O País – A verdade como notícia

Às 17h30 desta terça-feira, no Centro Cultural Brasil-Moçambique/ Instituto Guimarães Rosa, na Cidade de Maputo, a Editorial Fundza vai lançar os livros O ardina de sapatos gastos, de Alerto Bia, e Barca oblonga, de Otildo Justino Guido e Fernando Absalão Chaúque.

Segundo a nota da editora, a ser apresentado pelo poeta Eduardo Quive, o livro O ardina de sapatos gastos, de Alerto Bia, é um conjunto de histórias que oscilam entre o conto e a crónica. Para o autor com três livros de poesia, O ardina de sapatos gastos apresenta-se como uma nova abordagem, que amplia o seu processo criativo. “Na sua quarta publicação em livro, a primeira pela Editorial Fundza, Bia faz da sua escrita uma possibilidade de tecer uma radiografia da sociedade moçambicana. Por isso, o autor espera que os seus leitores encontrem uma escrita sugestiva”, lê-se na nota de imprensa.

De acordo com a Fundza, quanto ao livro Barca oblonga, de Otildo Justino Guido e Fernando Absalão Chaúque, que será apresentado pelo poeta Álvaro Fausto Taruma, é um projecto que surgiu ocasionalmente em 2020. No princípio, a ideia dos autores era combater o confinamento imposto pela COVID-19. Depois, ao aperceberem-se que ambos são grandes apreciadores de Luís Carlos Patraquim, decidiram avançar com um projecto em homenagem ao poeta.

Barca oblonga foi escrito de forma amigável, avança a Fundza, sem pressa e sem grandes pretensões. O que Guido e Chaúque quiseram foi criar diálogos literários com a obra de um dos mais importantes autores moçambicanos. Desse modo, ao lê-lo e ao estabelecerem diálogos com a sua obra, puderam conhecer o que consideram homem da palavra medida.

O livro Barca oblonga é poesia em verso constituído por dois cadernos: “A curva suspensa” e “A sombra eléctrica”. Os títulos de ambos os cadernos foram retirados da estrofe do poema “O osso côncavo”, de Luís Carlos Patraquim.

Os livros O ardina de sapatos gastos, de Alerto Bia, e Barca oblonga, de Otildo Justino Guido e Fernando Absalão Chaúque, foram seleccionados na primeira chamada literária da Editorial Fundza.

Alerto Bia nasceu a 2 de Março, em Inhambane. Possui uma publicação dispersa de textos em prosa e poesia nos jornais e revistas. Foi associado do CEPAN (Clube de Escritores, Poetas e Amigos do Niassa). Despontou no olimpo literário com a obra “Sonhar é ressuscitar”, 2016, sob a chancela da Livre Editores, Maputo. Em 2017, Publicou “Sombras cálidas”, sob a chancela da Editora do Carmo, Brasil; “O desassossego por dentro”, 2021, sob a chancela da Editora Folheando, Belém. É co-autor do primeiro volume de “Contos e crónicas para ler em casa”, 2020,  sob a chancela da Literatas. Em 2020, foi distinguido no Prémio Internacional Literatura e Fechadura, com a obra “O desassossego por dentro”, e ficou em 4º lugar no IV Concurso Internacional de Poesia – Prémio Cecília Meireles, 2019.

Otildo Justino Guido, moçambicano, natural de Inhambane, escritor, poeta, compositor e activista cultural, formado em Contabilidade e Finanças, vencedor do Prémio Literário Fernando Leite Couto (2019), com o livro “o silêncio da pele” (Moçambique), vencedor do Prémio de Poesia Judith Teixeira (2020), com o livro“ o osso da água” (Portugal). Publicado em várias antologias e revistas nacionais e internacionais.

Fernando Absalão Chaúque é natural de Maputo. É professor; licenciado em Ensino de Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica de Maputo. É vencedor do terceiro Concurso Literário Alcance Editores – 2019, com o livro de prosa Âncora no ventre do tempo.

“Ora Chegou” é o novo álbum da cantora moçambicana Elvira Viegas. Composto por 17 temas, a obra discográfica foi lançada esta sexta-feira, no Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane.

Ao som da guitarra, do piano e da bateria, o público vibrou. A melódica voz de Elvira Viegas anunciava o lançamento do seu novo álbum “Ora Chegou”.

Com a música intitulada “khombo”, que significa azar, Elvira cantou e encantou. A música fala do azar, mas é no amor e educação que o casal Chissano se revê. “É uma mensagem educadora, que leva à reconciliação, à paz e, sobretudo, à valorização da nossa cultura e tradição”, afirmou o casal Chissano.

Roberto Chitsondzo fala da experiência de partilhar o palco com Elvira Viegas. “Quero felicitá-la pela perseverança. É uma pessoa que já não é jovem e que continua a marcar o espaço que todos nós queremos”, disse o músico.

Elvira Viegas, cantora com muitos anos de carreira, considera que a música é uma arma para moldar a sociedade moçambicana. “Devemos construir um Moçambique diferente, melhor para todos; um Moçambique em que a nossa criança não tenha medo de ninguém; um país em que um velho pai não tenha medo dos seus filhos. Então, não podemos ficar indiferentes diante de tudo o que acontece no nosso país”, vincou Elvira Viegas.

Para abrilhantar o espetáculo, o evento contou  ainda com artistas como Ivone Viegas, Chico António e Nelson e Tânia Chongo. Do lado da plateia, esteve um espectador especial, o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano.

O novo disco não foge dos traços habituais das composições de Elvira, marcadamente de intervenção social, afinal. Ela sempre defendeu a tese de que “o artista deve continuar a ser a voz dos que não conseguem falar”.

“Ora Chegou” foi produzido pelo falecido Pacha Viegas, mas ficou na gaveta durante anos, porque, segundo Elvira, o tema-título é demasiado crítico. “Eu tinha algum receio de ser mal-entendida, mas os últimos acontecimentos no nosso país levaram-me a decidir publicar o disco”, revelou a cantora.

Elvira Viegas contribui para a cultura moçambicana há 48 anos. Com 68 anos de vida, a cantora conseguiu fascinar o seu público com o mais recente trabalho.

Dos 17 temas que compõem o álbum, os elegidos para maravilhar o seu público no espetáculo são “Ora Chegou”, “Khombo” e “Na Hale Tsongo”, que serviram de cartão para o lançamento do seu disco.

Elvira definiu o seu mais recente trabalho como maturidade, crescimento e contínuo aprendizado.

Às 18 horas desta sexta-feira, na Livraria Fundza, cidade da Beira, a Editorial Fundza vai lançar o livro Insistes em ignorar-me, de Argentina Banze.

Em aproximadamente 80 páginas, o livro motivacional pretende abrir caminhos para as mulheres e ampliar os seus horizontes, pois, conforme entende a autora, o que também lhe move é mostrar às mulheres que o matrimónio não é a realização da vida. Há outras conquistas importantes.

De acordo com a Fundza, Insiste em ignorar-me é um livro que, logo à partida, expressa a preocupação da autora pelos outros. Por isso mesmo, faz da escrita uma forma de terapia e uma poderosa forma de curar e solucionar os problemas quotidianos.

“Insiste em ignorar-me também é um grito e uma busca pelo controlo da existência. O livro tem como base o tempo, uma representação da vida num mundo efémero. “Quando julgamos que temos muito tempo, acabamos por não fazer nada, e, muitas vezes, corremos atrás do prejuízo”, entende Argentina Banze, acrescentando que é para ajudar às pessoas a deixarem de sentir uma espécie de perda, quando, aparentemente, pensam que o tempo lhes atraiçoa”, lê-se na nota de imprensa da Fundza.

Segundo Argentina Banze, quem melhor consegue fazer o uso do tempo, triunfa na vida, porque a vida e o tempo constituem relações indissociáveis.

Depois de escrever Insiste em ignorar-me, Argentina Banze conta que se transformou numa pessoa que abraça a ideia de transmitir ao mundo uma certa forma de expressar sentimentos, o que a favorece na percepção do outro e, consequentemente, das vicissitudes sociais.

Na cerimónia de lançamento a realizar-se esta sexta-feira, na Livraria Fundza, o livro será apresentado por Ivan Mauro Matos e Lemos.

Argentina Banze é natural de Massinga, Inhambane. É formada em Direito pela Universidade Zambeze, advogada estagiária, voluntária no TEDx Beira e já exerceu a docência universitária no curso de Direito. Sempre viu a escrita como uma forma de terapia. O seu gosto pela escrita é representado pelo texto de Fernando Pessoa, que diz: “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

O país quer combater e eliminar todas as formas de pirataria, exclusão e de opressão cultural, com a aprovação, esta quarta-feira, da ratificação da Carta Africana da Renascença. A ministra da Cultura e Turismo diz que o documento vai valorizar a cultura moçambicana.

Trata-se de um instrumento que estabelece os princípios para a promoção e valorização do património cultural em África, ou seja, segundo a ministra da Cultura e Turismo, com a ratificação da carta, o país passa a assumir, com mais obrigatoriedade, a missão de proteger e expor ainda mais a cultura nacional.

“A Carta da Renascença Cultural de África providenciará a Moçambique oportunidades, para desenvolver políticas e estratégias que venham responder aos desafios actuais que o Governo enfrenta no campo das artes e cultura, como também para concertar e consolidar posições com outros Estados”, disse Edelvina Materula, durante a sua intervenção.

Segundo o Governo, a lei visa, entre outros, afirmar a dignidade de homens e mulheres africanos, bem como os fundamentos populares da sua cultura; promover a liberdade de expressão e democracia cultural, que é indivisível da democracia política e social; promover um ambiente propício para os povos africanos manterem e reforçarem o sentido e a vontade de progresso e desenvolvimento; preservar e promover a herança cultural africana, através da restituição e da reabilitação; combater e eliminar todas as formas de alienação, exclusão e de opressão cultural em todas as partes de África.

Ainda com a ratificação do instrumento, Materula diz que Moçambique sai a ganhar, pois terá mais um elemento para se conectar ao mundo, através das artes e cultura, com destaque para as línguas.

O instrumento ora aprovado é, segundo a Comissão de Relações Internacionais, Cooperação e Comunidades, 7ª comissão da Assembleia da República, o assumir do compromisso de promover uma identidade cultural africana, uma vez que o país faz parte da União Africana.

“Tendo em conta que a cultura é parte integrante dos esforços de desenvolvimento do continente africano, no geral, e de Moçambique, em particular, mostra-se importante que os Estados adoptem medidas legislativas de protecção e aproveitamento eficaz do conhecimento e criações culturais”, disse Catarina Dimande.

A parlamentar defende ainda que a ratificação possibilitará maior articulação entre Moçambique e os Estados-membros da União Europeia no apoio à assistência, no âmbito dos processos de candidatura a património cultural e natural, considerando, particularmente, “a dimensão transfronteiriça dos bens culturais imateriais e naturais, reforçando a posição de Moçambique, a nível regional e continental, na lista do património mundial da UNESCO”, acrescentou.

Os deputados da Assembleia da República, que aprovaram, esta quarta-feira, por unanimidade a resolução, falam de um instrumento que deve ser acolhido e aplicado na íntegra e não sofrer influências políticas.

Os deputados exigem que, com a ratificação da carta, se abra espaço para maior valorização da arte e cultura.

Ainda nesta sessão, foram aprovadas em definitivo e por consenso a revisão da Lei Cambial e a criação da Lei das Contas Bancárias.

A Fundza lança, às 18h30 desta quarta-feira, no Espaço Ruby, na Cidade de Nampula, o primeiro livro de Adriano Félix, que, na cerimónia, será apresentado por Jaime Jemusse.

Makhalelo é uma colectânea de textos, entre o real e o hilariante, com questões do quotidiano vivenciadas na terceira maior cidade do país, onde o autor vive e trabalha. Trata-se de um livro constituído por 38 crónicas, que traduzem acontecimentos inerentes a diversos círculos, com destaque para ambientes familiares e informais, como mercados, chapas ou cemitérios.

Segundo a nota de imprensa da Editorial Fundza, Adriano Félix capta os sons, os sotaques, faz a subversão e o retrato da língua portuguesa num cruzamento com a maneira macua de a falar. É nisso que o autor identifica o potencial hilariante a que não resiste na ficcionalização dos espaços e dos ambientes retratados com personagens únicas e inspiradoras.

A mesma nota avança que através de Makhalelo, Adriano Félix pensa, fundamentalmente, na realidade dos nampulenses, esmerando-se, a partir da escrita, na valorização do que os seus co-cidadãos são quando se encontram em família ou na via pública. O grande projecto de Félix, de alguma maneira, é transmitir ao seu leitor a maneira de ser dos cidadãos sobre os quais escreve.

“Adriano Félix faz crónica como um acto de memória e de prender o tempo. Por isso mesmo, o autor escreve, muitas vezes, recorrendo ao que a Cidade de Nampula oferece em termos criativos. Bem dito, para Félix, Nampula é a sua maior inspiração, o seu chão e o lugar onde gosta de se movimentar”, lê-se na nota de imprensa da Fundza.

O primeiro livro de Félix foi seleccionado na primeira chamada literária da Editorial Fundza

Adriano Félix nasceu em Nampula. Além de crónicas, escreve poemas, contos e romances. É mestre em Urbanismo pela La Trobe University, docente do Curso de Urbanismo e Ordenamento do Território na Universidade Lúrio. Está publicado em algumas antologias, tais como antologia de poesia portuguesa contemporânea Entre o sonho e o sono (2017), antologia de literatura contemporânea Alma de mar (2021) e Nampula: antologia de his-es-tórias de uma cidade vibrante (2022).

Por: Óscar Rosário Jorge Daniel

 

O dicionário da sobrevivência, de Francisco Raposo, publicado pela editora moçambicana Fundza, em Agosto de 2022, é um romance típico moçambicano, que se caracteriza por uma junção de pequenos contos, apresentados ou não em títulos. Raposo não foge desta característica. A sua obra está composta por 10 contos, curtos e simples de leitura. Embora cada conto apresente um título diferente, a temática abordada em cada um destes é a mesma, a que dá título a sua obra “O dicionário da sobrevivência”.

Considera-se de dicionário uma obra de referência onde se encontram listadas palavras e expressões de uma língua, por ordem alfabética, com informação linguística sobre cada uma delas, como a respectiva significação ou tradução para outra língua, a classe a que pertencem, informação fonética, etimológica etc., mas este dicionário, que hoje é lançado neste auditório, não é da listagem de palavras com a informação da classe a que pertence, informação fonética ou etimológica, é sim, uma listagem da vida social dos moçambicanos que sofreram e sofrem ciclicamente com desastres naturais, nos últimos anos, tais como, ciclone IDAI, retratado no conto que introduz a obra; Covid-19; a guerra contra os insurgentes, entre outros, influenciando negativamente a vida social dos moçambicanos, como, mortes de formas diversificadas, perda de produtos nas suas machambas, nas suas lojas, não apenas pela força da natureza, mas também pela força humana (aproveitando a oportunidade para saquear os produtos), como refere na seguinte passagem textual: “Daí toda a comunidade entrou e transformou-se em bando de bandidos desarmados fisicamente. Mexeram em tudo, para retirar farinha de milho, arroz e óleo” (p.14).

Além disso, trata-se da subida de preços dos produtos “Os preços das coisas subiram. Tudo já custa o triplo. Até pensar correctamente já custa” (p.15), criando endividamento aos bancos, “Submeteu o seu expediente ao banco. Em uma semana, alguém trouxe a carta assinada pelo próprio gerente. Já estava consumado, já se conhecia a primeira pessoa a beneficiar-se do crédito do novo primeiro banco de dinheiro da vila” (p.58) (…) “- Viva! Viva! Eu tenho crédito. Viva! Viva! Ndano maleyapepa” (p.59). Endividamento nas casas vizinhas, “Lembra que tem muitas dívidas conhecidas e outras ocultas na banca do vizinho, que, com certeza, não lhe faria novamente o favor de empréstimo – o pai de Bebito tem fama de mau pagador” (p.20).

Falta de comunicação através das redes de telefonia móveis “Sem redes telefónicas, a única forma de contactar os outros era pelo método antigo” (p.16). Há também oportunismo, para além do referenciado nas linhas anteriores, os personagens inventam a separação conjugal para obter oportunidade de receber os produtos oferecidos por vários doadores ao dobro, “Do outro lado, estava a família Flores, combinando falsa separação e divisão dos filhos, para driblar a intercessão matemática e receber mais tendas e comida” (p.17).

Contudo, o custo de vida subiu, tendo levado às pessoas a se prostituírem para ganharem a vida “E no ano seguinte pôs em prática os novos saberes, cedeu a todas seduções, deu carne a quem teve fome. Deu aconchego a quem teve tormento (…). Chegam dois homens que invadem a mesma mesa. Expelem charmosos olhares. E elas cruzam as pernas, e jogam alguns centímetros de nádega como amostra do sabor que escondem. Entre si, elas escolhem os futuros parceiros no vapor do álcool” (pp.40-41). “Muita bebida. Beijos de múltiplas parcerias. A lascívia agudiza-se a cada segundo. Tonito agarra-se à Maria Mecubela. As outras estendem-se ao Russel por ser branco e este joga a camisa para o chão de forma canibal” (p.51).  Outras pessoas encontram a igreja como refúgio, “Rufino Alegre ficou curioso, não quis perder mais tempo. Anotou rapidamente o endereço da igreja ODD e os horários do culto. Anotou os números de telefone do Profeta Novo Moisés” (p.27). “Quando chegou, foi recebido por um grupo de jovens e adolescentes designados faz de conta levitas”, vestidos de preto e branco. As gravatas dos rapazes e os laços das raparigas traziam desenhos de pombos beijando a cruz” (pp.28-29).

Estas e várias outras consequências que afectam negativamente a vida social dos moçambicanos são descritas de forma detalhada por um narrador fotógrafo. É fotógrafo por ter trazido a cada detalhe do que viu, viveu e ouviu, dando testamentos aos seus mais próximos acompanhantes, como se pode sustentar com as seguintes frases: “O senhor Marcos que o diga” (p.10); “O Sérgio que o diga” (p.14); “Ele também não soube dizer ao certo” (p.58); “- Foi estuprada. Especulam” (p.72). Estas são expressões típicas em relatos históricos da tradição oral.

E para que não esgotemos a obra, convidamos a todos para uma leitura em outras vertentes da mesma. Portanto, kalibu ao dicionário da sobrevivência.

 

Muito obrigado!

 

Lichinga, 19 de Outubro de 2022

Por Valério Maúnde

 

Ao meio dia, Laércio faz uma pausa nas suas obrigações laborais para tomar a sua merecida refeição, confeccionada com zelo e amor por Laura, sua esposa e companheira há 17 anos. Com a mão direita, segura o talher e, com a esquerda, o celular, onde lê a versão electrónica do jornal O País. A manchete destaca um tema que tem deitado muita tinta desde o mês de Junho, mas sem conhecer qualquer desfecho. Trata-se do escândalo das atrocidades e erros imperdoáveis constantes do manual de Ciências Sociais da 6a classe. Como medidas paliativas, os manuais foram retirados do sistema de ensino e, de seguida, foi suspensa a equipa do Instituto Nacional de Desenvolvimento da Educação.

Para Laércio, este assunto era já águas passadas, tão passadas que não julgava serem ainda capazes de mover moinhos, entretanto, a manchete desmentia tal ideia, pois faltava ainda o parecer do Campeão Africano na Gestão de Riscos de Desastre Naturais, que, de forma assertiva, metódica, oportuna e clarividente, anunciou medidas para impedir que “asneiras” iguais se venham a repetir. Este substantivo de três sílabas resumia o ocorrido e encerrava o assunto.

Laércio respirou de alívio. Pousou o celular e o talher, e, agitando os braços com os punhos cerrados, deu um grito de satisfação, não pelo que lia, mas pela saída que tinha acabado de encontrar para justificar o seu caso com a Tânia, sua secretária. A Tânia, diga-se, era de tal sorte formosa que um pedido de casamento não se expressaria em “pedir a mão dela”. O mais ajustado, pensamos, mas o leitor é livre de discordar, seria, por exemplo, “pedir o seu exuberante peito”, que, a muito custo, os botões das suas blusas conseguem conter.

Enfim, retomando o foco, dizíamos que Laércio respirara de alívio, porque a gravidez resultante do seu envolvimento extraconjugal com Tânia tinha agora outra designação.  Os nomes mais usuais como adultério, infidelidade e traição já não se ajustavam. Ele não tinha cometido nenhum pecado, mas sim feito uma asneira. Era isso e ponto!

Laura, sua amorosa e abnegada esposa, chorou, pranteou e jurou ir-se embora, após ouvir do marido a confissão de infidelidade resumida em tão inocentadora palavra. Conforme jurado, Laura até se foi embora, mas por um breve tempo. Voltou para o lar não por sua livre e espontânea vontade, mas por expressa e imposta vontade da sua família, que não a recebera com os mesmos braços abertos com que abraçam o genro a cada final do mês, quando lhes vai deixar o rancho.

Tu tens que ser forte. Casamento é assim mesmo. Homens traem por impulso, é defeito de fabrico. Imagina que todas as mulheres traídas saíssem de casa, achas que haveria algum lar de pé? Não sejas egoísta, Laura, pensa também no Enzo; teu filho só tem 12 anos e precisa crescer num lar estável. Vais deixar o teu marido mesmo só por causa de uma asneira?” – Foram estes os construtivos conselhos que recebeu da sua família. Sem eira nem beira, ou melhor dito, sem amparo nem solidariedade, Laura engoliu a dor, o choro, o orgulho, o amor próprio, os estilhaços que ainda sobravam do seu destroçado coração e voltou para casa.

Conforme manda o Manual do Bom Homem Arrependido do seu Mau Procedimento, Laércio comprou-lhe chocolates e um buquê de rosas de papel, mas não quaisquer rosas nem qualquer papel. Eram rosas de notas vermelhas e verdes com a estampa de um homem de barba abundante, mas incompleta. E não foi só isto, Laura recebeu também um celular com uma maçã trincada no verso.

O tempo passou e nada mais se disse sobre a asneira de Laércio, cumprindo-se assim o adágio popular: quem cala consente. O silêncio de Laura, entretanto, não era de consentimento, mas de profundo ressentimento não expresso.

Certo dia no trabalho, Laércio recebe uma chamada da escola do filho, a mesma escola onde o nosso já conhecido professor Jolson trabalha. A razão da urgente convocatória era simples: Enzo tinha andado a apalpar as coleguinhas de turma sem a sua anuência, isto sem falar da sua total indiferença para com as questões académicas. O Enzo era uma autêntica dor-de-cabeça para o professor Jolson, seu director de turma, que, vezes sem conta, repreendera o adolescente, mas sem nunca lograr intento. A expulsão da escola era já iminente.

O encarregado de educação desdramatizou o assunto, alegando que não era para tanto, entretanto, desculpou-se em nome do filho e prometeu à escola tomar as necessárias medidas para pôr na linha o desviante comportamento do filho.

No carro, já de regresso a casa, Laércio prega um sermão ao filho e censura-o por sua atitude reprovável e pelo seu mau desempenho académico, mas as palavras do pai ecoam no silêncio. O rapaz nada diz e mostra-se alheio ao que ouve, aliás, faz que não ouve. Furioso e indignado com a apatia do filho, Laércio grita:

– Ouviste o que eu disse, Enzo?

– Foi só uma asneira, pai – replica Enzo petulantemente.

 

A Organização das Nações Unidas (ONU) reafirma o compromisso de cooperação com Moçambique na implementação dos objectivos de desenvolvimento sustentável e combate ao terrorismo. O sistema assumiu a posição, ontem, durante a cerimónia de celebração dos 77 anos da organização.

O Ministério dos Negócios Estrangeiro e Cooperação foi o local escolhido para celebrar os 77 anos da existência da Organização das Nações Unidas e 45 de cooperação com Moçambique.

Numa sessão, que juntou o Governo, chefes das diplomacias e representantes da ONU, a coordenadora residente interina da ONU em Moçambique destacou que o sistema da ONU em Moçambique vai continuar a trabalhar em direcção ao desenvolvimento sustentável.

“No meio do novo quadro de cooperação da ONU para o desenvolvimento sustentável de Moçambique, queremos reiterar que continuamos empenhados em apoiar as instituições e sociedade civil para promover o bem-estar de todos os moçambicanos, em particular os mais vulneráveis”, reiterou.

Já o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação agradeceu, mais uma vez, pelo apoio dos Estados-membros na eleição do país para membro não-permanente do Conselho de Segurança daquela organização.

O tema escolhido por Moçambique para os próximos dois anos, segundo Manuel Gonçalves, reafirma a determinação em defender o diálogo e resolução pacífica do país, promoção de acções de prevenção e manutenção da paz.

A celebração incluiu também a apresentação de uma exposição fotográfica que reflecte os 45 anos de cooperação entre Moçambique e Nações Unidas.

 

Às 18 horas desta terça-feira, na Livraria Fundza, Cidade da Beira, Assane Cadry estreia-se com o lançamento do seu livro O encanto da poesia, editado pela Editorial Fundza.

De acordo com a nota de imprensa da Fundza, a obra de estreia de Assane Cadry pretende fazer da poesia uma ferramenta que permite ao leitor participar na construção dos sentidos textuais. A pensar nisso, o poeta da Editorial Fundza decidiu não intitular nenhum poema, de modo a não induzir o seu leitor na interpretação.

No livro de Cadry, há um encanto permanentemente retratado nos textos: o amor. Segundo acredita o autor, o amor é fundamental para a sua construção poética e para a estabilidade da sociedade moçambicana. Nesse sentido, o amor, em Cadry, está ligado a alguma fonte. Na verdade, a fonte encontra-se na mulher, daí a capa do seu primeiro livro fazer referência, em jeito de ilustração, às musas que o comovem no exercício poético.

O encanto da poesia foi seleccionado na primeira chamada literária da Editorial Fundza e precisou de muito tempo para amadurecer. Os primeiros textos foram escritos a aproximadamente 20 anos, de forma desinteressada. No entanto, quando, recentemente, o autor soube da chamada da Fundza, decidiu submeter os seus textos e, com efeito, foram aprovados para a edição.

Assane Cadry começou a escrever poesia na sua cidade natal, Chimoio, onde deu passos importantes no Núcleo dos Escritores de Manica. Mais tarde, passou a viver na Cidade da Beira. É a partir da capital de Sofala que lhe chega a possibilidade de editar o seu primeiro livro pela Editorial Fundza, depois de, a alguns anos, ter tido uma oportunidade de participar numa colectânea poética publicada pela mesma editora.

Assane Cadry nasceu a 18 de Agosto de 1986, na Cidade de Chimoio, Província de Manica. É formado em Contabilidade, pela Universidade Zambeze (UniZambeze). Actualmente, é estudante de Direito, na Universidade Licungo (UniLicungo), na Cidade da Beira. O encanto da poesia é o título do seu livro de estreia.

Nesta terça-feira, O encanto da poesia, de Assane Cadry, será apresentado por Nelson Saul.

+ LIDAS

Siga nos