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O País – A verdade como notícia

Blackmoney é o título da exposição fotográfica e multidisciplinar de Mauro Pinto. Inaugurada esta terça-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo, a mostra pretende ser um manifesto a favor do Homem e da Terra.

 No dia do seu aniversário, 6 de Setembro, Mauro Pinto (1974) inaugurou Blackmoney, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo. O exercício artístico, mais do que uma individual fotográfica, na verdade, pretende ser um manifesto de um cidadão que faz parte de um planeta agredido pela vaidade e prepotência.

Partindo do tema combustíveis fósseis e das questões inerentes à sua exploração e utilização, Mauro Pinto propôs-se, através da arte fotográfica, lançar uma plataforma de discussão sobre que tipo de mundo o Homem está a construir. A questão de fundo é: “Até que ponto o nosso desenvolvimento, como seres humanos, passará pela exploração dos combustíveis fósseis?”.

Em parte, Blackmoney vai buscar ao universo dos mineiros toda uma situação dramática que os aflige e reduz na luta pela sobrevivência sempre feita de perigos. “Esta também é uma forma de discutirmos a humanidade, porque estamos a chegar a um nível de desumanidade tremendo. Acho importante começarmos a ter uma conversa mais profunda do que está a acontecer a nível mundial”.

Para o fotógrafo, a humanidade e as mudanças climáticas são assuntos sérios e que merecem uma reflexão sempre pontual.

Em termos de curadoria, Blackmoney é uma exposição multidisciplinar ousada e com níveis altos de produção. Aliás, toda a sala de exposição do Franco-Moçambicano está transformada. Para ver as fotos e todos os artefactos patentes, o visitante, primeiro, tem de usar um capacete igual a dos mineiros, headphones e uma luz específica. Depois, atravessa uma espécie de túnel de acesso e deixa-se mergulhar na escuridão. No interior, igualmente, o visitante tem uma experiência visual e sonora, que o envolve e surpreende, ora experimentado a sensação de estar numa verdadeira mina de carvão mineral, ora aproveitando tocar o carvão mineral trazido de Tete. Sobre isso, Mauro Pinto explicou: “Eu acho que sou uma pessoa que gosta de pensar fora do baralho, além daquilo que eu vejo. Eu quis trazer a experiência de como uma mina funciona. Este é um diálogo com todo o tipo de mina”.

Para a exposição Blackmoney, Mauro Pinto procurou estabelecer um equilíbrio entre a pesquisa e a arte. Nesse sentido, a individual também é informativa à medida que traz muitas questões políticas, culturais e socio-económicas. Em Maputo, a mostra é inaugurada dois anos depois de ter sido exposta em Portugal.

A escritora Paulina Chiziane irá orientar uma palestra sexta-feira, às  12h30, no recinto da Escola Secundária Força do Povo, no Distrito Municipal de KaMavota, em Maputo.

 

O Conselho Municipal de Maputo promove, sexta-feira, a primeira edição da Festa do Livro de KaMavota, no recinto da Escola Secundária Força do Povo, no Distrito Municipal de KaMavota.

Na sessão, os alunos, escritores, editores, actores, jornalistas, estarão reunidos para debater em torno do tema Literatura e Desenvolvimento Sustentável e, prestar tributo a vida e obra dos escritores Luís Bernardo Honwana e José Craveirinha, o homenageado e o patrono da 8ª. edição da Feira do Livro de Maputo, respectivamente.

Assim, de acordo com a organização, Paulina Chiziane vai dar uma palestra sobre a importância da leitura.

No mesmo evento, estarao editoras, livreiros e parceiros que farão a exposição e venda de livros, promoção da leitura e divulgação de obras de escritores moçambicanos, bem como a criação de um espaço infantil, dinamizado pelo Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, Kuvaninga, com sessões do conto. Existirá uma zona de leitura, coordenada pela AMOLP, a BIOFUND e ANAC associam-se a este evento de modo a incentivar a educação ambiental, com oficinas e palestras.

A Festa do Livro, que tem sempre entrada livre, realiza-se nos Distritos Municipais, em Maputo, e é uma iniciativa que a edilidade lançou no ano passado, em KaNyaka, visando promover a leitura e aproximar os livros à comunidade. O tema Literatura e Desenvolvimento Sustentável tem como objectivo trabalhar a subjectividade humana e proporcionar condições de análise do panorama social e pessoal. As histórias, os poemas, o teatro, a música assim como o cinema, exercitam a empatia e lançam um olhar profundo e humano nas questões do dia-a-dia.

Para a organização, a expectativa é de que 15 mil alunos das escolas públicas do Distrito Municipal KaMavota visitem a mostra. Projectos de valorização do livro e incentivo à leitura começaram antes, nas salas de aulas, com actividades tais como, “Rodas de Leitura”, “A Hora do Conto” e “Clube de Leitura”.

A Feira tem como propósito despertar nos alunos o interesse pela leitura e pelas artes através de prática lúdico-pedagógicas e criar oportunidades de promover a circulação do livro e da leitura entre alunos, professores, encarregados de educação, editoras, livrarias e o público no geral. “As festas do livro nasceram a partir da necessidade de o Município levar o livro à escola, aproximar o aluno do escritor e criar espaços de incentivo à leitura. Com a Feira na escola, o aluno tem a oportunidade de ler uma diversidade de livros a sua escolha e abrir os seus horizontes. Isso, sem dúvida, desperta interesse pela leitura”, afirma a Directora de Serviço Municipal de Bibliotecas e Arquivo, Cristina Manguele.

 

Por: Mélio Tinga

 

António Lobo Antunes disse numa entrevista, algo como: é difícil falar sobre os livros. E tinha razão. O livro tem uma estrutura demasiado complexa que, não é possível que faça apenas um caminho. Por isso, esta conversa estará para os desafios de publicar e sobre como sobrevive o livro em meio ao caos. Não pretendo construir um caminho linear, mas partilhar fragmentos e circunstâncias, fotografias esparsas sobre a minha visão acerca do livro.

Estou convencido que existem três formas de dar vida a um livro. A primeira, é a autoria, o trabalho de criação, de escrita, de invenção; a segunda é a leitura, uma espécie de um sopro que dá alma e esqueleto ao livro e um dos gestos mais solidários que conheço; a terceira forma é discutir, falar e partilhar ideias sobre o livro, o que o cobre de carne, tornando-o um animal vivo. Acho que foi iludido nesse pensamento que aceitei este desafio da Casa do Professor.

Enquanto seguia a caminho escutava aleatoriamente uma lista musical, entre as que gosto e as que desconhecia. Três delas chamaram-me especial atenção: “A Beleza Vai Mudar O Mundo”, de Soraia Tavares; “Astronauta”, de Gabriel O Pensador e Lulu Santos; e uma terceira, “La Famba Bicha”, de Jeremias Nguenha.

A primeira – que também nos pode recordar do escritor russo Fiódor Dostoiésvky ao afirmar praticamente nos mesmos termos; “a beleza salvará o mundo” – chamou-me atenção sobre o facto do livro ser, indubitavelmente uma coisa bela, das mais belas coisas criadas pela humanidade. Isso levou-me a pensar sobre como a literatura pode, porventura, salvar o mundo, o que, em parte, recordou-me um belíssimo engenho poético de Luís Carlos Patraquim – “Elegia Carnívora”, no seu livro “Matéria Concentrada”:

porque embrulho de carne nos fazem/ desatado na noite/ uivo de sangue/ entre as sombras de deus, inerte, / no asfalto porque é noite, — e agora/ já não dormimos o sono dos cães —, / nós voltamos, poucos, entre as sombras/ de deus, em Tsalala um nome. / À uma hora da madrugada somos deus/ aos látegos sobre os perfis das casas, / das frontes latejando voos de extenuados/ pássaros e batemos no poema. Abram! / Já não morremos nas mãos brincando/ do menino com dois anos de idade. / Assassinou-se para não ser homem nem deus, / nem perguntas de voos augurando/

metafísicas inúteis na ascensão de domingo, / à uma hora da madrugada.

 Mãe, quero um barco verde com risos/ e um rio dentro dos ossos e um asfalto/ de carne, limpa, sem sombras de deus/ ou a noite na boca, Mãe!

 

Esta mesma ideia (de beleza e salvação do mundo) lembrou-me as “Incontinências do Fogo”, de Andes Chivangue, em “fogo preso”, um livro incisivo e cheio de humanidade, ao escrever:

 

Ainda que fossem vazados os meus dois olhos, / com uma pedra os dentes partidos, / e com uma gazua os genitais decepados/ mistério maravilhoso a vida permaneceria,

 

tão somente para ouvir a tua voz/ ou canto dos pássaros à compita/ nas manhãs chuvosas, que se prometem soalheiras.

 

Ao mesmo tempo, “Astronauta”, de Gabriel O Pensador (com Lulu Santos) e “La Famba Bicha”, de Jeremias Nguenha, traduzem, em parte, o meu estado de questionamento, de dúvidas em relação a vários aspectos que, poderia ligá-lo a um interessante livro de Manuel Alegre, “A Terceira Rosa” cujo excerto partilho logo a seguir:

 

“Padre Júlio era um padre especial, diga-se desde já. Vociferava contra os ricos e transformava cada homilia num inferno de caldeirões e almas a arder. Pregava contra os pecados da carne e do dinheiro, mas almoçava sempre em casas de boa mesa. Era visto de mãos dadas com senhoras devotas. Dizia mal da política e dos políticos, mas era membro do partido único, a União Nacional. Parecia um revolucionário, mas fazia frequentemente o elogio a Mussolini. Era um padre original.

Quando Xavier lhe confessou as dúvidas sobre a existência de Deus, ele respondeu-lhe: E quem é que as não tem?”

 

Estas referências, da música e da literatura são apenas um ponto de partida, mas talvez, também, os pontos principais do que penso, do que acredito, do que me move e de como faço a interpretação do mundo, como autor, como designer e como leitor. Estarão todas opiniões alicerçadas nestes três pilares, que, como podem compreender, muitas vezes será difícil desagregar.

 

LIVROS: CAMINHAR ENTRE OS NÚMEROS

Objectivamente: o caminho do livro passa por olhar (também) para os números. Desta maneira podemos saber como, quando e para onde conduzir as nossas acções. Os números orientam-nos a tomarmos decisões racionais, em direçcão aos problemas reais, na quase recorrente tentativa de resolvê-los.

Temos uma população de cerca de 31.616.078 habitantes. A taxa média de analfabetismo é de cerca de 53.6%, sendo mais elevada nas zonas rurais (65.7%) do que urbanas (30.3%) e mais saliente nas mulheres (68%) do que nos homens (36.7%). Apenas 46.4% da população em Moçambique é alfabetizada, o que equivale a pouco mais de 14 milhões de pessoas.

Outro dado que é interessante quando falamos dos livros tem a ver com as instituições de ensino: mais de 13 mil escolas primárias, perto de 700 escolas secundárias, um total de 53 instituições de ensino superior, entre públicas e privadas. (Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior: mctes.gov.mz)

 

Em 2021 o Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou um documento intitulado “Estatísticas da Cultura”, em que, por exemplo, mostra que em todo país foram publicadas, no total, 453 obras literárias. No mesmo ano, foram registadas 40 livrarias e papelarias, com destaque para Sofala (20), Maputo cidade (14), Nampula (4), Cabo Delgado (2). Foram realizadas cinco feiras nacionais do livro e do disco, totalizando 2.659 visitantes em todo País. As feiras foram realizadas apenas em três províncias: Inhambane (1), Gaza (1) e Maputo Província (3) com destaque para Inhambane com maior número de visitantes (1050).

 

Porquê estes dados são importantes e como eles nos podem servir se quisermos falar de livros? Consideremos algumas situações hipotéticas:

 

  1. Se imaginarmos que as 453 obras publicadas em 2021, cada um delas tenha uma tiragem de 200 exemplares, significa que temos 90.600 livros. Se desses livros a instituição “responsável” comprasse 6/7 exemplares para as escolas primárias e secundárias, quer dizer que estariam esgotados;

 

  1. Se considerarmos que o preço do livro são 500Mt, 7 livros custariam 3 mil e quinhentos meticais, ou seja, cada uma destas escolas, de algum modo poderia contribuir para que isso pudesse acontecer. Da mesma forma que se pensa no polêmico dinheiro do guarda, poderíamos pensar no dinheiro do livro. Se a escola tiver 1.500 alunos e cada um destes contribuir 3 MT, no total teremos 4 mil e quinhentos meticais.

 

Mas isto é, como disse, muito hipotético. Apenas para reflectirmos sobre como os números, de forma simples, podem ser importantes na construção de uma parte do caminho do livro. Com esses dados é possível pensarmos em estratégias concretas, evitando tomar decisões baseadas em preconceitos e no amor que os autores e editores, no nosso contexto, têm pelo livro. Um amor que se desgasta com o tempo.

 

 

LIVROS: AMORES & PRECONCEITOS

Acho que muitas vezes o livro é olhado e falado como se olha e se fala de sexo. Existem experiências que os autores são quase sempre tentados a generalizar, influenciados por suas próprias experiências, ignorando o outro. Algumas dessas ideias encaixotadas que, muitas vezes ouvimos são;

 

a) Até que venha a inspiração…

Há pessoas que acham que escrever à madrugada é uma espécie de coisa mágica, tratando esse facto de forma romântica, quando pode ser claramente explicado pela Psicologia – isso chama-se concentração. À essa ideia associa-se também a inspiração, o aguardar por uma espécie de luz divina que nos vai iluminar. A meu ver isso não é totalmente mau, cada autor tem um método, um caminho, tem o que funciona para si, que pode não funcionar para o outro. Nenhum livro de facto é movido apenas pela inspiração. A produtividade é resultado de disciplina, de rotina.

 

b) Deixa o livro “amadurecer”

Se me perguntassem se o livro precisa “amadurecer”, a minha resposta seria um forte “sim, precisa”. Dependendo da experiência do autor, pode levar mais ou menos tempo. O tempo de distanciamento é útil para que se retorne a ele com um olho ainda mais crítico. Mas isso não significa que todos livros devem incubar por 5 anos para todos. Não podemos levar isto como regra geral.

 

c) Escrever sem ler, é possível, claro!

Uma outra ideia que nós autores mais novos alimentamos, e que, provavelmente herdamos dos outros (alguns), é que podemos escrever sem ler. Pessoalmente, acho um absurdo. Se eu pretendo tocar jazz, é importante que eu escute jazz, se eu quero tocar marrabenta preciso de escutar marrabenta para compreendê-la, para conhecê-la, mesmo que depois não faça daquele modo específico. O processo de leitura a meu ver funciona como um gás necessário para mover a escrita, nos ajuda a ter um panorama geral do que existe e a destruir a ilusão de que estamos a fazer coisas absolutamente novas.

 

d) Basta o meu livro ser bom, será publicado

É mentira! Aqui, mais uma vez provamos que os números importam, com a diferença de que aqui trata-se dos números em dinheiro. Todo editor gostaria de publicar um bom livro, mas muitas vezes não é só um bom livro que funciona no mercado. O livro requere um investimento, e no nosso contexto a maior parte das pequenas editoras vivem sugando um pouco dos seus proprietários.

 

SOBREVIVÊNCIA

Um dos maiores desafios das novas editoras em Moçambique, não é publicar o livro, mas construir um sistema que as permita viver o maior tempo possível, tornando-se consistente. A questão da comunicação, da consistência, é provavelmente das mais importantes, por dois motivos: primeiro, espelha o que é a editora e o que anseia; segundo, é que aqui a ideia de que quem comunica é visto e quem não o faz morre, materializa-se de facto, a edição e publicação são um negócio. Até as igrejas fazem publicidade. Penso que precisamos buscar referências nesse sentido e experimentar coisas: a Coca-Cola é das mais antigas marcas mundiais e mesmo assim continua a fazer publicidade, na televisão, na rádio, nas redes sociais, em outdoors. Precisamos quebrar os preconceitos, se quisermos que as nossas pequenas editoras evoluam e se consolidem. Precisamos de parar de pensar que o livro não pode ser publicitado. Porque, até onde sei, não há lei que proíbe em Moçambique.

 

Se isso implica investimento, implica. Se isso significa contratar pessoas, a resposta é afirmativa. O editor é incapaz de fazer tudo, não pode ser o coordenador, o editor de texto, o revisor de língua, o designer, o gerente de marketing, o estafeta, o comercial. A maturidade das editoras passa também por compreender que uma pessoa, por mais talentosa que seja, não pode fazer tudo.

 

Outro aspecto, na relação autor-editora, é que, por uma questão estratégica as editoras precisam de construir relações de continuidade, em que um autor começa e juntos constroem um plano de publicação do autor nessa editora, durante, por exemplo 5 anos. Isso pode beneficiar os dois lados com o passar dos anos, na medida em que no segundo e terceiro livro, o autor já terá um número de leitores consideráveis, e terá construído um público que poderá beneficiar também outros autores da editora.

 

Precisamos parar de propalar a falsa ideia de que o livro não dá dinheiro. Afirmar simplesmente que livro não dá dinheiro, parece-me incoerente, uma daquelas canções que cantamos sem ter consciência do real significado da letra. Existem editoras simplesmente comerciais, cujo foco é publicação, independentemente da qualidade do livro: o autor paga e a editora publica. É um modelo de sobrevivência. É aquilo que o seu fundador definiu. Outras publicam o que interessa o editor (proprietário), outras procuram publicar livros técnicos e escolares e alimentam os livros de ficção e a poesia, por exemplo. O mercado literário, em todo mundo é feito disto, existem os que passeiam na margem e fazem as suas vidas com isso, existem os que estão no centro do sistema.

 

Para mim, como editores e autores, o nosso trabalho passa por construir um bom produto, porque o livro é um produto, e comunicá-lo bem. Um bom produto passa pelo texto, cuja responsabilidade é do autor e do editor. Um bom produto significa ter um livro atrativo e de boa legibilidade, papel do designer gráfico. Um bom produto significa encontrar uma gráfica que responda ao nível de qualidade do que queremos.

 

Não se justifica que um livro publicado há cinco anos, com 200 exemplares, continue nas livrarias e o autor sinta orgulho disso, desse sinal de um mau trabalho! Também não se justifica que o livro esgote e ninguém se interesse em fazer reedição.

 

Tinha esperança que pudesse ter, até aqui, algumas respostas, mas ao fim disto, continuo a sentir que só tenho perguntas. Um dos maiores pesquisadores da educação e da pedagogia, Jean Piaget, chama a fase dos porquês de período pré-operatório, normalmente acontece por volta dos 3 anos. Eu, estou recorrentemente a regressar a essa fase, apesar da idade:

 

Porquê há mais de 40 anos tínhamos uma publicação com 20 mil exemplares e hoje 1000 cópias levam uma eternidade? Exemplo: Yô Mabalale, de Albino Magaia.

 

Porquê a definição de uma política do livro, de estímulo ao autor, ao editor, não tem um real impacto sobre quem faz livro e fica um assunto dos corredores? Moçambique não pode fazer registo de ISBN porque se quer chega a 25% do número exigido por ano para poder o fazer. Canadá faz esses registos gratuitamente para estimular os autores e editores. O nosso registo de livro no Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas custa 500 MT, temos de ir fazer o pedido no local (poderia ser online), temos de fazer uma declaração, entregar uma cópia de bilhete de identidade e ainda esperar uns dias.

 

Porquê em eventos relacionados a indústria (?) cultural o livro fica sempre lá no fim da fila? Certamente falta sensibilidade, mas também falta uma pressão de quem faz o livro.

 

Por fim…

Penso que o caminho do livro, o sistema literário, não existe. Se o temos trata-se então de uma máquina parada no tempo, cujas engrenagens tonteiam, cujas peças caem na corrosão. O caminho do livro só é possível se todos os seus intervenientes estiverem conscientes do seu papel, do que devem fazer, como devem fazer, para quê devem fazer, com quem devem fazer. Cada um dos elementos desse sistema precisa do outro, o autor, o editor, o leitor, os livreiros, os distribuidores, e, talvez o mais importante e maior elemento de tudo isso, o Estado.

Quase no fim, cito uma frase dita por Lília Momplé, em 2007, no Instituto Superior de Relações Internacionais – ISRI, durante as celebrações do dia do livro e dos direitos do autor: “não há ideia de que Moçambique precisa de livros”.

Nota-se, em Soraia Tavares e em Fiódor Dostoiésvky, não apenas ideias brilhantes, mas a sensação de que a beleza, de facto tem capacidade, é um instrumento de salvação. Mas aqui, “La Famba Bicha”, mostra-nos que é como se “a fila andasse do lado ondes eles estão”. Eles quem?

Chegado aqui, tenho muitas dúvidas de que a beleza, a beleza dos livros, nas condições em que estamos, realmente poderá salvar o mundo.

 

 *Texto adaptado da conversa com o título: O caminho do livro – editoras e autores, de 28 de Julho, na Casa do Professor, em Maputo.

Por: Cri Essencia

 

Depois do fiasco dos livros escolares em Moçambique, tudo leva a crer que há colonos a determinarem como devemos vestir e que penteados usar nas instituições moçambicanas.

Conforme podem ver na amostra fotográfica, o cabelo natural de mulheres negras é proibido no Banco de Moçambique.

Numa era em que o mundo negro reclama e aclama por identidade própria (da qual o cabelo crespo/carapinha faz parte), que dela durante séculos foi obrigado a prescindir perante a hegemonia branca, em África, o continente de onde o negro é oriundo, faz-se um movimento contrário, possivelmente com o objectivo de nos tornar em ilhas caribenhas ou América Latina, onde o negro é praticamente proibido – ponto.

Qual é o projecto em causa? Tornarmo-nos num país de cabelo liso? Quem é que está por detrás deste plano? E por que é que o pessoal do banco não reparou na política por detrás destas restrições?

Lá está, a velha história inconsequente do “qual é o problema?/não tem mal nenhum!” característico da ignorância moçambicana; táctica para se desfazer do desconfortável/transparecer ser-se boa pessoa, e voltar ao normal de um igualmente inconsequente “está tudo bem”.

A culpa é obviamente do sistema de ensino, que não nos ensina o que somos, o que é nosso, o que é susceptível de ameaça externa (incluindo a nossa essência) e por tal, devamos defender com toda a garra, e como devemos proceder à tal defesa. Não aprendemos que o conceito de agressão não se restringe à integridade física de impacto imediato.

Esta política do Banco de Moçambique lembra-me muito a política de branqueamento no Brasil (através da qual, se devia extinguir a raça negra por via da procriação). Sim, entre os anos 1888-1920, foi implementada tal política no Brasil. A marginalização do negro brasileiro até aos nossos dias, é também consequência dessa política. Um outro cenário notável que me vem à cabeça, são os EUA, onde muito recentemente (em Março de 2022) a Câmara dos Representantes aprovou uma lei (H.R.2116 – Creating a Respectful and Open World for Natural Hair Act 2022) que proíbe a discriminação contra o cabelo afro e todos os penteados que os negros tendem a usar, com o seu cabelo natural. A aprovação desta lei era necessária porque nos EUA ainda existiam regulamentos nas escolas e locais de trabalho, pelos quais, o cabelo carapinha era considerado inadequado e não profissional.

No mesmo diapasão, preocupa-me o reality show “Hair Reality Show” que passa na TVM. Não percebendo a necessidade de tal show (entretem e/ou ensina?) só posso alertar à necessidade de se evitar desmerecer o cabelo carapinha (ainda que numa manipulação psicológica – típica de agendas políticas), passando a mensagem de que o cabelo liso é que é bonito e adequado; que não promovam a branquitude, pois seria automaticamente agressão à negritude, tal como o é, o regulamento do Banco de Moçambique, pelo menos no que concerne à vestimenta e cabeleira africana “inadequadas”.

É irónico que o “inadequado” do Banco de Moçambique seja altamente antiético.

É caso para dizer que devemos alargar as áreas de cooperação com o Ruanda, para melhor compreendermos que o negróide não pode ser subjugado no seu continente.

 

 

Por Virgília Ferrão

 

Os laços entre África e Reino Unido são sobejamente conhecidos. Actualmente, o continente e o país mantêm estratégias de cooperação que redefinem diferentes narrativas em várias esferas: arte, cultura e educação. De facto, a relevância das relações internacionais e o papel que cada indivíduo desempenha nessas mesmas relações é inquestionável.

O que pode ser questionável, contudo, é como as complexas singularidades e os contextos de cada povo são interpretados no decurso de diálogos interculturais. Como diz o ditado popular, a verdade está nos olhos de quem a vê. Neste caso, o que é a verdade? As histórias africanas conhecidas no Reino Unido são aquelas com as quais os africanos se identificam? Será que as narrativas representativas do Reino Unido são conhecidas nos países africanos?

Estas questões são reflectidas, de forma instigante, na pesquisa da British Council, por intermédio da M&S Saatchi World Services, para um programa de cinco anos, designado “Novas Narrativas”. A iniciativa visa contribuir para actualizar as narrativas africanas e do Reino Unido, estimulando o diálogo e promovendo colaborações mais benéficas entre os jovens dos dois lugares.

Nesta resenha, pretendo avaliar até que ponto a pesquisa da British Council é eficaz para o programa “Novas Narrativas”. O enfoque particular vai ao que foi designado “os pontos de contacto da narrativa”, que se referem à interacção das fontes e às condições que moldam as narrativas comuns. Foram identificados quatro pontos de contacto da narrativa: 1) directo, 2) ponte, 3) mediático e 4) icónico.

Os pontos de contacto directo referem-se a experiências em que os jovens entram em contacto com pessoas de outros lugares. Já as pontes, por outro lado, são plataformas que envolvem pessoas de ambos os lugares. Exemplos de pontes incluem a Liga de Futebol Inglesa, com muitos jogadores dos países africanos. Os pontos de contacto mediáticos, por sua vez, incluem actores, televisão ou publicidade e representações na midia de um ou outro. Algumas representações são positivas na forma como comunicam o outro o lugar, mas outras apresentam uma imagem mais trivial.

Os pontos de contacto icónicos são interessantes dado que referem-se a indivíduos, lugares ou edifícios que são identificados, quer com o Reino Unido, quer com a África. Exemplos incluem a família real britânica e William Shakespeare (Reino Unido), assim como Nelson Mandela ou o Kilimanjaro (África).

A pesquisa da British Council indica que a narrativa dominante, pela perspectiva dos jovens africanos, é que o Reino Unido encarna uma gama diversificada de valores positivos, sendo visto como líder mundial, em termos académicos ou económicos. Ao mesmo tempo, existe uma preocupação com o racismo e o elitismo.  Na perspectiva dos jovens do Reino Unido, entretanto, o continente africano, como todo, é imaginado de acordo com dois extremos: idealizado pelas visões românticas da natureza e da vida selvagem, ou demonizado pela corrupção e pobreza. As nuances é são mais pesadas do lado africano no campo da imaginação, e mais ausentes do ponto de vista do lado britânico. Certamente, esperava-se muito mais detalhes no envolvimento de um continente com mais de cinquenta países espalhados por três fusos horários e oito regiões geográficas distintas, o que indica um problema.

A pesquisa vai além ao destacar não só os pontos de contacto narrativos mas também as narrativas que os jovens de países africanos e do Reino Unido gostariam que o outro tivesse acesso, bem como que aspectos das narrativas deveriam ser amplificados e/ou evitados. Curiosamente, por um lado, conclui-se que as tropas coloniais latentes e neo-coloniais, a apropriação cultural e a expressão da fragilidade são para ser evitados. Por outro, as vozes influentes e a diversidade africana são aspectos por ampliar. Se isso acontecesse, haveria um impacto positivo nos diálogos entre os povos e no desenvolvimento das nações, especialmente nos países africanos.

Ainda sobre o tema da diversidade, inclusão e pluralismo, sou de opinião que as novas vozes africanas precisam de ser amplificadas e ouvidas, particularmente aquelas que poderíamos considerar a “minoria”, por exemplo, dos países lusófonos. Apesar da barreira linguística, os países da África lusófona desempenham um papel importante, na arte, cultura e educação, moldando estas relações. Estes países são frequentemente deixados para trás em algumas interacções que reforçam os laços dos países africanos e do Reino Unido. Como tal, as iniciativas de tradução de ambos, para que o público inglês do Reino Unido e de África possa ter acesso às criações africanas lusófonas e vice-versa, é crucial. A este respeito, Moçambique é um dos países que tem dado grandes contribuições. Um exemplo, é o trabalho da editora Trinta Zero Nove, reconhecida através do Prémio Excelência em Iniciativa de Tradução Literária na Feira do Livro de Londres em 2021, e do Prémio PEN Translates Award (atribuído à Sandra Tamele e a Jethro Soutar), em 2022, pela tradução para o inglês da obra “Tchanaze, a donzela de Sena”, de Carlos Paradona. As iniciativas de inclusão poderiam também incluir a promoção de oportunidades de intercâmbio cultural e de aprendizagem.

Outro aspecto que pode ser percebido a partir da metodologia empregada pela pesquisa da British Council é referente a ferramentas fundamentais para uma mudança real nas narrativas actuais. Primeiro, a interacção e a escuta de vozes individuais, especialmente dos jovens. Embora seja essencial o papel do Governo e das instituições para orientar o volante, de modo a atingir-se os resultados desejados, deve ser dada atenção às pessoas, como indivíduos, e às suas escolhas. Da mesma forma, o reconhecimento das realidades múltiplas e complexas sobre cada país parece crucial. Compreender, por exemplo, as características boas, más e, sobretudo, as reais sobre cada lugar – sem cair em precipitadas teorias pessimistas ou optimistas sem suporte – é fundamental para a implementação eficaz do programa “Novas Narrativas”.

Ao destacar os pontos que moldam as narrativas comuns, a pesquisa torna óbvia a importância do desmantelamento de estereótipos óbvios. Não se é farinha do mesmo saco. Os hábitos estereotipados permitem-nos golpes que põem em risco as rotinas diárias individuais e as relações mais intrínsecas interinstitucionais. Melhores oportunidades podem ser alcançadas se as pessoas compreenderem melhor as características culturais dos locais onde se inserem. Os jovens africanos e os jovens do Reino Unido podem sentir que os ambientes ou os lugares estão contra eles, quando, na realidade, é apenas uma questão de mistura de génios e de visões do mundo. O destacamento desta particularidade é um excelente diferencial para o sucesso do programa.

Por falar em oportunidades, não se pode ignorar que uma compreensão das narrativas que constroem os países africanos e o Reino Unido conduzirá a uma inclusão social. Este conceito assenta na pró-actividade dos Estados na abordagem das desigualdades, no entanto, é também um conceito complexo porque engloba muitas realidades diferentes. A investigação facilita a compreensão das diferenças.

Como jovem autora de um país africano lusófono, estou feliz por ver esta pesquisa e este programa com potencial para fomentar o diálogo e a cooperação entre o meu continente e o Reino Unido. Neste contexto, as grandes lições a serem retidas são: ao invés de as realidades complexas sobre cada um dos povos e lugares serem temidas, devem servir para um melhor engajamento entre os povos; as vozes que podem moldar as novas narrativas devem ser ampliadas e as suas ideias podem contribuir para diferentes políticas em ambos lugares. É tempo de dizer adeus aos estereótipos e aos preconceitos. Em bom rigor, é tempo de redescobrirmos a verdade pelos olhos de quem está nos países de África e do Reino Unido.

30 de Agosto de 2022

 

 

Por: Lo-Chi

 

Como prelúdio desta abordagem, dizer que o primeiro contacto que tive com o Bento Baloi foi através do livro de crónicas “A arca de não é”. E por princípio, quando leio um livro de um autor que desconheço, tenho como hábito sacrossanto, não ler (antes do conteúdo do livro) sequer o prefácio, menos ainda a sinopse, e em consequência, não sabia do seu percurso literário, e embalado no comum, disse comigo mesmo durante a leitura, este cronista não tarda muito vai escrever um romance. Afinal havia ele começado pelo romance.

E este romance, “No verso da cicatriz”, o segundo da autoria do Bento Baloi, que segue ao livro de crónicas anteriormente referido, o título à partida provocou em mim uma enorme expectativa em relação ao final, posto que cicatriz é uma marca, fruto de uma ferida sarada, cujo verso pressupõe a existência de tecidos normalizados.

O livro é dividido em três capítulos, que o autor entendeu designar por Livros: Livro Primeiro com o título de “A Ferida”, Livro Segundo, cujo título “O Sangue” e o Livro Terceiro, “A Cicatriz”- note-se o princípio lógico das designações. Nele, os personagens narradores principais, (porque há um terceiro fortuito e fruto da imposição do desenvolvimento da história) o Bernardo e a Helena, que se apaixonam, mas por causa de problemas étnicos, as suas venturas acabam em desdita, que conflui e se confunde com a desdita do país. País esse recentemente nascido, que se queria uno e feliz, mas que sobra derrapando, de asneira em asneira, num processo selectivo de exclusão tão profundo, que chocava e choca com uma das palavras de ordem: Unidade.

Livro Primeiro

Este Livro Primeiro explora fundamentalmente as relações entre indivíduos. Nos factos relatados, nota-se uma evidente verosimilhança com a realidade, e o autor já com propósito, julgo, foi buscar os nomes onde as tramas se desenvolvem, à geografia real do país, e onde factos históricos não ficcionados aconteceram, dando-nos consequentemente a entender que elas tiveram como base de criação factos reais. O enredo deste drama, tem como epicentro o povoado de Carico, que fica a trinta quilómetros a norte da vila de Milange, para quem vai em direcção à actual sede do distrito Mulumbo, onde na realidade histórica do país os professantes da religião, Testemunhas de Jeová, foram colocados em campos de concentração. Campos de concentração que tomaram o eufemismo de campos de reeducação, como tantos outros criados, em Niassa e Cabo Delgado e outras províncias, onde por sinal o Bernardo, personagem fictício, acabou passando por alguns famigerados.

E logo nas primeiras páginas do romance, fico encantado com a história de amor destes personagens principais do livro, o Bernardo Muhlanga e a Maria Helena, que tecem uma relação que me levou aos primórdios da minha existência, quando comecei a sentir aquele impulso terno e vital, o qual provoca a inexcedível empatia pelo sexo oposto. É mesmo aí que o autor me seduz, com a definição que dá aquilo que é a consequência final e almejada desse fenómeno: fazer amor. Descrevendo muito criativamente através do seu narrador, diz: “… deixo de sentir o meu próprio corpo que se funde ao dela num ritual solene” para depois fazer essa hierática revelação “Dizem os entendidos que Deus fez os homens e as mulheres. Deixou-os na terra e Ele foi para o céu. Depois convidou-os a fazerem uma visitinha sempre que seus corações dominassem a razão da vida e fosse difícil descortinar onde começa o corpo de um e termina o do outro.” Maravilhosa e terna essa emoção, para se poder adivinhar, num profundo choque emocional, o que por antítese se tece, paulatina e inexoravelmente. Todo um enredo dramático revoltante, que não cessa, de violência, de ódio, de fome, com dois ou três pequeníssimos intervalos, até ao final do livro.

Neste capítulo, no meu entender, o Bento Baloi pretendia mostrar a relação causa e efeito de determinadas atitudes políticas. Um efeito que vai medrando, subtil e sorrateira, a violência, uma violência que acaba sendo descarada e gratuita muitas vezes, fazendo-nos esquecer a causa. Mas uma causa se subtil, não menos violenta e mais evidentemente desestruturante, social e individualmente falando, cujo lema se pode resumir na mínima: ou estás comigo ou estás contra mim. Para justificar a autocracia e os desmandos. Como se a vida fosse monocromática.

No meio de todo este drama sórdido, o autor recorda-nos a natureza boa do homem, ainda que envolto no meio de algozes e de realidades por demais inumanas, a solidariedade impera, materializadas nos personagens, Nelson, Faruk, Patrick Mutarawa, o malawiano, mestre Chilengue, Sofia e muitos outros que eventualmente vão cruzando nos caminhos de Bernardo e Helena.

 

Livro Segundo “ O Sangue”

Se o primeiro capítulo, “A Ferida”, tem um forte pendor para retratar as relações humanas, neste segundo o que se realça é a relação social, muito caracterizado na relação intra-família e inter-famílias, estas estratificadas pelas etnias.

“O Sangue” é como uma peça do puzzle que vem completar e encaixar-se aos factos ficcionados no Livro Primeiro, dando a conhecer os fenómenos acontecidos concomitantemente, com os do Primeiro, mas em outros espaços. Neste, a personagem narradora é a Helena que se apaixonara e mantivera relações íntimas com o narrador do primeiro, Bernardo; e que por questões de etnia, confundidas ou aproveitadas (pelo seu pai, secretário do bairro) com questões ou circunstâncias político-religiosas inventadas; é deportado para Carico. Helena, uma mulher que sai de Maguaza, distrito da Moamba, em busca do seu amado, viajando em meios nunca dantes navegados, para um local desconhecido, Carico, na província centro-norte da Zambézia, sem recursos, nem azimutes, chega e cai no coração de um conflito armado. Não encontra a pessoa amada. Emigra, imigra, sem saber nem consciência. Tem uma relíquia nas mãos, para ela espiritual, para outros, económica, que por causa da mesma, quase lhe foi fatal. Destruída a relíquia a sua protecção física se vai deteriorando, ainda que retornada as suas origens. Este pequeno dado, cria-me a convicção de que, não por mero acaso, o autor nos chama atenção para a realidade e a força das nossas crenças e Deuses (e ele faz questão de pôr em maiúscula, fora dos cânones do português complexado), apelando-nos para autenticidade. Aqui o Bento Baloi releva o papel determinante da mulher que, na sua aparente fragilidade, no seu silêncio expressivo, se impõe e move mundos, montanhas e até fronteiras físicas e emocionais, quando valores mais altos se alevantam.

Muito subtilmente, este capítulo também levanta a questão da exploração dos nossos recursos, simbolizados nos ossos dados à Helena pelo nhamissororo Zondane. A posse de riqueza que desconhecemos, mais que outros conhecem, e em face da nossa ignorância e dos nossos apertos, económicos, financeiros e humanitários, tentam levá-los por “tuta e meia”. E os nossos irmãos, que tendo um olho – “ em terra de cego zarolho é rei” – à força, tentam roubar aos seus irmãos desesperados, e acabam sequer tendo o rédito devido, criando apenas desgraça no seio e conflitos. Esta imagem teve o condão de levar-me a viajar a Montepuez, a Palma, a Olinda, a Pebane, a Larde, a Temane.

 

Livro Terceiro, “A Cicatriz”

Neste capítulo, revelando um profundo labor de pesquisa, é praticamente a saga do Bernardo na sua segunda deportação, da qual por questões que lhe escapam e por necessidade de sobrevivência acaba como guerrilheiro do revoltoso grupo armado. No desenvolvimento das peripécias, o autor, para além de fazer um mapeamento das principais bases da rebelião armada, de norte a sul, passando pelo centro, não se furtando de dar não apenas a localização como a designação verdadeira, também descreve as principais batalhas acontecidas que iam desequilibrando as forças para um e para outro lado da contenda. Uma das quais, bem conhecida, a batalha de Inhaminga que provocou um tremendo volt face no jogo de forças, impondo mudanças nas hostes governamentais; bem como a batalha de Dombe, só para citar algumas. Importa frisar que o interessante é que tudo isso é narrado numa perspectiva diferente e sui generis, já que feita por um guerrilheiro, que era por obrigação circunstancial e contra a filosofia da organização onde forçosamente operava, mas que também era um revoltado contra o sistema oficial que o deportou. Neste capítulo evidencia-se os sistemas em conflito.

Este livro, no seu conjunto, é a história do personagem Bernardo que quase a ser feliz é deportado, e quase a voltar a origem é de novo deportado, acabando entrando num movimento rebelde com o qual não se identificava (aqui a imagem criada pelo autor do arquitecto e do engenheiro) e quando chega a casa nada é como antes. Quando olho para o enredo do Bernardo, pressuponho que foi intenção do autor fazer representar neste personagem, todo uma série de azarados deste pais, que sem querer, é metido em tramas cujos arquitectos e engenheiros (parafraseando o autor) eles desconhecem e fazem deles operários, quando muito mestre-de-obras, de um edifício cheio de mazelas e problemas de concepção, onde eles não querem participar. Estes sistemas opressores e autoritários acabam fazendo das pessoas aquilo que eles não são e nem queriam ser. No reverso da moeda, não obstante toda a sua máquina de controlo e repressão, criam as bases para o florescer da solidariedade dos oprimidos e no instinto natural de defesa e sobrevivência, induzem a criação de redes de subversão: consequência lógica!

Este drama termina precisamente no encontro (que virou encontrão) entre pai (Bernardo) e filho (Bernarduana), num clima de forte suspeição, sem que soubessem quem era quem. Engalfinharam-se numa batalha, onde o filho acaba desmaiado, carregado pelo pai. E são os residentes de Maguaza que acabam revelando a identidade deles, no momento que se anuncia o acordo geral de Paz de Roma.

Acordo que era suposto constituir a cicatriz, (eu divagando no título) cujo verso resguardasse um tecido regenerado, na inserção, na reconciliação e na união. Esse acordo, infelizmente fora da ficção, virou uma crosta, encobrindo uma úlcera social e económica com tecidos purulentos e em putrefacção, a urgir uma raspagem sob o risco de gangrena e suas consequências lógicas.

 

Quelimane, aos 31 de Agosto de 2022

Por: Cristóvão F. Seneta

 

«(…) muito se tem estado a falar de ilegalidade de toda a espécie, sobretudo as praticadas por pessoas que deviam ter como principal obrigação precisamente manter a legalidade e por aqueles, que, valendo-se do peso do dinheiro que têm e das suas ‘costas quentes’, obtêm um estatuto especial, incluindo imunidade. Sempre em prejuízo do cidadão mais honesto e menos protegido» (Muianga, 2022: 47).

 

Quando me chegou às mãos o livro Zeus, quando é cão, de Francisco Muianga, que, hoje, vem a lume pela Editora Fundza, a primeira interrogação que me veio à mente foi a seguinte: quando é que Zeus é cão? É nesta perspectiva que, para tentar dizer algo conciso, mas hermenêuticamente significativo, resolvi fazer esta breve nota de apresentação, a partir dessa inquietação de fundo pragmático e ontológico.

Em princípio, parece-me que a construção do título da obra estabelece uma delicada cartografia do imaginário mitológico, arvorado na remota antiguidade grega, cujo interesse ultrapassa as preocupações de índole histórica e estético-discursiva do autor, ao mobilizar elementos simbólicos sempre incontornavelmente actuais onde emergem os próprios itinerários do homem na busca de sentido que constitui o suporte da sua existência.

É nesta medida que a convocação titular de Zeus, «a mais importante figura mitológica grega, enquanto «Deus dos Deuses» (Muianga, 2022: 16), sugere uma imagem arquetípica da divinização da natureza humana vinculando-se à natureza canina por causa da incapacidade de exercer o seu poder supremo para estabelecer a ordem e a justiça, enquanto condição da dignidade do homem, num mundo cada vez mais desencantado. Por outros termos, a minha leitura conduziu-me ao entendimento de que Zeus é cão, quando a justiça fracassa na punição dos ofensores, deixando, sistematicamente, as vítimas no estado de abandono.

Sob este ponto de vista, o livro Zeus, quando é cão recupera uma imagem-comum no conjunto da literatura e artes moçambicanas, dotando-a de renovados matizes no afunilamento diacrónico e sincrónico da significação do empobrecimento da percepção das carências do ser humano que busca a sua humanidade. Luís Bernardo Honwana, com o seu Nós matámos o cão tinhoso, deu o mote a essa metaforização do cão no discurso narrativo, cuja declinação no discurso poético permitiu outras incursões dos artistas noutros territórios do fazer artístico: na poesia – Sinopse de cães à estrada e poetas à morte, de Deusa d’África –, na música – Cães de raça, de Azagaia –, e, até mesmo, na escrita ensaística – Cinzas de Cão, de Martins Mapera.

Mas, penso que Zeus, quando é cão estabelece uma perfeita harmonia temática com Cães de raça, do rapper Azagaia, uma composição musical que se presta como interlúdio para o tratamento das relações de poder, produzidas no tecido social moçambicano, com base na raça, resultando daí uma bifurcação cultural e identitária em que a maioria é subalternizada, espoliada e desumanizada e, por isso, privada de autodeterminação por uma minoria que se pensa a si mesma como superior.

Esta análise intermediática pode ser atestada, sobretudo, no texto de abertura do livro intitulado julgamento de cães de raça, em que o narrador revela, através do diálogo entre Moisés Nyika, irmão mais novo do «sexagenário Pedro Nyika», morto pelos cães, e o escriba Jonas, que os donos dos cães de raça são «pessoas endinheiradas», como é o caso da personagem-tipo Alvim de Matos, patrão do finado, que exploram os trabalhadores e manipulam as instituições de justiça.

De modo geral, pode-se dizer que Zeus, quando é cão é uma crónica do nosso tempo que se fecha à banalização do mal numa «sociedade hipócrita». Servindo-se de uma linguagem carregada de humor, o escritor transforma a escrita num libelo de denúncia das patologias quotidianas que aniquilam a sociedade moçambicana.

De facto, nos catorze (14) textos, que concorrem para a coesão estrutural e temática da obra, Francisco Muianga retrata situações dramáticas enformadoras da vivência individual e colectiva das personagens que se movimentam nas diferentes coordenadas espaciais e temporais da(s) narrativa(s), como sejam a migração, a impunidade, a corrupção, «o nepotismo e amiguismo»,  a criminalidade, a violência armada, resultante da guerra civil e da actuação da polícia, a decadência dos valores de cuidado e solidariedade, a superstição, a prostituição, a delinquência juvenil, a pobreza.

Neste aspecto, parece-me que, ao eleger o escriba Jonas como uma das personagens protagonistas do enredo, o autor de Zeus, quando é cão desemboca na problematização da função da literatura/imprensa e do escritor/jornalista no contexto contemporâneo. Fazendo jus á sua profissão de jornalista, fica claro que o escriba Jonas é o alter-ego da voz autoral que busca, no exercício da escrita, a verdade dos oprimidos, silenciada pelas narrativas dominantes. Sobressai, daqui, uma positivação da imagem do cão por intermédio da personificação do papel dos jornalistas na sociedade: «[…] Os bons jornalistas farejam» (Muianga, 2022: 30).

Isto é, o jornalista é como um cão e esse instinto canino é um mecanismo que deve estimular a sua curiosidade, por forma a «descobrir o que poderia não estar desvendado», na medida em que «As caixas jornalísticas saem do obscuro, do limpo, do sujo, e do inimaginável ou do inesperado. De ambientes existentes, mas sem valor enquanto encobertos […]» (Muianga, 2022: 30).

Sob este ponto de vista, o livro Zeus, quando é cão entronca, igualmente, num imperativo categórico que, por via de um realismo militante, se é que se pode usar tal expressão, chama a atenção aos novos profissionais do jornalismo imprenso para a importância do trabalho investigativo, tal como o fizera Carlos Cardoso. Porque É proibido algemar as palavras, a investigação jornalística pode permitir relatar a história das vítimas num contexto em que se fala «de uma justiça corrupta», mas também de uma comunicação social camuflada nas linhas editoriais para perpetuar o cinismo dos poderes instalados.

Portanto, e como dizia Tzvetan Todorov, só desta maneira é que o escritor-jornalista pode realizar um exame crítico da nossa identidade colectiva, colocar a felicidade de outrem e a sua própria perfeição acima dos interesses individuais, e envolver-se, por isso mesmo, numa acção moral.

Dito isto, fica o convite para uma leitura mais aprofundada de Zeus, quando é cão, de Francisco Muianga, uma narrativa profundamente leve no manuseio da linguagem longe de uma estética de imitação do mundo, mas igualmente perturbador na observação atenta das vicissitudes que habitam o nosso imaginário social.

Francisco Muianga lançou, na Feira do Livro da Beira, realizada semana passada, na capital de Sofala, o seu livro de estreia, intitulado Zeus, quando é cão.

Publicado pela Editorial Fundza, o romance de Francisco Muianga retrata a história de Jonas, que acontece em dois países: Moçambique e África do Sul. Em geral, o protagonista do romance move a história no sentido em que vai observando e reportando determinados acontecimentos importantes para a trama.

Na verdade, Zeus é o nome de um cão. A partir do animal e, sobretudo, do jornalista Jonas, o escritor pretende retratar aquilo que aconteceu e o que poderia ter acontecido no ofício dos profissionais da comunicação social. “Quero assinalar a actividade jornalística, explorando aquilo que eles sabem, mas não dizem; as suas limitações e o seu atrevimento”, disse o escritor.

Ao longo do processo criativo de Muianga foram determinantes dois acontecimentos. Primeiro, o assassínio de um juiz. Segundo, a morte de um cidadão, causada pela mordida de um cão. Ao notar que ambos os casos terminaram sem que a justiça fosse feita, Muianga decidiu ficciona-los. Portanto, o romance inspira-se na realidade moçambicana, mas não o escreve como facto real. Zeus, quando é cão ficou concluído em um ano, pois o processo criativo do autor varia entre as crónicas, os contos e artigos de opinião.

Em geral, afirmou o professor universitário Cristovão Seneta, que apresentou o livro, “Pode-se dizer que Zeus, quando é cão é uma crónica do nosso tempo que se fecha à banalização do mal numa «sociedade hipócrita». Servindo-se de uma linguagem carregada de humor, o escritor transforma a escrita num libelo de denúncia das patologias quotidianas que aniquilam a sociedade moçambicana”. Acrescenta Seneta: “Francisco Muianga retrata situações dramáticas enformadoras da vivência individual e colectiva das personagens que se movimentam nas diferentes coordenadas espaciais e temporais da(s) narrativa(s), como sejam a migração, a impunidade, a corrupção, «o nepotismo e amiguismo»,  a criminalidade, a violência armada, resultante da guerra civil e da actuação da polícia, a decadência dos valores de cuidado e solidariedade, a superstição, a prostituição, a delinquência juvenil, a pobreza”.

O romance de Muianga foi lançado na Feira do Livro da Beira, que contou com a presença da Secretária do Estado de Sofala, Stela Zeca, e da escritora Paulina Chiziane.

Francisco Armando Muianga nasceu a 9 de Fevereiro de 1959, no Bairro de Chamanculo, Cidade de Maputo, onde fez estudos primários e secundários. Cursou Mecânica, na especialidade de Torno e Fresa, na Escola Industrial 1º de Maio, de 1979 a 1981. É jornalista de profissão desde 1982, tendo ingressado no Diário de Moçambique, a partir da delegação de Maputo, naquele mesmo ano. Em 1983, foi transferido para a Cidade da Beira, sua actual residência. Entre 1986 e 1988, esteve baseado na Cidade de Chimoio, em Manica, também ao serviço do Diário de Moçambique. O autor concluiu o curso de Ensino de História e Filosofia na então delegação da Universidade Pedagógica da Beira, hoje Universidade Licungo.

No dia 6 deste mês, 17h30, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo,  a Editorial Fundza irá lançar os livros As máscaras da verdade, de Almeida Cumbane, e Água, uma colectânea de crónicas que reúne textos de 19 autores.

As máscaras da verdade foi editado pela Editorial Fundza na sequência de uma chamada literária aberta no início do ano. O livro, essencialmente, procura promover uma reflexão sobre aquilo que, por vezes, parece óbvio. Trata-se de um romance que mescla aspectos filosóficos, morais e éticos.

Segndo a Fundza, a história do terceiro livro de Almeida Cumbane passa-se nas três províncias do Sul de Moçambique, com destaque para Maputo, onde o autor nasceu. Ao lerem a história, Cumbane gostaria que os leitores captassem a ideia de que nem tudo o que parece é.

Com o romance As máscaras da verdade, Almeida Cumbane estreia-se como autor da Editorial Fundza. “Num contexto em que a maior parte das editoras literárias são de Maputo, a Fundza mostra pujança e que ainda vai crescer”, disse o autor.

Cumbane também é autor de “Ilusão à primeira vista” (romance, Prémio Literário TDM – 2016) e de “A distante proximidade” (contos e crónicas). Também é autor de peças teatrais e guiões de radionovelas. Tendo-se licenciado em Filosofia, mestrado em Ciências de Educação, actualmente, é docente no Instituto Superior Politécnico de Gaza.

Em relação à Água, é uma obra literária que resulta do concurso de crónicas, lançado ano passado e organizado pela Associação Kulemba, no âmbito da Feira do Livro da Beira (FLIB 2021). Ao instituir-se o concurso de crónicas sobre água, a Kulemba pretendeu activar nos estudantes universitários a capacidade de participarem no debate sobre as mudanças climáticas através da arte literária. Assim, 19 autores foram seleccionados para a antologia cujas histórias roçam, grosso modo, a ironia, o burlesco e o absurdo. Entre os autores, encontram-se Adelino Albano Luís (primeiro classificado do concurso de crónicas), Fernando Cambedza (segundo classificado), Arlindo José Cossa (terceiro classificado), Luís Nhazilo, Joaquim Oliveira, Iralinda Pelembe, Célia Simango e Elsa Sande.

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