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O País – A verdade como notícia

Por Deusa d’Africa

 

O livro “Barca oblonga”, de Otildo Justino Guido e Fernando Absalão Chaúque, foi seleccionado na primeira chamada literária da Editorial Fundza. Os dois poetas, grandes apreciadores de Luís Carlos Patraquim, decidiram homenageá-lo, após a leitura do poema “Osso Côncavo”, do livro “Osso Côncavo e Outros Poemas”.

Analiso o livro em três prismas:

  1. Significação do título do livro;
  2. A leitura tradicional e a leitura hodierna; e,
  3. O Diálogo entre “Barca Oblonga” e “Osso Côncavo”.

 

  1. Significação do título do livro

Barca é um termo que pode se referir a uma grande variedade de embarcações. Etimologicamente “Barca” é um termo originário da língua egípcia, através do grego bâris, do termo latino baris, que gerou o diminutivo barica, que gerou o termo do latim vulgar barca. De acordo com o dicionário de língua portuguesa, a palavra Oblonga é adjectivo e refere-se à característica do que é mais largo ou mais comprido. Para dizer que “barca oblonga” significa  uma larga embarcação.

A expressão “Barca Oblonga” foi transcrita do poema “Osso Côncavo”, especificamente no segundo verso da segunda estrofe do livro de Patraquim.

 

  1. A leitura tradicional e a leitura hodierna

Segundo George Steiner (2020, pág.26), “está longe de ser evidente que o uso de telas tornará facilmente obsoleta a leitura tradicional. Com o tempo o impacto será mais forte. Existem estudos que mostram que as crianças imersas na televisão e na internet relutam a ler da maneira tradicional, admitindo que sejam capazes de fazê-lo. No momento em que as artes da memória, a ginástica da concentração, os espaços de silêncio disponíveis se deterioram, estima-se que 80% dos adolescentes americanos não conseguem ler a não ser escutando música, o lugar da leitura na civilização ocidental é destinado a mudar. É possível que o tipo de leitura “clássica” vai se tornar uma paixão de certa forma especializada, ensinada e praticada nos “clubes de leitura”, que voltará a ser aquilo que foi para Aqiva e seus discípulos após a destruição do Templo, ou nas escolas e nos refeitórios monásticos na Idade Média. Uma forma de leitura que culmina, exactamente, nesse exercício de agradecimento, nessa música do espírito, no facto de aprender de cor (…)”.

Na actualidade moçambicana, vemos que os adolescentes tendem a apartar-se da leitura tradicional, optando por uma leitura hodierna obrigatória, a leitura de manuais escolares, e hermeticamente feita em momentos de testes ou exames quando se avizinham, o que faz-nos crer que mais tarde ou mais cedo uma leitura mais desapertada poderá ser feita  por imperativo circunstancial da vida.  E porque uma leitura tradicional é sempre apaixonada e culmina com o agradecimento, assim desenvolveu-se o “Barca Oblonga”, onde dois poetas colocam o exercício da escrita ao encanto de outra escrita previamente lida, a do Patraquim; pois, a paixão demonstrada neste livro resulta da leitura intimista havida entre o leitor-escritor e o escritor-leitor. Não há muros que separem o território dum e outro, apenas distinguimo-los quando vemos o resultado de cada exercício, se se trata de uma leitura ou de uma escrita, embora haja a interdependência entre ambos que levam-nos ao mesmo porto, vemos isso da ginástica de quem leu o ‘’Osso Côncavo e outros poemas” terminando em “Barca Oblonga”.

 

  1. O Diálogo entre “Barca Oblonga” e “Osso Côncavo”

O diálogo entre duas ou mais obras utilizando um texto como referência designa-se intertextualidade. Um autor utiliza um recurso intertextual quando ele traz elementos de outras obras para dentro da sua, estabelecendo uma relação entre elas, este exercício pode ocorrer na música, pintura, cinema e outras expressões culturais.

Os autores usam a paráfrase para transcrever a ideia central do texto usado como recurso intertextual. Aqui, deparamo-nos com o diálogo entre “Barca oblonga” e o “O osso côncavo e outros poemas”, onde o recurso intertextual é o poema de Patraquim que dá origem ao livro de Otildo e Fernando, e consequentemente é recurso intertextual específico o sexto verso da terceira estrofe do poema de Patraquim intitulado “Osso Côncavo”, do qual resultam as duas partes que compõem o livro: nomeadamente: “a curva suspensa” composta por 29 poemas e “a sombra eléctrica” composta por 23 poemas.

A presença de marcas patraquianas no texto faz com que a leitura ao livro seja uma revisitação ao texto de Patraquim, vemos isto logo a priori quando dizem: “Longilínea extinção da luz’’ na pag.8, enquanto Patraquim diz “longilínea dilatação do tempo” na pág 86. Enquanto para Patraquim o tempo é prolongado e esguio para Otildo e Fernando a luz se apaga vagamente, para dizer que em ambos só pode ser longo o dia da estação quando vemos a luz que define o dia ou noite onde se faz a barca oblonga entre rios citados por Patraquim. Por outro lado encontramos os dois poetas que definem a ponte como agulha do vento subentendendo o sujeito que é o rio que suporta a aludida ponte.

Se em Patraquim deparamo-nos com versos como “o espírito impetuoso, uma raiz movida pelos ventos num músculo com travejado adentro” um verso do poema “osso côncavo”, e em Otildo e Fernando encontramos um “bisturi cortando a chuva que dorme no relevo da carne” na pag. 9, pode se compreender que neste último abre-se o músculo referido por Patraquim irrompendo a dor.

No verso que se segue que diz o seguinte: “um talho vivo/ nas formulações/ orgânicas da língua’’, vemos um bisturi que adentra-se à carne e rasga-a com todos os procedimentos que se desfaz a língua. Aqui encontro um recurso intertextual com “Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora” no poema ‘’novas formulações ’’ onde cita ‘’a casa de trapos entre os lábios.’’ Para dizer que há corte e recorte da língua deixando-a em trapos ou mesmo escaqueirada.

Em Patraquim, no poema “osso côncavo” encontra-se o seguinte: “vazio (…) oscilante eco sem memória/ de ventre  que nem a águia se atreve ao voo/ e a serpente se desenrola até a evaginação de si” e para os dois poetas “perco-me devagar/ como uma palmeira/ abrindo-se no ofício das águias”,  se Patraquim traz-nos uma águia que não luta contra a serpente no solo representado pelo ventre citado o que permite que a serpente se evada e por outro lado vemos um personagem perdido como a serpente que ao céu perde a astúcia e força diante da águia que a enrola para combatê-la no seu lugar de conforto que é o espaço, e a palmeira voando como as águias.

Na página 12 dizem os poetas: “animal nuvem/ osso:/ engenharia da palavra/que os deuses/ usam para reescrever o céu’’. Encontramos o osso como o epicentro para criação do céu como um elemento do paraíso, para dizer que os poetas encontram em Patraquim, que usa a palavra osso desde o título do livro até aos poemas como a finalidade de tudo o que é dito, ou como a fórmula da equação com que se tece o livro escrito por este deus tal como o designam os poetas que são seus admiradores. Se olhássemos para a palavra mais presente em quase todos os poemas, este livro chamar-se-ia “Osso Côncavo”. Contudo, não faria sentido pelo facto de já existir o livro com esse título, o de Patraquim.

Neste exercício feito pelos dois poetas, encontramos o dadaísmo em que um começa o poema e outro dá continuidade sem se distinguir de quem é cada verso escrito. Na expectativa de lançar os meus ósculos ao chão da minha palhota, como o fazem os curandeiros, nossos engenheiros espirituais, encontrei na página 15 alguns versos escritos pelo poeta Otildo “gengiva da alga/ abocanhando peixes/ no alcatrão do limpopo” e na página 18 “entram/ pelo chão do poema/ e quebram a língua do mar: thokoza, bava!” versos escritos por Fernando Absalão. Os ósculos não se enganam.

Patraquim diz em “osso côncavo” no sexto verso da quinta estrofe “e a lava que se derrama dos pulmões furiosos’’ referindo-se as chamas da fusão de um vulcão oriundo do ar poluído representado pelos pulmões furiosos. Em Otildo e Fernando na página 32 “a metafísica/ desponta do pulmão da água/ percorre a vulva do alcatrão/ dobra-se até ser ave/ ao ritmo do nyau.” Vemos quem tomba quando se verga pela finitude com que as coisas percorrem o límpido e o obscuro, na mesma medida.

Já na segunda parte “a sombra elétrica” encontramos “pluma eléctrica/ suspensa” na página 38, “sombra líquida / eléctrica/ ancorada/ na atmosfera da dor” na página 39. Encontramos na página 40 “nas ancas do feijão e do milho”, todos estes versos surgem como resultado do recurso textual que é o poema “osso côncavo” onde encontramos anca de água negra, das cavernas uma goela roendo de se cortar a carne da língua, e uma sombra eléctrica com força e desfalecida.

Para Sartre (2014), a subjetividade é interiorização e retotalização, isto é, no fundo, para retomar termos mais vagos e, ao mesmo tempo, mais conhecidos: vive-se; a subjetividade é viver o seu ser, vive-se o que se é, e o que se é em uma sociedade, pois não conhecemos outro estado do homem; Em “Barca Oblonga”, deparamo-nos com uma poesia subjectiva de elevado signo linguístico, uma subjectividade que o poeta vive em diversificadas formas desde a pedra, na sua nudez, deitado ou mesmo sonhando tal como apresenta o excerto da página 52 “pedras que sonham/ na órbita da sombra”, e “uma cidade que é barco” citada na página 53, encontramos nas pedras descritas, os homens à volta de seu próprio reflexo e as cidades feitas por homens que são canais que levam-nos de pequenas a grandes embarcações na longilínea dilatação do tempo descrito por Patraquim.

Votos de boa leitura a todos e bem-haja esta fusão entre os dois poetas que se apresentam em três.

Referências Bibliográficas:

PATRAQUIM, Luís Carlos. “Matéria Concentrada: antologia poética”. Ndjira. 2010.

STEINER, George. “Aqueles que Queimam Livros”. Editora Âyiné. Veneza. 2020.

SARTRE, Jean –Paul.  “O que é a subjectividade?” Editora Nova Fronteira Participações S.A. Rio de Janeiro. 2014.

Treze filmes do realizador Licínio Azevedo foram exibidos, recentemente, na Cinemateca de Porto Alegre, Centro Histórico da cidade, no Centro Cultural Mário Quintana, no Brasil.

Segundo Licínio Azevedo, a mostra teve sessões diárias, entre os dias 2 e o dia 10 deste mês. As projecções foram precedidas de uma apresentação dos filmes feita pelo cineasta, convidado para o evento, e, no fim, foram realizados debates com o público.

A mostra abrangeu uma selecção dos filmes mais importantes do realizador, produzidos entre 1988 e 2022. Foram exibidos os filmes “A Colheita do Diabo” e “Marracuene”, ambos sobre a guerra civil, “A Árvore dos Antepassados”, sobre o regresso dos refugiados moçambicanos no Malawi, em 1992, ao fim da guerra, “Acampamento de Desminagem”, “Mãos de Barro”, documentário sobre Reinata Sadimba, “Hóspedes da Noite”, “O Grande Bazar”, “A Ilha dos Espíritos”, “Night Stop”, “Desobediência”, “Virgem Margarida”, “Comboio de Sal e Açúcar” e “Nhinguitimo”, a obra mais recente, adaptada de um conto de Luís Bernardo Honwana.

Os filmes possibilitaram ao público da capital gaúcha conhecer a história, a realidade actual e a cultura moçambicana, sobre as quais tinha pouca informação.

Com o sucesso da mostra, assistida por mais 500 pessoas, o Instituto Estadual de Cinema planeia novas edições da mesma, no próximo ano, em cidades do interior do Estado, e a Cinemateca pretende realizar projecções em Universidades e em Centros Comunitários de Porto Alegre.

Por: Valério Maúnde

 

O elevado índice de falantes com vícios linguísticos em Maputo fez que alguns profissionais da sociedade civil unissem esforços e fundassem a primeira clínica de reabilitação do país para falantes viciados em bengalas linguísticas, inaugurada na última segunda-feira.

“Trata-se de uma iniciativa que visa fazer face ao crescente uso abusivo de determinadas construções linguísticas contrárias à norma culta. Esta clínica pretende tratar diferentes patologias linguísticas, sendo as mais frequentes a ambiguidade, a cacofonia, o estrangeirismo, o pleonasmo e os bordões ou bengalas linguísticas.” – pautou Henriqueta Marengula, Directora da Clínica de Tratamento de Vícios Linguísticos (CTVL).

Relativamente ao público alvo primário deste centro médico-linguístico, Henriqueta Marengula informou: “– Na fase piloto, o atendimento vai ser dado exclusivamente a repórteres, apresentadores de televisão e locutores de rádio na cidade de Maputo, uma vez que estes profissionais, pala exposição ao público, se destacam, principalmente, no uso do bordão linguístico que consiste no emprego repetitivo e indiscriminado do termo ‘portanto’ nas suas produções orais, especialmente em programas passados em directo.”

O evento contou com a presença de várias individualidades dos ministérios da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH) e da saúde (MISAU). Na ocasião, foi apresentada a equipa de trabalho responsável pelo tratamento dos pacientes, a saber, médicos neurologistas, psicólogos, terapeutas da fala, professores de Língua Portuguesa e pesquisadores da área.

Os jornalistas presentes no evento não esconderam o seu desconforto com a proposta da clínica e teceram duras críticas ao projecto.

“- Portanto, estão a tentar dizer que nós, jornalistas e locutores, não sabemos falar Português, quer dizer, portanto, agora vamos ser todos internados, e, portanto, a pergunta que não quer calar é esta: quem vai produzir notícia?” – desabafou uma renomada repórter da praça.

Na mesma senda, um afamado apresentador de telejornal de uma importante emissora nacional deixou ficar o seu sentimento:

“- Ora viva! Bem, no que tange a esta clínica, portanto, eu e os meus colegas estamos ofendidíssimos com a tese implícita à sua criação, portanto, nós nem fomos consultados sobre a necessidade desta instituição e, portanto, não achamos que seja útil para nós – comunicadores reconhecidos dentro de portas e além-fronteiras.”

Estes posicionamentos foram reprovados pelo Chefe de Estado que, tendo sido convidado a presidir a inauguração, deixou um recado claro e breve no seu discurso:

“- Compatriotas, senhores jornalistas aqui presentes, esta clínica que hoje inauguramos é a manifestação pública da preocupação da sociedade civil em relação a forma como vocês andam a falar nas televisões e rádios. Andam a repetir “portanto, portanto” toda a hora, parece não conhecem outras palavras. Nós, como governo, vamos ajudar a monitorar a vossa adesão aos tratamentos e vamos dar todo o apoio necessário para abandonarem os vícios de língua e serem exemplo para a nossa sociedade, do Rovuma ao Maputo, do Índico ao Zumbo. E ouçam bem:  não andem a complicar os docentes e toda a equipa que estão aqui para vos ajudar.”

Finalmente, no que concerne à duração e ao tipo de tratamento para cada paciente, Henriqueta Marengula fez notar o seguinte:

“- O nível de dependência está relacionado aos hábitos do indivíduo. A pessoa que acorda já dizendo ‘portanto’ quase sempre tem um alto grau de vício linguístico. Quem inicia uma frase e já sente a vontade de empregar a palavra ‘portanto’, em geral, também tem mais dificuldade de parar, porque existe, certamente, um nível mais acentuado de dependência. Nessas situações, a saída mais efectiva são mesmo as intervenções neurológicas, pois só as aulas de Língua Portuguesa não resolvem o problema.”

 

Por: Tavares Cebola

 

Desde que iniciaram as transmissões do julgamento das chamadas dívidas ocultas, no ano passado, o caso ocupou, mais do que qualquer outro acontecimento, o espaço mediático nacional. Canais de televisão e rádios transmitiram as sessões a partir do estabelecimento penitenciário da BO, em Matola. Nas redes sociais, um tema dominante foi precisamente o das dívidas ocultas. O interesse gerado pelo julgamento só encontra paralelo com outro, de 2002, do assassinato do jornalista Carlos Cardoso.

O assunto dominou de tal maneira o espaço mediático que alguns advogados a defender os acusados solicitaram ao tribunal, pelo menos duas vezes, a interrupção de transmissões – pedidos recusados pelo juiz. Desconheço os argumentos apresentados mas é provável que tenham dito que as transmissões produziriam efeitos indesejados na prossecução de justiça. Por outras palavras, as transmissões contaminariam as interacções no tribunal e os seus resultados. Temiam, talvez, o que ficou popularizado por julgamentos de grande visibilidade envolvendo personalidades públicas em Hollywood. Trial by media.

O espaço mediático foi, então, simultaneamente, moderador e palco do conflito. Aqui está esse espaço cheio de imagens, a sociedade de espectáculo de que nos falou o francês Guy Debord há mais de 50 anos.

Na tenda do julgamento estavam dezenas de jornalistas, a representar televisões e rádios e jornais e o mais. E havia a figura de quem faz comentários – inevitavelmente propondo leituras sobre os actos na sala, prognósticos e explicações sobre as práticas em tribunais.

A coreografia no tribunal, os gestos, as insistências da acusação, as respostas dos réus – esquecimento, negação, prantos, etc., produziram efeitos na arena. Mas também fora dela: virtualmente o lugar onde todos temos direito à opinião. Ou seja, nada do que vimos e ouvimos acabou na tenda da BO.

Nas bombas de combustíveis, na espera em bancos, em supermercados, escritórios, transportes públicos, em praticamente todo o lado estávamos expostos à voz do juiz e dos acusados e de todos os intervenientes. E desses lugares ouvíamos os ocasionais elogios a um e outro, a revolta, a admiração e as lamentações (apesar de os factos à volta do caso serem já conhecidos, a leitura da acusação, principalmente no saber-se dos gastos em luxo em que os acusados – agora condenados – viviam, produziu um grande impacto).

Outra extensão da popularidade do julgamento veio em forma de memes, fenómeno singular do nosso tempo. Vimos, em todos estes meios, ansiosos, o decorrer dos acontecimentos ao longo de muitos meses de julgamento.

Vimos o juiz e as suas demonstrações de autoridade aplaudidas por muitos que assistiram (é provável que os perfis dos acusados muito tenham contribuído para isso: “podemos ver os poderosos, impotentes e questionados por um poder maior que o deles” ou o muito comum “afinal somos um país rico”), a máscara de uma advogada que não a pôs como devia em tempos de COVID.

O julgamento do maior caso conhecido de corrupção no país foi acompanhado por muitos milhões à extensão do país. Não era apenas um caso de banditismo privado ou improbidades domésticas. Os mais pobres do país sofreram as piores consequências.

Houve também a opacidade que contrastou com a natureza pública da transmissão: as empresas constituídas para as dívidas estavam ligadas aos serviços secretos moçambicanos e tinham como gestores seus operativos. Esses operativos declararam algumas vezes que algumas respostas não poderiam ser dadas por serem de ‘segredo de estado’. Ficámos a saber através de uma transmissão que não podiam responder – o seu trabalho era, afinal, guardar segredo.

Os limites do secreto nunca foram ultrapassados, apesar de todas as revelações. É a muralha secreta do estado.

Com o outro, o do jornalista Carlos Cardoso, os dois são os mais mediatizados julgamentos na história do país.

As respostas face à leitura da sentença, pelo menos vistas pelo que se diz nas redes sociais, oscilam entre a noção de que foi tudo uma grande encenação e são brandas as penas, considerando os crimes cometidos.

Como se vê, o caso ultrapassa o perímetro da tenda de julgamento. A transmissão de imagens produz os seus efeitos.

O que vimos com este julgamento foram, em parte, os dramas do país. O choque do nosso presente e os receios do nosso futuro.

 

 

 

A Editorial Fundza lança, às 16 horas desta quinta-feira, no Hotel Inter Chimoio, na capital de Manica, o livro Lições de direitos fundamentais, da autoria de Stela Santos e António Leão.

Constituído por 215 páginas, o livro foi escrito a quatro mãos pelos dois professores universitários, ambos residentes na Cidade da Beira. Trata-se de um livro de análise didáctica e técnica do Sistema de Direitos Fundamentais estabelecido na Constituição de Moçambique, visando contribuir para um reforço do conhecimento sobre a matéria jurídica de transcendental importância.

Lições de direitos fundamentais, de Stela Santos e António Leão, foi prefaciado pelo advogado Gilberto Correia, para quem o livro traduz uma análise integrada entre a teoria e a prática, proporcionando aos destinatários uma leitura abrangente e de fácil acesso. Simultaneamente, o livro procura uma sintonia com as preocupações transnacionais do constitucionalismo contemporâneo, no sentido de fortalecer o respeito pelos Direitos Fundamentais, o sistema democrático e o Estado de Direito.

Segundo salienta Gilberto Correia, em Lições de direitos fundamentais, Stela Santos e António Leão partem do geral, no sentido de incorporar, analisar e discutir a dogmática dos Direitos Fundamentais ao nível mais amplo. Todavia, abordam com mestria especificidades relevantes sobre a matéria no ordenamento jurídico moçambicano.

“Num país com um catálogo rico em Direitos Fundamentais, mas, paradoxalmente, com uma tradição de desrespeito por esta categoria de direitos, não só não é fácil ensinar Direitos Fundamentais como também não o é escrever sobre os mesmos. Porém, essa dificuldade não pretende significar que não seja importante fazê-lo, antes pelo contrário. A dedicação dos autores ao ensino e à materialização de uma cultura de respeito pelos Direitos Fundamentais, no contexto particular em que se insere, constitui um louvor à resiliência e à esperança, de certo modo utópica”, lê-se no prefácio.

A cerimónia de apresentação de Lições de direitos fundamentais, na Cidade de Chimoio, acontece depois de Stela Santos e António Leão terem lançado, semana passada, o livro na Livraria Fundza, na Cidade da Beira.

No Chimoio, o livro será apresentado por Francisco Massambo.

Usando o pseudónimo de Natália O. Campos, Jofredino Faife venceu a sexta edição do Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa, pelo seu trabalho Teatro de Marionetes (ou Ensaio sobre a Mecânica Descritiva da Desertificação dos Homens), uma “narrativa distópica com tendência para a ficção científica”, conforme entendem os membros de júri citados em comunicado de imprensa.

O júri da sexta edição do Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa foi presidido pelo poeta  Mbate Pedro, tendo como outros membros Sara Jona Laisse, Directora da Fundação Fernando Leite Couto, e Paula Mendes, editora-chefe na Imprensa Nacional. Assim, avança a nota de imprensa, o júri deliberou atribuir o prémio a Teatro de Marionetes, de Jofredino Faife, por considerar que se trata de “uma rara proposta literária em Moçambique” que, além de revelar “a erudição literária e linguística, por parte do seu autor”, é uma obra “criativa, complexa e de grande fôlego, deixando entrever o investimento posto na sua elaboração”.

O Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa contempla a edição da obra vencedora, bem como a atribuição do valor monetário de cinco mil euros ao vencedor, cerca de 335 mil meticais.

O Prémio Imprensa Nacional/Eugénio Lisboa foi criado em 2017 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, numa parceria com o Camões – Centro Cultural Português em Maputo, dando corpo à sua missão de promoção e preservação da língua portuguesa, e visa seleccionar trabalhos inéditos de grande qualidade no domínio da prosa literária. Além da componente pecuniária, contempla ainda publicação das obras distinguidas em cada edição, incentivando desta forma a criação literária moçambicana. Jofredino Faife deverá ver assim o seu trabalho publicado já no próximo ano, pela editora pública portuguesa.

Jofredino Faife vive e trabalha em Maputo. É pedagogo de formação. Trabalhou como pesquisador, docente e chefe do departamento de Ciências da Educação e Psicologia na Universidade Pedagógica. Actualmente, é especialista de educação, trabalhando no sector não-governamental. É vencedor do Prémio Fundação Rui de Noronha – 2009 (Memórias de um carteiro, inédito) e Prémio TDM de Literatura – 2012 (Filha de um deus menor, AEMO).

 

Arrancou esta sexta-feira, em Quelimane, a décima terceira edição do festival de Zalala. São esperados, na maior montra cultural da província da Zambézia, 40 mil turistas nacionais e estrangeiros.

Mais de 70 barracas já foram montadas e 40 artistas vão abrilhantar a festa.

“Estou muito feliz por ter sido convidado a este festival, que já fazia falta não só para os músicos como para a população da nossa província. É a nossa maior montra cultural. Por isso, trago repertório de músicas novas e antigas ‘O homem é motor’ e ‘Mulher é uma viagem’, afirmou o cantor Mr. Conselho.

Constâncio, também cantor, diz esperar que o festival traga alguma evolução em termos de expressões culturais e convida todos a participarem no evento.

Já o Governo da Zambézia diz que o festival de Zalala deve servir para mostrar ao país e ao mundo o que se faz de melhor na província.

“Fazemos a boa música, temos as melhores gastronomias do país, produzimos objectos na base da nossa madeira, temos lindas praias e um povo acolhedor. Por isso, façamos deste festival a verdadeira montra cultural da Zambézia”, apelou o governador Pio Matos.

Matos aconselhou os participantes e expositores a divertirem-se, mas com muita moderação.

A décima terceira edição do festival da praia de Zalala realiza-se dois anos depois da interrupção devido à COVID-19.

Música, gastronomia, oficinas de arte, moda, e outras diversas expressões culturais vão marcar o evento.

Foi lançado, em Maputo, o livro da escritora e oficial do exército, Teresa Taimo, intitulado “A Mulher na Defesa da Pátria”. A obra literária narra histórias das mulheres que defendem a pátria através do seu ofício.

A escritora Teresa Taimo, que também é oficial do exército, lançou, esta segunda-feira, o livro intitulado  “Mulher na Defesa da Pátria”, que, segundo explica, visa moldar a sociedade.

“A inspiração veio de nós mesmas, daquela necessidade de querer entender quem é a mulher na defesa da pátria, qual é o perfil da mulher na defesa da pátria, qual é o papel da mulher na defesa da pátria, que formação tem a mulher na defesa da pátria e qual é a carreira e nível de progressão”, revelou Teresa Taimo.

De acordo com a apresentadora da obra literária, Quitéria Guirengane, o livro vai ajudar a moldar o pensamento da mulher moçambicana.

“Mostra como é [a mulher] em diferentes prismas; não apenas na vertente das Forças de Defesa e Segurança – da qual a autora faz parte –, mas também noutras partes, incluindo o activismo. As mulheres podem defender a nossa pátria. [A obra] levanta, igualmente, uma série de questionamentos, inclusive sobre como a génese da construção do Estado moçambicano – a participação da mulher nas forças armadas – foi sempre questionada”, descreveu Quitéria Guirengane, apresentadora da obra.

A obra, com 133 páginas, é a terceira de Teresa Taimo. A primeira foi “O Regresso do Descontente” e a segunda intitula-se “A Refugiada”.

O livro traz questões como a percepção que a comunidade tem num contexto de violência, em que as mulheres sofrem violação no teatro operacional, no âmbito dos raptos e do terrorismo.

O evento contou com a presença de académicos, membros das forças armadas e estudantes.

Músicos nacionais e estrangeiros brilharam, na última sexta-feira, na quarta edição do Festival Standard Bank Acácias Jazz, na Cidade de Maputo. No palco montado no Campus da Universidade Eduardo Mondlane, ouviram-se ritmos de Jimmy Dludlu, Everette Harp e Jeff Lorber.

O Festival Standard Bank Acácia Jazz, realizado na Cidade de Maputo, teve a duração de mais de quatro horas e começou com a actuação de Leyna Souto. A jovem artista apresentou mais de cinco temas e usou do melhor da sua voz para se estrear em palco.

E, como sempre, Jimmy Dludlu fez o palco estremecer com a sua energia. Depois da actuação, em entrevista, o guitarrista moçambicano disse que o sucesso do espectáculo foi possível graças aos seus alunos. O artista ainda endereçou “parabéns ao Standard Bank e a todos os artistas que fizeram parte do festival’’.

E como não devia deixar de ser, o público seguiu no mesmo barco. Paulo Ricardo, do lado da plateia, deixou a emoção falar alto e disse que é a primeira vez em que assiste a um “verdadeiro” espetáculo.

O saxofonista Everette Harp, acompanhado pelo Jeff Lorber, mostrou que o jazz não tem fronteiras. Os dois artistas marcaram em grande a sua primeira actuação em Moçambique.

Everette Harp toca desde os seus 20 anos e experimentou-se discograficamente em 1992, tendo agora nove discos no mercado.

Já Jeff Lorber, natural de Filadélfia, começou a tocar em 1975, e em 1977 lançou o seu primeiro CD. A sua carreira reúne 13 discos, sendo que o último foi lançado ano passado. O artista já foi nomeado seis vezes para os Grammy’s.

A quarta edição do Festival Standard Bank Acácia Jazz é realizada em parceria com o Conselho Municipal de Maputo e o Ministério da Cultura e Turismo.

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