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O arco-íris dos sentidos é o título da nova obra literária da autoria de Carlos dos Santos. Embora seja uma história sobre crianças, a obra infanto-juvenil, mais do que outras do autor, é para ser também lida por pais e por professores, na medida em que a história sugere um autêntico projecto pedagógico de ensino inclusivo.

O arco-íris dos sentidos é uma história à volta de uma aventura de uma turma que tem de fazer uso de várias linguagens, que todos os alunos, sem excepção (e não apenas alguns) aprendem na escola, para enfrentarem os obstáculos com que se deparam no decorrer dessa aventura, como a linguagem gestual, braille, línguas locais e até mesmo o Código Morse.

Na nova história de Carlos dos Santos, as crianças, que possuem todas elas diferentes capacidades, são chamadas a protagonizar actividades de igual relevância e complexidade, em igualdade de circunstâncias, demonstrando que em função das capacidades que tem, cada um é fundamental em diferentes situações e que todos somos cegos para muitas coisas.

O arco-íris dos sentidos é uma edição da Alcance Editores, e tem 44 páginas, com ilustrações de Rajau de Carvalho.

Carlos dos Santos, entre outras, é autor de várias outras obras destinadas ao público infanto-juvenil, e tem já a caminho uma nova obra do mesmo género intitulada “O Domador de Medos”.

Por José Paulo Pinto Lobo

 

Desembarco na cidade velha de mais de um século

Tal como uma respeitável idosa senhora

Que apesar dos traços caídos

Ainda conserva resquícios de uma beleza antiga

Sinto-me um alienígena sem passado

Passageiro num comboio de destino desconhecido

 

Circulo pelas ruas a quem furtaram os passeios

Pejados de montinhos barracas e quejandos

Há informais vendedores fugindo de ratoneiros polícias

Alunos fardados cães vadios pedintes e lixeiras

E crianças brincando nas águas estagnadas

Txopelas txovas e chapas se atropelando em alucinadas gincanas

 

No alagável subúrbio barracas de madeira e zinco ou de blocos de cimento sem reboco

As pessoas naufragam em babalazes de cerveja e tontonto

Xilonguine cidade de prédios decrépitos elevadores desconjuntados e escadas malcheirosas

Gradeadas gaiolas para pássaros de olhares vazios que perderam as asas

Ruas esburacadas onde caracolam latas velhas lamborghinis 4×4 e poderosos Mercedes C-180

E luzentes novas vivendas e condomínios belos escritórios e restaurantes finos

Com guardas sonolentos equilibrados em assentos improvisados

À sombra das acácias que ainda resistem teimosamente exibindo suas rubras flores

 

Por entre os destroços de uma guerra invisível

Na irreversibilidade do desconcerto

Uma insistente pergunta martela minha mente

Quando foi como foi

Que nos transformamos nisto?

 

I got to move canta Regina dos Gran’Mah

Afasto a melancolia do passado e aceito o desafio

Danço ao som do seu jovem reggae fusion

Socorro-me dos inconformados escritores

Numa mão Museu da Revolução do João Paulo Borges

Noutra a Literatas do Eduardo Quive

E assim sigo lendo e dançando

I got to move on

 

Por ocasião das comemorações do centenário de nascimento de José Craverinha, a AMOLP realizou concursos literários de Poesia, Redacção e Desenho de Retrato de José Craverinha, envolvendo alunos da 10ª à 12ª classe das escolas públicas e privadas de Maputo, com o objectivo de celebrar a vida e obra do Poeta-Mor de Moçambique.

Segundo avança a AMOLP, em comunicado de imprensa, participaram desta actividade as seguintes Escolas: Secundária da KaTembe; Willow International; Secundária Estrela Vermelha; Secundária Francisco Manyanga; Secundária da Lhanguene; Secundária da Machava Comunitária Franciscana Hospitaleira e Comunitária Sagrada Família.

A Gala de Premiação dos Vencedores aconteceu dia 16 deste mês de Novembro, no Centro de Conferência da Tmcel, em Maputo, e contou com a participação do agrupamento musical dirigido por DManyissa, que cantou poemas de José Craveirinha.

O júri de Redacção composto pelo Professor e Ensaísta Crimildo Bahule, e pelas poetisas Iracema de Sousa e Énia Lipanga, atribuiu o primeiro lugar a Nicole Simone Alves, da Willow International School; o segundo lugar a Catlhe Horácio Foia, da Willow International School e terceiro lugar a Celma Silvestre Urinho, da Escola Secundária da KaTembe.

Na Categoria de Poesia, o júri, composto pelos professores e poetas Nelson Lineu, Leo Cote e Solange Macie, atribuiu o primeiro lugar a Alcirio Endes Langa, da Escola Secundária Francisco Manyanga, segundo lugar a Yolanda Helena Mondlane, da Escola Secundária Francisco Manyanga e o terceiro lugar a Rofina Mapsuangane da Escola Comunitária Sagrada Família.

Na Categoria Desenho de Retrato de Craveirinha, o júri, composto pelos professores de arte Celestino Mudaulane, Carmen Muianga e pelo artista plástico Butcheca, atribuiu o primeiro lugar a Vânia Larissa, da Willow International School, segundo lugar a Jaime José Enginheiro, da Escola Comunitária Franciscana Hospitaleira, e o terceiro lugar a Alliyana Filipe Tembe, da Willow International School.

Como premiação, os alunos receberam material diverso, como tablets; telemóveis; pastas escolares; livros de literatura de autores nacionais, material de desenho, entre outros. A concretização desta actividade foi possível graças ao apoio da Tmcel; Bolsa de Valores de Moçambique; Coca-Cola; Águas de Namaacha; Alcance Editores; Plural Editores; Porto de Maputo e Associação Ilhas da Paz.

Por Rudêncio Morais

Confidenciou-me visivelmente maravilhado e olhar embaciado, o Aurélio Ginja, ao ver caminhar em direcção ao centro da sala que nos acolhia, uma das vozes que veste o âmago existencial da nossa música, prendi o olhar, e nesse instante, cauteloso, fui sentindo o dedilhar experiente e fluido de Xico António, uma espécie de “Karingana wa Karingana” que significa, em português, “era uma vez”, expressão que em língua Xironga dá início a uma história. E foi assim, com esse prelúdio musical em jeito de quem pede licença aos antepassados e a nossa ancestralidade, que a escritora moçambicana Sara Jona, convidou-nos a penetrar com cautela e trato delicado, o corpo da Margem Sul de Moçambique, sua arte e interculturalidade, uma viagem que tem como porta de entrada o agradecimento aos gigantes que fazem o percurso dessa voz que se deixa trajar de peito aberto pela tradição que corporiza o quotidiano das nossas comunidades e a forma como ela, a tradição, se vai transformando com o tempo nesse viajar entre o mundo rural e urbano.

Ouvir Xico António, antes do ritual da escrita de Sara Jona, aflorou o diálogo permanente entre a música e a escrita, permitindo que os textos fluíssem numa sonoridade que, vez por outra, nos convidavam a percorrer, de forma quente, o véu da saudade e a revisitar as noites nas quais a volta da fogueira se nos eram apresentadas as lições aprendidas na escola da vida, antecedidas de um _Karingana_ wa _karingana_ .
O princípio da noite foi verdadeiramente um mergulho sobre a margem sul de Moçambique, e quando o livro se nos foi apresentado, inundou-nos um frio e quente pertencer a esta terra e suas tradições, o trato do “Eu” cultural e a mania nossa de nunca nos esquecermos dos antepassados; diz o Falso Poeta, no _murmurar dos búzios_ e _as miudezas da Alma_ , que os mortos não morreram, eles transformaram-se nos fazedores da nossa paz interior…há muito de paz e de convocação de humanismo até da própria palavra neste trabalho que apalpa, de forma íntima, as entranhas de parte considerável de um país multicultural e linguístico, somos 11 grupos étnicos e com cerca de 25 línguas, para não falar dos dialectos que são mais de três dezenas, que se mesclam no falar das suas tradições e mitos.

Este livro é um arremesso para dentro do que somos antes de tudo resto, um diálogo constante entre as nossas tradições, crenças e transformações que se foram fazendo com o tempo, uma chamada obrigatória para encarrar os nossos medos e repensar os valores que pretendemos emoldurar para o futuro, as picadas da vida que os nossos filhos e netos terão que percorrer sem nunca se esquecerem do aroma dos nossos tempos e de como os seus ancestrais foram ao longo da vida, costurando as suas vivências. É um livro de memórias factuais e adornadas no trato de quem as veste de existência.



O músico e poeta Stewart Sukuma lançou, no Camões Centro Cultural Português em Maputo, a sua primeira obra literária. Na cerimónia de lançamento, o escritor angolano José Eduardo Agualusa considerou que o livro O alfaiate e a arte de costurar o amor lembra a melhor poesia erótica moçambicana. Já, para Mia Couto, a oficina de Stewart destaca-se pela diversidade estética.

Depois de ter sido lançada em Portugal, a obra literária de Stewart Sukuma, O alfaiate e a arte de costurar o amor, foi apresentada no Camões – Centro Cultural Português. Em Maputo, a primeira obra literária de Stewart Sukuma foi apresentada pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa, a quem o livro lembra o melhor da poesia erótica de Moçambique. “O Stewart tem vários poemas eróticos neste livro. Acho que é preciso alguma coragem para escrever dessa forma, mas ele faz isso muito bem”, começou por dizer José Eduardo Agualusa.

Para o escritor angolano, O alfaiate e a arte de costurar o amor reúne poemas que lembram um pouco a melhor poesia erótica moçambicana, em particular a de Eduardo White. E Agualusa disse mais, no Camões, que não se surpreendeu com o facto de Sukuma começar a escrever poesia, porque um cantor lida com a palavra.

Na percepção de Mia Couto, que também esteve na cerimónia de apresentação do livro O alfaiate e a arte de costurar o amor, Stewart Sukuma é, talvez, uma das figuras que mais corresponde àquilo que está no livro, que é o alfaiate, essa pessoa que costura margens e que constrói aquilo que parece impossível, que são pontes entre identidades tão variadas que Moçambique e o mundo têm. “Ele é uma espécie de tradutor de culturas, um homem que viaja entre diferentes culturas, com música, poesia e com o cinema”, lembrou Mia Couto.

O alfaiate e a arte de costurar o amor é um livro singular, escrito em silêncio para todo um povo. O livro, Stewart Sukuma dedica a todos os moçambicanos. “Nós somos alfaiates e temos a responsabilidade de costurar este país. Este país precisa de unir para ultrapassar todas as dificuldades que nós vivemos neste momento”.

O primeiro livro de Stewart Sukuma foi lançado sob a chancela da editora Poesia Impossível.

 

Às 10 horas deste sábado, na Fundação Fernando Leite Couto, será lançado o livro infanto-juvenil A revolta dos instrumentos, de Mia Couto e Manoela Pamplona, ilustrado por Ana Lúcia (Nwtana), e com músicas de TP50.

Segundo avança uma nota de imprensa, a obra é a adaptação de um musical proposto pelo agrupamento TP50. Deste trabalho já resultou um CD, lançado ano passado, com o patrocínio da Couto, Graça & Associados.

O enredo escrito por Mia Couto e Manoela Pamplona narra uma revolta dos instrumentos contra os músicos. Os instrumentos eram velhos e estavam armazenados há muitos anos quando os músicos os foram buscar para formarem uma banda. Volvidas duas semanas de muito ensaio de preparação para um espectáculo, os instrumentos, cansados de tanto serem tocados, e depois deixados descobertos no frio e no escuro, com o agravante de terem descoberto que não aparecem nos cartazes, o que entendem como falta de consideração, indignam-se e começam uma revolta.

A situação divide opiniões entre os instrumentos. Na discussão há alguns que defendem a realização de uma greve contra os músicos e outros que defendiam a submissão, pois essa é a função dos instrumentos.

Na véspera do show, o percussionista escutou o tambor reclamando dos maus-tratos e decidiu estabelecer o diálogo que conduziu à reconciliação por terem entendido que uns não existem sem os outros.

A nota de imprensa da Fundação Fernando Leite Couto adianta que a sessão de lançamento contará com a performance de Letícia Deozina, na voz, Nicolau Cauaneque, no piano, e uma performance das actrizes Sufaida Moiane e Clotilde Guirrugo.

Por Cristiano Matsinhe

 

Sobre o novo livro de Sara Laisse, “Moçambique, margem sul: Arte, interculturalidade e outros textos”, pensei assim:

​​​​“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Bertolt Brecht

Vai longe o tempo em [eu] lia Sara Laisse sem compromisso, sem nenhuma obrigatoriedade, senão a de saborear ou detestar as construções frásicas, apreciar eventuais paradoxos, antíteses e metáforas, claro, sem descurar as conotações e denotações que seus textos, especialmente crónicas, exalam.

Confesso que animava mais deixar-me embalar pelo inebriante perfume que suas letras transbordam. Feliz e infelizmente, tenho a grata, mas também dura tarefa de ler as obras de Sara Laisse com redobrada atenção para não defraudar os potenciais leitores com as minhas desvairadas interpretações e, acima de tudo, certificar-me de fazer justiça a esta profícua autora que vai-se estabelecendo na arte de cronicar.

Resisti a fazer comparações, mesmo com as obras anteriores da autora, não por não existirem (des)continuidades, mas porque acredito que os actos criativos devem, em primeira instância, ser avaliados e julgados por seu próprio mérito, circunstâncias criativas que cercaram a autoria, seu potencial de significação, antes mesmo de serem enquadrados nos historicismos das comparações que podem até tolher a possibilidade de percebermos as transformações (re)criativas por que os autores (sim, autores no masculino e no plural e de forma genérica) passam.

Abdicar deste afastamento epistemológico equivale a sacrificar a oportunidade de estranhar o familiar e, ao assim fazer-se, definhar numa atitude blasé, ler novos textos sem vontade, com uma paralisante sensação de déjà-vu, como se já soubéssemos por que trilhos o autor (no caso autora) irá andar: “É novo livro de quem? De Sara Laisse!? Haaa… já sei o que vai dizer!”.

Não! Não é o caso. Não é possível saber de antemão o que esta autora irá dizer, na sua próxima obra, porque permanece excepcionalmente fiel a si mesma, no compromisso ético e deontológico, como profissional das letras, de não se auto plagiar e nem exaurir a paciência dos leitores com repetições de si, da sua própria escrita, redundâncias ou cacofonias.

Ler Sara Laisse com renovada abertura, sem os preconceitos que tolhem a nossa imaginação, é reabrir a mente para através das suas letras, feitas crónicas, percorrer, por ângulos (in)imaginados, assuntos e temas do cotidiano que até os tomávamos como dados, corriqueiros, mas que são agora re-ilustrados com vívido dinamismo.

Entre as inovações, está a sua capacidade de domesticar a linguagem do campo cibernético e virtual contemporâneo. Quando li, “Performance, expressões, palavras: rituais do acto de contar”, tive uma sensação de imersão no que na linguagem virtual moderna chamam de “memes”, simples figuras videográficas, textos humorísticas ou satíricos que se propagam nas redes sociais à velocidade luz. Com ou sem memes, atenho-me às relações jocosas, descritas neste particular capítulo, por retratar o quão as relações sociais se fundam nas relações jocosas, não necessariamente como forma de denegrir o outro, as outras culturas, mas como artifícios sociais adotados para quebrar gelos, estreitar pontes e enviar mensagens que de outra forma seriam tratadas com pesar, negação ou revolta.

Em cada um dos textos que compõem a obra “Moçambique, margem sul: Arte e interculturalidade e outros textos”, Sara Laisse não se atem a descrever aspectos e/ou práticas sociais não raras vezes tomadas como resquícios culturais; ela investe na compreensão, problematização e re-significação documentada de experiências sociais, amplamente disseminadas e que, assim como no passado, no presente ainda conspiram na estruturação das relações sociais, percepção intercultural, estratificação das hierarquias de poder inter e intra familiar, bem como nas macro e micro tensões constitutivas das relações em sociedade, a nível local e global.

Nessa perspectiva, o que mais fascina na escrita de Sara Laisse neste novo livro, não é só a sua fidelidade aos temas do cotidiano, mas a capacidade de (des) escrevê-los com cristalina simplicidade e objectividade sem, nem por isso, banalizá-los ou destituí-los da sua significante complexidade. Melhor ainda: Sara Laisse reescreve fragmentos culturais e problematiza rotinas e práticas com uma cirúrgica fineza, que só poderia ter sido masterizada por quem, ao enunciar sobre os outros, mantém o compromisso de falar de si próprio, das suas inquietações, (in)conformismos funcionais ou dos absurdos normalizados, sempre no limbo da consciência (“nem tanto mar, nem tanto terra”), daí a exuberante generosidade no trato das coisas.

Nesta obra, Sara Laisse trata os seus leitores e interlocutores como ela própria gostaria de ser tratada e isso é bem reflectido nos textos que retratam a sua própria relação com a sogra (sogaria, sempre deu pano para mangas); no texto que retrata os seus aprendizados na interlocução com os seus estudantes, ou simplesmente, ao falar de um causal encontro com Paulina Chiziane, a bordo dum desses aviões que estreitam pontes entre as margens norte e sul, que até emprestam título ao livro.

Em “Moçambique, margem sul: arte, interculturalidade e outros textos”, não são escassas expressões evocativas, como “minha avó”, “minha sogra”, “minha mãe”, “meu esposo”, “minhas irmãs”, “meus filhos”, ou pronomes classificativos como “cultura bantu”, “entre os bitongas”, “matswas” e por aí vai, ilustrando a inserção, prefiro até dizer imersão da autora no universo referencial capitalizado para fazer suas crónicas. E quando não sabe, pergunta, pesquisa e confronta fontes!

Na sua honestidade intelectual, não obstante o sul, a autora viaja pelo norte do país, assim como do hemisfério, interrogando sobre práticas e experiências culturais, eventuais similaridades e diferenças privilegiado o que nesta obra surge como uma razão de ser, um mote para a escrita: os múltiplos sentidos que a expressão “humanismo” pode significar.

Acho até que a autora apela e abusa em demasia desse conceito, não apenas como um dos possíveis pontos de partida para as suas crónicas, mas como uma aspiração para o devir, uma persistente manifestação de vontade ver, digamos assim, “um mundo melhor”. Os textos sobre o “banco do tempo”; a sua revolta expressa através dos “ombros sedutores” (e aqui com uma belíssima pitada de humor capaz de “seduzir os mortos”); ou ainda no aparentemente obvio “capítulo” sobre “Ubuntu: ser, construir e cuidar a Humanidade, na pressa em que vivemos”; e outros, denunciam o compromisso da autora com o todo, com o bem estar geral, com a redução das inequidades, e com o imperativo de os povos e culturas adaptarem-se aos seus contextos geográficos e ecológicos, não obrigando, por exemplo, e parafraseando a autora, “crianças a vestirem batinas quentes e horrorosas”, em nome da reprodução da procissão ritual do acto de formação escolar.

Com a sutileza que lhe é característica, nesse e em outros textos, a cronista apela à mudança, a um refazer do que mesmo que culturalmente seja considerado enraizado, mas que ao olhos críticos da autora, não passaria de abuso (de autoridade ou de poder, sobretudo entre homens e mulheres) ou simplesmente autossabotagem de melhores performances que os serviços públicos poderiam ter, se não nos ativéssemos a reproduzir mimeticamente discursos e práticas que além dos nos serem alheios são, por si mesmos, irrelevantes, não obstante o impacto e consequências que podem ter na vida das pessoas.

Agora sim, e comparando, nesta obra a autora assume, despudoradamente, uma postura autorreflexiva, que capitaliza das suas próprias vivências e experiências e, disso faz matéria bruta com que se tece esta refinada viagem pelas Margens sul, do hemisfério e da religião, sem perder de vista a necessidade de por à prova os seus próprios conhecimentos, através da evocação de entrevistados e “pesquisados” que, a meu ver … não mudam o curso da narrativa, senão reafirmar e secundar o que das entranhas da autora emana.

É impressionante a forma com que a autora não para de falar de si, e nem por isso transformar esta obra numa enfadonha viagem autobiográfica. Na verdade, apesar de aludir as suas experiências, incluindo suas próprias ignorâncias comportamentais na lide com os diferentes interlocutores das esferas em que transitou e/ou foi socializada, a autora mantém suficiente equidistância narrativa e reflexiva, para que o leitor se aperceba que não se trata de nenhum egocentrismo, senão uma permanente busca por reafirmação, certificação ou negação do que a autora julga saber e já aspirava narrar.

Mais do que uma validação de si… um investimento na cristalização de aspectos prementes das nossas culturas. Em qualquer uma das margens: sul, norte, local ou global) retratadas com apaixonante sensibilidade neste livro, a autora desnuda quaisquer potenciais potes de fermentação de criticismos literários, antropológicos ou linguísticos (não porque não possam ser feitos), mas pela sedutora forma com que as crónicas foram articuladas e fluem.

Despidas de preconceitos, cientes da alteridade, não prescritivas, ciosas e repletas de humanismos, as crónicas de Sara Laisse fluem com refrescante leveza… tratando de temas pessoais, impessoais, dissecados com pitadas da vida da autora, convertendo o abstrato, quase surreal em algo tangível, próximo das nossas próprias experiências. Pessoal e passional.

Assim dito, resta-me acrescentar… arrebatadoramente cativante. Daí, talvez, a insaciável vontade de voltar a ler, quiçá à procura de pontos de discórdia que possa usar como pretexto de interpelação das assunções e pressupostos que a autora escava para avançar as suas crónicas.

Ainda bem que já tenho a minha cópia garantida, porque o belo dos livros não reside apenas na mestria com que os autores os escrevem e dão-nos de empréstimo, mas na nossa capacidade de, como leitores, analistas e críticos, canibalizá-los, digeri-los, fazê-los nossos. Vê-los crescer nas nossas mentes e estantes e, por conta deles, (re)cronicar a vida, poetizar as falas e, como a autora aspira: “humanizar” as vivências.

“Waxiwona ximwanana, xinga phwaliwa nyamuntla”. Nesta obra, Sara Laisse reescreveu o tão célebre rito de nascimento, feito canção. A única diferença é que este livro de criança não tem nada e agrega crónicas de uma autora de elevada maturidade intelectual, exímia em interpor tempos, lugares e culturas.

Estou ficando um habitué nisto (de apresentar as obras de Sara Laisse). Talvez por isso me sinta com a legitimidade de dizer leiam “Moçambique, margem sul: arte, interculturalidade e outros textos”, com a plena certeza de que voltaremos a encontrar-nos em 2026, para apreciarmos qualquer coisa como à montante ou jusante Norte, porque de rios culturais ninguém melhor do que Sara Laisse para falar. Transbordo de alegria e felicito a autora por manter seus rios de crónicas fluindo e, parafraseando a célebre frase, sem deixar que as margens nos oprimam.

Xiwundlhane (nutram, tratem este livro com o carinho que merece).

Khanimabo Sara, wa ka Laisse!

Cristiano Matsinhe
Chidenguele, 14 de Novembro de 2022

 

*Título do editor.

O estilista Nivaldo Thierry lançou, na última sexta-feira, na Cidade de Maputo, uma nova colecção de chinelos NT.

O evento foi uma combinação perfeita de glamour, beleza e requinte. No desfile, foram apresentadas várias peças femininas e masculinas de uma colecção concebida a pensar no verão, com variados tons de azul, verde, vermelho, preto e castanho.

Em comunicado de imprensa, Nivaldo Thierry refere que este momento representa o renascimento da era pós-COVID-19, que foi cercada de incertezas no seio dos moçambicanos e que a colecção pretende ser um reforço ao consumo Made in Mozambique.

O estilista acredita que os chinelos NT não são apenas um modelo de calçado, mas um conjunto de acessório com estilo, conforto e melhor mobilidade. Para o estilista, por um lado, foi oportuno escolher o mês de Novembro para o lançamento da marca, por se tratar do mês do aniversário da criação da marca Nivaldo Thierry, que coincide com o seu aniversário natalício (26 de Novembro).

Por outro lado, Thierry escolheu este período também porque se caminha a passos largos para o fim-de-ano, época festiva, de férias e de viagens. Portanto, o estilista pensou num acessório que combinasse com o verão.

Importa referenciar que, no âmbito da colecção Renasça, na componente de vestuário, a marca Nivaldo Thierry marcou presença no Fashion Without Borders Botswana, em Gaborone, nos dias 14 e 15 de Outubro, onde exibiu mais de 50 distintas peças, transmitindo o conceito original de moda moçambicana. A oportunidade serviu para o estilista Nivaldo Thierry cultivar o espírito de cooperação entre os profissionais africanos do sector da moda.

O 39º Festival de Cinema Francófono de Tubingen, na Alemanha, realizado entre os dias 2 e 9 deste mês, prestou homenagem ao cinema moçambicano, com exibição de oito filmes do realizador Licínio Azevedo.

Segundo uma nota de imprensa, os filmes foram apresentados em salas de cinema de três cidades alemãs: Stuttugart, Rottenburg e Tubingen.

A seleção incluiu das primeiras obras do realizador até a última, o filme “Niguintimo”, adaptado de um conto de Luís Bernardo Honwana, do livro Nós Matamos o Cão Tinhoso.

Além de “Nhinguitimo”, foram exibidos “Comboio de Sal e Açúcar”, “Virgem Margarida”, “Desobediência”, “Hóspedes da Noite”, “A Guerra da Água”, “O Grande Bazar” e “Marracuene”, este último realizado em 1991.

As projeções dos filmes foram sempre seguidas por uma conversa entre o realizador e o público, sobre o cinema nacional e a realidade moçambicana. Foram realizados também debates na Universidade de Tubingen e num Centro Comunitário da cidade.

Tubingen, no Sul da Alemanha, é uma importante cidade histórica, de 90 mil habitantes, sendo que 28 mil são estudantes da Universidade local e 14 mil trabalham na Universidade.

Em Tubingen viveu e morreu Hordelin, o grande poeta alemão dos séculos XVIII e XIX. Ali viveu por uns tempos, no mesmo período, Goethe, outra grande figura alemã.

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