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O País – A verdade como notícia

Pessoas com deficiência estiveram em perigo, no último sábado, em Quelimane, durante a corrida de inclusão desportiva, por falta de protecção policial. A edilidade até pediu cobertura da Polícia, porém debalde.

Realizou-se, no passado sábado, em Quelimane, uma corrida de inclusão desportiva. O percurso feito foi de 1,5 quilómetros, partindo da Avenida Heróis de Libertação Nacional, uma das mais movimentadas da cidade.

No dia da competição, os participantes, no caso pessoas que se deslocam em cadeira de rodas, reclamaram da ausência da Polícia, sobretudo nos entroncamentos, para evitar acidentes.

Para se pronunciar sobre o assunto, contactámos o Conselho Autárquico de Quelimane, que disse ter submetido um expediente ao Comando Provincial, a solicitar o policiamento.

“Como é do vosso conhecimento, a cidade de Quelimane foi distinguida pela Access Europe como Cidade Africana do Desporto 2024. Na execução das actividades atinentes a esta elevada distinção que nos honra e que nos enche de orgulho, irá realizar-se a Corrida de Inclusão Desportiva a partir do Jardim dos Namorados, no próximo sábado, dia 27 de Janeiro de 2024, às 06h00. Por incumbência do Excelentíssimo Senhor Presidente do Conselho Municipal de Quelimane, Professor Doutor Manuel António A. Lopes de Araújo, o Gabinete supracitado vem, através desta, comunicar e pedir apoio ao Comando da PRM em Quelimane para que se digne destacar alguns agentes da Polícia a fazerem-se presente para protecção e segurança dos cidadãos que irão acorrer ao evento. Desde já, permitam-nos endereçar as nossas calorosas e fraternais saudações”, refere a comunicação, datada de 25 de Janeiro.

A carta foi recebida e devidamente assinada e carimbada pelo Comando Provincial da Zambézia.

Quando procurámos obter explicações da instituição, o chefe da secção das Relações Públicas, Miguel Caetano, disse que ia inteirar-se do assunto e depois nos daria melhores esclarecimentos.

Um motorista de um camião, que transportava fertilizante, foi assassinado pelo seu amigo que depois fez-se passar por proprietário do veículo  e foi vender a mercadoria no distrito de Nhamatanda por 500 mil meticais. Os intermediários e o comprador foram  detidos.

No passado dia 22 do presente mês, um indivíduo apoderou-se de um camião que era conduzido por um amigo, que  transportava fertilizante, no distrito de Dondo, província de Sofala, matou o motorista e  abandonou o corpo há cerca de 20 quilómetros, na zona de Mutua, nas margens do rio Púngué. 

O suposto autor do crime contactou dois amigos e levaram o veículo até ao município de Nhamatanda, há cerca de 70 quilómetros do local onde ocorreu o crime, e venderam o fertilizante por 500 mil meticais.  

O camião foi abandonado próximo do local  onde estava o corpo do motorista. No dia seguinte, o proprietário do veículo que não conseguia falar com o motorista, deslocou-se ao local onde estava o camião, com ajuda do GPRS, na mesma altura em que o corpo foi achado pela comunidade local. 

A investigação do SERNIC levou à detenção de quatro indivíduos, um deles é o comprador.  

Para a polícia, o amigo do motorista, que se recusou a  falar, foi quem matou o finado,  roubou o camião e convidou dois comparsas fazendo-se passar por proprietário da mercadoria. 

O SERNIC não tem dúvidas de que o suposto líder do grupo é que orquestrou o crime. Os outros detidos disseram que não sabiam que o camião era roubado e que o motorista foi assassinado.

O camião partiu da Beira e tinha como destino a cidade de Chimoio. 

Os Estados Unidos da América anunciaram, hoje, que vão mobilizar 21 milhões de dólares de investimento privado para os sectores da água e saneamento no país.

De acordo com informação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), responsável por distribuir a ajuda externa do Governo norte-americano, Moçambique integra o programa quinquenal de País de Alta Prioridade, lançado na segunda-feira como parte da Estratégia Global para a Água.

Segundo escreve a Lusa, este programa governamental foi lançado durante a visita que a administradora-adjunta da USAID, Isobel Coleman, está a realizar a Moçambique e que termina hoje.

A USAID sublinha que as necessidades de segurança no acesso à água, saneamento e higiene em Moçambique são significativas e que só em 2022 estimou-se que apenas 63% dos moçambicanos tinham acesso a serviços básicos de água.

Os EUA consideram que esta estratégia assinala uma nova era de colaboração e progresso e que o apoio à água, ao saneamento e à higiene é a componente crítica da assistência “mais ampla do governo dos EUA em Moçambique”.

Formou-se, a nordeste da Ilha de Madagáscar, na bacia do sudoeste do Oceano Índico, um novo sistema de baixa pressão atmosférica. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, o fenómeno tem potencial para evoluir para Tempestade Tropical Severa amanhã.

O INAM avisa, entretanto, que o sistema não constitui perigo para o canal de Moçambique, bem como a parte continental do nosso país.

O INAM diz estar a monitorar a evolução do referido sistema.

O ministro dos Transportes e Comunicações fez esta analogia para assumir que as Linhas Aéreas de Moçambique têm problemas, mas que era melhor recuperar a companhia do que deixá-la morrer.  Mateus Magala reagia aos últimos incidentes da LAM.

O ministro dos Transportes e Comunicações reagiu, esta segunda-feira, sobre os frequentes problemas de avarias nas aeronaves operadas pelas Linhas Aéreas de Moçambique, atrasos e remarcação de voos. 

Mateus Magala começa por assumir que as LAM têm problemas e nunca se tinha dito que estava tudo bem. “Nós nunca em nenhum momento tivemos a ilusão de que a nossa companhia está doente. Nunca tivemos isso, mas ou abandonamos o doente ou tratamos o doente.”, deu a mão à palmatória, o ministro dos Transportes e Comunicações, Mateus Magala. 

E, por isso, fundamenta o governante “nós escolhemos sempre pela parte do optimismo e penso que o optimismo é que deve ser a regra geral do nosso povo. Viemos de muitas diversidades e muitos desafios, mas sem optimismo não podemos realizar o nosso potencial. Temos que ter crença em nós”.  

Sobre as avarias constantes nos aviões da companhia, Mateus Magala disse que a solução ideal seria a renovação da frota, mas não há dinheiro para a aquisição daqueles aparelhos.

“Se tivéssemos as condições financeiras, que um dia esperamos ter, podíamos renovar a frota e equipar mais os nossos serviços. Temos mais quadros qualificados. Portanto, não importa ter dinheiro, as infra-estruturas se a capacidade humana fica aquém da modernização. São factores que temos que conjugar. Nós vamos aprender. Nós somos resilientes”, disse Mateus Magala. 

Em relação ao voo Maputo-Lisboa e vice-versa, Magala explica que as LAM ainda estão na fase de readaptação. 

“Pensamos, também, que há desafios, ainda há-de haver mais que vão acontecer porque é uma experiência nova depois de 10 anos sem nós voarmos. Não temos pilotos que saibam pilotar o Boeing 777. Então, estamos no processo de dar oportunidade para eles irem aprender porque a aviação é ciência, não é curiosidade. Curiosidade é importante, mas a ciência é fundamental”, revelou o ministro dos Transportes e Comunicações, acrescentando que eles, os pilotos, estão a aprender e são necessários seis meses para “adaptarem-se à nova máquina e aí vamos ter uma tripulação moçambicana”.  

Ainda sobre o regresso das LAM ao espaço aérea europeu, Magala disse mais: “esperamos, em breve, termos o avião pintado com as nossas cores, mas pintar um avião com as nossas cores, também requer custos financeiros e temos que mobilizar”.

Mais uma vez, os professores saíram à rua, na Cidade de Maputo, para exigir melhores condições de trabalho. Trata-se de professores do ensino primário, secundário e  técnico-profissional. 

No topo das reivindicações dos profissionais está o pagamento do subsídio de horas extras, que o Governo garantiu já estar a pagar.

Reagindo ao braço de ferro entre a classe e o Governo, o Movimento Educação para Todos disse que a marcha desta segunda-feira revela falta de uma comunicação “eficaz” entre as partes.

Falando no programa Noite Informativa desta segunda-feira, Abel  das Neves afirmou, ainda, que o posicionamento do Ministério da Educação sobre a existência de horas extras indevidas e “duvidoso”, porque “se as horas são indevidas, que apresente as horas devidas, porque não pode dizer que algo está errado, sem apresentar o correcto”.

Abel  das Neves considera ser perigoso que o ano lectivo 2024 comece com insatisfações por parte dos profissionais e que, caso os professores cumpram com as ameaças, os efeitos serão devastadores para os alunos.

“Devia haver uma comunicação mais clara, porque estes professores já fizeram isso várias vezes, já submeteram vários cadernos reivindicativos, já houve sentadas com o próprio Ministério da Educação, mas o que eles estão a reclamar e que todas as promessas feitas não estão a ser cumpridas”, disse. 

Há erros no livro da História da 10a classe sobre a biografia do antigo Presidente da República. O Ministério da Educação diz que o manual foi descontinuado e houve orientação para a sua retirada de circulação. Entretanto, O País apurou que o livro continua a ser vendido nas livrarias.

Quando ainda estão a ser investigados os autores dos livros da sexta classe, mais um escândalo na qualidade dos manuais. Desta vez, no livro de História da 10.a classe.

A informação distorcida é a respeito da data de nascimento do antigo Presidente da República, Joaquim Chissano. O manual apresenta a informação de que “Joaquim Chissano nasceu em Malehice (província de Gaza), a 22 de Outubro de 1969”, o que não constitui verdade, pois o antigo Estadista nasceu em 1939 e tem, actualmente, 84 anos.

A seguir narra que Chissano “Fez os estudos secundários no Liceu Salazar (actual Escola Secundária Josina Machel). Aderiu ao Núcleo dos Estudantes Secundários de Moçambique (NESAM) em 1953, tendo chegado a ser presidente”.

Isto equivale a dizer que Chissano chegou ao cargo antes mesmo de nascer, já que, segundo o livro, só veio ao mundo em 1969.

Na mesma sequência, pode-se questionar como se terá tornado Primeiro-Ministro do Governo de transição aos cinco anos de idade, já que  assumiu o cargo em 1974, quando o livro diz que nasceu em 1969.

No mesmo texto, está escrito que “Foi secretário do Departamento de Segurança da FRELIMO, após a reunião do Comité Central, em Abril de 1969…” o que é curioso, porque 1969 é o suposto ano de nascimento.

Contactado pela jornal O País, o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano alega que o referido manual foi descontinuado em 2022 e que, na mesma data, foi emitida uma nota para a sua retirada de circulação.

“Constatámos, nessa altura, estou a falar de 2022, este erro da data de nascimento de Joaquim Alberto Chissano. Foi feito um relatório e a medida que o Ministério de Educação tomou, não só para este mas também para todos os que tinham erros, foi de descontinuar o livro”, disse  Silvestre Dava.

Segundo o porta-voz do MINEDH, o sistema de educação dispõe de livros de outras editoras, nos quais o mesmo conteúdo não apresenta o erro supracitado.

“Uma vez descontinuados este livro de História da 10.a classe, vamos usar o livro de outras editoras.”

A STV constatou que o livro continua a ser vendido nas livrarias. Entretanto, Silvestre Dava diz que não cabe ao MINEDH retirar o manual das prateleiras.

“A atitude do Ministério da Educação nesses casos não é ir às prateleiras onde o livro está à venda; é emitir um comunicado dando conta dos manuais autorizados a circular. Portanto, todos os comerciantes que têm este livro, sabendo que está descontinuado, não têm o porquê o colocar nas prateleiras.”

Recorde-se que, em 2022, foram despoletados erros graves no livro  “O Nosso Continente”, da 6.a classe, no qual se dizia, por exemplo, que a África Austral é composta apenas por cinco países, nomeadamente África do Sul, Botswana, eSwatini e Lesotho, eexcluindo Moçambique dessa lista. O livro também colocava Moçambique na África Oriental.

Os relatórios sobre a pobreza estão cheios de números que mostram que a miséria está a aumentar em Moçambique. O que esses documentos não mostram, são os rostos e as vivências pessoais por detrás desses números. Mas esta reportagem traz!

Um documento do Ministério da Economia e Finanças relata que a desigualdade social aumentou de 2015 para 2020. Usando o método Gini, explica-se que se saiu de 0,47 para 0,51. Este método diz que a desigualdade total é registada quando o índice de pobreza mostra 1 e o equilíbro quando é zero. Dito de outra forma, os ricos estão mais ricos e os pobres, mais pobres.

Por falar em pobres, falemos de Rita Amade, uma senhora de 50 anos de idade, residente nos arredores da cidade da Matola. Ela acorda todos dias com a incerteza sobre tudo.

Ainda assim, pela manhã, ela lava a louça sem saber qual vai ser a próxima vez que vai voltar a sujar. Vive uma vida que ela considera “difícil, está tudo difícil.”

Quando diz tudo, é tudo mesmo. Comecemos pela habitação: este é um assunto que a preocupa muito. Ao acordar, Rita tem de olhar para o céu para saber como será o dia e, antes de se deitar, olha de novo para saber se será uma noite de sono ou de esquivar-se da água chuva.

“Quando vejo que há nuvens, o meu coração dói porque, nessas circunstâncias, nesta casa, não se dorme, passamos a noite em pé”, anota a senhora enquanto ajeita a louça no interior da casa.

Mesmo quando não chove, Rita não sossega, nem teria como. A casa é pequena para quatro pessoas. Vivem ela, o marido, a sua filha, de 14 anos, e uma irmã.

“Partilhamos tudo. A minha irmã dorme nesta caminha, enquanto eu, o meu marido e a nossa filha dormimos na mesma cama”, revelou.

A família de Rita faz parte dos 30% da população que o Ministério da Economia e Finanças diz que vive em casas sem revestimento no piso. Já o Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF 2022) diz que Rita faz parte de cerca de 2,4 milhões de moçambicanos cujas casas têm paredes de caniço, bambu ou palmeiras.

O caso da família de Rita acaba por ser um fracasso para o seu chefe,  Pereira Sebastião, de 55 anos de idade. Pereira até perdeu a capacidade de sorrir porque a felicidade é um termo que se substituiu por preocupação no vocabulário do chefe de família.

“Trabalho, mas parece que não trabalho”.

O que parece incomodar mais é que, a partir da sua casa, observa aqueles cuja vida parece estar a andar melhor do que a dele. São

as pessoas que passam pela estrada de carro.

“Gostaria de ser como eles que passam num belo carro ou numa motorizada”, manifesta-se enquanto segura na sua cintura e observa a estrada.

Não, não é um discurso de quem tem inveja dos outros, é de quem sente na pele as desigualdades que o Ministério da Economia reconhece que só aumentaram de 2015 para 2020. “Sinto que a diferença entre mim e eles só aumenta. Quando vejo a minha idade, sinto que sou capaz de acabar assim”.

O IOF 2022 não tem dados que contrarie o nível de desigualdade. Segundo o documento, os 10% mais pobres de Moçambique são responsáveis apenas por 0,9% dos gastos do país, enquanto os 10% mais ricos consomem 43,1% da riqueza nacional.

 

TRABALHAR PARA COMER E APANHAR CHAPA

O IOF 2022 tem dados sobre com que cada um gasta o pouco que tem. Em geral, 38% da renda dos moçambicanos é gasta em alimentação e bebidas não alcoólicas. Se separarmos os números, vemos que os que vivem nas cidades gastam menos (27%) do que os que estão nas zonas rurais (49%).

Paito Sumail sabe bem do que é que estamos a falar. A vida já é, para ele, difícil, mas há o que toma a dianteira. “O mais difícil são as despesas”. É que Paito é a única fonte de renda fixa e que deve sustentar o seu irmão e sua cunhada.

“Eu gasto tudo o que ganho com rancho e quase nunca resta dinheiro de chapa. Às vezes, tenho de sair da zona de Trevo, minha casa, para Alto-Maé a pé por não ter dinheiro de transporte”.

Mesmo assim, não há garantias de uma alimentação constante. Por exemplo, sobre a última refeição, “foi ontem às 10h e não sei a que horas vamos comer hoje”, revela.

É uma incerteza de todos os dias. A única coisa que garante é que sempre há pelo menos uma refeição. Isso quer dizer que faz parte do grupo dos 11,7% dos cidadãos que têm apenas uma refeição por dia, contra 0,9 por cento que não têm nenhuma, 57,5 que têm duas e 30,1% com três ou mais, ou seja, apenas cerca de nove milhões de moçambicanos têm três refeições, isso de acordo com o IOF de 2022.

Ainda assim, a crença na educação acaba por ser um único sinal de luz no fundo do túnel. Silvinho, por exemplo, procura não fazer parte dos actuais 38,3% dos moçambicanos analfabetos e começa a exercitar mesmo que não tenha chegado à sua idade escolar.

Para todos os efeitos, o Ministério da Economia e Finanças não olha para estes problemas com agrado. Por isso, desenhou a proposta de Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2024-2043. São, no total, 13 metas. Mas destacamos quatro, que respondem aos problemas apresentados nesta reportagem: (i) reduzir a taxa de analfabetismo de 38,3% para 19,3%; (ii) reduzir a proporção da população que vive abaixo da linha de pobreza nacional de 68,2% para 27,9%; (iii) reduzir o índice de desigualdade de cinco para três e (iv) melhorar a capacidade de previsão e resposta a eventos extremos (cheias, secas, etc.) de cinco para dois dias.
É possível chegar em 20 anos? As respostas virão sempre do tempo.

Em 2008, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou Moçambique livre da lepra. O parâmetro usado, na altura, foi de ocorrência de menos de um caso em cada 100 mil habitantes. 16 anos depois, quase todas as acções de luta contra a lepra foram relegados para o terceiro plano. Os casos que estavam ainda activos foram negligenciados e o país volta a estar a braços com a lepra. Só em 2021, foram diagnosticados 3135 novos casos.

Não é preciso andar muito. Basta sair da cidade de Nampula pela estrada Nacional N.°1 (em direcção à Zambézia) para encontrar o posto administrativo de Namaíta, no distrito de Rapale, a menos de 50 km da cidade de Nampula. O local é representativo em todos os sentidos: o distrito faz parte de um total de cinco que registam maior número de casos de lepra na província de Nampula, e Namaíta é um dos pontos onde funcionou uma das gafarias – nome que designa o local onde eram concentrados e tratados os leprosos.

Seguimos com um propósito concreto. Depois de uma viagem de menos de uma hora, encontramos um pequeno “comité de recepção” composto por idosos. Através de cânticos e danças, expressam o seu sentimento… é o chamado “grupo de autocuidado” que se reúne regulamente num local concreto para cuidar da sua saúde. No grupo, há homens e mulheres de diferentes idades, mas com algo em comum: alguma parte do corpo tem deformidade por causa da lepra.

Amisse Mopiha é um dos activistas e é membro do grupo. Explica-nos o que justifica a ocorrência de muitos casos de lepra naquele local: há muitos casos de lepra porque Namaíta, antes desse nome, era chamado de gafaria, porque traziam casos de lepra de outras províncias, assim como de outros distritos vizinhos. E sempre tinha concentração e tratamento, cá, em Namaíta. Por isso, sempre existem esses casos.

A lepra é uma doença transmitida através do bacilo de hansen. Foi descoberta em 1873 e, durante muito tempo, não tinha um tratamento eficiente. Os doentes sempre foram alvo de discriminação familiar e social. A sua transmissão é através de secreções, por via oral, tal como acontece com a tuberculose. A diferença é que a lepra é menos infecciosa e pode incubar-se no organismo durante dois a cinco anos sem apresentar manifestações visíveis.

Sentado num banquinho de madeira, com os pés imersos em meia profundidade numa cova que tem na base folhas de bananeiras para conservar a água (uma espécie de bacia que se improvisa para quem não a tem), Horário da Silva esfrega a base dos pés com uma pedra e molha-se com água limpa.

“Meu pai tinha, minha mãe tinha. Posso dizer que é natural”, abrevia o homem de 50 anos, com um olhar tímido que se estende no horizonte como se estivesse a rebuscar as memórias do seu passado dramático.

Há 37 anos que lhe foi diagnosticada a doença. Nessa altura, já estava no segundo grau, que é quando o paciente começa a registar perda de sensibilidade no corpo, atrofiamento e queda dos dedos das mãos e dos pés.

Uma das manifestações mais comuns da lepra é o ressecamento excessivo da pele, por isso, é importante a lavagem frequente e lubrificação com óleo cutâneo ou qualquer creme hidratante.

“Nós, que temos feridas, todos os dias, temos de as lavar e fazer o penso”, explica o homem que perdeu todos os dedos dos pés e parte dos das mãos. As sapatilhas que calça servem também de suporte para que possa ter estabilidade na marcha.

Horácio da Silva saiu do distrito de Mecubure, também em Nampula, em 1987, para ir à gafaria de Namaíta a fim de ter tratamento. Só que já era tarde; o mal já estava instalado – a perda dos dedos –, por isso, tudo quanto conseguiu com o tratamento foi evitar novas lesões graves. Não se assume um incapaz, pois consegue organizar a sua casa e praticar agricultura de subsistência. Todavia, há algo que não conseguiu superar: o estigma.

“Não tenho filhos porque não tenho mulher”, responde o homem quando questionado por nós sobre a sua vida familiar. A uma pergunta sobre o porquê de abraçar a solidão, a resposta é peremptória: não faço tudo o que os homens fazem.
Nas comunidades de Namaíta, a lepra tem rostos; a história é contada por personagens que a viveram. Os vestígios sustentam o que as palavras dizem.

É o caso Silvestre dos Santos Amadeu. No limiar da década de 70, foi-lhe diagnosticada a lepra, depois de uma suspeita de missionárias católicas numa comunidade do distrito de Mossuril (parte costeira de Nampula) que frequentava.

“Elas disseram: ‘É lepra isto!’. Levaram-me de carro e viemos aqui. Tiraram todos os meus dados na secretaria e estive internado por seis meses lá, em baixo”, narra o homem com o rosto já envelhecido, mas dono de uma memória extraordinária. A conversa acontece em movimento, enquanto percorremos o recinto e os compartimentos da antiga gafaria de Namaíta.

“Fui curado, sim”, responde, com firmeza, o homem alto e escuro. Lembra-se das datas como uma mãe se lembra dos aniversários dos filhos. “Desde 1974, com asulfona e com lambrena, até 1986 quando larguei”. Silvestre dos Santos é uma das provas vivas de que, quando o diagnóstico que é feito precocemente, tem cura e não leva à queda de dedos.

O tratamento da lepra é longo, tal como acontece com a tuberculose. Varia de seis a 12 meses, mas o sucesso depende muito do diagnóstico precoce.

“Por falta de sensibilidade dos pés das pessoas, eles vão sofrendo traumatismos nos pés e até mesmo queimaduras e vão tendo feridas que chamamos de úlceras perfurantes, e são essas úlceras que também podem evoluir com a amputação dos dedos, principalmente os dos pés”, explica o dermatologista Marcelo Banquimane. Marcelo faz parte do total de 15 dermatologistas moçambicanos que o país tem. Aliás, apesar de Nampula reportar maior número de casos, como viremos mais a baixo, existem apenas três dermatologistas: um moçambicano e dois estrangeiros.

Importa explicar que, sendo a pele a parte que mais sofre com a lepra, são os dermatologistas que cuidam dos pacientes.

O QUE FALHOU NOS ÚLTIMOS 16 ANOS?

Em 2008, a OMS declarou Moçambique livre a lepra. A partir daí, as organizações que trabalhavam nessa área cessaram a sua intervenção e o Ministério da Saúde não deu o devido seguimento aos casos que ainda estavam activos, tendo-se transformado em focos de novas contaminações nas comunidades.

“Quando se declara erradicada a doença, não significa que já não temos o problema. Estamos num período de controlo, digamos assim, mas a prevalência caiu. Naquela altura, tínhamos uma prevalência menor de um caso em cada 100 mil habitantes. A OMS assim ditou e tem sido assim. Nós estamos cientes de que o erradicar não significa que não vamos diagnosticar sequer um caso. E sempre que se erradica, há uma vigilância intensificada que deve ser feita a seguir para observar a ocorrência de novos casos”, esclarece Geraldino Avalinho, chefe do departamento de Saúde Pública no Serviço Provincial de Saúde em Nampula, para quem a nova vaga de casos prova que os casos que estavam activos na altura foram transformando-se em focos de propagação nas comunidades.

Em 2022, Moçambique foi classificado o terceiro país de África com maior número de casos, perdendo para Etiópia e República Democrática de Congo. Do levantamento feito em 2021, o país apresentou 3135 novos casos de lepra. Nampula (1395), Zambézia (769), Cabo Delgado (494) e Niassa (247) são as províncias com mais casos.

O que chama atenção é que 10% a 20% dos novos casos de 2021 foram em menores de 15 anos de idade, o que, mais uma vez, evidencia tratar-se de contágios que se registam depois de 2008.

“Sem fazer tratamento, estes músculos iam começar a atrofiar. Hipotrofia muscular da região do punho. É isso que provoca essas deformidades. Mas, como já está a tomar aquele medicamento prezerona, já está a começar a reduzir”, diz o médico e activista da organização não-governamental NLR, Domingos Nicala, enquanto tateia os braços de uma menina de 14 anos de idade que lhe foi diagnosticada a doença há três meses.

A adolescente vive na periferia da cidade de Nampula e sempre foi ao hospital, só que nunca teve um diagnóstico conclusivo dos clínicos, até que foi descoberta pelos activisvas da NLR no trabalho de busca por pessoas com sintomas sugestivos à lepra. É, aliás, esse trabalho que deixou de ser feito com frequência, por isso os casos foram sendo negligenciados.

“Depois de ter sido eliminada, algumas actividades, provavelmente, não tenham sido levadas a cabo, que é a vigilância epidemiológica forte, de modo a que a lepra começou a ressurgir em Moçambique, principalmente nas zonas onde sempre foi endémica, neste caso em Nampula, Niassa, Cabo Delgado e Zambézia. A lepra é uma doença que, mesmo nos currículos de formação, quer do ensino superior, ela escasseia; se for ao nível médio, praticamente ela já não existe. Então, os técnicos de saúde formados recentemente não têm esta componente. Consequentemente, se o doente aparece com os sintomas e sinais na sua frente, ele não vai reconhecer. Eu tinha um professor que dizia que ‘o que a mente não sabe, os olhos não vêem. Então, a falta de conhecimento dos técnicos que estão nas unidades sanitárias faz com que o paciente venha às unidades sanitárias e acabam por diagnosticar como sendo uma outra doença de pele banal e vai recebendo pomadas e cremes até à fase que vai tendo deformidades”, considera o clínico geral e coordenador provincial da NLR em Nampula, Hélder Rassolo.

É evidente que os 3135 novos casos de 2021 correspondem a uma proporção de 0,03 casos em cada 100 mil habitantes, o que, no parâmetro da OMS, ainda se considera o país livre da lepra. Todavia, facto preocupante é que esse número resultou de actividades de campanha de busca activa realizada essencialmente por organizações não-governamentais, o que pode levar a inferir que, num trabalho mais aturado, se pode identificar casos em números assustadores.

Celebra-se, no último domingo do mês de Janeiro, o Dia Mundial de Luta contra a Lepra e, no dia 30 de Janeiro, o Dia das Doenças Negligenciadas, das quais faz parte a lepra. Aliás, a lepra em Moçambique está a ser tão negligenciada de tal forma que, neste momento, apenas três organizações não-governamentais trabalham nessa área: a NLR, que actua em Nampula, Zambézia, Niassa e Cabo Delgado; a Missão Contra a Lepra, que desenvolve actividades em Cabo Delgado e Zambézia e a AIFO, que está em Nampula e Manica.

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