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O País – A verdade como notícia

A exposição individual de José Cabral será inaugurada no dia 13 deste mês, às 18h30, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo. A mostra Americanos resulta de uma parceria entre o Camões – Centro Cultural Português em Maputo e a produtora Art Dispersion (Portugal).

Com organização do Camões em Maputo e curadoria de Rodrigo Bettencourt da Câmara, a exposição Americanos reúne um conjunto alargado de fotografias desta série, a preto & branco, com novas impressões efectuadas a partir dos negativos originais do fotógrafo moçambicano.

José Cabral é fotógrafo profissional deste 1975, foi professor no Centro de Formação Fotográfica de 1986 a 1990 e a sua obra ganhou mais visibilidade nas duas primeiras décadas do séc. XXI.

Os trabalhos de Americanos, que pela primeira são apresentados ao público, têm origem numa viagem que o fotógrafo fez aos Estados Unidos da América, durante três meses, ao abrigo de uma bolsa da Mid-American Arts Alliance, num amplo roteiro que incluiu cidades como New York, Washington, Chicago, New Orleans, San Diego/California, El Paso/Texas e no Novo México Santa Fé, Las Cruces e White Sands.

O projecto expositivo Americanos, o qual reúne mais de 150 fotografias desta série de José Cabral, conta com a participação do poeta Luís Carlos Patraquim, de José Manuel dos Santos, escritor, poeta, curador, agente cultural e director da Revista Electra e Alexandre Pomar, curador e crítico de arte.

A propósito deste projecto, Luís Carlos Patraquim escreveu: “José Cabral exibe neste seu trabalho um agudo olhar e um pundonor subtil e mostra-nos a ‘sua América’ alheia ao famoso dream e onde há um silêncio prodigioso da imagem a ritmar uma música de dentro. Gente e situações banais, tantas que, ao menos para mim, julgo ouvir as notas das Gymnopedies de Satie. E a fera amansada na vulgaridade quotidiana dos dias a preto e branco da América.” Nas palavras de José Manuel dos Santos: “Olhamos esta bela e rigorosa colecção de fotografias e reconhecemos, de imediato, uma voz visual. Ou encontramos um estilo que nos diz a visão que vê o que vê como vê. Ou descobrimos a pulsação de um olhar que bate ao ritmo incerto do coração secretamente selvagem.”

A exposição Americanos – fotografia de José Cabral estará patente em Maputo, entre 14 Fevereiro e 01 de Abril, no Camões – Centro Cultural Português, e poderá ser visitada de segunda a sábado, entre as 10h00 e as 17h00.

José Cabral (1952, Lourenço Marques/Maputo) começou por praticar com o pai, amante de fotografia e de cinema, técnico dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que aos 12 anos lhe ofereceu um pequeno laboratório e uma câmara “caixote”. Torna-se fotógrafo profissional em 1975. Começou como fotógrafo no Instituto Nacional do Cinema e passou depois de alguma prática de foto-repórter (1979-1982) a programas documentais menos determinados pela urgência para o Ministério da Agricultura e a Unicef. De autodidata passou a professor no Centro de Formação Fotográfica, de 1986 a 1990. A sua fotografia – em especial a forma de a expor como trabalho de artista – foi-se tornando discretamente mais autobiográfica e até intimista, sempre sem deixar de ser documental e sem pretender ser formalista e narcísica mesmo nos seus muitos autorretratos de rua. A obra de Cabral ganhou mais visibilidade nas duas primeiras décadas do séc. XXI, em especial através de exposições subtilmente antológicas, equilibrando um lugar sempre algo à margem com o crescente reconhecimento público. Cabral viajou para a América, durante três meses, em 1996, como bolseiro da Mid-American Arts Alliance, num amplo roteiro por New York, Washington, Chicago, New Orleans, San Diego / California, El Paso / Texas e no Novo México Santa Fé, Las Cruces e White Sands. Faz uma viagem de descoberta – uma aventura para quem saía de Maputo ao cabo da guerra civil – viagem que é também reencontro com as linguagens e as visões que de algum modo o formaram, vistos os filmes, lidos muitos livros, sempre um olhar culto.

Por: Edna Matavel

 

Se no coração de mãe cabe o universo, Margarida falhou no conceito, levou o filho ao abismo em obséquio de uma riqueza momentânea.

Margarida nasceu numa aldeia muito afastada da cidade, onde o curandeirismo era a base de suas crenças. Os dias na aldeia eram lúgubres por conta dos rituais que eram feitos. O gado servia para sacrifícios nos seus rituais. Todo o final do mês, a família reunia-se numa árvore grande de massala, que ficava do lado traseiro da palhota milagrosa, para fazer o ritual de invocação aos espíritos. As crianças ficavam ajoelhadas diante da árvore, e davam bebida tradicional aos ancestrais enquanto os mais velhos entoavam uma canção. No mesmo local faziam fogo, assavam algumas galinhas para dar aos antepassados pela boca das crianças. Só não podiam comer os ossos nem usar faca para cortar. Os mesmos ossos serviriam para fazer o tinlholo na palhota. As crianças seguiam na dianteira porque eram consideradas inocentes e as suas almas frescas para os seres espirituais.

Margarida era uma dessas crianças. Ela era xará da esposa do seu avô e tinha muita responsabilidade. Em algumas noites, enquanto todos dormiam, ela tinha de espalhar sal pela casa, falando com os antepassados. Isso fazia parte de suas tradições.

Na última sexta-feira daquele mês, nas primeiras horas, foi até à palhota para envergar as roupas que eram da falecida avó, sua xará, amararam um xifungo na sua cintura e lavaram os seus pés com sangue. De seguida, foi até ao rio para lançar um frasco que continha todos os nomes das pessoas que estavam na aldeia. O banho que ela fez no rio, purificou toda a família.

Quando cresceu, a consequência de tudo o quanto fizeram com ela tornou-se visível da forma mais subjacente. Ela ambicionava casar e constituir família, mas estava amaldiçoada e a sua alma entregue ao defunto do avô.

Numa dessas noites, enquanto dormia, teve um mau sonho, em que estava ela num rio infinito, cheio de serpentes, batuques, com sangue espalhado em todo o chão. Quando despertou, foi até à palhota onde dormiam as curandeiras, toda ela espalhafatosa e contou o que viu enquanto dormia. Elas fizeram um tinlholo para desvendar o misterioso sonho. Tocaram batuque enquanto entoavam seus hinos tradicionais. Margarida começou a manifestar, vomitou sangue pela boca, rastejou até a casa grande onde o avô dormia, bem na entrada. Despiu-se, caminhando até ao quarto onde tinha uma cobra grande que simbolizava o homem e pilar da casa. Esse era o grande mistério para fortalecer aquele lar.

Ela viveu momentos turbulentos, carregando energias negativas. Margarida decidiu fugir para bem longe, foi morar na cidade.

Foi na cidade onde conheceu o marido, pai do seu único filho, mas as suas raízes a perseguiam. Dormia com o marido e, por um lado, sonhava com maridos da noite, não só, ela manifestava e desmaiava sem conseguir se relacionar com o marido, motivo que levou o homem a separar-se dela. Anos depois, ele perdeu a vida num acidente de viação. Meteu-se com a mulher dos nocturnos.

O filho cresceu ignorante e azarado, com uma vida desgraçada. Roubava o dinheiro da mãe para comprar bebidas espirituosas, certa vez chegou a casa embriagado e espancou a senhora acusando-a de feitiçaria. Ela não tinha outra solução a não ser voltar para aldeia pedir ajuda.

Numa manhã nublada, ela viajou até a aldeia levando uma camisa do filho, chorou e explicou o motivo que a fez voltar. A curandeira pegou na camisa do Maiquel, fez um feitiço para que ele deixasse de roubar e beber, deu um óleo amaldiçoado que para os olhos dela era abençoado, o mesmo seria para que o filho fosse obediente e obtivesse sucesso nos seus negócios. Não levou nem três meses para que Maiquel mudasse o estilo de vida, só não conseguia se concentrar numa única mulher.

Maiquel abriu um estaleiro e começou o seu próprio negócio, porém, não conseguia suprir as suas ambições. A sua mãe falou para ele que na aldeia tornavam as pessoas abastadas só com pequenos rituais. Ela ligou para a sua macumbeira. Convinha que levasse o filho para fazer um banho na palhota. Levaram consigo uma garrafa de vinho branco, rapé, uma galinha cafreal e um lenço branco, fizeram todo o ritual e abençoaram Maiquel, todavia, Margarida não disse ao filho que no dia em que ela morrer, levaria com ela todo o seu sucesso. De três em três meses, ele tinha de ir à palhota renovar o pacto e levar a décima parte do valor dos lucros para os espíritos que abriam seus caminhos rumo à evolução.

Seu negócio cresceu, ficou conhecido como o homem da súbita riqueza, pessoas experientes estranhavam tal riqueza, era temido. Maiquel comprou carros luxuosos, gastou com mulheres e nunca se interessou em construir. Em momentos de abundância e ganância, para os menos sábios, investir e construir um tecto é uma preocupação pouco importante.

O tempo passou, a mãe foi diagnosticada com tumor cerebral. Não resistiu e perdeu a vida. Maiquel fez um velório digno de rainha em homenagem à sua mãe.

Ele só ficou a triunfar por dois meses. Seus carros avariaram e teve de vender quase tudo que possuía. O seu estabelecimento foi à falência. Viajou a terra da mãe para levar reforço, mas nem mais os remédios da maldição tinham poder. Todos os que um dia assistiram e aplaudiram as suas obscuras vitórias, também assistiram a sua ruína. Até de curandeira ele mudou, mas, o segredo para o seu sucesso partira com a sua mãe.

Em resultado de todos actos malignos, ficou deprimido, voltou a ingerir bebidas espirituosas, afundou na desgraça, vezes sem conta andava sem roupa na rua, sujo e descalço, virou um delinquente, tão jovem e ambicioso.

Tudo voltou-se contra si. Maiquel enlouqueceu com tamanhos pactos diabólicos em busca de poder. Ele foi sujeito até a pagar os erros da mãe.

 

 

Foi activado um Comité Operativo de Emergência em quatro distritos que se debatem com o surto de cólera, que chegou à província de Tete.

A capital lidera o mapa de incidência, somando já 236 casos, seguida pelo distrito de Angónia com 108, Chiúta com 87 e Mutarara com 64.

O médico-chefe provincial em Tete, Xarifo Gentifo, fez saber que, antes da confirmação do surto, a província já tinha registado perto de cinco mil episódios de doença diarreica, que podem estar afinal associados à cólera.

“A nossa preocupação é maior ainda nos distritos que fazem fronteira com o Malawi, tendo em conta que o Malawi está a enfrentar um surto sem precedentes. Sabemos que a mobilidade da população é grande e temos fronteiras abertas, que dificultam o controlo”, explicou Gentifo.

O distrito de Maotize, que também está situado na linha fronteiriça com o Malawi, não registou qualquer caso até ao momento.

De visita a Tete, o vice-ministro da Saúde, Ilesh Jani, liderou na segunda-feira a equipa do Comité Operativo de Emergência contra a cólera. À DW, admitiu ser um momento em que a situação deve ser levada mais a sério pelo Governo, assim como pelas comunidades.

“A cólera deve ser trabalhada principalmente no aspecto da prevenção”, disse Jani. E “a prevenção é uma resposta multissetorial, com incidência sobre a provisão de água potável, de saneamento adequado e medidas de higiene individual e colectiva”.

A cólera é uma patologia bacteriana infecciosa intestinal, transmitida por contaminação fecal-oral directa ou pela ingestão de água ou alimentos contaminados. No entanto, para muitos populares, a deficiente distribuição das Águas da Região Centro, antiga FIPAG, é um entrave no combate à doença.

“Com água poderíamos fazer limpeza geral, mas está difícil”, queixou-se uma habitante em Tete.

As entidades governamentais estão preocupadas em garantir que o vírus da cólera não se alastre a mais províncias. Até ao momento, a doença já foi detectada em Gaza, Tete, Sofala, Niassa e Zambézia, somando ao todo um cumulativo de mais de três mil casos.

A obra “Xirico: vozes de paz em Moçambique”, de Nelson Moda, conta histórias sobre a guerra dos 16 anos em Moçambique. O livro foi apresentado esta segunda-feira, na Cidade de Maputo.

Depois de ser lançada na Beira, a obra de Nelson Moda chegou à Cidade de Maputo e, mais uma vez, foi apresentada ao público. Xirico, título da obra, é nome de um pássaro dado ao rádio que era usado no período pós-independência no país e através do qual eram veiculadas informações sobre a guerra dos 16 anos.

Foi sobre esta guerra que Nelson Moda decidiu ouvir parte dos seus intervenientes e através das suas histórias relembrar o período de terror vivido por vários moçambicanos.

“Eu procuro revisitar a dor dos moçambicanos que sofreram por causa da guerra civil e, a partir destas dores, ganhar inspiração para a construção de um Moçambique melhor”, disse o autor.

O antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, o académico Brazão Mazula e o pároco da Catedral da Cidade de Maputo, Giorgio Ferretti, tomaram a responsabilidade de fazer a sua apresentação.

Joaquim Chissano disse, na sua apresentação, que o que constitui um diferencial na obra é a forma com que o autor conseguiu fazer falar os moçambicanos de todos os estratos sociais.

“Há várias vozes que ecoam neste livro, desde a dos militares, guerrilheiros da Renamo, às de várias mulheres e homens que sentiram a dor inútil de lutar contra eles”.

Para Brazão Mazula, mais do que contar histórias de guerra, a obra representa um sinal de preocupação e busca pela paz. “[Mostra] as dificuldades que a guerra causou, mas também as vantagens após os Acordos Gerais de Paz e lamenta, hoje, a situação de Cabo Delgado, no entanto lança o desafio de resolver tudo na via de diálogo”, afirmou Brazão Mazula.

Por sua vez, o pároco da Catedral da Cidade de Maputo diz que a obra vai permitir que jovens compreendam melhor a história da guerra.

Com cerca de 250 entrevistas, o livro de Nelson Moda é chancelado pela editora Fundza.

Por David Almeida Francisco Houana

 

Montagem Teatral: O Tartufo

Montagem: Escola de Comunicação e Artes – UEM

 

Caros leitores & leitoras,

começamos este texto quase crítico repisando um pensamento já antigo, o da efemeridade  do Teatro. Em Dionísio este processo envolve máscaras, representação e purgação das emoções. Em contrapartida, nas terras subsarianas tomadas por religiosidade fervorosa e Tartufos, a arte dramática digladia com a santa Igreja, afinal o público é o mesmo.

Em contra mão, o teatro e a igreja têm mais semelhança do que diferenças, ambas têm um palco onde pode subir  o santificado padre/pastor e noutro encontramos personas personagens e preformares, ambas manipulam os estados d’spirito e os seus públicos pagam para assistir as apresentações. No teatro pagamos na entrada, já na igreja pagamos para ir ao céu, na religião  podemos pagar com os nossos carros, casas e, por vezes, uma vida inteira doada a uma figura de Deus cujo o seu representante oficial é o tartufo!

No dia 1 de Dezembro, os estudantes da Escola de Comunicação e Artes, II ano Teatro, abriam as portas de uma casa que poderia ser qualquer uma em Moçambique para mostrar a engenharia dos homens de Deus que já avistaram até as sandálias de Abraão.

Dia 1 no calendário cénico, a casa  é uma baderna religiosa, literalmente, talvez porque o teatro potencializa a vida e com isso, uma igreja transcende a que temos no nosso tipo ideal e pode se transformar em verdades difíceis de engolir.

Dia 2,  enfrentamos o disco musical usado na igreja para levar o povo ao clímax e rimos bastante.

Dia 3, o lugar a apresentar o Tartufo tinha uma Avenida enorme cuja iluminação cénica era convencional e naturalista, só com adereços e sem cenografia.

Dia 4, esta patente que o teatro é  um jogo de xadrez, que deve ser dinâmico, contudo, em algum momento das jogadas cénicas as personagens estavam com o saco cheio pela presença de Tartufo na sua casa, deixaram cair cadeiras através da mesa e os filhos de Dionísio ignoram, para os fiscais da estética aquilo era gritante.

Prezados leitores, partindo daqui migramos ao segundo ou terceiro ponto de reflexão.

No teatro as personagens nos roubam tudo, no início emprestamos o corpo, depois a voz, as memórias, essas entidades sempre querem mais, TRASFERÊNCIA, transferimos  sonhos e desejos, mesmo com isso, elas sempre querem mais e roubam tudo e mais alguma coisa, até a uma Gota.

No caso do espectáculo supra citado, o tartufo roubou tudo! Entrou pela fé e alegações de curar o diabo que há neles, o Tartufo  abusou, cometeu  adultério com a dona de casa, apreciou a mulher e a filha do outro, dividiu a família e usurpou a casa, cometeu os sete pecados e desrespeitou os dez mandamentos, típico de personagens que sugam até o talo, nesse processo o Actor que compôs  o Tartufo junto com a Sogra, e a Amada esposa carregaram o espectáculo nas costas e, por isso, merecem todo dízimo do mundo.

Tartufo irá para o céu?

RISOS, o espectáculo era risível e domado de caracteres inferiores, isso dá comicidade a qualquer acto. Porém a palmatória vai ao actor que compôs a personagem gay, ESTERIÓTIPO, aquela máscara era desconfortável para ele e este julgava o papel.

Olhando a Dramaturgia, redescobrimos o Molière e a sua comédia dos costumes e percebemos o quão actual é no país de Ngunhunhane e Moça All Bique.

03.12.2022

 

Ficha Técnica

Dramaturgia

Jean-Baptiste Poquelin O Molière

Adaptação

O Tartufo

Actuantes

Francisco Novunga

Gaspar Napaho

Salomao Nhambule

Argentina Mazuze

Solange Charles

Parcia Arnuario

Encenação

Encenação coletiva, turma do II ano Teatro UEM 2022

Direcção e Supervisão

Maria Atália

 

 

 

Por: Bena Filipe

 

Com tristeza, tomei conhecimento de 95 casos de violação sexual, durante a quadra festiva de 2022. Em 2021, a UMAR (União de Mulheres Alternativa Resposta) de Portugal, recebeu a comunicação de 299 casos de violação sexual, perfazendo 25 casos em 1 mês, o que contrasta com os ascendentes do ano seguinte 2022.

Segundo a médica legista A. Neves, no período de Janeiro a Setembro de 2022, receberam 1737 casos, dos quais 76% presenciais e 24% on line. Foram detidas 153 pessoas, mas, possivelmente, 15% das queixas eram falsas para justificar namoricos, conflitos conjugais, onde a mãe acusa o pai, e ou o pai acusa o companheiro da ex-esposa/companheira por conflitos para guarda de paternidade.

Esber (2009) aponta que os violadores são de todas as classes sociais, faixas etárias, grupos étnicos. Estão numa sociedade que legitima a sua condição. Por isso, a mulher é desvalorizada e coisificada. Em muitas partes do mundo, os perpetradores da violação/abuso sexual são do perfil descrito por  Esber (2009), mas, na nossa realidade, temos agentes da lei, frequentemente citados, o que legitima a qualquerização da mulher, bem como a fragilidade da educação familiar/formativa.

Um estudo sobre violência sexual feita em Moçambique, por Britgite Bagnol, e publicado em Fevereiro de 2011, avança variáveis como pagamento de multas e casamento para anular o crime.

Hoje, com a escolarização, acesso à informação e aos serviços, estas notificações podem estar a ascender, não pelo número de casos, mas como aumento da própria notificação. De preocupar, existem casos de violação sexual reportados, em que os autores são menores  e  adolescentes, o que demostra que a sociedade está muito doente.

Em relação aos 60 mil casos de registo de nascimento, sem o nome do pai, predominante no Centro e Norte do país, pude apreciar que, em outros quadrantes, como Brasil, temos as cifras de 100 mil nascidos sem registo do pai, em 2021.

Em Portugal, mais de 5700 exames foram pedidos para confirmar a paternidade. A procura da paternidade no contexto norte-americano e outros países (Alemanha, Reino Unido, Dinamarca, Itália e Espanha), preocupa-se mais com a questão do sustento e bem-estar da criança, do que com direito à identificação pessoal.

No contexto norte-americano, o estado é o motor da busca pela paternidade (Rottisein et al: 2005; Manson, 1997). Nos casos em que a mãe omite a identidade do pai, e não depende dele para o sustento, caber-lhe-á a decisão de querer ou não que o estado identifique o pai biológico (Rothstein et al. 2005).

Em Portugal, independentemente da situação económica da mulher, a averiguação da paternidade é quase obrigatória, enquanto que a obrigatoriedade em outros países decorre de imperativos económicos. Percebe-se que o assunto é complicado, e que as políticas se adequam com a realidade, colocando em primeiro lugar a criança, não o pai ou a mãe e sua guerras ou interesses. Nós sabemos que é bom ter um filho de um pai comprometido, mas que vai pagar as mesadas, uma  vez provado a paternidade. Aqui escuso-me de comentar. Ao invés disso, incentivo as mulheres para irem atrás dos seus direitos.

A partilha desta informação, dos 60 mil casos de registos de nascimentos sem que conste o nome dos pais, é de louvar e elogiar, pois convida-nos a reflectir sobre quantos desses foram para confirmar a paternidade.

O Governo e a sociedade civil, sectores que lidam com esta matéria, devem cada vez mais fazer e cumprir as leis, e respeitar os direitos humanos.

Nos dois contextos, cria-se um espaço muito fértil para aumento de casos de HIV. Podemos assumir que, no acto de violação, ou contacto sexual com gravidez, corre sempre o risco de infecção por HIV, tanto para o agressor ou para a vítima. Ninguém tem cara, aparência de HIV. Todos temos, até prova em contrario.

Aparece agora uma nova faixa etária, que está a destacar-se na violação sexual e nas infecções de HIV. Dependendo das circunstâncias, e as razões, não gosto de as procura entender, porque nem sempre as vítimas são vítimas, o autor deve assumir e pagar pelas suas consequências. Só assim este ciclo de qualquerização vai diminuir, sabendo que a mulher sofre porque não terá um homem do seu lado, a sua criança não terá pai, e terá de cuidar sozinha da criança e enfrentar sozinha as dificuldades económicas. Temos à vista um futuro de risco para ambos, por comportamentos desviados, e um desenvolvimento como sociedade comprometido, por causa de um acto prazeroso que se podia evitar, tomando anticoceptivos e usando preservativo. Ambos sabiam o que estavam a fazer e devem assumir as consequências, salvo em menores de idade e onde temos outros elementos agravantes.

Esses problemas vão entrar nas nossas vidas, directa ou indirectamente, cedo ou tarde. Fugir para lugares mais calmos e regrados e contornar não é a solução. Mas exige-se, urgentemente, atitudes conjuntas e corajosas, independentemente de quem esteja envolvido.

 

Transportadores internacionais optam por uma rota que não usavam há muito tempo e dizem que só assim conseguirão voltar a ter fluxo de passageiros. Entretanto, o medo de novos ataques prevalece.

Dois a três carros saíam, diariamente, do terminal da Junta para Durban, na África do Sul. Mas com a onda de queima de autocarros de matrícula moçambicana na terra do rand, os números reduziram.

“Agora só saiu um carro, porque as pessoas estão com medo. Os carros que costumavam sair às 7h30, agora, por causa da confusão na África do Sul, vão até às 9h ou 10h”, disse Sérgio Mahanjane, transportador.

Igualmente, no terminal da Baixa, o medo dos passageiros continua a esvaziar os assentos.

“Hoje (referindo-se a este sábado) saiu um carro com uma média de nove passageiros. Não podíamos mandar voltar as pessoas. A situação não está muito boa, as pessoas ainda não se sentem seguras”, revelou Fernando Lopes, presidente da Associação dos Transportadores Rodoviários Internacionais da Baixa.

Para não deixar o negócio falir, os transportadores da Baixa e da Junta optam por uma rota que não usavam há muito tempo.

“Os Governos ainda não se pronunciaram sobre aquela via directa, da Ponta do Ouro. Nós estamos com medo e não vamos para lá. Então, optamos por usar a via de Goba, que passa pelo eSwatini. É muito segura”, explicou Fernando Lopes.

Contudo, apesar de segura, a alternativa é cara.

“Gastamos com passaporte, são cinco carimbos só para entrada”, referiu um transportador.

“Com os custos de combustível e portagem, são quase mil rands. Entrando de Mangunze já sai em conta, porque Durban se torna mais perto”, acrescentou outro transportador.

Temendo novos ataques, os transportadores clamam pela resposta imediata dos Governos da África do Sul e do país.

O conceituado escritor moçambicano, Juvenal Bucuane, vai lançar um novo livro intitulado “Phombe – um trágico 9 de Janeiro em Chitima”. A obra literária foi escrita em homenagem aos 75 moçambicanos que perderam a vida na sequência do consumo da bebida local “phombe”.

No dia 9 de Janeiro de 2015, em Chitima, uma das localidades incrustadas à Vila do Songo, Distrito de Cahora Bassa, em Tete, houve uma tragédia incomum, cujo eco teve drástica repercussão durante meses.

Essencialmente, os postos de saúde locais viram-se inundados de gente de todas as idades e de todos os sexos, que buscavam socorro por um mal-estar generalizado.

A situação foi tão grave, repentina e inédita naquelas paragens que toda a ajuda tornou-se quase insignificante para tanta morte. Ao todo, foram 75 mortes.

Recorrendo a factos reais, que marcaram um passado recente da realidade moçambicana e com repercussão internacional, entretanto com uma técnica de escrita próxima à ficção, Juvenal Bucuane propôs-se escrever um livro sobre a bebida local phombe, em homenagem às vítimas da tragédia de Tete.

Segundo lembra o escritor, entre as 75 mortes houve várias pessoas internadas no Centro de Saúde de Chitima e no Hospital Rural do Songo. Enquanto se enterrava os mortos e tentava-se salvar os pacientes internados, o Governo decidiu impedir, por vários dias, a preparação, o consumo e a venda do phombe, pois, todas as mortes e internamentos estavam associados ao consumo da bebida. Tal interdição, constrangeu a muitos vendedores que encontravam na bebida fonte de receita.

Para Juvenal Bucuane, escrever sobre o fatídico dia 9 de Janeiro de 2015, em Chitima, significa homenagear todos aqueles que partiram sem saber por que morreram e, mais do que isso, o livro que será lançado no próximo mês representa uma tentativa de prender a memória colectiva de um povo. Por isso mesmo, o escritor com cerca de 40 anos de percurso literário partiu de Maputo, cidade onde vive, para, em Tete, explorar uma história com contornos difíceis e imprevisíveis. “Veio-se a saber que os recorrentes à intervenção médica haviam ingerido phombe inquinado, confeccionado pela senhora Olívia Olucane N’Tefula, uma das mais respeitadas porque exímias fabricantes daquela bebida caseira fermentada. Para o deslinde das causas do inquinamento do phombe em causa, muito vasculhou-se, sob uma nuvem densa de mistério”, avança Juvenal Bucuane.

Uma das pessoas que morreu ao consumir phombe foi a própria produtora da bebida e vendedeira: Olívia Olucane N’Tefula. Tal facto, segundo Juvenal Bucuane, dificultou as investigações sobre o que poderia ter acontecido para que tanta gente sucumbisse.

Com base nas amostras, os laboratórios moçambicanos não conseguiram apurar a verdade dos factos. A equipa envolvida recorreu ao conhecimento científico sul-africano. Igualmente, sem sucesso.

Tal como em 2015, no mais recente livro de Juvenal Bucuane aparecem diferentes versões sobre as possíveis causas da morte de 75 moçambicanos no Distrito de Cahora Bassa, em Tete. Entre o místico e o crime, houve, inclusive, pelo menos uma prisão. No entanto, a polícia soltou o suspeito de envenenamento por falta de provas.

O livro do escritor charrueiro, com efeito, esclarece mal entendidos e mergulha em questões de fundo rumo à veracidade dos factos que, inclusive, muitas semanas depois de tanta investigação, seriam esclarecidos por um laboratório norte-americano. A conclusão das análises feitas à amostra apontou a questões de falta de higiene como motivo das 75 mortes e internamentos ligados ao consumo da bebida local bem consumida na Província de Tete.

Phombe – um trágico 9 de Janeiro em Chitima é o título do segundo livro da autoria de Juvenal Bucuane chancelado pela Editorial Fundza. A primeira proposta literária do escritor pela editora é Masingita ou a subtileza do incesto, uma novela de amor e caos lançada ano passado, em Maputo, com desfecho dramático e trágico.

Por: Edna Matavel

 

A violência doméstica é todo acto de abusos físicos, sexuais, psicológicos perpetrados por um membro da família ou parceiro íntimo. No meu caso, foi com o meu parceiro.

O meu nome é Mevasse. Em cada gestação eu apanhava do meu marido. A última vez que ele levantou a mão em mim, cheguei ao ponto de acordar numa cama de hospital e com um bebé prematuro.

Quando nasci, os meus pais costumavam dizer que a mulher nasceu para se submeter às vontades do seu marido, e trabalhar duro para ser vista como zelosa e prudente no seu lar. Essas palavras se fizeram notórias no momento em que a minha felicidade e liberdade foram vendidas por conta de uns trocados e uma cabeça de gado. O que os meus pais pouco sabiam é que ali iniciava uma vida cheia de dificuldades e dor. Onde, nas noites de frio, as lágrimas serviam de companhia e consolo ao ponto de aquecer o meu rosto.

Para minha sobrevivência, no início do casamento, levantava quatro horas da madrugada e pegava na enxada para comer do fruto do meu suor. Mesmo o cansaço e o sono visitando o meu organismo, não tinha outra escolha.

Tempos depois, descobri que estava grávida e era o início de muita luta. O meu marido acreditava que tendo vários filhos seria bem visto e, assim, fortificava-se a sua masculinidade perante a sociedade. Ele marcou em mim a quantidade de filhos que desejava ter. Sim, cicatrizou em mim o número 10, como símbolo de firmeza nos filhos que queria. Ademais, ele queria somente rapazes.

Tive a primeira gestação cheia de riscos e não acreditava na sobrevivência do bebé. Veio ao mundo uma menina, mas para a minha desgraça, o meu marido tornou-se um homem malévolo, pois considerava meninas um desperdício e despesas sem retorno. Ele me espancou-me julgando que era a culpada por trazer uma infeliz ao mundo.

A minha filha cresceu inferiorizada pelo próprio pai, porque não podia ajudar com o trabalho que fazia. Vezes sem conta, chegava embriagado e eu tinha de interromper o sono da madrugada para fazer as suas vontades e satisfazê-lo como homem. Mal se importava com o estado de saúde da criança. Tive a minha segunda, terceira e quarta gravidez, e, por ironia do destino, eram meninas. Ele perguntou-me o motivo de trazer meretrizes ao mundo e não homens que pudessem fortificar o apelido. Humilhava-me dizendo que só servia para ir à machamba e cuidar da casa, era inútil para fazer filhos.

Havia àqueles dias em que eu volvia em torno de tudo que já tinha-me acontecido e ponderava… A solução parecia a de desistir de tudo, mas os meus pais deixaram claro que já não lhes pertencia.

Os meus olhos denunciavam a minha tristeza. As vizinhas olhavam para mim e desdenhavam-me. Mal conseguia comprar chinelos para as crianças e o meu marido pouco se importava, porque, para ele, filho de verdade nasce homem.

Eu apanhava porque não conseguia ter meninos e nem fazer com que o apelido crescesse e fosse louvado na família. De tanto ser uma máquina de produzir filhos e sujeita a trabalhos duros, perdi e nunca vi a beleza da vida e as tantas alegrias que as vizinhas falavam dos seus casamentos. O meu brilho foi ofuscado e a velhice não tardou a visitar-me. Um minuto de alegria para disfarçar a minha tristeza diante das crianças. Era resultado de uma noite cheia de choros.

Nos dias em que o meu choro chegava ao quarto das meninas, elas questionavam o motivo, e eu, por detrás da porta, balbuciava para dizer: está tudo bem.

Diante da extrema violência, eu tinha que pensar na minha sobrevivência para o futuro das crianças. Pensava na quantidade de filhos que ele queria e no sofrimento que sempre passei para sustentar as mesmas, mas eu não tinha direito a escolha porque estava prostrada ao meu marido. Pagando, assim, o dinheiro que os meus pais receberam no casamento.

Ele pensou em procurar uma esposa que lhe pudesse dar um herdeiro para levar o apelido em diante. Mas, diante dos meus olhos, ele andava com moças mais jovens, e todo audacioso me espezinhava, dizendo que o arroz que colocava à mesa era suficiente para eu deixá-lo em paz com as suas garrotas.

Poucos anos depois, tive a sétima gravidez. Desta vez, era um menino, mas, durante a gestação, sofri abusos. Dias e noites ele espancava-me julgando que era para a criança nascer forte e ainda feto conhecer a dureza da vida. Ele acreditava que fosse ter mais uma desgraça, mas não. Dessa vez, se cumpria o seu maior desejo.

No dia do parto, veio aos meus braços um menino. Quando recebeu a notícia, ficou todo eufórico ao ponto de fazer uma festa de recepção do príncipe querido do pai. As meninas perguntavam umas às outras se não eram filhas suficientes para receber tamanho carinho. O pai respondeu com firmeza que agora, sim, era um PAI de verdade.

Infelizmente, a criança nasceu prematura e, por consequência dos abusos sofridos, não resistiu e perdeu a vida. Eu e as meninas fomos culpadas por essa perda, e fomos espancadas pelo meu marido.

Depois de anos de sofrimento, num mau casamento e trabalhando com tenacidade para construir uma linda família ilusória, eu olhava para mim e as minhas filhas e não tínhamos nenhum brilho. Aí eu tinha que tomar uma decisão antes mesmo de completar os 10 filhos. Decidi segurar firme e procurar às autoridades competentes. Fui mal falada e as minhas filhas sofreram muito, tão novas e com cicatrizes de sofrimento. Aí era somente eu e elas, pois, os meus pais deixaram claro que o lar constrói-se com muita força, mas eu não tinha mais esta força de aguentar tamanha violência.

Enveredei por um caminho livre deste homem malévolo graças às autoridades competentes juntamente com as minhas filhas, na esperança de um dia viver longe de qualquer abuso.

E aí, eu disse para mim mesma: basta, NÃO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.

 

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