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As Organizações Sem Fins Lucrativos negam que estejam envolvidas em crimes de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo. Por isso, exigem um tratamento diferenciado diante dos bancos comerciais e das autoridades públicas ligadas à matéria.

Por constarem da lista dos suspeitos de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo há cerca de dois anos, nesta quinta-feira decidiram sentar-se à mesma mesa com o Governo e os bancos comerciais para limpar o seu nome e exigir também um tratamento menos asfixiante.

Num evento que contou com a participação da secretária permanente do Ministério das Finanças, as organizações queixaram-se de estar a enfrentar problemas sérios para abrir contas bancárias e para receber dinheiro de doadores externos para os seus projectos.

“O doador manda o recurso e o banco informa, às vezes depois de duas a três semanas, que recebeu uma transferência e começa a pedir uma série de documentos. Muitas vezes, esses documentos já foram entregues, às vezes não é um contrato novo. É uma transferência para implementar imediatamente. O tempo demora tanto, às vezes dois a três meses. Em alguns casos, há organizações que reportaram que não conseguem receber esse dinheiro e acabam perdendo o recurso. Por exemplo, se é uma resposta a uma emergência, como cheias ou outra coisa, depois de três a quatro meses torna-se irrelevante”, defende a activista social Paula Monjane, representante do Movimento para a Liberdade de Associação.

Diante das constatações, as organizações consideram inaceitável que cumpram os requisitos exigidos pelos bancos para gerir uma conta bancária e que, mesmo assim, os seus processos não corram. Acusam os bancos de ignorar as recomendações das autoridades oficiais.

“As nossas recomendações são: primeiro, que a avaliação sectorial de risco seja uma ferramenta de uso dos bancos e do sistema financeiro para definir as medidas proporcionais. Segundo, que as boas práticas do GAFI também sejam consideradas no processo de definição de medidas baseadas no risco. Terceiro, que haja um diálogo permanente entre o Governo, o sector financeiro e a sociedade civil. Quarto, que as medidas sejam proporcionais, de tal forma que não levem as organizações a abandonar o sistema financeiro formal para começarem a usar um sistema informal, no qual não vai ser possível encontrar e controlar operações suspeitas”, detalha a activista social Quitéria Guirengane.

Contudo, as organizações sem fins lucrativos exigem um tratamento tendo em conta o risco de cada uma delas. “O que nós exigimos como sociedade civil, sobretudo como CESC, é que essa lista das organizações que supostamente foram detectadas na avaliação fosse entregue aos bancos, no sentido de que, na altura das transacções financeiras, fosse a esse tipo de organizações que se devia demandar mais documentação. Não faz sentido, por exemplo, uma organização pequena, ao nível de Cabo Delgado, que precisa de receber fundos para poder implementar os seus pequenos projectos de desenvolvimento para alavancar o desenvolvimento local, não ter acesso a fundos porque, supostamente, as organizações da sociedade civil são susceptíveis de abuso, mesmo que não haja evidências sobre isso”, considera Domingos do Rosário, gestor do CESC, uma organização da sociedade civil.

Por sua vez, os bancos comerciais dizem estar a trabalhar com listas oficiais de suspeitos e com base na legislação, motivo pelo qual exigem melhor organização aos queixosos.

“Temos um sistema de identificação de entidades nacionais relacionadas com o financiamento do terrorismo, e isso consta de umas listas que são publicadas também ao nível nacional e enviadas aos bancos para que adoptem medidas proporcionais ou medidas de mitigação relativamente a essas entidades. Agora, identificar casos em concreto não seria o momento para trazer aqui. O que se pretende mesmo é que as instituições estejam preparadas para evitar que estes riscos de facto se concretizem e que haja de facto este uso do sector para o financiamento do terrorismo”, explicou aos jornalistas Edgar Fortes, da área de anti-branqueamento de capitais do Banco de Moçambique.

Por seu turno, Samir Zacarias, representante da Associação Moçambicana de Bancos (AMB), explica que os bancos têm métricas específicas para medir os riscos das organizações. “Tendo em conta o resultado, a documentação que é solicitada pode divergir em alguns pontos. Quando nós calculamos o nível de risco de uma associação, há associações que operam em áreas de alto risco. Vou dar um exemplo de Cabo Delgado, que é uma área assolada pelo terrorismo. Há outras que não operam numa área de alto risco. Evidentemente, o resultado do nível de risco dessas duas associações pode ser diferente”, explicou.

Na última avaliação, as confissões religiosas apareciam com maior risco. Mas há trabalhos em curso para melhorar a situação e, em breve, haverá uma nova avaliação.

“68% das confissões religiosas foram apontadas com algum nível de risco. Elas estão identificadas na avaliação nacional de risco. Nós temos dados que apontam para as confissões religiosas, é preciso que se retenha o que se está a dizer. E quais são esses riscos? Não há contas bancárias, (…) há uma série de elementos que contrariam a Lei 14 do Branqueamento de Capitais”, destaca Luís Cezerilo, coordenador nacional de políticas de prevenção ao branqueamento de capitais, financiamento ao terrorismo e proliferação de armas.

Espera-se que a reunião que teve lugar ontem em Maputo produza consensos entre os bancos, as organizações sem fins lucrativos e as autoridades do Governo, sem prejuízo das partes.

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O Governo do Gana aprovou uma proposta que prevê o alargamento do mandato presidencial de quatro para cinco anos, no âmbito da revisão da Constituição de 1992.

A decisão foi anunciada na quinta-feira, na sequência das recomendações apresentadas por uma comissão de revisão constitucional criada, no ano passado, pelo Presidente John Dramani Mahama. Entre as principais alterações aceites pelo Executivo figura igualmente a extensão do mandato do Parlamento para cinco anos, de modo a harmonizá-lo com o novo período de governação presidencial.

Segundo o Governo ganês, o actual ciclo político limita a capacidade de execução dos programas governativos, uma vez que as transições de poder e os processos eleitorais consomem uma parte significativa do mandato. Com a alteração proposta, as administrações disporão de mais tempo para concretizar as suas políticas e projectos.

O Executivo aprovou ainda a redução da idade mínima exigida para candidatos à Presidência da República, dos actuais 40 para 35 anos, rejeitando a proposta inicial que defendia a redução para 30 anos.

Outra das recomendações acolhidas prevê a realização das eleições presidenciais na primeira semana de Novembro, permitindo um período mais alargado entre o acto eleitoral e a tomada de posse, marcada para 7 de Janeiro.

A proposta de revisão constitucional terá ainda de cumprir várias etapas legislativas antes de ser submetida a referendo nacional, previsto para 2027.

Para que as alterações entrem em vigor, será necessária a participação de, pelo menos, 40% dos eleitores inscritos, sendo igualmente exigido que um mínimo de 75% dos votantes se pronuncie favoravelmente às mudanças constitucionais.

Pelo terceiro ano seguido, a Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE) anunciou lucro. Enquanto o mercado de seguros encolheu 9% em 2025, a empresa diz ter crescido 42%, consolidando, assim, 13% da quota do mercado.

Num comunicado, a empresa destaca os principais indicadores do ano de 2025, entre eles, prémios emitidos de 3,46 mil milhões de meticais (+42,82%); lucro líquido de 20,23 milhões de meticais; e rácio de liquidez de 124,82%.

Com estes números, a empresa diz estar em condições de cumprir as suas obrigações no mercado e reafirma o seu compromisso em continuar a apoiar o tecido empresarial nacional e a protecção social dos cidadãos moçambicanos.

Para o Conselho de Administração da empresa, os indicadores acima apresentados demonstram que a Emose não apenas ultrapassou os desafios do mercado, como também expandiu as suas operacções, mantendo rácios de solvabilidade e liquidez muito acima dos mínimos exigidos pelo regulador.

“Este desempenho de excepção reflecte a eficácia da estratégia de gestão prudencial, rigor na selecção de riscos e optimização operacional adoptada pela companhia estatal, reforçando os pilares de solidez, crescimento e confiança  junto dos segurados, accionistas e da economia nacional”, sublinha a empresa em comunicado.

Reiteram ainda os administradores que o compromisso da firma é continuar a apoiar o tecido empresarial moçambicano, a bancarização dos investimentos e a protecção social dos cidadãos, projectando um futuro de contínua proximidade com o mercado.

 

A Fundação Joaquim Chissano quer afirmar-se como uma plataforma de reflexão, diálogo e construção de consensos para contribuir na resposta aos principais desafios de Moçambique. A instituição pretende reunir Governo, sector privado, academia, sociedade civil, parceiros internacionais e cidadãos na procura de soluções para questões relacionadas com a paz, o desenvolvimento sustentável, a governação, a inclusão social e a produção de conhecimento, num contexto em que considera que os problemas actuais exigem respostas colectivas e não acções isoladas.

Esta visão está consagrada no Plano Estratégico 2026-2035, documento que orientará a actuação da Fundação durante os próximos dez anos e que parte da convicção de que Moçambique enfrenta uma nova realidade, marcada por profundas transformações políticas, económicas, tecnológicas e sociais. A instituição entende que os desafios nacionais estão cada vez mais ligados às mudanças que ocorrem no mundo, desde os efeitos das alterações climáticas até à rápida evolução da inteligência artificial, passando pelos conflitos armados, violência, criminalidade transnacional e crescentes exigências da juventude africana por oportunidades, participação e dignidade.

Perante este cenário, a Fundação considera que é necessário criar espaços permanentes de diálogo, reflexão e produção de conhecimento que permitam aproximar diferentes sensibilidades e construir soluções sustentáveis para o desenvolvimento do país.

“Nenhuma tarefa desta envergadura pertence, por exemplo, exclusivamente ao Governo, ao sector privado ou à sociedade civil em separado. Pelo contrário, as respostas a estes desafios são responsabilidades partilhadas”, defendeu o presidente do Conselho de Administração da Fundação, Joaquim Chissano, sublinhando que apenas uma actuação articulada permitirá alcançar resultados relevantes para o país.

A estratégia da Fundação assenta precisamente nessa lógica de complementaridade. A organização deixa claro que não pretende assumir funções que competem ao Estado, mas contribuir para fortalecer o ambiente de diálogo e cooperação entre os diferentes actores nacionais.

“Não procuramos substituir o Estado. Queremos complementá-lo. Não pretendemos falar em nome da sociedade. Queremos trabalhar com ela, para ela e por ela”, afirmou Joaquim Chissano, acrescentando que a ambição da instituição passa por criar condições para que os cidadãos participem activamente na construção de um ambiente pacífico e democrático.

O plano identifica igualmente o capital humano como o principal recurso estratégico de Moçambique. Para a Fundação, o futuro do país dependerá menos da abundância de recursos naturais e mais da capacidade de valorizar as pessoas e criar oportunidades para o seu desenvolvimento.

“O nosso maior activo estratégico não são os nossos recursos minerais, nem o gás, nem a posição geográfica, mas sim são as pessoas”, afirmou Joaquim Chissano, destacando o papel desempenhado pelos jovens, mulheres, professores, profissionais de saúde, agricultores, empreendedores, trabalhadores do sector informal, funcionários públicos e membros das forças de defesa e segurança na construção do país.

Segundo o antigo Chefe de Estado, será precisamente este capital humano que estará no centro da intervenção da Fundação ao longo da próxima década, procurando reforçar a paz, estimular o desenvolvimento e consolidar uma cultura de participação e inclusão.

A construção da paz constitui, aliás, um dos principais eixos estratégicos do documento. A Fundação manifesta preocupação com o crescimento da violência em diferentes dimensões da sociedade, com especial incidência sobre mulheres e raparigas, considerando que este fenómeno representa uma ameaça ao desenvolvimento e à democracia.

No seu discurso, Joaquim Chissano defendeu que a violência baseada no género deve deixar de ser encarada como um problema exclusivamente das vítimas, apelando a uma mobilização colectiva para a sua erradicação.

“Chega! Precisamos de sair do lugar do problema e ir para o lugar da solução”, afirmou, acrescentando que “a paz é o maior investimento para o desenvolvimento e o bem-estar de todas as cidadãs e de todos os cidadãos”.

O antigo Presidente fez igualmente questão de sublinhar que a instituição deve ser entendida como um património colectivo e não como um projecto pessoal.

“A Fundação Joaquim Chissano não é de Joaquim Chissano. É uma Fundação com o nome dele. A Fundação é vossa”, declarou perante os convidados, apelando para que todos assumam a organização como um espaço de participação e construção colectiva.

Estas posições foram apresentadas esta quinta-feira, em Maputo, durante a cerimónia de lançamento do Plano Estratégico 2026-2035 da Fundação Joaquim Chissano, realizada sob o lema “Congregar sinergias para um mundo de paz”, que reuniu representantes do Governo, corpo diplomático, sector privado, academia, organizações da sociedade civil e parceiros de cooperação.

A Primeira-Dama da República defende que o investimento nas mulheres e raparigas constitui um requisito indispensável para garantir um futuro sustentável em África, defendendo que o continente deve reforçar a sua resiliência face às alterações climáticas, aos conflitos e às crises humanitárias. Gueta Chapo expressou a  posição nesta quinta-feira, em Luanda, Angola, durante o lançamento da campanha “Reforçar Resiliência para Mulheres e Raparigas: Clima, Conflitos e Futuros Sustentáveis”, no âmbito da sua participação na Gala de Angariação de Fundos da Organização das Primeiras-Damas Africanas para o Desenvolvimento (OAFLAD).

Na ocasião, Gueta Chapo afirmou que a iniciativa representa mais do que um compromisso institucional, considerando-a um pacto com o futuro do continente. Segundo a Primeira-Dama, as mulheres e raparigas continuam a suportar os efeitos mais severos das alterações climáticas, dos conflitos armados, das deslocações forçadas e da pobreza, pelo que devem ser colocadas no centro das políticas de desenvolvimento e da tomada de decisões.

A esposa do Chefe do Estado sublinhou que as mulheres africanas não devem ser encaradas apenas como vítimas das crises, mas como protagonistas da transformação social e económica, destacando o seu contributo para a segurança alimentar, a criação de riqueza, a educação, a saúde e a promoção da paz. Defendeu, por isso, o reforço do investimento nas suas capacidades e liderança, sustentando que não haverá desenvolvimento sustentável enquanto persistirem as desigualdades no acesso às oportunidades e aos espaços de decisão.

Durante a intervenção, Gueta Chapo evocou ainda a realidade moçambicana, marcada pelos impactos dos ciclones, cheias, secas e do terrorismo em Cabo Delgado e em alguns distritos da província de Nampula. Referiu que, perante estas adversidades, as mulheres moçambicanas têm demonstrado uma extraordinária capacidade de resiliência, realidade que, segundo afirmou, se repete em vários países africanos.

A Primeira-Dama destacou igualmente o programa ProMulher, lançado pelo Presidente da República, Daniel Chapo, como exemplo de uma política pública orientada para a promoção da autonomia económica das mulheres através do acesso ao financiamento. Acrescentou que o investimento na educação, na inovação, na agricultura resiliente e na inclusão financeira é determinante para o progresso das comunidades e do continente.

No fim, apelou para que a campanha continental se traduza em políticas inclusivas, investimentos consistentes e acções concretas em benefício das mulheres e raparigas, defendendo que o futuro de África dependerá sobretudo da capacidade dos seus países de investir naquele que considera o seu maior recurso estratégico: as mulheres.

Durante anos, extensas áreas de mangal foram abatidas na comunidade de Jogó, província de Inhambane, para dar lugar à produção artesanal de sal. A iniciativa fracassou, mas deixou um legado que as comunidades ainda hoje enfrentam: redução da pesca, desaparecimento de espécies marinhas e degradação de um dos ecossistemas mais importantes da costa moçambicana. Agora, o mesmo mangal que foi encarado como um obstáculo ao desenvolvimento pode transformar-se numa oportunidade económica, com a província a reunir condições para beneficiar do mercado internacional de carbono.

Para muitas comunidades costeiras, o mangal continua a ser visto apenas como um conjunto de árvores sem utilidade aparente. Poucos conhecem a sua verdadeira função como berçário natural de peixes, camarão e outros recursos marinhos, além do papel que desempenha na protecção da linha costeira contra a erosão, na retenção de carbono e no equilíbrio dos ecossistemas.

Foi precisamente esse desconhecimento que levou ao corte de extensas áreas de mangal em Jogó. A vegetação foi removida para abrir espaço à produção artesanal de sal, numa actividade que acabou por não produzir os resultados esperados.

“A área foi devastada para produzir sal. Só que o sal nunca chegou a ser produzido porque a água aqui não era suficientemente salgada devido à proximidade do rio. Depois desistiram e deixaram tudo destruído”, recorda um membro do Conselho Comunitário de Pesca de Jogó.

O abandono da actividade não significou o fim dos prejuízos. Pelo contrário. A destruição do mangal alterou profundamente o ecossistema local, reduzindo a disponibilidade de pescado e afectando directamente o sustento de dezenas de famílias que dependem da pesca artesanal.

“Prejudicou-nos muito na produção do pescado. Até hoje praticamente deixámos de apanhar camarão por causa da devastação do mangal”, lamenta outro representante da comunidade.

Perante a degradação ambiental e a diminuição dos recursos pesqueiros, foram os próprios residentes que decidiram iniciar um processo de recuperação do ecossistema. Organizaram-se e começaram o repovoamento do mangal, na expectativa de devolver à costa a biodiversidade perdida e recuperar os níveis de pesca de outros tempos.

A esperança é que, com o crescimento das novas árvores, regressem também os mariscos, os peixes e o camarão que durante décadas garantiram alimento e rendimento às famílias da região.

Mas a recuperação do mangal pode representar muito mais do que o renascimento da actividade pesqueira.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) considera que Inhambane possui condições favoráveis para integrar o mercado internacional de carbono, um mecanismo que remunera países e comunidades pela conservação de ecossistemas capazes de capturar e armazenar dióxido de carbono, contribuindo para o combate às mudanças climáticas.

Contudo, a organização alerta que a entrada neste mercado exige regras claras e mecanismos capazes de garantir que os benefícios cheguem efectivamente às comunidades que protegem estes ecossistemas.

“Precisamos de dispositivos legais que salvaguardem os interesses do país, mas sobretudo das comunidades. É um mercado novo, com novos actores, e é fundamental assegurar que os benefícios da conservação sejam devidamente protegidos”, defende Domingos Gove, da IUCN Moçambique.

Segundo o responsável, os trabalhos de recuperação do mangal em Jogó já fazem parte do processo técnico necessário para que estes ecossistemas possam, no futuro, integrar iniciativas ligadas ao mercado de carbono.

As autoridades provinciais afirmam, por sua vez, que mais de 500 hectares de mangal anteriormente destruídos, grande parte pela acção humana, já foram recuperados em diferentes pontos da província. Ainda assim, reconhecem que o maior desafio continua a ser sensibilizar as comunidades para o valor económico e ambiental deste ecossistema.

A história de Jogó demonstra que o custo da destruição do mangal vai muito além da perda de árvores. Significa menos peixe, menos rendimento para as famílias e maior vulnerabilidade da costa aos efeitos das alterações climáticas. Ao mesmo tempo, mostra que a recuperação destes ecossistemas pode abrir caminho para uma nova economia assente na conservação da natureza, onde proteger o mangal deixa de ser apenas uma obrigação ambiental para se tornar também uma oportunidade de desenvolvimento.

Mais de 300 ex-trabalhadores da distribuidora sul-africana Kawena voltaram a manifestar-se, esta quinta-feira, na cidade de Maputo, para exigir o pagamento das indemnizações prometidas após o encerramento das operações da empresa em Moçambique. Os antigos funcionários acusam a administração de incumprimento dos compromissos assumidos e denunciam atrasos no processo judicial que deveria garantir os seus direitos.

Entre os manifestantes estavam trabalhadores que dedicaram grande parte da sua vida profissional à empresa e que afirmam enfrentar dificuldades económicas desde o encerramento das actividades.

“Sinto-me espezinhado. Tenho 34 anos de trabalho na empresa. Estava prestes a completar 35 anos de serviço e hoje encontro-me nesta situação”, lamentou Ismael Miambo, um dos antigos funcionários.

O sentimento é partilhado por Pinto Muanga, que descreve a situação como desesperante.

“Não estamos a trabalhar, não temos dinheiro sequer para pagar o transporte. O assunto já foi submetido ao tribunal, mas até agora não vemos qualquer solução”, afirmou.

A concentração decorreu em frente a um dos antigos armazéns da Kawena, localizado no bairro George Dimitrov, na cidade de Maputo. Os manifestantes dizem representar cerca de 300 ex-trabalhadores distribuídos por 17 armazéns aduaneiros que a empresa mantinha em diferentes pontos do país, incluindo Maputo e Vilankulo.

Segundo Vasco Langa, antigo gerente da Kawena, os valores das indemnizações chegaram a ser calculados em consenso entre as partes, mas o processo nunca avançou para o pagamento.

“Estamos aqui por causa das nossas indemnizações. Representamos cerca de 300 trabalhadores dos 17 armazéns aduaneiros. Levámos o caso ao Tribunal de Trabalho, mas a empresa nunca compareceu. Foram afixados éditos na sede da empresa e até no Conselho Municipal da Machava, mas continua sem qualquer resposta”, explicou.

Os ex-trabalhadores afirmam que, apesar de o processo ter dado entrada no Tribunal de Trabalho da Província de Maputo, em Abril deste ano, pouco ou nenhum avanço foi registado. Dizem que a falta de resposta da empresa e a morosidade processual estão a agravar a situação social de dezenas de famílias que dependiam daqueles empregos.

Entre as críticas apresentadas pelos manifestantes está também a forma como foi conduzido o processo de cálculo das indemnizações.

“Quem está a impedir que este caso tenha sucesso é o senhor Carlos Martins, advogado da empresa e bastonário cessante da Ordem dos Advogados. Foi ele quem calculou as indemnizações e propôs que fossem pagas entre 14 e 36 prestações”, acusou um dos representantes dos trabalhadores.

Perante o impasse, os antigos funcionários decidiram recorrer a outras instituições do Estado. Para além do Tribunal de Trabalho, dizem já ter submetido exposições à Procuradoria-Geral da República e à Assembleia da República, esperando uma intervenção que permita desbloquear o processo e garantir o cumprimento da legislação laboral.

Um encerramento marcado pela crise

A Kawena foi, durante várias décadas, uma das principais empresas de logística e distribuição aduaneira em Moçambique, operando uma vasta rede de armazéns alfandegados e prestando serviços a empresas nacionais e internacionais ligadas ao comércio externo.

Em 2025, a empresa anunciou o encerramento das suas operações no país, justificando a decisão com a deterioração do ambiente de negócios. Entre as razões apresentadas estiveram os prejuízos causados pelos protestos pós-eleitorais, que afectaram a circulação de mercadorias e o funcionamento normal da actividade económica, bem como os sucessivos atrasos no reembolso do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA), situação que, segundo a empresa, comprometeu a sua liquidez financeira.

Na altura, o encerramento afectou centenas de trabalhadores e gerou preocupação no sector logístico, tendo em conta o peso que a Kawena desempenhava nas operações de armazenagem e desembaraço aduaneiro no país.

Passado mais de um ano desde o fecho da empresa, os antigos trabalhadores afirmam que continuam sem receber as compensações previstas na lei e garantem que não vão desistir da luta.

“Só queremos aquilo que conquistámos ao longo de décadas de trabalho. Não estamos a pedir favores, estamos a exigir um direito”, resumiu um dos manifestantes.

Os ex-funcionários prometem manter a pressão junto das autoridades judiciais e governamentais até que o processo conheça um desfecho e as indemnizações sejam finalmente pagas. Entretanto, até ao momento, a administração da Kawena não voltou a pronunciar-se publicamente sobre as reivindicações apresentadas pelos antigos trabalhadores nem sobre o andamento do processo judicial.

Quase três semanas após o desabamento da ponte sobre o rio Muarua, na cidade de Quelimane, mais de 12 mil residentes dos bairros Torrone e Icidua continuam a enfrentar sérias dificuldades de mobilidade. A infraestrutura, que assegurava a ligação entre os dois bairros, ruiu no passado dia 12 de julho, interrompendo a circulação de viaturas e obrigando a população a recorrer a uma passagem pedonal improvisada.

Embora a rampa construída no local permita a travessia de pessoas, a circulação de veículos permanece interrompida, comprometendo o acesso a serviços essenciais, como água, unidades sanitárias, escolas e mercados, além de dificultar o transporte de bens e mercadorias. A demora na reposição da ponte preocupa os moradores, que afirmam estar a acumular prejuízos económicos e a enfrentar constrangimentos no quotidiano.

Para muitas famílias, a travessia tornou-se mais demorada e insegura, enquanto comerciantes e transportadores relatam o aumento dos custos de deslocação. Perante a situação, a população apela às autoridades competentes para que acelerem os trabalhos de reconstrução da infraestrutura, considerada estratégica para a mobilidade e para a dinâmica económica da zona.

Miriam Napoleão, residente do bairro Icidua, mostrou-se insatisfeita com o atual estado da ponte. Segundo ela, a situação compromete a vida das famílias.

“Estamos a passar mal desde que esta ponte caiu. As nossas vidas estão em risco. Primeiro, pelo estado da ponte, porque qualquer um pode cair. Segundo, porque ficou complicado ter acesso à água. Como sabem, para termos água temos de nos deslocar ao centro urbano ou aos locais onde chegam os reservatórios, e, para isso, precisamos de atravessar a ponte. À noite, a situação torna-se ainda pior, com o risco de cairmos e morrermos aqui”, disse, visivelmente indignada, apelando às autoridades para que criem alternativas seguras ou reponham uma nova ponte que permita também a passagem de viaturas.

Benjamim Santana, outro munícipe residente na cidade de Quelimane, regressava a casa com a sua motorizada por não ter conseguido atravessar a ponte devido às condições precárias.

“Eu ia visitar a minha irmã, que vive na outra margem, mas não consegui seguir viagem porque a minha mota é pesada. Pelo estado da ponte, não consigo carregá-la para passar. Infelizmente, hoje não vou conseguir visitar a minha irmã. Terei de agendar outra viagem”, afirmou.

Quem também vê a sua vida condicionada, sobretudo para ir à escola, é Eunice Ernesto. A estudante afirmou que a travessia não oferece condições de segurança, razão pela qual pede uma intervenção urgente das autoridades.

Até ao momento, a ponte continua sem uma previsão pública para a sua reposição, mantendo milhares de pessoas dependentes de uma solução provisória e longe do restabelecimento da normalidade. O jornal procurou, sem sucesso, obter um posicionamento da edilidade de Quelimane sobre o assunto.

O escritor moçambicano Sérgio Raimundo prepara o lançamento da sua mais recente obra literária, “O Docente das Notas Sexualmente Transmissíveis”, um romance que promete reacender o debate sobre o assédio e outras formas de violência enfrentadas por estudantes, sobretudo mulheres, nas instituições de ensino superior. Em entrevista concedida esta quinta-feira ao O PAÍS, o autor explicou que o livro nasce da necessidade de dar visibilidade a uma realidade frequentemente discutida nos bastidores, mas raramente enfrentada de forma aberta.

Segundo Sérgio Raimundo, a obra reúne um conjunto de histórias inspiradas em testemunhos recolhidos durante uma investigação realizada em várias universidades moçambicanas. Embora assuma a forma de ficção, o autor garante que a narrativa assenta em experiências reais relatadas por estudantes que aceitaram partilhar episódios de sofrimento vividos ao longo do percurso académico.

“O que está neste livro tem uma base factual. A literatura entra para transformar essas vozes numa narrativa, mas as histórias existem e continuam a acontecer”, afirmou.

O escritor descreve o romance como uma narrativa polifónica, construída a partir de diferentes experiências, mas contadas por um único narrador: um docente viúvo que, ao recordar diversos episódios, conduz o leitor pelos dramas vividos dentro da universidade. A opção narrativa, explicou, procura evitar uma leitura limitada apenas às vítimas, permitindo também compreender o papel, os dilemas e as responsabilidades dos docentes num fenómeno que considera complexo.

Durante a conversa, Sérgio Raimundo rejeitou a ideia de que o assédio sexual nas universidades seja um problema desconhecido. Para si, trata-se de uma realidade amplamente conhecida, mas tratada “em off”, devido ao prestígio social de muitos dos envolvidos e ao receio de comprometer a reputação das instituições de ensino superior.

Na sua perspectiva, muitas universidades produzem conhecimento científico sobre esta problemática através de teses e dissertações, mas esses estudos acabam por permanecer dentro das bibliotecas académicas, sem impacto suficiente na sociedade. Por isso, defende que as instituições devem assumir igualmente o papel de questionar e combater a violência que se produz no seu interior, em vez de concentrarem a atenção apenas nos problemas externos.

Ao longo da entrevista, o autor revelou que foi profundamente marcado pelos testemunhos recolhidos durante o processo de escrita. Disse ter ouvido histórias de mulheres actualmente bem-sucedidas, mas que carregam experiências traumáticas vividas durante a formação universitária.

Para o escritor, o diploma conquistado por muitas estudantes esconde um percurso de sofrimento silencioso, marcado por pressões, chantagens e diferentes formas de abuso que raramente chegam ao conhecimento público. A obra procura precisamente romper esse silêncio e transformar a literatura num espaço de reflexão social.

Entre as questões levantadas no romance está também a alegada existência de redes informais entre alguns docentes para pressionar estudantes que recusam ceder a propostas de natureza sexual. Sérgio Raimundo afirmou que ouviu relatos sobre práticas deste género e considera que estas denúncias exigem um debate sério por parte da sociedade e das próprias universidades.

“O corpo da mulher não pode transformar-se numa extensão do currículo académico”, defendeu, sublinhando que muitas estudantes entram na universidade apenas com o objectivo de se formarem, mas acabam confrontadas com situações que atentam contra a sua dignidade.

O escritor considera igualmente necessário compreender as razões por detrás da desistência de muitas jovens do ensino superior, defendendo que nem todos os abandonos se explicam por dificuldades económicas ou académicas. Para ele, é indispensável olhar para o impacto que diferentes formas de violência exercem sobre a permanência das mulheres nas universidades.

Quanto à recepção da obra, Sérgio Raimundo revelou que a fase de pré-venda superou as expectativas. Segundo explicou, cerca de 90 por cento dos exemplares vendidos antecipadamente foram adquiridos por mulheres, um sinal que interpreta como demonstração de identificação com o tema abordado. Acrescentou ainda que docentes universitários também têm adquirido o livro, incluindo um professor que comprou dez exemplares.

Depois do lançamento, o autor pretende apresentar a obra em várias universidades moçambicanas, procurando levar a discussão para os espaços onde, diz, o problema continua a existir. Embora já tenha convites para apresentações em Portugal e Espanha, Sérgio Raimundo afirma que a sua prioridade continua a ser Moçambique.

“Posso viver fora do país, mas escrevo para Moçambique e para o povo moçambicano”, afirmou, acrescentando que encara a literatura como um instrumento de intervenção social e de defesa daqueles que considera não terem voz.

Cerca de 300 ex-trabalhadores da empresa Kawena concentraram-se, esta quinta-feira, em frente a um dos armazéns da empresa, no bairro Benfica, cidade de Maputo, para exigir o pagamento das indemnizações que, segundo afirmam, continuam por liquidar mais de um ano após o encerramento da actividade da empresa.

A Kawena, empresa que se dedicava à distribuição de produtos alimentares, encerrou as suas operações na sequência das manifestações pós-eleitorais de 2025, levando ao afastamento de trabalhadores afectos a 17 armazéns localizados na região sul do País.

Os manifestantes alegam que deixaram de auferir salários em Junho de 2025 e que, em Setembro do mesmo ano, foram formalmente informados da cessação dos contratos de trabalho, tendo-lhes sido garantido o pagamento de indemnizações calculadas a partir daquele período.

Segundo os trabalhadores, foi acordado um plano de pagamento das indemnizações em prestações, mas, até ao momento, nenhum valor lhes terá sido pago. Face à situação, recorreram aos tribunais na expectativa de ver os seus direitos salvaguardados.

Durante a concentração, os representantes dos trabalhadores acusaram a administração da empresa de sucessivos adiamentos na resolução do processo e manifestaram preocupação com alegadas movimentações de património pertencente à Kawena. Alegam, igualmente, que alguns imóveis da empresa estarão a ser alienados e que decorrem preparativos para o funcionamento de novos negócios nas mesmas instalações. Estas informações, contudo, não foram confirmadas de forma independente.

O País procurará ouvir a administração da Kawena para obter esclarecimentos sobre as reclamações apresentadas pelos antigos trabalhadores, bem como sobre o ponto de situação do pagamento das indemnizações e o futuro das instalações da empresa.

O caso continua a ser acompanhado e novos desenvolvimentos serão divulgados assim que houver um posicionamento oficial da empresa.

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