O País – A verdade como notícia

Por Gita Bernardo Honwana Welch


Foi-me posta a questão: “Qual a sua visão sobre Luís Bernardo
Honwana? Qual a sua importância para as letras, artes e cultura Moçambicanas? A STV e o ‘O País’ querem contar a história e homenagear Luís Bernardo pelo seu Octogésimo aniversário”.

Não tenho bem a certeza do tipo de resposta que se espera de mim, irmã do Luís.

Mas aqui vai:

Em primeiro lugar, bem hajam a STV e o “ O País” pela homenagem que decidiram prestar.

Em segundo lugar, eis o que tenho a dizer, em jeito de resposta. Honesta e tendenciosa, necessariamente, e muito! (Nem eu me sentiria bem se assim não fosse).

Deixarei a outros, (quiçá mais isentos do que eu), a tarefa de tecerem os seus comentários e dizerem de sua justiça sobre a contribuição e influência do Luís Bernardo Honwana “para as letras, artes e cultura Moçambicanas”.

Eu escolhi (confesso que depois de alguma hesitação), cingir-me a algumas memórias de infância, que guardo muito afetuosamente.

Sou a sétima de um total de 10 irmãos, parte de uma família grande, unida e coesa (como aliás, as famílias normalmente tentam ser). Como tal, as nossas trajectórias pessoais foram sempre muito interligadas e entrelaçadas! Por isso acho que de alguma forma, cada um de nós tem a sua quota-parte de influência no percurso de cada qual.

Pois então.

Lembro-me da existência, na nossa casa, na Moamba, de uma malinha castanha, fechada, misteriosa, escondida debaixo da grande cómoda do quarto dos nossos pais. E os irmãos mais velhos, proibiam-me de tentar abrir ou mesmo tocar na malinha porque… “Gita, não mexe, é do Mano Luis!” Isto quando eu tinha 4 ou 5 anos (e o Luís 10 ou 11).

O mistério da malinha já me intrigava há algum tempo, quando um dia, as manas mais velhas me chamaram para um canto e me segredaram que a malinha continha um verdadeiro “tesouro”, muitas revistas aos quadradinhos que elas liam às escondidas porque o Mano não gostava que se mexesse na mala! Elas costumavam abrir a malinha muito cuidadosamente e em segredo, e liam as revistas, depois de fazerem os deveres de casa e antes do Mano regressar da escola, no comboio das 18. Era crucial não pôr cuspo nos dedos para virar as folhas, não rasgar nada e voltar a deixar tudo arrumadinho como dantes, antes de fechar e guardar a mala. Eu jurei que seguiria estas regras.

Mas o mano acabava sempre por descobrir que a mala tinha sido mexida e isso dava sempre confusão. Só que para nós, valia sempre a pena!

Como não? Foi aí o nosso primeiro contacto com as fascinantes histórias de outros mundos, suas gentes e seus heróis: os valentes ‘cowboys’, os guardiões da ética e da lei, Tom Mix, Hopalong Cassidy, Buffalo Bill, Roy Rogers; os implacáveis xerifes contra os horríveis malfeitores! Não esquecendo os lendários e gloriosos chefes índios dos Navajos, Apaches, Sioux, Cherokees, Comanches e outros, corajosamente protegendo, a honra do seu povo, as suas tradições e o seu território, contra os agressores estrangeiros!!Waw!! E o misterioso “Fantasma”? lutador implacável  contra o crime e os criminosos e defensor dos povos da floresta, que operava a partir de Bengalla, um (fictício) país Africano!

Alguns anos depois, o mano levou-me pela primeira vez ao Luna Parque (simplesmente extraordinário!), e mais tarde a uma sessão do Cine Club. O filme era “O Deserto Vermelho” de Antonioni, com Mónica Vitti. Não me envergonho de dizer que adormeci a meio do filme. Era muito comprido, eu compreendia pouco do que se estava a passar na tela, e além disso  estava cansada. Mas tive subsequentemente o privilégio de ver muitos outros filmes no Cine Club e de gradualmente entrar em contacto com os maravilhosos  ciclos do Novo Cinema mundial dos anos 60. Fantástico!

E depois, o incentivo para as leituras, para as nossas intermináveis conversas sobre filmes e livros! Por qualquer razão associo os nomes de Hemingway, Steinbeck e Jorge Amado a esses primórdios.

Nos terríveis 3 anos e meio da sua prisão, continuei a aprender com o Mano.

Tínhamos visitas com ele, na cadeia da Machavasemanalmente, para levar comida e mudas de roupa.

Por detrás das grades, ele deu-me lições teóricas sobre como usar a sua preciosa máquina fotográfica que ele me deu de empréstimo. Era uma “Yashica Mat”.  Eu tinha começado a trabalhar no jornal ‘A Tribuna’ e precisava de saber tirar fotos. Ele explicava como tirar boas fotos e eu ia para casa praticar com a máquina. Depois discutíamos o resultado e ele incentivava-me a melhorar.

Quando numa ocasião a PIDE me foi notificar ao liceu onde eu estudava, para ser presente a um interrogatório na semana seguinte, eu comuniquei isto ao Mano durante a visita. Eu estava num estado de grande agitação e disse: “Vão perguntar-me sobre ti. O que digo?” Ele brindou-me com aquele sorriso calmo e disse: “Como já deves saber, não é só sobre mim. É sobre nós. Mas de qualquer modo, é simples. Na PIDE não se fala”.

Na verdade, Mano, na PIDE não se fala.

Parabéns pelos 80 anos!  

 

Gita Bernardo Honwana Welch

Por ocasião do seu 80° aniversário

Teodato Hunguana

 

Meu caro Luís,

O José dos Remédios tirou-me do sossego ao convidar-me de surpresa para falar de ti por ocasião dos 80 anos de vida que agora completas. Tenho a agradecer-lhe a compreensão que mostrou quando lhe expliquei as razões por que não me seria fácil aceitar tal compromisso, mas também as que me tornavam muito difícil não aceitar. Pedi-lhe que me desse tempo para responder, isto há mais de um mês atrás. A razão ou razões da minha hesitação resumiam-se simplesmente ao seguinte: falar de que Luís? …do escritor?… para isso estão aí tantos dos seus confrades que o podem fazer com mérito, arte e engenho, que estão bem longe do meu alcance! Do cidadão, do político, do compatriota?… embora muitos dos seus companheiros de luta, dos difíceis tempos da clandestinidade e das masmorras da PIDE/DGS, já não estejam connosco, alguns ainda sobrevivem, e estes poderiam sempre prestar depoimento mais profundo, mais conhecedor, do que eu, que só a partir dos anos de Lisboa tive oportunidade de conviver mais de perto, contigo e com a Suzete.

A questão que se me colocava era de como abordar ou falar de algum facto ou aspecto que tivesse particular significado, não só para mim, já que se trata de partilhar num depoimento, mas que pudesse ter algum «valor acrescentado» ao que se conhece de ti como homem, concidadão, nosso irmão e companheiro de tantas jornadas. Depois de muito pensar, de quase uma revisitação ao tempo transcorrido desde a Independência Nacional, ancorei num episódio que haveria de ficar gravado na minha memória para sempre. Afinal, era o que precisava para os efeitos de um breve depoimento como este: apenas de um episódio significativo.

Um episódio que se situa num tempo da tua vida que poucos conhecem, em virtude da natureza delicada das funções que então exercias junto do Presidente Samora. Mas um episódio que teve a particularidade de nos conectar numa situação dramática, a ti, ao Presidente e a mim, então recém-nomeado Ministro da Informação.

Naquele tempo, em 1986, estando o Presidente de férias com a família no Bilene, chamou-me para me ouvir sobre alguns problemas da minha vida pessoal a que ele não permanecera indiferente. No fim da conversa, e na perspectiva de se criar um ambiente propício para a solução daqueles problemas, solicitei ao Presidente que, pelo menos por uns tempos, me afastasse de Maputo, dentro ou fora do País. O Presidente disse compreender as razões do meu pedido e que iria decidir aquando do seu regresso a Maputo.

Aconteceu porém que, algum tempo após o seu regresso a Maputo, e no âmbito de uma ampla remodelação governamental, ouço pela RM que fora nomeado como Ministro da Informação. Obviamente, isso constituiu uma surpresa e um sério choque para mim, em função do que era a minha expectativa depois da conversa na praia do Bilene. O choque afectou-me de tal maneira que na manhã do dia da tomada de posse eu tive que ir ver os médicos (na brigada de médicos cubanos, na Clínica do Clube Militar, que assistia os membros do Conselho de Ministros) os quais, depois de me observarem, foram claros a recomendar que eu ficasse recolhido em absoluto repouso porque não estava em condições de ir tomar posse no estado em que me encontrava. Comuniquei ao Protocolo de Estado sobre o meu estado de saúde e sobre a recomendação médica. E fiquei em casa conforme recomendado.

Importa referir que a mudança em relação à conversa do Bilene, soube-o eu depois, ficara a dever-se ao que alguns colegas tinham ido depositar nos ouvidos do Presidente, insinuando que o meu pedido, de ser afastado de Maputo, não era senão manifestação da história a que tinham dado voz, anos antes, num outro contexto crítico do meu desempenho ministerial, história segundo a qual eu «andaria com um pé dentro e outro fora». Então, e muito como efeito dessa história, o Presidente nomeou-me Ministro da Informação, pois assim se frustraria o que era suposto ser a minha presumida obscura intenção de «saltar fora».

Quando no dia marcado para a tomada de posse de todos os incluídos na remodelação (de entre ministros e governadores), em virtude do meu estado de saúde, não me fiz presente, os mesmos colegas terão dito ao Presidente que isso era já manifestação de grave indisciplina, rebeldia ou desobediência, no que denunciavam como recusa de assumir o novo cargo.

Face a este ambiente gerado à minha volta, o Presidente teria então mandado destacar uma força para ir proceder à minha imediata detenção.

Foi nessas circunstâncias que o Luís, porque conhecendo-me como me conhecia, e trabalhando directamente com o Presidente, usou da sua capacidade de persuasão, dos seus dotes de ponderação e de domínio de linguagem apropriada para uma situação tão delicada, dominada pelo nervosismo, tensão, e imperativo de se «dar uma lição» a um presumido rebelde indisciplinado, o Luís conseguiu amainar os ânimos e levar o Presidente a recuar da ordem de detenção.

De todo este imbróglio, isto é, do que ocorreu como consequência da minha ausência à tomada de posse, ausência que, repito, supunha devidamente justificada, eu só tomei conhecimento muitos meses depois, muito depois de entretanto ter tomado posse como Ministro da Informação. E muito mesmo depois de Mbuzine.

 Então qual a relevância de estar a resgatar esta história de há 36 anos atrás, neste breve depoimento sobre o meu amigo Luís? Qual a moral desta história?

Três factos a reter:

– Primeiro, o que me diz respeito directamente, que é o facto de ter sido salvo, embora sem o saber, de ser vítima de uma sanção, não só injusta mas cuja execução poderia ter sido de consequências imprevisíveis, quiçá irreversíveis;

– Segundo, no que diz respeito ao Presidente, o facto (sobremaneira importante para um dirigente, para um líder) de que o livrou de cometer a injustiça à qual fora erroneamente induzido;

– Finalmente, e certamente o mais importante, foi o próprio facto da intercessão para evitar que se cometesse um erro, uma injustiça, e por via disso, salvar a vítima dessa injustiça. Esta intercessão ficou a dever-se à hombridade, serenidade, e capacidade de persuasão do Luís Bernardo. Porque o Luís não fez aquele papel, que tão bem conhecemos, de dizer ao chefe o que o chefe gosta de ouvir, mas assumiu o risco de dizer algo que ia mesmo em sentido contrário à decisão do chefe, mas que era o necessário, e de justiça, o chefe ouvir.

E esta é a moral desta história, moral intemporal, a moral dos valores e princípios que devem consubstanciar o sentido de serviço público, a qualquer nível, mas sobretudo aos níveis mais elevados, como era aquele em que o Luís servia o Estado naquele tempo.

Não vou terminar o meu depoimento sem dizer agora o que nunca disse ao Luís, até porque não mais voltamos a falar desta história… então dizer simplesmente: Obrigado Luís por tudo o que isso significou para mim, mas obrigado sobretudo pela lição que esse episódio encerra. É essa lição de vida que justifica que eu resgate o episódio, hoje, passados 36 anos, em celebração dos teus 80 anos.

Matola, 30 de Outubro de 2022.

Ao sair da prisão, Luís Bernardo Honwana não ficou desamparado. Mais ou menos dois anos depois, foi a Portugal estudar Direito na Universidade Clássica de Lisboa. Cinco anos depois, quando a independência nacional foi proclamada, o escritor foi nomeado Director do Gabinete do Presidente da República, Samora Machel.

A vida política, com feito, não lhe engoliu. Pelo contrário, contribuiu para a dinamização da actividade artística e cultural ao nível nacional. Por exemplo, ajudou a fundar a Associação Moçambicana de Fotografia e a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Na verdade, foi Luís Bernardo que unilateralmente decidiu onde seria a sede da AEMO, na Cidade de Maputo.

Luís Bernardo Honwana contribuiu intensamente para a fundação da AEMO, a 31 de Agosto de 1982. Inclusive, presidiu a Comissão Constitutiva da agremiação. Nesse mesmo ano, tornou-se secretário do Estado da Cultura e, em 1986, foi nomeado Ministro da Cultura de Moçambique.

Cinco anos depois, em 1991, fundou e foi o primeiro Presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, actualmente, presidido por Nataniel Ngomane.

Quando largou a vida política activa, Luís Bernardo Honwana envolveu-se em vários projectos. Foi convidado para entrar para o Secretariado da UNESCO e foi nomeado director do Escritório Regional da organização, com base na África do Sul.

Honwana não voltou a publicar um livro de ficção, mas continuou a participar em palestras, debates ou em sessões que lhe permitem partilhar o seu pensamento. Nós matamos o cão-tinhoso bastou-lhe para que fosse reconhecido como uma das figuras tutelares da literatura moçambicana. Para alguns intelectuais, se José Craveirinha é o poeta maior de Moçambique, Luís Bernardo Honwana é essa voz fundadora na prosa.

Parte do que o escritor pensa como intelectual encontra-se publicada no seu segundo livro, A velha casa de madeira e zinco (2017), publicado pela Alcance Editores. Mas é Nós matamos o cão-tinhoso a sua obra-prima.
Já na década de 60 do século passado, “Dina”, um dos contos que constituem o livro, foi adaptado para o filme intitulado
Deixe-me ao menos subir as palmeiras, de Lopes Cardoso. Apesar da astúcia do realizador, que colocou um capaz preto ao invés de um branco, o filme também foi interdito.

Ora, além de Lopes Cardoso, a escrita de Luís Bernardo inspirou a actriz Ana Magaia, que, há uns anos, levou ao palco o monólogo Rosita, até morrer, adaptado para o teatro a partir de um conto do escritor que, em 1964, não fazia parte da primeira edição de Nós matamos o cão-tinhoso. Na edição brasileira da Kapulana (2017), sim, o conto foi inserido.

Em 2018, a artista plástica moçambicana, que vive e trabalha nos Estados Unidos, Cassi Namoda, realizou uma exposição de pintura inspirada na obra Nós matamos o cão-tinhoso. Inclusive, deu à sua individual o título do primeiro livro de Honwana.

Em homenagem a Luís Bernardo, o escritor angolano Ondjaki escreveu o conto “Nós choramos pelo cão-tinhoso”, texto publicado no livro Contos africanos dos países de língua portuguesa, organizado pela professora brasileira Rita Chaves.

Ano passado, Licínio Azevedo adaptou para o cinema o conto “Nhinguitimo”, um dos que constituem Nós matamos o cão-tinhoso. O filme a preto e branco tem 20 minutos de duração e retrata uma história de injustiças e intransigências.

Em 2014, moçambicanos e ingleses celebraram os 50 anos de Nós matamos o cão-tinhoso. No mesmo ano, Luís Bernardo Honwana foi homenageado pelo Governo de Moçambique e, de seguida, foi laureado Prémio de Literatura José Craveirinha, o maior galardão literário do país.

A oitava edição da Feira do Livro de Maputo, organizada pelo Conselho Municipal de Maputo, foi dedicada ao autor de Nós matamos o cão-tinhoso, um dos 100 melhores livros africanos do século 21, pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe. Indisponível na cerimónia de homenagem por razões de saúde, o município da capital homenageou-o publicamente esta quinta-feira, a propósito dos 135 anos da Cidade de Maputo.

Além de artista, dinamizador cultural, político e gestor, Luís Bernardo Honwana, actualmemnte, tem-se envolvido em acções de preservação ambiental.

Luís Bernardo Honwana é casado e é pai de dois filhos. 10 dias depois da mãe completar 102 anos de idade, neste 12 de Novembro, completa 80 anos de idade.

Aos 22 anos de idade, Luís Bernardo Honwana estreou-se com Nós matamos o cão-tinhoso. O livro teve como editor o escritor e jornalista João Salva-Rey, fundador d’A Tribuna. Nesse jornal de referência durante a dominação colonial portuguesa em África, também colaboraram José Craveirinha, Rui Knopfli, Rui Nogar, Eugénio Lisboa e Gita Bernardo Honwana Welch, irmã de Luís Bernardo.

Desde cedo, a colecção de sete contos, designadamente, “Nós matamos o cão-tinhoso”, “Inventário de imóveis e jacentes”, “Dina”, “A velhota”, “Papá, cobra e eu”, “As mãos dos pretos” e “Nhinguitimo” não passou despercebida da sociedade lourenço-marquina dos anos 60 do século passado. Pelo contrário, nos jornais da época, críticos e artistas fizeram recensões literárias. Às vezes, elogiando o livro e, noutras vezes, criticando-o severamente.

Entre os críticos da época, destaca-se o escritor Rodrigues Júnior, autor de romances como Sehura, Muende e Calanga. Para Rodrigues Júnior, à época um dos influentes autores moçambicanos, Luís Bernardo Honwana, aquando da publicação do livro de estreia, não era nem um escritor nem um jornalista. Inclusive, numa das suas publicações na imprensa da época, Júnior disse o seguinte, em relação a Honwana: “Falta-lhe, ainda, o trabalho que não tem feito à altura de o considerarem já um Escritor e um jornalista. Luís Bernardo, não é um génio. É, contudo, um homem inteligente. E, de certo modo, um homem culto (…). O seu livro conta histórias – histórias, só. Mas nem mesmo como histórias se pode aceitar. Não são verdadeiras. O que nelas se conta é, por vezes, acusação. E acusação injusta – que não fica bem a um moço bom como o Luís Bernardo é”.

Ou seja, Rodrigues Júnior defendeu que Nós matamos o cão-tinhoso é um livro mau, com histórias que nunca deveriam ter sido escritas. Por exemplo, “As mãos dos pretos” e “Nhinguitimo”. No entanto, esses pronunciamentos foram veementes reprovados por autores como Malangatana, em defesa da qualidade literária do livro. No entanto, ainda assim, a obra foi recolhida pelo regime e poucos moçambicanos puderam ler a primeira edição (1964).

No mesmo ano em que lança o seu primeiro livro, Luís Bernardo Honwana é preso pela PIDE. Na manhã desse dia, a mãe e a avó do escritor tinham ido ao cemitério pôr flores nas campas dos seus entes queridos. No regresso a casa, Nely Nyaka e a sua mãe Jinita Libombo encontraram as irmãs de Luís Bernardo a chorar. “Elas contaram que os agentes entraram ao mesmo tempo pela frente e pelo quintal, dirigiram-se ao quarto do Luís, deram-lhe voz de prisão, e levaram-no, depois de vasculhar toda a casa, minuciosamente, e de apreender algumas revistas em inglês e vários papéis do Luís”, lembra Nely Nyaka, no seu livro Mahanyela – a vida na periferia da grande cidade.

O episódio da prisão do escritor também foi retratado no livro Memórias, de Raul Bernardo Honwana. “Em 23 de Dezembro de 1964, juntamente com vários outros patriotas moçambicanos da zona de Lourenço Marques, o meu filho Luís foi detido pela PIDE, na nossa casa de Xipamanine, às seis horas da manhã. Mais tarde, disseram-nos que eles eram todos acusados de actividades subversivas de apoio à FRELIMO e contra a soberania de Portugal em Moçambique. Incomunicável durante muito tempo, por vezes dado como desaparecido, por vezes confinado a celas disciplinares, o meu filho sobreviveu. Muitos foram mortos na cadeia naquele tempo”.

Ao nível familiar, a prisão de Luís Bernardo trouxe consequências. Pois, como já trabalhava, ajudava os pais no sustento do lar. Por isso mesmo, os Honwana enfrentaram momentos de dificuldades financeiras do que as habituais. Como resultado disso, a irmã do escritor, Gita Bernardo Honwana Welch, teve de se empregar, ao terminar o 5.° ano do Liceu, para ajudar os pais, continuando os estudos à noite. Ainda assim, a maior aflição financeira deveu-se aos estudos de Fernando Honwana, que, desde 1962, por sugestão do irmão Luís estudava na Swazilândia, no colégio multirracial denominado “Waterford School”.

 Luís Bernardo é que pagava as contas do irmão Fernando, que, em 1986, foi uma das vítimas mortais da queda do avião presidencial em que seguia Samora Machel, em Mbuzine. Com a sua prisão, que durou aproximadamente quatro anos, o escritor não pôde mais continuar a contribuir para a formação do irmão.

No seu livro Memórias, Raul Bernardo Honwana lembra que pensou em retirar o filho do colégio, já que não conseguiria pagar as suas mensalidades. Mas não foi necessário. A ajuda surgiu e, em 1968, Fernando terminou os estudos secundários com distinção. Inclusive, com a ajuda de amigos dos pais, matriculou-se, de seguida, na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de York, em Inglaterra. O irmão de Luís Bernardo terminou o curso em 1971 e em 1972 seguiu para Dar-esSalaam, para se juntar à FRELIMO.

A decisão de Fernando Honwana seguir para Tanzânia revela como a sua família pensava em relação ao futuro de Moçambique. Mesmo trabalhando na administração, Raul Bernardo Honwana não se deixou corromper. Por exemplo, quando o libertou, em 1962, a PIDE pediu-lhe que passasse a ser informante. Inclusive, entregou-lhe um cartão de “colaborador”. Raul Bernardo Honwana não colaborou. Quando, já em casa, mostrou o cartão ao filho Luís, este rasgou-o imediatamente. 

Na prisão, Luís Bernardo ficou preso quase quatro anos. Foi difícil para os Honwana, pois, houve manobras que apontavam para tentativas de assassinato do escritor. No seu Mahanyela, Nely Nyaka lembra: “A nossa prima Leopoldina, que vivia em Marracuene, veio à nossa casa no Xiphamanine. Ela informou-nos de que agentes da PIDE tinham estado em Marracuene a perguntar, pelos bairros, se alguém tinha visto o Luís Bernardo Honwana, um preso que tinha fugido da cadeia. Isto nos convenceu ainda mais de que tinham matado o Luís, porque a PIDE simulava fugas, quando queria fazer desaparecer alguém”.

Graças à intervenção de advogados amigos, como Adrião Rodrigues, Santa Rita, Pereira Leite, Rui Baltazar, Almeida Santos, o caso de Luís Bernardo, José Craveirinha, Malangatana e Rui Nogar ficou badalado até ao nível em que a PIDE teve de os libertar mais tarde.

Quando saiu da prisão, o livro Nós matamos o cão-tinhoso tinha sido banido, mas a independência nacional de Moçambique estava para breve. Com a mudança dos tempos, a obra literária tornar-se-ia uma das mais importantes da literatura moçambicana e africana.  

 

Luís Bernardo Honwana completa, hoje, 80 anos de idade. O escritor nasceu a 12 de Novembro de 1942, no Hospital de Chamanculo, subúrbio da capital moçambicana. A seguir, partilhamos o primeiro de vários artigos que se complementam sobre o percurso de vida em homenagem a um intelectual comprometido com as artes e com a cultura moçambicanas.

 

Ao fim de um ano de namoro, Nely Nyaka e Raul Bernardo Honwana casaram-se. A primeira cerimónia matrimonial realizou-se a 2 de Maio de 1940, no Registo Civil, e, a segunda, dois dias depois, na Igreja Wesleyana. Já o copo de água aconteceu no Centro Associativo dos Negros, hoje Ntsindya, no Bairro Xipamanine, na Cidade de Maputo.

Confirmado o laço matrimonial, os recém-casados foram viver juntos em Moamba (actualmente, um dos distritos de Maputo), onde Raul Bernardo Honwana trabalhava como intérprete na Administração. Nessa altura, Nely Nyaka tinha 19 anos de idade e o esposo 34. Dessa união, resultaram oito filhos, educados para serem mulheres e homens lúcidos. Um desses filhos que cedo compreendeu a lição dos pais foi Ginho, ou seja, Luís Bernardo, que nasceu dois anos depois de se terem casado.
Forte, Ginho/Luís Bernardo nasceu com quatro quilos, num dia bastante chuvoso. O parto aconteceu às duas de 12 de Novembro de 1942, no Hospital do Chamanculo, então subúrbio de Lourenço Marques. Nessa altura, Moçambique ainda era uma colónia portuguesa. Por isso, a liberdade representava o desejo dos moçambicanos que não se podia expressar de forma explícita. Ainda assim, em Moamba, onde os pais viveram juntos durante 27 anos, o menino Luís, à semelhança de todos os seus irmãos , foi ensinado pelos pais a investir na escola. Consequentemente, desde a tenra idade, sempre gostou dos livros.
A língua materna de Ginho foi o ronga. No entanto, à medida que foi crescendo, aprendeu também o português. A uma certa altura, antes de iniciar a escola, os pais passaram a falar com ele e com os irmãos nas duas línguas. Recuando no tempo, Nely Nyaka lembra-se de que, nos anos 40 do século passado, algumas pessoas próximas a criticavam por ensinar e comunicar-se com os filhos em ronga. No entanto, para Nely Nyaka e para Raul Bernardo Honwana, apesar de ser um quadro da administração colonial, não fazia sentido não ensinar aos filhos a língua local, coincidentemente, a língua materna do casal. Nely Nyaka nasceu em Catembe e Raul Bernardo Honwana em Marracuene, nos dois casos, na capital moçambicana. Portanto, o casal sempre foi apologista da preservação da cultura ronga a que pertenciam e nem o facto de serem “assimilados” impediu-lhes de pensar assim. Até porque, se os filhos não soubessem falar o ronga, não teriam como se comunicar com os avôs, que não sabiam falar português.
Em Moamba, Luís Bernardo estudou na Escola Aires de Ornelas até à quarta classe. Depois, porque naquela região de Lourenço Marques não havia nenhuma escola com nível secundário, os pais matricularam-no na então Liceu Salazar (hoje Josina Machel), na cidade de Lourenço Marques. Para chegar a tempo às aulas que iniciavam às 7h, tomava um comboio às 5h30 todos os dias. A seguir às lições, só voltava a casa à noite, no comboio das 18h. Na infância de Ginho, esse foi um período duro, mas necessário.
Por compreender que a rotina dos filhos, que se encontravam sempre entre os melhores alunos, era difícil e que poderia comprometer o aproveitamento escolar, o casal Nely Nyaka e Raul Bernardo Honwana decidiu coloca-los a viver na periferia de Lourenço Marques, na casa do irmão mais velho, Mário, que já era casado. Algum tempo depois, Mário foi, porém, transferido para trabalhar em Chinde, Zambézia. Aí, os filhos em idade escolar foram distribuídos pelas casas de familiares. Do ponto de vista logístico, o cenário era complexo. Como solução, o casal Honwana resolveu comprar um terreno perto do Mercado Xipamanine. Ali construíram uma casa de madeira e zinco, pois a administração colonial impedia a construção de casas de alvenaria nos subúrbios lourenço-marquinos.
No Xipamanine, o terreno foi adquirido em 1962 e, de seguida, a casa de madeira e zinco, tipo 4 e com divisões internas a unitex, foi construída por Matos, irmão de Amaral Matos. No ano seguinte, a família mudou-se para essa casa em virtude de Raul Bernardo Honwana ter sido transferido para a Administração do Concelho de Lourenço Marques.
Ginho teve em quem inspirar-se. O pai, além de intérprete na administração colonial, era um grande leitor e acompanhava, já nos anos 40, 50 e 60, a política internacional, trocava livros com amigos e era assinante de revistas. Pela sua inteligência, Raul Bernardo Honwana era muito respeitado, quer no trabalho, quer noutros sectores sociais. Aliás, naquele contexto discriminatório dos meados do séc. XX, muitos portugueses analfabetos batiam a porta dos Honwana, à noite, para pedir que Raul Bernardo lesse-lhes cartas e/ou escrevesse aos seus familiares em Portugal.
Já a mãe, considerando os 10 filhos que tinham (os dois mais velhos enteados de Nely Nyaka), ajudava a equilibrar as contas da casa com uma machamba e costura. Como boa dona de casa, a Nely Nyaka cabia cuidar do marido e dos filhos.

A propósito de filhos, no seu livro de memórias, intitulado Mahanhela – a vida na periferia da grande cidade, editado pela Marimbique, em 2018, Nely Nyaka faz um retrato sobre cada um. Referindo-se a Ginho, lembra que, quando criança, era um menino teimoso e que dificilmente mudava de ideias. Com o tempo, entretanto, tornou-se um rapaz e um homem calmo, sereno e muito atencioso. Por exemplo, era ele que, muitas vezes, embalava a irmã mais nova, a Gó, a qual, ainda bebé, chorava que se fartava.
Além disso, quando em Maio de 1962 Raul Bernardo Honwana foi preso pela PIDE, sem qualquer acusação, Ginho, apesar de ter apenas 20 anos de idade, soube procurar pelo pai, contactar amigos e, finalmente, conseguir a informação de quando o pai seria liberto, poupando a mãe de ter de percorrer distâncias à procura dele.
Portanto, foi com base nos ensinamentos dos pais e das lições apreendidas na escola que Ginho construiu-se como intelectual incontornável da sociedade moçambicana. Em breve, tornar-se-ia uma referência internacional e o seu nome de registo, Luís Bernardo Honwana, ficaria bem timbrando na memória de muitos povos.

Os artistas plásticos Celestino Mudaulane e João Donato inauguram, às 16 horas da próxima quarta-feira, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo, a exposição Os fluxos de fuga e o chapa de milão.

Na mostra colectiva, os dois artistas plásticos que se têm destacado no cenário da arte contemporânea moçambicana e internacional, segundo a nota de imprensa do Camões, o público terá a oportunidade de encontrar um vasto conjunto de obras inéditas, de desenho e cerâmica.

Os fluxos de fuga e o chapa de milão conta com a participação especial do ensaísta e jornalista José dos Remédios, que, a convite do Centro Cultural Português, elaborou uma reflexão sobre o projecto, a que intitulou Os fluxos e o chapa.

“Sem propor-se a enunciar qualquer verbo que seja, a mostra colectiva Os fluxos de fuga e o chapa de Milão abrevia uma série de preocupações, que, partindo de desassossegos interiores, pluralizam questões universais inerentes à vida e à sua circunstância. Na verdade, Donato e Mudaulane, quais passageiros de um chapa voador, do Xipamanine ou do Anjo Voador, dão forma a universos (im)possíveis, ora em labirintos aparentemente sem saída, ora na capacidade de verem luz à entrada do túnel…”, afirma José dos Remédios.

Segundo avança a nota do Camões, Dividida em diversos núcleos, a exposição integra cerca de 90 peças de cerâmica originais, de João Donato, e 14 desenhos de grande formato, de Celestino Mudaulane, que, em diálogo, vão desafiar o público a percorrer o “trajeto” e a vivenciar a sua própria estória ou alegoria criativa.

A colectiva Os fluxos de fuga e o chapa de Milão é organizada pelo Camões – Centro Cultural Português, conta com o apoio do Millennium Bim, e poderá ser vista gratuitamente, de segunda a sábado, até ao dia 15 de Dezembro.

 

Sobre os artistas:

Celestino Mudaulane nasceu em 1972, em Maputo, Moçambique, onde vive e trabalha. Licenciado em História, pela Universidade Eduardo Mondlane, concluiu o nível médio em Cerâmica, em 1992, na Escola de Artes Visuais, onde é Diretor-adjunto Pedagógico e professor de Cerâmica e Design. É membro fundador do Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique (MOVART) e, atualmente, Presidente do Núcleo de Arte. Desde 1992 que Mudaulane participa em exposições coletivas e realiza apresentações individuais, nomeadamente, na África do Sul, Angola, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América, Ilha Reunião, Itália, Moçambique e Portugal.

João Donato nasceu em Maputo, Moçambique, em 1953. Iniciou o seu trabalho nas artes cerâmicas em 2002, em Brasília, com a mestre ceramista Cecy Sato. Em 2005, foi a Londres, onde estudou sob a tutela de Daphne Carnegy, no City and Islington College, tendo, depois, trabalhado nessa cidade como técnico de cerâmica até 2011. No mesmo ano, regressa a Maputo, onde vive e trabalha. Com uma carreira internacional estabelecida, João Donato tem apresentado o seu trabalho em diversas exposições individuais e coletivas, na África do Sul, Brasil, Moçambique, Portugal, Reino Unido e Suécia.

Museu da Revolução, de João Paulo Borges Coelho; Tornado, de Teresa Noronha; e O livro do homem líquido, de Pedro Pereira Lopes; são as três obras literárias moçambicanas das 10 finalistas do Oceanos – Prémio de Literatura em Língua Portuguesa 2022, no Brasil.

A novidade foi divulgada esta terça-feira, pela organização do concurso literário, Itaú Cultural. Assim, com três obras literárias, Moçambique é o único país africano na final do prestigiado prémio literário. Além de Moçambique, Portugal encontra-se na final com três autores e Brasil com quatro.

Nesta edição do Prémio Oceanos, segundo avança a organização, o conjunto das 10 obras finalistas foi publicado no Brasil, Moçambique e Portugal. Apenas dois livros foram publicados em mais de um país, designadamente, Museu da Revolução (Portugal, Moçambique e Brasil) e Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy (Brasil e Portugal).

Entre as 10 obras literárias finalistas, duas são de contos, uma de crónicas, uma de poesia e seis romances.

Conforme avança a organização de um dos mais importantes prémios em língua portuguesa, o júri inicial elegeu os dois júris subsequentes. Do júri intermédio, que seleccionou as 10 obras finalistas, entre as 65 semifinalistas, destaca-se a professora universitária moçambicana Teresa Manjate, que lecciona na Universidade Eduardo Mondlane. Já nesta fase final, que irá avaliar e escolher os três grandes vencedores, entre os 10 livros, destaca-se o professor universitário moçambicano Artur Minzo, que lecciona na Universidade Pedagógica de Maputo.

O anúncio dos grandes vencedores do Prémio Oceanos irá acontecer, de acordo com a organização, pela primeira vez num país africano de língua português: Moçambiquea. “Uma comitiva do prémio – formada pela gestora cultural e coordenadora do Oceanos, Selma Caetano, a jornalista e curadora Isabel Lucas e o escritor Luís Cardoso, vencedor do Oceanos 2021 – vai a Moçambique para assinar um Memorando de Entendimento com o Ministério da Cultura e Turismo”, lê-se no site do Itaú Cultural, que acrescenta que a 8 e 9 de Dezembro, o Oceanos realizará em Maputo uma programação literária com escritores dos três países finalistas.

Portanto, os grandes vencedores serão conhecidos a 9 de Dezembro, às 18h, num evento a ser transmitido online de Maputo para o mundo inteiro.

Os vencedores serão laureados com: 1º classificado, 120 mil reais (1 440 000 meticais); 2º classificado 80 mil reais (960 000 meticais); e o terceiro classificado, 50 mil (600 000 meticais).

O romance Museu da revolução, de João Paulo Borges Coelho, retrata várias geografias e episódios da História de Moçambique dos últimos 50 anos. O centro da história é a personagem Jei-Jei, que contribui para que o romance seja também rico em inovação literária.

Tornado, de Teresa Noronha, à semelhança de Museu da revolução, reconstrói certos passados de Moçambique. No entanto, tendo como foco narrativo a perspectiva de uma menina que vai crescendo enquanto narra a sua e a história de um território.

O livro do homem líquido, de Pedro Pereira Lopes, constitui uma opção versátil de microcontos, onde se mistura a realidade e a ficção possível de embalar o leitor em momentos de lazer, desconstrução e construção de melhores ideias.

Os outros livros finalistas do Prémio Oceanos 2022 são Líbano, labirinto, de Alexandra Lucas Coelho; Maremoto, de Djaimilia Pereira de Almeida; Quarentena – Uma história de amor, de José Gardeazabal (Portugal); O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk; Quem tá vivo levanta a mão, de Maria Fernanda Elias Maglio, Risque esta palavra, de Ana Martins Marques; e Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy (Brasil).

A terceira edição do Mozkids Talents terminou hoje. Os grandes vencedores do concurso de descoberta de talentos foram Rute e Áquila, na categoria Teatro; Tainara e Naura, na categoria Dança; e Elisa, na categoria Música.

A derradeira gala da terceira edição do concurso de descobertas de talentos, Mozkids Talents, começou de forma original este domingo. A apresentadora Yara da Silva, por alguns instantes, abraçou a música para interpretar um tema da sua autoria, como nunca antes tinha acontecido nesta edição.

A seguir à actuação de Yara da Silva, porque o passado faz parte da história do concurso de descobertas de talentos, alguns concorrentes das edições anteriores foram convidados a partilhar com o público da Arena 3D, na KaTembe, Cidade de Maputo, e com os telespectadores da Stv parte das performances que fizeram sucesso há alguns anos. Esse foi o caso de Ambosi, Melony e Romena Zunguza, que, uma vez mais, pôde interpretar o poema “Se me quiseres conhecer”, um dos que compõem o livro Sangue negro, da autoria da “mãe dos poetas moçambicanos”, Noémia de Sousa.

A condizer com o momento poético proporcionado por Romena Zunguza, a pequena declamadora da terceira edição do concurso, Nayara, também disse poesia, fazendo do verso dito oralmente uma forma de expressar sentimentos.

Além de recitais, na última gala da terceira edição do MozkidsTalents, houve teatro, dança e música. Cada um dos 16 concorrentes finalistas deu o melhor de si, de modo a demonstrar o crescimento registado ao longo das 10 galas desta edição.

Entre os meninos que actuaram na final, esteve InaldaSumburane, que, há três anos, venceu o concurso na categoria de Música. A pequena cantora, agora um pouco mais crescida, actuou, ofereceu brindes a todos os 16 finalistas do concurso e comprometeu-se a patrocinar a gravação de um tema musical com banda ao vencedor da categoria de Música.

Os 16 finalistas receberam, além do brinde de InaldaSumburane, um certificado de participação. Já os prémios dos três primeiros classificados de cada categoria variaram entre três meses de tratamento de cabelo, um ano de curso de dança ou artes marciais, formação em teatro durante um ano, curso de flauta e quite de dança.

Na categoria Teatro, a primeira classificação foi para Rute e Áquila; a segunda posição foi para Leonilde e Ayanda; e a terceira foi para Brisla. Na Dança, Tainara e Naura ficaram em primeiro lugar; Christian ficou em segundo e Tainara Tembe ocupou o terceiro lugar. Por fim, na Música, Elisa foi a grande vencedora; Fátima Langa foi a segunda melhor classificada e Mayra Tembe foi a terceira classificada.

Para os membros do júri, Lenna Bahule, Joaquim Matavel e Memi, a terceira edição de Mozkids Talents foi incrível, porque lhes permitiu testemunhar o crescimento dos concorrentes. Por isso mesmo, a avaliação das 10 galas do concurso é positiva. Segundo disseram, foi uma festa. Já os vencedores confessaram que se sentiram muito emocionados, quase sem palavras.

Marcas do Terrorismo é o nome do filme lançado, na última sexta-feira, na Cidade de Maputo, pelo realizador Elísio Bajone. Trata-se de uma obra cinematográfica que retrata histórias vividas pelas famílias deslocadas de guerra na província de Cabo Delgado.

Os conflitos na zona Norte do país levaram a equipe do realizador Elísio Bajone a trazer em forma de filme a realidade vivida na província de Cabo Delgado.

Para as pessoas que assistiram à média-metragem, é muito corajoso por parte do realizador trazer histórias de famílias vítimas do terrorismo e os traumas vividos pelos deslocados.

“Achei corajoso e particularmente significativo. O filme retrata a realidade daquilo que está a existir no nosso país, e o realizador trouxe-o para podermos reflectir e dar o nosso contributo em relação ao que está a acontecer na província de Cabo Delgado”, disse Andrice Cubane, espectador.

Elísio Bajone explica que, com o filme, procura perceber até que ponto a cultura dos deslocados de guerra está em risco, e conclui que as pessoas viviam de forma desumana.

“Nós percebemos até que ponto viviam em condições desumanas. Por exemplo, na altura, eles viviam numa casa muito pequena. A casa só tem três quartos e viviam lá quarenta pessoas. Havia casais que abdicavam de relações fisiológicas porque não havia espaço para privacidade”, disse Elísio Bajone, realizador.

A pesquisa para a produção do filme foi feita em um ano e as filmagens duraram 15 dias. O lançamento do filme contou com várias individualidades do ramo cinematográfico.

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