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O País – A verdade como notícia

Jimmy Dludlu, Ótis e Judith Sephuma vão actuar na Ponta do Ouro, Província de Maputo. O evento denominado “Jazz ao pôr do sol” terá lugar no dia 3 de Fevereiro (sexta-feira), no Ponta Apart Hotel, a partir das 16h00.

Segundo a organização, não são nomes escolhidos por acaso. Afinal, é sabido que o conceituado músico Jimmy Dludlu é um dos artistas moçambicanos mais premiados a nível nacional e internacional, um verdadeiro orgulho para a nação moçambicana.

Radicado em Portugal, Ótis, por sua vez, tem gerido uma carreira de sucesso, sendo, por isso, um nome incontornável do jazz.

Já Judith Sephuma, é considerada a diva do afro-jazz sul-africano, e tem a particularidade de ser muito acarinhada em Moçambique.

Mais do que um concerto, “Jazz ao pôr do sol” é um conceito que o Ponta Apart Hotel pretende oferecer aos seus clientes e demais turistas que escolhem a praia da Ponta do Ouro para lazer, proporcionando-os uma vista paradisíaca ao pôr do sol pelo menos uma vez por semestre.

Trata-se de um projecto que vai promover o turismo cultural, casando a música, com particularidade para o jazz, e as atracções turísticas que este ponto do país ostenta, sendo uma referência devido aos seus encantamentos naturais.

Nesta primeira viagem do “Jazz ao pôr do sol”, o Ponta Apart Hotel espera receber cerca de 300 entusiastas do jazz, que em mais de três horas vão poder deliciar-se com boa música, enquanto se deslumbram com o perfume natural da praia da Ponto do Ouro.

O concerto, avança uma nota de imprensa, está a ser preparado ao mais alto nível em termos técnicos. A Top Produções é a empresa confiada para prover serviços de som, palco e luz com tecnologia avançada.

Moçambique com z de zarolho é o título do segundo livro de Manuel Mutimucuio. Editado no país pela Editorial Fundza, em 2018, a obra literária acaba de ser lançada no Brasil, em Dezembro, pela Dublinense.

Para o escritor, a edição do seu romance no Brasil é algo satisfatório porque amplia as possibilidades de ser lido no estrangeiro, inclusive, por mais leitores. “Sinto-me contente de ver a obra publicada fora de portas, particularmente no Brasil (maior concentração de leitores que lêem em português); dá, igualmente, outra exposição a uma história que pode ter eco em contextos comparáveis ao nosso”, disse Manuel Mutimucuio.

Em geral, Moçambique com z de zarolho é um romance cuja história retrata uma eventual realidade moçambicana. No enredo, na esperança de melhorar a sua posição num cenário capitalista global, o governo moçambicano adopta uma medida extrema e nada consensual: instituir o inglês como idioma oficial e deixar para trás tanto as línguas bantu locais quanto a língua portuguesa. No entanto, essa mudança tão abrupta terá diversos impactos na vida personagens. Por exemplo, em Djassi, político que votou contra a mudança, mas que, a certa altura, vê-se buscando favores dos seus adversários na tentativa de conseguir uma bolsa de estudos para o filho em Londres, Inglaterra; e Hohlo, seu empregado doméstico, que vê todos os seus cambaleantes esforços de ascensão social através do estudo do português serem frustrados de uma hora para outra. Diante desses e outros tragicômicos reflexos da nova lei, ecoa a pergunta: que lugar têm aqueles que não dominam a língua dos poderosos? A pergunta feita na sinopse, agora, também será respondida por leitores brasileiros, tal como a responderam os moçambicanos.

Para Mia Couto, conforme se lê na contra capa do livro, “Manuel Mutimucuio é, sem dúvida, uma das importantes vozes da nova geração de escritores moçambicanos. O seu segundo livro confirma o poder de subversão da sua escrita e a sua capacidade em construir uma história que fala de uma nação que luta para emergir das cinzas e do caos”.

Já para o ensaísta brasileiro Reginaldo Pujol Filho, numa das orelhas do romance, “Moçambique com z de zarolho complexifica noções como ‘lusofonia’ e ajuda a lembrar que somos [os brasileiros] tão (e muitas vezes mais) próximos de Moçambique do que Portugal”.

Manuel Mutimucuio nasceu em Maputo, em 1985, mas passou os seus anos formativos na Cidade da Beira. É Doutor em Governação e Economia Política das Instituições, pela Universidade de Coimbra, Portugal, e actua como consultor internacional de gestão de recursos naturais. A sua literatura está na intersecção entre esses dois mundos e caracteriza-se pela análise social e questionamento do status quo.

Quanto à editora Dublinense, foi fundada em 2009, com o objetivo de se permitir experimentar e navegar livremente por gêneros. Depois de muitas experiências, a editora, actualmente, concentra-se na ficção e não ficção literárias, além de manter uma linha de títulos sobre psicanálise.

Edna Matavel

 

Safira, Maria rapaz. Geração de homossexuais que assistimos. Assim fui apelidada no bairro.

Ainda pequena, costumava jogar à bola e berlindes na praça com os meninos. Ademais, em alguns campeonatos de futebol eu carregava à bola e dava o primeiro toque. Eu estava rodeada de meninos e a minha mãe, na maior naturalidade deixava-me brincar com eles, enquanto pelas costas, as vizinhas faziam comentários desnecessários, dizendo que um dia o meu comportamento teria consequências devastadoras.

Cresci brincando também com o meu irmão Rachid. Para mim, as brincadeiras das meninas eram sem graça e mesquinhas. Eu queria uma vida exacerbada e cheia de acção quanto a dos meninos. Comecei a sentir uma florescente atracção pelas coisas masculinas, o que passou a incomodar a minha mãe.

Tomava banho com o Rachid, e questionei o motivo de não ter o mesmo órgão genital masculino. Sentia um desejo enorme de possuir aquele órgão.

Quando completei os meus 17 anos de idade, comecei a envergar-me diferente do que era comum na qualidade de menina. Comecei a usar cortes a rigor típicos dos rapazes. Os meus amigos começaram a chamar-me “brô, djô” e trocávamos impressões como se de um homem realmente eu me tratasse. A minha dicção passou por metamorfose espontânea. Nas minhas férias, visitava as minhas primas e, durante a noite, acordava e apreciava-as passando as minhas mãos pelas suas partes íntimas. Admirada em ver a forma como se atraíam pelos rapazes, pesquisei se era possível trocar o meu órgão genital. De todas vezes que elas se trocavam diante de mim, sentia o meu corpo em comunicação com algo oculto, afinal de contas eram as tais hormonas a libertarem-se com uma profunda intensidade.

Conheci um grupo de amigos gays, que me apresentaram pessoas com as mesmas características que as minhas. Essas lésbicas despertaram o meu verdadeiro eu, incentivaram-me a assumir a minha homossexualidade. Quando finalmente decidi tirar a dúvida que jazia no coração da minha mãe e mostrar que era lésbica, a vergonha e o desprezo falaram mais alto ao ponto de me fazer escolher entre seguir com o caminho da homossexualidade ou continuar morando com ela. Senti na pele a dor da rejeição. O meu irmão ficou desapontado, os seus amigos zombavam dele por me ter como irmã, e ele dizia que eu era um erro cronológico (nossos ancestrais).

Frustrada pela forma como era discriminada, enveredei abusivamente no mundo do álcool, parei de frequentar a igreja porque olhavam para mim como a que infringia todas as regras da doutrina de Cristo. Comecei a andar com amigos viciados, o que me tornou em uma. Saía às primeiras horas de sexta-feira e só regressava ao final do dia de domingo, o que levou a minha mãe a marcar um encontro com os meus tios.

Proibiram-me de frequentar bares, mas o meu sangue circulava na veia toda vez que recebia uma mensagem dos meus amigos para curtir, eram os únicos que me apoiavam sem discriminação. O meus tios surpreenderam-me num dia em que cheguei à casa bem cedo e embriagada. Bateram-me ainda no portão como se estivessem a bater num homem, era a única forma que encontraram de me fazer mudar. Fiquei três dias sem sair de casa. Os meus amigos me encorajaram a seguir os meus instintos masculinos, fazendo-me acreditar que a minha família acabaria aceitando. Quando convalesci, voltei a má vida. Frustrada com o desprezo da minha família, comecei a usar drogas, o que só piorou o meu comportamento.

De todas as vezes que a minha mãe trancava a porta para mim, entrava pela janela do quarto ou passava a noite na capoeira com as galinhas. Tristeza para ela. Eu já não queria ser chamada Safira e, sim Safir, para dar sentido à minha personalidade.

Consegui um emprego e comecei a ganhar dinheirinho. Entretanto, o salário acabava em baladas, pagando rodadas para as mulheres que lá me atraíam. Em casa, mal conheciam o meu salário.

Num sábado, enquanto estava sob efeito da droga, levei a minha namorada para casa. A minha mãe insultou-me e eu a espanquei de forma brutal, porque não aceitava as minhas escolhas. No mesmo instante, ela apanhou AVC e eu lutava sempre com o Rachid. A minha vida presumia-se em estupefacientes e a minha arrogância fazia-me enxergar a minha família como um obstáculo.

Outro dia, as vizinhas levaram a minha mãe até ao bar onde me encontrava para ver de perto o que acontecia. Ficou traumatizada em ver a forma como os meus amigos gays empinavam a bunda mais do que as próprias mulheres que lá haviam, enquanto eu trocava intimidade com uma moça dentro de um carro. Foi aí que a minha mãe e o meu irmão decidiram sair de casa, e passei a morar sozinha. Tive a liberdade de fazer as minhas vontades. A minha casa virou abrigo de homossexuais. Todos os finais de semana haviam grandes festas. A casa estremecia com o barulho que se fazia sentir. Parecia um bordel.

Em uma noite de quinta-feira, voltando do trabalho, numa esquina sem iluminação, deparei-me com três homens mascarados. Fizeram uma roda, deram gargalhadas de gozo, e disseram então é a Maria rapaz. Espancaram-me e em seguida abusaram-me sexualmente, cada um à sua maneira, e, depois de terminarem o serviço, cuspiram-me o semblante. Não sei como cheguei a casa, só me lembro de ter aberto os olhos na minha cama com a minha namorada cuidando de mim. Tive de procurar ajuda médica, sofria algumas alterações com o decorrer dos dias, fiz exames de sangue dos quais descobri que estava grávida e tinha AIDS, fiquei desesperada e sem saber como contar à minha parceira. Quando ela teve conhecimento, separou-se de mim.

Tentei fazer aborto, mas não deu certo, passei dias de angústia e fiquei dois meses em depressão. Sentia vergonha de mim mesma, de estar em contacto com as pessoas. Banho tomava duas vezes a cada semana. Estava prestes a dar à luz e o mais doloroso é que desconhecia a paternidade da criança.

A minha mãe teve conhecimento e mesmo assim ficou indiferente. Ela falou com os meus tios e eles procuraram um médico tradicional para cuidar de mim. Julgavam que tinha problemas espirituais. Senti-me sem vida, um animal de estimação deambulando sem destino.

Meses depois do parto, levei a criança a um orfanato. Eu não me identificava com a maternidade. Voltei à vida de lésbica. Andei com mulheres diferentes das quais escondia que tinha AIDS. Achei que estivesse a curtir a vida, mas a vida estava a curtir-me. Parei de medicar para me afundar nas drogas. A minha depressão fez-me acreditar que estava bem enquanto me arruinava interiormente.

A minha mãe sempre foi vítima. As pessoas faziam questão de contar o que eu fazia e deixava de fazer. Depois de muito tempo, ela ligou-me a pedir que mudasse a minha conduta de vida porque eu a matava lentamente, eu não consenti e fui brutal com ela.

Dois meses depois, ela perdeu a vida e aí começou a minha grande depressão…

 

 

Lucrécia Paco, Juvenal Bucuane e Isaú Meneses consideram que 2022 como sendo um ano de recuperação do tempo perdido. Os artistas esperam que 2023 seja de melhorias e de maior abertura para o desenvolvimento das artes e cultura.

2022 chegou ao fim. Por isso, o momento também serve para se fazer balanço do que foram os últimos 12 meses. Depois de quase dois anos de limitações devido à COVID-19, os fazedores das artes e cultura voltaram a ver uma luz no fundo do túnel. “Eu reparo que há muita criatividade. Há muitos jovens que escrevem e que publicam aquilo que escrevem em diferentes géneros: poesia, literatura infanto-juvenil, romances e etc. Há muita criatividade”, disse Juvenal Bucuane.

Segundo o autor de Masingita, Bairro Indígena ou Requiem com olhos secos, igualmente, 2022 foi um ano positivo porque conseguiu despertar nos leitores a importância da literatura em tempos de crise e ainda permitiu aos artistas voltarem a ter rendimentos necessários para sustentarem a si próprios e às suas famílias.

Já para a atriz Lucrécia Paco, o ano 2022 não serviu, apenas, para reactivar o sector, serviu, igualmente, ma para se reflectir sobre as necessidades do país do sector das indústrias culturais e criativas. Assumindo que o ano foi positivo, a actriz e encenadora sugere que em 2023 consiga-se investir em centros culturais de raiz, não só no centro da Cidade de Maputo, mas também nos bairros suburbanos. “Espero que tenhamos mais mecenas a apoiarem a arte e a cultura”, disse Lucrécia Paco, mesmo a concordar com Juvenal Bucuane, para quem 2023 irá permitir aos moçambicanos abrirem o caminho até onde pretenderem chegar.

O músico Isaú Meneses considera que a candidatura da dança Mapiko a património da humanidade é um dos grandes marcos do ano. E explica: “Se conseguirmos fazer aprovar essa candidatura, será mais uma vantagem na projecção da imagem de Moçambique no exterior”.

Além disso, para Isaú Meneses, 2022 também foi um bom ano porque permitiu a aprovação da Carta Africana de Renascença, pela Assembleia da República. “Essa é uma demonstração inequívoca do compromisso que Moçambique tem para com a cultura, mas também é uma abertura que se faz para que haja mais investimentos no campo da cultura em Moçambique”, afirmou o músico e compositor, reforçando a expectativa de que 2023 poderá trazer ainda mais realizações para Moçambique, no sector da indústria cultural e criativa.

Por: David Almeida F. Houana

 

 

Montagem: Cartas de amor para meninas mal comportadas II

Montagem teatral: Centro Cultural Franco-Moçambicano

 

Na cultura bantu Moçambicana, as mulheres recém-viúvas carregam um luto que desagua nos trajes pretos cheios de simbolismos e drama em uma porção de ritual. Neste processo, elas são submetidas ao ritual de purificação (kutxinga) através do falo purificador, às vezes do cunhado, a fim de anular toda a sua pretitude “ar de morte que orbita o corpo e a alma”. E quando a viúva perderá uma esposa que habitavam juntas as ilhas de Lesbos, que procedimentos seguir?

Para responder a essa pergunta fomos convidados por Eliana N’Zualo, no dia 06 de Abril de 2022, pelas 20h, a ter a  resposta em  Cartas de amor para meninas mal comportadas II. Houve que controlar a ansiedade porque só teríamos a resposta às 20h10, ao comando de Yuck Miranda.

O episódio aconteceu depois que a poesia decidiu se personificar para narrar a própria história em palavras que convertiam a lírica em acção. Ela revelava as memórias que  vivera no pico do século XX, porém, só agora ela decidiu quebrar o silêncio e falar da sua esposa que virou morte, a destruidora de mundos, “o mundo da poesia”.

O livro narrado revelava uma melodia boa de se ouvir*, uma mulher a dançar com a leveza duma bailarina,  mas com a força dos rugidos dum leão, dramaturgia que servia as leis da estética da arte, tais preceitos perdiam espaços nos trajes de capulanas pouco expressionistas.

A casa da poesia era um espaço de encontro vazio, porém, cheio de Alma. Naquele lugar n artes poéticas  se cruzavam numa espécie de performance erótica híbrida, que trazia elementos do teatro, percussão sonora, poesia e dança. Não obstante, a obra de arte era um espaço intercultural entre as técnicas tradicionais de Moçambique  e  Suazilândia.

O cenário do livro da poesia era “ópera”, fusão de muitas coisas, o local de encontro entre teatro imagem elucidado pelo pensamento contemporâneo performativo simbólico de Bob Wilson. Aristóteles e seu discípulo  Stanislavisk se revirariam no túmulo pelo golpe do surrealismo simbólico da vida da poesia.

Os adereços eram feitos de elementos  musicais e outros recicláveis, como garrafas e bacias metálicas que emitiam ondas sonoras e  recebiam outros significados. Na metade, o livro  denunciou uma simbiose linear perigosa que nos fazia navegar em marés indesejadas, o que nos colocava na órbita certa de navegação. Eram as músicas de mudanças das cenas.

A casa da poesia era iluminada  por paleta de cores psicadélicas de luz primária, verde, vermelho, azul, lilás e luz quente que criavam atmosfera em tempos certos e outros de devaneios.

“Permita-me sentir o gosto do seu sangue vaginal só mais uma última vez”

Disse a poesia, ao revelar perto do fim  da leitura  do livro que se chama sua história, que estaríamos diante do funeral da sua amada Mal Comportada, tal como ela e várias outras meninas da sociedade, que, na verdade,  só querem viver as suas espiritualidades patrocinadas por aquilo que é da alma e que ninguém poderia intervir  e nem criticar (ponto de viragem).

A poesia sacrificou o amor da sua vida para que os poetas possam nos fazer voar e sonhar pássaros. Após 40 min de espectáculo, descobrimos que é preciso ir para ter o prazer de voltar, agora voltamos do acto catártico após viver vários orgasmos cénicos vividos em massa dignos de Aplaudir em Pé. A sala continua a sala e o livro continua aberto para que outras meninas mal comportadas possam ir se purificar.

09.04.2022

 

Ficha Técnica

Direcção-artística

Yuck Miranda

Texto e performance

Eliana D’Zualo

Voz

Thobile Makhoiane

Percussão

Carol Matosse

Baixo

Márcia Pascoal

Fotografia e visualidade

Mariano Silva

 

 

Por: Edna Matavel

 

O campo é um lugar inescrutável, tão silencioso que gera uma reflexão não planeada da existência e do dito princípio, só com a simplicidade com que as aves entoam em conexão com as folhas das árvores e o mar a longa distância. Como é bom contemplar a plenitude da natureza, o nascer e o pôr-do-sol. Foi sempre assim até que o barulho das armas de guerra assolaram aquele mato.

Dorca, campesina, como é habitual para as mulheres do campo, levantou-se às primeiras horas de quinta-feira para colocar a mão na machamba. Curiosamente, foi a única mulher a exercer o trabalho nas plantações. As suas companheiras ficaram na aldeia.

O campo é realmente diferente, um lugar sem descrição. Tudo o quanto acontece é de conhecimento colectivo. Surdina é utopia, porque até mesmo as árvores têm ouvidos para ouvir e olhos para ver.

Era ainda muito cedo, quando ouviu gritos de disparos que saíam das bandas de sua aldeia e, imediatamente, interrompeu o trabalho. Nesse dia, ela acreditou na protecção dos ancestrais. Seria a única a escapar da morte. Eram gritos de choro e clemência, tiros de gente preparada para exterminar pessoas inúteis no desenvolvimento de um país, podemos considerar um conjunto de alcateia. No mesmo instante, ela caminhou célere de desespero em direcção à sua casinha de palha. O passo era tão célere que bem perto da aldeia teve um movimento de inércia ao ver homens armados e cadáveres no chão. Observou de longe e viu o seu marido levar um tiro na cabeça por ter envergado uma camisa vermelha, que, por sinal, para estes homens que ouso chamar de terroristas, carregava um significado.

Sem saber o que fazer, Dorca derramou lágrimas de sangue em silêncio ao ver também o seu filho nas mãos de um destes homens. Eles aguardavam o seu companheiro que foi a busca de um pilão. Enquanto isso, faziam um movimento como se o miúdo fosse uma bola de basquetebol. Depois de acharem o pilão, colocaram o menino para ser pilado tipo um milho, mas, diferente deste, não sobraram nem restos para colocar dentro de um féretro e fazer-se um enterro digno.

A aldeia parecia uma vala comum com tamanha brutalidade que afectou o emocional da Dorca ao ponto de ficar por horas inconscientes, e, quando abriu os olhos, aproximou-se e não estava mais ninguém. É como se todos tivessem sido engolidos pela terra, seus dias passaram a ser lúgubres, as árvores e poucos animais que lhe sobraram foram as únicas testemunhas do que ela viveu. Tudo murchou. É como se a natureza entendesse o massacre que houve, as folhas mudaram de forma, ao invés de verdes, ganharam a cor vermelha de sangue dos seus donos já cadáveres.

A mulher do campo carregou o luto da sua família e de tantas outras campesinas assassinadas e violentadas por estranhos sem conhecer os direitos humanos, os seus ombros carregaram dor da enxada, e a sua alma traumas.

Cicatrizada pela dureza do seu trabalho, os seus pés denunciam as longas caminhadas que se igualam aos músculos de um homem que muito cedo percorre quilómetros em busca de sustento para sua família, e as suas mãos endurecidas com trabalho árduo da enxada debaixo do sol e acompanhados pelos movimentos da corda que tiram a água do poço, foram as únicas formas de sobrevivência para sustentar o único filho que o massacre não lhe tirou do seu ventre.

Mesmo gestante, Dorca procurou o seu poder no íntimo e usou, interrompendo o sono pela reconstrução do seu lar. Um minuto de repouso era resultado de um dia de trabalho perdido. Na ausência de um marido que lhe pudesse proteger, impávida, percorreu matos lutando com serpentes enquanto pastoreava o seu gado e tirando lenha nas árvores para preparar suas humildes refeições, mostrando que no campo, o trabalho funciona com lentes de género.

Depois de muito tempo de trabalho e gestante, deu à luz o seu filho Ezequias, sendo assistida por cabritos. Passaram anos, e o menino cresceu num mundo estranho. A sua mãe pouco falava. Foram tantos anos de solidão que acabou perdendo habilidades de fala.

Num belo dia, ela decidiu sentar com o seu filho para lhe contar como tudo começou. O menino dobrou-se em lágrimas ao saber que um dia existiram homens como ele, mas que a vida lhes tirou. Hoje, é um menino crescido e com uma visão surpreendente, como se os seus antepassados lhe estivessem a distribuir o conhecimento em jeito de recompensa. Ele disse à mãe que queria lutar pelos tais direitos humanos, mas sem nem saber por onde começar naquele mato infinito. Gritou por liberdade, mas ninguém podia ouvir a não ser as aves.

No final do mês de Agosto daquele ano, as energias renovaram-se. Parece que os gritos surtiram efeito. Sem nem esperar, passou um desses transportes ferroviários, o que é bem raro. Ezequias viu a oportunidade da sua vida. Gritou bem alto e uma vez que no campo não há sigilo, logo ouviram… O transporte parou e ele foi a correr. Sabe-se lá o que terá dito. Bem de longe, viu a sua mãe na aldeia e gritou mamã Dorca. Fixou o seu olhar nele e ele levantou os braços. Num movimento de nostalgia, disse: adeus, mãe, quero a tal liberdade e justiça.

Quando finalmente conseguiu uma companhia, a vida, uma vez mais, roubou-lhe. A mulher do campo ficou sozinha, como se este fosse o seu destino. Os seus animais e as suas plantações deram-lhe abraço de força enquanto fazia preces para que o filho não tivesse o mesmo destino que o pai e o irmão tiveram.

Edna Matavel

Nas noites de lua cheia, no calor do mês de Janeiro, na iluminação das lâmpadas do quarteirão 5, vêem-se corpos esticados nas barras de ferro do famoso bar local, um sobe e desce num pequeno edifício construído com material de zinco e tecto falso. É onde as mulheres iam mostrar seus dotes sedutores. Foi assim que Zuleica foi promovida.

Zuleica nasceu pobre e ainda novinha ficou órfã. Para se manter, começou a vender gelinhos na esquina do quarteirão. Com a sua beleza encantadora, quase todos adquiriam o seu produto, principalmente os homens. No entanto, ela decidiu parar de vender quando descobriu que atraía senhores abastados do bairro com o brilho da sua beleza. Passou a envergar mini-saias, roupas decotadas, ela era mais reluzente que um espelho.

A princípio, frequentava o bar para ganhar experiência, a convite de uma vizinha, e ficou impressionada com a forma como as mulheres usavam o seu corpo para ganhar dinheiro. Daí, decidiu engrenar, tornando-se prostituta e enveredou por esse mundo, abusando do álcool, injectando-se drogas para conseguir se relacionar com os seus clientes e, na maioria das vezes, homens barrigudos.

O dono do bar tinha um amigo que, por conseguinte, também era dono de um bar luxuoso na capital. Certo dia, numa sexta-feira, convidou-o para tomar um drink no seu bar e conhecer a periferia. Quando chegou e deparou-se com o brilho da doce jovem, antes de tomar o segundo drink, ficou fascinado com a forma com que Zuleica fazia a dança do cano, que, no mesmo instante, convidou-a para trabalhar no seu bar na cidade.

Foi assim que ela subiu ao salto, sem educação. Quando chegou à capital, viu a forma como a cidade era iluminada, é como se estivesse a ver o próprio paraíso, mas no início, teve problemas de socialização. As meretrizes da “Town” eram educadas e com toques de inteligência, o que atraía os empresários, e ela só tinha sua beleza como arma de combate.

De quando em vez, retornava à casa deixada pelos pais como herança, descendo em viaturas luxuosas, o que espantava a vizinhança.

Todos os homens despertavam interesse por ela, um pagando mais que o outro por horas de serviço. O dono do bar viu o seu negócio crescer com o trabalho de proxenetismo, principalmente com a chegada de Zuleica e isso gerou uma revolta e inveja por parte das outras garotas de programa. Ela começou a ganhar muito dinheiro, no entanto precisava de alguém para lhe ajudar na gestão, pois mal sabia assinar um cheque e, por isso, acabou criando uma amizade com uma de suas colegas de trabalho.

Com o passar do tempo, ela sentia-se assimilada, dobrava a língua para proferir de forma errada o léxico da língua portuguesa, gastou dinheiro com roupas de marca, passeios, flat’s, enquanto a sua casa escorria água toda vez que a chuva caísse. Começou a desprezar as colegas porque a beleza delas era resultado de cirurgias plásticas, e ela tinha uma beleza natural, que, durante anos, esteve escondida por detrás das casas de caniço. Elas decidiram unir-se contra ela, atacando o seu ponto fraco, que era a ignorância, expondo-a brutalmente até que os homens perdessem interesse por ela. A sua beleza não era suficiente para representar os clientes em grandes colóquios.

Ela decidiu voltar à sua casa para procurar por uma feiticeira que lhe pudesse ajudar, porém, a macumbeira deixou claro que as suas adversárias eram poderosas e só podia mandá-la para a líder das feiticeiras, que se encontrava em Ximondzo. E Zuleica, aflita, não tardou. Seguiu viagem. Quando lá chegou, foi bem recebida. A macumbeira deu-lhe remédios da sorte e poder para fortificar o seu trabalho.

De regresso a Maputo, ainda no autocarro, recebeu várias ligações de clientes querendo marcar expediente e uma das ligações foi do patrão que pretendia renovar o contrato para meretriz permanente. Não perdeu tempo e foi directo ao bar, trabalhou incansavelmente, fazia horas extras. Um mês depois, viajou para a África do Sul para prestar serviços aos mineiros e ficou por lá durante uma semana, e, quando chegou a Moçambique, arrendou um apartamento na Av. Julius Nyerere.

O ódio aumentou por parte das outras. Zuleica trabalhou a dobrar para mostrar que era capaz de atingir grandes níveis. Perdeu noites e, sem saber, alimentava o bichinho adormecido em seu organismo, e em pouco tempo enfraqueceu, perdeu o seu brilho, ia perdendo o seu corpo lindo, adoeceu e foi levada ao HCM, mas não melhorava e pediu alta para voltar a casa dos pais.

Quando chegou à sua casa, teve de procurar alguém que cuidasse dela, uma vez que não convalescia. Em pouco tempo virou uma preta desnutrida, a região dos olhos ficou escura e o interior dos olhos vermelho, as unhas sujas à medida que coçava o cabelo e o mesmo caía em pedaços, fungos na pele começaram a surgir.

Quando as suas colegas souberam, saíram da cidade para a visitar. Ficaram assustadas em ver uma múmia disfarçada em gente, não deu nem para zombar, mas já que uma delas conhecia todos os PIN dela, apoderou-se dos seus bens juntamente com as outras.

Zuleica teve um retrocesso mental, falava coisas sem nexo. Vivia atormentada. Os seus cabelos caíram até ficar careca, e, poucos dias depois, faleceu.

 

O Conselho Autárquico de Quelimane distinguiu, na última sexta-feira, o músico e o poeta Stewart Sukuma, com o Estatuto de Cidadão Honorário da Cidade de Quelimane.

Segundo uma nota de imprensa, o acto dirigido pelo edil de Quelimane, Manuel de Araújo, reconhece o papel de Stewart Sukuma na promoção, valorização e preservação da história e cultura da cidade de Quelimane e dos “quelimanenses”.

Assim sendo, a distinção feita a Sukuma pretende homenagear o percurso de um artista que passou parte significativa da sua adolescência na cidade de Quelimane. Foi naquele ponto de Moçambique que Stewart Sukuma definiu-se como cidadão e artista, influenciado e inspirado pela tradição e identidade do povo zambeziano e, sobretudo, pela energia da cidade de Quelimane.

Para Manuel de Araújo, Stewart Sukuma nunca saiu de Quelimane e esta ligação reflecte-se na sua música ou na sua poesia eternizada no livro O alfaiate e a arte de costurar o amor, lançado recentemente em Portugal e em Moçambique.

Manuel de Araújo acrescenta que o músico e activista não é apenas uma referência artística, mas sim de cidadão activo e sempre engajado na construção de um país melhor.

Na sua intervenção, Stewart Sukuma agradeceu o gesto e disse que “os lugares, as pessoas e os cheiros que descobri até aos meus 14 anos, continuam vivos e com muito significado. Este reconhecimento renova e eleva o amor que sempre senti pela terra”.

O Conselho Autárquico de Quelimane atribuiu, igualmente, um Certificado de Reconhecimento ao músico Stewart Sukuma, pelos 40 anos de carreira. Na mesma ocasião, teve lugar a apresentação do livro O alfaiate e a arte de costurar o amor. O livro foi apresentado por Jorge Ferrão, reitor da Universidade Pedagógica de Maputo.

A Editorial Fundza lançou, terça-feira passada, a segunda chamada literária para submissão de textos originais. Aberta até 13 de Janeiro de 2023, a iniciativa pretende seleccionar infanto-juvenis, romances, crónicas, poesias e contos inéditos que deverão ser publicados ao longo do próximo ano.

Segundo avança a editora, numa primeira fase, os autores interessados em participar na segunda chamada literária da Editorial Fundza deverão enviar um projecto de livro em word, uma sinopse de 10 linhas desse mesmo texto e uma biografia de cinco linhas para a editorial.fundza@gmail.com. Ainda de acordo com a Fundza, o objectivo principal da chamada literária é abrir e ampliar o espaço para a democratização do acesso à publicação de obras literárias em Moçambique, o que, no caso de 2022, incluiu a participação de autores de todas as províncias. Por isso mesmo, a Fundza realizou lançamentos de obras literárias à escala nacional.

Ano passado, a iniciativa da Editorial Fundza seleccionou 22 obras literárias num universo de 100 candidaturas. Entre as publicações, encontram-se Barca oblonga (poesia), de Otildo Justino Guido e Fernando Absalão Chaúque; Argolas do nó (poesia), de Paulo Ngoenha e Lino Mukuruza; O encanto da poesia (poesia), de Assane Cadry; O ardina dos sapatos gastos (contos), de Alerto Bia; O dicionário da sobrevivência (contos), de Francisco Raposo; A rapariga sem reflexo (motivacional), de Clévia Guivala; Insiste em ignorar-me (motivacional), de Argentina Banze; O amor que há em ti (romance), de Larsan Mendes; As máscaras da verdade (romance), de Almeida Cumbane; O Príncipe Suehtam e a Aruella no Tulipix (infanto-juvenil), de Andreia Edna da Silva; O abecedário que fingia ser de mudo (infanto-juvenil), de Ernesto Moamba; e Makhalelo (crónicas), de Adriano Félix.

Os originais submetidos à chamada literária da Fundza são seleccionados por um júri competente identificado pela editora. Antes de serem publicados, todos os originais passam por um cuidadoso processo editorial.

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