O País – A verdade como notícia

Morreu o rapper norte-americano Coolio, autor do êxito de 1995 ‘Gangsta’s Paradise’ e vencedor do prémio Grammy. Não são conhecidas as circunstâncias da sua morte, suspeita-se que ele tenha tido uma paragem cardíaca.

Artis Leon Ivey Jr conhecido como Coolio, nome artístico, perdeu a vida nesta quarta-feira aos 59 anos.

Coolio nasceu a 1 de agosto de 1963. Em 1991, aos 28 anos, juntou-se à banda de ‘hip-hop’ WC e The Maad Circle.

Lançou a carreira a solo em 1994 com o álbum “It Takes a Thief”. A canção mais famosa, “Gangsta’s Paradise”, integrou a banda sonora do filme “Dangerous Minds”, de 1995, com a actriz norte-americana Michelle Pfeiffer.

A composição levou o “rapper” a conquistar um prémio Grammy, em 1996, para Melhor Performance Rap Solo.

O repper também actuou em filmes e séries televisivas como Martin (1995), Sabrina, a Bruxa Adolescente (1996), Batman & Robin (1997), Futurama (2001, 2010) e Gravity Falls (2012).

Por Mário Forjaz Secca

 

Um novo livro do Aldino Muianga é sempre um muito esperado evento literário em Moçambique!

Para quem gosta da escrita do Aldino, fica sempre a expectativa do próximo livro. O próximo deleite na sua leitura. E aqui temos um novo livro seu, “O Galo Ruivo”.

Demorou a ser lançado, mas finalmente viu a luz do dia.

Para termos uma percepção da morosidade do processo e deitar algumas achas para a fogueira começada na conversa da passada terça-feira aqui no Camões, num despique entre o Aldino e o Mbate, conto um pouco do meu envolvimento nesta história.

No dia 10 de Janeiro de 2020 recebi uma mensagem por WhatsApp do meu amigo Aldino. Nela Dizia:

“A novidade é esta: estou a preparar a publicação de uma colectânea de contos que estava a acumular poeira nas minhas gavetas há muito tempo. Tenho estado aqui a pensar quem poderia prefaciar esse volume. Depois de várias consultas achei que eras a pessoa mais indicada para esse efeito. Convido-te formalmente a juntar-te a mim neste novo projecto. Conto publicar no segundo trimestre deste ano. Aceitas o desafio? Queres juntar-te a mim à volta desta? Aguardo pelo teu parecer.”

Confesso que li várias vezes a mensagem e cheguei a pensar: “Que estranha literatura anda ele a ler pela África do Sul para pensar em mim para escrever o Prefácio?”. Mas depois de algumas trocas de mensagens extra convenci-me que o Aldino não tinha andado a ler nada de ilegal e realmente me queria a mim para escrever o Prefácio.

Claro que aceitei, apesar de grande dose de medo que me atacou.

E claro que me lembrei do que a minha Mãe me gostava tantas vezes de dizer desde jovem: um prefácio é um texto que se escreve depois de um livro ser escrito, é colocado no início do livro e ninguém o lê nem antes nem depois!

Mas, mesmo assim, não podia deixar de prestar esta homenagem ao Aldino, e humildemente, ter essa honra de escrever esse Prefácio e estar aqui a apresentar o último livro deste grande escritor. Dois anos e meio depois do convite inicial!!!

Um pouco na mesma linha da conversa de outro dia “Médicos & Remédios” começo por falar deste tema da ligação da Literatura e da Medicina, com tantos casos na literatura mundial de médicos que também são escritores e poetas.

Há os exemplos clássicos noutras línguas de Chekov, Somerset Maugham, William Carlos Williams, Louis-Ferdinand Céline e Stanislav Lem, e, em língua Portuguesa, os exemplos de Miguel Torga, Fernando Namora, António Lobo Antunes e Agostinho Neto. Moçambique, com a sua pujança literária actual, não podia deixar de ter a sua quota parte de médicos-escritores já conhecidos, como por exemplo, Mbate Pedro, poeta e editor, e Aldino Muianga, contista e romancista.

Vindo eu da Ciência em geral e da Medicina em particular e estando modestamente ligado à Literatura, não podia deixar de me interessar por estas curiosas pontes / ligações / hibridizações.

Pelo Mundo fora, e ao longo da História, a Literatura não foi feita apenas por pessoas formadas em Letras ou Literatura. Existem muitos escritores com áreas de formação muito diversas, como cientistas, engenheiros, economistas, advogados e mesmo auto-didactas. E também existem muitos médicos!

Mas se esse é o caso, porquê então essa admiração em especial por médicos escritores?

É fácil fazer generalizações. E se o meu interesse for a Medicina, poderei dizer: Muitos escritores são médicos!

Mas nem todos os médicos são escritores e nem todos os escritores são médicos.

Contudo há aqui uma ligação curiosa. Um médico já tem a sua vida tão ocupada pelo seu trabalho profissional que encontrar tempo extra para escrever requer organização, perseverança e amor à literatura. Só essa característica já seria interessante, mas penso que o mais importante aqui é o lado de contacto e observação humanas que a profissão de médico traz consigo e o que essa vertente pode trazer à escrita. Há um olhar clínico, humano, de saber olhar para o outro, de sentir o outro, que aprofunda a literatura. E outro dia o Aldino disse alguma coisa que pela primeira vez me abriu os olhos: um médico tem muitas vezes de fazer a história clínica do doente e muitas vezes, também, para chegar lá, tem de ouvir as histórias pessoais do doente. E que manancial de enredos poderá daí advir, imiscuído com a humanidade de saber ouvir e respeitar a história do doente.

O médico escritor Miguel Torga tem uma série de livros de contos sobre as pessoas do campo e da montanha. E eu não consigo deixar de ler os contos de Aldino Muianga sem pensar em Miguel Torga, porque o Aldino nos faz uma coisa semelhante, que é trazer o seu olhar humano para essas histórias que se passam fora da cultura citadina mais culta, fora dos ambientes em que a maioria dos leitores dos seus livros vive. Dá voz a pessoas que normalmente não têm voz literária e assim nos abre o mundo e o torna mais rico e profundo.

E a lembrança de Miguel Torga vem também pela partilha do estilo literário do conto. Esse estilo onde o escritor num número curto de páginas conta uma pequena história em pinceladas rápidas que nos abre uma pequena janela da vida das personagens e nos traz momentos e pensamentos das gentes que tantas vezes nos cruzam o caminho e não as sabemos ver e ouvir.

O Aldino tem 14 livros publicados, quatro romances, uma novela e nove livros de contos. Obviamente o conto é o principal estilo dele, o seu forte. E eu confesso que é esse o meu estilo de prosa preferido. Questões de gosto…

Em Moçambique, seguindo o movimento global em que as novas gerações literárias se vão modernizando cada vez mais e urbanizando cada vez mais, é muito bom haver escritores que contem histórias do mundo rural e suburbano, porque é essencial para manter viva essa história humana que faz um país, principalmente quando essas histórias são contadas por alguém com a visão humana de um médico.

Não vou fazer aqui uma análise do livro e dos contos, porque o pouco que disse de interesse já está no Prefácio do livro, mas posso dizer que este livro “O Galo Ruivo” é composto por setes contos que, de certa forma, vêm na sequência do anterior livro do Aldino “Os Funerais de Mubengane”, mas enquanto o livro anterior é mais focado no ambiente rural, este novo livro aborda mais o ambiente suburbano, aqui em Moçambique ainda muito marcado pela transição recente do campo para a cidade, acarretando consigo ainda muita da maneira de pensar e viver rural mas já moldado à vida na grande cidade. Um fantástico registo desta faceta da história de Moçambique!

Estava ontem a conversar com duas amigas sobre a força da Literatura para mudar o Mundo e se atentarmos a estes contos do Aldino, com toda a sua humanidade e calor humano, podemos compreender que, se muito mais gente lesse estes contos, poderia haver muito mais pessoas a olharem o mundo com mais compaixão!

Há pessoas que nos cruzam a vida e, de repente, sem sabermos porquê, nos inspiram admiração, respeito, confiança, proximidade e amizade. E o Aldino é uma dessas pessoas. Um amigo que me entrou na vida pela porta da frente e com muita naturalidade. E entrou para ficar!

Só espero que o Aldino continue na sua força literária a escrever por muito mais tempo e nos continue a brindar com estes livros que tanto enriquecem a literatura moçambicana.

Um grande abraço, meu querido amigo!

Maputo vai acolher o prestigiado festival africano de dança contemporânea Danse L’afrique Danse. O evento terá duração de seis dias e vai contar com 26 companhias de dança.

A capital do país vai acolher o prestigiado festival africano de dança, anunciou o conselheiro da acção cultural Laurent Vidal. “Depois de Luanda, em Angola, Antananarivo, em Madagáscar, e Uagadugu, em Burkina Fasso, a bienal da dança em África, iniciada pelo Instituto Francês, vai acontecer em Moçambique, em Maputo”, anunciou Vidal.

Em Maputo, o festival Danse L’afrique Danse vai decorrer em Novembro do próximo ano e vai contar com mais de 20 companhias de dança. Por isso, Quito Tembe, responsável pela organização do evento, afirmou que o país será conhecido internacionalmente através das artes.

“Para nós, é contribuir para que Moçambique seja conhecido através das artes, através do que nós temos de rico que é a criatividade artística. Então, é este Moçambique que nós queremos vender”, enfatizou Tembe, organizador do evento.

Em representação da ministra da Cultura e Turismo, Tiago Langa enalteceu o festival e prometeu que o Governo dará todo o apoio necessário. “O Ministério da Cultura saúda essa iniciativa e dá garantia de que o Governo moçambicano vai dar todo o apoio necessário.”

A cidade marroquina de Marrakech foi a última a realizar o festival no ano passado, dando, agora, espaço para a cidade das acácias receber bailarinos e turistas africanos na bienal Danse L’afrique Danse.

Por José Paulo Pinto Lobo

 

Lourenço Marques 7 de Setembro de 1974.

Nove meses e dez dias após ter completado 16 anos.

Carros buzinando em alegre cacofonia com gente incauta e outros nem tanto, dependurada nas janelas das viaturas e com bandeiras portuguesas desfraldadas ao vento.

Galo, galo. Galo amanheceu!

E feras travestidas de homens atacaram os bairros suburbanos exterminando todos o que podiam sem qualquer pingo de humanidade. A reacção do povo agredido foi colocar na equação similar irracionalidade e adicionar ferocidade aplicando sem dó nem piedade a pena de Talião.

Apelos na rádio para doadores de sangue e voluntários para ajuda na triagem de feridos e noutras tarefas hospitalares. Convocado, prontamente no Hospital Central Miguel Bombarda me apresentei. Com uma bata azul envergada aguardei na entrada pela chegada dos maltratados na demente sanha assassina.

Carros particulares apitando em aflição, fazendo coro com o uivar estridente das sirenes das ambulâncias que afluíam sem cessar, despejando gente, muita gente. Parecia um enxame de vespas furiosas atacando a hospitalar colmeia.

Pessoas irmanadas na dor. Não se distinguia cor, aliás, apenas uma só cor. Vermelho. Tanto vermelho. Rios de sanguinolento vermelho. Até o céu se pintou de rubro ardente.

Todas as tonalidades de vermelho jorravam de ferimentos na cabeça, peito, braços e pernas. Feridas de balas de todo o calibre, de cartuchos de caça, zagalotes, cortes de catanas, machados ou qualquer outro instrumento contundente. Pessoas queimadas ou mutiladas nas pirómanas barreiras da estrada, nas palhotas incendiadas, ossos estilhaçados por balas explosivas e granadas, por pancadas de raiva, vingança e medo.

Médicos capitaneando unidades de combate. Queimados para ali, traumatismos aqui, ferimentos de bala para acolá. Cortem a roupa, limpem as feridas. Enfermeiros e auxiliares meio aturdidos afadigavam-se como regimentos disciplinados. E eu perdido no meio de uma guerra qual soldado recruta sem treino e sem armas.

Roupas, faces e corpos ensanguentados, sangue gotejando para as macas. Gritos de agonia e gemidos sem fim. Penetrando nos ouvidos e reverberando sem cessar enquanto se tentava fazer a (im)possível triagem. E o sempre omnipresente cheiro doce e enjoativo de sangue. E a morte ceifando vidas inocentes.

Mãos trémulas e exauridas buscavam as minhas em silencioso pedido de socorro e alento na minha desfalecida juvenil incapacidade. Emudeci em vã busca de palavras. Inexistia dicionário para aquela condição. A minha bata azul era tela de um louco pintor cuja paleta só tinha uma cor. Vermelho.

Olhares aterrorizados, outros vagos, catatónicos, tentando compreender tamanho pavor. Incrédulos ainda perante a crueldade e barbárie sofrida. Olhos revirando-se buscando mães, pais, irmãos, filhos, amigos, lancinantes apelos perdidos na balbúrdia hospitalar.

E as pessoas irmanadas no horror. Fraternizadas no desespero. Que adolescente poderia aguentar tal abominação? Não suportei. Baqueei.

Nesse mesmo dia e dias seguintes, refúgio encontrei na cozinha do hospital descascando batatas, cortando legumes, lavando pratos e tachos. Mas não deixei de ouvir as sirenes das ambulâncias. Nem os gritos e gemidos dos moribundos ressoando na minha cabeça.

Trágicos e tenebrosos dias fendendo o sonho de prometidas alegrias. Dias de mudança. De céu azul e também de nuvens carregadas prenunciando outras tempestades.

Assim, com a inocência abruptamente perdida fiz-me então incompleto adulto.

 

O novo livro de Juvenal Bucune é, na verdade, uma novela, onde o escritor e poeta ficciona a história incestuosa de uma mãe e um filho. Masingita ou a subtileza do incesto foi apresentado ao público esta quarta-feira, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

 Masingita é a história de Marta e Pepuka, personagens que convocam o leitor ao universo do pecado e do proibido. Tratando-se de mãe e filho que se envolvem sexualmente, do acto nasce um filho, que se vê mergulhado numa história complexa e arrepiante.

Masingita é um termo ronga que significa sacrilégio ou representação do sobrenatural. No Sul de Moçambique, o termo é usado para expressar o insólito ou para reprimir qualquer acção que não seja comumente aceite, como é o caso de uma mãe que concebe de seu próprio filho.

Juvenal bucuane busca, junto do leitor, responder a algumas questões que lhe surgem quando escreve sobre o incesto, um problema que entende ser de realidade moçambicana, mas pouco discutido.

A novela de Juvenal Bucuane leva a ficção a uma prática que existe na sociedade moçambicana, mas, muitas vezes, é ignorada, o incesto.

Ao ler o livro, Juvenal Bucuane espera que o leitor, em especial o moçambicano, reflicta sobre o assunto e que possa levantar um debate social.

“O incesto acontece. O que eu espero é que o leitor receba este livro de uma forma diferente de como tem recebido os outros, porque este traz um assunto que eu não me lembro que se tenha discutido alguma vez. Então para as pessoas é uma novidade trazer-se este assunto a lume. As pessoas vão estar interessadas em discutir o problema. Portanto é uma novidade e penso que vai ter algum impacto”, explicou Bucuane.

O livro foi lançado esta quarta-feira no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, sob a chancela da Editorial Fundza.

 

 

No dia 1 de Novembro vai arrancar um programa de formação musical ambicioso no país. A realizar-se na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, a formação será desenvolvida em módulos, que pretendem equipar os formandos com ferramentas que lhes permitam não apenas registar, digitalizar e arquivar esse património, mas também preservá-lo e divulgá-lo a gerações futuras.

Segundo uma nota de imprensa sobre o evento, de igual forma, outra importante parte da formação passará a fornecer os formandos de conhecimentos técnicos ao nível da criação musical e expressão poética, bem como oferecer-lhes relevante informação sobre o funcionamento da indústria musical de forma a potenciar a criação de novos empregos.

A nota avança que o programa de formação é constituído por seis módulos, num total de 230 horas formativas teórico-práticas, designadamente, Técnicas de gravações áudio em ambientes exteriores, Processo de digitalização, regravação e masterização;  Classificação e arquivologia de conteúdos para arquivos centrais e sua gestão; Escrita criativa e edição de obras; Gestão da plataforma Marimba e comercialização digital;  Organização do ecossistema e cadeia de valor da indústria da música e entretenimento.

O projecto Marimba é apoiado pelo PROCULTURA, uma acção do programa PALOP–TL e UE, financiada pela União Europeia, co-financiada e gerida pelo Camões I.P., e tem por objectivo a promoção do emprego e actividades geradoras de rendimento no sector cultural dos PALOP e Timor-Leste.

O projecto pretende valorizar a produção musical em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor Leste, através da sua pesquisa, digitalização, promoção e distribuição internacional, contribuindo para o resgate da identidade cultural, para a sua divulgação e para o reforço, inclusão e sustentabilidade dos agentes do sector.

 

 

 

Às 17h30 de quarta-feira, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo, Juvenal Bucuane irá lançar a sua mais recente obra literária. Intitulada MASINGITA ou a subtileza do incesto, a novela ficciona uma prática que, existindo na sociedade moçambicana, muitas vezes, é ignorada. Trata-se de uma história sobre o incesto, uma união ilícita entre parentes próximos, em grau proibido por lei.

No centro da narrativa de MASINGITA ou a subtileza do incesto encontram-se Marta e Pepuka, que, para o autor, representam a personificação de pessoas reais.

De acordo com a nota de imprensa da Fundza, a mais recente ficção de Juvenal Bucuane é inspirada em acontecimentos concretos. No entanto, a fim de não ferir susceptibilidades, o autor tomou o devido cuidado, ora subvertendo o perfil das personagens, ora dando-as existência particular. “Aliás, todas as personagens do livro são fictícias, assim como os lugares-cenários e actos. Passei os diferentes estágios do meu crescimento em diversos bairros suburbanos da capital moçambicana e conheço deles o bastante para poder contar como se vive nesses lugares”, lê-se na nota de imprensa.

Segundo a mesma nota de imprensa, a escrita de MASINGUITA ou a subtileza do incesto foi, para Juvenal Bucuane, um exercício árduo, pois o seu grande desafio estava além de uma mera ficção, “por implicar algo que me parecia profundo e verdadeiro, factual, que para ser abordado com alguma probidade, tinha de ser feito com recurso a algum caso precedente, ocorrido em alguma época e em algum lugar. Assim busquei reminiscências do que estudei há bastante tempo sobre a antiguidade na história universal, mais propriamente, a relação entre o Rei Édipo e a Rainha Jocasta, que serviu de base para as pesquisas psicanalistas de Sigmund Freud”.

MASINGUITA ou a subtileza do incesto foi escrito durante o segundo semestre de 2021, numa altura em que o escritor encontrava-se confinado em casa, por causa da COVID-19. Juvenal Bucuane define MASINGUITA como uma crítica, por saber que o incesto, acto abjeto, acontece no seio de muitas famílias e é consentido mesmo sabendo-se que é moralmente condenável. “É, também, uma intervenção, pois penso que aqueles que o lerem e não se coadunam com a sua prática, não só ficarão escandalizados com esta realidade que no livro trago, como também, cientes da corrosão que o incesto provoca no seio das famílias e em geral da sociedade, algo farão para ajudar na sua erradicação”.

O primeiro livro de Juvenal Bucuane pela Editorial Fundza será apresentado no Camões – Centro Cultural Português em Maputo pelo jornalista e ensaísta José dos Remédios.

Por José P. Castiano & Ricardo Santos

 

Esta foi uma excelente ocasião proporcionada por Almeida Cumbane para poder pensar na relação entre literatura e filosofia. O pretexto para este pensar é esta oportunidade de ter sido intimado pelo autor para apresentar o livro A Distante Proximidade do jovem escritor Almeida Cumbane. O meu próprio interesse por esta matéria foi aguçado pelo facto de estar a acompanhar um rápido desenvolvimento de uma literatura moçambicana muito jovem, talvez já não refém das temáticas da Geração Charrua que a antecedeu.

O importante a reter na relação entre a filosofia e a literatura é que esta é muito íntima, de uma amizade muito profunda. É uma amizade em que cada um está atento ao outro, vive com o outro, no entanto não se mistura. Albino Chavale acha que existem “fronteiras porosas” entre a filosofia e a literatura[1]. Até podíamos aventurar dizer que é uma relação de “desconstrução” mútua:

O defeito (será que devo dizer o perfeito?) da filosofia é construir um pensamento crítico. A crítica, em termos de pensamento, encontra-se no ponto de inflexão que leva à reflexão sobre fenómenos naturais, sociais, políticos e outros. De uma crítica resulta uma outra forma alternativa de interpretar uma certa realidade.

Todavia, a crítica filosófica se diferencia ou afasta da opinião porque nesta não precisamos necessariamente de nos dar conta ou citar o que o Outro ou os outros pensam sobre o mesmo assunto. Também, para emitirmos a nossa opinião sobre as coisas não precisamos de cogitar muito.

Já para uma crítica filosófica, entretanto, temos a obrigação de nos envolver com o objecto do debate (fenómeno ou processo) e, o mais importante, com as diferentes interpretações existentes, disponíveis no passado e na sociedade que vivemos. Quase que diria, temos que passear pelo mundo das interpretações diferentes primeiro – e isso se faz, por exemplo, por via de citações de outros autores – para depois emitirmos o nosso ponto-de-vista ou juízo de valor sobre o mesmo fenómeno. Assim, o pressuposto para uma boa crítica, é também uma boa interpretação prévia. Olhar para o que os outros já disseram ou escreveram sobre um mesmo fenómeno ou processo é a condição necessária e imprescindível para uma boa crítica filosófica. É por isso que somente por via de uma profunda reflexão sobre as coisas se chega a uma boa crítica. É também por isso que uma boa crítica pressupõe diálogo e não monólogo. Quem monologa está em seus devaneios.

Uma das formas através das quais a filosofia exerce o seu dever crítico é propor categorias novas ou recriar das velhas categorias do “entendimento humano”, para falarmos com base em Kant. São categorias que ajudam o homem a entender o seu mundo natural, social e espiritual.

A filosofia cria estas categorias não somente para entender esse mundo fora de si, como também e sobretudo para que os homens se entendam universalmente e possam falar entre si. Na verdade, para que se compreendam mutuamente.

Neste seu papel crítico, a filosofia em Moçambique, enquanto uma das formas de pensamento sobre Moçambique no Mundo, deve estar atenta ao que se produz na machamba da literatura moçambicana, sobretudo aquela que é escrita pelos mais jovens. A Filosofia ocupa-se do futuro, das utopias; concomitantemente, não é possível ocupar-se “do” sem saber o que ocupa as almas das pessoas mais jovens. À questão, qual é o tempo que nos espera no futuro, os jovens escritores respondem provavelmente com uma maior propriedade do que os mais velhos.

Desta forma, como sabemos desde Hegel, a filosofia ocupa-se em resumir o tempo vivido no pensamento e a Literatura a umas das “pistas” que auxiliam a filosofia a construir as tais categorias de entendimento.

Na verdade, a literatura é uma das fontes mais antigas para a filosofia viver. Foi graças à literatura que a filosofia sobreviveu em seus momentos menos gloriosos, porque muitos filósofos recorriam à literatura como refúgio para esconderem as suas ideias. Nós podemos denunciar um golpe de estado por via de uma escrita crítica directa ou por via de um conto.

Já os românticos alemães do movimento Sturm und Drang reconheciam na literatura um campo de saber mais sublime, acima da filosofia porque nas artes, segundo eles, se podem juntar o belo, o justo ao pensamento. Este movimento privilegiava sobretudo as emoções, a subjectividade e o individualismo. No fundo era uma criação burguesa que cultivava o sublime, como uma reacção contra o iluminismo e o racionalismo exacerbados. Nos romances, vencia o carácter subjectivo.

A este movimento literário romântico se seguiu um outro denominado realismo. Enquanto aquele era mais elitista com o seu subjectivismo, o realismo inclinava-se a descrever as pessoas, os lugares as circunstâncias e condições dos pobres tais como elas são.

Podemos, para já, concluir que as narrativas contidas em livros literários nos levam, a nós almas que se ocupam da filosofia, ao conceito do tempo em que vivemos ou ao tempo no conceito.

Como disse atrás, estas estórias contadas pelos jovens da literatura moçambicana são, na verdade, as pistas que construímos para compreender o nosso tempo. E, por sua parte, a filosofia olha para estes contos como momentos de concretização do seu tempo. As estórias contidas num livro de contos são as marcas das “circunstâncias” (Ortega & Gasset) que cada época nos oferece para serem objectos da nossa escrita. Se, por um lado, as circunstâncias constituem as marcas do tempo, por outro, o homem somente é entendível por via das circunstâncias do teu tempo.

Por isso, um filósofo que não se dedica à leitura dos livros de literatura do seu tempo torna-se empobrecido. E ele não terá se dado conta do quão o seu tempo é rico em sugestões para o seu conceito de tempo vivido.

Almeida Cumbane divide o livro em 17 contos ou narrativas. Cada uma delas diz-nos muito sobre o tempo vivido no Moçambique actual, apesar de concentradas na região do Sul do Save. O autor vive no Distrito de Guijá e trabalha em Lionde (Gaza). Ele usa muito o conhecimento que tem sobre a natureza, a sociedade e sobretudo as culturas que atravessam esta região.

O que faz do livro A Distante Proximidade africano? Este pode ser considerado pertencente à literatura jovem africana devido à continuidade que faz da ancestralidade (pelos seus temas), da oralidade (pelo seu método escolhido para a narrativa), e dos provérbios (pelo carácter por vezes axiomático e axiológico da sua escrita).

No que diz respeito à ancestralidade, a inclusão da voz de antepassados – os que o filósofo queniano John Mbiti chama “mortos-vivos”, aqueles antepassados que nos deixaram há pouco tempo e cujos espíritos ainda chamamos ora para a protecção, ora para providenciar alguma sorte na vida – é uma característica permanente em quase todos os contos contidos no livro de Cumbane. Em Traídos pelo Sono, a intervenção activa na cama adúltera do defunto marido é evidente. No caso particular do conto Os Filhos Gémeos o autor até introduz uma inovação, dado que os protectores da riqueza são filhos já mortos, mas que “vivem” debaixo da cama dos progenitores.

Do mesmo modo que a oralidade, que eu chamei algures por oratura, é a forma de escrita que encontramos em todos os contos. Assim também o recurso a uma linguagem axiomática, baseada em provérbios africanos, encontramos transversalmente presente, em especial no conto Carta de um Invisível.

Sendo estas histórias africanas e muito moçambicanas pelas razões atrás aduzidas, o livro de Almeida Cumbane torna-se verdadeiramente universal na senda dos escritores que aprofundam o conhecimento e o pensar dos lugares mais recônditos, mostrando assim a sua universalidade.

Ao ler estas crónicas e contos apetece sentar à volta da fogueira e ouvir o seu eco nas vozes dos mais velhos porque escrever ficção é, afinal, saber contar bem uma história, na esteira da melhor tradição africana.

Na preparação para esta apresentação fiz um breve exercício que consistiu em dar títulos alternativos a cada um dos contos. E assim ficaram os meus:

 

  1. Um Infortúnio Bem-Aventurado o título alternativo seria “O Despenho do Embraer 190 na Namíbia”. Inharrime, Macia e Marracuene são balizas ou marcos a caminho de Mavalane, no chapa que precede o avião;
  2. Dona Pérola seria apenas “Moçambique” e conta a história de uma mulher que nasceu no dia 25 de Junho de 1975;
  3. Traídos pelo Sono ficaria simplesmente “Adultério”. Ela no Jonasse, ele no Chamanculo e um terceiro também no Jonasse, não se sabendo se o de Chamanculo chamaria como seu qualquer cabrito nascido no Jonasse;
  4. De A Matreca da Festa mudaria para “A Recarga”, onde se fala dos sistemas de recargas virtuais muito em uso no país para compra de serviços;
  5. O Vinho da Discórdia seria transformado em “O Drama das Cheias em Chókwè”. As cheias são iguais em toda a parte. E o Chókwè é toda a parte;
  6. O Actor que não sabe fingir recebeu o título alternativo de “Violência Doméstica”, ou quando a ficção teatral e a realidade se misturam no Dia da Mulher Moçambicana;
  7. Carta de um Invisível recebeu, por sua vez, “Coronavírus com Vida”, referindo aquele que tirou as maiores alegrias dos pobres: o abraço, o beijo e o convívio;
  8. Os Filhos Gémeos transformei em “Tradição e Riqueza” porque conta a história de um homem que mantinha duas cobras debaixo da cama, representando os seus dois gémeos mortos, para manter a riqueza;
  9. O conto Uma Casa de Alvenaria denominei por “O Paradoxo da Morte na Tradição” (eu teria gostado chamar simplesmente ZéDú para mostrar como as honras são prestada depois de alguém morrer. Na estória do livro trata-se de um velho cujos filhos só lhe fizeram as honras e festa faustuosa no seu funeral, depois de ter vivido miseravelmente. Os filhos o visitam e o reconhecem na urna, ZéDú somente teve as honras de Estado depois de morto, numa urna);
  10. Guest House transformei em “A Traição da Amiga”.;
  11. Njunju foi mudado para “A Força de um falso Amuleto de Futebol”. O que conta são as crenças e a verdade é embrulho biodegradável;
  12. O (Extra)Ordinário Condutor passou para “Alcoolismo e suas Consequências”. É a estória de um jovem que, alucinado pela bebedeira, atropelou um homem no meio da noite, confundindo-o com um animal;
  13. O Tradutor de Línguas seria “O Escorpião de Mapai”. Ngonhamo, professor cuja língua materna era o português e tinha dificuldade em aprender changana, soltou um berro em changana na hora da verdade.
  14. Um Ladrão Misterioso foi trocado por “As Manifestações das Tradições na Mulher”.
  15. O Pé de Ruca troca por “Corrupção na Polícia de Trânsito” é um conto sobre um polícia que reconhecia viaturas susceptíveis de serem irregulares na estrada por via da erecção do seu pénis, sinal que lhe foi dado por um curandeiro;
  16. A Distante Proximidade mudei para “A Facebook Society no Chapa”; por sinal, este conto dá título ao livro e tem o tom filosófico da formação do autor por retratar uma aporia típica da era digital e neoliberal: dois jovens que estavam no mesmo chapa, próximos, mas falando entre si como se estivessem distantes um do outro;
  17. (In)Voluntários Assassinos mudaria para “O Jardim Zoológico do Jardim”.

 

Como notamos, é no cruzamento entre uma literatura moçambicana jovem como esta e a sua compreensão teórico-filosófica que se descobrem as intersecções do engajamento dos intelectuais moçambicanos com os desafios que o seu tempo lhes impõe.

E isto é ainda mais importante precisamente hoje, quando a credibilidade da função da teorização e dos estudos científicos dos fenómenos como o terrorismo, subdesenvolvimento, etc. estão sendo postos em causa, particularmente por parte de um número cada vez maior de políticos moçambicanos e pela geração pós-independência.

 

 

Texto de apresentação de A Distante Proximidade, de Almeida Cumbane.

 

 

[1] Cfr. Chavale, A. (2015): Filosofia e Literatura: Fronteira Porosa? In: Ngoenha, S.E. & Castiano, J.P. (Coord.): Filosofia: Fronteiras ou Pontes. Editora Educar. Universidade Pedagógica, Maputo. Pp.61-77

O estilista e empreendedor, Nivaldo Thierry, participou, de 7 a 9 deste mês de Setembro, na semana de moda designada Africa Fashion Week Nigéria, levando a sua marca para um dos festivais mais concorridos do continente. O evento juntou os melhores estilistas estabelecidos e young designer africanos.

De acordo com uma nota de imprensa, o desfile da marca Nivaldo Thierry foi no dia 9, último dia da semana da moda. Assim, a marca Nivaldo Thierry cumpriu um périplo internacional, com a nova colecção intitulada “Renasça”, inspirada na “fénix”, e que brevemente vai escalar outros países.

Thierry exibiu na Nigéria, em estreia internacional, o seu mais recente trabalho com glamour e requinte que sempre caracteriza as suas produções, num evento que contou com a presença do monarca nigeriano, Ooni Of Ife, que se rendeu, segundo a nota de imprensa, à marca Nivaldo Thierry.

No desfile, foram apresentadas cerca de 15 peças únicas e clássicas, com um conceito original e sofisticado da moda moçambicana, que fazem parte da colecção “Renasça”, composta por roupas pronto a vestir para homens e mulheres com bom gosto. Esta colecção foi feita na base de quatro tecidos, nomeadamente, lã, poliéster, chifon e cetim.

O estilista refere que foi oportuno apresentar a sua colecção neste prestigiado evento e veio a calhar nesta fase de pós-pandemia porque a colecção “Renasça” é para si o regresso à rotina depois do mercado cultural sofrer com a pandemia da COVID-19, sem falar na crise económica e inflação.

A  respeito da inspiração na ave fénix, o artista explicou:  “A fénix era uma bela ave que possuía uma força extraordinária e podia viver cerca de 500 anos. As suas lágrimas podiam curar qualquer doença, possuía um lindo canto e, ao final da vida, entoava uma melodia triste. Após isto, queimava-se, voltava a ressurgir e as cinzas que sobravam deste processo tinham a propriedade de ressuscitar os mortos. A fénix simboliza o renascimento, o triunfo da vida sobre a morte, o eterno recomeçar. Desta maneira, simboliza a vida e os seus ciclos, a esperança, a necessidade de dar a volta por cima nas situações adversas”.

Segundo o estilista, foi enriquecedor e marcante estar na Nigéria pelos aspectos culturais que muito se identificam com os de Moçambique, e porque a Nigéria tem a particularidade de ser uma potência mundialmente reconhecida no sector da moda. Nivaldo diz ter-se identificado com o país, sobretudo porque a moda não foge muito do conceito moçambicano.

Depois da Nigéria, o périplo continua e os próximos destinos são Londres (Inglaterra) e Roma (Itália). Por fim, a apresentação de “Renasça” será na pérola do Índico (Moçambique), onde está agendado um memorável desfile de apresentação da colecção. O estilista também participou, antes da moda de África na Nigéria, na Moda Solidária Angola e Benguela Fashion Week, em Angola, e no Mpumalanga Fashion Show Without Borders, na África do Sul.

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