor simbólico. Penso que é importante que as nossas crianças se deslumbrem com a arte, as imagens. Estes lugares mágicos fazem parte do universo das crianças e é importante que vivam o universo da literatura.

E é a partir desse regresso a Moçambique que passa a editar infanto-juvenis na Escola Portuguesa…

Eu tive a sorte de a Escola Portuguesa ter-me dado espaço para isso. Posso dizer que é uma sorte porque nós estamos num país em que o mercado editorial ainda é emergente e não há tantas editoras e não é fácil que do ponto de vista comercial uma editora, num mercado tão restrito, com baixo poder de compra e sem o Estado a apostar nas bibliotecas públicas, editar e continuar a editar. Alguns tentam, mas, depois, têm de parar porque há vários obstáculos, o que não cria um mecanismo fluido. Eu tive a sorte de calhar numa instituição em que apostar na literacia é uma das missões e que me tem dado espaço para com os artistas e com os escritores criar alguma coisa.

Qual é a vossa linha editorial?

Nós começamos por ser generalistas. Mas, aos poucos, percebemos que o campo das histórias tradicionais poderia fazer a ponte com escolas e fazer dinamização com as leituras, juntando a oralidade e a escrita. Percebemos que os livros têm de ser trabalhados.

Por que é importante explorar a oralidade?    

É muito importante porque é eficaz, faz com as crianças percebam que nas histórias há emoções e valores.

Quatro desses livros editados pela Escola Portuguesa foram considerados, em 2018, “Altamente recomendáveis” no Brasil. Refiro a O pátio das sombras, de Mia Couto, Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo, O caçador de ossos, Carlos dos Santos, e Leona, a filha do silêncio, de Marcelo Panguana. Fere-lhe estes livros passarem “despercebidos” em Moçambique?

Não deve ferir. Há que perceber por que isso acontece, há que ter consciência de que há vários factores que limitam o acesso das pessoas aos livros. É preciso trabalhar nesse sentido, com instituições que fazem chegar o livro às pessoas. Por exemplo, o Fundo Bibliográfico e instituições não-governamentais e com as escolas.

Alguns livros editados pela Escola Portuguesa estão a ser editados no Brasil. Isto está a dar alguma visibilidade ao projecto?

Sim, penso que está a ter um bom impacto porque no Brasil há um grande movimento identitário em relação às origens dos brasileiros, uma reivindicação de uma parte da sua africanidade. Este desejo de levar autores moçambicanos e africanos para o Brasil tem um bocadinho a ver com este movimento. Isso permite-nos dar um passo e dar a conhecer autores.

Um dos melhores livros do ano, em Moçambique, foi editado pela Escola Portuguesa, O menino que odiava números, de Celso Cossa. Como foi recebida esta boa novidade?

Tem duas coisas que são favoráveis. Uma delas é o reconhecimento da importância do livro juvenil. Por outro lado, para mim, o reconhecimento da Escola Portuguesa enquanto parceira nesta parte editorial. Sabemos que nem sempre estes reconhecimentos são fáceis. Mais uma vez carregamos o peso da História e penso que temos de começar a desconstruir isso tudo porque o Celso tinha um livro didáctico e que é possível os jovens identificarem-se com aquela personagem e perceberem que os problemas com a Matemática não são só deles. É um livro cheio de humor e que brinca com as situações, com muitos enigmas e muitas charadas.

É autora do infanto-juvenil A viagem da Luna. O que quis fazer desse livro?

Não quis fazer nada. Quer dizer, quis apenas contar uma história. Quando estamos a contar uma história a uma criança, ela pergunta e depois. E vai puxando o fio do enredo e nós temos de encontrar o que vem depois. E esse vem depois pode ser de uma determinada maneira. E este fio depende da nossa vivência e do nosso imaginário. Eu não quis fazer nada, eu quis contar uma história às minhas filhas. E esta história levou a esta viagem da personagem, de alguma maneira iniciática, em que a personagem se descobre a si própria. Ao mesmo tempo que a Luna aceita ser diferente, isso não a afecta. A partir desse momento, a história dá uma reviravolta.

E essa coisa do diferente repete-se em Tornado, de alguma forma.

Repete-se e, não será, com certeza, por acaso. Eu também sou produto de uma miscigenação. Tenho raízes em Portugal e Goa e nasci aqui. Portanto, tenho um triângulo identitário.

Há dias, conversei com a escritora Andreia Edna da Silva. Ela dizia que começou a escrever o primeiro livro como consequência das histórias que contavam ao filho. Tomou o gosto e tirou o livro. Foi assim consigo em A viagem da Luna?

Foi assim. Tenho muita pena de não ter registado outras histórias, porque teria mais livros para editar. Quando temos aquele caderninho disciplinado do escritor em que registamos as ideias, no dia seguinte acordamos e já não se lembra. Mas desta vez consegui registar e vou prometer que vou ser mais disciplinada e que vou começar a ser mais sistemática.

Por que é tão bom escrever e editar livros?

Escrever nem sempre é bom. Escrever implica disciplina, sofrimento e implicação. Às vezes, fogimos porque sentimos demasiado peso da responsabilidade. Eu evitei publicar antes porque sabia que me iriam cobrar sobre o que vem a seguir. Agora já não tenho como fugir, terei de corresponder. É bom quando escrever quando percebemos que do outro lado aquilo teve significado para o leitor. Isso é uma coisa completamente inesperada. É o factor surpresa. Nós nunca sabemos o que é que as nossas palavras podem provocar no outro.

Quanto à edição?

A edição é um trabalho de bastidor. Quem fica com o filho é o autor. O editor é apenas uma peça do processo até o livro ficar pronto. Acho que é muito gratificante durante o processo. É muito bonito trabalhar com autor, mas nem sempre. Há os que reagem mais. Mas, em geral, é muito bom trabalhar com os autores, sobretudo jovens, que os antigos já têm as suas ideias muito cristalizadas. Os jovens estão muito abertos às críticas.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Museu da Revolução, de João Paulo Borges Coelho, e Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez.

A escrita criativa e a crítica literária é o tema do 32º Curso de Literaturas em Língua Portuguesa, que se realiza de 24 a 26 deste mês de Outubro, das 18h00 às 20h00, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

Segundo avança a nota de imprensa sobre o evento, o Curso de Literaturas é a iniciativa cultural mais antiga do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, realizada em parceria com a Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), que, em edições anteriores, trouxe a Maputo autores como José Saramago e Lídia Jorge, ou, mais recentemente, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, David Machado, Pedro Mexia, Alexandra Lucas Coelho e Joana Bértholo.

Com o Curso, avança a organização, pretende-se promover a leitura e o sentido crítico dos leitores, bem como proporcionar um espaço de debate e contacto com escritores ou académicos convidados.

A 32ª edição do Curso de Literaturas em Língua Portuguesa destaca “A escrita criativa e a crítica literária”, numa abordagem transdisciplinar da escrita literária. O programa do Curso decorre durante três dias, em período pós-laboral, e conta, geralmente, com um grande número de participantes, entre estudantes, escritores e uma comunidade profissional variada. Para esta edição do Curso de Literaturas, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo convidou Lúcia Vicente, historiadora, escritora e actriz portuguesa.

No dia 24 de Outubro, a abrir o programa do Curso, a convidada Lúcia Vicente partilhará a sua experiência na área da escrita criativa, e na residência literária que está a realizar em Maputo. O painel será repartido com o escritor Eduardo Quive, também participante no mesmo programa de residências, e contará com a moderação de Eliana N’Zualo.

O dia seguinte, 25 de Outubro, será dedicado ao tema “Escrever sobre literatura”, com apresentações dos docentes da Faculdade de Letras e Ciências Sociais (FLCS) da UEM, Albino Macuácua, Lucílio Manjate e Osvaldo Neves. Esta sessão contará com a moderação do jornalista Elton Pila.

A finalizar este programa, o dia 26 de Outubro será dedicado ao tema “O papel da crítica na produção literária”, com partilhas entre António Cabrita, Francisco Noa e José dos Remédios. A última sessão do Curso de Literaturas será moderada pela leitora do Camões, Conceição Siopa.

A participação no 32º Curso de Literaturas é livre, mas caso se pretenda certificado de participação no Curso, deverá ser feita uma inscrição prévia, entre 10 e 13 de Outubro, e assistir a todas as sessões do Curso. As inscrições poderão ser feitas na Biblioteca do Camões – Centro Cultural Português em Maputo ou na secretaria da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane.

A Universidade São Tomás de Moçambique inaugurou, este sábado, o primeiro memorial que conta a vida e obra de Dom Alexandre dos Santos, falecido a 29 de Setembro do ano passado. Os mentores dizem que a iniciativa visa eternizar os feitos do arcebispo.

Segundo mentores, este é o primeiro memorial no país que fala, ao detalhe, da vida e obra do primeiro sacerdote e cardeal católico moçambicano, Dom Alexandre José Maria dos Santos.

Inaugurada este sábado e já aberta ao público crente e não crente, a obra é iniciativa da Universidade São Tomás de Moçambique e da Fundação Cardeal Dom Alexandre e visa, acima de tudo, imortalizar as acções de um homem de fé imensurável, segundo explicou o presidente do Conselho de Administração da Fundação Dom Alexandre dos Santos, Venâncio Chirindza.

“Neste memorial, encontramos a história de um homem que viveu na igreja e para a igreja. Existe a história desde o seu nascimento, formação religiosa, peregrinação como padre, cardeal, até arcebispo. A ideia era perpetuar a sua memória, tentar deixar uma memória escrita, num espaço que possa servir para reflexão para as comunidades religiosas, para virem cá falar com ele”.

Segundo o gestor, o espaço foi estabelecido de tal forma que qualquer um que por ali passar entenda a razão de tanta exaltação da figura do arcebispo.

Entre a fé e a educação, o antigo arcebispo-emérito de Maputo, também dedicou sua vida à formação do homem, e um dos seus feitos foi a fundação da Universidade São Tomás de Moçambique.

Dom Alexandre sempre acreditou que não bastava estudar a ciência. Era necessário, também, saber ser e estar consigo e com Deus.

“Dom Alexandre foi, é e vai continuar fonte de inspiração para todos nós. E nós, na USTM, achamos que precisamos desta inspiração, e a melhor forma de criarmos esse ambiente foi através deste memorial. Não se trata de um museu morto, mas sim de um memorial vivo, por isso, reunimos os melhores momentos, palavras e lugares que ele visitou, porque achamos que todos podemos passar por aqui e falar com Dom Alexandre”, disse Joseph Wamala, reitor da USTM.

Quem viveu de perto a sua caminhada na fé diz que abrir a porta do memorial é como o abrir de um livro. Um livro que inspira não só quem viveu as histórias, mas também quem foi fazer uma visita para conhecer de perto os feitos de Dom Alexandre.

“Tentaram juntar, aqui, peças da vida do cardeal, que nos fazem recordar o seu percurso humano, religioso e como cidadão moçambicano. Esta iniciativa, que é feita após um ano do seu desaparecimento físico, demonstra que há interesse em perpetuar a memória deste homem, preservar o seu legado para o transmitir, sobretudo, às gerações mais novas”, partilhou Arlindo Lopes, um dos visitantes do memorial.

Esta homenagem acontece um ano depois da morte de Dom Alexandre dos Santos.

Às 11h30 deste sábado, no Hotel Trópico, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, Ungulani ba ka Khosa irá reflectir sobre literatura com outros autores africanos de referência, designadamente, Germano Almeida, Tony Tcheka e José Luís Tavares.

Entre 6 e 8 deste mês de Outubro, a capital cabo-verdiana é o grande palco do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. Sob o lema Insularidade e universalidade na literatura, a iniciativa da União das Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) reúne vários autores africanos de referência. Além de Ungulani ba ka Khosa, de Moçambique irá intervir Mia Couto. O autor de O caçador de elefantes invisíveis foi convidado a dar saudações na sessão de apresentação do Prémio de Revelação Literária UCCLA-CML, na qual, igualmente, serão apresentados dois livros premiados este ano.

Quanto ao autor de Gungunhana, irá reflectir sobre o tema “Processos de criação literária e de edição”. O mesmo painel integra Germano Almeida, Jorge Carlos Fonseca, José Luís Tavares, Tony Tcheka e, via online, irá participar Amadu Dafé, numa moderação de Augusta Teixeira.

Para Ungulani ba ka Khosa, não sendo abrangente, já que uma vasta zona do continente não está contemplada, a iniciativa é importante porque aglutina escritores que têm o português como língua de escrita. Por isso mesmo, para o ficcionista, o Encontro de Escritores de Língua Portuguesa “é um momento ímpar de troca de informações sobre o mundo editorial”.

Referindo-se à importância do evento da UCCLA, Ungulani ba ka Khosa lembrou que a grande deficiência nas literaturas africanas de língua portuguesa é a falta de acesso às grandes editoras, que, de certo modo, ditam o cânone das nossas letras. Assim, a questão que o autor coloca é: “Como quebrar isso?”.

Sem avançar com alguma resposta antecipada, Ungulani ba ka Khosa afirmou que a sua intervenção vai no sentido de encontrar outras plataformas de contacto entre as pequenas e médias editoras dos PALOP e a necessidade de se ter feiras de livros entre os PALOP. “É intenção minha fazer o lobby de modo a levar o próximo encontro a Moçambique. É preciso que os novos autores entrem neste grande debate”.

Na edição deste ano do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, em Cabo Verde, também participam autores como José Eduardo Agualusa (via online), Lopito Feijóo, Inocência Mata, Sheila Khan, Vera Duarte e Válter Hugo Mãe. No último dia do evento, sábado, irão intervir, na sessão de encerramento, o Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, e o Ministro da Cultura, Abraão Vicente.

Por Valério Maúnde

 

No sofá da sala comum, está Jolson, professor de História numa escola que, mais do que privada, é para poucos, para os nascidos em maternidades prateadas e crescidos em berços de ouro, ou seja, rodeados de metais nobres, assim designados por apresentarem pouca reactividade e, por conseguinte, serem mais resistentes à oxidação, contrariamente ao ferro que reage mais facilmente ao oxigénio, o que resulta em menor resistência à oxidação.

Finda a aula gratuita de química, retomemos o assunto de partida, que é sobre o que o professor Jolson fazia sentado no sofá da sua sala. Como podem imaginar ou supor, ele está a ver televisão, tentando encontrar algo que o ajude a relaxar da estafante jornada laboral, pois, ao contrário do que muitos podem ser tentados a pensar, a escola em que trabalha, embora privada, não o priva de stresses e dissabores, pois quanto mais doirado o berço onde cada aluno cresceu, mais negro tende a ser o seu comportamento.

Dizemos negro cientes da questão racial implícita neste adjectivo, mas não fomos nós que, séculos atrás, forjámos a língua e associámos a cor negra à negatividade e ao mal. Todavia, para equilibrar a balança, talvez valha referir que branco também pode ter uma conotação negativa, como em “estar ou ter um branco”, que significa não estar a par ou não se recordar/reconhecer um dado assunto. Também é branco o verso não rimado.

Voltando ao professor Jolson, ele tem o controlo remoto na mão e vai pulando de um canal para o outro, tentando encontrar um programa que valha a sua atenção e tempo. E sim, dissemos controlo remoto e não controle remote, porque é daquele jeito que se chama e não deste.

Com o olhar fito no telão da sua TV de 54 polegadas, um programa, aparentemente, de entretenimento fá-lo parar. Logo na abertura, o apresentador anuncia o seu nome. Trata-se de um tal puto…, mas com aparência de adulto. Jolson ignora a antítese do nome e da aparência e escuta os destaques do programa do dia. Passados mais de dez minutos e não vendo o desenvolvimento de nenhum deles, senão repetição, divagação e sensacionalismo, Jolson considera a sua primeira tentativa sem sucesso e pula para um outro canal que, por coincidência, também tem como apresentador um outro puto…. Jolson chega a supor tratar-se de um programa infantil, visto que, além de um apresentador puto, como o primeiro, tem também uma apresentadora boneca.

A sua suspeita cai logo por terra ao perceber que, em tudo, o segundo programa se assemelha ao primeiro. São como duas gotas de tão parecidos. Jolson rende-se à repetitividade de conteúdo e de abordagem e decide acompanhar este último até ao fim. Em pouco tempo, são abordados vários tópicos aleatórios, mas com um denominador comum: o populismo e o sensacionalismo que encerram. Neles, os apresentadores começaram por reiterar as condolências à família real que perdera a sua imortal rainha. Eram de tal maneira sentidas as condolências que Jolson chegou a julgar que os apresentadores tinham estado nas Barracas do Museu ou no Pulmão com a finada a beber umas. Mais adiante, deu-se destaque a um irmão nosso com nome chinês, que se tornara importante por namorar uma afamada cantora da praça. Ele virara uma personalidade por isso. Por fim, os apresentadores lastimaram infinitamente o facto de um cantor americano (que, a ter nascido na Mafalala ou em Chamanculo, se chamaria Riquito) ter feito pouco caso da imprensa e dos seus pares moçambicanos. Ainda pior, Riquito recusara-se a dar tratamento especial até aos que tinham adquirido um bilhete VIP a seis mil meticais. Riquito agira com a frieza característica das meretrizes, que não se comovem e têm os olhos fitos, não no prazer, mas no benefício monetário que vem após o dever.

Em jeito de fecho, importa desculparmo-nos aos leitores que tinham a expectativa de encontrar, entre os parágrafos acima, uma crónica com sentido, relevante e capaz de influenciar e transformar positivamente as mentes dos que a lêem. Pelo contrário, esta crónica imita e homenageia a sociedade dos nossos dias, e destaca-se por ser dispersa, desconexa e superficial, como são os conteúdos que, com prazer, ingerimos, partilhamos e debatemos todos os dias!

 

Os vencedores da edição 2021/ 2022 do Prémio Literário Fernando Leite Couto, Maya Ângela Macuácua e Geremias Mendoso, embarcam a Portugal para uma série de actividades que irão desenvolver ao longo de um mês de estadia.

De acordo com a Fundação Fernando Leite Couto Maya Ângela Macuácua, autora do romance “Diamantes pretos no meio de cristais”, e Geremias Mendoso, autor do livro de contos “Quando os mochos piam”, farão lançamentos das suas obras naquele país ibérico, terão uma residência literária na Câmara Municipal de Óbidos durante 30 dias e participarão no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos.

A partir da edição passada que os vencedores do Prémio Literário Fernando Leite Couto, além do valor pecuniário de 150 mil meticais, oferecido pelo Moza Banco, têm a possibilidade dessa troca de experiências com escritores portugueses, escritores africanos a residirem em Portugal e de outros quadrantes do mundo, em resultado de uma parceria com a Câmara Municipal de Óbidos, tendo sido Otildo Justino Guido, que levou o galardão com o livro de poesia “O silêncio da pele”, a inaugurar este novo ciclo do Prémio.

Lançadas no dia 30 de Agosto deste ano, as obras vencedoras retratam imaginários distintos, não obstante a proximidade geracional dos seus autores, facto que evidencia a diversidade do mosaico cultural moçambicano.

“Diamantes pretos no meio de cristais”, de Maya Ângela Macuácua, ficciona cenários de segregação racial em Moçambique, na África do Sul e nos Estados Unidos, numa viagem por diferentes tempos.

Em “Quando os mochos piam”, Geremias Mendoso oferece uma série de contos que exploram o folclore moçambicano com uma dose sabiamente equilibrada de humor.

No anúncio dos vencedores do Prémio, a 18 de Abril, o júri, presidido por Francisco Noa, integrado igualmente por Conceição Siueia, Conceição Siopa, José dos Remédios e Albino Macuácua, atribuiu ainda menções honrosas a Fernanda Vitorino do Rosário Mualeia João, pelo romance “Amor em tempos incertos”; Wasquete Jasse Fernando, pela novela “Noites de desassossego”, e Adelino Albano Luís, que escreveu a colectânea de contos “Estórias trazidas pela ventania”.

O prémio já laureou dois poetas, Macvildo Bonde, com “A descrição das sombras”, em 2017, e Otildo Justino Guido, com “O silêncio da pele”, em 2019. Em 2018, o júri decidiu não atribuir o prémio, pois nenhum dos candidatos reunia os requisitos de qualidade exigidos como critérios de premiação.

O prémio criado pela Fundação Fernando Leite Couto está a crescer, de modo que, além do Moza Banco, que já o patrocinava, passou a contar, igualmente, com as parcerias da Câmara Municipal de Óbidos, do Camões Instituto de Cooperação da Língua Portuguesa em Maputo e da Câmara de Comércio Portugal Moçambique.

A partir do dia 7 do corrente mês, Os Tuneza de Angola irão realizar seis espetáculos em seis cidades moçambicanas. De acordo com a nota de imprensa sobre a digressão do grupo angolano em Moçambique, Os Tuneza escalarão as cidades de Maputo, Xai-xai, Vilankulo, Beira, Chimoio e Tete, com intuito de animar e fazer também vários intercâmbios com comediantes nacionais.

Ainda em Moçambique Os Tuneza vão facilitar uma oficina criativa na XHUB, no dia 17 de Outubro, entre as 10 e 12 horas para os estudantes da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane.

A XHUB e o ImproRiso Moçambique, entidades envolvidas na produção dos espectáculos de Os Tuneza, assinaram, recentemente, na Incubadora de Negócios Culturais e Criativos, um memorando de entendimento que visa facilitar o processo de intercâmbio de comediantes e também para realizar com regularidade, semanalmente, concertos de Comédia Stand Up com diversos humoristas da praça moçambicana e estrangeiros.

A X-Hub é um projecto financiado pelo Sound Connects Fund, uma iniciativa da Music In Africa Foundation (MIAF) e do Goethe-Institut. O Sound Connects Fund é possível com financiamento do ACP-EU Culture Programme, um projeto implementado pelo Secretariado do Grupo de Estados de África, Caraíbas e Pacífico (ACP) e financiado pela União Europeia (UE). O Fundo também é co-financiado pelo Goethe-Institut e pela Siemens Stiftung. As tintas CIN também são parceiras do projecto.

 

Semana passada, terminaram as gravações de um novo seriado sobre o quotidiano nas áreas de conservação em Moçambique, de Licínio Azevedo. “A natureza dos homens e dos animais” contém um conjunto de seis episódios de 25 minutos cada um e a série é inspirada na convivência, dinâmica e nos conflitos do quotidiano vivenciados no interior e nos limites das áreas de conservação, envolvendo as comunidades locais e os animais selvagens.

A Ebano Multimedia é a empresa responsável  pela produção, com Licínio Azevedo como Director, co-adjuvado por Gabriel Mondlane e com direcção de fotografia de Jesus Sanjuro. A  direcção  de produção ficou a cargo de Jorge Ferrão.

O seriado foi rodado ao longo de seis semanas e decorreu na Reserva Especial de Maputo, que no filme foi designado por Parque dos Elefantes, e teve nas comunidades de  Madjadjane os actores principais. Os fiscais do parque e os caçadores furtivos fazem parte da cinematografia e estiveram envolvidos ao longo das várias semanas em que a série foi gravada.

A série  é uma espécie de documentário drama, por vezes ficcional,  e retrata o drama de quem tem de conviver com os animais selvagens de grande e pequeno porte, todos os dias, as soluções e alternativas que encontram e ainda o apoio que recebem das forças estacionadas no interior dos parques nacionais.

Moçambique  possui uma diversidade de ecossistemas e, ao longo dos anos, foram criados mais de oito parques nacionais, oito reservas nacionais ou parciais, 12 reservas florestais, duas áreas  de protecção especial. Existem, igualmente, mais de 18 coutadas com gestão pública, privada e comunitária,  onde ocorrem o turismo cibernético. Estes ecossistemas são potencialmente ricos quer em recursos da biodiversidade, como em recursos minerais e até energéticos.

No seu interior residem milhares de agregados familiares que passam por momentos de pura alegria, mas, também de evidente  tristeza e pânico. A população humana e de animais tem aumentado, nos últimos anos, na mesma proporção que os problemas que se registam, muitos deles bem conhecidos, outros, nem por isso. Os maiores conflitos prendem-se ao uso destes recursos e espaços, mas, igualmente, ao entendimento sobre como e quando estes recursos devem ser usados.

As áreas  de conservação são, igualmente, espaços onde a mitologia ganha contornos muito para além  dos normais.  Existem crenças de que muitas das pessoas que morrem no interior ou em regiões próximas, transformam-se em animais e regressam às regiões onde viveram. Eles são animais especiais e o seu abate pode representar tempos difíceis ou ainda a morte de quem os abateu. Os curandeiros ganham espaço nestas áreas quer para ajudar a resolver os problemas de saúde, criando vacinas contra as mordeduras dos animais, igualmente, propinando as convicções e condições que transformam os humanos em seres imunes às feras. Os animais destroem campos agrícolas. Toda esta realidade foi captada no seriado e reflecte uma realidade de todo o país. Esta produção será essencialmente baseada em histórias de vida de famílias que precisam de sobreviver com os escassos recursos disponíveis, porém, respeitam as leis impostas quer pela natureza como pelas autoridades administrativas locais.

Numa época que os oceanos estão em destaque, por um lado devido às mudanças climáticas, por outro  existe  uma considerável parte dos parques nacionais moçambicanas fazendo limites com o Oceano Índico, nesta longa costa de mais de 2700 km. A vegetação dos mangais se revestem de grande importância na estabilização dos ecossistemas marinhos e na própria  sobrevivência das comunidades que dependem dos recursos ali existentes. O seriado captou, igualmente, as realidades diárias destas regiões.

Finalizada a gravação e que contou com o apoio financeiro da USAID-Speed em colaboração com o BioFund e AMOCINE, seguem-se algumas semanas de edição e finalização. O lançamento deste seriado está previsto para a época festiva, finais de Dezembro de 2022, devendo os mesmos passar em canais abertos e fechados.

Com a série existe uma expectativa de que os jovens e estudantes, em particular, entendam melhor a natureza em seu redor e ganharem a consciência sobre a importância de conservação dos ecossistemas e o respeito que a natureza impõe. Na realidade, existe um pequeno grupo de crianças que participaram na gravação mostrando como tem sido arriscado frequentar as escolas estabelecidas no interior dos parques e das reservas.

De acordo com os produtores do seriado a intenção será a de ceder os diretos de transmissão  a  estações  emissoras fora do país, quer no espaço falante de português, como em canais que transmitem em inglês e francês, considerando que os seriado será traduzido nestas línguas.

 

Sinopse 

Numa terra de rara beleza, povoada por animais selvagens, dois grupos de homens com atitudes opostas se confrontam: os que velam pela preservação das riquezas naturais, em benefício de gerações futuras, e os que querem usufruir dessas riquezas no presente, para o seu próprio benefício. De um lado, fiscais da Reserva de Maputo, líderes comunitários conscientes da importância da Reserva, crianças que frequentam escolas e aprendem os segredos da conservação. Do outro, caçadores furtivos, traficantes de marfim, feiticeiros maléficos, comerciantes sem escrúpulos. Além de combater os inimigos da natureza, os defensores da Reserva têm a delicada função de harmonizar as suas acções com os interesses de camponeses das áreas vizinhas e proteger as suas machambas que, por vezes, são devastadas por elefantes.

Por Deusa d´Africa

 

A bem-aventurança não é feita de opulências, feixes de luz invadem a alma da pequena porção de terra alumiando a todos os seus elementos; é das entranhas dessa terra onde brota o arroz Wanbao entre outras culturas que concorrem ao património gastronómico da actual capital do Império de Gaza, concebida em 1897 sendo persignada como Chai-Chai, tendo ascendido a vila em 1911. No ano de 1922 torna-se a Vila Nova de Gaza e por conseguinte no ano de 1928 passa a ser designada como Vila de João Belo, ascendeu à categoria de cidade em 1961 e após a independência nacional retornou à sua antiga denominação sofrendo uma alteração na grafia anterior de “Ch” para “X” ou simplesmente Xai-Xai tal como actualmente se designa a cidade de luz e harmonia.

Em Xai-Xai há luz de dia e de noite, raramente o sol e ou a lua se ausentam, nesse cantinho do céu há ainda a preservar-se valores como “o homem vive do seu suor”, uma modelagem de vida para a construção de cidadania. Alguns homens sem alma a perfuram através das regiões circunvizinhas para apoderar-se de sua tranquilidade promovendo o furto de viaturas, um assunto que tem apoquentado aos citadinos, contudo, a luz que resplandece em cada rosto faz com que se desincentive práticas desgraciosas e inestéticas.

Quando o universo crepuscula, homens e mulheres fazem o coro do canto do galo numa chuva adolescente que cai sobre o corpo escultural de gente humilde que sonha com o pão que se ganha pelo suor derramado em diversos ofícios para garantir que não falte chima, xiguinha e mandioca em todas as mesas de todas as famílias.

A terra pernalta estende-se até aos braços do índico, paraíso de povoados de vizinhas nações que aos fins-de-semana tornam esta cidade num pequeno e grande céu onde todos sonham nele morar, sendo um corredor para quem navega em busca de outros territórios, através dos fios de cabelos de Samora Machel que crescem abrindo os caminhos da imensidão.

À outrora fora uma pequena cidade de gente sempre trabalhadora que migrava à cidades como Maputo, Nampula e entre outras em busca do tesouro científico, porém, hodiernamente a cidade possui uma riqueza de instituições de ensino superior em modelo presencial, semi-presencial e até à distância.

Outrossim, no passado havia cajueiros na zona apelidada pelo nome da antiga fábrica de processamento de castanha – Mocita que com a falência, as árvores mantiveram-se a reproduzir o pânico criando lendas como as de Casacos que levitavam de noite assim como de serpentes que reinavam na penumbra, entretanto, pela amabilidade de suas gentes a região fora transformada numa Nova Iorque edificando infra-estruturas públicas e privadas, o que faz com que a cidade mantenha-se acordada de dia assim como de noite.

Hoje, nestes sessenta e um sóis e luas desde a sua elevação à categoria de cidade, a harmonia continua a ser a luz que conduz Xai-Xai e veem-se novas feições como a praça do mineiro, a praça do metical, novos espaços verdes por todo o lado e alguns outros restaurados, a mulher exaltada em festivais municipais, a música coral, campeonatos desportivos de taekwondo e taça munical de futebol, festivais internacionais de poesia e entre outras que revelam a jovialidade e brandura como um tesouro que a urbe possui.

 

Bem-haja Xai-Xai!

 

 

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