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A escrita criativa e a crítica literária é o tema do 32º Curso de Literaturas em Língua Portuguesa, que se realiza de 24 a 26 deste mês de Outubro, das 18h00 às 20h00, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

Segundo avança a nota de imprensa sobre o evento, o Curso de Literaturas é a iniciativa cultural mais antiga do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, realizada em parceria com a Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), que, em edições anteriores, trouxe a Maputo autores como José Saramago e Lídia Jorge, ou, mais recentemente, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, David Machado, Pedro Mexia, Alexandra Lucas Coelho e Joana Bértholo.

Com o Curso, avança a organização, pretende-se promover a leitura e o sentido crítico dos leitores, bem como proporcionar um espaço de debate e contacto com escritores ou académicos convidados.

A 32ª edição do Curso de Literaturas em Língua Portuguesa destaca “A escrita criativa e a crítica literária”, numa abordagem transdisciplinar da escrita literária. O programa do Curso decorre durante três dias, em período pós-laboral, e conta, geralmente, com um grande número de participantes, entre estudantes, escritores e uma comunidade profissional variada. Para esta edição do Curso de Literaturas, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo convidou Lúcia Vicente, historiadora, escritora e actriz portuguesa.

No dia 24 de Outubro, a abrir o programa do Curso, a convidada Lúcia Vicente partilhará a sua experiência na área da escrita criativa, e na residência literária que está a realizar em Maputo. O painel será repartido com o escritor Eduardo Quive, também participante no mesmo programa de residências, e contará com a moderação de Eliana N’Zualo.

O dia seguinte, 25 de Outubro, será dedicado ao tema “Escrever sobre literatura”, com apresentações dos docentes da Faculdade de Letras e Ciências Sociais (FLCS) da UEM, Albino Macuácua, Lucílio Manjate e Osvaldo Neves. Esta sessão contará com a moderação do jornalista Elton Pila.

A finalizar este programa, o dia 26 de Outubro será dedicado ao tema “O papel da crítica na produção literária”, com partilhas entre António Cabrita, Francisco Noa e José dos Remédios. A última sessão do Curso de Literaturas será moderada pela leitora do Camões, Conceição Siopa.

A participação no 32º Curso de Literaturas é livre, mas caso se pretenda certificado de participação no Curso, deverá ser feita uma inscrição prévia, entre 10 e 13 de Outubro, e assistir a todas as sessões do Curso. As inscrições poderão ser feitas na Biblioteca do Camões – Centro Cultural Português em Maputo ou na secretaria da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane.

A Universidade São Tomás de Moçambique inaugurou, este sábado, o primeiro memorial que conta a vida e obra de Dom Alexandre dos Santos, falecido a 29 de Setembro do ano passado. Os mentores dizem que a iniciativa visa eternizar os feitos do arcebispo.

Segundo mentores, este é o primeiro memorial no país que fala, ao detalhe, da vida e obra do primeiro sacerdote e cardeal católico moçambicano, Dom Alexandre José Maria dos Santos.

Inaugurada este sábado e já aberta ao público crente e não crente, a obra é iniciativa da Universidade São Tomás de Moçambique e da Fundação Cardeal Dom Alexandre e visa, acima de tudo, imortalizar as acções de um homem de fé imensurável, segundo explicou o presidente do Conselho de Administração da Fundação Dom Alexandre dos Santos, Venâncio Chirindza.

“Neste memorial, encontramos a história de um homem que viveu na igreja e para a igreja. Existe a história desde o seu nascimento, formação religiosa, peregrinação como padre, cardeal, até arcebispo. A ideia era perpetuar a sua memória, tentar deixar uma memória escrita, num espaço que possa servir para reflexão para as comunidades religiosas, para virem cá falar com ele”.

Segundo o gestor, o espaço foi estabelecido de tal forma que qualquer um que por ali passar entenda a razão de tanta exaltação da figura do arcebispo.

Entre a fé e a educação, o antigo arcebispo-emérito de Maputo, também dedicou sua vida à formação do homem, e um dos seus feitos foi a fundação da Universidade São Tomás de Moçambique.

Dom Alexandre sempre acreditou que não bastava estudar a ciência. Era necessário, também, saber ser e estar consigo e com Deus.

“Dom Alexandre foi, é e vai continuar fonte de inspiração para todos nós. E nós, na USTM, achamos que precisamos desta inspiração, e a melhor forma de criarmos esse ambiente foi através deste memorial. Não se trata de um museu morto, mas sim de um memorial vivo, por isso, reunimos os melhores momentos, palavras e lugares que ele visitou, porque achamos que todos podemos passar por aqui e falar com Dom Alexandre”, disse Joseph Wamala, reitor da USTM.

Quem viveu de perto a sua caminhada na fé diz que abrir a porta do memorial é como o abrir de um livro. Um livro que inspira não só quem viveu as histórias, mas também quem foi fazer uma visita para conhecer de perto os feitos de Dom Alexandre.

“Tentaram juntar, aqui, peças da vida do cardeal, que nos fazem recordar o seu percurso humano, religioso e como cidadão moçambicano. Esta iniciativa, que é feita após um ano do seu desaparecimento físico, demonstra que há interesse em perpetuar a memória deste homem, preservar o seu legado para o transmitir, sobretudo, às gerações mais novas”, partilhou Arlindo Lopes, um dos visitantes do memorial.

Esta homenagem acontece um ano depois da morte de Dom Alexandre dos Santos.

Às 11h30 deste sábado, no Hotel Trópico, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, Ungulani ba ka Khosa irá reflectir sobre literatura com outros autores africanos de referência, designadamente, Germano Almeida, Tony Tcheka e José Luís Tavares.

Entre 6 e 8 deste mês de Outubro, a capital cabo-verdiana é o grande palco do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. Sob o lema Insularidade e universalidade na literatura, a iniciativa da União das Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) reúne vários autores africanos de referência. Além de Ungulani ba ka Khosa, de Moçambique irá intervir Mia Couto. O autor de O caçador de elefantes invisíveis foi convidado a dar saudações na sessão de apresentação do Prémio de Revelação Literária UCCLA-CML, na qual, igualmente, serão apresentados dois livros premiados este ano.

Quanto ao autor de Gungunhana, irá reflectir sobre o tema “Processos de criação literária e de edição”. O mesmo painel integra Germano Almeida, Jorge Carlos Fonseca, José Luís Tavares, Tony Tcheka e, via online, irá participar Amadu Dafé, numa moderação de Augusta Teixeira.

Para Ungulani ba ka Khosa, não sendo abrangente, já que uma vasta zona do continente não está contemplada, a iniciativa é importante porque aglutina escritores que têm o português como língua de escrita. Por isso mesmo, para o ficcionista, o Encontro de Escritores de Língua Portuguesa “é um momento ímpar de troca de informações sobre o mundo editorial”.

Referindo-se à importância do evento da UCCLA, Ungulani ba ka Khosa lembrou que a grande deficiência nas literaturas africanas de língua portuguesa é a falta de acesso às grandes editoras, que, de certo modo, ditam o cânone das nossas letras. Assim, a questão que o autor coloca é: “Como quebrar isso?”.

Sem avançar com alguma resposta antecipada, Ungulani ba ka Khosa afirmou que a sua intervenção vai no sentido de encontrar outras plataformas de contacto entre as pequenas e médias editoras dos PALOP e a necessidade de se ter feiras de livros entre os PALOP. “É intenção minha fazer o lobby de modo a levar o próximo encontro a Moçambique. É preciso que os novos autores entrem neste grande debate”.

Na edição deste ano do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, em Cabo Verde, também participam autores como José Eduardo Agualusa (via online), Lopito Feijóo, Inocência Mata, Sheila Khan, Vera Duarte e Válter Hugo Mãe. No último dia do evento, sábado, irão intervir, na sessão de encerramento, o Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, e o Ministro da Cultura, Abraão Vicente.

Por Valério Maúnde

 

No sofá da sala comum, está Jolson, professor de História numa escola que, mais do que privada, é para poucos, para os nascidos em maternidades prateadas e crescidos em berços de ouro, ou seja, rodeados de metais nobres, assim designados por apresentarem pouca reactividade e, por conseguinte, serem mais resistentes à oxidação, contrariamente ao ferro que reage mais facilmente ao oxigénio, o que resulta em menor resistência à oxidação.

Finda a aula gratuita de química, retomemos o assunto de partida, que é sobre o que o professor Jolson fazia sentado no sofá da sua sala. Como podem imaginar ou supor, ele está a ver televisão, tentando encontrar algo que o ajude a relaxar da estafante jornada laboral, pois, ao contrário do que muitos podem ser tentados a pensar, a escola em que trabalha, embora privada, não o priva de stresses e dissabores, pois quanto mais doirado o berço onde cada aluno cresceu, mais negro tende a ser o seu comportamento.

Dizemos negro cientes da questão racial implícita neste adjectivo, mas não fomos nós que, séculos atrás, forjámos a língua e associámos a cor negra à negatividade e ao mal. Todavia, para equilibrar a balança, talvez valha referir que branco também pode ter uma conotação negativa, como em “estar ou ter um branco”, que significa não estar a par ou não se recordar/reconhecer um dado assunto. Também é branco o verso não rimado.

Voltando ao professor Jolson, ele tem o controlo remoto na mão e vai pulando de um canal para o outro, tentando encontrar um programa que valha a sua atenção e tempo. E sim, dissemos controlo remoto e não controle remote, porque é daquele jeito que se chama e não deste.

Com o olhar fito no telão da sua TV de 54 polegadas, um programa, aparentemente, de entretenimento fá-lo parar. Logo na abertura, o apresentador anuncia o seu nome. Trata-se de um tal puto…, mas com aparência de adulto. Jolson ignora a antítese do nome e da aparência e escuta os destaques do programa do dia. Passados mais de dez minutos e não vendo o desenvolvimento de nenhum deles, senão repetição, divagação e sensacionalismo, Jolson considera a sua primeira tentativa sem sucesso e pula para um outro canal que, por coincidência, também tem como apresentador um outro puto…. Jolson chega a supor tratar-se de um programa infantil, visto que, além de um apresentador puto, como o primeiro, tem também uma apresentadora boneca.

A sua suspeita cai logo por terra ao perceber que, em tudo, o segundo programa se assemelha ao primeiro. São como duas gotas de tão parecidos. Jolson rende-se à repetitividade de conteúdo e de abordagem e decide acompanhar este último até ao fim. Em pouco tempo, são abordados vários tópicos aleatórios, mas com um denominador comum: o populismo e o sensacionalismo que encerram. Neles, os apresentadores começaram por reiterar as condolências à família real que perdera a sua imortal rainha. Eram de tal maneira sentidas as condolências que Jolson chegou a julgar que os apresentadores tinham estado nas Barracas do Museu ou no Pulmão com a finada a beber umas. Mais adiante, deu-se destaque a um irmão nosso com nome chinês, que se tornara importante por namorar uma afamada cantora da praça. Ele virara uma personalidade por isso. Por fim, os apresentadores lastimaram infinitamente o facto de um cantor americano (que, a ter nascido na Mafalala ou em Chamanculo, se chamaria Riquito) ter feito pouco caso da imprensa e dos seus pares moçambicanos. Ainda pior, Riquito recusara-se a dar tratamento especial até aos que tinham adquirido um bilhete VIP a seis mil meticais. Riquito agira com a frieza característica das meretrizes, que não se comovem e têm os olhos fitos, não no prazer, mas no benefício monetário que vem após o dever.

Em jeito de fecho, importa desculparmo-nos aos leitores que tinham a expectativa de encontrar, entre os parágrafos acima, uma crónica com sentido, relevante e capaz de influenciar e transformar positivamente as mentes dos que a lêem. Pelo contrário, esta crónica imita e homenageia a sociedade dos nossos dias, e destaca-se por ser dispersa, desconexa e superficial, como são os conteúdos que, com prazer, ingerimos, partilhamos e debatemos todos os dias!

 

Os vencedores da edição 2021/ 2022 do Prémio Literário Fernando Leite Couto, Maya Ângela Macuácua e Geremias Mendoso, embarcam a Portugal para uma série de actividades que irão desenvolver ao longo de um mês de estadia.

De acordo com a Fundação Fernando Leite Couto Maya Ângela Macuácua, autora do romance “Diamantes pretos no meio de cristais”, e Geremias Mendoso, autor do livro de contos “Quando os mochos piam”, farão lançamentos das suas obras naquele país ibérico, terão uma residência literária na Câmara Municipal de Óbidos durante 30 dias e participarão no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos.

A partir da edição passada que os vencedores do Prémio Literário Fernando Leite Couto, além do valor pecuniário de 150 mil meticais, oferecido pelo Moza Banco, têm a possibilidade dessa troca de experiências com escritores portugueses, escritores africanos a residirem em Portugal e de outros quadrantes do mundo, em resultado de uma parceria com a Câmara Municipal de Óbidos, tendo sido Otildo Justino Guido, que levou o galardão com o livro de poesia “O silêncio da pele”, a inaugurar este novo ciclo do Prémio.

Lançadas no dia 30 de Agosto deste ano, as obras vencedoras retratam imaginários distintos, não obstante a proximidade geracional dos seus autores, facto que evidencia a diversidade do mosaico cultural moçambicano.

“Diamantes pretos no meio de cristais”, de Maya Ângela Macuácua, ficciona cenários de segregação racial em Moçambique, na África do Sul e nos Estados Unidos, numa viagem por diferentes tempos.

Em “Quando os mochos piam”, Geremias Mendoso oferece uma série de contos que exploram o folclore moçambicano com uma dose sabiamente equilibrada de humor.

No anúncio dos vencedores do Prémio, a 18 de Abril, o júri, presidido por Francisco Noa, integrado igualmente por Conceição Siueia, Conceição Siopa, José dos Remédios e Albino Macuácua, atribuiu ainda menções honrosas a Fernanda Vitorino do Rosário Mualeia João, pelo romance “Amor em tempos incertos”; Wasquete Jasse Fernando, pela novela “Noites de desassossego”, e Adelino Albano Luís, que escreveu a colectânea de contos “Estórias trazidas pela ventania”.

O prémio já laureou dois poetas, Macvildo Bonde, com “A descrição das sombras”, em 2017, e Otildo Justino Guido, com “O silêncio da pele”, em 2019. Em 2018, o júri decidiu não atribuir o prémio, pois nenhum dos candidatos reunia os requisitos de qualidade exigidos como critérios de premiação.

O prémio criado pela Fundação Fernando Leite Couto está a crescer, de modo que, além do Moza Banco, que já o patrocinava, passou a contar, igualmente, com as parcerias da Câmara Municipal de Óbidos, do Camões Instituto de Cooperação da Língua Portuguesa em Maputo e da Câmara de Comércio Portugal Moçambique.

A partir do dia 7 do corrente mês, Os Tuneza de Angola irão realizar seis espetáculos em seis cidades moçambicanas. De acordo com a nota de imprensa sobre a digressão do grupo angolano em Moçambique, Os Tuneza escalarão as cidades de Maputo, Xai-xai, Vilankulo, Beira, Chimoio e Tete, com intuito de animar e fazer também vários intercâmbios com comediantes nacionais.

Ainda em Moçambique Os Tuneza vão facilitar uma oficina criativa na XHUB, no dia 17 de Outubro, entre as 10 e 12 horas para os estudantes da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane.

A XHUB e o ImproRiso Moçambique, entidades envolvidas na produção dos espectáculos de Os Tuneza, assinaram, recentemente, na Incubadora de Negócios Culturais e Criativos, um memorando de entendimento que visa facilitar o processo de intercâmbio de comediantes e também para realizar com regularidade, semanalmente, concertos de Comédia Stand Up com diversos humoristas da praça moçambicana e estrangeiros.

A X-Hub é um projecto financiado pelo Sound Connects Fund, uma iniciativa da Music In Africa Foundation (MIAF) e do Goethe-Institut. O Sound Connects Fund é possível com financiamento do ACP-EU Culture Programme, um projeto implementado pelo Secretariado do Grupo de Estados de África, Caraíbas e Pacífico (ACP) e financiado pela União Europeia (UE). O Fundo também é co-financiado pelo Goethe-Institut e pela Siemens Stiftung. As tintas CIN também são parceiras do projecto.

 

Semana passada, terminaram as gravações de um novo seriado sobre o quotidiano nas áreas de conservação em Moçambique, de Licínio Azevedo. “A natureza dos homens e dos animais” contém um conjunto de seis episódios de 25 minutos cada um e a série é inspirada na convivência, dinâmica e nos conflitos do quotidiano vivenciados no interior e nos limites das áreas de conservação, envolvendo as comunidades locais e os animais selvagens.

A Ebano Multimedia é a empresa responsável  pela produção, com Licínio Azevedo como Director, co-adjuvado por Gabriel Mondlane e com direcção de fotografia de Jesus Sanjuro. A  direcção  de produção ficou a cargo de Jorge Ferrão.

O seriado foi rodado ao longo de seis semanas e decorreu na Reserva Especial de Maputo, que no filme foi designado por Parque dos Elefantes, e teve nas comunidades de  Madjadjane os actores principais. Os fiscais do parque e os caçadores furtivos fazem parte da cinematografia e estiveram envolvidos ao longo das várias semanas em que a série foi gravada.

A série  é uma espécie de documentário drama, por vezes ficcional,  e retrata o drama de quem tem de conviver com os animais selvagens de grande e pequeno porte, todos os dias, as soluções e alternativas que encontram e ainda o apoio que recebem das forças estacionadas no interior dos parques nacionais.

Moçambique  possui uma diversidade de ecossistemas e, ao longo dos anos, foram criados mais de oito parques nacionais, oito reservas nacionais ou parciais, 12 reservas florestais, duas áreas  de protecção especial. Existem, igualmente, mais de 18 coutadas com gestão pública, privada e comunitária,  onde ocorrem o turismo cibernético. Estes ecossistemas são potencialmente ricos quer em recursos da biodiversidade, como em recursos minerais e até energéticos.

No seu interior residem milhares de agregados familiares que passam por momentos de pura alegria, mas, também de evidente  tristeza e pânico. A população humana e de animais tem aumentado, nos últimos anos, na mesma proporção que os problemas que se registam, muitos deles bem conhecidos, outros, nem por isso. Os maiores conflitos prendem-se ao uso destes recursos e espaços, mas, igualmente, ao entendimento sobre como e quando estes recursos devem ser usados.

As áreas  de conservação são, igualmente, espaços onde a mitologia ganha contornos muito para além  dos normais.  Existem crenças de que muitas das pessoas que morrem no interior ou em regiões próximas, transformam-se em animais e regressam às regiões onde viveram. Eles são animais especiais e o seu abate pode representar tempos difíceis ou ainda a morte de quem os abateu. Os curandeiros ganham espaço nestas áreas quer para ajudar a resolver os problemas de saúde, criando vacinas contra as mordeduras dos animais, igualmente, propinando as convicções e condições que transformam os humanos em seres imunes às feras. Os animais destroem campos agrícolas. Toda esta realidade foi captada no seriado e reflecte uma realidade de todo o país. Esta produção será essencialmente baseada em histórias de vida de famílias que precisam de sobreviver com os escassos recursos disponíveis, porém, respeitam as leis impostas quer pela natureza como pelas autoridades administrativas locais.

Numa época que os oceanos estão em destaque, por um lado devido às mudanças climáticas, por outro  existe  uma considerável parte dos parques nacionais moçambicanas fazendo limites com o Oceano Índico, nesta longa costa de mais de 2700 km. A vegetação dos mangais se revestem de grande importância na estabilização dos ecossistemas marinhos e na própria  sobrevivência das comunidades que dependem dos recursos ali existentes. O seriado captou, igualmente, as realidades diárias destas regiões.

Finalizada a gravação e que contou com o apoio financeiro da USAID-Speed em colaboração com o BioFund e AMOCINE, seguem-se algumas semanas de edição e finalização. O lançamento deste seriado está previsto para a época festiva, finais de Dezembro de 2022, devendo os mesmos passar em canais abertos e fechados.

Com a série existe uma expectativa de que os jovens e estudantes, em particular, entendam melhor a natureza em seu redor e ganharem a consciência sobre a importância de conservação dos ecossistemas e o respeito que a natureza impõe. Na realidade, existe um pequeno grupo de crianças que participaram na gravação mostrando como tem sido arriscado frequentar as escolas estabelecidas no interior dos parques e das reservas.

De acordo com os produtores do seriado a intenção será a de ceder os diretos de transmissão  a  estações  emissoras fora do país, quer no espaço falante de português, como em canais que transmitem em inglês e francês, considerando que os seriado será traduzido nestas línguas.

 

Sinopse 

Numa terra de rara beleza, povoada por animais selvagens, dois grupos de homens com atitudes opostas se confrontam: os que velam pela preservação das riquezas naturais, em benefício de gerações futuras, e os que querem usufruir dessas riquezas no presente, para o seu próprio benefício. De um lado, fiscais da Reserva de Maputo, líderes comunitários conscientes da importância da Reserva, crianças que frequentam escolas e aprendem os segredos da conservação. Do outro, caçadores furtivos, traficantes de marfim, feiticeiros maléficos, comerciantes sem escrúpulos. Além de combater os inimigos da natureza, os defensores da Reserva têm a delicada função de harmonizar as suas acções com os interesses de camponeses das áreas vizinhas e proteger as suas machambas que, por vezes, são devastadas por elefantes.

Por Deusa d´Africa

 

A bem-aventurança não é feita de opulências, feixes de luz invadem a alma da pequena porção de terra alumiando a todos os seus elementos; é das entranhas dessa terra onde brota o arroz Wanbao entre outras culturas que concorrem ao património gastronómico da actual capital do Império de Gaza, concebida em 1897 sendo persignada como Chai-Chai, tendo ascendido a vila em 1911. No ano de 1922 torna-se a Vila Nova de Gaza e por conseguinte no ano de 1928 passa a ser designada como Vila de João Belo, ascendeu à categoria de cidade em 1961 e após a independência nacional retornou à sua antiga denominação sofrendo uma alteração na grafia anterior de “Ch” para “X” ou simplesmente Xai-Xai tal como actualmente se designa a cidade de luz e harmonia.

Em Xai-Xai há luz de dia e de noite, raramente o sol e ou a lua se ausentam, nesse cantinho do céu há ainda a preservar-se valores como “o homem vive do seu suor”, uma modelagem de vida para a construção de cidadania. Alguns homens sem alma a perfuram através das regiões circunvizinhas para apoderar-se de sua tranquilidade promovendo o furto de viaturas, um assunto que tem apoquentado aos citadinos, contudo, a luz que resplandece em cada rosto faz com que se desincentive práticas desgraciosas e inestéticas.

Quando o universo crepuscula, homens e mulheres fazem o coro do canto do galo numa chuva adolescente que cai sobre o corpo escultural de gente humilde que sonha com o pão que se ganha pelo suor derramado em diversos ofícios para garantir que não falte chima, xiguinha e mandioca em todas as mesas de todas as famílias.

A terra pernalta estende-se até aos braços do índico, paraíso de povoados de vizinhas nações que aos fins-de-semana tornam esta cidade num pequeno e grande céu onde todos sonham nele morar, sendo um corredor para quem navega em busca de outros territórios, através dos fios de cabelos de Samora Machel que crescem abrindo os caminhos da imensidão.

À outrora fora uma pequena cidade de gente sempre trabalhadora que migrava à cidades como Maputo, Nampula e entre outras em busca do tesouro científico, porém, hodiernamente a cidade possui uma riqueza de instituições de ensino superior em modelo presencial, semi-presencial e até à distância.

Outrossim, no passado havia cajueiros na zona apelidada pelo nome da antiga fábrica de processamento de castanha – Mocita que com a falência, as árvores mantiveram-se a reproduzir o pânico criando lendas como as de Casacos que levitavam de noite assim como de serpentes que reinavam na penumbra, entretanto, pela amabilidade de suas gentes a região fora transformada numa Nova Iorque edificando infra-estruturas públicas e privadas, o que faz com que a cidade mantenha-se acordada de dia assim como de noite.

Hoje, nestes sessenta e um sóis e luas desde a sua elevação à categoria de cidade, a harmonia continua a ser a luz que conduz Xai-Xai e veem-se novas feições como a praça do mineiro, a praça do metical, novos espaços verdes por todo o lado e alguns outros restaurados, a mulher exaltada em festivais municipais, a música coral, campeonatos desportivos de taekwondo e taça munical de futebol, festivais internacionais de poesia e entre outras que revelam a jovialidade e brandura como um tesouro que a urbe possui.

 

Bem-haja Xai-Xai!

 

 

Álvaro Fausto Taruma é autor de quatro livros de poesia: Para uma cartografia da noite (2016), Matéria para um grito (2018), Animais do ocaso (2021) e Recolher obrigatório do coração (2022). Com o segundo título, foi um dos vencedores do Prémio BCI de Literatura para melhor livro do ano – 2018. O seu percurso na arte do verso ou da prosa poética parece promissor. Ainda assim, o poeta não pretende alongar-se mais com a poesia. Logo, o livro que, brevemente, será publicado em Portugal, e, depois, em Moçambique, será o seu último de poesia. Na primeira pessoa do singular, Taruma explica as razões da sua decisão, refere-se às suas convicções, reflecte sobre o panorama literário moçambicano e ainda deixa algumas garantias. E uma das garantias é mesmo essa: o adeus à poesia.

 

Em um ano publica dois livros: Animais do ocaso, em Portugal, e Recolher obrigatório do coração, em Moçambique. Qual é a história por detrás destas propostas poéticas?

A história destes dois livros é uma tentativa de voltar aos lançamentos, depois de algum tempo angustiante de espera e de produção que estava imbuído de muitas incertezas, por causa da responsabilidade que se acresceu à volta daquilo que eu produzia. Se for a ver, os meus dois primeiros livros, sobretudo o primeiro, foi lançado assim ao acaso, dentro de um espírito de jovem poeta que está a começar. Sem, evidentemente, muito protagonismo à volta disso. Apenas houve uma necessidade de lançar e estar no panorama artístico ou no meio literário moçambicano.

 

Para uma cartografia da noite cumpriu o que se propunha no princípio do seu percurso literário?

Podemos dizer que sim. Cumpriu e, depois, esse vulcão, essa montanha acresceu-se com o Prémio BCI de Literatura que chega com o livro seguinte, Matéria para um grito. Daí este receio antes de publicar os livros subsequentes. Aí houve um questionamento como este: então? O que é que vem depois de Matéria para um grito? Nunca quis repetir-me nas formas. Sempre quis trazer uma proposta totalmente nova.

 

Mas há um denominador comum e que é transversal à sua escrita: a presença da noite. Não a noite do sentido de um período do dia, mas a noite do sentido da simbologia.

Exactamente. Isso, evidentemente, está lá… Leva-se um certo tempo a desconstruir um certo modelo de pensamento e criativo. Há uma presença da noite nos meus dois últimos livros como nos dois primeiros, nesse sentido simbólico. Mas também há uma presença constante de uma crítica dura, contundente, de um olhar atento a tudo aquilo que nos rodeia em termos de situação social. Já em termos de efeitos criativos, há sempre uma coisa que tentei reduzir, que é a ideia da plasticidade da palavra. Estou a focar-me mais na realidade do que na plasticidade da palavra que, às vezes, nos coloca numa situação em que estamos a dizer coisas que em termos de contundência não se percebe o que se pretende transmitir.

 

Pretende que a sua poesia tenha mais impacto?

Eu acho que essa é a responsabilidade do criador. A estética, de uma certa forma, para mim, está lado a lado com a moral e, mais do que isso, com a necessidade de transformar.

 

Nada dessa coisa de arte pela arte, apenas…

São opções. Falo da forma que eu escolhi para me expressar. A minha poesia é comprometida com a mudança. É utópica, dá-se para o bem da sociedade e pretende criar uma disrupção e indagações no leitor.

 

Uma poesia de angústias…

De alguma forma, pode ser. De outra, não. As propostas que trago, em termos temáticos, são multifacetadas, de micro realidades que vou buscar no que vejo. Algumas vezes, isso é feliz. Noutras vezes, nem tanto.

 

Nesse exercício encontramos muitas construções e desconstruções da alma e dos sentimentos humanos. O que isso exige de si?

Exige um olhar atento e uma espécie de sofrimento. Não é fácil criar poesia, pelo menos não é como eu a crio. Nunca criei numa situação cómoda, sempre foi numa situação desconfortável. Sempre a perder. Nunca criei numa situação em que estivesse vantajoso de todos os pontos de vista da vida.

 

Apesar de tudo isso, eu penso que a sua poesia é fundamentalmente de amor. Por exemplo, a partir do amor, pode-se se pensar em temas sociais candentes: angústia, depressão e etc. Pensar nas situações que podem comprometer o amor também é um projecto literário?

Há um autor argentino que tem sido fundamental para mim: Jorge Luis Borges. Ele diz que existem apenas dois temas fundamentais na literatura. O amor e a morte. Portanto, a minha poesia, por mais que se afaste, está dentro destes dois parêntesis, o amor e a morte. Eu funciono, em termos de criação, nesse intervalo. O amor em termos de fundação. Começamos aí, é transversal e universal. Depois temos a morte, que não significa perdermos a vida na sua totalidade. A morte é um conjunto dessas pequenas perdas que nós vamos vivendo todos os dias. Assim, voltamos ao tema da noite, a essa escuridão. Eu sou pessimista de natureza, mas nunca escrevo a pensar no pessimismo. Eu escrevo para expressar o contrário. É preciso mostrarmos essa noite para que a pessoa possa encontrar a luz e essa luz significa esperança.

 

Com Matéria para um grito venceu o Prémio BCI de Literatura para melhor livro, ex aequo com Armando Artur. O que isso significou para si?

Em geral, o prémio não me trouxe nada em termos de mudança na vida literária. Ganhei o prémio três meses depois de ter lançado o livro e não significou nada em termos de venda. Se calhar, significou porque, quando ganhei o prémio, eu estava a necessitar de dinheiro. Ganhei 100 mil meticais. Fiquei zangado até porque poderia ter ganhado 200 mil. O prémio foi importante porque deixou a mensagem de que a juventude, os escritores mais novos, podem chegar mais longe e merecer este prémio. Para mim, era evidente que Matéria para um grito merecia o prémio de melhor livro do ano. Mesmo Para uma cartografia da noite, eu tinha a consciência de que estava entre os melhores livros. Eu era observador atento do que se produzia aqui. Desde que entrei para a literatura, sempre quis produzir colocando-me acima do padrão. Por mais que não tivesse conquistado o Prémio BCI, eu tinha a consciência de que estes dois livros trariam alguma mudança.

 

Sentiu-se a representar uma geração?

Sim, porque militei bastante dentro dessa geração, com escritores que saíram do Kuphaluxa, como Amosse Mucavele, Nelson Lineu, Eduardo Quive, Japone Arijuane e Mauro Brito. Fomos pessoas que militamos e demo-nos à causa da literatura. Acima de tudo, tínhamos essa curiosidade de pesquisar mais. Eu, de alguma forma, sabia que dali alguém iria sair e que seria um símbolo, uma voz autorizada a falar de literatura e a produzir livros de qualidade.

 

E acha que a sua geração sentiu-se representada consigo, quando venceu o BCI de Literatura?

Eu acho que se sentiu representada. O retorno foi positivo e as pessoas acreditaram… O livro que venceu no ano seguinte, O menino que odiava números, de Celso Cossa, veio nesta sequência de revolução de um artista jovem quebrar o paradigma. Porque as pessoas não acreditavam que um jovem pudesse ganhar o prémio de melhor livro do ano. Os livros não devem ser premiados pela longevidade dos escritores, mas pelo impacto que trazem no panorama literário. Se formos por aí, as caras vão mudar e vão surgir novas vozes. Por exemplo, a Hirondina Joshua é pouco conhecida, mas é uma autora de impacto. Com força e com pujança. Outro exemplo, Virgília Ferrão, que está a introduzir em Moçambique um tipo de literatura que não existia: a ficção científica. Bem ou mal, ela está a pavimentar um caminho e isto é que uma coisa de impacto, porque, por mais que venham outros, sabemos que a história começou com Virgília Ferrão. São essas pessoas que estão a trazer propostas novas que devem ser premiadas.

 

É preciso premiar quem desbrava matas…

Não só quem desbrava matas como também quem coloca uma pedra fundadora. Por exemplo, temos o prémio HCB. Daqui a dois anos, podemos pensar nas pessoas elegíveis. Veremos que é um conjunto de pessoas que vem há três décadas, muitas vezes, com obras umas boas e outras nem tanto. Umas sem impacto dentro da literatura. É uma coisa de grupos e de confrarias. Por isso digo que eu sempre soube que a minha obra tinha impacto, por mais que não tivesse conquistado o BCI.

 

Depois disso vem Animais do ocaso.

Que o editor pediu-me material… Antes chamava-se Animais com cordas no coração. A nível estético, começo a perceber que coloquei demasiada informação que, se calhar, não seria bem recebida. Mas eu tive de mudar tudo o que construí antes, para me provar que consigo criar de uma forma diferente. Os meus primeiros livros são marcados, por exemplo, por prosa poética. Nos livros que se seguiram, trago versos em estrofes.

 

O poeta também compete consigo mesmo?

Tem que ser, porque, além disso, em termos de criação, do que se produz à volta, comecei a ver muitas repetições de Álvaro Fausto. Todas as novas propostas literárias dos jovens, mais novos que eu, neste momento, estão a competir com os livros que eu publiquei anteriormente. É muito notório até em pessoas que me pedem para ver os seus textos. Mas eu já não posso estar nesse patamar desses jovens criadores que têm como referência Álvaro Fausto. São jovens de qualidade, pena que não temos olheiros que os possam puxar para as suas editoras. Nós, em termos de qualidade literária na poesia, estamos bem.

 

E na prosa?

A prosa é das disciplinas literárias que menos consumo, mas vejo de longe. Consigo perceber que há vozes. Por exemplo, Mélio Tinga. Apareceu e apareceu muito bem. A própria Virgília Ferrão… Recentemente, foram lançadas duas obras pela Fundação Fernando Leite Couto, de Maya Ângela Macuácua e Geremias Mendoso. Depois, temos o trabalho da Fundza, que é praticamente prosa e num bom ritmo. Com o tempo, veremos esse boom. Mas a poesia está a ser muito bem-feita em Moçambique. Infelizmente, não temos esse acompanhamento em termos de leitores e de crítica.

 

Como poeta, gosta de estar canonizado a uma certa forma de escrever?

Não, é por isso que falo desta necessidade de mudar e de não permanecer o mesmo. Sempre temos de buscar novas formas de passar uma mensagem e existem muitas formas de o fazer. Nos meus livros anteriores, recorro bastante à metáfora e também ao recurso imagético como recurso estilístico. Mas, por exemplo, admiro quem usa a ironia. O domínio da ironia permite uma construção poética de valor elevado.

 

Gosta de Craveirinha?

Gosto de Craveirinha, mas o meu poeta de eleição é Eduardo White, no sentido da mancha gráfica e da emoção do texto. Mas gosto, por exemplo, da irreverência do Sebastião Alba, que é um poeta que levou até às últimas consequências a ideia de poesia e de viver como poeta. Às vezes sofrido e muita gente não compreende isso. Respeito-o muito, a ele e às pessoas da minha geração, os que mencionei há pouco tempo, que são pessoas que insistem com a escrita mesmo quando o país não oferece muito em termos de retorno.

 

Até quando o retorno é número de eleitores…

Exactamente. Eu estava a fazer as contas. Lancei Recolher obrigatório do coração e fiz um esforço para que o editor acreditasse e aceitasse publicar mil exemplares. Com isso reduziu o valor da compra. Pessoalmente, vendi 100 exemplares, em três meses. Esse é o pico. Mas tenho 3800 amigos no Facebook. Obviamente, divididos em vários continentes. Esperava que 10% desse número amigos pudesse comprar os livros, ou seja, 380 vendas. Vendi 100. É um cenário assustador! Por isso tenho estado a investir no mercado externo e vem aí mais um livro. Talvez saia até o princípio do próximo ano.

 

Sempre pela Exclamação?

Sempre pela Exclamação. Inclusive, vamos tirar textos de Animais do ocaso para serem publicados em revistas na Inglaterra. É um processo de tradução que já começou e isso irá terminar em livro traduzido para o inglês, nos Estado Unidos e no Reino Unido. Os editores foram à busca de mim e encontraram-me em Portugal e não em Moçambique. A mesma coisa ocorreu porque estamos no processo de tradução do livro para Sérvia. Também deu-se pela presença do livro em Portugal. E digo mais, o livro Animais do ocaso, em Portugal, onde nem sequer sou conhecido, esgotou. Mas o meu novo livro, em Moçambique, onde tenho muita visibilidade, não conseguimos vender 300 ou 500 exemplares a um preço muito baixo.

 

Animais do ocaso faz parte do plano nacional de leitura em Portugal. Imagino que isso seja especial.

Mas seria ainda especial se os moçambicanos conseguissem ao menos perceber o que isso significa. Muitas vezes, as notícias chegam, mas não conseguimos compreender o que se está a dizer. Nem um parabéns sequer recebemos. Mas nós conseguimos chegar a Portugal com um livro e o mesmo livro ser de leitura obrigatória dos portugueses. Não ouvimos ninguém do Ministério da Cultura, do Ministério da Educação. Não existe noção do que se produz em Moçambique. Por isso somos desrespeitados. Por exemplo, há uma produtora de um canal que me pede para o meu verso ser o nome do programa e que o poema sempre passe na abertura desse programa. Eu agradeci e pedi que fizéssemos as contas. Ela respondeu que isso é um pedido que me vai dar visibilidade. Mas não é a visibilidade que queremos, mas o cheque.

 

E que se respeite os direitos do autor.

É aí que eu queria chegar. Alguma coisa tem de mudar. Este ano escrevi uma cancão para UNICEF e fui pago. Foi uma das minhas experiências como compositor e gostei que me tivessem pago os direitos. Queremos chegar a um nível que as pessoas não perguntem de vivemos, quando dizemos que somos poetas. Eu quero viver de poesia e para poesia.

 

Além de viver de poesia e para poesia, teve uma experiência com a prosa, ao publicar um texto na antologia Espíritos quânticos, organizada por Virgília Ferrão. É o inicio de um percurso na prosa?

No início disto tudo, houve um grande investimento, de minha parte e da geração a que pertenço, para podermos nos expressar em qualquer área da literatura. O livro que vai sair em Portugal e que vai ter uma réplica em Moçambique, será o meu último livro de poesia. Por um grande momento, vou estar a investir no que tenho feito agora, escrever para o cinema, para banda desenhada e, quem sabe, para prosa, no sentido de romances e contos. Mas o próximo livro será o último livro de poesia de Álvaro Fausto Taruma.

 

Porquê?

Porque é preciso deixar o espaço para os outros. Fomos irreverentes. Mas a verdade é uma, não conseguimos chegar muito longe, pelo menos para o meu caso. Eu queria poder estar a uma situação em que os livros me ajudassem a viver. Encontrei um espaço na banda desenhada, no cinema, nas telenovelas, e é disso que vivo hoje. Então, por que investir muito do meu tempo no que, apesar de me dar vida emocionalmente, não me dá pés para caminhar naquilo que é o meu dia-a-dia, como homem dentro de uma sociedade?

 

34 anos de idade e quer deixar o espaço para os outros? Não é muito cedo, considerando que há autores com 34 anos de percurso literário?

Mas que, se calhar, não investiram, em termos de sangue, o que eu investi na poesia.

 

Por que acha que com a prosa de ficção será diferente?

Já estou a falar daquilo de que vivo hoje. Vivo do cinema e das telenovelas. É isso que paga as minhas contas e percebi que é nisso que devo investir. Muitos pensam que vivo da poesia, mas a poesia é algo que vem quando muitos estão a dormir e eu não consigo dormir. Eu sempre escrevi triste, agora quero escrever alegre.

 

Sugestões artistas para os leitores do jornal O País.

Sugiro Tornado, de Teresa Noronha, e Na pele do rosto, a coisa do tempo, de Guita Jr.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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