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O País – A verdade como notícia

O jornalista José dos Remédios lançou, na Livraria Fundza, Cidade da Beira, o livro de ensaios José Craveirinha: a voz do nosso tempo. O exercício literário reúne 14 artigos de ensaístas moçambicanos e brasileiros.

A livraria Fundza, na Cidade da Beira, recebeu a primeira de duas cerimónias de lançamento do livro de ensaios José Craveirinha: a voz do nosso tempo. Com cerca de 280 páginas, o livro reúne ensaios de autores moçambicanos e brasileiros, entre os quais Francisco Noa, Carmen Lucia Tindó Secco, Rita Chaves e o organizador do livro José dos Remédios.

Intervindo na cerimónia de apresentação, Dos Remédios defendeu a importância da escrita de José Craveirinha para a sociedade moçambicana em geral. “Na escrita de Craveirinha, nós também conseguimos encontrar elementos muito concretos sobre que tipo de país estamos a construir e podemos construir. Craveirinha é um poeta actual também por isso; é uma voz do nosso tempo também por isso. Porque traz, já há algum tempo, esses vaticínios que continuam a ser importantes neste processo de construção de uma nação e de releitura dessa mesma nação”.

José Craveirinha: a voz do nosso tempo foi lançado em homenagem ao poeta, num ano em que se celebra o seu centenário de nascimento. “A iniciativa, aqui, foi reunir uma série de pessoas, dentro e fora do país, num livro com artigos que honrassem, digamos, a memória de José Craveirinha, enquanto um dos poetas mais importantes da nossa literatura. São vários temas e várias abordagens que vincam aquilo que é a contemporaneidade de José Craveirinha. E o título do livro é muito instrutivo nesse sentido, quando diz a “voz do nosso tempo”, afirmou Francisco Noa.

Para Macário Júlio, à semelhança de Francisco Noa, com um texto no livro, José Craveirinha ficará para sempre na memória dos moçambicanos. “Quando os académicos relembram a voz de um poeta, entre os maiores da literatura moçambicana, queremos chamar atenção à juventude, que, muitas vezes, lê os textos e não entende aquilo que está por detrás dos textos e das palavras”, explicou.

O livro organizado por José dos Remédios foi lançado sob a chancela da Editorial Fundza, tendo, a cerimónia de lançamento, contado com o apoio do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, a agência de viagens COTUR e Cornelder de Moçambique. No próximo dia 13, o livro será lançado no Centro Cultural Português em Maputo.

Os outros autores que participam no livro em homenagem a Craveirinha são Lucílio Manjate, Martins Mapera, Dionísio Bahule, Léo Cote, Américo Pacule, Vanessa Riambau Pinheiro, Sávio Roberto Fonseca de Freitas, Matos Matosse, Óscar Fumo e Albino Macuácua.

 

O músico Stewart Sukuma é o vencedor do Prémio Carreira da 34ª edição do Ngoma Moçambique. O acto aconteceu esta sexta-feira, na Cidade de Maputo, na gala de entrega de prémios aos vencedores da presente edição do concurso.

Na sua intervenção, Stewart Sukuma dedicou o prémio a “todas as mulheres que sofrem todo tipo de violência. Não calem a boca. Denunciem”, disse o músico.

Stewart Sukuma, que celebra 40 anos de carreira, confessa que o prémio “foi uma surpresa. Não esperava. Sinto que a missão não está concluída, contudo, devo assumir que estou orgulhoso do caminho percorrido e sinto-me valorizado e reconhecido nas artes no meu país”, acrescentou Stewart Sukuma.

Este é o segundo reconhecimento ao Stewart Sukuma este ano. Em Novembro, mereceu uma homenagem do colectivo TP50, no concerto “Sukumando”.

O prémio carreira do Ngoma Moçambique é atribuído a músicos ou bandas com mais de 25 anos de carreira, cuja obra contribuiu para o imaginário colectivo dos moçambicanos através da arte.

 

A editora Marimbique lança, segunda-feira, em Maputo, uma edição fac-similada da primeira edição de “Nós matamos o cão tinhoso”, de Luís Bernardo Honwana, em homenagem ao autor que celebrou, no dia 12 de Novembro, 80 anos de idade. O livro não terá circulação comercial, destina-se apenas a assinalar o jubiloso aniversário do escritor.

O livro de estreia de Luís Bernardo Honwana foi publicado originalmente em 1964. 58 anos depois, o livro constitui um dos marcos fundadores e fundamentais da moderna narrativa de ficção moçambicana. “Contos breves, à excepção do primeiro, que dá título ao conjunto das sete histórias, revelam um escritor prodigioso, com apenas 22 anos, e um poder de observação e uma capacidade narrativa exemplares”, lê-se na nota de imprensa da Marimbique, editora que lança a edição fac-similada, com ilustrações de Bertina Lopes.

Na mesma nota, a Marimbique lembra que Luís Bernardo Honwana começou a publicar histórias na página “Despertar” do matutino “Notícias”. Colaborou em diversos jornais (“Notícias”, “Voz de Moçambique”, “Tribuna”, “Diário de Moçambique” e “A Voz Africana”, na Beira), fez desenhos à pena, participou em exposições de artes plásticas, viu filmes e escreveu sobre o cinema, dedicou-se à fotografia, participou com jornalistas, poetas e pintores na efervescente vida cultural dos anos 60. Para além disso, praticou desporto e foi um activista político contra o regime colonial português. Por isso mesmo, conheceu, aos 22 anos de idade, a prisão pela PIDE. Esteve três anos e meio na cadeia, na mesma altura que José Craveirinha, Rui Nogar, Malangatana, entre outros importantes nacionalistas moçambicanos.

O livro  “Nós Matámos o Cão Tinhoso” conheceu, ao longo dos anos, edições sucessivas em Moçambique, sobretudo no período pós-independência, bem como diversas traduções, entre as quais “We Killed Mangy Dog and Other Stories”, publicada pela Hinneman, na mítica “African Writers Series”, dirigida pelo escritor nigeriano Chinua Achebe e que incluiu obras de autores africanos emblemáticos como Ngugi Wa Thiong ´o, Sembene Ousmane, Naguib Mahfouz, Wole Soyinka ou Nadine Gordimer, os três últimos laureados com o Prémio Nobel da Literatura. O livro teve múltiplas edições em Portugal e no Brasil.

Luís Bernardo Honwana foi jornalista e nacionalista, combatente pela liberdade, após a Independência de Moçambique desempenhou o cargo de director do gabinete do Presidente da República, foi, sucessivamente,  Secretário de Estado e Ministro da Cultura, fundador da Associação dos Escritores e de outras agremiações como a dos Fotógrafos, estabeleceu e foi primeiro Presidente do Fundo Bibliográfico, membro do Conselho Consultivo da UNESCO, seu representante na África Austral, é, hoje, Director Executivo da Fundação para a Conservação da Biodiversidade – BIOFUND.

Em 2017, Luís Bernardo Honwana publicou, 53 anos depois de “Nós Matámos o Cão Tinhoso”, a obra de ensaios “A Velha Casa de Madeira e Zinco”.

 

É já esta sexta-feira que se realiza o Acácia Jazz Festival, evento que este ano, na sua quarta edição, junta os artistas norte-americanos Jeff Lorber e Everette Harp e os moçambicanos Jimmy Dludlu, artista residente, e Leyna Souto, artista revelação para esta edição.

São esperados no Campus da UEM, de acordo com Belmiro Quive, 1200 pessoas. Para o produtor, o melhor é que cheguem cedo, às 19h00, pois a pontualidade é um dos imperativos que a produção respeita e assim estarão assegurados mais de quatro horas de espectáculo.

Em conferência de imprensa, na manhã desta quinta-feira, a organização do evento afirmou estarem criadas condições para que haja um espectáculo memorável e de padrão internacional, tendo frisado que todas as questões técnicas que envolvem, por exemplo, som, luz e segurança estão devidamente acauteladas e que tudo está condicionado para que o público tenha diversão à altura.

Já os artistas, quando dados a palavra, afirmaram estarem entusiasmados e felizes com a oportunidade, projectando um grande espectáculo.

O primeiro a tomar a palavra foi o teclista norte-americano Jeff Lorber. Natural de Filadéfia, Lorber começa a tocar em 1975, ano que Moçambique alcança a independência, e em 1977 lança o seu primeiro CD. A sua carreira reúne 13 discos, cujo último foi lançado ano passado e, o artista, já foi nomeado seis vezes para os Grammy’s.

“Estou muito feliz por estar aqui, apesar de ter sido uma longa viagem. Trago uma grande lista de músicos experientes e espero fazer intercâmbio com os músicos locais e, a partir daí, conhecer a cultura local”, assumiu Lorber.

Já Everette Harp, que toca desde os seus 20 anos e se experimenta discograficamente em 1992, tem nove discos no mercado. É a primeira vez em Moçambique, mas não em África. Já esteve na África do Sul, por isso, o calor africano não lhe é novidade.

“A minha expectativa é grande”, assume o saxofonista que espera que a maioria dos moçambicanos se sintam tocados com a sua música, tal como se sente Jimmy Dludlu, seu fã assumido.

Falando em Jimmy, que se repete em todas edições do Festival Standard Bank Acácia Jazz, diz que conhece as músicas do Jeff Lorber desde os seus 18 anos, a partir da Suazilândia. Já o Harp, reconhece, “é um dos melhores saxofonistas que eu conheço”, por isso “estou muito feliz por estar aqui e agradeço a Deus por esta oportunidade”, disse o guitarrista moçambicano.

Já Leyna Souto, a revelação desta edição, disse sentir-se lisonjeada por poder dividir o palco com os ‘monstros’ do jazz e, como se não bastasse, por ser a única mulher. Para a artista, sem dúvida, essa conquista mostra que a mulher tem força e poder de alcançar os seus sonhos.

É jazz que Souto vai cantar, mas pretende cruzar com ritmos locais, afinal, como moçambicana que é, e com orgulho, se sente na obrigação de tocar ritmos moçambicanos.

Através deste evento, o Standard Bank espera contribuir para a internacionalização da música moçambicana e promover o país como destino turístico de referência, elevando a sua cultura e promovendo o intercâmbio cultural entre músicos e outros fazedores de arte nacionais, em geral, com artistas de diversos quadrantes do mundo.

A quarta edição do festival Standard Bank Acácia Jazz é realizada em parceria com o Conselho Municipal de Maputo e o Ministério da Cultura e Turismo.

A propósito do centenário de nascimento do poeta-mor da literatura moçambicana, a Editorial Fundza vai realizar duas cerimónias de lançamento do livro de ensaios José Craveirinha: a voz do nosso tempo, organizado pelo ensaísta e jornalista José dos Remédios.

A primeira sessão de lançamento vai realizar-se hoje, com o apoio da Cornelder de Moçambique, da agência de viagem COTUR e do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, na Livraria Fundza, na Cidade da Beira. Já a segunda sessão está marcada para o dia 13 de Dezembro, no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo.

O livro de ensaios em celebração à obra de Craveirinha junta ensaios de 15 estudiosos moçambicanos e brasileiros, nomeadamente, Francisco Noa, Rita Chaves, Carmen Lucia Tindó Secco, Martins JC Mapera, Lucílio Manjate, Vanessa Riambau Pinheiro, Albino Macuácua, Óscar Fumo, Sávio Roberto Fonseca de Freitas, Léo Cote, Américo Macule, Dionísio Bahule, Zito Macário Júlio, José dos Remédios e Matos Matosse.

Cada autor assina um artigo sobre a escrita de José Craveirinha, demonstrando a actualidade estética, quer da sua poesia, quer da sua narrativa para a realidade moçambicana, africana e mundial.

Na Livraria Fundza, Cidade da Beira, a sessão de lançamento do livro constituído por aproximadamente 280 páginas, José Craveirinha: a voz do nosso tempo, irá contar com a presença de cinco autores: Francisco Noa, Lucílio Manjate, Martins JC Mapera, Zito Macário Júlio e José dos Remédios. Os ensaístas irão interagir entre si e ainda com os leitores, partilhando as suas linhas de leitura e a importância dos textos de Craveirinha na construção do imaginário nacional. Com a excepção dos que se encontram fora do país, os outros autores far-se-ão presentes na Biblioteca do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, onde irá decorrer a segunda sessão de lançamento do livro.

Segundo se lê no texto de apresentação do livro, “a edição de José Craveirinha: a voz do nosso tempo constitui uma forma de reconhecer a capacidade de o poeta pensar o futuro através do seu contexto. Porque o autor soube distintamente ser Poeta, prender o tempo, a paisagem ideológica e sociocultural moçambicana, voando a partir daí para outros lugares do planeta”, é lembrado num livro editado sob a chancela da Editorial Fundza.

Na tarde desta quarta-feira, em Maputo, aterraram os músicos norte-americanos Everette Harp e Jeff Lorber. Os ‘cabeças do cartaz’ da 4ª edição do Festival Standard Bank Acácia Jazz, evento a acontecer esta sexta-feira no Campus da Universidade Eduardo Mondlane, prometem uma noite esplêndida onde vão revisitar os melhores sucessos, de modo a celebrar os 135 anos da Cidade de Maputo.

Ainda hoje, o saxofonista Everette Harp disse ser a sua primeira vez em Moçambique e, por isso, está entusiasmado, sobretudo por estar acompanhado por Jeff Lorber.

Na sua actuação, Harp e Lorber vão cruzar-se em várias músicas, tendo em conta que têm actuado em conjunto, mas também vão tocar em músicas a solo. O destaque desta performance que junta os dois artistas vai para as músicas do grupo Jazz Funk Soul, juntamente com Paul Jackson Jr, mas que não está em Maputo.

Jazz Funk Soul é um grupo de smooth jazz formado em meados de 2010. O trio que junta Jeff Lorber, Everette Harp e Paul Jackson Jr, a partir de 2017 no lugar de Chuck Loeb, lançou quatro álbuns, indicados Jazz Funk Soul (2014) e More Serious Business (2016), Life and Times (2019) e Forecast (2022).

O Jazz Funk Soul inicialmente apresentava valências dos veteranos Jeff Lorber (teclados), Chuck Loeb (guitarra) e Everette Harp (saxofone). Os músicos destacaram-se como regulares nas paradas de smooth jazz. O vencedor do Grammy, Lorber, trabalhou com vedetas como Kenny G, Dave Koz e Miles Davis. Da mesma forma, Loeb e Harp marcaram muitos álbuns de jazz e trabalharam, respectivamente, com artistas como Eric Marienthal, Fourplaye Stanley Clarke. Eles trouxeram toda essa experiência para o seu álbum de estreia de 2014, o homônimo Jazz Funk Soul on Shanachie. Bem recebido, o álbum rendeu-lhes uma indicação ao Grammy de Melhor Álbum Instrumental Contemporâneo. Dois anos depois voltaram com o seu segundo LP, More Serious Business.

Os dois artistas vao juntar-se aos moçambicanos Jimmy Dludlu e Leyna Souto. Com este naipe de artistas, avança a organização, estão criadas as condições para, à semelhança das anteriores edições, brindar os citadinos de Maputo e os amantes do jazz de todo o país com um espectáculo memorável.

Através deste evento, espera-se contribuir para a internacionalização da música moçambicana e promover o país como destino turístico de referência, elevando a sua cultura e promovendo o intercâmbio cultural entre músicos e outros fazedores de arte nacionais, em geral, com artistas de diversos quadrantes do mundo.

Importa realçar que a quarta edição do festival Standard Bank Acácia Jazz é realizada em parceria com o Conselho Municipal de Maputo e o Ministério da Cultura e Turismo.

O estilista Nivaldo Thierry representou Moçambique no Rhythms On Da Runway, evento que decorreu de 20 a 25 deste mês de Novembro, no Gana.

Segundo avança a nota de imprensa sobre a participação do estilista, a iniciativa é a maior celebração anual de música e moda de Gana.

Em Gana, Nivaldo Thierry apresentou, em desfile, a sua nova colecção composta por mais de uma dezena de peças únicas da colecção Renasça, que já está a ganhar muita popularidade, sobretudo por se tratar de roupa pronto a vestir, tanto para homens assim como para mulheres.

Depois da estreia internacional em Setembro, na Nigéria, esta é a segunda apresentação da colecção no estrangeiro.

Em comunicado de imprensa, Nivaldo Thierry refere que “é sempre gratificante levantar as cinco cores da bandeira moçambicana além-fronteiras, para que o mundo conheça as potencialidades do nosso país”.

Depois de participar no memorável desfile, o estilista saiu à rua para entrar em contacto com a realidade do país africano. Assim, percebeu que Gana é um país bastante acolhedor para os visitantes, e, tal como Moçambique, oferece um manancial gastronómico, artístico, cultural e turístico. Fora do centro da cidade, isto é, nos bairros periféricos, Thierry viu de perto uma realidade diferente das noites badaladas da moda africana.

Nivaldo Thierry diz que a cidade possui pessoas afáveis, uma gastronomia distante da moçambicana, mas muito deliciosa. A arquitectura é rústica, visível, principalmente, na capital Acra.

Depois de Gana, o estilista moçambicano segue para Senegal, onde vai participar no Dakar Fashion Week, de 2 a 4 de Dezembro.

Por Valério Maúnde

 

Mabjeca tem 26 anos de idade. Toda a sua pouca vida passou dentro de uma bolha de fantasias e sonhos. Após o secundário, maravilhado com as teorias e correntes filosóficas que bebeu dos manuais escolares, decidiu formar-se em filosofia, movido pelo fervoroso e irredutível desejo de aprender a construir saberes lógicos e racionais e “tornar-se um ser pensante”, como frequentemente se gabava, carregando a obra Metafísica de Aristóteles debaixo do braço, levando-a para onde quer que fosse: à barraca, às festas, ao xitique, ao mercado, ao velório etc. Mabjeca só não levava a sua nova bíblia à missa porque abandonara a fé ao ser confrontado com a célebre e polémica teoria da morte de Deus, defendida pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche. A crença de Mabjeca foi sepultada a apenas três palmos e meios do chão, mas não logrou ressuscitar ao terceiro dia. Deitou fora o terço e passou a deixar a estatueta da virgem de cabeça para baixo.

Mabjeca mergulhou tão fundo no estudo da lógica aristotélica que se esqueceu de atentar para uma verdade importante, se calhar, a mais importante de todas: os índices de empregabilidade do seu curso em Moçambique. É que, por aqui, os filósofos acabam quase todos numa sala de aulas e com um salário tão baixo que muito cedo começam a problematizar alguns saberes, como é o caso da máxima de Descartes, segundo a qual basta pensar para existir. Nesta pérola do Índico, só pensar não basta para existir; é preciso ter dignidade, que decorre, irrevogavelmente, do poder de compra e da capacidade de atender às necessidades básicas do quotidiano.

Não tardou e, após 4 anos de imersão no saber filosófico, a cruel e pontiaguda verdade acima referida fez estoirar o balão da fantasia de Mabjeca e fê-lo tombar em vertiginosa queda livre numa sala de aulas com mais de 60 alunos. Era hora de pôr a ciência em prática e ensinar os jovens alunos a pensar, a criticar, a problematizar, ou seja, a filosofar.

Para a sua surpresa, o afamado método socrático não produzia efeito naquele contexto. É que os alunos não tinham disposição para responder às perguntas do professor e, quando dialogavam, era sempre entre eles, todos ao mesmo tempo, sobre tópicos alheios à aula, anulando completamente o papel e a figura de mestre que Mabjeca ali ocupava.

Mabjeca caiu no desânimo, perdeu a motivação para leccionar, até que, certo dia, lhe chega uma maravilhosa notícia: os salários seriam revistos e pagos a partir de uma Tabela Salarial Única (TSU). Para Mabjeca e para muitos funcionários públicos, a T-S-U passou a representar a esperança de ordenados melhores. Era uma representação monetária de Moisés no Egipto, com a missão de libertar os funcionários públicos da opressão da miséria. Esta esperança, entretanto, assentava mais na fé que na razão, pois bem se disse que não se tratava de aumento, mas de uniformização dos critérios de pagamento, que poderiam (mas não era certo) resultar em aumento. Mabjeca e os demais funcionários estatais fizeram ouvido de mercador, focaram-se nos prós e contas, ignorando os contras.

No final do mês, a verdade foi revelada: não só o professor Mabjeca não teve aumento, como se viu integrado num nível salarial de valor inferior ao que vinha auferindo. O professor de Filosofia passou a fingir que trabalha, imitando o Estado que finge que paga.

Em mais um dia laboral, Mabjeca entra para a sala da 12ª B, pega no giz e escreve no quadro o tema da aula: silogismos. Pela primeira vez em muito tempo, isto é, em muitas aulas, o assunto desperta o interesse dos alunos, que decidem emprestar um pouco da sua atenção ao professor. Mabjeca começa pela definição: – «em lógica, silogismo é um raciocínio feito a partir de duas proposições (premissas), das quais se deduz uma terceira, a conclusão». A explicação não faz eco. Uns franzem o sobrolho, outros coçam a cabeça e outros ainda se entreolham confusos.

Apercebendo-se do alarde discursivo sem eco que tinha acabado de produzir, Mabjeca abandona as conceptualizações e parte para os exemplos: «Todos os homens são mortais; os moçambicanos são homens; logo, os moçambicanos são mortais».

– Aham! – exclama a turma em sinal de compreensão.

Contente com a reacção, é a vez de a turma provar que realmente assimilou o conceito, dando exemplos. Marieta é a primeira: – «Se chover, não vamos ao cinema; chove; logo, não iremos ao cinema».

O professor aprova o exemplo e a turma aplaude. João Belo (mais conhecido por JB) levanta o braço, pedindo permissão para falar. A turma agita-se, reflexo da fama de indisciplinado que o jovem ostenta não só na turma, mas na escola inteira. O professor, inocente, pede silêncio e demanda que todos prestem atenção ao colega. JB levanta-se, ajeita a gravata, clareia a voz, e remata sem misericórdia: – «Todos os funcionários públicos vão receber TSU; a TSU não é um aumento salarial; logo, os funcionários públicos vão morrer pobres».

Mabjeca perde a fala, estremece, os dedos enfraquecem e deixam cair o pau de giz, que tomba e se desfaz sobre o chão gélido da sala. A turma põe-se às gargalhadas sem mãos a medir. O professor abandona a sala desconcertado, sem rumo, deixando o seu material didáctico para trás.

Dali em diante, nunca mais o professor Mabjeca voltou à escola. Meses depois, há quem jure tê-lo visto no interior de um contentor de lixo, junto à lixeira de Hulene, descalço, sujo e maltrapilho, repetindo uma ininterrupta e quase filosófica cantiga: «só sei que nada sei, mas sei que com TSU vou morrer pobre; só sei que nada sei, mas sei que com TSU vou morrer pobre…»

 

 

 

 

 

Foi relançado, quarta-feira, o livro do poeta Heliodoro Baptista. Intitulado “Por cima de toda folha”, a obra literária é uma colectânea de poemas que relembram Moçambique antes e depois da independência.

Coube à actriz moçambicana Lucrécia Paco recitar um dos poemas de Heliodoro Baptista, para dar voz e reavivar o livro “Por cima de toda folha”, que contempla poemas que levam à nostalgia do velho e do novo Homem, antes e depois da independência de Moçambique.

“Moçambique é um coração//Criança de sete anos //Submerso flutuo entre algas e árvores de um milenar de silêncio marinho//Não sou peixe, não sou coral//Quis já ser uma amoreira gigante para aterrorizar os invasores//Mas sou apenas frágil, inofensivo como tépue”, lê-se no poema Cardioscopia Indica, o primeiro caderno das poesias escritas entre 1970-74.

O autor foi levado pelo tempo, mas a obra literária permanece viva.

“É um livro que veio a calhar com este momento conturbado que estamos a viver, de conflitos, terrorismo, a ameaça a segurança nacional e o livro vem a calhar porque se no passado vivíamos um momento de agressão, nós agora também estamos a viver um momento também similar. A obra mostra as utopias que tínhamos naquela altura, então as fórmulas estão nos textos e é preciso que as pessoas leiam e talvez possamos encontrar no livro as fórmulas para sair deste conflito”, defendeu Lucílio Manjate, escritor e apresentador da obra literária.

Lucílio Manjate lamenta ainda o facto de que existam ainda outros escritos que estão a ser esquecidos, mas contribuíram, de forma significativa, para o desenvolvimento da literatura moçambicana.

“Em uma iniciativa minha, Osvaldo das Neves e Albino Macuácua. Em 2015, publicámos um livro intitulado ‘Literatura Moçambicana da ameaça ao esquecimento a urgência ao resgate’ volume um, onde analisamos seis autores da narrativa moçambicana, que não são muito badalados e suas obras não estão nas escolas, clubes de leitura, poucas vezes nas universitárias moçambicanas. É preciso que se leiam obras integrais da sociedade moçambicana. Após o lançamento, recebemos uma lista de autores que estavam esquecidos, então agora estamos a preparar o volume dois do livro para resgatar estes que estão esquecidos”, anunciou Lucílio Manjate.

O legado artístico deixado por Heliodoro Baptista foi relembrado pelo filho do poeta, 35 anos depois do primeiro lançamento.

“É o primeiro prémio de poesia em Moçambique, portanto é um marco da nossa história. Há outros autores que se destacam na literatura moçambicana como Mia Couto, José Craveirinha, mas há tantos outros que estão a ser esquecidos, embora, de alguma forma, tenham contribuído para o crescimento da literatura no país”, lamentou o filho do escritor Heliodoro Baptista Júnior.

“Por cima de toda folha” é uma colectânea constituída por 41 poemas escritos de 1970 a 1984, nos quais o autor partilha a versatilidade criativa.

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